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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

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10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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pt i i i i .ubi.labcom.i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.

sinal de que alguém veio em nosso auxílio. Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. de que se está sempre em falta – perante o tempo. i i i i .i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. o saber. a vida. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. Aníbal Alves. mais feliz. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor. consciência de que se desejava ir mais longe. Maria Augusta Babo. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo.

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Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea. expressando-o melhor. ao enunciar do sentido em acto. Por um lado.i i i i Introdução Enquadramento do estudo. à actualização do sentido designamos por significância. visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. actualmente. por outro lado. o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. M. Fazer semiótica1 . corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. a herança das ciências sociais ou. Landowski mas também Foucault. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. Hjelmslev. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. sendo que a significação corresponde. fundamentalmente. que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação. 1 1 i i i i . a herança das ciências da linguagem – de Saussure. da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). a jusante. Jakobson.de Certeau). Martinet). estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto.

labcom.ubi. Lógica del Limite. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. que afirma que “nem tudo é verdadeiro. Este aspecto era fundamental para nós. geralmente. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar. 1991. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. mas fundamentalmente para se produzir. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. O semiótico admite.pt i i i i . não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. o ângulo correcto. não tanto para sair da sombra. a uma conquista territorial2 . segmentado e definido. há duas convicções orientadoras deste estudo. A semiótica não fornece saberes a professar. que a verdade. mas que tem instantes propícios. para falar como Georges Canguilhem. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. Redefinir implica uma alteração do limite territorial. no interior de um espaço conceptual já ocupado. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. antes. uma verdade talvez adormecida. Ensayos/Destino.lha-se. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. que espera o nosso olhar para despertar. Neste sentido. lugares privilegiados. como o relâmpago. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. 2 www. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. Barcelona. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido. Trata-se de construir. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. aguarda a nossa mão para se entregar”. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías.i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. neste sentido.

www. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. partilhamos. com intensidades. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. 13. a determinada altura.pt i i i i . Ambição motivada não por um qualquer prazer. mas de um modo tão ostensivo que. 1997. angústia – e socialmente – somos normais. Relógio d’Água. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa.labcom. saturado de referências que. de operação. a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. prescrições. numa perspectiva dita “natural”.”3 Vindos de muitas direcções. Somos. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. Todos temos um corpo que sentimos.i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. passível de descrição. experimentamos. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. de desrespeitar os modelos estabelecidos. segmenta e define uma sobre outra vez. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale.ubi. definida – a partir de um ponto de vista próprio. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço. cansaço. A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. de análise. segmentada. quando se considera o corpo como objecto de saber. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. menos ele existe por si próprio. Lisboa. desadequados. gordos. baixos. assim. adequados. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala. todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. tristeza. de teorização. Pág. mais ou menos vão. Enquanto tal. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil. “evidentes” e “naturais”. magros – patologicamente – sentimos dor. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. educados. Quando falamos em corpo. No caso do estudo que agora se apresenta. Metamorfoses do Corpo. construções e confrontações inesgotáveis. para falar como Marcel Mauss. anormais. contudo. pelo contrário. como bem anotava José Gil. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. classificações.

nesta nota introdutória. tal sentido dá-se. que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. Pág. de facto. J. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva. permanentemente. que se define a estratégia seguida no presente estudo. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo.pt i i i i . a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. A semiótica visará. no interior de um determinado contexto semiótico. Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”.labcom. 363-375. Cf. que produzem processos de atribuição de significação.ubi. Mantendo. Tendências da Cultura Contemporânea. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo. sendo que o contexto é.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. então. assim designados por Marcel Mauss. por interacção. Prado Coelho. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. No 28. são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. desde já. O corpo constrói-se. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá. mera carne. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. linguísticos ou não. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. pertinentes para a atribuição de uma significação. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. em todo o caso. 2000. RCL. por definição selectivo. Se. 4 www. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. A. como dizia Greimas. como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois. formalismos eficazes. Bragança de Miranda e E. os. No 28. necessariamente.

ubi. deste modo. Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde. Se o nosso estudo identifica vários corpos. no interior de uma máquina. enfim.labcom. formulações. porque de máquinas semióticas se tratam. Assim há um operar que. Esta máquina. identificar várias máquinas. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é.i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são.). realmente. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. à sua funcionalização. produção de sentido. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. para recorrermos à classificação de Peirce. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto. de operadores epistémicos. de produção que é. usos. do próprio procedimento das lógicas produtivas. devemos admiti-lo. à disposição tanto de uns como de outros. compreensões. do funcionamento dos operadores. uma lógica. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. uma série. etc. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise. num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. igualmente. do corpo. apenas parece detectável retrospectivamente. produtores intencionais do sentido do corpo. em funcionamento. disciplinarmente identificáveis. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica. de um determinado sentido legitimador da rede de relações. muito claramente. O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. de diferentes perspectivas de análise. também. antes de mais.pt i i i i . mesmo perante a crítica mais intensa. já operava antes de a podermos reconhecer. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural. se identificamos vários corpos devemos. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato.

Assim trabalha num espaço já semioticizado. complexos. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada.i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia.pt i i i i . em permanência. com gestos já semioticizados. ou por uma www. isto é. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se.labcom. entre tantas outras. a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada. no entanto. nas formas de contaminação horizontal e vertical. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. entre tantas outras. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia. e. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser. as máquinas não são estanques. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante. como é evidente. também. com instrumentos já semioticizados.ubi. A produção semiótica não é nunca linear. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito.

semântico e pragmático. que a instrumentalizam. os seus territórios e as suas fronteiras. na expressão de Walter Benjamin. Lisboa. particular protagonismo. esse grande ausente. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização.).i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras. Mode. herança que. essa é a da Válerie Steele. no limite. tema recorrente na cultura contemporânea. zona de trocas intersemióticas. como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. os seus objectos e os seus sujeitos. Se há herança radical deixada pela modernidade. a ele ligado. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no. 2002. jogo de combinatórias possíveis. Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder.ubi. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. 61. em grande medida. simultaneamente. remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade. Segundo Valérie Steele. Tropismos.labcom. O corpo. Abbeville Press. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. Crítica das ligações na era da técnica. formam-no. tornouse.pt i i i i . ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e. Pág. a própria contemporaneidade. onde tudo se pode ligar a tudo. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa. deste modo. a um tempo. Fetiche. 1997. sexe et pouvoir. na última década. A par do tema da técnica e. O tema das “ligações” assume. no qual as tensões. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. Neste processo o corpo torna-se espaço. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. A análise da produção semiótica do corpo deverá. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 . Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. a contemporaneidade. 6 5 www. portanto. os seus modelos e conceitos.

. disjunções e fluidificações. 2004. a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas. pelo menos aparente. se o anuncio de novas disciplinas. Payot. . talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”. 9 Leia-se. 1998. de novos objectos. Lisboa. 10 A obra de Jean François Lyotard. diversos pensadores foram-nos fornecendo. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. na maioria das situações. bem conhecido: o fim das ideologias. 43. “Le regard implique”. o afirmar.labcom. a superação do humano e. seja para. Galilée. ao triunfo do fantasma puro”11 . seja para. Matosinhos. o negar. Sexe ey solitude. 1999. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”.i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir. intelectualmente. Um entre-dois do real e do virtual. o desmoronamento geral dos sistemas. Paris. Christine Buci-Glucksman. “contaminação”9 . demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. 15.10 Se o funeral da modernidade foi. não deixa de ser interessante questionarmos. 8 7 www. IN José Bártolo et al. 11 Bruce Benderson.. da sua. própria a todos os entre-dois (. L’esthétique du temps au Japon. de um modo meio explicativo. o advento do pós-humano. do idêntico. IN Revista Lusitana. Contaminação. Lisboa. à luz desta análise. O diagnóstico que extraem das suas análises é. ). A condição pós-moderna [Gradiva.”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. do imutável. 2005.pt i i i i . das mais variadas formas. filosofia. a este título. Pág. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes. que faz aparecer devires. Pág. a “crise” do corpo. Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. s/d] contínua a ser.ubi. a falência das luzes. ciências da linguagem. os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século. meio divinatório. sobrevalorizadas. Por exemplo. em traços gerais. transgressor. na maior parte dos casos. 17-18. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. ESAD/CML. o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo. das mais variadas formas. o fim das “grandes narrativas”. Eric Landowski. assim. o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. Paris.

O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. 14 Idem. Advertia-nos. 288. Págs.. Como dele fala José Augusto Mourão. Op. como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). no entanto. O que falta ao fantasma é a materialização. 2001. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. a carne.). Ibidem. seccionam. Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão. icónica. O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. RCL. como o mutante. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. o fantasma “pressente-se. porque aí se agarram e se projectam. ainda assim. ). em parte. “Hibridismo e Semiótica. Págs. seguindo leis de vizinhança. uma excrescência que pode remeter para outros mundos. cortam. 13 José Augusto Mourão. A sua transitoriedade. o fetiche. Vivemos numa época de fantasmas. Os quaseobjectos”. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari.i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. fora deles também. O campo da semiótica. (. . “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . mas porque também os tocam. particularizam e multiplicam as superfícies. E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem. de distância variável que não conhecem em absoluto. é uma intensificação. temese como o objecto mágico. Como se fala de um amputado de membro fantasma.”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que. No 29. remática. . de “quase-objectos”12 . tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo. O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. de torção. o seu excesso. já que jogam entre si. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. Ele é uma “coisa” que não é coisa. de espectros. uma tensão para restaurar essa perda. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis.ubi. imagina-se em toda a parte. 12 www.pt i i i i . indicam uma perda e. 287-301. Cit. uma imaginação.labcom. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles. Pág. 288-289.

labcom. p. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal. A uma semiótica do corpo cabe. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real. Não o devir social. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 . uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. bem como. 1977. 2003. “Postace”.i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. 16 Gilles Deleuze. trad. Minuit.J. Pág. S. Landy Editora. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos. Como a entendia Greimas. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados. nos interessa.são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que. analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. particularmente. Em relação ao nosso estudo. pois.”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão. diferem em natureza das suas causas reais. posicionado no campo da semiótica. topologizam a materialidade do corpo. Paris. sociais ou politicas. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. cuja análise pertence a outras disciplinas. Perspectiva. São Paulo. antes de mais. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. Logique du sens. 17 A.pt i i i i .ubi. os monstros . Signes et paraboles. Greimas.”17 . 217. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. os sublinhados são nossos. 15 www. Sémiotique et texte évangélique. Paris. e deixar que efectuem as suas danças. 2005. 1969. “a semiótica. mesmo que muitas vezes por nós considerado. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. Págs. ser-não-ser. 82-83. que façam as suas mímicas como extra-seres. Paulo. nem sequer o devir técnico que. IN Groupe d’Entrevernes. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. económico ou politico. 227. De Luiz Fortes. ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas. Seuil. Port. Lógica do sentido. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. É preciso.

como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. Hénault. Paulinas.ubi. potencialmente mais híbrida da disciplina. 19 Esta obra. por exemplo. a inclusão de novos objectos. 1994. Paris. qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica.Paris. as paixões não eram consideradas. estimular uma leitura menos definida. Le pouvoir comme passion. O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá. Un lecture de Tintin au Tibet.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar. era rigorosamente circunscrita. Paris. a intensidade.M. PUF. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 . PUF. 22 A. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). menos aprisionadas pela exigência de formalização.labcom. ou do outro (Landowski)23 . contudo.”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca. 24 e segs. “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. 213-216. seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. ferramentas. actualmente central. a foria era dificilmente pensável. PUF. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. ainda. Paris. tão fundamental. www. sobre o contínuo. preocupações. IN AAVV. Semiótica e Bíblia. 12. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 . modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. antes. 1999. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 . o contágio. Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. PUF. La parole lettéraire. Págs. 7. 1997. 21 J. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. porque esse sentido. 20 Jacques Geninasca. Floch. tratar da “presença a si” ou ao outro. teria parecido incongruente. Présences de l’autre. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo. Pág. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido. Larousse). Lisboa. foi publicada em 1966 (Paris. 1987. Pág.pt i i i i . Pág. hoje. a presença. já não causam perturbação. a reflexão. 1997. “ Apresentação ”. 23 Eric Landowski. problemáticas. Nessa altura a problemática da enunciação.

J. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. It can survive only weeks without food. Courtés.pt i i i i . Gille fala em “sistema técnico”). Greimas e J. and minutes without oxygen. Human thought recedes into the human past. 2002.”24 . por propriedade transitiva. Stelarc. Pág. days without water. 203.ubi. Será.labcom. Por sua vez.). London/New York. é anunciado como obsoleto. biológico. a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. Greimas e Courtés.i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado. no seu dicionário. For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. We are at the end of philosophy and human physiology. The cybercultures reader. pois. São Paulo. Dicionário de Semiótica. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado. It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death. Its survival parameters are very slim. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas. mas mais devido ao facto da acção técnica. Routledge. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. The body is obsolete. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure. O corpo humano. It might be highest of human realizations. Págs. It malfunctions often and fatugues quickly. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem.”25 A. “From psycho-body to cyber-systems. Images as post-human entities”. relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B. não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que. 561-62. 25 24 www. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs. Cultrix. não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. its performance is determined by its age. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed.

28 Citação de G. simultaneamente. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se. 27 Maria Filomena Molder. por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença. na verdade. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”. defende-se. ocupava o espaço fundamental da identidade. IN Manuel Valente Alves (Coord. 24. 2002.ubi. e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. Imagens Médicas. da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica. Público. Pág. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens.29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia. Lisboa. redigida por Maria Lucília 26 www. Vega. Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado. adaptações e utilizações específicas.labcom. também o embrião passou a ser um órgão manipulável. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. amado. Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que. Pág. 319. Pág. Breve história do corpo e de seus monstros. o espaço do destino. “Princípios de Método”. 1999. O corpo espera. bem a propósito. “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. física ou simbólica. Fragmentos de uma história. Tucherman. entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. sujeito a desmontagens e remontagens. O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. Porto. quer um lamento de impotência.pt i i i i . o pensa e o produz. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. Antes.”. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. 70.).”28 Não existe um modelo único do corpo. sofre. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes. então. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. se torna um corpo provisório.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. Bruno transcrita de I. 28 de Maio de 2001. o corpo pertence ao reino do silêncio. como tal. Cf. mas. a correcções. Porto Editora. a obsolescência do corpo humano26 . Hoje. resiste. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos.

Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps. Edições 70. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura. máquina semiótica. a cada máquina o seu. isto é. Falamos e pensamos o corpo por generalia. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. Técnica e Subjectividades. isto é. a cada indivíduo o seu corpo. 1996. 31 Idem. 2004. é a da sua demarcação mas também. tradução portuguesa de João Gama. por vezes. Lisboa. www. desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. reunindo. hoje tão evidentes. A troca simbólica e a morte. como procuramos mostrar. múltiplos corpos do design e da teologia. também. Relógio d’Água.pt i i i i . como explicita Jean Baudrillard30 . a cada disciplina o seu. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. releva. acrescentamos nós.labcom. Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo. múltiplos corpos individuais. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. 30 Jean Baudrillard.to. a da sua desmarcação. corpo-objec. um olho. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos. A história actual do corpo. Corpo.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. I Volume. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é. corpos sobre corpos. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. da acção de uma determinada máquina semiótica. Ibidem. Lisboa. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade. a cada um múltiplos.ubi. sempre. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço. corpoMarcos e António Fernando Cascais. Pág. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. o seu a cada um e. Corpos e mais corpos. despedaçá-lo. 169 e segs.

espaço de inscrição. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. para o corpo. Cit. Sexuality in the field of Vision. qualquer corpo. poderá sempre ser tomado como tabula rasa. the channelling of processes. e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante. Não há sentido sem suplício. connections. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo . flows. carne. nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. Op. um regime de signos ou.labcom. London. 32 www. melhor dito. Verso. “The Imaginary”. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso . que se perde. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. constatar uma viragem. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. considera-se.ubi. p.é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo. 33 Maria Teresa Cruz. como diziam os medievais. que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. significam-no. O corpo. the alignment of one aspect with another. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem. 1986. afectada. relativamente ao corpo. espaço de marcação. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 .talvez faça pouco sentido falar. cibercorpo. Significar corresponde à imposição de um sentido. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. é o corpo que se esconde.”32 .i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. multidisciplinar como anteriormente anotámos. A história do corpo é a história da sua permanente produção. Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra. um processo de significação do corpo. Significar e marcar são gestos idênticos. numa palavra. facilmente. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido. A descrição da actual situação do corpo permite-nos. organs. de penúria nominum. 72.pt i i i i .

corpos e almas. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. De cada vez que a concepção do corpo se altera. passou pela vida. nem fuga. no trabalho e no lazer. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência. ainda. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. se o corpo se altera. na oração e no combate. de novo. integram centenas. que será. sem escolha. apenas. errante. o presente é. através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. nas máquinas e nas cidades. se fantasmiza. um golpe de sorte (um lançar de dados). de www.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que. à vez. redes complexas. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. qual alma penada procurando. repousar. e o próprio jogo como azar. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura. o azar do jogo. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. De cada vez há um presente que pensa o corpo. mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. como um trovão surpreendendo a noite escura. um corpo estável sob o qual possa. É. onde tudo. na sua repetição. como dizia Foucault. dos seus aparelhos.ubi. silenciosamente. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. ainda. todo o corpo social se torna instável. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual. sonhos e medos.pt i i i i . que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. alegrias e tristezas. Na sua ruptura. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo. um grau de incerteza. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado.labcom.

de duas metaconstruções cultural. do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências. 80. Rio de Janeiro. a partir do século XVII. as formas de morrer e de matar.pt i i i i . 1994. mostrando que o corpo é uma “simulação”. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. anglo/hispano) que. de conceber e dar à luz. 34 www. de uma forma clara.labcom. reforça esta visão.35 É sabido como gradualmente. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”. alteram-se os cuidados do corpo. Pág. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver. A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça. no limite. de comer e copular. a partir dos anos 70. conformam a construção de dois modelos do corpo. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. livremente. a sua negociação e cotação.ubi.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz. ainda que tornando-a potencialmente fantástica. estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. a cibercultura a partir do início dos anos 80. 35 Richard Sennett. também a economia medicaliza o seu reportório. no interior e por Apropriamo-nos. “respiração das mercadorias”. da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. a partir de meados do século XX. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. “exercício de capital”. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino). Nova Fronteira. a sua circulação e o seu depósito.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa. passando a falar-se em “saúde económica”. a ideia de que o corpo é uma “representação”. Os cultural studies renovaram. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo. Carne e Pedra.

A lógica de interface (homem/máquina. “not-self” e “not-me”. Susan Bordo.). acompanhando-as. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto. “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”. tal como a afirmação. London. conexão. real/virtual) é. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. Sujeito/Objecto. 48. entre pólos. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. Págs. Northeastern University Press. sujeito/Objecto. Sage. 87-118. Boston. o corpo. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. Pág. homem/compu. No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. mas. 1995. o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. e à medida que essas práticas se transformam. impõe. gerador da ambiguidade do dualismo.).labcom. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. também se transforma. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. Neste sentido Mike Featherstone.pt i i i i . biológico/tecnológico. O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação.ubi. não apenas uma lógica de crescente ligação.tador. potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software. Cf. como um “outro-de-si”. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. www. como “não-eu”. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”. por assim dizer. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. na linha de muitos outros autores.37 A negação. sobretudo de uma crescente aproximação. o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”. Na sequência da tradição da filosofia grega.

Duke University Press. Págs. Sage. permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado. Um novo território. L. Vol.C. Harrison e J. Hood-Williams. etc. “em julgamento”38 . Laqueur47 . Routledge. IN Body & Society. 1997. Ibidem. Routledge. “Gender. London. 1. 1992. 43 Judith Butler.ubi. Laqueur. Turner. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. 40 L. IN Configurations.i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo. www. O corpo está actualmente. Cartwright. com as ciências médicas (Hausman46 . 103-18. Págs. Cartwright40 . 13-23. 1990. London. Harvard University Press. à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 . 44 W. Cambridge. 5. Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. 39 J. Bodies and Discursisivity”.pt i i i i . “Decentering the natural body: Making difference matter”. London. Body & Society. S. Turner42 . Mass. and the idea of Gender. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. 47 T. “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”. Technology..labcom. Changing Sex: TRansexualism. 3 (4). ergueu o seu tribunal. London. Págs. O corpo sempre falou pela voz de outro. 1993. etc. da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing). 2004. que a autora identifica com os “science and technology studies”. “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. etc. 267-92. Harrison44 . 1995. Durham. 1997. Pág. Sage.-M. University of Minnesota Press. London. Lock41 . 1. Lock. Sage. 45 Idem. 10. 1995. IN Body & Society. 42 B. Hood-Williams45 . Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. 1994. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo.).) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 .). Hausman. 41 M. Minneapolis. 46 B. 2-3. Berthelot. Screening the body: Tracing medecine’s visual culture. segundo a expressão de Madeleine Akrich.

255. 1-8. “Whatever Happened to Total Design?”. este corpo é ele próprio o “dentro”. IN Harvard Design Magazine.). Sage. o corpo vai sendo redefinido.ubi. 52 Bruno Latour. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”. Págs. 1994. no essencial.labcom. Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. a mão que prende. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. e ser então alguém que anda com o pé. London. Turner. 1991. . 28. Somos o pé que anda. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado. sobretudo Pág. 1985. Latour52 .pt i i i i . ou prende com a mão. com a teoria do design (Forty53 . Págs. no 96. Hepworth e B. IN Ottagono. Por vezes. 1998. 114-129. 54 Mark Wigley. o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés.). etc. New York. Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. 1992. ). M. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim. Invocação ao meu corpo. “Industrial Design and Prosthesis”. Decerto que um corpo é ambíguo. London.). é como se também estivéssemos nele. no 5. 53 Adrian Forty. o olhar que vê. etc. estamos sendo também esses pés que andam. Mas podemos sair deles. 207-38. Haraway49 . Bertrand Editora. ou vê com os olhos. O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”. 49 Donna Haraway. perspectivá-los. S. Sage. porque se o somos. onde a representação se forma ou se projecta A. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. Lisboa. IN Camera Obscura. Págs. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar. Bálsamo. 51 H. entre aquele que observa e o que é observado. The Body: Social Process and Cultural Theory. etc. M. justamente porque o corpo é subjectivo. Featherstone50 . 1991. Cambridge. 48 www. 50 M. Featherstone. 1999.55 “Rigorosamente falando”. no instante em que os vemos andar. Simians. “só conhecemos e concebemos. Harvard University Press. London. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature. Mass. . uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira.. Wigley54 .i i i i 20 José Bártolo samo48 . Routledge. e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. 55 Estes dois parágrafos são. diz-nos Nancy. Collins. com a nova epistemologia científica (Collins51 . vive-se de dentro para fora.

sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. Outras vezes. o sonho e o medo. ideia. 56 www. entalha-se em nós. Transportando no corpo a dor e a alegria. as suas produções de sentido. imagem. Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí. a sua tecnologização. doloroso. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido. origem e receptor das relações. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. sentido. Lisboa. a dor é somente o gume. Tradução portuguesa de Tomás Maia. a pena. Há um sentido de humaniora. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida. se renova. antes de tudo. Pág. percepção. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”. o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam. Com cada um deles o nosso corpo se comove. solidão sentida. 66-67. como lhe chamava Kant. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade. Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. em cada instante. em cada reconhecimento do outro. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. no tratamento semiótico dos regimes de signos. a fragilíssima condição humana.labcom. memória. Corpus. esse sentido tangível.”57 Não se passa pela vida sem dor. a abarrotar de intencionalidade. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação. Págs. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa. a queimadura.ubi. 2000. O corpo é. ainda que seja. corpóreo.pt i i i i . Dessa perda. con-sentido. 80. e a sua perda fere-nos. uma caverna cheia. inconsciente). ou seja. 57 Idem. Ibidem. que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. Vega. também não o dá à perda.

M. nada exaustiva. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. Lisboa. H. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise.labcom. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. Assim. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. Arrivé e J—C. J. Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica.i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. pelo menos. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica. No entanto. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. Coquet na psicanálise. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é. IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. 2005. B) Em macro-análise. . etc. 58 www. E.J. Parret na filosofia. publicada em 1966. 103. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo. não há regimes puros. Pág. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. sistemas semi-simbólicos. A. A. então. do corpo.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. reconfiguração dos processos narrativos.”58 Na sua Semântica Estrutural. Retórica.ubi. na sua praxis semiósica. etc. descrevendo os diferentes “modelos”. A substância de expressão. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. Relógio d’Água. A intersemiótica responde a essa estratégia. em última análise. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. Floch nos media e na comunicação e a lista. RCL no 36.-M.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. estratégias argumentativas. como já se percebeu. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana. determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias. como lhes chamaria Fontanille. da corporeidade. facilmente se estenderia. . mais no sentido que lhe dão Fontanille.pt i i i i . desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. “A dimensão imagética da metáfora”. J. desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. Courtés e J. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. para falar como Baudrillard. Mourão na teologia. Darrault na psicologia.

59 www. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem.60 É sabido que. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 . constituições de corpos sem órgãos. 1980. pelo contrário. Pág.”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. 61 Idem. antes de mais. trans-sexulaidades reais. . . 175. produzindo-o. continuuns de intensidades. os regimes de signos às máquinas abstractas. Pág. atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo. ) devires-animais. 60 Idem. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. Minuit. que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana). para Deleuze.labcom. Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. A semiologia seria. . a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo. então. é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). 62 Idem. Paris. O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. 177. 140 e segs. Uma semiótica é um regime de signos. Ibidem. a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. Ibidem. é a linguagem que remete aos regimes de signos. Pág. incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo.pt i i i i . gerador de um devir-máquina. antes as cruzam. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. . devires moleculares. de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos). semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. Ibidem.ubi. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo. Un régime de signes contitue une sémiotique. interligadas. o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo.

tanto se podem apresentar como sinal. No início dos anos 90. é transitório e operatório. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo.63 Paolo Fabbri propõe.i i i i 24 José Bártolo manifestações. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que. o corpo-em-situação. . os seus agenciamentos. de um classe. dizia Michel de Certeau. como um objecto que não está por um outro. qualquer corpo. nesta perspectiva. ). dando conta das tensividades fóricas. www. a valorização e desvalorização de certas paixões. Se recorrermos à classificação de Benveniste. Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações. é claro que o corpo é. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. da escarificação. ocorrem. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Os modos de “ser” do corpo. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. O corpo é mítico. Fontanille. de uma condição. de palco significante. índices) da relação entre o significante e o significado. Seuil. C) As orientações axiológicas.pt i i i i . interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. mais interpessoal e cultural da significação (. simultaneamente. do adorno. uma “apreensão mais processual e contextual. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. Sémiotique des passions. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. Greimas e J. Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. signos) ou analógica (símbolos. no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. em relação ao estudo das emoções. das paixões. 63 A. Paris. Págs. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações.J.ubi. os sinais e os símbolos de uma linhagem. assente na natureza arbitrária (sinais. de um comprometimento. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal. . Considerado em si mesmo. as suas improvisações e desvios. como signo ou como índice. 99-103. Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. Neste sentido.labcom. 1991. o corpo. também. durante a viagem.

E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. Harré (Ed. 65 R.pt i i i i . dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura. Basil Blackwell.labcom. é feita por R. IN R. “An outline of the social constructionist viewpoint”. Paris. B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais.64 Outra proposta. no 47/48. Págs. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. Éditions Liana Levi. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. de um ou de outro modo. 1988. 2003. Une Histoire du corps au Moyen Âge. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções.65 A partir destas abordagens. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff. a sua instrumentalização. como anotámos anteriormente. C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais. As análises dedicadas à semiótica. de natureza intersemiótica. “Postfazione. Não se procura aí. Face ao que dissemos. Harré. Harré. à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva. Fabbri. The social construction of emotions. 205. Harré que.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. Pág. Versus. na mesma linha de raciocínio. a sua adequação objectiva a um determinado fim. Oxford. escapavam à semiologia. isto é. A passion veduta: il vaglio semiotico”. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). a sua produção de sentido. já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. www. 2-14.ubi. parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. verdadeiramente.). paixões e devires que tem lugar no corpo e que. a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões.

Marc Bloch reivindicava. a descrição.pt i i i i . representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. . 68 Falamos aqui. Mais recentemente. New York & San Francisco. 1939. se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. www. produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. mas tratava-se. assim. que o instrumentaliza. o seu lugar na sociedade. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo. 67 Cf. no sentido de Deleuze. pelas mulheres. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. um grande esquecimento para o historiador. antes. corpos transformados em símbolos. como dizia Walter Benjamin. 5. percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. Cit. nos anos 30. Pág. acessoriamente. que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado. 69 Marc Bloch. a sua presença no imaginário e na realidade. então. IN John Blacking (Ed. Op. O que se afirma é. foram mudando em todas as sociedades históricas.”69 . Pág. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história. 5. que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar. particulares. sempre. excepcionalmente. 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis. nem vida. a história da sua permanente construção social. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. Paris. o arquivo. Roy Ellen. A concepção do corpo. 343-373. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(. Com efeito. nem carne. a legenda.ubi.”70 Ficávamos. 1977. o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica.). Págs. Mas quase sempre sem corpo.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . perceber como o design. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”..labcom. The Antropology of the Body. santos ou guerreiros. Albin Michel. E no entanto o corpo tem uma história. bem entendido. com uma história sem corpos e com corpos sem história. . assim. Interessava-se pelos homens e. Academic Press. de um corpo sem ossos. A história tradicional era efectivamente descarnada. La société féodale. London.

Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo. tensão entre o centro e a periferia. Ibidem. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo. “Sexo. José Augusto Mourão. tensão entre a guerra e a paz e. 72 71 www. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades. de viver. tensão entre a riqueza e a pobreza. Os sacramentos santificam os corpos. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade. IN José Augusto Mourão et al. de trabalhar. E.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. sobretudo durante a Idade Média. O Enigma da Sexualidade. tolerâncias e marginalidades. tensão entre o homem e máquina. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais. Cadernos ISTA.i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. de comer. O corpo cristão. tensão entre o campo e a cidade.. tensão entre o topo e a base. como cada língua. Pág. de nascer. alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica. proibições e desconhecimentos. é atravessado por essa tensão. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade. mas também o corpo-cadáver. simultaneamente. a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo. tensão entre o homem e a mulher.ubi. Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. sobretudo. as suas improvisações e os seus desvios. a um tempo. de falar. a rejeição e a sua veneração. no 16. texto e corpo virtual”. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. de copular. paredes-meias com a igreja. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. de andar. a comunhão é um repasto. de guerrear.pt i i i i . semioticizado como matéria repugnante. fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. comporta os seus idiolectos.labcom. de morrer – corporizando normas e desvios. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo. 2003. 112-13.

O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”. àquilo que é. Mas o próprio olhar exige ser ordenado. IN AAVV. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores. falar. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação.labcom. Págs. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. para o deformado. sempre. Semiótica e Bíblia. mais. 73 www. quase sempre. mas é. como diziam Deleuze e Guattari. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. da pele até as entranhas.pt i i i i . de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. para eles. por duas máquinas. mesmo que se esconda.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. ciborgue. o olhar do polícia o seu.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar. o corpo é sempre. isto é. de nos sentarmos. No entanto. 1999. atravessado por dois tipos de agenciamentos. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. diferentes olhares produzem. sempre olhado. freak. então. “Figuras e transfigurações”. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. para o corpo desviado ou desviante. já passivo produto resultante daquele olhar. física e outra semiótica. O corpo é. a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. o olhar do voyeur o seu. para o corpo mal olhado. causas sociais. para o monstro. Na sua semiótica do olhar. assim. releva de um determinado uso semiótico do corpo. diferentes corpos. Lisboa. O olhar do médico tem o “seu” corpo. 163-175. Edições Paulinas. qualquer que seja o seu nome: aberração. o próprio olhar não escapa a ser François Martin. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado.ubi. uma corpórea.

mas as formas fundamentais de saber-poder. Cit. o seu. Pág. Em A ordem do discurso. nas palavras de Galeno. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel. que é. condição de possibilidade da modelação. a nenhum dos modelados. a distribuição ou a retenção de um saber. 144. ou a ciência e o Estado. de deslocamento. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. Paris. conhecimento que se produz.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. 40. Nenhum poder. às outras formas de poder. uma forma de poder e que é ligado. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . não é nunca o corpo do nosso irmão. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina.pt i i i i . entre o que é por natureza e que é por cultura. Assim. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. o seu. Igualmente cada cultura tem o seu corpo. se exerce sem a extracção. podemos. Gallimard. Todo o olhar almeja ser panóptico. cada cultura politica o seu. quer do olhar sobre o corpo. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. pelo contrário. um corpo normal. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. percepções. de registo. L’ordre du discours. O modelo não tem de ser. Pág. seguindo Nobert Wiener. na sua existência e no seu funcionamento. em si mesmo. mórbido e neutro no corpo”. o corpo da grávida e o do aleijado. a apropriação. Richard Sennett. cada cultura técnica. www. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. seu de direito. Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente. Op. estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos. não deve ser. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. 1971.ubi. são modelos de ordenação quer do corpo. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo.. não é nunca um corpo como os corpos. mas não deve corresponder.”74 Os modelos do corpo. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. cada cultura social. de acumulação. identificar quatro modelos do corpo. Cada máquina semiótica tem o seu corpo.labcom.

a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. “Um ciborgue é um organismo cibernético. Os ciborgues são objectos de prova. Numa passagem do seu diário. produzindo-os. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (.ubi. permanentemente citada quando se fala em ciborgues. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. cujo modelo é o do corpo mágico.pt i i i i . encontramo-lo na figura do Golem. IN Ana Gabriela Macedo. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais. com 76 Marshall McLuhan. um híbrido de máquina e organismo. Género. 78 Donna Haraway. por correlato. Págs. Com o desenvolvimento tecnológico. . Para Donna Haraway. )”. Ralph W. La vida en la pantalla. isto é do computador e.i i i i 30 José Bártolo primeiro. Paidós. 1995. como interface. nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus. Pág. www. 221-250. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se.78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues. Cotovia. Editora da Universidade de São Paulo. alterando-os. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues. 1972. nano-próteses.labcom.”77 . sob o modelo da locomotiva a vapor. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. juntar-se-ia. Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. 2002. Identidade e Desejo. . ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. Lisboa. A galáxia de Gutenberg. são objectos de prova. em 1968. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. 77 Ralph Emerson. maleável. Apud Sherry Turkle. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum. . uma criatura de realidade social. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. de 1832. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. feito de barro. São Paulo. tanto quanto de ficção (. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia. 30. Barcelona. . do corpo. a que. “O manifesto Ciborgue: A ciência.

já não polarizadas mas agora. de transistors. nos últimos quinze anos. por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade. O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. genoterapia e engenharia genética).ubi. chips e electrónica. matéria orgânica. homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões. crescentemente. redefiniu. Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date. desenvolvimentos nanomedicos. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. as tensões polares – natural ou artificial. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles.na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. cada vez mais leves. vivo ou inanimado. clonagem. desde a sua génese (fertilização in vitro. para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses. cada vez mais pequenas.labcom. artérias e fluidos. dito de um modo mais rigoroso. “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. da bioengenharia e da engenharia genética .i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. O desenvolvimento das biotecnologias. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. A carne do homem vai sendo enxertada de metal. próteses internas e externas. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne. recuperação de órgãos. no campo do design biotecnológico. utilizações científicas dos cadáveres). cada vez mais “compatíveis”. biopolímeros. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. Prototipagem rápida e virtual. inclusivamente no cérebro. interfaces. interfaciadas. do biodesign.pt i i i i . vivo e inanimado. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. www. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano. chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne.

corpo-em-fluxo. também. “coisas que agradam”81 e.ubi. 81 Idem. Pág. então. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 . uma utopia (Hic est locus). obrigando-o a ficar refém desse pensamento. uma estética do caos. no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben). as possa enunciar. a revelar-lhe essa ossadura. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. há no corpo. Não há pensamento que não comece pele corpo. tenda a “estrutura-lo”. expressão de um devir-corpo. 19. Cit. corpo-enxertado. o pensamento sobre o corpo. a aprisiona-lo. o pensamento. 79 www. a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada. “O Corpo que vem”. corpo-digital. Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. também.pt i i i i . também. da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. o pensamento dela partilhar. uma alma82 e dela poderá. Op. para indicar um potencial (um devir). por último. ossos que formam um esqueleto e.” IN José Augusto Mourão. não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. como a ambicionam os extropistas. dos variados campos (do design à cibercultura. ruga. talvez. para dizer a invenção dum corpo no tempo. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. corpo que vem79 . 1 (não publicado). crescentemente hibridizadas. desfiguração ou descoloração. resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. Há no corpo. também. Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. Não há corpo que não apresente cicatriz. IN Ana Gabriela Macedo. bio-máquina. de uma reterritorialização do corpo. uma distopia (Crash). há no corpo. Pág. trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”. anuncia-se um novo corpo: ciborgue. enunciar ou adestrar. corpo-em-rede. entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. Da actual relação entre corpo e técnica. Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. Ibidem. talvez. se for feliz. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida. corpoprotésico. nunca.i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo. mas à semioticização técnica da vida. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. Pensemos o corpo.labcom.

igualmente. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas. www.pt i i i i . Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. Dunod. (. É uma forma. Pág. Du moi-peau au moi-pensant. ) Em resumo. de a ele nos dirigirmos. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão). Paris. .”83 . Oxalá o nosso apelo seja acolhido. dos outros corpos.labcom. Le penser.i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido. 83 Didier Anzieu. 1997. 21. o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos. todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce. .ubi. enfim.

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1. 2 1 35 i i i i . 2004. faz sentido ter corpo.i i i i Capítulo 1 Corpo. Paris. faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar. evidentemente.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso. p. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique. Estar aqui faz sentido. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. Greimas. posso dizer que o meu corpo faz sentido. Iuglio. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. Du Sens. doar sentido às coisas. alors. alvo de toda a actividade hermenêutica. J. por sua vez. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. 1970. como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. Mas. se sobre isso me questionar. Seuil. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e. faz sentido a mesa suportar o computador.”2 A. Jacques Geninasca. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele. é. Fazer sentido. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido.

dissecar. a sua fragilidade ou a força da sua presença.ubi. que realizou a semiosis. tensiva – fórica. isto é. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. portanto. enquanto situação. Vega. qualquer corpo. Lisboa. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos. Para a sociossemiótica. é semioticizado como texto. como discurso. A anatomia tem a sua a máquina semiótica. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. Ler. assim. 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. o coreógrafo. construindo permanentemente corpos.labcom. que o corpo. Dever-se-à considerar. tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. Munidos de determinados instrumentos de leitura. como paixão e enquanto forma de vida.pt i i i i . corresponde a construir o corpo-texto como discurso. o corpo começa por ser como que um texto. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. campo de referência do nosso estudo. que enuncia e é enunciado. o sujeito é. a economia a sua. envolvendo uma série de mecanismos e competências. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas. em relação dinâmica. De facto. Paixão e Discurso.i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . semioticizar o corpo. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. cada um de nós a sua. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. 3 www. supra pág. o corpo-que. expressão de um sentido fixado4 . Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores. anatomizar.se. que fala e responde. o direito a sua. das situações e das formas de vida. um documento a ler. a sua beleza. Trabalhos de Jesus. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. p.12. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. analisar. o biólogo. Cf. 103 e segs. intersubjectivamente.abreoutro. ela avança para o nível dos objectos. 1996. o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. o design industrial a sua. o anatomista. dando conta da significação do corpo. enfim. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada.

uma axiologia. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. 6 A. é por se aperceber que é essa a tarefa que. ao mesmo tempo. Poder-se-à. de cada vez e sempre. em cada corpo-a-corpo . aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”. Paris. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. a explicitação da significação. se sentir vivo e.pt i i i i . porque essa construção é interconstrutiva. de cada vez. Hadès.labcom. mas poder-se-ia dizer. agora que observo mais adiante o sofá verde. (Eds. na expressão de Greimas. nomedamente a nota 9. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de. que existir é estar em “tensão semiótica”.agora que vejo a minha mão. IN M. em “vigilante espera”. em cada instante. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”.). 5 www. que ser é estar em tensão e. Périgueux. fundamentalmente. de um vislumbre. J.73.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto. nessa interoperatividade. como corpo-objecto. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio. Se Greimas evoca a parábola bíblica. A significação tende para o sentido. tão somente. Greimas. na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. De la imperfection. Arrivé et al. de cada vez. 1997. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas. p. estar à altura do que lhe aparece. sem dúvida. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos.”5 . mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante. de um modo igualmente verdadeiro. em grande medida. 1987. mais.esteja. e ele o saiba. mas. A semiótica é uma disciplina tensiva. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável. reversivelmente. Fanlac. como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. Sémiotique en jeu. assim. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto.ubi. se sentir morrer. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. veja-se. prometido e adiado. Só há espera no que é antecipável.

do perceber sensações térmicas. da cópula. do apanhar. 7 www. da luta. algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro.pt i i i i . 8 Umberto Eco. IN Protée. do esfregar. aproximando-se de V. p.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. 1993. . Este ser deverá adquirir. C. A este estado de consentido entre nós e as coisas.labcom. 147. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo. Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. XXI. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. 1. Cf. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. 66. 1999. designa Greimas por coalescência. certamente elas são originais. do penetrar com o dedo uma matéria mole. numa semiótica do corpo. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo. do sentir dor ou alívio. seja como for que decida denominá-las. do caminhar.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. “Le schéma narratif à l’épreuve”. em particular. do bater. do estar de pé ou deitado. p. do bater as mãos. provavelmente da cessação da vida. do dormir. Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar. olfactivas ou gustativas. C. essa experiência que é sustentada juntamente com. E há nisso um sentido que se emudece. Assim que entra em contacto com outros seres. Lisboa. . Difel. e assim por diante.7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir. Brodal. do ver.ubi. da posse ou da perda de um objecto de desejo. ou em geral com o ambiente circundante. do ouvir. Zilberberg. do coçar-se. Kant e o Ornitorrinco. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal). Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais.

labcom. O Campo da Semiótica.J. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro. 2001. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. corpóreo. RCL no 29. antes. Dissemo-lo já. entre outros. ela consistirá. “La microsémantique”. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas. A.pt i i i i . Relógio d’Água.ubi.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato. Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. 1976]. p. Lisboa. 1994. C) Problemas das relações entre discursos. 10 Justifica-se. 214. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. como a ele se refere Herman Parret. na introdução ao presente trabalho. Greimas. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo. 11 Herman Parret. também ele. Sémiotique et Sciences Sociales. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. IN F.. Rastier et al. agora. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo. o que se faz sentir. do poder-ser do sentido. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. Sémantique pour l’analyse. práticas e os seus contextos. Análise essa que pressupõe. www. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico. O semiótico sabe. quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. que embora tendo o sentido como alvo. entre nós e o real. o real é. O real é o que se faz sentido. na verdade. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier. Paris. apenas pode almejar a estudar a significação.”11 . a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. no entanto. Seuil. Masson. “O real é. Paris.

desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. 4. como lhes chamaria Fontanille. É sabido que o corpo. 3. para falar como Baudrillard. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional. Intencionalmente. partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo. Interessounos mais. na medida em que transforma “operador” e “operado”.labcom. o anatomista e o designer . pelo menos. etc. Em micro-análise. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. etc. -o semiólogo.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. do corpo. da sua instrumentalização.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. Em macro-análise.i i i i 40 José Bártolo particulares. estratégias argumentativas. os seguintes quatro pontos: 1. da corporeidade. 2.. só de um modo muito introdutório e. sistemas semisimbólicos. ainda que outros sejam mencionados e pensados.ubi. descrevendo os diferentes “modelos”. isto é. reconfiguração dos processos narrativos.pt i i i i . reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. claramente pouco sistemático. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”.

labcom. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. dela se esperava que dissesse o sentido dos textos. quer de dentro. porém. Sémantique structurale. hoje. através da dimensão do sensível e da “estesia”. redescobrindo. durante muito tempo. Em muitos aspectos. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. na maior parte das vezes. geratividade. Paris. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que. J. De facto. de Greimas. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. não por falta de instrumentos de leitura.pt i i i i . foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas. que.”12 . construção dinâmica. para uma semiótica das situações. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido. Esta evolução da semiótica é devedora. é para esta mesma fonte de inspiração que.ubi. 8. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. em definitivo. apesar destas afinidades. P. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto. tarefa que a semiótica não poderia realizar. Greimas. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. do trabalho de Greimas. a pesquisa mais avançada se volta novamente. como um método de análise do conteúdo. 12 A. Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido. enunciando-o). Larousse. Não é menos certo. 1966. A semiótica foi tida. se tratam de duas abordagens distintas. sobretudo. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. antes resulta na sua colocação em forma. no início dos anos 60. www. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica.

i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido.”13 . mas ainda não verdadeiramente o oposto). identificados: em primeiro lugar. a nossa carne envolvida na carne do outro. em segundo lugar. para que ele exista há que construi-lo.labcom. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição. outra enquanto “objecto”. corpo-a-corpo. que subsume os precedentes. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro. “Les couleurs de la chair”. depois. 173. o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. Porque se ele existe só pode ser. dentro/fora. em compensação.pt i i i i . Paris. separá-los. www. 1987. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. isto e o seu oposto). na análise dos sistemas de representações e de valores. permutáveis. segundo a imagem de Umberto Eco. O sentido é antes um tesouro peculiar. Sexes et parentés. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas. p. Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. mesmo que estas posições sejam. em síntese. que seja coisa a ser descoberta. competentes para interagir em situação. A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. devires (já não totalmente isto. devendo. como produto da colocação em presença de duas instâncias. e construi-lo a dois.ubi. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros. e geralmente são-no. Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. Minuit. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. semioticamente falando. que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta. mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto. uma espécie de vampiro. Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser. uma enquanto “sujeito”. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base.

Cit. José Augusto Mourão. digamolo de modo rude. 174. pp. IN Ma Lucília Marcos e A. Técnica e Subjectividades. Geninasca. O lector in fabula de Eco. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. Fernando Cascais. José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. pelo menos de forma decisiva. em traços gerais. situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”. em grande parte sob a J. ainda. Foi no decorrer dos anos 60. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo. a significação discursiva dos “textos” repor.”14 Nesta perspectiva.ta. Loc. os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido. “ Ego affectus sum”..labcom. Lisboa. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas. 15 14 www. p. por exemplo.pt i i i i . para. limitando-se às funções e acções.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral). 2004. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce). qualquer que seja a sua manifestação linguística. Corpo. E. RCL no 33. les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable. 10-11. não experimenta qualquer paixão. Identificar os cenários. a tarefa da semiótica interpretativa. de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. Relógio d’Água. contudo.ubi. Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux.ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar.

Greimas. Perspectiva.labcom. B. neste contexto. 1968. Surgem-nos.) 17 Da acção de Greimas. visando. prefigurado por A. na revista “Critique”18 . movimento esse que iria desencadear. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista. de novos instrumentos de descrição e análise. como a análise sémica. L.J. R. Seuil. B. como o quadrado semiótico.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. terá continuidade. a tradução portuguesa aparecerá. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. Mathoré e A. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”.J. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira). em 1966. São Paulo. Prolégomes à une théorie du langage. no importante ensaio de B. São Paulo. J. Cultrix. 1967. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação. É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior. na esteira de Jakobson.ubi. Hjelmslev. Morphologie du conte. 18 Cf. 1973. por exemplo. 1975. Minuit. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural. EDUSP. bem expresso. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. F.pt i i i i . Paris. IN Critique. Sémantique Structurale. Paris. uma renovação completa da problemática semântica. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. 19 A. 1966. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos. assim iniciada. 1970. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. reeditado em 1986 pelas PUF. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. Paris. Greimas. Barthes. Guiraud. Barthes. Larousse. em particular. ano. 18-25 . Pottier publicado em 1967. Dubois. Pottier. uma série de análises estruturais da narrativa. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. no Brasil. No 237. também. pág. Pottier.) 20 V. na sua Semântica Estrutural19 . em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. 16 www. da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés. Propp. Cf. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages. em 1966.

1979. igualmente. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação. A Semântica Estrutural. de resto. Pág. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. 21 www. Cultrix. 23 Cf.ubi. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. “ As aquisições e os projectos ”. Courtés. uma teoria geral do fazer.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. 9. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 . Greimas. 1973. Greimas propõe-se “reA. “morfologia” que. organizadoras dos discursos.22 . começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas. de ambição axiológica. J. 21 e segs.pt i i i i . de maneira mais ou menos explícita. A. Ibidem. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. Ibidem. 11. interrogam-se sobre o que significam um e outro”.25 Apesar disso. Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. IN J. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”. Posteriormente. Semântica Estrutural. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa. Dito de outro modo. EDUSP. o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva. 24 Idem. Pág. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. as ciências humanas. 25 Idem. 22 Idem. mereceu. Ibidem. Livraria Almedina. Greimas. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas.labcom. São Paulo. pág.J. Coimbra. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . pág. 15.

Todorov. de um “voltar-se para as próprias coisas”. procura “explicações qualitativas tradicionais”. Hachette. rompendo com uma determinada visão da linguística. Cf. fundado no princípio da imanência. reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana. sem o saber”. valendo-se. Maingueneau. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. critica a criação de uma metalinguagem descritiva. instaurando um novo domínio de pesquisa. Pág.ubi. postula o formalismo em linguística e faz “semântica. pela relação de pressuposição recíproca. 29 Idem. portanto. Nouvelles tendances en analyse du discours. Paris. também.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. 1987. 28 D. Ibidem. para tal. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. 88. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana. 24. hipoteticamente. Seuil. mas. T. e uma linguagem metodológica. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. contemporânea de Greimas. por intermédio de interdiscursividades28 . A análise do discurso.pt i i i i . porta de entrada para o acolhimento da Idem. antes se formava. baseia-se no beletrismo e. Pág. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo. estabelecendo uma semântica científica. A partir daqui. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. Ibidem. 27 26 www. o analista da sua “memória discursiva”. como era por vezes sua pretensão. à maneira de Monsieur Jourdain. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. Paris. o que significa que o discurso não nasceria.labcom. concebida como a “união. que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. 1981.

pág.. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”.pt i i i i . 1999. reafirmar os signos como objecto da semiótica. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. o domínio do objecto textual. no outro. intencionalidade e comunicação. entre sujeito e objecto. 19-20. Dumézil. Programa e Metodologia. 12 (1-2). Cadernos do Noroeste. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 . Cf. Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”. por outro. e. dito do modo mais simples.ubi. reflectividade. À época da publicação da Semântica Estrutural. pág. O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação. Fidalgo. “Da semiótica e seu objecto”. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris. Lévi-Strauss. Op. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins. isto é.i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. Relatório para provas de agregação. não se limitando a segui-la e. e justificar esse entendimento. pp. Semiótica. mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. A função semiótica. De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”. Jakobson. Universidade do Minho. interacção. Cit. 1 e 2. 30 www. e suspendemos a relação com o contexto. A. Fifalgo. Série Comunicação. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. Apud. A. 20. corpo-a-corpo. intersubjectividade. IN Comunicação e Sociedade 1.labcom. Vol.

o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. Semântica.. Courtés. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas. Ibidem. 15. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva. Sémiotique. Pág. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos. como uma teoria gerativa. 327. 34 Idem.”32 .pt i i i i .i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e. Paris..ubi. a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é. remontando ao nível mais alto possível”33 . J. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. aí. a temporalização e a espacialização. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos. Pág. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. também. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos. de modo explícito. descontinuidades no plano da percepção. distinguindo-se. dispostos em patamares sucessivos. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. correlativamente. segundo Greimas. 33 A. Greimas estabelece.labcom. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. Greimas e J.quelas apresentam dois níveis: um profundo. 27. apresenta-se. no percurso gerativo.. e a semântica discursiva. pois. Pág. 1979. isto é. que contém a sintaxe e a semântica narrativas. sob influência de Merleau-Ponty. Aparecemnos. de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita. Actualmente a semiótica. Greimas e Courtés reconhecem. afirmando. cujos procedimentos são a actorialização. dois componentes: um sintáctico e um semântico. e um de superfície. 32 www. cujas operações são a tematização e a figurativização. A. a ruptura com a “linguística tradicional”. chamada de percurso gerativo. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas. Enquanto esta. J. assim. Ao estudar a estrutura elementar da significação. assim. Hachette. Greimas.34 Como sabemos. A economia geral de uma teoria semiótica. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais.

Pág. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. Semântica. Greimas. ambas geradas pelo corpo próprio. p.ubi. . com alguma influência merleau-pontyneana. Partout où il se déplace.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. retirando. un clivage entre univers extéreoceptif. suspendendo. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible. A. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio. Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas. no seu estatuto particular. Na Semântica Estrutural.pt i i i i . J. . de certa forma. et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (. tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. . 15. univers intérioceptif.. . uma classe autónoma de significações linguísticas. já. Greimas anota que. de l’autre côté. entre la perception du monde extérieur. . encontramos o trabalhar desse tema. a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 .labcom. conceito de raiz fenomenológica. grâce au corps propre du sujet de la perception. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é. consequências dessa posição: “(. l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel. Pulim. l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. Sémiotique du discours. D’un côté. Limoges. et un univers proprioceptif. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position. et ce. 1998. 35. www. et. il détermine. la perception du monde intérieur. dans le monde où il prend position. qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques.). é possível. ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille.”35 .. o novo estatuto dado à percepção. implicitamente. para Fontanille (mas não o era já.

Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. bem como. a significação pressupõe a existência da relação. da relação. no mundo sensível.ubi. Pág. o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais. 37 Idem. a sua interpretação.i i i i 50 José Bártolo comum. o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. Ibidem. 16. talvez nos ajude a perceber. ou. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ .labcom. Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana. como se diz.pt i i i i . Este enquadramento. com menos surpresa. central em Saussure e Hjelmslev. a sua produção. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação.37 Recuperando a categoria. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”. www.

”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”.pt i i i i . pp. • Postulez à ce point. é uma das unidade de análise da semiótica. p. www. organizado em torno de um corpo próprio. Sémiotique et littérature. Cit. mais ou menos numerosos. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré. em definitivo. J. Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir). dont vous aurez limité en leurs extrémités.. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. mais ou menos rápidos. sabemo-lo. directement ou indirectement proportionnel. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues. Não há. Geninasca.ubi.”39 38 39 J. que fazem “aparecer. des modulations de la présence. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”. atravessado que é por fluxos. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. dans l’ordre du discontinu. uma instância de devir. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. • Une fois établis deux graphiques. Fontanille. 73. 10-11. discurso que não comporte uma erótica do sentido. les termes “saisie” et “visée”. um agenciamento de enunciação. desaparecer e que modificam os valores. centro de enunciação. O discurso. que é permanentemente agenciado. Loc. à cet effet. espaço de devir. nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. um desejo de fazer sentido. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”.labcom.

pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos. que aquém e além envolvem o corpo próprio.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo. A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder.labcom. os regimes de produção. p. as sensações.pt i i i i . Aarhus University Press. hic et nunc . mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido. a semiótica deve ser capaz de considerar. de uma semiótica que esclareça em que condições. 40 Per Aage Brandt. poder semiótico: poder de fazer sentido. a partir delas produzidos. o corpo. que é antes de mais. ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. da medicina às biotecnologias. a partir da análise dos agenciamentos. Numa palavra. que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida. Dynamiques du sens. numa palavra. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. www. nos discursos.ubi. do design à biologia. os afectos.i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções. para falar como Jakobson ou Deleuze. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva. para falar como Fontanille ou Zilberberg. as situações da produção. sob que forma. torna-lo objecto. 1994. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. 3.“eu” (identidade). desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. “aqui” (espacialidade).

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Idem, Ibidem.

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José Bártolo

Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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Corpo e Sentido

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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pt i i i i .labcom.i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. De certa forma. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια). p. a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo. servir de premissa a um silogismo. no sentido de “prova”.ubi. Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 . regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência. neste sentido. Tal conversibilidade. 3 Cf. 35. garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. Eco. τ εκηµριoν . www. 1 – 1357 b. O signo necessário vai do universal ao particular e pode. como facilmente se entende. Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular.40. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a.

Cf. então tem febre”. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização.pt i i i i . São incorporais. afinal.4 Da expressão. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos. admitir. com clareza. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”. a conclusão é apenas provável. uma maneira de ver as coisas. www. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. 42. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. Eco. p.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. modos de ser. como era para os seus antecessores. o lugar. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação.ubi. facto físico. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. p. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. “expressão”. muito da semiótica peirceana. Como esclarece Eco. “conteúdo” e “referente”. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. São incorporais o vazio. muito mais tarde.labcom. O λεκτ oν completo é a proposição. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem. Eco. para os estóicos. no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. Quanto à linguagem verbal distinguem. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. 41. Os incorporais não são coisas. Não é ideia. como são incorporais as acções e os eventos. por exemplo. afinal. são estados de coisas. não só aprofundam a múltipla articulação. uma imagem mental ou ideia. Quanto ao conteúdo ele não é. de antecipar o que. não é som articulado. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes. numa palavra. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. Trata-se. ainda.

porém. O signo é tipo não ocorrência. Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. suspeitar de que os acontecimentos. onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). portanto categorias da expressão. então. mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. já estados transitórios dos corpos. os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma. Os signos só se formam www. sejam incorporais. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística. empiricamente. deste modo. como. nem aquele fumo e aquele fogo. por exemplo. um incorporal. porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso. mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença.ubi. remete para algo que não é evidente. que deve haver fogo. A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre. mas são categorias do conteúdo. Devemos.labcom. Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos.pt i i i i . Parecem categorias gramaticais e lexicais. . Por conseguinte o conteúdo estóico. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso). exemplo maior do Lekton incompleto. Neste sentido o sujeito. De facto. Une-se. O signo não concerne aquela febre e aquela doença. é um incorporal. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. Ou pode ser indicativo e. Assim. portanto. na semiótica estóica. . os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev.

denotatum (Morris).i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem. A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos. 2004. Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon). com a definição peirciana do signo. A leitura definitiva aparece. A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo. interpretante (Peirce). e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). Gilles Deleuze. Ele direcciona-se para alguém. Mas.6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity).9. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações. a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química. denotação (Russel) ou extensão (Carnap). talvez. Cinema 1. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Imagem-Movimento. tradução portuguesa de Rafael Godinho. a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. O signo está em vez de alguma coisa. Lisboa. 6 www.pt i i i i . cf. ou referência (OgdenRichards). O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). o pragma. p. intensão (Carnap). Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia. e o objecto a que ele se referia. i.. expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens). Assírio & Alvim. o seu objecto. e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). outros designam de símbolo (Ogden-Richards).ubi. ainda. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos. outros apelidam de referente (Ogden-Richards). o que uns apelidam de objecto (Peirce). o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce. igualmente. mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara.e. uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. um pouco. como a classificação de Lineu para a história natural.labcom.

2.pt i i i i . da semiótica – a semeiologia – um signo. sempre pairante. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen.i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 . Mass. tanto se podem apresentar como sinal. Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome.. sempre presente e jamais captável. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem. De facto. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). 1931-66.ubi. este produz numa quase-mente um objecto imediato. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes. Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial. da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto. senão precisamente por meio da semióse. Pierce. 8 Idem. E cada um desses interpretantes. 2. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial.303. S. no sentido de historicamente mais implantada. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos). voltamos ao Objecto Dinâmico.228. Collected Papers os Charles Sanders Pierce. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo.labcom. Os modos de “ser” do corpo. a um tempo linguística e cognitiva. como signo ou como índice. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. nesta perspectiva. do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo. 7 www. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. e por aí adiante ad infinitum”8 . Cambridge. Harvard University Press. permanecendo o Objecto Dinâmico. Se recorrermos à classificação de C. ad infinitum. num certo sentido. Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria. por sua vez. O corpo é na tradição maior. através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação.

como observou F. o corpo seria entendido como um signo natural. não deixando de ser uma referência. O século XVIII europeu. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso. da escarificação. assim. de qualquer destas interpretações. torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. signos) ou analógica (símbolos. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial. Rastier. “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente. do adorno. Lotman. por outro lado. pelo facto da existência de uma relação semiótica. simultaneamente. assente na natureza arbitrária (sinais. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. mais profundo. A partir desta interpretação. de um classe. índices) da relação entre o significante e o significado.pt i i i i . podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito. Por outro lado. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais. e quaisquer que sejam as articulações. de um comprometimento. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. tão bem desenvolvida por J. No entanto. da realidade natural.labcom. possuem realmente o estatuto de signos. por exemplo.ubi. poderíamos retirar algumas conclusões. que justamente valorizou a noção de signo natural. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. remete para o signo “chuva”. situado ao mesmo nível do primeiro.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. é claro que o corpo é. de uma condição. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. Na perspectiva histórica da semiótica. essa relação remete para outro signo. se “nuvem” remete para “chuva”. os sinais e os símbolos de uma linhagem.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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ubi. objecto www. Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. (. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. realizando assim o seu projecto. A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo. ). socialmente. Ora. relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. Mas. politicamente.labcom. um outro significou e interpretou o nosso corpo. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. . . Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual. quer à significação. Assim. Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. De resto.pt i i i i . actualizando-a. quer como “narrador”. que a conjunção com o sujeito o realiza. a interpretação dá-se sob condições que. continuando. tem uma natureza produtiva. Interpretação e significação são acontecimentos. A interpretação ratifica a significação. que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza. sujeito realizado. já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. de o produzir linguisticamente. sujeito actualizado. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. de algum modo. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber. Pode-se dizer. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor.

objecto realizado. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação. a acção. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. servindo-nos. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina.pt i i i i . Para falar como Greimas. É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille. 15 www. Técnica e Subjectividades. 173. Greimas. torna-se possível. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. Pensando na evolução recente da semiótica. Por isso. na semiótica de Fontanille. pp. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível. O último Greimas parece. na sua abertura sensível. Coimbra. legitimar. em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. p. “ As aquisições e os projectos”. a vida. às paixões”16 .labcom. J. de resto. pretextos para o lançamento de novos percursos. que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. uma intersemiótica do corpo. que toma posição no mundo do sentido. Relógio d’Água. 1979. RCL no 33. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. Corpo. paixão.”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. Livraria Almedina. Sujeito. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer). que define graças a esta posição. de empreender a análise das “micro-estruturas”. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais.i i i i 70 José Bártolo actualizado. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. IN J. o corpo. afirmar que. o afecto. Courtés. à emoção. 27-28. 2003.ubi. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. 16 José Augusto Mourão. discurso”. “ EGO AFFECTUS SUM. por exemplo.

Sémiotique du discours. ii) a escolha dum ponto de vista (fito). Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. no 61-62-63. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. RCL no 29. como produtora do corpo e do sujeito-objecto. em favor da dinâmica das linguagens. modais e axiológicos. 18 17 www.labcom. p. É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem. 30. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). 266. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. Limoges. 20 Jacques Fontanille. também.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica. como o corpo e com o sujeito.18 Na sua Sémiotique du discours. 1998.pt i i i i . Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais. em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo. ainda que. 2001. p. Tais Idem.ubi. corpo-em-vida do sujeito. considerando que a sensação e. 1999. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão). ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis. iv) a formação de um sistema de valores. de efeitos actancias.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima. Relógio d’Água. PULIM. Herman Parret. Lisboa. o sentido. mas considerando-a. p. Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a. 19 Jacques Fontanille. acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. sede de percepções e de emoções. o mundo exterior e o Mendo interior. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. abandonando a perspectiva do signo. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis.17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. NAS. está no choque dos corpos: corpo do mundo.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. 175-176. por vezes. p. “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”. O Campo da Semiótica. de algum modo. 214.

como é. o design é. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. Faz notar que. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico). sê-lo-à para Greimas como. para falar como Greimas. na medida em que são. esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo. de uma máquina semiótica. cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. de um modo muito claro. para Lévi-Strauss. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. não há corpo que não seja expressão. Quando uma determinada frase. que não pode ser plenamente compreendido considerando. na medida em que não há corpo que não seja construção. uma dupla actualidade. ele identificado com uma máquina semiótica. estamos em crer. da respectiva máquina semiótica. a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. para falar como Althusser. que “a expressão somática é sempre enunciação”. Estas considerações ajudar-nos-ão. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. a maior parte das vezes. contribuindo para a sobredeterminação. por exemplo. essa frase. Ao discutir o problema da relação. quer as teses seguintes onde. José Augusto Mourão afirma. sobre essa base de semelhança ou de identidade. qualquer que seja a forma pela qual se apresente.i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. sejam distinguidos por uma diferença. Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico. também. é necessário que tenham algo em comum a fim de que.pt i i i i .labcom. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”). de resto. é-o sem dúvida.ubi. não apenas. já o dissemos. depois dele. também. A relação. por exemplo. sob regras específicas. para Brandt. Greimas. representações www. enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev. era-o. não há corpo que não resulte do funcionamento. apenas. activos mas também retroactivos. apresentado por Julia Kristeva.

monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. como se verá. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos. por vezes. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo. quer para regressarmos à análise do processo de significação. Au commencement était l’amour.21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos. da semiótica das paixões fontanilleanas.labcom. evidente. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é. Pág. a importância das produções normativas. que não encontra estabilidade na definição normativa . partindo. por exemplo.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico). considerando. territorializando o excesso semiótico. Psychanalyse et fois. 21 Julia Kristeva. 1985. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”. www. Hachette. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema. Paris.ubi. 15. também.

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Ed. O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante. se opera o corpo. o corpo é. objecto imediato. §536. IV. Harvard University Press. por outro lado. é efectuada. e cujo Ser depende. 16 e segs. Relógio d’Água. não sendo o próprio corpo. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. “o objecto como o próprio signo o representa. Cambridge. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. Vol. Lisboa. da Representação que dele no signo é dada. por inteiro. de uma dilucidação particular do fundamento da significação. pois. Mass. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. mas carece. 75 i i i i . se estuda o corpo. o estuda ou o opera. se age sobre o corpo. poder-se-ia recorrer à distinção. Metamorfoses do corpo. O Objecto possível é. 1997. para ganhar autêntica fertilidade. o consequente de uma significação particular que. 1965.. tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. 2 José Gil.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo.”1 . significável. para esse que o pensa. a partir do pensamento de Lévi Strauss. De cada vez que se pensa o corpo. isto é. Pág. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). Collected Papers of Charles Sanders Peirce. a par de muitas outras possíveis. portanto.

na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). O fundamento. a olhar para a minha mão esquerda. O objecto imediato assim constituído. da estrutura da epiderme. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento.i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. dando lugar a uma proposição particular. 75-91.pt i i i i . Lector in Fabula. daria lugar.”. onde eu estou. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base. e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”.ma Eco. que corresponde à minha mão esquerda. de cada vez. constitui-se um objecto imediato. como lhe cha. torna-se compreensível que.ubi. tal como Peirce o define.labcom. Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”. 58 (Juin. In Langages. dos ossos da mão. se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação). A. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo. 4 3 www. como defende Eco3 . 1980). p. por exemplo. com uma notável clareza. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”. 1979. então. que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias). Milano. do interior da mão etc.34.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. enquanto significação do signo. Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. Valentino Bompiani. no desenvolvimento da análise. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”. Umberto Eco explica. “mão esquerda”. pp. sentado em frente ao computador. a um objecto imediato. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas.

admitir.labcom.. tomada juntamente com o signo já ampliado. criará um signo ainda mais amplo.pt i i i i . o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 . ainda. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. Vol. Idem. o devir-outro é um movimento de intensidade. que não as do corpo. Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo. Cit. 2. de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante. sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. da análise. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. “qualquer signo só pode representar o objecto. os conceitos. devemos. abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato. este devir-outro nunca desemboca num outro. a qual. 5 6 Confirme-se em Charles Peirce.ubi. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia. as fronteiras. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo . §231. as proposições e os argumentos. por outro lado. de original. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições.operam o devir-outro do corpo. Op. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior.”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. os conceitos. como lembra Peirce.i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e. e falar acerca dele. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica. os argumentos . tem a ver com as definições.as definições. e visto que a explanação será um signo. §230 www. persegue-o tensionalmente. Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica.

os argumentos que. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 . Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. desejando dele se apossar. Peirce”. do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. o objecto dinâmico. precisamente. Vol. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. Independente do signo. in the long run. sem que a posse plena se dê. 9 Confirme-se em Charles Peirce. por exemplo. a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico. p. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada.. Cit. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. a um deitar-se diante de algo. Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo. Op. Confirme-se em David Savan.”7 . Langages.13. de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva. Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf.labcom..i i i i 78 José Bártolo os conceitos. Este processo de intensificação corresponde. seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio. Umberto Eco.ubi. “La Séméiotique de Charles S. processo em processo aliás. 58 (Juin 1980). p. Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia. Op. terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 . VIII. Cit. 47. §§12 e 13 8 7 www. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro. como sublinha Peirce.pt i i i i .

mas isto. neles se não revela. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. a qualquer significação. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. mas esse gesto. verdadeiramente não está presente nos corpos. “Dancing Bodies”. 10 www. nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado. autenticamente. assim. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). essa dor. enquanto. New York. 480-495. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce). como acredita. mas. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas. 11 Idem. próximo da imagem pairante kantiana.labcom. A expressão é usada no artigo de Susan Foster. ele é a condição de possibilidade da presença destes. como aquilo. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue. objectos imediatos.ubi. ele é um quase-signo. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido. o meu corpo não é a minha estrutura de ADN.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias. eles são outra coisa. O meu corpo não é isto nem aquilo. Mais. no sentido em que não significa isto ou aquilo.pt i i i i . de discursos e de diversas práticas”. p. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. original. é evocado por estes. O corpo. o objecto dinâmico.) Incorporations. 1992. objecto dinâmico. são expressões do meu corpo. de facto. mas ele é outra coisa. Ibidem. dir-se-ia de ser. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. Urzone. eles não são menos do que o corpo por inteiro. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. igualmente. em si anterior. O corpo/objecto dinâmico está. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. B) Fica.

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pelo menos desde Antístenes. que o indizível é o dinâmico. como o soube toda uma tradição que. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. no sentido peirceano. pelo contrário. objecto dinâmico e objecto imediato. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. ser capaz de saber. se vai fazendo.i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. pinças. é o imediato. que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem. por uma divisão que jamais será ultrapassada. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. que das substâncias simples não pode haver logos. como o faziam os antigos. 81 i i i i . e o dizível. pelo processo anatómico. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção. de anatomizar. mas apenas nome. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. apenas. Que o corpo seja onoma e logos. ser capaz de saber distinguir. ser capaz de saber distinguir. como Pierce. aproxima Platão e os místicos. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. seja através de um discurso instrumental (bisturis. neste aspecto. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é.

a folha. 2 Idem. o corpo exige escrita. pensa Nancy. o corpo que vemos envelhecer. Jean-Luc Nancy. “Como tocar então no corpo. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém. o corpo que adoece. os dedos. no nome ele persegue a ideia. p. nas deslocações.labcom. eles não param de se tocar. enfim. Há bordas do corpo e bordas da escrita. O corpo que abraçamos. há algo que vai permanecendo sempre. o pensamento não para no limiar do nome. mas o próprio corpo. nas intersecções. a própria linguagem nolo permite. Colecção Passagens. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. as imagens. Lisboa. o corpo que estudamos. Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente.pt i i i i . Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. semio-lógico. o teclado e o ecrã do computador. Ibidem. simultaneamente. um corpo lógico. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos. é um corpo integrado no plano do discurso. tocar. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. Não os signos. Corpus. . e na borda e de um de outro. intitulado Corpus1 .i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome. bordas visíveis (a caneta. para sempre. mas o corpo. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. nos contactos. as cifras do corpo. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis.ubi. 11. e como nela se vão constituindo corporeidades e.está sempre a acontecer na escrita”2 . 2000. as unhas. mas ainda o corpo. O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. distraidamente. tocar o corpo. Nos pontos de tangencia. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. ). . Escrever é tocar a extremidade. tradução portuguesa de Tomás Maia. um cabelo caído sobre o branco do papel e. 1 www. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. não a corporeidade. Vega. entre a escrita e o corpo. que pretendia escrever não acerca do corpo.

reviravoltas. o seu excesso. o corpo é a ideia. desvios do discurso em si próprio. nos bordos. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. na relação entre corpo e linguagem. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos. ou derramar o seu sentido. nem post res. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar. ele não se escreve sem revolta. diz Nancy. O Pensamento Morfológico de Goethe.4 Uma vez mais. e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. poder-se derramar. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. aquém e além dela. contradições. revolta-se excrevendo-se. para foras das veias por onde corre. a qualquer momento. Série Universitária. Perante esta concha. e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca. como sangue com demasiada vida que parece. fluindo nos bordos. Lisboa. 21. p. um tronco. mas unicamente cum rebus. nem é uma função operatória. e que o expõe como Ibidem. como um bocado de osso. 1995. nem in re. escrita e por escrever.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. o plano da significação. um calhau. na relação. nervosa. O excesso não tem. como pensa Nancy. A palavra a mais em qualquer linguagem. INCM. nem mesmo sem inconsequências. este tronco ou este bocado de osso. suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio. então. o fim do sentido. quase derramando para fora deles. aqui. a ver com o que não cabe na linguagem. do corpo com a linguagem. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco.pt i i i i . esta concha – são apenas manifestações da ideia. a sua fertilidade. apenas. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas.ubi. estando no acto de escrever.labcom. ou escrever “o” corpo sem rupturas. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”). no sentido da escrita. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego. É preciso atravessar este “sujeito”. A ideia é. 4 3 www.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. na possibilidade da escrita. ao contrário é o fim dessa idealidade. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. a palavra que sempre se excreve. descontinuidades (discrição).

O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”. p. nas junções.5 O corpo expõe existência sobre os corpos. Lisboa. O corpo é um estranho objecto de estudo. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”. p. para usar expressões de Parret. Habitualmente. mais do que nós o designamos a ele. 25. que melhor conhecemos. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. nas dobras. tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar.pt i i i i . Revista de Comunicação e Linguagens. Cit. Maio de 2001. no face a face entre o dentro e o fora. no interface. constituem-se intersubjectivamente. No 29. como o anota Eric Landowski.7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. na borda. nas uniões.. Porém. Não só o corpo mas também o mundo. o corpo do velho e o corpo do doente. Não há sentido sem corpo a corpo. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . corpo e mundo. Relógio d’àgua. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem.labcom. é o objecto que nos designa. de outras vezes. Herman Paret. são sentidos. vivemos o corpo de dentro para fora.i i i i 84 José Bártolo tal. 7 Idem. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que. designamos por semiosis. 215. não pode ser senão intersemiótica. 215. e num certo sentido. nas intersecções. das “significações” e das “interpretações”. o calhau que designamos por “aquele corpo”. para ser adequada. p. que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. É sem duvida verdade. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo. 2001. em que dentro e fora. Op. em semiótica. O sentido dá-se. corpo e linguagem. mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. quando se estuda o corpo. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido. 6 5 www. nas bordas.ubi.

A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll.quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá. 9 Lewis Carroll. “Fronteiras do corpo: Fazer signo.109. finalmente. Lisboa. naturalmente. seria alcançar um ponto de partida real. 1982. em relação a este corpo objectivado.271286. um problema de orientação .ubi. mas de um problema de enunciação . Seguir-se-ia. London. porque não se trata tanto de um problema de conhecimento. aliás. please your Majesty?. and go on till you come to the end: then you stop. o que o método pretende alcançar. p. Ou seja. very Gravely.enunciação. que é.é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação . condição da sua objectivação. Begin at the beginning.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. Os Três problemas . por onde seguir. isto é. quando se estuda o corpo não há um objecto determinado . he asked. Revista de Comunicação e Linguagens. sujeito que analisa e objecto de análise – e é. processo este que é.um saber o que se quer saber ..de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto .i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 .como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério . Maio de 2001. a um tempo. distanciação e orientação . Trata-se de saber.que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo.pt i i i i .podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. 2001. fazer sentido”. Alice’s adventures in Wonderland. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. afinal. Relógio d’àgua. o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível.”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. Chanceler Press. O “ideal”. the King said. mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto.labcom. então. o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin. onde começar. onde parar. pp. No 29. 8 www. A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura .

A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. Pelo contrário. retira-se o corpo do seu enquadramento natural . Por outras palavras.e isola-se num enquadramento artificial .do plano da vida para o plano de estudo . 1981. cada fotografia. Lisboa. Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”.não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo. cada análise médica . 10 www. a ideia de corpo. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada. a transferência cientifica . do corpo da mulher. esse halo que torna cada representação do corpo incomparável. englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso. concretizando.enquanto forma contém a sua ideia.ubi. Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo .a objectivação .cada desenho. cada radiografia. um determinado agenciamento discursivo. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 . identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . Cada representação do corpo .tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. por exemplo. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela. deixa aparecer.permite exteriorizar. mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida. As Ciências do Artificial. é essa a sua organicidade. a artificialização é parte do processo de validação.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl. isto é.do plano da vida . preenchendo. Simon. a sua ideia gerativa.25-28.labcom. ou que uma noite é uma noite. movimento para um original. do corpo do doente . pp. Arménio Amado. esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. não induzida da totalidade de representações afins. Herbert Simon o define.pt i i i i . um typus. isto é. sobre esta ultima definição veja-se H.do corpo da criança. porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas. cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano. que se não dá nunca. Isto é. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera.

porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa. potência e acto. www. como todos os seres que nascem.ubi.pt i i i i . ao mesmo tempo. leva a cabo a sua própria possibilidade.i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste.labcom.

disposição e funcionamento. De Montméja (1868). de A. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição. O corpo é um desses territórios ambíguos.labcom.ubi.pt i i i i . Dardy e A. Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza. estranhos e íntimos ao mesmo tempo. e num certo sentido.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto. ou por um qualquer inex- www. que melhor conhecemos.

na linguística. Ao tomar-se algo como objecto. O corpo. pois. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e. “cravar”. assim. ele sempre acolheu. Relógio D’Água. de um embaraço. por seu lado. mas. 255. O obstáculo. precisamente. O corpo é. pelo simples facto que ele é nós próprios). marca de uma limitação. O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram.. enquanto objecto de estudo.). Cf. num certo sentido um pressupõe o outro. “obstáculo. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. Op. Objecto significa “pôr diante”. está ligado a uma acção. “Fronteiras do corpo. 13 Confirme-se em Maria Augusta Babo. Fazer sentido”. p.255. Fazer signo. “objecto”.labcom. no 29.”11 .”13 . “expor” (a um perigo). obstáculo na medida em que é objecto. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. “impedimento”. por um lado. p. em suma. Revista de Comunicação e Linguagens. mais do que objecto”.ubi. O Campo da Semiótica. no entanto. e ainda. vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. o cravar as mãos em algo. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. a base da sua elaboração”. de facto.pt i i i i . “embaraço”3 . próximos. manipulado. Augusto Mourão. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”. 2001. “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que. a ser estudado (ou a ser operado. de uma falha. por sua vez. mais estreitamente. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão. A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . Obstaculum significa. ou. “Para Uma semiótica do Corpo”. concretamente a Ob-jaceo. Lisboa. Maio de 2001.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez. “fincar”. 11 www. Cit.. o aproximarse de algo. IN Ma Augusta Babo e J. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. parece. p. está ligado a uma inacção. investigado. Op. mais correctamente. em relação ao seu significado. “interpor”. o estar deitado diante de algo. A questão central está precisamente. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. porventura. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. contudo. Cit.

The Antropology of the Body. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais. 344.. numa antecipação que não é apenas intuitiva.343-373. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível. O que Ellen desenvolve pode ser classificado. diríamos de base antropológica. desenvolvidos.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que.labcom. ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo. assim. Academic Press. em particular. IN John Blacking (Ed. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. Cit.”16 . a Ellen interessa. a partir da segunda metade dos anos 8015 . algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . de semântica do corpo. Op. mas não deixa de ser relevante. Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. pp. 16 Confirme-se em Roy Ellen. deixar perceber. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. sintomaticamente relevante se se quiser. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de. mais do que de semiótica do corpo. p. os significados linguísticos do corpo. essencialmente.pt i i i i . quase exclusivamente. 14 www. Paris. como se sabe.i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. num outro sentido. Ellen antecipa.ubi. De facto. à falta de melhor definição. tomar o corpo como objecto de análise.). IN Encyclopaedia Universalis. New York & San Francisco. London. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”. antecipando assim. por exemplo. 1977. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 . Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado. As limitações do estudo de Ellen podem. O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world. uma série de estudos. por nesse alargamento. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen. 1985. por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo.

no que diz respeito ao corpo. A afirmação não é. e no entanto. 9. no entanto. demos já a entender um certo corpo através da linguagem. indíces) da relação entre significante e significado. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena.”20 De facto. que fazer do corpo um signo é. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística. encontramos Jean-Michel Berthelot. Op. não só o corpo não ganha corpo. Em Jean-Michel Berthelot. Marin.pt i i i i . torna-se evidente que o corpo é. p. plenamente rigorosa. com pertinência.18 Num outro quadrante. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo. e de l’indice.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu.labcom. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra.ubi. 19 Cf. op. antes ganha expressão ou significação.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. Cit. como nos mostra Berthelot. se recuperamos a classificação de Benveniste. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. Certo é. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”. Ibidem. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se. Recherches Sociologies. na sua elaboração. 1998/1. 20 Idem. também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse. du signe. semântica e pragmática). Em L. Cit. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. instrumento e espaço de comunicação e significação.“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. signos) ou analógica (símbolos. il peut jouer tout à la fois du signal. espaço de fronteira. lugar de encontro. Eric Landowski faz notar. 21 Landowski. 18 Cf. pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. du symbole. não somos capazes de conhecer. a um tempo. como a linguagem não ganha corpo. 17 www. contudo.

Assim. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. em “fôlego” da escrita e. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. formas de significação não-verbal que.ubi. 22 www. De qualquer modo. “Non Corpus. quer a linguagem. 22. admitimos que o corpo e. Há modos de ser no corpo. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. em “linguagem corporal”. estrutura. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. um aspecto. Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. seguramente. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. sem o notar. do mesmo modo. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais. importante. signos. pp.i i i i 92 José Bártolo corpus. Estamos na presença de dois campos semióticos distintos. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. em particular.pt i i i i . 7-12. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo. falamos. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade.labcom. IN Invigilatata Lucernis. estando tuberculoso. 2000. ao mesmo tempo. então. De facto. mas igualmente. por exemplo. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”. analogias – é. reciprocamente. os gestos “falam por si” e. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar. As figuras designam como que a zona de troca. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo.

mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria. excessivo. a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. mesmo que em traços gerais. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”. Greimas. claramente. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas). a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. Ricoeur ou Fabbri. sem mais. antes desenvolve. actualiza e redeCf. constitutivo de ambos e actual em ambos. tal rumo parecenos. José Gil. reduzir. “ O corpo. É.ubi. há. da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 . p. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. não rasga. porventura. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos. 23 www. Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar. sendo que a sociossemiótica não rompe. digamo-lo assim. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade. Revista de Comunicação e Linguagens. sem qualquer laço de linguagem”23 .labcom. autenticamente.59. O laço que une a linguagem ao corpo é.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. explicita ou implicitamente. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. um organismo sem expressão nem fala. justamente. o actual rumo da disciplina. quer dizer. Não há. no 10/11. de resto. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro.pt i i i i . e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo.

Landowski ou Marsciani . Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. b) Ancoradouro deíctico. Fabbri. não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo. nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit.”25 . o da semântica interpretativa de Rastier. et l’enveloppe le sôme. sema/soma. p. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. Écrits de Linguistique générale. Saussure. mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe. Na semiótica da última geração – representada. corpo-semântico e corpo-carne. de même que le séme est tout pour le linguiste. pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais. Mourão. por Fontanille. sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri. le suivre comme un ballon dans les airs. Le ballon.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. www. Parret. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos. Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe. traduzido pela figura do balão.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana.pt i i i i .labcom. et l’ hydrogène la signification. mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. O corpo. sans que le ballon soit rien pour sa part.ubi. nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. Il est tout pour l’aérostier. avec certitude de le rattraper. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica. c’est l’séme. Geninasca. e o da tradição peirceana. entre outros.115.

). p. attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa. un percorsso generativo dell’espressione. in secondo luogho perché si dipana. e) A semiótica do contínuo. c) Uma revisão geral do processo generativo. Pierluigi Basso. 26 IN E|C. d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade. revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido. il quale rimarrebbe in memoria nei testi. . dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. 2005. a agitação proprioceptiva. dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade. reservando espaço ao acidente e às paixões. “Figure del corpo di Jacques Fontanille”. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural. se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto.labcom. Rivista www. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida. Gennaio. . que se estende a fenómenos como a tensão.i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico.pt i i i i . o devir.ubi. pressuposicional.1. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. b)Uma revisão da sintaxe narrativa que.”26 .

ubi. a partir dos mesmos instrumentos. de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski).labcom. é. representa antes uma actualização da semiótica discursiva. leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos. já o dissemos.pt i i i i . de analisar regimes de signos.i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva. uma intersemiótica (no sentido de Parret). textos e corpos. quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. pese as denominações diferentes. de fazer análises semióticas dos discursos. o objecto de análise da semiótica. o discurso – verbal e não-verbal . uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). Podemos tentar esquematizá-lo: www. O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. antes de mais. devires. acções e paixões são objectos de análise possível. imagens e gestos.neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto. tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos). por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum.

. em oposição a estas duas perspectivas. Greimas. 1968. a semiótica de Greimas e. A. se se preferir. como mostrou Umberto Eco. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. “Le base fonctionnelle du langage”. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. então.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. . corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. Holt. IN E.). Pág. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. Universals in linguistic theory. ou seja a intentio auctoris. J. 28 27 www. Harms (Orgs. Semântica.pt i i i i . pelo menos ao nível da frase. K. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 .29 Como é sabido. “The case for case”.labcom. da Escola de Paris. na definição dada pela Semântica Estrutural. 132-33. T. Fillmore. Reinehart & Winston. a interpretação tem por finalidade. Ch. Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. . devedor de Propp e Lévi-Strauss. 34. IN Langages. Halliday. 29 M. de um modo mais geral. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão. a semiótica dos autores da “Langages” ou. 1974. Como identificar. New York. “captar ao menos dois termos-objectos.ubi. Para o ponto de vista hermenêutico. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase. Bach e R. o que significa. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). e no entanto.

i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson.labcom. como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. do sujeito e do objecto. Na semiótica greimasiana. A estes três estados. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. de Benveniste. em Hjelmslev. o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. entre estrutura e função. Define-se. Malinowski ou Nobert Wiener). as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. As bases dessa reformulação. e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção. com a modalização do fazer. são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. Greimas e Fontanille. o dever-fazer. como uma www. o poder-fazer e o saber-fazer. Com a competência modal e.ubi. da função em enunciado. o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. encontram-se na definição lógico-matemática da função. mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. estamos em crer. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções. passo decisivo. que transformam a relação do sujeito com o quer. a partir daí. como já fizemos notar. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural). o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer). ou seja de programas narrativos. consequentemente.fazer. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. o modo potencial. em particular.pt i i i i . acrescentaram um quarto modo de existência. pela transformação de estado). na Semiótica das Paixões. a junção e a transformação.

Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. J. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. Por isso mesmo. no objecto e repercute no sujeito de estado. modalização do objecto. Greimas. 52-55. Fontanille. 31 A. Seuil. Des états des choses aux états d’âme. intencionaliza-se. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. “De la modalisation de l’être ”. que não o modalizado. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. deste modo. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. que determina o objecto (ou. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer). melhor. determinam-se diferentes tipos de narrativas. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos. No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. como dissemos. II. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos. A. seguiu-se a modalização do ser. No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 . quanto ao local de incidência: modalização do enunciado.pt i i i i . Sémiotique des passions. 1979. a partir daí. relacionando-se com o sujeito. 9. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas. pelo dever. substituindo-se. que recai sobre o predicado. ao ser investido de valor.ubi. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que. 1993. 30 www. diferenciam-se dois tipos de modalização.30 À modalização do fazer.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer. pp.labcom. J. o diz verdadeiro. para o encontro com o sentido. c) Como na modalização do ser. Greimas e J. Paris. a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado. No primeiro caso.

assim.i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. colocada lá atrás. já no domínio das paixões. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto. em que várias organizações de modalidades constituem. Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. “medo”. as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas. a semiótica foi. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. na instância do discurso. é possível reconhecê-los como “amor”.labcom. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser. Distinguem-se paixões simples. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). Numa segunda etapa. www. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. essencialmente. Por outras palavras. por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica.ubi. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. darmos resposta à pergunta. gradualmente. Abre-se. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica.pt i i i i . assim. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. “angústia” ou “ambição”. de paixões complexas. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. uma semiótica centrada. desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção. ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. sobretudo.

A semiótica dos humores. passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. c) Os simulacros modais e passionais. A precondição tensivo-fó.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável. não só. o corpo-a-corpo original.labcom. de certa forma. passional. www. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto. patológico.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação. contagiosa. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. ela dá-se. os simulacros modais e passionais. como diz Landowski. intersubjectiva mas. a analisar.ubi. em relação ao sujeito modal. A significação surge-nos como um processo. bem entendido que toda a comunicação é. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó.ricas. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso. por outras palavras. também. c) Finalmente. que podemos designar por devir. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva).pt i i i i . em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção. a semiótica passa a considerar. o que significa.

Sémiotique des passions. Spoleto. 34 A. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba. 33 J.) . “ Il discorso della salute”. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal.). 29 Ott.34 Na esteira da Semiótica das Paixões.ubi. isto é. Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”. “en ce sens que. Fontanille. 35 C.labcom. Morin. Pág..ana. Seuil. Vol. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. Op. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida... e há sintomas de uma determinada perturbação. Em todo o caso. a saúde.. Como “motivo”. há sensações. 2004. Paris. “La Malaise”. 30. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. 100.. Pág. Quase sempre a doença é percebida negativamente.. Congresso AISS. Fontanille. 95. J. uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso. No 3. Greimas e J. 1991. alerta.). permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise. anómala. vai Fontanille na sua semiótica da doença. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. IN Protée. Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille. (3) les orientations axiologiques. ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 . dans le processus humoristique.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 . la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. o corpo-sem-orgãos que a manifesta.”35 Mais longe ainda. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso. dans l’idiolecte.. a doença comporta uma outra dimensão figurativa.pt i i i i . A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. extraordinária. Cit. 32 www. revelação tardia./01 Nov. No limite. fim de remissão etc.

2. compreendendo. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo. o corpo-estranho. é um estado. constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes. por exemplo a saúde. o corpo-marginal. Fontanille. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. fazem funcionar. Idem. www. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”. mais il est l’expérience intime. mais cês informations ont une forme significante. De facto. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur). l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. Ibidem. por exemplo a doença. desligação ). é uma sequência narrativa. incubação. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”. enquanto que a manifestação “anormal”. o corpo-monstruoso. aliás.i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado. Pág.pt i i i i . bem como o conjunto das nossas experiências sensorias. do ponto de vista figurativo. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. funcional. O corpo normal é o corpo eficiente. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé.ubi. é a de que a “éprouvé somatique”. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J.”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo. O corpo defeituoso deve ser reparado. como diz Fontanille. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. a reparação normaliza o monstro. que se compreende por relação com o corpo normal. qui donne lieu à des représentations. o corpo são. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. “La malaise”. o seu corpo normal. O corpo-doente. à des interprétations. prestável enquanto instrumento integrável numa máquina.labcom.

um nível fenomenológico. morte). e a anormalidade um acidente. Jacques Fontanille afirma: “Certes. a duração do estado normal. a saber o plano da existência e o plano da experiência. où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. desgaste.i i i i 104 José Bártolo (infecção. et le niveau dit du plan de l’expérience. comme une absence d’événement. ni même “symptomatique” ”. et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. saturação). à la différence de la maladie. e.ubi. O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. comme un état stable et durable.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. 4. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir. este não é mais fenomenológico do que aquele. Ibidem. Trabalhando o par doença/saúde. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. por sua vez. www. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”. como resultante de uma “tensão permanente”. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. la santé se manifeste et se donne à ressentir. a par destes dois níveis de “funcionamento”. entropia. 40 Idem. onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. Ibidem. e uma fase terminal (handicap. inflamação. por assim dizer. por outro lado. correspondendo a um processo “multi-polémico”39 . um estado de coisas. Médico (corpo 38 39 Idem.labcom. Ibidem.”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. um estado de alma. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. Pág. uma perturbação provisória. quando as defesas baixam. Do ponto de vista semiótico.pt i i i i . Pág. le malaise. 3 Idem. et qu’une illusion d’absence de transformations. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. ocorrendo.

a resistência síncrona e controlada. Idem.labcom. nesta perspectiva.ubi. Ibidem. por outro lado. definir. normalizada. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. em síntese. que manifesta. como um estado estável. le “corps-actant” du plan de l’expérience. “le statut de l’actant change radicalemnt. estabilizar. Pág.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. por embraiagem. o anormal (o monstro.pt i i i i . o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. A reunião dos dois num só actante. 5. Devemos considerar a existência de um corpo-actante. noutras palavras. mas que é possível controlar. 2. perceber: 1. superficial e experiencial. por um lado. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive).”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. 3. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. ou. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. profundo e existencial. le “corps-actant” du plan de l’existence. a anomalia. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo. de certo modo. como um acontecimento perturbador e destabilizador. ataques e defesas em todas as direcções). a partir de tensões de resistência. Ibidem. outro. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de. Podemos. como unidade coerente da experiência. forças. www. A existência de dois níveis narrativos: um. constituído por uma estrutura polémica multiforme. e o corpopróprio. constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. e.

afinal.pt i i i i .ubi.labcom. num corpo unificado. nunca esteve verdadeiramente separado. www.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência. a ligação do que.

2 Idem. “Observa tio diuturna. tal como o anatomista. o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. 1 107 i i i i . não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação.2 A visão é um processo de enunciação. por excelência.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera. já.pt. de certo modo. só conhece o que analisa e o processo de análise é. o semiólogo. mas porque a visão é. enunciá-lo.triplov. pouco a pouco. a fazer dele objectos”. A citação. bem como a ideia. a sua divisa. sempre. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e. olhar o corpo é.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. em certo sentido. para alguns institutos de anatomia. notanbis rebus. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione. é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www. Ibidem. como o anatomista. formulando aquela que se tornará.

por exemplo. há. em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. p.labcom. comparável ao corte anatómico. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem. Cf. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. disseca-o. O corpo é. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. – e zona de ressonância interna/externa. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise.ubi. a dor que eu sinto do meu braço. 3 A expressão e a ideia são de José Gil. antes. e que propriosentida. a dor. 1988.pt i i i i . corta-o. circulação sanguínea etc. através da linguagem no presente real. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem. www. muito mais. Poder. Corpo. a um tempo. Fenómenos como o desejo. por exemplo. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . Litoral. José Gil. objectiva-a como coisa real tornando-a. descreve-o. inevitavelmente.122. aliás. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. passível de ser analisada por um médico.i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real. sentida por de dentro. um laço intersubjectivo que liga. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo. embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem. Lisboa. funcionamento orgânico. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem. a linguagem apresenta-a. Espaço. ao seu desmembramento – o corte linguístico é.

Actes Sémiot. desde logo. uma forma da representação. sob certas condições. o corpo e a linguagem devem. de lamelas. “eu vejo” etc. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita.ubi. o “eu penso”. exterior ao representado. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. No 3. neste caso. O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. Quando eu penso. espaço feito. pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador. É pacífico. Tal operação não é. Esta interpretação não é estranha. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. O corpo orgânico é. ser identificáveis”4 .i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado.pt i i i i . vejo. Língua e infra-língua. Zilberberg.labcom. significa. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. como diria José Gil. 4 www. à semiótica. então. 1989. C. que se constitui. A restrição da apresentação. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente.. IN Nouv. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. ao operar Cf. relativamente ao corpo. a partir do m’eu corpo. pelo facto de se representar um corpo. pelo menos desde Greimas. pp 1-31. ouço. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. e não apenas algo representado. Poder-se-ia. toco. A representação não é. É o corpo. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular. um representado que exprime modos de representação. intercorporeamente. “Modalités et pensée modale ”. aqui evocar Merleau-Ponty..

(Eds. Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. 5 www. Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. O corpo pode falar por ventríloquia. 7 Maria João Ceitil. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor. Pôr o Corpo a Pensar. Cf. a dizer a verdade ou a mentir.). Dizemos que o corpo fala. Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits. talvez. talvez não corresponda. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. Estesis. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. Não é. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”. São Paulo. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis. determinando as posições do Tu e do Ele5 . por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc. Educ/Uap. celui de l’expression. comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne . No 17. ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social. un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. ISPA. celui du contenu. 2003.pt i i i i . Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”. “L’appareil formel de l’énonciation”. Lisboa. Estética. IN Eric Landowski et al. que temporaliza e espacializa. et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. et l’autre. 222. 1997.labcom. Semiótica.”6 . expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. associado à língua e ao seu uso social. tornar comunicantes os seus sinais. 1970. quase biológico. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. o que. No Curso de Linguística Geral. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. E. que o “sorriso comunica”. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana. um dos mais interessantes. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. 6 Jacques Fontanille. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . Pág.ubi. Benveniste. IN Langages.

seguindo a proposta de Fontanille.ubi. aliás. por um lado. mais do que a partir da perspectiva da antropologia. a semiótica do contínuo e das tensões graduais. www. Se partirmos. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. e da estratégia. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. No entanto. A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo. eles correspondem ao percurso gerativo da significação.labcom. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. quer no plano semântico quer pragmático. O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. aliás. pode falar na medida em que ele é feito falar. em estruturas modais.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos. a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. que fundamenta. tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível. do contágio. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. sendo as condições desse fazer. por outro lado. isto é. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. indo. que nos interessam aqui dilucidar.pt i i i i . da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. buscar a Fontanille a definição. designar por uma semiótica cultural. a semiótica das situações e. em termos de estruturas narrativas. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. permanentemente.

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José Bártolo

Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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Corpo e Sentido

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
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A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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do eu e do outro. no corpo vivo. “agarro a caneta”. ou umas sobrepostas ás outras. a sua realização terminará no inventário de posições . que escrevem uma frase. 1964. sem que entre um e outro hajam brechas. p. De facto. por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”. “escrevo com a caneta”. o seu sentido. a própria vida. que retomam a tocar o teclado . “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”. mas que deixam escapar a continuidade. para o gesto dos dedos que agarram uma caneta. L’oeil et l’esprit. de um modo não-natural. O corpo aparece. fendas ou falhas de sentido. há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim.ubi. sob este ponto de vista. “escrevo no computador”.labcom. Analisar parece pressupor. Merleau-Ponty. Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre.sem fendas. como algo simultaneamente expressivo e oculto. A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. “ dirijo as mãos para o teclado”. 13. no plano da vida não há entre.num corpus . Gallimard. há uma ligação. A análise não só quebrou a acção. sem falha. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior. Paris. não pode ser limpa. as determinações e as fronteiras. também. que caracteriza precisamente o próprio corpo. No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. interrompeu-a. a imperfeição contínua. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta. então. mas é a própria análise quem estabelece. mistura de visível e de invisível.i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 .que se dão umas na sequência das outras. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. de tocante e de tangível. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo. escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. www. 6 M. mas.pt i i i i .

por oposição. A noção de perceber. Perceber pressupõe. Este conceito.101. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. “transitividade”. com o seu sentido de “transporte”. de outro.xe. retenções ou disforia e. ou. A Semiótica das paixões7 . cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. Fontanille. entre este estar dentro e este estar diante das coisas. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta.J. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. enquanto na acção. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido. apresenta uma noção de corpo. falamos em passâncias. PUF. O próprio subtítulo da obra.i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. isto é. eu estou dentro dela. na expressão de Cl. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. em semiótica. Paris. deste modo. Quando de um lado falamos em saliências. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. “passagem”. Zilberberg8 . é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. p. prefigura a tensão entre sujeito e objecto. próxima da Merleau-Ponty. Seuil.ubi. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado.pt i i i i . define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia). 8 Cl. respectivamente. Zilberberg. Paris. Greimas e J. 7 www. por exemplo. Ora o corpo. 1991. uma “paragem”. escrita por Greimas e Fontanille. Raison et poétique du sens. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. distensões ou euforia. na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. “dés états des choses aux états d’âme”. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. sentido o seu cansaço. por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA. estamos a articular em descontinuidade e continuidade.labcom. sentido o frio. e impôs-lhe rupturas internas. Sémiotique des passions. A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. Des états de choses aux états d’âme. De facto. à continuidade entendida como “paragem da paragem”. entre estar dentro e estar diante. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica.

elas prolongam um acontecimento. uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído.. Pág. C. Só conhecemos aquilo que vivemos. Paris. que nasce do corpo próprio. eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. Não há significação sem semiosis. 1995. num caso como noutro. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos. sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. Do inteligível ao sensível. o acontecer do sentido.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” . “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. São Paulo.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos.labcom. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo. sentindo-as. deviendra un pathème réalisé (et non plus. Pág. Educ.pt i i i i . J. 11 Idem. Greimas.estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. 12 A. Ibidem. isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele.”12 M. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent. pois. “ Notas manuscritas de A. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação. a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 . 1992. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo. Pág. IN A. dans ce contexte donné. Idem. J. 155.ubi. Greimas”. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui. Ibidem. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 . 231. Phénoménologie de la perception. 144. Merleau-Ponty. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós.‘susceptible de’). Gallimard. Oliveira. 10 9 www.. Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir.

isto é.labcom. o outro está ausente como referente. simultaneamente. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. Pág. Desta singular distorção.ubi. 1988. de presença. situação com efeito extraordinária. por outro lado. Tradução portuguesa de H. tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. dos santos. Rio de Janeiro. 14 Idem.15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida. Ter a experiência do outro. inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. Pág.pt i i i i . Ibidimem. no “intercorpo”. não está a falar de matérias estranhas ao semiótico. nasce uma espécie de presente insustentável. assumi-lo. antes.”14 Se a relação com o outro gera angústia. 16 Idem. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. como diria Parret. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . não é recebê-lo passivamente mas. Cit.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto. o presente barthesiano é o presente da enunciação. em ausência por desse outro. reencontrar aí o sentido imanente. vivêlo. para falar como Merleau-Ponty. a “apreensão amorosa” em Geninasca. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. Barthes. estou bloqueado entre dois tempos.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. 65. Op. . Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada. Ibidem. 15 M. 13 www. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. de encontro. o instante em que a presença se rasga. o tempo da referência e o tempo da alocução. ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”.. não pode restar nada mais do que uma enunciação. Ponty. Pág. ) Sei então o que é o presente. Fragmentos de um discurso amoroso. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. Livraria Francisco Alves. retomá-lo. 29. que me faz presente e a quem presentifico. 299. (. . presente como alocutório. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência.

IN E. aproxi. Op. fundamentalmente.”17 Por outras palavras. Instituto Piaget.. uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro. 19 José Augusto Mourão. Ibidem.ma-se desta leitura ao trabalhar. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. em parte. antes.labcom. 21 Idem. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille. Pág. Lisboa. Semiótica. o conquistada. reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. O instante do encontro é kairos.. lo que.. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade. Landowski et al. Sujeito. “Sobre el contagio ”. 2001.ubi.pt i i i i . Pág. expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”. Paixão e Discurso. A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. O encontro não identifica um “puro acidente” mas. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. 1996. como de resto já vimos.. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . 117. Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun.21 Eric Landowski. circunstancialmente. Cit.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz. 128. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo. pero no armonía preestablecida. 18 17 www. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . Lisboa. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo. Pág. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. 278. tempo oportuno. 20 Merleau-Ponty. Vega.. uma pré-construção do encontro. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização.19 . e na perspectiva da semiótica o que. A intencionalidade do corpo próprio.

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dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. compreende-se a figuração. Paris. reconhece-se a factualidade. Un régime de signes constitue une sémiotique. Mille Plateaux. 140. Pág. 123 i i i i . isto é. 1980.”1 Quer a forma de contéudo. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari. lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. por outras palavras. à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. reconhece-se a literalidade. au moins dans le cas où l’expression est linguistique. que actualiza. il y a toujours une forme de contenu. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica. quer a forma de expressão. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet. Minuit. A este respeito. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. de resto. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. Contudo o literal “factual” e o “representado”.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. ou. compreende-se a representação.

i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. são fixados por interdefinição. carne e cadáver. quer o interior que vejo se. mas discursiva. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. intersubjectiva e. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão. É o discurso. Lisboa. a que referimos o fenómeno. por reconstituição dos estados intermediários. Mas a linguagem também não existe em si. 3 Idem. não a linguagem. corpo-em-vida. como objecto tornado compreensivel. não é linguistica. tornado acessível. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo). a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. regularidades. uma apropriação. em segundo lugar. A compreensão é. soma. uma operação de estabilização. A sedução do real. Se tomarmos como exemplo. por acidente. a geração. numa relação de superfície/profundidade. por exemplo. de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo. por exemplo). Conceitos como. 2 www. quer a pele que a reveste. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. Ibidem. “Explicar” é.pt i i i i . Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. que decide do “regime de linguagem”. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos.”3 . corpo-signo. Se o discurso se torna diaforia pura. Vega.labcom. isto é. de redução. a parte e o todo. Pág. 45. carne. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade. já o dissemos evocando Umberto Eco.ubi.”2 O semiólogo opera como o vampiro. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. me cortar etc. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade. corpo sensivel. aquilo e aquilo ( entre corpo. a “intenção de dizer”. assim. nada de estável permitirá a leitura. isto é. então. Por outro lado. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo. na perspectiva semiótica. são necessários interlocutores. o interno e o externo. tornado transmissível. Literatura e semiótica. 1998.

explicando-lhes o que vem e como devem ver. Explicar significa demonstrar. chegar a compreender sem se ter descrito. Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. a demonstração requisita esses olhar. Cit. também.pt i i i i . tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber.ubi. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras. 45.labcom. no entanto. corelacionando explicação e compreensão. por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. Explicar é. explicar é fazer compreender. é que o comentário “forja” a crítica e. Fontanille. não é possivel. o facto descrito anuncia-se. Apud. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. sem que contudo se esteja já a interpretar. guiar o olhos. que o comentário seja propedeutico à crítica. sempre. www. Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio. portanto. Dupla semioticização. Não surpreende pois. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”. A explicação tende. da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. tornar acessivel. inteiramente. em detalhe. assim. isto é. a ter um valor normativo. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. Pág. a figura do comentador e a figura do crítico. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. Envolve-se. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro. irrompe dentro da explicação . e neste sentido. semioticizar o olhar. tornar compreensivel.que. Op. Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. estabilizar um sentido que previamente se construiu.i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. em rigor. um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. então. intimamente. A demonstração exige autoridade. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 . do saber e do fazer. José Augusto Mourão. Mas demonstrar é..

podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica.é esse o seu ideal.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”. aquela pela qual. que a vivo como minha. Cit. que tem cinco dedos. a explicação é um agenciamento da descrição. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro. De facto. Pág.ubi. mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue. O que se visa é constituição de sínteses.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação. funda vários representamen possíveis. Lisboa. tais como “a minha mão”. Sabemos que durante muito tempo. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos. numa medida identica. O conceito da minha mão pode ser significado. isto é. 6 www.. Mediações. é o objecto que. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”.. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. sobretudo a partir de Ricoeur. como objecto. ela pode ser enunciada.. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. 272. “este corpo extenso que. isto é por mim. A explicação é. 2001. actualmente. isto é. Págs.”5 . “My hand”. a compreensão é um agenciamento da explicação. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos. por assim dizer.labcom. o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. que toca o teclado etc. a partir das quais. propriamente. 48.”. Como escreve R. Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil. Op. 271José Augusto Mourão.pt i i i i . Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.. Mas como coisa-no-mundo.

9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão. é cego. Veja-se. Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é. quando formalizado. Tubigen. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto.labcom. fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. 1985. há sempre um resto. Em certo sentido quer a explicação. O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. Ibidem. 1990. Thom. na esteira de Max Weber9 . porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. quando Rorty propõe a abolição Idem. Vol. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. 10 R.”. 71.. entre “compreender” e “explicar” tem. isto é. 1968. mas que não pode progredir com segurança. Pág. quer a compreensão. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. próxima da práxis. Por isso. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. nomeadamente. como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie. K. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição. que vê. nunca se explica totalmente o objecto. têm a ver com um querer-poder. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. na palavra de Benjamin. 8 7 www. de um determinado querer-poder. IN Teorema. O pensamento intuitivo. Cf. Madrid. Pág. Apologie du logos. Hachette. nem nunca se compreende totalmente o objecto. Thom lembra que “o pensamento puramente matemático. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão. 503.10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. 436 e segs. 1-2. no contacto com o real. Págs. sido fixada: Apel8 . c’est comprendre mieux”. XV. Otto Apel. Editorial de la Universidad Complutense.ubi. Pág. 95-114.pt i i i i . O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. dando-se sempre parcialmente na disposição.) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. gradualmente.. R. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. Paris. que não a oposição. de facto. é o paralítico da parábola.”7 A relação.

IN Revue de théologie et de philosophie. Não haveria. Ricoeur. o que há são usos de um objecto.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. Págs. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo. 13 12 www. Seuil.”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. No desenvolvimento do projecto da PdA. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana. o termo parole pelo termo discours13 . senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde. substituindo. Para um horizonte semelhante nos remete. mais correctamente. mais tout discours dit l’identité. dirais-je. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. 14 P. um sistema. Ibidem. l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir.pt i i i i . demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre. mas é “o sentido da vida”. Idem. Para que o discurso se dê.ubi. il n’y a pas de dire (. Ibidem. uma morfologia. porém. Idem.i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”.labcom.) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. Gisel.. afirma Ricoeur. para que ele se torne facto. Todo o discurso diz o mundo. Paris. exige como sua condição de possibilidade. 26 (1976). “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”. Essais d’herméneitique II. ou.. Pág. igualmente. 110. Or.) Mais sans le monde. par-delà sa fonction mimétique. O discurso é um acontecimento. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique. 98-110. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal.Du texte à l’action. Sans distance.. seguindo a proposta de Rorty. même appliquée à l’action. 1996. como lhe 11 P. no 2. Págs. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático. 223- 224.. il n’y a pas de discours (.”12 .

Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. expressões de querer-poder. há naquilo que se enuncia. só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. da àrvore ou do corpo. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo. tensões. concretamente. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. dizer melhor. aqui e agora. O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência. da àrvore ou do corpo.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas.labcom. que podem existir por existir distância. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. mostrar a tensão simbólica do discurso. entre “apropriação” e “distanciamento”.pt i i i i . A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. são. um mundo que se perde. portanto no campo tensional. A PdA é uma intensidade. este corpo. fundamentalmente. isto é. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. mas o movimento continuo de um a outro. esta cerejeira. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer). A distância aqui é o resto.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação. concretamente este pedaço de mármore). mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. que se constitui no acto discursivo. o entrelaçamento. em todos os casos.ubi. Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. Esta instance de discours. dizer mais. O que Ricoeur faz é. entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. de que toda a existência é expressão. a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore. do um/muito. o seu lugar enquanto principio do movimento . de não suspender inteiramente a conexão”. tal como o comentário ou a crítica são intensidades. do ser-em-tempo. como se o discurso apazigua-se o conflito. enquanto actualização. O discurso exige “distância”. o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www.

Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung]. nos daria conta da nossa própria situação no mundo. através da suspensão da referência imediata. na qual. Herméneutique. Págs. Le discours est un événement -Sens. 33-34. No primeiro caso.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme. A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA. Ricoeur. como se lhe queira chamar. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas. Neste contexto. segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson.ubi.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens . o que quer dizer. bem entendido. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. que a identidade da significação diz respeito ao discurso. uma linguagem recria um mundo e. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). Seria esta referência em segundo-grau que. Tout discours est produit comme événement. www. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. por outro. Como nos diz Greimas. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo.pt i i i i . Ricoeur. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso.labcom. de uma 15 P. Daí as constantes indicações de Ricoeur. ou função simbólica da linguagem. por um lado. no essêncial traduz a situação. ou Plano Imanente.”15 . enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res.un événement qui paraît et disparaît. A PdA. mas representa o plano para o qual devimos. directa.. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro.. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. isto é. Et c’est ce sens qui peut être inscrit. informativa.Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [. isto é. un sens qui peut être compris. a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. mais compris comme sens.

marca. A.pt i i i i . Pág. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo. isto é. Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. como já referimos. em certo sentido a semiose. sendo inconciliável como processos de époche.ubi. ausência. nomeadamente. é. quebra da époche. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico). ponto de encontro. O próprio Dictionnaire II. precisamente. Dictionnaire II. por um lado. mancha. Greimas e J. 16 17 A. Como sublinha P.i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. J. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação). ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar. Pág. significa. Greimas. a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. Du sens I. herdados do objecto “externo” das nossas sensações. inscreve. www. 191. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira.” Foi Ricoeur. Coutes.labcom. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. 13. O Dictionnare II sublinha. no tecido do discurso. isto é. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo.”17 . aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo. e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. mas igualmente. também é certo. que em alguns casos. a semiose.

O estudo linguístico dos operadores e das marcas que. igualmente. o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo. suspensa esta divergência. paixão e discurso. Mourão. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. evidente. “reflecte-se” em expressões linguísticas. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. É necessário o método para investigar a verdade das coisas. Na quarta das suas Regulae. não do vivido ou do contínuo das expressões. Sujeito. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e.i i i i 132 José Bártolo Porém. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. pertence inteiramente à semântica linguística. O problema que aqui está é. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo. decorre. objectos semióticos. antes de mais. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”.pt i i i i . fenomenológico. Pág. www. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem.labcom. isto é. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. uma crítica radical do método.ubi. no seu hic et nunc. “mostra-se”. para Descartes. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari. sensorio-perceptivo “dizse”. então. que implica. 138. de qualquer modo. evidentemente. Precisamente por isso. parece evidente que a experiência do corpo-próprio. esta veritas rerum . é. Dito de outro modo. Uma primeira resposta. A. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas. de que o ser-corpo é uma articulação. vel quid ipsi 18 J.

por isso a terceira regra já fala de objecta proposita . para Ricoeur. Ricoeur. Porém. Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. non aliter enin scientia acquiritur. Pág. que ela. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar.quer a resposta estão longe de serem simples. c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience.”19 . isto é. porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida.ubi. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (. Paul Ricoeur. isto é. Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation. De facto quer a pergunta . Une évidence qui s’explicite.labcom. une explicitation qui déploie S. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. Não é por acaso que S.) sans en tirer toutes les conséquences. Ao analisar o sentido da Explikation husserliana. os objectivos que são. Pág. 1990. 291. percebemos que a veritas rerum. se objectiviza: “Expliciter. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta. Pág. und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn.”. 20 19 www. verdade no sentido da objectividade dos objectos. por assim dizer. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas. sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico..acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . Husserl. Clark. 18. A segunda regra identifica o método com um processo de limitação. dos modelos de análise fenomenológicos. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object. Du texte à l’action. London. 23. É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona. H.. Routledge. H. New York. isto é. o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência. 21 P.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência.”21 Deste modo parecia inegável. Husserliana I. a verdade das coisas é veritas objectorum.pt i i i i . cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation.”20 .

como se comprovará adiante. Ibidem. isto é.labcom. mas nunca falho o sujeito. como abertura semiótica: “(. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação. em sentido ricoeuriano. A questão da mediação é. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte. Idem. Mourão.i i i i 134 José Bártolo une évidence.pt i i i i . www.nológica. O que Ricoeur nega. como abertura. faz deslocar a questão do objecto para o sujeito. Sujeito. Pág. Ibidem. A. 72.ubi. Ibidem. no entanto. neste projecto reconhece-se. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. na interpretação intencional eu posso falhar o objecto.. Pág. afinal.. 64. Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 . ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. 24 Idem. 134.”22 . como sublinha Mourão26 .”25 . 55. por outro lado. em primeiro lugar. 26 J. 25 Idem. entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria. Pág. mais precisamente. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. Pág.”23 . telle est l’expérience phénoménologique.) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante. convergência que. Em relação a Greimas. no sentido heideggeriano. para usar a expressão de Gadamer. A solução de Ricoeur é. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. na medida em 22 23 Idem. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo. Ibidem. Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. paixão e discurso.

de interlocutividade. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio. massa opaca ou hostil. sim este corpo situado. ou um tronco). antes é condição de possibilidade desses corpos.). procuraremos. Pág. o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem.labcom. com propriedade. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. ou como corpo objectivo dos anatomistas. 129. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto. nem sujeito. que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira. nem objecto. 27 Idem. mostrar.ubi. não como corpo conceptual. ancoradouro do sentido. como questão central. e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico. Ibidem. Tal crítica. enquanto objecto não objectivável.pt i i i i . em relação de desejo. ainda. num certo sentido o seu corpus. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. de intercorporeidade”27 . estas chaves etc.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo. com a minha carne. www. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. em Ricoeur. Assim a questão da corporeidade aparece.

i i i i i i i i .

i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. precisamente. bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. por Medard Boss em 1987.). obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. O problema-do-corpo consiste. que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. veremos. Martin Heidegger. R. Educ. Editora Vozes. a partir de aberturas corporais. Este problema-do-corpo. em determinar. 1 137 i i i i . bem como a analisar a constituição do sentido. Medard Boss (Ed. Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. São Paulo. É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. Os seminários foram publicados. Seminários de Zollikon. o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. em Zolkion. Utilizamos a tradução portuguesa. no espaço e no tempo. após a morte de Heidegger. 2001. ou seja.

de alguma forma. pela soma e pela psique. mesmo provável. É evidente que. só podem ser sentidos intuitivamente.. 105. embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente. isto é. mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas. por sua vez. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. isto é. o acesso constrói-se em círculo. Op. ao contrário da pretensão de Hegglin. Cit. Isto certamente é possível. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas. e o modo de acesso. Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável.. uma prova científica das ligações psique-soma. www. uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . Tenho recebido censuras de que nós. Ora.como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação. De facto. mas penetraria todo o organismo. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos.). Por outras palavras. equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica). é determinado pelo objecto.ubi.pt i i i i . só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos..) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis). excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples.labcom.i i i i 138 José Bártolo “(. clínicos. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit. Entretanto.. pois só estes são mensuráveis e a 2 M.”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma. ser apreendido por números.. o seu princípio simples é um princípio filosófico . enquanto tudo o que é somático pode. Boss. O luto não pode ser medido. faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma. Pág.o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos.

106. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora). em termos muito heideggerianos aliás. onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou. dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira. 3 Idem. o ler. pois. o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. junto de algo. mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira. Ibidem. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa. Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo. pois não provém da relação dos factos em questão. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger. o meu estar-aqui. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material. ou está nesta sala. Em relação a este problema-do-corpo. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. Eu posso dizer que.labcom. Pág.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). www. que a relação entre soma e psique seja mensurável. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. igualmente. ter o braço apoiado na mesa etc. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece. mas por outro lado. Mas isto é uma exigência injustificada. por essência. podia-se questionar. Por exemplo. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver. pelo menos não o faria tão bem).ubi. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. Mas na verdade. neste momento. O autor [Hegglin] exige.pt i i i i . um estar-lá.”3 .) É.

De facto. Também aqui o enrubescimento não pode ser medido. constrangido ou febril.i i i i 140 José Bártolo R. chaminés. o puxador.ubi. eu tenho à minha frente. por exemplo. o que é mensurável é a vermelhidão. pela febre.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face. O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho. as lágrimas nunca podem ser medidas. Quando se mede. Ibidem. De facto. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. as cortinas. o hotel Tivoli mais ao fundo). pela medida do fornecimento de sangue. Ibidem. As lágrimas só podem ser vistas directamente. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. o telhado das casas. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra. o candeeiro. pombas. antenas. ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas. Tomemos em consideração. Fenomenologicamente. por exemplo. mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. que a mão pertencem ao meu corpo. porém.labcom. o telemóvel. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. Hegglin. por 4 5 Idem. Posso. nem outro. o rato. um copo com agua).pt i i i i . o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado. em virtude das relações psicossomáticas. www. por exemplo. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. a impressora. Idem. assim como o copo está na minha mão).”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. mas. O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido. mas não lágrimas. quer o olho. por exemplo. “vemos” no rosto de alguém se ele está. embora sejam diferentes e diferenciáveis. ainda.

por exemplo . a condição de acesso ao mundo. antes de me aparecerem . A aparição é.pt i i i i . A diferença está na diferente subjeicção. também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho. deste copo sabemos que são fenómenos. o mínimo denominador comum de tudo o que há. que evidentemente já existiam. Ou seja. nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. Das coisas . fenómeno. Porém. nem o meu ver e muito menos pega-los. www.mas um acontecimento meu. A representação constitui. a impressora. na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. a realidade (este copo. Ora.aquelas chaves. “Aparecer” parece querer significar. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. as chaves dão-se em estado de presença. o copo de água. se se quiser.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão. assim. Quando algo me aparece . O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão. esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla. isto é. pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele. constituem-se desse modo. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo. já estavam lá. inclusivamente.) .destas chaves. o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador.das chaves. posso. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta).ubi.eu tomo conhecimento de algo. não é um acontecimento da coisa . a forma mínima de toda a posição. aparecem. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. neste sentido. representação. isto é. do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas. o aparecer. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. para sermos rigorosos. antes de mais. a chamada sensação dupla. ao contrário eu não posso ver o meu olho. isto é. não as classifica numa hierarquia ontológica. o livro.labcom. aquela janela etc.

Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos.estas chaves ou este copo .ubi. Quando Kant fala em consciência pura. 7 M. via Husserl. portanto. mas um acontecimento meu. Esta é a estrutura mais geral da representação ou. contudo. então desenvolver nos seminários de Zollikon. que não será tratada aqui. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965. em Ser e Tempo. A objectividade dos objectos é a consciência. Importa sublinhar. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. Pág. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. a sua objectividade. em rigor. Boss. acha-se também marcada por essas direcções”. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”. Op. o que.pt i i i i . é orientada para algo. ou seja. em cima-em baixo. www. Esta problemática que Heidegger identifica. em frente-atrás). que Kant promove e que vai até Heidegger. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro. da consciência de algo. a grande viragem ocidental.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. não se tem uma representação. consciência de si. Cit. por exemplo. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. a qual obriga em si a uma problemática especial. Heidegger desenvolve. Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. A espacialização do Dasein na sua corporeidade. no sentido de Husserl. está na intencionalidade da representação. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. ou seja.i i i i 142 José Bártolo A este respeito. em contrapartida. que não existe.. 106. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo.6 Toda a consciência é. Como escreve Heidegger. refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis .labcom. Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. em Ser e Tempo procura. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. mas não desenvolve. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein.

naturalmente. portanto. mas sou eu . o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium. daí a resposta ser sempre qualitativa .i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso.“estou bem”.”8 .“estou aqui”-. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. no ver e no tocar. Pág. É esta transferência que me permite sentir não o corpo. os meus dedos e. o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado. na fenomenologia. Estas operações de abertura são.sou eu que ouço. Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. eu que toco. enquanto toco com as mãos no meu peito. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador. O computador foi corporado no meu espaço. como lhe chamamos anteriormente. são necessários os meus ouvidos. “este é o meu corpo”. por isso posso dizer. importante. Ibidem. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. Mas para este ouvir. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver.). ao tocar. O espaço é o aberto. é o horizonte (grande. eu que vejo.e numa factual . enquanto estava sentado nesta cadeira. com as mãos no meu peito. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. envolvido nessa circunstância. importante e difícil de determinar”. Isto é. Eu estou no meu espaço. 114. Ou seja. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande. então este modo-de-ser é o meu e. o corpo. www. os meus olhos. mas sentir-me. mais correctamente.pt i i i i . foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala. a minha afirmação .labcom.ubi. é o spatium. trabalhando em frente ao computador etc. Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. “estou mal” . num espaço interior não localizável materialmente. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo. ou.“o computador está em cima da mesa” . Para que eu diga. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos). no Livro IV. 8 Idem. portanto. quer em Brentano. tocar. cap. por exemplo. ver. O meu corpo está. “este sou eu”. vê ou toca. isto é. O Corpo nunca vê o computador. O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço. ele está envolvido no ouvir.

ou seja. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. perfeitamente. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. em que as aperto. mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. Por outras palavras. fundamentalmente matéria inanimada. por exemplo. Em cada percepção particular. quer em Heidegger. permanente. pois. sinto a dor na mão. não significa porém. Eu percebo.labcom. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. mas não me identifico com essa dor. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. faz parte essencialmente do interior do existir. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo.no sentido de Husserl . ou seja. mas não sou o frio.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. de facto.a consciência de algo que.ubi. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio. sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou . A identidade entre sujeito e percepção. representações. não é. desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. antes.pt i i i i . Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. em que toco o copo. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo. consciência de si. em Heidegger. transitória e variável. de cada vez que eu agarro as chaves. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo. Ao www. a que nos referimos. significa eu corporizei algo. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira. do que consiste todo o Dasein. eu corporizo-me. ao perceber o copo ou as chaves. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor. não definitiva. como “o mesmo”. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves.

este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. O peso do corpo não é mensurável é. www.”9 . Heidegger di-lo assim: “Por isso. 244. o esquerdo do direito. Agostinho chamava de Pondus. também poderíamos ser corporais.ubi. ao morrer. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. a que Heidegger chama de Dasein e que S. em relação à totalidade da corporeidade. No entanto.labcom. isto é. Tal observador. na verdade. porque o espaço do corpo (o espaço interior. a condição de possibilidade do copo.pt i i i i . Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. inanimado. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. a minha disposição corpórea. pertencentes a ele. na massa de um cadáver que decompõe. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. precisamente. Então. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. antes. Graças ao mesmo 9 Idem. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. Por outras palavras. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material. o alto do baixo. Assim. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. enquanto um homem viver. o spatium. o humano é naturalmente corpóreo. aberto. mas. Heidegger identifica. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso. se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que. é. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo. como uma espécie de máquina complicada. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. o cogito) corporiza as chaves e o copo. a minha natureza. Além disso. o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa. Pág. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. seguras por ele. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal. isto é. Ibidem. existimos. como de facto somos. aqui.

etc. efectivamente. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. a corporeidade abre-se ao espaço. apresentar a mim. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. organizando-o. www. Idem. permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. um narcisismo da representação. ou melhor. que as árvores estão lá fora. primeiramente corporais tendo. 244-245. qualquer percepção é reenviada a mim. 239. Para Heidegger. qualquer dado. um atrás. que a porta está atrás de mim. “Re” = de volta para mim. O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é.pt i i i i . Como Merleau-Ponty descreveu bem. se dá nele. um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. porém. e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. Ibidem.labcom.”10 . consequentemente. a partir disso uma frente. Não somos. constituindo 10 11 Idem. torna-se de certo modo espaço. Por outras palavras. Repraesentatio = de volta para mim. mas o que se percebe é que existe. antes. re-apresenta-me numa nova abertura. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse). Ibidem. e eu mesmo não me represento especialmente”11 . etc. qualquer sensação. antes de mais. que a estante está ao meu lado. requalificando-o em relação ao seu pondus. Pág. sermos corporais. isto é. estar no aberto [Offenen].i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. Págs. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo.ubi. que eu estou cá dentro.

ou seja.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço. A abertura é devir. uma nova relação entre aqui e aí. www.ubi.labcom. se se quiser. gerando uma nova intensidade corpórea.pt i i i i .

i i i i i i i i .

Op. de Oliveira (ed. Landowski. retomando. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana. Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente. em particular. A. desde logo pela presença do corpo. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade .i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo. in E. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo. as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 . 1 149 i i i i . Cit. Greimas toma. Dorra.a inserção do homem no mundo. R. Não se trata. a fenomenologia pontyneana).entre a consciência e o mundo. como vimos.C. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e. exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer. apenas.). como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”. assim.

num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida. Présences de l’autre. A este antecipadamente conhecido. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. percezione. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. por contágio. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. Holzwege. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença. dos animais. Os números. sobre o estatuto da reversão interior-exterior.labcom. Heidegger. sobre a lógica. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 . Violi. Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. matemático. isto é. A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse. 1991. regras de formação. das plantas. 1950. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. IN Versus. do homem – a humanidade. a possibilidade do cálculo. a relação com a realidade dá-se. 71-72.i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica. 4 E. 1997. “Linguagio. Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P. por antecipação imediata. Págs.”3 .ubi. o que faz deles animais. Paris. o que deles faz corpos. PUF. antecipadamente. Landowski. esperienza: il caso della spazialità”. 59-60. È. 2 www. enfim. pertencem ainda os números. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições. sobretudo. 3 M. análises sobre a constituição do sentido em acto. dizem respeito ao procedimento lógico.pt i i i i . O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. Frankfurt. num espaço e num tempo físicos. o que faz delas plantas.

verbal ou não verbal. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito. num determinado segmento de realidade . para usar a expressão de Landowski. No primeiro caso. igualmente.ubi. A presença. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. a que nos interessa aqui. quer dizer. a presença sentida. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou. leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. actualizado.correswww. a presença do sentido. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer. sobretudo a partir de Greimas. para começar. programando. Admitiríamos. pressupõem um espaço de sentido. o qual.labcom. ao exercício de leitura que dele se faz. neste caso. O texto é de resto um objecto interessante. O termo designa. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída.pt i i i i . podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico. mais ambivalente. pelo contrário. Claro que se tornaria necessário. o regime da sua leitura. trata-se de uma apreensão. rigorosa. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. A outra concepção. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. a presença com sentido. pela busca do texto. pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. pelo contrário. distinguir. na medida do possível. Deste modo. há um discurso enunciado que preexiste. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori. situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença. uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário.i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. no segundo caso. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto.

senão as substituibilidades e transduções. paradoxais. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação. cuerpo a cuerpo. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo. pues. tão fértil. isto é.labcom.samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. Esta compreensão não é. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto. corpo a corpo. Landowski. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. se trata. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto.. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. também. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são.ubi. ou seja ainda que as ligações. porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia. Págs.i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. no entanto.. el enunciado. www. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto. 271-272. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E. por conseguinte. Al contrario. de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido. entre si e a realidade. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto. resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. (. dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida. um regime de inter-subjectividade.pt i i i i . “Sobre el contagio”. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen.

O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto. Não há não-factos. era o valor de verdade. de identificação.ubi. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa.i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados. um processo de focagem. não do vivido. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus. O Tractatus vai. enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. com clareza. A proposição descreve um facto que pode não se produzir. e noutra passagem. uma determinada combinação de objectos é representada. em Frege. mas de um modo radical. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen). O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico. se ele se produz. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem. mas existe www. na posição de Ricoeur. o que constrói e. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. sobretudo. No Tractatus. e não que o facto tenha realmente lugar”. os factos como existência de estados de coisas. ela é um “modelo” da realidade.” A bedeutung. tal é afirmado. assim. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade. Aproximávamo-nos. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos.labcom. ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. mais facilmente.pt i i i i . Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). enquanto ancoragem do sentido. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. ele é antes de mais um limite do mundo”. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio. pelo que o conceito de corpo-ancoragem.

no presente trabalho. eis aqui um método para isolar o sujeito. porém. ainda que as coisas sejam ou não.”6 . Mas que sujeito? Em semiótica. não existe um único sujeito. na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. nem psicológica. ainda não foi sequer plenamente tematizada. ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração. como em Ricoeur. para mostrar que num importante sentido. abstraídas as especificidades. 1998. objectivado ou dado. constrói. O sujeito está sempre implicado no objecto.i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. ainda que também a presWittegenstein. na terminologia de Hintikka. não há sujeito. Qualquer discurso diria o sujeito. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação. Fernando Gil. Lisboa. digamo-lo assim. essa potência de ancorar sentido. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição. isto é. no enunciado. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. independentemente do que possamos dizer delas. um mundo possível.ubi. um em relação com o outro. uma abertura. o horizonte de possibilidade. o sujeito é. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. 6 www. A linguagem representa-se e. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto. 69. precisamente. co-dadas em toda a proposição. uma disponibilidade. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Pág. ele é um shifter. sabemo-lo. Modos da evidência. Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. mas nunca um facto.labcom. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. no dado mas ele nunca é enunciado. ou antes. deste copo) e não uma coisa no mundo. Apud.pt i i i i .ficação) entre corpo-próprio e sujeito. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves. o que Greimas procurou esclarecer. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”.

Il est moi existant. paixão e discurso. Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. 19. não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité.i i i i Corpo e Sentido 155 suponha .pt i i i i . é o espaço do corpo. A situação do corpo. no seu inconsciente. 9 P. 1988.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 . como mostra Michel Henry. necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo. 1986. Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo. Paris. Seuil. ni constituant au sens du sujet transcendantal.. Estabelecemos anteriormente. que entre se dá pela experiência da corporeidade.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. Se a génese do sentido é sempre transcendental . como coisas no mundo). na sua deriva. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. Hamburger. a sua incarnação. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia.a apropriação intersubjectiva implica. 64. em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 . J.labcom. Pág. na sua sexualidade. o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza. Sollers. Pág. eu corporizo-as no acto de as enunciar. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. Philosophie de la volonté 1.ubi. Mourão. a corporeidade. Aubier. Sujeito. il échappe à ce couple de cointraires. A. nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. Logique des genres littéraires. Em Ricoeur. Ricoeur. Le volontaire et l’involontaire. na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). assim. K. 8 7 www. Para Sollers o ego é um tomar forma. aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo.pois ele não é dedutível temporalmente .”9 . Apud. ele não está nem aquém. Paris.

.. corpo-próprio. do mesmo modo que corpo-material.ubi. 10 M. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância. Ponty. O que levaria a concluir que toda a objectividade e. Cit. toda a subjectividade são “intersubjectivas”. cogito e sujeito coincidem.)”10 . Op... nem objecto.pt i i i i . está a situar. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”. carne e objecto coincidiriam. no lugar do corpo.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito. do mesmo modo. Pág. (.) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être.. como o diz Merleau-Ponty “le corps (.labcom. 52. www.

ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito. IN P. Le passioni nel discorso. das tensividades fóricas. 1 157 i i i i . enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. Versus. sobretudo. Pág. também. Também Jean Petitot. Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. 47/48. Esta advertência. Affectività e sistemi semiotici.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”.). 167. 1987. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica. “ Lettre sur les passions ”. dirigia-se. Fabbri e I. procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. necessário de alcançar. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível. estamos em crer.”1 . Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. das estruturas deícticas. o tratamento das paixões. Pezzini (Eds. apresentava-se difícil de alcançar mas. fundamentalmente.

A anunciação do sentido precede a sua enunciação. Perspectiva. Pág. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. ele é produzido.”2 . 2003. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. aproximando-o. www. aliás. 54. são mais importantes do que essas mesmas coisas. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. isto é. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. talvez. de cada vez. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. São Paulo. enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. Deleuze. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação. G. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. Estas maquinarias são. decisivos. operada pelo corpo-que-sente. leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas. sem se perceber em que consiste uma estrutura. que as posições topológicas. espaço de atravessamento de devires. Estando. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. ainda assim. segundo Deleuze. A semiótica pós-greimasciana. definidoras de tipos de relação. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são.ubi. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo. sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação. O estruturalismo é.pt i i i i . muito próximo da leitura de Greimas. Lógica do sentido. Ele não é algo a ser descoberto.labcom. Tal anunciação ou. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. pensado por Deleuze de uma forma peculiar.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. por vezes e como veremos. nas palavras de Deleuze. como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. Donde se poderia concluir. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf.

duas séries heterogéneas. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. como “significada”. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. e. como “significada”. as obras de Noel Moulod. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson.labcom. Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. uma como “significante” e. Livraria Almedida.pt i i i i . Les structures. Port. séries. e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. 1965. pelo menos. Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. sobretudo. outra.i i i i Corpo e Sentido 159 1. la recherche et le savoir. Coimbra. Paris. determinada. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. 4. relações). 1968 . a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto. Payol.ubi. a este título. 1974. b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. 2. Linguagem e Estruturas. Paris. pelo menos. De Manuel Francisco Catarino. PUF.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial.]. É preciso que existam. 3. Greimas . outra. 1970 [Trad. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido.3 Confronte-se. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. uma como “significante” e. determinada. duas séries heterogéneas. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares. Lévi-Strauss. Paris. leiam-se por exemplo. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. La psychologie et les structures. www. Payot.

mas. não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. por outro.labcom.. isto é. e a sua integração na semiótica contemporânea. Vega. apresentada em a Lógica do sentido. nas suas intermináveis correlações. Percorrer a rede. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 . Deleuze. como intensidade que o atravessa. 4 www. Pág. o seu complemento inorgânico. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro. leia-se a obra de José Augusto Mourão. cruzamentos. Para estas Sobre esta noção. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . lado.pt i i i i . A rede constitui. Fontanille. claramente. estrutural. sobretudo as páginas 128140. tessituras. então. Andamos aqui. que se vem tornando central – graças a Coquet. pois a topografia da rede anula centro e periferia. mas também um produzido. sendo que o devir tem lugar. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. 1996. Cit. Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. 9. essa rede de semióse. Sujeito. no corpo. emaranhado de encontros. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. 5 G. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir.i i i i 160 José Bártolo da significação. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. a rondar um tema.ubi. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. Lisboa. sabemo-lo. Op. Os acontecimentos são causados. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. mais. na expressão de Uexküll. ela própria um corpo e um “corpo estranho”. O corpo é. Paixão. Na sua leitura da Filosofia Estóica. é estar perdido. Discurso. coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito.

www. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário. A manifestação apresen. Mas. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”. há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis. agora. Os desejos e as crenças são inferências causais. contudo. 13. qualidades. Idem.i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome.pt i i i i .ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição.ubi. etc. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem. são singulares formais que tem o papel. constituído por um corpo. nem rosto. de indicadores (isto. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais.). relações. pré-modalizados. são devires assemânticos. antes. Pág. como refere Deleuze. podendo. misturas de corpos. pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente. Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz. aquilo. 6 7 Idem. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual. aquele.labcom. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. Ibidem. Ibidem. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente. isto é. como diz Benveniste. quantidades.

pt i i i i . Idem. Vale a pena voltar a lembrar. Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura. Pág.labcom. pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui. nem palavra. Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . “Sobre el contagio”. 10 Eric Landowski. nem mesmo com as significações. por exemplo. aqui. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando. Incorporal. no sería posible aprehender el núcleo. nem representação sensível. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. ou seja.”8 . el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. do vivido psicológico. Ibidem. da manifestação e da demonstração. Ibidem. o sentido não vive fora da sua sensação. isto é. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. Pág. Pág. Husserl distingue a expressão da designação. mesmo que se deva considerar que o sentido circula. na designação estóica. nem corpo. e) Finalmente. das representações mentais e dos conceitos lógicos. 274. entre “estados de coisas” e “estados de alma”.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. 9 8 www. o sentido é o expresso.ubi. nem representação racional. instavelmente. 22. que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição. o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa. nem os conceitos. Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. el principio dinámico. 23. aliquid.

tudo instrumentaliza. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema. não dizemos o sentido. dizia Greimas. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”. não permite desperdício. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. a sua lógica circulante. Estamos condenados ao sentido. Por outras palavras. A entropia é. Como diz Bergson nós não somos conduzidos. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . 74. que tende a gerar excesso semiótico. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. porque ela não permite fugas. tudo funcionaliza. não permitem a irrupção do sentido. Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado. Ibidem. um sentir sentido nessa enunciação.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. isto é. tudo integra.ubi. mas acontece às coisas. não os reúne. por sua vez. uma máquina de produção de sentido. A máquina tende a gerar excesso semiótico. já o dissemos. Pág.labcom. podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. como se fizemos um percurso. em que os semioticiza. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular. a sua linearidade. Para Deleuze a estrutura é. Esta fronteira não os mistura. uma máquina semiótica.pt i i i i . Há. também. em que funcionaliza “estados de coisas”. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. em cada enunciação. a sua lisura. da qual. há sempre excesso. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido. por outro lado. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. as características do plano. www. 11 Idem. uma regressão indefectível.

O Anti-Édipo. articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade. funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação. 2001. não existe. 2004. modelo ideal de qualquer outra máquina. com um valor simbólico zero. da máquina. Pág. Pág. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica.labcom. Assírio & Alvim. tudo o que está fora da estrutura. Só há real significante. www. 44-45. isto é. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. Mas a máquina capitalista. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação.i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. Edições 70. É em O Anti-Édipo.pt i i i i . ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. e não ser já. mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos. Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa.”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. pois que ele vive dela. “Introdução à obra de Marcel Mauss”. IN Marcel Mauss. da realidade significante significada no interior de uma linguagem.ubi. Ensaio sobre a dádiva. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. e impõem-na com toda a violência. A máquina desejante. Lisboa. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. 37. como dizem os fonólogos.ções). um termo de grupo”12 . Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante.

extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). tornos. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. a sua lógica circulante. olhos. isto é. lado a lado com outras peças e outras máquinas. serras e as máquinasorigem. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. do tipo: que fluxo cortar. A partir da sua acção o operário. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. isto é. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais. mãos.labcom. instrumentos ou peças isoladas e que. ainda e preferencialmente. como cortá-lo. Deleuze e Guattari dirão. para onde conduzi-lo. a propósito. é “consumado” como instrumento-máquina. a sua linearidade. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. alavancas. como qualquer engenheiro de produção bem sabe. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos. Trata-se de cadeias ou. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca.pt i i i i . b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva. “síntese conjuntiva de intensidades e devires”. c) Uma terceira síntese é. braços. também. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. por exemplo. também. chaves. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. troncos mas. etc. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes. num 165 www. mais correctamente.ubi. pernas.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê.

por outro lado em devir-peça. www.labcom. 14 Idem. 45. Ibidem. devir-braço. pois. constituem. entretanto quer em devir-mão. é intensificado para um ou para outro lado. peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. devir-pénis quer. Ele não pára de tender para o seu limite. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que. devir-fábrica. Pág. que é um limite propriamente esquizofrénico. a desterritorialização do socius.pt i i i i . paroxisticamente. a tendência mais essencial do capitalismo.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. devir-máquina.ubi.

extracções seguem-se cortes . claro. etc. peça adjacente à máquina. retira dele o que precisa. aquele braços e mãos. tapetes. “Em suma. por fornos. www. último (?) corte. Pág. máquinas-boca. partes extra partes. produz um corpo-instrumento. braços. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. computadores.”15 Aos cortes . podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”.destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. um corte. a este os olhos. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. finamente. qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. que esta máquina também é. Ibidem. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e. define-se como um sistema de cortes. ele é instrumentalizado. serras.pt i i i i . O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções. roldanas.labcom. o corte-resto ou resíduo que. ouvidos. tornos. olhos. como dissemos. 15 Idem.ubi. já o mostramos. mãos. por sua vez.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina. 40..

Assim. pois.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino. Re-aproximar. 46. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia. unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. Ibidem Pág. para “re-aproximar.”16 16 Idem. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes. nem uma unidade dos pontos de vista. na viagem de comboio.labcom. mas que.pt i i i i .ubi. era o que Joyce chamava “re-embody”. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças. que o todo é produzido. ao aplicar-se sobre elas. nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. que é produzido como uma parte ao lado das partes. www. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. que ele não unifica nem totaliza. reenquadrar. Evocando Proust.

que visa produzilo semioticamente para o integrar. no silêncio. A palavra “relação” permite entender uma acção. ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano). que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). ) www. no interior da mesma máquina que o produziu. que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano).i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783). esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano). Não há produção sem relação.pt i i i i . como peça sua. mas.ubi. antes de mais. O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. não uma substância. que é o corpo da criança adestrada na atenção. José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. O plano de produção é. . esse corpo sem órgãos. (. um plano de relação. no processo de produção.labcom. de cada vez. . o corpo sem órgãos é produzido como um todo. no seu lugar próprio.

salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée.labcom. 17 www. de inúmeros discursos do corpo. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. 18 G. texto e corpo virtual”. o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano. espaço atravessado por fluxos intensivos. para os inscrever sobre si mesmo.Cadernos ISTA. Pág. José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. igualmente. O Enigma da sexualidade.ubi. Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte. Deleuze e F. “ Sexo. 2003. à antropologia. José Augusto Mourão.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas. O Anti-Édipo. fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. Guattari.pt i i i i . o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise. 1997. Metamorfosees do Corpo. no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta .”18 . Pág.à sua aptidão para emitir e receber signos. para os traduzir uns nos outros. 9. O proliferar. convirá dar lugar de importância ao corpo.”19 . Em particular. permanecem desconhecidas . Relógio d’Água. Pág. 116. Lisboa. sobretudo a partir dos anos 80. devires para os quais. IN AAVV. 32. das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram. Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. no 16. 19 José Gil.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é. A expressão é médico-jurídica. não que a visão deleuziana seja mecanicista. com alguma injustiça. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora.

Cit. citado por José Gil. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo. ancoragens. A falha não é de amplitude (ou. Foi o que K. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. e visto que a explanação será um signo. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução. transduções.pt i i i i . mas por um permanente erro de paralaxe.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. reduplicações signicas. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte. 21 Idem.ubi. derivaria numa semiologia sobre o corpo. tornando o significado escorregadio.. Pike. uma língua. parece-nos. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. A tese da finitude de amplitude mostra. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico. é condutor semiótico. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour.. Op. sem o conseguir fixar. espremelo analiticamente até dele sair uma expressão.20 A conclusão de Pike é relevante. opera circulações.230. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo. A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum. se se quiser. Pike tentou em vão. L. essencialmente. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude. Pág.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. mas qualitativa. Ora. L. 2. para além de signo. Cit. a qual. não é quantitativa. pois o próprio corpo é “condutor” de significado. Op. tomada juntamente com o signo já ampliado. criará um signo ainda mais amplo”22 . 38. 22 Pierce. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. Ibidem. 20 www. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico.labcom. K. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo.

. barras. Um corpo que se abre e se fecha. mas como um corpo metafenómeno. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil. um corpo que pode ser desertado. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas.. feixe de forças e transformador de espaço e de tempo. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível. o não-senso. não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (. Deleuze e Guattari distinguem. reversivelmente.”23 Este corpo paradoxal é transformado.): a energia.i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. visível e virtual ao mesmo tempo. aliás. também. um corpo paradoxal. Pág. visando quer a fenomenologia. máquina-laboratório. reversivelmente. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. 175. Em suma. uma diferença de regime..). a máquina.ubi. Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. Um corpo habitado por. celas. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. corpos. e habitando outros corpos e outros espíritos. emissor de signos e transsemiótico.labcom. deve anular o paradoxo.. quer a semiologia. o corpo fenomenológico (o de Husserl. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida. www. pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual. um percebido concreto. máquina-olho. e o espaçotempo do corpo. Op. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. impondo um sentido que ela própria construiu e que é. através do silêncio e da não-inscrição. antes. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. digamo-lo de novo. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. esvaziado. Cit.. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas. máquina-igreja etc.). as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. máquina-ouvido do confessor e. e no recolhimento da sua singularidade.pt i i i i ... visível. mãos.) e as máquinas molares (máquinas sociais. No entanto. (.

isto é. Cit. ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 . produzida e produtora. onde o que existe é desejo. L’esthétique de Gilles Deleuze.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. ele próprio necessário pela sua própria perfeição. 27 Idem. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. 67. Pág.ubi. acrescentando que “enquanto artefacto. Ibidem. Sahara. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado. J. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. ). a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles. Un mécanisme. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. ) São portanto as mesmas máquinas. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina. Terá sido Aristóteles. as mesmas relações de grandeza. ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. nas páginas d’A Politica. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration. 102. Ibidem. Pág. La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. 241-242. mas não é de modo algum o mesmo regime. ao definir o escravo como uma “máquina animada”. Paris. 295.i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (. . www. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. . Pág. Pág. Deleuze e F.pt i i i i . os mesmos usos de sínteses. 68. L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (.. 1990. Op.25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. . devir. Para G. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus.”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. oeuvre de l’homme. Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. Idem. Vrin.labcom. 28 Georges Canguilhem. Pág. Guattari. . 26 Mireille Buydens. La Connaissance de la Vie.

au cours de l’histoire des sciences inexactes. L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages.ubi. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences. biologie et sciences humaines. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. La créature renvoie à son créateur : cause finale. à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. comme chez celles qui sortent de la fabrique. moniste.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur. ils appartiennent à un monde dualiste. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme. et leur agencement respectif. évolutionniste. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques.labcom. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble. chaque blastomère peut régénérer un individu.pt i i i i .

Pág.02.i i i i Corpo e Sentido 175 immanent. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. Pág. Seminário 06. são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas. estão delas privados. mas diz que elas são. Grundlienien einer Philosophie der Technik.labcom. por um lado. Por outro lado. 33 Adrian Forty. publicado em 1872. Butler Félix Guattari. outro acolá. o convento. Samuel Butler. Adelphi.”)31 . 1975) embora respeitando a tradução. “La Machine”. como mostra Adrian Forty33 . Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle.ubi. a escola. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo. esteja. muito presente. 114 e segs.”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças.1984. no seu próprio corpo. a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico. ainda que essa visão protésica. de facto. Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière. espalhados pelos diferentes lugares do mundo. Milano.”)30 . e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. 296. 31 Idem. 1877. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres. de passagens dos capítulos 24 e 25. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. 30 29 www. aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . ou seja. No seu Erewhon. quais corpos mutilados. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. “Industrial Design and Prosthesis”. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo. Westermann.pt i i i i . a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações. No 96. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica. como também não se consegue formar nem produzir. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo. 32 Ernest Kapp. IN Ottagono. Braunschweig. Samuel Butler.

há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . Deleuze e F. evidentemente. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação. Pág.”34 Encontramos leituras próximas desta.ubi. Com efeito. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa. pelo contrário. Daí Foucault nos recordar. A microfísica. depois da macromolécula. assim. neste sentido.”35 Por sua vez. semiótica e política. económica e social. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. La genèse des formes vivantes. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. produz um corte radical. depois do vírus. quer vinda do campo das ciências humanas. maquinando umas sobre as outras. como as de Foucault. que “em toda a cultura. O Anti-Édipo. As palavras e as coisas. individual e colectiva. bem como a ideia do corpo 34 35 G. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. 12-13.labcom. devemos a Michele Foucault. no seio da molécula. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. Flammarion. mas diz. enquanto análise material do imaterial. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. chegaremos então a um organismo que. As duas definições são equivalentes. Raymond Ruyer. ao irromper no mundo da representação. ou que os órgãos são máquinas. A produção. remetendo umas para as outras. como as de Raimundo Ruyer. 36 M. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem. Guattari. advertindo para o seu particular estruturalismo. também. Vamos. Foucault. microscópico. à biologia. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. 80-81. é. em particular de “máquina semiótica”.pt i i i i . que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. 297. www. Págs. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. Paris. é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos. Págs. por maior que seja. A partir desta leitura de Samuel Butler.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas. quer vindas do campo das “ciências da vida”. conduz. conservando a sua individualidade. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas.

num horizonte. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional. de integração e produção. ligou. Ele é. usado com valor operativo e cognitivo. a identidade não pode ser definida”.labcom. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais. O Pensamento morfológico de Goethe. idem. a questão da identidade ? Como a colocar. são noções de ontologia formal. será retomada. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos. cozeu. lógica de controlo. 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio. no nossa leitura crítica da história do corpo. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . bem como a de Foucault. a um tempo. desenvolvida no capítulo seguinte. enxertou. que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. 37 www. Série Universitária.ubi. a amálgama dos opostos. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. como foi aliás. em particular. corpo-máquina. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade.pt i i i i . Como colocar.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. Lisboa. então. como tal.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e. a degeneração é. bem controlada. p. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e.145. por muitos modernos (Goethe. nesse sentido. por nós. Maria Filomena Molder. nota 87. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. Ao falarmos em corpo-objecto. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. “produção de sentido”. anteriormente usado. natural e artificial são opostos. transversais a todos os Apud. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. No corpo-tecnológico dá-se a relação. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. A leitura de Deleuze. isto é. deste modo. Hamann ou Kierkegaard). ens. Biologia e tecnologia. As proposições identitárias (tó auto. 1995. Estudos Gerais.

um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. o freak. da compreensão do outro. parcialmente. e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 . se perde. Neste sentido. o corpo anormal. como o desenvolvimento do estudo. e no entanto. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. ou seja. estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”.mas a sua significação própria permanece obscura. Pág. como principal diferença. para um plano ontológico. a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista .mas essa é uma consciencia que. com rigor. Como mostrou John Austin. deste modo. 241. marcados por uma relativa indeterminação. www. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. psicológico e antropológico -. nunca um “ponto de vista natural”. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”). não há.i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e.labcom. “mesmo”. da compreensão do mundo . Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. De facto. então. Op. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva. também não há uma inteligibilidade plena do corpo.pt i i i i . que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que. por exemplo. não pode ser transposto. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. Gil. ele apenas é. cedo ou tarde. na perspectiva crítica. Cit. O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade.da compreensão de si.ubi. De facto se a iden39 J. Quando identificamos o corpo humano. o andróide. estamos a usar uma definição identitária operativa. o cyborg. O corpo enquanto objecto de estudo é. para falar como Heidegger. Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . como tal. identitário. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. isto é. do corpo. Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. Quando descrevemos. do ponto de vista da sua validade.

através. O mesmo devir outro. do reconhecimento da oriwww. sem que a identidae. sobretudo. todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. Jekill e no Mr. o que está em causa não é a sua identidade. de devir-outro. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. de devir-hyde.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. sem dúvida. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. o corpo cadáver de uma jovem.ubi. o barco de teseu. embora o número já não seja o mesmo”. mas todos eles são corpos humanos. Aristóteles sublinha-o na Métafisica. mas nenhum deles. do principio ao fim.pt i i i i . Hyde. mas a intensificação da sua identidade. de facto.mas num certo sentido. Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. embora em permanente devir. alterou-se a intensificação da sua identidade. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. de devir-louco. o mesmo problema de intensificação da identidade. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. ela permaneceu sempre como um transcendental. está fora do domínio humano. o corpo de um velho amputado. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça. A história muito perturbadora do Dr. o corpo de uma mulher num filme pornográfico. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa.labcom. uma identidade segundo o logos. É o horizonte de seres hibridos. o corpo do homem-elefante. o corpo de uma criança chinesa. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. o corpo do terminator. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. o corpo de Bill Viola na água. A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore. mas que ela é. se altere . Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro. quase-sujeitos e quase-objectos. se coloca no Dr. que assim se rasga. isto é. São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. talvez. O corpo de uma criança loura.

Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. procede da compreensão. O carácter intersemiótico da análise decorre. do corpo pelo artificio tecnológico.pt i i i i . da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. com intensidade de tensão. Mais do que um significante flutuante. corpo de design. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. dir-se-ia originária. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. A relação. a humanidade. O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. na expressão de José Gil. devir-outro. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. Por outras palavras o corpo tecnológico. Mas o devir é tensão. cria flutuações. no ajustamento. É no encadeamento. na capacidade do corpo encadear o estranho. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos. imagem do outro. de relação. quando não a penetração. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. igualmente. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. a natureza de ser entre. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto.labcom. entrelaçar o estranho na sua individualidade. de limite. inter. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. intemporal. do sujeito no seu devir-objecto. Este carácter de fronteira. não podem anular. da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. dir-se-ia.ubi. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). corpo de patente. fundamentalmente. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. do corpo tecnológico é um elemento fundamental. de ligação. ajustar-se ao estranho. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo. na medida em que é corpoprojecto. que não anulam. No caso do corpo tecnológico. de objectivos de construção. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia. é dominado pela imposição de objectivos.

o organismo como sistema cibernético. pelo seu carácter central. a congregation of heterogeneous materails and flows. “O nosso problema é a complexidade. Paris. reinterpretativamente. then. Le passage du Nord-Ouest. Hermes V. Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. faz deslocar. na biologia. 146. impõe. mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. Ela caracteriza um estado. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. o vivo e o não-vivo. Minuit. uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial. Serres. o humano e o não-humano. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia. Op. constroem. estável. sem dúvida.. marca-os de inde40 41 V.pt i i i i . Cit. um sistema. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. O Corpo humano passa a ser pensado ou.”40 .ubi. numa tecitura teórica quase interminável. mediated from and within itself. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. 1980. www.”41 . construído. 61. Pág. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. mais do que pensado.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados. como nota V. an infinite partioning. Pág. Kirby. em relação a um mesmo. são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar. em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. sempre acutilante. de M. na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava. por exemplo. Serres. em particular. Kirby. Na leitura. mas pela permanência de operadores que articulam. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. da qual.labcom. mas também. o orgânico e o inorgânico. pelo estudos dos sistemas orgânicos. diferentes significantes e diferentes significados. não-lineares e abertos. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. an unfinalized product of morphogenesis. the organismic body is being construed as an open system. M.

pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. se chama. define-os como abertos. 22. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo.i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. identidade e lógica combinatória prévias das partes. indecidível. que o recupera na sua desarmonia.labcom. a mão. como um sistema aberto. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. A esta complexidade. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. www. mas uma diferença de género. à luz dessa indecidibilidade. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. as articulações entre as falanges. por exemplo. o recurso à metáfora fractal. para conseguir ver. Não são. e constituinte da identidade das partes. bem entendido.”42 . de sistema. Ela não é um todo sintético. ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema. propriamente. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes. por exemplo. Um sistema não é. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. a esta totalidade não sintética. portanto. Pág. Qualquer visão maquinica do sistema é errada. no seu desequilíbrio”.ubi. um conjunto de termos ordenado por meio de. na sua assimetria. mas uma multiplicidade sem partes (complexa). Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. onde se levanta a poeira.pt i i i i . O sistema é. A simplificação nasce da luta. Um sistema é uma totalidade que. enquanto totalidade. surge-nos como exemplo. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro. linear. regras dedutivas. Ibidem. mas sou eu que constituo o meu corpo. isto é. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. deixar o espaço de combate. a multiplicidade não o compõe.

como esta mesa. mas a madeira não é possível sem ela. adquirindo relações definidas e concretas. como um corpo qualquer. esta folha de papel ou a minha mão.labcom. pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. é operada por mim. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva.pt i i i i . possui. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. mas. Assim. naturalmente. uma extensão. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. O meu corpo é. assim. pelo eu do m’EU corpo. a sua res extensa. uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. como nessa relação. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã. nem a lisura. além disso determinadas cores e tons. opacidade. que ocupa um espaço. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. nem uma determinada temperatura. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência. O corpo próprio. De facto. como que. a partir do ponto de o constitui. O que chamamos de “corpo próprio”. se “sobrepõem” à extensão. uma viga que a percorre etc. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta.). mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo.ubi. De facto. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. por exemplo. a cor não é extensão. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). é claro que. e em primeiro lugar. de cerejeira para ser mais específico. por exemplo. a folha. Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido.

à afectação pela matéria). O corpo extenso é. possibilidade de ser aqui e agora. indefinido.i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. grau mínimo de fenómeno. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. etc. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. informe . um quase-nada. isto é.não. é. na sua essência. essa res. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. mas esta nesta mesa que se estende. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações . é redutível a um ponto. por redução negativa. de modo algum abstracto. isto é. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis).labcom. como interface entre eu e o mundo.a mesa não é a sua cor. isto é. pois. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. a sua forma. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. também aqui. como a minha situação no mundo. até ao ponto em que. desta mesa ou da minha mão não é possível em si.ubi. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. mas não é identificável em si. a mesa não é.pt i i i i . que não corresponde a isto ou aquilo .a mesa não é a sua cor. como negatividade. que ocupa espaço (deixando revelar cores. a sua temperatura. pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. o meu corpo. aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso. desta folha. A identidade vai aparecendo. A “extensão” é em si uma abstracção. a que chamamos ponto-centro da representação. O corpo aparece-nos assim como interface. formas. é a concretude da extensão. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é. todas as determinações nele identificáveis. uma pura abstracção. a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. em rigor a concretude de uma abstracção. cada vez mais consistente. evidentemente. a res extensa. a mesa não é a sua temperatura.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade . a identidade da extensão. A res extensa.

Deleuze e F. assim o vê Leibniz. Seules les intensités passent et circulent. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. Há. não considerado. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. dos olhos de um cadáver. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação). un lieu. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. O corpo enquanto interface. Rien à voir avec un fantasme. o corpo-orgânico é um órgão do espírito e. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo. rien à interpréter. Le CsO fait passer des intensités. dar o exemplo. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão. Encore le CsO n’est-il pas une scène. é uma intensidade. que define. ele é um limite”. para usara expressão de Kierkegaard. Nesta perspectiva. está para o espírito como. assim o vê Kierkegaard. remete para a identificação do corpo como um órgão. de estado de consciência. Mille Plateaux. O CsO não é um corpo. peuplé que par des intensités. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé. 189. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. ni même un support où se passerait quelque chose. bastar-se-ia. www. para o ilustrar. Assim o vê Aristóteles. Pág. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”. enquanto pondus na expressão agostiniana. de poder no espaço e de poder no tempo. enquanto tal. Deleuze e Guattari. muitas vezes. inétendu. Guattari. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. por exemplo. digamo-lo assim. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor.ubi. o corpo interface revela-se como corpo orgânico. é um processo que percorre o corpo. não se pode chegar. a atmosfera.pt i i i i . representa um ponto-de-poder. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif.labcom. nunca se acaba de chegar. Nos Mille Plateaux.

por sua vez o corpo agencia o espaço. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. então. isto é. em noutro grau. do hipocondríaco. que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo). do drogado. o espírito esquece-se do corpo. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. Quando o maratonista está a correr. A experiência do paranóico. corpo animado. O que nos diz. Sendo corpo-interface. As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras.ubi. como que nos esquecemos de que temos corpo. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . isto é num devir-CsO. como se fosse um Corpo sem Órgãos. corpo orgânico. mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. a explosão no homem-bomba). que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou.i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico. O que se está aqui a dizer é. O atleta. o drogado. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO. quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. afinal.o hipocondríaco. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e. Mas não é a apenas no paranóico. por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. quando somos orientados por uma disposição forte. o bailarino. o paranóico.labcom.pt i i i i . o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico. isto é. para sermos rigorosos. desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www.

às vezes chamado de CsO). o espírito. A intersubjectividade é. Ibidem. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista.” Enquanto campo de imanência do desejo.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. isto é. isto é. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO. como vimos.ubi. isto é. o sinal do seu carácter vivo . Os olhos são. isto é. os modos. tudo no CsO é uma questão de matéria. géneros. por exemplo o frio do CsO drogado. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). uma tensão. pura possibilidade de agenciamento. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. o dolorífero do CsO masoquista. O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface. poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos. um limite. www. 188. justamente. o plano de consistência própria do desejo.labcom. um corpo de saúde no doente. precisamente. quer dizer. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada. de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. isto é. Como insiste Deleuze. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer. o plano de consistência ( a omnitudo.vemos pelos olhos. de interface).pt i i i i . vemos com os olhos .os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. atributos substanciais. um corpo de pensamento no filósofo.”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. não um estado. um corpo de afectos amorosos no amor cortês. de agenciamento da matéria. as intensidades produzidas. 3) o conjunto eventual de todos os CsO. o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos. cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio). como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. mas ele é precisamente isso. um devir. um órgão. 44 Idem.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo. Pág. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição . uma interface da visão. tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro.

a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. A relação do meu corpo a mim é orgânica. 2.) É um modo particular da totalidade. mas resulta de uma representação. A matéria intersticial não tem espessura.EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles . essa “matéria do devir por excelência”. permeável a disposições. b)ao exterior. isto é.labcom. em particular o movimento dos afectos. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”. José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio. é a matéria do devir. As metamorfoses do corpo. disso a que Kierkegaard chama de interioridade. isto é. o espaço do corpo. que é agenciavel. atrair a si todo o movimento do interior.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras. e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo. Pág. e sendo da ordem do corporal não corporado. então. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular . É uma matéria de devir.ubi. A relação com o mundo não é imediata. a parte traseira e a dianteira). plano de agenciamento possível. tal como procuramos mostrar tal implica que: 1. Assim rasga-se um horizonte-nú. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície. Neste sentido. ainda que. isto é. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. Falando deste “espaço do corpo”. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil. 75. intenções. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina. www.pt i i i i .”45 O espaço interior é. tensões. ela interfaciada. quer dizer de matéria do devir por excelência. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele).

O corpo não é. o anuncio do mundo a mim e. em absoluto. assim. O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro .i i i i Corpo e Sentido 189 branca”.a mesa.de facto no momento do www. pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação. sob a forma de corpo. um anuncio de mim. mas uma totalidade anterior às partes. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que.ubi. nesse sentido. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades . A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. uma mera soma ou articulação de partes. isto é. muito menos redutível a uma máquina inorgânica. No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e. tácteis e olfactivas. no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo). Assim.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais. o quarto. evidentemente. como se não houvesse corpo. ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável. naturalmente. “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la. Por outras palavras. o mundo . auditivas. portanto. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. a rua.labcom. para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel.pt i i i i . Deste modo. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. e.

como bem demonstra Hubert Dreyfus. por exemplo. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar. actualmente apenas uma alegoria. www. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. 2001. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. isto é. quantificar . que à força da repetição de gestos mecânicos. por isso. talvez absoluto. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos. e o devir-barata.labcom. como também a tecnologia encontra aí o seu limite. A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. Pág. Lisboa. que ocorre no corpo. O corpo e a dança. O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio. entra num processo de devirmáquina. Relógio d’Água.qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização.ubi. Movimento Total. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. em vão. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. O que Gil nos diz é que. Acontece que o ciborgue não é. representa um limite. ou virar à esquerda sem roçar o passeio. com a realidade. De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo.pt i i i i . como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo.o robot não tem conhecimento imediatos. de um modo geral. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. da inteligência artificial . enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel.”46 . alias os records procuram. 58.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. mas igualmente um 46 José Gil. que nos levam. quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação. porque. não calculável. nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio.

na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano.. o que traz o imenso problema da identidade. nega. abstracta. de ter vários corpos simultaneamente. Tucherman. Op.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. na afirmação “A é A” . o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade. a noção de devir. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica. enquanto afirmação vazia. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá. surgindo apenas como limite (como tensão para. neste sentido. pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo. Apud. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (. ambíguo. logo não biológico. a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno. por outro lado. Se por um lado ele é uma realidade objectiva.ubi. construção científica de um corpo artificial. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos. De facto. colocando um problema de identidade. Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico.. Cit.pt i i i i . não orgânico. Stiegler. simples. sem mediações. por exemplo. o devir-ciborgue é perturbador. o que. Quer dizer. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”. não-humano. www. Ora enquanto projecto. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano. no âmbito da lógica. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. um devir-si-próprio.”47 . impossibilita.. I.labcom.. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. isto é. Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade. isto é. a identidade define a apresentação em evidência. “mão” etc. Mas tal não acontece no plano da vida. Pág 157.

Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. “o interior da minha mão”. a minha mão ontem. “A minha mão ferida”. “o interior da www.pt i i i i . O que acabamos de concluir pode ser expresso de. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. pelo menos. no plano da vida. a minha mão vista numa visão microscópica. portanto. então a identidade seria dada a partir de fora. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. não se podendo dar. isto é. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade. enquanto a identidade do abstracto é imediata. O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares. a minha mão fotografada. mas também cada perspectiva da minha mão.labcom. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. lógica e não à noção de identidade que. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva. De facto tal não acontece. a minha mão a tocar agora o teclado. “o interior da minha mão”. A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos. eu tenho da minha mão.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável. Pelo contrário. Eu. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. não abstracto. o interior da minha mão etc.ubi. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”. da soma de cada uma das suas posições. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. a minha mão ferida. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá. enquanto sujeito dos predicados. Ou seja. a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão. como tal se excluem.

Regressamos. assim. de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. não ter sujeito. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. tecnologicamente intervencionado. de tecidos. de órgãos corpóreos. um signo. no entanto. isto é. pelo conjunto de pronomes pessoais que. www. indiciam constantemente a situação do discurso. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão.labcom. também aí.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. de próteses. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é. laboratorialmente pensado. processos de produção de materiais. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. a uma ideia.pt i i i i . mas um acto discursivo. A diferença fundamental.ubi. estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia. o terceiro capítulo. Este poder de auto-referência é proporcionado. como demonstrou Benveniste. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação. como mostraremos.

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Paris. A invenção do cotidiano .) a experiência social etc – é. como mostra Michele de Certeau1 . para comer.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. na fábrica.a experiência proprioceptiva. progressivamente. na escola. à sua semioticização que. Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau. quer públicas quer privadas. no político. a uma produção do sentido do corpo. 2003. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. antes de mais. Surveiller et punir. no económico. isto é. Editora Vozes. Gallimard. no jurídico. para dormir. na igreja. A experiência do corpo . 1975. afirmada pela família.Artes de fazer. que estão na dependência de um conjunto. pressupõem sempre práticas corporais. Em Vigiar e Punir2 . As práticas sociais. esquemas de operações e manipulações técnicas. Estes procedimentos são. 2 Michele Foucault. Petrópolis. difícil de delimitar. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. no religioso. que podemos designar por procedimentos. no científico etc. para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo. para copular etc. de um modo mais ou menos explicito. por sua vez se declina no social. 1 195 i i i i .

o que identificamos não é nunca o sistema. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. escolar e médica no começo do século XIX. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes. Tratam-se de detalhes tecnológicos. educadores para os condenados. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. que inverte. mas o mondo como ele integra. parece sublinhar a ausência: dispositivos. As análises anteriores.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. na sua disseminação. as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal. intrumentalizações. muito mais subtil mas igualmente mais presente. por eles se impõe um processo de www. mãos e roldanas. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. mecanismos. Foucault actualiza. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno.labcom. afirmado. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. na ginástica flexível das suas declinações. maquinarias. ele é. no fundo. por Foucault. Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. mas a própria análise de Foucault. processos ínfimos mas decisivos. dominar. quer colectivo. pelo contrário. que o procura controlar. centrando-se no século XVIII. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. internamente. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. sexo e arquitecturas. doentes -. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. militares. Com efeito. o dispositivo.pt i i i i . Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. mais ainda.ubi. operários. úteis à sociedade. técnicas. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. funcionaliza. justamente. como biopoder. por castigos aplicáveis a todos. criminosos. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar. produzir. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. a prisão. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo.

prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. e. por outro lado. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. umas “discursivas”. aqui se menciona o elenco: Págs. Ao espaço cortado. em peças de um corpo social que os integra e significa. dois sistemas heterogéneos. feitas em Vigiar e Punir. na horizontalidade do plano. 189-194. opaco. 276. formação discursiva. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas. pequeno e por toda a parte reproduzido. analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. 28. sucede um espaço que integra. procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. 143-151. das condições de funcionamento. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver.ubi.discurso. separado horizontalmente. identifica. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão. de ler e de ser – uma semiótica integral. sem hierarquia. classificar. olhos. anulador das diferenças individuais. 274-275. mas o gesto. 3 www. pois. 238-251. ânus. que domina a Idade Média. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas. já não como na História da Loucura. corpos ao lado de corpos. 96-102. Numa série de descrições clínicas. 159-161. cadeira). das técnicas.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização.pt i i i i . das operações distintas. 106-113. para usar a expressão de Michel de Certeau. barómetro. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto. corpos ligados a corpos. que transforma os corpos próprios. Foucault distingue. sem hierarquia. torno. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão. são inúmeras. dos procedimentos.labcom. associar. 185. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter. falando de regras gerais. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. sem corte. a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal.3 . da continuidade do processo. por um lado. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. sem rosto nem lugar. mecanismos. 211-217. distribuir.

Dits et écrits. Entendo o conjunto de regras que. ao estabelecer. . definem: os limites e as formas da dizibilidade (. o direito apodera-se dos corpos. . 2005. Não há direito que não se escreva sobre o corpo. o escravo. . ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (. . Paris. . isolável do grupo. I – 1954-1969.). Mas uma arqueologia: quer dizer. É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. operações. complexificando uma e outra. devem poder ser escritos (o exercício funciona. singularidade-pura ou plurali. corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial. Gallimard. sentida pela justiça penal. o sentido do corpo e do corpus. é instaurada devido à necessidade. IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs. como escritura) e lidos. Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época.i i i i 198 José Bártolo siva. . ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “. a descrição do arquivo. p. . ) – os limites e as formas da apropriação (. mecanismos . não permitindo. ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. que descreve aquela máquina e o seu operar. procedimentos. . então. São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social). enunciado. .dade-pura. Todo o poder gera princípios de ordenação. . com um preço. pp. Cf. discursos e mecanismos parecem. numa dada época e para uma determinada sociedade.”. nas transacções sociais. “Réponse à une question”. www.pt i i i i . fazendo deles o seu texto. em ultima análise.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas. como o seu nome indica de maneira muito evidente. . 14]. A própria ideia do “indivíduo”. de Foucault. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular. Por esta palavra. ) – os limites e as formas da reactivação (. afinal. ) – os limites e as formas da conservação (. seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. . 1994.labcom. Enunciação e operação. de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. Do nascimento ao luto. função enunciativa . Michele Foucault. que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico.ubi. ). Lisboa. Assim fala Dromio. Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese. 681-682. à margem. corpos que devem ser marcados..

. o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina.”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária.pt i i i i . . Mas nos tempos de crise. 13. Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. e ela se escreve de novo nos corpos. 103. Op. I. ”5 . uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”. Cit. A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. 1997. Metamorfoses do Corpo. uma metamorfose do corpo.labcom. corresponde. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. entre as coisas e o seu valor simbólico. por exemplo “respeita o teu superior”.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. Língua esotérica e hermenêutica. é por si próprio o juiz. ainda aí. aliás. tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). Pág. 232. A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis. Pág. Michele de Certeau. Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados. 7 José Gil. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). Relógio d’Água. também. o papel não basta para a lei. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena).. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia.i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink. da religião. da superstição. The Comedy of Errors. III. objectos. Shakespeare. remete-nos. Lisboa. a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. a única capaz de vincular o sentido. Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo.ubi. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica. Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. 6 5 www. uma transfiguração.

Foucault. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. enquanto premissa metodológica.ubi. de vias de comunicação e de 8 Cf. demonstra. 24-29. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. Rio de Janeiro. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. à metáfora da propriedade. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. os seus recursos.pt i i i i . não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas. em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito. dilucidando. 1987. o exercício desse saber-poder. o próprio objecto de análise. do mesmo modo.labcom. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. Editora Vozes. ao modelo do contrato ou da conquista. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”. de reforço. M. A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. Vigiar e Punir. www. em particular. O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes.i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça. em Vigiar e Punir. Esta dupla renuncia. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico. no que se refere ao saber. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática. Págs. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. Assim.

do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder. sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer.labcom. Ibidem. em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber. talvez ainda por fazer. é um “capítulo” dessa análise maior. 27.”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era. 9 Idem.ubi. www. Pág.

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de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. Do punhal de Sílex à guilhotina. muitíssimo redutor. Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder. serve um sistema político. ordena o espaço (o estrado. condição de possibilidade da sua actualidade. ordens que podem ser traduzidas socialmente. por exemplo. O mobiliário de uma sala de aula. do funcionamento do jurídico e do judicial. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo. não são desenhados e fabricados à partida com uma função que. cadeiras eléctricas. isto é. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. a maioria deles. por exemplo. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i .i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. Seria no entanto. tensões. das algemas à pulseira electrónica. Desde os instrumentos de escarificação. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. mas seria ingénuo não admitir que os objectos. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. das cadeiras de tortura medieval. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço. Assim. em menor ou menor grau. apenas.

escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada. 111. por sua vez. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. M.”. Pág. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que.. de outro. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. . Michele de Certeau. mas também os articulam. 233. nem sequer com leveza. Fronteira ofensiva. formam redes de nervuras. aos seres de carne e osso. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca. recebem a sua validação funcional. Cf. uma câmara de vigilância. do material para o tendencialmente desmaterial. desconhecidos.labcom. Pode ser coleccionada. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. madeiras compactas. conheci. AAVV. cortar.”. Centro Português de Fotografia. instrumentos curvos ou direitos. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. Op. envolventes ou contundentes. nunca.ubi. IN Murmúrios do Tempo. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador. Fica lá. por exemplo). É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço.. 2 Falta. não. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. “Matérias Sensíveis”. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo.2 Numa passagem admirável. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. isto é. Cf. Maria Filomena Molder. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. Porto. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria.1 Os instrumentos particulares funcionam. Traduzir esta 1 www. nem sequer em local de peregrinação. de Certeau. uma cadeira.pt i i i i . Esses objectos feitos para apertar. necessariamente. tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. do técnico para o tecnológico. à espera ou como resíduo. nem sequer com cuidado. Cit. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. p. não caminhar. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. antes ou depois do uso. que não se há-de converter em moeda de troca. mas ainda estão ausentes. um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. há uma evolução progressiva do duro para o mole. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não. seguramente. 1997. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. remetendo de um lado ao corpo simbólico e.

carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras. e não mais jurídico. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”. encontrávamos aí. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico. cientifica e economicamente os corpos. Nessa gradação a carne converte-se. Lynn White. traduzir a subtileza e. Págs. Já revisitamos. o conceito foucaultiano de “biopoder”. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. progressivamente em texto. o desenrolar lento desse processo. March 10. simultaneamente. progressivamente. Sem utilizar. IN Science. já. nunca. “The historical roots of our ecological crisis”. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. a maquinaria médica isolao. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia.4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social). De um biopoder se tratava já. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault. 3 O historiador Lynn White em artigo.pt i i i i . justamente. ainda que através de olhar sumário. 1203-1207. Cf.labcom. do cuidado e do bem-estar. quando a unidade de referência. uma desmaterialização. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade. separa-o. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. ordenando social. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. que se torna claro pelo menos desde o século XIV. veias. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. que isolam o leproso do são. o princípio de uma anatomia politica que disseca. todavia. que isola o corpo. da representação.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais. 1967. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. no 3767. ainda assim. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político.ubi.

a partir da qual o corpo vai sendo produzido. marca de uma intradutibilidade. isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. Paulo. expressão de um indizível. • Por outro lado. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. O corte médico – corte semiótico antes de mais.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser.pt i i i i . Num texto sobre as técnicas de interpretação.labcom. à substituição de uma máquina semiótica por outra. pelo menos. em certo sentido. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que. Landy Editora. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal. talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. O facto. pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. fundamentalmente. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios.ubi. S. IN Michel Foucault. 2005. isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. O “corte” a que nos referimos corresponde. o significado que “está por baixo”. este seria de cada vez o significado mais importante. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. www. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar. Freud e Marx”. integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários. pois. Qualquer que seja a máquina semiótica. de pelo menos na cultura ocidental. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. contudo transmite outro significado. desde sempre. não terá porventura um significado menor. a linguagem engendrou esta outra suspeita: que.

também. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. aquilo que com isto se parece. Aí onde as coisas se assemelham. na anatomia. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. as doenças. na botânica.pt i i i i .ubi. algo que deseja ser dito. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. na filosofia da natureza mas. • A noção de emulatio. e que podia ser decifrado. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação.i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. perduram ao longo da história. da semelhança. certas afinidades electivas. que nos aparecem já entre os gregos. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. as suas técnicas. como unidade mínima de interpretação. Este corpus da semelhança estava. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. faz-se. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. dos humores orgânicos em medicina). todo o tumulto que atravessa os corpos. quer dizer. ao semaion grego. então. os métodos. a convenentia. Estas duas suspeitas. grosso modo. Para tal. que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. o projecto para a realização da tábua.labcom. na filosofia da linguagem do século XVI. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem. as suas formas específicas de produção pela linguagem. como se dizia no século XVI. o seu mapa autónomo da semióse. Isto equivaleria. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. plenamente organizado. No século XIX a nova construção do corpo. Talvez. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica. o seu sistema de interpretação. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência. numa ou noutra substância. em grande medida. fosse o ajuste mais particular. Assim. por exemplo.

da função no interior da máquina permite a substituição. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo. a imagem de uma propriedade invisível e oculta. de alavancas. assim. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. social e político. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. de bombas. como para pensar o rosto humano. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se.pt i i i i . Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. a assinatura era. • Finalmente. www. repara-se. há muito que ele já era actual no plano económico. a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. cortar.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado). substituir. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. de filtros. • A noção de signatura.ubi. fabrica-se. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos. sentido este que será substituído. que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas. acrescentar. modificar. da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII).labcom. Alquimia. a noção de analogia. entre as propriedades visíveis de um indivíduo. tirar.

a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar. www. quan.i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos. jurídico.ubi.labcom. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas. da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei.do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria. pela purga etc. mitológico) se transforma. Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente. próteses etc. quer cientifico quer social.pt i i i i .). a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. Se o corpus textual (cientifico.

i i i i i i i i .

o orgânico e o maquinico2 . A tese da incompletude. 1950. Gallimard. agenciado. Der Mensch. Mauss. Paris. M. o instrumentaliza. Gehlen. Paris. A. Surveiller et punir. 3 M. A primeira. Paris. Hayes (Org. senão da obsolescência. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico. O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. C. se serve do corpo do outro. PUF. 1971. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). por exemplo. K. no contexto social. Naissance de la prison. Athenäum Verlag. M. 2 1 211 i i i i . do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. Foucault. mostra-nos como o humano. entre o organismo e a máquina. parece. Vrin. 1995. Bonn. da continuidade entre a vida e a técnica. ser hoje confirmada por um processo. no contexto social. por técnicas sócio-politicas. Ford. e com elas Cf. a segunda.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. por Canguilhem1 . em muitos aspectos. o instrumentaliza. plenamente em curso. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . Cambridge. mostra como o poder humano. trabalhada por Foucault4 .. G. 1968. Sociologie et anthropologie. se serve do próprio corpo. 5 Cf. para alcançar os seus próprios fins. La connaissance de la vie. trabalhada por Mauss3 . Android Epistemology.). Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. Canguilhelm. Glimour e P. Seine Natur und seine Stellung in der Welt. The MIT Press. Mass. 1975. 4 Cf. nos anos 60.

semântico e pragmático. condições de funcionamento do laboratório.”. por outro lado.. muitas vezes a par. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade. afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. aliás. A sua força reside. analysable dans les termes d’un système plus général7 . que funda o “dispositivo tecnológico” é. apenas. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft. precisamente. Por um lado. andróides. tecendo jogos de legitimação. pragmática. gradualmente. Neste sentido.labcom. Milano. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo. não é o “dispositivo científico”. 5 de Janeiro de 1960. p. A construção semiótica e a construção técnica andam. A tecnologia.16. o design parece. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. 151. por exemplo. fundamentalmente. nos planos sintáctico. isto é. Feltrinelli. Critica della ragione informática. www. Maldonado. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . pelo contrário.pt i i i i . Lévi-Strauss. Cf. Não há tecnologia.. C. A história da semiótica ensina-nos como. do design do corpo. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. T. ciborgues – reaparecem com uma força crescente. o laboratório. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é. 1997. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas. progressivamente. De facto. a tecnologia que funda. pressupõe a legitimação de uma prática. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos. como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. p. Muitas das técnicas primitivas. Lévi-Strauss mostra-nos. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. quando há “alta tecnologia”. ligadas por um 6 7 Cf.ubi.

ubi. et les artifices du carnaval. Skira. em todo o caso. O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza. 8 www. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. A identidade não é alterada mas. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo. A máscara é. de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. Cf. aux becs de le dévorer. aqui e sempre. de devir-outro. Na sua semiótica da máscara8 . um excesso. Idem. La Voix des masques. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. règnent ici dans leur primitive unité. antes. devir-doença ou devir-fertilidade. Falámos de máscaras. que pode devir-morte. O boneco articulado é.pt i i i i . vol. um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. 9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. gadgets e transformers. isto é. um desvio à norma. são técnicas de intensificação do corpo. Un jeu de cordes. representa. Lévi-Strauss. ou seja. um corpo agenciável. 1975 . 1. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens. Lévi-Strauss. aux yeux de pleurer sa mort.” . Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. pp. Genève. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . à semelhança do corpo humano que duplica.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. a sua articulação e automação. sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. replicantes e ciborgues. A máscara é. dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés. modificada. Unique en son genre. do modelo definido por um Referimo-nos a C. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum.labcom. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. que nele desencadeiam processos de agenciamento. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade. neste sentido. 23-24. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. Trata-se de um conteúdo formal.

codificação absoluta. materializante. de ser material ainda que tenda a ser. a produção não tem. o design. Por exemplo. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. isto é. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário. as biotecnologias.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. a medicina. semioticização total. por outro lado. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. da descodificação e o contrário. isto é. por definição. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. normalização sem resto.pt i i i i . o cinema. necessariamente.labcom. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. as ciências do artificial e. a filosofia. também. no entanto. No entanto. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção.ubi. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. possuirá. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha. da mesma forma que o têm a economia. A biologia tem o seu corpo-modelo. mesmo. complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático. a produção técnica é. Não haverá. retroactivos em relação à máquina que os produziu. a publicidade etc. se não existir a semioticização do erro controlado. de resto. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. sempre. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo. o seu corpo-monstro. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”. um sistema pré-cientifico. apenas. De facto. corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. sempre. quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. a produção nunca é simples.

nos ginásios. mais.10 A cibernética e. Parsons. Essay in Sociological Pure and Applied.i i i i Corpo e Sentido 215 determina. isto é. também.labcom. sobrecodificação. no Design. que a partir de fora se façam da máquina.). mas também nos laboratórios. as posições dentro e fora relativas a si e. Freud mostrou bem. determinará em relação às possíveis traduções. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser. Este excesso. Numa palavra. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk. Cf. nos consultórios médicos. Glencoe. . como sobredetermina na medida em que ela própria produz. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo.ubi. T. à superfície e em profundidade. A deformação do corpo materializa o próprio excesso. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material. porque o imaginário é. um excesso semiótico. nesse sentido. com proveito. nas farmácias. citar Parsons. na banda-desenhada. ciber-design etc. produção semiótica. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. na literatura. dentro. nas fábricas. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico.”.pt i i i i . . 10 www. Free P. O ciborgue. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. o que acontece dentro ou fora acontecerá. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas. poder-se-ia. por exemplo. ) Um processo ou um conjunto de condições. plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. também. 1957. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica. por exemplo. No cinema. De um excesso se trata. por ela sobredeterminado. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema. em relação aos meios e. a este respeito. quer semânticas quer pragmáticas.. necessariamente. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. essencialmente.

labcom. são agentes de intensificação do humano. A alteração. Bragança de Miranda e E.). Tendências da cultura contemporânea. 11 www. e na fronteira. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. instrumentalizar. intitulado. a partir dos seus poderes especiais. In J. do corpo como do pensamento”. sobre um regime de segmentarizações. trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. tal como Deleuze o pensou. difícil de responder. em certo sentido. A questão que se deve pôr. no 28. antes. 2000. no entanto. analógico. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica). os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar. entre saberes e práticas. agenciamentos linguísticos. entre-planos. com os fluxos e as Ieda Tucherman. integrando-os. anotava Ieda Tucherman11 . Ciborgues. não sucede nunca ao nível da identidade mas. digital são. a construção de uma zona de troca semiótica que. I.i i i i 216 José Bártolo constrói canais. as máquinas que funcionam. só podem ser pensadas no limite do humano.01. são “figuras de fronteira” como. enquando incorporadores. “Entre anjos e cyborgs”. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. antes. aproxima-se do conceito de território. São processos de territorialização. p. umas por relação às outras. digital. no seu limite. e tantas outras figuras.mecânico. circunscrições que demarcam espaço e movimento. Na abordagem da esquizoanálise. mais do que nos aproximar. analógico. Tucherman. a ocorrer.ubi. lobisomens. Revista de Comunicação e linguagens. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. No seminário de 26. Lisboa. ao nível da intensidade. Relógio d’Água. é que as fronteiras não são naturais.pt i i i i .A. delas nos afastaria. devem ser inseridas e pensadas. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. realidade e imaginário. para escrever: “O que testemunham. homens-biónicos. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. Os estados técnicos. 157. antes de mais. Cf. Prado Coelho (Org. muito bem. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica .1982. interagindo e.

máquinas semióticas e universos semióticos. Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço. Incorporations. semântico e pragmático. finalmente os universos. pp. 1996. é o estudo “Hygien. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. fundamentalmente. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. 1995. Abbott Miller.496515. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter. entre o interior e o exterior do corpo. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. 193-194. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. pp. 13 12 www. numa palavra.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações. sob o signo da preservação da vida. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico.pt i i i i . a especializar ou a dissecar. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. territórios semióticos. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar.labcom. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. Se. o médico é também identificado como sujeito. MIT Press. o corpo é. A troca simbólica e a morte. Zone. tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. operador. e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas. Assim. Edições 70. altera-se. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. ainda que aqui. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. I. Lisboa. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard. como temos vimos a afirmar. sempre. do espaço doméstico. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui.ubi. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo. no 6.

1999. Não será. Relógio d’Água. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. Payot. como sugere José Augusto Mourão. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. andróides. O Campo da Semiótica. Sexe ey solitude. prolongamento do corpo) é. de devir-monstro. áreas comuns e de isolamento etc. ciborgues. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo. em primeiro lugar. uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo. 292. Relógio d’Água. espaço de recobro. ao computador. no corpo. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. 179. sempre. Todo o real é residual. 2001. p. tecnologicamente motivado. corpo-mecânico do século XVII e XVIII. replicantes. algum tipo de reconhecimento e. 16 José Augusto Mourão. “Hibridismo e Semiótica”. Fantasmas.ubi. significações do corpo.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. há no monstro uma tensão de identidade. no interior do que Bruno Latour e M. Lisboa. p. 15. corpoJean Baudrillard. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea. ao mesmo tempo reverte e intensifica. ciborgues. ao triunfo do fantasma puro”15 .labcom. Todas estas figuras – fantasmas.pt i i i i . essencialmente.bloco de operação. Paris. p. 1991. Lisboa. anjos biónicos – talvez possam ser analisados. estatutos de significante e significado. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão. mas a sua actuação é.i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. 14 www. tradução portuguesa de Maria João Pereira. Simulacros e Simulação. mesmo na perspectiva marxista. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. em segundo lugar. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. uma perturbação do reconhecimento. Para que aja monstro tem de haver. RCL no 29. 15 Bruce Benderson. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. do autómato. uma tecnologia de reciclagem. essencialmente. residual.). no sentido do mesmo Baudrillard.

C. 18 17 www. Passagens. a criação do ciborgue. hoje. máquinas filosóficas. Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. Senses and sensibility in technology. 2003. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. colocamos em cena o “teatro do corpo”. a sua vida. Lisboa. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. en des choses inertes.ubi. 1999. em particular. classificando. p. 52. en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. Ceiade. Hominescence. o facto dessas máquinas serem.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage.o aumento das próteses.pt i i i i . na segunda obra. Breve História do Corpo e de seus monstros. que colocam em questão o humano. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde. Michele Serres. Vega. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética. “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. a clonagem. o corpo no seu devir-outro. veja-se J. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. assurément. Duarte. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico. em aparelhar o corpo. F.20 Ieda Tucherman. o seu corpo. de pueril o esforço de forjar palavras. et intelligentes. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. de um modo ou de outro. Paris. et cette objectivation peut améliorer les performances. o corpo-outro. certes. as possibilidades de vida em ambiente virtual . o corpo no seu devir-ferramenta. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors. que a noção de cyborg traduz19 . como refere Ieda Tucherman17 . Rodrigues. 20 Lembremos.”18 Anuncia-se o outro do corpo.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI.C. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). Éditions Le Pommier. leur externalisation. 2001. a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização. como lhe chama Michel Serres. No interior de uma cultura exo-darwiniana. M. Corte-Real. in E. outro aspecto se destaca.labcom. falamos. Bártolo.

também. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. neologismo em língua franca. permanece fantasma. September 1969). que se acha. Falar em experiência da linguagem corresponde. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. no início. A palavra cyborg. por se tornarem inamen vocem. em periculum. não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . da antecipação da linguagem. Freiburg/München. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. que também é mater. sonhos. a travessia de um perigo. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. pensou que havia que inventar novos termos. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho. Von Richard Wisser. corresponde à experiência do que não se sabe através. medos ou esperanças. 1970. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. 21 www. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome.pt i i i i . na sua tradução mais literal. ou convertido em abstracção. Os termos são sempre os mesmos. torna-se abrigo de incompreensão. O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências.ubi. experirir. a antiga força da árvore é recuperada. locução composta a partir de cybernetic organism. pois. nessa abertura é dito e significado.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. dizer espectro ou dizer fantasma. são palavras que anseiam por dizer. por isso. como mater. Em conversa com Wisser. o que é imprescindível. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. de algum modo. os vocabulum emortum. aguardam quem as desperte do seu repouso. A experiência de pensar. 77. segundo Heidegger. p. entretanto perdido. voz viva. Experiri é. como dizia Herder. hrsg. A palavra experiência. que é matriz. deriva de periri. porque eles são a nossa permanente companhia.labcom. de traduzir o pensamento em linguagem é. Assim. banalizado. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo. quando. Verlag Karl Alber. como diria Bacon. corresponde a esse que.

como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas.A. pp. 22 www. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 . enquanto [o pensamento]está no embaraço. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto.” Cf.) Tendências da Cultura Contemporânea. no 28. misturada. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver. I1.pt i i i i . porque. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado. de fronteira. afinal. no Protreptikos. do visível e do invisível. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 . se deve perceber a sua natureza híbrida. que constituem “processos de territorialização. em que a totalidade não é experienciável como todo. “Entre anjos e Cyborgs” IN J. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 . do ausente e da coisa presente. Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. por excelência. assim. é reflexo da natureza da alegoria. é uma forma de antecipação. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites. Bragança de Miranda e E. que.1. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. Revista de Comunicação e Linguagens.ubi. ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes.P: Coelho (Org.labcom. também.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. pela imagem e na imagem. sabemo-lo. da noção de limite. pp. Ieda Tucherman. 2000. Cf. Seria proveitoso traçar uma genealogia. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. Lisboa. 157-171. do conhecido e do desconhecido. esse suplício que. De acordo com Benjamin. do corpo como do pensamento. na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. O limes é o umbral (limen) que. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária. circunscrições que demarcam espaço e movimento. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento.140157. ainda que breve. provém de uma experiência de reunião.

ubi. 62. A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo. As transformações da experiência.pt i i i i . Cyborgs and Women: The reinvention of nature. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. p. que pode ser expressa dizendo-se que. 1996. Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman. as well as the code of application programs. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo. 26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto.M. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. é um corpo que. Duke University Press. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”. information services such as Prodigy and ComputerServe. London. no 13. é corpo-interface. na travessia de um perigo. E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico. Anne Balsamo desloca.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. www. apenas. mas por uma espécie de alteridade orgânica. apertando o nó que nos abraça ao cadáver. o ciborgue. presentes e futuras.) In a more material sense. uma série de outras perplexidades.labcom. 1991. uma alegoria. file servers.Bártolo. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. íntimas e estranhas.. O ciborgue não é. Routledge. num mosaico. Cadernos ISTA. a fronteira que o corpo coloca. Simians. que se desenvolve contra as fronteiras. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue. the electronic frontier includes workstations. através de uma interessante análise. Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos. (. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. unexplored territory. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra . New York. in AAVV. networks and bulletin boards. 27 Donna Haraway. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast.. and on-line databases. 2002. mais do que corpo-organismo.”25 . veja-se J.a de corpoprojecto26 .i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. Durham.

p. o perónio. 1954. Helkiah Crooke na sua Microcosmographia. de confundir thesis e pro-thesis. A tíbia. Essais et Conférences. M. Helkiah Crooke.pt i i i i . em grande medida. este jogo quase de ilusionista. pela sintaxe. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. Esta ideia de substituição. o véu o cobre e descobre. um humano e um cavalo. London. eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre. O perigo de se representar o corpo como resto. directamente. pp. Tal como ao fantasma. jogo alegórico por excelência. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. Sparke.ubi. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). residual. Martin Heidegger. questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. www. da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe.26-27. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. por exemplo. o modo da sua dispensação aos humanos. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura.labcom. como aquilo que fica. As armadilhas da espectralidade valem-se. 930. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. com razão. digamo-lo assim. para fazer. Gallimard. seria uma thesis articulada a uma outra thesis. como desvendamento/ocultação?”29 . tem a ver. de 1631. por exemplo. o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. Paris. a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade. o jogo da realidade. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. 1631. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. Microcosmographia. com o procedimento alegórico. original e réplica. Era Heidegger quem.

Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. um fantasma do fantasma. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 .ubi. alegoria deriva de allos. Cf. Friedrich Creuzer. Galilée. Benjamin. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. o exercício protésico é. diferentes dela mesma. 202-203. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos. mas a um “ver como”. sempre. p. Etimologicamente. Spectres de Marx. mas a um corpo mais abstracto do que nunca. corpórea. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. No caso da alegoria há uma substituição. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. à partida um espectro. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”. Dito de outro modo. . 1819 (2a ed. a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada.pt i i i i . As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. exercício alegórico. poderíamos até dizer. ou uma ideia. . 31 30 www. um corpo-protésico. também ela. W.labcom. Synbolik und Mythologie der altern Völker.”. tal como Marx nos leva por vezes a pensar. outro. A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto. Embora circunscrito. Não regressando ao corpo real. foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. Paris.i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. um fantasma do espírito e. susceptível de ser descrito. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. mais ainda. caso a primeira espiritualização produza. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. A origem. Apud. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida. e de agoreuein.”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. Leipzig-Darmstadt. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. 1993. enquanto captação imagética da semelhança. totalmente revista). falar na àgora. 179. engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo.. pp. .

que nos invade as ruas.labcom. A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica.” Corpo protésico. ciborgue. isto é. o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. ainda que persistindo como partes componentes. têm a ver com a compatibilidade. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. com o perigo de rejeição. pelo abandono do dissemelhante.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. formado já não no interior mediante uma composição de nexos. com a manutenção. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que. Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. As preocupações médicas. os transportes. nem.ubi. são preocupações sintácticas. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico. tudo isto são alegorias. ambas são concreções de um modelo abstracto. o que faz superar toda a simples representação como nexo. corpo compósito.pt i i i i . Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado. tão-pouco. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. as cawww. ao nível da intervenção protésica. pelo impulso para trás. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto.ela é uma thesis e. É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito. se fundem numa nova unidade. neste sentido. a sua presença abaladora. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. por mediação da série. a performance etc.

each conceived as coded devices. 33 32 www. of couplings between organism and machine. A estranheza do ciborgue. Segundo Haraway. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão.”33 . p. Trata-se de uma nova carne. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. desmaterializada. in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. é a representação alegórica. sem dúvida. São Paulo.labcom. a representação alegórica. 149-150. quando não de fusão. o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu.creatures simultaneously animal and machine. aí. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação. de elementos polares. Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). apenas.”32 . E não se trata simplesmente de ideias. os corpos. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo. A técnica. disfarçada. do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. Modern medicine is also full of cyborgs. Cyborgs and Women. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. Donna Haraway. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. Antropologia do Ciborgue. neste planeta. IN Simians. “A cyborg manifesto”. os sonhos. da hibridação do natural e do artificial. IN Hari Kunzru. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . representa. pura interface.pt i i i i . “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”.i i i i 226 José Bártolo sas.ubi. ao tornar-se uma pele electrónica fluida. disfarçada. 2000. não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade. Mas o ciborgue não é. who populate worlds ambiguously natural and crafted.

falta uma mão capaz de sentir nuances. a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação. IN M.i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo. mostra como potencialmente a humanidade do homem.L. como a Internet e a Realidade Virtual.”34 .à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam. loucura. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras. parte do corpo. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição. caos. O ciborgue é um ser estranho. quer como atractor de inumanidade. Número Extra. saúde e felicidade (como na visão extropista). 66.ubi.pt i i i i . Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. Revista de Comunicação e Linguagens.labcom. a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida. na mão do Terminator. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard . literalmente. o que lhes suceder efectuará o. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam. precisamente. 2002. apenas em parte. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. p. ao tocar noutra. Marcos e J. contem o germe da sua inumanidade. O que faz do ciborgue um “atractor” é. A Cultura das Redes. Bragança de Miranda. de fronteira. configurada no corpo normal. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. formado. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”. deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade. O aparecimento do ciborgue. 34 www. Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg.

“Rend. probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”. A bengala branca do cego. Invigilata Lucernis. 36 Cf. “Non Corpus. ovelha. derivato dal supino. V.A. se se quiser. nas figuras de Hjelmslev. uma partilha comum. Fingo. ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr. postula compreensão por parte dos presentes. rifatta su figulus ed effigies (Cfr. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit. p. M. de uma expressão difusa da relação homem-máquina). Dictionnaire étymologique de la langue latine. s.pt i i i i . para os latinos. I.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. PUF. 1974. e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. Giacalone Ramat. pp. Zellmer.” Cfr. ma fictura attestato in Plaut. 365. Leumann. E. L. M. Cit. 219. uma multiplicidade de conteúdos. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. 2000. 501-502. Heidelberg 1965. 35 www. homem.7-12 (Loc. I. Fingo). 22. Paola Aretini. München. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch. 2-3). I derivati latini in-tura. Die Lateinischen Wörter auf-ura. Paris. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. significante sem articulações.ubi. P. pede passagem. secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore. Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações.i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. La forma più antica. Frankfurt a. exprime. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. porca. Inoltre A. 1966. porco. Lateinische Grammatik . De facto há uma circulação de sentido. Ernout . Paris 1967. Por outras palavras.” 108. pois. 236. sistemas com uma única articulação36 . V. Lomb. Trin. Cfr. 247) sembra essere non figura. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. Messages et Signaux. muito fecunda de significação. Meillet. A. por exemplo). 277. 1976. Walde. o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. nos stoichea dos Estóicos. 7). que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana. No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs. fêmea. A. mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs.labcom. Prieto. exprime genericamente a cegueira. Ist. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala. Dificilmente podemos afirmar. 1963. s. com rigor.

não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas. no 29. o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo. que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis. uma das suas figuras. apreensão estética em Geninasca. Maio de 2001. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss. ainda. 37 www. 7. in M. Semiótica e Filosofia da Linguagem.. a presença do ciborgue territoriza. U. É uma coisa que não é coisa (. A. o território é. 30. 2001. além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. Mourão (Org. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. aliás. mas que se expande ou é passível de expansão. há todo um conjunto de circulações. é a aparição. circuitos.mais do que um signo objectivo . do género dos quase-objectos. por excelência. O Campo da Semiótica. será necessário dar-lhe um outro nome. Instituto Piaget. O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é. um articulado. Este além-presença. é fantasma. um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. próteses etc.. comunicações.288.é um processo de devir e um processo de contágio.labcom. mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. De facto. A. a carne. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana.). membros. trocas e reenvios. a figura pressupõe uma presença. Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis. é figura. José Augusto Mourão. Lisboa. Do ponto de vista do sistema. mas num caso . p.o da além-presença ou presença-fantasma . José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma.ubi. Teoria das artes e literatura.como nos Cf. Babo e J.). 38 Cf. tensões.). Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 . Como comenta Eco “se não é um signo. Col. De decisivo.pt i i i i . Ieda Tucherman é. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo). “Hibridismo e semiótica”. Revista de Comunicação e Linguagens. p. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . órgãos. ligações. obsessiva. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. Eco.

enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito. que convertida.-Cl. Cambridge. um espaço. aqui. cada actualização de um devir . de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. 40 39 www. B. Klincksieck. um não-sujeito na expressão de Coquet41 .labcom.acidente estético etc. Latour. isto é. O ciborgue não é uma coisa. mais do que dada a ver. próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. 1985. tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. p. en consequencia. de uma presença pura. 272. 270. Eric Landowski.ubi. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. a partir desse instante. “Sobre el contagio”. apreensão capaz de.não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente.e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos. 41 Cf.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea.i i i i 230 José Bártolo outros . p. Paris. da figura de que fala Tucherman. em presença para o sujeito começa a produzir sentido. Cf. a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y. Le Discours et son sujet.”39 . enquanto tal determina o sujeito . não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. Harvard UP. é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). . En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. devir-pássaro. 1999. y allí un sujeto. pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y. J. nesta perspectiva. a distancia y como vacío de sentido. é um quase-objecto40 . pero como si no estuviera allí. O Cyborg está. A imagem de que fala Landowski aproxima-se.devir-criança. por consiguinte.há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo. Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies. provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado. Coquet. de imediato. de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. devir-ciborgue .pt i i i i .

corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo.labcom. num processo particular de devir CsO. para a não rejeição interna da prótese. é aquele que sucede quando. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. www. nem pode ser encontrada no corpo . afinal. posición. decisivo.i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo. um devir-outro. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. isto é.de esta mano -.experiênciar a morte do corpo . aqui. acordando a meio da noite. para que a prótese . O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue. a experiência de devir-morte. igualmente.e o seu efeito estranho ou anómalo .não transtorne a identidade. sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que. Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano . Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é. a experiência da perturbação da identidade é aqui limite.pt i i i i . uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. como tal. a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo . sempre. O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva. como ver num velho a jogar às escondidas uma criança. claro que o corpo é superfície intensiva da identidade. não o pode no organismo .mas parece.não o pode neste ou naquele órgão particular. isto é. Um exemplo claro. No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão.ubi. que intensifica a própria identidade. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue. A mão é. nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto.

Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão. que é transtornado pela presença da prótese. quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo. a corporeidade não está no corpo. isto é.”42 . Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . Jakobson e J. ânus. um pé. uma sobrecodificação. é. más distante pero que le responde como un eco. Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. . um órgão. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. Ela é o ponto-central da corporização. da propriocepcção. “Notes on the French Phonemic Pattern”.i i i i 232 José Bártolo ritmo. olhos. A prótese opera então por corporização a partir de si. sexo. próprio da corporeidade. Eric Landowski. Como a fenomenologia mostrou com clareza. p. do corpo. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas. Una presencia inmediata convoca otra. ela constitui-se como Órgão-Corpo. ossos. R. 1949. pés. a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu . antes um “mapa”. um tecido. 155. pp. no 2. orelhas. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. 43 42 www. um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade. Nova Iorque. “Sobre el contagio”. pele etc. 276-277.ubi. Cf. Lotz. corporizado a partir dela.mãos. É precisamente o plano da figuratividade. 5. a natureza humana é corpórea. não é uma parte do corpo como uma mão. como órgão-Corpo. como vimos. Por outras palavras. como lhe chama Deleuze.43 Se a prótese se constitui. Vol. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz. próprio do corpo. manera. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. gesto).têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação. Agosto de 1949. A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante.labcom. Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. como indicamos. Word.pt i i i i .

se conectar com ele. Uma orelha de Algimax não é humana. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. sem sucessão de estágios. produzindo corpo e corporização. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. biocompatibilidade. A reterritorialização não pressupõe. cortados. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos. expressão plena da sua corporização. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal.labcom. um plano não-humano. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar. em linguagem deleuzina. semelhança funcional. E o mais rápido pode convergir para ele. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos.ubi. nem o último a se produzir ou a ocorrer. procurámo-lo mostrar. ligados. de velocidades diferentes.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. A prótese não é humana. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada. contudo. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão. implica todo um sistema de reterritorializações. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos. cozidos. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais. ele mesmo desterritorializado. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado. de uma mão humana por uma mão protésica.pt i i i i . chamemos-lhe assim. o plano-humano. muito mais do que da sua propriocepcção. Considerar órgãos sem corpo é considerar. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. formalmente. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. Esses movimentos são movimentos de desterritorialização.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. antes. etc. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. um lábio de silicone não é humano. que farão do corpo um organismo. por exemplo. Como nos ensinou Deleuze de dois www. desligados. A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano.

mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. por movimentos mais lentos.labcom. O artificial requisita o corpo e agencia-o. artificial. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização. o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho.mas de uma substituição. Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado. em regra. a própria realidade. externa . não de uma substituição interna ao organismo . enfim. tratava-se enfim. polarizar. modificar. seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. no limite. a totalidade do meu corpo. objectos. antes de mais. logo a isolar. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. aliás. ainda que permanecesse negativa. procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo. o meu ombro. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos. o meu pulso. a minha clavícula. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado. Podemos igualmente concluir que.pt i i i i . É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar.dir-se-ia cirúrgica ou. dá-se a essa requisição e agenciamento. Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta. o meu antebraço. fantasiar.i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização. essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar.ubi. O que se requisita e se agencia é.a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa.o que. o meu braço. só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial. É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização . intensificar. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares .como a substituição da pele que caiu por pele nova . se se preferir. isto é. www.

De algum modo. não permitiu desenvolver. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais .i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. apresentar. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. o que não faz dela. como quem toma algo para si e. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar.em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. como quem fecha uma porta. então. São estes dois momentos que procuraremos. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. pelo contrário. podemos estar a suspender ou a cingir. a sua economia própria. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. O que é. facilmente. ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo. Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. o passa a possuir. de encerrar. Ao designarmos este ou aquele corpo. em síntese. Cada corpo pres235 i i i i . como quem sitia uma cidade. pode afirmar que a tomou para si. um elemento menor no interior do estudo. de conter. concluindo-o. tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica.

Galilée. a partir da aproximação mecânica. 1998. processos de devir. componentes semióticas. 1. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. investimentos de máquinas desejantes. “representados”. componentes orgânicas. aberta por Nobert Wiener44 . Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas. dissemo-lo repetidas vezes. 1-20. por máquina semiótica. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . são susceptíveis de serem “enunciados”. as concepções sistémicas mais recentes. uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós. proposições. actos de linguagem. “interpretados” e “discursificados”. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. Todos esses corpos. Paris. através de palavras. São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. meta-máquina. componentes de informação e representação individual e colectiva. Autonomie et Connaissance. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. pp.ubi. a perspectiva cibernética. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). gestos. Mas tal não significa que quando falamos em máquina. Para a semiótica. “lidos”. ambos. isto é. Francesco Varela. um organismo. Paris. mas todos eles têm um sentido. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido.pt i i i i . PUF. “L’hétérogenèse machinique”. IN Chimeres. Os corpos não são. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. naturalmente. cognitivos. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior. 45 44 www. nem prestam. afectivos e sociais. 1984. A noção de máquina interessa-nos. como retroactivos. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. Cybernétique et Société. narrativas. 46 Félix Guattari. Mais próximo de nós está. pelas suas ressonâncias técnicas. intensificações.i i i i 236 José Bártolo supõe. o objectivo é explicitar o sentido. contudo. sempre e de cada vez. semióticos. nem valem todos o mesmo. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente.labcom. mas também “escritos”. de algum modo convertidos em corpo-objecto. máquina semiótica.

a propósito. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá.pt i i i i .”. Em todo o caso. tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. Brandt. Dynamiques du sens.labcom. 4. sobretudo. em vários momentos.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. isto é. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. Em primeiro lugar. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. Deleuze. ao contrário. O que se pretendeu fazer foi. Pág. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido. do corpo como objecto de design total. a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou. P. que o que se fez foi passar. 47 www. um breve esclarecimento se impõe. o seu funcionamento. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. se nos detivemos. a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. no terceiro capítulo do estudo.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida. Aarhus University Press. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. antes. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. nesse estádio. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido. citar Per Aage Brandt. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”. isto é. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley. Wigley mas. se possível. relações.ubi. nomeadamente. 1994. no primeiro capítulo. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente. A. antes de mais. igualmente. parece-nos. que se encontra expressa. Vale a pena. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas.

Como entender esta afirmação? Ela não é.ubi. An introduction to logic of the two notions. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. pág. por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir.i i i i 238 José Bártolo também. que intensifica. seja no sentido de Austin (How to do things with words). Cornell University Press. Sabemos de J. em que funcionam como paradigmas. Assim. familiar aos semióticos. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses). corpos em devir-máquina. devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. corpos em devir-texto. Por outras palavras. Knowledge and Belief. Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir.L. aliás. repita-se.”48 . dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos.pt i i i i . 138-139. Por um lado. que produz. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. Canguilhem. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. Ithaca e London. antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes. numa passagem. que dispõe. corpos em devir-cadáver. Austin que dizer é fazer. Gille. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. seguramente. já citada neste estudo: “1. Simondon e uma série de outros). 1964. Jean Baudrillard. o corpo de referência é o cadáver. Jaakko Hintikka. Corpos em devir-monstro. 48 www. Dizer o corpo é fazer o corpo e.labcom. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. Heidegger. não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação. neste sentido. Neste sentido. em poucas linhas. Para a medicina.

pt i i i i . . 2. A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas. Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. 49 Jean Baudrillard. o que não acontece nunca sem resistência. fazendo-agir a sua permanente produção. numa outra posição.”49 . e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal. 193-194. a ser isto ou aquilo. ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e. Para o sistema da economia política. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo. 3. outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. processos de transformação do corpo num corpo-outro.ubi.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. a objectivar-se. da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. é a extrapolação da produtividade racional absoluta. sob o signo da preservação da vida. www. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”).) (. uma máquina produtora. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é. Lisboa. Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. I. nem fantasma director. nessa polisemia. carne a ser trabalhada. integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. nem tipo ideal. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. fosse a resistência do corpo que se manifestasse. como se. ao mesmo tempo. nem código. 1996. também ela. o tipo ideal do corpo é o robot.labcom. A troca simbólica e a morte. a diferença irredutível que os nega. Pág. também. numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais. Para a religião. enformada. O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento. antes de mais. . Edições 70. resistência do corpo a significar-se. O corpo como vala.

fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. o que deve permitir. desfigurações. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido. www. Pág. deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. em França no século XIV. editado on-line em www. no entanto. A figurativização pode.”50 Cada olhar refigura o corpo. sobretudo. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo. descrita. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. mas. 3. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico. do corpo. identificam-se. o padre. na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante. refigurações. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas. de cada vez. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. antes sistemas de operação. no seu Leviatã. Porém. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. produz uma sua determinada refiguração. tal como ele foi apresentado por Greimas. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. onde os operadores (o anatomista. de-monstrações. A semiótica do corpo. não há nunca um operador.triplov. isto é. na política. a história das suas modelações e produções. Na perspectiva do percurso generativo. “O Corpo que vem”. o semiólogo) são também operados. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. em Itália ainda no século XIII.pt. em parte. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. por Hobbes. Uma história do corpo. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado. Michele Foucault enquadrava o momento em que. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado.labcom. conduzir a uma certa iconicidade do discurso. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará. Numa conhecida entrevista. verdadeiramente. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica. foi necessário esperar por Norbert Elias e.pt i i i i . Uma análise da história do corpo. na economia. nas suas palavras. identificar um operador.ubi. naturalmente.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões.

uma espuma. Págs.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. provavelmente. 53 David Le Breton. 52 51 www. AAVV. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. 152-175. Pág. que possibilita tal revolução. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade. Papirus Editora. Visão técnica e laica da ensomatose. tratamento e reconstrução. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. Uma fantasia implícita. pela incisão. Lisboa. É como res extensa. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. Antologia de textos teóricos. mostramo-lo. “Texto”. São Paulo. Lisboa. mais do que um efeito de superfície. radicalmente. o que estava ante nós. a organização epistemológica da cultura medieval. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. 30. era o sistema. objecto de análise. s/d. Portugália. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se. 2003. Adeus ao Corpo. para controlar essa parcela inapreensível. abrindo os corpos cadavéricos. INCM. IN Enciclopédia Einaudi. 17. uma reverberação. no 17.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. O grande instrumento de abertura. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII. mostraram que o “sentido” não era. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. a partir daí. o que nos sustentava no tempo e no espaço. eliminá-lo pura e simplesmente. Tradução portuguesa de Marina Appenzeller. e o que nos atravessava profundamente. Antropologia e Sociedade.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica. da própria discursificação.pt i i i i . dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito. Cesare Segre. na expressão de Cesare Segre52 . atingir uma pureza técnica. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. deixam entrar.ubi.labcom. Pág. de fazeres e de poderes. estrutura que funciona como o normativo do dizível. definindo as condições de possibilidade. chama Foucault de arquivo. correlativas ao contexto semiótico. de seus limites. de modificá-lo. Estruturalismo. Tentação demiúrgica de corrigi-lo.

dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental. ocultamente. introduzimos. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais. definirá o operado. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular. “máquinas instrumentais” complexas. como mostramos no terceiro capítulo. “apurados”. para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. por exemplo. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. Regime semiótico. se praticam dissecações. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. Daí ser importante. a determinada altura. um sentido idêntico. produção semiótica. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www. os alicates. também. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. uso instrumental.labcom. parcialmente. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização. O operário moderno. Tão importante como escalpelo é a mão ou olho. também eles instrumentos que devem ser “afinados”.ubi. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo.pt i i i i . utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. produção artificial e produção técnica adquirem. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. do teatro anatómico. mais importante. as pinças. uma análise da história e da filosofia da técnica. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. do laboratório. fazendo do cemitério onde. revelam a importância de uma nova lógica instrumental.

o ensaio de Bojana Kunst. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam. também. Lisboa. para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. Crítica das ligações na era da técnica. tem mostrado como.labcom. cortado. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. podemos extrair. Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. 54 www. materializa o poder estabilizador da norma.ubi. Paris. tende a suspender. às nossas práticas. mas concomitantemente. é o seu verdadeiro limite operativo. nem sem o sistema. por assim dizer. Nesta perspectiva. O artificial paralisa. 2002.). ao longo da história. agora. Galilée. discursificado. os reveste. 55 Leia-se. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. atravessado. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado). devemos aceitar que qualquer corpo é. Tropismos. nomeadamente. sempre. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. tensionado pelo seu funcionamento. se o sentido se nos impõe. à nossa formação de imaginário. portanto. os cinge. Nos seus estudos. vejase Christine Buci-Glucksmann. tal imposição. num sentido próximo de Walter Benjamin. de resto.pt i i i i . Págs. Bojana Kunst55 . a imobilizar um sentido. La raison baroque. que o ser humano prolonga o instrumento. que os inter-liga funcionalmente. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa. De Baudelaire à Benjamin. “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. 242-256. à força. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro. na medida em que. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. uma produção marcada por uma certa artificialidade. como que fundidos com o metal imóvel. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . os vela. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. leva-nos a admitir que. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. 1984. petrificam ou são. como dizia Greimas. a Agipa. A análise sobre a existência de máquinas. IN José A.

que os enuncia.i i i i 244 José Bártolo gas. para lá do véu não existe mais nada. aparecer e desaparecer”56 . o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. Machine and organism in Descartes. Os corpos não se mantém por si próprios. seja uma palavra ou um gesto. as máquinas não têm nada de misterioso. Cornell University Press. núpcias.. por si só. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. não se mantém.”57 Tal passagem não corresponde. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo. Spirits and Clocks. de um modo geral. 245. reflectindo. de um modo também gradual. mas. “É o aviso de que o que existe. sacrifício ou morte) exige um véu. Lisboa. Cotovia. o que acontece é. uma gradual coexistência. têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento. entre essas duas lógicas. 353. reorganizando as suas ligações. pelo menos. reestruturando os seus discursos. cheia de corpos imobilizados e despedaçados. Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. Cit. Bojana Kunst. como um projecto. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). que os discursifica.pt i i i i . Verdadeiramente. O véu é o outro. seja uma faixa ou uma ligadura. 99. Pág. a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). ser permanentemente coberto e descoberto. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . o devir-outro.ubi. sendo que o modelo científico vai. Pág.labcom. cada vez mais. reinterpretando as suas imagens. contudo. veremos que no livro de Caus. semioticizando o modelo antigo. 1990. 2000. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia. Ithaca and London. na natureza. As núpcias de Cadmo e Harmonia. que os produz. A emergência Roberto Calasso. sobretudo. 58 Dennis des Chenes. Pág. antes. a partir do século XV. 57 56 www. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico. que exige. Op.

Da alegoria para o projecto. sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. quer de um SoftDesign. sistemas de objectos e interfaces. mas antes pela categoria moderna do biopoder. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design. aprendemos de Foucault. Leviatã. mecanismo que. no quadro do biopoder. que projecta arquitecturas em devir-templo. caracteriza a identidade categorial e analógica. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano.A. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus. pois. como entidade simbólica. que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado. o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design.pt i i i i . ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . por um design total59 que projecta objectos. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. progressivamente auto-referenciais.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. In Harvard Design Magazine. Summer 1998. no quadro do poder-soberano. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley. o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador. como abstracção da guerra. Brandt.labcom. como bem mostrou P. a partir do século XIX vamos assistindo. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no. então.o individuo. em devir-fortaleza ou em devir-monumento.ubi. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. no 5. “Whatever happened to Total Design?”.

no que se refere ao saber. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault). nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. Não os esquecendo nunca.interact. Sabemos. Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz. e que vão continuamente regimentado a vida. mal o sabemos. sabemo-lo tão bem e. com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. no modelo do contrato ou da conquista). que se defende que não existe ciência sem técnica. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe. Com os regimes modernos. uma espécie de meta-cadáver. e que se renuncie.labcom.pt i i i i . na metáfora da propriedade. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento.com. no que se refere ao poder. Mas. até onde foi possível suportar a humilhação. mapeamento. neste sentido. pelo menos desde Francis Bacon. até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma. Há. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que. Em Vigiar e Punir. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação. por sua vez. por isso. Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos. jamais o saberemos. objecto por excelência.i i i i 246 José Bártolo terior. ainda assim. lugares que evitamos. tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. então. que se renuncie. www. anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação. rizomamento. Normalmente. O ciborgue é.pt. de dissecação. problematização. ao primado do sujeito). a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia.ubi. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”.

então. ser prevista. de reforço. o espaço de trabalho. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. Ao longo do nosso estudo. uma nova ampliação da problemática pode. e de uma teoria da enunciação. ou seja. A leitura que. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. problemática politica no sentido mais amplo do termo. dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. desde já. alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. Ao longo do nosso estudo. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . progressivamente. o conjunto das práticas significantes não-verbais.ubi. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). www. como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. a uma semiótica da acção. ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos. identificando uma série de possíveis percursos de investigação.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas. fomos também. fomos. da manipulação intersubjectiva e das estratégias. isto é. Vigiar e Punir. “higiénicos”.pt i i i i . o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. Recordemo-nos. capaz de abarcar. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento. que nos permitiria. além da esfera dos discursos propriamente ditos. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral. tal investigação deveria. os gestos. ainda.labcom. estamos em crer. e mais precisamente. que se manifestam na diversidade dos espaços. uma matéria moldável (um corpo-objecto). uma importante tradução histórico-politica. correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos. 60 Michele Foucault. 27. os operadores. fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. os discursos devem ser “limpos”. como sabemos. Pág. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. “assépticos”. a título de exemplo. Nesta perspectiva.

decisivos. Da ética. na perspectiva da sociossemiótica. W. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 .pt i i i i . entre nós. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão.labcom. em biologia. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. actualmente. inaugurada. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. 61 www. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes. ). vida e morte não são propriamente conceitos científicos. Práticas e linguagens gestuais. refere-se a um campo que. Lisboa. Greimas et al. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. o gesto técnico. de uma conversa de baixo nível”. Vega. essa Em português a referência vai para A. no entanto. Greimas. no entanto parece-nos faltar uma análise que. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. Frankfurt am Main. senão mesmo isolar estruturas. se revelarem. 7. etc. ainda. o gesto instrumental. de um desenvolvimento que possa. fixar campos de pertinência ou de referência. “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. durante muito tempo. J. As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste. . Julia Kristeva. Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. Pág. Adorno.) carecem. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido.i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar. em relação a elas.. em particular. 62 T. François Rastier. da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. Segundo Medawar. Mínima Moralia. . De igual modo. 1951. foi considerado como o próprio da filosofia (. 1979.ubi. neste aspecto. Sabemos que Robert Cresswell. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. por José Augusto Mourão. constituir tipos. no entanto. a doutrina da vida correcta”62 .

dizia Kierkegaard. E no entanto. há. e em cada corpo. tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens. haverá sempre. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança.pt i i i i .labcom.i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste.ubi. uma promessa. Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer. o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo. O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. www.

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