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Bartolo Jose Corpo e Sentido

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Sections

  • Introdução
  • Corpo, Sentido e Significação
  • O signo e a sua história
  • Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce
  • As semióticas do corpo
  • A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem
  • O Corpo na fenomenologia e na semiótica
  • O corpo como “ancoragem” de sentido
  • O Leibproblem (Heidegger)
  • Acerca da presença e do contágio
  • O corpo como construção semiótica
  • Corpos e instrumentos
  • Corpo e Design
  • Conclusão
  • Bibliografia

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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

6 7 8 9

10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.ubi.labcom.pt i i i i .

Aníbal Alves. consciência de que se desejava ir mais longe. de que se está sempre em falta – perante o tempo. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas. Maria Augusta Babo. a vida. O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo. i i i i . Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. sinal de que alguém veio em nosso auxílio. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida.i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. o saber. Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. mais feliz. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor.

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da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). Fazer semiótica1 . mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. fundamentalmente. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. Por um lado. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto. Jakobson. a herança das ciências da linguagem – de Saussure. expressando-o melhor. Landowski mas também Foucault. actualmente. por outro lado. estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação. sendo que a significação corresponde. 1 1 i i i i .i i i i Introdução Enquadramento do estudo. visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. ao enunciar do sentido em acto. a jusante. a herança das ciências sociais ou. o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. Hjelmslev. Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea. Martinet). à actualização do sentido designamos por significância. M.de Certeau). corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão.

Redefinir implica uma alteração do limite territorial. neste sentido.labcom. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. Trata-se de construir.ubi. não tanto para sair da sombra. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. geralmente. para falar como Georges Canguilhem. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. que a verdade. Barcelona.lha-se. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías. lugares privilegiados. A semiótica não fornece saberes a professar. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. Ensayos/Destino.i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. Neste sentido. mas que tem instantes propícios. 1991. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. uma verdade talvez adormecida. segmentado e definido. antes. aguarda a nossa mão para se entregar”. que espera o nosso olhar para despertar. mas fundamentalmente para se produzir. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. o ângulo correcto. no interior de um espaço conceptual já ocupado. há duas convicções orientadoras deste estudo. como o relâmpago. Lógica del Limite. que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar. O semiótico admite. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. 2 www. a uma conquista territorial2 . que afirma que “nem tudo é verdadeiro.pt i i i i . Este aspecto era fundamental para nós. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido.

adequados. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. Ambição motivada não por um qualquer prazer. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil. passível de descrição. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. de análise. quando se considera o corpo como objecto de saber. a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. pelo contrário. tristeza. “evidentes” e “naturais”. construções e confrontações inesgotáveis.labcom. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. Pág. contudo. de teorização.”3 Vindos de muitas direcções. No caso do estudo que agora se apresenta. experimentamos. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. Todos temos um corpo que sentimos. definida – a partir de um ponto de vista próprio. cansaço.pt i i i i . Lisboa. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale.ubi. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. partilhamos. anormais. classificações. mas de um modo tão ostensivo que. saturado de referências que. de operação. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. mais ou menos vão. Enquanto tal. assim. segmentada. educados. 1997. com intensidades. Somos. de desrespeitar os modelos estabelecidos. Quando falamos em corpo. numa perspectiva dita “natural”. menos ele existe por si próprio. magros – patologicamente – sentimos dor. gordos. prescrições. baixos. Relógio d’Água. todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. www. Metamorfoses do Corpo. como bem anotava José Gil. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala. desadequados. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço.i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. segmenta e define uma sobre outra vez. 13. A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. angústia – e socialmente – somos normais. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. a determinada altura. para falar como Marcel Mauss.

mera carne. em todo o caso. por definição selectivo. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . pertinentes para a atribuição de uma significação. então. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. por interacção. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo. nesta nota introdutória. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva. contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. os. Bragança de Miranda e E. Pág. assim designados por Marcel Mauss. No 28. no interior de um determinado contexto semiótico. a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. de facto.pt i i i i . como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. J. Se. Prado Coelho. Cf. necessariamente. Tendências da Cultura Contemporânea. Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual. 2000. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”. 4 www. A semiótica visará. linguísticos ou não.ubi. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. formalismos eficazes. 363-375.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. No 28. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. Mantendo. desde já. como dizia Greimas. permanentemente. A. que produzem processos de atribuição de significação. tal sentido dá-se. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. O corpo constrói-se. RCL.labcom. que se define a estratégia seguida no presente estudo. sendo que o contexto é.

O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. de um determinado sentido legitimador da rede de relações. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. Se o nosso estudo identifica vários corpos. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. de diferentes perspectivas de análise. produção de sentido. devemos admiti-lo. uma lógica. muito claramente. do funcionamento dos operadores. também. porque de máquinas semióticas se tratam.i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são. igualmente. no interior de uma máquina. se identificamos vários corpos devemos. para recorrermos à classificação de Peirce. à disposição tanto de uns como de outros. usos. etc. uma série. Assim há um operar que. do corpo. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. à sua funcionalização. apenas parece detectável retrospectivamente. deste modo. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é. do próprio procedimento das lógicas produtivas. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica. Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde.labcom.ubi. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural.). produtores intencionais do sentido do corpo. Esta máquina. mesmo perante a crítica mais intensa. de produção que é. enfim. num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. já operava antes de a podermos reconhecer. em funcionamento. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. antes de mais. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto. identificar várias máquinas. de operadores epistémicos. compreensões. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. realmente. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise.pt i i i i . formulações. disciplinarmente identificáveis. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato.

as máquinas não são estanques. entre tantas outras. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se. com gestos já semioticizados. como é evidente. o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica. com instrumentos já semioticizados. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser. também. e.ubi.labcom. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são. ou por uma www. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão.pt i i i i . em permanência. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito. nas formas de contaminação horizontal e vertical. a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia. isto é. entre tantas outras.i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. A produção semiótica não é nunca linear. complexos. no entanto. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada. Assim trabalha num espaço já semioticizado.

O corpo. o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. Tropismos. portanto. tema recorrente na cultura contemporânea. a ele ligado. Crítica das ligações na era da técnica. no qual as tensões. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. a contemporaneidade. sexe et pouvoir. particular protagonismo. 6 5 www. jogo de combinatórias possíveis. no limite. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A. Abbeville Press. os seus modelos e conceitos. simultaneamente. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados. herança que. 1997. 61. Lisboa.labcom. Segundo Valérie Steele. a própria contemporaneidade. Se há herança radical deixada pela modernidade. essa é a da Válerie Steele. semântico e pragmático. como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. onde tudo se pode ligar a tudo. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no. A par do tema da técnica e. os seus objectos e os seus sujeitos. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 . remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade. zona de trocas intersemióticas. que a instrumentalizam. Pág. Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder. ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e. Neste processo o corpo torna-se espaço. 2002. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. tornouse. em grande medida.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. formam-no. A análise da produção semiótica do corpo deverá. os seus territórios e as suas fronteiras.ubi. a um tempo. esse grande ausente. Fetiche.i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. deste modo. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. Mode. na última década.pt i i i i . O tema das “ligações” assume. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. na expressão de Walter Benjamin.).

Payot. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. 15. o fim das “grandes narrativas”. O diagnóstico que extraem das suas análises é. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. Lisboa. filosofia. ). IN Revista Lusitana. Um entre-dois do real e do virtual. seja para. . o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo. à luz desta análise.ubi. 10 A obra de Jean François Lyotard. diversos pensadores foram-nos fornecendo. demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. disjunções e fluidificações.pt i i i i . 8 7 www. se o anuncio de novas disciplinas..labcom. Galilée. do imutável. ciências da linguagem. das mais variadas formas. “Le regard implique”. não deixa de ser interessante questionarmos. 1999. em traços gerais. transgressor. 9 Leia-se.”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. das mais variadas formas. Pág. 2005. Sexe ey solitude. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. Lisboa. assim. a falência das luzes. A condição pós-moderna [Gradiva. ao triunfo do fantasma puro”11 . 11 Bruce Benderson. o afirmar. ESAD/CML. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes. do idêntico. a “crise” do corpo. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”. Eric Landowski. seja para. Paris. a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas. Pág. própria a todos os entre-dois (. s/d] contínua a ser. .i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir. talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”. sobrevalorizadas. o desmoronamento geral dos sistemas. uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. 2004. que faz aparecer devires. 43. Por exemplo. de novos objectos. Christine Buci-Glucksman. de um modo meio explicativo. L’esthétique du temps au Japon. da sua. Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. bem conhecido: o fim das ideologias. intelectualmente. Matosinhos. na maior parte dos casos. meio divinatório.10 Se o funeral da modernidade foi. pelo menos aparente. 1998. na maioria das situações. o advento do pós-humano. Paris. 17-18. os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século. a superação do humano e. o negar. a este título. IN José Bártolo et al. “contaminação”9 . o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. Contaminação.

O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. Págs. . Ibidem. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari. uma imaginação.i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. particularizam e multiplicam as superfícies. icónica. já que jogam entre si. Como dele fala José Augusto Mourão. Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão.labcom. Cit. no entanto. remática. A sua transitoriedade. 288. de distância variável que não conhecem em absoluto. 288-289. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. Os quaseobjectos”. 14 Idem. imagina-se em toda a parte.pt i i i i .ubi. fora deles também. seccionam. “Hibridismo e Semiótica. No 29. “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . O que falta ao fantasma é a materialização. E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem. o fetiche. de “quase-objectos”12 . o fantasma “pressente-se. mas porque também os tocam. para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo. 287-301. Págs. seguindo leis de vizinhança. porque aí se agarram e se projectam. cortam. 2001. temese como o objecto mágico.. o seu excesso. Op. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. indicam uma perda e. O campo da semiótica. Vivemos numa época de fantasmas. como o mutante. Como se fala de um amputado de membro fantasma. ainda assim. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles.). de espectros.”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis. O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. Advertia-nos. uma excrescência que pode remeter para outros mundos. a carne. como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). RCL. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. é uma intensificação. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. (. 13 José Augusto Mourão. tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). Pág. ). 12 www. de torção. uma tensão para restaurar essa perda. . O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. em parte. Ele é uma “coisa” que não é coisa.

i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. Signes et paraboles. Como a entendia Greimas. 2005. “a semiótica. que façam as suas mímicas como extra-seres. cuja análise pertence a outras disciplinas. diferem em natureza das suas causas reais. 15 www. Não o devir social. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. Paris. sociais ou politicas.J. Págs. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 . analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. 217. S. Paulo. 1977. mesmo que muitas vezes por nós considerado. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. 1969. ser-não-ser. “Postace”. económico ou politico. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. Seuil. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos.labcom. pois. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. 82-83. os monstros . topologizam a materialidade do corpo. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. os sublinhados são nossos.”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas. Paris. bem como. 227.ubi.”17 . Greimas. Port. nos interessa. IN Groupe d’Entrevernes. 17 A. Landy Editora. Pág. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal. Sémiotique et texte évangélique. posicionado no campo da semiótica. 16 Gilles Deleuze. uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. Minuit. De Luiz Fortes. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados. nem sequer o devir técnico que. Logique du sens. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real. A uma semiótica do corpo cabe. p.pt i i i i . É preciso. Em relação ao nosso estudo. 2003. Lógica do sentido. ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. antes de mais. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. São Paulo. particularmente.são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que. e deixar que efectuem as suas danças. trad. Perspectiva.

foi publicada em 1966 (Paris. Présences de l’autre. Pág. 19 Esta obra. já não causam perturbação. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. actualmente central. estimular uma leitura menos definida. Larousse). 1999. tão fundamental. Págs. PUF. era rigorosamente circunscrita. a reflexão. ferramentas. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido.Paris. Paris. 20 Jacques Geninasca. Paulinas. IN AAVV. PUF. como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. antes. Lisboa. ainda. 1997. ou do outro (Landowski)23 . “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. Hénault. 23 Eric Landowski. hoje. 1987. Paris. Semiótica e Bíblia. tratar da “presença a si” ou ao outro. www. 22 A. 21 J. 213-216. seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. 12.”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca. 1994. potencialmente mais híbrida da disciplina.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar. Nessa altura a problemática da enunciação. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). a foria era dificilmente pensável. as paixões não eram consideradas. Floch. “ Apresentação ”. o contágio. porque esse sentido. O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá. sobre o contínuo.ubi. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 . qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 . a inclusão de novos objectos. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo.M. Un lecture de Tintin au Tibet.pt i i i i . PUF. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 . 24 e segs. 7. PUF. modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. Pág. 1997. menos aprisionadas pela exigência de formalização. por exemplo. a presença. contudo. preocupações. Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. La parole lettéraire. teria parecido incongruente. Paris. Pág.labcom. Le pouvoir comme passion. problemáticas. a intensidade.

não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. é anunciado como obsoleto. It malfunctions often and fatugues quickly. no seu dicionário. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica. Greimas e J. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado.i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. 25 24 www. pois. por propriedade transitiva. It might be highest of human realizations. Dicionário de Semiótica. It can survive only weeks without food. 561-62. Cultrix. Greimas e Courtés. Courtés. a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. “From psycho-body to cyber-systems. It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death. mas mais devido ao facto da acção técnica. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem. O corpo humano. For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. We are at the end of philosophy and human physiology. Stelarc. não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que.”25 A. Human thought recedes into the human past. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado. Routledge.”24 . relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure. Págs. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed. 2002. The cybercultures reader.labcom. and minutes without oxygen. Por sua vez.).ubi. its performance is determined by its age. Pág. J. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. Será. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. Its survival parameters are very slim. 203. biológico. London/New York.pt i i i i . days without water. Gille fala em “sistema técnico”). Images as post-human entities”. The body is obsolete. São Paulo.

319. o corpo pertence ao reino do silêncio. o espaço do destino.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que. resiste. como tal. 24. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes. O corpo espera.29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia. na verdade. da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica. Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado. ocupava o espaço fundamental da identidade. entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares. bem a propósito. redigida por Maria Lucília 26 www. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação. sofre. Imagens Médicas. 28 de Maio de 2001. Cf. por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico. defende-se. então.”. 2002. e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. IN Manuel Valente Alves (Coord. se torna um corpo provisório. Pág. Antes. “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. física ou simbólica. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. o pensa e o produz. adaptações e utilizações específicas. simultaneamente.labcom. “Princípios de Método”. a obsolescência do corpo humano26 .pt i i i i . Porto. a correcções. Pág.ubi. Pág. Breve história do corpo e de seus monstros. amado. 28 Citação de G. Bruno transcrita de I. O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. 27 Maria Filomena Molder. quer um lamento de impotência. 1999. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos. mas. Tucherman.”28 Não existe um modelo único do corpo. Hoje. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. Vega. sujeito a desmontagens e remontagens. Público. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. Fragmentos de uma história. Porto Editora. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”. 70. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. também o embrião passou a ser um órgão manipulável.). Lisboa. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença.

Edições 70. Relógio d’Água. A história actual do corpo. 1996.labcom. despedaçá-lo. da acção de uma determinada máquina semiótica. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é. Técnica e Subjectividades. Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo. é a da sua demarcação mas também. também. como procuramos mostrar.to. a cada um múltiplos. um olho. corpo-objec. por vezes. corpos sobre corpos. 30 Jean Baudrillard. ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. sempre. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . 31 Idem.ubi. isto é. Corpos e mais corpos. Corpo. 2004. A troca simbólica e a morte. “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. a cada disciplina o seu. múltiplos corpos individuais. 169 e segs. a cada máquina o seu. www. releva. Ibidem. Falamos e pensamos o corpo por generalia.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. I Volume. o seu a cada um e. desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. como explicita Jean Baudrillard30 . Lisboa. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. hoje tão evidentes. Pág. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço. a da sua desmarcação. tradução portuguesa de João Gama. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos.pt i i i i . Lisboa. máquina semiótica. múltiplos corpos do design e da teologia. reunindo. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade. a cada indivíduo o seu corpo. isto é. acrescentamos nós. corpoMarcos e António Fernando Cascais. Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura.

e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante. poderá sempre ser tomado como tabula rasa. um processo de significação do corpo. melhor dito. espaço de marcação. A história do corpo é a história da sua permanente produção. connections.ubi. carne. 32 www. Cit. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem.é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo.”32 . significam-no. de penúria nominum. como diziam os medievais. p. constatar uma viragem. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. Significar corresponde à imposição de um sentido. “The Imaginary”. relativamente ao corpo. 33 Maria Teresa Cruz. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo . 72. é o corpo que se esconde. que se perde. Significar e marcar são gestos idênticos. London. facilmente. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso . que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. Op. multidisciplinar como anteriormente anotámos. Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. Verso. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 . Sexuality in the field of Vision. cibercorpo. para o corpo. O corpo. considera-se. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. flows. Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra. A descrição da actual situação do corpo permite-nos.talvez faça pouco sentido falar. espaço de inscrição.i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. Não há sentido sem suplício. the alignment of one aspect with another. um regime de signos ou. nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. numa palavra. organs.pt i i i i . afectada. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. 1986. qualquer corpo. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. the channelling of processes.labcom.

De cada vez há um presente que pensa o corpo. É. como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. sonhos e medos. à vez. nem fuga. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. de www. passou pela vida. um corpo estável sob o qual possa. ainda. como dizia Foucault.pt i i i i . que será. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual. redes complexas. alegrias e tristezas. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência. e o próprio jogo como azar. apenas. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo. um golpe de sorte (um lançar de dados). sem escolha. silenciosamente. de novo. errante. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo. Na sua ruptura. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. ainda. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. como um trovão surpreendendo a noite escura. se o corpo se altera. um grau de incerteza.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que.ubi. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. o presente é. na sua repetição. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. onde tudo. todo o corpo social se torna instável. se fantasmiza. que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. nas máquinas e nas cidades.labcom. qual alma penada procurando. na oração e no combate. dos seus aparelhos. repousar. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. no trabalho e no lazer. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. integram centenas. De cada vez que a concepção do corpo se altera. corpos e almas. mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu. o azar do jogo.

A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. também a economia medicaliza o seu reportório. Carne e Pedra. Nova Fronteira. mostrando que o corpo é uma “simulação”. da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino).ubi.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. conformam a construção de dois modelos do corpo. no limite. estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa. livremente. reforça esta visão. de duas metaconstruções cultural. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. a partir de meados do século XX. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver. 34 www. a cibercultura a partir do início dos anos 80. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”. a partir do século XVII. do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências.pt i i i i . alteram-se os cuidados do corpo. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. Os cultural studies renovaram. a sua circulação e o seu depósito. passando a falar-se em “saúde económica”. 80. anglo/hispano) que. Rio de Janeiro. 35 Richard Sennett. de conceber e dar à luz. as formas de morrer e de matar.labcom. a sua negociação e cotação. Pág. a partir dos anos 70. no interior e por Apropriamo-nos. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo. de uma forma clara. “exercício de capital”. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”. a ideia de que o corpo é uma “representação”.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz. ainda que tornando-a potencialmente fantástica. 1994. de comer e copular.35 É sabido como gradualmente. “respiração das mercadorias”.

corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. London. como “não-eu”. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”. gerador da ambiguidade do dualismo. sobretudo de uma crescente aproximação. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto. também se transforma. Northeastern University Press. na linha de muitos outros autores. não apenas uma lógica de crescente ligação. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. Susan Bordo. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. Págs. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface. www. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. 48. entre pólos.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. “not-self” e “not-me”. 87-118. homem/compu. e à medida que essas práticas se transformam. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. biológico/tecnológico. impõe. 1995. Neste sentido Mike Featherstone. O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação. mas. Na sequência da tradição da filosofia grega. o corpo. real/virtual) é. tal como a afirmação.37 A negação. Pág. potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software.). “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”. No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo. Sage. Boston. sujeito/Objecto. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo.ubi.). A lógica de interface (homem/máquina. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”.tador. o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. Cf.labcom. conexão. Sujeito/Objecto. acompanhando-as. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. como um “outro-de-si”. por assim dizer.pt i i i i .

Bodies and Discursisivity”. Body & Society. S. Routledge. Berthelot. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 . L. 1. etc. 40 L. Pág. segundo a expressão de Madeleine Akrich.pt i i i i . Ibidem. “Gender.C. 47 T. IN Configurations. Screening the body: Tracing medecine’s visual culture. O corpo está actualmente. 2004. 103-18.. 43 Judith Butler.). 1. 10. Hood-Williams.labcom. Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. London. London. 267-92. 1994. 1993. Changing Sex: TRansexualism. 13-23. etc. Mass. 41 M. Laqueur. Cartwright40 . Turner. “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”. 1997. ergueu o seu tribunal. “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. 2-3. 5. Lock. O corpo sempre falou pela voz de outro.-M. Minneapolis. Harvard University Press. 1997. www. Hood-Williams45 . 1990. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos. Págs. com as ciências médicas (Hausman46 . Laqueur47 . Sage. 45 Idem. London. Lock41 . Harrison44 . Duke University Press.ubi. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo.) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 . Cambridge. 39 J. 46 B. que a autora identifica com os “science and technology studies”.). permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado. 1995. Sage. Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. IN Body & Society. Turner42 . Págs. Durham. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. Technology. Hausman. Routledge. 3 (4). Cartwright. Vol. etc. IN Body & Society. à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. 1992. 1995. University of Minnesota Press. “em julgamento”38 . Sage. da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing). 42 B. Um novo território. London. Harrison e J. London. Págs. “Decentering the natural body: Making difference matter”. 44 W. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. and the idea of Gender.i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo.

Haraway49 . sobretudo Pág. Latour52 . S.). . IN Harvard Design Magazine. 1992. 48 www. Wigley54 .ubi.. ou vê com os olhos. New York. Bertrand Editora. 1-8. ). Sage.). justamente porque o corpo é subjectivo. onde a representação se forma ou se projecta A. O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”. Somos o pé que anda. etc.). vive-se de dentro para fora. no 96. o olhar que vê. a mão que prende. uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira. no essencial. Lisboa. . Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. 52 Bruno Latour. Sage. Routledge. este corpo é ele próprio o “dentro”. é como se também estivéssemos nele. 1991. Turner. etc. Por vezes. enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés. Págs. IN Camera Obscura.55 “Rigorosamente falando”. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar. The Body: Social Process and Cultural Theory. Invocação ao meu corpo. 207-38. 28. Simians. ou prende com a mão. London. Featherstone. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado. London. Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. 53 Adrian Forty. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). porque se o somos. o corpo vai sendo redefinido. M. com a teoria do design (Forty53 . no instante em que os vemos andar. “Industrial Design and Prosthesis”. 55 Estes dois parágrafos são. 51 H. no 5. 1985. 1999. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim. “só conhecemos e concebemos. Harvard University Press. Collins. entre aquele que observa e o que é observado. Mas podemos sair deles. Featherstone50 . IN Ottagono.pt i i i i . 114-129. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. “Whatever Happened to Total Design?”. 1998. diz-nos Nancy. 54 Mark Wigley. Decerto que um corpo é ambíguo. Cambridge. Mass. estamos sendo também esses pés que andam. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. 1994. o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. M. 49 Donna Haraway. Bálsamo. e ser então alguém que anda com o pé. London. 255. com a nova epistemologia científica (Collins51 . Hepworth e B. 1991.i i i i 20 José Bártolo samo48 . 50 M. Págs. perspectivá-los. e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”.labcom. etc. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. Págs.

como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. e a sua perda fere-nos. a pena. a queimadura. inconsciente). Corpus. 80. o sonho e o medo.pt i i i i . corpóreo. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida. memória. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. Outras vezes. Há um sentido de humaniora. as suas produções de sentido.labcom. Tradução portuguesa de Tomás Maia. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. con-sentido. no tratamento semiótico dos regimes de signos. ou seja.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa. em cada instante. Ibidem. Dessa perda. esse sentido tangível. que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. Lisboa. antes de tudo. percepção. entalha-se em nós.ubi. 2000. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. Págs. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam. a fragilíssima condição humana. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz. Vega. em cada reconhecimento do outro. a dor é somente o gume. a abarrotar de intencionalidade. 66-67. a sua tecnologização. 57 Idem. Transportando no corpo a dor e a alegria. Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí.”57 Não se passa pela vida sem dor. ainda que seja. solidão sentida. sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. 56 www. doloroso. Pág. ideia. Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. origem e receptor das relações. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”. se renova. também não o dá à perda. sentido. O corpo é. o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. imagem. Com cada um deles o nosso corpo se comove. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. como lhe chamava Kant. uma caverna cheia. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido.

Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. A substância de expressão. Retórica. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. Floch nos media e na comunicação e a lista. A. E. Arrivé e J—C.-M. em última análise. determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias.J. pelo menos. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise. não há regimes puros. reconfiguração dos processos narrativos. descrevendo os diferentes “modelos”. J. No entanto. etc. A. facilmente se estenderia. . A intersemiótica responde a essa estratégia. Lisboa. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana. Relógio d’Água. Darrault na psicologia. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é. publicada em 1966. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo.”58 Na sua Semântica Estrutural. H. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. 103. então. Pág.labcom. Mourão na teologia. RCL no 36. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. 2005. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. Parret na filosofia. .i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. J. 58 www. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. da corporeidade. estratégias argumentativas.pt i i i i . sistemas semi-simbólicos. desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito. mais no sentido que lhe dão Fontanille. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. como lhes chamaria Fontanille. Assim. na sua praxis semiósica. etc. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. M. para falar como Baudrillard. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. B) Em macro-análise. “A dimensão imagética da metáfora”.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. Coquet na psicanálise.ubi. do corpo. Courtés e J. como já se percebeu. nada exaustiva.

antes as cruzam. 60 Idem. 177. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. Pág. 175. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 . é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo.labcom. Ibidem. para Deleuze. a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. 140 e segs. continuuns de intensidades. Minuit.60 É sabido que. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem.pt i i i i . a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo. trans-sexulaidades reais. produzindo-o. Pág. os regimes de signos às máquinas abstractas. que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana). O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. 62 Idem. . é a linguagem que remete aos regimes de signos. o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. ) devires-animais. pelo contrário. Uma semiótica é um regime de signos. Pág. 1980. então. antes de mais. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. Ibidem. devires moleculares. A semiologia seria. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique.ubi. Un régime de signes contitue une sémiotique. Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. gerador de um devir-máquina. interligadas.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo. . atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo. 61 Idem. . constituições de corpos sem órgãos. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). Ibidem.”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. Paris. 59 www. incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo. . semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos).

nesta perspectiva. uma “apreensão mais processual e contextual. durante a viagem.63 Paolo Fabbri propõe. Seuil. como signo ou como índice. No início dos anos 90. 99-103. como um objecto que não está por um outro. 1991. simultaneamente. assente na natureza arbitrária (sinais. Se recorrermos à classificação de Benveniste.ubi.i i i i 24 José Bártolo manifestações. Sémiotique des passions. de um comprometimento. das paixões. O corpo é mítico. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. . o corpo-em-situação. os sinais e os símbolos de uma linhagem. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. C) As orientações axiológicas. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que. ocorrem. Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. . do adorno. dando conta das tensividades fóricas. ). também. a valorização e desvalorização de certas paixões. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações. Neste sentido. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Greimas e J. da escarificação. o corpo.labcom. as suas improvisações e desvios. os seus agenciamentos. Págs. é claro que o corpo é. índices) da relação entre o significante e o significado.pt i i i i . interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. tanto se podem apresentar como sinal. Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. Considerado em si mesmo. www. 63 A. signos) ou analógica (símbolos. em relação ao estudo das emoções. no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. de uma condição. mais interpessoal e cultural da significação (. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo. Paris. qualquer corpo. é transitório e operatório. dizia Michel de Certeau. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. Os modos de “ser” do corpo. de um classe. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal. Fontanille. de palco significante.J.

verdadeiramente. já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. a sua produção de sentido. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). no 47/48. Face ao que dissemos. Oxford. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. a sua adequação objectiva a um determinado fim.65 A partir destas abordagens. 65 R. Harré. As análises dedicadas à semiótica. www. à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva. Harré (Ed. isto é. 1988. Basil Blackwell. é feita por R. na mesma linha de raciocínio. Éditions Liana Levi. E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. de natureza intersemiótica.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. Harré que. Págs. Paris. Une Histoire du corps au Moyen Âge. 2003. “An outline of the social constructionist viewpoint”. a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões. A passion veduta: il vaglio semiotico”. C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais.labcom. 2-14. paixões e devires que tem lugar no corpo e que. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções. Versus. B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. como anotámos anteriormente. dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura.ubi. de um ou de outro modo. “Postfazione.64 Outra proposta. Harré. a sua instrumentalização. Não se procura aí. uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. The social construction of emotions. 205. Pág. escapavam à semiologia.pt i i i i .). IN R. parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. Fabbri. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff.

1977. Págs. . 67 Cf. corpos transformados em símbolos. como dizia Walter Benjamin. em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(. a legenda.. particulares. 69 Marc Bloch. O que se afirma é. sempre. Op. com uma história sem corpos e com corpos sem história. Interessava-se pelos homens e. Cit. E no entanto o corpo tem uma história.). que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar. Paris. então. representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. a sua presença no imaginário e na realidade. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. que o instrumentaliza. IN John Blacking (Ed. Pág. o arquivo. no sentido de Deleuze.pt i i i i . Academic Press. de um corpo sem ossos. produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . nem carne. excepcionalmente. mas tratava-se. a história da sua permanente construção social. London. Marc Bloch reivindicava. Roy Ellen. La société féodale. 5. www. um grande esquecimento para o historiador. assim. foram mudando em todas as sociedades históricas. o seu lugar na sociedade. nem vida. assim. 1939. A história tradicional era efectivamente descarnada.”69 . Pág. acessoriamente. . Mais recentemente. antes. nos anos 30. percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. bem entendido. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. 343-373. pelas mulheres. a descrição. Mas quase sempre sem corpo. perceber como o design. 68 Falamos aqui. Com efeito. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado.”70 Ficávamos. The Antropology of the Body. santos ou guerreiros. o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. A concepção do corpo. 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. New York & San Francisco. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história.labcom. se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo.ubi. Albin Michel. 5.

paredes-meias com a igreja. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo. “Sexo. tensão entre o topo e a base. de morrer – corporizando normas e desvios. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. texto e corpo virtual”.. como cada língua. tensão entre a guerra e a paz e. tolerâncias e marginalidades. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. O Enigma da Sexualidade.labcom. é atravessado por essa tensão. semioticizado como matéria repugnante. de trabalhar. a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades. de andar. Cadernos ISTA. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. IN José Augusto Mourão et al. 72 71 www. Ibidem. O corpo cristão. alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. proibições e desconhecimentos. Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. tensão entre o homem e máquina. Os sacramentos santificam os corpos. as suas improvisações e os seus desvios. tensão entre o centro e a periferia. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade. a um tempo. 2003. de nascer. 112-13.ubi. sobretudo. mas também o corpo-cadáver. de falar. a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. de copular. tensão entre o campo e a cidade. a rejeição e a sua veneração. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo. a comunhão é um repasto. de guerrear. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. tensão entre o homem e a mulher.i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. José Augusto Mourão. comporta os seus idiolectos. sobretudo durante a Idade Média. de viver. tensão entre a riqueza e a pobreza. Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo. Pág. no 16. E. simultaneamente.pt i i i i . de comer.

diferentes corpos. No entanto. 1999. qualquer que seja o seu nome: aberração. para o corpo mal olhado. Edições Paulinas. Mas o próprio olhar exige ser ordenado.pt i i i i . a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. então. releva de um determinado uso semiótico do corpo. “Figuras e transfigurações”. de nos sentarmos. ciborgue. 163-175. quase sempre. diferentes olhares produzem. O olhar do médico tem o “seu” corpo.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. para o deformado. o corpo é sempre. como diziam Deleuze e Guattari. para eles. Semiótica e Bíblia. 73 www. física e outra semiótica. isto é. IN AAVV. o olhar do polícia o seu. Págs. causas sociais. de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. sempre olhado. o olhar do voyeur o seu. assim. para o monstro. da pele até as entranhas. freak.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. sempre. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores. Na sua semiótica do olhar. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. àquilo que é. o próprio olhar não escapa a ser François Martin. já passivo produto resultante daquele olhar. para o corpo desviado ou desviante. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado. uma corpórea. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar. mesmo que se esconda. por duas máquinas. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. O corpo é. mais. atravessado por dois tipos de agenciamentos. falar. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação.labcom. O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”.ubi. Lisboa. mas é.

a distribuição ou a retenção de um saber. são modelos de ordenação quer do corpo. Cit. entre o que é por natureza e que é por cultura. 1971. às outras formas de poder. não é nunca o corpo do nosso irmão. conhecimento que se produz. Igualmente cada cultura tem o seu corpo. mas não deve corresponder. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . de acumulação. um corpo normal. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. 40. cada cultura politica o seu. Pág.”74 Os modelos do corpo.pt i i i i . o corpo da grávida e o do aleijado. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel. o seu. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. seguindo Nobert Wiener. de deslocamento. se exerce sem a extracção. seu de direito. 144.labcom. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina. não é nunca um corpo como os corpos. mas as formas fundamentais de saber-poder. na sua existência e no seu funcionamento. podemos. Gallimard. uma forma de poder e que é ligado. Paris. o seu. não deve ser. mórbido e neutro no corpo”. percepções. a apropriação. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. cada cultura social. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. de registo. L’ordre du discours. que é. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. a nenhum dos modelados. Assim. nas palavras de Galeno. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo. Em A ordem do discurso. em si mesmo. estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos. pelo contrário.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente.. cada cultura técnica.ubi. Nenhum poder. Richard Sennett. Cada máquina semiótica tem o seu corpo. Todo o olhar almeja ser panóptico. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. condição de possibilidade da modelação. O modelo não tem de ser. ou a ciência e o Estado. Pág. Op. quer do olhar sobre o corpo. www. identificar quatro modelos do corpo.

ubi. são objectos de prova. maleável. Paidós. Editora da Universidade de São Paulo. Género. produzindo-os. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (. Apud Sherry Turkle. Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. Barcelona. 77 Ralph Emerson. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia. . a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. Para Donna Haraway. )”. Ralph W. uma criatura de realidade social. Lisboa. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. 30. ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum. Pág. permanentemente citada quando se fala em ciborgues. . em 1968. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. isto é do computador e. nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus. um híbrido de máquina e organismo. Cotovia. A galáxia de Gutenberg.78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues. 221-250. São Paulo. encontramo-lo na figura do Golem. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. Os ciborgues são objectos de prova. 78 Donna Haraway. por correlato. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. feito de barro.i i i i 30 José Bártolo primeiro. “O manifesto Ciborgue: A ciência. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais. cujo modelo é o do corpo mágico. do corpo. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. IN Ana Gabriela Macedo. a que. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues.pt i i i i . nano-próteses. alterando-os. 2002. 1995. Com o desenvolvimento tecnológico. tanto quanto de ficção (. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. . Págs. com 76 Marshall McLuhan.”77 . “Um ciborgue é um organismo cibernético. de 1832. La vida en la pantalla. . Numa passagem do seu diário.labcom. Identidade e Desejo. www. sob o modelo da locomotiva a vapor. juntar-se-ia. como interface. 1972.

O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano. cada vez mais pequenas. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne.pt i i i i . vivo ou inanimado. genoterapia e engenharia genética). já não polarizadas mas agora.na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. de transistors. do biodesign. recuperação de órgãos. biopolímeros. utilizações científicas dos cadáveres). interfaces. no campo do design biotecnológico. chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne. inclusivamente no cérebro. redefiniu. O desenvolvimento das biotecnologias. A carne do homem vai sendo enxertada de metal. cada vez mais “compatíveis”. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles. da bioengenharia e da engenharia genética . homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões. desenvolvimentos nanomedicos. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. vivo e inanimado. interfaciadas. as tensões polares – natural ou artificial. desde a sua génese (fertilização in vitro. dito de um modo mais rigoroso. para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses.labcom. www. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. Prototipagem rápida e virtual. nos últimos quinze anos. aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. matéria orgânica. Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date. crescentemente. clonagem.ubi. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. próteses internas e externas. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade.i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. chips e electrónica. artérias e fluidos. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. cada vez mais leves.

da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. Não há pensamento que não comece pele corpo. Da actual relação entre corpo e técnica.labcom.i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo.” IN José Augusto Mourão. as possa enunciar. por último. uma distopia (Crash). resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. o pensamento. ruga. para dizer a invenção dum corpo no tempo. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. Cit. Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. Pensemos o corpo. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida. como a ambicionam os extropistas. também. tenda a “estrutura-lo”. IN Ana Gabriela Macedo. corpo que vem79 . Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. também. Pág. 79 www. corpo-enxertado. talvez. uma alma82 e dela poderá. anuncia-se um novo corpo: ciborgue. a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada. uma utopia (Hic est locus). no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben). a revelar-lhe essa ossadura. “coisas que agradam”81 e. para indicar um potencial (um devir). não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. também. então. Há no corpo. entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. dos variados campos (do design à cibercultura. Op. mas à semioticização técnica da vida. desfiguração ou descoloração. obrigando-o a ficar refém desse pensamento. também. corpo-em-rede. há no corpo. se for feliz. crescentemente hibridizadas. talvez. corpo-digital. Não há corpo que não apresente cicatriz. o pensamento sobre o corpo. bio-máquina. a aprisiona-lo. Ibidem. Pág. corpoprotésico. “O Corpo que vem”. expressão de um devir-corpo. de uma reterritorialização do corpo. 1 (não publicado). há no corpo. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”. corpo-em-fluxo. o pensamento dela partilhar.pt i i i i . enunciar ou adestrar. nunca. 81 Idem. 19. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. ossos que formam um esqueleto e. uma estética do caos. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 .ubi.

i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. Pág. o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido.labcom. ) Em resumo. Paris. .”83 . Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas. 83 Didier Anzieu. .pt i i i i . igualmente. 1997. Du moi-peau au moi-pensant. dos outros corpos. de a ele nos dirigirmos. Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. Oxalá o nosso apelo seja acolhido. todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão).ubi. (. 21. Dunod. www. Le penser. É uma forma. enfim.

i i i i i i i i .

i i i i Capítulo 1 Corpo. faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso. Estar aqui faz sentido. faz sentido a mesa suportar o computador. Seuil. é. Fazer sentido. Paris. 2004. 2 1 35 i i i i . p. Greimas. alors. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo.”2 A. se sobre isso me questionar. doar sentido às coisas. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele. Du Sens. 1. Iuglio. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. evidentemente. 1970. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. J. por sua vez. faz sentido ter corpo. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido. Jacques Geninasca. como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique. alvo de toda a actividade hermenêutica. posso dizer que o meu corpo faz sentido. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. Mas.

labcom. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. cada um de nós a sua. anatomizar. qualquer corpo. a sua fragilidade ou a força da sua presença. que fala e responde. o sujeito é. o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. a sua beleza.se. a economia a sua.i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . Munidos de determinados instrumentos de leitura. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas. Ler.pt i i i i . portanto. enfim.abreoutro. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. é semioticizado como texto. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. semioticizar o corpo. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. tensiva – fórica.12. construindo permanentemente corpos. Cf. o direito a sua. o biólogo. envolvendo uma série de mecanismos e competências. enquanto situação. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. Trabalhos de Jesus. tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. p. corresponde a construir o corpo-texto como discurso. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos. dando conta da significação do corpo. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. Paixão e Discurso. o corpo começa por ser como que um texto. o corpo-que. isto é. o design industrial a sua. De facto. que o corpo. Lisboa. o anatomista. 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. Vega. expressão de um sentido fixado4 . um documento a ler. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. ela avança para o nível dos objectos. 103 e segs. Para a sociossemiótica. analisar. como paixão e enquanto forma de vida. 3 www. que realizou a semiosis. A anatomia tem a sua a máquina semiótica. das situações e das formas de vida. supra pág. que enuncia e é enunciado. intersubjectivamente. Dever-se-à considerar. o coreógrafo. como discurso. 1996. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo.ubi. dissecar. em relação dinâmica. assim. campo de referência do nosso estudo.

de um modo igualmente verdadeiro. em grande medida. mas. mas poder-se-ia dizer. tão somente. fundamentalmente. nomedamente a nota 9. 1987. reversivelmente. Greimas. se sentir vivo e.ubi. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois.agora que vejo a minha mão. Hadès. na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. A semiótica é uma disciplina tensiva. de cada vez. se sentir morrer. envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de. que ser é estar em tensão e. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto. nessa interoperatividade. aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas. 1997. veja-se. porque essa construção é interconstrutiva. como corpo-objecto. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. (Eds. assim. sem dúvida.labcom. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”. IN M. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. Fanlac. a explicitação da significação. cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante.73. mais. Sémiotique en jeu. em “vigilante espera”. prometido e adiado.”5 . na expressão de Greimas. em cada corpo-a-corpo . A significação tende para o sentido. de um vislumbre.esteja. Paris. J. é por se aperceber que é essa a tarefa que. estar à altura do que lhe aparece. 6 A. Périgueux. De la imperfection. Arrivé et al. que existir é estar em “tensão semiótica”. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável. p. 5 www.). Só há espera no que é antecipável. de cada vez e sempre. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. e ele o saiba. em cada instante. de cada vez.pt i i i i . Se Greimas evoca a parábola bíblica. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos. agora que observo mais adiante o sofá verde. mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . uma axiologia. Poder-se-à. ao mesmo tempo.

do coçar-se. algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. em particular. do ouvir. designa Greimas por coalescência. provavelmente da cessação da vida. p. Kant e o Ornitorrinco. do ver. que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro. do estar de pé ou deitado. 1. do bater. A este estado de consentido entre nós e as coisas. numa semiótica do corpo. “Le schéma narratif à l’épreuve”. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal).7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. Zilberberg.pt i i i i . do esfregar. da posse ou da perda de um objecto de desejo. da luta. C. essa experiência que é sustentada juntamente com. certamente elas são originais. do dormir. 1999. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. 66. do caminhar. 147. . 1993. seja como for que decida denominá-las. do perceber sensações térmicas. aproximando-se de V. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. C. Este ser deverá adquirir. Assim que entra em contacto com outros seres. Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais. Lisboa. Cf. do apanhar. Difel. do sentir dor ou alívio.ubi. Brodal. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. da cópula. IN Protée. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. e assim por diante. do penetrar com o dedo uma matéria mole.labcom. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo. p. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo. 8 Umberto Eco. ou em geral com o ambiente circundante. olfactivas ou gustativas. Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar. 7 www. do bater as mãos. E há nisso um sentido que se emudece. XXI. . de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir.

“ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. agora. O semiótico sabe. na verdade.. do poder-ser do sentido. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. Relógio d’Água. apenas pode almejar a estudar a significação. Paris. como a ele se refere Herman Parret.”11 . corpóreo. que embora tendo o sentido como alvo. O Campo da Semiótica.ubi. “La microsémantique”. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato. na introdução ao presente trabalho. no entanto. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. p. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico. Paris. Rastier et al. ela consistirá. www. Seuil. 1976]. C) Problemas das relações entre discursos. Masson.pt i i i i . RCL no 29. Dissemo-lo já. A. Análise essa que pressupõe. Lisboa. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. o que se faz sentir. 10 Justifica-se. a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. também ele. o real é. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. O real é o que se faz sentido. Sémantique pour l’analyse. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas. entre outros. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. práticas e os seus contextos. 11 Herman Parret. Greimas. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo. 214. IN F. Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier. 2001. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro.labcom. antes.J. Sémiotique et Sciences Sociales. “O real é. 1994. entre nós e o real.

para falar como Baudrillard. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. etc. ainda que outros sejam mencionados e pensados. descrevendo os diferentes “modelos”.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. sistemas semisimbólicos. da sua instrumentalização.. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. estratégias argumentativas.labcom. partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo. pelo menos. do corpo. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. o anatomista e o designer . Em macro-análise. na medida em que transforma “operador” e “operado”. reconfiguração dos processos narrativos. da corporeidade. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www.pt i i i i . mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. isto é. etc. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto. 4.ubi. claramente pouco sistemático. só de um modo muito introdutório e. Em micro-análise. Intencionalmente. como lhes chamaria Fontanille. 2. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”.i i i i 40 José Bártolo particulares. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. Interessounos mais. os seguintes quatro pontos: 1. 3. É sabido que o corpo.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. -o semiólogo.

P. do trabalho de Greimas.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. 1966. Larousse. A semiótica foi tida. De facto. tarefa que a semiótica não poderia realizar. durante muito tempo. apesar destas afinidades. 8. Esta evolução da semiótica é devedora. 12 A. construção dinâmica.ubi. Em muitos aspectos. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido.pt i i i i . Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido. Paris. Greimas. se tratam de duas abordagens distintas. foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas. através da dimensão do sensível e da “estesia”. só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. www. como um método de análise do conteúdo.labcom. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. é para esta mesma fonte de inspiração que. em definitivo. quer de dentro. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. porém. de Greimas.”12 . Não é menos certo. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. redescobrindo. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido. J. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. no início dos anos 60. dela se esperava que dissesse o sentido dos textos. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica. na maior parte das vezes. a pesquisa mais avançada se volta novamente. geratividade. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que. hoje. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. Sémantique structurale. enunciando-o). que. antes resulta na sua colocação em forma. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. para uma semiótica das situações. sobretudo. não por falta de instrumentos de leitura.

identificados: em primeiro lugar. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base. em síntese.ubi. O sentido é antes um tesouro peculiar.labcom. p. Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. 1987. e construi-lo a dois. e geralmente são-no. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. isto e o seu oposto).pt i i i i . na análise dos sistemas de representações e de valores. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro. uma enquanto “sujeito”. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. a nossa carne envolvida na carne do outro. permutáveis. mesmo que estas posições sejam. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição.i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros. Paris. 173. “Les couleurs de la chair”. Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser. Minuit. devendo. A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. corpo-a-corpo. Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas. como produto da colocação em presença de duas instâncias. mas ainda não verdadeiramente o oposto). mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e. que seja coisa a ser descoberta. outra enquanto “objecto”. competentes para interagir em situação. depois. que subsume os precedentes. www. que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta. dentro/fora. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto. separá-los. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. para que ele exista há que construi-lo. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua.”13 . devires (já não totalmente isto. segundo a imagem de Umberto Eco. em compensação. uma espécie de vampiro. em segundo lugar. Porque se ele existe só pode ser. Sexes et parentés. semioticamente falando.

ubi. qualquer que seja a sua manifestação linguística. 2004.pt i i i i . Geninasca. Loc. Foi no decorrer dos anos 60. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux. por exemplo.”14 Nesta perspectiva. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce). limitando-se às funções e acções. 10-11. Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. 174. Técnica e Subjectividades. pelo menos de forma decisiva. pp. RCL no 33. Cit. 15 14 www.ta. “ Ego affectus sum”. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”. os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. a tarefa da semiótica interpretativa. Lisboa. digamolo de modo rude. em traços gerais. Fernando Cascais. p. ainda. em grande parte sob a J. José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. José Augusto Mourão. contudo. Identificar os cenários. Corpo.. não experimenta qualquer paixão. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica. de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. IN Ma Lucília Marcos e A. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral).labcom. a significação discursiva dos “textos” repor. Relógio d’Água. O lector in fabula de Eco. E. para. les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable. situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é.ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar. não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras.

uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos. por exemplo. 1966. Paris.) 17 Da acção de Greimas. de novos instrumentos de descrição e análise. 16 www. É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior. pág. como o quadrado semiótico. como a análise sémica. Dubois. Paris. uma renovação completa da problemática semântica. São Paulo. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. 1970. Pottier publicado em 1967. Surgem-nos. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. Greimas.) 20 V. Morphologie du conte. F.pt i i i i . B. 1968. bem expresso.J. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. Minuit. Hjelmslev. no Brasil. Cultrix. EDUSP. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação. B. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. 18 Cf. assim iniciada. Barthes. Guiraud. terá continuidade. em 1966. Perspectiva. L.labcom. em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. neste contexto. Cf. ano. Paris. 1973. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”. na revista “Critique”18 . na esteira de Jakobson. uma série de análises estruturais da narrativa.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. J. Barthes. Seuil. Pottier. 1967. Prolégomes à une théorie du langage. da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral. IN Critique.ubi. movimento esse que iria desencadear. na sua Semântica Estrutural19 . em 1966. em particular. Pottier. No 237. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés. prefigurado por A.J. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. no importante ensaio de B. R. Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural. a tradução portuguesa aparecerá. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira). 1975. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages. 19 A. 18-25 . visando. Larousse. São Paulo. Propp. Mathoré e A. reeditado em 1986 pelas PUF. Sémantique Structurale. também. Greimas.

São Paulo. mereceu. Greimas. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. 15. “ As aquisições e os projectos ”. de maneira mais ou menos explícita. as ciências humanas. Pág. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”. Livraria Almedina. 21 e segs. Ibidem. IN J.J.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas. uma teoria geral do fazer. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. J. Pág. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação. A Semântica Estrutural. organizadoras dos discursos. “morfologia” que.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. EDUSP. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa. 1973. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. interrogam-se sobre o que significam um e outro”. 23 Cf. Dito de outro modo.labcom. de resto. Courtés. 22 Idem. 1979. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . Posteriormente. 25 Idem. Greimas propõe-se “reA. 9. Greimas. 11. pág. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 . Ibidem. Cultrix.ubi. 21 www. 24 Idem. começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que.22 . o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva. A. igualmente.pt i i i i . pág. Semântica Estrutural. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas. de ambição axiológica.25 Apesar disso. Ibidem. Coimbra.

T. Seuil. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. fundado no princípio da imanência. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana.pt i i i i . o que significa que o discurso não nasceria. por intermédio de interdiscursividades28 . instaurando um novo domínio de pesquisa. procura “explicações qualitativas tradicionais”. baseia-se no beletrismo e. antes se formava. como era por vezes sua pretensão. A partir daqui. contemporânea de Greimas.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. 27 26 www. de um “voltar-se para as próprias coisas”. postula o formalismo em linguística e faz “semântica. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo. sem o saber”. estabelecendo uma semântica científica. Paris. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. Maingueneau. hipoteticamente. também.labcom. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana. 88. concebida como a “união. Todorov. mas. rompendo com uma determinada visão da linguística. Hachette. Ibidem. 24. critica a criação de uma metalinguagem descritiva. 28 D. para tal. e uma linguagem metodológica. porta de entrada para o acolhimento da Idem. 29 Idem. Cf. Ibidem. Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. Nouvelles tendances en analyse du discours. 1981. valendo-se.ubi. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. portanto. Pág. 1987. A análise do discurso. Paris. o analista da sua “memória discursiva”. pela relação de pressuposição recíproca. Pág. à maneira de Monsieur Jourdain.

mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. pág. Op. 1 e 2. isto é. Programa e Metodologia. A. De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”.i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. 20. 19-20. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. IN Comunicação e Sociedade 1. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. reflectividade. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris.pt i i i i . 1999. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. dito do modo mais simples.labcom. interacção. O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação. Vol. Relatório para provas de agregação. o domínio do objecto textual. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. A. intersubjectividade. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”. não se limitando a segui-la e. reafirmar os signos como objecto da semiótica. e. Dumézil.ubi. Semiótica. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”. entre sujeito e objecto. pág. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 . Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. À época da publicação da Semântica Estrutural. Fifalgo. intencionalidade e comunicação. por outro. Fidalgo. vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. e justificar esse entendimento. 30 www. Cadernos do Noroeste. “Da semiótica e seu objecto”. Jakobson. Lévi-Strauss. pp. e suspendemos a relação com o contexto. A função semiótica. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins. Apud. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. 12 (1-2). Série Comunicação. corpo-a-corpo. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. no outro. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure. Universidade do Minho. Cit. Cf..

Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Greimas. de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. 1979. 27. também. 15.quelas apresentam dois níveis: um profundo. Ibidem. Greimas e Courtés reconhecem. 33 A.34 Como sabemos. aí. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos.. apresenta-se. Pág. que contém a sintaxe e a semântica narrativas. assim. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. isto é. sob influência de Merleau-Ponty. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas. J. pois. cujas operações são a tematização e a figurativização. cujos procedimentos são a actorialização. a temporalização e a espacialização. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais. J.. afirmando..”32 . como uma teoria gerativa. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. Pág. Paris. 32 www. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva. Greimas estabelece. chamada de percurso gerativo. distinguindo-se. Aparecemnos. Pág. Semântica. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas.i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e. segundo Greimas. remontando ao nível mais alto possível”33 . a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é. Actualmente a semiótica. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos. Hachette. A. dispostos em patamares sucessivos. Ao estudar a estrutura elementar da significação. e a semântica discursiva. Greimas e J. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. correlativamente. de modo explícito. dois componentes: um sintáctico e um semântico.ubi. o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser.pt i i i i . 34 Idem. no percurso gerativo. 327. Sémiotique. Enquanto esta. descontinuidades no plano da percepção. A economia geral de uma teoria semiótica. a ruptura com a “linguística tradicional”. assim. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. e um de superfície.labcom. Courtés.

La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques. D’un côté. a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 . 35. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. p. . ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille. Limoges. uma classe autónoma de significações linguísticas. l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é.. qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible. . é possível. J. . Greimas anota que. Greimas. de certa forma. un clivage entre univers extéreoceptif. il détermine. . Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas. tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. conceito de raiz fenomenológica.). com alguma influência merleau-pontyneana. para Fontanille (mas não o era já. . consequências dessa posição: “(. Pulim. suspendendo. univers intérioceptif. A.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. ambas geradas pelo corpo próprio. 1998.”35 . Sémiotique du discours.pt i i i i . et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (. la perception du monde intérieur. et. implicitamente. Partout où il se déplace.labcom. retirando. entre la perception du monde extérieur. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio. Na Semântica Estrutural. de l’autre côté. no seu estatuto particular. 15. www. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. et ce. encontramos o trabalhar desse tema. já. o novo estatuto dado à percepção. dans le monde où il prend position. Semântica.. Pág.ubi. et un univers proprioceptif. grâce au corps propre du sujet de la perception. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position.

da relação. talvez nos ajude a perceber. ou. com menos surpresa. a sua produção. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”. o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais. Pág. Ibidem. 37 Idem. Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana.pt i i i i . Este enquadramento. a significação pressupõe a existência da relação. central em Saussure e Hjelmslev. como se diz. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ .ubi.labcom.37 Recuperando a categoria. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação. no mundo sensível.Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. bem como. www. 16.i i i i 50 José Bártolo comum. a sua interpretação.

Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”. Geninasca. p. mais ou menos numerosos. em definitivo. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”. dont vous aurez limité en leurs extrémités. que é permanentemente agenciado. sabemo-lo. uma instância de devir. centro de enunciação. atravessado que é por fluxos. 73. 10-11. O discurso. des modulations de la présence. Não há. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. espaço de devir. Cit.”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. desaparecer e que modificam os valores. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”. que fazem “aparecer. pp. Fontanille. J. mais ou menos rápidos. les termes “saisie” et “visée”. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues.”39 38 39 J. discurso que não comporte uma erótica do sentido. dans l’ordre du discontinu. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation. organizado em torno de um corpo próprio. Loc. • Postulez à ce point. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir). nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. à cet effet. é uma das unidade de análise da semiótica..ubi. um desejo de fazer sentido. um agenciamento de enunciação. www. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. • Une fois établis deux graphiques. directement ou indirectement proportionnel. Sémiotique et littérature. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez.pt i i i i .labcom.

i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções. a partir delas produzidos. o corpo. 3. numa palavra. para falar como Fontanille ou Zilberberg. Numa palavra. nos discursos. A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder. pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. 1994. que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. os afectos. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva. do design à biologia. de uma semiótica que esclareça em que condições.ubi. que é antes de mais. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo. que aquém e além envolvem o corpo próprio. Aarhus University Press. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas.labcom. desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. poder semiótico: poder de fazer sentido. p.“eu” (identidade). sob que forma. hic et nunc . a partir da análise dos agenciamentos. Dynamiques du sens. as situações da produção. as sensações. www. torna-lo objecto. para falar como Jakobson ou Deleuze.pt i i i i . os regimes de produção. 40 Per Aage Brandt. “aqui” (espacialidade). capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida. da medicina às biotecnologias.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. a semiótica deve ser capaz de considerar.

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Idem, Ibidem.

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José Bártolo

Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa. 3 Cf. Eco. O signo necessário vai do universal ao particular e pode. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια). regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência.i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. Tal conversibilidade. 1 – 1357 b. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a.40. Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular. no sentido de “prova”. servir de premissa a um silogismo. p. De certa forma. Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 . 35. www. como facilmente se entende. τ εκηµριoν . neste sentido. a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo.pt i i i i .labcom.ubi.

41. facto físico. Os incorporais não são coisas. muito mais tarde.ubi. “conteúdo” e “referente”. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização. para os estóicos. como são incorporais as acções e os eventos.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. de antecipar o que. Eco. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem. Eco. Não é ideia. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. como era para os seus antecessores. modos de ser. “expressão”. no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. então tem febre”. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. não só aprofundam a múltipla articulação. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. Quanto à linguagem verbal distinguem. numa palavra. uma maneira de ver as coisas. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que. São incorporais. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. Como esclarece Eco. o lugar. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes.labcom. p. afinal. muito da semiótica peirceana. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. www. Cf. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. com clareza. não é som articulado. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. Trata-se. ainda.4 Da expressão. são estados de coisas. admitir. por exemplo. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”. O λεκτ oν completo é a proposição.pt i i i i . São incorporais o vazio. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf. a conclusão é apenas provável.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos. 42. afinal. p. Quanto ao conteúdo ele não é. uma imagem mental ou ideia.

Ou pode ser indicativo e. portanto categorias da expressão. Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso). mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma. é um incorporal. Assim. A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre. Os signos só se formam www. mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística. os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem. exemplo maior do Lekton incompleto. suspeitar de que os acontecimentos. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso. Devemos.pt i i i i . . Neste sentido o sujeito. sejam incorporais. remete para algo que não é evidente. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). portanto.labcom.ubi. nem aquele fumo e aquele fogo. De facto. porém. na semiótica estóica. Parecem categorias gramaticais e lexicais. Une-se. então. Por conseguinte o conteúdo estóico. já estados transitórios dos corpos. que deve haver fogo. O signo não concerne aquela febre e aquela doença. porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. como.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime. . deste modo. mas são categorias do conteúdo. um incorporal. por exemplo. empiricamente. ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). O signo é tipo não ocorrência. aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev.

o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce.ubi. denotação (Russel) ou extensão (Carnap). com a definição peirciana do signo. outros apelidam de referente (Ogden-Richards). Mas.i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem.. como a classificação de Lineu para a história natural. e o objecto a que ele se referia. A leitura definitiva aparece.labcom. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido.pt i i i i . outros designam de símbolo (Ogden-Richards). igualmente. p. uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). Cinema 1. o seu objecto. i. Imagem-Movimento. um pouco. denotatum (Morris). a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia. Gilles Deleuze. o que uns apelidam de objecto (Peirce). e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). 2004. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos. Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. ou referência (OgdenRichards). a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química. tradução portuguesa de Rafael Godinho. A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo. A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos.6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity). o pragma. ainda. são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. intensão (Carnap). talvez. Lisboa. A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. 6 www. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações.9. Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon).e. O signo está em vez de alguma coisa. cf. interpretante (Peirce). mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara. Assírio & Alvim. expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens). Ele direcciona-se para alguém.

no sentido de historicamente mais implantada. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes.. nesta perspectiva. este produz numa quase-mente um objecto imediato. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos). Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome. De facto. E cada um desses interpretantes. e por aí adiante ad infinitum”8 . 7 www. tanto se podem apresentar como sinal.i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 . O corpo é na tradição maior. através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação. num certo sentido. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. da semiótica – a semeiologia – um signo. É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria.pt i i i i . 2. permanecendo o Objecto Dinâmico. como signo ou como índice. Pierce. Se recorrermos à classificação de C. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem. ad infinitum. do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo.labcom. 1931-66. 2. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes. voltamos ao Objecto Dinâmico. Harvard University Press. por sua vez. sempre pairante. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. senão precisamente por meio da semióse.303.228. Collected Papers os Charles Sanders Pierce. Os modos de “ser” do corpo. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial. S. da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto. 8 Idem. Cambridge. sempre presente e jamais captável. Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial.ubi. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. a um tempo linguística e cognitiva. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo. Mass.

e quaisquer que sejam as articulações. de qualquer destas interpretações. podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. assente na natureza arbitrária (sinais. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. de um comprometimento. signos) ou analógica (símbolos. “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente. assim. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. Por outro lado. simultaneamente. No entanto. de uma condição. poderíamos retirar algumas conclusões. torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. pelo facto da existência de uma relação semiótica. de um classe. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. O século XVIII europeu. remete para o signo “chuva”. mais profundo. por exemplo. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial. o corpo seria entendido como um signo natural. não deixando de ser uma referência. por outro lado. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso. Lotman. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. como observou F. situado ao mesmo nível do primeiro. tão bem desenvolvida por J. índices) da relação entre o significante e o significado. que justamente valorizou a noção de signo natural. Na perspectiva histórica da semiótica. da escarificação.ubi. da realidade natural. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. se “nuvem” remete para “chuva”. do adorno. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. os sinais e os símbolos de uma linhagem. possuem realmente o estatuto de signos.pt i i i i .labcom. essa relação remete para outro signo. é claro que o corpo é. Rastier. A partir desta interpretação.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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). sujeito realizado. O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto. objecto www. A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. de algum modo. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber.labcom. sujeito actualizado. De resto. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza.pt i i i i . . Pode-se dizer. Interpretação e significação são acontecimentos. (. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. Ora. actualizando-a. relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual.ubi. A interpretação ratifica a significação. politicamente. quer como “narrador”. Mas. Assim. que a conjunção com o sujeito o realiza. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. um outro significou e interpretou o nosso corpo. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. continuando. Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. tem uma natureza produtiva. socialmente. realizando assim o seu projecto. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”. que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. quer à significação. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor. de o produzir linguisticamente. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. . a interpretação dá-se sob condições que. já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação.

na semiótica de Fontanille.pt i i i i . na sua abertura sensível. 173. “ As aquisições e os projectos”. Courtés.labcom. É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille. objecto realizado. “ EGO AFFECTUS SUM. a acção. que toma posição no mundo do sentido. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível. Por isso. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. por exemplo. uma intersemiótica do corpo.”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. Para falar como Greimas. J. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. 16 José Augusto Mourão. uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina. em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. pretextos para o lançamento de novos percursos. p. Corpo. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. IN J. que define graças a esta posição. Relógio d’Água. a vida. 1979. torna-se possível. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. servindo-nos. de resto. Técnica e Subjectividades. legitimar. paixão. pp. Greimas. o corpo. à emoção. às paixões”16 . Sujeito. de empreender a análise das “micro-estruturas”. O último Greimas parece. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais. Livraria Almedina. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação. RCL no 33. afirmar que.ubi.i i i i 70 José Bártolo actualizado. Pensando na evolução recente da semiótica. o afecto. 27-28. Coimbra. 15 www. 2003. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer). discurso”.

iv) a formação de um sistema de valores. NAS. como o corpo e com o sujeito. em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo. no 61-62-63. 1999. RCL no 29. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. ainda que. Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a.pt i i i i .ubi. em favor da dinâmica das linguagens. O Campo da Semiótica. como produtora do corpo e do sujeito-objecto. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis. “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”.labcom. Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. 19 Jacques Fontanille. de efeitos actancias. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. modais e axiológicos. 30. p. p. ii) a escolha dum ponto de vista (fito). “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. mas considerando-a. Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. sede de percepções e de emoções. 214. p.17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. 1998. o mundo exterior e o Mendo interior. de algum modo. corpo-em-vida do sujeito. 18 17 www. 20 Jacques Fontanille. Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais. Lisboa. também. PULIM. Limoges.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica. Relógio d’Água.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). o sentido. por vezes. 2001. É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem. ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis. p. Herman Parret. está no choque dos corpos: corpo do mundo. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. Tais Idem. 175-176. considerando que a sensação e. abandonando a perspectiva do signo. 266.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima. Sémiotique du discours.18 Na sua Sémiotique du discours. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão).

para falar como Greimas. de uma máquina semiótica. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico). Estas considerações ajudar-nos-ão. Faz notar que. quer as teses seguintes onde. sob regras específicas. essa frase. apenas. representações www. apresentado por Julia Kristeva. Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico. uma dupla actualidade. cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. como é. na medida em que são. qualquer que seja a forma pela qual se apresente. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. estamos em crer. depois dele. para Brandt. Quando uma determinada frase.i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. A relação. sejam distinguidos por uma diferença. por exemplo. contribuindo para a sobredeterminação. esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo.ubi. é necessário que tenham algo em comum a fim de que. era-o. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”).pt i i i i . também. de resto. por exemplo. Greimas.labcom. não apenas. não há corpo que não seja expressão. já o dissemos. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. que não pode ser plenamente compreendido considerando. a maior parte das vezes. que “a expressão somática é sempre enunciação”. de um modo muito claro. ele identificado com uma máquina semiótica. Ao discutir o problema da relação. da respectiva máquina semiótica. sê-lo-à para Greimas como. para falar como Althusser. também. o design é. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. para Lévi-Strauss. José Augusto Mourão afirma. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev. não há corpo que não resulte do funcionamento. sobre essa base de semelhança ou de identidade. activos mas também retroactivos. na medida em que não há corpo que não seja construção. enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. é-o sem dúvida.

quer para regressarmos à análise do processo de significação. www. quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. Au commencement était l’amour. como se verá. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos.labcom. Psychanalyse et fois. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. Pág. da semiótica das paixões fontanilleanas. 21 Julia Kristeva. Hachette.pt i i i i . territorializando o excesso semiótico. também. Paris. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema.i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico).monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. evidente. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é.ubi. 1985. por exemplo. considerando. por vezes. que não encontra estabilidade na definição normativa . 15.21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos. partindo. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”. a importância das produções normativas.

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Lisboa. 75 i i i i .. mas carece. portanto. é efectuada.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo. Metamorfoses do corpo. para esse que o pensa. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. Pág. isto é. 1965. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . Harvard University Press. Mass. para ganhar autêntica fertilidade. §536. tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. e cujo Ser depende. o estuda ou o opera. significável. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. por inteiro. poder-se-ia recorrer à distinção. Cambridge. o corpo é. de uma dilucidação particular do fundamento da significação. não sendo o próprio corpo. “o objecto como o próprio signo o representa. 1997. objecto imediato. por outro lado. a par de muitas outras possíveis. Relógio d’Água. O Objecto possível é. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. o consequente de uma significação particular que. 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. a partir do pensamento de Lévi Strauss. 16 e segs. De cada vez que se pensa o corpo. Vol. se estuda o corpo. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). pois.”1 . se age sobre o corpo. O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante. IV. da Representação que dele no signo é dada. se opera o corpo. 2 José Gil. Ed.

34.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”. a olhar para a minha mão esquerda. enquanto significação do signo. 4 3 www.”. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo. 1979. da estrutura da epiderme. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”. 1980). com uma notável clareza.ubi. se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação).ma Eco. na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”.pt i i i i . Lector in Fabula. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas. daria lugar. a um objecto imediato. constitui-se um objecto imediato. que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias).labcom. que corresponde à minha mão esquerda. então. por exemplo. do interior da mão etc. A. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia. tal como Peirce o define. Milano. O objecto imediato assim constituído. e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. de cada vez. dando lugar a uma proposição particular.i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. dos ossos da mão. Umberto Eco explica. como defende Eco3 . Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. 75-91. p. como lhe cha. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. In Langages. no desenvolvimento da análise. pp. sentado em frente ao computador. Valentino Bompiani. onde eu estou. O fundamento. “mão esquerda”. 58 (Juin. torna-se compreensível que. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”.

Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo. o devir-outro é um movimento de intensidade.labcom. sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições. 5 6 Confirme-se em Charles Peirce. §230 www. e falar acerca dele. as fronteiras. persegue-o tensionalmente. por outro lado. Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica.pt i i i i . ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante. ainda. os conceitos. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. as proposições e os argumentos. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. criará um signo ainda mais amplo. Cit. de original.ubi. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 . o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc. os conceitos. tem a ver com as definições. e visto que a explanação será um signo. §231. 2. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica. “qualquer signo só pode representar o objecto.”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. como lembra Peirce. Op. este devir-outro nunca desemboca num outro. tomada juntamente com o signo já ampliado.i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e. da análise. que não as do corpo.operam o devir-outro do corpo. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia. abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo . devemos. a qual. os argumentos . Vol..as definições. de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. admitir. Idem.

por exemplo. seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio. Op. Este processo de intensificação corresponde. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo. sem que a posse plena se dê. de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva. Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. precisamente. a um deitar-se diante de algo. como sublinha Peirce. Cit. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 . processo em processo aliás. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro. os argumentos que. p.”7 . Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. Umberto Eco. desejando dele se apossar. p. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico. Independente do signo.pt i i i i .. Langages. 58 (Juin 1980). Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo.labcom. Cit. o objecto dinâmico.13. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia. 47. a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro. terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 . Op. VIII. “La Séméiotique de Charles S. do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. Confirme-se em David Savan.ubi. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. 9 Confirme-se em Charles Peirce. Peirce”.. Vol. in the long run. §§12 e 13 8 7 www. Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área.i i i i 78 José Bártolo os conceitos.

o meu corpo não é a minha estrutura de ADN. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue. como aquilo. Ibidem.pt i i i i . p. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas. 1992. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. neles se não revela. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. “Dancing Bodies”. o objecto dinâmico.) Incorporations. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. em si anterior. são expressões do meu corpo. assim. O corpo. próximo da imagem pairante kantiana. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. mas ele é outra coisa. A expressão é usada no artigo de Susan Foster. mas. objectos imediatos.ubi.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias. essa dor. autenticamente. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. Urzone. verdadeiramente não está presente nos corpos. objecto dinâmico. igualmente. New York. mas esse gesto. é evocado por estes. no sentido em que não significa isto ou aquilo. original. mas isto. ele é a condição de possibilidade da presença destes. a qualquer significação. de facto. Mais. 11 Idem. eles não são menos do que o corpo por inteiro. eles são outra coisa. 480-495. nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. como acredita. O corpo/objecto dinâmico está. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce).labcom. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. O meu corpo não é isto nem aquilo. ele é um quase-signo. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). de discursos e de diversas práticas”. enquanto. dir-se-ia de ser. B) Fica. 10 www.

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a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. apenas. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. e o dizível. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. como Pierce. pelo processo anatómico. que das substâncias simples não pode haver logos. como o faziam os antigos. objecto dinâmico e objecto imediato. mas apenas nome. ser capaz de saber distinguir.i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. pelo contrário. ser capaz de saber. Que o corpo seja onoma e logos. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. no sentido peirceano. que o indizível é o dinâmico. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem. 81 i i i i . seja através de um discurso instrumental (bisturis. como o soube toda uma tradição que. ser capaz de saber distinguir. pelo menos desde Antístenes. pinças. por uma divisão que jamais será ultrapassada. de anatomizar. se vai fazendo. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. neste aspecto. mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. é o imediato. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). aproxima Platão e os místicos. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção.

o teclado e o ecrã do computador. enfim. p. semio-lógico. O corpo que abraçamos. Jean-Luc Nancy. é um corpo integrado no plano do discurso.i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. tocar. o corpo que estudamos. Lisboa. o corpo que adoece. . o pensamento não para no limiar do nome. bordas visíveis (a caneta. Há bordas do corpo e bordas da escrita. . 11. e na borda e de um de outro. o corpo que vemos envelhecer. 1 www. Corpus. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. Nos pontos de tangencia. tocar o corpo. 2000. nos contactos. a folha. a própria linguagem nolo permite. Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. tradução portuguesa de Tomás Maia. mas o corpo. simultaneamente. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis. eles não param de se tocar. um cabelo caído sobre o branco do papel e. há algo que vai permanecendo sempre. Ibidem. no nome ele persegue a ideia. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. mas o próprio corpo. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. não a corporeidade.pt i i i i . entre a escrita e o corpo.labcom. nas deslocações. Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos. Colecção Passagens. as cifras do corpo. que pretendia escrever não acerca do corpo. “Como tocar então no corpo. O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. ). distraidamente. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. para sempre. e como nela se vão constituindo corporeidades e. Não os signos. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. as unhas. Vega. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém. intitulado Corpus1 .está sempre a acontecer na escrita”2 . nas intersecções. Escrever é tocar a extremidade. mas ainda o corpo. as imagens. um corpo lógico. 2 Idem.ubi. pensa Nancy. os dedos. o corpo exige escrita.

revolta-se excrevendo-se.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca. desvios do discurso em si próprio. ele não se escreve sem revolta. reviravoltas. aquém e além dela. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco. para foras das veias por onde corre. um calhau.ubi. É preciso atravessar este “sujeito”. nem mesmo sem inconsequências. poder-se derramar. na relação entre corpo e linguagem. ou derramar o seu sentido. Lisboa. aqui. nem é uma função operatória. a ver com o que não cabe na linguagem. 1995. contradições. fluindo nos bordos. na relação. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. como sangue com demasiada vida que parece. O excesso não tem. um tronco. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”). INCM. como pensa Nancy. então. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. ou escrever “o” corpo sem rupturas. nos bordos. ao contrário é o fim dessa idealidade. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos. o plano da significação. na possibilidade da escrita. e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. mas unicamente cum rebus. este tronco ou este bocado de osso. Série Universitária. nem in re. suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio. quase derramando para fora deles.pt i i i i . diz Nancy. A palavra a mais em qualquer linguagem. O Pensamento Morfológico de Goethe. o fim do sentido. escrita e por escrever.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. esta concha – são apenas manifestações da ideia. no sentido da escrita. e que o expõe como Ibidem. nem post res. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego. como um bocado de osso. a palavra que sempre se excreve. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas. A ideia é. a qualquer momento.labcom. estando no acto de escrever. 4 3 www. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. a sua fertilidade. nervosa.4 Uma vez mais. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar. p. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. do corpo com a linguagem. o seu excesso. descontinuidades (discrição). Perante esta concha. o corpo é a ideia. apenas. 21.

que melhor conhecemos.i i i i 84 José Bártolo tal. das “significações” e das “interpretações”. Maio de 2001. O sentido dá-se. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. p. não pode ser senão intersemiótica. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . o calhau que designamos por “aquele corpo”. Porém. Não só o corpo mas também o mundo. em semiótica. de outras vezes. Não há sentido sem corpo a corpo. 215. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”.ubi. quando se estuda o corpo. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem. no interface. nas junções. O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”. vivemos o corpo de dentro para fora. Op. o corpo do velho e o corpo do doente. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. p. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy. 7 Idem. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. É sem duvida verdade. Cit.7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. em que dentro e fora. 25. corpo e linguagem. nas dobras. mais do que nós o designamos a ele.labcom. p. é o objecto que nos designa. O corpo é um estranho objecto de estudo. constituem-se intersubjectivamente. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo. Herman Paret. No 29. como o anota Eric Landowski. Relógio d’àgua. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. 215. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar. nas uniões.pt i i i i . mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. são sentidos.5 O corpo expõe existência sobre os corpos.. corpo e mundo. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido. para ser adequada. nas intersecções. tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar. para usar expressões de Parret. 6 5 www. 2001. designamos por semiosis. na borda. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que. nas bordas. no face a face entre o dentro e o fora. e num certo sentido. que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. Revista de Comunicação e Linguagens. Lisboa. Habitualmente.

.enunciação. 1982. “Fronteiras do corpo: Fazer signo. porque não se trata tanto de um problema de conhecimento.”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. Alice’s adventures in Wonderland. 8 www. 2001. o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin. o que o método pretende alcançar.que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo. Relógio d’àgua. No 29.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. finalmente.como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério .109. naturalmente.pt i i i i . Lisboa. seria alcançar um ponto de partida real. em relação a este corpo objectivado. quando se estuda o corpo não há um objecto determinado .quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá. afinal. Os Três problemas .podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. and go on till you come to the end: then you stop. Seguir-se-ia. Maio de 2001. aliás. Ou seja. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll. p.271286. mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto. o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível. Chanceler Press. um problema de orientação . Revista de Comunicação e Linguagens. então. the King said. distanciação e orientação . A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura .de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto .i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 .ubi. que é.labcom.um saber o que se quer saber . Trata-se de saber. pp. he asked. London. A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski. fazer sentido”. onde parar. a um tempo. please your Majesty?. onde começar. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. sujeito que analisa e objecto de análise – e é. Begin at the beginning. mas de um problema de enunciação .é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação . condição da sua objectivação. isto é. O “ideal”. processo este que é. por onde seguir. 9 Lewis Carroll. very Gravely.

ou que uma noite é uma noite. isto é.a objectivação . Herbert Simon o define. Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”. esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. preenchendo. concretizando.e isola-se num enquadramento artificial .tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera. a ideia de corpo. Arménio Amado. As Ciências do Artificial. Lisboa. que se não dá nunca.do corpo da criança.do plano da vida . do corpo do doente . 10 www.ubi. cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano. a transferência cientifica . retira-se o corpo do seu enquadramento natural . Pelo contrário. cada radiografia.permite exteriorizar. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 .25-28. englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso.labcom. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela. cada análise médica . Simon. é essa a sua organicidade. a sua ideia gerativa. por exemplo.enquanto forma contém a sua ideia. cada fotografia. um typus. Por outras palavras. pp. porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas. Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. Isto é. um determinado agenciamento discursivo. não induzida da totalidade de representações afins.do plano da vida para o plano de estudo . do corpo da mulher. movimento para um original.cada desenho.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl. esse halo que torna cada representação do corpo incomparável. a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo.pt i i i i . identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade.não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. 1981. isto é. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada. Cada representação do corpo . Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo . mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida. deixa aparecer. A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . a artificialização é parte do processo de validação. sobre esta ultima definição veja-se H.

i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste.ubi. www.labcom. potência e acto. ao mesmo tempo. como todos os seres que nascem.pt i i i i . porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa. leva a cabo a sua própria possibilidade.

ubi. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza. disposição e funcionamento. O corpo é um desses territórios ambíguos. ou por um qualquer inex- www.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis. De Montméja (1868). de A. que melhor conhecemos. Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade.labcom. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto. Dardy e A. e num certo sentido.pt i i i i . estranhos e íntimos ao mesmo tempo.

Maio de 2001. O obstáculo. de um embaraço. parece.”11 . vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. “objecto”. o estar deitado diante de algo. concretamente a Ob-jaceo. precisamente.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez. contudo. “expor” (a um perigo). A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . “impedimento”. “Fronteiras do corpo. em relação ao seu significado. e ainda. Relógio D’Água. Cf. O corpo. “interpor”. próximos. no 29. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão. Obstaculum significa. num certo sentido um pressupõe o outro. A questão central está precisamente. enquanto objecto de estudo. 13 Confirme-se em Maria Augusta Babo.”13 . Fazer signo. no entanto. mais correctamente. 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. 255. Cit.labcom. “Para Uma semiótica do Corpo”. pelo simples facto que ele é nós próprios).).ubi. obstáculo na medida em que é objecto. O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram. porventura. a ser estudado (ou a ser operado. Op. pois. investigado. Ao tomar-se algo como objecto. por seu lado.pt i i i i . “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que. o aproximarse de algo. marca de uma limitação. p. Op. “embaraço”3 .255.. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. “fincar”. está ligado a uma inacção. Revista de Comunicação e Linguagens. ele sempre acolheu. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. Cit. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e. mais do que objecto”. O Campo da Semiótica. por sua vez. mais estreitamente.. em suma. “cravar”. p. IN Ma Augusta Babo e J. a base da sua elaboração”. ou. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. na linguística. de uma falha. por um lado. Augusto Mourão. manipulado. p. Objecto significa “pôr diante”. 11 www. está ligado a uma acção. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. 2001. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. de facto. “obstáculo. Lisboa. o cravar as mãos em algo. O corpo é. mas. assim. Fazer sentido”.

assim. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 . “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. uma série de estudos.ubi. De facto. a Ellen interessa.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que. como se sabe. a partir da segunda metade dos anos 8015 . por exemplo. os significados linguísticos do corpo. Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado. desenvolvidos. por nesse alargamento. 16 Confirme-se em Roy Ellen. p. 1977. London. Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. quase exclusivamente. 1985. Academic Press. Op. As limitações do estudo de Ellen podem.i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. num outro sentido. 14 www. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais. O que Ellen desenvolve pode ser classificado.. Paris. pp. tomar o corpo como objecto de análise. diríamos de base antropológica. The Antropology of the Body. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de. algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world. em particular. IN Encyclopaedia Universalis. Cit. mais do que de semiótica do corpo. à falta de melhor definição. sintomaticamente relevante se se quiser.). por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo. New York & San Francisco. numa antecipação que não é apenas intuitiva. IN John Blacking (Ed. essencialmente.343-373. de semântica do corpo. antecipando assim. 344.pt i i i i .”16 . ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo. Ellen antecipa. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen.labcom. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível. deixar perceber. mas não deixa de ser relevante.

antes ganha expressão ou significação. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. Recherches Sociologies. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística. semântica e pragmática). no entanto. plenamente rigorosa. que fazer do corpo um signo é. Eric Landowski faz notar. no que diz respeito ao corpo. a um tempo. Marin. e de l’indice. 21 Landowski. 18 Cf. du symbole. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais. lugar de encontro. torna-se evidente que o corpo é.pt i i i i . signos) ou analógica (símbolos.“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”.labcom. A afirmação não é. Cit. demos já a entender um certo corpo através da linguagem. 1998/1. também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse. indíces) da relação entre significante e significado. p. Cit. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. il peut jouer tout à la fois du signal. não só o corpo não ganha corpo. com pertinência. pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. instrumento e espaço de comunicação e significação.ubi. não somos capazes de conhecer. por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . Em Jean-Michel Berthelot.18 Num outro quadrante. Ibidem. Em L. encontramos Jean-Michel Berthelot.”20 De facto.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra. se recuperamos a classificação de Benveniste. 17 www. como a linguagem não ganha corpo. Certo é.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu. como nos mostra Berthelot. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena. Op. contudo. e no entanto. espaço de fronteira. du signe. 9. na sua elaboração. op. 19 Cf. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. 20 Idem.

Estamos na presença de dois campos semióticos distintos.i i i i 92 José Bártolo corpus. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. formas de significação não-verbal que. importante. Há modos de ser no corpo. pp. seguramente. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo. estando tuberculoso. por exemplo. 2000.labcom. admitimos que o corpo e. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”.ubi. um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar. então. De facto. reciprocamente. em “linguagem corporal”. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. IN Invigilatata Lucernis. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. signos. falamos. Assim. em “fôlego” da escrita e. ao mesmo tempo. estrutura. 22. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade. 22 www.pt i i i i . 7-12. De qualquer modo. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. os gestos “falam por si” e. mas igualmente. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. quer a linguagem. As figuras designam como que a zona de troca. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. em particular. sem o notar. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. do mesmo modo. analogias – é. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo. “Non Corpus. um aspecto. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e.

É. o actual rumo da disciplina. sem qualquer laço de linguagem”23 . Não há. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”. explicita ou implicitamente. actualiza e redeCf. p.pt i i i i .labcom. a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo. da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal. e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). autenticamente. O laço que une a linguagem ao corpo é. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”.59. “ O corpo. justamente. mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria. José Gil. Ricoeur ou Fabbri. não rasga. antes desenvolve. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. porventura.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. há. sendo que a sociossemiótica não rompe. 23 www. Revista de Comunicação e Linguagens.ubi. tal rumo parecenos. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos. constitutivo de ambos e actual em ambos. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade. Greimas. claramente. sem mais. mesmo que em traços gerais. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas). a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. quer dizer. a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. reduzir. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. excessivo. Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro. de resto. digamo-lo assim. um organismo sem expressão nem fala. no 10/11. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 .

nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit.ubi.115. et l’ hydrogène la signification. Fabbri. p. Landowski ou Marsciani . sema/soma. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe. Parret. Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. corpo-semântico e corpo-carne.labcom. Saussure. mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos. c’est l’séme. b) Ancoradouro deíctico. e o da tradição peirceana. mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. le suivre comme un ballon dans les airs. www.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose. o da semântica interpretativa de Rastier.pt i i i i . Il est tout pour l’aérostier. por Fontanille. et l’enveloppe le sôme.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. Geninasca. não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo. Écrits de Linguistique générale. entre outros. O corpo.”25 . sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri. pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais. avec certitude de le rattraper. sans que le ballon soit rien pour sa part. Mourão. Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. de même que le séme est tout pour le linguiste. o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. traduzido pela figura do balão. Na semiótica da última geração – representada. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana. nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. Le ballon. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica.

d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade. Gennaio. dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. Rivista www. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido. a agitação proprioceptiva. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida. revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (. que se estende a fenómenos como a tensão. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. ).i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico. c) Uma revisão geral do processo generativo. reservando espaço ao acidente e às paixões. se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto. 26 IN E|C.pt i i i i . pressuposicional.1. b)Uma revisão da sintaxe narrativa que. attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa. p. un percorsso generativo dell’espressione.ubi. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural. in secondo luogho perché si dipana. o devir. “Figure del corpo di Jacques Fontanille”. . Pierluigi Basso. il quale rimarrebbe in memoria nei testi. dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade. .”26 .labcom. 2005. e) A semiótica do contínuo.

pese as denominações diferentes.i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum.pt i i i i .labcom. já o dissemos. textos e corpos. de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski). leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos.ubi. A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva. Podemos tentar esquematizá-lo: www.neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto. de fazer análises semióticas dos discursos. é. devires. o discurso – verbal e não-verbal . representa antes uma actualização da semiótica discursiva. uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). uma intersemiótica (no sentido de Parret). tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos). a partir dos mesmos instrumentos. O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. acções e paixões são objectos de análise possível. de analisar regimes de signos. imagens e gestos. o objecto de análise da semiótica. antes de mais.

New York. .labcom. a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. Universals in linguistic theory. 34. Harms (Orgs. 29 M. em oposição a estas duas perspectivas. da Escola de Paris. e no entanto.ubi. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). Semântica. o que significa. “captar ao menos dois termos-objectos. 1974. J. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. 28 27 www. se se preferir. A. Como identificar. ou seja a intentio auctoris.pt i i i i . pelo menos ao nível da frase. a semiótica de Greimas e. T. então. 132-33. Bach e R. Halliday. K.). como mostrou Umberto Eco. IN Langages. Greimas. IN E. Holt. . na definição dada pela Semântica Estrutural. 1968. . Reinehart & Winston. a semiótica dos autores da “Langages” ou. a interpretação tem por finalidade. Pág. “The case for case”. Para o ponto de vista hermenêutico. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. “Le base fonctionnelle du langage”. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 . Fillmore. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”.29 Como é sabido. corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. devedor de Propp e Lévi-Strauss. Ch. de um modo mais geral.

As bases dessa reformulação. Malinowski ou Nobert Wiener). ou seja de programas narrativos. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer). em particular. o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. Na semiótica greimasiana. o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson. mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. como já fizemos notar. do sujeito e do objecto. consequentemente. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. o modo potencial. encontram-se na definição lógico-matemática da função. e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. o dever-fazer. a partir daí.pt i i i i . A estes três estados.labcom. Com a competência modal e. que transformam a relação do sujeito com o quer.i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e.ubi. com a modalização do fazer. de Benveniste. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções. o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. em Hjelmslev. Greimas e Fontanille. na Semiótica das Paixões. a junção e a transformação. as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. o poder-fazer e o saber-fazer. passo decisivo. estamos em crer. da função em enunciado. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. pela transformação de estado). O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção. como uma www. como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram. Define-se.fazer. acrescentaram um quarto modo de existência. entre estrutura e função. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural).

Paris. o diz verdadeiro. seguiu-se a modalização do ser. substituindo-se. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. 1993. melhor. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. Seuil. a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. Sémiotique des passions. Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. No primeiro caso. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. 31 A. pelo dever. modalização do objecto. Des états des choses aux états d’âme. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos. No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. diferenciam-se dois tipos de modalização. para o encontro com o sentido. II. “De la modalisation de l’être ”. 9. 1979. determinam-se diferentes tipos de narrativas.labcom. intencionaliza-se. no objecto e repercute no sujeito de estado.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer. pp.30 À modalização do fazer. A. No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 . quanto ao local de incidência: modalização do enunciado.ubi. c) Como na modalização do ser. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos.pt i i i i . deste modo. a partir daí. Greimas. que recai sobre o predicado. Greimas e J. que não o modalizado. que determina o objecto (ou. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer). 30 www. 52-55. J. como dissemos. Por isso mesmo. ao ser investido de valor. Fontanille. relacionando-se com o sujeito. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas. J.

uma semiótica centrada. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. a semiótica foi. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. www. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção.labcom. “medo”. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. Por outras palavras. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. Distinguem-se paixões simples. resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto. gradualmente. Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica. na instância do discurso. “angústia” ou “ambição”. colocada lá atrás. por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica. de paixões complexas. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. sobretudo. assim. darmos resposta à pergunta. Numa segunda etapa. as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado.i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. em que várias organizações de modalidades constituem. Abre-se. já no domínio das paixões. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. essencialmente.pt i i i i . Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. assim.ubi. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. é possível reconhecê-los como “amor”. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser.

c) Finalmente. também. intersubjectiva mas. o que significa.pt i i i i . por outras palavras. c) Os simulacros modais e passionais. A semiótica dos humores. passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. os simulacros modais e passionais.ubi. O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção. não só. a semiótica passa a considerar.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação. contagiosa.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável.ricas. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto. A significação surge-nos como um processo. o corpo-a-corpo original. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó. em relação ao sujeito modal. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva). passional. a analisar. como diz Landowski. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. ela dá-se. www.labcom. de certa forma. bem entendido que toda a comunicação é. A precondição tensivo-fó. que podemos designar por devir. em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. patológico.

34 Na esteira da Semiótica das Paixões. A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença. Spoleto. la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. fim de remissão etc. No limite. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso. Como “motivo”. IN Protée.pt i i i i .. dans le processus humoristique. Morin. Cit. 100.”35 Mais longe ainda.. ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 . Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. 95. Quase sempre a doença é percebida negativamente. Greimas e J.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 . relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. vai Fontanille na sua semiótica da doença.. Sémiotique des passions.). anómala. a doença comporta uma outra dimensão figurativa.). “ Il discorso della salute”. permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise.. 32 www. 29 Ott. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (. “en ce sens que..) . uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos. Em todo o caso.ana. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. “La Malaise”. Seuil. e há sintomas de uma determinada perturbação. Pág. Paris. Vol. revelação tardia. o corpo-sem-orgãos que a manifesta. 30.ubi. Pág. 33 J. Fontanille. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba. No 3. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. dans l’idiolecte. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue. (3) les orientations axiologiques. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida..labcom. 34 A. a saúde. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. alerta. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso. Congresso AISS. isto é. Fontanille. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. Op. extraordinária. 2004. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. há sensações. Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille./01 Nov. 35 C. 1991. J..

é a de que a “éprouvé somatique”. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. qui donne lieu à des représentations. o corpo-monstruoso. Fontanille. incubação. apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado.ubi. o corpo-estranho. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo. 2. www. prestável enquanto instrumento integrável numa máquina. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo. funcional.i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. o corpo-marginal. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes.pt i i i i . mais il est l’expérience intime. o corpo são. compreendendo. uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J. aliás. enquanto que a manifestação “anormal”. O corpo normal é o corpo eficiente. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé. desligação ). a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. à des interprétations. bem como o conjunto das nossas experiências sensorias. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”.labcom. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. do ponto de vista figurativo. “La malaise”. é um estado. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal.”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo. mais cês informations ont une forme significante. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. é uma sequência narrativa. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur). por exemplo a saúde. De facto. Pág. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. que se compreende por relação com o corpo normal. o seu corpo normal. Ibidem. por exemplo a doença. fazem funcionar. como diz Fontanille. O corpo defeituoso deve ser reparado. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. a reparação normaliza o monstro. O corpo-doente. Idem.

ocorrendo. comme une absence d’événement. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir. la santé se manifeste et se donne à ressentir. por sua vez. uma perturbação provisória.ubi. desgaste. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. a saber o plano da existência e o plano da experiência.labcom. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique. e uma fase terminal (handicap. onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. morte). correspondendo a um processo “multi-polémico”39 . et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. Ibidem.i i i i 104 José Bártolo (infecção. Médico (corpo 38 39 Idem. entropia. um nível fenomenológico. ni même “symptomatique” ”. à la différence de la maladie. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. Ibidem. Jacques Fontanille afirma: “Certes.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”. 4. saturação). O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. como resultante de uma “tensão permanente”. comme un état stable et durable. 40 Idem. Pág. 3 Idem. e. le malaise. inflamação. où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. Pág. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. por assim dizer.pt i i i i . et le niveau dit du plan de l’expérience. este não é mais fenomenológico do que aquele. Do ponto de vista semiótico. Ibidem. a par destes dois níveis de “funcionamento”. a duração do estado normal.”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. et qu’une illusion d’absence de transformations. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. Trabalhando o par doença/saúde. devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. por outro lado. e a anormalidade um acidente. www. quando as defesas baixam. um estado de alma. um estado de coisas.

definir. Ibidem. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. e o corpopróprio. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. forças. ou. de certo modo.labcom. A existência de dois níveis narrativos: um. o anormal (o monstro. a partir de tensões de resistência. Pág. profundo e existencial. 2. Devemos considerar a existência de um corpo-actante. le “corps-actant” du plan de l’expérience. como um estado estável. Podemos. www. 5. a anomalia. em síntese. por embraiagem. le “corps-actant” du plan de l’existence. por outro lado.ubi. Idem. ataques e defesas em todas as direcções). normalizada. constituído por uma estrutura polémica multiforme. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de.pt i i i i . a resistência síncrona e controlada. mas que é possível controlar. e. noutras palavras. Ibidem. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. 3. “le statut de l’actant change radicalemnt. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. nesta perspectiva. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. como unidade coerente da experiência. outro. por um lado. como um acontecimento perturbador e destabilizador. superficial e experiencial. A reunião dos dois num só actante. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive). perceber: 1.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. que manifesta.”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos. estabilizar.

a ligação do que.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência. www. num corpo unificado. nunca esteve verdadeiramente separado.ubi.pt i i i i .labcom. afinal.

em certo sentido. já. formulando aquela que se tornará. sempre.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. de certo modo. como o anatomista. pouco a pouco. não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. olhar o corpo é. por excelência. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e.pt.triplov. notanbis rebus. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. a sua divisa. a fazer dele objectos”. tal como o anatomista. 1 107 i i i i . o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo. Ibidem. mas porque a visão é.2 A visão é um processo de enunciação. enunciá-lo. bem como a ideia. o semiólogo. A citação. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione. 2 Idem.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera. “Observa tio diuturna. para alguns institutos de anatomia. só conhece o que analisa e o processo de análise é. é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www.

e que propriosentida. sentida por de dentro. funcionamento orgânico. há. inevitavelmente. a um tempo. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. Poder. – e zona de ressonância interna/externa. www. p. 3 A expressão e a ideia são de José Gil. embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem.labcom. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. Espaço. antes. muito mais. a dor.ubi. Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo. circulação sanguínea etc. através da linguagem no presente real. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve.pt i i i i . um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo. corta-o. 1988. por exemplo. O corpo é. objectiva-a como coisa real tornando-a.122. disseca-o. um laço intersubjectivo que liga. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . descreve-o. a linguagem apresenta-a. comparável ao corte anatómico. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. Cf. em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. José Gil. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem. a dor que eu sinto do meu braço. aliás. Litoral. Lisboa. Fenómenos como o desejo. por exemplo. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. ao seu desmembramento – o corte linguístico é. passível de ser analisada por um médico. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. Corpo.i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real.

A representação não é. IN Nouv. É pacífico.labcom. intercorporeamente. uma forma da representação. pelo menos desde Greimas. ao operar Cf. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular. C. neste caso. e não apenas algo representado. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido. ser identificáveis”4 . O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. como diria José Gil. Esta interpretação não é estranha.. de lamelas. 1989. toco. espaço feito. Quando eu penso. Tal operação não é. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. pp 1-31. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente. ouço. Poder-se-ia. o “eu penso”. Zilberberg. A restrição da apresentação.. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. 4 www.pt i i i i . aqui evocar Merleau-Ponty. sob certas condições. É o corpo. um representado que exprime modos de representação. “Modalités et pensée modale ”. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. O corpo orgânico é. pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. Língua e infra-língua.ubi. exterior ao representado. relativamente ao corpo. No 3. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. pelo facto de se representar um corpo.i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado. o corpo e a linguagem devem. vejo. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. Actes Sémiot. significa. então. “eu vejo” etc. à semiótica. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador. desde logo. a partir do m’eu corpo. que se constitui. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior.

que o “sorriso comunica”. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. O corpo pode falar por ventríloquia. un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. 222. que temporaliza e espacializa. Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. et l’autre. ISPA. tornar comunicantes os seus sinais. Dizemos que o corpo fala. celui de l’expression. Cf. celui du contenu. Pág.). Não é. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. Estesis.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc. 1997. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. 1970. expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. um dos mais interessantes. Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”. 6 Jacques Fontanille. quase biológico. determinando as posições do Tu e do Ele5 . 7 Maria João Ceitil. (Eds. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. talvez.pt i i i i . Pôr o Corpo a Pensar. São Paulo. 5 www. a dizer a verdade ou a mentir. Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. Semiótica. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis. ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social.ubi. IN Eric Landowski et al. IN Langages. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor. Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits. E. por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. No Curso de Linguística Geral. Benveniste. No 17.”6 . comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne .labcom. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. “L’appareil formel de l’énonciation”. talvez não corresponda. Estética. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”. Educ/Uap. o que. Lisboa. 2003. associado à língua e ao seu uso social. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana.

aliás. quer no plano semântico quer pragmático. a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. em estruturas modais. eles correspondem ao percurso gerativo da significação. No entanto.ubi. permanentemente. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. aliás.pt i i i i . isto é. que fundamenta. do contágio. tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos. A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. que nos interessam aqui dilucidar. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível. a semiótica do contínuo e das tensões graduais. por outro lado. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. em termos de estruturas narrativas. a semiótica das situações e. buscar a Fontanille a definição. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura.labcom. www. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. e da estratégia. seguindo a proposta de Fontanille. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos. Se partirmos. mais do que a partir da perspectiva da antropologia. designar por uma semiótica cultural. por um lado. indo. pode falar na medida em que ele é feito falar. sendo as condições desse fazer.

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Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
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A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 . sem que entre um e outro hajam brechas. no plano da vida não há entre. “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”.que se dão umas na sequência das outras.pt i i i i . O corpo aparece. sem falha. de um modo não-natural. ou umas sobrepostas ás outras. por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. não pode ser limpa. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre. “agarro a caneta”. de tocante e de tangível. “escrevo no computador”. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. que caracteriza precisamente o próprio corpo. então. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. para o gesto dos dedos que agarram uma caneta. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta.i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. no corpo vivo. mas. mas é a própria análise quem estabelece. Gallimard.ubi. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”.num corpus . Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo. a imperfeição contínua. De facto. “ dirijo as mãos para o teclado”.labcom. “escrevo com a caneta”. fendas ou falhas de sentido. L’oeil et l’esprit. www. p. No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. 6 M. interrompeu-a. Paris. que retomam a tocar o teclado . há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. 1964. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior.sem fendas. mas que deixam escapar a continuidade. mistura de visível e de invisível. que escrevem uma frase. o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim. a sua realização terminará no inventário de posições . 13. também. Analisar parece pressupor. como algo simultaneamente expressivo e oculto. o seu sentido. as determinações e as fronteiras. A análise não só quebrou a acção. a própria vida. sob este ponto de vista. do eu e do outro. Merleau-Ponty. há uma ligação.

7 www. PUF. define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia).xe. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. De facto. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. sentido o frio.labcom. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. O próprio subtítulo da obra. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. de outro. Fontanille.101. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. Ora o corpo. p.i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. retenções ou disforia e. estamos a articular em descontinuidade e continuidade. Quando de um lado falamos em saliências. deste modo. Sémiotique des passions.pt i i i i . com o seu sentido de “transporte”. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica. escrita por Greimas e Fontanille. Greimas e J. à continuidade entendida como “paragem da paragem”. apresenta uma noção de corpo. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido.ubi. “dés états des choses aux états d’âme”. eu estou dentro dela. uma “paragem”. “passagem”. 1991.J. falamos em passâncias. “transitividade”. e impôs-lhe rupturas internas. entre estar dentro e estar diante. por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA. Paris. Zilberberg8 . respectivamente. 8 Cl. distensões ou euforia. por oposição. ou. sentido o seu cansaço. prefigura a tensão entre sujeito e objecto. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta. é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. isto é. por exemplo. Perceber pressupõe. Seuil. A noção de perceber. Este conceito. enquanto na acção. Raison et poétique du sens. próxima da Merleau-Ponty. Paris. Zilberberg. cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. A Semiótica das paixões7 . A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. na expressão de Cl. entre este estar dentro e este estar diante das coisas. em semiótica. Des états de choses aux états d’âme.

Ibidem. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação. 1992. Gallimard. “ Notas manuscritas de A. Do inteligível ao sensível. Pág.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” . eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 .. 231. Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir. Ibidem. 12 A.‘susceptible de’). 10 9 www. Merleau-Ponty. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent.pt i i i i . IN A. São Paulo. que nasce do corpo próprio. elas prolongam um acontecimento. Paris.”12 M.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos.ubi. 1995. Greimas”. Não há significação sem semiosis. o acontecer do sentido. “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. Phénoménologie de la perception. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui. Oliveira. 144. num caso como noutro. Greimas. 11 Idem. pois. J. Pág.. sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido. Idem. J. uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído. sentindo-as. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 . Educ. Só conhecemos aquilo que vivemos. Pág. 155. deviendra un pathème réalisé (et non plus.estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. C.labcom. dans ce contexte donné. isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo.

Pág. Rio de Janeiro. não está a falar de matérias estranhas ao semiótico. antes. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência. Tradução portuguesa de H. que me faz presente e a quem presentifico. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . Cit. de encontro.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. dos santos. Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada. Op. a “apreensão amorosa” em Geninasca. retomá-lo.15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida.labcom. simultaneamente. tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto.pt i i i i . vivêlo. assumi-lo. como diria Parret. nasce uma espécie de presente insustentável. 1988. Ibidem.ubi. 65. o presente barthesiano é o presente da enunciação. . reencontrar aí o sentido imanente. não pode restar nada mais do que uma enunciação. Barthes.. estou bloqueado entre dois tempos. 29. o tempo da referência e o tempo da alocução. por outro lado. . ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”. de presença. Ter a experiência do outro.”14 Se a relação com o outro gera angústia. o instante em que a presença se rasga. 14 Idem. (. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. para falar como Merleau-Ponty. presente como alocutório. Pág. não é recebê-lo passivamente mas. 15 M. Desta singular distorção. 16 Idem. inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. 299. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. em ausência por desse outro. Livraria Francisco Alves. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. Pág. situação com efeito extraordinária. isto é. 13 www.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. Ibidimem. o outro está ausente como referente. Ponty. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. no “intercorpo”. ) Sei então o que é o presente. Fragmentos de um discurso amoroso.

na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . Pág.”17 Por outras palavras. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille.. Pág.. 20 Merleau-Ponty. Instituto Piaget.. tempo oportuno. 2001. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida. A intencionalidade do corpo próprio. Semiótica.19 . aproxi. lo que.pt i i i i . e na perspectiva da semiótica o que. Vega.. Op. 21 Idem. 1996. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun.ma-se desta leitura ao trabalhar. Paixão e Discurso. “Sobre el contagio ”. 128. expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. fundamentalmente. em parte.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora. A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. uma pré-construção do encontro. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização. circunstancialmente. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”. 19 José Augusto Mourão. como de resto já vimos. Lisboa.. Cit. O encontro não identifica um “puro acidente” mas.21 Eric Landowski. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade. pero no armonía preestablecida.ubi. 117. Sujeito. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro. IN E. 278. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. Lisboa.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo. o conquistada. Landowski et al.labcom. 18 17 www. Pág. Ibidem. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo. antes. O instante do encontro é kairos.

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ou. Paris. Contudo o literal “factual” e o “representado”. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. Un régime de signes constitue une sémiotique. à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari.”1 Quer a forma de contéudo. isto é. A este respeito. dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. de resto. por outras palavras. quer a forma de expressão. Minuit. compreende-se a representação. au moins dans le cas où l’expression est linguistique. Pág. 123 i i i i . lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. reconhece-se a factualidade. reconhece-se a literalidade. Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet. Mille Plateaux. 1980. que actualiza. 140. compreende-se a figuração. As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. il y a toujours une forme de contenu.

”3 . uma operação de estabilização. corpo sensivel. de redução. não é linguistica. Conceitos como. por exemplo. a parte e o todo. Pág. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo). por reconstituição dos estados intermediários. Por outro lado. Se tomarmos como exemplo. carne e cadáver. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão. tornado transmissível. Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. por acidente. A sedução do real.”2 O semiólogo opera como o vampiro. corpo-em-vida. como objecto tornado compreensivel. de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo. 2 www. que decide do “regime de linguagem”. 1998. regularidades. são fixados por interdefinição. na perspectiva semiótica. Ibidem. a “intenção de dizer”. uma apropriação. 3 Idem.i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. intersubjectiva e. o interno e o externo. “Explicar” é. por exemplo). Vega. a que referimos o fenómeno. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade. aquilo e aquilo ( entre corpo. tornado acessível. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. então.labcom. Literatura e semiótica. a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. corpo-signo. quer o interior que vejo se. quer a pele que a reveste. É o discurso. já o dissemos evocando Umberto Eco. A compreensão é. soma. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos.pt i i i i . são necessários interlocutores. Lisboa. isto é. assim. mas discursiva. Se o discurso se torna diaforia pura. isto é.ubi. carne. não a linguagem. 45. Mas a linguagem também não existe em si. me cortar etc. nada de estável permitirá a leitura. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade. em segundo lugar. numa relação de superfície/profundidade. a geração.

A explicação tende. guiar o olhos. explicar é fazer compreender. Dupla semioticização. isto é. 45. tornar compreensivel. sempre. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras. o facto descrito anuncia-se.i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. a demonstração requisita esses olhar. Apud. tornar acessivel. é que o comentário “forja” a crítica e. assim. inteiramente. tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber. portanto. chegar a compreender sem se ter descrito. Não surpreende pois. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. a ter um valor normativo. Fontanille. Explicar é. não é possivel. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. www. por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. A demonstração exige autoridade. um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. e neste sentido. a figura do comentador e a figura do crítico. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro.pt i i i i . estabilizar um sentido que previamente se construiu.que. também. Cit. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. semioticizar o olhar. Envolve-se. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 .. Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. José Augusto Mourão. sem que contudo se esteja já a interpretar. irrompe dentro da explicação . Explicar significa demonstrar. que o comentário seja propedeutico à crítica. do saber e do fazer. Op. Pág. no entanto. intimamente. explicando-lhes o que vem e como devem ver.labcom. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. em detalhe. corelacionando explicação e compreensão. Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio.ubi. então. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. em rigor. Mas demonstrar é.

.ubi. como objecto. numa medida identica. Mas como coisa-no-mundo. Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente. é o objecto que. Sabemos que durante muito tempo. 48. Op. sobretudo a partir de Ricoeur. a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. Pág. mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. “este corpo extenso que. Mediações. 6 www. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”. a explicação é um agenciamento da descrição. 271José Augusto Mourão.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação. que toca o teclado etc. funda vários representamen possíveis. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil. que tem cinco dedos.”. Lisboa. propriamente. “My hand”. De facto.é esse o seu ideal. actualmente. isto é. o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. isto é por mim. podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras. O conceito da minha mão pode ser significado. Cit. que a vivo como minha. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”.”5 . 272. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. isto é. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica. ela pode ser enunciada. A explicação é. Como escreve R. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. 2001. tais como “a minha mão”. por assim dizer.pt i i i i . Págs.. a compreensão é um agenciamento da explicação. a partir das quais. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos. O que se visa é constituição de sínteses..labcom. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . aquela pela qual.. Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso.

) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. Em certo sentido quer a explicação. próxima da práxis. 436 e segs. sido fixada: Apel8 . Pág. IN Teorema. é o paralítico da parábola. 1-2. Apologie du logos. R. há sempre um resto. O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. de facto.labcom. K.. porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. de um determinado querer-poder. Ibidem. Editorial de la Universidad Complutense. Cf. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. 1968. quando formalizado. entre “compreender” e “explicar” tem. que vê. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição. Thom. mas que não pode progredir com segurança. nem nunca se compreende totalmente o objecto. é cego. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”. Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é. Por isso.”7 A relação. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. isto é. na esteira de Max Weber9 . quer a compreensão. Hachette.pt i i i i . Vol. na palavra de Benjamin. Págs. como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. 95-114. Veja-se. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. Thom lembra que “o pensamento puramente matemático. que não a oposição. têm a ver com um querer-poder. no contacto com o real. 10 R. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. 503.”. Tubigen.ubi.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. XV. 8 7 www. c’est comprendre mieux”. Pág. Madrid. O pensamento intuitivo. 71.. nunca se explica totalmente o objecto. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. dando-se sempre parcialmente na disposição. gradualmente. O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. 1985. Paris. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão. nomeadamente. quando Rorty propõe a abolição Idem. Otto Apel. Pág.10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. 9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão. 1990.

1996. porém. Essais d’herméneitique II.. O discurso é um acontecimento. par-delà sa fonction mimétique. no 2. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique. Págs. l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir. Idem. Seuil. Or. 98-110. Todo o discurso diz o mundo. 110. o que há são usos de um objecto. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana. “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”. dirais-je. IN Revue de théologie et de philosophie. um sistema.labcom.i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”. ou. Ricoeur. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático. exige como sua condição de possibilidade. Idem. 26 (1976). mais correctamente. Não haveria.. substituindo. uma morfologia. même appliquée à l’action. Para que o discurso se dê. Pág. senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí. demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre. seguindo a proposta de Rorty. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal.. 14 P.pt i i i i . o termo parole pelo termo discours13 .) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. il n’y a pas de discours (. igualmente. 13 12 www. Sans distance. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. 223- 224.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual.Du texte à l’action. Gisel. Para um horizonte semelhante nos remete. Ibidem.. mas é “o sentido da vida”. Paris. mais tout discours dit l’identité. como lhe 11 P.) Mais sans le monde. para que ele se torne facto. No desenvolvimento do projecto da PdA. Ibidem.ubi. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde.”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica. afirma Ricoeur.”12 . Págs. il n’y a pas de dire (.

em todos os casos. enquanto actualização.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação. dizer melhor. de não suspender inteiramente a conexão”. concretamente este pedaço de mármore). O que Ricoeur faz é. portanto no campo tensional. do ser-em-tempo. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. A PdA é uma intensidade. mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. entre “apropriação” e “distanciamento”. esta cerejeira. tal como o comentário ou a crítica são intensidades. de que toda a existência é expressão. O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência. isto é. que se constitui no acto discursivo. aqui e agora. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www. mostrar a tensão simbólica do discurso. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. dizer mais. Esta instance de discours. mas o movimento continuo de um a outro. ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. da àrvore ou do corpo. concretamente. a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore.pt i i i i . este corpo. da àrvore ou do corpo. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas. que podem existir por existir distância. O discurso exige “distância”. A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. como se o discurso apazigua-se o conflito. expressões de querer-poder. A distância aqui é o resto. o seu lugar enquanto principio do movimento . há naquilo que se enuncia. fundamentalmente. um mundo que se perde. do um/muito. o entrelaçamento.labcom. tensões. são.ubi. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer).

labcom. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro. un sens qui peut être compris.Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung].un événement qui paraît et disparaît.. 33-34. por outro. isto é. segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson. na qual. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). mais compris comme sens.pt i i i i . Neste contexto. Seria esta referência em segundo-grau que. por um lado.ubi. que a identidade da significação diz respeito ao discurso. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. Ricoeur. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo. Tout discours est produit comme événement. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso. mas representa o plano para o qual devimos. www. Herméneutique. Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [. nos daria conta da nossa própria situação no mundo. Ricoeur. Et c’est ce sens qui peut être inscrit. isto é. Págs.. ou Plano Imanente. Daí as constantes indicações de Ricoeur.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens . A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA.”15 . como se lhe queira chamar. bem entendido. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res. de uma 15 P. a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. Como nos diz Greimas. A PdA. através da suspensão da referência imediata. informativa. directa.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme. uma linguagem recria um mundo e. No primeiro caso. Le discours est un événement -Sens. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. ou função simbólica da linguagem. no essêncial traduz a situação. o que quer dizer.

no tecido do discurso. A. sendo inconciliável como processos de époche. O próprio Dictionnaire II. Greimas e J.ubi. Pág. inscreve. Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. quebra da époche. 191. isto é. O Dictionnare II sublinha. também é certo. ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). Pág.”17 . Como sublinha P. 13. www. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo.i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. por um lado. é. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. nomeadamente. ponto de encontro. isto é. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação).” Foi Ricoeur. a semiose. J. Du sens I. mancha. e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação.pt i i i i . mas igualmente. Dictionnaire II. a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. 16 17 A. significa. precisamente. ausência. Greimas. marca. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo.labcom. Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico). aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. como já referimos. Coutes. em certo sentido a semiose. que em alguns casos. herdados do objecto “externo” das nossas sensações.

i i i i 132 José Bártolo Porém. de que o ser-corpo é uma articulação. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia.labcom. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. Mourão. vel quid ipsi 18 J. objectos semióticos. paixão e discurso. não do vivido ou do contínuo das expressões.ubi. evidente. Uma primeira resposta. de qualquer modo. é. O problema que aqui está é. Pág. “reflecte-se” em expressões linguísticas. Na quarta das suas Regulae. pertence inteiramente à semântica linguística. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e. nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo. então. uma crítica radical do método. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. www. Sujeito. decorre. 138. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. antes de mais. A. É necessário o método para investigar a verdade das coisas. isto é. evidentemente. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. “mostra-se”. igualmente. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari. parece evidente que a experiência do corpo-próprio. que implica. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo. O estudo linguístico dos operadores e das marcas que. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. suspensa esta divergência. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. Precisamente por isso.pt i i i i . fenomenológico. esta veritas rerum . no seu hic et nunc. sensorio-perceptivo “dizse”. A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem. Dito de outro modo. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. para Descartes.

H.. Ao analisar o sentido da Explikation husserliana.ubi. por assim dizer. isto é. isto é.quer a resposta estão longe de serem simples. verdade no sentido da objectividade dos objectos. se objectiviza: “Expliciter. Du texte à l’action. Não é por acaso que S. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico.. Porém. H.”19 . Une évidence qui s’explicite. por isso a terceira regra já fala de objecta proposita . os objectivos que são. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. 18. que ela.) sans en tirer toutes les conséquences. Paul Ricoeur. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (. 23. 1990. para Ricoeur. non aliter enin scientia acquiritur. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar. Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. Routledge. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object. une explicitation qui déploie S. isto é. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas. London. sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est. c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience. Pág. dos modelos de análise fenomenológicos. 291. cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation. 20 19 www. É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona. Pág. Pág. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation.acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência. Husserl. a verdade das coisas é veritas objectorum.”21 Deste modo parecia inegável. De facto quer a pergunta . o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência.”. A segunda regra identifica o método com um processo de limitação.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation. Husserliana I. und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn.labcom. 21 P.pt i i i i . percebemos que a veritas rerum. porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida. Clark. Ricoeur.”20 . New York.

64..labcom. Pág.i i i i 134 José Bártolo une évidence. a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. como abertura semiótica: “(. 25 Idem. Pág. telle est l’expérience phénoménologique.ubi. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação. Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 . Sujeito. em sentido ricoeuriano. 24 Idem. www. mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text. faz deslocar a questão do objecto para o sujeito. no sentido heideggeriano. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. O que Ricoeur nega. 26 J. no entanto. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. como sublinha Mourão26 . Pág. afinal.nológica. convergência que. para usar a expressão de Gadamer. 134. paixão e discurso. na medida em 22 23 Idem. em primeiro lugar.) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante. mais precisamente.pt i i i i . neste projecto reconhece-se. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. mas nunca falho o sujeito. Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. Pág. A. A questão da mediação é. Em relação a Greimas. Idem. Mourão. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo. entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria. Ibidem. como abertura.. isto é. A solução de Ricoeur é. Ibidem. por outro lado. 55. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. Ibidem.”22 . na interpretação intencional eu posso falhar o objecto.”23 . Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. 72. como se comprovará adiante. Ibidem.”25 .

antes é condição de possibilidade desses corpos.labcom. com a minha carne. massa opaca ou hostil. Assim a questão da corporeidade aparece. como questão central. de interlocutividade. em relação de desejo. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. 129. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. não como corpo conceptual. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto.pt i i i i . nem objecto. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. ou um tronco). procuraremos.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo. Tal crítica. e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico.). Pág. o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem. de intercorporeidade”27 . com propriedade. mostrar. que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”. 27 Idem. nem sujeito. ainda. Ibidem. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira. www.ubi. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio. estas chaves etc. num certo sentido o seu corpus. Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. sim este corpo situado. ou como corpo objectivo dos anatomistas. em Ricoeur. enquanto objecto não objectivável. ancoradouro do sentido.

i i i i i i i i .

bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. Educ. Editora Vozes. bem como a analisar a constituição do sentido. Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. em determinar.). Este problema-do-corpo. 2001. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. veremos. 1 137 i i i i . São Paulo.i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. Medard Boss (Ed. por Medard Boss em 1987. R. Os seminários foram publicados. Seminários de Zollikon. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. Utilizamos a tradução portuguesa. a partir de aberturas corporais. É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. em Zolkion. precisamente. ou seja. após a morte de Heidegger. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. Martin Heidegger. o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. no espaço e no tempo. O problema-do-corpo consiste.

.ubi. mesmo provável. de alguma forma. isto é. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas.labcom. Cit. só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos. uma prova científica das ligações psique-soma... De facto. o acesso constrói-se em círculo. faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma... Por outras palavras.i i i i 138 José Bártolo “(. enquanto tudo o que é somático pode. Pág. Ora. por sua vez. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras. Tenho recebido censuras de que nós. 105. www. excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples.). embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente. é determinado pelo objecto. Entretanto. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit. só podem ser sentidos intuitivamente. ser apreendido por números. Op.o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos.pt i i i i . Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável. pois só estes são mensuráveis e a 2 M. Isto certamente é possível. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis). O luto não pode ser medido. Boss. e o modo de acesso. mas penetraria todo o organismo. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos. clínicos.) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica). É evidente que. mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. pela soma e pela psique. uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . isto é. ao contrário da pretensão de Hegglin. o seu princípio simples é um princípio filosófico .”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma.como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação.

Mas isto é uma exigência injustificada. Mas na verdade. mas por outro lado.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira.”3 .pt i i i i . Por exemplo. o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. ter o braço apoiado na mesa etc. o meu estar-aqui. Pág. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa. igualmente. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui.) É. 106. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material. Em relação a este problema-do-corpo. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. www. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. podia-se questionar. pois não provém da relação dos factos em questão.labcom. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora). que a relação entre soma e psique seja mensurável. um estar-lá.ubi. o ler. O autor [Hegglin] exige. ou está nesta sala. junto de algo. em termos muito heideggerianos aliás. por essência. pelo menos não o faria tão bem). Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver. pois. mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira. neste momento. Eu posso dizer que. Ibidem. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. 3 Idem.

O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho.pt i i i i . “vemos” no rosto de alguém se ele está. Idem. por exemplo. que a mão pertencem ao meu corpo. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença. www. medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade.”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha. pela febre. pela medida do fornecimento de sangue. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. em virtude das relações psicossomáticas. mas não lágrimas. porém. as lágrimas nunca podem ser medidas. o hotel Tivoli mais ao fundo). Hegglin. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra. Tomemos em consideração. antenas.ubi. mas. o que é mensurável é a vermelhidão. por exemplo. por exemplo. Também aqui o enrubescimento não pode ser medido. Posso. ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. o candeeiro. nem outro. eu tenho à minha frente. As lágrimas só podem ser vistas directamente. embora sejam diferentes e diferenciáveis.labcom. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido.i i i i 140 José Bártolo R. ainda. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. as cortinas. constrangido ou febril. De facto. quer o olho. Ibidem. Ibidem. o telhado das casas. pombas. Fenomenologicamente. assim como o copo está na minha mão). o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado. Quando se mede. por exemplo. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. um copo com agua). O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. por 4 5 Idem. chaminés. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. o rato. o puxador. mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. o telemóvel. a impressora. De facto.

antes de mais. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta). Porém. isto é. posso. Quando algo me aparece . pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele. “Aparecer” parece querer significar. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão. www.aquelas chaves. mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. neste sentido.destas chaves.labcom. se se quiser.ubi.pt i i i i . por exemplo . A aparição é. fenómeno. o livro. nem o meu ver e muito menos pega-los.das chaves. esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. não as classifica numa hierarquia ontológica. Ora. o copo de água. representação. para sermos rigorosos. a condição de acesso ao mundo. o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas.mas um acontecimento meu. o mínimo denominador comum de tudo o que há. A representação constitui. isto é. antes de me aparecerem . Das coisas . A diferença está na diferente subjeicção. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo. aquela janela etc. já estavam lá.eu tomo conhecimento de algo. o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). não é um acontecimento da coisa . ao contrário eu não posso ver o meu olho. nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. isto é. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. aparecem. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. que evidentemente já existiam. também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho.) . assim. a forma mínima de toda a posição. a chamada sensação dupla. a impressora. constituem-se desse modo. Ou seja. a realidade (este copo. o aparecer. o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. inclusivamente.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão. as chaves dão-se em estado de presença. deste copo sabemos que são fenómenos. À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador.

consciência de si. Esta é a estrutura mais geral da representação ou. Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. a sua objectividade. da consciência de algo. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein. Boss. que não existe. que não será tratada aqui. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. A espacialização do Dasein na sua corporeidade. ou seja.labcom. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. portanto. em contrapartida. em Ser e Tempo. Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos. 106.. Importa sublinhar. que Kant promove e que vai até Heidegger. www. não se tem uma representação. contudo.ubi. em frente-atrás). via Husserl. refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis . mas não desenvolve. por exemplo. Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro. então desenvolver nos seminários de Zollikon. a qual obriga em si a uma problemática especial.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. Cit. ou seja. Quando Kant fala em consciência pura. mas um acontecimento meu. em Ser e Tempo procura. no sentido de Husserl. Heidegger desenvolve. está na intencionalidade da representação.6 Toda a consciência é. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. 7 M.i i i i 142 José Bártolo A este respeito.estas chaves ou este copo . Pág. é orientada para algo. Como escreve Heidegger. acha-se também marcada por essas direcções”.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”.pt i i i i . a grande viragem ocidental. o que. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que. Esta problemática que Heidegger identifica. A objectividade dos objectos é a consciência. Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. em rigor. que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. em cima-em baixo. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo. Op.

“estou bem”. 114. os meus dedos e. mais correctamente. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo. eu que toco. quer em Brentano. Mas para este ouvir. ou. cap. Para que eu diga.”8 . no Livro IV. enquanto estava sentado nesta cadeira. trabalhando em frente ao computador etc.e numa factual . é o horizonte (grande. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos). Ou seja. foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala. “este é o meu corpo”. “este sou eu”. O meu corpo está.ubi. mas sentir-me.“o computador está em cima da mesa” . o corpo. O espaço é o aberto. com as mãos no meu peito. são necessários os meus ouvidos. por exemplo. enquanto toco com as mãos no meu peito. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. É esta transferência que me permite sentir não o corpo. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. como lhe chamamos anteriormente. “estou mal” . portanto. mas sou eu . é o spatium.labcom. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador.i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso. Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. os meus olhos. importante e difícil de determinar”. 8 Idem. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. envolvido nessa circunstância.). Eu estou no meu espaço. num espaço interior não localizável materialmente. no ver e no tocar. o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado. eu que vejo. Estas operações de abertura são. então este modo-de-ser é o meu e. O Corpo nunca vê o computador. ao tocar.“estou aqui”-. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande. por isso posso dizer. o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium. Ibidem. www. na fenomenologia.sou eu que ouço. naturalmente. vê ou toca. isto é.pt i i i i . Pág. ver. a minha afirmação . Isto é. O computador foi corporado no meu espaço. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver. O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço. Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. importante. daí a resposta ser sempre qualitativa . tocar. ele está envolvido no ouvir. portanto.

pois. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade.labcom.ubi. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. significa eu corporizei algo. ao perceber o copo ou as chaves. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. como “o mesmo”. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira.pt i i i i . permanente. Ao www. faz parte essencialmente do interior do existir. transitória e variável. mas não sou o frio. em que as aperto. Por outras palavras. fundamentalmente matéria inanimada. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força. sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou . Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. não definitiva. mas não me identifico com essa dor. que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves. Eu percebo. A identidade entre sujeito e percepção. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo. sinto a dor na mão. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. a que nos referimos.no sentido de Husserl . eu corporizo-me. não é. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. antes. perfeitamente. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. ou seja. desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. ou seja. em Heidegger. do que consiste todo o Dasein.a consciência de algo que. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor. consciência de si. de cada vez que eu agarro as chaves. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo. Em cada percepção particular. de facto. em que toco o copo. não significa porém. mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. representações. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. quer em Heidegger. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular. por exemplo.

o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa.labcom. este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. O peso do corpo não é mensurável é. Por outras palavras. em relação à totalidade da corporeidade. na verdade. isto é. porque o espaço do corpo (o espaço interior. Heidegger di-lo assim: “Por isso. seguras por ele. o humano é naturalmente corpóreo. Ibidem. a que Heidegger chama de Dasein e que S. Agostinho chamava de Pondus. pertencentes a ele. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. Heidegger identifica. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. precisamente. ao morrer. a minha disposição corpórea. o spatium. 244. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. inanimado.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material. Então. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal. também poderíamos ser corporais.”9 . Tal observador. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. enquanto um homem viver. como de facto somos. se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que. Graças ao mesmo 9 Idem. aqui. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. www. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. a minha natureza. Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo. mas. isto é. No entanto. Pág. o cogito) corporiza as chaves e o copo. o esquerdo do direito. a condição de possibilidade do copo. Assim. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. o alto do baixo. antes.pt i i i i . Além disso. aberto.ubi. existimos. é. como uma espécie de máquina complicada. na massa de um cadáver que decompõe. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis.

Repraesentatio = de volta para mim. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse). que eu estou cá dentro. qualquer dado. torna-se de certo modo espaço. antes de mais. se dá nele. apresentar a mim. que a porta está atrás de mim.labcom. isto é. Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. Como Merleau-Ponty descreveu bem. e eu mesmo não me represento especialmente”11 .pt i i i i . Para Heidegger. “Re” = de volta para mim. www.ubi. Por outras palavras.i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. a corporeidade abre-se ao espaço. 239. sermos corporais. Idem. que a estante está ao meu lado. um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. Págs. ou melhor. que as árvores estão lá fora. qualquer sensação. constituindo 10 11 Idem.”10 . re-apresenta-me numa nova abertura. mas o que se percebe é que existe. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. porém. estar no aberto [Offenen]. Pág. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. consequentemente. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. organizando-o. O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é. permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. etc. Não somos. 244-245. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo. um atrás. primeiramente corporais tendo. a partir disso uma frente. Ibidem. Ibidem. requalificando-o em relação ao seu pondus. etc. antes. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão. um narcisismo da representação. qualquer percepção é reenviada a mim. efectivamente. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente.

ou seja.labcom. www. uma nova relação entre aqui e aí.ubi. se se quiser. A abertura é devir.pt i i i i . gerando uma nova intensidade corpórea.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço.

i i i i i i i i .

Dorra. desde logo pela presença do corpo. Cit. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade . R. as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 .C. 1 149 i i i i . como vimos. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e. Não se trata. Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente. apenas. a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”.a inserção do homem no mundo. de Oliveira (ed. A. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo. Landowski. assim. in E. em particular.).entre a consciência e o mundo.i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo. Op. como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . a fenomenologia pontyneana). Greimas toma. retomando. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana. exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer.

Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. o que faz delas plantas. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 . Págs. 2 www. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. A este antecipadamente conhecido. matemático. È. a possibilidade do cálculo. sobre o estatuto da reversão interior-exterior. Violi. sobretudo. A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse. isto é. sobre a lógica. Os números. a relação com a realidade dá-se. num espaço e num tempo físicos. PUF. 1997. esperienza: il caso della spazialità”. Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P.labcom. “Linguagio.ubi. 59-60. enfim. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. Holzwege. Frankfurt. Heidegger. Landowski.i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica. O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. 1991. o que deles faz corpos. das plantas. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. IN Versus. Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. 4 E. dizem respeito ao procedimento lógico. antecipadamente. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições. por contágio. percezione. Paris.pt i i i i . 1950. 3 M. regras de formação. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. pertencem ainda os números. análises sobre a constituição do sentido em acto. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida. o que faz deles animais.”3 . 71-72. do homem – a humanidade. dos animais. por antecipação imediata. Présences de l’autre. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença.

Claro que se tornaria necessário. A outra concepção. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou. pela busca do texto. actualizado. quer dizer. distinguir. como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito. o qual. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer. O texto é de resto um objecto interessante. O termo designa. sobretudo a partir de Greimas. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori. o regime da sua leitura. pelo contrário. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. Deste modo. no segundo caso. programando. trata-se de uma apreensão. pelo contrário. igualmente. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico.labcom.i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. na medida do possível. pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. pressupõem um espaço de sentido.ubi. A presença. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. verbal ou não verbal. mais ambivalente. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto. a que nos interessa aqui.correswww. ao exercício de leitura que dele se faz. rigorosa. para usar a expressão de Landowski. uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário. Admitiríamos. para começar. a presença sentida. num determinado segmento de realidade . situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença.pt i i i i . há um discurso enunciado que preexiste. a presença do sentido. No primeiro caso. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída. a presença com sentido. neste caso.

porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia.i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término. “Sobre el contagio”. resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto. el enunciado. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto. 271-272. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação. tão fértil. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são. se trata. cuerpo a cuerpo. um regime de inter-subjectividade. entre si e a realidade. também. Al contrario. paradoxais. isto é. de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido. www.pt i i i i . dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. Págs.samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. ou seja ainda que as ligações. senão as substituibilidades e transduções. no entanto.. por conseguinte.ubi. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen. Esta compreensão não é. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E.labcom. (. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”. pues.. corpo a corpo. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. Landowski.

com clareza. mas existe www. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto. No Tractatus. assim. em Frege.labcom. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. e noutra passagem.ubi. mas de um modo radical. Não há não-factos. se ele se produz.i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados. uma determinada combinação de objectos é representada. de identificação. e não que o facto tenha realmente lugar”. tal é afirmado. Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). pelo que o conceito de corpo-ancoragem. enquanto ancoragem do sentido. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus. O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico. sobretudo. ela é um “modelo” da realidade.” A bedeutung. na posição de Ricoeur. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem. a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade.pt i i i i . enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. o que constrói e. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen). mais facilmente. era o valor de verdade. nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa. não do vivido. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. O Tractatus vai. os factos como existência de estados de coisas. ele é antes de mais um limite do mundo”. um processo de focagem. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. A proposição descreve um facto que pode não se produzir. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. Aproximávamo-nos.

essa potência de ancorar sentido. Lisboa. no presente trabalho. ainda que também a presWittegenstein. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é. Modos da evidência. porém. O sujeito está sempre implicado no objecto. 1998. 69. isto é. independentemente do que possamos dizer delas. precisamente.labcom. Pág. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. no enunciado. ou antes. um em relação com o outro. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. nem psicológica. ainda não foi sequer plenamente tematizada. não há sujeito. abstraídas as especificidades. constrói.ubi. co-dadas em toda a proposição. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. o que Greimas procurou esclarecer. o sujeito é.ficação) entre corpo-próprio e sujeito. Mas que sujeito? Em semiótica. na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração. objectivado ou dado. Qualquer discurso diria o sujeito. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. sabemo-lo. ele é um shifter. Fernando Gil. A linguagem representa-se e. 6 www. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto. o horizonte de possibilidade. para mostrar que num importante sentido. ainda que as coisas sejam ou não. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves. como em Ricoeur. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. deste copo) e não uma coisa no mundo. uma disponibilidade. Apud. na terminologia de Hintikka. um mundo possível. no dado mas ele nunca é enunciado.pt i i i i . eis aqui um método para isolar o sujeito. digamo-lo assim. não existe um único sujeito. uma abertura.i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. mas nunca um facto.”6 .

aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo. necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo.a apropriação intersubjectiva implica. que entre se dá pela experiência da corporeidade. 19. 1986. Se a génese do sentido é sempre transcendental . Hamburger. a sua incarnação. Paris. na sua sexualidade. não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido. fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. Logique des genres littéraires. 1988. é o espaço do corpo. Le volontaire et l’involontaire. Estabelecemos anteriormente. Para Sollers o ego é um tomar forma.labcom. J. A.i i i i Corpo e Sentido 155 suponha . no seu inconsciente.ubi.”9 . Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. 64.pt i i i i . em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 . A situação do corpo. na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). Seuil. Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo. K. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia. nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. Sollers. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 . Apud. 9 P. Philosophie de la volonté 1.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. Pág. como mostra Michel Henry. Pág. paixão e discurso. il échappe à ce couple de cointraires. Il est moi existant. como coisas no mundo). ni constituant au sens du sujet transcendantal. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. Ricoeur. Paris. a corporeidade. assim.pois ele não é dedutível temporalmente . Sujeito. ele não está nem aquém. eu corporizo-as no acto de as enunciar. Em Ricoeur. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. na sua deriva. Aubier. o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza. 8 7 www.. Mourão.

Op. corpo-próprio.ubi.. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância. 10 M. Cit. cogito e sujeito coincidem. www.)”10 .labcom.. 52. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”. nem objecto.. carne e objecto coincidiriam.. Ponty. do mesmo modo. (.) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être. como o diz Merleau-Ponty “le corps (. toda a subjectividade são “intersubjectivas”. Pág. do mesmo modo que corpo-material. O que levaria a concluir que toda a objectividade e.pt i i i i . no lugar do corpo.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito. está a situar..

Affectività e sistemi semiotici. enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. Esta advertência. “ Lettre sur les passions ”. Também Jean Petitot. Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. 47/48. Versus. Fabbri e I. IN P. Pág. apresentava-se difícil de alcançar mas. procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. das estruturas deícticas. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito.).”1 . sobretudo. Pezzini (Eds. Le passioni nel discorso. 167. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível. das tensividades fóricas. dirigia-se. fundamentalmente. estamos em crer. também. 1 157 i i i i . o tratamento das paixões.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”. ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica. 1987. necessário de alcançar.

www. são mais importantes do que essas mesmas coisas. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo. por vezes e como veremos. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. Donde se poderia concluir. Lógica do sentido. 2003. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. decisivos. aproximando-o. pensado por Deleuze de uma forma peculiar. ainda assim.”2 . leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas. A semiótica pós-greimasciana. A anunciação do sentido precede a sua enunciação. Pág. que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são. nas palavras de Deleuze. sem se perceber em que consiste uma estrutura. enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf.labcom. O estruturalismo é. Estando. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. operada pelo corpo-que-sente. sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação. definidoras de tipos de relação. isto é. talvez. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. Estas maquinarias são. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. de cada vez.ubi. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. aliás. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana. Tal anunciação ou. como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido. espaço de atravessamento de devires.pt i i i i . Deleuze. Ele não é algo a ser descoberto. São Paulo. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. segundo Deleuze. Perspectiva.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação. ele é produzido. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. 54. muito próximo da leitura de Greimas. que as posições topológicas. G.

i i i i Corpo e Sentido 159 1.ubi. uma como “significante” e. b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. sobretudo. e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. uma como “significante” e. Paris. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial. determinada. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. relações). Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. Port. Greimas . determinada. Paris.labcom. Lévi-Strauss.3 Confronte-se. duas séries heterogéneas. pelo menos. É preciso que existam. séries. Coimbra. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto. como “significada”. outra. pelo menos. La psychologie et les structures. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. duas séries heterogéneas. 1970 [Trad. la recherche et le savoir. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. Payol. as obras de Noel Moulod. Linguagem e Estruturas. leiam-se por exemplo. 2. 3. 1974.pt i i i i . De Manuel Francisco Catarino. Payot. 1965. 1968 . e. Paris. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson. outra. 4. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. como “significada”. PUF. www. Les structures. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares.]. a este título. Livraria Almedida.

O corpo é. Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. leia-se a obra de José Augusto Mourão. Pág. não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. então. sobretudo as páginas 128140. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. cruzamentos. emaranhado de encontros. Cit. pois a topografia da rede anula centro e periferia. mas também um produzido. Vega. e a sua integração na semiótica contemporânea. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. essa rede de semióse. como intensidade que o atravessa. é estar perdido. Op. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 .pt i i i i . Para estas Sobre esta noção. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. tessituras. que se vem tornando central – graças a Coquet. Sujeito. o seu complemento inorgânico. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . Fontanille. sendo que o devir tem lugar. mas. Lisboa. estrutural. mais. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. Os acontecimentos são causados. Percorrer a rede.ubi. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses.i i i i 160 José Bártolo da significação. claramente. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir. 5 G.labcom. Paixão. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. 1996. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. 4 www. nas suas intermináveis correlações. no corpo. lado. Discurso. a rondar um tema. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro. 9. por outro. Andamos aqui. A rede constitui. apresentada em a Lógica do sentido. Deleuze. isto é. Na sua leitura da Filosofia Estóica.. coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito. sabemo-lo. na expressão de Uexküll. ela própria um corpo e um “corpo estranho”.

Ibidem. Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais. pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente. 6 7 Idem. como diz Benveniste. são singulares formais que tem o papel. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”. antes. pré-modalizados. há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente. aquilo. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem.ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual. Ibidem. Os desejos e as crenças são inferências causais. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário. etc. nem rosto. contudo. são devires assemânticos. misturas de corpos. Pág. como refere Deleuze. podendo. 13. agora.ubi. Idem. relações. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. qualidades.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome. quantidades. aquele.). Mas. de indicadores (isto. A manifestação apresen.labcom. Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito. isto é. www. constituído por um corpo.

9 8 www. nem representação sensível. 22. aliquid. nem corpo. 23. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. por exemplo. Pág. que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura. Pág. Husserl distingue a expressão da designação. mesmo que se deva considerar que o sentido circula. do vivido psicológico. ou seja. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. entre “estados de coisas” e “estados de alma”. das representações mentais e dos conceitos lógicos. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. Incorporal. aqui. da manifestação e da demonstração. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando. “Sobre el contagio”. el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa.ubi. 274. na designação estóica.”8 . 10 Eric Landowski. el principio dinámico.labcom. isto é. Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos.pt i i i i . Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão. nem mesmo com as significações. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui. Pág. o sentido é o expresso. nem representação racional. o sentido não vive fora da sua sensação. Vale a pena voltar a lembrar. instavelmente. Idem. Ibidem. nem palavra. Ibidem. no sería posible aprehender el núcleo. nem os conceitos. e) Finalmente.

Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. Estamos condenados ao sentido. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema. tudo funcionaliza. isto é. por sua vez. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. não os reúne. Ibidem. não permitem a irrupção do sentido. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . Para Deleuze a estrutura é. assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. 74. porque ela não permite fugas. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular. um sentir sentido nessa enunciação. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. Pág. uma máquina de produção de sentido. por outro lado. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. não permite desperdício. a sua lógica circulante. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”.labcom. Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado. também. tudo instrumentaliza. A entropia é. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. Esta fronteira não os mistura. que tende a gerar excesso semiótico. não dizemos o sentido.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. mas acontece às coisas. Há. a sua linearidade. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição. 11 Idem. as características do plano. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. A máquina tende a gerar excesso semiótico. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. em que os semioticiza. dizia Greimas. há sempre excesso. da qual. www. em cada enunciação. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido.ubi. podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”. uma regressão indefectível.pt i i i i . Como diz Bergson nós não somos conduzidos. a sua lisura. já o dissemos. uma máquina semiótica. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. como se fizemos um percurso. em que funcionaliza “estados de coisas”. Por outras palavras. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. tudo integra.

mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. Só há real significante. Edições 70. modelo ideal de qualquer outra máquina. um termo de grupo”12 . e não ser já. tudo o que está fora da estrutura. Ensaio sobre a dádiva. funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss. A máquina desejante.i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. IN Marcel Mauss. Assírio & Alvim. da máquina. pois que ele vive dela.”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. e impõem-na com toda a violência. Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos. isto é. É em O Anti-Édipo. com um valor simbólico zero. como dizem os fonólogos. www. 2001. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. Pág. “Introdução à obra de Marcel Mauss”.ubi. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. da realidade significante significada no interior de uma linguagem. O Anti-Édipo. Pág. 2004. não existe.labcom. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação. 44-45. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. 37. Lisboa.pt i i i i . articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade. Mas a máquina capitalista. Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante.ções).

num 165 www. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. troncos mas. mãos. a sua lógica circulante.labcom. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. “síntese conjuntiva de intensidades e devires”. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos. olhos. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. como cortá-lo. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. do tipo: que fluxo cortar. como qualquer engenheiro de produção bem sabe. A partir da sua acção o operário. para onde conduzi-lo. Deleuze e Guattari dirão. é “consumado” como instrumento-máquina. pernas. c) Uma terceira síntese é. a sua linearidade. ainda e preferencialmente. chaves. a propósito. extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). tornos. lado a lado com outras peças e outras máquinas.pt i i i i . instrumentos ou peças isoladas e que. mais correctamente. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. isto é.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê. também. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca. serras e as máquinasorigem. braços. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais. isto é. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. alavancas. também. etc.ubi. Trata-se de cadeias ou. b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva. por exemplo.

labcom. Ibidem. devir-braço. entretanto quer em devir-mão. peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. devir-pénis quer. a desterritorialização do socius. é intensificado para um ou para outro lado. a tendência mais essencial do capitalismo.pt i i i i . 45.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. paroxisticamente. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que. www. 14 Idem. pois. por outro lado em devir-peça.ubi. devir-máquina. que é um limite propriamente esquizofrénico. constituem. devir-fábrica. Pág. Ele não pára de tender para o seu limite.

.pt i i i i . finamente. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. tapetes. define-se como um sistema de cortes.”15 Aos cortes . máquinas-boca. 40. partes extra partes. que esta máquina também é.destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”. O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções. etc. retira dele o que precisa. olhos. computadores. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. www. ouvidos. por sua vez.ubi. aquele braços e mãos. por fornos. tornos. produz um corpo-instrumento.labcom. último (?) corte. um corte. mãos. braços. como dissemos. serras. Pág. a este os olhos.extracções seguem-se cortes . ele é instrumentalizado. peça adjacente à máquina. Ibidem. o corte-resto ou resíduo que. qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e. “Em suma. claro.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina. 15 Idem. já o mostramos. roldanas.

unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente. mas que. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças. nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. pois. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. Re-aproximar.labcom. Assim. que o todo é produzido.pt i i i i .ubi. na viagem de comboio. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes. nem uma unidade dos pontos de vista. 46. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. reenquadrar. www. era o que Joyce chamava “re-embody”. que é produzido como uma parte ao lado das partes. para “re-aproximar. ao aplicar-se sobre elas. que ele não unifica nem totaliza. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino.”16 16 Idem. Evocando Proust. Ibidem Pág.

no seu lugar próprio. que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. Não há produção sem relação. ) www. A palavra “relação” permite entender uma acção. O plano de produção é. de cada vez. no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano). não uma substância. o corpo sem órgãos é produzido como um todo.labcom. mas. (. no processo de produção. esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano). O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. como peça sua.i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783). antes de mais. esse corpo sem órgãos. no silêncio. José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. . no interior da mesma máquina que o produziu.ubi. . um plano de relação. que é o corpo da criança adestrada na atenção.pt i i i i . que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano). que visa produzilo semioticamente para o integrar.

O Anti-Édipo. Metamorfosees do Corpo.à sua aptidão para emitir e receber signos.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa. fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. Lisboa. o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise. no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta . Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia. Pág. permanecem desconhecidas . O proliferar. sobretudo a partir dos anos 80. para os inscrever sobre si mesmo. Guattari.”19 . A expressão é médico-jurídica. Pág. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora. para os traduzir uns nos outros. José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. José Augusto Mourão. Em particular. O Enigma da sexualidade. Relógio d’Água. 17 www. 2003.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée. convirá dar lugar de importância ao corpo. de inúmeros discursos do corpo. 1997. 19 José Gil. espaço atravessado por fluxos intensivos.Cadernos ISTA. 32. 116. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é. Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. Deleuze e F. que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. IN AAVV. à antropologia. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo. com alguma injustiça. no 16. 18 G. 9.labcom.pt i i i i . das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram. não que a visão deleuziana seja mecanicista. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas.ubi.”18 . “ Sexo.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte. o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano. texto e corpo virtual”. salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. devires para os quais. Pág. igualmente.

tornando o significado escorregadio. reduplicações signicas. Op. Pike.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. pois o próprio corpo é “condutor” de significado. criará um signo ainda mais amplo”22 . tomada juntamente com o signo já ampliado. mas qualitativa. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos.. Cit. e visto que a explanação será um signo. Pike tentou em vão. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. 22 Pierce. L. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude.20 A conclusão de Pike é relevante. é condutor semiótico. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico. A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum. derivaria numa semiologia sobre o corpo. espremelo analiticamente até dele sair uma expressão.. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo.labcom.230. essencialmente. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. citado por José Gil. se se quiser. opera circulações.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. a qual. Ora. transduções. Op. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo. 2. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour. L. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo. Ibidem. uma língua. para além de signo. 38. sem o conseguir fixar. K. Cit. não é quantitativa. ancoragens.ubi.pt i i i i . A tese da finitude de amplitude mostra. parece-nos. mas por um permanente erro de paralaxe. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução. 21 Idem. Pág. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. Foi o que K. 20 www. A falha não é de amplitude (ou. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo.

ubi. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil. Deleuze e Guattari distinguem. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. deve anular o paradoxo. www. mãos. Um corpo que se abre e se fecha. e habitando outros corpos e outros espíritos. máquina-igreja etc. um percebido concreto. Em suma.. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas. reversivelmente. Um corpo habitado por. visível e virtual ao mesmo tempo. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. um corpo paradoxal. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. impondo um sentido que ela própria construiu e que é. máquina-ouvido do confessor e. esvaziado.. Pág. o não-senso. roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida. visível. pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual. visando quer a fenomenologia. (.i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. emissor de signos e transsemiótico. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. máquina-laboratório.. mas como um corpo metafenómeno. quer a semiologia..”23 Este corpo paradoxal é transformado. máquina-olho. celas. Op.pt i i i i . feixe de forças e transformador de espaço e de tempo. Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. No entanto. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas. digamo-lo de novo.labcom.. Cit. barras.. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível.) e as máquinas molares (máquinas sociais. e o espaçotempo do corpo. corpos. a máquina. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. através do silêncio e da não-inscrição. uma diferença de regime. um corpo que pode ser desertado.). reversivelmente.. não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (.). o corpo fenomenológico (o de Husserl. 175. as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. aliás. também. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. antes. e no recolhimento da sua singularidade.): a energia.

devir. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. www. . 1990. mas não é de modo algum o mesmo regime. L’esthétique de Gilles Deleuze. Idem. a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles. Pág. 102. La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. Op. onde o que existe é desejo. Paris. isto é. Un mécanisme. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado. Ibidem. Pág. 27 Idem. acrescentando que “enquanto artefacto. Deleuze e F. Cit.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. ) São portanto as mesmas máquinas. . Ibidem. ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 .i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration.ubi. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. Guattari.25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. Sahara. . Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. Pág. nas páginas d’A Politica. ). Terá sido Aristóteles. ele próprio necessário pela sua própria perfeição. La Connaissance de la Vie. Pág.”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. 28 Georges Canguilhem. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. ao definir o escravo como uma “máquina animada”. 68. produzida e produtora..labcom. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina. L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (. . Vrin. 67. as mesmas relações de grandeza. Para G. os mesmos usos de sínteses. J. ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. oeuvre de l’homme. 241-242.pt i i i i . Pág. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus. 26 Mireille Buydens. 295.

Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. évolutionniste. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. ils appartiennent à un monde dualiste. comme chez celles qui sortent de la fabrique. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques. chaque blastomère peut régénérer un individu. au cours de l’histoire des sciences inexactes. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. moniste. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles. L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages.labcom.ubi. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www.pt i i i i . biologie et sciences humaines. Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur. et leur agencement respectif. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. La créature renvoie à son créateur : cause finale. à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle.

pt i i i i . aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . mas diz que elas são. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo. Grundlienien einer Philosophie der Technik. quais corpos mutilados. Seminário 06. 33 Adrian Forty. mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações.i i i i Corpo e Sentido 175 immanent. Butler Félix Guattari.1984. outro acolá. são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas. No 96. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. Adelphi. Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière.”)30 . a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico.ubi. como mostra Adrian Forty33 . 30 29 www. espalhados pelos diferentes lugares do mundo. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo.”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças. 114 e segs. “La Machine”. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres.02. o convento. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo. “Industrial Design and Prosthesis”. 32 Ernest Kapp.labcom. por um lado. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica. 31 Idem.”)31 . Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle. publicado em 1872. Samuel Butler. Braunschweig. de facto. No seu Erewhon. e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. Westermann. Pág. Pág. a escola. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. 296. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. no seu próprio corpo. ou seja. como também não se consegue formar nem produzir. estão delas privados. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. Samuel Butler. 1877. 1975) embora respeitando a tradução. de passagens dos capítulos 24 e 25. Por outro lado. esteja. ainda que essa visão protésica. IN Ottagono. Milano. muito presente.

económica e social. produz um corte radical. 12-13. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação. semiótica e política. devemos a Michele Foucault.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas. quer vindas do campo das “ciências da vida”.labcom. conduz. mas diz. que “em toda a cultura. ao irromper no mundo da representação. depois da macromolécula. remetendo umas para as outras. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. no seio da molécula. individual e colectiva. chegaremos então a um organismo que.ubi. em particular de “máquina semiótica”. pelo contrário.”34 Encontramos leituras próximas desta. que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. As palavras e as coisas. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. O Anti-Édipo. é. Págs. Pág. Deleuze e F. A microfísica. A partir desta leitura de Samuel Butler. à biologia. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas. Guattari. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa. 80-81. Daí Foucault nos recordar. também. maquinando umas sobre as outras. microscópico. ou que os órgãos são máquinas. neste sentido. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem. assim. La genèse des formes vivantes. por maior que seja. As duas definições são equivalentes. Com efeito. 36 M. Vamos. Flammarion. conservando a sua individualidade. evidentemente. 297. Paris.”35 Por sua vez. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. depois do vírus. Foucault. há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . bem como a ideia do corpo 34 35 G. como as de Foucault. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. advertindo para o seu particular estruturalismo. enquanto análise material do imaterial. Págs. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. A produção. como as de Raimundo Ruyer. quer vinda do campo das ciências humanas.pt i i i i . www. Raymond Ruyer. é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos.

que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. será retomada. Como colocar. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional.ubi. bem como a de Foucault. então. são noções de ontologia formal. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. de integração e produção. Ele é. nesse sentido. “produção de sentido”. natural e artificial são opostos. Ao falarmos em corpo-objecto. deste modo. a questão da identidade ? Como a colocar. anteriormente usado.pt i i i i . As proposições identitárias (tó auto. num horizonte. ligou. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. cozeu. Estudos Gerais. enxertou. a degeneração é. desenvolvida no capítulo seguinte. em particular. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. transversais a todos os Apud. A leitura de Deleuze.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e. como foi aliás. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos.145. corpo-máquina. O Pensamento morfológico de Goethe. 37 www. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e. p. Lisboa. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . ens. por muitos modernos (Goethe. a um tempo. No corpo-tecnológico dá-se a relação. isto é. a identidade não pode ser definida”. 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. a amálgama dos opostos. lógica de controlo. Série Universitária. por nós. usado com valor operativo e cognitivo. idem. nota 87. 1995. Biologia e tecnologia. como tal. Hamann ou Kierkegaard). bem controlada. Maria Filomena Molder.labcom.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. no nossa leitura crítica da história do corpo. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais.

“mesmo”. ou seja. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. isto é. com rigor. o freak. da compreensão do outro.mas a sua significação própria permanece obscura. Quando identificamos o corpo humano. Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. também não há uma inteligibilidade plena do corpo. Pág. o andróide. nunca um “ponto de vista natural”. psicológico e antropológico -. parcialmente.pt i i i i . o corpo anormal. Gil.labcom. então. da compreensão do mundo . e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 . para um plano ontológico. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva. 241.da compreensão de si. não pode ser transposto. www. Quando descrevemos. De facto. para falar como Heidegger. se perde. por exemplo. Op. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”). marcados por uma relativa indeterminação. identitário.mas essa é uma consciencia que. do corpo. estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”. De facto se a iden39 J. que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que. estamos a usar uma definição identitária operativa. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. Como mostrou John Austin. O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade. o cyborg. não há. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. como tal. cedo ou tarde. Cit. a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista . e no entanto. ele apenas é. deste modo. na perspectiva crítica. como o desenvolvimento do estudo. do ponto de vista da sua validade. Neste sentido.i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e. Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade. O corpo enquanto objecto de estudo é.ubi. como principal diferença.

A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. se altere . mas nenhum deles. uma identidade segundo o logos. o corpo cadáver de uma jovem. o corpo de uma mulher num filme pornográfico. São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. embora o número já não seja o mesmo”. embora em permanente devir. o corpo do homem-elefante. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore.ubi. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. sem dúvida. quase-sujeitos e quase-objectos. Aristóteles sublinha-o na Métafisica. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça. A história muito perturbadora do Dr. de facto. se coloca no Dr.mas num certo sentido. sem que a identidae. através. o corpo de um velho amputado.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. está fora do domínio humano. o corpo de uma criança chinesa. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. mas todos eles são corpos humanos. o corpo de Bill Viola na água. o corpo do terminator. alterou-se a intensificação da sua identidade. do reconhecimento da oriwww.pt i i i i . de devir-louco. isto é. Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro. que assim se rasga.labcom. Hyde. É o horizonte de seres hibridos. Jekill e no Mr. mas que ela é. mas a intensificação da sua identidade. de devir-outro. o que está em causa não é a sua identidade. o mesmo problema de intensificação da identidade. o barco de teseu. O corpo de uma criança loura. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa. de devir-hyde. Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. talvez. ela permaneceu sempre como um transcendental. do principio ao fim. sobretudo. O mesmo devir outro.

O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo.ubi. do corpo tecnológico é um elemento fundamental. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. no ajustamento. quando não a penetração. No caso do corpo tecnológico. entrelaçar o estranho na sua individualidade. devir-outro. O carácter intersemiótico da análise decorre. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia.pt i i i i . de ligação. não podem anular. na capacidade do corpo encadear o estranho. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. procede da compreensão. igualmente. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. Mas o devir é tensão. corpo de design. na medida em que é corpoprojecto. a natureza de ser entre. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. com intensidade de tensão. Por outras palavras o corpo tecnológico. ajustar-se ao estranho. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. Mais do que um significante flutuante. de limite. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. que não anulam. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. do corpo pelo artificio tecnológico. Este carácter de fronteira. dir-se-ia originária. intemporal. dir-se-ia. cria flutuações. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. do sujeito no seu devir-objecto. Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. fundamentalmente. a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema.labcom. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos. inter. na expressão de José Gil.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. corpo de patente. imagem do outro. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. é dominado pela imposição de objectivos. a humanidade. A relação. de objectivos de construção. É no encadeamento. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto. da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. de relação.

”40 . numa tecitura teórica quase interminável. em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. Pág. em particular. reinterpretativamente. são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar. M. www. mediated from and within itself. the organismic body is being construed as an open system. Kirby. não-lineares e abertos. Na leitura. um sistema. diferentes significantes e diferentes significados. 61. pelo seu carácter central. mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. 1980. mas também. marca-os de inde40 41 V. pelo estudos dos sistemas orgânicos. Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. da qual. sempre acutilante.ubi. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. then. Kirby. como nota V. Ela caracteriza um estado. o organismo como sistema cibernético. Serres. Cit. an unfinalized product of morphogenesis.. impõe. constroem. de M. Pág. o humano e o não-humano. Serres. o vivo e o não-vivo. Hermes V. an infinite partioning. faz deslocar.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados.”41 . sem dúvida. Paris. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. por exemplo. construído. uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial. Op. na biologia. em relação a um mesmo. “O nosso problema é a complexidade. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. mas pela permanência de operadores que articulam. mais do que pensado. a congregation of heterogeneous materails and flows. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. Le passage du Nord-Ouest. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. O Corpo humano passa a ser pensado ou. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. 146. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia.pt i i i i . na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. estável.labcom. Minuit. o orgânico e o inorgânico.

mas uma diferença de género. O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. na sua assimetria. Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. o recurso à metáfora fractal. a mão. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade. pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. as articulações entre as falanges. portanto. à luz dessa indecidibilidade. a esta totalidade não sintética. que o recupera na sua desarmonia. O sistema é. A simplificação nasce da luta. como um sistema aberto. mas sou eu que constituo o meu corpo. 22.ubi. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade. bem entendido.pt i i i i . se chama. a multiplicidade não o compõe. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes.i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. Qualquer visão maquinica do sistema é errada. enquanto totalidade.”42 . por exemplo. propriamente. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo. define-os como abertos. de sistema. por exemplo. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. Ibidem. e constituinte da identidade das partes. mas uma multiplicidade sem partes (complexa). Um sistema não é. para conseguir ver. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro. isto é. ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema. surge-nos como exemplo. Ela não é um todo sintético. um conjunto de termos ordenado por meio de. identidade e lógica combinatória prévias das partes. www. Não são. onde se levanta a poeira. indecidível.labcom. linear. Pág. no seu desequilíbrio”. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. Um sistema é uma totalidade que. deixar o espaço de combate. regras dedutivas. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. A esta complexidade.

como nessa relação. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva. adquirindo relações definidas e concretas. O meu corpo é. a cor não é extensão. a folha.ubi. esta folha de papel ou a minha mão.pt i i i i . Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido. é claro que. é operada por mim. e em primeiro lugar. pelo eu do m’EU corpo.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. nem uma determinada temperatura. que ocupa um espaço. O corpo próprio. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. uma extensão. por exemplo. assim. a sua res extensa. como um corpo qualquer. uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã. Assim. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. nem a lisura. opacidade. como esta mesa. mas. de cerejeira para ser mais específico. a partir do ponto de o constitui. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. naturalmente. mas a madeira não é possível sem ela. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador. se “sobrepõem” à extensão. De facto. por exemplo. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência. mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo. pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem. possui. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. O que chamamos de “corpo próprio”. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). uma viga que a percorre etc.labcom. além disso determinadas cores e tons. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta. como que.). De facto.

i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. desta folha. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações .a mesa não é a sua cor. que ocupa espaço (deixando revelar cores.labcom. O corpo aparece-nos assim como interface. evidentemente. desta mesa ou da minha mão não é possível em si. formas. a mesa não é. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. é. pois. informe . até ao ponto em que. a mesa não é a sua temperatura.não. como interface entre eu e o mundo. essa res. a identidade da extensão. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. mas não é identificável em si. como negatividade. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. etc. que não corresponde a isto ou aquilo . mas esta nesta mesa que se estende.ubi. isto é. é redutível a um ponto. A identidade vai aparecendo. O corpo extenso é.pt i i i i . isto é. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. indefinido. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis). a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. isto é. como a minha situação no mundo. A “extensão” é em si uma abstracção. por redução negativa. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. possibilidade de ser aqui e agora. também aqui. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. um quase-nada. à afectação pela matéria). na sua essência.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade . uma pura abstracção. a sua forma. grau mínimo de fenómeno. aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso. cada vez mais consistente. o meu corpo. A res extensa. todas as determinações nele identificáveis. a sua temperatura. a res extensa.a mesa não é a sua cor. em rigor a concretude de uma abstracção. é a concretude da extensão. a que chamamos ponto-centro da representação. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é. de modo algum abstracto.

www. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. O corpo enquanto interface. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor. muitas vezes. está para o espírito como. Deleuze e Guattari. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif. enquanto tal. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. Guattari. assim o vê Leibniz. bastar-se-ia. Nos Mille Plateaux.labcom. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão. ni même un support où se passerait quelque chose. Mille Plateaux. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. Encore le CsO n’est-il pas une scène.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. Há. digamo-lo assim. peuplé que par des intensités. Pág. Nesta perspectiva. para usara expressão de Kierkegaard. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. dar o exemplo. remete para a identificação do corpo como um órgão. inétendu. Rien à voir avec un fantasme.pt i i i i . de estado de consciência. enquanto pondus na expressão agostiniana. Assim o vê Aristóteles. ele é um limite”. rien à interpréter. o corpo interface revela-se como corpo orgânico. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. assim o vê Kierkegaard. para o ilustrar. nunca se acaba de chegar. por exemplo. representa um ponto-de-poder. o corpo-orgânico é um órgão do espírito e.ubi. Deleuze e F. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”. a atmosfera. não se pode chegar. Le CsO fait passer des intensités. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. 189.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação). un lieu. de poder no espaço e de poder no tempo. dos olhos de um cadáver. que define. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo. é uma intensidade. não considerado. O CsO não é um corpo. Seules les intensités passent et circulent. é um processo que percorre o corpo. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé.

como se fosse um Corpo sem Órgãos. desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. O que se está aqui a dizer é. O que nos diz. como que nos esquecemos de que temos corpo. o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico. isto é num devir-CsO. isto é. para sermos rigorosos. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. em noutro grau. quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. do drogado. o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. o paranóico. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www. corpo orgânico. corpo animado.o hipocondríaco.pt i i i i . mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. o espírito esquece-se do corpo. por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. o bailarino. a explosão no homem-bomba). As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e. Quando o maratonista está a correr.ubi. quando somos orientados por uma disposição forte. então. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou. do hipocondríaco.i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO. O atleta. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. afinal.labcom. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. Mas não é a apenas no paranóico. Sendo corpo-interface. A experiência do paranóico. o drogado. isto é. por sua vez o corpo agencia o espaço. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo).

isto é. 3) o conjunto eventual de todos os CsO. um corpo de saúde no doente. pura possibilidade de agenciamento. os modos. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo. o sinal do seu carácter vivo . na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. mas ele é precisamente isso. um corpo de afectos amorosos no amor cortês. tudo no CsO é uma questão de matéria. Os olhos são. de interface). tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro. o plano de consistência ( a omnitudo.ubi. Pág. cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio). o dolorífero do CsO masoquista.” Enquanto campo de imanência do desejo. precisamente. isto é.os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. isto é. como vimos. Como insiste Deleuze. não um estado. isto é. às vezes chamado de CsO). O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. 44 Idem. géneros. atributos substanciais. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. quer dizer. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO.”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. as intensidades produzidas.vemos pelos olhos. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição . uma interface da visão. um órgão. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista. o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. vemos com os olhos . 188. Ibidem. um corpo de pensamento no filósofo.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface. justamente. isto é. o espírito. por exemplo o frio do CsO drogado. www. de agenciamento da matéria. um devir. uma tensão.labcom. o plano de consistência própria do desejo.pt i i i i . um limite. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer. A intersubjectividade é. poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos.

tensões. Falando deste “espaço do corpo”. isto é. ela interfaciada. ainda que. mas resulta de uma representação. tal como procuramos mostrar tal implica que: 1. 75. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície. É uma matéria de devir. disso a que Kierkegaard chama de interioridade.pt i i i i . Pág. José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio. isto é. e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo.) É um modo particular da totalidade. e sendo da ordem do corporal não corporado. é a matéria do devir. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele). isto é. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras. A relação com o mundo não é imediata.a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. Assim rasga-se um horizonte-nú. essa “matéria do devir por excelência”. Neste sentido. www. A relação do meu corpo a mim é orgânica. permeável a disposições. que é agenciavel. em particular o movimento dos afectos. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. As metamorfoses do corpo. quer dizer de matéria do devir por excelência. intenções.EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles . a parte traseira e a dianteira). então. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”. 2. b)ao exterior. A matéria intersticial não tem espessura.ubi. plano de agenciamento possível. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular . atrair a si todo o movimento do interior. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente.”45 O espaço interior é.labcom. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina. o espaço do corpo.

labcom. O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes.i i i i Corpo e Sentido 189 branca”. e.ubi. no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo). ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável. sob a forma de corpo.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação. o quarto.a mesa. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. Por outras palavras. o mundo . evidentemente. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais. um anuncio de mim. mas uma totalidade anterior às partes. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que.pt i i i i .de facto no momento do www. Deste modo. em absoluto. muito menos redutível a uma máquina inorgânica. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro . portanto. tácteis e olfactivas. A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades . No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e. assim. como se não houvesse corpo. “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. O corpo não é. isto é. auditivas. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. uma mera soma ou articulação de partes. naturalmente. nesse sentido. o anuncio do mundo a mim e. para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel. Assim. a rua.

nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio. como também a tecnologia encontra aí o seu limite. mas igualmente um 46 José Gil.”46 . quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação. Relógio d’Água. que ocorre no corpo.qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. quantificar . em vão.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que.ubi. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel. qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. actualmente apenas uma alegoria. www. como bem demonstra Hubert Dreyfus. representa um limite.o robot não tem conhecimento imediatos. A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. isto é. Lisboa. O que Gil nos diz é que. entra num processo de devirmáquina. como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo. com a realidade. alias os records procuram. que à força da repetição de gestos mecânicos. porque. da inteligência artificial . O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio. De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua.labcom. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar. ou virar à esquerda sem roçar o passeio. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. Pág. 2001. de um modo geral. Movimento Total. Acontece que o ciborgue não é. 58. por exemplo. O corpo e a dança. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro.pt i i i i . não calculável. e o devir-barata. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). por isso. que nos levam. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. talvez absoluto.

pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B.. Ora enquanto projecto.pt i i i i . enquanto afirmação vazia. por exemplo. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno.labcom. não-humano. o que traz o imenso problema da identidade.”47 . Se por um lado ele é uma realidade objectiva. Apud. Op. Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico. Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade.. não orgânico. I. Tucherman. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano. o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo.. por outro lado. isto é. Mas tal não acontece no plano da vida. Pág 157. “mão” etc. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano. ambíguo. surgindo apenas como limite (como tensão para. de ter vários corpos simultaneamente. na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”. abstracta. sem mediações. a noção de devir. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos. Stiegler. a identidade define a apresentação em evidência. logo não biológico. o que.ubi. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica. um devir-si-próprio. nega. simples. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. o devir-ciborgue é perturbador. neste sentido. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. Quer dizer. isto é. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (. Cit. na afirmação “A é A” .. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design. impossibilita. no âmbito da lógica. www. colocando um problema de identidade. De facto. construção científica de um corpo artificial.

então a identidade seria dada a partir de fora. no plano da vida.ubi. “o interior da minha mão”. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. isto é. Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. a minha mão ferida. a minha mão vista numa visão microscópica. O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança. “o interior da www. pelo menos. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares. A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável. não abstracto. Ou seja. mas também cada perspectiva da minha mão. enquanto a identidade do abstracto é imediata. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. da soma de cada uma das suas posições. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. portanto. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. Eu. eu tenho da minha mão. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão. como tal se excluem. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. O que acabamos de concluir pode ser expresso de. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva. lógica e não à noção de identidade que. “o interior da minha mão”. a minha mão fotografada. a minha mão a tocar agora o teclado.pt i i i i . a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. a minha mão ontem. “A minha mão ferida”. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade.labcom. De facto tal não acontece. o interior da minha mão etc. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. não se podendo dar. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. enquanto sujeito dos predicados. Pelo contrário.

indiciam constantemente a situação do discurso. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. não ter sujeito. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design. assim. também aí. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito. isto é. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é. de órgãos corpóreos. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo. de tecidos. como mostraremos. A diferença fundamental. processos de produção de materiais. Regressamos. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. um signo. estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia. Este poder de auto-referência é proporcionado. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. no entanto. www.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. a uma ideia. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo. como demonstrou Benveniste. tecnologicamente intervencionado.pt i i i i . de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. de próteses. o terceiro capítulo. laboratorialmente pensado.labcom.ubi. mas um acto discursivo. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão. pelo conjunto de pronomes pessoais que.

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esquemas de operações e manipulações técnicas. A invenção do cotidiano . pressupõem sempre práticas corporais. que podemos designar por procedimentos. 2003. no científico etc. Petrópolis. Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau. para comer. 1975. progressivamente.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. por sua vez se declina no social. Gallimard. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. no económico. no religioso. isto é. 1 195 i i i i . Surveiller et punir. difícil de delimitar.Artes de fazer. na escola. no político. quer públicas quer privadas. no jurídico. A experiência do corpo . 2 Michele Foucault.a experiência proprioceptiva. antes de mais. afirmada pela família. na igreja.) a experiência social etc – é. Paris. Estes procedimentos são. Em Vigiar e Punir2 . como mostra Michele de Certeau1 . que estão na dependência de um conjunto. na fábrica. para dormir. Editora Vozes. para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo. a uma produção do sentido do corpo. envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. As práticas sociais. para copular etc. de um modo mais ou menos explicito. à sua semioticização que. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é.

por castigos aplicáveis a todos. por eles se impõe um processo de www. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. doentes -. funcionaliza. militares. no fundo.pt i i i i . ele é. educadores para os condenados. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. dominar. Tratam-se de detalhes tecnológicos. intrumentalizações. criminosos. na sua disseminação.labcom. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal. internamente. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. mecanismos. a prisão. muito mais subtil mas igualmente mais presente. afirmado. Foucault actualiza. que o procura controlar. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. quer colectivo. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. o que identificamos não é nunca o sistema. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar.ubi. úteis à sociedade. o dispositivo. sexo e arquitecturas. por Foucault. produzir. justamente. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. mais ainda. mas a própria análise de Foucault. operários.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. pelo contrário. técnicas. na ginástica flexível das suas declinações. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. parece sublinhar a ausência: dispositivos. que inverte. mas o mondo como ele integra. Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. processos ínfimos mas decisivos. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes. maquinarias. como biopoder. escolar e médica no começo do século XIX. mãos e roldanas. As análises anteriores. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno. Com efeito. centrando-se no século XVIII.

mas o gesto. Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter. corpos ligados a corpos. ânus. na horizontalidade do plano. que domina a Idade Média. anulador das diferenças individuais. que transforma os corpos próprios. separado horizontalmente. 276. para usar a expressão de Michel de Certeau. formação discursiva. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão. pois. umas “discursivas”.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização. Ao espaço cortado. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. 143-151. das condições de funcionamento. das técnicas. prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. sem hierarquia. 211-217. da continuidade do processo. 96-102.pt i i i i .3 . procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. falando de regras gerais. 238-251. cadeira). em peças de um corpo social que os integra e significa. aqui se menciona o elenco: Págs. dois sistemas heterogéneos. 28. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão. torno. Foucault distingue. associar. pequeno e por toda a parte reproduzido. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. 274-275. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder. sem corte. são inúmeras. sem rosto nem lugar. já não como na História da Loucura.labcom. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto.discurso. opaco. a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal. de ler e de ser – uma semiótica integral. 159-161. por um lado. mecanismos. e. feitas em Vigiar e Punir. 106-113. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. barómetro. sem hierarquia. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas. Numa série de descrições clínicas. corpos ao lado de corpos. 185. 189-194. olhos. identifica. classificar. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. distribuir.ubi. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver. dos procedimentos. sucede um espaço que integra. por outro lado. 3 www. das operações distintas.

pp. nas transacções sociais. Lisboa. São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social). Não há direito que não se escreva sobre o corpo. o escravo. ). Cf. “Réponse à une question”. de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. em ultima análise. sentida pela justiça penal. Mas uma arqueologia: quer dizer. 2005. Do nascimento ao luto. . como escritura) e lidos. Todo o poder gera princípios de ordenação.labcom. o sentido do corpo e do corpus. Dits et écrits. devem poder ser escritos (o exercício funciona. ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial. Entendo o conjunto de regras que. ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (. I – 1954-1969. . Gallimard. seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. definem: os limites e as formas da dizibilidade (. que descreve aquela máquina e o seu operar.).i i i i 198 José Bártolo siva. IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs. ) – os limites e as formas da reactivação (. . . . ) – os limites e as formas da conservação (. . 1994. como o seu nome indica de maneira muito evidente. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular. 14]. . mecanismos . é instaurada devido à necessidade. enunciado. Michele Foucault. ao estabelecer.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas. . É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. discursos e mecanismos parecem. não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época. p. fazendo deles o seu texto. isolável do grupo. . singularidade-pura ou plurali. ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “.pt i i i i . então.ubi. Paris. Por esta palavra. a descrição do arquivo. procedimentos. Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve.”. complexificando uma e outra. . o direito apodera-se dos corpos. Enunciação e operação. www. não permitindo. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese. Assim fala Dromio.. à margem. numa dada época e para uma determinada sociedade.dade-pura. que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico. de Foucault. operações. corpos que devem ser marcados. . . Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . 681-682. com um preço. função enunciativa . A própria ideia do “indivíduo”. afinal. ) – os limites e as formas da apropriação (.

entre as coisas e o seu valor simbólico.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que. 13. The Comedy of Errors. .”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). Mas nos tempos de crise. Cit. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo. 7 José Gil. 103. tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). da religião. aliás. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. III. objectos. ”5 .pt i i i i . Metamorfoses do Corpo. 6 5 www. 1997. Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. o papel não basta para a lei. a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. I. corresponde. o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina. Pág. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados. Op. Lisboa. A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. ainda aí. uma transfiguração. remete-nos. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia. Relógio d’Água. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica.ubi. uma metamorfose do corpo. por exemplo “respeita o teu superior”..i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária. Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena). Língua esotérica e hermenêutica. e ela se escreve de novo nos corpos. é por si próprio o juiz. Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo. a única capaz de vincular o sentido. também. uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”.labcom. 232. Shakespeare. Michele de Certeau. Pág. da superstição. . A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis.

Esta dupla renuncia. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. em Vigiar e Punir. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos. os seus recursos. demonstra. Editora Vozes.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. em particular. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico. Foucault. O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas.i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça.labcom. à metáfora da propriedade. ao modelo do contrato ou da conquista.ubi. no que se refere ao saber. A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. www. enquanto premissa metodológica. Págs. o exercício desse saber-poder.pt i i i i . de vias de comunicação e de 8 Cf. do mesmo modo. Assim. Vigiar e Punir. 24-29. o próprio objecto de análise. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. dilucidando. em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. M. Rio de Janeiro. de reforço. 1987.

sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer.ubi. é um “capítulo” dessa análise maior. em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais. 9 Idem.pt i i i i . www. Pág. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder. do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos. 27.i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber. talvez ainda por fazer.”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era. Ibidem.labcom.

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Assim. das cadeiras de tortura medieval. condição de possibilidade da sua actualidade. apenas. mas seria ingénuo não admitir que os objectos. por exemplo. a maioria deles. serve um sistema político. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo. ordena o espaço (o estrado. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. do funcionamento do jurídico e do judicial. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. O mobiliário de uma sala de aula. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i . de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. tensões. em menor ou menor grau. Do punhal de Sílex à guilhotina.i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. Seria no entanto. ordens que podem ser traduzidas socialmente. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. Desde os instrumentos de escarificação. Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder. das algemas à pulseira electrónica. cadeiras eléctricas. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. isto é. por exemplo. muitíssimo redutor. não são desenhados e fabricados à partida com uma função que.

É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que. conheci. uma cadeira. Cf.. isto é. de outro. cortar. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca.”. 2 Falta. nem sequer com cuidado. Michele de Certeau. envolventes ou contundentes. por sua vez. Pode ser coleccionada.”. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. “Matérias Sensíveis”.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. madeiras compactas. antes ou depois do uso. recebem a sua validação funcional.pt i i i i . um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. à espera ou como resíduo. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria. instrumentos curvos ou direitos. 233. IN Murmúrios do Tempo. há uma evolução progressiva do duro para o mole. Maria Filomena Molder. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador. 1997. desconhecidos. Porto. uma câmara de vigilância. Op. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. do técnico para o tecnológico. p. M. do material para o tendencialmente desmaterial. nem sequer com leveza. de Certeau. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. não. por exemplo). formam redes de nervuras. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. Fronteira ofensiva. escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada. porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não. AAVV. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo. aos seres de carne e osso. Fica lá. tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. . seguramente. Centro Português de Fotografia. necessariamente. Esses objectos feitos para apertar. Traduzir esta 1 www. Cf. Cit. nunca. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar. não caminhar.labcom. mas também os articulam. nem sequer em local de peregrinação. que não se há-de converter em moeda de troca.2 Numa passagem admirável.1 Os instrumentos particulares funcionam.ubi. 111. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. mas ainda estão ausentes.. remetendo de um lado ao corpo simbólico e. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço. Pág.

4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue. do cuidado e do bem-estar. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico. simultaneamente. nunca. 1967. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social). IN Science. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade. progressivamente. no 3767. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. que isolam o leproso do são. todavia. 1203-1207. 3 O historiador Lynn White em artigo. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia. progressivamente em texto. leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. De um biopoder se tratava já. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. Sem utilizar. Cf. o conceito foucaultiano de “biopoder”. separa-o. ainda que através de olhar sumário. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. o desenrolar lento desse processo. ordenando social. uma desmaterialização. cientifica e economicamente os corpos.ubi. Já revisitamos. já. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que. e não mais jurídico. traduzir a subtileza e. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. Nessa gradação a carne converte-se. “The historical roots of our ecological crisis”. Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. quando a unidade de referência. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. justamente. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. veias. a maquinaria médica isolao. March 10. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político. que se torna claro pelo menos desde o século XIV.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais. ainda assim. que isola o corpo. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault. Lynn White. Págs.labcom.pt i i i i . da representação. encontrávamos aí. o princípio de uma anatomia politica que disseca. carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”.

O corte médico – corte semiótico antes de mais. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. S. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que.ubi.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. em certo sentido. pelo menos. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma. este seria de cada vez o significado mais importante. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser. a partir da qual o corpo vai sendo produzido. Paulo. isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios. desde sempre. isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar. Landy Editora. não terá porventura um significado menor. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. 2005. Freud e Marx”. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). O facto. O “corte” a que nos referimos corresponde. Qualquer que seja a máquina semiótica.pt i i i i . talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários. a linguagem engendrou esta outra suspeita: que. IN Michel Foucault. pois. fundamentalmente. contudo transmite outro significado. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche. o significado que “está por baixo”. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica. expressão de um indizível.labcom. marca de uma intradutibilidade. www. à substituição de uma máquina semiótica por outra. de pelo menos na cultura ocidental. • Por outro lado. pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. Num texto sobre as técnicas de interpretação. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal. Um diálogo sobre os prazeres do sexo.

por exemplo. da semelhança. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação. que nos aparecem já entre os gregos. • A noção de emulatio. numa ou noutra substância. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência. quer dizer. fosse o ajuste mais particular. a convenentia. que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática. então. as suas formas específicas de produção pela linguagem. na anatomia. Estas duas suspeitas. na filosofia da linguagem do século XVI. Para tal. ao semaion grego. Assim. também. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. na botânica.ubi. como unidade mínima de interpretação. Aí onde as coisas se assemelham. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. faz-se. No século XIX a nova construção do corpo. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. certas afinidades electivas. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. o seu sistema de interpretação. todo o tumulto que atravessa os corpos. na filosofia da natureza mas. os métodos. em grande medida. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. perduram ao longo da história. aquilo que com isto se parece. Isto equivaleria.labcom.pt i i i i . e que podia ser decifrado. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. Este corpus da semelhança estava. dos humores orgânicos em medicina). as suas técnicas. as doenças.i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. plenamente organizado. o seu mapa autónomo da semióse. como se dizia no século XVI. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem. algo que deseja ser dito. o projecto para a realização da tábua. Talvez. grosso modo.

há muito que ele já era actual no plano económico. • Finalmente. de filtros. a noção de analogia. onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem. a assinatura era. da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII). como para pensar o rosto humano. Alquimia. de alavancas.labcom. fabrica-se. de bombas. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. substituir.pt i i i i . social e político. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas. • A noção de signatura. A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo. repara-se. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. cortar. sentido este que será substituído. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). entre as propriedades visíveis de um indivíduo. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. acrescentar.ubi. www. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. tirar. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. da função no interior da máquina permite a substituição. a imagem de uma propriedade invisível e oculta. modificar. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos. assim. a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado).

a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar.ubi. jurídico. mitológico) se transforma. quer cientifico quer social.pt i i i i . www.do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria. quan. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas.labcom.). próteses etc. a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei.i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos. Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente. pela purga etc. Se o corpus textual (cientifico.

i i i i i i i i .

entre o organismo e a máquina. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. 4 Cf. a segunda. Seine Natur und seine Stellung in der Welt. Surveiller et punir. Naissance de la prison. PUF. Vrin. M. Paris. mostra como o poder humano. Cambridge. trabalhada por Foucault4 . The MIT Press. Der Mensch. 1971. por técnicas sócio-politicas. parece. para alcançar os seus próprios fins. La connaissance de la vie. senão da obsolescência. trabalhada por Mauss3 . o instrumentaliza. Canguilhelm. Gallimard. do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. Foucault. Ford. 1968. agenciado. da continuidade entre a vida e a técnica. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . 1950. Android Epistemology. se serve do corpo do outro. Bonn. Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. 1995. Paris. O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. 2 1 211 i i i i . em muitos aspectos.. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico. por exemplo. Athenäum Verlag. Gehlen. Mass. A tese da incompletude. plenamente em curso. A primeira. ser hoje confirmada por um processo. Hayes (Org. Glimour e P. 3 M. por Canguilhem1 . nos anos 60. o instrumentaliza.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. 1975. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). 5 Cf. A. M. C. e com elas Cf. no contexto social. se serve do próprio corpo. G. no contexto social. mostra-nos como o humano. o orgânico e o maquinico2 . Paris. Mauss. Sociologie et anthropologie. K.).

Cf. semântico e pragmático. como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. Neste sentido. condições de funcionamento do laboratório. tecendo jogos de legitimação. A tecnologia. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . 1997. Não há tecnologia. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. Lévi-Strauss. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção. do design do corpo. Milano. precisamente. Por um lado.16. gradualmente. por exemplo.pt i i i i . afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. pragmática.labcom. A sua força reside. ligadas por um 6 7 Cf.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. 151. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é. C. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. Feltrinelli. analysable dans les termes d’un système plus général7 . não é o “dispositivo científico”. que funda o “dispositivo tecnológico” é. progressivamente. fundamentalmente. A construção semiótica e a construção técnica andam. o laboratório. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo. andróides... 5 de Janeiro de 1960. A história da semiótica ensina-nos como. T. por outro lado. aliás. www. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade. o design parece. p. nos planos sintáctico. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas.”. Lévi-Strauss mostra-nos. muitas vezes a par. Muitas das técnicas primitivas. Critica della ragione informática. a tecnologia que funda. quando há “alta tecnologia”. pelo contrário. isto é. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft. p.ubi. apenas. De facto. Maldonado. ciborgues – reaparecem com uma força crescente. pressupõe a legitimação de uma prática.

9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. do modelo definido por um Referimo-nos a C. representa. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. de devir-outro. pp. modificada. sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. a sua articulação e automação. um desvio à norma. um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. Lévi-Strauss. Falámos de máscaras. são técnicas de intensificação do corpo. règnent ici dans leur primitive unité. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés. A identidade não é alterada mas. replicantes e ciborgues. O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza. de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. devir-doença ou devir-fertilidade.pt i i i i . um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum. um excesso. aux yeux de pleurer sa mort. isto é. gadgets e transformers. Unique en son genre. Trata-se de um conteúdo formal. Genève. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. 8 www. O boneco articulado é.” . A máscara é. que nele desencadeiam processos de agenciamento. Na sua semiótica da máscara8 . Idem. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade. Cf. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. ou seja. et les artifices du carnaval. neste sentido. Lévi-Strauss. que pode devir-morte. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo. em todo o caso. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. antes. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. 1975 . A máscara é. vol. La Voix des masques. 1. Skira. aux becs de le dévorer.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”.ubi. Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. à semelhança do corpo humano que duplica. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. um corpo agenciável. Un jeu de cordes. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens. aqui e sempre. 23-24.labcom.

complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático.ubi. a produção nunca é simples. o seu corpo-monstro. mesmo.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. da mesma forma que o têm a economia. apenas. o cinema. a publicidade etc. De facto. por outro lado. as biotecnologias. de resto. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo. isto é. a filosofia. as ciências do artificial e. da descodificação e o contrário. de ser material ainda que tenda a ser. sempre. no entanto. um sistema pré-cientifico. A biologia tem o seu corpo-modelo.labcom. No entanto. retroactivos em relação à máquina que os produziu. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina. a medicina. necessariamente. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. isto é. se não existir a semioticização do erro controlado. semioticização total. materializante. por definição. o design.pt i i i i . normalização sem resto. sempre. também. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. codificação absoluta. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. Por exemplo. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. possuirá. corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. a produção técnica é. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. a produção não tem. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha. Não haverá.

Glencoe. nas farmácias. também. por ela sobredeterminado. mas também nos laboratórios.). na banda-desenhada. as posições dentro e fora relativas a si e. poder-se-ia.labcom. Freud mostrou bem. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk. Free P. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. ) Um processo ou um conjunto de condições.10 A cibernética e. à superfície e em profundidade. mais. nas fábricas. também. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. por exemplo. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. no Design. O ciborgue. sobrecodificação. o que acontece dentro ou fora acontecerá. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. quer semânticas quer pragmáticas. 10 www. 1957. citar Parsons. nos consultórios médicos. dentro. Este excesso. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico. a este respeito. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema.”. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. T. produção semiótica. plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. na literatura. necessariamente. que a partir de fora se façam da máquina.pt i i i i . A deformação do corpo materializa o próprio excesso. Essay in Sociological Pure and Applied. essencialmente. ciber-design etc. Numa palavra.ubi. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser. . em relação aos meios e.. nesse sentido. um excesso semiótico. como sobredetermina na medida em que ela própria produz. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo. determinará em relação às possíveis traduções. por exemplo. Parsons. No cinema. porque o imaginário é.i i i i Corpo e Sentido 215 determina. Cf. De um excesso se trata. com proveito. isto é. nos ginásios. .

trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. 157. integrando-os. no 28. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. agenciamentos linguísticos. analógico. antes. intitulado.pt i i i i . A alteração. 11 www. no seu limite. digital. tal como Deleuze o pensou. Tendências da cultura contemporânea. enquando incorporadores. Os estados técnicos. devem ser inseridas e pensadas. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. Revista de Comunicação e linguagens. do corpo como do pensamento”. Bragança de Miranda e E. em certo sentido.).i i i i 216 José Bártolo constrói canais.ubi. a ocorrer. realidade e imaginário. São processos de territorialização. são “figuras de fronteira” como. p. I. as máquinas que funcionam. Na abordagem da esquizoanálise. lobisomens. sobre um regime de segmentarizações. e tantas outras figuras. instrumentalizar. No seminário de 26. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica . a partir dos seus poderes especiais. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica).01. circunscrições que demarcam espaço e movimento. umas por relação às outras. A questão que se deve pôr. “Entre anjos e cyborgs”. Relógio d’Água. no entanto. Lisboa. são agentes de intensificação do humano. mais do que nos aproximar. 2000. difícil de responder. entre-planos.1982. Tucherman. Ciborgues. Prado Coelho (Org. entre saberes e práticas. é que as fronteiras não são naturais. a construção de uma zona de troca semiótica que. antes de mais. analógico.mecânico. antes.A. interagindo e. anotava Ieda Tucherman11 . com os fluxos e as Ieda Tucherman.labcom. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. homens-biónicos. digital são. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. Cf. e na fronteira. os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar. delas nos afastaria. ao nível da intensidade. muito bem. não sucede nunca ao nível da identidade mas. In J. só podem ser pensadas no limite do humano. para escrever: “O que testemunham. aproxima-se do conceito de território.

tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. Se. sempre. Abbott Miller.labcom. Incorporations. pp. fundamentalmente. MIT Press.496515. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. sob o signo da preservação da vida. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. Edições 70. numa palavra. Zone. o médico é também identificado como sujeito.pt i i i i . finalmente os universos. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas. 1996. a especializar ou a dissecar. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar. altera-se. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico. 13 12 www. 1995. entre o interior e o exterior do corpo. máquinas semióticas e universos semióticos. o corpo é. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. como temos vimos a afirmar. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. territórios semióticos. operador. A troca simbólica e a morte. é o estudo “Hygien. Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço. semântico e pragmático. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. no 6. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. Lisboa. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter. pp. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard. Assim. do espaço doméstico.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações.ubi. ainda que aqui. I. 193-194.

1991. há no monstro uma tensão de identidade. Simulacros e Simulação. uma perturbação do reconhecimento. mesmo na perspectiva marxista. em segundo lugar. andróides. corpo-mecânico do século XVII e XVIII. residual. replicantes.i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . espaço de recobro. algum tipo de reconhecimento e. ao mesmo tempo reverte e intensifica. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. essencialmente. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror.). Payot. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. Todo o real é residual. mas a sua actuação é. Relógio d’Água. p. 16 José Augusto Mourão. no corpo.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. corpoJean Baudrillard. no sentido do mesmo Baudrillard. 179. prolongamento do corpo) é. em primeiro lugar. 14 www. áreas comuns e de isolamento etc. RCL no 29. Paris. Todas estas figuras – fantasmas.labcom. estatutos de significante e significado. 15 Bruce Benderson. ciborgues. 292. Não será. 2001. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. 1999. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão. significações do corpo. ao triunfo do fantasma puro”15 . Relógio d’Água. sempre. de devir-monstro. p. Para que aja monstro tem de haver. do autómato. Sexe ey solitude. tradução portuguesa de Maria João Pereira. Fantasmas. tecnologicamente motivado. uma tecnologia de reciclagem. anjos biónicos – talvez possam ser analisados. p. ciborgues.pt i i i i .ubi. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. como sugere José Augusto Mourão. ao computador. no interior do que Bruno Latour e M. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo. Lisboa. 15. não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. essencialmente. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. “Hibridismo e Semiótica”. O Campo da Semiótica. uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo. Lisboa.bloco de operação.

as possibilidades de vida em ambiente virtual . Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). Ceiade. No interior de uma cultura exo-darwiniana. Rodrigues. certes. 52. Vega. falamos. que colocam em questão o humano. o corpo no seu devir-ferramenta. o corpo-outro. 20 Lembremos. classificando. veja-se J. Duarte.labcom. 2001. de um modo ou de outro. o corpo no seu devir-outro. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. a clonagem.C. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. Hominescence. 1999. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética. máquinas filosóficas. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos.ubi. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. em particular. outro aspecto se destaca.o aumento das próteses. et cette objectivation peut améliorer les performances. na segunda obra. a sua vida. Michele Serres.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage. Corte-Real. Éditions Le Pommier. en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. 2003. e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda. et intelligentes. que a noção de cyborg traduz19 . en des choses inertes. colocamos em cena o “teatro do corpo”. Passagens. assurément. leur externalisation. Breve História do Corpo e de seus monstros.20 Ieda Tucherman. Bártolo. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde. in E. Paris. F. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. a criação do ciborgue. em aparelhar o corpo. 18 17 www. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . como lhe chama Michel Serres.pt i i i i . C. Senses and sensibility in technology. o seu corpo.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI. p. o facto dessas máquinas serem. a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico. como refere Ieda Tucherman17 . “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. Lisboa. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors.”18 Anuncia-se o outro do corpo. de pueril o esforço de forjar palavras. M. hoje.

sonhos. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. neologismo em língua franca. de traduzir o pensamento em linguagem é. os vocabulum emortum. aguardam quem as desperte do seu repouso. a travessia de um perigo. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. dizer espectro ou dizer fantasma. Freiburg/München. 77. medos ou esperanças. 1970. no início. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. A experiência de pensar. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho. experirir. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome. locução composta a partir de cybernetic organism. deriva de periri. também. corresponde a esse que. banalizado. em periculum. que também é mater. Assim. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. que é matriz. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. ou convertido em abstracção.ubi. Verlag Karl Alber.labcom. como dizia Herder. A palavra experiência. hrsg. torna-se abrigo de incompreensão.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta. são palavras que anseiam por dizer. na sua tradução mais literal. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. permanece fantasma. que se acha. Experiri é. nessa abertura é dito e significado. corresponde à experiência do que não se sabe através. de algum modo. O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências. pois. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo. Von Richard Wisser. A palavra cyborg. segundo Heidegger.pt i i i i . pensou que havia que inventar novos termos. September 1969). entretanto perdido. quando. por isso. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. 21 www. Em conversa com Wisser. a antiga força da árvore é recuperada. o que é imprescindível. p. da antecipação da linguagem. por se tornarem inamen vocem. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. porque eles são a nossa permanente companhia. Falar em experiência da linguagem corresponde. não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . como mater. como diria Bacon. voz viva. Os termos são sempre os mesmos.

A. Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. assim. circunscrições que demarcam espaço e movimento. pela imagem e na imagem. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária.1. como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado. do conhecido e do desconhecido. Seria proveitoso traçar uma genealogia. Revista de Comunicação e Linguagens. Cf. da noção de limite. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto. provém de uma experiência de reunião. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1. afinal. do visível e do invisível. I1. O limes é o umbral (limen) que. misturada. 2000.labcom. também. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. se deve perceber a sua natureza híbrida. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites.P: Coelho (Org. no 28. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 . “Entre anjos e Cyborgs” IN J. De acordo com Benjamin. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 . que.) Tendências da Cultura Contemporânea.pt i i i i . do ausente e da coisa presente.” Cf. na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. enquanto [o pensamento]está no embaraço. ainda que breve. em que a totalidade não é experienciável como todo. é reflexo da natureza da alegoria. 22 www. 157-171. Bragança de Miranda e E. Lisboa. que constituem “processos de territorialização.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 . pp. do corpo como do pensamento. pp.ubi.140157. Ieda Tucherman. esse suplício que. no Protreptikos. por excelência.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. porque. sabemo-lo. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver. ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes. é uma forma de antecipação. de fronteira.

as well as the code of application programs.Bártolo. 2002. mas por uma espécie de alteridade orgânica. 27 Donna Haraway. p. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. Cyborgs and Women: The reinvention of nature. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue. As transformações da experiência. in AAVV. 62. London. Duke University Press. E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico.. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo. www. Durham. networks and bulletin boards. unexplored territory. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra . A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo. Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman. Anne Balsamo desloca.i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. (. uma série de outras perplexidades. é corpo-interface. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast. é um corpo que. veja-se J. O ciborgue não é. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. íntimas e estranhas.a de corpoprojecto26 . and on-line databases. na travessia de um perigo. file servers. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”.labcom.) In a more material sense.M. que se desenvolve contra as fronteiras. através de uma interessante análise. presentes e futuras.. 1996. mais do que corpo-organismo. apenas.ubi. num mosaico. que pode ser expressa dizendo-se que.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. apertando o nó que nos abraça ao cadáver. a fronteira que o corpo coloca. Cadernos ISTA. Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos. 1991. 26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto.pt i i i i . the electronic frontier includes workstations. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. Routledge.”25 . o ciborgue. Simians. no 13. uma alegoria. information services such as Prodigy and ComputerServe. New York.

tem a ver. da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente. questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. o perónio. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . www. um humano e um cavalo. como desvendamento/ocultação?”29 . M.labcom. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. o modo da sua dispensação aos humanos.pt i i i i . p. Gallimard. o véu o cobre e descobre. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. 930. pela sintaxe. O perigo de se representar o corpo como resto. de 1631. digamo-lo assim. Microcosmographia. directamente. As armadilhas da espectralidade valem-se. é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. como aquilo que fica. original e réplica. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. seria uma thesis articulada a uma outra thesis.ubi. com razão. Esta ideia de substituição. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. por exemplo. Helkiah Crooke. eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre. Sparke. 1631. Essais et Conférences. para fazer. de confundir thesis e pro-thesis. 1954. o jogo da realidade. em grande medida. A tíbia. residual. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. London. Era Heidegger quem. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). por exemplo. Tal como ao fantasma.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura. Paris. pp. jogo alegórico por excelência. este jogo quase de ilusionista. Martin Heidegger.26-27. a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade. com o procedimento alegórico. Helkiah Crooke na sua Microcosmographia.

a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. . ou uma ideia. Não regressando ao corpo real. um fantasma do fantasma. um fantasma do espírito e. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. 1993. Embora circunscrito. . corpórea. Cf. Benjamin. alegoria deriva de allos. . outro. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano. Dito de outro modo. tal como Marx nos leva por vezes a pensar. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. pp. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos. diferentes dela mesma. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. 179. Friedrich Creuzer. mas a um “ver como”. totalmente revista). 1819 (2a ed. poderíamos até dizer.. 31 30 www. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida. caso a primeira espiritualização produza.labcom. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. W. susceptível de ser descrito. um corpo-protésico. também ela. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. sempre. Etimologicamente. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar. e de agoreuein. mais ainda. Paris. Synbolik und Mythologie der altern Völker. Spectres de Marx. A origem. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. mas a um corpo mais abstracto do que nunca. falar na àgora. Apud. exercício alegórico.ubi. 202-203. Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. p. engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo. No caso da alegoria há uma substituição. foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. Galilée.i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. enquanto captação imagética da semelhança.”.pt i i i i . Leipzig-Darmstadt.”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. o exercício protésico é. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 . à partida um espectro. A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto.

Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado. corpo compósito.pt i i i i . a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces. as cawww. ambas são concreções de um modelo abstracto. nem. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico. formado já não no interior mediante uma composição de nexos. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. que nos invade as ruas. se fundem numa nova unidade. os transportes.labcom. com o perigo de rejeição. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. As preocupações médicas.ela é uma thesis e. a performance etc. tão-pouco. com a manutenção. têm a ver com a compatibilidade.” Corpo protésico. a sua presença abaladora. neste sentido. pelo impulso para trás. o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. pelo abandono do dissemelhante.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. o que faz superar toda a simples representação como nexo. por mediação da série. ciborgue. o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. isto é. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto. ainda que persistindo como partes componentes.ubi. tudo isto são alegorias. são preocupações sintácticas. É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito. Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. ao nível da intervenção protésica.

A técnica. pura interface. os sonhos. of couplings between organism and machine. Modern medicine is also full of cyborgs.i i i i 226 José Bártolo sas. é a representação alegórica. Trata-se de uma nova carne.labcom. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . E não se trata simplesmente de ideias. do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces.creatures simultaneously animal and machine. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis. Antropologia do Ciborgue. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão. representa. não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway. A estranheza do ciborgue. 33 32 www. Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). ao tornar-se uma pele electrónica fluida. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. disfarçada. quando não de fusão. a representação alegórica.pt i i i i . Segundo Haraway. Mas o ciborgue não é. aí. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality.ubi. 149-150. Cyborgs and Women.”33 . apenas. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação. o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu. Donna Haraway. os corpos. IN Simians. IN Hari Kunzru. p. “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”. da hibridação do natural e do artificial. desmaterializada. disfarçada. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes. who populate worlds ambiguously natural and crafted.”32 . 2000. “A cyborg manifesto”. sem dúvida. São Paulo. de elementos polares. neste planeta. each conceived as coded devices.

mostra como potencialmente a humanidade do homem. Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância. O que faz do ciborgue um “atractor” é. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”.L. como a Internet e a Realidade Virtual.i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo. Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman. O ciborgue é um ser estranho. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição.pt i i i i . a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real. o que lhes suceder efectuará o. p. apenas em parte. Revista de Comunicação e Linguagens. 2002. precisamente.ubi. quer como atractor de inumanidade.”34 . caos. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida.labcom. de fronteira. 34 www. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam. o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade. na mão do Terminator. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras. Número Extra. a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop. Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg. saúde e felicidade (como na visão extropista). deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. 66. contem o germe da sua inumanidade. ao tocar noutra.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . Marcos e J. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. falta uma mão capaz de sentir nuances. configurada no corpo normal. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard . A Cultura das Redes. literalmente. loucura. formado. O aparecimento do ciborgue. parte do corpo. IN M. Bragança de Miranda.à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam.

e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. porco. 1966. ma fictura attestato in Plaut. ovelha. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. nos stoichea dos Estóicos. Ernout . Frankfurt a. L. rifatta su figulus ed effigies (Cfr. A. significante sem articulações. E. Paola Aretini. Trin. 365. 1963. Walde. pp. 7). o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. 236. 35 www. V. M. 22. Inoltre A. Meillet. com rigor. Cit. 247) sembra essere non figura.” 108. Lateinische Grammatik . P. Lomb. 501-502.7-12 (Loc. Cfr.ubi. Fingo). I derivati latini in-tura. V. por exemplo).i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. postula compreensão por parte dos presentes. 2000. No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs. sistemas com uma única articulação36 . probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”.A. Heidelberg 1965. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. Por outras palavras. 219. 1974. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. M. Fingo. München. 1976. Messages et Signaux. De facto há uma circulação de sentido. nas figuras de Hjelmslev. derivato dal supino. uma partilha comum. se se quiser. Paris. Leumann. Giacalone Ramat. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit.pt i i i i . mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs. “Non Corpus. A bengala branca do cego.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. Prieto. para os latinos.labcom. pois. s.” Cfr. porca. fêmea. I. uma multiplicidade de conteúdos. Invigilata Lucernis. 36 Cf. exprime genericamente a cegueira. homem. Ist. de uma expressão difusa da relação homem-máquina). Dificilmente podemos afirmar. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala. Dictionnaire étymologique de la langue latine. I. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch. p. 2-3). ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr. A. PUF. “Rend. Die Lateinischen Wörter auf-ura. Zellmer. La forma più antica. que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana. 277. s. pede passagem. exprime. Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações. secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore. Paris 1967. muito fecunda de significação.

O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. próteses etc.como nos Cf. um articulado. é a aparição. José Augusto Mourão. p.). 2001. é fantasma. “Hibridismo e semiótica”. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. De decisivo. comunicações. Revista de Comunicação e Linguagens. Este além-presença. De facto. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. in M. circuitos. não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas. que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis. José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma. Instituto Piaget. uma das suas figuras. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . órgãos. mas que se expande ou é passível de expansão.o da além-presença ou presença-fantasma . É uma coisa que não é coisa (. 38 Cf. aliás. no 29. A. ligações. Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis. Eco.ubi. Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa.288. Lisboa.mais do que um signo objectivo . membros. o território é. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . a carne. é figura. acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss. mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. Ieda Tucherman é. 7. A.. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. Como comenta Eco “se não é um signo. Col.pt i i i i .. tensões. há todo um conjunto de circulações. U. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. 30. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo). Babo e J. será necessário dar-lhe um outro nome.labcom. Mourão (Org. mas num caso . trocas e reenvios. a figura pressupõe uma presença. Do ponto de vista do sistema. Teoria das artes e literatura. Semiótica e Filosofia da Linguagem. do género dos quase-objectos. p. apreensão estética em Geninasca. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 . obsessiva. a presença do ciborgue territoriza.). o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo.). um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo.é um processo de devir e um processo de contágio. 37 www. ainda. Maio de 2001. O Campo da Semiótica. por excelência.

ubi. apreensão capaz de. Paris.acidente estético etc.”39 . um não-sujeito na expressão de Coquet41 . y allí un sujeto. En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. cada actualização de um devir . é um quase-objecto40 . não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. A imagem de que fala Landowski aproxima-se. Harvard UP. aqui. enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito. Cf. 41 Cf. Le Discours et son sujet. 1985. pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y.pt i i i i . “Sobre el contagio”. . de uma presença pura. da figura de que fala Tucherman.-Cl. O ciborgue não é uma coisa. J.devir-criança. 272. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo. por consiguinte. Eric Landowski.i i i i 230 José Bártolo outros . a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y. de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. O Cyborg está. de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. Coquet.e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos. devir-ciborgue . Klincksieck. a partir desse instante. que convertida.labcom.há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto. isto é. Cambridge. Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies. 1999. é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea. en consequencia. devir-pássaro. mais do que dada a ver. 270. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. em presença para o sujeito começa a produzir sentido. um espaço. 40 39 www. enquanto tal determina o sujeito . B.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. nesta perspectiva. próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado.não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente. de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). a distancia y como vacío de sentido. Latour. de imediato. p. pero como si no estuviera allí. tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. p.

afinal.não o pode neste ou naquele órgão particular. corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. acordando a meio da noite. nem pode ser encontrada no corpo .mas parece.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte.pt i i i i . isto é. www. Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano . que intensifica a própria identidade.de esta mano -. um devir-outro. O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva.i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo. num processo particular de devir CsO. para que a prótese . No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva. uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que.labcom. Um exemplo claro. é aquele que sucede quando.experiênciar a morte do corpo . a experiência de devir-morte. A mão é.e o seu efeito estranho ou anómalo . A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. a experiência da perturbação da identidade é aqui limite. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue. uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo. não o pode no organismo . para a não rejeição interna da prótese. a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo . como ver num velho a jogar às escondidas uma criança. igualmente. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. como tal. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é. sempre. posición. aqui. nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto. claro que o corpo é superfície intensiva da identidade.não transtorne a identidade. decisivo. isto é.ubi. O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue.

1949. pés. Nova Iorque. 276-277. um tecido.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente.43 Se a prótese se constitui. como órgão-Corpo. manera. Eric Landowski. como lhe chama Deleuze.labcom. “Notes on the French Phonemic Pattern”. que é transtornado pela presença da prótese.i i i i 232 José Bártolo ritmo.têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação. do corpo. É precisamente o plano da figuratividade. Jakobson e J.mãos. não é uma parte do corpo como uma mão. más distante pero que le responde como un eco. Como a fenomenologia mostrou com clareza. a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu .”42 . próprio da corporeidade. pele etc. próprio do corpo. como vimos. ela constitui-se como Órgão-Corpo. uma sobrecodificação. Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão. olhos. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. 155. Word. a corporeidade não está no corpo. a natureza humana é corpórea. Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares. é. sexo. “Sobre el contagio”. isto é. Agosto de 1949. Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . p. um órgão. antes um “mapa”. um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade. Cf. pp. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas.ubi. da propriocepcção. ossos. orelhas. R. Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. . como indicamos. corporizado a partir dela. Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. 5. 43 42 www. gesto). quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo. no 2.pt i i i i . Lotz. Vol. A prótese opera então por corporização a partir de si. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz. Ela é o ponto-central da corporização. Por outras palavras. um pé. ânus. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. Una presencia inmediata convoca otra.

por exemplo. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos. E o mais rápido pode convergir para ele. que farão do corpo um organismo. procurámo-lo mostrar. antes. de uma mão humana por uma mão protésica. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. biocompatibilidade. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais. chamemos-lhe assim. semelhança funcional.labcom. o plano-humano. A prótese não é humana. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. implica todo um sistema de reterritorializações. expressão plena da sua corporização. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. se conectar com ele.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. formalmente. A reterritorialização não pressupõe. ligados. sem sucessão de estágios. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos. nem o último a se produzir ou a ocorrer. Uma orelha de Algimax não é humana. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal. Como nos ensinou Deleuze de dois www. Esses movimentos são movimentos de desterritorialização. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. um plano não-humano. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. desligados. ele mesmo desterritorializado. produzindo corpo e corporização. em linguagem deleuzina. cortados. um lábio de silicone não é humano. Considerar órgãos sem corpo é considerar. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. de velocidades diferentes. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar. etc. A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano. contudo.pt i i i i . muito mais do que da sua propriocepcção. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. cozidos.ubi.

fantasiar.a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa. polarizar. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. modificar.i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização.o que. não de uma substituição interna ao organismo . o meu pulso. artificial. essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar. se se preferir. em regra.labcom. isto é. logo a isolar. o meu antebraço. O que se requisita e se agencia é. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo. Podemos igualmente concluir que. www. a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares . objectos. só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial.mas de uma substituição. a minha clavícula. o meu braço. a totalidade do meu corpo. tratava-se enfim. enfim. o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado. É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização . Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado.pt i i i i . É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar. a própria realidade. o meu ombro. ainda que permanecesse negativa.como a substituição da pele que caiu por pele nova . dá-se a essa requisição e agenciamento. aliás. seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. antes de mais. no limite.dir-se-ia cirúrgica ou. por movimentos mais lentos. O artificial requisita o corpo e agencia-o.ubi. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos. Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta. externa . intensificar. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização.

então. como quem toma algo para si e. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha.i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. de conter. de encerrar. Cada corpo pres235 i i i i . tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica. Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. De algum modo. Ao designarmos este ou aquele corpo. como quem fecha uma porta. O que é. o passa a possuir. pode afirmar que a tomou para si. não permitiu desenvolver. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais . ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo. São estes dois momentos que procuraremos. pelo contrário. um elemento menor no interior do estudo. como quem sitia uma cidade. facilmente. podemos estar a suspender ou a cingir. em síntese.em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. a sua economia própria. concluindo-o. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. apresentar. o que não faz dela.

pt i i i i . PUF. por máquina semiótica. são susceptíveis de serem “enunciados”. a perspectiva cibernética. sempre e de cada vez. Os corpos não são. “lidos”. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). Paris. de algum modo convertidos em corpo-objecto. uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós.i i i i 236 José Bártolo supõe. Galilée. como retroactivos. a partir da aproximação mecânica. gestos. Paris. Para a semiótica. Francesco Varela. pp. “interpretados” e “discursificados”. 1. Mas tal não significa que quando falamos em máquina. 1998. aberta por Nobert Wiener44 . semióticos. Mais próximo de nós está. mas todos eles têm um sentido. “representados”. cognitivos. 45 44 www. nem valem todos o mesmo. 1-20. as concepções sistémicas mais recentes. um organismo.labcom. Autonomie et Connaissance. afectivos e sociais.ubi. nem prestam. investimentos de máquinas desejantes. processos de devir. actos de linguagem. componentes de informação e representação individual e colectiva. dissemo-lo repetidas vezes. Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. componentes orgânicas. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. Cybernétique et Société. naturalmente. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior. contudo. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. narrativas. o objectivo é explicitar o sentido. ambos. componentes semióticas. proposições. mas também “escritos”. 46 Félix Guattari. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . “L’hétérogenèse machinique”. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas. meta-máquina. através de palavras. intensificações. pelas suas ressonâncias técnicas. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. máquina semiótica. investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. Todos esses corpos. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. A noção de máquina interessa-nos. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. IN Chimeres. isto é. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido. 1984.

pt i i i i . a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. Em primeiro lugar. Em todo o caso. Wigley mas. que o que se fez foi passar. Aarhus University Press. o seu funcionamento. se possível. do corpo como objecto de design total. no primeiro capítulo. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. 1994. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente. Vale a pena. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. parece-nos. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. em vários momentos. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. relações. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando. antes de mais.”. 4. nesse estádio.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. Pág. isto é. A. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley. isto é. igualmente. antes. Dynamiques du sens. citar Per Aage Brandt. Deleuze. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida.ubi. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido. a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou.labcom. que se encontra expressa. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. 47 www. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”. se nos detivemos. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido. nomeadamente. no terceiro capítulo do estudo. ao contrário. sobretudo. Brandt. a propósito. um breve esclarecimento se impõe. O que se pretendeu fazer foi. tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. P.

não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação. numa passagem. corpos em devir-máquina. Canguilhem. Dizer o corpo é fazer o corpo e. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”. devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. corpos em devir-texto. que dispõe. Jean Baudrillard. em poucas linhas. que produz. An introduction to logic of the two notions. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. 1964.ubi. 48 www. seja no sentido de Austin (How to do things with words). corpos em devir-cadáver. seguramente. antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral. Por outras palavras. Como entender esta afirmação? Ela não é. o corpo de referência é o cadáver. já citada neste estudo: “1.labcom. repita-se. pág.”48 . Knowledge and Belief. Simondon e uma série de outros). Cornell University Press. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. Jaakko Hintikka. por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir. Para a medicina. que intensifica. Corpos em devir-monstro.i i i i 238 José Bártolo também. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. 138-139. Assim.L. em que funcionam como paradigmas. neste sentido. Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. Heidegger. Sabemos de J. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses). familiar aos semióticos. Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos. Ithaca e London. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. Neste sentido. Gille. Austin que dizer é fazer. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes.pt i i i i . Por um lado. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. aliás.

www.pt i i i i . . Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. ao mesmo tempo. como se. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo. numa outra posição. fazendo-agir a sua permanente produção.”49 . Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento. a diferença irredutível que os nega. nem fantasma director. nem tipo ideal. O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. também. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais. Para a religião. Edições 70. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”). sob o signo da preservação da vida. integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. I. nem código.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal. carne a ser trabalhada. nessa polisemia. o tipo ideal do corpo é o robot. processos de transformação do corpo num corpo-outro. antes de mais. Pág. 1996. enformada. também ela. O corpo como vala. 3. da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e. 193-194.ubi. 49 Jean Baudrillard.labcom. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. . numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla. é a extrapolação da produtividade racional absoluta. Para o sistema da economia política. 2. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. o que não acontece nunca sem resistência. A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas. a ser isto ou aquilo.) (. fosse a resistência do corpo que se manifestasse. resistência do corpo a significar-se. Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. A troca simbólica e a morte. Lisboa. outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. uma máquina produtora. a objectivar-se. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é.

conduzir a uma certa iconicidade do discurso. Uma história do corpo.labcom. do corpo. 3. em parte. “O Corpo que vem”.triplov. Na perspectiva do percurso generativo. em França no século XIV. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. na economia. refigurações.pt. na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante.ubi. mas. Michele Foucault enquadrava o momento em que.”50 Cada olhar refigura o corpo. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado. o padre. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. verdadeiramente.pt i i i i . deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. no entanto. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica. A semiótica do corpo. a história das suas modelações e produções. Pág. tal como ele foi apresentado por Greimas. por Hobbes. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia. descrita. Numa conhecida entrevista. no seu Leviatã. foi necessário esperar por Norbert Elias e. www. A figurativização pode. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido. nas suas palavras. Porém. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. identificam-se. editado on-line em www. de-monstrações. antes sistemas de operação. sobretudo. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. isto é. desfigurações. em Itália ainda no século XIII. o que deve permitir. o semiólogo) são também operados. identificar um operador. mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas. na política. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico. naturalmente. produz uma sua determinada refiguração. onde os operadores (o anatomista. de cada vez. fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. Uma análise da história do corpo. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará. não há nunca um operador. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo.

labcom. Tentação demiúrgica de corrigi-lo. que possibilita tal revolução. Uma fantasia implícita. Adeus ao Corpo. definindo as condições de possibilidade. Pág. É como res extensa. da própria discursificação. eliminá-lo pura e simplesmente. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. “Texto”. mais do que um efeito de superfície. pela incisão. o que nos sustentava no tempo e no espaço. atingir uma pureza técnica.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. de seus limites. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. mostramo-lo. s/d. Págs. na expressão de Cesare Segre52 . dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito. Cesare Segre. 52 51 www.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. era o sistema. 2003. deixam entrar. correlativas ao contexto semiótico. Antologia de textos teóricos. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se. 30. uma reverberação. chama Foucault de arquivo. para controlar essa parcela inapreensível. de fazeres e de poderes. Pág. São Paulo. O grande instrumento de abertura. 152-175. mostraram que o “sentido” não era. e o que nos atravessava profundamente. o que estava ante nós.ubi. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. INCM. abrindo os corpos cadavéricos. Papirus Editora. Lisboa. tratamento e reconstrução. Antropologia e Sociedade. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. Visão técnica e laica da ensomatose. 17. a organização epistemológica da cultura medieval. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica. objecto de análise. estrutura que funciona como o normativo do dizível. Portugália. AAVV. 53 David Le Breton. a partir daí. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade. Estruturalismo.pt i i i i . provavelmente. uma espuma. no 17. IN Enciclopédia Einaudi. Lisboa. de modificá-lo. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. radicalmente. Tradução portuguesa de Marina Appenzeller. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição.

parcialmente. também. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www.ubi. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. produção semiótica. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização.pt i i i i . Regime semiótico. por exemplo. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo. Daí ser importante. uso instrumental.labcom. como mostramos no terceiro capítulo. também eles instrumentos que devem ser “afinados”. para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. “apurados”. se praticam dissecações. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais. as pinças. “máquinas instrumentais” complexas. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. um sentido idêntico. produção artificial e produção técnica adquirem. mais importante. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas. dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular. os alicates. ocultamente. revelam a importância de uma nova lógica instrumental. a determinada altura. definirá o operado. utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. do laboratório. O operário moderno. Tão importante como escalpelo é a mão ou olho. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. do teatro anatómico. introduzimos.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. fazendo do cemitério onde. uma análise da história e da filosofia da técnica.

à força. se o sentido se nos impõe. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e.ubi. Galilée. à nossa formação de imaginário. os reveste. La raison baroque.labcom. podemos extrair. Tropismos. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam.). a Agipa. os cinge. que o ser humano prolonga o instrumento. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos. Paris. que os inter-liga funcionalmente. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado). mas concomitantemente. como que fundidos com o metal imóvel. cortado. agora. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. nomeadamente. 242-256. na medida em que. tem mostrado como. tensionado pelo seu funcionamento. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa. ao longo da história. Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. devemos aceitar que qualquer corpo é. sempre. A análise sobre a existência de máquinas. discursificado. os vela.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . 54 www. Crítica das ligações na era da técnica. 55 Leia-se. também. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. O artificial paralisa. portanto. petrificam ou são. Lisboa. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. vejase Christine Buci-Glucksmann. leva-nos a admitir que. Págs. é o seu verdadeiro limite operativo. às nossas práticas. de resto. o ensaio de Bojana Kunst. a imobilizar um sentido. Bojana Kunst55 . tende a suspender. Nos seus estudos. uma produção marcada por uma certa artificialidade. De Baudelaire à Benjamin. Nesta perspectiva. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. 1984. para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. materializa o poder estabilizador da norma. por assim dizer. num sentido próximo de Walter Benjamin. “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. como dizia Greimas. atravessado.pt i i i i . nem sem o sistema. 2002. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. IN José A. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro. tal imposição.

pt i i i i . Pág. têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . Bojana Kunst. que os enuncia. ser permanentemente coberto e descoberto. Verdadeiramente. núpcias.”57 Tal passagem não corresponde. a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia. 58 Dennis des Chenes.ubi. 245. de um modo geral. sacrifício ou morte) exige um véu. que os produz.i i i i 244 José Bártolo gas. reestruturando os seus discursos. 57 56 www. mas. Cotovia. o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento. sobretudo. As núpcias de Cadmo e Harmonia. como um projecto. reorganizando as suas ligações. Lisboa. antes. reinterpretando as suas imagens. Pág. 99. Machine and organism in Descartes. o que acontece é. não se mantém. Cornell University Press. Pág. por si só. entre essas duas lógicas.. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. veremos que no livro de Caus. Spirits and Clocks. que os discursifica. a partir do século XV. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). o devir-outro. Cit. na natureza. O véu é o outro. A emergência Roberto Calasso. Os corpos não se mantém por si próprios. reflectindo. uma gradual coexistência. que exige. cada vez mais. contudo. 1990. sendo que o modelo científico vai. seja uma faixa ou uma ligadura. semioticizando o modelo antigo. para lá do véu não existe mais nada. seja uma palavra ou um gesto. Op. Ithaca and London. as máquinas não têm nada de misterioso. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo.labcom. “É o aviso de que o que existe. 2000. de um modo também gradual. 353. cheia de corpos imobilizados e despedaçados. aparecer e desaparecer”56 . pelo menos.

sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design. como abstracção da guerra.o individuo. como bem mostrou P. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano. Brandt. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. quer de um SoftDesign. o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design. aprendemos de Foucault. no 5. em devir-fortaleza ou em devir-monumento.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . Summer 1998.ubi. como entidade simbólica. pois. sistemas de objectos e interfaces. então.labcom. por um design total59 que projecta objectos. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. no quadro do biopoder. Leviatã. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley. caracteriza a identidade categorial e analógica. mecanismo que. progressivamente auto-referenciais. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado. Da alegoria para o projecto. “Whatever happened to Total Design?”. o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no.pt i i i i .A. mas antes pela categoria moderna do biopoder. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www. In Harvard Design Magazine. que projecta arquitecturas em devir-templo. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. no quadro do poder-soberano. a partir do século XIX vamos assistindo. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus.

Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que. jamais o saberemos. por sua vez.pt i i i i . nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado.ubi. a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. por isso. rizomamento. Não os esquecendo nunca. Há. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”. neste sentido. enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos. até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma. e que vão continuamente regimentado a vida. problematização. no que se refere ao saber. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. de dissecação. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe.interact. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação. Em Vigiar e Punir. até onde foi possível suportar a humilhação. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento.com. que se renuncie.i i i i 246 José Bártolo terior. no que se refere ao poder. Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz. ao primado do sujeito). Mas. uma espécie de meta-cadáver. lugares que evitamos. que se defende que não existe ciência sem técnica.pt. e que se renuncie. ainda assim. com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault). Normalmente. pelo menos desde Francis Bacon. a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia. sabemo-lo tão bem e. mapeamento. anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação. mal o sabemos. tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. Sabemos. então. Com os regimes modernos. O ciborgue é.labcom. objecto por excelência. na metáfora da propriedade. www. no modelo do contrato ou da conquista).

e mais precisamente. o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. ser prevista. que se manifestam na diversidade dos espaços. A leitura que. de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. ou seja. problemática politica no sentido mais amplo do termo. como sabemos.ubi. ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos. correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos. fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral. 27. e de uma teoria da enunciação.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas. ainda. progressivamente. Recordemo-nos. alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. Pág.labcom. fomos. Ao longo do nosso estudo. os gestos. da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). de reforço. fomos também. da manipulação intersubjectiva e das estratégias. dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. a título de exemplo. então. o conjunto das práticas significantes não-verbais. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. www. a uma semiótica da acção. tal investigação deveria. além da esfera dos discursos propriamente ditos. Nesta perspectiva. Ao longo do nosso estudo. isto é. desde já. “assépticos”. que nos permitiria. os operadores. uma nova ampliação da problemática pode.pt i i i i . estamos em crer. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). capaz de abarcar. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. 60 Michele Foucault. “higiénicos”. os discursos devem ser “limpos”. uma matéria moldável (um corpo-objecto). identificando uma série de possíveis percursos de investigação. uma importante tradução histórico-politica. Vigiar e Punir. o espaço de trabalho.

62 T. Sabemos que Robert Cresswell. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. Adorno.pt i i i i . ). se revelarem. no entanto parece-nos faltar uma análise que.. entre nós. J. refere-se a um campo que. durante muito tempo. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. em particular. Frankfurt am Main. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. decisivos. 1951. . anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar. Julia Kristeva. Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. François Rastier. foi considerado como o próprio da filosofia (. neste aspecto. 7. Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. o gesto instrumental. em biologia. o gesto técnico. constituir tipos. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido. no entanto. da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. actualmente.) carecem. Mínima Moralia. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 . no entanto. Segundo Medawar. por José Augusto Mourão. Práticas e linguagens gestuais. 61 www. na perspectiva da sociossemiótica.labcom. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. De igual modo. Lisboa. As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste. . de um desenvolvimento que possa. essa Em português a referência vai para A. vida e morte não são propriamente conceitos científicos. Pág. a doutrina da vida correcta”62 . Greimas.ubi. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver. em relação a elas. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. Vega. de uma conversa de baixo nível”. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão.i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. inaugurada. etc. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. ainda. fixar campos de pertinência ou de referência. W. senão mesmo isolar estruturas. Da ética. 1979. Greimas et al.

tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens.i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste.pt i i i i . e em cada corpo. uma promessa. o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo. O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. dizia Kierkegaard. haverá sempre.ubi. Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança. há.labcom. E no entanto. www.

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