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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

6 7 8 9

10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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ubi.i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.labcom.pt i i i i .

sinal de que alguém veio em nosso auxílio. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida. O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo. Maria Augusta Babo. de que se está sempre em falta – perante o tempo. mais feliz. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. consciência de que se desejava ir mais longe. Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. i i i i . Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. Aníbal Alves. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas.i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. o saber. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. a vida.

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Jakobson. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. 1 1 i i i i . visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. Hjelmslev. M. a jusante. Por um lado. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. por outro lado. corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão. Fazer semiótica1 . expressando-o melhor. ao enunciar do sentido em acto. o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante. a herança das ciências da linguagem – de Saussure. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto. da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). sendo que a significação corresponde. actualmente. Landowski mas também Foucault. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. Martinet). a herança das ciências sociais ou. fundamentalmente.i i i i Introdução Enquadramento do estudo. mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea.de Certeau). à actualização do sentido designamos por significância. que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação.

o ângulo correcto. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías. lugares privilegiados. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido. O semiótico admite. Trata-se de construir. 2 www. Neste sentido. A semiótica não fornece saberes a professar.pt i i i i . que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar. que espera o nosso olhar para despertar. a uma conquista territorial2 .labcom. Redefinir implica uma alteração do limite territorial. não tanto para sair da sombra. que afirma que “nem tudo é verdadeiro.ubi. uma verdade talvez adormecida. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. no interior de um espaço conceptual já ocupado. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. antes. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. Lógica del Limite. não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto.i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. como o relâmpago. que a verdade. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. 1991. neste sentido. Barcelona. que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele. segmentado e definido. aguarda a nossa mão para se entregar”. mas que tem instantes propícios. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. há duas convicções orientadoras deste estudo. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. Este aspecto era fundamental para nós. mas fundamentalmente para se produzir. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas.lha-se. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. para falar como Georges Canguilhem. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. Ensayos/Destino. geralmente.

passível de descrição. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil.”3 Vindos de muitas direcções. a determinada altura. educados. www. a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. Lisboa.labcom. de análise. Quando falamos em corpo. Pág. prescrições. Enquanto tal. 1997. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. magros – patologicamente – sentimos dor. numa perspectiva dita “natural”. quando se considera o corpo como objecto de saber.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. cansaço. gordos. assim. mas de um modo tão ostensivo que. de teorização. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa. Relógio d’Água. pelo contrário. angústia – e socialmente – somos normais. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. mais ou menos vão. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. anormais. definida – a partir de um ponto de vista próprio. como bem anotava José Gil. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale. saturado de referências que. tristeza. de desrespeitar os modelos estabelecidos.ubi. adequados. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. para falar como Marcel Mauss. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala. todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. No caso do estudo que agora se apresenta. de operação. Todos temos um corpo que sentimos. classificações. Metamorfoses do Corpo. com intensidades. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço. menos ele existe por si próprio. desadequados. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. baixos. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. Ambição motivada não por um qualquer prazer. 13. partilhamos. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. construções e confrontações inesgotáveis. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. segmentada. Somos. A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. contudo. experimentamos. “evidentes” e “naturais”. segmenta e define uma sobre outra vez.

A. assim designados por Marcel Mauss. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. permanentemente.ubi. Pág. que se define a estratégia seguida no presente estudo. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva. então.pt i i i i . são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. pertinentes para a atribuição de uma significação. como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. Tendências da Cultura Contemporânea. sendo que o contexto é. A semiótica visará. tal sentido dá-se. 4 www. nesta nota introdutória. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo. Bragança de Miranda e E. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo.labcom. os. que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá. como dizia Greimas. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. O corpo constrói-se. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”. mera carne. a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. J. linguísticos ou não. RCL. desde já. No 28. formalismos eficazes. em todo o caso. 2000. Se. que produzem processos de atribuição de significação. Mantendo. por interacção. no interior de um determinado contexto semiótico. Cf. de facto. por definição selectivo. Prado Coelho. No 28. contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. necessariamente. 363-375.

de produção que é. à disposição tanto de uns como de outros. de diferentes perspectivas de análise. mesmo perante a crítica mais intensa. realmente. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. Esta máquina. porque de máquinas semióticas se tratam. à sua funcionalização. disciplinarmente identificáveis. Se o nosso estudo identifica vários corpos. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. formulações. no interior de uma máquina. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato.ubi.pt i i i i . Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde. do próprio procedimento das lógicas produtivas. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. de um determinado sentido legitimador da rede de relações. do funcionamento dos operadores. produção de sentido. devemos admiti-lo. uma lógica. de operadores epistémicos. identificar várias máquinas. produtores intencionais do sentido do corpo.i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. enfim. para recorrermos à classificação de Peirce. compreensões. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica.labcom. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural. usos. já operava antes de a podermos reconhecer. O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. se identificamos vários corpos devemos. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. igualmente. num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. Assim há um operar que. uma série. muito claramente. em funcionamento. também.). deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. etc. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é. deste modo. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. antes de mais. do corpo. apenas parece detectável retrospectivamente.

ubi. também. as máquinas não são estanques. o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. no entanto. e. com gestos já semioticizados. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são. a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante. complexos. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia. isto é. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser. entre tantas outras. Assim trabalha num espaço já semioticizado. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se. ou por uma www.i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. entre tantas outras. em permanência. nas formas de contaminação horizontal e vertical. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada. A produção semiótica não é nunca linear.labcom. como é evidente.pt i i i i . com instrumentos já semioticizados.

semântico e pragmático. a contemporaneidade. Fetiche. a própria contemporaneidade. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. tema recorrente na cultura contemporânea. jogo de combinatórias possíveis. tornouse. Tropismos.). os seus modelos e conceitos. Pág.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização. os seus objectos e os seus sujeitos. Se há herança radical deixada pela modernidade. herança que. simultaneamente. sexe et pouvoir. os seus territórios e as suas fronteiras. 6 5 www.labcom. 61. O corpo. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa. 1997. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e. a um tempo. essa é a da Válerie Steele. Lisboa. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. esse grande ausente. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 .ubi. Segundo Valérie Steele. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A. portanto. a ele ligado. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no. no qual as tensões. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. Neste processo o corpo torna-se espaço. A par do tema da técnica e. Mode. deste modo. particular protagonismo. Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder. na expressão de Walter Benjamin.i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras. em grande medida. Abbeville Press. Crítica das ligações na era da técnica.pt i i i i . 2002. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. O tema das “ligações” assume. que a instrumentalizam. formam-no. no limite. A análise da produção semiótica do corpo deverá. onde tudo se pode ligar a tudo. zona de trocas intersemióticas. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. na última década. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade.

meio divinatório. 9 Leia-se. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”. se o anuncio de novas disciplinas. “contaminação”9 . bem conhecido: o fim das ideologias. não deixa de ser interessante questionarmos. Um entre-dois do real e do virtual. 10 A obra de Jean François Lyotard. o advento do pós-humano. Paris. à luz desta análise. da sua. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. transgressor.”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. a “crise” do corpo. que faz aparecer devires. ESAD/CML. 15. 2005. seja para. de um modo meio explicativo. Paris. Por exemplo. A condição pós-moderna [Gradiva. ciências da linguagem. . das mais variadas formas. Sexe ey solitude.i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir.labcom. intelectualmente. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. na maior parte dos casos. o fim das “grandes narrativas”. do imutável. filosofia. O diagnóstico que extraem das suas análises é. o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo. Matosinhos. Pág. diversos pensadores foram-nos fornecendo. ). seja para. de novos objectos. 2004. 8 7 www. o desmoronamento geral dos sistemas. na maioria das situações. s/d] contínua a ser. talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”.. sobrevalorizadas. Payot.ubi. Contaminação. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. L’esthétique du temps au Japon.10 Se o funeral da modernidade foi. 43. a falência das luzes. 1999. pelo menos aparente. “Le regard implique”. 1998. IN Revista Lusitana. assim. o negar. Galilée. a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas. demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. a este título. a superação do humano e. IN José Bártolo et al. Lisboa. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes. disjunções e fluidificações. das mais variadas formas. Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. Eric Landowski. própria a todos os entre-dois (. . Christine Buci-Glucksman. do idêntico. 11 Bruce Benderson. o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. ao triunfo do fantasma puro”11 . o afirmar. 17-18.pt i i i i . Lisboa. em traços gerais. os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século. uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. Pág.

ubi. ainda assim. de espectros. “Hibridismo e Semiótica. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles. O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. Págs. o fetiche. no entanto. O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. é uma intensificação. Págs. Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão. Cit. Pág. seccionam. já que jogam entre si. como o mutante. para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo. 2001. fora deles também. 288-289. Op. 288. O campo da semiótica. imagina-se em toda a parte. 14 Idem. Ele é uma “coisa” que não é coisa. como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). 12 www. (. indicam uma perda e. A sua transitoriedade. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis. temese como o objecto mágico.. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. particularizam e multiplicam as superfícies.). O que falta ao fantasma é a materialização. .labcom. uma excrescência que pode remeter para outros mundos. cortam. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari. de “quase-objectos”12 . o seu excesso. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. RCL. Advertia-nos.i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. o fantasma “pressente-se. Como dele fala José Augusto Mourão. uma tensão para restaurar essa perda. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. Vivemos numa época de fantasmas. uma imaginação. a carne. porque aí se agarram e se projectam. remática. Como se fala de um amputado de membro fantasma. “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem. seguindo leis de vizinhança. 287-301. de torção. O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. ). de distância variável que não conhecem em absoluto.pt i i i i . icónica. 13 José Augusto Mourão. Ibidem.”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que. . mas porque também os tocam. em parte. No 29. tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). Os quaseobjectos”.

Pág.labcom. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. Não o devir social. IN Groupe d’Entrevernes. nem sequer o devir técnico que. A uma semiótica do corpo cabe. os monstros .são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que. que façam as suas mímicas como extra-seres. Em relação ao nosso estudo. os sublinhados são nossos. Perspectiva. cuja análise pertence a outras disciplinas. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal. É preciso. ser-não-ser. 2003. 17 A. 82-83. Págs. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. Port. 217. mesmo que muitas vezes por nós considerado.”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. particularmente. analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. bem como.”17 . Greimas. ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento. e deixar que efectuem as suas danças. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados. antes de mais. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. 2005. Logique du sens. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. Landy Editora. económico ou politico. topologizam a materialidade do corpo. “a semiótica. nos interessa. 16 Gilles Deleuze. São Paulo. Signes et paraboles. sociais ou politicas. 227. 15 www. De Luiz Fortes. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 . p. Seuil. Paris. diferem em natureza das suas causas reais. “Postace”. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos. Paris.ubi. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. posicionado no campo da semiótica. trad. pois. 1977. uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. Paulo. 1969. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. Sémiotique et texte évangélique.J.i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real. Como a entendia Greimas. Lógica do sentido. S. Minuit.pt i i i i .

estimular uma leitura menos definida. Présences de l’autre. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 . problemáticas. Paris. antes.pt i i i i . 12. 7. modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. 19 Esta obra. Paulinas. teria parecido incongruente. era rigorosamente circunscrita. www.M. Larousse). como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. Lisboa. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 .”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca.labcom. Semiótica e Bíblia. 20 Jacques Geninasca. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). Nessa altura a problemática da enunciação. a foria era dificilmente pensável. 1987. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. 1997. foi publicada em 1966 (Paris. PUF. seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. a reflexão. 21 J.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar. Floch. a intensidade. a inclusão de novos objectos. Un lecture de Tintin au Tibet. ferramentas. menos aprisionadas pela exigência de formalização. sobre o contínuo. “ Apresentação ”. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo. Paris. 1997. qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica. 1999. La parole lettéraire.ubi.Paris. “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. ainda. Págs. Paris. PUF. Le pouvoir comme passion. porque esse sentido. potencialmente mais híbrida da disciplina. 213-216. preocupações. por exemplo. as paixões não eram consideradas. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. hoje. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 . Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. Pág. IN AAVV. contudo. a presença. O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá. 23 Eric Landowski. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. 22 A. PUF. já não causam perturbação. Pág. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido. o contágio. tão fundamental. actualmente central. Hénault. Pág. 24 e segs. 1994. ou do outro (Landowski)23 . PUF. tratar da “presença a si” ou ao outro.

For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. J. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem. São Paulo.). It malfunctions often and fatugues quickly. a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. Dicionário de Semiótica. Gille fala em “sistema técnico”). por propriedade transitiva. It can survive only weeks without food. pois. Human thought recedes into the human past.labcom. and minutes without oxygen. relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B.i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. It might be highest of human realizations. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs.”24 . não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que. biológico. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. its performance is determined by its age. Por sua vez. O corpo humano. Its survival parameters are very slim. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica.pt i i i i . Pág. London/New York. é anunciado como obsoleto. It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death. Images as post-human entities”. Courtés. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas.”25 A. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure. Será. Routledge. mas mais devido ao facto da acção técnica. Greimas e J. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed. Págs.ubi. “From psycho-body to cyber-systems. days without water. 2002. Cultrix. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise. não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. Stelarc. Greimas e Courtés. 203. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado. no seu dicionário. 25 24 www. The body is obsolete. 561-62. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado. We are at the end of philosophy and human physiology. The cybercultures reader.

”. quer um lamento de impotência. a obsolescência do corpo humano26 . entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares.29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia. então. Cf. 24. “Princípios de Método”. o pensa e o produz. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. 1999. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação. Público. adaptações e utilizações específicas. O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. Fragmentos de uma história.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se.ubi. o espaço do destino. o corpo pertence ao reino do silêncio. como tal.). Hoje. por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. Breve história do corpo e de seus monstros. e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. na verdade. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. Pág. sujeito a desmontagens e remontagens. Vega. Porto. Pág. bem a propósito. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos. mas. da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica.”28 Não existe um modelo único do corpo. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes. simultaneamente. Bruno transcrita de I. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”. IN Manuel Valente Alves (Coord. a correcções. também o embrião passou a ser um órgão manipulável. física ou simbólica. 2002. 27 Maria Filomena Molder. Tucherman.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado. 28 Citação de G. sofre. Imagens Médicas. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. 70. ocupava o espaço fundamental da identidade. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens.labcom. 28 de Maio de 2001. amado. resiste. Lisboa. O corpo espera. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. Antes.pt i i i i . “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. se torna um corpo provisório. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença. defende-se. Pág. 319. redigida por Maria Lucília 26 www. Porto Editora. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que.

Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps. Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo. corpo-objec. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade. múltiplos corpos do design e da teologia. 30 Jean Baudrillard. máquina semiótica. como procuramos mostrar. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço. corpoMarcos e António Fernando Cascais. isto é. Edições 70. Relógio d’Água. www. A história actual do corpo. reunindo. também. corpos sobre corpos. a cada máquina o seu. o seu a cada um e. a cada um múltiplos.ubi. Pág. como explicita Jean Baudrillard30 . desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. sempre. um olho. a da sua desmarcação. a cada indivíduo o seu corpo. Corpos e mais corpos. 169 e segs. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico.to.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. isto é. fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. múltiplos corpos individuais. 1996.pt i i i i . A troca simbólica e a morte. “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. da acção de uma determinada máquina semiótica. despedaçá-lo. releva.labcom. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é. Técnica e Subjectividades. Lisboa. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. hoje tão evidentes. a cada disciplina o seu. 2004. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura. Ibidem. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos. é a da sua demarcação mas também. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. Corpo. tradução portuguesa de João Gama. Lisboa. por vezes. acrescentamos nós. 31 Idem. I Volume. Falamos e pensamos o corpo por generalia.

ubi. e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante. A história do corpo é a história da sua permanente produção. Cit. cibercorpo. connections. multidisciplinar como anteriormente anotámos. Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. de penúria nominum. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido. espaço de marcação. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. 33 Maria Teresa Cruz.labcom. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. que se perde. “The Imaginary”. Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra. constatar uma viragem. como diziam os medievais. nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. carne. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso . poderá sempre ser tomado como tabula rasa. the alignment of one aspect with another. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem. é o corpo que se esconde. Sexuality in the field of Vision. Significar e marcar são gestos idênticos. um processo de significação do corpo. A descrição da actual situação do corpo permite-nos. London. p. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo .pt i i i i . um regime de signos ou.talvez faça pouco sentido falar. Verso. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. qualquer corpo. 72. afectada.”32 . Não há sentido sem suplício. para o corpo. Significar corresponde à imposição de um sentido. Op. significam-no.i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. flows. organs. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. considera-se. the channelling of processes. facilmente. melhor dito. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 . O corpo. relativamente ao corpo.é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo. 1986. 32 www. que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. numa palavra. espaço de inscrição.

repousar. que será. passou pela vida. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. todo o corpo social se torna instável. De cada vez que a concepção do corpo se altera. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo. De cada vez há um presente que pensa o corpo. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado.pt i i i i . como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. o azar do jogo. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. um golpe de sorte (um lançar de dados). É. onde tudo. se o corpo se altera. nem fuga. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. um grau de incerteza. sonhos e medos. na sua repetição. nas máquinas e nas cidades. ainda. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. de novo. se fantasmiza. corpos e almas. integram centenas. o presente é.ubi. de www. no trabalho e no lazer. que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. sem escolha. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. Na sua ruptura. alegrias e tristezas. através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual. como dizia Foucault. dos seus aparelhos. errante. silenciosamente. apenas. como um trovão surpreendendo a noite escura. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. na oração e no combate. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência.labcom. qual alma penada procurando. ainda. redes complexas. e o próprio jogo como azar. mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que. à vez. um corpo estável sob o qual possa.

Os cultural studies renovaram.labcom. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz. Rio de Janeiro. mostrando que o corpo é uma “simulação”. Carne e Pedra. as formas de morrer e de matar. de comer e copular. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”. a partir dos anos 70.pt i i i i . do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências. da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. de uma forma clara. a sua circulação e o seu depósito. A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”. Pág. a ideia de que o corpo é uma “representação”. livremente. 80. de conceber e dar à luz. 1994.ubi. conformam a construção de dois modelos do corpo. 35 Richard Sennett. reforça esta visão. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa. “respiração das mercadorias”. a partir de meados do século XX. Nova Fronteira. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. a partir do século XVII. a cibercultura a partir do início dos anos 80. alteram-se os cuidados do corpo. anglo/hispano) que. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino). também a economia medicaliza o seu reportório. estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. no limite. ainda que tornando-a potencialmente fantástica. de duas metaconstruções cultural.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. “exercício de capital”. no interior e por Apropriamo-nos. passando a falar-se em “saúde económica”. a sua negociação e cotação.35 É sabido como gradualmente. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. 34 www. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver.

também se transforma. 87-118. tal como a afirmação. homem/compu. sujeito/Objecto. sobretudo de uma crescente aproximação.ubi. Northeastern University Press. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. biológico/tecnológico. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. entre pólos. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. 1995. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. London.pt i i i i . e à medida que essas práticas se transformam. não apenas uma lógica de crescente ligação.37 A negação. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. acompanhando-as. Sage. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. impõe. conexão. gerador da ambiguidade do dualismo. como um “outro-de-si”. Neste sentido Mike Featherstone. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. A lógica de interface (homem/máquina. potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software. na linha de muitos outros autores. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo.). Na sequência da tradição da filosofia grega. como “não-eu”.). Boston. 48. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”. O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação. Sujeito/Objecto. o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”. “not-self” e “not-me”. Cf. Pág. Págs. o corpo. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto. corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. por assim dizer. www. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo. Susan Bordo. mas.labcom. real/virtual) é.tador.

O corpo está actualmente. Cartwright40 . Págs. 3 (4). que a autora identifica com os “science and technology studies”. 1992. Cambridge. permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology. Turner. and the idea of Gender. etc. “Gender. 1995. Ibidem. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. 1994. London. 13-23. 1995. London. “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”. 1997. à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. 2004. “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. 103-18. L. Laqueur47 . 40 L. Hood-Williams. “em julgamento”38 . Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. Laqueur. 1. IN Body & Society. Duke University Press. Vol. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo. 43 Judith Butler. 267-92. “Decentering the natural body: Making difference matter”. Harrison e J. 39 J.C. 41 M. Turner42 . Pág. 46 B. S. Harrison44 .i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo. Bodies and Discursisivity”.-M. 10. Routledge. Págs.. Body & Society. 5. Changing Sex: TRansexualism. Technology. Sage. Berthelot. 1990. Screening the body: Tracing medecine’s visual culture.labcom. segundo a expressão de Madeleine Akrich.).pt i i i i . com as ciências médicas (Hausman46 . 1. Sage. Cartwright. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos. Mass. 42 B. www. 1997. Minneapolis. 1993. London. 2-3. Hood-Williams45 . Durham. Hausman. Harvard University Press. etc. IN Configurations. ergueu o seu tribunal. etc.). com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. Um novo território. London.) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 .ubi. O corpo sempre falou pela voz de outro. Sage. Lock. da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing). London. Routledge. University of Minnesota Press. IN Body & Society. 45 Idem. Págs. Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. Lock41 . 44 W. 47 T. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 .

M. etc.labcom. porque se o somos. uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira.ubi. Invocação ao meu corpo. . The Body: Social Process and Cultural Theory. 1999. Bertrand Editora. New York. 52 Bruno Latour. 1991. Haraway49 . é como se também estivéssemos nele. Sage. London. Featherstone. “Whatever Happened to Total Design?”. 53 Adrian Forty. 1985. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. com a nova epistemologia científica (Collins51 . Collins. ). Cambridge. no 96. IN Ottagono. no instante em que os vemos andar. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”. sobretudo Pág.55 “Rigorosamente falando”. Págs. 49 Donna Haraway. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. 255. Wigley54 . 54 Mark Wigley. o corpo vai sendo redefinido. 1998. justamente porque o corpo é subjectivo. London. e ser então alguém que anda com o pé. entre aquele que observa e o que é observado. vive-se de dentro para fora. ou prende com a mão. Turner. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature. no essencial. Harvard University Press. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado. Somos o pé que anda. 51 H.pt i i i i . Decerto que um corpo é ambíguo. 55 Estes dois parágrafos são. Págs. “só conhecemos e concebemos. Mas podemos sair deles.). London. etc. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim. 1-8. S. ou vê com os olhos. etc. Featherstone50 . e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. Mass. Simians. Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. 207-38. 48 www. M. IN Harvard Design Magazine. Lisboa.). Sage. o olhar que vê. Hepworth e B. 50 M. Por vezes. IN Camera Obscura. Routledge. este corpo é ele próprio o “dentro”. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. no 5. 28. 1994. o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés. onde a representação se forma ou se projecta A. Bálsamo. estamos sendo também esses pés que andam.). O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”. 1991. . 114-129. com a teoria do design (Forty53 .i i i i 20 José Bártolo samo48 . 1992. perspectivá-los. “Industrial Design and Prosthesis”.. Latour52 . diz-nos Nancy. a mão que prende. Págs.

que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. 57 Idem. como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. esse sentido tangível. o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. a queimadura. a sua tecnologização. 56 www. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida. Tradução portuguesa de Tomás Maia. antes de tudo. também não o dá à perda. a fragilíssima condição humana. e a sua perda fere-nos. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. 66-67. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade.”57 Não se passa pela vida sem dor. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam.ubi. solidão sentida.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação. memória. O corpo é. origem e receptor das relações. como lhe chamava Kant. percepção. sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. Pág. sentido. em cada reconhecimento do outro. Ibidem. ou seja. imagem. Há um sentido de humaniora. em cada instante. Outras vezes. Lisboa. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. 2000. as suas produções de sentido. no tratamento semiótico dos regimes de signos. a abarrotar de intencionalidade. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. Corpus. a pena. Dessa perda. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido.pt i i i i . Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. Transportando no corpo a dor e a alegria. uma caverna cheia. entalha-se em nós. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. inconsciente). ideia. Vega. doloroso. ainda que seja. Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí. con-sentido. o sonho e o medo. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”.labcom. Págs. corpóreo. se renova. Com cada um deles o nosso corpo se comove. a dor é somente o gume. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. 80. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa.

58 www. “A dimensão imagética da metáfora”. sistemas semi-simbólicos. como lhes chamaria Fontanille. Courtés e J. A substância de expressão. Parret na filosofia. M. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. publicada em 1966. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana. H. estratégias argumentativas. como já se percebeu. IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. 103.pt i i i i . B) Em macro-análise. então. não há regimes puros. Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica. E. mais no sentido que lhe dão Fontanille.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. . desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é. da corporeidade. nada exaustiva. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo. Lisboa. do corpo. pelo menos. Mourão na teologia.i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica. etc. A. RCL no 36. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. Assim.J.ubi. Pág. J. Coquet na psicanálise. 2005. Floch nos media e na comunicação e a lista. Relógio d’Água. J.-M. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. A intersemiótica responde a essa estratégia. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. . determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias. reconfiguração dos processos narrativos. No entanto. na sua praxis semiósica. Darrault na psicologia. para falar como Baudrillard. A. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. Arrivé e J—C. Retórica. etc. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”.”58 Na sua Semântica Estrutural.labcom. em última análise.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. facilmente se estenderia. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. descrevendo os diferentes “modelos”.

. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). ) devires-animais. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo. A semiologia seria.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo. 62 Idem. Uma semiótica é um regime de signos. Pág. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo. 59 www. Ibidem.ubi. de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos). Minuit. produzindo-o. . Ibidem. então. a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. os regimes de signos às máquinas abstractas. a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo. 60 Idem.pt i i i i . constituições de corpos sem órgãos.labcom. interligadas. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem. Un régime de signes contitue une sémiotique. o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. . semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. continuuns de intensidades. . Ibidem. Pág. 61 Idem.60 É sabido que. antes de mais. antes as cruzam. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 . que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana). pelo contrário. para Deleuze. 140 e segs. 177. Pág. Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. devires moleculares. 1980. gerador de um devir-máquina. é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. 175. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique. é a linguagem que remete aos regimes de signos.”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. Paris. incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo. trans-sexulaidades reais.

signos) ou analógica (símbolos. durante a viagem. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo. os seus agenciamentos. do adorno.J.i i i i 24 José Bártolo manifestações. de um comprometimento. Sémiotique des passions. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal. é claro que o corpo é. a valorização e desvalorização de certas paixões. tanto se podem apresentar como sinal. ). www. também. ocorrem. 99-103. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. o corpo-em-situação. Considerado em si mesmo. da escarificação. o corpo. índices) da relação entre o significante e o significado. 63 A.ubi. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações. assente na natureza arbitrária (sinais. Págs. Paris. qualquer corpo. interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. nesta perspectiva. como um objecto que não está por um outro. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que. Os modos de “ser” do corpo. de palco significante. uma “apreensão mais processual e contextual. O corpo é mítico. 1991. no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. dizia Michel de Certeau. Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. C) As orientações axiológicas. Fontanille. Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações. . . Se recorrermos à classificação de Benveniste. de um classe. Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. é transitório e operatório. No início dos anos 90. em relação ao estudo das emoções. dando conta das tensividades fóricas.labcom. os sinais e os símbolos de uma linhagem. mais interpessoal e cultural da significação (.63 Paolo Fabbri propõe. Neste sentido. de uma condição. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. simultaneamente. Seuil. as suas improvisações e desvios. das paixões.pt i i i i . Greimas e J. como signo ou como índice.

Harré. C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais. Oxford. Harré (Ed. A passion veduta: il vaglio semiotico”. escapavam à semiologia. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. Versus. The social construction of emotions. Harré que. de um ou de outro modo. Pág. dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura. Éditions Liana Levi. no 47/48. paixões e devires que tem lugar no corpo e que. 65 R. “Postfazione.64 Outra proposta. 205. “An outline of the social constructionist viewpoint”. Não se procura aí. como anotámos anteriormente. 1988.pt i i i i .ubi. Harré.). E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. isto é. As análises dedicadas à semiótica. é feita por R.labcom. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões. Págs. Paris. já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. verdadeiramente. a sua instrumentalização. Fabbri. uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. de natureza intersemiótica. a sua produção de sentido. 2-14. a sua adequação objectiva a um determinado fim.65 A partir destas abordagens. www. Face ao que dissemos. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva. Une Histoire du corps au Moyen Âge. na mesma linha de raciocínio. IN R. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções. parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. 2003. Basil Blackwell.

que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado. mas tratava-se. o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. 5. .pt i i i i . um grande esquecimento para o historiador. como dizia Walter Benjamin. E no entanto o corpo tem uma história. 343-373. 1977.). 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. nem vida. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. . aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis. a sua presença no imaginário e na realidade. perceber como o design. O que se afirma é. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(.”69 . nos anos 30. representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. Cit. Op. com uma história sem corpos e com corpos sem história. A história tradicional era efectivamente descarnada. Paris. antes. a história da sua permanente construção social. percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. pelas mulheres. em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica. que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar. que o instrumentaliza. o seu lugar na sociedade. Albin Michel.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . 1939. 67 Cf. acessoriamente. particulares. New York & San Francisco. no sentido de Deleuze. sempre. produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. então. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. www. Mais recentemente. bem entendido. Com efeito. Mas quase sempre sem corpo. excepcionalmente. corpos transformados em símbolos. assim. 68 Falamos aqui. assim. de um corpo sem ossos. A concepção do corpo. IN John Blacking (Ed. Págs. Pág. London. La société féodale.”70 Ficávamos.. Pág. foram mudando em todas as sociedades históricas. Academic Press. o arquivo. The Antropology of the Body. a descrição. Roy Ellen. santos ou guerreiros. nem carne. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo. 69 Marc Bloch.ubi. Marc Bloch reivindicava. se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. 5. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história. Interessava-se pelos homens e.labcom. a legenda.

a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo. de copular. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo. fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. tensão entre a guerra e a paz e. tensão entre o topo e a base. como cada língua. sobretudo. de falar.pt i i i i . 112-13. Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. Cadernos ISTA. a um tempo. no 16. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. paredes-meias com a igreja. Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo. “Sexo. O corpo cristão. imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo. de nascer. tensão entre o centro e a periferia. 72 71 www. de viver. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. comporta os seus idiolectos. de trabalhar.labcom.ubi. tensão entre a riqueza e a pobreza.. O Enigma da Sexualidade. de andar. 2003. José Augusto Mourão. proibições e desconhecimentos. de guerrear.i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . IN José Augusto Mourão et al. texto e corpo virtual”. tensão entre o homem e a mulher. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade. tensão entre o campo e a cidade. a comunhão é um repasto. as suas improvisações e os seus desvios. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade. tensão entre o homem e máquina. tolerâncias e marginalidades. E. a rejeição e a sua veneração. sobretudo durante a Idade Média. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. de morrer – corporizando normas e desvios. de comer. a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades. simultaneamente. mas também o corpo-cadáver. semioticizado como matéria repugnante. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. Os sacramentos santificam os corpos. Ibidem. é atravessado por essa tensão. Pág.

Semiótica e Bíblia. Mas o próprio olhar exige ser ordenado. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. Na sua semiótica do olhar. a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. assim. mais. para o corpo mal olhado. àquilo que é. falar. 73 www. Lisboa. sempre. Págs. 163-175. para eles. sempre olhado. diferentes olhares produzem. para o deformado. Edições Paulinas. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores. “Figuras e transfigurações”. O olhar do médico tem o “seu” corpo. para o corpo desviado ou desviante.ubi. física e outra semiótica. IN AAVV.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. ciborgue. de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. uma corpórea. como diziam Deleuze e Guattari. releva de um determinado uso semiótico do corpo. freak. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. quase sempre. por duas máquinas. isto é.labcom. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação. então.pt i i i i . o corpo é sempre. O corpo é. atravessado por dois tipos de agenciamentos. de nos sentarmos. 1999. o olhar do voyeur o seu. diferentes corpos. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. da pele até as entranhas. mas é. mesmo que se esconda. qualquer que seja o seu nome: aberração. causas sociais. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar. o olhar do polícia o seu. o próprio olhar não escapa a ser François Martin.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado. para o monstro. O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”. No entanto. já passivo produto resultante daquele olhar.

Igualmente cada cultura tem o seu corpo. mas as formas fundamentais de saber-poder. O modelo não tem de ser. são modelos de ordenação quer do corpo. 1971. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. entre o que é por natureza e que é por cultura. conhecimento que se produz. o seu. o corpo da grávida e o do aleijado. L’ordre du discours.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. que é. podemos. a distribuição ou a retenção de um saber.labcom. uma forma de poder e que é ligado. de registo. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina. 40. 144. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente. na sua existência e no seu funcionamento.. mas não deve corresponder. se exerce sem a extracção. nas palavras de Galeno. seu de direito. Em A ordem do discurso.pt i i i i . Assim. às outras formas de poder. não deve ser. a nenhum dos modelados. estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos.ubi.”74 Os modelos do corpo. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. Nenhum poder. o seu. Pág. Cit. cada cultura técnica. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. cada cultura politica o seu. Todo o olhar almeja ser panóptico. percepções. não é nunca o corpo do nosso irmão. Pág. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel. não é nunca um corpo como os corpos. de deslocamento. Gallimard. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. de acumulação. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. ou a ciência e o Estado. Cada máquina semiótica tem o seu corpo. www. quer do olhar sobre o corpo. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação. condição de possibilidade da modelação. cada cultura social. em si mesmo. Paris. a apropriação. mórbido e neutro no corpo”. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. identificar quatro modelos do corpo. um corpo normal. seguindo Nobert Wiener. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. Richard Sennett. Op. pelo contrário.

“O manifesto Ciborgue: A ciência. 221-250. produzindo-os.pt i i i i . 1972. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. IN Ana Gabriela Macedo. nano-próteses. www. de 1832. A galáxia de Gutenberg. Págs. Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza. Identidade e Desejo. são objectos de prova. por correlato. a que. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se. Com o desenvolvimento tecnológico. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues. 30. 2002. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais. do corpo. Apud Sherry Turkle.78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues. Barcelona. alterando-os. )”.”77 .i i i i 30 José Bártolo primeiro. Editora da Universidade de São Paulo. sob o modelo da locomotiva a vapor. 78 Donna Haraway. . ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. cujo modelo é o do corpo mágico. uma criatura de realidade social.ubi. Os ciborgues são objectos de prova. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. feito de barro. Paidós. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. . “Um ciborgue é um organismo cibernético. . . Pág. 1995. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. Lisboa. em 1968. a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. isto é do computador e. La vida en la pantalla. juntar-se-ia.labcom. Cotovia. com 76 Marshall McLuhan. Para Donna Haraway. tanto quanto de ficção (. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (. Ralph W. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum. como interface. Numa passagem do seu diário. um híbrido de máquina e organismo. encontramo-lo na figura do Golem. Género. São Paulo. 77 Ralph Emerson. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus. permanentemente citada quando se fala em ciborgues. maleável. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia.

aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. biopolímeros. dito de um modo mais rigoroso. artérias e fluidos. genoterapia e engenharia genética). Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date. vivo ou inanimado.pt i i i i . cada vez mais pequenas. homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões.ubi. O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne. vivo e inanimado. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. cada vez mais “compatíveis”. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. no campo do design biotecnológico. Prototipagem rápida e virtual. recuperação de órgãos. O desenvolvimento das biotecnologias. desde a sua génese (fertilização in vitro. da bioengenharia e da engenharia genética . inclusivamente no cérebro. interfaciadas. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. clonagem. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles. crescentemente. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. utilizações científicas dos cadáveres). www. “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. nos últimos quinze anos. já não polarizadas mas agora. por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade. do biodesign. cada vez mais leves. desenvolvimentos nanomedicos.labcom. A carne do homem vai sendo enxertada de metal. próteses internas e externas. redefiniu. matéria orgânica. chips e electrónica.i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. as tensões polares – natural ou artificial. de transistors. para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses. É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano.na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne. interfaces.

labcom. Op. o pensamento dela partilhar. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 . 79 www. Há no corpo. entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. o pensamento. Pensemos o corpo. bio-máquina. uma distopia (Crash). anuncia-se um novo corpo: ciborgue. 1 (não publicado). Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. 81 Idem. a aprisiona-lo. uma utopia (Hic est locus). a revelar-lhe essa ossadura. ossos que formam um esqueleto e. há no corpo. Ibidem. talvez. então. Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. por último. “O Corpo que vem”. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. Da actual relação entre corpo e técnica. não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. Pág. desfiguração ou descoloração. Não há pensamento que não comece pele corpo.” IN José Augusto Mourão. Pág. uma estética do caos. as possa enunciar. tenda a “estrutura-lo”. talvez. 19. corpo-em-rede. a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada. para dizer a invenção dum corpo no tempo. há no corpo. resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. corpo-em-fluxo. corpo-enxertado. expressão de um devir-corpo. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida. dos variados campos (do design à cibercultura. corpo que vem79 . ruga. uma alma82 e dela poderá. corpoprotésico. Cit. Não há corpo que não apresente cicatriz. “coisas que agradam”81 e. da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. crescentemente hibridizadas.i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. nunca. se for feliz. obrigando-o a ficar refém desse pensamento. IN Ana Gabriela Macedo. enunciar ou adestrar. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. para indicar um potencial (um devir). também. também. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben). corpo-digital.pt i i i i . como a ambicionam os extropistas. mas à semioticização técnica da vida. também. o pensamento sobre o corpo.ubi. também. de uma reterritorialização do corpo. trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”.

Oxalá o nosso apelo seja acolhido. (. enfim.”83 . de a ele nos dirigirmos. Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. dos outros corpos. 21.ubi. ) Em resumo. . Le penser. Du moi-peau au moi-pensant. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas. www. É uma forma. 1997. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão). todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. Pág.i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. 83 Didier Anzieu. Paris.pt i i i i . . o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos. Dunod. Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce. igualmente.labcom.

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faz sentido a mesa suportar o computador. alvo de toda a actividade hermenêutica. por sua vez. posso dizer que o meu corpo faz sentido. Seuil.i i i i Capítulo 1 Corpo. doar sentido às coisas. faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar. alors. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. 1970. p. Iuglio. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. J. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. Fazer sentido. 1. é. Paris. Du Sens. faz sentido ter corpo. Estar aqui faz sentido. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso. Greimas. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social.”2 A. se sobre isso me questionar. evidentemente. como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. 2 1 35 i i i i . Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. 2004. Mas. Jacques Geninasca. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele.

o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. 103 e segs. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos.abreoutro. o coreógrafo. o design industrial a sua. em relação dinâmica. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo. envolvendo uma série de mecanismos e competências.pt i i i i . o corpo-que. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. Lisboa. expressão de um sentido fixado4 . tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas. cada um de nós a sua. Paixão e Discurso.se. corresponde a construir o corpo-texto como discurso. como discurso. 1996. o biólogo. um documento a ler. o direito a sua. que o corpo. Munidos de determinados instrumentos de leitura. Vega. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. a sua beleza. enquanto situação. tensiva – fórica. 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. dando conta da significação do corpo. dissecar.labcom. qualquer corpo. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores.ubi. o corpo começa por ser como que um texto. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. que enuncia e é enunciado. das situações e das formas de vida. 3 www.12. que realizou a semiosis.i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . a economia a sua. intersubjectivamente. assim. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. a sua fragilidade ou a força da sua presença. o sujeito é. semioticizar o corpo. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. supra pág. p. construindo permanentemente corpos. enfim. A anatomia tem a sua a máquina semiótica. que fala e responde. Para a sociossemiótica. é semioticizado como texto. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. Trabalhos de Jesus. anatomizar. Cf. Dever-se-à considerar. o anatomista. ela avança para o nível dos objectos. campo de referência do nosso estudo. Ler. analisar. como paixão e enquanto forma de vida. portanto. isto é. De facto.

5 www. Sémiotique en jeu.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto.pt i i i i .73. em grande medida. de um vislumbre. a explicitação da significação.). p.esteja. nessa interoperatividade. envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de. em cada instante. ao mesmo tempo. que ser é estar em tensão e. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável. Paris. na expressão de Greimas. como corpo-objecto. Hadès. e ele o saiba.labcom. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. 1987. como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois. 6 A. IN M. aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”. de cada vez. é por se aperceber que é essa a tarefa que. Poder-se-à. assim. de um modo igualmente verdadeiro. que existir é estar em “tensão semiótica”. De la imperfection. Périgueux. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. de cada vez e sempre. A semiótica é uma disciplina tensiva. reversivelmente. na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. veja-se. tão somente. mais. Greimas. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas. cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. em cada corpo-a-corpo . Se Greimas evoca a parábola bíblica. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”. 1997. Fanlac. fundamentalmente. mas. Só há espera no que é antecipável.agora que vejo a minha mão. A significação tende para o sentido. nomedamente a nota 9. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos.ubi. se sentir vivo e. se sentir morrer. mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . estar à altura do que lhe aparece. agora que observo mais adiante o sofá verde. porque essa construção é interconstrutiva. prometido e adiado. (Eds. mas poder-se-ia dizer. em “vigilante espera”.”5 . de cada vez. J. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. uma axiologia. sem dúvida. Arrivé et al.

numa semiótica do corpo.ubi. 1999. Difel. p.7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. do ouvir. do bater as mãos. aproximando-se de V. do sentir dor ou alívio. C. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal). “Le schéma narratif à l’épreuve”. Brodal. da luta.pt i i i i . que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro. certamente elas são originais. Assim que entra em contacto com outros seres. Este ser deverá adquirir. . olfactivas ou gustativas. Lisboa. Zilberberg. 66. seja como for que decida denominá-las. do ver. do apanhar. designa Greimas por coalescência. A este estado de consentido entre nós e as coisas. do esfregar. E há nisso um sentido que se emudece. em particular. Kant e o Ornitorrinco. do caminhar. . Cf. do estar de pé ou deitado. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. IN Protée. do dormir. 1993. 147. Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais. ou em geral com o ambiente circundante. e assim por diante. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. C. p. 8 Umberto Eco. do bater. de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir. da posse ou da perda de um objecto de desejo. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo. do perceber sensações térmicas. 7 www. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. 1. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo.labcom. do coçar-se. do penetrar com o dedo uma matéria mole. Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar. essa experiência que é sustentada juntamente com.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. da cópula. algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. provavelmente da cessação da vida. XXI. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo.

O Campo da Semiótica.”11 . Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. agora. 1976]. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. também ele.ubi. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. 2001. uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier. www. RCL no 29. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo. entre outros. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro. ela consistirá. 1994. Sémantique pour l’analyse. do poder-ser do sentido. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. Seuil. apenas pode almejar a estudar a significação. a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. “O real é. Rastier et al. 214. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas. p.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato.J. A.. O semiótico sabe. na verdade. Sémiotique et Sciences Sociales. Paris. corpóreo. antes. na introdução ao presente trabalho. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão.labcom. C) Problemas das relações entre discursos. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. IN F. entre nós e o real. o que se faz sentir. Lisboa. Dissemo-lo já. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. O real é o que se faz sentido. quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. 11 Herman Parret. o real é. Análise essa que pressupõe. Masson. no entanto. Relógio d’Água.pt i i i i . “La microsémantique”. Paris. que embora tendo o sentido como alvo. como a ele se refere Herman Parret. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. Greimas. 10 Justifica-se. práticas e os seus contextos.

partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo. da sua instrumentalização. descrevendo os diferentes “modelos”. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em. na medida em que transforma “operador” e “operado”. para falar como Baudrillard. os seguintes quatro pontos: 1. Em macro-análise. etc. como lhes chamaria Fontanille. 3. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. estratégias argumentativas. mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. Em micro-análise. pelo menos. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. etc. 2. do corpo.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas.. Intencionalmente. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. claramente pouco sistemático.i i i i 40 José Bártolo particulares. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. isto é. É sabido que o corpo.labcom.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. -o semiólogo. ainda que outros sejam mencionados e pensados.pt i i i i . o anatomista e o designer . da corporeidade. Interessounos mais. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional. reconfiguração dos processos narrativos. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. 4. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www.ubi. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto. sistemas semisimbólicos. só de um modo muito introdutório e.

quer de dentro. é para esta mesma fonte de inspiração que. 8. de Greimas. Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido. A semiótica foi tida. durante muito tempo. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. P. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. enunciando-o). só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. porém. antes resulta na sua colocação em forma.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. tarefa que a semiótica não poderia realizar. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. De facto. 12 A. construção dinâmica. Paris. Não é menos certo. hoje. Greimas. foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas.labcom. para uma semiótica das situações. como um método de análise do conteúdo. no início dos anos 60. em definitivo. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. Esta evolução da semiótica é devedora. que. do trabalho de Greimas. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica. J. geratividade. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. 1966. através da dimensão do sensível e da “estesia”. dela se esperava que dissesse o sentido dos textos.”12 . a pesquisa mais avançada se volta novamente. Em muitos aspectos. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. www. na maior parte das vezes. se tratam de duas abordagens distintas. redescobrindo. apesar destas afinidades. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que.ubi. sobretudo. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido.pt i i i i . Larousse. não por falta de instrumentos de leitura. Sémantique structurale.

uma espécie de vampiro. permutáveis. O sentido é antes um tesouro peculiar. dentro/fora. para que ele exista há que construi-lo. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base. e construi-lo a dois. outra enquanto “objecto”. identificados: em primeiro lugar. como produto da colocação em presença de duas instâncias. 173. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros.labcom. segundo a imagem de Umberto Eco. devendo. mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e. mesmo que estas posições sejam. depois. Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas. a nossa carne envolvida na carne do outro. que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta. mas ainda não verdadeiramente o oposto). Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. que seja coisa a ser descoberta. semioticamente falando. na análise dos sistemas de representações e de valores. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. devires (já não totalmente isto. www. o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. Sexes et parentés. “Les couleurs de la chair”. em compensação. competentes para interagir em situação. isto e o seu oposto). Paris.pt i i i i . Porque se ele existe só pode ser.ubi. em síntese. corpo-a-corpo. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro. 1987. A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. uma enquanto “sujeito”. p.i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido. e geralmente são-no.”13 . Minuit. separá-los. que subsume os precedentes. em segundo lugar. Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser.

por exemplo. qualquer que seja a sua manifestação linguística. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. 174.ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar. 15 14 www. José Augusto Mourão. José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. digamolo de modo rude.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica. em traços gerais. para.”14 Nesta perspectiva. Loc. Relógio d’Água. Corpo. p. E. Técnica e Subjectividades.ta. pp. les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable. 2004. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral). Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”. “ Ego affectus sum”. limitando-se às funções e acções. Lisboa. Foi no decorrer dos anos 60. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce). os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. ainda. contudo. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras. pelo menos de forma decisiva. Identificar os cenários.pt i i i i . O lector in fabula de Eco.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo.. em grande parte sob a J.ubi. não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas. Geninasca. RCL no 33. a tarefa da semiótica interpretativa. a significação discursiva dos “textos” repor.labcom. de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é. não experimenta qualquer paixão. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux. Cit. 10-11. IN Ma Lucília Marcos e A. Fernando Cascais.

na esteira de Jakobson. Greimas. Pottier. em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. Sémantique Structurale. 1968. Barthes. ano.) 17 Da acção de Greimas. Pottier.ubi. Cultrix. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. Cf. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. de novos instrumentos de descrição e análise. EDUSP. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira).labcom. IN Critique. em 1966. Prolégomes à une théorie du langage. No 237. como a análise sémica. pág. Guiraud. Paris. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés. reeditado em 1986 pelas PUF. São Paulo. Hjelmslev. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. como o quadrado semiótico. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”. por exemplo. Paris. 1966. Mathoré e A. Propp. 18 Cf.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. no Brasil. É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior. Seuil. também. neste contexto. 16 www. na revista “Critique”18 . 1970. 1973. movimento esse que iria desencadear. Barthes.J. 1975. Morphologie du conte. assim iniciada. terá continuidade. J. uma renovação completa da problemática semântica. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. 1967. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. em particular.J. na sua Semântica Estrutural19 . Greimas. Minuit. bem expresso. São Paulo. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. a tradução portuguesa aparecerá. Dubois. visando. Surgem-nos. uma série de análises estruturais da narrativa. B. Larousse. em 1966. Perspectiva. 19 A. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. B. prefigurado por A. F. Pottier publicado em 1967. L. no importante ensaio de B. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação. R. 18-25 . Paris. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista. uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos.pt i i i i . da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral. Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural.) 20 V. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages.

as ciências humanas. pág. Courtés. Greimas propõe-se “reA. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 . Greimas. começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que.J. 21 e segs. 1979. de resto. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas. de ambição axiológica. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . mereceu. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”. Livraria Almedina.labcom. A. A Semântica Estrutural. Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. Cultrix. 24 Idem. interrogam-se sobre o que significam um e outro”. “morfologia” que.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas. “ As aquisições e os projectos ”. Pág. uma teoria geral do fazer. 22 Idem. Posteriormente. 25 Idem.25 Apesar disso. Semântica Estrutural. igualmente. 15. Ibidem. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação. pág. 1973. IN J. São Paulo. 9. Pág. Dito de outro modo. 23 Cf. EDUSP.ubi. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa. Coimbra. 21 www. Ibidem.22 . o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. organizadoras dos discursos. J. Greimas. de maneira mais ou menos explícita. 11. Ibidem.pt i i i i .

portanto. Nouvelles tendances en analyse du discours. à maneira de Monsieur Jourdain. de um “voltar-se para as próprias coisas”. o que significa que o discurso não nasceria. pela relação de pressuposição recíproca. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. valendo-se. Paris. 27 26 www. estabelecendo uma semântica científica. 29 Idem. Cf. Ibidem.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . Todorov. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. A partir daqui. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. Pág. fundado no princípio da imanência. 1981. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. Hachette. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. 24. procura “explicações qualitativas tradicionais”. Paris. antes se formava. para tal. rompendo com uma determinada visão da linguística. Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. critica a criação de uma metalinguagem descritiva. o analista da sua “memória discursiva”. Ibidem. por intermédio de interdiscursividades28 .ubi.pt i i i i . reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana. hipoteticamente. 28 D. mas. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana. instaurando um novo domínio de pesquisa. A análise do discurso. como era por vezes sua pretensão. contemporânea de Greimas. concebida como a “união. Pág. Maingueneau.labcom. Seuil. baseia-se no beletrismo e. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. porta de entrada para o acolhimento da Idem. sem o saber”. também. 1987. postula o formalismo em linguística e faz “semântica. 88. funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. e uma linguagem metodológica. T.

Relatório para provas de agregação. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. 19-20. mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. pág. vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. Lévi-Strauss. 1 e 2. Apud. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins. Dumézil. Semiótica. De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”. pp. Cf. por outro. Universidade do Minho.. intersubjectividade. Vol. A. interacção. Op.labcom.pt i i i i . O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação. corpo-a-corpo. pág. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris. 12 (1-2). Cit. o domínio do objecto textual. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. intencionalidade e comunicação. A função semiótica. Fidalgo. Cadernos do Noroeste. “Da semiótica e seu objecto”. IN Comunicação e Sociedade 1. A. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. não se limitando a segui-la e. e suspendemos a relação com o contexto. 30 www. 20. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. entre sujeito e objecto. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. reflectividade. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure. no outro.i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. dito do modo mais simples. 1999. Série Comunicação. Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. Programa e Metodologia. isto é. À época da publicação da Semântica Estrutural. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”. reafirmar os signos como objecto da semiótica. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 . e. Fifalgo. e justificar esse entendimento. Jakobson.ubi.

i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e. Greimas e J. dois componentes: um sintáctico e um semântico. o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser.. de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita. distinguindo-se. a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é. a ruptura com a “linguística tradicional”.pt i i i i . Ibidem. J. 27. e a semântica discursiva. segundo Greimas. cujos procedimentos são a actorialização. Actualmente a semiótica. chamada de percurso gerativo. também. Greimas. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas.34 Como sabemos. remontando ao nível mais alto possível”33 . 327. dispostos em patamares sucessivos. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Pág. no percurso gerativo. Enquanto esta. Hachette. Pág. Paris. a temporalização e a espacialização. correlativamente. afirmando. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. sob influência de Merleau-Ponty. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. Aparecemnos.quelas apresentam dois níveis: um profundo. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos. 34 Idem. 1979. Sémiotique. apresenta-se. assim. assim. que contém a sintaxe e a semântica narrativas. isto é. A economia geral de uma teoria semiótica.. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas. 15. Pág. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos. Greimas e Courtés reconhecem. Semântica. 33 A. Greimas estabelece. Ao estudar a estrutura elementar da significação. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva.ubi. aí. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. cujas operações são a tematização e a figurativização. pois.”32 . e um de superfície. J. de modo explícito.labcom. Courtés. 32 www. como uma teoria gerativa. A. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”.. descontinuidades no plano da percepção. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos.

Greimas. et ce. Pág. 15. p. www. . tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. il détermine. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. de certa forma. un clivage entre univers extéreoceptif. Semântica.). de l’autre côté. é possível.”35 .ubi. Na Semântica Estrutural. para Fontanille (mas não o era já. univers intérioceptif. suspendendo.. . entre la perception du monde extérieur. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio.labcom. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position. l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel. a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 . Partout où il se déplace. com alguma influência merleau-pontyneana. ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille. grâce au corps propre du sujet de la perception.pt i i i i . Sémiotique du discours.. Greimas anota que. La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques. 35. Pulim. no seu estatuto particular. et un univers proprioceptif. retirando. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible. ambas geradas pelo corpo próprio. et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (. implicitamente. uma classe autónoma de significações linguísticas. . la perception du monde intérieur. . A. Limoges.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. consequências dessa posição: “(. conceito de raiz fenomenológica. o novo estatuto dado à percepção. encontramos o trabalhar desse tema. dans le monde où il prend position. qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. já. . l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. D’un côté. Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas. J. et. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é. 1998.

ou.Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. www. como se diz. a sua interpretação. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ . Ibidem. talvez nos ajude a perceber. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”. da relação. 37 Idem. Este enquadramento. central em Saussure e Hjelmslev. Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação.37 Recuperando a categoria.labcom. com menos surpresa. a sua produção.ubi. 16.i i i i 50 José Bártolo comum. bem como. o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. Pág. a significação pressupõe a existência da relação. no mundo sensível.pt i i i i . o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais.

ubi. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. discurso que não comporte uma erótica do sentido. O discurso. dans l’ordre du discontinu. les termes “saisie” et “visée”. dont vous aurez limité en leurs extrémités. nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. Sémiotique et littérature. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”.. • Postulez à ce point. que é permanentemente agenciado. p. J.”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”. desaparecer e que modificam os valores. Não há. • Une fois établis deux graphiques. organizado em torno de um corpo próprio.labcom. 10-11. Fontanille.pt i i i i . uma instância de devir. atravessado que é por fluxos. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. directement ou indirectement proportionnel. é uma das unidade de análise da semiótica. em definitivo.”39 38 39 J. Cit. des modulations de la présence. www. à cet effet. um agenciamento de enunciação. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. Geninasca. 73. um desejo de fazer sentido. pp. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré. que fazem “aparecer. espaço de devir. mais ou menos numerosos. sabemo-lo. mais ou menos rápidos. Loc. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez. centro de enunciação. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation. Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir).

a semiótica deve ser capaz de considerar. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido. os regimes de produção. Dynamiques du sens. de uma semiótica que esclareça em que condições. que aquém e além envolvem o corpo próprio. para falar como Fontanille ou Zilberberg. a partir da análise dos agenciamentos. a partir delas produzidos. p. as situações da produção. do design à biologia. torna-lo objecto. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. 3.ubi. 1994. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. Numa palavra. pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. as sensações. Aarhus University Press. poder semiótico: poder de fazer sentido. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos. capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida. que é antes de mais.i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções. 40 Per Aage Brandt. desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. sob que forma.pt i i i i . hic et nunc . “aqui” (espacialidade). para falar como Jakobson ou Deleuze.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. numa palavra. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. da medicina às biotecnologias.labcom. nos discursos.“eu” (identidade). ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. o corpo. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder. os afectos. www. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva.

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa.pt i i i i . no sentido de “prova”. neste sentido. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo. De certa forma. p.ubi. 35. 1 – 1357 b. O signo necessário vai do universal ao particular e pode. 3 Cf. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a.40. Eco. como facilmente se entende. Tal conversibilidade.i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular.labcom. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια). www. τ εκηµριoν . Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 . regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência. servir de premissa a um silogismo.

uma maneira de ver as coisas. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que. Os incorporais não são coisas. modos de ser. Trata-se. no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. Cf. 41. afinal. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. uma imagem mental ou ideia. ainda. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. de antecipar o que.4 Da expressão. www.pt i i i i . p.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. São incorporais o vazio.ubi. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. Eco. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf. “expressão”. numa palavra. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. o lugar. muito da semiótica peirceana. Quanto à linguagem verbal distinguem. admitir. 42. então tem febre”. p. muito mais tarde. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização. a conclusão é apenas provável. são estados de coisas. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. com clareza. O λεκτ oν completo é a proposição. Quanto ao conteúdo ele não é. afinal. não só aprofundam a múltipla articulação. Não é ideia. São incorporais. “conteúdo” e “referente”. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. facto físico.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos. para os estóicos. Eco. não é som articulado.labcom. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. por exemplo. como são incorporais as acções e os eventos. como era para os seus antecessores. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. Como esclarece Eco.

Parecem categorias gramaticais e lexicais. os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos. portanto categorias da expressão.pt i i i i . remete para algo que não é evidente. O signo não concerne aquela febre e aquela doença. na semiótica estóica. O signo é tipo não ocorrência. aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev. os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma. Ou pode ser indicativo e. Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso. que deve haver fogo. mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. como. onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem. sejam incorporais. Assim. por exemplo. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística. então. empiricamente. Os signos só se formam www. De facto. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). Por conseguinte o conteúdo estóico. Une-se. Devemos. . A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre. portanto. nem aquele fumo e aquele fogo. deste modo. . mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença. Neste sentido o sujeito. mas são categorias do conteúdo. suspeitar de que os acontecimentos. Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime. porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência.labcom. um incorporal.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso).ubi. é um incorporal. porém. ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). já estados transitórios dos corpos. exemplo maior do Lekton incompleto.

labcom. Ele direcciona-se para alguém. Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. A leitura definitiva aparece. o seu objecto. p. uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. i. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações. tradução portuguesa de Rafael Godinho. O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). ainda. a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. Assírio & Alvim.. interpretante (Peirce). outros apelidam de referente (Ogden-Richards). Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon). intensão (Carnap). Gilles Deleuze. denotatum (Morris). e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara. Mas. A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos. O signo está em vez de alguma coisa. talvez. 2004.9. o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido.pt i i i i .6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity). denotação (Russel) ou extensão (Carnap). expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens).i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. Cinema 1. igualmente.ubi. cf. 6 www. e o objecto a que ele se referia. outros designam de símbolo (Ogden-Richards). Lisboa. a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química. a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia.e. ou referência (OgdenRichards). um pouco. o pragma. o que uns apelidam de objecto (Peirce). A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo. com a definição peirciana do signo. são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. Imagem-Movimento. e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). como a classificação de Lineu para a história natural. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos.

. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. num certo sentido. senão precisamente por meio da semióse. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). 2.i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 . como signo ou como índice. Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial. É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria. Mass. a um tempo linguística e cognitiva. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação. Pierce. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos). do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo. este produz numa quase-mente um objecto imediato. no sentido de historicamente mais implantada. De facto. Collected Papers os Charles Sanders Pierce. permanecendo o Objecto Dinâmico. voltamos ao Objecto Dinâmico.pt i i i i . E cada um desses interpretantes. sempre pairante. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes. 8 Idem. tanto se podem apresentar como sinal.228.ubi. Cambridge. 7 www. ad infinitum. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem. Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome. Os modos de “ser” do corpo. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo. da semiótica – a semeiologia – um signo. sempre presente e jamais captável. da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto.labcom. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes. Harvard University Press. por sua vez. 1931-66. O corpo é na tradição maior. e por aí adiante ad infinitum”8 . 2.303. Se recorrermos à classificação de C. nesta perspectiva. Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. S. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial.

como observou F. Rastier. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. remete para o signo “chuva”. da escarificação. podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. pelo facto da existência de uma relação semiótica. da realidade natural. No entanto. essa relação remete para outro signo. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. por outro lado. “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente. poderíamos retirar algumas conclusões. não deixando de ser uma referência. de um comprometimento. assente na natureza arbitrária (sinais.ubi. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção.labcom. simultaneamente. torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. por exemplo. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. de uma condição. do adorno. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais. os sinais e os símbolos de uma linhagem. O século XVIII europeu. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial. e quaisquer que sejam as articulações. de um classe. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. assim. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. A partir desta interpretação. situado ao mesmo nível do primeiro. se “nuvem” remete para “chuva”. Lotman.pt i i i i . Na perspectiva histórica da semiótica. de qualquer destas interpretações. mais profundo. que justamente valorizou a noção de signo natural. tão bem desenvolvida por J. Por outro lado. é claro que o corpo é. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. possuem realmente o estatuto de signos. o corpo seria entendido como um signo natural. índices) da relação entre o significante e o significado. signos) ou analógica (símbolos.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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de o produzir linguisticamente. (. sujeito actualizado. . que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. actualizando-a. Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual.labcom. continuando. de algum modo. Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. objecto www.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. a interpretação dá-se sob condições que. um outro significou e interpretou o nosso corpo. quer à significação. De resto. que a conjunção com o sujeito o realiza. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. realizando assim o seu projecto. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. politicamente. . Ora. Mas. A interpretação ratifica a significação. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. Interpretação e significação são acontecimentos.ubi. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”. sujeito realizado. quer como “narrador”. relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor. ). já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação. socialmente. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza. Assim.pt i i i i . Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo. tem uma natureza produtiva. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. Pode-se dizer.

à emoção. Courtés. de resto. 173. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação. 16 José Augusto Mourão. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. Relógio d’Água. 2003. “ EGO AFFECTUS SUM.i i i i 70 José Bártolo actualizado. IN J. O último Greimas parece. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. de empreender a análise das “micro-estruturas”. pretextos para o lançamento de novos percursos. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer). que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. discurso”.pt i i i i . uma intersemiótica do corpo.labcom. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. Livraria Almedina. É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille. pp. p. Por isso. 27-28. na semiótica de Fontanille. em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. J. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. na sua abertura sensível. Sujeito. a vida. torna-se possível. Corpo. o corpo.ubi. que define graças a esta posição. RCL no 33. paixão. por exemplo. “ As aquisições e os projectos”. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. a acção.”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. Pensando na evolução recente da semiótica. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. afirmar que. Técnica e Subjectividades. o afecto. Para falar como Greimas. uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina. objecto realizado. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais. legitimar. Coimbra. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. servindo-nos. às paixões”16 . 15 www. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. Greimas. 1979. que toma posição no mundo do sentido.

de efeitos actancias. considerando que a sensação e. ii) a escolha dum ponto de vista (fito). “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”. está no choque dos corpos: corpo do mundo. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. 2001. abandonando a perspectiva do signo. sede de percepções e de emoções. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. ainda que.pt i i i i . 266. 19 Jacques Fontanille.ubi. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão). p. NAS. PULIM. 20 Jacques Fontanille. o sentido.18 Na sua Sémiotique du discours. como produtora do corpo e do sujeito-objecto. também. O Campo da Semiótica. 214. 18 17 www. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis. modais e axiológicos. Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a. 30. Lisboa. Sémiotique du discours. p. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). corpo-em-vida do sujeito. no 61-62-63. de algum modo.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). 175-176.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima. ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis. Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais. em favor da dinâmica das linguagens. Relógio d’Água. É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica. como o corpo e com o sujeito. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. RCL no 29. Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. o mundo exterior e o Mendo interior. Herman Parret. por vezes. Limoges. p. mas considerando-a. Tais Idem. 1999.17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. p. em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo.labcom. iv) a formação de um sistema de valores. 1998.

esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo. na medida em que são. qualquer que seja a forma pela qual se apresente. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. uma dupla actualidade. Faz notar que. quer as teses seguintes onde. era-o.i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. Greimas. representações www. para Brandt. essa frase. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. de um modo muito claro. que “a expressão somática é sempre enunciação”. para falar como Althusser. de uma máquina semiótica. também. que não pode ser plenamente compreendido considerando. de resto. por exemplo. o design é. Ao discutir o problema da relação. sê-lo-à para Greimas como. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”). a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. José Augusto Mourão afirma. Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico. como é. da respectiva máquina semiótica. por exemplo. na medida em que não há corpo que não seja construção. não há corpo que não seja expressão. A relação. sejam distinguidos por uma diferença. é-o sem dúvida. apresentado por Julia Kristeva. para Lévi-Strauss. também. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev. estamos em crer.labcom. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. ele identificado com uma máquina semiótica.pt i i i i . cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. apenas. para falar como Greimas. depois dele. contribuindo para a sobredeterminação. Quando uma determinada frase. não apenas.ubi. sob regras específicas. sobre essa base de semelhança ou de identidade. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico). é necessário que tenham algo em comum a fim de que. não há corpo que não resulte do funcionamento. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. a maior parte das vezes. Estas considerações ajudar-nos-ão. activos mas também retroactivos. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. já o dissemos.

Au commencement était l’amour. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é. quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos. também.labcom. partindo.monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. como se verá. territorializando o excesso semiótico. Pág. evidente. 1985.i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico). por exemplo.ubi. por vezes. Psychanalyse et fois. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema. 15. considerando. Paris. da semiótica das paixões fontanilleanas. Hachette. quer para regressarmos à análise do processo de significação. 21 Julia Kristeva. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. www. que não encontra estabilidade na definição normativa .21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”.pt i i i i . a importância das produções normativas.

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mas carece. o corpo é.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo. Pág. Lisboa. Metamorfoses do corpo. 2 José Gil. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. 75 i i i i . poder-se-ia recorrer à distinção.”1 . portanto. o estuda ou o opera. O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante.. O Objecto possível é. Vol. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. e cujo Ser depende. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). 16 e segs. da Representação que dele no signo é dada. Ed. para ganhar autêntica fertilidade. para esse que o pensa. Mass. a partir do pensamento de Lévi Strauss. Relógio d’Água. não sendo o próprio corpo. tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. §536. por outro lado. 1965. IV. é efectuada. por inteiro. se age sobre o corpo. a par de muitas outras possíveis. De cada vez que se pensa o corpo. o consequente de uma significação particular que. 1997. se estuda o corpo. Cambridge. se opera o corpo. de uma dilucidação particular do fundamento da significação. Harvard University Press. objecto imediato. isto é. significável. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. pois. “o objecto como o próprio signo o representa.

como lhe cha. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”.ubi. então. da estrutura da epiderme. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas. 1979. de cada vez. p. onde eu estou. que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias). na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). que corresponde à minha mão esquerda. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira. Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. A.labcom. tal como Peirce o define. por exemplo. enquanto significação do signo. 75-91. Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. Lector in Fabula.”. constitui-se um objecto imediato. sentado em frente ao computador. daria lugar. “mão esquerda”. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base. Valentino Bompiani. e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo. O fundamento. torna-se compreensível que. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento. dando lugar a uma proposição particular. In Langages. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. 4 3 www. dos ossos da mão. se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação).ma Eco. pp. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo. com uma notável clareza. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia. no desenvolvimento da análise.pt i i i i . como defende Eco3 . 58 (Juin. Umberto Eco explica. 1980).i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”. O objecto imediato assim constituído. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. Milano. a um objecto imediato. do interior da mão etc.34. a olhar para a minha mão esquerda.

sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. Cit. as proposições e os argumentos.pt i i i i . este devir-outro nunca desemboca num outro. os argumentos . abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições. tem a ver com as definições. de original. o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc.as definições. devemos. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. Vol. que não as do corpo.. “qualquer signo só pode representar o objecto. Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica. a qual. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo . Op. Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo. 5 6 Confirme-se em Charles Peirce.ubi. o devir-outro é um movimento de intensidade. admitir. criará um signo ainda mais amplo. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. Idem.i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e. e visto que a explanação será um signo. §230 www. por outro lado. como lembra Peirce. as fronteiras. os conceitos. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante. tomada juntamente com o signo já ampliado. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. §231. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia.operam o devir-outro do corpo. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. persegue-o tensionalmente.labcom. da análise. e falar acerca dele.”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. ainda. de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. os conceitos. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica. 2. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 .

in the long run. Op. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf. precisamente.ubi. §§12 e 13 8 7 www. a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso.”7 . p. Independente do signo. seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio. desejando dele se apossar. por exemplo. 47. terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 . sem que a posse plena se dê. o objecto dinâmico. Umberto Eco. “La Séméiotique de Charles S.i i i i 78 José Bártolo os conceitos.. p. Este processo de intensificação corresponde.13. os argumentos que. Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. Cit.. como sublinha Peirce. 58 (Juin 1980). Vol. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 . de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo. Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo.pt i i i i . do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. Confirme-se em David Savan. Op. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. Peirce”. Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área. Langages. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro.labcom. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada. Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. processo em processo aliás. a um deitar-se diante de algo. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico. 9 Confirme-se em Charles Peirce. VIII. Cit. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia.

autenticamente.ubi. p. objecto dinâmico. o meu corpo não é a minha estrutura de ADN. assim. essa dor. ele é a condição de possibilidade da presença destes. eles não são menos do que o corpo por inteiro. original.pt i i i i . em si anterior. “Dancing Bodies”. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue. O meu corpo não é isto nem aquilo. como acredita. O corpo. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. o objecto dinâmico. no sentido em que não significa isto ou aquilo. A expressão é usada no artigo de Susan Foster. Mais. de discursos e de diversas práticas”. neles se não revela. nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. New York. mas ele é outra coisa. dir-se-ia de ser. verdadeiramente não está presente nos corpos. como aquilo. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. mas esse gesto. 480-495. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). enquanto. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. igualmente. O corpo/objecto dinâmico está. mas. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce). 10 www. objectos imediatos. próximo da imagem pairante kantiana.labcom. Urzone. 1992. B) Fica.) Incorporations. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido. é evocado por estes. Ibidem. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. ele é um quase-signo. a qualquer significação. eles são outra coisa. 11 Idem. mas isto. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas. são expressões do meu corpo. de facto.

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pinças. que o indizível é o dinâmico. por uma divisão que jamais será ultrapassada. mas apenas nome. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. como Pierce. pelo menos desde Antístenes. de anatomizar. como o soube toda uma tradição que. Que o corpo seja onoma e logos. se vai fazendo. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. ser capaz de saber. 81 i i i i . pelo processo anatómico. seja através de um discurso instrumental (bisturis. que das substâncias simples não pode haver logos. aproxima Platão e os místicos. ser capaz de saber distinguir. mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. no sentido peirceano. objecto dinâmico e objecto imediato. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é. como o faziam os antigos. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. pelo contrário. e o dizível. apenas. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem.i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. neste aspecto. é o imediato. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. ser capaz de saber distinguir.

2000.labcom. a folha. Corpus. as unhas. ). Lisboa. e na borda e de um de outro. intitulado Corpus1 . O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. Há bordas do corpo e bordas da escrita. distraidamente. nas intersecções. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. 11. Nos pontos de tangencia. o teclado e o ecrã do computador. um corpo lógico. as cifras do corpo. nos contactos. Ibidem. é um corpo integrado no plano do discurso. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. 1 www. nas deslocações. mas o próprio corpo. simultaneamente. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. tocar. que pretendia escrever não acerca do corpo. “Como tocar então no corpo. e como nela se vão constituindo corporeidades e. entre a escrita e o corpo. o corpo exige escrita. Escrever é tocar a extremidade. Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. o corpo que adoece. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. . Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente. o pensamento não para no limiar do nome. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem. mas o corpo. as imagens. enfim. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém. para sempre. p. Jean-Luc Nancy. 2 Idem. pensa Nancy.i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome. no nome ele persegue a ideia. O corpo que abraçamos. não a corporeidade. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis. um cabelo caído sobre o branco do papel e. bordas visíveis (a caneta. mas ainda o corpo.está sempre a acontecer na escrita”2 . tradução portuguesa de Tomás Maia. a própria linguagem nolo permite. há algo que vai permanecendo sempre. Colecção Passagens. Vega.pt i i i i . tocar o corpo. .ubi. semio-lógico. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. eles não param de se tocar. o corpo que estudamos. o corpo que vemos envelhecer. os dedos. Não os signos.

e que o expõe como Ibidem. contradições. suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio. nem mesmo sem inconsequências. como um bocado de osso. A palavra a mais em qualquer linguagem. 4 3 www. revolta-se excrevendo-se. para foras das veias por onde corre. aquém e além dela. ou derramar o seu sentido. a palavra que sempre se excreve. INCM. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. um calhau. na relação. a ver com o que não cabe na linguagem. a qualquer momento.4 Uma vez mais. ele não se escreve sem revolta. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas. A ideia é. fluindo nos bordos. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco. 1995. na relação entre corpo e linguagem. e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca. ou escrever “o” corpo sem rupturas. nem in re. como pensa Nancy.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. poder-se derramar. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos.ubi. nem é uma função operatória. p.pt i i i i . apenas. um tronco. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. o corpo é a ideia. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. do corpo com a linguagem. o fim do sentido. no sentido da escrita. estando no acto de escrever. nos bordos. aqui. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”).labcom. Série Universitária. na possibilidade da escrita. reviravoltas. o seu excesso. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. este tronco ou este bocado de osso. diz Nancy. esta concha – são apenas manifestações da ideia. mas unicamente cum rebus. quase derramando para fora deles. nervosa. escrita e por escrever. o plano da significação. O excesso não tem. É preciso atravessar este “sujeito”.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. 21. desvios do discurso em si próprio. ao contrário é o fim dessa idealidade. descontinuidades (discrição). e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. O Pensamento Morfológico de Goethe. Perante esta concha. como sangue com demasiada vida que parece. Lisboa. então. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego. nem post res. a sua fertilidade.

como o anota Eric Landowski. vivemos o corpo de dentro para fora. são sentidos. corpo e mundo. p.pt i i i i . e num certo sentido. mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. de outras vezes. o corpo do velho e o corpo do doente. É sem duvida verdade. não pode ser senão intersemiótica. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. nas dobras. Não há sentido sem corpo a corpo. no face a face entre o dentro e o fora. é o objecto que nos designa.7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. O sentido dá-se. nas bordas. Op. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. Lisboa. constituem-se intersubjectivamente. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. no interface. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem. 25. Não só o corpo mas também o mundo. p. na borda. em que dentro e fora. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo. 215. nas uniões. que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. para usar expressões de Parret. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido. quando se estuda o corpo. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”. Maio de 2001. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy. Cit. Herman Paret. para ser adequada.. Relógio d’àgua. em semiótica. tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar. mais do que nós o designamos a ele. O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”. o calhau que designamos por “aquele corpo”. Habitualmente. 6 5 www. nas intersecções. Porém.ubi. que melhor conhecemos. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que. p. No 29.5 O corpo expõe existência sobre os corpos. O corpo é um estranho objecto de estudo. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar. 2001. Revista de Comunicação e Linguagens. corpo e linguagem. das “significações” e das “interpretações”. 215. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . nas junções.labcom.i i i i 84 José Bártolo tal. 7 Idem. designamos por semiosis.

he asked.. mas de um problema de enunciação .podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. um problema de orientação . Seguir-se-ia.que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo. Relógio d’àgua. mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto. 9 Lewis Carroll.pt i i i i .quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá. 2001. Revista de Comunicação e Linguagens. O “ideal”. onde parar. Lisboa.271286.como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério .é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação . seria alcançar um ponto de partida real.de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto . 8 www. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll. que é. onde começar.109.”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. afinal. p. por onde seguir.um saber o que se quer saber . isto é. em relação a este corpo objectivado. “Fronteiras do corpo: Fazer signo. naturalmente. Alice’s adventures in Wonderland.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. finalmente. porque não se trata tanto de um problema de conhecimento. please your Majesty?. No 29. Maio de 2001. and go on till you come to the end: then you stop. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. distanciação e orientação . 1982. Trata-se de saber. a um tempo. London. Os Três problemas .labcom. Begin at the beginning. o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível.enunciação. fazer sentido”. quando se estuda o corpo não há um objecto determinado . então. Chanceler Press. o que o método pretende alcançar. very Gravely. A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura . sujeito que analisa e objecto de análise – e é. aliás. condição da sua objectivação. pp. processo este que é. the King said. Ou seja.ubi. A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski. o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin.i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 .

não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. movimento para um original. é essa a sua organicidade.do corpo da criança. Cada representação do corpo . a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo. ou que uma noite é uma noite. retira-se o corpo do seu enquadramento natural . esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. a transferência cientifica . Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”. Lisboa. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . um typus. esse halo que torna cada representação do corpo incomparável. a sua ideia gerativa. Por outras palavras. sobre esta ultima definição veja-se H.a objectivação . identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade.permite exteriorizar. Pelo contrário. que se não dá nunca. do corpo do doente . cada fotografia. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela. porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. preenchendo. Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo .pt i i i i .cada desenho. não induzida da totalidade de representações afins.do plano da vida para o plano de estudo . um determinado agenciamento discursivo. englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso. concretizando. deixa aparecer. Herbert Simon o define. mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida. Isto é. Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 . Arménio Amado. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada. isto é.tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes.labcom. A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. pp. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera. isto é.ubi.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl. cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano. a ideia de corpo. do corpo da mulher.25-28. a artificialização é parte do processo de validação. 1981.enquanto forma contém a sua ideia. As Ciências do Artificial. 10 www. cada análise médica .do plano da vida . Simon. por exemplo. cada radiografia.e isola-se num enquadramento artificial .

leva a cabo a sua própria possibilidade.i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste.labcom. porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa.pt i i i i . ao mesmo tempo. potência e acto. como todos os seres que nascem.ubi. www.

pt i i i i . estranhos e íntimos ao mesmo tempo. ou por um qualquer inex- www. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto. Dardy e A. disposição e funcionamento. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza. O corpo é um desses territórios ambíguos. que melhor conhecemos.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis.ubi. De Montméja (1868). Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade. e num certo sentido. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição.labcom. de A.

13 Confirme-se em Maria Augusta Babo. O corpo é.”11 .labcom. “impedimento”. Fazer signo. p. Cit. de facto. o aproximarse de algo. A questão central está precisamente. no entanto. O corpo. “interpor”. Obstaculum significa. investigado. em suma. 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. assim. precisamente. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e. “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que. na linguística.”13 . Lisboa. concretamente a Ob-jaceo. Augusto Mourão. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. Relógio D’Água. “Para Uma semiótica do Corpo”. “obstáculo.. de um embaraço. o cravar as mãos em algo. mais estreitamente. no 29. O Campo da Semiótica. IN Ma Augusta Babo e J. 255. a ser estudado (ou a ser operado. enquanto objecto de estudo. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão. “fincar”. o estar deitado diante de algo. “objecto”.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez. Objecto significa “pôr diante”. Fazer sentido”. contudo. mais correctamente. a base da sua elaboração”. ou. está ligado a uma acção. A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . Op. “embaraço”3 . “expor” (a um perigo).. pelo simples facto que ele é nós próprios). 11 www. de uma falha. Op. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. mas. num certo sentido um pressupõe o outro. marca de uma limitação.ubi. por seu lado. “cravar”. está ligado a uma inacção. Revista de Comunicação e Linguagens. porventura. por um lado. e ainda.). mais do que objecto”.pt i i i i . parece. por sua vez. pois. “Fronteiras do corpo.255. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. em relação ao seu significado. O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram. Cit. obstáculo na medida em que é objecto. O obstáculo. manipulado. 2001. Maio de 2001. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”. Ao tomar-se algo como objecto. Cf. p. vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. próximos. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. p. ele sempre acolheu.

16 Confirme-se em Roy Ellen. algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . quase exclusivamente.”16 . ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo. London. pp. a partir da segunda metade dos anos 8015 . O que Ellen desenvolve pode ser classificado. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”. IN John Blacking (Ed. os significados linguísticos do corpo. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. p. De facto. de semântica do corpo. essencialmente. Ellen antecipa. mais do que de semiótica do corpo. antecipando assim. Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. As limitações do estudo de Ellen podem.ubi.). assim. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen. a Ellen interessa. tomar o corpo como objecto de análise. 14 www. New York & San Francisco. por exemplo. num outro sentido. Academic Press. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível. sintomaticamente relevante se se quiser. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado.. por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo. por nesse alargamento. à falta de melhor definição. uma série de estudos.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que. como se sabe. The Antropology of the Body. IN Encyclopaedia Universalis. em particular. diríamos de base antropológica.pt i i i i . numa antecipação que não é apenas intuitiva. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 . deixar perceber. 1985. Paris. O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world. Op.labcom. desenvolvidos.i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. mas não deixa de ser relevante. 1977. Cit. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de.343-373. 344.

Eric Landowski faz notar. 18 Cf. du signe.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu. plenamente rigorosa. 17 www. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. Cit. não só o corpo não ganha corpo. com pertinência. no entanto. Em L. 21 Landowski. se recuperamos a classificação de Benveniste. encontramos Jean-Michel Berthelot. Ibidem. du symbole. Em Jean-Michel Berthelot. Op. 20 Idem. Marin. que fazer do corpo um signo é. e de l’indice. como a linguagem não ganha corpo. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais. como nos mostra Berthelot. il peut jouer tout à la fois du signal. 1998/1.”20 De facto. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. contudo. indíces) da relação entre significante e significado. semântica e pragmática). também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse. a um tempo.ubi. 19 Cf. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística. 9. op.18 Num outro quadrante. antes ganha expressão ou significação. Cit. espaço de fronteira. no que diz respeito ao corpo. não somos capazes de conhecer. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. Recherches Sociologies.“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. na sua elaboração. Certo é.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. e no entanto. torna-se evidente que o corpo é.pt i i i i . pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”. instrumento e espaço de comunicação e significação. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra. lugar de encontro. por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . A afirmação não é. p. signos) ou analógica (símbolos.labcom. demos já a entender um certo corpo através da linguagem. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”.

estando tuberculoso. admitimos que o corpo e. mas igualmente. pp. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. em particular. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. estrutura. ao mesmo tempo. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade. analogias – é. signos. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas.i i i i 92 José Bártolo corpus. em “linguagem corporal”. Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. 22 www. sem o notar. 7-12. De facto. Estamos na presença de dois campos semióticos distintos. “Non Corpus. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. formas de significação não-verbal que. 2000. falamos. então. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. importante. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e. As figuras designam como que a zona de troca.labcom. um aspecto. os gestos “falam por si” e. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo. quer a linguagem. em “fôlego” da escrita e. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. Assim. 22. do mesmo modo. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente.pt i i i i . De qualquer modo. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem.ubi. Há modos de ser no corpo. seguramente. por exemplo. reciprocamente. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais. IN Invigilatata Lucernis. um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar.

Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar. explicita ou implicitamente. Não há. mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria. justamente. digamo-lo assim. sendo que a sociossemiótica não rompe. Greimas. É. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”.ubi. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. sem qualquer laço de linguagem”23 . José Gil. claramente. e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). “ O corpo. não rasga. a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. um organismo sem expressão nem fala. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos. há. actualiza e redeCf. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade.pt i i i i .59. Ricoeur ou Fabbri. o actual rumo da disciplina. a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. sem mais. reduzir. mesmo que em traços gerais.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal. quer dizer. porventura. tal rumo parecenos. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas). Revista de Comunicação e Linguagens. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”. 23 www. constitutivo de ambos e actual em ambos. de resto. O laço que une a linguagem ao corpo é. p.labcom. autenticamente. antes desenvolve. no 10/11. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 . excessivo.

Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo. e o da tradição peirceana. c’est l’séme. Saussure. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. entre outros. www. por Fontanille. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose. o da semântica interpretativa de Rastier.labcom. Na semiótica da última geração – representada. b) Ancoradouro deíctico. le suivre comme un ballon dans les airs. et l’ hydrogène la signification. Fabbri. et l’enveloppe le sôme. avec certitude de le rattraper. nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit. traduzido pela figura do balão. Geninasca. nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais.115. Le ballon. o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. Il est tout pour l’aérostier.pt i i i i . sema/soma. sans que le ballon soit rien pour sa part. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. Parret. mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe. sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri. Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. O corpo.ubi. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. Landowski ou Marsciani . mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. Mourão. Écrits de Linguistique générale. corpo-semântico e corpo-carne.”25 . p. de même que le séme est tout pour le linguiste.

26 IN E|C. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. un percorsso generativo dell’espressione.i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico. dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. pressuposicional. d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade. “Figure del corpo di Jacques Fontanille”. in secondo luogho perché si dipana. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural. c) Uma revisão geral do processo generativo. . . il quale rimarrebbe in memoria nei testi. revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (.”26 .ubi. e) A semiótica do contínuo. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida. Pierluigi Basso. b)Uma revisão da sintaxe narrativa que. p. 2005. dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade. Gennaio. ). attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa.labcom. a agitação proprioceptiva.1. se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto. Rivista www. que se estende a fenómenos como a tensão.pt i i i i . o devir. reservando espaço ao acidente e às paixões. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido.

a partir dos mesmos instrumentos. de analisar regimes de signos. já o dissemos. o discurso – verbal e não-verbal . leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos. devires. imagens e gestos. antes de mais. tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos).i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. representa antes uma actualização da semiótica discursiva.labcom. acções e paixões são objectos de análise possível. pese as denominações diferentes. uma intersemiótica (no sentido de Parret).neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto. é. o objecto de análise da semiótica.ubi. textos e corpos.pt i i i i . de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski). quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. de fazer análises semióticas dos discursos. Podemos tentar esquematizá-lo: www. A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva. por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum.

Universals in linguistic theory. o que significa. Holt. então. . na definição dada pela Semântica Estrutural. em oposição a estas duas perspectivas. New York. 28 27 www. de um modo mais geral. Reinehart & Winston. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. 132-33. Greimas.pt i i i i . T. da Escola de Paris.). se se preferir.29 Como é sabido. ou seja a intentio auctoris. pelo menos ao nível da frase. 1968. Semântica. Pág. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”. como mostrou Umberto Eco. 1974.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. A. Como identificar. Halliday. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 . Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. e no entanto. Bach e R. 34. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. devedor de Propp e Lévi-Strauss. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. “Le base fonctionnelle du langage”.ubi. J. Ch. . a semiótica de Greimas e. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. “The case for case”. a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). “captar ao menos dois termos-objectos. a semiótica dos autores da “Langages” ou. IN Langages. Para o ponto de vista hermenêutico. Fillmore.labcom. . corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. Harms (Orgs. 29 M. K. IN E. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase. a interpretação tem por finalidade.

o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. em Hjelmslev. Define-se.ubi. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. Com a competência modal e. o poder-fazer e o saber-fazer. mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer).fazer. a junção e a transformação. e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. Greimas e Fontanille. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção. O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização. pela transformação de estado). de Benveniste. passo decisivo.pt i i i i . as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. estamos em crer. encontram-se na definição lógico-matemática da função. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson. que transformam a relação do sujeito com o quer. consequentemente. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural). do sujeito e do objecto. o dever-fazer. entre estrutura e função. com a modalização do fazer. A estes três estados. na Semiótica das Paixões. como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. acrescentaram um quarto modo de existência. o modo potencial. da função em enunciado. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. ou seja de programas narrativos.labcom. o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. como uma www. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções. a partir daí. As bases dessa reformulação. como já fizemos notar. em particular. Malinowski ou Nobert Wiener).i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e. Na semiótica greimasiana.

a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado.ubi. J. Por isso mesmo. No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 .labcom. 31 A. No primeiro caso. II. que não o modalizado. melhor. determinam-se diferentes tipos de narrativas. Fontanille. Greimas. “De la modalisation de l’être ”. relacionando-se com o sujeito. seguiu-se a modalização do ser. 9. No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. para o encontro com o sentido. deste modo.30 À modalização do fazer. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer). 1979.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer. ao ser investido de valor. que determina o objecto (ou. como dissemos. J. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas. pp. o diz verdadeiro. 1993. c) Como na modalização do ser. a partir daí. intencionaliza-se. quanto ao local de incidência: modalização do enunciado. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. Greimas e J. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. substituindo-se. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. pelo dever. diferenciam-se dois tipos de modalização. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. Seuil.pt i i i i . A. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. no objecto e repercute no sujeito de estado. Paris. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos. Sémiotique des passions. modalização do objecto. 30 www. 52-55. Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. Des états des choses aux états d’âme. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. que recai sobre o predicado.

por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica. essencialmente.labcom. de paixões complexas.ubi. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. darmos resposta à pergunta. as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. a semiótica foi. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. uma semiótica centrada. sobretudo. Distinguem-se paixões simples.pt i i i i . assim. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica. assim. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. na instância do discurso. Numa segunda etapa. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas. colocada lá atrás. “medo”. www. é possível reconhecê-los como “amor”. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser. Abre-se. ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção. Por outras palavras. desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. já no domínio das paixões. resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto. gradualmente. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. em que várias organizações de modalidades constituem. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto.i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. “angústia” ou “ambição”.

passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. passional. o que significa. de certa forma. como diz Landowski. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso. por outras palavras. c) Os simulacros modais e passionais. também. em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. bem entendido que toda a comunicação é. A significação surge-nos como um processo. www. c) Finalmente. que podemos designar por devir.labcom. o corpo-a-corpo original.ubi. não só. intersubjectiva mas.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável. A semiótica dos humores. a analisar. patológico. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto. contagiosa.pt i i i i . os simulacros modais e passionais.ricas. a semiótica passa a considerar. ela dá-se. em relação ao sujeito modal. A precondição tensivo-fó. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva). O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó.

. Seuil. “La Malaise”. permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise. Vol. Pág. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso. Fontanille. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. a saúde. Em todo o caso. vai Fontanille na sua semiótica da doença. Cit. No 3. relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. Spoleto. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. Fontanille.”35 Mais longe ainda. Morin. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba.. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. 33 J. “ Il discorso della salute”. (3) les orientations axiologiques. Quase sempre a doença é percebida negativamente.. fim de remissão etc. Op. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. há sensações.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 .) . Greimas e J. 34 A./01 Nov. dans le processus humoristique. 29 Ott. uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos.. 1991. dans l’idiolecte. a doença comporta uma outra dimensão figurativa. Pág. No limite.pt i i i i . Congresso AISS. e há sintomas de uma determinada perturbação. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida.ana.. “en ce sens que. IN Protée.). alerta. A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença.labcom. o corpo-sem-orgãos que a manifesta. 35 C. la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. 2004.34 Na esteira da Semiótica das Paixões. Como “motivo”. Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille. revelação tardia. extraordinária. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. 95. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal. anómala. J. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue.. Sémiotique des passions. Paris. Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. 30. ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 . 100. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso.ubi.). 32 www.. isto é.

”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. mais il est l’expérience intime. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo.pt i i i i . constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo. aliás. mais cês informations ont une forme significante. Ibidem. desligação ). por exemplo a saúde. incubação. que se compreende por relação com o corpo normal. enquanto que a manifestação “anormal”. Fontanille. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”. bem como o conjunto das nossas experiências sensorias. qui donne lieu à des représentations. fazem funcionar. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. www. Pág. De facto.labcom. é a de que a “éprouvé somatique”. l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. funcional. é um estado. a reparação normaliza o monstro. como diz Fontanille. O corpo normal é o corpo eficiente. “La malaise”. o seu corpo normal. do ponto de vista figurativo. é uma sequência narrativa. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. compreendendo. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur). o corpo-marginal. O corpo defeituoso deve ser reparado. Idem.i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. à des interprétations.ubi. o corpo-monstruoso. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. prestável enquanto instrumento integrável numa máquina. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”. O corpo-doente. o corpo são. o corpo-estranho. uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J. apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado. a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. 2. por exemplo a doença.

quando as defesas baixam. uma perturbação provisória. www. à la différence de la maladie.ubi. Ibidem. e. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”. Pág. Jacques Fontanille afirma: “Certes. onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. Ibidem. por assim dizer.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. Médico (corpo 38 39 Idem. por outro lado. devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir. le malaise. la santé se manifeste et se donne à ressentir. et le niveau dit du plan de l’expérience. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. e uma fase terminal (handicap. O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. 4. como resultante de uma “tensão permanente”. et qu’une illusion d’absence de transformations. a saber o plano da existência e o plano da experiência. 40 Idem. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. inflamação. où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. e a anormalidade um acidente. comme un état stable et durable. por sua vez. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. morte). a duração do estado normal. ni même “symptomatique” ”. Trabalhando o par doença/saúde.pt i i i i . desgaste. Ibidem. 3 Idem. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. saturação).”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. correspondendo a um processo “multi-polémico”39 .i i i i 104 José Bártolo (infecção. um estado de coisas. Pág. Do ponto de vista semiótico. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique.labcom. um estado de alma. entropia. um nível fenomenológico. este não é mais fenomenológico do que aquele. comme une absence d’événement. a par destes dois níveis de “funcionamento”. ocorrendo.

le “corps-actant” du plan de l’existence. 3. “le statut de l’actant change radicalemnt. noutras palavras. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de. como um acontecimento perturbador e destabilizador. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo.labcom. ataques e defesas em todas as direcções). 5. por outro lado.ubi. Pág. Podemos. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. por embraiagem. Ibidem. constituído por uma estrutura polémica multiforme. definir. a partir de tensões de resistência. e o corpopróprio. constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. profundo e existencial. a anomalia. nesta perspectiva. o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. Devemos considerar a existência de um corpo-actante. A reunião dos dois num só actante. por um lado. em síntese. que manifesta. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. 2. a resistência síncrona e controlada. ou. normalizada. Idem. outro. mas que é possível controlar.pt i i i i . forças. como unidade coerente da experiência. le “corps-actant” du plan de l’expérience. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. o anormal (o monstro. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive).”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. como um estado estável. Ibidem. de certo modo. perceber: 1. superficial e experiencial. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. A existência de dois níveis narrativos: um. www. e. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. estabilizar.

www. num corpo unificado. nunca esteve verdadeiramente separado. a ligação do que.pt i i i i .ubi.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência. afinal.labcom.

é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www. o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo.triplov. pouco a pouco. o semiólogo. formulando aquela que se tornará. a sua divisa. mas porque a visão é. bem como a ideia. 2 Idem.pt.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. 1 107 i i i i . por excelência. A citação. de certo modo. em certo sentido.2 A visão é um processo de enunciação. para alguns institutos de anatomia. a fazer dele objectos”. enunciá-lo. não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação. só conhece o que analisa e o processo de análise é. notanbis rebus. já. olhar o corpo é. tal como o anatomista. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione. “Observa tio diuturna. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. como o anatomista. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. sempre. Ibidem.

i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real. ao seu desmembramento – o corte linguístico é. descreve-o. Corpo. antes. objectiva-a como coisa real tornando-a.ubi. por exemplo. funcionamento orgânico. corta-o. a um tempo. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise. Poder. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo. Litoral. Lisboa. inevitavelmente.labcom. www. por exemplo. Fenómenos como o desejo.122. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem. – e zona de ressonância interna/externa. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. José Gil.pt i i i i . em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. a linguagem apresenta-a. p. Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. circulação sanguínea etc. sentida por de dentro. muito mais. através da linguagem no presente real. e que propriosentida. 3 A expressão e a ideia são de José Gil. um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo. disseca-o. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem. há. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. Espaço. passível de ser analisada por um médico. 1988. a dor. comparável ao corte anatómico. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem. Cf. um laço intersubjectivo que liga. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem. O corpo é. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . a dor que eu sinto do meu braço. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. aliás.

pelo facto de se representar um corpo. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente. que se constitui. espaço feito. Quando eu penso. neste caso. como diria José Gil. o corpo e a linguagem devem. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. Actes Sémiot. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. desde logo. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. significa. a partir do m’eu corpo. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior. É o corpo.. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. relativamente ao corpo. 4 www.pt i i i i . pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. aqui evocar Merleau-Ponty. e não apenas algo representado. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita. exterior ao representado.ubi. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido. o “eu penso”. A representação não é. A restrição da apresentação. pp 1-31. “Modalités et pensée modale ”.i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado. um representado que exprime modos de representação. então. No 3. Língua e infra-língua. Poder-se-ia. sob certas condições. ouço. uma forma da representação. intercorporeamente. 1989.labcom. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. “eu vejo” etc. à semiótica. É pacífico. O corpo orgânico é. de lamelas. IN Nouv. ser identificáveis”4 . Tal operação não é. Esta interpretação não é estranha. Zilberberg. ao operar Cf. toco. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. pelo menos desde Greimas. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador. C. vejo..

IN Langages. que temporaliza e espacializa. Cf.pt i i i i . São Paulo. 7 Maria João Ceitil. associado à língua e ao seu uso social. No Curso de Linguística Geral. Pôr o Corpo a Pensar. determinando as posições do Tu e do Ele5 . 5 www. O corpo pode falar por ventríloquia. Estética.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc. No 17. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”. E. Semiótica. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis. ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social. celui de l’expression. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . 2003. expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. Pág. (Eds. 6 Jacques Fontanille. quase biológico. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. Benveniste.). o que. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. um dos mais interessantes. Dizemos que o corpo fala. 222. 1970. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana.ubi. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. que o “sorriso comunica”. Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. IN Eric Landowski et al. talvez não corresponda. a dizer a verdade ou a mentir. talvez. tornar comunicantes os seus sinais. Educ/Uap. Lisboa. ISPA. Não é.labcom. Estesis. comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne . celui du contenu. por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”.”6 . “L’appareil formel de l’énonciation”. et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. 1997. Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. et l’autre.

da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível. indo. aliás. designar por uma semiótica cultural. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. em estruturas modais. a semiótica das situações e.labcom. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. Se partirmos.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos. que nos interessam aqui dilucidar. www.ubi. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface. em termos de estruturas narrativas. por outro lado. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. eles correspondem ao percurso gerativo da significação. sendo as condições desse fazer. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi. A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo. que fundamenta. No entanto. isto é. do contágio. buscar a Fontanille a definição. quer no plano semântico quer pragmático. seguindo a proposta de Fontanille. mais do que a partir da perspectiva da antropologia. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. aliás. e da estratégia.pt i i i i . a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. por um lado. permanentemente. a semiótica do contínuo e das tensões graduais. O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. pode falar na medida em que ele é feito falar.

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José Bártolo

Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
1 2

A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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www. mas que deixam escapar a continuidade. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo. sem falha. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”. no corpo vivo. De facto. ou umas sobrepostas ás outras. não pode ser limpa. o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim.sem fendas. do eu e do outro. no plano da vida não há entre. mistura de visível e de invisível. Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. fendas ou falhas de sentido. de tocante e de tangível. há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. então. também.i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. como algo simultaneamente expressivo e oculto. “escrevo no computador”. A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. há uma ligação. que retomam a tocar o teclado . interrompeu-a. a imperfeição contínua. mas é a própria análise quem estabelece. escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. A análise não só quebrou a acção. as determinações e as fronteiras. Analisar parece pressupor. sem que entre um e outro hajam brechas. “escrevo com a caneta”. L’oeil et l’esprit.que se dão umas na sequência das outras.pt i i i i . No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior. 1964. mas. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. que caracteriza precisamente o próprio corpo.ubi.labcom. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta. a própria vida.num corpus . de um modo não-natural. a sua realização terminará no inventário de posições . sob este ponto de vista. o seu sentido. 6 M. et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 . por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”. Gallimard. “ dirijo as mãos para o teclado”. 13. “agarro a caneta”. O corpo aparece. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. para o gesto dos dedos que agarram uma caneta. que escrevem uma frase. Paris. Merleau-Ponty. p.

Greimas e J. uma “paragem”. 1991. A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia). apresenta uma noção de corpo. Paris. enquanto na acção. Seuil. “transitividade”. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. distensões ou euforia. respectivamente. p. na expressão de Cl. Raison et poétique du sens. “dés états des choses aux états d’âme”. por oposição.i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. De facto. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. de outro. sentido o seu cansaço. com o seu sentido de “transporte”. A Semiótica das paixões7 .pt i i i i . 7 www. eu estou dentro dela. retenções ou disforia e. Ora o corpo. 8 Cl. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta. Este conceito. estamos a articular em descontinuidade e continuidade.101. Perceber pressupõe. A noção de perceber. Fontanille. à continuidade entendida como “paragem da paragem”.J.labcom. prefigura a tensão entre sujeito e objecto. Zilberberg8 . por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA.ubi. cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. falamos em passâncias. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. entre estar dentro e estar diante. escrita por Greimas e Fontanille. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. Sémiotique des passions. sentido o frio. entre este estar dentro e este estar diante das coisas. próxima da Merleau-Ponty. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. e impôs-lhe rupturas internas. por exemplo. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. Des états de choses aux états d’âme.xe. PUF. Quando de um lado falamos em saliências. em semiótica. O próprio subtítulo da obra. ou. deste modo. isto é. é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica. Paris. Zilberberg. “passagem”.

sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido. 155. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós. 144. Só conhecemos aquilo que vivemos.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui. elas prolongam um acontecimento. eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. São Paulo. Gallimard. Pág. deviendra un pathème réalisé (et non plus. Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir. C. a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 .‘susceptible de’). isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele.pt i i i i . o acontecer do sentido. dans ce contexte donné. Ibidem. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo. “ Notas manuscritas de A.labcom.. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” .”12 M. 231.ubi. J. Ibidem. Merleau-Ponty. num caso como noutro.. J. Paris. Pág. 12 A. Do inteligível ao sensível. Idem. Greimas. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 . IN A. 11 Idem. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. Educ. 10 9 www. Greimas”. pois.estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído. Pág. “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. 1992. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação. Phénoménologie de la perception. Não há significação sem semiosis. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos. sentindo-as. Oliveira. que nasce do corpo próprio. 1995.

não está a falar de matérias estranhas ao semiótico. 29. Desta singular distorção.ubi. que me faz presente e a quem presentifico. 14 Idem. o presente barthesiano é o presente da enunciação. Livraria Francisco Alves. Barthes. de presença. nasce uma espécie de presente insustentável.”14 Se a relação com o outro gera angústia. Ter a experiência do outro. o tempo da referência e o tempo da alocução. antes. como diria Parret. a “apreensão amorosa” em Geninasca. estou bloqueado entre dois tempos. não é recebê-lo passivamente mas. Ibidem.. ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”. simultaneamente. Tradução portuguesa de H. Cit. em ausência por desse outro. tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. para falar como Merleau-Ponty. 13 www.pt i i i i . não pode restar nada mais do que uma enunciação. de encontro. por outro lado. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. Rio de Janeiro.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. no “intercorpo”. Op. (. o instante em que a presença se rasga. Pág. 65. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência. retomá-lo.15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. ) Sei então o que é o presente.labcom. isto é.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. Fragmentos de um discurso amoroso. vivêlo. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . . 1988. presente como alocutório. . inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. dos santos. Pág. o outro está ausente como referente. 299. 15 M. situação com efeito extraordinária. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. assumi-lo. Ponty. Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada. Pág. 16 Idem. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. Ibidimem. reencontrar aí o sentido imanente. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto.

Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun. Lisboa. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora. 1996. na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . circunstancialmente. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. 20 Merleau-Ponty. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. 278.”17 Por outras palavras. Ibidem. Semiótica. “Sobre el contagio ”. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . 21 Idem..pt i i i i ..ma-se desta leitura ao trabalhar. aproxi. O instante do encontro é kairos. A intencionalidade do corpo próprio. Pág. Paixão e Discurso. 19 José Augusto Mourão. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille. como de resto já vimos. fundamentalmente. Lisboa.19 . Op. antes. tempo oportuno.21 Eric Landowski.labcom. o conquistada. 2001. expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”. reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. Vega. em parte. uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro. Pág.. uma pré-construção do encontro. Landowski et al. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. Instituto Piaget.. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz. e na perspectiva da semiótica o que. Pág. 117. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”. lo que. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo. 128. IN E. pero no armonía preestablecida. O encontro não identifica um “puro acidente” mas.. Cit. Sujeito. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade.ubi. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. 18 17 www. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida.

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à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. que actualiza. 1980. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. Contudo o literal “factual” e o “representado”. Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. quer a forma de expressão. Paris. compreende-se a representação. au moins dans le cas où l’expression est linguistique. compreende-se a figuração. 123 i i i i . lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. por outras palavras. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. Minuit. dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. A este respeito. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari.”1 Quer a forma de contéudo. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. de resto. Un régime de signes constitue une sémiotique. 140. isto é. Mille Plateaux. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. il y a toujours une forme de contenu. reconhece-se a factualidade. Pág. reconhece-se a literalidade. ou.

a parte e o todo. soma. a “intenção de dizer”. como objecto tornado compreensivel. numa relação de superfície/profundidade. É o discurso. isto é. Vega. carne e cadáver. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. tornado acessível. A compreensão é. uma apropriação. 45.ubi. por acidente. quer a pele que a reveste. 1998. nada de estável permitirá a leitura. corpo sensivel. em segundo lugar. corpo-signo. por exemplo. Se o discurso se torna diaforia pura. Se tomarmos como exemplo. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos. que decide do “regime de linguagem”. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. intersubjectiva e. Mas a linguagem também não existe em si. 2 www. Conceitos como. Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. são fixados por interdefinição. por reconstituição dos estados intermediários. a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo. uma operação de estabilização. Ibidem. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão.”3 . aquilo e aquilo ( entre corpo.”2 O semiólogo opera como o vampiro. quer o interior que vejo se. Por outro lado. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo. o interno e o externo. são necessários interlocutores. já o dissemos evocando Umberto Eco. Literatura e semiótica. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade. na perspectiva semiótica. me cortar etc. a geração. mas discursiva.i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. não é linguistica. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. isto é. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. Pág. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo). tornado transmissível. carne. Lisboa. então. corpo-em-vida.labcom. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade.pt i i i i . assim. regularidades. A sedução do real. por exemplo). não a linguagem. 3 Idem. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. a que referimos o fenómeno. “Explicar” é. de redução.

inteiramente. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio. e neste sentido. o facto descrito anuncia-se. Cit. Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. corelacionando explicação e compreensão. Explicar é. A demonstração exige autoridade. em detalhe. 45. semioticizar o olhar.. que o comentário seja propedeutico à crítica. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”.i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. não é possivel. a figura do comentador e a figura do crítico. intimamente. a ter um valor normativo. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. Apud.labcom. é que o comentário “forja” a crítica e. em rigor. Explicar significa demonstrar. Op. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 . por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. tornar compreensivel. sem que contudo se esteja já a interpretar. do saber e do fazer. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro. também.ubi. A explicação tende. tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber. explicar é fazer compreender. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. guiar o olhos. portanto.que. sempre. chegar a compreender sem se ter descrito. no entanto. irrompe dentro da explicação . Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. isto é. José Augusto Mourão. tornar acessivel. Fontanille. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras. estabilizar um sentido que previamente se construiu.pt i i i i . um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. www. Não surpreende pois. Pág. Dupla semioticização. explicando-lhes o que vem e como devem ver. assim. da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. Envolve-se. Mas demonstrar é. a demonstração requisita esses olhar. então.

Págs. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. como objecto. Pág. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. 48.. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”. 271José Augusto Mourão. actualmente. Lisboa. a partir das quais. por assim dizer. 272.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. O conceito da minha mão pode ser significado.ubi. “este corpo extenso que.pt i i i i . mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue. isto é por mim. Cit. Op. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer. O que se visa é constituição de sínteses. Como escreve R. Sabemos que durante muito tempo. ela pode ser enunciada. isto é. que toca o teclado etc. numa medida identica. aquela pela qual.”5 . tais como “a minha mão”. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. que tem cinco dedos. a compreensão é um agenciamento da explicação. “My hand”. Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente.labcom. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro. isto é. que a vivo como minha. é o objecto que. 6 www. A explicação é. podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras.”. sobretudo a partir de Ricoeur. De facto. funda vários representamen possíveis. Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso.. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos. a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. Mediações... 2001. Mas como coisa-no-mundo. propriamente.é esse o seu ideal. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil. a explicação é um agenciamento da descrição. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação.

como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. 1985. 1990. quando Rorty propõe a abolição Idem. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão. 95-114. XV. c’est comprendre mieux”. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. dando-se sempre parcialmente na disposição. Cf. Hachette. na palavra de Benjamin. de um determinado querer-poder. Pág. nomeadamente.”. K. 10 R.. Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é. Madrid. 71.labcom. Por isso. há sempre um resto. IN Teorema. Em certo sentido quer a explicação. 503. próxima da práxis. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. Editorial de la Universidad Complutense. nem nunca se compreende totalmente o objecto. O pensamento intuitivo. têm a ver com um querer-poder. R.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. Otto Apel. Págs.) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. é o paralítico da parábola. Apologie du logos. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”. Pág. Paris. na esteira de Max Weber9 . sido fixada: Apel8 . 436 e segs. que não a oposição. porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. 1-2. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição.. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. Tubigen.”7 A relação.10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto. O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. no contacto com o real. Ibidem.ubi. que vê. Veja-se. 1968.pt i i i i . fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. nunca se explica totalmente o objecto. gradualmente. Vol. isto é. 9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão. Thom. quando formalizado. mas que não pode progredir com segurança. O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. Pág. 8 7 www. é cego. quer a compreensão. de facto. Thom lembra que “o pensamento puramente matemático. entre “compreender” e “explicar” tem.

Ricoeur. Para um horizonte semelhante nos remete. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual. IN Revue de théologie et de philosophie. para que ele se torne facto. Ibidem.”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica.Du texte à l’action. il n’y a pas de discours (. Ibidem. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal. Or. um sistema. Seuil. mais tout discours dit l’identité.”12 . Págs. 14 P. ou. demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre. par-delà sa fonction mimétique.i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”. senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí. Paris. il n’y a pas de dire (. Gisel. 26 (1976). Essais d’herméneitique II. como lhe 11 P. substituindo.pt i i i i . o que há são usos de um objecto. 13 12 www. igualmente. dirais-je. 98-110. uma morfologia. Todo o discurso diz o mundo. exige como sua condição de possibilidade. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. seguindo a proposta de Rorty.. “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”.) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. Para que o discurso se dê. mas é “o sentido da vida”. Idem. Não haveria. porém. O discurso é um acontecimento. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde. no 2. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. Sans distance.. Pág. même appliquée à l’action. Idem. 110.ubi. mais correctamente. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático.) Mais sans le monde.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. Págs. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique.. No desenvolvimento do projecto da PdA.labcom. l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir. 1996. 223- 224. afirma Ricoeur.. o termo parole pelo termo discours13 .

o entrelaçamento. em todos os casos. entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. há naquilo que se enuncia.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas.labcom.ubi. concretamente. A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. da àrvore ou do corpo. a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore. um mundo que se perde. o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www. entre “apropriação” e “distanciamento”.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. tal como o comentário ou a crítica são intensidades. esta cerejeira. do ser-em-tempo. este corpo. O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência. mas o movimento continuo de um a outro. Esta instance de discours. A distância aqui é o resto. mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. como se o discurso apazigua-se o conflito. O que Ricoeur faz é. são. que podem existir por existir distância. que se constitui no acto discursivo. de que toda a existência é expressão. do um/muito. A PdA é uma intensidade. de não suspender inteiramente a conexão”. concretamente este pedaço de mármore). ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer).pt i i i i . tensões. O discurso exige “distância”. isto é. dizer mais. fundamentalmente. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. dizer melhor. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. mostrar a tensão simbólica do discurso. aqui e agora. Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. da àrvore ou do corpo. portanto no campo tensional. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo. expressões de querer-poder. enquanto actualização. o seu lugar enquanto principio do movimento .

No primeiro caso.ubi. isto é. como se lhe queira chamar. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. ou função simbólica da linguagem. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [. Como nos diz Greimas. através da suspensão da referência imediata. Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. no essêncial traduz a situação. A PdA. por outro. Neste contexto.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens .labcom. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo.”15 . dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung]. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas. Herméneutique. segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso. Le discours est un événement -Sens. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro. www. Seria esta referência em segundo-grau que.Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. nos daria conta da nossa própria situação no mundo. a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. Daí as constantes indicações de Ricoeur. A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). Págs. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. mais compris comme sens.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme. que a identidade da significação diz respeito ao discurso. un sens qui peut être compris. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. ou Plano Imanente. o que quer dizer.. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. de uma 15 P. isto é. 33-34. enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res. uma linguagem recria um mundo e. bem entendido. Et c’est ce sens qui peut être inscrit. Tout discours est produit comme événement. por um lado.pt i i i i . directa.un événement qui paraît et disparaît. informativa. Ricoeur. mas representa o plano para o qual devimos.. na qual. Ricoeur.

em certo sentido a semiose. Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. a semiose. ausência. e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação. também é certo. ponto de encontro. Pág. Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. no tecido do discurso. J. Como sublinha P. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. www. sendo inconciliável como processos de époche. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira. Coutes. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo. por um lado. aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. 13.” Foi Ricoeur. Greimas e J.i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. significa. que em alguns casos. O Dictionnare II sublinha. isto é. Greimas. 191. a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico.labcom. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico). Du sens I.pt i i i i .”17 . isto é. inscreve. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação). Dictionnaire II. é. 16 17 A. mancha. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo. como já referimos. Pág. marca. precisamente. quebra da époche. A.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). mas igualmente. herdados do objecto “externo” das nossas sensações.ubi. nomeadamente. O próprio Dictionnaire II. ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar.

O problema que aqui está é. isto é. é.ubi. Sujeito. É necessário o método para investigar a verdade das coisas. de que o ser-corpo é uma articulação. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari. sensorio-perceptivo “dizse”. O estudo linguístico dos operadores e das marcas que. fenomenológico. suspensa esta divergência. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. de qualquer modo. que implica. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. igualmente. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. então. Precisamente por isso. Mourão. paixão e discurso. antes de mais. esta veritas rerum . “mostra-se”. evidente. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas. uma crítica radical do método. pertence inteiramente à semântica linguística. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e.pt i i i i . vel quid ipsi 18 J. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo. A. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”. objectos semióticos. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . 138. para Descartes. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. no seu hic et nunc.i i i i 132 José Bártolo Porém. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo. “reflecte-se” em expressões linguísticas. Na quarta das suas Regulae.labcom. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. www. Dito de outro modo. decorre. o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. Uma primeira resposta. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. Pág. evidentemente. não do vivido ou do contínuo das expressões. parece evidente que a experiência do corpo-próprio.

Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation. para Ricoeur. une explicitation qui déploie S. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (. Routledge.acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . por isso a terceira regra já fala de objecta proposita . New York. Paul Ricoeur. isto é. Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. Husserl. É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona.ubi. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico. se objectiviza: “Expliciter. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas.pt i i i i . 20 19 www.”21 Deste modo parecia inegável. os objectivos que são. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation. 21 P.”. 291. Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência.quer a resposta estão longe de serem simples.”19 . sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est. porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida. und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn. percebemos que a veritas rerum. cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation. Pág.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. H. Pág. 23. Une évidence qui s’explicite. verdade no sentido da objectividade dos objectos. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta.”20 . c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience. non aliter enin scientia acquiritur. 18. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object.) sans en tirer toutes les conséquences. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. Husserliana I. dos modelos de análise fenomenológicos.labcom. Ricoeur. 1990. H. London. isto é. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar. a verdade das coisas é veritas objectorum. Porém. que ela. De facto quer a pergunta . Du texte à l’action. por assim dizer. isto é.. Pág. Ao analisar o sentido da Explikation husserliana.. A segunda regra identifica o método com um processo de limitação. Não é por acaso que S. o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência. Clark.

no sentido heideggeriano. 25 Idem. como abertura. isto é. 55. 24 Idem. Ibidem. para usar a expressão de Gadamer. 26 J. paixão e discurso. por outro lado. Pág.”23 .”22 . Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text. mais precisamente. ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. convergência que. mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte. afinal. Ibidem.pt i i i i . como sublinha Mourão26 .) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante. como se comprovará adiante. Pág. no entanto. Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. Mourão. como abertura semiótica: “(. www. na interpretação intencional eu posso falhar o objecto. Sujeito.. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. faz deslocar a questão do objecto para o sujeito. 134. A questão da mediação é. na medida em 22 23 Idem.nológica. Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 . Ibidem. mas nunca falho o sujeito. em sentido ricoeuriano. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. Pág. neste projecto reconhece-se.labcom. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação. A solução de Ricoeur é.. Em relação a Greimas. a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. A. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. em primeiro lugar.i i i i 134 José Bártolo une évidence. 64. O que Ricoeur nega.”25 .ubi. 72. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. Idem. Pág. Ibidem. telle est l’expérience phénoménologique. entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo.

que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”. Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico.labcom. Ibidem. ou um tronco). sim este corpo situado. o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem. em relação de desejo. com propriedade. como questão central. www. 129.ubi. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira. nem objecto. procuraremos. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio.pt i i i i . enquanto objecto não objectivável.). num certo sentido o seu corpus. Assim a questão da corporeidade aparece. mostrar. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. em Ricoeur.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo. Tal crítica. de interlocutividade. Pág. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto. nem sujeito. de intercorporeidade”27 . estas chaves etc. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. ou como corpo objectivo dos anatomistas. com a minha carne. ainda. ancoradouro do sentido. 27 Idem. não como corpo conceptual. antes é condição de possibilidade desses corpos. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. massa opaca ou hostil.

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que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. Seminários de Zollikon.i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. Os seminários foram publicados. Este problema-do-corpo. Educ. Martin Heidegger. Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. ou seja. 2001. R. em Zolkion. Utilizamos a tradução portuguesa. bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. no espaço e no tempo. O problema-do-corpo consiste. em determinar. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. 1 137 i i i i . bem como a analisar a constituição do sentido.). veremos. São Paulo. É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. Editora Vozes. após a morte de Heidegger. obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. por Medard Boss em 1987. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. Medard Boss (Ed. a partir de aberturas corporais. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. precisamente.

É evidente que. é determinado pelo objecto. clínicos. e o modo de acesso. Pág.labcom. pela soma e pela psique. Op. mas penetraria todo o organismo. enquanto tudo o que é somático pode. por sua vez. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado. O luto não pode ser medido. embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente. uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . o seu princípio simples é um princípio filosófico . Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável.pt i i i i . de alguma forma.como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras.). isto é. Boss. excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples. ser apreendido por números. ao contrário da pretensão de Hegglin. só podem ser sentidos intuitivamente. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit. só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos..o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas... o acesso constrói-se em círculo. De facto. Entretanto.. Isto certamente é possível.) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. Tenho recebido censuras de que nós. Por outras palavras. 105. isto é. pois só estes são mensuráveis e a 2 M. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos.i i i i 138 José Bártolo “(.”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma..ubi. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas. uma prova científica das ligações psique-soma. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis). Cit. www. equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica). faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma. Ora. mesmo provável.

mas por outro lado. em termos muito heideggerianos aliás. pois. Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo.labcom. igualmente. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. Mas isto é uma exigência injustificada. Mas na verdade. 106. Ibidem. 3 Idem. neste momento. ter o braço apoiado na mesa etc. pois não provém da relação dos factos em questão. pelo menos não o faria tão bem). podia-se questionar.pt i i i i . o meu estar-aqui. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece.) É. dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira. Em relação a este problema-do-corpo. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. que a relação entre soma e psique seja mensurável. Por exemplo.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora). por essência. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa. Pág. ou está nesta sala. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger.ubi. o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. O autor [Hegglin] exige. Eu posso dizer que. www. um estar-lá. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver. junto de algo.”3 . o ler.

labcom. mas não lágrimas. Ibidem. as lágrimas nunca podem ser medidas. constrangido ou febril. quer o olho. que a mão pertencem ao meu corpo. O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho. porém.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade. Quando se mede. antenas. o candeeiro. o hotel Tivoli mais ao fundo). em virtude das relações psicossomáticas. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. a impressora. Idem. mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. www. ainda. embora sejam diferentes e diferenciáveis. o puxador. um copo com agua). ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face.”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. De facto. por exemplo. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra.pt i i i i . assim como o copo está na minha mão). pela febre. “vemos” no rosto de alguém se ele está. mas. Fenomenologicamente. Também aqui o enrubescimento não pode ser medido. por exemplo. pombas. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. Tomemos em consideração. pela medida do fornecimento de sangue. o telemóvel. o rato. por exemplo. medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas.i i i i 140 José Bártolo R. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. as cortinas. o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado. chaminés. por exemplo. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido. De facto.ubi. As lágrimas só podem ser vistas directamente. Hegglin. Ibidem. Posso. o telhado das casas. o que é mensurável é a vermelhidão. eu tenho à minha frente. nem outro. por 4 5 Idem.

o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. antes de mais. Das coisas . o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. representação. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo.das chaves. pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele. “Aparecer” parece querer significar. por exemplo .ubi. o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. a forma mínima de toda a posição. aparecem. nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta). isto é. Ou seja. também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. fenómeno. Ora. que evidentemente já existiam. se se quiser. as chaves dão-se em estado de presença. Porém. A representação constitui. inclusivamente.aquelas chaves. constituem-se desse modo.destas chaves.labcom. a realidade (este copo. isto é. a chamada sensação dupla. o copo de água. a impressora. mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla. aquela janela etc. a condição de acesso ao mundo.) . não é um acontecimento da coisa . À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. ao contrário eu não posso ver o meu olho. www. isto é. o mínimo denominador comum de tudo o que há. o aparecer. para sermos rigorosos.eu tomo conhecimento de algo.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. deste copo sabemos que são fenómenos.mas um acontecimento meu. A diferença está na diferente subjeicção. antes de me aparecerem . assim. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão. nem o meu ver e muito menos pega-los.pt i i i i . na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. Quando algo me aparece . o livro. neste sentido. já estavam lá. não as classifica numa hierarquia ontológica. do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas. A aparição é. posso.

i i i i 142 José Bártolo A este respeito. consciência de si. Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro. A objectividade dos objectos é a consciência. acha-se também marcada por essas direcções”. que não será tratada aqui. no sentido de Husserl. A espacialização do Dasein na sua corporeidade.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965.ubi. em rigor. Esta é a estrutura mais geral da representação ou. via Husserl. Como escreve Heidegger. a grande viragem ocidental. que não existe.labcom. mas não desenvolve. a sua objectividade. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. Boss. por exemplo.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. em frente-atrás). refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis . Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. o que. em Ser e Tempo procura. em cima-em baixo.estas chaves ou este copo . então desenvolver nos seminários de Zollikon. Quando Kant fala em consciência pura. contudo.6 Toda a consciência é. Op. 7 M. ou seja. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. ou seja. 106. a qual obriga em si a uma problemática especial. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo. em contrapartida. Esta problemática que Heidegger identifica. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. é orientada para algo. em Ser e Tempo.pt i i i i . que Kant promove e que vai até Heidegger. Importa sublinhar. mas um acontecimento meu. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein. Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. Heidegger desenvolve.. da consciência de algo. Pág. Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos. que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. não se tem uma representação. Cit. www. portanto. está na intencionalidade da representação.

ou. mas sou eu . o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado.“estou aqui”-. então este modo-de-ser é o meu e. 8 Idem. cap. são necessários os meus ouvidos. “estou mal” . ele está envolvido no ouvir. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”. É esta transferência que me permite sentir não o corpo. envolvido nessa circunstância.sou eu que ouço. Pág. O meu corpo está. Eu estou no meu espaço. ao tocar.e numa factual .labcom. O computador foi corporado no meu espaço. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos).“estou bem”. enquanto toco com as mãos no meu peito. no Livro IV. a minha afirmação . O Corpo nunca vê o computador. portanto. naturalmente. Ibidem. mais correctamente. Estas operações de abertura são. os meus dedos e. daí a resposta ser sempre qualitativa . “este sou eu”. quer em Brentano. importante.”8 . é o spatium.ubi. Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. Mas para este ouvir. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo. o corpo. é o horizonte (grande.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador. trabalhando em frente ao computador etc. tocar. foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver. por isso posso dizer.“o computador está em cima da mesa” . o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium. portanto. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. 114. importante e difícil de determinar”. vê ou toca. Isto é. num espaço interior não localizável materialmente. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. por exemplo. isto é. ver.i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso. www. eu que vejo. enquanto estava sentado nesta cadeira. Para que eu diga. Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. no ver e no tocar.). O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço. com as mãos no meu peito. Ou seja. O espaço é o aberto. mas sentir-me. eu que toco. “este é o meu corpo”. como lhe chamamos anteriormente. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. na fenomenologia. os meus olhos.pt i i i i .

desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”.no sentido de Husserl . Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. sinto a dor na mão. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor. Ao www. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade. que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. consciência de si. ou seja. não significa porém. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo. perfeitamente. em que as aperto. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. significa eu corporizei algo. Por outras palavras. não é. Eu percebo. representações. permanente. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. Em cada percepção particular. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. A identidade entre sujeito e percepção. quer em Heidegger. ao perceber o copo ou as chaves. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo. não definitiva. faz parte essencialmente do interior do existir. transitória e variável. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira. sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou .pt i i i i . como “o mesmo”. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. mas não sou o frio.labcom. ou seja. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. de cada vez que eu agarro as chaves.ubi. a que nos referimos. em que toco o copo. eu corporizo-me. em Heidegger.a consciência de algo que. de facto. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio. por exemplo. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. do que consiste todo o Dasein. mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. pois. fundamentalmente matéria inanimada. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular. mas não me identifico com essa dor. antes.

seguras por ele. Tal observador. isto é. existimos. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. precisamente. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que. aqui. isto é. Então. Heidegger identifica. www. enquanto um homem viver. Além disso. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo. o alto do baixo. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. pertencentes a ele. como de facto somos. 244. o spatium. ao morrer. é. porque o espaço do corpo (o espaço interior. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. o esquerdo do direito.pt i i i i . na massa de um cadáver que decompõe. Pág. a minha disposição corpórea. No entanto. mas. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso. Heidegger di-lo assim: “Por isso. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis. aberto. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. a minha natureza. Por outras palavras. este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. inanimado. Ibidem. a condição de possibilidade do copo.”9 .ubi. como uma espécie de máquina complicada. na verdade. Graças ao mesmo 9 Idem.labcom. o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material. em relação à totalidade da corporeidade. Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo. o humano é naturalmente corpóreo. o cogito) corporiza as chaves e o copo. Assim. O peso do corpo não é mensurável é. também poderíamos ser corporais. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. antes. a que Heidegger chama de Dasein e que S.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. Agostinho chamava de Pondus.

organizando-o. antes de mais. www.pt i i i i . O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é. Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. sermos corporais. que a estante está ao meu lado. que a porta está atrás de mim.ubi. etc. “Re” = de volta para mim. Ibidem. primeiramente corporais tendo. qualquer sensação. requalificando-o em relação ao seu pondus. se dá nele. efectivamente. ou melhor. Para Heidegger. Ibidem. constituindo 10 11 Idem. um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. que eu estou cá dentro. Idem. um narcisismo da representação. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. Pág.”10 . consequentemente. mas o que se percebe é que existe. Págs. 244-245. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse). a partir disso uma frente. e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. Como Merleau-Ponty descreveu bem. permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. a corporeidade abre-se ao espaço. qualquer percepção é reenviada a mim. 239. porém. isto é. Por outras palavras. Repraesentatio = de volta para mim. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão. etc. torna-se de certo modo espaço. estar no aberto [Offenen]. antes. re-apresenta-me numa nova abertura. Não somos. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo.labcom. apresentar a mim. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. que as árvores estão lá fora. e eu mesmo não me represento especialmente”11 .i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. um atrás. qualquer dado.

ou seja.labcom. gerando uma nova intensidade corpórea. uma nova relação entre aqui e aí. www.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço.ubi. A abertura é devir.pt i i i i . se se quiser.

i i i i i i i i .

C. 1 149 i i i i . desde logo pela presença do corpo. Landowski. a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”. Op. a fenomenologia pontyneana). retomando. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e. in E. as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 . Não se trata.). como vimos. exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer. R. Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente.entre a consciência e o mundo. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo. Cit. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade .a inserção do homem no mundo.i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo. em particular. de Oliveira (ed. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana. Greimas toma. assim. Dorra. como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . A. apenas.

Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. Págs. sobre o estatuto da reversão interior-exterior. sobre a lógica. por antecipação imediata. matemático. esperienza: il caso della spazialità”. Os números. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 .ubi. A este antecipadamente conhecido. antecipadamente. num espaço e num tempo físicos. enfim. Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P. a possibilidade do cálculo. o que deles faz corpos. Paris. È. Heidegger. 1991. Frankfurt. do homem – a humanidade. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. 1997. percezione. sobretudo. a relação com a realidade dá-se. O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. por contágio. regras de formação. 4 E. PUF. o que faz deles animais. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. pertencem ainda os números.i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. 59-60. Présences de l’autre. isto é.”3 . num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. 1950. Violi. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições. “Linguagio. análises sobre a constituição do sentido em acto. IN Versus. Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse. das plantas. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. 3 M. Landowski. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença. 2 www. 71-72.labcom.pt i i i i . dos animais. dizem respeito ao procedimento lógico. Holzwege. o que faz delas plantas.

situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença. a presença com sentido. A outra concepção. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. num determinado segmento de realidade . Admitiríamos. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou. No primeiro caso. pelo contrário. a presença sentida. A presença.pt i i i i . uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. igualmente. para usar a expressão de Landowski. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer. leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. sobretudo a partir de Greimas. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. Deste modo. a que nos interessa aqui. na medida do possível. como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto. pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. trata-se de uma apreensão. neste caso. ao exercício de leitura que dele se faz.labcom. distinguir. quer dizer. pelo contrário. na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. rigorosa. para começar.correswww. pela busca do texto. verbal ou não verbal. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori. actualizado. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída. a presença do sentido. mais ambivalente.ubi. há um discurso enunciado que preexiste. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. o qual. programando. Claro que se tornaria necessário. pressupõem um espaço de sentido. O termo designa. podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico.i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. O texto é de resto um objecto interessante. no segundo caso. o regime da sua leitura.

resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. também. entre si e a realidade. Landowski. el enunciado.. (. por conseguinte. um regime de inter-subjectividade. “Sobre el contagio”. Esta compreensão não é. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”.i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto.. isto é. ou seja ainda que as ligações. no entanto. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto.pt i i i i .ubi.labcom. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto. porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia. corpo a corpo.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. tão fértil. pues. Págs. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E. senão as substituibilidades e transduções. se trata. de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término. cuerpo a cuerpo. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto. 271-272. www. Al contrario. paradoxais. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são.samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen.

em Frege.labcom. de identificação. com clareza. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade. uma determinada combinação de objectos é representada. tal é afirmado. O Tractatus vai. A proposição descreve um facto que pode não se produzir. e não que o facto tenha realmente lugar”. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. pelo que o conceito de corpo-ancoragem. sobretudo. e noutra passagem. enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus. se ele se produz. Aproximávamo-nos. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio.pt i i i i . o que constrói e. ele é antes de mais um limite do mundo”. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos. um processo de focagem.i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados.” A bedeutung. No Tractatus. mas de um modo radical. era o valor de verdade. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. não do vivido. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. na posição de Ricoeur. mais facilmente. enquanto ancoragem do sentido. mas existe www. ela é um “modelo” da realidade. O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen). nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa. O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem.ubi. Não há não-factos. Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode. assim. Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. os factos como existência de estados de coisas.

precisamente. deste copo) e não uma coisa no mundo. Pág. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. no dado mas ele nunca é enunciado. não há sujeito.”6 . na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. Qualquer discurso diria o sujeito. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é. eis aqui um método para isolar o sujeito.pt i i i i . co-dadas em toda a proposição. mas nunca um facto. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. ainda que também a presWittegenstein.labcom. ele é um shifter. um mundo possível. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição. nem psicológica. 6 www. A linguagem representa-se e. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves. ainda que as coisas sejam ou não. Lisboa. o horizonte de possibilidade. ou antes. o que Greimas procurou esclarecer. sabemo-lo. constrói. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. isto é. no enunciado.ficação) entre corpo-próprio e sujeito. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. digamo-lo assim. 1998. o sujeito é. essa potência de ancorar sentido. não existe um único sujeito. independentemente do que possamos dizer delas. Fernando Gil.ubi. um em relação com o outro. Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. porém. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. Apud. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação. uma abertura. ainda não foi sequer plenamente tematizada. uma disponibilidade. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. como em Ricoeur. Modos da evidência. na terminologia de Hintikka. 69. no presente trabalho. Mas que sujeito? Em semiótica. para mostrar que num importante sentido. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. O sujeito está sempre implicado no objecto. ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração.i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. abstraídas as especificidades. objectivado ou dado.

a corporeidade. 19.ubi. 9 P.i i i i Corpo e Sentido 155 suponha . Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 . 8 7 www. não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido. em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 . Hamburger. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. Philosophie de la volonté 1. A situação do corpo. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia.pois ele não é dedutível temporalmente . Apud. assim. que entre se dá pela experiência da corporeidade. o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza. Se a génese do sentido é sempre transcendental . ni constituant au sens du sujet transcendantal. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. Estabelecemos anteriormente. Seuil. A. Le volontaire et l’involontaire. fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. no seu inconsciente. na sua sexualidade. nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. Paris. eu corporizo-as no acto de as enunciar.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. na sua deriva. Em Ricoeur. paixão e discurso. K. Mourão. J. Logique des genres littéraires. a sua incarnação. Para Sollers o ego é um tomar forma. necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo. ele não está nem aquém. como coisas no mundo). na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). Pág. 1988. Ricoeur. como mostra Michel Henry. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité. il échappe à ce couple de cointraires.a apropriação intersubjectiva implica. aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo. é o espaço do corpo.pt i i i i .labcom. Paris. Il est moi existant. 1986. Sujeito.”9 .. 64. Aubier. Sollers. Pág.

Pág. www. está a situar. toda a subjectividade são “intersubjectivas”. O que levaria a concluir que toda a objectividade e. corpo-próprio.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito. como o diz Merleau-Ponty “le corps (. cogito e sujeito coincidem..labcom. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância.. Cit.ubi. do mesmo modo que corpo-material.)”10 .. Op. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”.) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être. (. 10 M.. no lugar do corpo. do mesmo modo.pt i i i i . 52. nem objecto. carne e objecto coincidiriam. Ponty..

apresentava-se difícil de alcançar mas. Também Jean Petitot. sobretudo. Le passioni nel discorso. necessário de alcançar. também. “ Lettre sur les passions ”. das estruturas deícticas. Pezzini (Eds. Esta advertência. 1987. 47/48. fundamentalmente. o tratamento das paixões.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”. estamos em crer. Fabbri e I. Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. das tensividades fóricas. enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível. procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. dirigia-se. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica.”1 . IN P. 1 157 i i i i .). Affectività e sistemi semiotici. Pág. Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. 167. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito. Versus.

como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. Deleuze. de cada vez. Tal anunciação ou. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. definidoras de tipos de relação. ainda assim. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido. talvez. muito próximo da leitura de Greimas. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. por vezes e como veremos. isto é. são mais importantes do que essas mesmas coisas. aproximando-o. www. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. Pág. Donde se poderia concluir. operada pelo corpo-que-sente. ele é produzido. aliás. segundo Deleuze. decisivos. que as posições topológicas. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana. que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são.pt i i i i . enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. A anunciação do sentido precede a sua enunciação. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf.”2 . Estas maquinarias são. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. Perspectiva. O estruturalismo é. nas palavras de Deleuze. G.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. sem se perceber em que consiste uma estrutura. 2003. Ele não é algo a ser descoberto. São Paulo. Estando. A semiótica pós-greimasciana.ubi. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação.labcom. Lógica do sentido. pensado por Deleuze de uma forma peculiar. espaço de atravessamento de devires. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. 54. leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas.

1974. determinada. a este título. pelo menos. b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. PUF. Port. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. 3.3 Confronte-se. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. duas séries heterogéneas.ubi. 1968 . A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. como “significada”. 2. pelo menos. uma como “significante” e. Livraria Almedida. Les structures. sobretudo. leiam-se por exemplo. Payol. Payot. Greimas . e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. www.]. Paris. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares. outra. Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. uma como “significante” e. Lévi-Strauss. determinada. Paris. as obras de Noel Moulod. e. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. La psychologie et les structures. Paris. Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. la recherche et le savoir. De Manuel Francisco Catarino. 1965. séries. Coimbra. Linguagem e Estruturas.i i i i Corpo e Sentido 159 1.pt i i i i . 1970 [Trad. 4. relações). duas séries heterogéneas. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. como “significada”. outra. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson.labcom. a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial. É preciso que existam. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades.

coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito. emaranhado de encontros. leia-se a obra de José Augusto Mourão. nas suas intermináveis correlações. tessituras. apresentada em a Lógica do sentido. Andamos aqui. Discurso. A rede constitui. ela própria um corpo e um “corpo estranho”. não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . essa rede de semióse. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses. Vega. 5 G. Deleuze. O corpo é.ubi. na expressão de Uexküll.i i i i 160 José Bártolo da significação. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. Para estas Sobre esta noção. Percorrer a rede. Op. Os acontecimentos são causados. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. Sujeito. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. mais. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. sendo que o devir tem lugar. Cit.pt i i i i . estrutural. 4 www. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. claramente. Paixão. Lisboa. e a sua integração na semiótica contemporânea. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro.. cruzamentos. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. lado. Pág. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 . Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. Na sua leitura da Filosofia Estóica. sabemo-lo. pois a topografia da rede anula centro e periferia. 1996.labcom. 9. como intensidade que o atravessa. Fontanille. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. é estar perdido. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir. mas. no corpo. isto é. mas também um produzido. sobretudo as páginas 128140. que se vem tornando central – graças a Coquet. então. por outro. o seu complemento inorgânico. a rondar um tema.

Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”. antes. pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente. Ibidem. Ibidem. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”. podendo. www. Mas.ubi. A manifestação apresen.ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição. nem rosto. Os desejos e as crenças são inferências causais. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”. 6 7 Idem. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis. 13. como diz Benveniste. etc. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário. misturas de corpos.pt i i i i . contudo. são singulares formais que tem o papel.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem. agora. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito. isto é. como refere Deleuze. quantidades. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. de indicadores (isto. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente. são devires assemânticos. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual. constituído por um corpo.i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome. Pág. Idem. pré-modalizados. relações.labcom. Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz. aquele.). qualidades. aquilo.

9 8 www. da manifestação e da demonstração. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. Idem. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. instavelmente. nem representação sensível. el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . el principio dinámico. Husserl distingue a expressão da designação.”8 . Incorporal. que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição. nem palavra. mesmo que se deva considerar que o sentido circula. Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura. 22. do vivido psicológico. Pág. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando. “Sobre el contagio”. e) Finalmente. 23. das representações mentais e dos conceitos lógicos. Vale a pena voltar a lembrar. no sería posible aprehender el núcleo.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. Pág. nem corpo.ubi. isto é. o sentido é o expresso. Pág. nem representação racional. ou seja. Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão. o sentido não vive fora da sua sensação. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. por exemplo. nem mesmo com as significações. pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos. entre “estados de coisas” e “estados de alma”.labcom. 10 Eric Landowski. 274. aqui. na designação estóica. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui. aliquid. Ibidem.pt i i i i . o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa. Ibidem. nem os conceitos.

um sentir sentido nessa enunciação. em que os semioticiza. as características do plano. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido. dizia Greimas. também. Pág. a sua lógica circulante. por outro lado. que tende a gerar excesso semiótico. uma máquina de produção de sentido.labcom. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. tudo integra. Para Deleuze a estrutura é. por sua vez. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. A máquina tende a gerar excesso semiótico. 11 Idem. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. 74. A entropia é. a sua lisura. uma máquina semiótica.pt i i i i . Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. tudo funcionaliza. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. já o dissemos. isto é. Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. há sempre excesso. Por outras palavras. tudo instrumentaliza. Estamos condenados ao sentido. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. Esta fronteira não os mistura. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. como se fizemos um percurso. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido. da qual. não permitem a irrupção do sentido. não os reúne. Há. em cada enunciação. Como diz Bergson nós não somos conduzidos. porque ela não permite fugas. não permite desperdício. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. Ibidem. www.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. em que funcionaliza “estados de coisas”. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. uma regressão indefectível. não dizemos o sentido. mas acontece às coisas. a sua linearidade.ubi. podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”.

labcom. da realidade significante significada no interior de uma linguagem. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação.i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. 44-45. Pág. IN Marcel Mauss. É em O Anti-Édipo. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível. articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. Pág. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade. modelo ideal de qualquer outra máquina. 2001. e impõem-na com toda a violência. não existe. www. com um valor simbólico zero.ubi. como dizem os fonólogos. e não ser já. “Introdução à obra de Marcel Mauss”. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. Mas a máquina capitalista. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. Lisboa. Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante. funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss.”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. tudo o que está fora da estrutura. Edições 70. pois que ele vive dela. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. um termo de grupo”12 . Capitalismo e Esquizofrenia 1. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação. da máquina. 37. Lisboa. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. 2004. O Anti-Édipo. Só há real significante.pt i i i i . A máquina desejante.ções). Ensaio sobre a dádiva. Assírio & Alvim. ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. isto é.

tornos.ubi. mais correctamente. instrumentos ou peças isoladas e que. Trata-se de cadeias ou. por exemplo. a sua linearidade. “síntese conjuntiva de intensidades e devires”.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. a propósito. Deleuze e Guattari dirão. também.labcom. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. como qualquer engenheiro de produção bem sabe. braços. a sua lógica circulante. mãos. extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). isto é. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. lado a lado com outras peças e outras máquinas. como cortá-lo. chaves. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. num 165 www. etc. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes.pt i i i i . A partir da sua acção o operário. do tipo: que fluxo cortar. é “consumado” como instrumento-máquina. alavancas. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos. pernas. também. serras e as máquinasorigem. para onde conduzi-lo. isto é. ainda e preferencialmente. olhos. c) Uma terceira síntese é. troncos mas. b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva.

que é um limite propriamente esquizofrénico. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que. é intensificado para um ou para outro lado. a tendência mais essencial do capitalismo. 14 Idem. Pág. devir-pénis quer. devir-fábrica. devir-braço. paroxisticamente.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. Ele não pára de tender para o seu limite. peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. pois. Ibidem.pt i i i i . www. entretanto quer em devir-mão. a desterritorialização do socius.ubi. constituem.labcom. por outro lado em devir-peça. devir-máquina. 45.

etc. por fornos. roldanas. olhos. o corte-resto ou resíduo que. qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. “Em suma. um corte. computadores. tornos. 15 Idem.labcom. Ibidem. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções. como dissemos. máquinas-boca. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. a este os olhos. mãos.ubi.destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. 40. finamente. já o mostramos. partes extra partes. podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”.. tapetes. retira dele o que precisa. Pág.pt i i i i . braços. por sua vez. último (?) corte. ouvidos. ele é instrumentalizado. que esta máquina também é. peça adjacente à máquina.”15 Aos cortes . serras.extracções seguem-se cortes . define-se como um sistema de cortes. aquele braços e mãos. produz um corpo-instrumento. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e. claro. www.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina.

”16 16 Idem. para “re-aproximar. www.ubi. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino. Assim. reenquadrar. na viagem de comboio.pt i i i i . nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. Ibidem Pág. ao aplicar-se sobre elas. era o que Joyce chamava “re-embody”. unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. mas que. 46. que é produzido como uma parte ao lado das partes. que o todo é produzido. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. pois. nem uma unidade dos pontos de vista. que ele não unifica nem totaliza. Evocando Proust.labcom. Re-aproximar. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia.

esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano). de cada vez. ) www. O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. mas. A palavra “relação” permite entender uma acção. no interior da mesma máquina que o produziu. . o corpo sem órgãos é produzido como um todo. José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. (. como peça sua. que visa produzilo semioticamente para o integrar. não uma substância. no silêncio. O plano de produção é. que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano). no seu lugar próprio. no processo de produção.i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783).pt i i i i . no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano).labcom.ubi. ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. que é o corpo da criança adestrada na atenção. que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). Não há produção sem relação. . esse corpo sem órgãos. antes de mais. um plano de relação.

no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta . o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano. Pág.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora. 1997. 19 José Gil. José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. 17 www. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia. convirá dar lugar de importância ao corpo. O Anti-Édipo. O proliferar.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa. Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. O Enigma da sexualidade. Deleuze e F.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte. para os inscrever sobre si mesmo.labcom. de inúmeros discursos do corpo.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é.”19 . “ Sexo. 18 G. 2003.à sua aptidão para emitir e receber signos. que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. sobretudo a partir dos anos 80. permanecem desconhecidas . salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. à antropologia. 9. devires para os quais. 32. fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. Lisboa. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas.ubi. 116. para os traduzir uns nos outros. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo. A expressão é médico-jurídica. texto e corpo virtual”.pt i i i i . Pág. Guattari. Em particular. das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram. Pág. Metamorfosees do Corpo. IN AAVV. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano. com alguma injustiça. espaço atravessado por fluxos intensivos. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas. Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’. José Augusto Mourão.Cadernos ISTA.”18 . no 16. igualmente. Relógio d’Água. não que a visão deleuziana seja mecanicista.

A tese da finitude de amplitude mostra. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. Pike. 20 www.ubi. espremelo analiticamente até dele sair uma expressão. 38.230. L. é condutor semiótico. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. opera circulações. tomada juntamente com o signo já ampliado. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo. Ora. criará um signo ainda mais amplo”22 . ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. pois o próprio corpo é “condutor” de significado. mas qualitativa. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo. Pike tentou em vão. 21 Idem. não é quantitativa.pt i i i i . A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum.labcom. 22 Pierce. Foi o que K. Ibidem. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico. sem o conseguir fixar.. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos. ancoragens. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica.20 A conclusão de Pike é relevante. Cit. derivaria numa semiologia sobre o corpo. K. transduções. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. mas por um permanente erro de paralaxe. para além de signo. parece-nos. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo. citado por José Gil. reduplicações signicas. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. e visto que a explanação será um signo. tornando o significado escorregadio. a qual. 2. Op. se se quiser. Op. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução. L. essencialmente.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo. Pág. A falha não é de amplitude (ou. Cit. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude.. uma língua.

ubi. uma diferença de regime. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas.. emissor de signos e transsemiótico. máquina-olho. máquina-laboratório. máquina-igreja etc. mas como um corpo metafenómeno. reversivelmente. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. visando quer a fenomenologia. celas. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. aliás. 175. impondo um sentido que ela própria construiu e que é. visível e virtual ao mesmo tempo. feixe de forças e transformador de espaço e de tempo..i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. www. através do silêncio e da não-inscrição.. visível.. Deleuze e Guattari distinguem. a máquina. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. digamo-lo de novo. um corpo que pode ser desertado. um percebido concreto..).) e as máquinas molares (máquinas sociais. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. deve anular o paradoxo. Um corpo que se abre e se fecha. Op. mãos. Pág. corpos. Um corpo habitado por. esvaziado.. máquina-ouvido do confessor e.). antes. Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. No entanto. Cit. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas. o não-senso. Em suma. barras.): a energia. não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (. (. reversivelmente.pt i i i i . também. roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual. quer a semiologia. e no recolhimento da sua singularidade.. e habitando outros corpos e outros espíritos.labcom.”23 Este corpo paradoxal é transformado. o corpo fenomenológico (o de Husserl. um corpo paradoxal. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. e o espaçotempo do corpo. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil.

Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. 1990. ) São portanto as mesmas máquinas. Paris. Un mécanisme.labcom. Deleuze e F. Idem. 241-242. ele próprio necessário pela sua própria perfeição.”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. devir. Vrin. www. L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado. L’esthétique de Gilles Deleuze. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration. a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles. ao definir o escravo como uma “máquina animada”.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. Pág. Op. 295. Pág. 26 Mireille Buydens. os mesmos usos de sínteses. Pág. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. Ibidem. . nas páginas d’A Politica. produzida e produtora. Guattari.i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (. . ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 . Para G. ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. 68. 102. Pág.ubi. La Connaissance de la Vie. Terá sido Aristóteles.pt i i i i . Ibidem. Pág. Cit. ). La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. Sahara. .25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. oeuvre de l’homme. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. . onde o que existe é desejo. as mesmas relações de grandeza. J. 67.. acrescentando que “enquanto artefacto. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus. mas não é de modo algum o mesmo regime. isto é. 27 Idem. 28 Georges Canguilhem.

L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences.ubi. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme. au cours de l’histoire des sciences inexactes.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production. Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques. biologie et sciences humaines. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble. comme chez celles qui sortent de la fabrique.pt i i i i . et leur agencement respectif. ils appartiennent à un monde dualiste. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques. à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www. La créature renvoie à son créateur : cause finale. chaque blastomère peut régénérer un individu.labcom. moniste. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles. évolutionniste. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur.

labcom. 31 Idem. de facto. são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas.”)31 . esteja. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica. Por outro lado. Grundlienien einer Philosophie der Technik.pt i i i i . Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière. e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. “La Machine”. publicado em 1872.1984. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. Butler Félix Guattari. mas diz que elas são. o convento. de passagens dos capítulos 24 e 25. Westermann. outro acolá. 1877. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. ou seja. espalhados pelos diferentes lugares do mundo. No 96. Adelphi. a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. quais corpos mutilados. Braunschweig. 114 e segs. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações. 1975) embora respeitando a tradução. Pág. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. estão delas privados. 33 Adrian Forty.”)30 . Milano. a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico.02. aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . como mostra Adrian Forty33 . mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. como também não se consegue formar nem produzir. Pág. Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle.ubi. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres. 30 29 www. muito presente. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo. IN Ottagono. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. a escola. Samuel Butler. No seu Erewhon. “Industrial Design and Prosthesis”. Samuel Butler. 296. 32 Ernest Kapp. Seminário 06. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo.i i i i Corpo e Sentido 175 immanent.”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças. no seu próprio corpo. ainda que essa visão protésica. por um lado.

As duas definições são equivalentes. As palavras e as coisas. bem como a ideia do corpo 34 35 G. é. enquanto análise material do imaterial. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. www. Raymond Ruyer. maquinando umas sobre as outras. semiótica e política. Pág. 297. é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos. O Anti-Édipo. A produção. A partir desta leitura de Samuel Butler. Vamos. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. Págs. assim. Paris. remetendo umas para as outras.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa. neste sentido. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem. como as de Raimundo Ruyer. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação. ou que os órgãos são máquinas.”35 Por sua vez. há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . que “em toda a cultura. mas diz. ao irromper no mundo da representação. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. evidentemente. quer vinda do campo das ciências humanas.labcom. depois do vírus. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. Com efeito. por maior que seja. Daí Foucault nos recordar. 80-81. depois da macromolécula. como as de Foucault. em particular de “máquina semiótica”. conservando a sua individualidade. Foucault. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. à biologia. 36 M. que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas. microscópico. quer vindas do campo das “ciências da vida”. 12-13. Deleuze e F. conduz. Flammarion. pelo contrário. também. produz um corte radical.ubi. A microfísica. Págs. económica e social. La genèse des formes vivantes. chegaremos então a um organismo que. devemos a Michele Foucault. no seio da molécula.pt i i i i . individual e colectiva. advertindo para o seu particular estruturalismo. Guattari.”34 Encontramos leituras próximas desta.

As proposições identitárias (tó auto. a um tempo. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade. Lisboa. a identidade não pode ser definida”. natural e artificial são opostos. Estudos Gerais. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. usado com valor operativo e cognitivo. cozeu.labcom. a amálgama dos opostos. idem. A leitura de Deleuze. bem como a de Foucault. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. Ao falarmos em corpo-objecto. isto é. nota 87. desenvolvida no capítulo seguinte. por muitos modernos (Goethe. num horizonte. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. “produção de sentido”. anteriormente usado. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e. ens. de integração e produção. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos. corpo-máquina. Hamann ou Kierkegaard). Ele é. nesse sentido. que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais. como tal. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. transversais a todos os Apud. p.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. em particular. O Pensamento morfológico de Goethe. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional. são noções de ontologia formal. a questão da identidade ? Como a colocar. No corpo-tecnológico dá-se a relação. Biologia e tecnologia. por nós. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. Como colocar. enxertou.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e.145. Série Universitária. como foi aliás. 1995. 37 www. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . ligou.pt i i i i . então. no nossa leitura crítica da história do corpo. 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio.ubi. será retomada. a degeneração é. lógica de controlo. Maria Filomena Molder. deste modo. bem controlada. Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva. se perde. Op. Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade.mas essa é uma consciencia que. do ponto de vista da sua validade. e no entanto. com rigor. Pág. ele apenas é. também não há uma inteligibilidade plena do corpo. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. o corpo anormal.labcom. Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. nunca um “ponto de vista natural”. deste modo. e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 . o freak. www. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”). como tal. da compreensão do outro. ou seja.mas a sua significação própria permanece obscura. não pode ser transposto. 241. De facto. não há. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. “mesmo”. na perspectiva crítica. isto é. marcados por uma relativa indeterminação. para falar como Heidegger. Como mostrou John Austin. do corpo. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. Neste sentido. o andróide. Cit. De facto se a iden39 J.i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e. como principal diferença. como o desenvolvimento do estudo. parcialmente. Gil. o cyborg.da compreensão de si. a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista . por exemplo. O corpo enquanto objecto de estudo é. identitário. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. então.pt i i i i . O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade. cedo ou tarde. Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . da compreensão do mundo . um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. estamos a usar uma definição identitária operativa. psicológico e antropológico -. Quando descrevemos. Quando identificamos o corpo humano. para um plano ontológico. que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que.ubi.

todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. de devir-hyde. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. se altere . É o horizonte de seres hibridos. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. talvez. o corpo de Bill Viola na água. embora em permanente devir. Aristóteles sublinha-o na Métafisica. A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. o corpo cadáver de uma jovem. o que está em causa não é a sua identidade. através. que assim se rasga. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa. de facto. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. sem dúvida. Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. o corpo do terminator. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. do principio ao fim.ubi. O mesmo devir outro. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. mas a intensificação da sua identidade. embora o número já não seja o mesmo”. o mesmo problema de intensificação da identidade. uma identidade segundo o logos. mas que ela é.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. se coloca no Dr. sem que a identidae. mas todos eles são corpos humanos. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore.labcom. o corpo de um velho amputado. alterou-se a intensificação da sua identidade. o corpo de uma criança chinesa. A história muito perturbadora do Dr. ela permaneceu sempre como um transcendental. isto é. de devir-louco. o barco de teseu. está fora do domínio humano. Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro.pt i i i i . São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. Jekill e no Mr. sobretudo. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça. O corpo de uma criança loura. mas nenhum deles. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. quase-sujeitos e quase-objectos. o corpo do homem-elefante. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. de devir-outro. do reconhecimento da oriwww. o corpo de uma mulher num filme pornográfico.mas num certo sentido. Hyde.

intemporal. imagem do outro. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). na medida em que é corpoprojecto. A relação. a natureza de ser entre. é dominado pela imposição de objectivos.labcom. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. devir-outro. no ajustamento. a humanidade. Mas o devir é tensão. não podem anular. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. corpo de patente. Mais do que um significante flutuante. do corpo tecnológico é um elemento fundamental. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia. entrelaçar o estranho na sua individualidade.pt i i i i . de limite. do corpo pelo artificio tecnológico. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. Este carácter de fronteira.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. de ligação. igualmente. No caso do corpo tecnológico. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema. com intensidade de tensão.ubi. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. na capacidade do corpo encadear o estranho. quando não a penetração. O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. fundamentalmente. Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. do sujeito no seu devir-objecto. É no encadeamento. procede da compreensão. na expressão de José Gil. que não anulam. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos. cria flutuações. ajustar-se ao estranho. dir-se-ia originária. corpo de design. O carácter intersemiótico da análise decorre. inter. Por outras palavras o corpo tecnológico. de relação. dir-se-ia. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. de objectivos de construção.

em particular. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. Paris. the organismic body is being construed as an open system.”40 . na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. o orgânico e o inorgânico. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. faz deslocar. Le passage du Nord-Ouest. mas pela permanência de operadores que articulam. reinterpretativamente. Cit. Na leitura. mas também. mais do que pensado. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. em relação a um mesmo. 146. impõe. a congregation of heterogeneous materails and flows. Kirby. M. sempre acutilante. por exemplo. marca-os de inde40 41 V.ubi. Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. www. an infinite partioning. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia. o vivo e o não-vivo. an unfinalized product of morphogenesis.labcom. Op. Hermes V. Pág. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. Minuit. diferentes significantes e diferentes significados. construído. mediated from and within itself. Serres. Pág. sem dúvida. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. da qual. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. estável. pelo estudos dos sistemas orgânicos. o humano e o não-humano. um sistema. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado. o organismo como sistema cibernético.pt i i i i . mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. como nota V.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados. “O nosso problema é a complexidade. não-lineares e abertos.”41 . then. são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar. Ela caracteriza um estado.. na biologia. numa tecitura teórica quase interminável. uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial. O Corpo humano passa a ser pensado ou. 61. em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. Kirby. pelo seu carácter central. Serres. de M. 1980. constroem.

Um sistema é uma totalidade que. isto é. que o recupera na sua desarmonia. bem entendido. surge-nos como exemplo.pt i i i i .ubi. a esta totalidade não sintética. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. Ela não é um todo sintético. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. indecidível. A esta complexidade. deixar o espaço de combate. portanto. para conseguir ver. Um sistema não é. Pág. e constituinte da identidade das partes. se chama. mas sou eu que constituo o meu corpo. à luz dessa indecidibilidade. 22. Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. mas uma multiplicidade sem partes (complexa).labcom. enquanto totalidade. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo. por exemplo. a multiplicidade não o compõe. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. as articulações entre as falanges. mas uma diferença de género. na sua assimetria.”42 . ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema. no seu desequilíbrio”. regras dedutivas. A simplificação nasce da luta. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade. de sistema. um conjunto de termos ordenado por meio de. por exemplo. onde se levanta a poeira. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. www. O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes. a mão. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. Não são. identidade e lógica combinatória prévias das partes. como um sistema aberto. Ibidem.i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. define-os como abertos. linear. o recurso à metáfora fractal. propriamente. O sistema é. Qualquer visão maquinica do sistema é errada.

De facto. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. uma viga que a percorre etc. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo. naturalmente. O meu corpo é. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. mas a madeira não é possível sem ela. por exemplo. a folha. como esta mesa. nem a lisura. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. a partir do ponto de o constitui.ubi. opacidade. possui. mas. O corpo próprio. Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido. por exemplo. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta. é claro que. como que.). como nessa relação.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. assim. uma extensão. nem uma determinada temperatura. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. além disso determinadas cores e tons. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. a sua res extensa. O que chamamos de “corpo próprio”. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. como um corpo qualquer. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). se “sobrepõem” à extensão. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência. que ocupa um espaço. pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem. adquirindo relações definidas e concretas. pelo eu do m’EU corpo. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva. De facto. É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. e em primeiro lugar. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã.pt i i i i . de cerejeira para ser mais específico. a cor não é extensão. é operada por mim.labcom. Assim. esta folha de papel ou a minha mão.

pt i i i i . indefinido. etc. pois. a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. um quase-nada. na sua essência. o meu corpo. a mesa não é. a res extensa. por redução negativa. mas não é identificável em si. isto é. a sua forma. é. isto é.ubi. também aqui. A “extensão” é em si uma abstracção. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é. como interface entre eu e o mundo. até ao ponto em que. a identidade da extensão. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. à afectação pela matéria). informe . todas as determinações nele identificáveis. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis). pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. em rigor a concretude de uma abstracção. aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso.a mesa não é a sua cor. evidentemente. que não corresponde a isto ou aquilo . desta mesa ou da minha mão não é possível em si. formas. de modo algum abstracto. que ocupa espaço (deixando revelar cores. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. essa res. mas esta nesta mesa que se estende. A res extensa. desta folha.não.i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. A identidade vai aparecendo. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações . isto é. a que chamamos ponto-centro da representação. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. possibilidade de ser aqui e agora. como a minha situação no mundo. é redutível a um ponto. é a concretude da extensão. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. grau mínimo de fenómeno. O corpo aparece-nos assim como interface. a sua temperatura. cada vez mais consistente.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade .a mesa não é a sua cor. uma pura abstracção. como negatividade.labcom. a mesa não é a sua temperatura. O corpo extenso é.

para usara expressão de Kierkegaard. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo.ubi. de estado de consciência. assim o vê Leibniz. Mille Plateaux.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação). bastar-se-ia.labcom. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo. Le CsO fait passer des intensités. Pág. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. está para o espírito como. Rien à voir avec un fantasme. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. Seules les intensités passent et circulent. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé. www. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e. ni même un support où se passerait quelque chose.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão. digamo-lo assim. enquanto tal. o corpo interface revela-se como corpo orgânico. de poder no espaço e de poder no tempo. Deleuze e F. rien à interpréter. é um processo que percorre o corpo. não se pode chegar. dar o exemplo. Nos Mille Plateaux. não considerado. a atmosfera. é uma intensidade. remete para a identificação do corpo como um órgão. inétendu. que define. O CsO não é um corpo. Há. Deleuze e Guattari. enquanto pondus na expressão agostiniana. Nesta perspectiva. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. ele é um limite”. para o ilustrar. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif. peuplé que par des intensités. por exemplo. representa um ponto-de-poder. 189. Guattari. un lieu. Assim o vê Aristóteles. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor.pt i i i i . o corpo-orgânico é um órgão do espírito e. dos olhos de um cadáver. assim o vê Kierkegaard. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. nunca se acaba de chegar. Encore le CsO n’est-il pas une scène. O corpo enquanto interface. muitas vezes.

O que nos diz. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. como se fosse um Corpo sem Órgãos. O que se está aqui a dizer é. mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. isto é. quando somos orientados por uma disposição forte.o hipocondríaco. corpo animado. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . A experiência do paranóico. Quando o maratonista está a correr. que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. então. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO. que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo). Sendo corpo-interface. quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. o paranóico. O atleta. como que nos esquecemos de que temos corpo. o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico. em noutro grau. a explosão no homem-bomba). o espírito esquece-se do corpo. desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. afinal.ubi.i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico.pt i i i i . o drogado. por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. do drogado. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e. do hipocondríaco. isto é. por sua vez o corpo agencia o espaço. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. o bailarino. corpo orgânico. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www. isto é num devir-CsO. para sermos rigorosos. o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. Mas não é a apenas no paranóico. As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras.labcom.

poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer.vemos pelos olhos. tudo no CsO é uma questão de matéria. um corpo de saúde no doente. www. por exemplo o frio do CsO drogado. de agenciamento da matéria. um limite. mas ele é precisamente isso. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista.os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. atributos substanciais.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. vemos com os olhos . quer dizer. o sinal do seu carácter vivo .pt i i i i . A intersubjectividade é. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO. de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. Ibidem. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). precisamente. isto é. isto é. isto é. 188. o plano de consistência própria do desejo.”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. as intensidades produzidas. isto é. pura possibilidade de agenciamento. às vezes chamado de CsO). o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos. géneros. um órgão. 44 Idem. um corpo de afectos amorosos no amor cortês.labcom.” Enquanto campo de imanência do desejo. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada. de interface). tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro. na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. o espírito. uma interface da visão. os modos. O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. um corpo de pensamento no filósofo. Como insiste Deleuze. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface. o plano de consistência ( a omnitudo.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. Pág. o dolorífero do CsO masoquista. como vimos. 3) o conjunto eventual de todos os CsO. não um estado.ubi. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo. Os olhos são. uma tensão. cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio). justamente. isto é. um devir. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição .

Neste sentido. o espaço do corpo. permeável a disposições. Pág. tal como procuramos mostrar tal implica que: 1.) É um modo particular da totalidade. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. Falando deste “espaço do corpo”. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele). quer dizer de matéria do devir por excelência. ela interfaciada. ainda que.EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles . essa “matéria do devir por excelência”. intenções. 75. então.”45 O espaço interior é. mas resulta de uma representação.labcom.pt i i i i . A matéria intersticial não tem espessura.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras. isto é.a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. tensões. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina. As metamorfoses do corpo. e sendo da ordem do corporal não corporado. isto é. 2.ubi. a parte traseira e a dianteira). e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo. isto é. A relação do meu corpo a mim é orgânica. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular . José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio. disso a que Kierkegaard chama de interioridade. A relação com o mundo não é imediata. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil. Assim rasga-se um horizonte-nú. b)ao exterior. que é agenciavel. plano de agenciamento possível. É uma matéria de devir. em particular o movimento dos afectos. www. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície. atrair a si todo o movimento do interior. é a matéria do devir. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”.

no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo). uma mera soma ou articulação de partes. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. sob a forma de corpo. nesse sentido. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro . pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação. Por outras palavras. mas uma totalidade anterior às partes.ubi. como se não houvesse corpo. Deste modo. O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes. em absoluto. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades . ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável. a rua.i i i i Corpo e Sentido 189 branca”.a mesa. isto é. Assim. o mundo . muito menos redutível a uma máquina inorgânica. A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. tácteis e olfactivas. O corpo não é. um anuncio de mim. portanto.pt i i i i . “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la.de facto no momento do www. naturalmente. para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. auditivas.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. e.labcom. evidentemente. assim. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. o quarto. o anuncio do mundo a mim e. No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e.

alias os records procuram. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio. representa um limite. enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. isto é. De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro. como bem demonstra Hubert Dreyfus.labcom. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. que ocorre no corpo.ubi. 2001. entra num processo de devirmáquina. como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo. qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos. quantificar . como também a tecnologia encontra aí o seu limite. por isso. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. Pág. quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação. Movimento Total.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. Lisboa. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). ou virar à esquerda sem roçar o passeio. que nos levam. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel. mas igualmente um 46 José Gil. que à força da repetição de gestos mecânicos. Relógio d’Água. O que Gil nos diz é que. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. e o devir-barata.pt i i i i . 58. em vão.qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. www. actualmente apenas uma alegoria. Acontece que o ciborgue não é. da inteligência artificial . talvez absoluto. de um modo geral.”46 . porque. O corpo e a dança. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar.o robot não tem conhecimento imediatos. por exemplo. O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio. Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização. não calculável. com a realidade.

Quer dizer. I.”47 .. isto é. o que traz o imenso problema da identidade. Cit. na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica. a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. Pág 157. pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano.labcom. www. De facto..pt i i i i . o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade. logo não biológico. o que. Mas tal não acontece no plano da vida. a noção de devir. Op. o devir-ciborgue é perturbador. abstracta. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano.. Se por um lado ele é uma realidade objectiva. Apud. no âmbito da lógica. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica. na afirmação “A é A” . Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade. Ora enquanto projecto. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá. neste sentido. enquanto afirmação vazia. “mão” etc. de ter vários corpos simultaneamente. Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico. um devir-si-próprio. a identidade define a apresentação em evidência.. impossibilita. simples. ambíguo. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design. não orgânico. não-humano. sem mediações. Tucherman. surgindo apenas como limite (como tensão para. construção científica de um corpo artificial. por exemplo.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo. Stiegler. colocando um problema de identidade. isto é. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (.ubi. por outro lado. nega. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos.

portanto. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. enquanto sujeito dos predicados. da soma de cada uma das suas posições. a minha mão ferida. eu tenho da minha mão. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade. não se podendo dar.labcom. De facto tal não acontece. “o interior da minha mão”. O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. não abstracto. Pelo contrário. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. “o interior da minha mão”. Eu. no plano da vida.pt i i i i . então a identidade seria dada a partir de fora. a minha mão fotografada. pelo menos. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. Ou seja. a minha mão ontem. isto é. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares. “A minha mão ferida”. O que acabamos de concluir pode ser expresso de. o interior da minha mão etc. mas também cada perspectiva da minha mão.ubi. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”. enquanto a identidade do abstracto é imediata. a minha mão vista numa visão microscópica. “o interior da www. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos. lógica e não à noção de identidade que. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável. a minha mão a tocar agora o teclado. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança. como tal se excluem. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão.

estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia. de órgãos corpóreos.ubi. assim.labcom. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. de tecidos. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão. um signo. isto é. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. laboratorialmente pensado. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo. Regressamos. processos de produção de materiais. a uma ideia. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design.pt i i i i . de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. como demonstrou Benveniste.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito. indiciam constantemente a situação do discurso. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo. A diferença fundamental. não ter sujeito. pelo conjunto de pronomes pessoais que. www. no entanto. tecnologicamente intervencionado. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é. Este poder de auto-referência é proporcionado. o terceiro capítulo. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. como mostraremos. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação. também aí. de próteses. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. mas um acto discursivo.

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envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. que estão na dependência de um conjunto. quer públicas quer privadas. A experiência do corpo . para comer. de um modo mais ou menos explicito. por sua vez se declina no social. esquemas de operações e manipulações técnicas.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. a uma produção do sentido do corpo. Surveiller et punir. no político. Petrópolis. pressupõem sempre práticas corporais. afirmada pela família.Artes de fazer. Estes procedimentos são. no jurídico. 2 Michele Foucault. que podemos designar por procedimentos. Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau. Editora Vozes. antes de mais. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. para copular etc. Paris. 1975. progressivamente. As práticas sociais. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é.) a experiência social etc – é. isto é. Em Vigiar e Punir2 . Gallimard. difícil de delimitar. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. A invenção do cotidiano . 2003. no científico etc. no religioso. como mostra Michele de Certeau1 . para dormir.a experiência proprioceptiva. no económico. para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo. 1 195 i i i i . na escola. na igreja. à sua semioticização que. na fábrica.

por Foucault. Com efeito. afirmado. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar. técnicas. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. muito mais subtil mas igualmente mais presente. mecanismos.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. como biopoder. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. sexo e arquitecturas. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo. funcionaliza. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. por eles se impõe um processo de www. militares. por castigos aplicáveis a todos. pelo contrário. internamente. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. processos ínfimos mas decisivos. educadores para os condenados. Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. criminosos. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes. ele é. intrumentalizações. produzir. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. que o procura controlar. Tratam-se de detalhes tecnológicos. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal. dominar. mas a própria análise de Foucault. o dispositivo. quer colectivo.ubi. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. doentes -. operários. maquinarias. Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. no fundo. mãos e roldanas.labcom.pt i i i i . o que identificamos não é nunca o sistema. a prisão. mais ainda. justamente. parece sublinhar a ausência: dispositivos. mas o mondo como ele integra. na ginástica flexível das suas declinações. Foucault actualiza. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. escolar e médica no começo do século XIX. centrando-se no século XVIII. que inverte. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno. úteis à sociedade. As análises anteriores. na sua disseminação.

3 www. sem hierarquia. e. 276. sucede um espaço que integra. separado horizontalmente.discurso. mecanismos. 106-113. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto. sem hierarquia. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão.3 . da continuidade do processo. torno. sem rosto nem lugar. 185. dos procedimentos. que transforma os corpos próprios. das técnicas. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. 28. por um lado. sem corte. das condições de funcionamento. de ler e de ser – uma semiótica integral. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. umas “discursivas”. 143-151. aqui se menciona o elenco: Págs.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização. mas o gesto. barómetro.pt i i i i . a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal. opaco. das operações distintas. anulador das diferenças individuais.ubi. falando de regras gerais. dois sistemas heterogéneos. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas. identifica. 189-194. ânus. corpos ligados a corpos. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder. na horizontalidade do plano. 274-275. para usar a expressão de Michel de Certeau. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas. que domina a Idade Média. já não como na História da Loucura. em peças de um corpo social que os integra e significa. Numa série de descrições clínicas. classificar. corpos ao lado de corpos. analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. 211-217. Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter.labcom. prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. feitas em Vigiar e Punir. Foucault distingue. olhos. pois. associar. formação discursiva. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. por outro lado. 96-102. são inúmeras. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão. pequeno e por toda a parte reproduzido. 238-251. Ao espaço cortado. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. distribuir. cadeira). procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. 159-161.

afinal. Dits et écrits. Assim fala Dromio. . não permitindo. www. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular. em ultima análise. de Foucault. São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social). o direito apodera-se dos corpos. Enunciação e operação. IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs.. função enunciativa . p. seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. pp. operações. “Réponse à une question”. então. Cf. complexificando uma e outra. o sentido do corpo e do corpus. ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “.”. ) – os limites e as formas da reactivação (. . discursos e mecanismos parecem. singularidade-pura ou plurali. .i i i i 198 José Bártolo siva. a descrição do arquivo. que descreve aquela máquina e o seu operar.pt i i i i . Michele Foucault. que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico. isolável do grupo. Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . mecanismos . não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época. . numa dada época e para uma determinada sociedade. . . sentida pela justiça penal. ) – os limites e as formas da apropriação (. Por esta palavra. fazendo deles o seu texto. o escravo. é instaurada devido à necessidade. ). A própria ideia do “indivíduo”. . 14]. . de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. Entendo o conjunto de regras que. Todo o poder gera princípios de ordenação. procedimentos. Paris. ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (.). . Gallimard. É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. 1994. Lisboa.labcom. devem poder ser escritos (o exercício funciona. . como o seu nome indica de maneira muito evidente. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese. I – 1954-1969.dade-pura. Mas uma arqueologia: quer dizer.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas. 2005. enunciado. à margem. corpos que devem ser marcados. Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve. . nas transacções sociais. definem: os limites e as formas da dizibilidade (. Não há direito que não se escreva sobre o corpo. ) – os limites e as formas da conservação (. ao estabelecer. como escritura) e lidos. com um preço. . 681-682. corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial.ubi. ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. Do nascimento ao luto.

e ela se escreve de novo nos corpos. Op. o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina. Pág. da religião. a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. 103. uma metamorfose do corpo. uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). Metamorfoses do Corpo. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados.i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink.labcom. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. entre as coisas e o seu valor simbólico.pt i i i i . . Mas nos tempos de crise. remete-nos. 232. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica. Shakespeare. 13. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo. Cit. ainda aí. 7 José Gil. uma transfiguração. Língua esotérica e hermenêutica. Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que. objectos. ”5 . Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária.. 1997. The Comedy of Errors. I. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena). tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). Relógio d’Água.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. Michele de Certeau. 6 5 www. Lisboa. à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo. é por si próprio o juiz.”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos. corresponde. aliás.ubi. também. por exemplo “respeita o teu superior”. o papel não basta para a lei. . Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. a única capaz de vincular o sentido. da superstição. A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis. III. Pág.

em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. o próprio objecto de análise. M. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico. Esta dupla renuncia. não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas.pt i i i i . do mesmo modo. Rio de Janeiro. Foucault. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. o exercício desse saber-poder. de reforço. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. de vias de comunicação e de 8 Cf. à metáfora da propriedade. Págs. Vigiar e Punir. 1987.labcom. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática. ao modelo do contrato ou da conquista. enquanto premissa metodológica. em particular. 24-29. no que se refere ao saber.i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça. dilucidando. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos. www. O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes. em Vigiar e Punir. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. os seus recursos. demonstra. A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”.ubi. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. Editora Vozes. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. Assim.

do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos.labcom. Pág.”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era. em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais.ubi. é um “capítulo” dessa análise maior. www. sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder. 27.i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber. talvez ainda por fazer. 9 Idem.pt i i i i . Ibidem.

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ordens que podem ser traduzidas socialmente. muitíssimo redutor. isto é. O mobiliário de uma sala de aula.i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. das cadeiras de tortura medieval. por exemplo. Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder. Seria no entanto. cadeiras eléctricas. Assim. do funcionamento do jurídico e do judicial. em menor ou menor grau. Desde os instrumentos de escarificação. de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. Do punhal de Sílex à guilhotina. serve um sistema político. tensões. ordena o espaço (o estrado. das algemas à pulseira electrónica. a maioria deles. condição de possibilidade da sua actualidade. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. não são desenhados e fabricados à partida com uma função que. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i . por exemplo. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. apenas. mas seria ingénuo não admitir que os objectos. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço.

isto é. de Certeau. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. . 233. Pág. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. M. um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. uma cadeira. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que. porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada. AAVV. não. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não. p. Porto. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço. que não se há-de converter em moeda de troca.pt i i i i . Cit.labcom. Esses objectos feitos para apertar. Pode ser coleccionada. nem sequer em local de peregrinação.1 Os instrumentos particulares funcionam. nem sequer com leveza. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo. envolventes ou contundentes. Fronteira ofensiva. Op. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca. tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. desconhecidos. seguramente. 2 Falta. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. Traduzir esta 1 www.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. mas também os articulam. “Matérias Sensíveis”. Maria Filomena Molder. conheci. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria. por exemplo). por sua vez. Centro Português de Fotografia. nem sequer com cuidado. nunca. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. Cf. do técnico para o tecnológico. madeiras compactas.”. remetendo de um lado ao corpo simbólico e. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. mas ainda estão ausentes. recebem a sua validação funcional.. de outro. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. 111. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar.”. do material para o tendencialmente desmaterial. Michele de Certeau. cortar. formam redes de nervuras.ubi. 1997. não caminhar. instrumentos curvos ou direitos.. Fica lá.2 Numa passagem admirável. Cf. uma câmara de vigilância. antes ou depois do uso. necessariamente. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto. IN Murmúrios do Tempo. à espera ou como resíduo. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo. aos seres de carne e osso. há uma evolução progressiva do duro para o mole.

Sem utilizar. Págs. 3 O historiador Lynn White em artigo. cientifica e economicamente os corpos. que isolam o leproso do são.4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue.pt i i i i . leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. Já revisitamos. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”. ordenando social. March 10. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade.labcom. a maquinaria médica isolao. no 3767. Cf. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social). o princípio de uma anatomia politica que disseca. justamente. da representação. o desenrolar lento desse processo. todavia. De um biopoder se tratava já. 1967. encontrávamos aí. Nessa gradação a carne converte-se. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. separa-o. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia. que isola o corpo. IN Science. simultaneamente. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. 1203-1207. carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que. já. ainda assim. nunca. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. ainda que através de olhar sumário. veias. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. “The historical roots of our ecological crisis”. Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. Lynn White. do cuidado e do bem-estar. o conceito foucaultiano de “biopoder”. e não mais jurídico. traduzir a subtileza e. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico.ubi. que se torna claro pelo menos desde o século XIV. progressivamente. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault. quando a unidade de referência. progressivamente em texto.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. uma desmaterialização.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais.

a linguagem engendrou esta outra suspeita: que. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche. corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios. marca de uma intradutibilidade. a partir da qual o corpo vai sendo produzido. isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que. 2005. o significado que “está por baixo”. este seria de cada vez o significado mais importante. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser. à substituição de uma máquina semiótica por outra. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal. integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários. Qualquer que seja a máquina semiótica. S. em certo sentido. desde sempre. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. www. • Por outro lado.labcom. pelo menos. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. fundamentalmente. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar.ubi. O facto. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. IN Michel Foucault. Landy Editora. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. O corte médico – corte semiótico antes de mais. Freud e Marx”.pt i i i i . pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. O “corte” a que nos referimos corresponde. talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. contudo transmite outro significado. Num texto sobre as técnicas de interpretação. não terá porventura um significado menor. de pelo menos na cultura ocidental. pois. expressão de um indizível. Paulo. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma.

Aí onde as coisas se assemelham. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. na anatomia. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. as doenças. Talvez. certas afinidades electivas. o projecto para a realização da tábua. na filosofia da natureza mas. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação.labcom. o seu sistema de interpretação. os métodos. fosse o ajuste mais particular. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. como unidade mínima de interpretação. então. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. numa ou noutra substância. todo o tumulto que atravessa os corpos. como se dizia no século XVI. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica.ubi. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. em grande medida. plenamente organizado. que nos aparecem já entre os gregos. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática.i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. perduram ao longo da história. por exemplo. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. dos humores orgânicos em medicina). o seu mapa autónomo da semióse. as suas formas específicas de produção pela linguagem. faz-se. algo que deseja ser dito.pt i i i i . que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. Isto equivaleria. também. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência. quer dizer. da semelhança. Estas duas suspeitas. a convenentia. aquilo que com isto se parece. as suas técnicas. Assim. ao semaion grego. • A noção de emulatio. e que podia ser decifrado. No século XIX a nova construção do corpo. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. na botânica. Este corpus da semelhança estava. grosso modo. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem. Para tal. na filosofia da linguagem do século XVI.

da função no interior da máquina permite a substituição. a assinatura era. social e político.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado). a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química. de filtros. há muito que ele já era actual no plano económico. A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. • Finalmente.ubi. substituir. www. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem. de bombas. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. tirar. como para pensar o rosto humano. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). repara-se. • A noção de signatura. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos. Alquimia. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. fabrica-se. sentido este que será substituído. a imagem de uma propriedade invisível e oculta. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. acrescentar. de alavancas. assim. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas. da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII).pt i i i i . entre as propriedades visíveis de um indivíduo. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar.labcom. modificar. a noção de analogia. cortar. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se.

do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas. a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. pela purga etc.labcom. www. jurídico. mitológico) se transforma. da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei. próteses etc.pt i i i i . Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente. a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar.). quan.ubi. quer cientifico quer social. Se o corpus textual (cientifico.i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos.

i i i i i i i i .

2 1 211 i i i i . no contexto social. 1950. no contexto social. PUF. 3 M. Athenäum Verlag. Vrin. The MIT Press. por Canguilhem1 . entre o organismo e a máquina. a segunda. M. Surveiller et punir. Foucault. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico. C. Android Epistemology.). trabalhada por Mauss3 . A. Paris. Der Mensch. Seine Natur und seine Stellung in der Welt. 4 Cf. La connaissance de la vie. Bonn. A primeira. nos anos 60. da continuidade entre a vida e a técnica. o instrumentaliza. Cambridge.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. Ford. K. agenciado. do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. mostra-nos como o humano. plenamente em curso. o orgânico e o maquinico2 . para alcançar os seus próprios fins. 5 Cf. ser hoje confirmada por um processo. o instrumentaliza. A tese da incompletude. por exemplo. por técnicas sócio-politicas.. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. Canguilhelm. Sociologie et anthropologie. Paris. Gehlen. Paris. Mauss. se serve do próprio corpo. Naissance de la prison. trabalhada por Foucault4 . Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. Glimour e P. senão da obsolescência. e com elas Cf. G. 1975. Hayes (Org. 1968. parece. Mass. M. 1971. Gallimard. mostra como o poder humano. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). se serve do corpo do outro. 1995. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. em muitos aspectos.

De facto. p. não é o “dispositivo científico”. T. Neste sentido. 5 de Janeiro de 1960. Não há tecnologia.. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft. Cf. analysable dans les termes d’un système plus général7 . Milano.pt i i i i . precisamente. afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade. o laboratório. pelo contrário. Feltrinelli. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas.16.labcom. nos planos sintáctico.ubi. Lévi-Strauss mostra-nos.”. o design parece. fundamentalmente. A história da semiótica ensina-nos como. por exemplo. muitas vezes a par. condições de funcionamento do laboratório. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo. do design do corpo. ciborgues – reaparecem com uma força crescente. Por um lado. progressivamente. que funda o “dispositivo tecnológico” é. como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. Muitas das técnicas primitivas. aliás. A tecnologia. apenas. a tecnologia que funda. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. Maldonado. por outro lado. Lévi-Strauss. Critica della ragione informática. www. semântico e pragmático. pragmática. C. 1997. A construção semiótica e a construção técnica andam. p. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. A sua força reside. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . 151. ligadas por um 6 7 Cf. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é.. tecendo jogos de legitimação. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. andróides. isto é. pressupõe a legitimação de uma prática.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos. quando há “alta tecnologia”. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. gradualmente.

modificada. que nele desencadeiam processos de agenciamento. representa.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”. em todo o caso. aux becs de le dévorer. devir-doença ou devir-fertilidade. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. A identidade não é alterada mas. 23-24. ou seja.labcom. que pode devir-morte.pt i i i i . pp. Falámos de máscaras. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. 1975 . A máscara é. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. de devir-outro. Un jeu de cordes. Trata-se de um conteúdo formal. Skira. à semelhança do corpo humano que duplica. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. replicantes e ciborgues. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. gadgets e transformers. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. Lévi-Strauss. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. 9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. do modelo definido por um Referimo-nos a C. antes. aux yeux de pleurer sa mort. Idem. O boneco articulado é. Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade.” . Na sua semiótica da máscara8 . um desvio à norma. 1. et les artifices du carnaval. A máscara é. O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza. vol. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens. um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. Genève. são técnicas de intensificação do corpo. dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés. Lévi-Strauss. neste sentido. aqui e sempre. um corpo agenciável. 8 www. de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum.ubi. Cf. Unique en son genre. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. um excesso. isto é. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. règnent ici dans leur primitive unité. La Voix des masques. a sua articulação e automação.

corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. possuirá. No entanto. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”. o seu corpo-monstro. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário. a produção não tem. codificação absoluta. a produção técnica é. também. da mesma forma que o têm a economia.labcom. da descodificação e o contrário. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. a medicina.ubi. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. as biotecnologias. por definição. o cinema. a filosofia. um sistema pré-cientifico. no entanto. a produção nunca é simples. as ciências do artificial e. isto é. A biologia tem o seu corpo-modelo. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção. semioticização total. isto é.pt i i i i . materializante. Por exemplo. de resto. quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina. De facto. por outro lado. mesmo. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. o design. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. retroactivos em relação à máquina que os produziu. de ser material ainda que tenda a ser. Não haverá. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. a publicidade etc. sempre. sempre. complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático. apenas. normalização sem resto. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. se não existir a semioticização do erro controlado. necessariamente. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha.

O ciborgue. Essay in Sociological Pure and Applied. 1957. que a partir de fora se façam da máquina. Free P. na banda-desenhada. mais. Cf. ) Um processo ou um conjunto de condições. porque o imaginário é. mas também nos laboratórios. . o que acontece dentro ou fora acontecerá. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica. No cinema. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. A deformação do corpo materializa o próprio excesso. nas farmácias.”. . T. Freud mostrou bem. nos consultórios médicos. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material.i i i i Corpo e Sentido 215 determina.). também. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk. plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico. citar Parsons. nas fábricas. nos ginásios. a este respeito. as posições dentro e fora relativas a si e. isto é. no Design. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. determinará em relação às possíveis traduções. à superfície e em profundidade. como sobredetermina na medida em que ela própria produz. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas.10 A cibernética e. dentro. necessariamente. De um excesso se trata. um excesso semiótico. nesse sentido.pt i i i i .ubi. Este excesso. também. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo.labcom. Glencoe. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. sobrecodificação. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. produção semiótica. com proveito. poder-se-ia. essencialmente. Parsons. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. ciber-design etc. Numa palavra. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. quer semânticas quer pragmáticas. 10 www.. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser. por ela sobredeterminado. por exemplo. na literatura. em relação aos meios e. por exemplo. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema.

lobisomens. analógico. entre-planos. os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar. No seminário de 26. analógico. Cf. entre saberes e práticas. Prado Coelho (Org.). digital. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. delas nos afastaria.mecânico. enquando incorporadores. Os estados técnicos. Relógio d’Água. Tucherman. homens-biónicos. em certo sentido. é que as fronteiras não são naturais. tal como Deleuze o pensou. “Entre anjos e cyborgs”. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. Na abordagem da esquizoanálise.labcom. no seu limite. a construção de uma zona de troca semiótica que. A questão que se deve pôr.A. e na fronteira. Ciborgues. no entanto. não sucede nunca ao nível da identidade mas. umas por relação às outras. no 28. Tendências da cultura contemporânea. digital são. 157.pt i i i i . com os fluxos e as Ieda Tucherman. a partir dos seus poderes especiais. 2000. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica . só podem ser pensadas no limite do humano. trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. interagindo e. muito bem. anotava Ieda Tucherman11 .ubi. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica). antes de mais.1982. antes. In J. A alteração. p. a ocorrer.01. agenciamentos linguísticos. sobre um regime de segmentarizações. difícil de responder. 11 www. são “figuras de fronteira” como. devem ser inseridas e pensadas. mais do que nos aproximar. Bragança de Miranda e E. aproxima-se do conceito de território. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. do corpo como do pensamento”. circunscrições que demarcam espaço e movimento. ao nível da intensidade. e tantas outras figuras. I. instrumentalizar. Revista de Comunicação e linguagens. Lisboa. integrando-os. intitulado. para escrever: “O que testemunham. são agentes de intensificação do humano. realidade e imaginário.i i i i 216 José Bártolo constrói canais. as máquinas que funcionam. antes. São processos de territorialização.

semântico e pragmático. do espaço doméstico. no 6. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. operador. 193-194. finalmente os universos. 1995. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. Lisboa. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. MIT Press. a especializar ou a dissecar. Zone. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. o médico é também identificado como sujeito. I. é o estudo “Hygien. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard. máquinas semióticas e universos semióticos.labcom. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui. fundamentalmente. sob o signo da preservação da vida. como temos vimos a afirmar. e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas. Edições 70. Incorporations.ubi. A troca simbólica e a morte. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina.496515. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. 1996. altera-se. o corpo é.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações. Se. 13 12 www. Abbott Miller. numa palavra. ainda que aqui. territórios semióticos. entre o interior e o exterior do corpo. Assim. sempre. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico.pt i i i i . Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço. tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter. pp. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. pp.

uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo. 15 Bruce Benderson. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão.). Lisboa.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. residual. Simulacros e Simulação. p.i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . anjos biónicos – talvez possam ser analisados. Sexe ey solitude. essencialmente. no corpo. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. áreas comuns e de isolamento etc. como sugere José Augusto Mourão. “Hibridismo e Semiótica”. 2001. ciborgues. Paris. ao computador. mas a sua actuação é. ao mesmo tempo reverte e intensifica. sempre.pt i i i i . no interior do que Bruno Latour e M. Relógio d’Água. mesmo na perspectiva marxista. Para que aja monstro tem de haver. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. 16 José Augusto Mourão. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror. do autómato. de devir-monstro. tradução portuguesa de Maria João Pereira. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. 179. essencialmente. Fantasmas. Payot. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. ciborgues. 14 www. tecnologicamente motivado. prolongamento do corpo) é.ubi. corpoJean Baudrillard. espaço de recobro. em primeiro lugar. 15.bloco de operação. algum tipo de reconhecimento e. estatutos de significante e significado. no sentido do mesmo Baudrillard. ao triunfo do fantasma puro”15 . Lisboa. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo. Todo o real é residual. O Campo da Semiótica. RCL no 29. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. p. replicantes. Não será. não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. andróides. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. 1999. Todas estas figuras – fantasmas. 1991. p. há no monstro uma tensão de identidade. uma perturbação do reconhecimento. uma tecnologia de reciclagem. 292. significações do corpo.labcom. corpo-mecânico do século XVII e XVIII. em segundo lugar. Relógio d’Água. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea.

na segunda obra. o corpo no seu devir-outro. 2001. en des choses inertes. o corpo-outro. M. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos. que colocam em questão o humano. Breve História do Corpo e de seus monstros.ubi.20 Ieda Tucherman.o aumento das próteses. in E. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). Michele Serres. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética.C. F. 1999. a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização.”18 Anuncia-se o outro do corpo.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI. Éditions Le Pommier. a criação do ciborgue. leur externalisation. como refere Ieda Tucherman17 . Corte-Real. assurément. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. No interior de uma cultura exo-darwiniana. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde. C. e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda. Ceiade. Bártolo. de um modo ou de outro. Passagens. Paris. o facto dessas máquinas serem. Lisboa. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. classificando. Rodrigues. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico. a clonagem. Hominescence. as possibilidades de vida em ambiente virtual . Senses and sensibility in technology. outro aspecto se destaca. 20 Lembremos. en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . Duarte.labcom. certes. o corpo no seu devir-ferramenta.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage. Vega. em particular. em aparelhar o corpo. colocamos em cena o “teatro do corpo”. o seu corpo. a sua vida. 2003. que a noção de cyborg traduz19 . et cette objectivation peut améliorer les performances.pt i i i i . Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. 52. como lhe chama Michel Serres. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. de pueril o esforço de forjar palavras. et intelligentes. falamos. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors. p. veja-se J. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. 18 17 www. máquinas filosóficas. hoje.

por isso. como dizia Herder. permanece fantasma. 77. Freiburg/München. 1970. na sua tradução mais literal. por se tornarem inamen vocem. Verlag Karl Alber. Os termos são sempre os mesmos. banalizado. Von Richard Wisser. segundo Heidegger. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. A experiência de pensar. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. neologismo em língua franca. pois. quando. corresponde a esse que. September 1969). dizer espectro ou dizer fantasma. 21 www. em periculum. sonhos. que se acha. no início. locução composta a partir de cybernetic organism. o que é imprescindível.pt i i i i . que é matriz. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. a antiga força da árvore é recuperada. de algum modo. deriva de periri.ubi.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta. os vocabulum emortum. voz viva.labcom. O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências. Falar em experiência da linguagem corresponde. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. corresponde à experiência do que não se sabe através. p. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. nessa abertura é dito e significado. porque eles são a nossa permanente companhia. que também é mater. entretanto perdido. Experiri é. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. aguardam quem as desperte do seu repouso. hrsg. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho. experirir. não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . como mater. medos ou esperanças. como diria Bacon. pensou que havia que inventar novos termos. da antecipação da linguagem. são palavras que anseiam por dizer. de traduzir o pensamento em linguagem é. Assim. Em conversa com Wisser. a travessia de um perigo. A palavra cyborg. torna-se abrigo de incompreensão. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. ou convertido em abstracção. também. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo. A palavra experiência.

) Tendências da Cultura Contemporânea. Cf. 22 www. ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria. como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas. no 28. De acordo com Benjamin.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. 157-171. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver.P: Coelho (Org. do conhecido e do desconhecido.ubi. sabemo-lo.labcom. “Entre anjos e Cyborgs” IN J. ainda que breve. que. do visível e do invisível. é uma forma de antecipação. da noção de limite. pp. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 . por excelência. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária. enquanto [o pensamento]está no embaraço. de fronteira. afinal.140157. assim. na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. esse suplício que. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado. Ieda Tucherman.1. Lisboa. pp.” Cf.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. se deve perceber a sua natureza híbrida.A. é reflexo da natureza da alegoria. pela imagem e na imagem. do corpo como do pensamento. I1. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 . Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. Seria proveitoso traçar uma genealogia. 2000. em que a totalidade não é experienciável como todo. que constituem “processos de territorialização. no Protreptikos. do ausente e da coisa presente. O limes é o umbral (limen) que. Revista de Comunicação e Linguagens. Bragança de Miranda e E. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 . misturada. provém de uma experiência de reunião.pt i i i i . porque. também. circunscrições que demarcam espaço e movimento.

ubi. information services such as Prodigy and ComputerServe. Duke University Press.pt i i i i .labcom.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. mas por uma espécie de alteridade orgânica. E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico. 27 Donna Haraway.M. A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo.) In a more material sense. através de uma interessante análise. presentes e futuras. o ciborgue. O ciborgue não é. uma alegoria. As transformações da experiência. veja-se J. Cadernos ISTA. in AAVV. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue. mais do que corpo-organismo. íntimas e estranhas. Cyborgs and Women: The reinvention of nature. Anne Balsamo desloca. unexplored territory. que pode ser expressa dizendo-se que. file servers. the electronic frontier includes workstations. p.i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo. and on-line databases. num mosaico. Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman. 62. 26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto. apenas. www. New York. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast. apertando o nó que nos abraça ao cadáver. que se desenvolve contra as fronteiras.a de corpoprojecto26 .Bártolo. a fronteira que o corpo coloca. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra . é um corpo que.. 1991. (. Routledge. 1996. Durham. 2002. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. as well as the code of application programs. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos.. é corpo-interface.”25 . Simians. no 13. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. London. na travessia de um perigo. networks and bulletin boards. uma série de outras perplexidades.

Microcosmographia. 1954. Helkiah Crooke na sua Microcosmographia. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. digamo-lo assim. Gallimard. O perigo de se representar o corpo como resto. Helkiah Crooke. pela sintaxe. como aquilo que fica. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . tem a ver. de 1631. por exemplo. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura. o perónio. de confundir thesis e pro-thesis. seria uma thesis articulada a uma outra thesis.labcom. o véu o cobre e descobre. o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. um humano e um cavalo. por exemplo. questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. Essais et Conférences. o modo da sua dispensação aos humanos. com o procedimento alegórico. como desvendamento/ocultação?”29 . eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. p. este jogo quase de ilusionista. London. M. Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. Paris.26-27.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe. residual. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. Tal como ao fantasma. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. 1631. jogo alegórico por excelência. da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente. directamente. As armadilhas da espectralidade valem-se. em grande medida. pp. Sparke.ubi. www. Esta ideia de substituição. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. 930. com razão. a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade. para fazer. é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. original e réplica.pt i i i i . Martin Heidegger. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). Era Heidegger quem. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. A tíbia. o jogo da realidade.

engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo. Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. Synbolik und Mythologie der altern Völker. poderíamos até dizer. . Spectres de Marx. caso a primeira espiritualização produza. enquanto captação imagética da semelhança. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. 31 30 www. 1993. A origem. outro. um fantasma do espírito e.i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. 202-203. Embora circunscrito. e de agoreuein.labcom. Cf. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. Apud. o exercício protésico é. ou uma ideia. falar na àgora. susceptível de ser descrito. Leipzig-Darmstadt. exercício alegórico. mas a um corpo mais abstracto do que nunca. Galilée.ubi. corpórea. diferentes dela mesma. Benjamin. 179. totalmente revista). W. Não regressando ao corpo real. . Friedrich Creuzer.pt i i i i . As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar. a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. . pp. p. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. mais ainda. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos.”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. Dito de outro modo. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. também ela. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida. tal como Marx nos leva por vezes a pensar. mas a um “ver como”.. 1819 (2a ed. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. um corpo-protésico. Paris. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 . A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto. No caso da alegoria há uma substituição. alegoria deriva de allos.”. Etimologicamente. sempre. um fantasma do fantasma. à partida um espectro.

A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. se fundem numa nova unidade. nem. os transportes. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico. por mediação da série. tão-pouco. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. com a manutenção. ciborgue.ubi. o que faz superar toda a simples representação como nexo. a performance etc.pt i i i i . É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito. a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica.” Corpo protésico. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. ambas são concreções de um modelo abstracto. que nos invade as ruas. corpo compósito. ainda que persistindo como partes componentes. têm a ver com a compatibilidade. isto é. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. pelo impulso para trás. tudo isto são alegorias.labcom.ela é uma thesis e. pelo abandono do dissemelhante. a sua presença abaladora. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que. como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado. ao nível da intervenção protésica. Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. as cawww. o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . com o perigo de rejeição. As preocupações médicas. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. formado já não no interior mediante uma composição de nexos.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. são preocupações sintácticas. neste sentido.

Antropologia do Ciborgue. E não se trata simplesmente de ideias. o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu. sem dúvida.”32 . quando não de fusão. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes.labcom. of couplings between organism and machine. Segundo Haraway. 33 32 www. desmaterializada. p. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. Donna Haraway. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. São Paulo. who populate worlds ambiguously natural and crafted. disfarçada.creatures simultaneously animal and machine. a representação alegórica. da hibridação do natural e do artificial. 2000.i i i i 226 José Bártolo sas. 149-150. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis. aí. A estranheza do ciborgue. disfarçada.pt i i i i . representa. IN Simians. Modern medicine is also full of cyborgs. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality. os corpos. A técnica. Cyborgs and Women. each conceived as coded devices. ao tornar-se uma pele electrónica fluida.”33 . “A cyborg manifesto”. Mas o ciborgue não é. “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”. Trata-se de uma nova carne. os sonhos. neste planeta. apenas. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. IN Hari Kunzru. o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. de elementos polares. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação.ubi. do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces. Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). é a representação alegórica. pura interface. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo.

mostra como potencialmente a humanidade do homem. IN M. O que faz do ciborgue um “atractor” é. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard . Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg. falta uma mão capaz de sentir nuances. expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância. p. literalmente. o que lhes suceder efectuará o. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. ao tocar noutra. 2002.ubi. O aparecimento do ciborgue. a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop.labcom. saúde e felicidade (como na visão extropista). Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. formado. Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. contem o germe da sua inumanidade. de fronteira. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam.à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam. 34 www. a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real. Bragança de Miranda. loucura. o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade.”34 . A Cultura das Redes.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . parte do corpo. apenas em parte. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras. precisamente. quer como atractor de inumanidade. Marcos e J.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo. deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição. caos. Revista de Comunicação e Linguagens. 66. como a Internet e a Realidade Virtual. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. configurada no corpo normal. Número Extra. na mão do Terminator. O ciborgue é um ser estranho.L.

rifatta su figulus ed effigies (Cfr. 2-3). Inoltre A. Fingo). sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. I derivati latini in-tura.7-12 (Loc. 219. Giacalone Ramat. A bengala branca do cego. Messages et Signaux. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. 1974. nos stoichea dos Estóicos.pt i i i i . Paris.labcom. 36 Cf. 35 www. 501-502. ma fictura attestato in Plaut. Cit. 236. V. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. Por outras palavras. o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. se se quiser. fêmea. Lateinische Grammatik . L. M. significante sem articulações. porco. de uma expressão difusa da relação homem-máquina). De facto há uma circulação de sentido. Fingo. uma partilha comum. Paris 1967. exprime genericamente a cegueira. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. PUF.A. 2000. Invigilata Lucernis. La forma più antica. e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. 365. p. exprime. porca. Walde. derivato dal supino. pp. V. Meillet. Ist. secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore.” Cfr. Paola Aretini. homem. Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações. s. Leumann. Ernout . Dificilmente podemos afirmar. pois. A. Frankfurt a. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala. nas figuras de Hjelmslev. 7). com rigor. uma multiplicidade de conteúdos. I. No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs. M. probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”. pede passagem. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit. 1963. por exemplo). mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs. Zellmer. ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr. 22. “Rend.ubi. “Non Corpus. Trin. 247) sembra essere non figura.i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. 1976. ovelha. que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana. postula compreensão por parte dos presentes. s. sistemas com uma única articulação36 . 277. Cfr. München.” 108. 1966. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. Die Lateinischen Wörter auf-ura. P. para os latinos. Prieto. E. Lomb. I. A. Dictionnaire étymologique de la langue latine. Heidelberg 1965. muito fecunda de significação.

a presença do ciborgue territoriza.). De facto. um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo. Revista de Comunicação e Linguagens.288.). não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas. José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma. é fantasma. próteses etc. Mourão (Org. 30. há todo um conjunto de circulações. Maio de 2001. 7. A. no 29. Babo e J. p. ligações. Eco. De decisivo. p.pt i i i i . é figura. membros. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 . será necessário dar-lhe um outro nome. O Campo da Semiótica.. Col. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. a figura pressupõe uma presença.como nos Cf. in M. É uma coisa que não é coisa (. Instituto Piaget. O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é. do género dos quase-objectos.mais do que um signo objectivo . o território é.). mas num caso . A.ubi. por excelência. é a aparição.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. Semiótica e Filosofia da Linguagem. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . apreensão estética em Geninasca. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. 37 www.. mas que se expande ou é passível de expansão. trocas e reenvios. a carne. um articulado. Ieda Tucherman é. obsessiva. Este além-presença. que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis. “Hibridismo e semiótica”. Como comenta Eco “se não é um signo.o da além-presença ou presença-fantasma . Do ponto de vista do sistema. comunicações. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. José Augusto Mourão. U. mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. Lisboa.labcom. ainda. Teoria das artes e literatura. Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa. 38 Cf. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . aliás. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo). circuitos. Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis. uma das suas figuras. o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo. 2001. acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss.é um processo de devir e um processo de contágio. tensões. além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. órgãos.

ubi. tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. A imagem de que fala Landowski aproxima-se. Cf.acidente estético etc. que convertida. su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea. de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. aqui.labcom. um não-sujeito na expressão de Coquet41 . é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . O ciborgue não é uma coisa. En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. é um quase-objecto40 . próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. 270. de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. B. 272. Latour. . da figura de que fala Tucherman. Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies.”39 .devir-criança. Klincksieck. cada actualização de um devir . 41 Cf. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. em presença para o sujeito começa a produzir sentido. enquanto tal determina o sujeito . de imediato. Harvard UP. devir-ciborgue . mais do que dada a ver. de uma presença pura. a distancia y como vacío de sentido. isto é. a partir desse instante.não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente. “Sobre el contagio”.há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto. pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y. en consequencia. p. O Cyborg está. Eric Landowski. não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. 1985. p. 40 39 www. pero como si no estuviera allí.pt i i i i . devir-pássaro. a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y. apreensão capaz de. Coquet. Cambridge. J. provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado. de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). y allí un sujeto. Paris.-Cl. nesta perspectiva. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo.e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos.i i i i 230 José Bártolo outros . um espaço. por consiguinte. 1999. Le Discours et son sujet.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito.

num processo particular de devir CsO. para que a prótese . sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que. sempre. igualmente.mas parece.experiênciar a morte do corpo . O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue. aqui. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é.i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo. uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto. No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva. decisivo. Um exemplo claro. A mão é.pt i i i i . Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano . claro que o corpo é superfície intensiva da identidade.ubi. para a não rejeição interna da prótese. O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. posición. um devir-outro.não o pode neste ou naquele órgão particular. como ver num velho a jogar às escondidas uma criança.de esta mano -. isto é. uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. como tal. que intensifica a própria identidade. isto é. a experiência da perturbação da identidade é aqui limite.e o seu efeito estranho ou anómalo . corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e.labcom. A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue. nem pode ser encontrada no corpo . a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo .não transtorne a identidade. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. não o pode no organismo . afinal. a experiência de devir-morte. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. acordando a meio da noite. nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão. é aquele que sucede quando. www.

têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação. orelhas. 1949. ossos. R. Nova Iorque. da propriocepcção. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. ela constitui-se como Órgão-Corpo. sexo. “Notes on the French Phonemic Pattern”. corporizado a partir dela. próprio da corporeidade. p. uma sobrecodificação. como vimos. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. Lotz. quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo. Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. Ela é o ponto-central da corporização. ânus. Una presencia inmediata convoca otra.43 Se a prótese se constitui. É precisamente o plano da figuratividade. Cf. Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. Por outras palavras. 5. um órgão. . “Sobre el contagio”. como indicamos. 276-277. um tecido. antes um “mapa”. como órgão-Corpo. Vol. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante. Eric Landowski.pt i i i i . pele etc.ubi. Jakobson e J. 155. é. como lhe chama Deleuze.i i i i 232 José Bártolo ritmo. A prótese opera então por corporização a partir de si. Agosto de 1949. gesto). Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. isto é. um pé. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz. Word. no 2.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente. não é uma parte do corpo como uma mão. que é transtornado pela presença da prótese. Como a fenomenologia mostrou com clareza. Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão.labcom. pp. pés. próprio do corpo.”42 . um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade.mãos. 43 42 www. a natureza humana é corpórea. do corpo. olhos. a corporeidade não está no corpo. más distante pero que le responde como un eco. manera. a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu . A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas.

implica todo um sistema de reterritorializações. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos. por exemplo. muito mais do que da sua propriocepcção. ele mesmo desterritorializado. ligados. biocompatibilidade. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado.ubi. A reterritorialização não pressupõe. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais. de uma mão humana por uma mão protésica. E o mais rápido pode convergir para ele. Como nos ensinou Deleuze de dois www. que farão do corpo um organismo. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. Uma orelha de Algimax não é humana.labcom. semelhança funcional. antes. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada. cortados. desligados. em linguagem deleuzina. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos. um plano não-humano. Considerar órgãos sem corpo é considerar. A prótese não é humana. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal. se conectar com ele. expressão plena da sua corporização.pt i i i i . o plano-humano. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão. formalmente.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. de velocidades diferentes. contudo. sem sucessão de estágios. produzindo corpo e corporização. chamemos-lhe assim. etc. procurámo-lo mostrar. um lábio de silicone não é humano. cozidos. nem o último a se produzir ou a ocorrer.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. Esses movimentos são movimentos de desterritorialização.

só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial. em regra. essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar. antes de mais. O artificial requisita o corpo e agencia-o. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos.dir-se-ia cirúrgica ou. Podemos igualmente concluir que. logo a isolar. É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização . o meu braço. mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. no limite. externa . procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo. se se preferir. o meu ombro. isto é. tratava-se enfim. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado. fantasiar. O que se requisita e se agencia é. a totalidade do meu corpo.a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa. artificial. por movimentos mais lentos. É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar. seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. intensificar. www.pt i i i i . Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta.i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização. a minha clavícula. o meu antebraço. modificar.mas de uma substituição. enfim. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização. polarizar. a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares .o que. objectos. o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho. o meu pulso. dá-se a essa requisição e agenciamento. Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado. não de uma substituição interna ao organismo .ubi.labcom.como a substituição da pele que caiu por pele nova . a própria realidade. aliás. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). ainda que permanecesse negativa.

então. o que não faz dela. um elemento menor no interior do estudo. não permitiu desenvolver. podemos estar a suspender ou a cingir. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. De algum modo. pelo contrário. o passa a possuir. facilmente. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais . concluindo-o. O que é.i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar. Ao designarmos este ou aquele corpo.em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha. como quem toma algo para si e. como quem sitia uma cidade. de conter. ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo. Cada corpo pres235 i i i i . a sua economia própria. tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica. apresentar. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. de encerrar. em síntese. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. pode afirmar que a tomou para si. São estes dois momentos que procuraremos. como quem fecha uma porta.

componentes semióticas. contudo. A noção de máquina interessa-nos. investimentos de máquinas desejantes. 1. Francesco Varela. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas. afectivos e sociais. “L’hétérogenèse machinique”. cognitivos. pelas suas ressonâncias técnicas. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido. como retroactivos.labcom. Mas tal não significa que quando falamos em máquina. narrativas. pp. IN Chimeres. Paris. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. Os corpos não são. Mais próximo de nós está. isto é. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. nem prestam. proposições. Galilée. por máquina semiótica. máquina semiótica. as concepções sistémicas mais recentes.i i i i 236 José Bártolo supõe. mas todos eles têm um sentido. Paris. processos de devir. através de palavras.ubi. a partir da aproximação mecânica. 45 44 www. “lidos”. gestos. Autonomie et Connaissance. 46 Félix Guattari. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior.pt i i i i . investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. o objectivo é explicitar o sentido. de algum modo convertidos em corpo-objecto. intensificações. componentes orgânicas. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. dissemo-lo repetidas vezes. mas também “escritos”. Para a semiótica. nem valem todos o mesmo. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . “representados”. um organismo. Cybernétique et Société. meta-máquina. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). aberta por Nobert Wiener44 . 1-20. actos de linguagem. São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. semióticos. a perspectiva cibernética. PUF. 1984. naturalmente. uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. 1998. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente. componentes de informação e representação individual e colectiva. sempre e de cada vez. são susceptíveis de serem “enunciados”. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. Todos esses corpos. ambos. “interpretados” e “discursificados”.

ubi. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida. tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. Vale a pena. do corpo como objecto de design total. relações. ao contrário. nesse estádio.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. antes. 47 www. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando. igualmente. Pág. que se encontra expressa. a propósito. Deleuze. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. se possível. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá. nomeadamente. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”.”. 4. 1994. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. P. antes de mais. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido. citar Per Aage Brandt. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. isto é. Em primeiro lugar. A. Aarhus University Press. Dynamiques du sens. a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou. que o que se fez foi passar. o seu funcionamento. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. Wigley mas. Em todo o caso. no terceiro capítulo do estudo. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. parece-nos. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. no primeiro capítulo. isto é. Brandt. em vários momentos.pt i i i i . O que se pretendeu fazer foi.labcom. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. um breve esclarecimento se impõe. se nos detivemos. sobretudo.

i i i i 238 José Bártolo também. Sabemos de J. familiar aos semióticos. já citada neste estudo: “1. Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. pág. que produz. por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir. Ithaca e London. neste sentido. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos. corpos em devir-cadáver. que dispõe. Para a medicina. não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação. Por um lado. Canguilhem. repita-se. Jaakko Hintikka.labcom. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. corpos em devir-texto. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”.pt i i i i . Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir. Cornell University Press. Dizer o corpo é fazer o corpo e. 1964. Heidegger. 48 www. Corpos em devir-monstro. Por outras palavras. Austin que dizer é fazer. Assim.ubi. aliás. 138-139. numa passagem. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina.L. seguramente. em poucas linhas. o corpo de referência é o cadáver. Simondon e uma série de outros). Como entender esta afirmação? Ela não é. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. corpos em devir-máquina. Jean Baudrillard. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses). Neste sentido. Knowledge and Belief. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes. Gille. seja no sentido de Austin (How to do things with words). em que funcionam como paradigmas.”48 . devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. An introduction to logic of the two notions. que intensifica.

. Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal.pt i i i i . porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. enformada. Para a religião. sob o signo da preservação da vida. O corpo como vala. Lisboa. resistência do corpo a significar-se. A troca simbólica e a morte.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. nem fantasma director. 3. é a extrapolação da produtividade racional absoluta. 1996. outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. também ela. 2. processos de transformação do corpo num corpo-outro. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”). integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas. www. Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. fosse a resistência do corpo que se manifestasse. uma máquina produtora. nessa polisemia. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é. nem código. antes de mais. 49 Jean Baudrillard. . ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e. também. nem tipo ideal. a objectivar-se. Pág. Para o sistema da economia política. numa outra posição. 193-194. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais. como se. Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento. da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. o que não acontece nunca sem resistência. a diferença irredutível que os nega. a ser isto ou aquilo. Edições 70. o tipo ideal do corpo é o robot. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo.) (.labcom. carne a ser trabalhada.ubi. I. numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla.”49 . ao mesmo tempo. fazendo-agir a sua permanente produção.

onde os operadores (o anatomista. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. de cada vez. fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. Uma análise da história do corpo.pt. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. mas. em Itália ainda no século XIII. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. no entanto.”50 Cada olhar refigura o corpo. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. do corpo. Numa conhecida entrevista. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica. 3. conduzir a uma certa iconicidade do discurso. produz uma sua determinada refiguração. descrita. naturalmente. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará. em parte. por Hobbes. refigurações. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. Pág. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo.pt i i i i . na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante. A figurativização pode. sobretudo. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido. em França no século XIV. a história das suas modelações e produções. nas suas palavras. o semiólogo) são também operados. na política. Porém. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia. mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas. Uma história do corpo. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado. verdadeiramente. foi necessário esperar por Norbert Elias e. www. na economia. desfigurações. deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. antes sistemas de operação. não há nunca um operador. identificam-se.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões. identificar um operador. de-monstrações. “O Corpo que vem”. editado on-line em www. Na perspectiva do percurso generativo. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. o que deve permitir. Michele Foucault enquadrava o momento em que. o padre. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico.triplov.ubi. isto é. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. tal como ele foi apresentado por Greimas. A semiótica do corpo. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado.labcom. no seu Leviatã.

correlativas ao contexto semiótico. a partir daí. objecto de análise. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. “Texto”. Pág.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. Pág. de modificá-lo. AAVV. atingir uma pureza técnica. que possibilita tal revolução. Págs.pt i i i i . de seus limites. dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito. É como res extensa. da própria discursificação. Portugália. de fazeres e de poderes. 52 51 www. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição. Adeus ao Corpo. a organização epistemológica da cultura medieval. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade. Antologia de textos teóricos. estrutura que funciona como o normativo do dizível. Uma fantasia implícita. e o que nos atravessava profundamente. São Paulo. era o sistema. INCM.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. o que nos sustentava no tempo e no espaço. 2003. IN Enciclopédia Einaudi. deixam entrar. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. Visão técnica e laica da ensomatose. Estruturalismo. pela incisão. 17. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. mais do que um efeito de superfície. 30. mostraram que o “sentido” não era. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. o que estava ante nós. O grande instrumento de abertura. 53 David Le Breton. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. eliminá-lo pura e simplesmente. para controlar essa parcela inapreensível. Tradução portuguesa de Marina Appenzeller. s/d. uma espuma. chama Foucault de arquivo. Papirus Editora. Antropologia e Sociedade. abrindo os corpos cadavéricos. no 17. tratamento e reconstrução.ubi. 152-175. radicalmente. uma reverberação. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. Lisboa. Cesare Segre. definindo as condições de possibilidade. mostramo-lo. Lisboa. Tentação demiúrgica de corrigi-lo. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. provavelmente. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica.labcom. na expressão de Cesare Segre52 .

para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. Regime semiótico. se praticam dissecações. os alicates. fazendo do cemitério onde. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo.labcom. um sentido idêntico. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. do laboratório. revelam a importância de uma nova lógica instrumental. “apurados”. produção semiótica. do teatro anatómico. produção artificial e produção técnica adquirem. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular.pt i i i i . também eles instrumentos que devem ser “afinados”. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais. a determinada altura. Daí ser importante. “máquinas instrumentais” complexas. uso instrumental. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. O operário moderno. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização. por exemplo. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. também. definirá o operado. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva. parcialmente. como mostramos no terceiro capítulo. ocultamente. introduzimos. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo. as pinças.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas.ubi. mais importante. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. Tão importante como escalpelo é a mão ou olho. uma análise da história e da filosofia da técnica. dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental.

à força. os vela. portanto. como que fundidos com o metal imóvel.pt i i i i . é o seu verdadeiro limite operativo. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. 55 Leia-se.ubi. os cinge. podemos extrair. Nos seus estudos. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro. sempre. mas concomitantemente. também. O artificial paralisa. o ensaio de Bojana Kunst. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado).labcom. De Baudelaire à Benjamin. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. Paris.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . nomeadamente. à nossa formação de imaginário. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. que o ser humano prolonga o instrumento. discursificado. Bojana Kunst55 . tem mostrado como. materializa o poder estabilizador da norma. nem sem o sistema. devemos aceitar que qualquer corpo é. a imobilizar um sentido. os reveste. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. Págs. na medida em que. de resto. tal imposição. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e. cortado. leva-nos a admitir que. atravessado. Tropismos. por assim dizer.). para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. vejase Christine Buci-Glucksmann. 1984. Nesta perspectiva. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. num sentido próximo de Walter Benjamin. 242-256. Lisboa. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos. “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. tensionado pelo seu funcionamento. ao longo da história. 54 www. Galilée. tende a suspender. às nossas práticas. como dizia Greimas. que os inter-liga funcionalmente. A análise sobre a existência de máquinas. uma produção marcada por uma certa artificialidade. Crítica das ligações na era da técnica. se o sentido se nos impõe. petrificam ou são. agora. 2002. a Agipa. La raison baroque. IN José A. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa.

aparecer e desaparecer”56 . cheia de corpos imobilizados e despedaçados. Verdadeiramente. 58 Dennis des Chenes. entre essas duas lógicas. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. que exige.ubi. “É o aviso de que o que existe. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. seja uma palavra ou um gesto. o que acontece é. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento. a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). Pág. Cotovia. O véu é o outro. reorganizando as suas ligações. Spirits and Clocks. Pág.”57 Tal passagem não corresponde. como um projecto. Machine and organism in Descartes. Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. sacrifício ou morte) exige um véu.labcom. 353. 245. Cit. o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. reestruturando os seus discursos. que os enuncia. Os corpos não se mantém por si próprios. reflectindo. sobretudo. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo. mas. para lá do véu não existe mais nada.i i i i 244 José Bártolo gas. de um modo geral. 57 56 www. As núpcias de Cadmo e Harmonia. cada vez mais. Cornell University Press. Ithaca and London. seja uma faixa ou uma ligadura. as máquinas não têm nada de misterioso. que os produz. não se mantém. que os discursifica. semioticizando o modelo antigo. Lisboa. Op.pt i i i i . o devir-outro. por si só. reinterpretando as suas imagens. Pág. sendo que o modelo científico vai. antes. núpcias. 2000. ser permanentemente coberto e descoberto. de um modo também gradual.. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). contudo. Bojana Kunst. têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. 99. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia. a partir do século XV. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . pelo menos. uma gradual coexistência. na natureza. A emergência Roberto Calasso. 1990. veremos que no livro de Caus. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico.

labcom. sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. “Whatever happened to Total Design?”. ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. como entidade simbólica. Brandt. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução.o individuo.A. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado. então. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. caracteriza a identidade categorial e analógica.ubi. no 5. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design. que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia. dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. In Harvard Design Magazine. quer de um SoftDesign. por um design total59 que projecta objectos. mas antes pela categoria moderna do biopoder. Da alegoria para o projecto. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no. o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design. no quadro do poder-soberano. aprendemos de Foucault. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley.pt i i i i . no quadro do biopoder. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www. como abstracção da guerra. que projecta arquitecturas em devir-templo. progressivamente auto-referenciais. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano. Summer 1998. pois. a partir do século XIX vamos assistindo. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. mecanismo que. sistemas de objectos e interfaces. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. Leviatã. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus. em devir-fortaleza ou em devir-monumento.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. como bem mostrou P.

com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. ao primado do sujeito). Mas. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação. lugares que evitamos. mapeamento. e que se renuncie. problematização. anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação. que se defende que não existe ciência sem técnica. jamais o saberemos. ainda assim. que se renuncie. uma espécie de meta-cadáver. Não os esquecendo nunca. Com os regimes modernos. sabemo-lo tão bem e. no que se refere ao poder. Em Vigiar e Punir. no que se refere ao saber. www.com. mal o sabemos.pt. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe. a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”. a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia. enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos.labcom. até onde foi possível suportar a humilhação. então. objecto por excelência. neste sentido.i i i i 246 José Bártolo terior. Sabemos. nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado.pt i i i i . até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma.ubi. pelo menos desde Francis Bacon. Normalmente. tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento. rizomamento. de dissecação. na metáfora da propriedade.interact. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. por isso. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault). no modelo do contrato ou da conquista). por sua vez. Há. e que vão continuamente regimentado a vida. O ciborgue é.

ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos. Recordemo-nos. os gestos. uma importante tradução histórico-politica. o conjunto das práticas significantes não-verbais. Ao longo do nosso estudo. fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. fomos também. o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. capaz de abarcar. o espaço de trabalho. tal investigação deveria. a título de exemplo. então. e mais precisamente. desde já. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. uma matéria moldável (um corpo-objecto). a uma semiótica da acção.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas. A leitura que. os discursos devem ser “limpos”. além da esfera dos discursos propriamente ditos.labcom. www. isto é. 60 Michele Foucault. que nos permitiria. e de uma teoria da enunciação. “assépticos”. 27. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral. alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). ainda. estamos em crer. ser prevista. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . fomos. Nesta perspectiva. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento.pt i i i i . como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. Vigiar e Punir. que se manifestam na diversidade dos espaços. identificando uma série de possíveis percursos de investigação. dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. problemática politica no sentido mais amplo do termo. da manipulação intersubjectiva e das estratégias. como sabemos. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. progressivamente. ou seja. os operadores. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. Pág. Ao longo do nosso estudo. uma nova ampliação da problemática pode. “higiénicos”. de reforço.ubi. correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos.

se revelarem. no entanto. Adorno. “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. de um desenvolvimento que possa. 7. na perspectiva da sociossemiótica. senão mesmo isolar estruturas. no entanto. vida e morte não são propriamente conceitos científicos. em particular. entre nós. ).i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. de uma conversa de baixo nível”.. Julia Kristeva. decisivos. Práticas e linguagens gestuais. W. no entanto parece-nos faltar uma análise que. durante muito tempo. ainda. por José Augusto Mourão. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes. etc. 61 www. a doutrina da vida correcta”62 . . As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido. Da ética. Vega. Segundo Medawar. Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. Sabemos que Robert Cresswell. Lisboa. 1951. foi considerado como o próprio da filosofia (. Pág. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. J. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão. fixar campos de pertinência ou de referência. em relação a elas. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. Greimas. Greimas et al. constituir tipos.labcom.) carecem. neste aspecto. Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. . o gesto instrumental. De igual modo.pt i i i i . refere-se a um campo que. anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar.ubi. Mínima Moralia. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 . 62 T. inaugurada. em biologia. actualmente. 1979. François Rastier. Frankfurt am Main. da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. o gesto técnico. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. essa Em português a referência vai para A.

labcom.i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste. o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo.ubi. há. www. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança. tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens. haverá sempre. E no entanto. uma promessa.pt i i i i . Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer. O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. e em cada corpo. dizia Kierkegaard.

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