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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

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10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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pt i i i i .i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.labcom.ubi.

Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. i i i i . de que se está sempre em falta – perante o tempo. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas.i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. a vida. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida. Aníbal Alves. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design. O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. sinal de que alguém veio em nosso auxílio. mais feliz. Maria Augusta Babo. o saber. consciência de que se desejava ir mais longe.

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sendo que a significação corresponde. a herança das ciências sociais ou. mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea. à actualização do sentido designamos por significância. visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. expressando-o melhor. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto. a herança das ciências da linguagem – de Saussure. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. Por um lado. o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. a jusante. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação. actualmente. fundamentalmente. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. por outro lado.i i i i Introdução Enquadramento do estudo. M. Fazer semiótica1 . corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão. estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante. Hjelmslev. ao enunciar do sentido em acto. 1 1 i i i i . Landowski mas também Foucault. Jakobson. Martinet).de Certeau).

labcom.pt i i i i . lugares privilegiados. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. 1991. A semiótica não fornece saberes a professar.i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. mas que tem instantes propícios. a uma conquista territorial2 . Barcelona. no interior de um espaço conceptual já ocupado. o ângulo correcto. que a verdade. aguarda a nossa mão para se entregar”. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido. O semiótico admite. que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar. que espera o nosso olhar para despertar. geralmente. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas. antes. como o relâmpago. Lógica del Limite. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. Ensayos/Destino. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele. Este aspecto era fundamental para nós. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. há duas convicções orientadoras deste estudo. neste sentido. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. mas fundamentalmente para se produzir. uma verdade talvez adormecida. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. 2 www.lha-se. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. Trata-se de construir. segmentado e definido. para falar como Georges Canguilhem. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. que afirma que “nem tudo é verdadeiro.ubi. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. Redefinir implica uma alteração do limite territorial. não tanto para sair da sombra. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. Neste sentido.

magros – patologicamente – sentimos dor. partilhamos. experimentamos. como bem anotava José Gil. de análise. Relógio d’Água. anormais. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. de desrespeitar os modelos estabelecidos. contudo. pelo contrário. “evidentes” e “naturais”. Enquanto tal. mas de um modo tão ostensivo que. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. Pág. a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. classificações. a determinada altura. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. angústia – e socialmente – somos normais. todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. mais ou menos vão. No caso do estudo que agora se apresenta. de teorização. construções e confrontações inesgotáveis. de operação.”3 Vindos de muitas direcções. com intensidades. 13. educados. saturado de referências que. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale. cansaço. www. 1997. quando se considera o corpo como objecto de saber. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. passível de descrição. Metamorfoses do Corpo. para falar como Marcel Mauss. assim. Somos. desadequados.ubi. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala.pt i i i i . A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. definida – a partir de um ponto de vista próprio. tristeza. Ambição motivada não por um qualquer prazer.labcom. Lisboa. numa perspectiva dita “natural”. baixos. Quando falamos em corpo. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço. menos ele existe por si próprio. segmentada. gordos. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. segmenta e define uma sobre outra vez. prescrições.i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. adequados. Todos temos um corpo que sentimos.

363-375. A. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva. no interior de um determinado contexto semiótico. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. tal sentido dá-se. por definição selectivo. Prado Coelho. por interacção. pertinentes para a atribuição de uma significação. de facto. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá.pt i i i i . permanentemente. mera carne. que produzem processos de atribuição de significação. assim designados por Marcel Mauss. são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual. necessariamente. como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois. Tendências da Cultura Contemporânea. nesta nota introdutória. linguísticos ou não. 4 www. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. A semiótica visará. a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. os. O corpo constrói-se. contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. então.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. que se define a estratégia seguida no presente estudo. sendo que o contexto é. Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”. Cf. No 28. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo. como dizia Greimas.ubi. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . Bragança de Miranda e E. Se. Mantendo.labcom. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. formalismos eficazes. No 28. RCL. em todo o caso. desde já. 2000. J. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. Pág. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo.

num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. à disposição tanto de uns como de outros. formulações. no interior de uma máquina. uma lógica. à sua funcionalização. em funcionamento. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde. também. produção de sentido. de diferentes perspectivas de análise. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. usos. porque de máquinas semióticas se tratam.pt i i i i . do próprio procedimento das lógicas produtivas. do corpo. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto. Esta máquina. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é.i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são. muito claramente. Assim há um operar que. uma série. produtores intencionais do sentido do corpo. O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. enfim. etc. de operadores epistémicos. do funcionamento dos operadores. realmente. antes de mais.). já operava antes de a podermos reconhecer. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. de produção que é.ubi. devemos admiti-lo. deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. para recorrermos à classificação de Peirce. deste modo. se identificamos vários corpos devemos. mesmo perante a crítica mais intensa. identificar várias máquinas. apenas parece detectável retrospectivamente. de um determinado sentido legitimador da rede de relações.labcom. disciplinarmente identificáveis. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise. igualmente. Se o nosso estudo identifica vários corpos. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural. compreensões.

nas formas de contaminação horizontal e vertical. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são.ubi.pt i i i i . ou por uma www. Assim trabalha num espaço já semioticizado. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão. com instrumentos já semioticizados. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia. A produção semiótica não é nunca linear. também. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante.i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. entre tantas outras. complexos. o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito. como é evidente. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada.labcom. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se. no entanto. a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada. com gestos já semioticizados. em permanência. entre tantas outras. e. as máquinas não são estanques. isto é.

A par do tema da técnica e. Crítica das ligações na era da técnica. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados.labcom. essa é a da Válerie Steele. na última década.). tema recorrente na cultura contemporânea. em grande medida. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 . o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa. que a instrumentalizam. Mode. A análise da produção semiótica do corpo deverá. tornouse. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. jogo de combinatórias possíveis. como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. zona de trocas intersemióticas. a própria contemporaneidade.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização. portanto. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. onde tudo se pode ligar a tudo. Abbeville Press.i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras. 1997. Fetiche. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. Tropismos. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A. O tema das “ligações” assume. remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade. formam-no. 61. no limite. deste modo. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. Segundo Valérie Steele. a ele ligado. O corpo. particular protagonismo. os seus territórios e as suas fronteiras. a um tempo. 6 5 www. Neste processo o corpo torna-se espaço. herança que. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. na expressão de Walter Benjamin.ubi. no qual as tensões. semântico e pragmático. simultaneamente. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. Pág. a contemporaneidade. esse grande ausente. os seus objectos e os seus sujeitos. Lisboa. ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e.pt i i i i . sexe et pouvoir. Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder. 2002. Se há herança radical deixada pela modernidade. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. os seus modelos e conceitos.

”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. de um modo meio explicativo. bem conhecido: o fim das ideologias. se o anuncio de novas disciplinas. das mais variadas formas. A condição pós-moderna [Gradiva. em traços gerais. Eric Landowski. talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”. o fim das “grandes narrativas”. 1998. o negar. Galilée. assim. . a superação do humano e. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. Paris. 11 Bruce Benderson. não deixa de ser interessante questionarmos. Paris.10 Se o funeral da modernidade foi. 2005. Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. 10 A obra de Jean François Lyotard. de novos objectos. do idêntico. o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. Payot. o desmoronamento geral dos sistemas. L’esthétique du temps au Japon. Pág. 17-18. 1999.. O diagnóstico que extraem das suas análises é. Lisboa. s/d] contínua a ser. . 8 7 www. Pág. Por exemplo. ao triunfo do fantasma puro”11 . os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século. demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. “contaminação”9 . 15. ciências da linguagem. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. seja para. na maior parte dos casos. Lisboa. intelectualmente. filosofia. 2004. disjunções e fluidificações. a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas. Um entre-dois do real e do virtual. diversos pensadores foram-nos fornecendo. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”. 43. o afirmar. o advento do pós-humano. transgressor. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes.ubi. meio divinatório. sobrevalorizadas. Matosinhos. Christine Buci-Glucksman. pelo menos aparente. 9 Leia-se. IN Revista Lusitana. a falência das luzes. ESAD/CML. IN José Bártolo et al. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. própria a todos os entre-dois (. da sua.pt i i i i . na maioria das situações. à luz desta análise.i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir. Contaminação. Sexe ey solitude. a “crise” do corpo. uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. do imutável. ). “Le regard implique”. o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo. das mais variadas formas. seja para.labcom. a este título. que faz aparecer devires.

Como dele fala José Augusto Mourão. de espectros. O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. a carne. Como se fala de um amputado de membro fantasma. fora deles também. E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem. 288-289. 12 www. Ibidem. 14 Idem. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari. de “quase-objectos”12 . “Hibridismo e Semiótica. temese como o objecto mágico. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. Pág. Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão. imagina-se em toda a parte.. o seu excesso. No 29. 287-301. Cit. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. RCL. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles. Op. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana.pt i i i i .”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que.). como o mutante.ubi.labcom. “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . de torção. O que falta ao fantasma é a materialização. (. O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. seccionam. no entanto. já que jogam entre si. mas porque também os tocam. Págs. Advertia-nos. particularizam e multiplicam as superfícies. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. cortam. Os quaseobjectos”. uma tensão para restaurar essa perda. seguindo leis de vizinhança. é uma intensificação. o fetiche. de distância variável que não conhecem em absoluto. como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). 13 José Augusto Mourão. icónica. A sua transitoriedade. . tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). remática. uma excrescência que pode remeter para outros mundos. Vivemos numa época de fantasmas. . o fantasma “pressente-se.i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. 288. O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. Págs. porque aí se agarram e se projectam. em parte. uma imaginação. para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo. 2001. indicam uma perda e. ainda assim. ). Ele é uma “coisa” que não é coisa. O campo da semiótica.

labcom. bem como. nem sequer o devir técnico que. cuja análise pertence a outras disciplinas. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. Em relação ao nosso estudo. É preciso. 2005. económico ou politico. 1969. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. Landy Editora. p. “Postace”. Perspectiva. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. 2003.são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que.”17 . Paulo. Págs. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. 17 A. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. Lógica do sentido. Pág. Sémiotique et texte évangélique. nos interessa. Seuil. 227.pt i i i i . 217. IN Groupe d’Entrevernes. antes de mais. que façam as suas mímicas como extra-seres. S. 15 www. mesmo que muitas vezes por nós considerado. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 . ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento. e deixar que efectuem as suas danças. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos.i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. Não o devir social. sociais ou politicas. 1977. os sublinhados são nossos. Como a entendia Greimas. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real. posicionado no campo da semiótica. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados. uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. os monstros . ser-não-ser. particularmente. topologizam a materialidade do corpo. Minuit. Logique du sens. Port. 82-83. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas.J. A uma semiótica do corpo cabe. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. Paris. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. De Luiz Fortes. diferem em natureza das suas causas reais. Greimas.”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão.ubi. 16 Gilles Deleuze. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal. Signes et paraboles. trad. “a semiótica. São Paulo. pois. Paris.

ainda. a foria era dificilmente pensável. Le pouvoir comme passion. preocupações. contudo.ubi. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. já não causam perturbação. 22 A. porque esse sentido. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 . 24 e segs. 1997. IN AAVV. O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá. ou do outro (Landowski)23 . 1987. hoje. Paris. teria parecido incongruente. ferramentas. Semiótica e Bíblia. era rigorosamente circunscrita. Paris. 19 Esta obra. Nessa altura a problemática da enunciação.”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 . por exemplo. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. Págs. antes. Pág. as paixões não eram consideradas. 7. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar.Paris.M. Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. 12. “ Apresentação ”. qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica. menos aprisionadas pela exigência de formalização. 1999. PUF. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. a inclusão de novos objectos. 20 Jacques Geninasca. actualmente central. Un lecture de Tintin au Tibet. como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. potencialmente mais híbrida da disciplina. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 .labcom. 1997. seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. www. foi publicada em 1966 (Paris. Pág.pt i i i i . Présences de l’autre. a intensidade. “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. PUF. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). Paris. a presença. Hénault. problemáticas. modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. La parole lettéraire. o contágio. Lisboa. tratar da “presença a si” ou ao outro. 23 Eric Landowski. 21 J. 213-216. estimular uma leitura menos definida. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido. Floch. sobre o contínuo. Larousse). Pág. tão fundamental. a reflexão. 1994. Paulinas. PUF. PUF.

561-62. Greimas e Courtés. 2002. no seu dicionário. Será. For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. Routledge. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs. Images as post-human entities”. It malfunctions often and fatugues quickly. é anunciado como obsoleto.labcom. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. Gille fala em “sistema técnico”). The body is obsolete. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica. 203. London/New York. days without water. não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. Cultrix. It might be highest of human realizations. Greimas e J. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado.pt i i i i . J. Stelarc. Courtés. The cybercultures reader. Dicionário de Semiótica. por propriedade transitiva.ubi. mas mais devido ao facto da acção técnica. 25 24 www. “From psycho-body to cyber-systems.”24 . Its survival parameters are very slim. its performance is determined by its age. Human thought recedes into the human past. Pág. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. O corpo humano. Por sua vez.”25 A. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise. relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado. não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que. Págs. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. São Paulo. We are at the end of philosophy and human physiology. It can survive only weeks without food. and minutes without oxygen. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem. It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death.i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. biológico. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure.). a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. pois.

labcom.pt i i i i . e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. 1999. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos.ubi. 2002. Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. bem a propósito. 24. física ou simbólica. Vega. na verdade. mas. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. o espaço do destino. Porto Editora. a correcções. O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença. Breve história do corpo e de seus monstros. Pág. Fragmentos de uma história. Hoje. a obsolescência do corpo humano26 . da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica. o pensa e o produz. também o embrião passou a ser um órgão manipulável. Antes. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação. o corpo pertence ao reino do silêncio. 28 de Maio de 2001. simultaneamente. então. Público. como tal. Imagens Médicas. redigida por Maria Lucília 26 www. O corpo espera. Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que. “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. resiste. quer um lamento de impotência. ocupava o espaço fundamental da identidade. 319.29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia.”. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”. por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico. 28 Citação de G.).”28 Não existe um modelo único do corpo. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens. sofre. Pág. se torna um corpo provisório. Bruno transcrita de I. 27 Maria Filomena Molder. Cf. entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares. “Princípios de Método”. Tucherman. Porto. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. 70. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. Lisboa. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. amado. IN Manuel Valente Alves (Coord. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. adaptações e utilizações específicas. sujeito a desmontagens e remontagens. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. defende-se.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. Pág.

releva. 2004.pt i i i i . Lisboa. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. I Volume. corpos sobre corpos. Corpo. por vezes. Pág. um olho. Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps. a cada um múltiplos. isto é. múltiplos corpos individuais. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura. acrescentamos nós. múltiplos corpos do design e da teologia. a cada disciplina o seu. isto é. da acção de uma determinada máquina semiótica. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é. 31 Idem. a da sua desmarcação. Corpos e mais corpos. hoje tão evidentes. www.ubi. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . como procuramos mostrar. 169 e segs. A troca simbólica e a morte. corpoMarcos e António Fernando Cascais. “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. 30 Jean Baudrillard.to. 1996. como explicita Jean Baudrillard30 . despedaçá-lo. corpo-objec. Edições 70. tradução portuguesa de João Gama. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade. é a da sua demarcação mas também. Ibidem. máquina semiótica. Falamos e pensamos o corpo por generalia. Relógio d’Água. a cada máquina o seu. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. Técnica e Subjectividades. desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. o seu a cada um e. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. reunindo. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. também.labcom. fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. a cada indivíduo o seu corpo. ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. Lisboa. Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo. sempre. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos. A história actual do corpo. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço.

numa palavra. flows. Op. p.é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo. 33 Maria Teresa Cruz. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. “The Imaginary”. que se perde. Cit.ubi.talvez faça pouco sentido falar. significam-no. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido.labcom. the channelling of processes.pt i i i i . organs. Verso. para o corpo. cibercorpo. 72. poderá sempre ser tomado como tabula rasa. facilmente. que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. Sexuality in the field of Vision. considera-se. como diziam os medievais. the alignment of one aspect with another. 1986. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 . Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. carne. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. London. Significar e marcar são gestos idênticos. de penúria nominum. constatar uma viragem. um processo de significação do corpo. A história do corpo é a história da sua permanente produção. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo . relativamente ao corpo. um regime de signos ou. 32 www. connections. espaço de marcação. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso . A descrição da actual situação do corpo permite-nos. e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante. qualquer corpo. O corpo.i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. Não há sentido sem suplício. é o corpo que se esconde. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. multidisciplinar como anteriormente anotámos. espaço de inscrição. afectada. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem. Significar corresponde à imposição de um sentido. nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. melhor dito.”32 . Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra.

mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu. através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. se fantasmiza. qual alma penada procurando. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado. de novo. no trabalho e no lazer. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. errante. passou pela vida. que será. como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. à vez. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo. corpos e almas. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. na sua repetição. que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. um grau de incerteza. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. nem fuga. sonhos e medos. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura. redes complexas. e o próprio jogo como azar. onde tudo. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. nas máquinas e nas cidades. o presente é. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. um corpo estável sob o qual possa. alegrias e tristezas. ainda.labcom. dos seus aparelhos. É. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual.ubi.pt i i i i . sem escolha. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência. como dizia Foucault. se o corpo se altera. silenciosamente. De cada vez há um presente que pensa o corpo. repousar. integram centenas. De cada vez que a concepção do corpo se altera. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. todo o corpo social se torna instável. como um trovão surpreendendo a noite escura. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo. Na sua ruptura. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. um golpe de sorte (um lançar de dados). na oração e no combate. apenas. o azar do jogo.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que. ainda. de www.

a partir de meados do século XX. a sua circulação e o seu depósito. Nova Fronteira. passando a falar-se em “saúde económica”. 35 Richard Sennett.pt i i i i . da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo. também a economia medicaliza o seu reportório. alteram-se os cuidados do corpo. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino). de duas metaconstruções cultural. Pág. 80. as formas de morrer e de matar. no limite.labcom. a ideia de que o corpo é uma “representação”. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz.35 É sabido como gradualmente. 34 www. Os cultural studies renovaram. estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. a sua negociação e cotação. A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça. de comer e copular. “exercício de capital”. a partir dos anos 70. Rio de Janeiro. Carne e Pedra. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. no interior e por Apropriamo-nos. livremente. anglo/hispano) que. do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências. a partir do século XVII. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”. a cibercultura a partir do início dos anos 80. 1994. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver. conformam a construção de dois modelos do corpo.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”.ubi. de uma forma clara. reforça esta visão. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. “respiração das mercadorias”. mostrando que o corpo é uma “simulação”. de conceber e dar à luz. ainda que tornando-a potencialmente fantástica.

mas. Sage.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. sujeito/Objecto.labcom. Pág. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. Northeastern University Press. como um “outro-de-si”. sobretudo de uma crescente aproximação. Susan Bordo. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. Sujeito/Objecto. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo. Págs. www. 87-118. No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo. impõe. na linha de muitos outros autores. corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”. acompanhando-as.ubi. o corpo. tal como a afirmação. também se transforma. London.). O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação. A lógica de interface (homem/máquina. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”. biológico/tecnológico.). conexão. Neste sentido Mike Featherstone. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. e à medida que essas práticas se transformam. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. não apenas uma lógica de crescente ligação. por assim dizer. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. gerador da ambiguidade do dualismo. 1995.37 A negação. 48. Boston. “not-self” e “not-me”. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. homem/compu. como “não-eu”.pt i i i i . potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software. entre pólos. o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”.tador. Na sequência da tradição da filosofia grega. real/virtual) é. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface. Cf.

ergueu o seu tribunal. 3 (4). Minneapolis. London. Cartwright40 . 5. Págs. Sage. Hood-Williams45 . Págs. Harvard University Press. London. 39 J. Um novo território. Changing Sex: TRansexualism. Body & Society.i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo. 1997. etc. S. London. Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. Routledge. 43 Judith Butler. Lock. Laqueur47 . 41 M. 1994. 10. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos.). Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 . Hood-Williams. and the idea of Gender. 47 T. 1995. 42 B. 13-23. Sage. 1992. com as ciências médicas (Hausman46 .-M. 1995. Screening the body: Tracing medecine’s visual culture. “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. Cartwright. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. 1997. segundo a expressão de Madeleine Akrich. 45 Idem. IN Configurations. Ibidem. Harrison44 . Turner. que a autora identifica com os “science and technology studies”.C. à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. 1993. Durham. Pág. University of Minnesota Press. Duke University Press. etc. etc. “em julgamento”38 . London. “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”.labcom. O corpo sempre falou pela voz de outro. O corpo está actualmente. Laqueur. 1.) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 . London. Harrison e J. Routledge. 46 B. da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing). 2-3. IN Body & Society. 1. “Gender. 103-18. 44 W. Turner42 . www.pt i i i i . Technology. Mass.ubi. Cambridge. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo. Vol.. IN Body & Society. Bodies and Discursisivity”. 40 L. Lock41 . 1990. “Decentering the natural body: Making difference matter”. L. Sage. 267-92. Berthelot. com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. Págs.). Hausman. 2004. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado.

M. com a teoria do design (Forty53 . Simians. Invocação ao meu corpo. o olhar que vê. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. “Industrial Design and Prosthesis”. perspectivá-los. justamente porque o corpo é subjectivo. S. Sage. M. 51 H. London. Harvard University Press. Lisboa. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). IN Harvard Design Magazine.i i i i 20 José Bártolo samo48 . é como se também estivéssemos nele. 255. 1991. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”. e ser então alguém que anda com o pé. Por vezes.). Bertrand Editora. Págs. Featherstone50 .. 53 Adrian Forty. Decerto que um corpo é ambíguo. Somos o pé que anda. Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. “só conhecemos e concebemos. Págs. uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira. 1992. Turner. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar.). porque se o somos. etc. etc. no 5. no instante em que os vemos andar.ubi. 52 Bruno Latour. 1998. sobretudo Pág. IN Camera Obscura. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado.). Wigley54 . no essencial. ou vê com os olhos. 48 www. diz-nos Nancy. estamos sendo também esses pés que andam. Bálsamo. Págs. London. 49 Donna Haraway. 54 Mark Wigley. 1999. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim.pt i i i i .labcom. London. . no 96. Cambridge. 207-38.55 “Rigorosamente falando”. O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”. . 114-129. este corpo é ele próprio o “dentro”. Mass. Featherstone. Routledge. e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. Sage. 1991. 1985. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature. com a nova epistemologia científica (Collins51 . Mas podemos sair deles. Hepworth e B. entre aquele que observa e o que é observado. 50 M. etc. “Whatever Happened to Total Design?”. vive-se de dentro para fora. ). Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. 1994. 28. The Body: Social Process and Cultural Theory. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. o corpo vai sendo redefinido. a mão que prende. ou prende com a mão. New York. Collins. Haraway49 . Latour52 . o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. IN Ottagono. 1-8. onde a representação se forma ou se projecta A. enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés. 55 Estes dois parágrafos são.

a dor é somente o gume. ou seja. Corpus. sentido. con-sentido. Transportando no corpo a dor e a alegria. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. uma caverna cheia. no tratamento semiótico dos regimes de signos.labcom. origem e receptor das relações. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz. corpóreo. Há um sentido de humaniora. Vega. o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. percepção.ubi.pt i i i i . a fragilíssima condição humana. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. O corpo é. a sua tecnologização. 56 www. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo. memória. antes de tudo. Lisboa. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. esse sentido tangível. inconsciente). a queimadura. Outras vezes. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”. ainda que seja. Pág. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. entalha-se em nós. a abarrotar de intencionalidade. que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí. 66-67. 80.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação. como lhe chamava Kant. 57 Idem. Com cada um deles o nosso corpo se comove. e a sua perda fere-nos. o sonho e o medo. Dessa perda. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam. em cada instante. se renova. a pena. doloroso. Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. em cada reconhecimento do outro. solidão sentida. 2000. imagem. Ibidem. Tradução portuguesa de Tomás Maia. como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. as suas produções de sentido.”57 Não se passa pela vida sem dor. ideia. Págs. também não o dá à perda. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade.

Parret na filosofia. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. E. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo. do corpo. Relógio d’Água. estratégias argumentativas. Darrault na psicologia. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. No entanto. RCL no 36. descrevendo os diferentes “modelos”. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos.i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. A. J. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. J.J. A intersemiótica responde a essa estratégia. mais no sentido que lhe dão Fontanille. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é.ubi. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. como lhes chamaria Fontanille. facilmente se estenderia.”58 Na sua Semântica Estrutural. Arrivé e J—C. então. etc. publicada em 1966. para falar como Baudrillard. não há regimes puros. determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. Coquet na psicanálise. B) Em macro-análise. Lisboa. A substância de expressão. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. Mourão na teologia. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. como já se percebeu. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. reconfiguração dos processos narrativos.-M. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. 103. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana. nada exaustiva. Retórica. em última análise. pelo menos. . M. A. desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito.pt i i i i . da corporeidade. 2005. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise. 58 www. etc. na sua praxis semiósica. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. Assim. Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica. H. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica.labcom. Courtés e J. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. . “A dimensão imagética da metáfora”. sistemas semi-simbólicos. Pág.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. Floch nos media e na comunicação e a lista.

O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. constituições de corpos sem órgãos.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo. pelo contrário. 1980. Pág.60 É sabido que. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. A semiologia seria. trans-sexulaidades reais. que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana). 140 e segs. atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo.labcom. incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo. . 177. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. 61 Idem. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 . Ibidem. é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique. gerador de um devir-máquina. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem.pt i i i i . 60 Idem. antes de mais. Ibidem. é a linguagem que remete aos regimes de signos. Pág. 62 Idem. . devires moleculares. para Deleuze.”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique. Uma semiótica é um regime de signos. 59 www. continuuns de intensidades. produzindo-o. . Paris. ) devires-animais. Un régime de signes contitue une sémiotique. Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. Pág. então. Minuit. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. interligadas. antes as cruzam. Ibidem. semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. os regimes de signos às máquinas abstractas. . de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos).ubi. 175. a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo.

Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações. qualquer corpo. 63 A. Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. Sémiotique des passions. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações. Considerado em si mesmo.labcom. . simultaneamente. índices) da relação entre o significante e o significado. o corpo-em-situação. é transitório e operatório. durante a viagem. mais interpessoal e cultural da significação (. nesta perspectiva. Se recorrermos à classificação de Benveniste. Greimas e J. assente na natureza arbitrária (sinais. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo. O corpo é mítico. C) As orientações axiológicas. dando conta das tensividades fóricas. é claro que o corpo é. Fontanille. Os modos de “ser” do corpo. Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. os seus agenciamentos. Págs.J. www. de um comprometimento. dizia Michel de Certeau. Paris. do adorno. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal. interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. em relação ao estudo das emoções.i i i i 24 José Bártolo manifestações. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que. os sinais e os símbolos de uma linhagem. também. de um classe. . como signo ou como índice. no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. signos) ou analógica (símbolos. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. de palco significante. das paixões. o corpo. 1991. a valorização e desvalorização de certas paixões. ocorrem.pt i i i i . de uma condição. tanto se podem apresentar como sinal.ubi. 99-103. como um objecto que não está por um outro. uma “apreensão mais processual e contextual. ). Neste sentido. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. as suas improvisações e desvios. Seuil. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. No início dos anos 90. da escarificação.63 Paolo Fabbri propõe.

parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. Versus. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff. a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. Fabbri. As análises dedicadas à semiótica. E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. “An outline of the social constructionist viewpoint”. Harré que. www.pt i i i i . já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. Harré. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. na mesma linha de raciocínio. escapavam à semiologia. C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais. dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura. isto é. The social construction of emotions. 2003.labcom. 65 R. paixões e devires que tem lugar no corpo e que. como anotámos anteriormente.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. Págs. a sua instrumentalização. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. Pág. Basil Blackwell. 1988. Éditions Liana Levi. Harré. Face ao que dissemos. verdadeiramente. a sua produção de sentido.65 A partir destas abordagens.64 Outra proposta. Oxford.ubi. Une Histoire du corps au Moyen Âge. Não se procura aí. 2-14. Harré (Ed. de natureza intersemiótica. A passion veduta: il vaglio semiotico”. no 47/48. a sua adequação objectiva a um determinado fim. IN R. “Postfazione. Paris.). B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais. à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva. de um ou de outro modo. 205. é feita por R.

representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. Roy Ellen. The Antropology of the Body.pt i i i i . pelas mulheres. a sua presença no imaginário e na realidade. Cit. .labcom. santos ou guerreiros. nem vida. A concepção do corpo. 5. London. a descrição. Academic Press. Interessava-se pelos homens e. como dizia Walter Benjamin. 69 Marc Bloch. perceber como o design. mas tratava-se. Albin Michel. o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. E no entanto o corpo tem uma história.). com uma história sem corpos e com corpos sem história. que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar. a história da sua permanente construção social. nos anos 30. excepcionalmente. um grande esquecimento para o historiador. particulares. que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado. que o instrumentaliza. acessoriamente. o arquivo. 1977. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo. no sentido de Deleuze. corpos transformados em símbolos. O que se afirma é. percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história. Com efeito. . IN John Blacking (Ed. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . o seu lugar na sociedade. a legenda. Mais recentemente. nem carne. Op. 67 Cf. sempre. bem entendido. A história tradicional era efectivamente descarnada. www. foram mudando em todas as sociedades históricas. New York & San Francisco. Pág..”69 . assim. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. 343-373. produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis. 5. Pág. em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica. assim. 1939. Marc Bloch reivindicava.ubi. 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. 68 Falamos aqui. La société féodale. então.”70 Ficávamos. se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. Págs. Paris. Mas quase sempre sem corpo. antes. de um corpo sem ossos.

simultaneamente. IN José Augusto Mourão et al. de viver. tensão entre a riqueza e a pobreza. sobretudo durante a Idade Média. alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica. as suas improvisações e os seus desvios. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo. Os sacramentos santificam os corpos..i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . Ibidem. a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades.labcom. Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo. mas também o corpo-cadáver. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais. “Sexo. de andar. de morrer – corporizando normas e desvios. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. tensão entre o campo e a cidade. tensão entre o centro e a periferia. proibições e desconhecimentos. de falar. E. 112-13. tensão entre o homem e máquina. de trabalhar. a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. tensão entre a guerra e a paz e. a comunhão é um repasto. de comer. 72 71 www. Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. tensão entre o topo e a base. Pág.ubi. tensão entre o homem e a mulher. 2003. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. é atravessado por essa tensão.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. texto e corpo virtual”. tolerâncias e marginalidades. no 16. comporta os seus idiolectos. paredes-meias com a igreja. imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. O corpo cristão. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. de guerrear.pt i i i i . Cadernos ISTA. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade. O Enigma da Sexualidade. de nascer. de copular. como cada língua. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. sobretudo. a rejeição e a sua veneração. a um tempo. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo. fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. José Augusto Mourão. semioticizado como matéria repugnante. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade.

para o monstro. 1999. IN AAVV. física e outra semiótica. releva de um determinado uso semiótico do corpo.ubi. assim. de nos sentarmos. mais. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. àquilo que é. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado. mas é. o olhar do polícia o seu. o corpo é sempre. o olhar do voyeur o seu. de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. já passivo produto resultante daquele olhar. No entanto. qualquer que seja o seu nome: aberração. quase sempre. Edições Paulinas. diferentes olhares produzem. Semiótica e Bíblia.pt i i i i . como diziam Deleuze e Guattari. para eles. para o deformado. da pele até as entranhas.labcom. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação. Mas o próprio olhar exige ser ordenado. para o corpo mal olhado. Na sua semiótica do olhar. ciborgue. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. isto é. a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. freak. uma corpórea. diferentes corpos.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. O corpo é. então. Lisboa. “Figuras e transfigurações”. 73 www. causas sociais. falar. mesmo que se esconda. para o corpo desviado ou desviante. Págs. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. o próprio olhar não escapa a ser François Martin. O olhar do médico tem o “seu” corpo. 163-175. atravessado por dois tipos de agenciamentos. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. por duas máquinas. sempre olhado. O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”. sempre. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores.

entre o que é por natureza e que é por cultura. são modelos de ordenação quer do corpo. Paris. 144. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. mórbido e neutro no corpo”. Op.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. quer do olhar sobre o corpo. seu de direito. ou a ciência e o Estado.ubi. podemos.labcom. O modelo não tem de ser. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. 40. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . seguindo Nobert Wiener. conhecimento que se produz. a nenhum dos modelados. cada cultura politica o seu. L’ordre du discours. mas não deve corresponder. Gallimard. de deslocamento. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. de registo. cada cultura social. o corpo da grávida e o do aleijado. mas as formas fundamentais de saber-poder. Cada máquina semiótica tem o seu corpo. cada cultura técnica.”74 Os modelos do corpo. www. Todo o olhar almeja ser panóptico. pelo contrário. não é nunca o corpo do nosso irmão. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel. não deve ser. em si mesmo. um corpo normal. a apropriação. na sua existência e no seu funcionamento. a distribuição ou a retenção de um saber. 1971. Nenhum poder. que é. não é nunca um corpo como os corpos. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. Assim. Richard Sennett. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. Pág. às outras formas de poder. nas palavras de Galeno. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação.. Cit. o seu. Pág. de acumulação. condição de possibilidade da modelação. Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente. percepções. Igualmente cada cultura tem o seu corpo. Em A ordem do discurso.pt i i i i . o seu. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. identificar quatro modelos do corpo. uma forma de poder e que é ligado. se exerce sem a extracção. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo.

a que. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues. com 76 Marshall McLuhan. tanto quanto de ficção (. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. 2002. 30. “O manifesto Ciborgue: A ciência.ubi. produzindo-os. “Um ciborgue é um organismo cibernético. encontramo-lo na figura do Golem. alterando-os. Pág. sob o modelo da locomotiva a vapor. Género. nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus.”77 . Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza. www. 77 Ralph Emerson. a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. . permanentemente citada quando se fala em ciborgues. cujo modelo é o do corpo mágico. em 1968. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. La vida en la pantalla. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. IN Ana Gabriela Macedo. feito de barro. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. isto é do computador e. . A galáxia de Gutenberg. Págs. nano-próteses.i i i i 30 José Bártolo primeiro. Para Donna Haraway. juntar-se-ia. Cotovia.labcom. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. uma criatura de realidade social. maleável. são objectos de prova. um híbrido de máquina e organismo. .78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. Paidós. Barcelona. como interface. Com o desenvolvimento tecnológico. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. Ralph W. Apud Sherry Turkle. Editora da Universidade de São Paulo. 1972. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais. 221-250. )”. por correlato. de 1832. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se. São Paulo. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia.pt i i i i . do corpo. Os ciborgues são objectos de prova. . Numa passagem do seu diário. Identidade e Desejo. Lisboa. 1995. 78 Donna Haraway. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum.

Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date. É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano. no campo do design biotecnológico. www.na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. utilizações científicas dos cadáveres). as tensões polares – natural ou artificial. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. vivo ou inanimado. recuperação de órgãos. desenvolvimentos nanomedicos.ubi. dito de um modo mais rigoroso. clonagem. chips e electrónica. nos últimos quinze anos. chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne. matéria orgânica. O desenvolvimento das biotecnologias. redefiniu. O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica.pt i i i i .labcom. interfaces. artérias e fluidos. interfaciadas. vivo e inanimado. “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. cada vez mais pequenas. genoterapia e engenharia genética). para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses. próteses internas e externas. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. Prototipagem rápida e virtual. aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. biopolímeros. de transistors. já não polarizadas mas agora. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne.i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. cada vez mais “compatíveis”. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. cada vez mais leves. do biodesign. inclusivamente no cérebro. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. da bioengenharia e da engenharia genética . A carne do homem vai sendo enxertada de metal. homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões. crescentemente. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles. desde a sua génese (fertilização in vitro. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade.

talvez. corpoprotésico. corpo-em-rede. corpo-digital. o pensamento dela partilhar. para dizer a invenção dum corpo no tempo. a aprisiona-lo. uma alma82 e dela poderá. se for feliz.labcom. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. Pág. então. corpo que vem79 . entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. Da actual relação entre corpo e técnica. o pensamento sobre o corpo. nunca. Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida.ubi. da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. IN Ana Gabriela Macedo. talvez. “O Corpo que vem”. Não há corpo que não apresente cicatriz. 1 (não publicado). trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”.pt i i i i . há no corpo. Não há pensamento que não comece pele corpo. Ibidem. mas à semioticização técnica da vida. desfiguração ou descoloração. as possa enunciar. uma utopia (Hic est locus). anuncia-se um novo corpo: ciborgue. a revelar-lhe essa ossadura. Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. dos variados campos (do design à cibercultura. obrigando-o a ficar refém desse pensamento. uma distopia (Crash). corpo-enxertado. Pensemos o corpo. 19. Op. no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben). não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. o pensamento. “coisas que agradam”81 e. Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. como a ambicionam os extropistas. também. também. há no corpo. crescentemente hibridizadas. ruga. uma estética do caos. enunciar ou adestrar. para indicar um potencial (um devir). de uma reterritorialização do corpo. também. 81 Idem. resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. expressão de um devir-corpo. 79 www.” IN José Augusto Mourão. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada. Pág. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. corpo-em-fluxo. Há no corpo. por último.i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. também. ossos que formam um esqueleto e. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 . Cit. bio-máquina. tenda a “estrutura-lo”.

Oxalá o nosso apelo seja acolhido. (. 21.pt i i i i . ) Em resumo. de a ele nos dirigirmos. Paris. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão).labcom. Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas. Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce.ubi. 1997. 83 Didier Anzieu. o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos. Du moi-peau au moi-pensant. Dunod. todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. igualmente. www. Le penser. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido. .i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. Pág.”83 . enfim. É uma forma. dos outros corpos. .

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faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar. evidentemente. 1. doar sentido às coisas. Greimas. Mas. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. Iuglio.i i i i Capítulo 1 Corpo. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. Fazer sentido. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e. alors. 2 1 35 i i i i . faz sentido a mesa suportar o computador. 2004. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique.”2 A. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. faz sentido ter corpo. J. Estar aqui faz sentido. alvo de toda a actividade hermenêutica. por sua vez. se sobre isso me questionar. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. é. posso dizer que o meu corpo faz sentido. Du Sens. Paris. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. p.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso. como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. 1970. Jacques Geninasca. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido. Seuil.

a sua fragilidade ou a força da sua presença. a sua beleza. em relação dinâmica. construindo permanentemente corpos. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. p. que o corpo.labcom. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. Ler. anatomizar. corresponde a construir o corpo-texto como discurso. 103 e segs. o corpo começa por ser como que um texto. portanto. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos. semioticizar o corpo. Lisboa. o anatomista. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. intersubjectivamente. enfim. como discurso. o corpo-que. expressão de um sentido fixado4 . que realizou a semiosis. tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. assim. envolvendo uma série de mecanismos e competências. dando conta da significação do corpo. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores. que fala e responde.abreoutro. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. das situações e das formas de vida. supra pág. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. 3 www. Dever-se-à considerar. um documento a ler. o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. dissecar. o coreógrafo. analisar. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. De facto. o biólogo. isto é. Trabalhos de Jesus. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada. 1996.pt i i i i . 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. Paixão e Discurso. qualquer corpo.i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . campo de referência do nosso estudo. enquanto situação. Para a sociossemiótica. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. A anatomia tem a sua a máquina semiótica. Vega. a economia a sua. Cf. Munidos de determinados instrumentos de leitura. que enuncia e é enunciado. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas.12.se. é semioticizado como texto. o sujeito é. o design industrial a sua. ela avança para o nível dos objectos. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo. como paixão e enquanto forma de vida. o direito a sua. cada um de nós a sua.ubi. tensiva – fórica.

e ele o saiba. na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. se sentir morrer. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”. mas poder-se-ia dizer. 1987. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. IN M. mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . uma axiologia. nomedamente a nota 9. A semiótica é uma disciplina tensiva.). de um modo igualmente verdadeiro. 5 www. Périgueux. De la imperfection. de um vislumbre. porque essa construção é interconstrutiva. Greimas. sem dúvida.73. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. Paris. como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois.ubi. tão somente.esteja. na expressão de Greimas. 6 A. Fanlac. assim. em cada instante. mas. J. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos. veja-se. de cada vez. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”. de cada vez.labcom. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas.agora que vejo a minha mão. p. ao mesmo tempo. Se Greimas evoca a parábola bíblica. Poder-se-à. 1997. estar à altura do que lhe aparece. Sémiotique en jeu.”5 . em “vigilante espera”. Arrivé et al. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. A significação tende para o sentido. Só há espera no que é antecipável. (Eds. envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de. prometido e adiado. fundamentalmente. a explicitação da significação. mais. que existir é estar em “tensão semiótica”. é por se aperceber que é essa a tarefa que. em cada corpo-a-corpo . A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio. se sentir vivo e. Hadès. como corpo-objecto. em grande medida. cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto. reversivelmente. nessa interoperatividade. que ser é estar em tensão e. agora que observo mais adiante o sofá verde. de cada vez e sempre. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável.pt i i i i .

66. p. 8 Umberto Eco. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. do ouvir. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo. do sentir dor ou alívio.labcom. E há nisso um sentido que se emudece. Zilberberg. aproximando-se de V. Este ser deverá adquirir. p. Kant e o Ornitorrinco. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. Difel. 7 www. Lisboa. essa experiência que é sustentada juntamente com. do bater as mãos. da posse ou da perda de um objecto de desejo. do perceber sensações térmicas. e assim por diante. do apanhar. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal). numa semiótica do corpo. 1993.ubi. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar. da luta. ou em geral com o ambiente circundante. designa Greimas por coalescência. do penetrar com o dedo uma matéria mole. do coçar-se. C. Assim que entra em contacto com outros seres. Cf. 1. que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro.pt i i i i . em particular. 1999. certamente elas são originais. Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais. seja como for que decida denominá-las. provavelmente da cessação da vida. XXI. C. 147. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo.7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. do dormir. olfactivas ou gustativas.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo. de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir. do esfregar. do estar de pé ou deitado. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. do ver. “Le schéma narratif à l’épreuve”. IN Protée. . da cópula. algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias. do caminhar. do bater. A este estado de consentido entre nós e as coisas.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. . Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. Brodal.

do poder-ser do sentido. Paris. na introdução ao presente trabalho. Relógio d’Água. O real é o que se faz sentido. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. p. 2001. quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. 10 Justifica-se. Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. que embora tendo o sentido como alvo. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico. no entanto. IN F. Greimas. agora. RCL no 29. C) Problemas das relações entre discursos. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. “O real é.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato. O semiótico sabe. Dissemo-lo já. Masson. entre outros. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. 1976].”11 .labcom. ela consistirá. Análise essa que pressupõe.ubi. o que se faz sentir. “La microsémantique”.J. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. A. www. na verdade. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. apenas pode almejar a estudar a significação. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo. Paris. entre nós e o real.. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas. corpóreo. também ele. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. Sémantique pour l’analyse. Rastier et al. a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. 11 Herman Parret. 214. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo. como a ele se refere Herman Parret. práticas e os seus contextos.pt i i i i . 1994. Lisboa. O Campo da Semiótica. Seuil. o real é. Sémiotique et Sciences Sociales. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro. antes. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas. uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier.

) que determinam diferentes representações e significações do corpo. o anatomista e o designer . Em macro-análise. na medida em que transforma “operador” e “operado”. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional. 3. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. da sua instrumentalização. pelo menos. isto é. como lhes chamaria Fontanille. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www.pt i i i i . etc.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo.i i i i 40 José Bártolo particulares. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. estratégias argumentativas. Intencionalmente. partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo.ubi. da corporeidade. -o semiólogo. etc.labcom. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. reconfiguração dos processos narrativos. É sabido que o corpo. para falar como Baudrillard. Interessounos mais. mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. 4. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. do corpo. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto.. só de um modo muito introdutório e. ainda que outros sejam mencionados e pensados. 2. os seguintes quatro pontos: 1. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”. descrevendo os diferentes “modelos”. Em micro-análise. sistemas semisimbólicos. claramente pouco sistemático. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em.

que. A semiótica foi tida. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas. dela se esperava que dissesse o sentido dos textos. Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido.”12 . apesar destas afinidades. quer de dentro. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. construção dinâmica. Greimas. é para esta mesma fonte de inspiração que. 1966.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica. em definitivo. www. Não é menos certo. tarefa que a semiótica não poderia realizar. 8. 12 A. Larousse. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. geratividade. só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. se tratam de duas abordagens distintas. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. enunciando-o).pt i i i i . P. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. durante muito tempo. hoje. Sémantique structurale. De facto. não por falta de instrumentos de leitura. porém. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto.ubi. Esta evolução da semiótica é devedora. de Greimas. sobretudo. redescobrindo. do trabalho de Greimas. J. Em muitos aspectos. para uma semiótica das situações. no início dos anos 60. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. como um método de análise do conteúdo. a pesquisa mais avançada se volta novamente.labcom. Paris. através da dimensão do sensível e da “estesia”. antes resulta na sua colocação em forma. na maior parte das vezes.

separá-los. “Les couleurs de la chair”. semioticamente falando. uma espécie de vampiro. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base. www. isto e o seu oposto). e geralmente são-no. p. na análise dos sistemas de representações e de valores. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto. uma enquanto “sujeito”. 173. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. dentro/fora. e construi-lo a dois. depois. que subsume os precedentes. A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. Sexes et parentés. como produto da colocação em presença de duas instâncias.labcom. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros. O sentido é antes um tesouro peculiar.ubi. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro. Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. Porque se ele existe só pode ser. devendo.i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido. devires (já não totalmente isto. 1987. mas ainda não verdadeiramente o oposto). segundo a imagem de Umberto Eco. permutáveis. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição.”13 . que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta. mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e. em segundo lugar. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua. em compensação. o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. corpo-a-corpo. identificados: em primeiro lugar. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas. outra enquanto “objecto”. Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. a nossa carne envolvida na carne do outro. Minuit. para que ele exista há que construi-lo. em síntese. que seja coisa a ser descoberta. mesmo que estas posições sejam. Paris.pt i i i i . competentes para interagir em situação.

les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras. não experimenta qualquer paixão.pt i i i i . contudo.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo. de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce). José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. Lisboa. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas. por exemplo. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. E. 2004. “ Ego affectus sum”. a tarefa da semiótica interpretativa. José Augusto Mourão. Geninasca. os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. Identificar os cenários. Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. Fernando Cascais. em grande parte sob a J. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica. Relógio d’Água. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral). RCL no 33. Foi no decorrer dos anos 60. para. situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é. Corpo. qualquer que seja a sua manifestação linguística. O lector in fabula de Eco.”14 Nesta perspectiva. p. a significação discursiva dos “textos” repor. digamolo de modo rude. pelo menos de forma decisiva. em traços gerais. 10-11.ubi.labcom. IN Ma Lucília Marcos e A. Loc. ainda. limitando-se às funções e acções. não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido. 15 14 www. Técnica e Subjectividades. 174. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux.ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar. pp.ta. Cit..

Barthes.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. 18-25 . Paris. F. uma renovação completa da problemática semântica. L. 19 A. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação. em 1966. em particular. 16 www. assim iniciada. neste contexto. IN Critique. Larousse. Cultrix. 1970. Minuit.) 20 V. Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural. em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. Hjelmslev. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Pottier. 1968. Barthes. na revista “Critique”18 . uma série de análises estruturais da narrativa. B. pág. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. no importante ensaio de B. Perspectiva. Pottier publicado em 1967. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira). ano. EDUSP. B. prefigurado por A. Cf. R. J. por exemplo. Greimas. Prolégomes à une théorie du langage. Pottier. terá continuidade. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. na esteira de Jakobson.ubi. 18 Cf. Dubois. no Brasil. 1967. visando. em 1966. como a análise sémica. Guiraud. Seuil. Sémantique Structurale. 1966. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. Greimas.J. Morphologie du conte. a tradução portuguesa aparecerá. Mathoré e A. Propp. como o quadrado semiótico. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”. uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages. Surgem-nos.labcom. Paris. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. 1973.J. São Paulo. movimento esse que iria desencadear. de novos instrumentos de descrição e análise. reeditado em 1986 pelas PUF. 1975. São Paulo.) 17 Da acção de Greimas. também. bem expresso. na sua Semântica Estrutural19 . No 237. Paris. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés. da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral.pt i i i i . É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior.

pág. o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”. Greimas. Pág. Pág. 1973. começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. Ibidem. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas. de resto. organizadoras dos discursos.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas. “morfologia” que. “ As aquisições e os projectos ”. interrogam-se sobre o que significam um e outro”. Livraria Almedina. A Semântica Estrutural.J. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . de maneira mais ou menos explícita.labcom. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. Cultrix.22 . EDUSP. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. Ibidem. Greimas propõe-se “reA. de ambição axiológica. 21 www. IN J.pt i i i i .ubi. 1979. uma teoria geral do fazer.25 Apesar disso. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. igualmente. Courtés. as ciências humanas. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. 23 Cf. 25 Idem. 11. A. Posteriormente. 22 Idem. 24 Idem. Ibidem. J. 15. Coimbra. mereceu. 9. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação. 21 e segs. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 . Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. Semântica Estrutural. pág. Greimas. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. São Paulo. Dito de outro modo.

também.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . postula o formalismo em linguística e faz “semântica. instaurando um novo domínio de pesquisa. à maneira de Monsieur Jourdain. 28 D. o analista da sua “memória discursiva”. Todorov. procura “explicações qualitativas tradicionais”. Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. estabelecendo uma semântica científica.labcom. Seuil. pela relação de pressuposição recíproca. 27 26 www. Paris. para tal. concebida como a “união. rompendo com uma determinada visão da linguística. critica a criação de uma metalinguagem descritiva. funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. Cf. 1987. mas. 1981.pt i i i i . que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. contemporânea de Greimas. e uma linguagem metodológica. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. 29 Idem. baseia-se no beletrismo e. fundado no princípio da imanência. reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana. T. Hachette. o que significa que o discurso não nasceria. Nouvelles tendances en analyse du discours. 24. 88. porta de entrada para o acolhimento da Idem. hipoteticamente. Pág. A partir daqui. sem o saber”.ubi. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. Ibidem. Maingueneau. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo. A análise do discurso. Paris. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. Pág. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana. Ibidem. valendo-se. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. antes se formava. como era por vezes sua pretensão. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. portanto. de um “voltar-se para as próprias coisas”. por intermédio de interdiscursividades28 .

intencionalidade e comunicação. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins.labcom. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. Semiótica. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 . A. Programa e Metodologia. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure..i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. Cit. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. Série Comunicação. A função semiótica. e. À época da publicação da Semântica Estrutural. O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação. 1999. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”. Cadernos do Noroeste.ubi. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. entre sujeito e objecto. Jakobson. reflectividade. Apud. interacção. Fidalgo. De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”. 30 www. 1 e 2.pt i i i i . vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. corpo-a-corpo. e justificar esse entendimento. 12 (1-2). A. não se limitando a segui-la e. por outro. Relatório para provas de agregação. Cf. pp. no outro. e suspendemos a relação com o contexto. Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. isto é. “Da semiótica e seu objecto”. reafirmar os signos como objecto da semiótica. Lévi-Strauss. Fifalgo. dito do modo mais simples. Universidade do Minho. IN Comunicação e Sociedade 1. 19-20. Vol. Op. intersubjectividade. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. pág. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. pág. Dumézil. mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. 20. o domínio do objecto textual.

Semântica. Enquanto esta. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais.quelas apresentam dois níveis: um profundo. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. como uma teoria gerativa. correlativamente.. de modo explícito. que contém a sintaxe e a semântica narrativas.pt i i i i . Sémiotique. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas. dispostos em patamares sucessivos... Greimas e Courtés reconhecem. 327. Ao estudar a estrutura elementar da significação. sob influência de Merleau-Ponty. 33 A. J. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva. cujos procedimentos são a actorialização. J.labcom. a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos. pois. Pág. também. 15. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. assim. 27. segundo Greimas. distinguindo-se. Hachette. 1979. aí. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. e a semântica discursiva. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”. apresenta-se. no percurso gerativo. dois componentes: um sintáctico e um semântico. afirmando. 34 Idem. 32 www. Courtés. e um de superfície.ubi. chamada de percurso gerativo. cujas operações são a tematização e a figurativização. Ibidem. A economia geral de uma teoria semiótica. descontinuidades no plano da percepção. Paris. Greimas e J. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas. Greimas estabelece. A. assim. Pág. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. a ruptura com a “linguística tradicional”. a temporalização e a espacialização. Actualmente a semiótica. Greimas. Pág.34 Como sabemos. Aparecemnos. isto é. de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita.i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e.”32 . remontando ao nível mais alto possível”33 .

1998. www. 15.pt i i i i . l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. consequências dessa posição: “(. Greimas. a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 .ubi. Sémiotique du discours. encontramos o trabalhar desse tema. il détermine. é possível. ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position. o novo estatuto dado à percepção. D’un côté. La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques. tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. entre la perception du monde extérieur. implicitamente. la perception du monde intérieur. Pulim. para Fontanille (mas não o era já. et un univers proprioceptif. . et. conceito de raiz fenomenológica. já. univers intérioceptif. uma classe autónoma de significações linguísticas. J. de certa forma. Limoges. et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. un clivage entre univers extéreoceptif. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible. ambas geradas pelo corpo próprio. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio. . l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel.”35 . qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas.. . Greimas anota que. dans le monde où il prend position. suspendendo. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. A. et ce. 35. de l’autre côté. com alguma influência merleau-pontyneana. . . no seu estatuto particular.labcom. grâce au corps propre du sujet de la perception. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é. p. retirando. Na Semântica Estrutural. Pág. Partout où il se déplace. Semântica..).

Pág. 37 Idem. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”. a sua produção. o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação.i i i i 50 José Bártolo comum.pt i i i i . como se diz. com menos surpresa.ubi. a significação pressupõe a existência da relação. bem como. Este enquadramento.Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. talvez nos ajude a perceber. a sua interpretação.labcom. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ . o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais. www. Ibidem. da relação. no mundo sensível. Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana. central em Saussure e Hjelmslev. 16. ou.37 Recuperando a categoria.

labcom. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. atravessado que é por fluxos. mais ou menos numerosos. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. mais ou menos rápidos. • Une fois établis deux graphiques. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. 10-11. O discurso. Geninasca. uma instância de devir. dont vous aurez limité en leurs extrémités. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”. que é permanentemente agenciado. espaço de devir. desaparecer e que modificam os valores.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez. Cit. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation. sabemo-lo. www.. Não há. Sémiotique et littérature. Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”.”39 38 39 J. em definitivo. nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. à cet effet. pp. discurso que não comporte uma erótica do sentido. que fazem “aparecer. des modulations de la présence.pt i i i i . dans l’ordre du discontinu. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré.ubi. 73. um desejo de fazer sentido. um agenciamento de enunciação. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”. é uma das unidade de análise da semiótica. directement ou indirectement proportionnel. Loc. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir). J. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues. • Postulez à ce point.”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”. les termes “saisie” et “visée”. centro de enunciação. Fontanille. organizado em torno de um corpo próprio. p.

A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder. para falar como Fontanille ou Zilberberg. do design à biologia. ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. que aquém e além envolvem o corpo próprio. hic et nunc . os regimes de produção. a partir delas produzidos.labcom. da medicina às biotecnologias. a semiótica deve ser capaz de considerar. para falar como Jakobson ou Deleuze. pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. os afectos. nos discursos. www. as situações da produção. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. Numa palavra.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. p.ubi. 40 Per Aage Brandt. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos. numa palavra. Dynamiques du sens. Aarhus University Press. o corpo.pt i i i i . 1994. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas.i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido. que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. torna-lo objecto. que é antes de mais. capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida. “aqui” (espacialidade). sob que forma. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva.“eu” (identidade). a partir da análise dos agenciamentos. poder semiótico: poder de fazer sentido. de uma semiótica que esclareça em que condições. as sensações. 3. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas.

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Idem, Ibidem.

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José Bártolo

Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 . neste sentido. a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a. garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa. Tal conversibilidade. De certa forma.pt i i i i . O signo necessário vai do universal ao particular e pode.40. no sentido de “prova”. 1 – 1357 b. p. Eco. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια).labcom. como facilmente se entende. 35.i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. τ εκηµριoν . www. Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular.ubi. regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência. 3 Cf. servir de premissa a um silogismo.

por exemplo. afinal. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. numa palavra. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. 41. com clareza. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação.ubi. como são incorporais as acções e os eventos.labcom. admitir. são estados de coisas. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. uma maneira de ver as coisas. www. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. para os estóicos.4 Da expressão. muito da semiótica peirceana. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. São incorporais o vazio. não só aprofundam a múltipla articulação. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem. Eco.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. p. Cf. de antecipar o que. como era para os seus antecessores. Eco. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização. p. Os incorporais não são coisas.pt i i i i . “conteúdo” e “referente”. São incorporais. não é som articulado. O λεκτ oν completo é a proposição. uma imagem mental ou ideia. então tem febre”. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”. o lugar. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes. a conclusão é apenas provável. Como esclarece Eco. muito mais tarde. Quanto ao conteúdo ele não é. modos de ser. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. afinal. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. Quanto à linguagem verbal distinguem. 42. Trata-se. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que. ainda. “expressão”. Não é ideia. facto físico.

aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev. deste modo.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. O signo é tipo não ocorrência. onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem.ubi. como. exemplo maior do Lekton incompleto. remete para algo que não é evidente. por exemplo. Neste sentido o sujeito. Devemos. nem aquele fumo e aquele fogo. então. na semiótica estóica. De facto. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. portanto. mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. é um incorporal. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística. A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre. Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime. os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. portanto categorias da expressão. Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos. Assim. suspeitar de que os acontecimentos. Por conseguinte o conteúdo estóico. os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso). Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso.pt i i i i . que deve haver fogo. ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. mas são categorias do conteúdo. empiricamente. Une-se. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). .labcom. sejam incorporais. um incorporal. mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença. Parecem categorias gramaticais e lexicais. porém. já estados transitórios dos corpos. Os signos só se formam www. . Ou pode ser indicativo e. O signo não concerne aquela febre e aquela doença.

e o objecto a que ele se referia. são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara..i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem. denotatum (Morris). expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens). o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce. O signo está em vez de alguma coisa. talvez. denotação (Russel) ou extensão (Carnap). uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. outros designam de símbolo (Ogden-Richards). Assírio & Alvim. A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo. ou referência (OgdenRichards). i. um pouco. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido.ubi. Imagem-Movimento. o pragma. o que uns apelidam de objecto (Peirce). e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon). A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos. p. 6 www. A leitura definitiva aparece. Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química. Ele direcciona-se para alguém. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. igualmente.e. cf. O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. Lisboa.pt i i i i . e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). Cinema 1. intensão (Carnap). interpretante (Peirce). Gilles Deleuze.labcom. o seu objecto. com a definição peirciana do signo. outros apelidam de referente (Ogden-Richards). a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos.6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity). como a classificação de Lineu para a história natural. ainda. tradução portuguesa de Rafael Godinho. 2004. Mas.9. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações.

tanto se podem apresentar como sinal. Collected Papers os Charles Sanders Pierce. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes.228. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). 2. permanecendo o Objecto Dinâmico. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. num certo sentido. Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. sempre pairante.303. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes. Mass. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos). através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação. É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria. e por aí adiante ad infinitum”8 . De facto. no sentido de historicamente mais implantada. 7 www. Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial.pt i i i i . nesta perspectiva. sempre presente e jamais captável. 8 Idem. por sua vez.labcom. este produz numa quase-mente um objecto imediato. 1931-66. Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. da semiótica – a semeiologia – um signo..i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 . Se recorrermos à classificação de C. Cambridge. Harvard University Press. senão precisamente por meio da semióse. como signo ou como índice. Pierce. do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen. O corpo é na tradição maior. Os modos de “ser” do corpo. da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto. voltamos ao Objecto Dinâmico. E cada um desses interpretantes. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo.ubi. S. ad infinitum. 2. a um tempo linguística e cognitiva. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem.

índices) da relação entre o significante e o significado. assim. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. de um comprometimento. A partir desta interpretação. “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente. Na perspectiva histórica da semiótica. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. pelo facto da existência de uma relação semiótica. mais profundo. os sinais e os símbolos de uma linhagem. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. da escarificação.pt i i i i . No entanto. torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. Lotman. possuem realmente o estatuto de signos. como observou F. Por outro lado. se “nuvem” remete para “chuva”. é claro que o corpo é. de uma condição.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. essa relação remete para outro signo. o corpo seria entendido como um signo natural. de um classe. que justamente valorizou a noção de signo natural. tão bem desenvolvida por J. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. da realidade natural. Rastier.labcom. de qualquer destas interpretações. remete para o signo “chuva”.ubi. podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. não deixando de ser uma referência. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso. e quaisquer que sejam as articulações. simultaneamente. poderíamos retirar algumas conclusões. signos) ou analógica (símbolos. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. situado ao mesmo nível do primeiro. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. assente na natureza arbitrária (sinais. O século XVIII europeu. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. do adorno. por exemplo. por outro lado. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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Ora. ). relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber. continuando.pt i i i i . quer como “narrador”. Assim. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”. Mas. um outro significou e interpretou o nosso corpo. sujeito realizado. de o produzir linguisticamente. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. A interpretação ratifica a significação.labcom. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. objecto www. actualizando-a. tem uma natureza produtiva.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. que a conjunção com o sujeito o realiza. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor. a interpretação dá-se sob condições que. Interpretação e significação são acontecimentos. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. quer à significação. politicamente. . A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo. Pode-se dizer. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. realizando assim o seu projecto. . De resto. sujeito actualizado. (. Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. socialmente. O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto. de algum modo. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação.ubi. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza.

uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina. afirmar que. Corpo. objecto realizado. 27-28.i i i i 70 José Bártolo actualizado. que define graças a esta posição. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais.”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. uma intersemiótica do corpo.ubi. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação. “ EGO AFFECTUS SUM. a vida. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível. “ As aquisições e os projectos”. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. J. Livraria Almedina. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. servindo-nos. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. Courtés. p. Relógio d’Água. 173. RCL no 33. à emoção. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. legitimar. torna-se possível. Pensando na evolução recente da semiótica. o corpo.labcom. pp. Coimbra. a acção. O último Greimas parece. o afecto. por exemplo. Sujeito. pretextos para o lançamento de novos percursos. 2003. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. 1979. Greimas. na semiótica de Fontanille. de empreender a análise das “micro-estruturas”. Para falar como Greimas. às paixões”16 . É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille.pt i i i i . de resto. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer). paixão. na sua abertura sensível. IN J. Por isso. que toma posição no mundo do sentido. 16 José Augusto Mourão. que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. discurso”. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. Técnica e Subjectividades. 15 www.

30. p. Tais Idem. de efeitos actancias. o mundo exterior e o Mendo interior. É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem. p. 1998.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica. considerando que a sensação e. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. abandonando a perspectiva do signo. 19 Jacques Fontanille. acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. Lisboa. como o corpo e com o sujeito.pt i i i i . de algum modo. NAS. como produtora do corpo e do sujeito-objecto. Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. 266. Sémiotique du discours. sede de percepções e de emoções. mas considerando-a.labcom. Herman Parret. no 61-62-63.18 Na sua Sémiotique du discours. 2001. ii) a escolha dum ponto de vista (fito). 175-176. 18 17 www. PULIM. “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”. p. p. ainda que. também. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). em favor da dinâmica das linguagens. por vezes. 214.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo. está no choque dos corpos: corpo do mundo. iv) a formação de um sistema de valores. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão).17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. Limoges. ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis. 20 Jacques Fontanille. corpo-em-vida do sujeito. 1999. RCL no 29. Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a.ubi. Relógio d’Água. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis. o sentido. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. modais e axiológicos. O Campo da Semiótica.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais.

para falar como Althusser. esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo. sê-lo-à para Greimas como. Faz notar que. como é. estamos em crer. depois dele. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev. apresentado por Julia Kristeva. sejam distinguidos por uma diferença. qualquer que seja a forma pela qual se apresente. activos mas também retroactivos. sobre essa base de semelhança ou de identidade. já o dissemos. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. também. enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. José Augusto Mourão afirma.ubi. Quando uma determinada frase. contribuindo para a sobredeterminação. para Lévi-Strauss. de um modo muito claro. o design é. Ao discutir o problema da relação. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. a maior parte das vezes. que não pode ser plenamente compreendido considerando. por exemplo. para falar como Greimas. uma dupla actualidade. na medida em que não há corpo que não seja construção. Estas considerações ajudar-nos-ão. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. para Brandt. essa frase. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. era-o.labcom. também. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”).pt i i i i . cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. é necessário que tenham algo em comum a fim de que. é-o sem dúvida.i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. de resto. não há corpo que não resulte do funcionamento. quer as teses seguintes onde. da respectiva máquina semiótica. Greimas. sob regras específicas. por exemplo. Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico. que “a expressão somática é sempre enunciação”. não apenas. de uma máquina semiótica. A relação. ele identificado com uma máquina semiótica. não há corpo que não seja expressão. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico). representações www. a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. na medida em que são. apenas.

por exemplo. Psychanalyse et fois.ubi. Au commencement était l’amour. também. Paris. territorializando o excesso semiótico. 1985. 15. www.i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico).pt i i i i .labcom. como se verá. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”. Hachette. que não encontra estabilidade na definição normativa . por vezes.21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos.monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. 21 Julia Kristeva. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. Pág. a importância das produções normativas. considerando. evidente. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo. partindo. quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é. quer para regressarmos à análise do processo de significação. da semiótica das paixões fontanilleanas.

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”1 . Ed. Pág. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. se estuda o corpo.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo. Lisboa. Harvard University Press. pois. O Objecto possível é. significável. por inteiro. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. não sendo o próprio corpo. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. para ganhar autêntica fertilidade. 75 i i i i . 1997. objecto imediato.. portanto. o estuda ou o opera. 2 José Gil. Cambridge. isto é. De cada vez que se pensa o corpo. e cujo Ser depende. Metamorfoses do corpo. poder-se-ia recorrer à distinção. 16 e segs. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante. se age sobre o corpo. Mass. a par de muitas outras possíveis. a partir do pensamento de Lévi Strauss. por outro lado. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). Relógio d’Água. o consequente de uma significação particular que. 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. 1965. de uma dilucidação particular do fundamento da significação. Vol. da Representação que dele no signo é dada. IV. se opera o corpo. para esse que o pensa. “o objecto como o próprio signo o representa. é efectuada. mas carece. tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. o corpo é. §536.

”. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”.labcom. da estrutura da epiderme. tal como Peirce o define. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas. a olhar para a minha mão esquerda. por exemplo. de cada vez. dando lugar a uma proposição particular. do interior da mão etc. então. O fundamento. 1979. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias). enquanto significação do signo. Umberto Eco explica. a um objecto imediato.ma Eco. pp. Valentino Bompiani. Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”. se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação).ubi. 58 (Juin. na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). sentado em frente ao computador. Lector in Fabula. “mão esquerda”. como lhe cha.i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. com uma notável clareza. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento. O objecto imediato assim constituído. p. 75-91. como defende Eco3 . e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo.pt i i i i . 1980). torna-se compreensível que. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia. que corresponde à minha mão esquerda. A. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira. daria lugar. onde eu estou. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo. constitui-se um objecto imediato. Milano.34.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”. dos ossos da mão. Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”. no desenvolvimento da análise. In Langages. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base. 4 3 www.

Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica. de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. tem a ver com as definições. e falar acerca dele. os conceitos. “qualquer signo só pode representar o objecto. tomada juntamente com o signo já ampliado. Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo. Idem. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. a qual. por outro lado. o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc. os argumentos . este devir-outro nunca desemboca num outro. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições. 5 6 Confirme-se em Charles Peirce. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante.as definições.. de original. admitir.ubi. persegue-o tensionalmente. Op. devemos. §230 www. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia. e visto que a explanação será um signo. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 . as fronteiras.operam o devir-outro do corpo. da análise. as proposições e os argumentos. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. os conceitos.”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. o devir-outro é um movimento de intensidade.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e.labcom. 2. Cit. ainda. sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato. §231. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. como lembra Peirce. que não as do corpo. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica. Vol. criará um signo ainda mais amplo. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo .

Vol. como sublinha Peirce. 47. a um deitar-se diante de algo. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo.13. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área. Independente do signo. o objecto dinâmico.. processo em processo aliás. os argumentos que. Cit. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 . a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso. Confirme-se em David Savan. §§12 e 13 8 7 www. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia. sem que a posse plena se dê. desejando dele se apossar. Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. precisamente. p. Op. Langages.”7 .. Umberto Eco. VIII. do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 . “La Séméiotique de Charles S.i i i i 78 José Bártolo os conceitos. Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo. p. Peirce”. Este processo de intensificação corresponde. por exemplo. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada. Op. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro.pt i i i i .labcom. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico.ubi. de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva. in the long run. 58 (Juin 1980). seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio. 9 Confirme-se em Charles Peirce. Cit.

nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado. O corpo. neles se não revela. o objecto dinâmico. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas. original.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias. no sentido em que não significa isto ou aquilo. “Dancing Bodies”. como aquilo. O corpo/objecto dinâmico está. eles são outra coisa. Urzone.labcom. mas isto. New York. é evocado por estes. ele é a condição de possibilidade da presença destes. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce). objectos imediatos. dir-se-ia de ser. 11 Idem. enquanto. mas. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido. mas ele é outra coisa. 480-495. objecto dinâmico. eles não são menos do que o corpo por inteiro. a qualquer significação. B) Fica. em si anterior. de discursos e de diversas práticas”. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. 10 www. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue.pt i i i i . O meu corpo não é isto nem aquilo. essa dor. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. próximo da imagem pairante kantiana. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. como acredita. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). Mais. p. 1992. autenticamente. igualmente.) Incorporations. verdadeiramente não está presente nos corpos. A expressão é usada no artigo de Susan Foster.ubi. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. assim. o meu corpo não é a minha estrutura de ADN. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. mas esse gesto. de facto. são expressões do meu corpo. Ibidem. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. ele é um quase-signo.

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neste aspecto. se vai fazendo. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é.i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. como o soube toda uma tradição que. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. pelo menos desde Antístenes. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. de anatomizar. que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem. seja através de um discurso instrumental (bisturis. pelo processo anatómico. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). pelo contrário. que das substâncias simples não pode haver logos. é o imediato. apenas. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. 81 i i i i . a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. e o dizível. ser capaz de saber distinguir. que o indizível é o dinâmico. objecto dinâmico e objecto imediato. mas apenas nome. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção. Que o corpo seja onoma e logos. por uma divisão que jamais será ultrapassada. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. como o faziam os antigos. ser capaz de saber. mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. aproxima Platão e os místicos. como Pierce. no sentido peirceano. pinças. ser capaz de saber distinguir.

mas o próprio corpo. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis. enfim. as imagens. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. o pensamento não para no limiar do nome. o corpo que estudamos. tocar o corpo. mas ainda o corpo. . a própria linguagem nolo permite. semio-lógico. tradução portuguesa de Tomás Maia.pt i i i i . 11. o corpo que adoece.i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome.está sempre a acontecer na escrita”2 .ubi. 1 www. “Como tocar então no corpo. Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente. p. O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. Lisboa. as cifras do corpo. 2 Idem. bordas visíveis (a caneta. eles não param de se tocar. 2000. pensa Nancy. O corpo que abraçamos. Vega. Não os signos. mas o corpo. ). os dedos. nas intersecções. intitulado Corpus1 . Escrever é tocar a extremidade. para sempre. Há bordas do corpo e bordas da escrita. que pretendia escrever não acerca do corpo. no nome ele persegue a ideia. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. é um corpo integrado no plano do discurso. não a corporeidade. o corpo exige escrita. a folha. Corpus. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. um corpo lógico. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. e como nela se vão constituindo corporeidades e. o teclado e o ecrã do computador. Colecção Passagens. Ibidem.labcom. e na borda e de um de outro. tocar. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. distraidamente. . nos contactos. Nos pontos de tangencia. nas deslocações. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos. o corpo que vemos envelhecer. Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. as unhas. Jean-Luc Nancy. entre a escrita e o corpo. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém. um cabelo caído sobre o branco do papel e. há algo que vai permanecendo sempre. simultaneamente. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem.

esta concha – são apenas manifestações da ideia. descontinuidades (discrição). e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca. poder-se derramar. ou derramar o seu sentido. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco. o corpo é a ideia. 21. para foras das veias por onde corre. A ideia é. 1995. como sangue com demasiada vida que parece. a palavra que sempre se excreve. um tronco. e que o expõe como Ibidem. nervosa. nos bordos. p. ele não se escreve sem revolta. nem in re. aquém e além dela. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. Série Universitária. diz Nancy. na relação entre corpo e linguagem. o fim do sentido.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. do corpo com a linguagem. como pensa Nancy. revolta-se excrevendo-se. nem mesmo sem inconsequências. como um bocado de osso. estando no acto de escrever. ou escrever “o” corpo sem rupturas. este tronco ou este bocado de osso. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos. O excesso não tem. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego.4 Uma vez mais. na possibilidade da escrita. quase derramando para fora deles. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas. a ver com o que não cabe na linguagem. a qualquer momento.labcom. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. fluindo nos bordos. e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. apenas. então. Perante esta concha. O Pensamento Morfológico de Goethe. 4 3 www.pt i i i i . mas unicamente cum rebus. ao contrário é o fim dessa idealidade.ubi. o seu excesso. a sua fertilidade. aqui. INCM. nem é uma função operatória. reviravoltas. A palavra a mais em qualquer linguagem.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. desvios do discurso em si próprio. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”). suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio. o plano da significação. na relação. no sentido da escrita. contradições. É preciso atravessar este “sujeito”. escrita e por escrever. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. um calhau. Lisboa. nem post res. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar.

7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo.. 6 5 www. nas junções. no face a face entre o dentro e o fora. nas uniões. e num certo sentido. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. nas bordas.ubi. tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar.labcom. que melhor conhecemos. como o anota Eric Landowski. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que. constituem-se intersubjectivamente. O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”. 7 Idem. é o objecto que nos designa. para ser adequada. corpo e mundo. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem. Não há sentido sem corpo a corpo. 2001. corpo e linguagem. Lisboa. não pode ser senão intersemiótica. designamos por semiosis. p. Habitualmente. em que dentro e fora. o calhau que designamos por “aquele corpo”. 215. Cit. Maio de 2001. O sentido dá-se. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar. de outras vezes. vivemos o corpo de dentro para fora. Não só o corpo mas também o mundo. em semiótica. das “significações” e das “interpretações”. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. mais do que nós o designamos a ele. quando se estuda o corpo. o corpo do velho e o corpo do doente. 25.i i i i 84 José Bártolo tal. É sem duvida verdade. no interface. p. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy.pt i i i i . Op. para usar expressões de Parret. Relógio d’àgua. Herman Paret. nas dobras. 215. na borda. nas intersecções. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. O corpo é um estranho objecto de estudo. p. Revista de Comunicação e Linguagens. Porém. No 29.5 O corpo expõe existência sobre os corpos. são sentidos.

A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski.109.como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério . mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto. 9 Lewis Carroll. p.um saber o que se quer saber .i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 . um problema de orientação . Maio de 2001. porque não se trata tanto de um problema de conhecimento. he asked. em relação a este corpo objectivado. Chanceler Press. Trata-se de saber. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll. que é. very Gravely. and go on till you come to the end: then you stop. 1982. Os Três problemas . “Fronteiras do corpo: Fazer signo.pt i i i i . mas de um problema de enunciação . Ou seja. sujeito que analisa e objecto de análise – e é.ubi. London. Begin at the beginning.de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto . quando se estuda o corpo não há um objecto determinado . please your Majesty?. A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura . fazer sentido”. o que o método pretende alcançar. 8 www. o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin. processo este que é. 2001. aliás. seria alcançar um ponto de partida real. então. condição da sua objectivação.quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá. a um tempo..podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. onde parar.enunciação. o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. pp.”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. finalmente.271286. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica.que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo. afinal. onde começar. naturalmente.labcom. Revista de Comunicação e Linguagens. por onde seguir. the King said. Alice’s adventures in Wonderland.é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação . isto é. O “ideal”. No 29. Relógio d’àgua. distanciação e orientação . Seguir-se-ia. Lisboa.

a ideia de corpo. Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”. ou que uma noite é uma noite.25-28. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 . a sua ideia gerativa. movimento para um original. cada análise médica . As Ciências do Artificial.cada desenho. é essa a sua organicidade. Isto é. deixa aparecer. Arménio Amado. a artificialização é parte do processo de validação. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas.labcom. concretizando. esse halo que torna cada representação do corpo incomparável.enquanto forma contém a sua ideia.e isola-se num enquadramento artificial . englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso.pt i i i i . cada radiografia. por exemplo.do plano da vida .ubi. isto é. Lisboa. cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera. Por outras palavras.não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. a transferência cientifica .do corpo da criança.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada.do plano da vida para o plano de estudo . que se não dá nunca.tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes. A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. do corpo da mulher. cada fotografia. pp.permite exteriorizar. não induzida da totalidade de representações afins. isto é. a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl. Herbert Simon o define. sobre esta ultima definição veja-se H. mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida. retira-se o corpo do seu enquadramento natural . um typus. Cada representação do corpo . um determinado agenciamento discursivo. Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade.a objectivação . preenchendo. Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo . Simon. Pelo contrário. do corpo do doente . 10 www. 1981.

pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste. porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa. potência e acto. como todos os seres que nascem. leva a cabo a sua própria possibilidade. ao mesmo tempo.ubi. www.labcom.

De Montméja (1868).labcom. de A. e num certo sentido. ou por um qualquer inex- www. O corpo é um desses territórios ambíguos.pt i i i i . que melhor conhecemos. disposição e funcionamento. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto.ubi. Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição. estranhos e íntimos ao mesmo tempo. Dardy e A. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza.

). num certo sentido um pressupõe o outro. na linguística. o aproximarse de algo. no entanto. enquanto objecto de estudo. O Campo da Semiótica. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. mais estreitamente. “expor” (a um perigo). “obstáculo. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. Lisboa. mais do que objecto”. mais correctamente. 11 www. “cravar”. em relação ao seu significado.pt i i i i . “interpor”. “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que. O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram. parece. Op. obstáculo na medida em que é objecto. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. e ainda. p. Ao tomar-se algo como objecto. porventura. no 29. Obstaculum significa.. IN Ma Augusta Babo e J. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. “embaraço”3 . de uma falha. Cf.”11 . investigado. Augusto Mourão. Fazer signo. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”.labcom.. em suma. está ligado a uma acção.255. Cit. Objecto significa “pôr diante”. a base da sua elaboração”. Op.”13 . por sua vez.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez. o estar deitado diante de algo. está ligado a uma inacção. O corpo é. p. ou. “Fronteiras do corpo. mas. “impedimento”. p.ubi. “objecto”. Revista de Comunicação e Linguagens. pois. Fazer sentido”. de um embaraço. Cit. precisamente. “Para Uma semiótica do Corpo”. ele sempre acolheu. A questão central está precisamente. a ser estudado (ou a ser operado. A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. marca de uma limitação. 13 Confirme-se em Maria Augusta Babo. próximos. de facto. “fincar”. manipulado. O corpo. concretamente a Ob-jaceo. por seu lado. contudo. Relógio D’Água. vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão. por um lado. o cravar as mãos em algo. pelo simples facto que ele é nós próprios). 255. O obstáculo. 2001. Maio de 2001. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. assim.

O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world.. antecipando assim.labcom. 14 www. Ellen antecipa. num outro sentido. de semântica do corpo.ubi. Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado. quase exclusivamente. 16 Confirme-se em Roy Ellen. New York & San Francisco. 344. ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo. 1977. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. diríamos de base antropológica. deixar perceber. 1985.pt i i i i . IN Encyclopaedia Universalis. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível. assim. por nesse alargamento. à falta de melhor definição. IN John Blacking (Ed.343-373. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. As limitações do estudo de Ellen podem. De facto. p. por exemplo. uma série de estudos. sintomaticamente relevante se se quiser. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen. Cit. numa antecipação que não é apenas intuitiva. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 .”16 . como se sabe. tomar o corpo como objecto de análise. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”. mas não deixa de ser relevante. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . The Antropology of the Body. mais do que de semiótica do corpo. Academic Press. os significados linguísticos do corpo. pp.i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de. desenvolvidos.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que. a Ellen interessa. London. por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo. em particular. O que Ellen desenvolve pode ser classificado. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais. essencialmente. Op. a partir da segunda metade dos anos 8015 .). Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. Paris.

que fazer do corpo um signo é.pt i i i i . Marin. Op. torna-se evidente que o corpo é. a um tempo. por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse. lugar de encontro. 9. encontramos Jean-Michel Berthelot.18 Num outro quadrante. 18 Cf. e de l’indice. 21 Landowski. Ibidem. como a linguagem não ganha corpo. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais. não só o corpo não ganha corpo. Cit. não somos capazes de conhecer. semântica e pragmática). p. instrumento e espaço de comunicação e significação. Recherches Sociologies. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena. indíces) da relação entre significante e significado. Eric Landowski faz notar. espaço de fronteira. A afirmação não é. 19 Cf. du signe. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo. plenamente rigorosa. contudo. Em Jean-Michel Berthelot. e no entanto. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística.labcom. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. op. 20 Idem. Certo é. antes ganha expressão ou significação.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu. no que diz respeito ao corpo. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. 1998/1. signos) ou analógica (símbolos. como nos mostra Berthelot. na sua elaboração.”20 De facto. demos já a entender um certo corpo através da linguagem.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se.ubi.“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. du symbole.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. no entanto. il peut jouer tout à la fois du signal. com pertinência. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. 17 www. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra. Em L. se recuperamos a classificação de Benveniste. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”. Cit. afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”.

De qualquer modo. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade.pt i i i i . um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar. reciprocamente. pp. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais. ao mesmo tempo. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. As figuras designam como que a zona de troca. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. admitimos que o corpo e. IN Invigilatata Lucernis. Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. em “linguagem corporal”. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”. importante. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. em “fôlego” da escrita e. um aspecto. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. os gestos “falam por si” e. mas igualmente. signos.ubi. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo. “Non Corpus. estando tuberculoso. por exemplo. seguramente. Assim. Há modos de ser no corpo. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. 7-12. falamos.labcom. em particular. quer a linguagem. analogias – é. do mesmo modo. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. 22. formas de significação não-verbal que. 2000. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. Estamos na presença de dois campos semióticos distintos. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente. De facto. então. sem o notar. estrutura.i i i i 92 José Bártolo corpus. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e. 22 www.

a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. o actual rumo da disciplina. não rasga. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 . sendo que a sociossemiótica não rompe. quer dizer.ubi. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”. e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). digamo-lo assim. há. Greimas. 23 www.59. mesmo que em traços gerais. reduzir. Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar. tal rumo parecenos.labcom. mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria. porventura. um organismo sem expressão nem fala. O laço que une a linguagem ao corpo é. excessivo. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas). antes desenvolve. a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo. Não há. p. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”. José Gil. autenticamente. Revista de Comunicação e Linguagens. a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. É. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos. “ O corpo. de resto. sem mais. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. explicita ou implicitamente.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. no 10/11. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. claramente. Ricoeur ou Fabbri. sem qualquer laço de linguagem”23 . constitutivo de ambos e actual em ambos. actualiza e redeCf. justamente.pt i i i i . da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal.

mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica. mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. Saussure. sema/soma. Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri.ubi. não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo.labcom. Mourão.115. nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. www. Na semiótica da última geração – representada. entre outros. Écrits de Linguistique générale. Landowski ou Marsciani . pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais.pt i i i i . o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. e o da tradição peirceana. corpo-semântico e corpo-carne. o da semântica interpretativa de Rastier. Parret. nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. traduzido pela figura do balão. Le ballon.”25 . et l’ hydrogène la signification. le suivre comme un ballon dans les airs. et l’enveloppe le sôme. avec certitude de le rattraper. c’est l’séme. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. de même que le séme est tout pour le linguiste. O corpo. Il est tout pour l’aérostier. Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. por Fontanille. Geninasca. Fabbri. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana. p. sans que le ballon soit rien pour sa part. b) Ancoradouro deíctico.

e) A semiótica do contínuo. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida. Rivista www. ). revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (.labcom. p. o devir. .1. reservando espaço ao acidente e às paixões. b)Uma revisão da sintaxe narrativa que. Pierluigi Basso. que se estende a fenómenos como a tensão. in secondo luogho perché si dipana. pressuposicional. . dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade.i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural. c) Uma revisão geral do processo generativo. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa. 26 IN E|C.”26 . se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto. il quale rimarrebbe in memoria nei testi.pt i i i i .ubi. un percorsso generativo dell’espressione. 2005. Gennaio. “Figure del corpo di Jacques Fontanille”. a agitação proprioceptiva. d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido.

ubi. A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva. devires. a partir dos mesmos instrumentos. já o dissemos. textos e corpos. tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos). pese as denominações diferentes. de analisar regimes de signos. Podemos tentar esquematizá-lo: www. imagens e gestos. é.i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum.labcom. uma intersemiótica (no sentido de Parret). o objecto de análise da semiótica. o discurso – verbal e não-verbal . de fazer análises semióticas dos discursos. antes de mais. quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. acções e paixões são objectos de análise possível. uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski). leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos.neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto.pt i i i i . O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. representa antes uma actualização da semiótica discursiva.

28 27 www. . a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão. corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. ou seja a intentio auctoris. devedor de Propp e Lévi-Strauss.). Reinehart & Winston. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”. e no entanto. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. 34. 132-33. Halliday. Holt.pt i i i i . 1974. o que significa. T. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). se se preferir. “captar ao menos dois termos-objectos. Como identificar. a semiótica de Greimas e. . 1968. Bach e R. Semântica. como mostrou Umberto Eco. 29 M.29 Como é sabido. A. da Escola de Paris. New York. a semiótica dos autores da “Langages” ou. IN E. “The case for case”. K. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. em oposição a estas duas perspectivas. Fillmore. na definição dada pela Semântica Estrutural. pelo menos ao nível da frase. J. IN Langages. de um modo mais geral. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 .labcom. Universals in linguistic theory. Para o ponto de vista hermenêutico. então. Greimas.ubi. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. a interpretação tem por finalidade.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. . “Le base fonctionnelle du langage”. Ch. Pág. Harms (Orgs.

e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. a partir daí. Com a competência modal e. o modo potencial.labcom. as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram. são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. As bases dessa reformulação. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. ou seja de programas narrativos. em Hjelmslev. acrescentaram um quarto modo de existência. que transformam a relação do sujeito com o quer. entre estrutura e função.fazer. Na semiótica greimasiana. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções. o dever-fazer. pela transformação de estado). como já fizemos notar. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. passo decisivo. consequentemente. na Semiótica das Paixões. em particular. Malinowski ou Nobert Wiener). a junção e a transformação. o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção. do sujeito e do objecto.pt i i i i . encontram-se na definição lógico-matemática da função. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson. como uma www. estamos em crer. com a modalização do fazer. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural). a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização.ubi. o poder-fazer e o saber-fazer. da função em enunciado. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer). mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. A estes três estados.i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e. Greimas e Fontanille. Define-se. de Benveniste.

Greimas. pelo dever. Paris. Fontanille. que determina o objecto (ou. No primeiro caso. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. “De la modalisation de l’être ”. quanto ao local de incidência: modalização do enunciado. melhor. 31 A. Greimas e J. intencionaliza-se. pp. diferenciam-se dois tipos de modalização. J. a partir daí. substituindo-se.30 À modalização do fazer. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. A. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. no objecto e repercute no sujeito de estado. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos. o diz verdadeiro. 1979. 52-55. Sémiotique des passions.pt i i i i .labcom. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas. 1993. deste modo. que recai sobre o predicado. II. Seuil. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado.ubi. para o encontro com o sentido. No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 . ao ser investido de valor. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. 9. modalização do objecto. Por isso mesmo. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que. que não o modalizado. relacionando-se com o sujeito.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer. No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos. seguiu-se a modalização do ser. determinam-se diferentes tipos de narrativas. 30 www. J. Des états des choses aux états d’âme. como dissemos. c) Como na modalização do ser. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer).

i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica.ubi. Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica. sobretudo. Abre-se. essencialmente. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. assim. desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. na instância do discurso. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. de paixões complexas. Distinguem-se paixões simples. colocada lá atrás. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado. “angústia” ou “ambição”. em que várias organizações de modalidades constituem. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser. Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. Por outras palavras. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. gradualmente. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto. ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. Numa segunda etapa. “medo”. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas. assim. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. www. é possível reconhecê-los como “amor”.labcom.pt i i i i . uma semiótica centrada. darmos resposta à pergunta. já no domínio das paixões. a semiótica foi.

bem entendido que toda a comunicação é. ela dá-se.labcom. os simulacros modais e passionais. passional. A semiótica dos humores. o que significa. o corpo-a-corpo original. patológico.ubi. intersubjectiva mas. contagiosa. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso.ricas.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação. também. A significação surge-nos como um processo. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto.pt i i i i . a analisar. por outras palavras. A precondição tensivo-fó. como diz Landowski. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó. de certa forma. passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva). em relação ao sujeito modal. em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção. c) Os simulacros modais e passionais.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável. www. que podemos designar por devir. não só. c) Finalmente. a semiótica passa a considerar.

34 Na esteira da Semiótica das Paixões. Cit. 34 A. (3) les orientations axiologiques.. No 3. Sémiotique des passions. 30. dans l’idiolecte. Como “motivo”. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso. vai Fontanille na sua semiótica da doença. Op. 100. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (. IN Protée. la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. a saúde.. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença. Greimas e J. Em todo o caso. Morin. Spoleto. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. “ Il discorso della salute”. 35 C. Pág.. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. a doença comporta uma outra dimensão figurativa. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal. Fontanille. Pág.pt i i i i . o corpo-sem-orgãos que a manifesta. relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. 2004.ana. “La Malaise”. 1991.).ubi. Quase sempre a doença é percebida negativamente. “en ce sens que. J. extraordinária.. No limite.. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba.) . 33 J.). Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille. permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise. 29 Ott. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”. e há sintomas de uma determinada perturbação. revelação tardia.”35 Mais longe ainda. isto é. uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos. dans le processus humoristique. anómala. ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 .labcom./01 Nov. Paris. 95. Vol. Seuil. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida. 32 www. fim de remissão etc. há sensações. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. Congresso AISS... Fontanille.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 . alerta.

i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. mais cês informations ont une forme significante. Fontanille. l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. funcional. O corpo-doente. por exemplo a saúde. Idem. a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”. do ponto de vista figurativo. o corpo-marginal. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. O corpo defeituoso deve ser reparado. é a de que a “éprouvé somatique”. Ibidem. a reparação normaliza o monstro. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé. prestável enquanto instrumento integrável numa máquina. desligação ). fazem funcionar. qui donne lieu à des représentations. Pág. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. O corpo normal é o corpo eficiente. como diz Fontanille. “La malaise”. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal. uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. é um estado. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. o seu corpo normal. é uma sequência narrativa. à des interprétations. enquanto que a manifestação “anormal”. aliás. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur).”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo.labcom.ubi. mais il est l’expérience intime. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”. o corpo são. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo. o corpo-monstruoso. por exemplo a doença. incubação. bem como o conjunto das nossas experiências sensorias.pt i i i i . apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado. o corpo-estranho. www. De facto. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. compreendendo. 2. que se compreende por relação com o corpo normal.

Pág.ubi.pt i i i i . um estado de alma. Jacques Fontanille afirma: “Certes. por sua vez. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. saturação). Ibidem. la santé se manifeste et se donne à ressentir. 3 Idem. www. et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. e. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir. morte). 40 Idem. como resultante de uma “tensão permanente”. um estado de coisas. a duração do estado normal. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. et le niveau dit du plan de l’expérience. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. por assim dizer. Ibidem. a par destes dois níveis de “funcionamento”. Ibidem. comme un état stable et durable. 4. à la différence de la maladie. où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. a saber o plano da existência e o plano da experiência. por outro lado.labcom. inflamação.”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. um nível fenomenológico. ocorrendo. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. le malaise. este não é mais fenomenológico do que aquele. e a anormalidade um acidente. correspondendo a um processo “multi-polémico”39 . quando as defesas baixam. Trabalhando o par doença/saúde. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique. Médico (corpo 38 39 Idem.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. desgaste. entropia. O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. e uma fase terminal (handicap. Do ponto de vista semiótico. ni même “symptomatique” ”. uma perturbação provisória. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”.i i i i 104 José Bártolo (infecção. onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. et qu’une illusion d’absence de transformations. comme une absence d’événement. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. Pág.

Pág. Ibidem. forças. le “corps-actant” du plan de l’existence. de certo modo. 2. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. Devemos considerar a existência de um corpo-actante. A existência de dois níveis narrativos: um. como um estado estável. A reunião dos dois num só actante.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. e.”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos. constituído por uma estrutura polémica multiforme. o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. estabilizar. o anormal (o monstro. que manifesta. 5. a partir de tensões de resistência. mas que é possível controlar.labcom. profundo e existencial. ataques e defesas em todas as direcções). noutras palavras. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive). le “corps-actant” du plan de l’expérience. 3. como unidade coerente da experiência. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de. normalizada.pt i i i i . constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. nesta perspectiva. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. Idem. a anomalia. perceber: 1. por embraiagem. Podemos. “le statut de l’actant change radicalemnt. por um lado. ou. por outro lado. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. superficial e experiencial. www. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo. em síntese. outro. definir. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. a resistência síncrona e controlada. e o corpopróprio. como um acontecimento perturbador e destabilizador.ubi. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. Ibidem.

num corpo unificado. a ligação do que. afinal.labcom.ubi. nunca esteve verdadeiramente separado.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência. www.pt i i i i .

enunciá-lo. 1 107 i i i i . Ibidem. pouco a pouco. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. notanbis rebus. olhar o corpo é. só conhece o que analisa e o processo de análise é. bem como a ideia. é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www. não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. de certo modo. o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo. por excelência. já. formulando aquela que se tornará.pt.2 A visão é um processo de enunciação. em certo sentido. para alguns institutos de anatomia. 2 Idem. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione. sempre.triplov. o semiólogo. a sua divisa. como o anatomista. mas porque a visão é. tal como o anatomista. A citação. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. a fazer dele objectos”. “Observa tio diuturna.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera.

a linguagem apresenta-a. sentida por de dentro.122. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem.ubi. Espaço. José Gil. a dor que eu sinto do meu braço. circulação sanguínea etc. em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. objectiva-a como coisa real tornando-a. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. Poder. a dor. O corpo é. há. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem. Fenómenos como o desejo. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem. muito mais. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. Corpo. – e zona de ressonância interna/externa. funcionamento orgânico. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. ao seu desmembramento – o corte linguístico é. aliás. antes. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve. através da linguagem no presente real. 1988.labcom. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem. www. Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. a um tempo. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. por exemplo. por exemplo.i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. descreve-o. um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo.pt i i i i . 3 A expressão e a ideia são de José Gil. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo. Litoral. corta-o. disseca-o. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . Lisboa. comparável ao corte anatómico. p. um laço intersubjectivo que liga. Cf. inevitavelmente. e que propriosentida. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise. passível de ser analisada por um médico.

. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular.ubi. Esta interpretação não é estranha. pelo menos desde Greimas. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido.. A representação não é. o “eu penso”. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita. pelo facto de se representar um corpo. ao operar Cf. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. Poder-se-ia. No 3. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. ser identificáveis”4 . ouço. o corpo e a linguagem devem. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. e não apenas algo representado. então. O corpo orgânico é. intercorporeamente. sob certas condições. Zilberberg. espaço feito. C. Língua e infra-língua. pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. É o corpo.i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado.labcom. “eu vejo” etc. a partir do m’eu corpo. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente. toco. pp 1-31. uma forma da representação. Quando eu penso. neste caso. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. Actes Sémiot. exterior ao representado. O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. Tal operação não é. “Modalités et pensée modale ”. de lamelas. vejo. aqui evocar Merleau-Ponty. A restrição da apresentação. relativamente ao corpo. à semiótica. desde logo. que se constitui. É pacífico. 1989. um representado que exprime modos de representação.pt i i i i . significa. IN Nouv. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior. 4 www. como diria José Gil.

Não é. Educ/Uap. por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”. Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. Estética.pt i i i i . determinando as posições do Tu e do Ele5 .ubi. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. 1997. IN Eric Landowski et al. ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social. un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. 7 Maria João Ceitil. um dos mais interessantes. No 17. IN Langages. 2003. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor. celui de l’expression. Cf. 1970. O corpo pode falar por ventríloquia. Semiótica. celui du contenu. comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne .”6 . Lisboa. o que. expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. 222. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. que temporaliza e espacializa. talvez não corresponda. quase biológico. associado à língua e ao seu uso social. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana. No Curso de Linguística Geral. talvez. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”.). et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. São Paulo. (Eds. Dizemos que o corpo fala. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. que o “sorriso comunica”. a dizer a verdade ou a mentir. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. tornar comunicantes os seus sinais. Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”. E.labcom. Estesis. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc. Benveniste. et l’autre. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. 6 Jacques Fontanille. ISPA. “L’appareil formel de l’énonciation”. 5 www. Pôr o Corpo a Pensar. Pág. Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits.

O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. sendo as condições desse fazer. quer no plano semântico quer pragmático. a semiótica do contínuo e das tensões graduais. A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo. em estruturas modais. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. e da estratégia.ubi. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. que fundamenta. isto é. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que. No entanto.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos.labcom. eles correspondem ao percurso gerativo da significação. indo. da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. permanentemente. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura. aliás. pode falar na medida em que ele é feito falar. por um lado. mais do que a partir da perspectiva da antropologia. que nos interessam aqui dilucidar. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. aliás. Se partirmos. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface. do contágio. buscar a Fontanille a definição. seguindo a proposta de Fontanille. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. www. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível.pt i i i i . por outro lado. designar por uma semiótica cultural. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi. em termos de estruturas narrativas. a semiótica das situações e.

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José Bártolo

Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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Corpo e Sentido

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
1 2

A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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não pode ser limpa.num corpus . o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim. para o gesto dos dedos que agarram uma caneta. O corpo aparece. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. no corpo vivo. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. 13. p. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”. mistura de visível e de invisível. A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. o seu sentido. então.labcom. De facto. sem falha. Analisar parece pressupor. No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. no plano da vida não há entre.sem fendas. que caracteriza precisamente o próprio corpo. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo. a própria vida. L’oeil et l’esprit. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta. que escrevem uma frase. do eu e do outro. Paris. a sua realização terminará no inventário de posições . 6 M. “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”. Merleau-Ponty. mas é a própria análise quem estabelece. mas que deixam escapar a continuidade. Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. ou umas sobrepostas ás outras. sem que entre um e outro hajam brechas. A análise não só quebrou a acção. como algo simultaneamente expressivo e oculto. as determinações e as fronteiras. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. que retomam a tocar o teclado . escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. Gallimard. mas. www.i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. há uma ligação. sob este ponto de vista.ubi. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre.que se dão umas na sequência das outras. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior. a imperfeição contínua.pt i i i i . et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 . 1964. “escrevo com a caneta”. de tocante e de tangível. também. por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. fendas ou falhas de sentido. de um modo não-natural. “agarro a caneta”. “escrevo no computador”. “ dirijo as mãos para o teclado”. interrompeu-a.

prefigura a tensão entre sujeito e objecto. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. apresenta uma noção de corpo. PUF. sentido o seu cansaço.xe. Greimas e J. distensões ou euforia.pt i i i i . de outro.i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado. Seuil. estamos a articular em descontinuidade e continuidade. isto é. entre este estar dentro e este estar diante das coisas. Paris.labcom. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. por exemplo. 1991. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica. 7 www. Raison et poétique du sens. retenções ou disforia e. Este conceito. com o seu sentido de “transporte”. De facto. eu estou dentro dela. deste modo. 8 Cl. Quando de um lado falamos em saliências. “passagem”. ou. à continuidade entendida como “paragem da paragem”. O próprio subtítulo da obra. A noção de perceber. falamos em passâncias. por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA. “dés états des choses aux états d’âme”. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. na expressão de Cl. Fontanille. sentido o frio. e impôs-lhe rupturas internas. p. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. escrita por Greimas e Fontanille. em semiótica. próxima da Merleau-Ponty. por oposição. uma “paragem”. cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. Des états de choses aux états d’âme. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta. respectivamente. define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia). A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. Perceber pressupõe.J. entre estar dentro e estar diante. Zilberberg8 .ubi. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. Ora o corpo. Paris. Sémiotique des passions. A Semiótica das paixões7 . Zilberberg. enquanto na acção.101. na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. “transitividade”.

ubi. Ibidem. Ibidem. Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir. Só conhecemos aquilo que vivemos. IN A. o acontecer do sentido. 1992. 231. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo. Pág. J. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos. São Paulo. a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. Idem.pt i i i i . Gallimard. Pág. C. Educ. Greimas”. 155. Phénoménologie de la perception. Merleau-Ponty. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós. 1995. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui. Greimas. isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 ..”12 M. J.labcom. Não há significação sem semiosis. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” . 12 A.. 144. dans ce contexte donné. Oliveira. elas prolongam um acontecimento.estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. Do inteligível ao sensível. pois. 10 9 www. eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. num caso como noutro. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 . sentindo-as. sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido.‘susceptible de’). deviendra un pathème réalisé (et non plus. que nasce do corpo próprio. “ Notas manuscritas de A. Pág. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent. uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído. 11 Idem. Paris.

o outro está ausente como referente.. inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. 13 www. situação com efeito extraordinária. Fragmentos de um discurso amoroso. assumi-lo. 29. 65. nasce uma espécie de presente insustentável. 16 Idem. 14 Idem. presente como alocutório. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . Cit. vivêlo. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. a “apreensão amorosa” em Geninasca. (. ) Sei então o que é o presente. Pág. 1988. Livraria Francisco Alves. isto é. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência. que me faz presente e a quem presentifico. Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. não é recebê-lo passivamente mas. 15 M. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto. . o presente barthesiano é o presente da enunciação. Rio de Janeiro. retomá-lo. como diria Parret. em ausência por desse outro.15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida. reencontrar aí o sentido imanente. ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”.labcom. por outro lado. . tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. simultaneamente. Ibidimem. de presença.ubi. Pág. antes. o tempo da referência e o tempo da alocução. não está a falar de matérias estranhas ao semiótico.pt i i i i . o instante em que a presença se rasga. estou bloqueado entre dois tempos. Op. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. Desta singular distorção. 299. Pág.”14 Se a relação com o outro gera angústia. para falar como Merleau-Ponty. Ibidem. Ponty. Barthes. no “intercorpo”. Ter a experiência do outro. dos santos.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. Tradução portuguesa de H. de encontro. não pode restar nada mais do que uma enunciação.

Landowski et al. Lisboa. em parte. o conquistada. IN E. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização.21 Eric Landowski. pero no armonía preestablecida. O instante do encontro é kairos. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz.labcom. “Sobre el contagio ”. uma pré-construção do encontro. 19 José Augusto Mourão. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. antes. expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo.ubi. na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . como de resto já vimos. aproxi.19 .. A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. Pág..”17 Por outras palavras. 21 Idem. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. Op. 2001. Paixão e Discurso. 18 17 www.. Ibidem. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”. tempo oportuno. circunstancialmente. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida. 117. uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro.ma-se desta leitura ao trabalhar. A intencionalidade do corpo próprio. 1996. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo. 278.. Pág. e na perspectiva da semiótica o que.pt i i i i . O encontro não identifica um “puro acidente” mas. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. Pág.. Sujeito. Instituto Piaget. Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun. 128. fundamentalmente. lo que.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora. reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. Semiótica. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . Cit. Vega. Lisboa. 20 Merleau-Ponty.

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reconhece-se a factualidade. quer a forma de expressão.”1 Quer a forma de contéudo. à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. A este respeito. Contudo o literal “factual” e o “representado”. que actualiza. lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet. reconhece-se a literalidade. au moins dans le cas où l’expression est linguistique.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. Minuit. 1980. compreende-se a figuração. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari. 123 i i i i . As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. il y a toujours une forme de contenu. Paris. por outras palavras. Pág. compreende-se a representação. Un régime de signes constitue une sémiotique. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. isto é. dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. de resto. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. ou. Mille Plateaux. 140.

carne. Por outro lado. “Explicar” é. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo. Ibidem. nada de estável permitirá a leitura.pt i i i i . tornado transmissível. a “intenção de dizer”. 1998. A compreensão é. quer o interior que vejo se. carne e cadáver. são necessários interlocutores. me cortar etc.i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. uma apropriação. Conceitos como. como objecto tornado compreensivel. assim. corpo sensivel. a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. numa relação de superfície/profundidade. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo). por exemplo. a parte e o todo. Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos. A sedução do real. Se o discurso se torna diaforia pura. É o discurso. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. isto é. aquilo e aquilo ( entre corpo. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. corpo-signo. 3 Idem. a que referimos o fenómeno. intersubjectiva e. que decide do “regime de linguagem”. em segundo lugar.”3 . de redução.”2 O semiólogo opera como o vampiro. por reconstituição dos estados intermediários. uma operação de estabilização.labcom. Literatura e semiótica. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade.ubi. 45. 2 www. Vega. quer a pele que a reveste. na perspectiva semiótica. corpo-em-vida. Pág. tornado acessível. isto é. já o dissemos evocando Umberto Eco. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. mas discursiva. por acidente. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. regularidades. o interno e o externo. Lisboa. então. por exemplo). de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo. Se tomarmos como exemplo. soma. são fixados por interdefinição. a geração. não é linguistica. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade. não a linguagem. Mas a linguagem também não existe em si.

tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber. Dupla semioticização.i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. em detalhe. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”.que. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. guiar o olhos. o facto descrito anuncia-se. sem que contudo se esteja já a interpretar. Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. explicar é fazer compreender. sempre. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras. estabilizar um sentido que previamente se construiu. Pág. tornar acessivel. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. A explicação tende. intimamente. então. Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. irrompe dentro da explicação . em rigor. também. www. a demonstração requisita esses olhar. não é possivel. Cit. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. isto é. e neste sentido. Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. é que o comentário “forja” a crítica e. corelacionando explicação e compreensão. assim. a ter um valor normativo. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 . Explicar é.labcom. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio. Apud. Op. que o comentário seja propedeutico à crítica. Mas demonstrar é.. semioticizar o olhar. no entanto. Envolve-se. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. do saber e do fazer. Não surpreende pois. A demonstração exige autoridade. explicando-lhes o que vem e como devem ver. Fontanille. por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. tornar compreensivel. portanto. chegar a compreender sem se ter descrito. inteiramente. 45.pt i i i i . Explicar significa demonstrar.ubi. José Augusto Mourão. a figura do comentador e a figura do crítico. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro.

isto é. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . Págs. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”. De facto. isto é por mim. a partir das quais. isto é. aquela pela qual. a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. Op. Mas como coisa-no-mundo.pt i i i i .ubi. funda vários representamen possíveis.. actualmente. podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras. como objecto. 271José Augusto Mourão. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. ela pode ser enunciada.. que toca o teclado etc. que tem cinco dedos. o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. 6 www. Mediações. “este corpo extenso que. mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue.”5 . Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 272. sobretudo a partir de Ricoeur. Sabemos que durante muito tempo. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica.. “My hand”. O que se visa é constituição de sínteses. 2001. é o objecto que. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos. Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente.labcom. numa medida identica. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil.. Cit. propriamente. a compreensão é um agenciamento da explicação. Lisboa.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. Como escreve R.”. A explicação é. 48. que a vivo como minha. Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação. Pág. por assim dizer. tais como “a minha mão”. O conceito da minha mão pode ser significado.é esse o seu ideal. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro. a explicação é um agenciamento da descrição. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer.

Pág.labcom. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. quando formalizado. 436 e segs. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie. na esteira de Max Weber9 . 1985. há sempre um resto. nunca se explica totalmente o objecto.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. Hachette. isto é. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. Paris. Editorial de la Universidad Complutense. gradualmente. 71. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão. nem nunca se compreende totalmente o objecto. Apologie du logos. O pensamento intuitivo. 95-114. 10 R.”7 A relação. é o paralítico da parábola. próxima da práxis. 503.”. 1968. 1990. entre “compreender” e “explicar” tem. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto...10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. 8 7 www. Pág. mas que não pode progredir com segurança. na palavra de Benjamin. fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é. que vê. Cf. Pág. c’est comprendre mieux”. IN Teorema. de um determinado querer-poder. quer a compreensão. 9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão. têm a ver com um querer-poder. Em certo sentido quer a explicação. no contacto com o real. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. Tubigen. O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. R. nomeadamente. Ibidem. que não a oposição. Por isso. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. 1-2.pt i i i i . Thom lembra que “o pensamento puramente matemático.ubi. dando-se sempre parcialmente na disposição.) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”. quando Rorty propõe a abolição Idem. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição. de facto. Thom. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. Otto Apel. Madrid. Veja-se. K. XV. Vol. Págs. porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. é cego. sido fixada: Apel8 .

para que ele se torne facto. uma morfologia.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. Or. Não haveria. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal. senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí. 14 P. Págs. “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”. demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre. O discurso é um acontecimento. igualmente. 98-110. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático. No desenvolvimento do projecto da PdA. Ricoeur. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. Para um horizonte semelhante nos remete. Pág. il n’y a pas de dire (. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana. Sans distance. como lhe 11 P. mas é “o sentido da vida”. o termo parole pelo termo discours13 . o que há são usos de um objecto. Paris..”12 . Ibidem. exige como sua condição de possibilidade. IN Revue de théologie et de philosophie. seguindo a proposta de Rorty. Idem. Págs. dirais-je.. 13 12 www. Todo o discurso diz o mundo..i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”. ou.pt i i i i . Idem. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual.) Mais sans le monde. 26 (1976). mais correctamente. Gisel. Ibidem. 223- 224. substituindo. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique.labcom. même appliquée à l’action. afirma Ricoeur. par-delà sa fonction mimétique. l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir.. Para que o discurso se dê.) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. no 2. Essais d’herméneitique II. 110. mais tout discours dit l’identité. il n’y a pas de discours (. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde.Du texte à l’action. 1996. um sistema. porém.ubi. Seuil.”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica.

labcom. Esta instance de discours. dizer mais. do um/muito. só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. aqui e agora. Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. O discurso exige “distância”. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer). A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. de que toda a existência é expressão. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. expressões de querer-poder. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. da àrvore ou do corpo. concretamente. que podem existir por existir distância. dizer melhor. enquanto actualização. um mundo que se perde. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www. há naquilo que se enuncia. mas o movimento continuo de um a outro. entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. de não suspender inteiramente a conexão”. portanto no campo tensional. O que Ricoeur faz é. da àrvore ou do corpo. A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. são. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo. a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore. concretamente este pedaço de mármore). A PdA é uma intensidade. como se o discurso apazigua-se o conflito. esta cerejeira. tensões.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação. que se constitui no acto discursivo. este corpo. o seu lugar enquanto principio do movimento . mostrar a tensão simbólica do discurso. fundamentalmente. mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). entre “apropriação” e “distanciamento”.pt i i i i . O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas.ubi. ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. o entrelaçamento. do ser-em-tempo. em todos os casos. isto é. A distância aqui é o resto. tal como o comentário ou a crítica são intensidades.

a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. mais compris comme sens. bem entendido. A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA. Págs. Tout discours est produit comme événement.Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. Daí as constantes indicações de Ricoeur. Neste contexto. como se lhe queira chamar. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. de uma 15 P. que a identidade da significação diz respeito ao discurso. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas. No primeiro caso. no essêncial traduz a situação. A PdA. na qual. Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [. isto é.. 33-34. informativa. un sens qui peut être compris.”15 .ubi. dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung]. ou função simbólica da linguagem. Como nos diz Greimas. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. mas representa o plano para o qual devimos. Seria esta referência em segundo-grau que.. o que quer dizer. Herméneutique. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo. Le discours est un événement -Sens.un événement qui paraît et disparaît. através da suspensão da referência imediata. enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res. uma linguagem recria um mundo e. nos daria conta da nossa própria situação no mundo. por outro.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens . segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson.pt i i i i . www. ou Plano Imanente. isto é. Ricoeur. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. directa. Ricoeur. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). por um lado.labcom. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro. Et c’est ce sens qui peut être inscrit.

em certo sentido a semiose. por um lado. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. quebra da époche. significa. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação. mancha. isto é.” Foi Ricoeur. ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo.”17 . precisamente. Pág. isto é. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo.labcom. 16 17 A. www. Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. Dictionnaire II. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. 13. nomeadamente. herdados do objecto “externo” das nossas sensações. sendo inconciliável como processos de époche. é. mas igualmente. ausência. Greimas e J.i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico). no tecido do discurso. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação). que em alguns casos. Como sublinha P.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). Greimas. Du sens I. ponto de encontro. Coutes. inscreve.ubi. O próprio Dictionnaire II. como já referimos. O Dictionnare II sublinha. J. 191. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo. a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico. A. a semiose.pt i i i i . aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira. marca. Pág. também é certo.

decorre. suspensa esta divergência. Precisamente por isso. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. uma crítica radical do método. A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem.pt i i i i . pertence inteiramente à semântica linguística. não do vivido ou do contínuo das expressões. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. de qualquer modo. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . É necessário o método para investigar a verdade das coisas. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”. isto é. Uma primeira resposta. de que o ser-corpo é uma articulação. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo.ubi. igualmente.i i i i 132 José Bártolo Porém. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. parece evidente que a experiência do corpo-próprio. A. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. www. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. fenomenológico. evidentemente. 138. é. que implica. evidente. Mourão. paixão e discurso. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e.labcom. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas. O estudo linguístico dos operadores e das marcas que. “reflecte-se” em expressões linguísticas. o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. O problema que aqui está é. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. Na quarta das suas Regulae. sensorio-perceptivo “dizse”. então. nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. para Descartes. antes de mais. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. vel quid ipsi 18 J. Pág. Sujeito. esta veritas rerum . Dito de outro modo. objectos semióticos. “mostra-se”. no seu hic et nunc.

A segunda regra identifica o método com um processo de limitação. porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida. De facto quer a pergunta . percebemos que a veritas rerum. H. New York.labcom. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta. verdade no sentido da objectividade dos objectos. isto é. 18. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (. Pág. Routledge. Ricoeur.”19 . Não é por acaso que S. Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est. que ela. dos modelos de análise fenomenológicos. H. London.. É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona. Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. por assim dizer. Pág. Du texte à l’action. 291. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation.”20 . isto é. 21 P. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. os objectivos que são. cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation.ubi. Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência. Husserl. Ao analisar o sentido da Explikation husserliana.pt i i i i . para Ricoeur. une explicitation qui déploie S. Paul Ricoeur.acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object. 20 19 www. Clark. Une évidence qui s’explicite. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar. o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência. Husserliana I. 1990. c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience.quer a resposta estão longe de serem simples. Porém.”21 Deste modo parecia inegável. Pág. a verdade das coisas é veritas objectorum.”.) sans en tirer toutes les conséquences. se objectiviza: “Expliciter.. non aliter enin scientia acquiritur. 23. isto é. por isso a terceira regra já fala de objecta proposita .

mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte. 64. Ibidem. Em relação a Greimas. na medida em 22 23 Idem. Pág. mais precisamente. neste projecto reconhece-se. na interpretação intencional eu posso falhar o objecto. Pág. Idem.”22 . como abertura semiótica: “(. convergência que. em primeiro lugar. Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. como se comprovará adiante. 25 Idem. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação. faz deslocar a questão do objecto para o sujeito.pt i i i i . Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 . paixão e discurso. 55. A solução de Ricoeur é. telle est l’expérience phénoménologique. Pág.ubi. ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria.labcom. 26 J. isto é. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text.i i i i 134 José Bártolo une évidence. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. no entanto. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. Ibidem. em sentido ricoeuriano. por outro lado.nológica. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo. afinal. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. 72. A questão da mediação é. mas nunca falho o sujeito. www. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. como sublinha Mourão26 . Ibidem. O que Ricoeur nega. Ibidem. como abertura. no sentido heideggeriano. Pág...) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante.”25 . 134. 24 Idem. para usar a expressão de Gadamer. Sujeito.”23 . Mourão. A.

ainda. num certo sentido o seu corpus.labcom. procuraremos. ancoradouro do sentido. nem sujeito. não como corpo conceptual. 27 Idem. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. Pág.pt i i i i . massa opaca ou hostil. 129.ubi.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo.). o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. sim este corpo situado. com a minha carne. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira. antes é condição de possibilidade desses corpos. ou um tronco). estas chaves etc. enquanto objecto não objectivável. em relação de desejo. em Ricoeur. que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”. com propriedade. Ibidem. Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. Assim a questão da corporeidade aparece. www. Tal crítica. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto. como questão central. de interlocutividade. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico. nem objecto. mostrar. ou como corpo objectivo dos anatomistas. de intercorporeidade”27 .

i i i i i i i i .

Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. precisamente. em determinar. Os seminários foram publicados. Editora Vozes. Seminários de Zollikon. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. Medard Boss (Ed. 1 137 i i i i . É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. Este problema-do-corpo. São Paulo.i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. bem como a analisar a constituição do sentido. no espaço e no tempo. bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. em Zolkion. Utilizamos a tradução portuguesa. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. Educ. veremos.). após a morte de Heidegger. a partir de aberturas corporais. Martin Heidegger. ou seja. por Medard Boss em 1987. 2001. R. O problema-do-corpo consiste.

Pág. o seu princípio simples é um princípio filosófico . Entretanto. Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável. isto é. excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples. Boss. mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas. o acesso constrói-se em círculo.pt i i i i . uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . Ora. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos..”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma. de alguma forma. uma prova científica das ligações psique-soma. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas.. só podem ser sentidos intuitivamente. clínicos. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit. é determinado pelo objecto. enquanto tudo o que é somático pode... pela soma e pela psique. isto é. Isto certamente é possível. Cit.). faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma.i i i i 138 José Bártolo “(. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras.como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação. 105. por sua vez. É evidente que. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis). equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica).o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos.) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. mas penetraria todo o organismo. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado. De facto..labcom.ubi. Tenho recebido censuras de que nós. Por outras palavras. Op. embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente. e o modo de acesso. mesmo provável. pois só estes são mensuráveis e a 2 M. O luto não pode ser medido. só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos. ser apreendido por números. ao contrário da pretensão de Hegglin. www.

onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material. pois. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. 106.”3 . mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira. Mas isto é uma exigência injustificada. ter o braço apoiado na mesa etc. www. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora). dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira. Ibidem. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui. ou está nesta sala. pelo menos não o faria tão bem). podia-se questionar. junto de algo.) É.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). Mas na verdade. o ler. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. em termos muito heideggerianos aliás. O autor [Hegglin] exige. Por exemplo. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. por essência. que a relação entre soma e psique seja mensurável. 3 Idem.pt i i i i . igualmente.labcom. o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. um estar-lá. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver. o meu estar-aqui. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou. Em relação a este problema-do-corpo. Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo. Pág. Eu posso dizer que. neste momento. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. pois não provém da relação dos factos em questão. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. mas por outro lado.ubi. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa.

quer o olho.pt i i i i . um copo com agua). medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas. pela medida do fornecimento de sangue.”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha. www. pombas. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. por exemplo. ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. que a mão pertencem ao meu corpo. As lágrimas só podem ser vistas directamente. por 4 5 Idem. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença. o puxador. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. nem outro.labcom. as lágrimas nunca podem ser medidas. De facto.i i i i 140 José Bártolo R. antenas.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade.ubi. Ibidem. o que é mensurável é a vermelhidão. chaminés. Idem. a impressora. Também aqui o enrubescimento não pode ser medido. por exemplo. Ibidem. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido. o candeeiro. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face. Quando se mede. o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado. mas não lágrimas. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra. O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho. o telhado das casas. porém. Posso. Hegglin. Tomemos em consideração. mas. o telemóvel. “vemos” no rosto de alguém se ele está. assim como o copo está na minha mão). mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. eu tenho à minha frente. as cortinas. o rato. embora sejam diferentes e diferenciáveis. constrangido ou febril. por exemplo. De facto. ainda. o hotel Tivoli mais ao fundo). por exemplo. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. Fenomenologicamente. pela febre. em virtude das relações psicossomáticas.

antes de mais. Porém. a chamada sensação dupla. o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). A aparição é. posso. representação. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta). “Aparecer” parece querer significar. constituem-se desse modo.das chaves. isto é. isto é. inclusivamente.destas chaves. neste sentido. isto é. o copo de água.) . esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. para sermos rigorosos. o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. se se quiser. aquela janela etc. não é um acontecimento da coisa . nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele. O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. a realidade (este copo. Quando algo me aparece . do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas. antes de me aparecerem . deste copo sabemos que são fenómenos. Das coisas . nem o meu ver e muito menos pega-los. a condição de acesso ao mundo. o mínimo denominador comum de tudo o que há. A diferença está na diferente subjeicção.pt i i i i . www. as chaves dão-se em estado de presença. o livro. assim.mas um acontecimento meu. mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla. A representação constitui. já estavam lá. À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador. na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. por exemplo . ao contrário eu não posso ver o meu olho. aparecem. a forma mínima de toda a posição. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo. não as classifica numa hierarquia ontológica.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão.aquelas chaves.labcom. o aparecer.ubi. que evidentemente já existiam.eu tomo conhecimento de algo. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. fenómeno. Ou seja. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão. o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. Ora. também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho. a impressora.

i i i i 142 José Bártolo A este respeito. a qual obriga em si a uma problemática especial. via Husserl. acha-se também marcada por essas direcções”. a grande viragem ocidental. Importa sublinhar.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965. a sua objectividade. Quando Kant fala em consciência pura. A objectividade dos objectos é a consciência. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo. no sentido de Husserl. refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis . Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. Como escreve Heidegger.. Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”. A espacialização do Dasein na sua corporeidade. consciência de si. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. está na intencionalidade da representação. em cima-em baixo.ubi. ou seja. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. Esta problemática que Heidegger identifica. contudo. em contrapartida. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro. mas um acontecimento meu.6 Toda a consciência é. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. www. 7 M. em rigor. que não existe.estas chaves ou este copo . o que. em frente-atrás).pt i i i i . da consciência de algo. ou seja. que Kant promove e que vai até Heidegger. mas não desenvolve. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. não se tem uma representação. Esta é a estrutura mais geral da representação ou. em Ser e Tempo procura. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. é orientada para algo.labcom. Boss. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. 106. portanto. Pág. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que. então desenvolver nos seminários de Zollikon. por exemplo. Cit. Heidegger desenvolve. em Ser e Tempo. Op. que não será tratada aqui.

labcom. É esta transferência que me permite sentir não o corpo. “este sou eu”. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. Ou seja. quer em Brentano.“estou bem”. enquanto toco com as mãos no meu peito.”8 . eu que toco. importante e difícil de determinar”. na fenomenologia. como lhe chamamos anteriormente.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador. 8 Idem. mas sentir-me. ao tocar. é o spatium. ou. Isto é. www. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo. Eu estou no meu espaço. portanto. no ver e no tocar. cap. são necessários os meus ouvidos. mas sou eu . então este modo-de-ser é o meu e.e numa factual . Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver. ele está envolvido no ouvir. O Corpo nunca vê o computador. por exemplo. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos). o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado. eu que vejo. Mas para este ouvir. naturalmente. Pág. “este é o meu corpo”. enquanto estava sentado nesta cadeira. por isso posso dizer. envolvido nessa circunstância. é o horizonte (grande. importante. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande. os meus olhos. Para que eu diga. o corpo. Ibidem. tocar. com as mãos no meu peito.pt i i i i . “estou mal” . foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala.sou eu que ouço. ver. vê ou toca. Estas operações de abertura são. portanto. O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço. os meus dedos e.i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. 114. mais correctamente.).“estou aqui”-.“o computador está em cima da mesa” . O meu corpo está. a minha afirmação . daí a resposta ser sempre qualitativa . O espaço é o aberto.ubi. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”. num espaço interior não localizável materialmente. no Livro IV. Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. O computador foi corporado no meu espaço. trabalhando em frente ao computador etc. isto é. o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium.

do que consiste todo o Dasein. ao perceber o copo ou as chaves. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade. não é. A identidade entre sujeito e percepção. quer em Heidegger. ou seja. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular.pt i i i i . pois.no sentido de Husserl . que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves. Por outras palavras. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro.ubi. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força. de facto. não definitiva. consciência de si. transitória e variável. antes. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo. Em cada percepção particular.labcom. Ao www. por exemplo. sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou . Eu percebo. mas não me identifico com essa dor. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. faz parte essencialmente do interior do existir. em que toco o copo. ou seja. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio. não significa porém. perfeitamente. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. como “o mesmo”. fundamentalmente matéria inanimada. de cada vez que eu agarro as chaves. permanente.a consciência de algo que. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira. a que nos referimos. representações. desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. em que as aperto. em Heidegger. significa eu corporizei algo. eu corporizo-me. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo. mas não sou o frio. sinto a dor na mão.

Então. precisamente. como de facto somos. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo.pt i i i i . isto é. ao morrer. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. em relação à totalidade da corporeidade. também poderíamos ser corporais. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. Graças ao mesmo 9 Idem. se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso. enquanto um homem viver. este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. pertencentes a ele. inanimado. Heidegger di-lo assim: “Por isso. Pág. a minha natureza. o alto do baixo. o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. a condição de possibilidade do copo. mas. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal.labcom. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis. é. a que Heidegger chama de Dasein e que S. porque o espaço do corpo (o espaço interior.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. aqui. na massa de um cadáver que decompõe. o cogito) corporiza as chaves e o copo. Tal observador. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. Por outras palavras. o spatium. aberto. na verdade. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material. a minha disposição corpórea. o humano é naturalmente corpóreo. 244. Heidegger identifica. Ibidem. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. Assim. como uma espécie de máquina complicada. Além disso. Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo. isto é. www. Agostinho chamava de Pondus. o esquerdo do direito. No entanto. existimos.”9 . seguras por ele. O peso do corpo não é mensurável é.ubi. antes.

que a porta está atrás de mim. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse). qualquer dado.ubi. um narcisismo da representação. mas o que se percebe é que existe. Págs. apresentar a mim. e eu mesmo não me represento especialmente”11 . qualquer sensação. re-apresenta-me numa nova abertura.labcom. se dá nele. a partir disso uma frente. Como Merleau-Ponty descreveu bem. isto é. Para Heidegger. Ibidem.pt i i i i . e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. porém. O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é. antes. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo. Repraesentatio = de volta para mim. torna-se de certo modo espaço. um atrás. Idem. Ibidem. www. primeiramente corporais tendo. 239. Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. antes de mais. organizando-o. Pág.”10 . permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. efectivamente. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente. consequentemente. “Re” = de volta para mim. Por outras palavras. qualquer percepção é reenviada a mim. constituindo 10 11 Idem. que eu estou cá dentro. Não somos.i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. sermos corporais. um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. 244-245. estar no aberto [Offenen]. que a estante está ao meu lado. etc. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. requalificando-o em relação ao seu pondus. que as árvores estão lá fora. etc. a corporeidade abre-se ao espaço. ou melhor.

labcom.pt i i i i . gerando uma nova intensidade corpórea. ou seja. www. se se quiser.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço. A abertura é devir. uma nova relação entre aqui e aí.ubi.

i i i i i i i i .

como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 . de Oliveira (ed. assim. a fenomenologia pontyneana). apenas. Não se trata.i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo.). Cit.entre a consciência e o mundo. Landowski. como vimos. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo. em particular. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade .C. Greimas toma. Dorra. Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente. exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer. Op. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e. R. A. desde logo pela presença do corpo. retomando.a inserção do homem no mundo. 1 149 i i i i . in E. a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”.

Págs. pertencem ainda os números. dos animais. Holzwege. análises sobre a constituição do sentido em acto. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. a relação com a realidade dá-se. a possibilidade do cálculo. A este antecipadamente conhecido. Frankfurt. Présences de l’autre. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P. 1950. matemático. sobre a lógica. num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida. sobretudo. esperienza: il caso della spazialità”. 59-60. Landowski. das plantas. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições.labcom. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 . Violi. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. 1997. por antecipação imediata. 4 E. IN Versus. 1991. A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse.pt i i i i . o que deles faz corpos. por contágio. do homem – a humanidade. o que faz delas plantas. È.ubi. dizem respeito ao procedimento lógico. isto é. “Linguagio. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença. Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. sobre o estatuto da reversão interior-exterior. regras de formação. o que faz deles animais. 2 www.i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica. PUF. Paris. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. 71-72. enfim. num espaço e num tempo físicos. 3 M.”3 . Os números. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. antecipadamente. Heidegger. percezione.

a presença do sentido. sobretudo a partir de Greimas. a presença sentida. Claro que se tornaria necessário. neste caso. no segundo caso. ao exercício de leitura que dele se faz.ubi. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto. como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito.correswww. pelo contrário. trata-se de uma apreensão. No primeiro caso. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou. pelo contrário. pela busca do texto.pt i i i i . pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. a que nos interessa aqui. A outra concepção. num determinado segmento de realidade . leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. para começar. igualmente. situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença.labcom. pressupõem um espaço de sentido. a presença com sentido. rigorosa. para usar a expressão de Landowski. programando. uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário. O termo designa. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída. O texto é de resto um objecto interessante. mais ambivalente. na medida do possível.i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. distinguir. verbal ou não verbal. quer dizer. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. A presença. na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. actualizado. o regime da sua leitura. Admitiríamos. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori. podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. o qual. Deste modo. há um discurso enunciado que preexiste.

também. corpo a corpo. se trata. www. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. ou seja ainda que as ligações.pt i i i i . de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação. pues.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo. (. cuerpo a cuerpo. Págs. entre si e a realidade. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E. Landowski. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. por conseguinte. Al contrario. tão fértil. paradoxais.labcom. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”. “Sobre el contagio”. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto. no entanto.ubi. el enunciado. Esta compreensão não é..i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem.. um regime de inter-subjectividade. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto. senão as substituibilidades e transduções. isto é. 271-272.samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto. porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia.

e noutra passagem. O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto. em Frege. com clareza. ele é antes de mais um limite do mundo”. No Tractatus. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos.pt i i i i . tal é afirmado. O Tractatus vai. ela é um “modelo” da realidade. Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). o que constrói e. pelo que o conceito de corpo-ancoragem. na posição de Ricoeur. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem. ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. mas de um modo radical.i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados. assim. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. mais facilmente. sobretudo. Aproximávamo-nos. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. Não há não-factos. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade. de identificação. uma determinada combinação de objectos é representada.” A bedeutung. O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico. a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode.ubi. era o valor de verdade. nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. enquanto ancoragem do sentido. mas existe www. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. e não que o facto tenha realmente lugar”.labcom. os factos como existência de estados de coisas. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen). não do vivido. um processo de focagem. A proposição descreve um facto que pode não se produzir. enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. se ele se produz.

A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição.pt i i i i . Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. eis aqui um método para isolar o sujeito. ele é um shifter. Lisboa. ou antes. não existe um único sujeito. deste copo) e não uma coisa no mundo. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação. um mundo possível. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. digamo-lo assim. o horizonte de possibilidade. Mas que sujeito? Em semiótica. isto é.ficação) entre corpo-próprio e sujeito. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. sabemo-lo. objectivado ou dado. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. ainda que as coisas sejam ou não. na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. o que Greimas procurou esclarecer. Modos da evidência. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves. A linguagem representa-se e. para mostrar que num importante sentido. uma abertura. precisamente.”6 . ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração.labcom. Qualquer discurso diria o sujeito. ainda não foi sequer plenamente tematizada. no enunciado. 1998. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”. no dado mas ele nunca é enunciado. essa potência de ancorar sentido. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. abstraídas as especificidades. na terminologia de Hintikka. Apud. Fernando Gil. uma disponibilidade. 69. co-dadas em toda a proposição. um em relação com o outro. mas nunca um facto. constrói. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. porém. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é. não há sujeito. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. nem psicológica. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto. O sujeito está sempre implicado no objecto. 6 www. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. o sujeito é. no presente trabalho.i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. ainda que também a presWittegenstein. como em Ricoeur. Pág. independentemente do que possamos dizer delas.ubi.

necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo.. Mourão. é o espaço do corpo. Para Sollers o ego é um tomar forma. Hamburger. Apud. a corporeidade. fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza. Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo.ubi. Ricoeur. como coisas no mundo). A. Il est moi existant. Logique des genres littéraires. aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo.labcom. 9 P. assim. 19. Paris. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. eu corporizo-as no acto de as enunciar. 64. na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). J. a sua incarnação. em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 .pt i i i i . nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. il échappe à ce couple de cointraires. Pág. paixão e discurso. Sollers. Pág.”9 . ni constituant au sens du sujet transcendantal. Paris.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 . 1986.i i i i Corpo e Sentido 155 suponha . não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido. no seu inconsciente. como mostra Michel Henry. 8 7 www. Le volontaire et l’involontaire.pois ele não é dedutível temporalmente . Philosophie de la volonté 1. que entre se dá pela experiência da corporeidade. Seuil. Sujeito. ele não está nem aquém. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia. 1988. Estabelecemos anteriormente. Aubier. Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. na sua sexualidade.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. Em Ricoeur. A situação do corpo. na sua deriva. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. Se a génese do sentido é sempre transcendental . K.a apropriação intersubjectiva implica.

corpo-próprio..) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être. O que levaria a concluir que toda a objectividade e.. (.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito. do mesmo modo.ubi. www.. está a situar. toda a subjectividade são “intersubjectivas”. Ponty. Cit. Op. 10 M. no lugar do corpo. nem objecto.. como o diz Merleau-Ponty “le corps (. do mesmo modo que corpo-material.)”10 . cogito e sujeito coincidem. carne e objecto coincidiriam.pt i i i i . Pág. 52.labcom. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”.. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância.

Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. das tensividades fóricas. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível.”1 . Fabbri e I. Versus. Pág. Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. 47/48. ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica. fundamentalmente. sobretudo. também. Affectività e sistemi semiotici. Esta advertência. estamos em crer.). “ Lettre sur les passions ”. Pezzini (Eds. 1 157 i i i i . enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. 167. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito. IN P. Le passioni nel discorso. das estruturas deícticas. Também Jean Petitot. procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. apresentava-se difícil de alcançar mas.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”. necessário de alcançar. 1987. dirigia-se. o tratamento das paixões.

pt i i i i . Perspectiva. Pág. aproximando-o. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. decisivos. www. nas palavras de Deleuze. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. São Paulo. Lógica do sentido. leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas. de cada vez. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf. O estruturalismo é. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido.labcom. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. 2003. ele é produzido. aliás.ubi. ainda assim. que as posições topológicas. muito próximo da leitura de Greimas. Estas maquinarias são. enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. são mais importantes do que essas mesmas coisas. que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são.”2 . sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação. definidoras de tipos de relação. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. Ele não é algo a ser descoberto. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. 54. A semiótica pós-greimasciana. Donde se poderia concluir. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. segundo Deleuze. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. A anunciação do sentido precede a sua enunciação. por vezes e como veremos. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. Deleuze. pensado por Deleuze de uma forma peculiar. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo. sem se perceber em que consiste uma estrutura. talvez. isto é. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. G. como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. Estando. operada pelo corpo-que-sente. espaço de atravessamento de devires. Tal anunciação ou.

4. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. 3. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. a este título. e. PUF. Payol.3 Confronte-se. De Manuel Francisco Catarino. e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. 1965. La psychologie et les structures. www. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades. determinada. Lévi-Strauss.ubi. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros.pt i i i i . Port.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial. uma como “significante” e. 1970 [Trad. séries. leiam-se por exemplo. É preciso que existam. 1974. pelo menos. Paris. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson. uma como “significante” e. a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto. 2. duas séries heterogéneas. outra. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. Paris. relações). Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. 1968 . duas séries heterogéneas. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. la recherche et le savoir. Linguagem e Estruturas.labcom. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura.]. pelo menos. Coimbra. como “significada”. outra. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares.i i i i Corpo e Sentido 159 1. determinada. Paris. Payot. Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. Greimas . como “significada”. Les structures. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. sobretudo. Livraria Almedida. as obras de Noel Moulod.

sobretudo as páginas 128140. leia-se a obra de José Augusto Mourão. então. Vega. emaranhado de encontros. coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito. tessituras. Para estas Sobre esta noção. Deleuze. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses. mais. é estar perdido. claramente. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 . 4 www. mas. Op. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. sendo que o devir tem lugar. Discurso. O corpo é. Fontanille. essa rede de semióse. Cit. 5 G. não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. ela própria um corpo e um “corpo estranho”. Lisboa. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. Na sua leitura da Filosofia Estóica.. o seu complemento inorgânico. estrutural. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. que se vem tornando central – graças a Coquet. Andamos aqui. lado. cruzamentos. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. Sujeito. Os acontecimentos são causados. Paixão. a rondar um tema.labcom. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. por outro. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. Percorrer a rede. na expressão de Uexküll. e a sua integração na semiótica contemporânea. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . isto é.pt i i i i . no corpo. como intensidade que o atravessa. sabemo-lo. Pág. Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. apresentada em a Lógica do sentido. mas também um produzido.i i i i 160 José Bártolo da significação. nas suas intermináveis correlações. 9. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir. pois a topografia da rede anula centro e periferia. A rede constitui.ubi. 1996.

Ibidem. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente.ubi.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome. nem rosto. aquilo. agora. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário. Idem. contudo. relações. 6 7 Idem.labcom. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”.ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição. pré-modalizados. etc. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito. Pág. misturas de corpos. há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis. Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. isto é. antes. Ibidem. como refere Deleuze. de indicadores (isto. Os desejos e as crenças são inferências causais. podendo. www. Mas. aquele. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”. são devires assemânticos. são singulares formais que tem o papel. quantidades. constituído por um corpo. 13. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”.). Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz. A manifestação apresen.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual. qualidades. como diz Benveniste.

“Sobre el contagio”. nem mesmo com as significações. Pág.labcom. por exemplo. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão. aliquid. Ibidem. 22.pt i i i i . 23. nem representação racional. nem corpo. da manifestação e da demonstração. Ibidem. 9 8 www. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. das representações mentais e dos conceitos lógicos. 274. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui. o sentido não vive fora da sua sensação. Pág.”8 . el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. 10 Eric Landowski. do vivido psicológico. Pág. Husserl distingue a expressão da designação. no sería posible aprehender el núcleo. mesmo que se deva considerar que o sentido circula. nem palavra. que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição. Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . instavelmente. entre “estados de coisas” e “estados de alma”. ou seja. pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos. nem representação sensível. Vale a pena voltar a lembrar. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura.ubi. Incorporal. aqui. isto é. el principio dinámico. e) Finalmente.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. Idem. na designação estóica. nem os conceitos. o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa. o sentido é o expresso. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando.

tudo integra. em cada enunciação. tudo instrumentaliza. não permite desperdício. uma máquina semiótica. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. www. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. também. um sentir sentido nessa enunciação. a sua lógica circulante.labcom. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular. Há. Ibidem. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. porque ela não permite fugas. 11 Idem. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição.pt i i i i . Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado. já o dissemos. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”. Por outras palavras. Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. 74. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. não os reúne. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido. A entropia é. tudo funcionaliza. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. que tende a gerar excesso semiótico. isto é.ubi. as características do plano. Esta fronteira não os mistura. Pág. como se fizemos um percurso. dizia Greimas. há sempre excesso. Para Deleuze a estrutura é. não dizemos o sentido. mas acontece às coisas. A máquina tende a gerar excesso semiótico. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. em que funcionaliza “estados de coisas”. da qual. Como diz Bergson nós não somos conduzidos. por outro lado. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. uma máquina de produção de sentido. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. por sua vez. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . Estamos condenados ao sentido. a sua linearidade. a sua lisura. em que os semioticiza. uma regressão indefectível. não permitem a irrupção do sentido.

articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. Edições 70. É em O Anti-Édipo. 37. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. IN Marcel Mauss. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica. www. Capitalismo e Esquizofrenia 1. tudo o que está fora da estrutura. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos.”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação. Ensaio sobre a dádiva. como dizem os fonólogos. Pág. um termo de grupo”12 . funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss.ubi. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. Lisboa. Só há real significante. isto é. Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante. “Introdução à obra de Marcel Mauss”. pois que ele vive dela. 2001.i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. A máquina desejante. Mas a máquina capitalista. da realidade significante significada no interior de uma linguagem.ções).pt i i i i . ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. O Anti-Édipo. Pág. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação. 44-45. não existe. Lisboa. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade. e não ser já. Assírio & Alvim. da máquina.labcom. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. modelo ideal de qualquer outra máquina. e impõem-na com toda a violência. mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível. 2004. com um valor simbólico zero.

também. é “consumado” como instrumento-máquina. por exemplo. etc. como qualquer engenheiro de produção bem sabe. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca. ainda e preferencialmente. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais.ubi.pt i i i i . num 165 www.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. alavancas. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes. pernas. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. mais correctamente. a propósito. A partir da sua acção o operário. lado a lado com outras peças e outras máquinas. instrumentos ou peças isoladas e que. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. chaves. como cortá-lo. a sua linearidade. tornos. mãos. isto é. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva.labcom. braços. “síntese conjuntiva de intensidades e devires”. c) Uma terceira síntese é. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. olhos. extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). Deleuze e Guattari dirão. troncos mas. também. do tipo: que fluxo cortar. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos. serras e as máquinasorigem. isto é. Trata-se de cadeias ou. para onde conduzi-lo. a sua lógica circulante.

14 Idem. entretanto quer em devir-mão. www. a tendência mais essencial do capitalismo. devir-máquina. 45. a desterritorialização do socius. pois.labcom. que é um limite propriamente esquizofrénico.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que. constituem.pt i i i i . peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. é intensificado para um ou para outro lado. Ibidem. paroxisticamente. Ele não pára de tender para o seu limite.ubi. devir-braço. devir-pénis quer. por outro lado em devir-peça. Pág. devir-fábrica.

qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. finamente.. que esta máquina também é. peça adjacente à máquina. claro.”15 Aos cortes . tapetes. já o mostramos. Ibidem. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. aquele braços e mãos. roldanas. ouvidos. Pág.pt i i i i . computadores. por sua vez.extracções seguem-se cortes . o corte-resto ou resíduo que. como dissemos. um corte. O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções.destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. partes extra partes.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina. define-se como um sistema de cortes. www. braços. 15 Idem. serras. olhos. ele é instrumentalizado. último (?) corte. tornos. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. 40. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e.labcom. podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”. etc. retira dele o que precisa. a este os olhos. mãos. por fornos. produz um corpo-instrumento.ubi. “Em suma. máquinas-boca.

pois. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças. para “re-aproximar. Evocando Proust. na viagem de comboio.ubi. 46. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia. mas que. nem uma unidade dos pontos de vista. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. era o que Joyce chamava “re-embody”. Assim. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente. que o todo é produzido. Ibidem Pág. Re-aproximar. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. que é produzido como uma parte ao lado das partes.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino. www. que ele não unifica nem totaliza.pt i i i i . nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes.”16 16 Idem. unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. reenquadrar.labcom. ao aplicar-se sobre elas.

esse corpo sem órgãos.i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783). esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano). Não há produção sem relação. mas. o corpo sem órgãos é produzido como um todo.ubi. que é o corpo da criança adestrada na atenção. antes de mais. que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). no silêncio.labcom. . O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano). que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano).pt i i i i . . um plano de relação. não uma substância. que visa produzilo semioticamente para o integrar. no seu lugar próprio. ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. no interior da mesma máquina que o produziu. José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. A palavra “relação” permite entender uma acção. O plano de produção é. (. no processo de produção. ) www. de cada vez. como peça sua.

que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. IN AAVV. com alguma injustiça. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia. espaço atravessado por fluxos intensivos. Guattari. de inúmeros discursos do corpo. o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise. Em particular. não que a visão deleuziana seja mecanicista. “ Sexo.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa. igualmente. Pág. 116. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas. permanecem desconhecidas . no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta .ubi. Metamorfosees do Corpo. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte.”18 . José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano. Pág. Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’. devires para os quais.Cadernos ISTA. 2003.labcom. Relógio d’Água. 17 www.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é.à sua aptidão para emitir e receber signos. 32. o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée. texto e corpo virtual”. O Anti-Édipo. 18 G. salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. 19 José Gil. Pág. no 16. Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. para os inscrever sobre si mesmo. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora. para os traduzir uns nos outros. O Enigma da sexualidade. convirá dar lugar de importância ao corpo. O proliferar. à antropologia. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas. sobretudo a partir dos anos 80. A expressão é médico-jurídica. José Augusto Mourão. Deleuze e F. das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram.pt i i i i .”19 . Lisboa. 9. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. 1997.

20 A conclusão de Pike é relevante. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour. espremelo analiticamente até dele sair uma expressão. criará um signo ainda mais amplo”22 . K. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte.. parece-nos. citado por José Gil. Op. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. Pág.pt i i i i . 22 Pierce. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo. Pike. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo. A tese da finitude de amplitude mostra.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico. não é quantitativa.230. pois o próprio corpo é “condutor” de significado. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos. Ora. A falha não é de amplitude (ou. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. transduções. 2. Foi o que K.ubi. Cit. essencialmente. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico. Pike tentou em vão. a qual. 38.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. L. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude. para além de signo. 21 Idem. Cit. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica. é condutor semiótico. tornando o significado escorregadio. opera circulações.labcom. 20 www. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução. mas por um permanente erro de paralaxe. L. A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum. ancoragens. reduplicações signicas. sem o conseguir fixar. tomada juntamente com o signo já ampliado. e visto que a explanação será um signo. Op. uma língua. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. se se quiser.. Ibidem. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. mas qualitativa. derivaria numa semiologia sobre o corpo.

Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. feixe de forças e transformador de espaço e de tempo.labcom. e o espaçotempo do corpo. Um corpo que se abre e se fecha. quer a semiologia.”23 Este corpo paradoxal é transformado. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. visível e virtual ao mesmo tempo. e no recolhimento da sua singularidade. 175.. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. um percebido concreto. as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. Cit.i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. aliás. o corpo fenomenológico (o de Husserl.. visível. Op. máquina-laboratório. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas. esvaziado. barras. Um corpo habitado por. máquina-igreja etc. Pág. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. mãos. www.pt i i i i . Deleuze e Guattari distinguem. No entanto. um corpo paradoxal. máquina-olho. corpos. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. um corpo que pode ser desertado.). impondo um sentido que ela própria construiu e que é.ubi. emissor de signos e transsemiótico. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. visando quer a fenomenologia. pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. uma diferença de regime. reversivelmente.. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. o não-senso. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível.): a energia. a máquina. não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas.. antes. (.. através do silêncio e da não-inscrição. digamo-lo de novo. roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida. mas como um corpo metafenómeno. Em suma.)..) e as máquinas molares (máquinas sociais. também.. deve anular o paradoxo. e habitando outros corpos e outros espíritos. máquina-ouvido do confessor e. celas. reversivelmente.

ubi. devir. ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 . Pág.25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. nas páginas d’A Politica. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration. ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. Para G. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. Un mécanisme. 28 Georges Canguilhem. Deleuze e F. ele próprio necessário pela sua própria perfeição. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado. . ). acrescentando que “enquanto artefacto.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. Paris. ) São portanto as mesmas máquinas. 67. onde o que existe é desejo. oeuvre de l’homme. Vrin. La Connaissance de la Vie. Pág. Ibidem. Pág. 295. 1990. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus. 68. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. Op. 241-242. Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. mas não é de modo algum o mesmo regime. produzida e produtora. www. Idem. . isto é. . a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles.i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (. La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. Terá sido Aristóteles. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. 27 Idem. J. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina. os mesmos usos de sínteses. Sahara. Cit. ao definir o escravo como uma “máquina animada”. L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (. L’esthétique de Gilles Deleuze. 102..labcom. 26 Mireille Buydens.pt i i i i . .”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. Guattari. Pág. as mesmas relações de grandeza. Ibidem. Pág.

Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble.ubi. La créature renvoie à son créateur : cause finale. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences. au cours de l’histoire des sciences inexactes. évolutionniste. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www. biologie et sciences humaines.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. et leur agencement respectif. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. chaque blastomère peut régénérer un individu. ils appartiennent à un monde dualiste. L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages. à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle. Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques.pt i i i i .labcom. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. moniste. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. comme chez celles qui sortent de la fabrique.

Braunschweig. Milano. 1877. “La Machine”.”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. no seu próprio corpo.1984. 296. “Industrial Design and Prosthesis”. 30 29 www. a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. No 96. Por outro lado. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. Pág. por um lado. muito presente. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo. Grundlienien einer Philosophie der Technik. 33 Adrian Forty. de passagens dos capítulos 24 e 25.ubi. Westermann. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. quais corpos mutilados. 1975) embora respeitando a tradução. publicado em 1872. como também não se consegue formar nem produzir.”)30 . aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . ou seja. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. esteja. como mostra Adrian Forty33 . espalhados pelos diferentes lugares do mundo. No seu Erewhon. Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle. estão delas privados. de facto. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações.”)31 .i i i i Corpo e Sentido 175 immanent. IN Ottagono. a escola. outro acolá. Seminário 06.02. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. 31 Idem. Samuel Butler. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres.pt i i i i . são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas. 114 e segs. ainda que essa visão protésica. mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. Adelphi. a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico. e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica. Butler Félix Guattari. Samuel Butler. Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière. o convento. mas diz que elas são. Pág.labcom. 32 Ernest Kapp. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo.

mas diz. que “em toda a cultura. As duas definições são equivalentes. Flammarion. há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . Guattari. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. quer vindas do campo das “ciências da vida”. microscópico. A produção. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem. como as de Raimundo Ruyer. também. Pág. evidentemente. ou que os órgãos são máquinas. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. A partir desta leitura de Samuel Butler. Paris. neste sentido.”35 Por sua vez. por maior que seja. no seio da molécula. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa. pelo contrário. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. Foucault. enquanto análise material do imaterial. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. 12-13. maquinando umas sobre as outras. 80-81. Com efeito.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. é. remetendo umas para as outras. bem como a ideia do corpo 34 35 G. que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas. como as de Foucault. 297. individual e colectiva. Raymond Ruyer. ao irromper no mundo da representação.pt i i i i . semiótica e política. depois do vírus. O Anti-Édipo. La genèse des formes vivantes. em particular de “máquina semiótica”. produz um corte radical.”34 Encontramos leituras próximas desta. assim. www. conservando a sua individualidade. Daí Foucault nos recordar. Deleuze e F. As palavras e as coisas. advertindo para o seu particular estruturalismo. à biologia. Vamos. económica e social.labcom. Págs. chegaremos então a um organismo que. quer vinda do campo das ciências humanas. A microfísica. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação. 36 M. é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos.ubi. devemos a Michele Foucault. depois da macromolécula. conduz. Págs.

como tal. a um tempo. isto é. Série Universitária. cozeu. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. ens. p. 1995. Hamann ou Kierkegaard). 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio. O Pensamento morfológico de Goethe. por nós. natural e artificial são opostos. a amálgama dos opostos. são noções de ontologia formal.pt i i i i . Maria Filomena Molder. 37 www. ligou. Biologia e tecnologia. enxertou. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. por muitos modernos (Goethe. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Como colocar. idem.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. no nossa leitura crítica da história do corpo. em particular. anteriormente usado.ubi. a identidade não pode ser definida”. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais. transversais a todos os Apud. desenvolvida no capítulo seguinte. então. Ao falarmos em corpo-objecto. num horizonte. nesse sentido. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . Estudos Gerais. de integração e produção. a questão da identidade ? Como a colocar. será retomada. Lisboa. deste modo. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. como foi aliás. a degeneração é. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade. bem controlada. Ele é. No corpo-tecnológico dá-se a relação. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. As proposições identitárias (tó auto. bem como a de Foucault. usado com valor operativo e cognitivo. A leitura de Deleuze. nota 87. lógica de controlo. que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional. “produção de sentido”.145.labcom. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos. corpo-máquina.

Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . O corpo enquanto objecto de estudo é. não há.mas essa é uma consciencia que.ubi. da compreensão do outro. Como mostrou John Austin. Quando descrevemos. do ponto de vista da sua validade. www. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva. como principal diferença. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. psicológico e antropológico -. Neste sentido. De facto se a iden39 J. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. cedo ou tarde. da compreensão do mundo . nunca um “ponto de vista natural”. Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade. na perspectiva crítica. o andróide. se perde. e no entanto. para um plano ontológico. o freak. um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. por exemplo. isto é. Pág. estamos a usar uma definição identitária operativa. O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade. marcados por uma relativa indeterminação.mas a sua significação própria permanece obscura. 241. e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 . com rigor. a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista . o cyborg. Cit.da compreensão de si. Op. para falar como Heidegger. estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”. ou seja. que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que. De facto.i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e.labcom. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. como o desenvolvimento do estudo. deste modo. Gil. como tal. também não há uma inteligibilidade plena do corpo. identitário. parcialmente. Quando identificamos o corpo humano. Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. do corpo. então. “mesmo”. ele apenas é.pt i i i i . não pode ser transposto. o corpo anormal. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”).

Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. está fora do domínio humano. através. o corpo cadáver de uma jovem. Aristóteles sublinha-o na Métafisica. A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. mas nenhum deles. de devir-outro. Jekill e no Mr.labcom. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. o corpo de um velho amputado. embora em permanente devir. sem que a identidae. o corpo de uma criança chinesa. de facto. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa. do principio ao fim. talvez. O corpo de uma criança loura. o que está em causa não é a sua identidade. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. sem dúvida. se altere . uma identidade segundo o logos. se coloca no Dr. mas que ela é. todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. mas a intensificação da sua identidade. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. ela permaneceu sempre como um transcendental. o corpo do terminator. de devir-hyde. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. do reconhecimento da oriwww. alterou-se a intensificação da sua identidade. sobretudo.ubi. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. de devir-louco. A história muito perturbadora do Dr. O mesmo devir outro. que assim se rasga. embora o número já não seja o mesmo”. o corpo de Bill Viola na água. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore.mas num certo sentido. o corpo do homem-elefante. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. o barco de teseu. É o horizonte de seres hibridos. Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro. São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. isto é. o corpo de uma mulher num filme pornográfico. quase-sujeitos e quase-objectos. o mesmo problema de intensificação da identidade. Hyde. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. mas todos eles são corpos humanos.pt i i i i .

a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema. dir-se-ia. é dominado pela imposição de objectivos. de objectivos de construção. procede da compreensão. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto. O carácter intersemiótico da análise decorre. a humanidade. do corpo tecnológico é um elemento fundamental. da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. Este carácter de fronteira. da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. na capacidade do corpo encadear o estranho. corpo de design. na expressão de José Gil. de ligação. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. Mas o devir é tensão. de relação. na medida em que é corpoprojecto. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia. a natureza de ser entre.labcom. com intensidade de tensão. corpo de patente. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). no ajustamento. É no encadeamento. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. cria flutuações. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. A relação. igualmente. não podem anular. que não anulam. do sujeito no seu devir-objecto. de limite. devir-outro. Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. inter. quando não a penetração. intemporal. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. Mais do que um significante flutuante. No caso do corpo tecnológico. Por outras palavras o corpo tecnológico. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. do corpo pelo artificio tecnológico. ajustar-se ao estranho. imagem do outro. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos.pt i i i i .ubi. fundamentalmente. dir-se-ia originária.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. entrelaçar o estranho na sua individualidade.

uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial. não-lineares e abertos. reinterpretativamente. estável. sem dúvida. then. Hermes V. faz deslocar. O Corpo humano passa a ser pensado ou. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. na biologia. o organismo como sistema cibernético. mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. Op.labcom. Pág. pelo estudos dos sistemas orgânicos. o orgânico e o inorgânico.. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado. mas pela permanência de operadores que articulam. 1980.”40 . impõe. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia. um sistema. como nota V. Kirby. 146. an unfinalized product of morphogenesis. Paris. pelo seu carácter central. 61. Cit. Ela caracteriza um estado. o vivo e o não-vivo. em particular. a congregation of heterogeneous materails and flows.”41 .ubi. em relação a um mesmo. M. marca-os de inde40 41 V. numa tecitura teórica quase interminável. Serres. Na leitura. em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. da qual. an infinite partioning. por exemplo. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. Kirby. Le passage du Nord-Ouest. Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. o humano e o não-humano. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. Minuit. construído. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. constroem. www. mais do que pensado. mediated from and within itself. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. sempre acutilante. Pág. “O nosso problema é a complexidade. mas também. de M. diferentes significantes e diferentes significados. the organismic body is being construed as an open system.pt i i i i . Serres. são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados.

isto é. de sistema. Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. Um sistema não é. deixar o espaço de combate. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. se chama. portanto. A esta complexidade. mas sou eu que constituo o meu corpo. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. Pág. como um sistema aberto. Ela não é um todo sintético. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. onde se levanta a poeira. mas uma multiplicidade sem partes (complexa). O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. a mão. a multiplicidade não o compõe. surge-nos como exemplo.ubi. linear. por exemplo. www. para conseguir ver. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade.i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. mas uma diferença de género. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade.labcom. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. um conjunto de termos ordenado por meio de. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes. regras dedutivas. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. define-os como abertos. a esta totalidade não sintética. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. propriamente.”42 . que o recupera na sua desarmonia. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. Não são. na sua assimetria. as articulações entre as falanges.pt i i i i . Ibidem. no seu desequilíbrio”. 22. bem entendido. o recurso à metáfora fractal. por exemplo. O sistema é. Um sistema é uma totalidade que. Qualquer visão maquinica do sistema é errada. enquanto totalidade. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro. A simplificação nasce da luta. pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. identidade e lógica combinatória prévias das partes. e constituinte da identidade das partes. indecidível. à luz dessa indecidibilidade. ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema.

É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. de cerejeira para ser mais específico. mas a madeira não é possível sem ela. a sua res extensa. naturalmente. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. que ocupa um espaço.pt i i i i . mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo. é operada por mim.). pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. como um corpo qualquer. uma viga que a percorre etc. Assim. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. nem a lisura. é claro que. assim. O meu corpo é. por exemplo. mas. uma extensão. opacidade. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). De facto. como que.labcom. esta folha de papel ou a minha mão. O corpo próprio. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. a partir do ponto de o constitui. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência. adquirindo relações definidas e concretas. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva. como nessa relação. nem uma determinada temperatura. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido.ubi. a folha. a cor não é extensão. como esta mesa. se “sobrepõem” à extensão. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã. pelo eu do m’EU corpo. possui. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta. De facto. por exemplo. e em primeiro lugar. uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. além disso determinadas cores e tons. O que chamamos de “corpo próprio”.

é redutível a um ponto. possibilidade de ser aqui e agora. a mesa não é. que não corresponde a isto ou aquilo . até ao ponto em que. a mesa não é a sua temperatura. um quase-nada. isto é. mas esta nesta mesa que se estende. a sua forma. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. em rigor a concretude de uma abstracção.ubi. por redução negativa. desta mesa ou da minha mão não é possível em si.pt i i i i . desta folha. pois. cada vez mais consistente.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade . aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso. também aqui. como interface entre eu e o mundo. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. a sua temperatura. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. A res extensa. informe . isto é. como a minha situação no mundo.i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. é. à afectação pela matéria). isto é. formas. uma pura abstracção. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações .a mesa não é a sua cor.a mesa não é a sua cor. A identidade vai aparecendo. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. que ocupa espaço (deixando revelar cores. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. a res extensa.não. a que chamamos ponto-centro da representação. todas as determinações nele identificáveis. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis). pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. etc. mas não é identificável em si. O corpo aparece-nos assim como interface.labcom. O corpo extenso é. a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. é a concretude da extensão. grau mínimo de fenómeno. na sua essência. de modo algum abstracto. a identidade da extensão. essa res. como negatividade. evidentemente. A “extensão” é em si uma abstracção. indefinido. o meu corpo.

189. rien à interpréter. o corpo-orgânico é um órgão do espírito e. un lieu. O CsO não é um corpo.labcom. é um processo que percorre o corpo. ni même un support où se passerait quelque chose. Deleuze e F. O corpo enquanto interface. dar o exemplo. não considerado. Rien à voir avec un fantasme. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. a atmosfera. dos olhos de um cadáver. para usara expressão de Kierkegaard. digamo-lo assim.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e. por exemplo. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo. inétendu.pt i i i i . enquanto tal. Deleuze e Guattari. nunca se acaba de chegar. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. o corpo interface revela-se como corpo orgânico. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif. www. Guattari.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação). é uma intensidade. representa um ponto-de-poder. não se pode chegar. para o ilustrar. enquanto pondus na expressão agostiniana. de poder no espaço e de poder no tempo. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. Le CsO fait passer des intensités. de estado de consciência. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. assim o vê Leibniz. muitas vezes. peuplé que par des intensités. está para o espírito como. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. assim o vê Kierkegaard. ele é um limite”. Pág. Assim o vê Aristóteles. Nos Mille Plateaux.ubi. que define. Mille Plateaux. bastar-se-ia. remete para a identificação do corpo como um órgão. Há. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão. Seules les intensités passent et circulent. Encore le CsO n’est-il pas une scène. Nesta perspectiva. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo.

do drogado. o drogado. mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo). isto é. para sermos rigorosos. O que nos diz. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. A experiência do paranóico. do hipocondríaco.ubi. desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. o espírito esquece-se do corpo. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. corpo orgânico.labcom. corpo animado. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e. quando somos orientados por uma disposição forte. quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. O atleta. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . Mas não é a apenas no paranóico. a explosão no homem-bomba). por sua vez o corpo agencia o espaço. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO.o hipocondríaco.i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. Sendo corpo-interface. como se fosse um Corpo sem Órgãos.pt i i i i . Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. como que nos esquecemos de que temos corpo. o paranóico. o bailarino. em noutro grau. Quando o maratonista está a correr. isto é num devir-CsO. por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. então. As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras. que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou. afinal. o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico. O que se está aqui a dizer é. isto é.

uma interface da visão. o sinal do seu carácter vivo . Pág. poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos.os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. vemos com os olhos . precisamente. um órgão. um devir.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. 44 Idem. tudo no CsO é uma questão de matéria. não um estado. justamente.vemos pelos olhos. Os olhos são.” Enquanto campo de imanência do desejo. o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos. de interface). www.pt i i i i . cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio).”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. o espírito. um corpo de pensamento no filósofo. isto é.labcom. A intersubjectividade é. isto é. géneros. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. quer dizer.ubi. de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. 188. por exemplo o frio do CsO drogado. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo. como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. os modos. isto é. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. o plano de consistência própria do desejo. Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface. de agenciamento da matéria. uma tensão. o dolorífero do CsO masoquista. o plano de consistência ( a omnitudo. mas ele é precisamente isso. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição . isto é. como vimos. 3) o conjunto eventual de todos os CsO. um corpo de saúde no doente. tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro. um limite. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). um corpo de afectos amorosos no amor cortês. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada. pura possibilidade de agenciamento. isto é. às vezes chamado de CsO). atributos substanciais. Como insiste Deleuze. Ibidem. as intensidades produzidas. O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer.

www. e sendo da ordem do corporal não corporado. é a matéria do devir.labcom. As metamorfoses do corpo. permeável a disposições. ela interfaciada. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície. 2. Assim rasga-se um horizonte-nú. tal como procuramos mostrar tal implica que: 1. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina.a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil. mas resulta de uma representação. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente. b)ao exterior. e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo. José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio. É uma matéria de devir. a parte traseira e a dianteira). Falando deste “espaço do corpo”. que é agenciavel. A relação com o mundo não é imediata. Pág. 75.) É um modo particular da totalidade. A matéria intersticial não tem espessura. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular .EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles . isto é. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina. isto é.pt i i i i .ubi. tensões. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”. isto é. ainda que. em particular o movimento dos afectos. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele). Neste sentido. plano de agenciamento possível. então. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. intenções. essa “matéria do devir por excelência”. o espaço do corpo. atrair a si todo o movimento do interior.”45 O espaço interior é. A relação do meu corpo a mim é orgânica.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras. disso a que Kierkegaard chama de interioridade. quer dizer de matéria do devir por excelência.

pt i i i i . um anuncio de mim. para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel. “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. sob a forma de corpo. Assim. naturalmente. O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes.de facto no momento do www. o mundo . no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo). muito menos redutível a uma máquina inorgânica. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que. Deste modo. pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação. isto é. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades .labcom. ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável.a mesa. a rua.ubi. assim. No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e. mas uma totalidade anterior às partes.i i i i Corpo e Sentido 189 branca”. portanto. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. auditivas. nesse sentido. e. O corpo não é. evidentemente. em absoluto. tácteis e olfactivas. o quarto. o anuncio do mundo a mim e.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. Por outras palavras. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro . uma mera soma ou articulação de partes. como se não houvesse corpo.

em vão. não calculável.pt i i i i . por isso. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo. Relógio d’Água. qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. como bem demonstra Hubert Dreyfus. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar. 58. porque. isto é. nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio. Acontece que o ciborgue não é. ou virar à esquerda sem roçar o passeio.o robot não tem conhecimento imediatos. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. alias os records procuram. O que Gil nos diz é que. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. quantificar . De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. representa um limite.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que. e o devir-barata.labcom. entra num processo de devirmáquina. com a realidade.qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. O corpo e a dança. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). como também a tecnologia encontra aí o seu limite. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. talvez absoluto. A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. Pág. www. mas igualmente um 46 José Gil. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. de um modo geral. que à força da repetição de gestos mecânicos. por exemplo. 2001. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro.ubi. da inteligência artificial . Lisboa. enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos.”46 . Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização. actualmente apenas uma alegoria. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. que ocorre no corpo. quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação. que nos levam. como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo. Movimento Total. O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio.

Quer dizer.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico. enquanto afirmação vazia. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. Tucherman. logo não biológico. a noção de devir.”47 . ambíguo. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos. Pág 157. abstracta. Stiegler. na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica. Op. impossibilita. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo. simples. não orgânico. Mas tal não acontece no plano da vida. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design. o que traz o imenso problema da identidade. não-humano..labcom. nega. Ora enquanto projecto. Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade. no âmbito da lógica. “mão” etc. o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano. de ter vários corpos simultaneamente... por exemplo.ubi. isto é. Apud. construção científica de um corpo artificial. por outro lado.pt i i i i . a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno. surgindo apenas como limite (como tensão para. o que. Cit. na afirmação “A é A” .. a identidade define a apresentação em evidência. De facto. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”. neste sentido. colocando um problema de identidade. um devir-si-próprio. o devir-ciborgue é perturbador. sem mediações. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. I. www. Se por um lado ele é uma realidade objectiva. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá. pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B. isto é.

“o interior da www. não abstracto. então a identidade seria dada a partir de fora.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável. a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. mas também cada perspectiva da minha mão. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva. isto é. O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. eu tenho da minha mão. a minha mão ontem.pt i i i i . A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos. O que acabamos de concluir pode ser expresso de. Eu. portanto. no plano da vida. enquanto a identidade do abstracto é imediata.labcom. como tal se excluem. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade. Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. “o interior da minha mão”. a minha mão a tocar agora o teclado. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança. “o interior da minha mão”. o interior da minha mão etc. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. a minha mão fotografada. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. lógica e não à noção de identidade que. Ou seja. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares.ubi. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão. pelo menos. da soma de cada uma das suas posições. a minha mão ferida. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”. não se podendo dar. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. “A minha mão ferida”.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. a minha mão vista numa visão microscópica. enquanto sujeito dos predicados. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. Pelo contrário. De facto tal não acontece.

de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo. também aí. de tecidos. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. assim. estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia.pt i i i i . Este poder de auto-referência é proporcionado. mas um acto discursivo. processos de produção de materiais. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo.ubi. no entanto. isto é. pelo conjunto de pronomes pessoais que. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. A diferença fundamental. www. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito. laboratorialmente pensado. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. tecnologicamente intervencionado. de próteses. Regressamos. como demonstrou Benveniste. o terceiro capítulo. como mostraremos. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. de órgãos corpóreos. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação.labcom. a uma ideia. indiciam constantemente a situação do discurso. não ter sujeito. um signo.

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para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo.Artes de fazer. A invenção do cotidiano . Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau. que podemos designar por procedimentos. afirmada pela família. 1975. difícil de delimitar. na escola. Editora Vozes. na igreja. para copular etc. a uma produção do sentido do corpo. Gallimard. As práticas sociais.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. no económico. no religioso. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. Estes procedimentos são. Petrópolis. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é. A experiência do corpo . quer públicas quer privadas.a experiência proprioceptiva. para comer. antes de mais. por sua vez se declina no social. no científico etc. como mostra Michele de Certeau1 . para dormir. 2 Michele Foucault. na fábrica. à sua semioticização que. no político. de um modo mais ou menos explicito. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. Paris. Surveiller et punir.) a experiência social etc – é. pressupõem sempre práticas corporais. envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. progressivamente. 1 195 i i i i . que estão na dependência de um conjunto. isto é. esquemas de operações e manipulações técnicas. 2003. Em Vigiar e Punir2 . no jurídico.

mas a própria análise de Foucault. centrando-se no século XVIII. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. técnicas. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. justamente. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. que o procura controlar. dominar. operários. Com efeito. produzir. Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. afirmado. mais ainda. Foucault actualiza. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno. mecanismos. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. que inverte. na ginástica flexível das suas declinações. por Foucault. pelo contrário. muito mais subtil mas igualmente mais presente. o que identificamos não é nunca o sistema. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. Tratam-se de detalhes tecnológicos. intrumentalizações. maquinarias. por eles se impõe um processo de www.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. na sua disseminação. funcionaliza. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. As análises anteriores.ubi. escolar e médica no começo do século XIX. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes. como biopoder. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar.pt i i i i . mãos e roldanas. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo. úteis à sociedade. educadores para os condenados. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. por castigos aplicáveis a todos. ele é. criminosos. as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal.labcom. o dispositivo. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. internamente. parece sublinhar a ausência: dispositivos. quer colectivo. doentes -. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. militares. a prisão. mas o mondo como ele integra. sexo e arquitecturas. processos ínfimos mas decisivos. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. no fundo.

analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. identifica. Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter.ubi. pequeno e por toda a parte reproduzido. das operações distintas. 274-275. na horizontalidade do plano. sem corte. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder. das técnicas. classificar. Ao espaço cortado. mecanismos. opaco.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização. falando de regras gerais. sem rosto nem lugar. anulador das diferenças individuais. feitas em Vigiar e Punir. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão. e. prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. corpos ligados a corpos.pt i i i i . torno. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas.discurso. 276. Foucault distingue. sem hierarquia. barómetro. sucede um espaço que integra. 3 www. 238-251. a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal.3 . por um lado. dos procedimentos. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver. de ler e de ser – uma semiótica integral. 28. corpos ao lado de corpos. separado horizontalmente. sem hierarquia. para usar a expressão de Michel de Certeau. procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. da continuidade do processo. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. umas “discursivas”. cadeira). aqui se menciona o elenco: Págs. ânus. 211-217. Numa série de descrições clínicas. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. dois sistemas heterogéneos. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. que transforma os corpos próprios. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. que domina a Idade Média. associar. 189-194. olhos. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto. em peças de um corpo social que os integra e significa.labcom. são inúmeras. das condições de funcionamento. mas o gesto. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão. por outro lado. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. 96-102. 106-113. pois. 159-161. 185. 143-151. distribuir. já não como na História da Loucura. formação discursiva.

ao estabelecer. Todo o poder gera princípios de ordenação. numa dada época e para uma determinada sociedade. ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. corpos que devem ser marcados. à margem. I – 1954-1969. singularidade-pura ou plurali. . . Enunciação e operação. fazendo deles o seu texto. é instaurada devido à necessidade. Gallimard. . É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. ) – os limites e as formas da apropriação (. 681-682. . mecanismos . . a descrição do arquivo. . o sentido do corpo e do corpus.i i i i 198 José Bártolo siva. . que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico. . 14]. o escravo. então. devem poder ser escritos (o exercício funciona. de Foucault. Assim fala Dromio. definem: os limites e as formas da dizibilidade (. . p. seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. Michele Foucault. que descreve aquela máquina e o seu operar.. www. procedimentos. não permitindo. Entendo o conjunto de regras que. afinal. Não há direito que não se escreva sobre o corpo. ). como o seu nome indica de maneira muito evidente. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular. nas transacções sociais. Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve. não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época. Lisboa. A própria ideia do “indivíduo”. corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial. . sentida pela justiça penal. como escritura) e lidos.dade-pura. 1994. 2005. . o direito apodera-se dos corpos. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese.pt i i i i . IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs.”. Dits et écrits. “Réponse à une question”. complexificando uma e outra. com um preço. Cf. São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social). ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “. pp. em ultima análise. Por esta palavra. enunciado. ) – os limites e as formas da conservação (. operações. discursos e mecanismos parecem. Do nascimento ao luto. de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. ) – os limites e as formas da reactivação (.labcom.ubi.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas.). . Paris. Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (. isolável do grupo. função enunciativa . Mas uma arqueologia: quer dizer.

Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. objectos. corresponde. e ela se escreve de novo nos corpos. 6 5 www. Michele de Certeau. a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina. uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”. Mas nos tempos de crise. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica. à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. ”5 . A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. ainda aí. também.. entre as coisas e o seu valor simbólico. I. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia. Relógio d’Água. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena).ubi. é por si próprio o juiz. The Comedy of Errors.”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos.i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink. 103.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. . 7 José Gil. III. tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). Cit. A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis. aliás. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. Op. . a única capaz de vincular o sentido. Pág. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados. da superstição. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). o papel não basta para a lei. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo. da religião.pt i i i i . Shakespeare. Pág. Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que. remete-nos. Metamorfoses do Corpo. uma transfiguração. por exemplo “respeita o teu superior”. Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo.labcom. 232. 1997. uma metamorfose do corpo. Língua esotérica e hermenêutica. Lisboa. 13.

A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. www. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito. em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. ao modelo do contrato ou da conquista. de vias de comunicação e de 8 Cf. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico. Rio de Janeiro. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. à metáfora da propriedade. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. o exercício desse saber-poder. o próprio objecto de análise. Págs. Foucault. enquanto premissa metodológica. M. no que se refere ao saber. em Vigiar e Punir. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. demonstra. dilucidando. de reforço. em particular. O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”. 1987. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. Editora Vozes. Assim. não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas. do mesmo modo. 24-29.labcom. Vigiar e Punir. Esta dupla renuncia.ubi. os seus recursos.pt i i i i .i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado.

sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer. 27.ubi. Pág. 9 Idem.i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber. em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais. www. é um “capítulo” dessa análise maior.labcom. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder. Ibidem. do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos.”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era.pt i i i i . talvez ainda por fazer.

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muitíssimo redutor. serve um sistema político. das cadeiras de tortura medieval. tensões. Do punhal de Sílex à guilhotina. O mobiliário de uma sala de aula. apenas. do funcionamento do jurídico e do judicial. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo. não são desenhados e fabricados à partida com uma função que. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço. por exemplo. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. isto é. Seria no entanto. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. Desde os instrumentos de escarificação. condição de possibilidade da sua actualidade. ordens que podem ser traduzidas socialmente. mas seria ingénuo não admitir que os objectos. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i . das algemas à pulseira electrónica. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. cadeiras eléctricas.i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. ordena o espaço (o estrado. Assim. de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. por exemplo. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. em menor ou menor grau. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. a maioria deles. Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder.

”. madeiras compactas. necessariamente. nem sequer com leveza. que não se há-de converter em moeda de troca. porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. AAVV.2 Numa passagem admirável. do material para o tendencialmente desmaterial. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador.. Centro Português de Fotografia. IN Murmúrios do Tempo. Porto.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. Cit.”. não. uma cadeira.ubi. remetendo de um lado ao corpo simbólico e. instrumentos curvos ou direitos. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. Cf. M.1 Os instrumentos particulares funcionam. É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto. antes ou depois do uso. 2 Falta. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. “Matérias Sensíveis”. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo. uma câmara de vigilância. 111. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que. recebem a sua validação funcional. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. de outro. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. conheci. do técnico para o tecnológico. aos seres de carne e osso. Michele de Certeau. à espera ou como resíduo. cortar. formam redes de nervuras. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não. Cf. desconhecidos. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo. mas também os articulam. de Certeau. 1997. Fica lá. não caminhar. isto é. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria. mas ainda estão ausentes. Pode ser coleccionada. Pág. 233. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. Op.pt i i i i . Traduzir esta 1 www. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca. por exemplo). tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. nunca. . escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. há uma evolução progressiva do duro para o mole.labcom. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. seguramente. nem sequer com cuidado. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. Maria Filomena Molder. por sua vez. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. p. Esses objectos feitos para apertar. Fronteira ofensiva. nem sequer em local de peregrinação.. envolventes ou contundentes.

Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. o desenrolar lento desse processo. que isola o corpo. do cuidado e do bem-estar. que isolam o leproso do são.ubi. 1203-1207. ainda que através de olhar sumário. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. já.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais. traduzir a subtileza e. Págs.labcom. o princípio de uma anatomia politica que disseca. da representação. leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. encontrávamos aí. todavia. e não mais jurídico. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia. 1967. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico. separa-o. “The historical roots of our ecological crisis”. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. simultaneamente. que se torna claro pelo menos desde o século XIV.pt i i i i . cientifica e economicamente os corpos. no 3767. Lynn White. ainda assim. Cf. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político. progressivamente. March 10.4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. Nessa gradação a carne converte-se. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. 3 O historiador Lynn White em artigo.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. De um biopoder se tratava já. nunca. justamente. veias. carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. Sem utilizar. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. a maquinaria médica isolao. uma desmaterialização. progressivamente em texto. Já revisitamos. ordenando social. o conceito foucaultiano de “biopoder”. quando a unidade de referência. IN Science. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social).

isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche.pt i i i i . Num texto sobre as técnicas de interpretação. em certo sentido. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que. Paulo. a partir da qual o corpo vai sendo produzido. pois. IN Michel Foucault. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. O corte médico – corte semiótico antes de mais. desde sempre. não terá porventura um significado menor. S. pelo menos. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. fundamentalmente. 2005. • Por outro lado. marca de uma intradutibilidade. a linguagem engendrou esta outra suspeita: que. o significado que “está por baixo”.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários. Landy Editora. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica. O facto.ubi. isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. Qualquer que seja a máquina semiótica. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser. de pelo menos na cultura ocidental. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma. O “corte” a que nos referimos corresponde. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. www. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal. Freud e Marx”. este seria de cada vez o significado mais importante.labcom. corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios. à substituição de uma máquina semiótica por outra. contudo transmite outro significado. expressão de um indizível.

aquilo que com isto se parece. Para tal. o projecto para a realização da tábua. ao semaion grego. Estas duas suspeitas. Isto equivaleria. Este corpus da semelhança estava.pt i i i i . grosso modo. as suas formas específicas de produção pela linguagem. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. certas afinidades electivas. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação. na filosofia da linguagem do século XVI. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. Assim. em grande medida. da semelhança. também. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. Talvez. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática. plenamente organizado. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica. a convenentia. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. quer dizer. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. então. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem.ubi. todo o tumulto que atravessa os corpos. Aí onde as coisas se assemelham. No século XIX a nova construção do corpo. na botânica. na filosofia da natureza mas.i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. as suas técnicas. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. as doenças. na anatomia. que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência.labcom. perduram ao longo da história. • A noção de emulatio. por exemplo. fosse o ajuste mais particular. faz-se. e que podia ser decifrado. numa ou noutra substância. dos humores orgânicos em medicina). o seu mapa autónomo da semióse. o seu sistema de interpretação. que nos aparecem já entre os gregos. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. como unidade mínima de interpretação. os métodos. como se dizia no século XVI. algo que deseja ser dito.

de bombas. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se. da função no interior da máquina permite a substituição. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. de alavancas. www. há muito que ele já era actual no plano económico. substituir. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. de filtros. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX).ubi. repara-se. modificar.pt i i i i . Alquimia. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. cortar. a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química. a noção de analogia. entre as propriedades visíveis de um indivíduo. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar. • A noção de signatura. a assinatura era. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos.labcom. assim. • Finalmente.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado). da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII). fabrica-se. acrescentar. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. sentido este que será substituído. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo. tirar. como para pensar o rosto humano. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. social e político. onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem. a imagem de uma propriedade invisível e oculta. que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas.

i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos.ubi. Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente.pt i i i i . www. quan. jurídico. a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar.do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria.). quer cientifico quer social. pela purga etc. mitológico) se transforma. Se o corpus textual (cientifico.labcom. a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas. próteses etc. da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei.

i i i i i i i i .

PUF. 2 1 211 i i i i . agenciado. em muitos aspectos. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). entre o organismo e a máquina. Paris. senão da obsolescência. Glimour e P. K. C. Canguilhelm. Gehlen. por técnicas sócio-politicas. a segunda. Gallimard. Surveiller et punir. 4 Cf. A primeira. nos anos 60. Mauss. no contexto social. trabalhada por Mauss3 . se serve do próprio corpo.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . o instrumentaliza. ser hoje confirmada por um processo. A tese da incompletude. Hayes (Org.). trabalhada por Foucault4 . parece. Paris. para alcançar os seus próprios fins. o orgânico e o maquinico2 . Foucault. por exemplo. Bonn. mostra como o poder humano. 1971. M. Naissance de la prison. 1975. 1995. G. Ford. e com elas Cf. Paris. Der Mensch. M. Seine Natur und seine Stellung in der Welt.. Vrin. Mass. O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. no contexto social. 5 Cf. 1950. Sociologie et anthropologie. se serve do corpo do outro. The MIT Press. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico. 3 M. por Canguilhem1 . o instrumentaliza. 1968. do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. mostra-nos como o humano. Athenäum Verlag. Android Epistemology. A. Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. plenamente em curso. da continuidade entre a vida e a técnica. La connaissance de la vie. Cambridge.

não é o “dispositivo científico”. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. p. 1997. Muitas das técnicas primitivas. Lévi-Strauss. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção.16. o laboratório. pragmática. gradualmente. ligadas por um 6 7 Cf. progressivamente. tecendo jogos de legitimação. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade.ubi. nos planos sintáctico. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. muitas vezes a par. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. que funda o “dispositivo tecnológico” é. semântico e pragmático. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft. A tecnologia. Cf. pressupõe a legitimação de uma prática. andróides. analysable dans les termes d’un système plus général7 . 5 de Janeiro de 1960. www. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é. aliás.”. condições de funcionamento do laboratório. Feltrinelli. A sua força reside. isto é. por outro lado. a tecnologia que funda. o design parece. afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . A construção semiótica e a construção técnica andam. por exemplo. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo. Não há tecnologia. 151. Maldonado. do design do corpo... Neste sentido. Por um lado. Lévi-Strauss mostra-nos. De facto. T.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos. C. A história da semiótica ensina-nos como. Milano. p. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. precisamente. Critica della ragione informática.labcom. ciborgues – reaparecem com uma força crescente.pt i i i i . como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. fundamentalmente. pelo contrário. quando há “alta tecnologia”. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. apenas.

O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza.pt i i i i . de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. ou seja. Un jeu de cordes. replicantes e ciborgues. do modelo definido por um Referimo-nos a C. 8 www. O boneco articulado é. 1. que nele desencadeiam processos de agenciamento. um corpo agenciável. que pode devir-morte. et les artifices du carnaval. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”. um excesso. aux becs de le dévorer. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . Genève. Skira. Na sua semiótica da máscara8 . neste sentido. a sua articulação e automação. vol. règnent ici dans leur primitive unité. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. 23-24. isto é. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. La Voix des masques. à semelhança do corpo humano que duplica. 1975 .ubi. Trata-se de um conteúdo formal. pp. Lévi-Strauss. A máscara é. de devir-outro. antes.” . um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum. Lévi-Strauss. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. modificada. A máscara é. devir-doença ou devir-fertilidade. são técnicas de intensificação do corpo. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. representa. A identidade não é alterada mas. gadgets e transformers. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo.labcom. Idem. 9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. Unique en son genre. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade. Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. aqui e sempre. um desvio à norma. um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. Cf. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. aux yeux de pleurer sa mort. Falámos de máscaras. em todo o caso. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens.

normalização sem resto. a produção técnica é. isto é. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário. as biotecnologias. a filosofia. semioticização total. quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina.pt i i i i . o cinema. de ser material ainda que tenda a ser. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático. Não haverá. no entanto. por outro lado. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. da mesma forma que o têm a economia. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. possuirá. sempre. retroactivos em relação à máquina que os produziu. de resto. necessariamente. as ciências do artificial e. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. a medicina. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. A biologia tem o seu corpo-modelo. da descodificação e o contrário. por definição. materializante. Por exemplo. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha.labcom. o seu corpo-monstro. a publicidade etc. a produção nunca é simples.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. se não existir a semioticização do erro controlado. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. No entanto. também. codificação absoluta. a produção não tem.ubi. mesmo. o design. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. isto é. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. De facto. sempre. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. apenas. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção. um sistema pré-cientifico.

10 www. Este excesso. Glencoe. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. porque o imaginário é. 1957. necessariamente.labcom. isto é. como sobredetermina na medida em que ela própria produz. por ela sobredeterminado. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material. nesse sentido. Cf. na banda-desenhada. Numa palavra. citar Parsons. um excesso semiótico. sobrecodificação. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser. mas também nos laboratórios. a este respeito. . T. Free P. em relação aos meios e. ) Um processo ou um conjunto de condições. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico.i i i i Corpo e Sentido 215 determina.pt i i i i . Parsons. nos consultórios médicos. que a partir de fora se façam da máquina. produção semiótica. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. O ciborgue. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. o que acontece dentro ou fora acontecerá. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo. . De um excesso se trata. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica.ubi.).10 A cibernética e. no Design.”. na literatura. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. essencialmente. dentro. as posições dentro e fora relativas a si e. por exemplo. à superfície e em profundidade. poder-se-ia. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. Essay in Sociological Pure and Applied. No cinema. também.. com proveito. determinará em relação às possíveis traduções. plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. nos ginásios. também. A deformação do corpo materializa o próprio excesso. nas fábricas. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema. por exemplo. Freud mostrou bem. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas. ciber-design etc. mais. nas farmácias. quer semânticas quer pragmáticas.

no entanto. para escrever: “O que testemunham. tal como Deleuze o pensou. A questão que se deve pôr. mais do que nos aproximar. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica . com os fluxos e as Ieda Tucherman. antes. circunscrições que demarcam espaço e movimento. devem ser inseridas e pensadas. interagindo e. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. são agentes de intensificação do humano. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. digital. Cf. não sucede nunca ao nível da identidade mas. em certo sentido. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. lobisomens. só podem ser pensadas no limite do humano. realidade e imaginário. Tendências da cultura contemporânea. ao nível da intensidade. entre-planos. São processos de territorialização.i i i i 216 José Bártolo constrói canais. Lisboa. a partir dos seus poderes especiais. homens-biónicos. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica). umas por relação às outras.01.1982. trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. 2000. sobre um regime de segmentarizações. e na fronteira. intitulado. analógico. Tucherman. integrando-os. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. In J. no seu limite. Bragança de Miranda e E. 157. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. entre saberes e práticas. p. muito bem. no 28. A alteração. Revista de Comunicação e linguagens. agenciamentos linguísticos.A. Os estados técnicos. 11 www. Relógio d’Água. I. é que as fronteiras não são naturais. No seminário de 26. os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar. anotava Ieda Tucherman11 . a construção de uma zona de troca semiótica que. “Entre anjos e cyborgs”. Prado Coelho (Org. e tantas outras figuras. Ciborgues.labcom. antes. instrumentalizar. Na abordagem da esquizoanálise. difícil de responder. digital são. do corpo como do pensamento”. são “figuras de fronteira” como.pt i i i i .mecânico. delas nos afastaria. as máquinas que funcionam. a ocorrer.ubi. analógico. aproxima-se do conceito de território. enquando incorporadores.). antes de mais.

entre o interior e o exterior do corpo. numa palavra. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. no 6. Edições 70. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui. Abbott Miller. Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço. 13 12 www. o corpo é. pp. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. a especializar ou a dissecar. semântico e pragmático. Lisboa. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. Se. operador.496515. o médico é também identificado como sujeito. finalmente os universos. Zone. fundamentalmente. sempre.labcom. ainda que aqui.ubi. máquinas semióticas e universos semióticos. A troca simbólica e a morte. tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. Assim. pp. territórios semióticos. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. do espaço doméstico. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo.pt i i i i . Incorporations. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. I.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações. é o estudo “Hygien. como temos vimos a afirmar. altera-se. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar. MIT Press. 1995. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard. 193-194. 1996. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. sob o signo da preservação da vida. e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas.

tecnologicamente motivado. 16 José Augusto Mourão.labcom. no interior do que Bruno Latour e M. Relógio d’Água. de devir-monstro. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. como sugere José Augusto Mourão. Fantasmas. uma tecnologia de reciclagem. do autómato. 15. ciborgues. ao computador.).i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . Para que aja monstro tem de haver. no corpo. essencialmente. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo. 2001. 1999. tradução portuguesa de Maria João Pereira. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. replicantes. 292. em primeiro lugar. “Hibridismo e Semiótica”. não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. Payot. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea. essencialmente. ciborgues. em segundo lugar. Paris. Sexe ey solitude. significações do corpo. prolongamento do corpo) é. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. 14 www. espaço de recobro. 15 Bruce Benderson. há no monstro uma tensão de identidade. Todas estas figuras – fantasmas. estatutos de significante e significado. p. 179. 1991. corpoJean Baudrillard. corpo-mecânico do século XVII e XVIII. Todo o real é residual. p. andróides. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão.pt i i i i . ao triunfo do fantasma puro”15 . Não será. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. p.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. algum tipo de reconhecimento e. anjos biónicos – talvez possam ser analisados. sempre. mas a sua actuação é. uma perturbação do reconhecimento. áreas comuns e de isolamento etc. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. O Campo da Semiótica. no sentido do mesmo Baudrillard. Relógio d’Água. Lisboa.bloco de operação. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. residual. ao mesmo tempo reverte e intensifica. uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo.ubi. Simulacros e Simulação. RCL no 29. mesmo na perspectiva marxista. Lisboa.

20 Ieda Tucherman. M. Bártolo. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors. p. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). o seu corpo. Duarte. C. Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. hoje. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. leur externalisation. No interior de uma cultura exo-darwiniana. Passagens. máquinas filosóficas. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos. a clonagem. et intelligentes. Vega. outro aspecto se destaca.”18 Anuncia-se o outro do corpo. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. classificando.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI. e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda. como lhe chama Michel Serres. 1999. certes. 2001. na segunda obra. 18 17 www. et cette objectivation peut améliorer les performances. a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização. falamos. Michele Serres. em particular. Paris.C. de pueril o esforço de forjar palavras. em aparelhar o corpo.pt i i i i . Corte-Real. in E. Breve História do Corpo e de seus monstros. a sua vida. Ceiade. como refere Ieda Tucherman17 . F.ubi. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética. o corpo no seu devir-outro. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. 52. 2003.labcom. Lisboa. veja-se J.o aumento das próteses. o corpo no seu devir-ferramenta. as possibilidades de vida em ambiente virtual . “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. 20 Lembremos. Hominescence. de um modo ou de outro. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde. a criação do ciborgue. que a noção de cyborg traduz19 . o corpo-outro. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. que colocam em questão o humano. Rodrigues. assurément. colocamos em cena o “teatro do corpo”. o facto dessas máquinas serem. Éditions Le Pommier. en des choses inertes. Senses and sensibility in technology. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico.

banalizado. experirir. segundo Heidegger. nessa abertura é dito e significado. hrsg. 77. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. no início. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo. pensou que havia que inventar novos termos. aguardam quem as desperte do seu repouso. os vocabulum emortum. como diria Bacon. p. A palavra experiência. como dizia Herder. por se tornarem inamen vocem. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. são palavras que anseiam por dizer. quando. Falar em experiência da linguagem corresponde. em periculum. September 1969). O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. na sua tradução mais literal. sonhos. 21 www. de algum modo. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome. como mater. Von Richard Wisser.ubi. Experiri é. da antecipação da linguagem. A palavra cyborg. de traduzir o pensamento em linguagem é. que também é mater. porque eles são a nossa permanente companhia. não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . torna-se abrigo de incompreensão. por isso. Verlag Karl Alber. deriva de periri. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. voz viva. Os termos são sempre os mesmos.labcom.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta. locução composta a partir de cybernetic organism. neologismo em língua franca. permanece fantasma. Em conversa com Wisser. corresponde à experiência do que não se sabe através. a travessia de um perigo. pois. dizer espectro ou dizer fantasma. também. A experiência de pensar.pt i i i i . a antiga força da árvore é recuperada. o que é imprescindível. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. Assim. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho. medos ou esperanças. entretanto perdido. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. que é matriz. Freiburg/München. ou convertido em abstracção. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. 1970. corresponde a esse que. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. que se acha.

2000. misturada. provém de uma experiência de reunião. 157-171. que. de fronteira. assim. da noção de limite. Lisboa. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto.140157. “Entre anjos e Cyborgs” IN J.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. é uma forma de antecipação. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. se deve perceber a sua natureza híbrida. do corpo como do pensamento. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. afinal.A. Cf. Bragança de Miranda e E. porque. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1. pela imagem e na imagem. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 . 22 www. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína.P: Coelho (Org. é reflexo da natureza da alegoria.1.pt i i i i . na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. sabemo-lo.labcom. como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites. pp.) Tendências da Cultura Contemporânea. enquanto [o pensamento]está no embaraço. do ausente e da coisa presente. Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. por excelência. no 28. ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes. Seria proveitoso traçar uma genealogia. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 . ainda que breve. que constituem “processos de territorialização. Revista de Comunicação e Linguagens. O limes é o umbral (limen) que. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver. Ieda Tucherman. I1. pp. do visível e do invisível. também. circunscrições que demarcam espaço e movimento. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 . em que a totalidade não é experienciável como todo. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado. De acordo com Benjamin.ubi.” Cf. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária. no Protreptikos. esse suplício que. do conhecido e do desconhecido.

Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos. 26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto. London.Bártolo. uma alegoria. através de uma interessante análise. (. O ciborgue não é. as well as the code of application programs. mais do que corpo-organismo. que pode ser expressa dizendo-se que. the electronic frontier includes workstations. a fronteira que o corpo coloca. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo.a de corpoprojecto26 . 1991. apertando o nó que nos abraça ao cadáver. 1996. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. é corpo-interface.i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra . Simians.. Durham. information services such as Prodigy and ComputerServe. apenas.labcom.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. num mosaico. unexplored territory.. and on-line databases. veja-se J. p. Routledge.) In a more material sense. networks and bulletin boards. íntimas e estranhas. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”. que se desenvolve contra as fronteiras. 2002. Cadernos ISTA. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast. presentes e futuras. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue. New York. mas por uma espécie de alteridade orgânica.”25 . 27 Donna Haraway.pt i i i i . Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman. Cyborgs and Women: The reinvention of nature.M. uma série de outras perplexidades. Anne Balsamo desloca. é um corpo que. no 13. o ciborgue. www. Duke University Press. E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico. 62. A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo. file servers. As transformações da experiência.ubi. na travessia de um perigo. in AAVV.

a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade.pt i i i i . questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. pela sintaxe. Tal como ao fantasma. Sparke. o perónio. o modo da sua dispensação aos humanos. Era Heidegger quem.ubi. pp. London. As armadilhas da espectralidade valem-se. este jogo quase de ilusionista. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. www. com o procedimento alegórico. Microcosmographia. M. de confundir thesis e pro-thesis. Martin Heidegger. o véu o cobre e descobre. 1954. o jogo da realidade. com razão. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. residual. como desvendamento/ocultação?”29 .26-27. Essais et Conférences. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente. Gallimard. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . Paris. original e réplica. Esta ideia de substituição. tem a ver. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura. eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre. jogo alegórico por excelência. por exemplo.labcom. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. por exemplo. um humano e um cavalo.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe. 930. em grande medida. 1631. seria uma thesis articulada a uma outra thesis. o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. p. O perigo de se representar o corpo como resto. Helkiah Crooke. de 1631. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. A tíbia. Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. directamente. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. digamo-lo assim. como aquilo que fica. Helkiah Crooke na sua Microcosmographia. para fazer.

mas a um “ver como”. também ela.”. caso a primeira espiritualização produza. Benjamin. a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada. 179.ubi. à partida um espectro.. engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. corpórea. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. .i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. o exercício protésico é. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. Etimologicamente. . Cf. um corpo-protésico. um fantasma do espírito e. Embora circunscrito. mas a um corpo mais abstracto do que nunca. mais ainda.”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. Paris. ou uma ideia. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 . W. totalmente revista). sempre. As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar. Synbolik und Mythologie der altern Völker. susceptível de ser descrito. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. Leipzig-Darmstadt. 202-203. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. exercício alegórico. enquanto captação imagética da semelhança. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. 1819 (2a ed. No caso da alegoria há uma substituição. Spectres de Marx. pp.labcom. outro. poderíamos até dizer. Apud. alegoria deriva de allos. diferentes dela mesma. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida. p. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”.pt i i i i . um fantasma do fantasma. Galilée. Não regressando ao corpo real. 1993. falar na àgora. Dito de outro modo. . foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. A origem. e de agoreuein. tal como Marx nos leva por vezes a pensar. Friedrich Creuzer. 31 30 www.

com a manutenção. o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. pelo abandono do dissemelhante. o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. as cawww. isto é. ao nível da intervenção protésica. As preocupações médicas. formado já não no interior mediante uma composição de nexos.ela é uma thesis e.” Corpo protésico. Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. tão-pouco. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . nem. ainda que persistindo como partes componentes. são preocupações sintácticas. corpo compósito. pelo impulso para trás. a sua presença abaladora.pt i i i i . a performance etc. com o perigo de rejeição. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces.labcom. como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado.ubi.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. têm a ver com a compatibilidade. os transportes. o que faz superar toda a simples representação como nexo. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico. a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica. tudo isto são alegorias. neste sentido. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. por mediação da série. Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que. que nos invade as ruas. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. se fundem numa nova unidade. ambas são concreções de um modelo abstracto. ciborgue.

representa.ubi. “A cyborg manifesto”. Cyborgs and Women. Modern medicine is also full of cyborgs. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . pura interface. apenas. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. de elementos polares. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão. A técnica. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes. desmaterializada. o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo. 2000. each conceived as coded devices.”33 . p. sem dúvida. in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality. Donna Haraway.i i i i 226 José Bártolo sas.creatures simultaneously animal and machine.pt i i i i . Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. IN Simians. “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. da hibridação do natural e do artificial. who populate worlds ambiguously natural and crafted. 149-150. quando não de fusão. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação. é a representação alegórica. ao tornar-se uma pele electrónica fluida. IN Hari Kunzru. Trata-se de uma nova carne. o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. E não se trata simplesmente de ideias. disfarçada. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. São Paulo.”32 . os corpos. Antropologia do Ciborgue. os sonhos. Mas o ciborgue não é. a representação alegórica. of couplings between organism and machine. neste planeta. aí. 33 32 www. Segundo Haraway. A estranheza do ciborgue. não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway.labcom. disfarçada. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis.

O ciborgue é um ser estranho. caos. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. o que lhes suceder efectuará o. loucura. Marcos e J. quer como atractor de inumanidade. literalmente. deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. O aparecimento do ciborgue. Revista de Comunicação e Linguagens. falta uma mão capaz de sentir nuances. como a Internet e a Realidade Virtual. na mão do Terminator. a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real.labcom. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras.ubi. Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg. Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman.pt i i i i . 34 www. parte do corpo. 66.à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam. apenas em parte. precisamente. 2002. expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância.i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo.L. mostra como potencialmente a humanidade do homem. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação. contem o germe da sua inumanidade. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam. configurada no corpo normal.”34 . a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição. A Cultura das Redes. saúde e felicidade (como na visão extropista). ao tocar noutra. de fronteira. Bragança de Miranda.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . O que faz do ciborgue um “atractor” é. Número Extra. formado. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. IN M. p. Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard . o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade.

probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”. Fingo). I derivati latini in-tura. Cfr. 365. por exemplo). Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações. rifatta su figulus ed effigies (Cfr. Paris. uma multiplicidade de conteúdos. “Rend. nos stoichea dos Estóicos.” Cfr. mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. Walde. Lateinische Grammatik . Leumann. muito fecunda de significação. ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr.i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. p. Trin.7-12 (Loc. M. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit. uma partilha comum. 236. postula compreensão por parte dos presentes. No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs. porca. Ernout . pois. 2000. Lomb. exprime. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch. 7). 22. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. 501-502. I. Frankfurt a. 36 Cf. “Non Corpus. Por outras palavras. München. 219. Meillet. 2-3). se se quiser. o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. significante sem articulações. 1976. Invigilata Lucernis. 247) sembra essere non figura. 277. 1974. com rigor. 35 www. Zellmer. porco. nas figuras de Hjelmslev. Prieto.” 108. V. derivato dal supino. para os latinos. Paola Aretini. pede passagem. sistemas com uma única articulação36 . I. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. exprime genericamente a cegueira. fêmea. homem.pt i i i i . Giacalone Ramat. La forma più antica. pp. 1963. M. Dictionnaire étymologique de la langue latine. de uma expressão difusa da relação homem-máquina). sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. s. Fingo. Paris 1967. Cit. PUF. Ist. Inoltre A. V. 1966. L. e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana. E. A.labcom. Die Lateinischen Wörter auf-ura. Dificilmente podemos afirmar. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. Heidelberg 1965. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala. P. A. ovelha. secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore.ubi. De facto há uma circulação de sentido. ma fictura attestato in Plaut. Messages et Signaux. s. A bengala branca do cego.A.

a carne. Este além-presença. Instituto Piaget. 38 Cf. por excelência. José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma. Babo e J. De decisivo. Mourão (Org. membros. Lisboa. 7. o território é. um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo.mais do que um signo objectivo . Ieda Tucherman é. no 29. o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo. p.o da além-presença ou presença-fantasma . tensões. Como comenta Eco “se não é um signo. A. José Augusto Mourão. um articulado. mas que se expande ou é passível de expansão.como nos Cf.).é um processo de devir e um processo de contágio. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . uma das suas figuras. próteses etc. ainda..ubi. obsessiva. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 .. comunicações. há todo um conjunto de circulações. será necessário dar-lhe um outro nome. do género dos quase-objectos. Teoria das artes e literatura. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. Col. ligações. não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas. apreensão estética em Geninasca. Eco. “Hibridismo e semiótica”. A. U. mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. p. Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . 2001. in M. De facto. circuitos. 30. é fantasma. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana.labcom. 37 www. aliás. Do ponto de vista do sistema. órgãos. Semiótica e Filosofia da Linguagem. O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é. a presença do ciborgue territoriza. a figura pressupõe uma presença. O Campo da Semiótica.). trocas e reenvios. É uma coisa que não é coisa (.288. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo). Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis.pt i i i i . além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. Revista de Comunicação e Linguagens. é a aparição. é figura. acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. mas num caso . que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. Maio de 2001.).

Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies. a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y. J.ubi. “Sobre el contagio”. aqui.acidente estético etc. tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. mais do que dada a ver.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. Coquet. 270. p. um não-sujeito na expressão de Coquet41 .-Cl. da figura de que fala Tucherman. enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito. 41 Cf. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. em presença para o sujeito começa a produzir sentido. A imagem de que fala Landowski aproxima-se. 1999. Harvard UP. de imediato.i i i i 230 José Bártolo outros . Klincksieck.devir-criança. provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado. a partir desse instante. B. Le Discours et son sujet. En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. y allí un sujeto. de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. 1985. apreensão capaz de.não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente. de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). O Cyborg está. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo.labcom. isto é. O ciborgue não é uma coisa. é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . Paris. p. não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. 272. pero como si no estuviera allí. cada actualização de um devir . en consequencia. de uma presença pura. Cf. é um quase-objecto40 . pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y. enquanto tal determina o sujeito . 40 39 www. devir-ciborgue . próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea. Cambridge.e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos. devir-pássaro. que convertida. nesta perspectiva.há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto.”39 . a distancia y como vacío de sentido. um espaço. . Latour. por consiguinte. Eric Landowski.pt i i i i .

posición.pt i i i i . que intensifica a própria identidade. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. aqui. uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto. www. igualmente. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue.experiênciar a morte do corpo . uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é. O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva. A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. a experiência de devir-morte. sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que. Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano .mas parece. a experiência da perturbação da identidade é aqui limite.e o seu efeito estranho ou anómalo . num processo particular de devir CsO. para a não rejeição interna da prótese. No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte.labcom. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. sempre.não transtorne a identidade. corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e.não o pode neste ou naquele órgão particular. decisivo. não o pode no organismo . para que a prótese . nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto. como ver num velho a jogar às escondidas uma criança. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. acordando a meio da noite. Um exemplo claro. é aquele que sucede quando. afinal.ubi. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue.i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo. claro que o corpo é superfície intensiva da identidade. isto é. como tal. nem pode ser encontrada no corpo . A mão é. a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo . isto é. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão.de esta mano -. um devir-outro.

”42 . Como a fenomenologia mostrou com clareza. Vol. p. como órgão-Corpo. Por outras palavras. “Sobre el contagio”. é.ubi. Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . a natureza humana é corpórea. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas. que é transtornado pela presença da prótese. Cf.têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação. Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu . Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. no 2. isto é. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. Agosto de 1949. Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. como lhe chama Deleuze. Lotz. 155. antes um “mapa”. 1949. sexo. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. como vimos.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente. A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares. manera. um tecido.labcom. Jakobson e J. a corporeidade não está no corpo. um órgão. Word. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. ossos. Eric Landowski. como indicamos. da propriocepcção. Nova Iorque.i i i i 232 José Bártolo ritmo. Una presencia inmediata convoca otra. quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo.pt i i i i .mãos. uma sobrecodificação. 43 42 www. olhos. Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão. 5. más distante pero que le responde como un eco. A prótese opera então por corporização a partir de si. orelhas. pp. ânus. “Notes on the French Phonemic Pattern”. próprio do corpo. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante. um pé. do corpo. R. pés. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz. 276-277. próprio da corporeidade. . ela constitui-se como Órgão-Corpo.43 Se a prótese se constitui. pele etc. corporizado a partir dela. É precisamente o plano da figuratividade. não é uma parte do corpo como uma mão. gesto). um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade. Ela é o ponto-central da corporização.

procurámo-lo mostrar. de velocidades diferentes. formalmente. Esses movimentos são movimentos de desterritorialização. ele mesmo desterritorializado. Como nos ensinou Deleuze de dois www. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. desligados. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. um plano não-humano. muito mais do que da sua propriocepcção. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. nem o último a se produzir ou a ocorrer. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. cozidos. A reterritorialização não pressupõe. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. expressão plena da sua corporização. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. ligados. implica todo um sistema de reterritorializações. E o mais rápido pode convergir para ele.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. contudo. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos. antes.ubi. sem sucessão de estágios. produzindo corpo e corporização. se conectar com ele. biocompatibilidade. A prótese não é humana. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada. por exemplo. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano. cortados. que farão do corpo um organismo. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal. etc.labcom. semelhança funcional. chamemos-lhe assim. o plano-humano. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. Uma orelha de Algimax não é humana. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado. Considerar órgãos sem corpo é considerar. em linguagem deleuzina. de uma mão humana por uma mão protésica. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais.pt i i i i . um lábio de silicone não é humano. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar.

tratava-se enfim. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial. o meu pulso. essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar. o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho. o meu ombro.i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado. www. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização. a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares . isto é. em regra. antes de mais. aliás. objectos. mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. ainda que permanecesse negativa.pt i i i i . modificar.mas de uma substituição. se se preferir.o que. o meu antebraço. a própria realidade. a minha clavícula. O artificial requisita o corpo e agencia-o. É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). a totalidade do meu corpo.ubi.labcom. por movimentos mais lentos. não de uma substituição interna ao organismo . dá-se a essa requisição e agenciamento. fantasiar. artificial. externa . Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta. É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização .dir-se-ia cirúrgica ou. O que se requisita e se agencia é. Podemos igualmente concluir que. polarizar. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos. no limite.como a substituição da pele que caiu por pele nova . seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. intensificar. enfim. logo a isolar.a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa. o meu braço. procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo. Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado.

pelo contrário. o que não faz dela. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica.i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. o passa a possuir. Ao designarmos este ou aquele corpo. facilmente. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais . pode afirmar que a tomou para si. como quem fecha uma porta. como quem sitia uma cidade. então. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. concluindo-o. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. de conter. a sua economia própria.em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. apresentar. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. São estes dois momentos que procuraremos. Cada corpo pres235 i i i i . em síntese. Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. de encerrar. De algum modo. não permitiu desenvolver. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha. podemos estar a suspender ou a cingir. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar. um elemento menor no interior do estudo. ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo. como quem toma algo para si e. O que é.

sempre e de cada vez. Cybernétique et Société. investimentos de máquinas desejantes. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente. 1. meta-máquina. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. naturalmente. através de palavras. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. por máquina semiótica. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. Mas tal não significa que quando falamos em máquina. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós. dissemo-lo repetidas vezes. Autonomie et Connaissance. Todos esses corpos. semióticos. aberta por Nobert Wiener44 . 1984. o objectivo é explicitar o sentido. Galilée. “representados”. 1-20. investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. máquina semiótica. como retroactivos. gestos. nem valem todos o mesmo. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior.pt i i i i . Paris. “lidos”. ambos. as concepções sistémicas mais recentes. processos de devir.ubi. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. pp. 45 44 www. 1998. nem prestam. componentes semióticas. a partir da aproximação mecânica. afectivos e sociais. Os corpos não são. um organismo. Paris. narrativas. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. “L’hétérogenèse machinique”. Mais próximo de nós está. mas também “escritos”. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. “interpretados” e “discursificados”. são susceptíveis de serem “enunciados”. PUF.labcom. componentes de informação e representação individual e colectiva. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas. Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. cognitivos. A noção de máquina interessa-nos. IN Chimeres. a perspectiva cibernética. Francesco Varela. isto é. de algum modo convertidos em corpo-objecto. pelas suas ressonâncias técnicas. intensificações.i i i i 236 José Bártolo supõe. proposições. actos de linguagem. componentes orgânicas. contudo. mas todos eles têm um sentido. Para a semiótica. 46 Félix Guattari.

nomeadamente. Pág. a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. 4. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. parece-nos. antes de mais. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. Em todo o caso.pt i i i i . a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou.”. em vários momentos. Dynamiques du sens. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente. Em primeiro lugar. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida. Vale a pena. igualmente. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. Wigley mas. que se encontra expressa. que o que se fez foi passar. isto é. ao contrário. antes. a propósito. P. tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. se nos detivemos. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido. citar Per Aage Brandt. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá. Brandt. um breve esclarecimento se impõe. O que se pretendeu fazer foi.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. nesse estádio. no primeiro capítulo. sobretudo. no terceiro capítulo do estudo. A.ubi. Deleuze. Aarhus University Press. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. se possível. isto é. 47 www. relações. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido. o seu funcionamento. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando. do corpo como objecto de design total. 1994.labcom.

Simondon e uma série de outros). antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”. que dispõe. 48 www.”48 . Por outras palavras. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. An introduction to logic of the two notions. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. numa passagem. corpos em devir-cadáver. em que funcionam como paradigmas. Corpos em devir-monstro. Gille. neste sentido. pág. Heidegger. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. Canguilhem. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. Sabemos de J. em poucas linhas. Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses). dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos. corpos em devir-máquina. 1964. Neste sentido. Austin que dizer é fazer. aliás.i i i i 238 José Bártolo também. o corpo de referência é o cadáver. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. Knowledge and Belief. não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação.L. Como entender esta afirmação? Ela não é. corpos em devir-texto. Cornell University Press. seja no sentido de Austin (How to do things with words). Assim. devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. Dizer o corpo é fazer o corpo e. Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. Jean Baudrillard.ubi. 138-139. familiar aos semióticos. Por um lado. seguramente. já citada neste estudo: “1.labcom. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes. Ithaca e London. que produz. por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir. que intensifica.pt i i i i . Para a medicina. Jaakko Hintikka. repita-se.

da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. nem código. Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. nem fantasma director. Edições 70.”49 . 3. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é. www. 1996. a ser isto ou aquilo. porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. nessa polisemia. a diferença irredutível que os nega. . o que não acontece nunca sem resistência. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais. fosse a resistência do corpo que se manifestasse. ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e. ao mesmo tempo.labcom. uma máquina produtora. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo.pt i i i i . como se. numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla. Para o sistema da economia política. Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. antes de mais. 193-194. . O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. fazendo-agir a sua permanente produção. nem tipo ideal. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. carne a ser trabalhada. numa outra posição. 2. também. outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. a objectivar-se. O corpo como vala. 49 Jean Baudrillard.ubi. processos de transformação do corpo num corpo-outro. Para a religião. sob o signo da preservação da vida. é a extrapolação da produtividade racional absoluta. Lisboa. Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento. e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal. também ela. Pág. resistência do corpo a significar-se. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas. A troca simbólica e a morte. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”). I. o tipo ideal do corpo é o robot.) (.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. enformada.

naturalmente. o que deve permitir. deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. por Hobbes. A figurativização pode. Pág. no entanto. o semiólogo) são também operados. identificar um operador. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. tal como ele foi apresentado por Greimas. a história das suas modelações e produções. fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. de cada vez. desfigurações.pt. conduzir a uma certa iconicidade do discurso. de-monstrações. mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas. no seu Leviatã.labcom. Na perspectiva do percurso generativo. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo.”50 Cada olhar refigura o corpo. foi necessário esperar por Norbert Elias e. nas suas palavras. não há nunca um operador. Uma análise da história do corpo. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido.ubi. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica. produz uma sua determinada refiguração. na política. na economia. Porém. do corpo. editado on-line em www. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. descrita. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico. identificam-se. na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões. 3. Uma história do corpo. em França no século XIV. onde os operadores (o anatomista. mas. o padre. em Itália ainda no século XIII. antes sistemas de operação.pt i i i i . “O Corpo que vem”. www. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. isto é. refigurações. Michele Foucault enquadrava o momento em que. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. Numa conhecida entrevista.triplov. verdadeiramente. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. sobretudo. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado. em parte. A semiótica do corpo. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará.

chama Foucault de arquivo. tratamento e reconstrução. abrindo os corpos cadavéricos. o que estava ante nós. que possibilita tal revolução. eliminá-lo pura e simplesmente. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. IN Enciclopédia Einaudi. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. Antropologia e Sociedade. INCM. uma reverberação. 2003. Papirus Editora. objecto de análise. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. a partir daí. deixam entrar. correlativas ao contexto semiótico.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica. Cesare Segre. Estruturalismo. 152-175. São Paulo. 52 51 www. 53 David Le Breton. 30. AAVV. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII. provavelmente. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se.ubi. pela incisão.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. Lisboa. Lisboa. o que nos sustentava no tempo e no espaço. uma espuma. de fazeres e de poderes. e o que nos atravessava profundamente. na expressão de Cesare Segre52 . mostraram que o “sentido” não era.pt i i i i . O grande instrumento de abertura. Visão técnica e laica da ensomatose. Antologia de textos teóricos. s/d. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. atingir uma pureza técnica. radicalmente. de modificá-lo. Uma fantasia implícita. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. mostramo-lo. Tentação demiúrgica de corrigi-lo. estrutura que funciona como o normativo do dizível. no 17. a organização epistemológica da cultura medieval. É como res extensa. para controlar essa parcela inapreensível. Portugália. da própria discursificação. Págs. mais do que um efeito de superfície. 17. era o sistema. Pág. Tradução portuguesa de Marina Appenzeller. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. “Texto”. de seus limites.labcom. Adeus ao Corpo. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição. Pág. definindo as condições de possibilidade. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade.

do teatro anatómico. Daí ser importante. produção semiótica. os alicates. do laboratório. se praticam dissecações. a determinada altura. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. introduzimos.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. definirá o operado. ocultamente. “apurados”. por exemplo. as pinças. um sentido idêntico. como mostramos no terceiro capítulo. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www. também. mais importante. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. uso instrumental. parcialmente. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva.pt i i i i .ubi. Tão importante como escalpelo é a mão ou olho.labcom. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas. Regime semiótico. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. fazendo do cemitério onde. revelam a importância de uma nova lógica instrumental. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. também eles instrumentos que devem ser “afinados”. O operário moderno. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais. para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. produção artificial e produção técnica adquirem. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. uma análise da história e da filosofia da técnica. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo. “máquinas instrumentais” complexas.

ao longo da história. os vela. mas concomitantemente.ubi. 54 www. Nos seus estudos. agora. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado). Bojana Kunst55 . De Baudelaire à Benjamin. Paris. o ensaio de Bojana Kunst.pt i i i i . O artificial paralisa. petrificam ou são. por assim dizer.). Galilée. devemos aceitar que qualquer corpo é. à força. os reveste. sempre. La raison baroque. num sentido próximo de Walter Benjamin. materializa o poder estabilizador da norma. “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. 242-256. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. discursificado. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. tal imposição. também. IN José A. uma produção marcada por uma certa artificialidade. tende a suspender. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos. leva-nos a admitir que. tensionado pelo seu funcionamento. cortado. os cinge. à nossa formação de imaginário. na medida em que. que os inter-liga funcionalmente. Págs. nomeadamente. 1984. vejase Christine Buci-Glucksmann. nem sem o sistema.labcom.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . como dizia Greimas. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e. A análise sobre a existência de máquinas. Crítica das ligações na era da técnica. Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. 2002. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. portanto. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa. Lisboa. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. a Agipa. a imobilizar um sentido. às nossas práticas. é o seu verdadeiro limite operativo. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro. para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. Nesta perspectiva. 55 Leia-se. que o ser humano prolonga o instrumento. Tropismos. se o sentido se nos impõe. tem mostrado como. atravessado. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. de resto. podemos extrair. como que fundidos com o metal imóvel.

245. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. Cornell University Press. As núpcias de Cadmo e Harmonia. pelo menos. 99. as máquinas não têm nada de misterioso. reinterpretando as suas imagens. o devir-outro. reestruturando os seus discursos. seja uma faixa ou uma ligadura. sobretudo. 353. de um modo também gradual. contudo. sendo que o modelo científico vai. Bojana Kunst. reflectindo. Pág. “É o aviso de que o que existe.”57 Tal passagem não corresponde. entre essas duas lógicas. núpcias. a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). Os corpos não se mantém por si próprios. por si só. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico. Lisboa. Ithaca and London. semioticizando o modelo antigo. Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. de um modo geral. Pág. o que acontece é. Machine and organism in Descartes. como um projecto. O véu é o outro. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia. 57 56 www.i i i i 244 José Bártolo gas. Cotovia. cada vez mais. Spirits and Clocks. 1990. a partir do século XV. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. aparecer e desaparecer”56 . reorganizando as suas ligações. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo. Cit. uma gradual coexistência. veremos que no livro de Caus. seja uma palavra ou um gesto. ser permanentemente coberto e descoberto.. mas. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento.ubi. 2000. Op. não se mantém. que exige. que os produz. A emergência Roberto Calasso. Pág.labcom. sacrifício ou morte) exige um véu.pt i i i i . antes. que os enuncia. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). para lá do véu não existe mais nada. Verdadeiramente. o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. 58 Dennis des Chenes. cheia de corpos imobilizados e despedaçados. que os discursifica. na natureza.

o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução.A. ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . mecanismo que. caracteriza a identidade categorial e analógica. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley. sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano. Summer 1998. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. “Whatever happened to Total Design?”. como abstracção da guerra.labcom. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador. mas antes pela categoria moderna do biopoder. como entidade simbólica. o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. que projecta arquitecturas em devir-templo. no quadro do poder-soberano. então. pois. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no. aprendemos de Foucault. sistemas de objectos e interfaces.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. no quadro do biopoder. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus. como bem mostrou P. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. no 5. dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. a partir do século XIX vamos assistindo. progressivamente auto-referenciais.ubi. Leviatã. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design. em devir-fortaleza ou em devir-monumento. Brandt. que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia.pt i i i i . In Harvard Design Magazine.o individuo. por um design total59 que projecta objectos. Da alegoria para o projecto. quer de um SoftDesign. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www.

anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação.pt. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe. Mas. na metáfora da propriedade. www. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação.ubi. sabemo-lo tão bem e. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. ainda assim. mapeamento. objecto por excelência. então. tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. até onde foi possível suportar a humilhação. lugares que evitamos. e que vão continuamente regimentado a vida. e que se renuncie.interact. uma espécie de meta-cadáver. a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia. neste sentido. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. no que se refere ao poder.labcom. Normalmente. com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. Sabemos.i i i i 246 José Bártolo terior. Não os esquecendo nunca. Há. de dissecação. O ciborgue é. nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. que se defende que não existe ciência sem técnica. ao primado do sujeito).pt i i i i . Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz. rizomamento. Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault). enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos. por sua vez. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”. por isso. Em Vigiar e Punir. jamais o saberemos. que se renuncie. no modelo do contrato ou da conquista).com. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. no que se refere ao saber. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento. mal o sabemos. até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma. problematização. Com os regimes modernos. pelo menos desde Francis Bacon.

que nos permitiria. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento. os discursos devem ser “limpos”. e mais precisamente. progressivamente. que se manifestam na diversidade dos espaços. desde já. além da esfera dos discursos propriamente ditos. fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. ainda. ser prevista. como sabemos. Ao longo do nosso estudo. da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. o espaço de trabalho. a título de exemplo. estamos em crer. fomos. de reforço. problemática politica no sentido mais amplo do termo. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). e de uma teoria da enunciação. uma nova ampliação da problemática pode. isto é.ubi. da manipulação intersubjectiva e das estratégias. correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos. Recordemo-nos. os operadores. a uma semiótica da acção. A leitura que. os gestos. tal investigação deveria. ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos.labcom. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. capaz de abarcar.pt i i i i . o conjunto das práticas significantes não-verbais. www. 60 Michele Foucault. uma matéria moldável (um corpo-objecto). alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. então. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . uma importante tradução histórico-politica. dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. fomos também. “higiénicos”. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. Pág. de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. “assépticos”. Vigiar e Punir. Ao longo do nosso estudo. como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. Nesta perspectiva. 27. ou seja. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). identificando uma série de possíveis percursos de investigação.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas.

As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste.ubi. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido. François Rastier. o gesto instrumental. Da ética. em particular. de um desenvolvimento que possa. refere-se a um campo que. o gesto técnico. J. 1979. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. 7. no entanto. Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. se revelarem. 1951.i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. . Segundo Medawar. Pág. Práticas e linguagens gestuais. Vega. ). 61 www. Greimas. actualmente. inaugurada..pt i i i i . Adorno. . na perspectiva da sociossemiótica. vida e morte não são propriamente conceitos científicos. Frankfurt am Main. etc. Julia Kristeva. entre nós. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. Mínima Moralia. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. por José Augusto Mourão. Greimas et al. 62 T. no entanto parece-nos faltar uma análise que. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão. neste aspecto. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 . de uma conversa de baixo nível”. durante muito tempo. W. De igual modo. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. essa Em português a referência vai para A. em biologia. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. a doutrina da vida correcta”62 . em relação a elas. ainda. fixar campos de pertinência ou de referência. senão mesmo isolar estruturas.labcom. Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. decisivos. foi considerado como o próprio da filosofia (.) carecem. Sabemos que Robert Cresswell. anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar. Lisboa. no entanto. constituir tipos. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver.

uma promessa.labcom. haverá sempre. dizia Kierkegaard. e em cada corpo. tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens. E no entanto.i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste. O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança.ubi. há. Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer. www.pt i i i i . o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo.

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