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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

6 7 8 9

10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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ubi.pt i i i i .labcom.i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.

O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. Maria Augusta Babo. consciência de que se desejava ir mais longe. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida.i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. mais feliz. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. i i i i . Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. o saber. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. de que se está sempre em falta – perante o tempo. Aníbal Alves. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design. Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. sinal de que alguém veio em nosso auxílio. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo. a vida. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar.

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Por um lado. estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante.de Certeau). Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea. Hjelmslev. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão. Landowski mas também Foucault. Fazer semiótica1 . sendo que a significação corresponde. mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. Martinet). a jusante. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto. a herança das ciências da linguagem – de Saussure. expressando-o melhor. fundamentalmente. à actualização do sentido designamos por significância. 1 1 i i i i . que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação. Jakobson. actualmente. por outro lado. M.i i i i Introdução Enquadramento do estudo. a herança das ciências sociais ou. visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. ao enunciar do sentido em acto. da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido.

aguarda a nossa mão para se entregar”. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. Redefinir implica uma alteração do limite territorial. Trata-se de construir. que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar.pt i i i i .i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. como o relâmpago. que a verdade. no interior de um espaço conceptual já ocupado. para falar como Georges Canguilhem. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. neste sentido. a uma conquista territorial2 . que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas. não tanto para sair da sombra. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. há duas convicções orientadoras deste estudo. mas que tem instantes propícios. Ensayos/Destino. Lógica del Limite. uma verdade talvez adormecida. Barcelona. antes. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. que afirma que “nem tudo é verdadeiro. Este aspecto era fundamental para nós. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto. geralmente. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido. 2 www. Neste sentido. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. o ângulo correcto. que espera o nosso olhar para despertar.labcom. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. segmentado e definido. não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. mas fundamentalmente para se produzir. A semiótica não fornece saberes a professar. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica. lugares privilegiados. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. 1991.ubi.lha-se. O semiótico admite.

1997.ubi. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. Enquanto tal. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. anormais. Pág. A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. quando se considera o corpo como objecto de saber. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala. “evidentes” e “naturais”. experimentamos. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa. de teorização. menos ele existe por si próprio. magros – patologicamente – sentimos dor.”3 Vindos de muitas direcções. angústia – e socialmente – somos normais. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. tristeza.pt i i i i . Quando falamos em corpo. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale. Relógio d’Água. saturado de referências que. No caso do estudo que agora se apresenta. desadequados. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. partilhamos. contudo. a determinada altura. com intensidades. Todos temos um corpo que sentimos. adequados. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço. Lisboa. para falar como Marcel Mauss. como bem anotava José Gil. de desrespeitar os modelos estabelecidos. Ambição motivada não por um qualquer prazer. construções e confrontações inesgotáveis. baixos. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. mais ou menos vão.i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. www. gordos. passível de descrição. classificações. cansaço.labcom. educados. pelo contrário. a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. Somos. de análise. segmenta e define uma sobre outra vez. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. 13. segmentada. Metamorfoses do Corpo. assim. numa perspectiva dita “natural”. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. de operação. prescrições. definida – a partir de um ponto de vista próprio. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. mas de um modo tão ostensivo que. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil.

O corpo constrói-se. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo. que produzem processos de atribuição de significação. por definição selectivo. linguísticos ou não.labcom. mera carne. formalismos eficazes. por interacção.pt i i i i . como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. tal sentido dá-se. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. de facto. Cf. Prado Coelho. sendo que o contexto é. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva.ubi. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. que se define a estratégia seguida no presente estudo. contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. os. A semiótica visará. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo. Mantendo. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. Tendências da Cultura Contemporânea. 2000. J. A. desde já. são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. permanentemente. necessariamente. No 28. 363-375. assim designados por Marcel Mauss. então. pertinentes para a atribuição de uma significação. 4 www. Bragança de Miranda e E. RCL. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. Se. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”. em todo o caso. Pág. no interior de um determinado contexto semiótico. No 28. como dizia Greimas. nesta nota introdutória.

antes de mais. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato. num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. de diferentes perspectivas de análise. devemos admiti-lo. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. do corpo. se identificamos vários corpos devemos. disciplinarmente identificáveis. Assim há um operar que. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. identificar várias máquinas. também. em funcionamento. mesmo perante a crítica mais intensa.ubi. muito claramente. uma série. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural. Se o nosso estudo identifica vários corpos.labcom. para recorrermos à classificação de Peirce. uma lógica. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. enfim. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. realmente. usos. de produção que é. formulações. compreensões. do funcionamento dos operadores. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto. deste modo. produção de sentido. etc. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é.pt i i i i . produtores intencionais do sentido do corpo. igualmente. do próprio procedimento das lógicas produtivas. de operadores epistémicos.i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são.). Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde. já operava antes de a podermos reconhecer. no interior de uma máquina. deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. porque de máquinas semióticas se tratam. à sua funcionalização. O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. Esta máquina. à disposição tanto de uns como de outros. de um determinado sentido legitimador da rede de relações. apenas parece detectável retrospectivamente. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise.

o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica. também.pt i i i i . entre tantas outras. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito. e. ou por uma www. entre tantas outras. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se. complexos.i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. com gestos já semioticizados. nas formas de contaminação horizontal e vertical. em permanência. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia.labcom.ubi. como é evidente. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante. as máquinas não são estanques. A produção semiótica não é nunca linear. Assim trabalha num espaço já semioticizado. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão. isto é. no entanto. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. com instrumentos já semioticizados. a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada.

como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e. onde tudo se pode ligar a tudo. herança que. na expressão de Walter Benjamin. Crítica das ligações na era da técnica. sexe et pouvoir. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados. Segundo Valérie Steele. a contemporaneidade. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. a ele ligado.).labcom. Mode. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 . Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade. Neste processo o corpo torna-se espaço. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. que a instrumentalizam. na última década. Fetiche. zona de trocas intersemióticas. formam-no. Abbeville Press. os seus objectos e os seus sujeitos. a um tempo. no limite. tema recorrente na cultura contemporânea. no qual as tensões. essa é a da Válerie Steele. deste modo. Tropismos. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no.i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. 6 5 www.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização.ubi. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. Se há herança radical deixada pela modernidade. esse grande ausente.pt i i i i . O tema das “ligações” assume. em grande medida. tornouse. 61. simultaneamente. A análise da produção semiótica do corpo deverá. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A. os seus territórios e as suas fronteiras. semântico e pragmático. a própria contemporaneidade. Pág. os seus modelos e conceitos. 1997. jogo de combinatórias possíveis. Lisboa. O corpo. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. 2002. portanto. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. A par do tema da técnica e. Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder. o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa. particular protagonismo.

a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas. Por exemplo. o negar. do idêntico. s/d] contínua a ser. 2005. ESAD/CML. talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”. 11 Bruce Benderson. 15. os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século. não deixa de ser interessante questionarmos. das mais variadas formas. ciências da linguagem. “contaminação”9 . Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. intelectualmente. a falência das luzes. disjunções e fluidificações. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes. Galilée.i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir. o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo..ubi. 43. diversos pensadores foram-nos fornecendo. Paris. 1999. Sexe ey solitude. Lisboa. sobrevalorizadas. “Le regard implique”. . 17-18. Payot. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. Matosinhos. filosofia. pelo menos aparente. em traços gerais. a superação do humano e. Lisboa. Um entre-dois do real e do virtual. própria a todos os entre-dois (. da sua. a “crise” do corpo. 2004. 1998. Christine Buci-Glucksman. o fim das “grandes narrativas”. L’esthétique du temps au Japon. o advento do pós-humano.pt i i i i . o afirmar. de novos objectos. seja para. transgressor.10 Se o funeral da modernidade foi. demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. na maioria das situações. bem conhecido: o fim das ideologias. IN José Bártolo et al. A condição pós-moderna [Gradiva. que faz aparecer devires. IN Revista Lusitana. 10 A obra de Jean François Lyotard. a este título. . das mais variadas formas. de um modo meio explicativo.labcom. à luz desta análise. seja para. 8 7 www. o desmoronamento geral dos sistemas.”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. Eric Landowski. assim. 9 Leia-se. Pág. do imutável. Paris. uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. ). ao triunfo do fantasma puro”11 . Pág. O diagnóstico que extraem das suas análises é. se o anuncio de novas disciplinas. na maior parte dos casos. Contaminação. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”. meio divinatório.

12 www. “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . de distância variável que não conhecem em absoluto. Págs. como o mutante. icónica. O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. temese como o objecto mágico. Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão. em parte.”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que. é uma intensificação. O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. Como dele fala José Augusto Mourão. E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. 14 Idem. Ele é uma “coisa” que não é coisa. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. Como se fala de um amputado de membro fantasma. Os quaseobjectos”. cortam. uma tensão para restaurar essa perda. já que jogam entre si. imagina-se em toda a parte. no entanto. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. Ibidem. O que falta ao fantasma é a materialização.. 2001. 13 José Augusto Mourão. a carne. “Hibridismo e Semiótica. o fantasma “pressente-se. de “quase-objectos”12 . No 29. O campo da semiótica. (. como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). uma imaginação. remática. Págs. 287-301. Cit. seguindo leis de vizinhança. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis. 288. 288-289. porque aí se agarram e se projectam. ). seccionam. uma excrescência que pode remeter para outros mundos.). de torção. tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). . ainda assim. fora deles também. O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo.labcom. A sua transitoriedade. o fetiche. Advertia-nos. Pág. mas porque também os tocam. . de espectros. Op. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles. o seu excesso.ubi. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. particularizam e multiplicam as superfícies. RCL. Vivemos numa época de fantasmas. indicam uma perda e.

nos interessa. Paris. analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 . Págs.J. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos. posicionado no campo da semiótica. Não o devir social. os sublinhados são nossos. “Postace”. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. De Luiz Fortes. sociais ou politicas. p. ser-não-ser. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. Paris. diferem em natureza das suas causas reais. 15 www. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. bem como. Paulo. São Paulo. topologizam a materialidade do corpo. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas. económico ou politico. IN Groupe d’Entrevernes. ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento. 227. Seuil. 217.”17 . e deixar que efectuem as suas danças. Como a entendia Greimas. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. antes de mais. Lógica do sentido. Sémiotique et texte évangélique.são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que. É preciso. que façam as suas mímicas como extra-seres. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. Landy Editora. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. Greimas.labcom. Minuit. Port. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real.pt i i i i .ubi. Em relação ao nosso estudo. Pág. trad. Logique du sens. S. 17 A. 16 Gilles Deleuze. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. A uma semiótica do corpo cabe. particularmente. “a semiótica. 1977. 2005. os monstros .”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão.i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. nem sequer o devir técnico que. cuja análise pertence a outras disciplinas. 82-83. Perspectiva. Signes et paraboles. 2003. mesmo que muitas vezes por nós considerado. 1969. uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. pois. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados.

actualmente central. sobre o contínuo.Paris. a presença. por exemplo. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). problemáticas. 22 A. menos aprisionadas pela exigência de formalização. já não causam perturbação. 1987. Hénault. Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. Paris. Un lecture de Tintin au Tibet. Paris. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 .pt i i i i . Nessa altura a problemática da enunciação. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. Pág. ou do outro (Landowski)23 . a inclusão de novos objectos. a foria era dificilmente pensável. Pág.M. Paulinas. preocupações. 1999. o contágio.labcom. tão fundamental. 19 Esta obra. Pág. PUF. PUF. 23 Eric Landowski. “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. Floch. potencialmente mais híbrida da disciplina. 213-216. como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. 12. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. contudo. seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 . O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá.ubi. PUF. 20 Jacques Geninasca. Semiótica e Bíblia. modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 . a reflexão. Larousse). antes. La parole lettéraire. qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica. Lisboa. PUF. porque esse sentido. tratar da “presença a si” ou ao outro. “ Apresentação ”. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido. www. estimular uma leitura menos definida. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. teria parecido incongruente. 21 J. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo. ainda. 1997. Paris. 1997. IN AAVV. ferramentas.”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca. as paixões não eram consideradas. Le pouvoir comme passion. Págs.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar. Présences de l’autre. 7. hoje. era rigorosamente circunscrita. a intensidade. foi publicada em 1966 (Paris. 24 e segs. 1994.

i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. Gille fala em “sistema técnico”). It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. 2002. Stelarc. é anunciado como obsoleto. não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. Será. It might be highest of human realizations. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure. It can survive only weeks without food. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed. J. The cybercultures reader. a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. por propriedade transitiva. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado.pt i i i i . 25 24 www. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas. Courtés. Human thought recedes into the human past. Dicionário de Semiótica. We are at the end of philosophy and human physiology. Pág. no seu dicionário. and minutes without oxygen. mas mais devido ao facto da acção técnica. biológico. Págs. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise.). its performance is determined by its age. Images as post-human entities”. não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que. London/New York. Greimas e J. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado. pois.”25 A.”24 . 203. relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B. days without water. Routledge. Greimas e Courtés. O corpo humano.ubi. Cultrix.labcom. 561-62. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. It malfunctions often and fatugues quickly. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem. “From psycho-body to cyber-systems. Its survival parameters are very slim. Por sua vez. The body is obsolete. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. São Paulo.

adaptações e utilizações específicas. quer um lamento de impotência. 319.). Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens.pt i i i i . Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. Tucherman. 28 de Maio de 2001. mas. O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. como tal. Breve história do corpo e de seus monstros.”28 Não existe um modelo único do corpo. sujeito a desmontagens e remontagens.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se. redigida por Maria Lucília 26 www.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. também o embrião passou a ser um órgão manipulável. 27 Maria Filomena Molder. se torna um corpo provisório. Porto. 1999. O corpo espera. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. sofre. 24. Porto Editora. Hoje. Lisboa.ubi. Fragmentos de uma história. 70. e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. “Princípios de Método”. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. o espaço do destino. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. amado. física ou simbólica. Público.”. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”.29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia. Cf. Bruno transcrita de I. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. bem a propósito. por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes. “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença. então. o pensa e o produz. a obsolescência do corpo humano26 . Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que. Pág. 2002. entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares. resiste. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. 28 Citação de G. Antes. IN Manuel Valente Alves (Coord. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos. Vega. da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica. na verdade. Pág. a correcções. Imagens Médicas. ocupava o espaço fundamental da identidade.labcom. o corpo pertence ao reino do silêncio. Pág. simultaneamente. defende-se.

www. isto é. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos. Relógio d’Água. 169 e segs. máquina semiótica. a cada indivíduo o seu corpo.pt i i i i . fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. 2004. Lisboa. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura. Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. por vezes. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. Lisboa. a cada máquina o seu. Edições 70. a da sua desmarcação. tradução portuguesa de João Gama. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. 31 Idem. é a da sua demarcação mas também. múltiplos corpos do design e da teologia. reunindo. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. um olho. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço. como explicita Jean Baudrillard30 . como procuramos mostrar. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é. corpo-objec. despedaçá-lo. hoje tão evidentes.ubi. releva. desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. Falamos e pensamos o corpo por generalia. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade. 1996. múltiplos corpos individuais. Corpo. Técnica e Subjectividades. o seu a cada um e. “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. isto é. corpoMarcos e António Fernando Cascais. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. a cada disciplina o seu. Ibidem. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico. I Volume. sempre. ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. A história actual do corpo. também.to. a cada um múltiplos. A troca simbólica e a morte. da acção de uma determinada máquina semiótica. Pág. corpos sobre corpos. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . 30 Jean Baudrillard.labcom. Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps. acrescentamos nós. Corpos e mais corpos.

32 www. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. Significar e marcar são gestos idênticos. significam-no. Cit. considera-se. relativamente ao corpo. espaço de marcação. Significar corresponde à imposição de um sentido. O corpo. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. A história do corpo é a história da sua permanente produção. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem. que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. cibercorpo. London. para o corpo. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. afectada.pt i i i i . 72. poderá sempre ser tomado como tabula rasa. the alignment of one aspect with another. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. como diziam os medievais. e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante. connections. Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra. flows.labcom. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 .talvez faça pouco sentido falar. “The Imaginary”. de penúria nominum. espaço de inscrição. 33 Maria Teresa Cruz. que se perde. Verso.”32 . nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. numa palavra. Op. carne. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso . multidisciplinar como anteriormente anotámos.é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido. qualquer corpo. melhor dito. Sexuality in the field of Vision. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. p. um regime de signos ou. 1986. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo . A descrição da actual situação do corpo permite-nos. é o corpo que se esconde. um processo de significação do corpo.ubi. the channelling of processes. constatar uma viragem. facilmente. organs.i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. Não há sentido sem suplício.

que será. integram centenas. corpos e almas. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual. de www.pt i i i i . nas máquinas e nas cidades. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo.labcom. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. redes complexas. como dizia Foucault. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. É. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado. dos seus aparelhos. sem escolha. na sua repetição. silenciosamente. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. o presente é. no trabalho e no lazer. onde tudo. um golpe de sorte (um lançar de dados). através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. apenas. alegrias e tristezas. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. de novo. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo.ubi. todo o corpo social se torna instável. mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu. sonhos e medos. um corpo estável sob o qual possa. que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que. se fantasmiza. na oração e no combate. o azar do jogo. qual alma penada procurando. à vez. como um trovão surpreendendo a noite escura. ainda. errante. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. e o próprio jogo como azar. Na sua ruptura. um grau de incerteza. ainda. nem fuga. De cada vez que a concepção do corpo se altera. passou pela vida. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência. De cada vez há um presente que pensa o corpo. se o corpo se altera. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. repousar.

Pág.labcom. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa. a partir dos anos 70. a partir do século XVII. “respiração das mercadorias”. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz. 80. reforça esta visão.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. ainda que tornando-a potencialmente fantástica. Carne e Pedra. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. Rio de Janeiro. mostrando que o corpo é uma “simulação”. a cibercultura a partir do início dos anos 80. as formas de morrer e de matar. Os cultural studies renovaram. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino). no limite. alteram-se os cuidados do corpo. conformam a construção de dois modelos do corpo. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”. 34 www.35 É sabido como gradualmente. estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. 35 Richard Sennett. A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça.ubi. passando a falar-se em “saúde económica”. de comer e copular. também a economia medicaliza o seu reportório. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. de uma forma clara. a partir de meados do século XX. de duas metaconstruções cultural. 1994. livremente.pt i i i i . no interior e por Apropriamo-nos. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver. a ideia de que o corpo é uma “representação”. Nova Fronteira. anglo/hispano) que. do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências. a sua circulação e o seu depósito. a sua negociação e cotação. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. de conceber e dar à luz. “exercício de capital”.

No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo. biológico/tecnológico. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo. 48. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface.ubi. “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”.). acompanhando-as. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. sobretudo de uma crescente aproximação. Na sequência da tradição da filosofia grega. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. Sage. conexão. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. por assim dizer. na linha de muitos outros autores. mas. Cf. Pág. London. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”. também se transforma.pt i i i i .tador. potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software. impõe. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto. Susan Bordo.labcom. O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação. entre pólos.37 A negação. real/virtual) é. 1995. “not-self” e “not-me”. sujeito/Objecto. Págs. como “não-eu”. não apenas uma lógica de crescente ligação. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. homem/compu.). o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”. e à medida que essas práticas se transformam. gerador da ambiguidade do dualismo. Neste sentido Mike Featherstone. como um “outro-de-si”.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. 87-118. Sujeito/Objecto. corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. Boston. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. o corpo. o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. tal como a afirmação. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. www. A lógica de interface (homem/máquina. Northeastern University Press.

47 T. 40 L. segundo a expressão de Madeleine Akrich. 1993. 44 W. Hood-Williams. Routledge. Um novo território. O corpo sempre falou pela voz de outro. que a autora identifica com os “science and technology studies”.i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo. 13-23. London. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos. 3 (4). Laqueur.C. 41 M. Technology. 1. 1994.. Cambridge.) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 . à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. www. 1992. 267-92. O corpo está actualmente. Duke University Press. Durham. etc.ubi. Cartwright. Págs. Harvard University Press. London. London. 1997. 2-3. 43 Judith Butler. etc. Pág. Bodies and Discursisivity”. 45 Idem. 5. Sage. 1997.pt i i i i . “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”. da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing).). “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. 1995. com as ciências médicas (Hausman46 . Lock41 . “em julgamento”38 . 42 B. 39 J. Body & Society. IN Configurations. 2004. IN Body & Society. S. 1995. Hood-Williams45 . Changing Sex: TRansexualism. Turner. London. Harrison e J. Minneapolis. University of Minnesota Press. Págs. Harrison44 . IN Body & Society. 46 B. Ibidem. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 . Cartwright40 . Lock. 103-18. permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado. 1990. Mass. Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. Sage. Vol. Sage. etc. Turner42 . Págs. London. and the idea of Gender. 1. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo.labcom. Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud.). Laqueur47 . Screening the body: Tracing medecine’s visual culture.-M. Routledge. Hausman. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. Berthelot. com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. L. “Decentering the natural body: Making difference matter”. ergueu o seu tribunal. 10. “Gender. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology.

London. 52 Bruno Latour. Mas podemos sair deles. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. e ser então alguém que anda com o pé. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim. Latour52 . 1991. este corpo é ele próprio o “dentro”. Mass. Págs.). 255. Invocação ao meu corpo. Bálsamo. no 96. Decerto que um corpo é ambíguo. ou prende com a mão. etc. O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”.ubi. porque se o somos. Turner.55 “Rigorosamente falando”. M. 50 M. enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés. 1985. 1994. “só conhecemos e concebemos. IN Ottagono. Págs. New York. estamos sendo também esses pés que andam. 1998. com a nova epistemologia científica (Collins51 . entre aquele que observa e o que é observado. 28. “Whatever Happened to Total Design?”. onde a representação se forma ou se projecta A. a mão que prende. 54 Mark Wigley. e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. Haraway49 . S.). diz-nos Nancy. Harvard University Press. Sage. . “Industrial Design and Prosthesis”. Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. o corpo vai sendo redefinido. 53 Adrian Forty. 1991. 207-38. London. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado. Somos o pé que anda. Hepworth e B. no instante em que os vemos andar. M. 55 Estes dois parágrafos são. London. perspectivá-los. vive-se de dentro para fora. IN Harvard Design Magazine.).pt i i i i . etc. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature.labcom. Cambridge. no essencial.i i i i 20 José Bártolo samo48 . Lisboa. etc. Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. . Por vezes. é como se também estivéssemos nele. 48 www. Wigley54 . Featherstone50 . 49 Donna Haraway. Featherstone. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). Simians.. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”. 1992. 51 H. o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. ou vê com os olhos. Collins. ). Routledge. IN Camera Obscura. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. Págs. sobretudo Pág. uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira. 114-129. 1-8. com a teoria do design (Forty53 . The Body: Social Process and Cultural Theory. o olhar que vê. Sage. 1999. no 5. justamente porque o corpo é subjectivo. Bertrand Editora.

Ibidem. como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. corpóreo. entalha-se em nós.”57 Não se passa pela vida sem dor. como lhe chamava Kant. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação.pt i i i i . inconsciente). o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. antes de tudo. e a sua perda fere-nos. em cada instante. Dessa perda. se renova. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”. 57 Idem. que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. em cada reconhecimento do outro. Tradução portuguesa de Tomás Maia. O corpo é. a sua tecnologização. Pág. 56 www. Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. Corpus. Vega. ideia. 2000. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. ou seja. Transportando no corpo a dor e a alegria. também não o dá à perda. percepção. no tratamento semiótico dos regimes de signos. Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí. ainda que seja. memória. doloroso. solidão sentida. origem e receptor das relações. Há um sentido de humaniora. 80. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo. esse sentido tangível. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido. Lisboa. sentido. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. a abarrotar de intencionalidade. o sonho e o medo. as suas produções de sentido. a queimadura. 66-67. sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. a dor é somente o gume. imagem. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa. a pena. Págs. Outras vezes. Com cada um deles o nosso corpo se comove.ubi. a fragilíssima condição humana. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam. uma caverna cheia. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida.labcom. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. con-sentido.

“A dimensão imagética da metáfora”. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é. J.J. RCL no 36. nada exaustiva. Courtés e J. H. da corporeidade. em última análise. 103. pelo menos. desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito. determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias. como lhes chamaria Fontanille. A. E. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. do corpo. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. Assim. Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica. Parret na filosofia.pt i i i i .) que determinam diferentes representações e significações do corpo.”58 Na sua Semântica Estrutural. No entanto. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. A. estratégias argumentativas. na sua praxis semiósica. publicada em 1966. M. Pág. Coquet na psicanálise. . descrevendo os diferentes “modelos”. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”.labcom. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise. facilmente se estenderia. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. então. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. Arrivé e J—C. para falar como Baudrillard. sistemas semi-simbólicos. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. 2005. como já se percebeu. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica. Relógio d’Água. Floch nos media e na comunicação e a lista. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. A substância de expressão. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo.i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. Lisboa. reconfiguração dos processos narrativos. . J. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana.ubi. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. B) Em macro-análise. etc. Darrault na psicologia. IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. Retórica. 58 www. etc. A intersemiótica responde a essa estratégia. mais no sentido que lhe dão Fontanille. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. Mourão na teologia.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. não há regimes puros.-M.

para Deleuze. incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo. O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. os regimes de signos às máquinas abstractas. Minuit. ) devires-animais. produzindo-o.60 É sabido que. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 . Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. trans-sexulaidades reais. Paris. Pág. . Uma semiótica é um regime de signos. de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos). Ibidem. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. Ibidem. 140 e segs. . 1980.labcom. interligadas. a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo. antes de mais. é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique. continuuns de intensidades. 175. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. devires moleculares. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem. pelo contrário. a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. gerador de um devir-máquina. Un régime de signes contitue une sémiotique. . o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. constituições de corpos sem órgãos. então. atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo.ubi. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. . antes as cruzam. 60 Idem.”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos). semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. 61 Idem. 62 Idem. 177. Ibidem. Pág. que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana).pt i i i i . Pág. é a linguagem que remete aos regimes de signos. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique. A semiologia seria. 59 www.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo.

espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. as suas improvisações e desvios. mais interpessoal e cultural da significação (. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal. Greimas e J. a valorização e desvalorização de certas paixões.i i i i 24 José Bártolo manifestações. ocorrem. qualquer corpo. interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. No início dos anos 90. índices) da relação entre o significante e o significado. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que. Neste sentido. os seus agenciamentos. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. tanto se podem apresentar como sinal. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. durante a viagem. nesta perspectiva. Considerado em si mesmo. os sinais e os símbolos de uma linhagem. o corpo-em-situação. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. das paixões. uma “apreensão mais processual e contextual. Seuil. Sémiotique des passions. é claro que o corpo é. Fontanille.J. como um objecto que não está por um outro. em relação ao estudo das emoções. como signo ou como índice.pt i i i i . o corpo. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo.ubi. C) As orientações axiológicas. do adorno. O corpo é mítico. 63 A. Paris. . de uma condição. no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. de palco significante.63 Paolo Fabbri propõe. signos) ou analógica (símbolos. assente na natureza arbitrária (sinais. ). Págs. 99-103. de um classe. é transitório e operatório. dizia Michel de Certeau. também. Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. da escarificação. Se recorrermos à classificação de Benveniste. Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. simultaneamente. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações. 1991. Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações.labcom. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. Os modos de “ser” do corpo. . www. dando conta das tensividades fóricas. de um comprometimento.

isto é.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. é feita por R. 1988. www. paixões e devires que tem lugar no corpo e que. Versus. na mesma linha de raciocínio.labcom. verdadeiramente. 65 R. As análises dedicadas à semiótica.ubi. Págs. a sua instrumentalização. “Postfazione. 2-14. 2003. A passion veduta: il vaglio semiotico”. Harré que. de natureza intersemiótica.64 Outra proposta. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções. Não se procura aí. no 47/48. B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais.pt i i i i . 205. escapavam à semiologia. Harré. “An outline of the social constructionist viewpoint”. Harré (Ed. parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. Basil Blackwell. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff. já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. Paris. Une Histoire du corps au Moyen Âge. de um ou de outro modo. Pág.). Fabbri. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. Face ao que dissemos. IN R. a sua adequação objectiva a um determinado fim. uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. como anotámos anteriormente. a sua produção de sentido. The social construction of emotions. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva.65 A partir destas abordagens. dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura. Oxford. C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais. Harré. Éditions Liana Levi.

se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. nem carne.”69 . em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica. . que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. Paris. que o instrumentaliza. a sua presença no imaginário e na realidade. Com efeito. 5. santos ou guerreiros. com uma história sem corpos e com corpos sem história. Interessava-se pelos homens e. E no entanto o corpo tem uma história.. 1939. aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis. The Antropology of the Body. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. A história tradicional era efectivamente descarnada. La société féodale. Mas quase sempre sem corpo. antes.ubi. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história. New York & San Francisco. a legenda. Albin Michel. representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. Págs. London. Roy Ellen. Marc Bloch reivindicava. pelas mulheres. foram mudando em todas as sociedades históricas.).pt i i i i . a história da sua permanente construção social. o arquivo. um grande esquecimento para o historiador. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(. Mais recentemente. perceber como o design. 1977. 67 Cf. Pág. corpos transformados em símbolos. percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. O que se afirma é. Academic Press. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo. acessoriamente. bem entendido. Pág. então. no sentido de Deleuze. 5. assim. 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. Cit. que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado. sempre. www. como dizia Walter Benjamin. nem vida. produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. mas tratava-se.”70 Ficávamos. o seu lugar na sociedade. 343-373. nos anos 30. a descrição. A concepção do corpo.labcom. particulares. Op. IN John Blacking (Ed. 68 Falamos aqui. de um corpo sem ossos. . assim. 69 Marc Bloch. excepcionalmente.

simultaneamente. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais. IN José Augusto Mourão et al. 2003. O Enigma da Sexualidade. Cadernos ISTA. fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. tensão entre a guerra e a paz e. “Sexo. tensão entre o campo e a cidade. E. sobretudo durante a Idade Média. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. como cada língua. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. no 16. de nascer. comporta os seus idiolectos. Pág. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade. de falar. as suas improvisações e os seus desvios. tensão entre a riqueza e a pobreza. Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo. a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. tensão entre o homem e máquina.i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica. mas também o corpo-cadáver. semioticizado como matéria repugnante. Ibidem. de comer. é atravessado por essa tensão. paredes-meias com a igreja. de guerrear. José Augusto Mourão. sobretudo. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade. texto e corpo virtual”. tensão entre o homem e a mulher. O corpo cristão.labcom. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo.ubi.. tensão entre o centro e a periferia. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. proibições e desconhecimentos. tensão entre o topo e a base. imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. de trabalhar. de copular. a comunhão é um repasto. Os sacramentos santificam os corpos.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. a um tempo. a rejeição e a sua veneração. de andar. de viver. de morrer – corporizando normas e desvios. 112-13. 72 71 www. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. tolerâncias e marginalidades. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo.pt i i i i . Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo.

mas é. releva de um determinado uso semiótico do corpo. mais. uma corpórea. “Figuras e transfigurações”.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. Lisboa.pt i i i i .labcom. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar. quase sempre. causas sociais. assim. Edições Paulinas. atravessado por dois tipos de agenciamentos. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. para o corpo desviado ou desviante. sempre olhado. sempre. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. o olhar do voyeur o seu. o próprio olhar não escapa a ser François Martin. O corpo é. IN AAVV. diferentes olhares produzem. No entanto. 73 www. mesmo que se esconda. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado. qualquer que seja o seu nome: aberração. física e outra semiótica.ubi. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. O olhar do médico tem o “seu” corpo. Na sua semiótica do olhar. para o deformado. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. de nos sentarmos. de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. por duas máquinas. Págs. Mas o próprio olhar exige ser ordenado. para eles. ciborgue.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. falar. da pele até as entranhas. freak. para o monstro. então. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação. o olhar do polícia o seu. Semiótica e Bíblia. o corpo é sempre. para o corpo mal olhado. àquilo que é. como diziam Deleuze e Guattari. diferentes corpos. O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”. 163-175. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores. 1999. já passivo produto resultante daquele olhar. isto é.

de acumulação. Cit.”74 Os modelos do corpo. a nenhum dos modelados. não é nunca o corpo do nosso irmão. O modelo não tem de ser. às outras formas de poder. Gallimard. L’ordre du discours. cada cultura politica o seu.pt i i i i . Paris.labcom. 1971. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina. estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. percepções. nas palavras de Galeno. identificar quatro modelos do corpo. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. o corpo da grávida e o do aleijado.ubi. de registo. uma forma de poder e que é ligado. www. seu de direito. Richard Sennett. quer do olhar sobre o corpo. Todo o olhar almeja ser panóptico. podemos. Igualmente cada cultura tem o seu corpo. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. pelo contrário. Op. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . mórbido e neutro no corpo”. entre o que é por natureza e que é por cultura. um corpo normal. Pág. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. Em A ordem do discurso. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. mas as formas fundamentais de saber-poder. seguindo Nobert Wiener. condição de possibilidade da modelação. Assim. Cada máquina semiótica tem o seu corpo.. são modelos de ordenação quer do corpo. Pág. ou a ciência e o Estado. Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente. a distribuição ou a retenção de um saber. na sua existência e no seu funcionamento. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. cada cultura social. Nenhum poder. mas não deve corresponder. o seu. o seu. em si mesmo. cada cultura técnica. que é. de deslocamento. se exerce sem a extracção. conhecimento que se produz. 40. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo. 144. não deve ser. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. não é nunca um corpo como os corpos. a apropriação. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel.

Apud Sherry Turkle. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. encontramo-lo na figura do Golem. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum. 1972. um híbrido de máquina e organismo. . “Um ciborgue é um organismo cibernético. 221-250. juntar-se-ia. permanentemente citada quando se fala em ciborgues. a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. 78 Donna Haraway. de 1832.78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues. por correlato. IN Ana Gabriela Macedo. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues. Identidade e Desejo. 77 Ralph Emerson. alterando-os.i i i i 30 José Bártolo primeiro. São Paulo. Lisboa. a que. com 76 Marshall McLuhan. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. Paidós. . A galáxia de Gutenberg. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia. produzindo-os. ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (.ubi. tanto quanto de ficção (. . Ralph W. )”. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. nano-próteses. do corpo. feito de barro. La vida en la pantalla. maleável. Pág. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. em 1968. Os ciborgues são objectos de prova.”77 . são objectos de prova. uma criatura de realidade social. nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus. www. sob o modelo da locomotiva a vapor. “O manifesto Ciborgue: A ciência. Com o desenvolvimento tecnológico. isto é do computador e. Barcelona.pt i i i i . cujo modelo é o do corpo mágico. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se. 2002. 30. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. . como interface. Cotovia. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais. Editora da Universidade de São Paulo.labcom. Págs. Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza. Para Donna Haraway. 1995. Género. Numa passagem do seu diário.

na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. vivo ou inanimado. matéria orgânica. já não polarizadas mas agora. redefiniu. interfaces.i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. da bioengenharia e da engenharia genética . dito de um modo mais rigoroso.pt i i i i . utilizações científicas dos cadáveres). cada vez mais “compatíveis”. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. A carne do homem vai sendo enxertada de metal. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne. vivo e inanimado. chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne. para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses. no campo do design biotecnológico. O desenvolvimento das biotecnologias. genoterapia e engenharia genética). É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano. artérias e fluidos.labcom. nos últimos quinze anos. inclusivamente no cérebro. biopolímeros. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. cada vez mais leves. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. interfaciadas. cada vez mais pequenas. as tensões polares – natural ou artificial. desenvolvimentos nanomedicos. por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade. clonagem. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. desde a sua génese (fertilização in vitro. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles. de transistors. recuperação de órgãos. www. chips e electrónica. próteses internas e externas. Prototipagem rápida e virtual. Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date.ubi. “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. do biodesign. O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica. homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões. crescentemente.

por último. dos variados campos (do design à cibercultura. 19. enunciar ou adestrar. não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. uma distopia (Crash). o pensamento. nunca. talvez. Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. Cit. crescentemente hibridizadas. tenda a “estrutura-lo”. “O Corpo que vem”. a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada. Há no corpo. Op. de uma reterritorialização do corpo. Ibidem. para indicar um potencial (um devir). uma alma82 e dela poderá.” IN José Augusto Mourão. anuncia-se um novo corpo: ciborgue. como a ambicionam os extropistas. expressão de um devir-corpo. Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. uma estética do caos. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. corpo-enxertado. bio-máquina. obrigando-o a ficar refém desse pensamento. também. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. corpo que vem79 . ossos que formam um esqueleto e. Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. Da actual relação entre corpo e técnica.ubi. o pensamento dela partilhar. o pensamento sobre o corpo. corpo-digital. trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”. talvez. também. há no corpo. Pág. corpo-em-rede. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. mas à semioticização técnica da vida. para dizer a invenção dum corpo no tempo.i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo. desfiguração ou descoloração.labcom. IN Ana Gabriela Macedo. Pensemos o corpo. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida. se for feliz. ruga. Pág. há no corpo.pt i i i i . “coisas que agradam”81 e. uma utopia (Hic est locus). Não há corpo que não apresente cicatriz. a aprisiona-lo. resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. corpoprotésico. também. também. Não há pensamento que não comece pele corpo. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. então. 1 (não publicado). as possa enunciar. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. a revelar-lhe essa ossadura. 79 www. no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben). 81 Idem. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 . corpo-em-fluxo.

É uma forma. . www. dos outros corpos. igualmente.ubi. (.labcom. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas.i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. Paris. enfim. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão). de a ele nos dirigirmos. Pág. Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. . Du moi-peau au moi-pensant. 83 Didier Anzieu.pt i i i i . o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos. todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido. Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce. Le penser. 21.”83 . Dunod. 1997. Oxalá o nosso apelo seja acolhido. ) Em resumo.

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Jacques Geninasca. faz sentido a mesa suportar o computador. por sua vez. doar sentido às coisas. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. Du Sens. é. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e. 2004.”2 A. faz sentido ter corpo. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. Estar aqui faz sentido. Iuglio. Paris. como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. 1970. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. Greimas. evidentemente. Seuil. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. 1. posso dizer que o meu corpo faz sentido. 2 1 35 i i i i .i i i i Capítulo 1 Corpo. J.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso. alvo de toda a actividade hermenêutica. Fazer sentido. p. alors. se sobre isso me questionar. Mas. faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar.

Vega.abreoutro. isto é. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. o biólogo. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores. 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos. o coreógrafo. 3 www. qualquer corpo. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. p. das situações e das formas de vida. o design industrial a sua. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. analisar. o direito a sua. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. o sujeito é. o corpo começa por ser como que um texto. que fala e responde. o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. anatomizar. campo de referência do nosso estudo. envolvendo uma série de mecanismos e competências.i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . a sua fragilidade ou a força da sua presença. a sua beleza. um documento a ler. Ler. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. ela avança para o nível dos objectos. dissecar. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. 103 e segs. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo. corresponde a construir o corpo-texto como discurso. expressão de um sentido fixado4 . tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social.labcom. construindo permanentemente corpos. como paixão e enquanto forma de vida. o corpo-que. Dever-se-à considerar. Trabalhos de Jesus. é semioticizado como texto. semioticizar o corpo. enfim. que realizou a semiosis. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada. De facto. Para a sociossemiótica. como discurso. em relação dinâmica. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas. tensiva – fórica. Lisboa. a economia a sua. Cf.ubi. portanto. A anatomia tem a sua a máquina semiótica.se.12. que o corpo. cada um de nós a sua. Munidos de determinados instrumentos de leitura. Paixão e Discurso. enquanto situação. intersubjectivamente. 1996.pt i i i i . dando conta da significação do corpo. que enuncia e é enunciado. supra pág. o anatomista. assim.

envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de. nomedamente a nota 9. em “vigilante espera”. fundamentalmente.esteja.). (Eds. Sémiotique en jeu. p.73. em grande medida. mais. Arrivé et al. ao mesmo tempo. na expressão de Greimas. agora que observo mais adiante o sofá verde. reversivelmente. de um vislumbre. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas. mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. 5 www. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. estar à altura do que lhe aparece. tão somente. prometido e adiado. como corpo-objecto. nessa interoperatividade.”5 . veja-se. é por se aperceber que é essa a tarefa que. de um modo igualmente verdadeiro. porque essa construção é interconstrutiva. Se Greimas evoca a parábola bíblica.agora que vejo a minha mão. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio. se sentir morrer. Périgueux. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos. IN M. de cada vez. mas poder-se-ia dizer. 1987. e ele o saiba. uma axiologia. que ser é estar em tensão e. Fanlac.labcom. Poder-se-à. sem dúvida. cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante. que existir é estar em “tensão semiótica”. assim.ubi. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. A semiótica é uma disciplina tensiva. a explicitação da significação. se sentir vivo e. de cada vez. aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”.pt i i i i . J. mas.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto. Hadès. de cada vez e sempre. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. em cada instante. Greimas. 6 A. em cada corpo-a-corpo . como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois. De la imperfection. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. Paris. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. A significação tende para o sentido. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”. 1997. Só há espera no que é antecipável.

algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias. de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir. 1. provavelmente da cessação da vida. Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais. “Le schéma narratif à l’épreuve”.labcom. . do dormir. do coçar-se. XXI. do esfregar. seja como for que decida denominá-las. E há nisso um sentido que se emudece. Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. Este ser deverá adquirir. do caminhar.7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. 1993. Cf. Assim que entra em contacto com outros seres. essa experiência que é sustentada juntamente com. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. 8 Umberto Eco. Brodal. que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro. IN Protée. aproximando-se de V.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. do sentir dor ou alívio. do bater.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. Zilberberg. 7 www. do apanhar.ubi. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. . A este estado de consentido entre nós e as coisas. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo. ou em geral com o ambiente circundante. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo. do penetrar com o dedo uma matéria mole. Kant e o Ornitorrinco. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal). Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar. certamente elas são originais. do bater as mãos. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo.pt i i i i . 1999. em particular. do ouvir. e assim por diante. Difel. da luta. 147. p. 66. do ver. do estar de pé ou deitado. C. olfactivas ou gustativas. p. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. numa semiótica do corpo. do perceber sensações térmicas. da posse ou da perda de um objecto de desejo. Lisboa. designa Greimas por coalescência. C. da cópula.

quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. Sémiotique et Sciences Sociales. A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. como a ele se refere Herman Parret. Greimas. antes. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. IN F. a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. Masson. RCL no 29. 1976]. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo.pt i i i i . Sémantique pour l’analyse. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas. ela consistirá. uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas.ubi. Análise essa que pressupõe. O semiótico sabe.J. apenas pode almejar a estudar a significação. O Campo da Semiótica. “O real é. Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. 214. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. que embora tendo o sentido como alvo. Relógio d’Água. 2001. o real é. 11 Herman Parret. p. A. “La microsémantique”. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. práticas e os seus contextos. na verdade. Lisboa. no entanto. na introdução ao presente trabalho. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato. Rastier et al. Paris. O real é o que se faz sentido.. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro.”11 . corpóreo. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico.labcom. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. o que se faz sentir. 10 Justifica-se. entre nós e o real. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. entre outros. 1994. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. Paris. também ele. do poder-ser do sentido. agora. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo. C) Problemas das relações entre discursos. Seuil. Dissemo-lo já. www.

pt i i i i . do corpo. da sua instrumentalização. sistemas semisimbólicos. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em. etc. da corporeidade. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”.labcom. 2. Intencionalmente. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. ainda que outros sejam mencionados e pensados. -o semiólogo. 4. na medida em que transforma “operador” e “operado”.i i i i 40 José Bártolo particulares. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. etc. o anatomista e o designer .) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. só de um modo muito introdutório e. É sabido que o corpo. pelo menos. Interessounos mais. como lhes chamaria Fontanille. os seguintes quatro pontos: 1.) que determinam diferentes representações e significações do corpo. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto.. claramente pouco sistemático. mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional. para falar como Baudrillard. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. Em micro-análise. 3. descrevendo os diferentes “modelos”. reconfiguração dos processos narrativos. isto é.ubi. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. Em macro-análise. estratégias argumentativas.

Em muitos aspectos. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. na maior parte das vezes. em definitivo. que. foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica. J. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. redescobrindo. construção dinâmica. do trabalho de Greimas. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido. só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido. sobretudo. 1966. 12 A. como um método de análise do conteúdo. enunciando-o).ubi. Sémantique structurale. tarefa que a semiótica não poderia realizar. no início dos anos 60. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido. P.pt i i i i . quer de dentro.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. porém. dela se esperava que dissesse o sentido dos textos. De facto. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. é para esta mesma fonte de inspiração que. geratividade. através da dimensão do sensível e da “estesia”. não por falta de instrumentos de leitura. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. se tratam de duas abordagens distintas. A semiótica foi tida. Esta evolução da semiótica é devedora. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. de Greimas. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. Greimas. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto. apesar destas afinidades. durante muito tempo.labcom. hoje. Não é menos certo.”12 . www. Larousse. antes resulta na sua colocação em forma. a pesquisa mais avançada se volta novamente. Paris. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. para uma semiótica das situações. 8.

ubi. O sentido é antes um tesouro peculiar. em segundo lugar. que subsume os precedentes. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros. e construi-lo a dois. A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. que seja coisa a ser descoberta. 173. outra enquanto “objecto”. p. uma espécie de vampiro. depois. permutáveis. corpo-a-corpo. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua. Minuit. uma enquanto “sujeito”. devendo. e geralmente são-no. 1987. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. “Les couleurs de la chair”. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. em compensação. Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. mesmo que estas posições sejam. Sexes et parentés. separá-los. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro. a nossa carne envolvida na carne do outro. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. para que ele exista há que construi-lo. devires (já não totalmente isto. identificados: em primeiro lugar. Porque se ele existe só pode ser. semioticamente falando. segundo a imagem de Umberto Eco. como produto da colocação em presença de duas instâncias. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas. mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e.”13 . o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser. competentes para interagir em situação. dentro/fora. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto.pt i i i i . mas ainda não verdadeiramente o oposto). isto e o seu oposto). em síntese. na análise dos sistemas de representações e de valores.i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base. Paris. www. que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta.labcom.

limitando-se às funções e acções. Corpo. Foi no decorrer dos anos 60. a tarefa da semiótica interpretativa. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce).ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar. 15 14 www. Lisboa. RCL no 33. para. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”. Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. 2004. em traços gerais. p. Fernando Cascais. José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. 174. não experimenta qualquer paixão. em grande parte sob a J. por exemplo. José Augusto Mourão. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux. pp. pelo menos de forma decisiva. 10-11.labcom. digamolo de modo rude.. IN Ma Lucília Marcos e A. Cit. les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable. E. qualquer que seja a sua manifestação linguística.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo. contudo. Geninasca. situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas. O lector in fabula de Eco. Relógio d’Água. Loc.ubi. Identificar os cenários. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras. a significação discursiva dos “textos” repor. de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral). não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido. Técnica e Subjectividades.”14 Nesta perspectiva. “ Ego affectus sum”.pt i i i i . os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. ainda.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica.ta.

Barthes. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. Hjelmslev. em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. Cultrix. como o quadrado semiótico. Larousse. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira). IN Critique. visando. no Brasil. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. uma série de análises estruturais da narrativa. Greimas.J. Prolégomes à une théorie du langage. 18 Cf. 1970. em 1966. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages. J. no importante ensaio de B. B. bem expresso. É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior. da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral. 1967. como a análise sémica. movimento esse que iria desencadear.pt i i i i . 1973. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. 1968. São Paulo. L. São Paulo. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés. B. na esteira de Jakobson.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. Minuit. Paris. 19 A. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”. Guiraud. Mathoré e A. Pottier publicado em 1967. na revista “Critique”18 . 1966. EDUSP.) 20 V. Cf. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Pottier. reeditado em 1986 pelas PUF. uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos. prefigurado por A. Pottier. Greimas. neste contexto. 18-25 . também. em 1966.) 17 Da acção de Greimas. Perspectiva. 16 www. R. Paris. F. de novos instrumentos de descrição e análise. ano.labcom. assim iniciada. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista. 1975. em particular. Surgem-nos. por exemplo. Barthes.J. Paris. na sua Semântica Estrutural19 . Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. No 237. a tradução portuguesa aparecerá.ubi. Seuil. Dubois. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. Morphologie du conte. Propp. uma renovação completa da problemática semântica. Sémantique Structurale. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. pág. terá continuidade. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação.

15.22 . 21 e segs. organizadoras dos discursos. Greimas.J. de ambição axiológica. Greimas propõe-se “reA. “morfologia” que. 9. Posteriormente. Ibidem. Dito de outro modo. igualmente. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa. 21 www. J.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas. o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva. 1973. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. Livraria Almedina. pág. de maneira mais ou menos explícita. começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . Cultrix. Greimas. São Paulo. A. Semântica Estrutural. pág. 25 Idem. 1979. uma teoria geral do fazer. 23 Cf. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. de resto. interrogam-se sobre o que significam um e outro”.ubi. 24 Idem. mereceu. A Semântica Estrutural. Courtés. EDUSP. as ciências humanas. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. 11. Coimbra. Ibidem. Pág. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. Ibidem.25 Apesar disso. “ As aquisições e os projectos ”. Pág. IN J. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”.pt i i i i . 22 Idem. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 .labcom. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas.

critica a criação de uma metalinguagem descritiva. para tal. porta de entrada para o acolhimento da Idem. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. portanto. Ibidem.ubi. Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. instaurando um novo domínio de pesquisa. Hachette.pt i i i i . baseia-se no beletrismo e. como era por vezes sua pretensão. e uma linguagem metodológica. T. pela relação de pressuposição recíproca. por intermédio de interdiscursividades28 . Pág. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana. funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. sem o saber”. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. hipoteticamente. 1981. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana. que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. Cf. 27 26 www. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. contemporânea de Greimas. A partir daqui. 1987. Paris. fundado no princípio da imanência. Pág. A análise do discurso. Todorov. estabelecendo uma semântica científica. procura “explicações qualitativas tradicionais”. também. 88. postula o formalismo em linguística e faz “semântica. 28 D.labcom. o que significa que o discurso não nasceria. Seuil. Maingueneau. antes se formava. à maneira de Monsieur Jourdain. concebida como a “união. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. rompendo com uma determinada visão da linguística. 29 Idem. Paris. de um “voltar-se para as próprias coisas”. o analista da sua “memória discursiva”. valendo-se. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. Ibidem. mas. Nouvelles tendances en analyse du discours. 24.

pt i i i i . De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”. e justificar esse entendimento. Jakobson. no outro. 1999. Cf. e. por outro. vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. isto é. 12 (1-2). Cit. 20. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. Op. intersubjectividade. A. 1 e 2. o domínio do objecto textual. Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. Cadernos do Noroeste. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris. IN Comunicação e Sociedade 1. A função semiótica.labcom. À época da publicação da Semântica Estrutural.i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. reflectividade. Série Comunicação.. Dumézil. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. intencionalidade e comunicação. Vol. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins. pág. Semiótica. O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação. Programa e Metodologia. interacção. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”.ubi. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. corpo-a-corpo. 19-20. Universidade do Minho. pág. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. entre sujeito e objecto. Fifalgo. Fidalgo. reafirmar os signos como objecto da semiótica. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. Apud. “Da semiótica e seu objecto”. mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. dito do modo mais simples. A. Relatório para provas de agregação. e suspendemos a relação com o contexto. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. 30 www. Lévi-Strauss. pp. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 . não se limitando a segui-la e.

cujas operações são a tematização e a figurativização.34 Como sabemos.”32 .i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e. dispostos em patamares sucessivos. e um de superfície. Semântica. Ao estudar a estrutura elementar da significação. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. Pág. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos.quelas apresentam dois níveis: um profundo. sob influência de Merleau-Ponty. 327. remontando ao nível mais alto possível”33 . Greimas e J.. 1979. que contém a sintaxe e a semântica narrativas. 27. no percurso gerativo. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas. 32 www. aí. a ruptura com a “linguística tradicional”. segundo Greimas. dois componentes: um sintáctico e um semântico. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos. Ibidem. de modo explícito. A. isto é. Greimas e Courtés reconhecem. o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser. Pág. Enquanto esta. também. distinguindo-se. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais.labcom. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. e a semântica discursiva. a temporalização e a espacialização..pt i i i i . 15. pois. como uma teoria gerativa. Greimas. assim. Greimas estabelece. Pág. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. Hachette. Paris. afirmando. Aparecemnos. apresenta-se. 33 A. Sémiotique. assim. J.ubi.. cujos procedimentos são a actorialização. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. 34 Idem. J. A economia geral de uma teoria semiótica. de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva. a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é. descontinuidades no plano da percepção. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos. Courtés. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas. Actualmente a semiótica. correlativamente. chamada de percurso gerativo.

”35 . a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 . dans le monde où il prend position. encontramos o trabalhar desse tema. A. 15. . Pulim. ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille. Semântica. 35. et. é possível. Sémiotique du discours. . tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. univers intérioceptif. Limoges. retirando. grâce au corps propre du sujet de la perception. conceito de raiz fenomenológica.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. já. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. o novo estatuto dado à percepção. de certa forma. p.ubi. . et ce. l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel. 1998.). www. Greimas. com alguma influência merleau-pontyneana. la perception du monde intérieur. D’un côté. Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas. Greimas anota que. Pág.pt i i i i . et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio. implicitamente. La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques. ambas geradas pelo corpo próprio.. uma classe autónoma de significações linguísticas. entre la perception du monde extérieur. J. l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. Partout où il se déplace.labcom. de l’autre côté. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible. . Na Semântica Estrutural.. il détermine. . para Fontanille (mas não o era já. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. et un univers proprioceptif. consequências dessa posição: “(. qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. no seu estatuto particular. un clivage entre univers extéreoceptif. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é. suspendendo.

ou. com menos surpresa. talvez nos ajude a perceber. o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais. central em Saussure e Hjelmslev.labcom. www. bem como. no mundo sensível. Pág. Ibidem. 16. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”.i i i i 50 José Bártolo comum.Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ . o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação. a sua interpretação.pt i i i i . Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana. a significação pressupõe a existência da relação.ubi. a sua produção. da relação. Este enquadramento. 37 Idem. como se diz.37 Recuperando a categoria.

• Postulez à ce point. des modulations de la présence. organizado em torno de um corpo próprio. nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”. les termes “saisie” et “visée”. Geninasca. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. que é permanentemente agenciado. um agenciamento de enunciação. mais ou menos rápidos. Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”. em definitivo. pp. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. Fontanille. • Une fois établis deux graphiques. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré. Sémiotique et littérature. www.ubi. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”. dont vous aurez limité en leurs extrémités. à cet effet. Cit. que fazem “aparecer. O discurso. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. desaparecer e que modificam os valores. centro de enunciação. mais ou menos numerosos. J. dans l’ordre du discontinu.labcom. discurso que não comporte uma erótica do sentido. atravessado que é por fluxos. p.. directement ou indirectement proportionnel. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir). Não há. 73. Loc. sabemo-lo. espaço de devir. é uma das unidade de análise da semiótica. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues. um desejo de fazer sentido.pt i i i i . uma instância de devir.”39 38 39 J.”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”. 10-11.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez.

labcom. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. numa palavra. as situações da produção. 3. p.pt i i i i . 1994. da medicina às biotecnologias. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. que aquém e além envolvem o corpo próprio. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida. torna-lo objecto. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo. a partir delas produzidos. pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. nos discursos. para falar como Fontanille ou Zilberberg. desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. sob que forma. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva. “aqui” (espacialidade). www. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos. os afectos. do design à biologia. as sensações. os regimes de produção. hic et nunc . Numa palavra. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. a semiótica deve ser capaz de considerar. 40 Per Aage Brandt. Aarhus University Press. poder semiótico: poder de fazer sentido.i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções.“eu” (identidade). Dynamiques du sens. que é antes de mais. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. de uma semiótica que esclareça em que condições. a partir da análise dos agenciamentos.ubi. para falar como Jakobson ou Deleuze. o corpo. A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder.

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Idem, Ibidem.

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Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa. Eco.pt i i i i . Tal conversibilidade. servir de premissa a um silogismo. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια). a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo. 35. Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 .i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. 1 – 1357 b.40. p. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a. 3 Cf. regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência.labcom. www.ubi. O signo necessário vai do universal ao particular e pode. no sentido de “prova”. neste sentido. como facilmente se entende. De certa forma. τ εκηµριoν .

42. por exemplo. para os estóicos. Eco. muito mais tarde. São incorporais o vazio. o lugar. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf. Quanto à linguagem verbal distinguem.labcom. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”.pt i i i i . Trata-se. p. Como esclarece Eco.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. ainda.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. de antecipar o que. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização. facto físico. Cf. Os incorporais não são coisas. modos de ser. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. uma maneira de ver as coisas. “conteúdo” e “referente”. “expressão”. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação. como são incorporais as acções e os eventos. com clareza. p. Não é ideia. 41. são estados de coisas. muito da semiótica peirceana. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. São incorporais. O λεκτ oν completo é a proposição. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. não só aprofundam a múltipla articulação. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. admitir. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem. Eco. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes. afinal. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos.4 Da expressão. como era para os seus antecessores. numa palavra. no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. Quanto ao conteúdo ele não é. a conclusão é apenas provável. uma imagem mental ou ideia. não é som articulado. então tem febre”. www.ubi. afinal.

na semiótica estóica. suspeitar de que os acontecimentos. aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev. Ou pode ser indicativo e. Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso. é um incorporal. A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre. como. mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. que deve haver fogo. O signo é tipo não ocorrência. os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma.ubi.pt i i i i .labcom. um incorporal. empiricamente. Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos. então. nem aquele fumo e aquele fogo. remete para algo que não é evidente. O signo não concerne aquela febre e aquela doença. mas são categorias do conteúdo. os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. exemplo maior do Lekton incompleto. sejam incorporais. já estados transitórios dos corpos. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). Parecem categorias gramaticais e lexicais. os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime. Neste sentido o sujeito. De facto. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso). . onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem. . Assim. portanto. deste modo. por exemplo. porém. portanto categorias da expressão. mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença. Os signos só se formam www. Devemos. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. Por conseguinte o conteúdo estóico. Une-se.

igualmente. A leitura definitiva aparece.i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem. o que uns apelidam de objecto (Peirce)..9. intensão (Carnap). A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo.pt i i i i . i. A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). talvez. o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce. Lisboa. a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química.labcom. e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). o pragma. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos. Assírio & Alvim. 6 www. interpretante (Peirce). o seu objecto. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações. e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. e o objecto a que ele se referia.e. outros apelidam de referente (Ogden-Richards). A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos. expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens). O signo está em vez de alguma coisa. como a classificação de Lineu para a história natural.ubi. ou referência (OgdenRichards). outros designam de símbolo (Ogden-Richards). a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia. Gilles Deleuze. Imagem-Movimento. Cinema 1. ainda. com a definição peirciana do signo. um pouco. denotatum (Morris).6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity). a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. denotação (Russel) ou extensão (Carnap). são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara. Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon). cf. 2004. tradução portuguesa de Rafael Godinho. Mas. p. Ele direcciona-se para alguém. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido.

É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria. sempre presente e jamais captável. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo.228. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes. Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome. Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial. como signo ou como índice. este produz numa quase-mente um objecto imediato. no sentido de historicamente mais implantada. do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo. De facto. e por aí adiante ad infinitum”8 .i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 .labcom.. Collected Papers os Charles Sanders Pierce. permanecendo o Objecto Dinâmico. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos). 2. nesta perspectiva. 7 www. Mass. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. sempre pairante. a um tempo linguística e cognitiva. através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação.ubi. Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. Se recorrermos à classificação de C. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. 8 Idem. num certo sentido. E cada um desses interpretantes. por sua vez. S. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). 2.303. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem. Pierce. da semiótica – a semeiologia – um signo. senão precisamente por meio da semióse. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen. Cambridge.pt i i i i . da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto. Os modos de “ser” do corpo. voltamos ao Objecto Dinâmico. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial. Harvard University Press. ad infinitum. 1931-66. O corpo é na tradição maior. tanto se podem apresentar como sinal.

do adorno. mais profundo. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. por exemplo. situado ao mesmo nível do primeiro. tão bem desenvolvida por J. assim. Por outro lado.labcom. de qualquer destas interpretações. poderíamos retirar algumas conclusões. essa relação remete para outro signo. é claro que o corpo é. que justamente valorizou a noção de signo natural. Na perspectiva histórica da semiótica. possuem realmente o estatuto de signos. de um classe. assente na natureza arbitrária (sinais. e quaisquer que sejam as articulações. O século XVIII europeu. Lotman. signos) ou analógica (símbolos. se “nuvem” remete para “chuva”. por outro lado. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso.ubi. da escarificação. No entanto. de um comprometimento. Rastier. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial. de uma condição. simultaneamente. da realidade natural. como observou F. remete para o signo “chuva”. os sinais e os símbolos de uma linhagem. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. índices) da relação entre o significante e o significado. torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. o corpo seria entendido como um signo natural. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. pelo facto da existência de uma relação semiótica.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais. A partir desta interpretação. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. não deixando de ser uma referência.pt i i i i . “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto. Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. De resto. que a conjunção com o sujeito o realiza. Ora. ). Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. (. Mas. continuando. . Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual. Assim. .pt i i i i . politicamente.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”.labcom.ubi. de o produzir linguisticamente. quer à significação. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor. de algum modo. actualizando-a. sujeito realizado. quer como “narrador”. socialmente. um outro significou e interpretou o nosso corpo. objecto www. Pode-se dizer. A interpretação ratifica a significação. realizando assim o seu projecto. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. tem uma natureza produtiva. relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. Interpretação e significação são acontecimentos. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. sujeito actualizado. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza. a interpretação dá-se sob condições que. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber. A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo.

em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. Introdução à semiótica narrativa e discursiva.”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. servindo-nos. Pensando na evolução recente da semiótica.ubi. às paixões”16 . de resto. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais. pretextos para o lançamento de novos percursos. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer). Para falar como Greimas. a vida. J. discurso”. É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. de empreender a análise das “micro-estruturas”. Por isso. “ As aquisições e os projectos”. a acção. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível.i i i i 70 José Bártolo actualizado. 2003. que toma posição no mundo do sentido. Técnica e Subjectividades. legitimar. Greimas. RCL no 33. O último Greimas parece. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação.labcom. na sua abertura sensível. “ EGO AFFECTUS SUM. à emoção. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. o afecto. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. 27-28.pt i i i i . pp. na semiótica de Fontanille. p. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. 1979. torna-se possível. uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina. que define graças a esta posição. Relógio d’Água. 16 José Augusto Mourão. o corpo. Livraria Almedina. Sujeito. uma intersemiótica do corpo. Corpo. paixão. Courtés. 173. Coimbra. afirmar que. por exemplo. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. objecto realizado. IN J. 15 www.

20 Jacques Fontanille. p. em favor da dinâmica das linguagens. 19 Jacques Fontanille. Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. corpo-em-vida do sujeito. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). ii) a escolha dum ponto de vista (fito). Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica.ubi.18 Na sua Sémiotique du discours. 266. acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. 1999. 30. ainda que. considerando que a sensação e. 2001. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão). O Campo da Semiótica. Herman Parret. Tais Idem. 1998. no 61-62-63. como produtora do corpo e do sujeito-objecto.17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”. p. também. por vezes. Relógio d’Água. abandonando a perspectiva do signo. o sentido. Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais. Sémiotique du discours. p. 18 17 www. 214. modais e axiológicos. de algum modo. como o corpo e com o sujeito. p.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a. 175-176.pt i i i i . É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem. Limoges. de efeitos actancias. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. PULIM. iv) a formação de um sistema de valores. RCL no 29. mas considerando-a. sede de percepções e de emoções.labcom. o mundo exterior e o Mendo interior. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. está no choque dos corpos: corpo do mundo. Lisboa. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis. NAS. ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis.

enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. por exemplo. de uma máquina semiótica. não apenas. apenas. quer as teses seguintes onde. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. a maior parte das vezes. ele identificado com uma máquina semiótica. de resto. já o dissemos. apresentado por Julia Kristeva. representações www. na medida em que não há corpo que não seja construção.labcom. Faz notar que. que “a expressão somática é sempre enunciação”. sejam distinguidos por uma diferença. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. para Brandt. sob regras específicas. era-o. sobre essa base de semelhança ou de identidade.ubi. depois dele. a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. Ao discutir o problema da relação. o design é. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”). Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico.pt i i i i . para falar como Althusser. uma dupla actualidade. sê-lo-à para Greimas como. da respectiva máquina semiótica. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. qualquer que seja a forma pela qual se apresente. estamos em crer. é necessário que tenham algo em comum a fim de que. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo. para Lévi-Strauss. não há corpo que não seja expressão. essa frase. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev. é-o sem dúvida. Greimas. como é. que não pode ser plenamente compreendido considerando. não há corpo que não resulte do funcionamento. na medida em que são. de um modo muito claro. por exemplo. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. também. Quando uma determinada frase. também. José Augusto Mourão afirma. contribuindo para a sobredeterminação. A relação. Estas considerações ajudar-nos-ão. activos mas também retroactivos. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico).i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. para falar como Greimas.

quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”. também.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico). partindo. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos.monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. 1985. Pág. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo.labcom. 21 Julia Kristeva. territorializando o excesso semiótico. considerando. evidente. Hachette. que não encontra estabilidade na definição normativa . 15. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. da semiótica das paixões fontanilleanas.ubi. por exemplo. Psychanalyse et fois. www. como se verá. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema. a importância das produções normativas. por vezes. Au commencement était l’amour. Paris.21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos. quer para regressarmos à análise do processo de significação. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é.

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O Objecto possível é. para esse que o pensa. §536. se opera o corpo. 1997. Harvard University Press. Vol. para ganhar autêntica fertilidade. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. Pág. mas carece. isto é. Lisboa. Metamorfoses do corpo. Relógio d’Água. significável. pois. da Representação que dele no signo é dada. 75 i i i i . O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante. 16 e segs. a partir do pensamento de Lévi Strauss. poder-se-ia recorrer à distinção. 2 José Gil. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . e cujo Ser depende. “o objecto como o próprio signo o representa. o estuda ou o opera. é efectuada. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. portanto. por inteiro.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. 1965. o corpo é. Cambridge. 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. a par de muitas outras possíveis. por outro lado.. Mass. objecto imediato. se estuda o corpo. Ed. o consequente de uma significação particular que. de uma dilucidação particular do fundamento da significação.”1 . De cada vez que se pensa o corpo. não sendo o próprio corpo. IV. se age sobre o corpo.

Umberto Eco explica. a um objecto imediato. sentado em frente ao computador. enquanto significação do signo. onde eu estou. dando lugar a uma proposição particular. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base.pt i i i i . a olhar para a minha mão esquerda.labcom. Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”.”.i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. da estrutura da epiderme. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”. A. 75-91. 58 (Juin. O objecto imediato assim constituído. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. daria lugar. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia.ubi. Valentino Bompiani. que corresponde à minha mão esquerda. 4 3 www. dos ossos da mão. como defende Eco3 . que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias). Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. torna-se compreensível que. então.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira. “mão esquerda”. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento. tal como Peirce o define. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. 1980). no desenvolvimento da análise.34. na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). 1979. Lector in Fabula.ma Eco. e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”. O fundamento. de cada vez. Milano. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”. se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação). p. constitui-se um objecto imediato. do interior da mão etc. In Langages. pp. como lhe cha. por exemplo. com uma notável clareza.

5 6 Confirme-se em Charles Peirce. Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo.as definições. Cit. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 . que não as do corpo. “qualquer signo só pode representar o objecto. abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato.”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições. este devir-outro nunca desemboca num outro. de original. tem a ver com as definições. Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo . de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. 2. tomada juntamente com o signo já ampliado. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior.pt i i i i . a qual.ubi. como lembra Peirce. as fronteiras. e visto que a explanação será um signo. Idem. Op. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. criará um signo ainda mais amplo. os conceitos. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. Vol. da análise. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia.labcom. o devir-outro é um movimento de intensidade. persegue-o tensionalmente. os conceitos. por outro lado. §230 www. o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc. sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica. devemos. os argumentos . §231. as proposições e os argumentos.. admitir.i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e.operam o devir-outro do corpo. e falar acerca dele. ainda.

Op. sem que a posse plena se dê. Cit. 9 Confirme-se em Charles Peirce. “La Séméiotique de Charles S. p.labcom. seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf.13. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo. Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. o objecto dinâmico. os argumentos que. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 .. processo em processo aliás.pt i i i i . Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área. Cit. desejando dele se apossar. a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso. como sublinha Peirce. Op. Umberto Eco. precisamente.i i i i 78 José Bártolo os conceitos. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico. Peirce”. Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia. Independente do signo. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. por exemplo. 58 (Juin 1980). terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 . Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro.ubi. in the long run. Vol. 47. Confirme-se em David Savan. Este processo de intensificação corresponde. a um deitar-se diante de algo. §§12 e 13 8 7 www. de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva.. Langages. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. VIII. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada. p.”7 .

como acredita. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. próximo da imagem pairante kantiana.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias.pt i i i i . mas ele é outra coisa. O corpo/objecto dinâmico está. O meu corpo não é isto nem aquilo. de facto. a qualquer significação. mas isto. Mais. original. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). O corpo. A expressão é usada no artigo de Susan Foster. essa dor. ele é um quase-signo. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. no sentido em que não significa isto ou aquilo. de discursos e de diversas práticas”. o objecto dinâmico. 11 Idem. como aquilo. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. objecto dinâmico. mas esse gesto. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce). igualmente.ubi. eles são outra coisa. em si anterior. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. objectos imediatos. dir-se-ia de ser. 1992. ele é a condição de possibilidade da presença destes.labcom.) Incorporations. Ibidem. nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado. p. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas. 10 www. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. o meu corpo não é a minha estrutura de ADN. verdadeiramente não está presente nos corpos. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. autenticamente. mas. é evocado por estes. B) Fica. neles se não revela. são expressões do meu corpo. eles não são menos do que o corpo por inteiro. assim. enquanto. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. “Dancing Bodies”. Urzone. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. 480-495. New York. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido.

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ser capaz de saber distinguir. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. ser capaz de saber. como o soube toda uma tradição que. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. aproxima Platão e os místicos. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é. mas apenas nome. como Pierce. mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. de anatomizar. e o dizível. seja através de um discurso instrumental (bisturis. pelo processo anatómico. neste aspecto. que o indizível é o dinâmico. se vai fazendo. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. Que o corpo seja onoma e logos. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. apenas. pinças. é o imediato. objecto dinâmico e objecto imediato. por uma divisão que jamais será ultrapassada. pelo menos desde Antístenes. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). ser capaz de saber distinguir.i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. pelo contrário. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem. a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. como o faziam os antigos. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. que das substâncias simples não pode haver logos. 81 i i i i . no sentido peirceano.

o corpo exige escrita. as unhas. Escrever é tocar a extremidade. a folha. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem. 11. Colecção Passagens. os dedos. O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. Ibidem. Lisboa. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. intitulado Corpus1 .i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome. nos contactos. entre a escrita e o corpo. o pensamento não para no limiar do nome. bordas visíveis (a caneta.labcom. não a corporeidade. o corpo que adoece. semio-lógico. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis. “Como tocar então no corpo. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. 2 Idem.pt i i i i . . . tocar. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. Corpus. Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente. O corpo que abraçamos. um corpo lógico. para sempre. a própria linguagem nolo permite. p. nas deslocações. há algo que vai permanecendo sempre. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém.está sempre a acontecer na escrita”2 . nas intersecções. e como nela se vão constituindo corporeidades e. Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. no nome ele persegue a ideia. eles não param de se tocar. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. o corpo que estudamos. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. tocar o corpo. um cabelo caído sobre o branco do papel e. Há bordas do corpo e bordas da escrita.ubi. Não os signos. tradução portuguesa de Tomás Maia. Jean-Luc Nancy. mas ainda o corpo. mas o próprio corpo. as imagens. Nos pontos de tangencia. as cifras do corpo. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos. pensa Nancy. simultaneamente. distraidamente. enfim. é um corpo integrado no plano do discurso. que pretendia escrever não acerca do corpo. o corpo que vemos envelhecer. Vega. ). mas o corpo. 2000. 1 www. e na borda e de um de outro. o teclado e o ecrã do computador.

Lisboa. ou derramar o seu sentido. a sua fertilidade. o seu excesso. Perante esta concha. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”). o fim do sentido. então.pt i i i i . aquém e além dela. na relação entre corpo e linguagem.4 Uma vez mais. A palavra a mais em qualquer linguagem. estando no acto de escrever. quase derramando para fora deles. e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. INCM. o corpo é a ideia. suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio. diz Nancy. nervosa. 1995. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. aqui. fluindo nos bordos. para foras das veias por onde corre. reviravoltas. desvios do discurso em si próprio. a qualquer momento. descontinuidades (discrição). na possibilidade da escrita.labcom. no sentido da escrita. 21. e que o expõe como Ibidem. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. O excesso não tem. e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca. esta concha – são apenas manifestações da ideia. contradições. O Pensamento Morfológico de Goethe. na relação. como pensa Nancy. nem post res.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. revolta-se excrevendo-se. o plano da significação. A ideia é. 4 3 www. p. escrita e por escrever. apenas.ubi. do corpo com a linguagem. este tronco ou este bocado de osso. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco. ele não se escreve sem revolta. um calhau. um tronco. mas unicamente cum rebus. a palavra que sempre se excreve. nos bordos. nem é uma função operatória. poder-se derramar. ou escrever “o” corpo sem rupturas. como sangue com demasiada vida que parece. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. nem in re. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. a ver com o que não cabe na linguagem. ao contrário é o fim dessa idealidade. Série Universitária. É preciso atravessar este “sujeito”. nem mesmo sem inconsequências. como um bocado de osso. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos.

25. corpo e linguagem. Relógio d’àgua. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo. Cit. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy. nas uniões. o corpo do velho e o corpo do doente. Revista de Comunicação e Linguagens. O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”.i i i i 84 José Bártolo tal. p. 6 5 www. Não há sentido sem corpo a corpo. É sem duvida verdade. nas bordas. não pode ser senão intersemiótica. nas junções. que melhor conhecemos.labcom. Habitualmente. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que.ubi. no face a face entre o dentro e o fora. nas dobras. de outras vezes.7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. Lisboa. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido.5 O corpo expõe existência sobre os corpos. Herman Paret. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. em semiótica. 2001. Op. corpo e mundo. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . p. em que dentro e fora. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar. são sentidos. mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. como o anota Eric Landowski.. mais do que nós o designamos a ele. 215. no interface. 7 Idem. No 29. das “significações” e das “interpretações”. e num certo sentido. Não só o corpo mas também o mundo. O corpo é um estranho objecto de estudo. designamos por semiosis. O sentido dá-se. para usar expressões de Parret.pt i i i i . tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar. nas intersecções. Porém. quando se estuda o corpo. para ser adequada. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. vivemos o corpo de dentro para fora. constituem-se intersubjectivamente. na borda. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem. 215. Maio de 2001. o calhau que designamos por “aquele corpo”. é o objecto que nos designa. p.

isto é.podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. mas de um problema de enunciação .como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério . o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível. sujeito que analisa e objecto de análise – e é. em relação a este corpo objectivado. mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto. fazer sentido”. quando se estuda o corpo não há um objecto determinado . naturalmente.é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação . 1982.enunciação. A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura .de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto . Alice’s adventures in Wonderland.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. processo este que é.labcom. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll. Revista de Comunicação e Linguagens. Seguir-se-ia.. he asked.271286. pp. A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski. very Gravely. O “ideal”. Trata-se de saber.”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. London. o que o método pretende alcançar. Lisboa. Relógio d’àgua. Ou seja. No 29. a um tempo. the King said. 9 Lewis Carroll. o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin. onde parar. condição da sua objectivação.i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 . onde começar. seria alcançar um ponto de partida real. “Fronteiras do corpo: Fazer signo. porque não se trata tanto de um problema de conhecimento. afinal. Chanceler Press.ubi. Os Três problemas . 2001. que é. 8 www. então. aliás. p. please your Majesty?. Begin at the beginning. Maio de 2001.109. and go on till you come to the end: then you stop. distanciação e orientação . finalmente.quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá.um saber o que se quer saber .pt i i i i .que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo. por onde seguir. um problema de orientação . IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica.

labcom. Arménio Amado. Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo . a transferência cientifica . que se não dá nunca. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 .do corpo da criança. Lisboa.a objectivação . a sua ideia gerativa. concretizando.do plano da vida para o plano de estudo .não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. preenchendo. Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl.enquanto forma contém a sua ideia. do corpo do doente . esse halo que torna cada representação do corpo incomparável. ou que uma noite é uma noite. 1981. cada fotografia. isto é. A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. por exemplo. não induzida da totalidade de representações afins. 10 www. cada análise médica . identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade. movimento para um original. Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . Pelo contrário. a artificialização é parte do processo de validação. As Ciências do Artificial. isto é. retira-se o corpo do seu enquadramento natural .permite exteriorizar. cada radiografia. do corpo da mulher. Cada representação do corpo . Simon. porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas.25-28.e isola-se num enquadramento artificial . Por outras palavras. a ideia de corpo.pt i i i i . cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano.tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada.cada desenho.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. deixa aparecer. englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso.ubi. Isto é. um typus. sobre esta ultima definição veja-se H. a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo. é essa a sua organicidade. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela.do plano da vida . esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida. pp. um determinado agenciamento discursivo. Herbert Simon o define. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera.

ubi.labcom. potência e acto. como todos os seres que nascem. ao mesmo tempo. leva a cabo a sua própria possibilidade. www.pt i i i i . porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa.i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste.

labcom. Dardy e A. O corpo é um desses territórios ambíguos. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto. Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade. estranhos e íntimos ao mesmo tempo. de A.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis. De Montméja (1868). disposição e funcionamento.ubi.pt i i i i . e num certo sentido. que melhor conhecemos. ou por um qualquer inex- www. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição.

labcom. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. “objecto”. porventura.pt i i i i . O corpo. o estar deitado diante de algo. no entanto. Obstaculum significa. O obstáculo. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”. de uma falha. p. Cit.). IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. de um embaraço. Maio de 2001. Cit. o aproximarse de algo. mais estreitamente. parece. marca de uma limitação. ele sempre acolheu. pois.255. “interpor”. está ligado a uma acção. Lisboa.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez. o cravar as mãos em algo. enquanto objecto de estudo. “fincar”. “expor” (a um perigo). por sua vez. contudo. “obstáculo. Augusto Mourão. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. 13 Confirme-se em Maria Augusta Babo. Fazer signo. IN Ma Augusta Babo e J. O corpo é. “Para Uma semiótica do Corpo”. Ao tomar-se algo como objecto. O Campo da Semiótica. Fazer sentido”. manipulado. Relógio D’Água. p. “embaraço”3 . Cf. ou. por seu lado. 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. Revista de Comunicação e Linguagens. precisamente. 2001. de facto. “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que.ubi. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. mas. p. e ainda. no 29. Op. “Fronteiras do corpo. obstáculo na medida em que é objecto. mais correctamente. a base da sua elaboração”. concretamente a Ob-jaceo. A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . Op. a ser estudado (ou a ser operado. mais do que objecto”. investigado. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e.”11 . num certo sentido um pressupõe o outro. em suma. assim. na linguística.. próximos. por um lado. “cravar”. em relação ao seu significado. vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. pelo simples facto que ele é nós próprios). 11 www. O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram. Objecto significa “pôr diante”. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. 255. “impedimento”. está ligado a uma inacção. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. A questão central está precisamente..”13 .

sintomaticamente relevante se se quiser. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. como se sabe. por nesse alargamento. desenvolvidos. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 . à falta de melhor definição.pt i i i i .i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. a Ellen interessa. London. IN John Blacking (Ed. ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo.343-373. algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . Paris. Op. pp. mais do que de semiótica do corpo. quase exclusivamente. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. 16 Confirme-se em Roy Ellen. O que Ellen desenvolve pode ser classificado. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível. de semântica do corpo. numa antecipação que não é apenas intuitiva. uma série de estudos. p.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que. IN Encyclopaedia Universalis. Academic Press. por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo.. em particular. Ellen antecipa. diríamos de base antropológica.ubi. O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world. essencialmente.”16 . As limitações do estudo de Ellen podem. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen. Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado. 344. De facto. mas não deixa de ser relevante. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. Cit. The Antropology of the Body. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais. 14 www. antecipando assim. Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. deixar perceber. a partir da segunda metade dos anos 8015 .labcom. tomar o corpo como objecto de análise. 1985.). num outro sentido. New York & San Francisco. assim. 1977. por exemplo. os significados linguísticos do corpo. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”.

“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. signos) ou analógica (símbolos. 18 Cf. e de l’indice.”20 De facto. Certo é. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. du symbole. na sua elaboração. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística. que fazer do corpo um signo é. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. Recherches Sociologies. encontramos Jean-Michel Berthelot.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu. como a linguagem não ganha corpo. não somos capazes de conhecer. e no entanto.labcom. no entanto. contudo. não só o corpo não ganha corpo. também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse. se recuperamos a classificação de Benveniste. Cit.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se. Cit. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena. 21 Landowski. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”. pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. torna-se evidente que o corpo é. Em Jean-Michel Berthelot. indíces) da relação entre significante e significado. semântica e pragmática). por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . a um tempo. 20 Idem.18 Num outro quadrante. Eric Landowski faz notar. p. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. com pertinência. plenamente rigorosa. du signe. como nos mostra Berthelot. 1998/1. Op.ubi. 17 www. espaço de fronteira.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. demos já a entender um certo corpo através da linguagem. Ibidem. antes ganha expressão ou significação. 9. instrumento e espaço de comunicação e significação. lugar de encontro.pt i i i i . il peut jouer tout à la fois du signal. op. no que diz respeito ao corpo. afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”. A afirmação não é. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra. Em L. 19 Cf. Marin.

reciprocamente. admitimos que o corpo e. falamos. por exemplo.ubi. estrutura. em particular. do mesmo modo. os gestos “falam por si” e.i i i i 92 José Bártolo corpus. signos. 7-12. um aspecto. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo. IN Invigilatata Lucernis. Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”.labcom. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. ao mesmo tempo. formas de significação não-verbal que. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem. De qualquer modo. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. 2000. quer a linguagem. Estamos na presença de dois campos semióticos distintos. sem o notar. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. seguramente. importante. então. 22. em “linguagem corporal”. um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. estando tuberculoso. 22 www. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. Assim. As figuras designam como que a zona de troca. mas igualmente. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente. “Non Corpus. De facto. Há modos de ser no corpo. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo. pp.pt i i i i . em “fôlego” da escrita e. analogias – é.

reduzir. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos.pt i i i i . Greimas. de resto. p.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. O laço que une a linguagem ao corpo é. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. porventura. a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal. no 10/11. não rasga. 23 www. excessivo. há. tal rumo parecenos. quer dizer.59. e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). sem mais.ubi. claramente. “ O corpo. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas). digamo-lo assim. a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. É. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”. actualiza e redeCf. um organismo sem expressão nem fala. justamente. José Gil. constitutivo de ambos e actual em ambos. autenticamente. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade. explicita ou implicitamente. sem qualquer laço de linguagem”23 . mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria.labcom. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. mesmo que em traços gerais. Revista de Comunicação e Linguagens. o actual rumo da disciplina. antes desenvolve. Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 . sendo que a sociossemiótica não rompe. Ricoeur ou Fabbri. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”. Não há. a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro.

Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. sema/soma. c’est l’séme. Landowski ou Marsciani . Na semiótica da última geração – representada. O corpo. le suivre comme un ballon dans les airs. www. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri. nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit. Le ballon.”25 . nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. corpo-semântico e corpo-carne. Parret. o da semântica interpretativa de Rastier. pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais. de même que le séme est tout pour le linguiste. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe. traduzido pela figura do balão. avec certitude de le rattraper. e o da tradição peirceana. mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe. entre outros. Geninasca. Fabbri. Il est tout pour l’aérostier. Écrits de Linguistique générale. Mourão.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. Saussure. et l’ hydrogène la signification. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana. et l’enveloppe le sôme.pt i i i i . não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo.labcom. sans que le ballon soit rien pour sa part. mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. b) Ancoradouro deíctico.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose.115. p. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. por Fontanille.ubi. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos.

“Figure del corpo di Jacques Fontanille”. b)Uma revisão da sintaxe narrativa que. dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade.”26 .ubi. Pierluigi Basso. e) A semiótica do contínuo. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido. un percorsso generativo dell’espressione. 26 IN E|C. . a agitação proprioceptiva. . Gennaio. in secondo luogho perché si dipana.labcom. 2005. o devir. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade.pt i i i i . dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. reservando espaço ao acidente e às paixões. ). pressuposicional. attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida. se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto. revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (. Rivista www. p. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural.i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico. c) Uma revisão geral do processo generativo.1. il quale rimarrebbe in memoria nei testi. que se estende a fenómenos como a tensão.

quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. acções e paixões são objectos de análise possível. de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski). é. de fazer análises semióticas dos discursos. uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. pese as denominações diferentes.i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. representa antes uma actualização da semiótica discursiva. antes de mais.pt i i i i . por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum. o objecto de análise da semiótica. tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos). Podemos tentar esquematizá-lo: www. a partir dos mesmos instrumentos. devires.labcom. o discurso – verbal e não-verbal . imagens e gestos. uma intersemiótica (no sentido de Parret). A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva.neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto. textos e corpos. de analisar regimes de signos.ubi. leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos. já o dissemos.

Ch. A. Para o ponto de vista hermenêutico. New York. IN Langages. . “captar ao menos dois termos-objectos. corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. a semiótica de Greimas e. K. de um modo mais geral. Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. T. se se preferir.pt i i i i . IN E. a interpretação tem por finalidade. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. Halliday. Universals in linguistic theory. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 . devedor de Propp e Lévi-Strauss. 1974. “The case for case”.). o que significa.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. Semântica. . Fillmore. Greimas. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase.labcom. pelo menos ao nível da frase. na definição dada pela Semântica Estrutural. 132-33. a semiótica dos autores da “Langages” ou. da Escola de Paris. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. ou seja a intentio auctoris. 28 27 www. em oposição a estas duas perspectivas. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. J. Como identificar. como mostrou Umberto Eco. 1968. Pág. e no entanto. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”. 29 M.ubi. . Bach e R. Holt.29 Como é sabido. a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão. Harms (Orgs. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). “Le base fonctionnelle du langage”. Reinehart & Winston. 34. então.

i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e. do sujeito e do objecto. Malinowski ou Nobert Wiener). o modo potencial. da função em enunciado. Na semiótica greimasiana. entre estrutura e função. consequentemente.fazer. como uma www. O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização. em particular.pt i i i i . o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. As bases dessa reformulação. e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. Define-se. acrescentaram um quarto modo de existência. pela transformação de estado). como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. que transformam a relação do sujeito com o quer. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções. A estes três estados. Com a competência modal e. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção. Greimas e Fontanille. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. encontram-se na definição lógico-matemática da função. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. na Semiótica das Paixões. como já fizemos notar. a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. passo decisivo.ubi. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural). as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. o dever-fazer. estamos em crer. com a modalização do fazer. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer). o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. em Hjelmslev. de Benveniste. a junção e a transformação. ou seja de programas narrativos. o poder-fazer e o saber-fazer. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram.labcom. a partir daí.

que determina o objecto (ou. quanto ao local de incidência: modalização do enunciado. A. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. no objecto e repercute no sujeito de estado. diferenciam-se dois tipos de modalização. Fontanille. No primeiro caso. Greimas. pelo dever. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. Sémiotique des passions. J. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que. o diz verdadeiro. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer). No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 . Des états des choses aux états d’âme. melhor. para o encontro com o sentido. intencionaliza-se. a partir daí. seguiu-se a modalização do ser. pp. deste modo. que não o modalizado. 30 www. 52-55. “De la modalisation de l’être ”. II. Por isso mesmo. c) Como na modalização do ser. Seuil. 9. a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado.30 À modalização do fazer. como dissemos. relacionando-se com o sujeito. que recai sobre o predicado. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. 1979. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas.pt i i i i . substituindo-se. J. Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. determinam-se diferentes tipos de narrativas. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos. Paris. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer.labcom.ubi. 31 A. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. Greimas e J. ao ser investido de valor. modalização do objecto. 1993.

www. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas.i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser. as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado.labcom. ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. Abre-se. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. gradualmente. Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. na instância do discurso. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. já no domínio das paixões. Numa segunda etapa. a semiótica foi. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. sobretudo. é possível reconhecê-los como “amor”. de paixões complexas. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto. colocada lá atrás. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. assim. Distinguem-se paixões simples. Por outras palavras. assim. uma semiótica centrada. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica.pt i i i i .ubi. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. “angústia” ou “ambição”. “medo”. desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. darmos resposta à pergunta. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção. essencialmente. em que várias organizações de modalidades constituem.

em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. A significação surge-nos como um processo. também. c) Os simulacros modais e passionais. O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção.labcom. bem entendido que toda a comunicação é. patológico. A precondição tensivo-fó. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso. como diz Landowski. não só. a semiótica passa a considerar. os simulacros modais e passionais. o corpo-a-corpo original. ela dá-se. em relação ao sujeito modal.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação.ricas. intersubjectiva mas. que podemos designar por devir. passional. A semiótica dos humores. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó. por outras palavras.ubi.pt i i i i . passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. a analisar. o que significa. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto. www. de certa forma. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva). contagiosa. c) Finalmente.

Quase sempre a doença é percebida negativamente.) . dans le processus humoristique. Em todo o caso. A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença.”35 Mais longe ainda. Morin. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. isto é. No limite. o corpo-sem-orgãos que a manifesta. “La Malaise”. la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. Como “motivo”.34 Na esteira da Semiótica das Paixões.)..ana.labcom. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. 2004. Vol. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. fim de remissão etc.. “ Il discorso della salute”. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. 1991. a saúde. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida. anómala. e há sintomas de uma determinada perturbação. dans l’idiolecte. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. 32 www. 100. há sensações. Sémiotique des passions. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”. Spoleto. vai Fontanille na sua semiótica da doença.. uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos. Op.ubi. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue. 95. “en ce sens que. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal. revelação tardia.. alerta. 34 A.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 . 30. a doença comporta uma outra dimensão figurativa. 29 Ott. No 3. Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. Greimas e J. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso./01 Nov. Fontanille. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso. Seuil. relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. J.pt i i i i . ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 .). permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise. Cit. 33 J. Paris. 35 C. IN Protée.. Pág. Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. Fontanille. extraordinária. Pág. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (... (3) les orientations axiologiques. Congresso AISS.

De facto.ubi. l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes. o corpo-marginal. bem como o conjunto das nossas experiências sensorias. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. enquanto que a manifestação “anormal”. apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado. por exemplo a saúde. desligação ). uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo. Fontanille. o seu corpo normal. mais il est l’expérience intime. é um estado. fazem funcionar. que se compreende por relação com o corpo normal. do ponto de vista figurativo. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. é uma sequência narrativa.”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo.pt i i i i . como diz Fontanille. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal. o corpo-monstruoso.labcom. O corpo defeituoso deve ser reparado. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur). à des interprétations. prestável enquanto instrumento integrável numa máquina. Idem. O corpo normal é o corpo eficiente. “La malaise”. aliás. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. o corpo-estranho.i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. por exemplo a doença. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. compreendendo. Pág. 2. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”. Ibidem. qui donne lieu à des représentations. www. funcional. mais cês informations ont une forme significante. a reparação normaliza o monstro. incubação. o corpo são. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. é a de que a “éprouvé somatique”. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”. O corpo-doente.

Trabalhando o par doença/saúde. 3 Idem. desgaste. et qu’une illusion d’absence de transformations. Pág. O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. entropia.i i i i 104 José Bártolo (infecção. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. a duração do estado normal. ni même “symptomatique” ”.”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. Médico (corpo 38 39 Idem. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. saturação). où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. le malaise. uma perturbação provisória. 40 Idem. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique. comme une absence d’événement. a saber o plano da existência e o plano da experiência. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”. et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. um nível fenomenológico. e a anormalidade um acidente. à la différence de la maladie. correspondendo a um processo “multi-polémico”39 . devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. Ibidem. Ibidem.ubi. por assim dizer.pt i i i i . 4. Jacques Fontanille afirma: “Certes. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. este não é mais fenomenológico do que aquele. a par destes dois níveis de “funcionamento”. um estado de coisas. um estado de alma. ocorrendo. e uma fase terminal (handicap. morte). inflamação. e.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. comme un état stable et durable. por sua vez. como resultante de uma “tensão permanente”. por outro lado. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. Pág. onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. la santé se manifeste et se donne à ressentir.labcom. www. quando as defesas baixam. Ibidem. Do ponto de vista semiótico. et le niveau dit du plan de l’expérience. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir.

que manifesta. estabilizar. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de. mas que é possível controlar. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo.ubi. noutras palavras. le “corps-actant” du plan de l’expérience. a anomalia. a resistência síncrona e controlada. como um acontecimento perturbador e destabilizador.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. a partir de tensões de resistência. e. nesta perspectiva. le “corps-actant” du plan de l’existence.”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos. Ibidem. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. normalizada.labcom. Devemos considerar a existência de um corpo-actante. superficial e experiencial. 2. definir. por outro lado. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. forças. o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. A reunião dos dois num só actante. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. por embraiagem. 5. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive). o anormal (o monstro. A existência de dois níveis narrativos: um. ataques e defesas em todas as direcções). perceber: 1. “le statut de l’actant change radicalemnt. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. constituído por uma estrutura polémica multiforme. ou. Podemos. Idem. 3. em síntese.pt i i i i . como unidade coerente da experiência. como um estado estável. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. Ibidem. constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. www. e o corpopróprio. de certo modo. profundo e existencial. Pág. outro. por um lado.

ubi.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência.pt i i i i . afinal. nunca esteve verdadeiramente separado.labcom. a ligação do que. www. num corpo unificado.

não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação. de certo modo.2 A visão é um processo de enunciação. 2 Idem. notanbis rebus. por excelência. o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo. só conhece o que analisa e o processo de análise é. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. para alguns institutos de anatomia. como o anatomista.triplov. 1 107 i i i i . em certo sentido. é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e. a fazer dele objectos”. pouco a pouco. “Observa tio diuturna. bem como a ideia. formulando aquela que se tornará.pt.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera. A citação. olhar o corpo é. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione. Ibidem. enunciá-lo. tal como o anatomista.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. o semiólogo. sempre. mas porque a visão é. a sua divisa. já.

Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. a dor que eu sinto do meu braço. objectiva-a como coisa real tornando-a. Lisboa. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. há. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve. muito mais. Fenómenos como o desejo. José Gil. inevitavelmente. através da linguagem no presente real.labcom. O corpo é. Litoral. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem. – e zona de ressonância interna/externa. um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo. Cf. antes. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. passível de ser analisada por um médico. disseca-o. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . aliás. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. Espaço. corta-o. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. Corpo. em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. circulação sanguínea etc.pt i i i i . embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem. sentida por de dentro. comparável ao corte anatómico. 3 A expressão e a ideia são de José Gil. um laço intersubjectivo que liga. e que propriosentida. por exemplo. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem. www. a linguagem apresenta-a.i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real. ao seu desmembramento – o corte linguístico é. por exemplo. p. funcionamento orgânico. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. a dor.122. Poder. descreve-o.ubi. a um tempo. 1988. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem.

uma forma da representação. espaço feito. Quando eu penso. pp 1-31. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. significa. No 3. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. pelo menos desde Greimas. sob certas condições. e não apenas algo representado. pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. 1989. ao operar Cf. um representado que exprime modos de representação. a partir do m’eu corpo. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. ser identificáveis”4 . então. Esta interpretação não é estranha. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. É pacífico. toco. aqui evocar Merleau-Ponty. Língua e infra-língua. vejo. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente. desde logo. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido. “Modalités et pensée modale ”. que se constitui. “eu vejo” etc.pt i i i i . O corpo orgânico é. C.i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado. Zilberberg. Poder-se-ia. A representação não é. relativamente ao corpo. 4 www. Tal operação não é. o “eu penso”. ouço. como diria José Gil.ubi. É o corpo. exterior ao representado. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. A restrição da apresentação. IN Nouv. Actes Sémiot. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita.labcom. neste caso. intercorporeamente. à semiótica. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. o corpo e a linguagem devem. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior. O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador.. pelo facto de se representar um corpo. de lamelas..

Benveniste. que temporaliza e espacializa.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc. Semiótica. 5 www. et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. quase biológico.labcom. Cf. expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. São Paulo. IN Langages. No Curso de Linguística Geral.”6 . Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits. (Eds. Não é. Dizemos que o corpo fala. Estética. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana. “L’appareil formel de l’énonciation”. celui du contenu. 6 Jacques Fontanille. IN Eric Landowski et al. 1997. 7 Maria João Ceitil. que o “sorriso comunica”. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor. tornar comunicantes os seus sinais. O corpo pode falar por ventríloquia.). Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. Pôr o Corpo a Pensar. determinando as posições do Tu e do Ele5 . talvez. Educ/Uap. et l’autre. associado à língua e ao seu uso social. por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”. Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”.ubi. talvez não corresponda. 1970. Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. 222. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. Lisboa. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. Estesis.pt i i i i . No 17. um dos mais interessantes. a dizer a verdade ou a mentir. E. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”. ISPA. comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne . ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. celui de l’expression. Pág. un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. o que. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . 2003.

tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi. seguindo a proposta de Fontanille. www. a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura. mais do que a partir da perspectiva da antropologia.ubi. por outro lado. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. aliás. permanentemente. No entanto. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que. por um lado. designar por uma semiótica cultural. que nos interessam aqui dilucidar. a semiótica do contínuo e das tensões graduais. pode falar na medida em que ele é feito falar. em estruturas modais. indo. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível. aliás. buscar a Fontanille a definição. em termos de estruturas narrativas. eles correspondem ao percurso gerativo da significação. O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo.pt i i i i . sendo as condições desse fazer. a semiótica das situações e. isto é. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. que fundamenta. e da estratégia. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. Se partirmos. quer no plano semântico quer pragmático.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface. do contágio. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos.labcom.

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Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
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A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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para o gesto dos dedos que agarram uma caneta.i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. há uma ligação. sem falha. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim. mas. sob este ponto de vista.que se dão umas na sequência das outras. escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. no plano da vida não há entre. a imperfeição contínua. de tocante e de tangível. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. Analisar parece pressupor. no corpo vivo. A análise não só quebrou a acção. Merleau-Ponty. do eu e do outro. 13. o seu sentido. 1964. p. também. por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta. as determinações e as fronteiras. 6 M. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. mas é a própria análise quem estabelece. há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. mas que deixam escapar a continuidade. Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior. “escrevo com a caneta”.num corpus . L’oeil et l’esprit. que retomam a tocar o teclado . mistura de visível e de invisível. Paris. “agarro a caneta”. a sua realização terminará no inventário de posições . interrompeu-a. “ dirijo as mãos para o teclado”. et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 . A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. www. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”. então. No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. fendas ou falhas de sentido.ubi. Gallimard. não pode ser limpa.pt i i i i . “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”.labcom. a própria vida. “escrevo no computador”. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre. sem que entre um e outro hajam brechas.sem fendas. que escrevem uma frase. de um modo não-natural. O corpo aparece. como algo simultaneamente expressivo e oculto. ou umas sobrepostas ás outras. De facto. que caracteriza precisamente o próprio corpo. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo.

enquanto na acção. p. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado. na expressão de Cl. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta. A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. e impôs-lhe rupturas internas. próxima da Merleau-Ponty. Paris. Sémiotique des passions. na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. em semiótica. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. à continuidade entendida como “paragem da paragem”. O próprio subtítulo da obra. A Semiótica das paixões7 . 7 www. apresenta uma noção de corpo. Greimas e J. Perceber pressupõe. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. Ora o corpo. Des états de choses aux états d’âme. uma “paragem”. Zilberberg8 . entre este estar dentro e este estar diante das coisas. cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. Raison et poétique du sens. Seuil. respectivamente. 1991.labcom. entre estar dentro e estar diante.J. ou. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA. é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. isto é. eu estou dentro dela. por oposição. escrita por Greimas e Fontanille. Quando de um lado falamos em saliências. por exemplo. A noção de perceber. Zilberberg. sentido o frio. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. sentido o seu cansaço. “passagem”. deste modo. “transitividade”. Este conceito. “dés états des choses aux états d’âme”.ubi. estamos a articular em descontinuidade e continuidade. De facto.pt i i i i . retenções ou disforia e. de outro. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica. prefigura a tensão entre sujeito e objecto. define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia).i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. 8 Cl. com o seu sentido de “transporte”. distensões ou euforia.xe.101. PUF. falamos em passâncias. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. Fontanille. Paris.

Idem. Ibidem. J. dans ce contexte donné.”12 M. Educ. 1992. “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo. 1995.pt i i i i . sentindo-as. isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos. pois. deviendra un pathème réalisé (et non plus.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos..estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. Pág. Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir. a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. num caso como noutro. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. 144. Greimas”. “ Notas manuscritas de A. Ibidem. Oliveira. Só conhecemos aquilo que vivemos. 10 9 www. Do inteligível ao sensível. Greimas. 11 Idem. o acontecer do sentido. IN A. Phénoménologie de la perception. São Paulo. 155. Gallimard. 231.labcom. Não há significação sem semiosis.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” . sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido. Pág. Merleau-Ponty. Paris. que nasce do corpo próprio. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 . elas prolongam um acontecimento.. Pág. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo.‘susceptible de’).ubi. 12 A. J. eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent. C. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 . uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído.

Ibidem.labcom. 1988. . de presença. em ausência por desse outro. Pág. Pág. o presente barthesiano é o presente da enunciação. Livraria Francisco Alves. 15 M.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. para falar como Merleau-Ponty. Tradução portuguesa de H. de encontro. . o tempo da referência e o tempo da alocução.”14 Se a relação com o outro gera angústia. Ibidimem. 14 Idem. como diria Parret. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência. presente como alocutório. não está a falar de matérias estranhas ao semiótico.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. simultaneamente. Fragmentos de um discurso amoroso. Ponty. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. a “apreensão amorosa” em Geninasca. isto é.pt i i i i .15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida. antes.. o instante em que a presença se rasga. dos santos. 13 www.ubi. Ter a experiência do outro. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. estou bloqueado entre dois tempos. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. Op. Desta singular distorção. tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto. 65. no “intercorpo”. por outro lado. que me faz presente e a quem presentifico. ) Sei então o que é o presente. 299. Barthes. Rio de Janeiro. Pág. (. inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. 16 Idem. nasce uma espécie de presente insustentável. 29. não pode restar nada mais do que uma enunciação. o outro está ausente como referente. Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada. Cit. vivêlo. reencontrar aí o sentido imanente. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. não é recebê-lo passivamente mas. situação com efeito extraordinária. retomá-lo. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . assumi-lo.

.ma-se desta leitura ao trabalhar. 117. Pág. o conquistada. 18 17 www. Pág. Pág. “Sobre el contagio ”.. pero no armonía preestablecida. Lisboa.pt i i i i .19 . 1996. em parte.ubi. 2001. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”.. Op. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo. Lisboa. na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. 278. IN E. Semiótica.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille. O instante do encontro é kairos. fundamentalmente. 20 Merleau-Ponty.labcom. uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro. como de resto já vimos. O encontro não identifica um “puro acidente” mas. expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”. circunstancialmente. aproxi. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora.21 Eric Landowski. lo que. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. 128. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. antes. Sujeito. A intencionalidade do corpo próprio. e na perspectiva da semiótica o que.. Cit. Ibidem. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização. Vega.”17 Por outras palavras. 21 Idem. uma pré-construção do encontro. 19 José Augusto Mourão. tempo oportuno.. Landowski et al. Instituto Piaget. Paixão e Discurso. Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade.

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123 i i i i . ou. Paris. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. Pág. que actualiza. Mille Plateaux. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. A este respeito. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari. isto é. Minuit. Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet. por outras palavras. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. reconhece-se a factualidade. à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. compreende-se a representação. Un régime de signes constitue une sémiotique. reconhece-se a literalidade. quer a forma de expressão. 1980. Contudo o literal “factual” e o “representado”.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. de resto. compreende-se a figuração. lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica. 140. il y a toujours une forme de contenu.”1 Quer a forma de contéudo. au moins dans le cas où l’expression est linguistique.

regularidades. Se tomarmos como exemplo. por reconstituição dos estados intermediários. intersubjectiva e. Se o discurso se torna diaforia pura. assim. isto é. A compreensão é. É o discurso. nada de estável permitirá a leitura. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos.”2 O semiólogo opera como o vampiro. numa relação de superfície/profundidade. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade. Literatura e semiótica. não a linguagem. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão. me cortar etc. Lisboa. corpo sensivel.”3 .labcom. soma. quer o interior que vejo se. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. isto é. então. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. carne e cadáver. são fixados por interdefinição. tornado transmissível. tornado acessível. 2 www. a “intenção de dizer”. a que referimos o fenómeno. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo. uma apropriação. são necessários interlocutores. aquilo e aquilo ( entre corpo. Ibidem. Vega. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. Mas a linguagem também não existe em si. de redução. Pág. por exemplo. de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. mas discursiva. o interno e o externo. por exemplo). A sedução do real. uma operação de estabilização. carne. corpo-signo. por acidente. não é linguistica.pt i i i i . Por outro lado. como objecto tornado compreensivel.ubi. a parte e o todo. “Explicar” é. a geração. em segundo lugar. Conceitos como. já o dissemos evocando Umberto Eco. na perspectiva semiótica. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. 3 Idem. 1998. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo). que decide do “regime de linguagem”. corpo-em-vida. quer a pele que a reveste.i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade. 45.

inteiramente. explicar é fazer compreender. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. Não surpreende pois. intimamente.ubi. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio. Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. também. isto é. da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. Dupla semioticização. e neste sentido. é que o comentário “forja” a crítica e. guiar o olhos. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. tornar acessivel.i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. Fontanille. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 . no entanto. sempre. www. tornar compreensivel. a ter um valor normativo. corelacionando explicação e compreensão. a demonstração requisita esses olhar. Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. José Augusto Mourão. Explicar significa demonstrar. chegar a compreender sem se ter descrito. assim. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. estabilizar um sentido que previamente se construiu. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. A demonstração exige autoridade. por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. do saber e do fazer. portanto. o facto descrito anuncia-se. que o comentário seja propedeutico à crítica. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. Pág. Mas demonstrar é. Op. A explicação tende. tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber. um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras.labcom. Explicar é. então. não é possivel. sem que contudo se esteja já a interpretar.. Envolve-se. Apud. semioticizar o olhar. explicando-lhes o que vem e como devem ver. 45. em rigor.que. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro. irrompe dentro da explicação . a figura do comentador e a figura do crítico.pt i i i i . Cit. Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”. em detalhe.

propriamente. que tem cinco dedos. Cit.”. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos. ela pode ser enunciada. é o objecto que. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica. a compreensão é um agenciamento da explicação. 2001. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. O que se visa é constituição de sínteses. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. isto é. a partir das quais. Sabemos que durante muito tempo.labcom. 272.. “este corpo extenso que. a explicação é um agenciamento da descrição.pt i i i i . Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação. actualmente. Págs. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”. isto é. que a vivo como minha.. tais como “a minha mão”. o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. aquela pela qual.. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro. Como escreve R. De facto. Lisboa. a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. Mas como coisa-no-mundo. 48. Mediações. A explicação é. que toca o teclado etc. por assim dizer. como objecto.. O conceito da minha mão pode ser significado. sobretudo a partir de Ricoeur. Op. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos.ubi. funda vários representamen possíveis. numa medida identica.é esse o seu ideal. Pág.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. 271José Augusto Mourão. mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil. 6 www. “My hand”.”5 . podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente. isto é por mim.

sido fixada: Apel8 . 10 R. 436 e segs. fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. 503. c’est comprendre mieux”. 9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão.10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. de um determinado querer-poder. Vol. há sempre um resto. 95-114. Cf. no contacto com o real. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. nunca se explica totalmente o objecto.labcom. na palavra de Benjamin. Pág. XV. R. Paris. 71. Madrid. próxima da práxis. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto.. O pensamento intuitivo. 1968. nomeadamente. 1-2. que vê. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. quer a compreensão. de facto. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é.pt i i i i . mas que não pode progredir com segurança. 1985. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição. quando Rorty propõe a abolição Idem. nem nunca se compreende totalmente o objecto. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. IN Teorema. Pág. Por isso. quando formalizado.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. Otto Apel. Em certo sentido quer a explicação.”7 A relação. Tubigen. Ibidem. 8 7 www. Thom lembra que “o pensamento puramente matemático. entre “compreender” e “explicar” tem. O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie. O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão.) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. Pág. isto é. K. 1990. têm a ver com um querer-poder. dando-se sempre parcialmente na disposição.”.ubi. Hachette. gradualmente. é o paralítico da parábola. Veja-se. porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. Thom. Págs. Editorial de la Universidad Complutense. que não a oposição. Apologie du logos. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”. na esteira de Max Weber9 .. é cego.

pt i i i i . porém.Du texte à l’action. um sistema. como lhe 11 P. No desenvolvimento do projecto da PdA.labcom. Gisel. uma morfologia. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana.i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”. 223- 224. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual. même appliquée à l’action. Todo o discurso diz o mundo. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo. 98-110. Seuil.. O discurso é um acontecimento. mais tout discours dit l’identité. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. Págs. exige como sua condição de possibilidade. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. 14 P. Para que o discurso se dê..) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. ou. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde. “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”. 13 12 www.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. Idem. Ibidem. par-delà sa fonction mimétique.”12 .”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica.ubi. Para um horizonte semelhante nos remete. igualmente. para que ele se torne facto. no 2. Or. mas é “o sentido da vida”. Paris. Pág. 26 (1976). o que há são usos de um objecto. Ibidem. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático. 1996.. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique. 110. dirais-je. o termo parole pelo termo discours13 . Sans distance. Essais d’herméneitique II. IN Revue de théologie et de philosophie. Págs. substituindo. mais correctamente. il n’y a pas de discours (. il n’y a pas de dire (. afirma Ricoeur. seguindo a proposta de Rorty. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal. senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí.) Mais sans le monde. Ricoeur. l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir.. Idem. demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre. Não haveria.

mostrar a tensão simbólica do discurso. A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência. de não suspender inteiramente a conexão”. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. que se constitui no acto discursivo. dizer melhor.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação. o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer).pt i i i i . Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). do um/muito. ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. Esta instance de discours. em todos os casos.labcom. mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. expressões de querer-poder. entre “apropriação” e “distanciamento”. dizer mais. do ser-em-tempo.ubi. tal como o comentário ou a crítica são intensidades. concretamente. só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. enquanto actualização. portanto no campo tensional. A distância aqui é o resto. este corpo. fundamentalmente. O discurso exige “distância”. A PdA é uma intensidade. O que Ricoeur faz é. isto é. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. da àrvore ou do corpo. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. o entrelaçamento. esta cerejeira. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore. de que toda a existência é expressão. há naquilo que se enuncia. concretamente este pedaço de mármore). aqui e agora. que podem existir por existir distância.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas. como se o discurso apazigua-se o conflito. mas o movimento continuo de um a outro. A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. tensões. da àrvore ou do corpo. o seu lugar enquanto principio do movimento . entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo. são. um mundo que se perde.

informativa. isto é. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro.. No primeiro caso. 33-34.labcom. un sens qui peut être compris. Seria esta referência em segundo-grau que. no essêncial traduz a situação. ou função simbólica da linguagem. Daí as constantes indicações de Ricoeur. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo. Et c’est ce sens qui peut être inscrit. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [. Le discours est un événement -Sens. bem entendido. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso. por outro.pt i i i i . Ricoeur. Págs.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens .Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. o que quer dizer. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. directa. dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung]. ou Plano Imanente. isto é. por um lado.”15 . A PdA.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme. nos daria conta da nossa própria situação no mundo. Neste contexto.un événement qui paraît et disparaît. Como nos diz Greimas. uma linguagem recria um mundo e. Tout discours est produit comme événement. enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res. mas representa o plano para o qual devimos. www. através da suspensão da referência imediata. segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson. como se lhe queira chamar. Ricoeur. Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. de uma 15 P. mais compris comme sens. na qual.ubi. que a identidade da significação diz respeito ao discurso.. Herméneutique. A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas.

significa. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. em certo sentido a semiose. ausência. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo. herdados do objecto “externo” das nossas sensações.pt i i i i . Greimas. A. no tecido do discurso. Pág. Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. que em alguns casos.ubi. J. O Dictionnare II sublinha. é. Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. Pág. O próprio Dictionnaire II. inscreve. ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. nomeadamente.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). também é certo. como já referimos. isto é. 191. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira. a semiose. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo. mancha. e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação.labcom. sendo inconciliável como processos de époche. isto é.”17 .i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. Como sublinha P. precisamente. ponto de encontro. Du sens I. 16 17 A. Dictionnaire II. por um lado. www. quebra da époche. 13. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação).” Foi Ricoeur. marca. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico). a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico. mas igualmente. Greimas e J. Coutes.

evidente. www. decorre. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. Uma primeira resposta. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e. então. objectos semióticos.i i i i 132 José Bártolo Porém. que implica. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. vel quid ipsi 18 J. de qualquer modo. é. Pág. suspensa esta divergência. “mostra-se”. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. de que o ser-corpo é uma articulação. não do vivido ou do contínuo das expressões. 138. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari. Na quarta das suas Regulae.labcom. Sujeito. Dito de outro modo. pertence inteiramente à semântica linguística. “reflecte-se” em expressões linguísticas. É necessário o método para investigar a verdade das coisas. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. fenomenológico. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. paixão e discurso. evidentemente. no seu hic et nunc. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas. antes de mais. parece evidente que a experiência do corpo-próprio. Mourão. esta veritas rerum . sensorio-perceptivo “dizse”. isto é. Precisamente por isso. O estudo linguístico dos operadores e das marcas que.pt i i i i . o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem. O problema que aqui está é. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo.ubi. A. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”. uma crítica radical do método. igualmente. para Descartes.

É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. por isso a terceira regra já fala de objecta proposita . Pág. 291. non aliter enin scientia acquiritur. sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est.) sans en tirer toutes les conséquences. Routledge.ubi. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico. une explicitation qui déploie S.quer a resposta estão longe de serem simples. o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência.acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . H. London. Não é por acaso que S.. se objectiviza: “Expliciter. Pág.”21 Deste modo parecia inegável. De facto quer a pergunta . Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta. isto é. Paul Ricoeur.”20 . isto é. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation. 23. A segunda regra identifica o método com um processo de limitação. cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation. a verdade das coisas é veritas objectorum. H. 21 P.”.labcom.pt i i i i . verdade no sentido da objectividade dos objectos. porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida. Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência. 18.. por assim dizer. c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience. Ao analisar o sentido da Explikation husserliana. Clark. Ricoeur. 20 19 www. os objectivos que são. 1990. Husserl. dos modelos de análise fenomenológicos. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar. Du texte à l’action.”19 . Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. Une évidence qui s’explicite. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object. Porém. que ela. percebemos que a veritas rerum. Husserliana I. isto é. Pág. und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn. para Ricoeur. New York. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (.

entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. Mourão. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text. 26 J.i i i i 134 José Bártolo une évidence. neste projecto reconhece-se. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. 24 Idem. 64. A solução de Ricoeur é. www.”22 . Ibidem. Em relação a Greimas. mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte. A questão da mediação é. como abertura semiótica: “(.labcom.”23 .ubi. como sublinha Mourão26 . a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. no sentido heideggeriano. Pág. por outro lado.. mas nunca falho o sujeito. convergência que. afinal. Pág. telle est l’expérience phénoménologique. Pág. paixão e discurso. como se comprovará adiante. mais precisamente. A. Ibidem. Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. Ibidem. isto é. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. O que Ricoeur nega. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. como abertura. ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. 72. em primeiro lugar. Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 .) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante. Ibidem. faz deslocar a questão do objecto para o sujeito. Sujeito. 25 Idem. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação.. na interpretação intencional eu posso falhar o objecto.pt i i i i . 134. no entanto. 55.nológica. para usar a expressão de Gadamer.”25 . em sentido ricoeuriano. na medida em 22 23 Idem. Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. Idem. Pág. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo.

e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico. 129. nem objecto.). em Ricoeur. www. de intercorporeidade”27 . em relação de desejo.ubi. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. Assim a questão da corporeidade aparece. massa opaca ou hostil. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. estas chaves etc. ou como corpo objectivo dos anatomistas. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto. sim este corpo situado. mostrar. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. não como corpo conceptual. enquanto objecto não objectivável. Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. com a minha carne. ou um tronco). como questão central.pt i i i i . ainda. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. procuraremos. com propriedade. Ibidem.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo. num certo sentido o seu corpus. nem sujeito. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio.labcom. Pág. 27 Idem. Tal crítica. que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”. de interlocutividade. ancoradouro do sentido. o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem. antes é condição de possibilidade desses corpos. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira.

i i i i i i i i .

o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. Utilizamos a tradução portuguesa.). Seminários de Zollikon. O problema-do-corpo consiste. no espaço e no tempo. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. Martin Heidegger. que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. Este problema-do-corpo. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. Os seminários foram publicados. obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. a partir de aberturas corporais.i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. Medard Boss (Ed. ou seja. Educ. por Medard Boss em 1987. bem como a analisar a constituição do sentido. precisamente. em determinar. veremos. São Paulo. após a morte de Heidegger. Editora Vozes. em Zolkion. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. 1 137 i i i i . 2001. R.

De facto.labcom. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras. 105. Cit. clínicos. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis).como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação. mas penetraria todo o organismo. Entretanto. isto é. É evidente que. de alguma forma. uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . uma prova científica das ligações psique-soma.. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado.. o acesso constrói-se em círculo. Op. ao contrário da pretensão de Hegglin. ser apreendido por números. Por outras palavras. Pág.”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma. Tenho recebido censuras de que nós. O luto não pode ser medido. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas.). só podem ser sentidos intuitivamente. é determinado pelo objecto. por sua vez.. Boss. www. o seu princípio simples é um princípio filosófico . mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas.) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica).pt i i i i .. pela soma e pela psique..o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos. pois só estes são mensuráveis e a 2 M. só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos. e o modo de acesso. isto é. Isto certamente é possível.i i i i 138 José Bártolo “(. embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente.ubi. Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável. excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit. faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. enquanto tudo o que é somático pode. mesmo provável. Ora.

o meu estar-aqui.”3 . 3 Idem. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. pois. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material.) É. ou está nesta sala. podia-se questionar. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora).ubi. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger. ter o braço apoiado na mesa etc.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. mas por outro lado. Por exemplo. www. Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo. pois não provém da relação dos factos em questão. dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira. Ibidem. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. neste momento. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui. 106. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa. mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira.labcom. Mas na verdade. um estar-lá. O autor [Hegglin] exige. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. Em relação a este problema-do-corpo. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece. em termos muito heideggerianos aliás. o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. que a relação entre soma e psique seja mensurável. Eu posso dizer que. Pág. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver.pt i i i i . igualmente. pelo menos não o faria tão bem). junto de algo. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. por essência. o ler. Mas isto é uma exigência injustificada. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou.

O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho. www. porém.pt i i i i . medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas. pombas. o hotel Tivoli mais ao fundo). por exemplo. a impressora. Tomemos em consideração. as lágrimas nunca podem ser medidas. Ibidem. pela medida do fornecimento de sangue. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra. nem outro.i i i i 140 José Bártolo R. o candeeiro. mas. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido. Idem. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. chaminés. por exemplo. que a mão pertencem ao meu corpo.ubi. Ibidem. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado. O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. Hegglin. assim como o copo está na minha mão). Também aqui o enrubescimento não pode ser medido.”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha.labcom. De facto. o puxador. As lágrimas só podem ser vistas directamente. por exemplo. constrangido ou febril. por 4 5 Idem. Posso. em virtude das relações psicossomáticas. Fenomenologicamente. um copo com agua). antenas. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. por exemplo. mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. pela febre. ainda. “vemos” no rosto de alguém se ele está. o telemóvel. ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. De facto. as cortinas. eu tenho à minha frente. mas não lágrimas. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade. Quando se mede. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. o telhado das casas. embora sejam diferentes e diferenciáveis. o rato. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. o que é mensurável é a vermelhidão. quer o olho.

o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. representação. antes de mais. nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. a forma mínima de toda a posição. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão. www.pt i i i i .ubi. A aparição é. ao contrário eu não posso ver o meu olho. que evidentemente já existiam. A representação constitui. o aparecer. as chaves dão-se em estado de presença. isto é. constituem-se desse modo. se se quiser. o mínimo denominador comum de tudo o que há. “Aparecer” parece querer significar.aquelas chaves. Ora. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo. aquela janela etc. a chamada sensação dupla. aparecem. o copo de água.labcom.) . deste copo sabemos que são fenómenos. o livro. do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta). isto é. mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla.mas um acontecimento meu. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. Das coisas .eu tomo conhecimento de algo. fenómeno. Porém. À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador.destas chaves.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão. O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. nem o meu ver e muito menos pega-los. já estavam lá.das chaves. não as classifica numa hierarquia ontológica. Ou seja. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. inclusivamente. a impressora. neste sentido. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele. Quando algo me aparece . o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). por exemplo . esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. assim. antes de me aparecerem . também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho. não é um acontecimento da coisa . na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. para sermos rigorosos. A diferença está na diferente subjeicção. a realidade (este copo. posso. a condição de acesso ao mundo. isto é.

Como escreve Heidegger.pt i i i i . no sentido de Husserl. Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos. que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. ou seja.ubi. que não existe. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo. www. está na intencionalidade da representação. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. por exemplo. acha-se também marcada por essas direcções”.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. ou seja. contudo. A objectividade dos objectos é a consciência. Pág. consciência de si. Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro.i i i i 142 José Bártolo A este respeito. a qual obriga em si a uma problemática especial. a sua objectividade.. Importa sublinhar. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. 106. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”. a grande viragem ocidental. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que. refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis . é orientada para algo. Esta problemática que Heidegger identifica. em contrapartida.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965. portanto. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. em frente-atrás). que não será tratada aqui. Quando Kant fala em consciência pura.labcom. Esta é a estrutura mais geral da representação ou.6 Toda a consciência é. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein. mas não desenvolve. que Kant promove e que vai até Heidegger. Cit. em Ser e Tempo procura. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. 7 M. A espacialização do Dasein na sua corporeidade. via Husserl. Heidegger desenvolve. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. da consciência de algo. mas um acontecimento meu. Boss.estas chaves ou este copo . Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. em Ser e Tempo. em rigor. Op. não se tem uma representação. então desenvolver nos seminários de Zollikon. em cima-em baixo. o que.

Ou seja. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos). tocar. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. mais correctamente. naturalmente. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. Para que eu diga.sou eu que ouço. eu que vejo. mas sou eu . é o horizonte (grande. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”. “este sou eu”. Eu estou no meu espaço. por exemplo. “estou mal” . ver. trabalhando em frente ao computador etc. no Livro IV. Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. É esta transferência que me permite sentir não o corpo. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande. enquanto estava sentado nesta cadeira. enquanto toco com as mãos no meu peito. a minha afirmação . num espaço interior não localizável materialmente. O Corpo nunca vê o computador.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador. eu que toco. como lhe chamamos anteriormente.).i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso. foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala. “este é o meu corpo”. Ibidem. o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado. ao tocar. vê ou toca. portanto. no ver e no tocar.labcom. daí a resposta ser sempre qualitativa . mas sentir-me. importante. então este modo-de-ser é o meu e.“o computador está em cima da mesa” . Estas operações de abertura são. 114. é o spatium. portanto.ubi. isto é. o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium. cap. são necessários os meus ouvidos. O meu corpo está.”8 . os meus olhos. ele está envolvido no ouvir. O espaço é o aberto. com as mãos no meu peito. 8 Idem. O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço.pt i i i i . Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. o corpo.“estou bem”. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo.e numa factual .“estou aqui”-. Pág. Mas para este ouvir. envolvido nessa circunstância. importante e difícil de determinar”. quer em Brentano. ou. Isto é. O computador foi corporado no meu espaço. na fenomenologia. www. por isso posso dizer. os meus dedos e.

sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou . não significa porém. antes. de cada vez que eu agarro as chaves. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo. pois.pt i i i i . permanente.no sentido de Husserl . desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”. eu corporizo-me. perfeitamente. ou seja. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força. como “o mesmo”. significa eu corporizei algo. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo.a consciência de algo que. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. A identidade entre sujeito e percepção. em que toco o copo.labcom.ubi. faz parte essencialmente do interior do existir. sinto a dor na mão. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira. mas não me identifico com essa dor. Por outras palavras. fundamentalmente matéria inanimada. do que consiste todo o Dasein. ou seja. mas não sou o frio. de facto. consciência de si. ao perceber o copo ou as chaves. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade. não é. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo. representações. em Heidegger. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. por exemplo. que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves. Em cada percepção particular. Ao www. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. quer em Heidegger. Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. a que nos referimos. transitória e variável. não definitiva. em que as aperto. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. Eu percebo.

Graças ao mesmo 9 Idem. 244. Heidegger identifica. o spatium. Por outras palavras. o humano é naturalmente corpóreo. a condição de possibilidade do copo. Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. ao morrer. aberto. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. precisamente. isto é. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. Heidegger di-lo assim: “Por isso. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa. Além disso. se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que.labcom. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso. a que Heidegger chama de Dasein e que S. como de facto somos. a minha natureza. Ibidem. este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material. O peso do corpo não é mensurável é. mas. em relação à totalidade da corporeidade. Assim. o alto do baixo. seguras por ele. na massa de um cadáver que decompõe. o cogito) corporiza as chaves e o copo. na verdade. a minha disposição corpórea. Pág. o esquerdo do direito. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. No entanto.”9 . www.ubi. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal. Tal observador. antes. pertencentes a ele.pt i i i i . inanimado.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. isto é. como uma espécie de máquina complicada. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. também poderíamos ser corporais. enquanto um homem viver. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. Então. Agostinho chamava de Pondus. existimos. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis. porque o espaço do corpo (o espaço interior. é. aqui.

re-apresenta-me numa nova abertura. qualquer sensação. ou melhor. apresentar a mim. O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é. consequentemente. requalificando-o em relação ao seu pondus. Pág.i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo. Idem. Págs. etc. Não somos. 239. antes. Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. que as árvores estão lá fora.pt i i i i . que a porta está atrás de mim. Repraesentatio = de volta para mim. e eu mesmo não me represento especialmente”11 . um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. a partir disso uma frente.labcom. torna-se de certo modo espaço. 244-245. constituindo 10 11 Idem. “Re” = de volta para mim. antes de mais. qualquer dado. a corporeidade abre-se ao espaço. e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. se dá nele. efectivamente. etc. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão.ubi. um atrás. Por outras palavras. isto é. mas o que se percebe é que existe. um narcisismo da representação. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente. Para Heidegger. estar no aberto [Offenen]. Como Merleau-Ponty descreveu bem. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. Ibidem.”10 . Ibidem. qualquer percepção é reenviada a mim. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. que a estante está ao meu lado. primeiramente corporais tendo. sermos corporais. organizando-o. permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. que eu estou cá dentro. www. porém. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse).

A abertura é devir. uma nova relação entre aqui e aí. ou seja.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço. se se quiser.ubi.labcom. www.pt i i i i . gerando uma nova intensidade corpórea.

i i i i i i i i .

in E.entre a consciência e o mundo. as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 . 1 149 i i i i . em particular. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade . Dorra. A. apenas.C. de Oliveira (ed. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana. a fenomenologia pontyneana). Op. retomando.i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo. Greimas toma. como vimos. como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente. Landowski. Não se trata. Cit. exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer.a inserção do homem no mundo.). R. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e. assim. desde logo pela presença do corpo. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo. a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”.

A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença. a relação com a realidade dá-se. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P. “Linguagio. o que deles faz corpos. isto é. Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. Présences de l’autre. 2 www. o que faz deles animais. O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida. sobre a lógica. sobretudo. análises sobre a constituição do sentido em acto. 3 M. dos animais. antecipadamente. esperienza: il caso della spazialità”. o que faz delas plantas. num espaço e num tempo físicos. a possibilidade do cálculo. 1950. A este antecipadamente conhecido. 1997. regras de formação.pt i i i i . Violi. pertencem ainda os números.labcom.”3 .i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica.ubi. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. Os números. Holzwege. Landowski. matemático. Frankfurt. das plantas. sobre o estatuto da reversão interior-exterior. enfim. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições. dizem respeito ao procedimento lógico. Paris. Págs. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. PUF. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 . 4 E. Heidegger. 1991. por contágio. do homem – a humanidade. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. 59-60. È. IN Versus. por antecipação imediata. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. 71-72. percezione.

na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. verbal ou não verbal. quer dizer. o regime da sua leitura. o qual. para começar. igualmente. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. ao exercício de leitura que dele se faz.correswww. a presença sentida. sobretudo a partir de Greimas. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer.labcom. como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito. num determinado segmento de realidade .i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. há um discurso enunciado que preexiste. mais ambivalente. a presença do sentido. rigorosa. pela busca do texto. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou. pelo contrário. pressupõem um espaço de sentido. podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída. para usar a expressão de Landowski. neste caso. No primeiro caso. O texto é de resto um objecto interessante.pt i i i i . distinguir. no segundo caso. situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença. actualizado. A outra concepção. O termo designa. programando. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori. Claro que se tornaria necessário. a que nos interessa aqui. a presença com sentido. leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. Deste modo. A presença. pelo contrário. uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário. na medida do possível. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. trata-se de uma apreensão.ubi. Admitiríamos.

samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. tão fértil. (. Al contrario. por conseguinte. www. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação.pt i i i i . pues. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto.i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto. Esta compreensão não é. entre si e a realidade. se trata.. 271-272. Págs. el enunciado. senão as substituibilidades e transduções. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência.. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. paradoxais. de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo. cuerpo a cuerpo. “Sobre el contagio”. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen. também. um regime de inter-subjectividade.ubi. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto. porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia. resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida.labcom. corpo a corpo. ou seja ainda que as ligações. Landowski. no entanto. isto é.

Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos.” A bedeutung. com clareza. nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa. Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). um processo de focagem. uma determinada combinação de objectos é representada. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem. assim.labcom. a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio. No Tractatus. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus. os factos como existência de estados de coisas. pelo que o conceito de corpo-ancoragem. sobretudo. na posição de Ricoeur. não do vivido. mas de um modo radical. de identificação. ela é um “modelo” da realidade. se ele se produz.ubi. A proposição descreve um facto que pode não se produzir. O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico. tal é afirmado. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen).i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados. ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. enquanto ancoragem do sentido. era o valor de verdade. em Frege. O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto. e não que o facto tenha realmente lugar”. o que constrói e. O Tractatus vai. ele é antes de mais um limite do mundo”. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade. enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. mais facilmente. e noutra passagem. Não há não-factos.pt i i i i . mas existe www. Aproximávamo-nos.

i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. o que Greimas procurou esclarecer. objectivado ou dado. mas nunca um facto. nem psicológica. isto é. uma disponibilidade. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação. um mundo possível. constrói. sabemo-lo. ainda que também a presWittegenstein. ainda que as coisas sejam ou não. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. o sujeito é. para mostrar que num importante sentido. não há sujeito. Modos da evidência. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Mas que sujeito? Em semiótica. como em Ricoeur. 6 www. no enunciado. Qualquer discurso diria o sujeito. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”. um em relação com o outro. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves. Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. eis aqui um método para isolar o sujeito. na terminologia de Hintikka. ainda não foi sequer plenamente tematizada. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. A linguagem representa-se e. porém. 1998. essa potência de ancorar sentido. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto.ubi. independentemente do que possamos dizer delas. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. no presente trabalho. A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição. na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. Lisboa. ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração. ou antes. Pág. 69. co-dadas em toda a proposição. não existe um único sujeito. uma abertura. O sujeito está sempre implicado no objecto. Fernando Gil.pt i i i i . no dado mas ele nunca é enunciado. deste copo) e não uma coisa no mundo. digamo-lo assim. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. Apud. precisamente.ficação) entre corpo-próprio e sujeito.labcom.”6 . abstraídas as especificidades. ele é um shifter. o horizonte de possibilidade. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é.

pois ele não é dedutível temporalmente . que entre se dá pela experiência da corporeidade.”9 . il échappe à ce couple de cointraires. paixão e discurso.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. 1986.a apropriação intersubjectiva implica. na sua sexualidade. 19. 1988. Seuil. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité. Em Ricoeur. eu corporizo-as no acto de as enunciar. na sua deriva. Mourão. como mostra Michel Henry. Pág. o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). K. Il est moi existant.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 . a corporeidade. é o espaço do corpo. Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. ele não está nem aquém. a sua incarnação. assim. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia. Aubier. J. Hamburger. Para Sollers o ego é um tomar forma. Pág. Logique des genres littéraires. Estabelecemos anteriormente. A situação do corpo. Se a génese do sentido é sempre transcendental . Philosophie de la volonté 1. A. 8 7 www. fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. Sujeito. nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 . Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo.. Paris. Paris. no seu inconsciente. 64. necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo. Apud. Le volontaire et l’involontaire.pt i i i i . Sollers. ni constituant au sens du sujet transcendantal.labcom. como coisas no mundo).i i i i Corpo e Sentido 155 suponha . Ricoeur. não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido.ubi. aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. 9 P.

)”10 . do mesmo modo que corpo-material. www. no lugar do corpo.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito.. toda a subjectividade são “intersubjectivas”.labcom. O que levaria a concluir que toda a objectividade e.. nem objecto..ubi. Cit. do mesmo modo.pt i i i i .. (.) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être. corpo-próprio. Op. carne e objecto coincidiriam. 10 M. Ponty.. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”. cogito e sujeito coincidem. está a situar. Pág. como o diz Merleau-Ponty “le corps (. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância. 52.

“ Lettre sur les passions ”. o tratamento das paixões. Affectività e sistemi semiotici. ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. sobretudo.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”. das estruturas deícticas. também. Pezzini (Eds. necessário de alcançar. Le passioni nel discorso. procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. estamos em crer. Versus. IN P.). Pág. Também Jean Petitot. 167. enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. Fabbri e I. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica. 1987. 47/48. 1 157 i i i i . fundamentalmente.”1 . apresentava-se difícil de alcançar mas. Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. das tensividades fóricas. Esta advertência. dirigia-se. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível.

Donde se poderia concluir. 54. de cada vez. sem se perceber em que consiste uma estrutura. Deleuze. 2003. decisivos. que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são. A semiótica pós-greimasciana. www. espaço de atravessamento de devires. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. Estando. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. G. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. isto é. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação.labcom. ainda assim. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo.ubi. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. Lógica do sentido. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. talvez. leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas. operada pelo corpo-que-sente.”2 . O estruturalismo é. que as posições topológicas. aliás. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. muito próximo da leitura de Greimas. A anunciação do sentido precede a sua enunciação.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. segundo Deleuze. por vezes e como veremos. são mais importantes do que essas mesmas coisas. Pág. São Paulo. Estas maquinarias são. ele é produzido. Ele não é algo a ser descoberto. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf. Perspectiva. Tal anunciação ou. aproximando-o. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido. sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação.pt i i i i . pensado por Deleuze de uma forma peculiar. nas palavras de Deleuze. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. definidoras de tipos de relação. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana.

ubi. as obras de Noel Moulod. relações). Linguagem e Estruturas.3 Confronte-se. determinada. outra. como “significada”.]. uma como “significante” e. Coimbra. duas séries heterogéneas. De Manuel Francisco Catarino. Paris. 3. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. Payol. leiam-se por exemplo. Port. Paris. determinada. 2. 1965. www. Les structures. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. Lévi-Strauss.labcom. outra.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial. pelo menos. sobretudo. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. 4. a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson. 1974. b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. Paris. como “significada”. séries. PUF.i i i i Corpo e Sentido 159 1. Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades. Greimas .pt i i i i . 1970 [Trad. Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. e. É preciso que existam. Payot. duas séries heterogéneas. la recherche et le savoir. a este título. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. 1968 . pelo menos. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares. La psychologie et les structures. Livraria Almedida. uma como “significante” e.

4 www. pois a topografia da rede anula centro e periferia. como intensidade que o atravessa. mas. isto é. Para estas Sobre esta noção. a rondar um tema. Paixão. claramente. o seu complemento inorgânico. O corpo é. que se vem tornando central – graças a Coquet. cruzamentos. apresentada em a Lógica do sentido. essa rede de semióse. e a sua integração na semiótica contemporânea. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . Sujeito. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. ela própria um corpo e um “corpo estranho”. 9. emaranhado de encontros. nas suas intermináveis correlações.. A rede constitui. Na sua leitura da Filosofia Estóica. 1996. mas também um produzido. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir. sobretudo as páginas 128140. Cit.ubi. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. Vega. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. Percorrer a rede. coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito. 5 G. Deleuze. tessituras. Lisboa. mais. sendo que o devir tem lugar. então. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. é estar perdido.labcom. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro. Op. não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. estrutural. Os acontecimentos são causados. Andamos aqui. lado. por outro. Discurso. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 . Fontanille. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. na expressão de Uexküll. sabemo-lo. leia-se a obra de José Augusto Mourão.pt i i i i .i i i i 160 José Bártolo da significação. no corpo. Pág.

há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis. Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. misturas de corpos.ubi. Os desejos e as crenças são inferências causais. qualidades. www. são singulares formais que tem o papel.labcom. nem rosto. 13. constituído por um corpo. Idem. Ibidem. 6 7 Idem. como diz Benveniste. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito. pré-modalizados. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário. pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente.ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição. Ibidem. Pág. A manifestação apresen. de indicadores (isto. Mas. etc.). relações. antes. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. como refere Deleuze. podendo. aquele. contudo. são devires assemânticos. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”. quantidades. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”.i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome. agora.pt i i i i . isto é. aquilo. Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz.

Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . 9 8 www. 274. Vale a pena voltar a lembrar. 22. Husserl distingue a expressão da designação. entre “estados de coisas” e “estados de alma”.”8 . da manifestação e da demonstração. Pág. nem mesmo com as significações. aliquid. na designação estóica. Pág. el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. Idem. pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos. “Sobre el contagio”.pt i i i i . que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição. no sería posible aprehender el núcleo. nem corpo. das representações mentais e dos conceitos lógicos. Incorporal. o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando. o sentido não vive fora da sua sensação. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. nem palavra. do vivido psicológico. Ibidem. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. isto é. mesmo que se deva considerar que o sentido circula.ubi. nem representação sensível. ou seja. el principio dinámico. Ibidem. Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. e) Finalmente. 10 Eric Landowski. 23. por exemplo. o sentido é o expresso. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui. aqui. instavelmente.labcom. nem representação racional. Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão. Pág. nem os conceitos.

tudo funcionaliza. assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição. A máquina tende a gerar excesso semiótico. 74. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. mas acontece às coisas. Estamos condenados ao sentido.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. Pág. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”. também. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. como se fizemos um percurso. tudo integra. que tende a gerar excesso semiótico. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. não os reúne. um sentir sentido nessa enunciação. Ibidem. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. uma regressão indefectível.ubi. as características do plano. Por outras palavras. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. há sempre excesso. dizia Greimas. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido. não permite desperdício. por sua vez. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. A entropia é. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. www. já o dissemos. uma máquina de produção de sentido. tudo instrumentaliza. a sua lisura. em cada enunciação. Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado.pt i i i i . em que os semioticiza. Há. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”. 11 Idem. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema. porque ela não permite fugas. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular.labcom. por outro lado. Para Deleuze a estrutura é. uma máquina semiótica. isto é. Como diz Bergson nós não somos conduzidos. da qual. Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. não permitem a irrupção do sentido. não dizemos o sentido. a sua linearidade. a sua lógica circulante. Esta fronteira não os mistura. em que funcionaliza “estados de coisas”.

www. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade. Edições 70. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. 2001. Lisboa. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica. funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss. um termo de grupo”12 . Assírio & Alvim. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. O Anti-Édipo. 37.”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. como dizem os fonólogos. A máquina desejante. e impõem-na com toda a violência. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. 44-45. Capitalismo e Esquizofrenia 1. ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. IN Marcel Mauss. 2004. modelo ideal de qualquer outra máquina. Mas a máquina capitalista. Pág. não existe. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. Pág.ubi. É em O Anti-Édipo. “Introdução à obra de Marcel Mauss”.ções). mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível.labcom. Só há real significante. pois que ele vive dela. da realidade significante significada no interior de uma linguagem. da máquina. articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. tudo o que está fora da estrutura. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação. e não ser já. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. Ensaio sobre a dádiva. isto é. Lisboa.i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação. com um valor simbólico zero.pt i i i i . Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante.

a sua linearidade.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê. chaves. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. etc. Deleuze e Guattari dirão. num 165 www. pernas. isto é. extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). olhos. b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva. troncos mas. também.ubi.labcom. como qualquer engenheiro de produção bem sabe. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. a sua lógica circulante. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais. do tipo: que fluxo cortar. para onde conduzi-lo.pt i i i i . serras e as máquinasorigem. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos. A partir da sua acção o operário. mãos. tornos. mais correctamente. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. a propósito. Trata-se de cadeias ou. c) Uma terceira síntese é. lado a lado com outras peças e outras máquinas. por exemplo. “síntese conjuntiva de intensidades e devires”. isto é. alavancas. como cortá-lo. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. também. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. instrumentos ou peças isoladas e que. ainda e preferencialmente. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca. é “consumado” como instrumento-máquina. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. braços.

a tendência mais essencial do capitalismo. que é um limite propriamente esquizofrénico. entretanto quer em devir-mão. Ele não pára de tender para o seu limite. devir-braço. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que.ubi. a desterritorialização do socius.labcom. devir-máquina. devir-fábrica. Ibidem. www. 45. Pág. pois. 14 Idem.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. paroxisticamente. devir-pénis quer. constituem. é intensificado para um ou para outro lado.pt i i i i . por outro lado em devir-peça.

15 Idem. o corte-resto ou resíduo que.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina. finamente. por sua vez. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. ele é instrumentalizado.. um corte. define-se como um sistema de cortes.labcom. qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. claro. por fornos. que esta máquina também é. roldanas. mãos. como dissemos. aquele braços e mãos. Pág. a este os olhos. já o mostramos. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. braços. 40. O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções.”15 Aos cortes . etc. produz um corpo-instrumento. “Em suma.pt i i i i .ubi.extracções seguem-se cortes . podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”. partes extra partes. ouvidos. tapetes. máquinas-boca. tornos. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e. www.destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. peça adjacente à máquina. último (?) corte. retira dele o que precisa. Ibidem. serras. olhos. computadores.

mas que. reenquadrar. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes. Evocando Proust.ubi. nem uma unidade dos pontos de vista. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças.labcom. na viagem de comboio. nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. www. era o que Joyce chamava “re-embody”.pt i i i i . que o todo é produzido. Ibidem Pág. 46. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia. ao aplicar-se sobre elas. Assim. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. para “re-aproximar. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino.”16 16 Idem. que é produzido como uma parte ao lado das partes. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. que ele não unifica nem totaliza. pois. unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. Re-aproximar.

que é o corpo da criança adestrada na atenção.i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783).pt i i i i . antes de mais. esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano).ubi. como peça sua. Não há produção sem relação. ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza. que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano). esse corpo sem órgãos. O plano de produção é. . o corpo sem órgãos é produzido como um todo. que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). de cada vez. José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. que visa produzilo semioticamente para o integrar. ) www. no interior da mesma máquina que o produziu. A palavra “relação” permite entender uma acção. no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano). não uma substância. no seu lugar próprio. um plano de relação. (. mas. O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. no processo de produção.labcom. no silêncio. .

ubi.labcom. Pág. José Augusto Mourão. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia. O Enigma da sexualidade. José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. A expressão é médico-jurídica. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas. 2003. Deleuze e F. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano. igualmente. para os inscrever sobre si mesmo. Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée. 1997. Metamorfosees do Corpo. o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte. sobretudo a partir dos anos 80.à sua aptidão para emitir e receber signos. com alguma injustiça. texto e corpo virtual”.pt i i i i . O proliferar. Lisboa. permanecem desconhecidas . das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram. 9.”19 . Guattari.Cadernos ISTA. no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta . fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. à antropologia. para os traduzir uns nos outros. que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. não que a visão deleuziana seja mecanicista. de inúmeros discursos do corpo. Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. Pág. Relógio d’Água. “ Sexo. Pág.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa.”18 . 18 G. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é. no 16. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo. convirá dar lugar de importância ao corpo. o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano. espaço atravessado por fluxos intensivos. Em particular. O Anti-Édipo. IN AAVV. 116. 19 José Gil. 32. devires para os quais. 17 www.

pt i i i i . uma língua. A tese da finitude de amplitude mostra. pois o próprio corpo é “condutor” de significado. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour. 38. Cit. espremelo analiticamente até dele sair uma expressão. mas qualitativa. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. Pike tentou em vão. citado por José Gil. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução.. A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo. derivaria numa semiologia sobre o corpo. 2. 21 Idem. se se quiser. Foi o que K. a qual. Ibidem. A falha não é de amplitude (ou. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. Pike. Cit. sem o conseguir fixar.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. para além de signo. é condutor semiótico. e visto que a explanação será um signo. ancoragens. Op. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico. tomada juntamente com o signo já ampliado. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo. transduções. Ora. tornando o significado escorregadio. criará um signo ainda mais amplo”22 .ubi. Pág.. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos. reduplicações signicas. essencialmente. opera circulações. Op.20 A conclusão de Pike é relevante.230. K. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. não é quantitativa.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. mas por um permanente erro de paralaxe. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte. parece-nos.labcom. L. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo. 22 Pierce. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica. 20 www. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude. L.

não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (.. um corpo que pode ser desertado.. mas como um corpo metafenómeno. máquina-olho. uma diferença de regime. deve anular o paradoxo. máquina-igreja etc.): a energia. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil. Cit. as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. visando quer a fenomenologia. Pág. o corpo fenomenológico (o de Husserl.. e o espaçotempo do corpo.). celas.. o não-senso. máquina-laboratório. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. quer a semiologia. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas. Op..i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. mãos. e no recolhimento da sua singularidade. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. digamo-lo de novo. reversivelmente.labcom. Um corpo habitado por. aliás. antes.”23 Este corpo paradoxal é transformado. máquina-ouvido do confessor e. e habitando outros corpos e outros espíritos..). feixe de forças e transformador de espaço e de tempo. Um corpo que se abre e se fecha. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. a máquina. pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível. (. emissor de signos e transsemiótico. Em suma. corpos. impondo um sentido que ela própria construiu e que é. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas. através do silêncio e da não-inscrição.ubi.) e as máquinas molares (máquinas sociais. No entanto. esvaziado. 175. barras. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. um percebido concreto.. também. um corpo paradoxal. Deleuze e Guattari distinguem. visível. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. visível e virtual ao mesmo tempo.pt i i i i . roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida. www. reversivelmente.

. Op. ele próprio necessário pela sua própria perfeição. Ibidem. Para G. Vrin. ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina.pt i i i i . mas não é de modo algum o mesmo regime. Terá sido Aristóteles. Cit. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. oeuvre de l’homme. 68. 67.. L’esthétique de Gilles Deleuze. Pág. Pág. www. 241-242. J. as mesmas relações de grandeza. L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (. Sahara.”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. os mesmos usos de sínteses. Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. ). La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. 1990. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus. Pág. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. Un mécanisme. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration. devir. Idem. 26 Mireille Buydens. .labcom. . . Pág. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. 102. a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles. 295. Pág. Ibidem. La Connaissance de la Vie. ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 .i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (. ao definir o escravo como uma “máquina animada”. onde o que existe é desejo. produzida e produtora. Paris. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. nas páginas d’A Politica. 27 Idem. isto é. 28 Georges Canguilhem. ) São portanto as mesmas máquinas. Guattari.25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. acrescentando que “enquanto artefacto.ubi. Deleuze e F.

au cours de l’histoire des sciences inexactes. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences.ubi. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. et leur agencement respectif. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. La créature renvoie à son créateur : cause finale. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. moniste.labcom. évolutionniste. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. chaque blastomère peut régénérer un individu. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles. Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. comme chez celles qui sortent de la fabrique. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www. Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme. ils appartiennent à un monde dualiste. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques. biologie et sciences humaines. L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer. à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production.pt i i i i .

Pág. aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . quais corpos mutilados. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. 114 e segs. Westermann.02. e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. outro acolá.1984. 1877. Samuel Butler. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. 1975) embora respeitando a tradução. “La Machine”.”)30 .”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças. 296. No seu Erewhon. publicado em 1872. a escola. no seu próprio corpo. como mostra Adrian Forty33 . Samuel Butler. são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas. 30 29 www.i i i i Corpo e Sentido 175 immanent. ou seja. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica.pt i i i i . a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico. de passagens dos capítulos 24 e 25. “Industrial Design and Prosthesis”. 33 Adrian Forty. mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. mas diz que elas são. Braunschweig. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo. ainda que essa visão protésica. Por outro lado. Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações. muito presente. como também não se consegue formar nem produzir. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres. Pág. No 96.labcom.”)31 . espalhados pelos diferentes lugares do mundo. esteja. por um lado. de facto. Adelphi. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo. o convento. a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. Milano. estão delas privados. Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière.ubi. Butler Félix Guattari. Grundlienien einer Philosophie der Technik. 31 Idem. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo. Seminário 06. IN Ottagono. 32 Ernest Kapp.

individual e colectiva. Foucault. Paris.”34 Encontramos leituras próximas desta. Daí Foucault nos recordar. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. As duas definições são equivalentes. é. que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. bem como a ideia do corpo 34 35 G. há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos. Pág. 297. assim. devemos a Michele Foucault. 80-81. A partir desta leitura de Samuel Butler. Vamos. mas diz. chegaremos então a um organismo que. A microfísica. produz um corte radical. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação. em particular de “máquina semiótica”. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. depois da macromolécula. à biologia.pt i i i i . neste sentido. 12-13. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. www. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa.”35 Por sua vez. como as de Foucault. semiótica e política. conservando a sua individualidade. Págs. Págs.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas. 36 M. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. enquanto análise material do imaterial. como as de Raimundo Ruyer. também. microscópico. por maior que seja. conduz. advertindo para o seu particular estruturalismo. As palavras e as coisas. Raymond Ruyer. La genèse des formes vivantes. A produção. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem.labcom. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. ao irromper no mundo da representação. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. evidentemente. O Anti-Édipo. Flammarion. Guattari. maquinando umas sobre as outras. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas. Com efeito.ubi. Deleuze e F. quer vinda do campo das ciências humanas. ou que os órgãos são máquinas. no seio da molécula. que “em toda a cultura. quer vindas do campo das “ciências da vida”. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. remetendo umas para as outras. económica e social. pelo contrário. depois do vírus.

a questão da identidade ? Como a colocar. desenvolvida no capítulo seguinte. As proposições identitárias (tó auto. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. por muitos modernos (Goethe. num horizonte. ens. como tal. Hamann ou Kierkegaard). Maria Filomena Molder. 1995. A leitura de Deleuze. a identidade não pode ser definida”. isto é. No corpo-tecnológico dá-se a relação. nota 87. Lisboa. a um tempo. “produção de sentido”. Série Universitária. Estudos Gerais. idem. Como colocar. por nós. corpo-máquina.pt i i i i .ubi. então. nesse sentido. anteriormente usado.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio. lógica de controlo. Biologia e tecnologia. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade. deste modo. natural e artificial são opostos. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. bem controlada. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. a amálgama dos opostos. que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais. no nossa leitura crítica da história do corpo. Ao falarmos em corpo-objecto. como foi aliás. são noções de ontologia formal. p. transversais a todos os Apud. a degeneração é.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e. enxertou. usado com valor operativo e cognitivo. O Pensamento morfológico de Goethe. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. cozeu. ligou.labcom. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . em particular.145. bem como a de Foucault. será retomada. Ele é. 37 www. de integração e produção. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional.

241. então. marcados por uma relativa indeterminação. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”). da compreensão do mundo . Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade. Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. do corpo. Quando descrevemos. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva. por exemplo.ubi. como o desenvolvimento do estudo. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. e no entanto. a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista . o corpo anormal. “mesmo”. parcialmente. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. com rigor. estamos a usar uma definição identitária operativa. identitário. Op.da compreensão de si. Gil. o cyborg. O corpo enquanto objecto de estudo é. também não há uma inteligibilidade plena do corpo. ele apenas é.mas a sua significação própria permanece obscura. De facto se a iden39 J. De facto. www. para um plano ontológico. Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”. do ponto de vista da sua validade. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. da compreensão do outro. o freak. se perde. Quando identificamos o corpo humano.mas essa é uma consciencia que. deste modo. ou seja. não pode ser transposto. psicológico e antropológico -. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que. isto é. não há. o andróide.pt i i i i . nunca um “ponto de vista natural”.i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e. Neste sentido. como principal diferença. cedo ou tarde. Cit. como tal. Como mostrou John Austin. Pág. um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda. na perspectiva crítica. O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade. e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 .labcom. para falar como Heidegger.

o corpo de uma criança chinesa. talvez. A história muito perturbadora do Dr. mas que ela é. A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. embora o número já não seja o mesmo”. de facto. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. sem que a identidae. Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro. do reconhecimento da oriwww. Jekill e no Mr. se altere . o corpo cadáver de uma jovem. mas a intensificação da sua identidade. do principio ao fim. o que está em causa não é a sua identidade. o barco de teseu. o corpo do homem-elefante.labcom. sem dúvida. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. de devir-louco.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. está fora do domínio humano. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. o corpo de um velho amputado. o mesmo problema de intensificação da identidade. Hyde. o corpo do terminator. o corpo de Bill Viola na água. todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. O corpo de uma criança loura. quase-sujeitos e quase-objectos. mas todos eles são corpos humanos.mas num certo sentido. ela permaneceu sempre como um transcendental. O mesmo devir outro. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa. o corpo de uma mulher num filme pornográfico. São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. que assim se rasga. uma identidade segundo o logos. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. de devir-hyde. Aristóteles sublinha-o na Métafisica. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. mas nenhum deles. embora em permanente devir.ubi.pt i i i i . se coloca no Dr. sobretudo. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore. É o horizonte de seres hibridos. alterou-se a intensificação da sua identidade. isto é. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. através. de devir-outro. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça.

pt i i i i . na capacidade do corpo encadear o estranho. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo. que não anulam. procede da compreensão. No caso do corpo tecnológico. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. A relação. igualmente. de relação. a natureza de ser entre. É no encadeamento. de ligação. com intensidade de tensão. do corpo pelo artificio tecnológico. a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia. é dominado pela imposição de objectivos. O carácter intersemiótico da análise decorre. não podem anular. de limite. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. corpo de design. O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto. no ajustamento. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. ajustar-se ao estranho. corpo de patente.labcom. cria flutuações. do corpo tecnológico é um elemento fundamental. fundamentalmente. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. intemporal. na medida em que é corpoprojecto. na expressão de José Gil. entrelaçar o estranho na sua individualidade. a humanidade. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos. dir-se-ia. Mas o devir é tensão. dir-se-ia originária. Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. Por outras palavras o corpo tecnológico.ubi. imagem do outro. inter. da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. Este carácter de fronteira. quando não a penetração. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). Mais do que um significante flutuante. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. do sujeito no seu devir-objecto.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. devir-outro. de objectivos de construção.

Minuit. the organismic body is being construed as an open system. Pág. Na leitura. uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial.”41 . em particular. mais do que pensado. M.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados. o vivo e o não-vivo. reinterpretativamente. 61. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. Serres. por exemplo. Op. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. “O nosso problema é a complexidade. Kirby. pelo estudos dos sistemas orgânicos. como nota V. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. na biologia. mas pela permanência de operadores que articulam. de M. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. a congregation of heterogeneous materails and flows.labcom. Pág. pelo seu carácter central. faz deslocar. Serres. numa tecitura teórica quase interminável. impõe. sem dúvida. um sistema. constroem. then. an unfinalized product of morphogenesis. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. o orgânico e o inorgânico. o humano e o não-humano.. diferentes significantes e diferentes significados. o organismo como sistema cibernético. sempre acutilante. mediated from and within itself. em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. Ela caracteriza um estado.ubi. mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado. an infinite partioning. da qual. 1980. 146.”40 . são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar. Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. em relação a um mesmo.pt i i i i . mas também. Paris. Kirby. estável. Hermes V. marca-os de inde40 41 V. www. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. Cit. O Corpo humano passa a ser pensado ou. não-lineares e abertos. construído. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. Le passage du Nord-Ouest. na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava.

as articulações entre as falanges. enquanto totalidade. Qualquer visão maquinica do sistema é errada. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. propriamente.pt i i i i . à luz dessa indecidibilidade. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes. Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. um conjunto de termos ordenado por meio de. isto é. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. mas uma diferença de género. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. deixar o espaço de combate. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro.”42 . para conseguir ver. onde se levanta a poeira.ubi. de sistema. por exemplo. ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema. portanto. A simplificação nasce da luta. linear. define-os como abertos. Pág. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade. por exemplo. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. Um sistema não é. O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. que o recupera na sua desarmonia. Ela não é um todo sintético. na sua assimetria. Não são. a mão.labcom. regras dedutivas. Um sistema é uma totalidade que. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade.i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. www. a esta totalidade não sintética. pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. no seu desequilíbrio”. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. o recurso à metáfora fractal. bem entendido. a multiplicidade não o compõe. surge-nos como exemplo. O sistema é. mas uma multiplicidade sem partes (complexa). como um sistema aberto. 22. mas sou eu que constituo o meu corpo. Ibidem. se chama. indecidível. identidade e lógica combinatória prévias das partes. A esta complexidade. e constituinte da identidade das partes.

uma viga que a percorre etc. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. a partir do ponto de o constitui. naturalmente. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta. como nessa relação.ubi. como que. uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. como um corpo qualquer. pelo eu do m’EU corpo.pt i i i i . a cor não é extensão. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. adquirindo relações definidas e concretas. O meu corpo é. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. e em primeiro lugar. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. a folha.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência. nem uma determinada temperatura. O que chamamos de “corpo próprio”. a sua res extensa. mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo. como esta mesa. opacidade.labcom. de cerejeira para ser mais específico. O corpo próprio. além disso determinadas cores e tons. por exemplo. nem a lisura.). por exemplo. esta folha de papel ou a minha mão. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). De facto. se “sobrepõem” à extensão. mas. mas a madeira não é possível sem ela. possui. Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido. pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem. uma extensão. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. é operada por mim. Assim. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador. assim. que ocupa um espaço. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. é claro que. É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva. De facto.

é a concretude da extensão. isto é. A identidade vai aparecendo. A “extensão” é em si uma abstracção. como interface entre eu e o mundo.ubi. que não corresponde a isto ou aquilo . de modo algum abstracto. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. formas. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. desta folha.pt i i i i . O corpo extenso é. mas não é identificável em si. a mesa não é. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. é. que ocupa espaço (deixando revelar cores. a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. uma pura abstracção.i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. desta mesa ou da minha mão não é possível em si. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis). evidentemente. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é.não. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. O corpo aparece-nos assim como interface. isto é. o meu corpo. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso. como a minha situação no mundo. a sua forma.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade . A res extensa. essa res. como negatividade. em rigor a concretude de uma abstracção. à afectação pela matéria). a identidade da extensão. um quase-nada. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações . todas as determinações nele identificáveis.a mesa não é a sua cor. por redução negativa. também aqui. a que chamamos ponto-centro da representação. até ao ponto em que. a mesa não é a sua temperatura.labcom. na sua essência. informe . grau mínimo de fenómeno. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. isto é. mas esta nesta mesa que se estende. a res extensa.a mesa não é a sua cor. etc. a sua temperatura. possibilidade de ser aqui e agora. indefinido. cada vez mais consistente. é redutível a um ponto. pois.

pt i i i i . nunca se acaba de chegar. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo. ele é um limite”. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé. dar o exemplo. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif. un lieu. remete para a identificação do corpo como um órgão. de estado de consciência. é uma intensidade. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. Encore le CsO n’est-il pas une scène. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. dos olhos de um cadáver. não se pode chegar. é um processo que percorre o corpo. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. digamo-lo assim. peuplé que par des intensités. O corpo enquanto interface.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. Assim o vê Aristóteles. Le CsO fait passer des intensités. bastar-se-ia.labcom. o corpo-orgânico é um órgão do espírito e. enquanto tal. Pág. muitas vezes. 189. enquanto pondus na expressão agostiniana. representa um ponto-de-poder. por exemplo. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão. assim o vê Kierkegaard. O CsO não é um corpo. Há. Nos Mille Plateaux. Mille Plateaux. de poder no espaço e de poder no tempo. Nesta perspectiva. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor. assim o vê Leibniz. rien à interpréter. Guattari. está para o espírito como. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação).ubi. Deleuze e Guattari. o corpo interface revela-se como corpo orgânico. Deleuze e F. não considerado. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. ni même un support où se passerait quelque chose. Seules les intensités passent et circulent. para o ilustrar. inétendu. www. Rien à voir avec un fantasme. para usara expressão de Kierkegaard. a atmosfera. que define. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo.

quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. a explosão no homem-bomba).i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico. por sua vez o corpo agencia o espaço. para sermos rigorosos. o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. A experiência do paranóico. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. então. quando somos orientados por uma disposição forte.pt i i i i . por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. como que nos esquecemos de que temos corpo. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e. do hipocondríaco. o drogado. isto é. do drogado. o espírito esquece-se do corpo. As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras.ubi. afinal. O atleta. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO.o hipocondríaco. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. o paranóico. o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico. isto é num devir-CsO. que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo). desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou. Mas não é a apenas no paranóico. em noutro grau.labcom. como se fosse um Corpo sem Órgãos. O que nos diz. Sendo corpo-interface. mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. Quando o maratonista está a correr. corpo orgânico. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . corpo animado. isto é. O que se está aqui a dizer é. o bailarino.

uma interface da visão. na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. os modos. poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos. um corpo de pensamento no filósofo. pura possibilidade de agenciamento.ubi. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. Ibidem. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). o espírito. Os olhos são. Como insiste Deleuze. isto é. Pág. um devir. o sinal do seu carácter vivo . A intersubjectividade é. 44 Idem.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. 3) o conjunto eventual de todos os CsO. isto é.pt i i i i .vemos pelos olhos. às vezes chamado de CsO). vemos com os olhos . Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface.”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. justamente. uma tensão. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo.labcom. quer dizer. o dolorífero do CsO masoquista. isto é. de interface). de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. não um estado. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. www. cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio). o plano de consistência ( a omnitudo. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista. um corpo de saúde no doente. como vimos. de agenciamento da matéria. isto é. um limite. géneros. atributos substanciais. tudo no CsO é uma questão de matéria. O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. as intensidades produzidas. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer.” Enquanto campo de imanência do desejo. um órgão. por exemplo o frio do CsO drogado. precisamente. mas ele é precisamente isso. o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos.os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. um corpo de afectos amorosos no amor cortês. 188. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição . o plano de consistência própria do desejo. tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro. isto é.

labcom.a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. isto é. 2. Neste sentido. É uma matéria de devir. atrair a si todo o movimento do interior.ubi. disso a que Kierkegaard chama de interioridade. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular . ela interfaciada. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. tensões. em particular o movimento dos afectos. As metamorfoses do corpo. A relação com o mundo não é imediata. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina. isto é.EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles . quer dizer de matéria do devir por excelência. então. mas resulta de uma representação. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”. o espaço do corpo. isto é. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil. A relação do meu corpo a mim é orgânica. que é agenciavel. a parte traseira e a dianteira). tal como procuramos mostrar tal implica que: 1. essa “matéria do devir por excelência”.”45 O espaço interior é. Falando deste “espaço do corpo”.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras. permeável a disposições. Assim rasga-se um horizonte-nú. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele). intenções. José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio. 75. www. b)ao exterior. A matéria intersticial não tem espessura. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente. ainda que. plano de agenciamento possível. e sendo da ordem do corporal não corporado. e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo.) É um modo particular da totalidade.pt i i i i . Pág. é a matéria do devir. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície.

No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e. isto é. O corpo não é. sob a forma de corpo. tácteis e olfactivas. o anuncio do mundo a mim e. Deste modo.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que. ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais.i i i i Corpo e Sentido 189 branca”. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. portanto. auditivas. O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes. mas uma totalidade anterior às partes. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. nesse sentido. assim. “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la. o quarto. o mundo . A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. em absoluto. como se não houvesse corpo. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades . naturalmente. e. uma mera soma ou articulação de partes. muito menos redutível a uma máquina inorgânica.a mesa. Assim. Por outras palavras. no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo).ubi.labcom. um anuncio de mim. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro . a rua. para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel. evidentemente.de facto no momento do www. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação.pt i i i i .

A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. Relógio d’Água. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que. Pág.pt i i i i . O corpo e a dança. entra num processo de devirmáquina. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro. ou virar à esquerda sem roçar o passeio. por isso. não calculável. em vão. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). como bem demonstra Hubert Dreyfus. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. porque. mas igualmente um 46 José Gil.”46 . qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. que nos levam. 58.labcom. como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo. por exemplo. nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. 2001. O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio. actualmente apenas uma alegoria.qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua.o robot não tem conhecimento imediatos. Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização. com a realidade. Lisboa. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. de um modo geral. que à força da repetição de gestos mecânicos. isto é. como também a tecnologia encontra aí o seu limite. O que Gil nos diz é que. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo. www. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos. e o devir-barata.ubi. alias os records procuram. representa um limite. que ocorre no corpo. talvez absoluto. quantificar . Movimento Total. Acontece que o ciborgue não é. da inteligência artificial . quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação.

. Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade. no âmbito da lógica. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. neste sentido. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design. Tucherman. abstracta. isto é. Quer dizer. simples. o que.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos. surgindo apenas como limite (como tensão para. Apud. Pág 157. não-humano. construção científica de um corpo artificial. Se por um lado ele é uma realidade objectiva. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. não orgânico. o que traz o imenso problema da identidade.. o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade. Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica. na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica.labcom.. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. o devir-ciborgue é perturbador. I. nega. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano.. pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B. ambíguo. Ora enquanto projecto. Cit. colocando um problema de identidade. por exemplo.pt i i i i .”47 . logo não biológico. De facto. Stiegler. www. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (. a noção de devir. na afirmação “A é A” .ubi.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. a identidade define a apresentação em evidência. um devir-si-próprio. a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno. por outro lado. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá. Op. de ter vários corpos simultaneamente. sem mediações. Mas tal não acontece no plano da vida. impossibilita. enquanto afirmação vazia. isto é. “mão” etc.

não se podendo dar. Ou seja.ubi. Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. “o interior da minha mão”. não abstracto. mas também cada perspectiva da minha mão. a minha mão ontem. Pelo contrário. a minha mão ferida. A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos. então a identidade seria dada a partir de fora. Eu. portanto. eu tenho da minha mão. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão. a minha mão a tocar agora o teclado. a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. da soma de cada uma das suas posições. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”. lógica e não à noção de identidade que. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável. no plano da vida. isto é.pt i i i i . “o interior da minha mão”. como tal se excluem. De facto tal não acontece.labcom. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá. enquanto a identidade do abstracto é imediata. a minha mão fotografada. O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. enquanto sujeito dos predicados. pelo menos. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. “A minha mão ferida”. O que acabamos de concluir pode ser expresso de. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. o interior da minha mão etc. a minha mão vista numa visão microscópica. “o interior da www. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade.

não ter sujeito. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo. Este poder de auto-referência é proporcionado. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão. tecnologicamente intervencionado. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação. A diferença fundamental. laboratorialmente pensado. Regressamos. isto é. processos de produção de materiais. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito. um signo. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. o terceiro capítulo. indiciam constantemente a situação do discurso. como mostraremos. de tecidos.ubi. www.pt i i i i . de próteses. de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. no entanto. de órgãos corpóreos.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. a uma ideia. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design. estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia. como demonstrou Benveniste. pelo conjunto de pronomes pessoais que. assim. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. também aí. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. mas um acto discursivo.labcom.

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2003.a experiência proprioceptiva.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. Surveiller et punir. Em Vigiar e Punir2 . por sua vez se declina no social. quer públicas quer privadas. Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau.) a experiência social etc – é. na escola. progressivamente. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. para copular etc. à sua semioticização que. no económico. no político. difícil de delimitar. Estes procedimentos são. afirmada pela família. para comer. Petrópolis. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. a uma produção do sentido do corpo. A experiência do corpo .Artes de fazer. envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. Editora Vozes. 1 195 i i i i . que estão na dependência de um conjunto. como mostra Michele de Certeau1 . As práticas sociais. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é. para dormir. no jurídico. que podemos designar por procedimentos. 2 Michele Foucault. pressupõem sempre práticas corporais. isto é. de um modo mais ou menos explicito. na fábrica. esquemas de operações e manipulações técnicas. 1975. na igreja. Gallimard. no científico etc. A invenção do cotidiano . para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo. no religioso. Paris. antes de mais.

as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal. ele é. afirmado. centrando-se no século XVIII. maquinarias. Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. na ginástica flexível das suas declinações. Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. justamente. escolar e médica no começo do século XIX. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. técnicas. pelo contrário. o que identificamos não é nunca o sistema. mecanismos. Com efeito. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. funcionaliza. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. As análises anteriores. mas o mondo como ele integra. mais ainda. operários. Tratam-se de detalhes tecnológicos. que o procura controlar. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. por Foucault. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. militares.pt i i i i . no fundo. o dispositivo. doentes -. processos ínfimos mas decisivos.labcom. por eles se impõe um processo de www.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. a prisão. internamente. muito mais subtil mas igualmente mais presente. mas a própria análise de Foucault. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. educadores para os condenados. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno.ubi. na sua disseminação. úteis à sociedade. sexo e arquitecturas. criminosos. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. dominar. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo. que inverte. quer colectivo. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar. parece sublinhar a ausência: dispositivos. mãos e roldanas. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes. intrumentalizações. produzir. como biopoder. Foucault actualiza. por castigos aplicáveis a todos.

por um lado. 189-194. 3 www. em peças de um corpo social que os integra e significa. umas “discursivas”. sem corte. na horizontalidade do plano. 106-113. torno. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. 159-161. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. barómetro. associar.ubi. classificar. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. das técnicas. já não como na História da Loucura. que transforma os corpos próprios. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. sucede um espaço que integra. pois. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização. e. mas o gesto. sem rosto nem lugar. 96-102. identifica. por outro lado. 276. corpos ligados a corpos. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver. distribuir. 185. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão. corpos ao lado de corpos. cadeira). Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter. falando de regras gerais.labcom. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas. das operações distintas.pt i i i i . que domina a Idade Média. prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. formação discursiva. de ler e de ser – uma semiótica integral. separado horizontalmente. dos procedimentos. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas.discurso. 28. Numa série de descrições clínicas. aqui se menciona o elenco: Págs. feitas em Vigiar e Punir. 274-275. são inúmeras. Ao espaço cortado. 238-251. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto. pequeno e por toda a parte reproduzido. 143-151. analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. ânus. anulador das diferenças individuais. dois sistemas heterogéneos. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão.3 . Foucault distingue. a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal. olhos. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. das condições de funcionamento. da continuidade do processo. sem hierarquia. mecanismos. 211-217. sem hierarquia. opaco. para usar a expressão de Michel de Certeau.

. . nas transacções sociais.pt i i i i . com um preço. de Foucault. . seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (. a descrição do arquivo. como o seu nome indica de maneira muito evidente. o sentido do corpo e do corpus. Lisboa. complexificando uma e outra. “Réponse à une question”. A própria ideia do “indivíduo”. 1994. . enunciado. www. ) – os limites e as formas da conservação (. . que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico. Paris. É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. definem: os limites e as formas da dizibilidade (. .. 2005.dade-pura. Michele Foucault. p.). Dits et écrits. não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época. 14]. isolável do grupo. à margem. o direito apodera-se dos corpos. então. Gallimard. singularidade-pura ou plurali. . . mecanismos . Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve.labcom. Mas uma arqueologia: quer dizer. Todo o poder gera princípios de ordenação. sentida pela justiça penal. afinal. não permitindo. Do nascimento ao luto. Enunciação e operação. 681-682. Não há direito que não se escreva sobre o corpo. que descreve aquela máquina e o seu operar. Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . . discursos e mecanismos parecem. I – 1954-1969. numa dada época e para uma determinada sociedade. IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs. . pp. . Assim fala Dromio. em ultima análise. ) – os limites e as formas da apropriação (. procedimentos. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese. ). . corpos que devem ser marcados. devem poder ser escritos (o exercício funciona. Por esta palavra.i i i i 198 José Bártolo siva. é instaurada devido à necessidade.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas. o escravo. fazendo deles o seu texto. São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social).ubi. Cf. corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial. como escritura) e lidos.”. ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular. função enunciativa . Entendo o conjunto de regras que. de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. ao estabelecer. ) – os limites e as formas da reactivação (. ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. operações.

Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo. remete-nos. corresponde. da religião. é por si próprio o juiz. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena).labcom.ubi. aliás. Língua esotérica e hermenêutica. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia. Lisboa. I. A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis. Relógio d’Água. entre as coisas e o seu valor simbólico.. Shakespeare. o papel não basta para a lei. ”5 .pt i i i i . à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina. uma transfiguração. Michele de Certeau. a única capaz de vincular o sentido. uma metamorfose do corpo. tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. objectos. 7 José Gil. 6 5 www.i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink. Cit. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo. . III. Op. . Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. e ela se escreve de novo nos corpos. 13. ainda aí. 1997. Pág. The Comedy of Errors. A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). Mas nos tempos de crise. uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”. por exemplo “respeita o teu superior”. Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. 103. da superstição. Metamorfoses do Corpo.”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos. Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. 232. Pág. também.

labcom. M. Vigiar e Punir. demonstra. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. o exercício desse saber-poder. www. Esta dupla renuncia. ao modelo do contrato ou da conquista. de reforço. o próprio objecto de análise. no que se refere ao saber. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos. em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. em particular. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. de vias de comunicação e de 8 Cf. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico. Págs. do mesmo modo.pt i i i i . em Vigiar e Punir. os seus recursos. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática.ubi.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. à metáfora da propriedade. 24-29. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. dilucidando. Rio de Janeiro. O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes.i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. Assim. Editora Vozes. Foucault. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. 1987. não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas. enquanto premissa metodológica.

pt i i i i . em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais. talvez ainda por fazer. 9 Idem. é um “capítulo” dessa análise maior.”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era. Pág. 27. www. sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder. Ibidem. do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos.i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber.ubi.labcom.

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a maioria deles. em menor ou menor grau. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. por exemplo. muitíssimo redutor. apenas. ordens que podem ser traduzidas socialmente. tensões. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i . não são desenhados e fabricados à partida com uma função que. por exemplo. ordena o espaço (o estrado. Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder. O mobiliário de uma sala de aula. mas seria ingénuo não admitir que os objectos. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. Do punhal de Sílex à guilhotina. das algemas à pulseira electrónica. isto é. cadeiras eléctricas. Assim. das cadeiras de tortura medieval. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo.i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. condição de possibilidade da sua actualidade. de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. serve um sistema político. Seria no entanto. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. do funcionamento do jurídico e do judicial. Desde os instrumentos de escarificação.

111. um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. p. Pode ser coleccionada. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço. há uma evolução progressiva do duro para o mole. do técnico para o tecnológico. instrumentos curvos ou direitos. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria. de Certeau. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. do material para o tendencialmente desmaterial.. nem sequer com cuidado. seguramente. desconhecidos. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não. madeiras compactas. 233. uma cadeira.1 Os instrumentos particulares funcionam. de outro. AAVV. Cit. formam redes de nervuras. Op. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca. mas também os articulam.ubi. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. IN Murmúrios do Tempo. Michele de Certeau.”. aos seres de carne e osso.labcom. antes ou depois do uso. remetendo de um lado ao corpo simbólico e. mas ainda estão ausentes. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador. Fica lá. que não se há-de converter em moeda de troca. uma câmara de vigilância. envolventes ou contundentes. Pág. Porto. conheci. É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto.”. não. Cf. Centro Português de Fotografia.. por exemplo). escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada. tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. M. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. “Matérias Sensíveis”. . Cf. nem sequer com leveza. porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. à espera ou como resíduo. Fronteira ofensiva. cortar.pt i i i i . não caminhar. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. necessariamente.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. recebem a sua validação funcional. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo. nunca. Traduzir esta 1 www.2 Numa passagem admirável. Esses objectos feitos para apertar. 1997. nem sequer em local de peregrinação. isto é. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar. por sua vez. Maria Filomena Molder. 2 Falta.

o princípio de uma anatomia politica que disseca.pt i i i i . ainda que através de olhar sumário. IN Science. Lynn White. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade. De um biopoder se tratava já. progressivamente em texto.labcom. separa-o. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. e não mais jurídico. cientifica e economicamente os corpos. Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que. nunca. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia. no 3767. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. “The historical roots of our ecological crisis”. ordenando social. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. já. ainda assim. todavia. progressivamente. justamente. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social). 1203-1207.4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue. uma desmaterialização.ubi. do cuidado e do bem-estar. March 10. traduzir a subtileza e. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. 1967. Págs. o desenrolar lento desse processo.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais. Cf. Nessa gradação a carne converte-se. o conceito foucaultiano de “biopoder”. que isolam o leproso do são. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”. simultaneamente. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. quando a unidade de referência. que se torna claro pelo menos desde o século XIV. encontrávamos aí.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. veias. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras. a maquinaria médica isolao. da representação. Já revisitamos. Sem utilizar. 3 O historiador Lynn White em artigo. leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. que isola o corpo. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”.

este seria de cada vez o significado mais importante. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. marca de uma intradutibilidade. S. Landy Editora. www. integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários.labcom. não terá porventura um significado menor.ubi.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. O “corte” a que nos referimos corresponde. Paulo. o significado que “está por baixo”. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma. fundamentalmente. pois. Um diálogo sobre os prazeres do sexo.pt i i i i . contudo transmite outro significado. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. expressão de um indizível. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. à substituição de uma máquina semiótica por outra. a partir da qual o corpo vai sendo produzido. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche. 2005. Qualquer que seja a máquina semiótica. O facto. Freud e Marx”. isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. Num texto sobre as técnicas de interpretação. desde sempre. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser. pelo menos. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). • Por outro lado. em certo sentido. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que. a linguagem engendrou esta outra suspeita: que. pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios. isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. IN Michel Foucault. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal. de pelo menos na cultura ocidental. O corte médico – corte semiótico antes de mais. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar.

i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. o seu mapa autónomo da semióse.ubi. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. • A noção de emulatio. que nos aparecem já entre os gregos. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. No século XIX a nova construção do corpo. perduram ao longo da história. na anatomia. ao semaion grego. faz-se. as suas formas específicas de produção pela linguagem. Isto equivaleria. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. como unidade mínima de interpretação. algo que deseja ser dito. o projecto para a realização da tábua. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. numa ou noutra substância. também. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem.pt i i i i . como se dizia no século XVI. Este corpus da semelhança estava. a convenentia. por exemplo. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. Para tal. as suas técnicas. Talvez. na botânica. quer dizer. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. Assim. os métodos. o seu sistema de interpretação.labcom. todo o tumulto que atravessa os corpos. e que podia ser decifrado. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. da semelhança. na filosofia da natureza mas. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica. em grande medida. grosso modo. que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. certas afinidades electivas. na filosofia da linguagem do século XVI. então. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência. Estas duas suspeitas. aquilo que com isto se parece. fosse o ajuste mais particular. plenamente organizado. dos humores orgânicos em medicina). Aí onde as coisas se assemelham. as doenças. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação.

pt i i i i . de filtros. Alquimia. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. tirar. a imagem de uma propriedade invisível e oculta.ubi. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. • Finalmente. repara-se. a noção de analogia. substituir. da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII). onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. social e político. como para pensar o rosto humano. fabrica-se. • A noção de signatura. a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. cortar. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. acrescentar. há muito que ele já era actual no plano económico. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). assim. www.labcom. a assinatura era. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. da função no interior da máquina permite a substituição. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. de bombas. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos. entre as propriedades visíveis de um indivíduo. sentido este que será substituído. de alavancas. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. modificar. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado). A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo.

labcom. www. quan.). a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar.pt i i i i .do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas. a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. jurídico. da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei. Se o corpus textual (cientifico.i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos. Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente.ubi. quer cientifico quer social. pela purga etc. próteses etc. mitológico) se transforma.

i i i i i i i i .

Athenäum Verlag. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . para alcançar os seus próprios fins. Gallimard.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. 1975. G.. O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. no contexto social. entre o organismo e a máquina. Glimour e P. M. em muitos aspectos. Naissance de la prison. se serve do corpo do outro. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. 5 Cf. A tese da incompletude. trabalhada por Mauss3 . trabalhada por Foucault4 . K. por exemplo. parece. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico. Cambridge. plenamente em curso. se serve do próprio corpo. 1968. Ford. a segunda. M. Hayes (Org. Sociologie et anthropologie. Android Epistemology. nos anos 60. mostra como o poder humano. e com elas Cf. o instrumentaliza. agenciado. por Canguilhem1 . Gehlen.). 1995. 1971. Mass. ser hoje confirmada por um processo. Foucault. o instrumentaliza. 2 1 211 i i i i . por técnicas sócio-politicas. Paris. Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. C. senão da obsolescência. Paris. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). A primeira. do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. Der Mensch. A. da continuidade entre a vida e a técnica. 1950. The MIT Press. Seine Natur und seine Stellung in der Welt. no contexto social. 4 Cf. Paris. Surveiller et punir. La connaissance de la vie. Canguilhelm. 3 M. o orgânico e o maquinico2 . PUF. Vrin. Bonn. mostra-nos como o humano. Mauss.

pressupõe a legitimação de uma prática. T. Feltrinelli. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. pragmática. que funda o “dispositivo tecnológico” é. afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. apenas. Por um lado. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft.”. quando há “alta tecnologia”.ubi. nos planos sintáctico. 1997. A história da semiótica ensina-nos como. www. p. 5 de Janeiro de 1960. Muitas das técnicas primitivas.16. Neste sentido. Maldonado. a tecnologia que funda. pelo contrário. 151. o design parece.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos.. condições de funcionamento do laboratório. precisamente.. Lévi-Strauss mostra-nos. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção. tecendo jogos de legitimação. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. De facto. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é. C. por outro lado.labcom. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas.pt i i i i . aliás. Não há tecnologia. muitas vezes a par. ciborgues – reaparecem com uma força crescente. ligadas por um 6 7 Cf. Lévi-Strauss. p. Milano. semântico e pragmático. progressivamente. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. gradualmente. isto é. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo. andróides. o laboratório. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . fundamentalmente. do design do corpo. Cf. A tecnologia. analysable dans les termes d’un système plus général7 . como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. Critica della ragione informática. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. por exemplo. não é o “dispositivo científico”. A construção semiótica e a construção técnica andam. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade. A sua força reside.

et les artifices du carnaval.” . Lévi-Strauss. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. em todo o caso. um desvio à norma. Falámos de máscaras. modificada. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. à semelhança do corpo humano que duplica. pp. devir-doença ou devir-fertilidade. a sua articulação e automação. de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. Lévi-Strauss. do modelo definido por um Referimo-nos a C. um corpo agenciável. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. A identidade não é alterada mas. Genève. são técnicas de intensificação do corpo. isto é. La Voix des masques. sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. 8 www. Trata-se de um conteúdo formal. Unique en son genre. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo. replicantes e ciborgues. neste sentido. aux becs de le dévorer. O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza. 23-24. representa. um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. ou seja. A máscara é. aux yeux de pleurer sa mort. gadgets e transformers. Idem. que pode devir-morte. um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. de devir-outro.labcom. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. Un jeu de cordes. aqui e sempre.pt i i i i . Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés. 1975 .ubi. Skira. O boneco articulado é. règnent ici dans leur primitive unité. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. 9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. um excesso. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . antes. Na sua semiótica da máscara8 . 1. que nele desencadeiam processos de agenciamento. vol.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”. Cf. A máscara é. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens.

No entanto. sempre. por definição. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. apenas. normalização sem resto. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. a produção técnica é. de ser material ainda que tenda a ser. sempre. o design. a produção não tem. corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. codificação absoluta. possuirá. De facto. se não existir a semioticização do erro controlado. Não haverá. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. o cinema. necessariamente. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. da descodificação e o contrário. por outro lado. da mesma forma que o têm a economia. a produção nunca é simples. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha. mesmo. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário.ubi. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. materializante. a medicina. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo. semioticização total. de resto. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. um sistema pré-cientifico. isto é. as biotecnologias. a filosofia. também. retroactivos em relação à máquina que os produziu.labcom. o seu corpo-monstro. a publicidade etc. complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático. no entanto.pt i i i i . isto é. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. A biologia tem o seu corpo-modelo. as ciências do artificial e. Por exemplo.

necessariamente. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico.pt i i i i . mas também nos laboratórios. . A deformação do corpo materializa o próprio excesso. nas fábricas. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. nas farmácias. dentro. em relação aos meios e. Este excesso. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. No cinema. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema. O ciborgue. por exemplo.labcom. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica. mais. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. Numa palavra. por exemplo. também. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. citar Parsons. .i i i i Corpo e Sentido 215 determina.).10 A cibernética e. Free P. nos ginásios. isto é. a este respeito. na banda-desenhada.ubi. Glencoe. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo. por ela sobredeterminado. o que acontece dentro ou fora acontecerá. poder-se-ia. Essay in Sociological Pure and Applied. à superfície e em profundidade. as posições dentro e fora relativas a si e. plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. na literatura. porque o imaginário é. T. Cf. sobrecodificação. produção semiótica. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas. Parsons. também. determinará em relação às possíveis traduções. quer semânticas quer pragmáticas. ) Um processo ou um conjunto de condições. no Design. ciber-design etc.”. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. que a partir de fora se façam da máquina. De um excesso se trata. com proveito. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser.. 1957. um excesso semiótico. Freud mostrou bem. nos consultórios médicos. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. nesse sentido. 10 www. como sobredetermina na medida em que ela própria produz. essencialmente. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk.

a construção de uma zona de troca semiótica que. São processos de territorialização. Lisboa.ubi. interagindo e. “Entre anjos e cyborgs”. p. Os estados técnicos. a ocorrer. delas nos afastaria. em certo sentido. Relógio d’Água. Na abordagem da esquizoanálise. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. mais do que nos aproximar. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica). umas por relação às outras. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica .1982. difícil de responder. Prado Coelho (Org. devem ser inseridas e pensadas. Tucherman. antes. 2000.mecânico. os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar.A. para escrever: “O que testemunham. anotava Ieda Tucherman11 . sobre um regime de segmentarizações. muito bem. com os fluxos e as Ieda Tucherman. e na fronteira. enquando incorporadores. são “figuras de fronteira” como. No seminário de 26. A alteração. A questão que se deve pôr. Revista de Comunicação e linguagens. digital. só podem ser pensadas no limite do humano.i i i i 216 José Bártolo constrói canais. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. no 28.). digital são. analógico. e tantas outras figuras. In J. realidade e imaginário. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. intitulado. Bragança de Miranda e E. trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. Ciborgues. a partir dos seus poderes especiais. as máquinas que funcionam. Tendências da cultura contemporânea. tal como Deleuze o pensou. agenciamentos linguísticos. ao nível da intensidade. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. no seu limite. do corpo como do pensamento”.pt i i i i .01.labcom. é que as fronteiras não são naturais. 11 www. antes de mais. são agentes de intensificação do humano. não sucede nunca ao nível da identidade mas. I. entre saberes e práticas. no entanto. entre-planos. integrando-os. Cf. circunscrições que demarcam espaço e movimento. antes. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. 157. analógico. aproxima-se do conceito de território. instrumentalizar. homens-biónicos. lobisomens.

o corpo é. I. do espaço doméstico. sob o signo da preservação da vida. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. 13 12 www. Edições 70.pt i i i i . no 6. Assim. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar. Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço.ubi. numa palavra.496515. Lisboa. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. territórios semióticos. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo. 1995. máquinas semióticas e universos semióticos. 193-194. fundamentalmente. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui. finalmente os universos. como temos vimos a afirmar. pp. Incorporations.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações. o médico é também identificado como sujeito. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. pp. e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico. 1996. tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. MIT Press. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. é o estudo “Hygien. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter. Se. sempre. a especializar ou a dissecar. Abbott Miller. A troca simbólica e a morte. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. operador.labcom. altera-se. Zone. semântico e pragmático. entre o interior e o exterior do corpo. ainda que aqui. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard.

tradução portuguesa de Maria João Pereira. uma perturbação do reconhecimento. 179. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. prolongamento do corpo) é. RCL no 29. 16 José Augusto Mourão. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. 1991. Não será. essencialmente. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. em segundo lugar. corpo-mecânico do século XVII e XVIII.pt i i i i . mas a sua actuação é.labcom. Payot. Simulacros e Simulação. Sexe ey solitude. “Hibridismo e Semiótica”. Lisboa. no sentido do mesmo Baudrillard. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. Todo o real é residual. 1999. Relógio d’Água. p. essencialmente. uma tecnologia de reciclagem. ciborgues. há no monstro uma tensão de identidade. no interior do que Bruno Latour e M. replicantes. áreas comuns e de isolamento etc. de devir-monstro. não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea. no corpo. Relógio d’Água. como sugere José Augusto Mourão.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. espaço de recobro. em primeiro lugar. residual. ao triunfo do fantasma puro”15 .). corpoJean Baudrillard. O Campo da Semiótica. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror. Fantasmas. significações do corpo. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. Lisboa.bloco de operação. 292. ao computador. ciborgues. do autómato. 15. Todas estas figuras – fantasmas. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. mesmo na perspectiva marxista. ao mesmo tempo reverte e intensifica. anjos biónicos – talvez possam ser analisados. Para que aja monstro tem de haver. p. algum tipo de reconhecimento e. Paris. estatutos de significante e significado.ubi. 14 www. sempre. tecnologicamente motivado. 2001. p. 15 Bruce Benderson. uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo.i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . andróides.

a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização. 52. colocamos em cena o “teatro do corpo”. et intelligentes. in E. leur externalisation.ubi. classificando. Breve História do Corpo e de seus monstros. 2001. 2003. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. Rodrigues.labcom. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética. “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. a sua vida. as possibilidades de vida em ambiente virtual . Vega. assurément. o facto dessas máquinas serem. o corpo no seu devir-outro. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. que colocam em questão o humano. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . F. máquinas filosóficas. Michele Serres. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde. certes. en des choses inertes. 20 Lembremos. et cette objectivation peut améliorer les performances.o aumento das próteses. como lhe chama Michel Serres. Lisboa. veja-se J. de pueril o esforço de forjar palavras. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos. de um modo ou de outro. e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage. Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. em particular. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. Éditions Le Pommier. o seu corpo. C. Senses and sensibility in technology. o corpo no seu devir-ferramenta. M. na segunda obra. falamos. Paris. a criação do ciborgue. Bártolo. hoje.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI.C. 18 17 www. p. a clonagem. Corte-Real.20 Ieda Tucherman.”18 Anuncia-se o outro do corpo. como refere Ieda Tucherman17 . Duarte. 1999. No interior de uma cultura exo-darwiniana. Ceiade. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. em aparelhar o corpo. Hominescence. que a noção de cyborg traduz19 . outro aspecto se destaca. Passagens. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. o corpo-outro.pt i i i i .

Falar em experiência da linguagem corresponde. neologismo em língua franca. 1970. da antecipação da linguagem. Verlag Karl Alber. corresponde a esse que. banalizado. dizer espectro ou dizer fantasma. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. de algum modo. na sua tradução mais literal. quando. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho. Os termos são sempre os mesmos. pois. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. experirir. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. também. O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências. por se tornarem inamen vocem. Em conversa com Wisser. como diria Bacon. não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . por isso. Assim. a travessia de um perigo.pt i i i i . torna-se abrigo de incompreensão. em periculum. a antiga força da árvore é recuperada. como dizia Herder. entretanto perdido. locução composta a partir de cybernetic organism. segundo Heidegger.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. os vocabulum emortum. nessa abertura é dito e significado. permanece fantasma. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome. que também é mater. no início. Experiri é.labcom. porque eles são a nossa permanente companhia. A experiência de pensar. 77. como mater. que se acha. sonhos. pensou que havia que inventar novos termos. September 1969). ou convertido em abstracção. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. voz viva. corresponde à experiência do que não se sabe através. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. hrsg. são palavras que anseiam por dizer. Von Richard Wisser. que é matriz. aguardam quem as desperte do seu repouso. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. o que é imprescindível. A palavra cyborg. 21 www. deriva de periri.ubi. de traduzir o pensamento em linguagem é. p. Freiburg/München. medos ou esperanças. A palavra experiência. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo.

) Tendências da Cultura Contemporânea. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver. afinal. Bragança de Miranda e E. no 28. porque. 22 www. esse suplício que. que constituem “processos de territorialização. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento. da noção de limite. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. pp. na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. do corpo como do pensamento. pela imagem e na imagem. no Protreptikos. sabemo-lo.labcom. 157-171. Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. que. se deve perceber a sua natureza híbrida. misturada. Seria proveitoso traçar uma genealogia. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 . ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína. do ausente e da coisa presente. 2000. pp.” Cf.A. ainda que breve. do conhecido e do desconhecido. assim. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites.P: Coelho (Org. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 .140157. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 .1. por excelência. em que a totalidade não é experienciável como todo. De acordo com Benjamin. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria. circunscrições que demarcam espaço e movimento. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1. de fronteira. “Entre anjos e Cyborgs” IN J. Ieda Tucherman. I1. Lisboa. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária. é reflexo da natureza da alegoria. enquanto [o pensamento]está no embaraço.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. é uma forma de antecipação. O limes é o umbral (limen) que.ubi.pt i i i i . Revista de Comunicação e Linguagens. do visível e do invisível. provém de uma experiência de reunião. como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas. Cf.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. também. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado.

26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto. mais do que corpo-organismo. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. uma alegoria.M. o ciborgue.. the electronic frontier includes workstations. Routledge.labcom.) In a more material sense. Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos. uma série de outras perplexidades. apertando o nó que nos abraça ao cadáver. As transformações da experiência.. é um corpo que. in AAVV. E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. veja-se J. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”. networks and bulletin boards.a de corpoprojecto26 .”25 . Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman. London. 62. 2002. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. as well as the code of application programs. presentes e futuras. 27 Donna Haraway. que pode ser expressa dizendo-se que. através de uma interessante análise. New York. na travessia de um perigo.pt i i i i . information services such as Prodigy and ComputerServe. num mosaico. Simians. Cadernos ISTA. é corpo-interface. apenas. A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo. a fronteira que o corpo coloca. íntimas e estranhas. mas por uma espécie de alteridade orgânica. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra . (.ubi.Bártolo. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast. 1996. and on-line databases. www.i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. Durham. Cyborgs and Women: The reinvention of nature. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue. Duke University Press. no 13. O ciborgue não é. unexplored territory. 1991. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo. file servers. Anne Balsamo desloca. p. que se desenvolve contra as fronteiras.

jogo alegórico por excelência. Helkiah Crooke na sua Microcosmographia. para fazer. original e réplica. Martin Heidegger. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. Microcosmographia.pt i i i i . este jogo quase de ilusionista. questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. Sparke. como aquilo que fica. o modo da sua dispensação aos humanos. Tal como ao fantasma. seria uma thesis articulada a uma outra thesis. As armadilhas da espectralidade valem-se. a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade. em grande medida.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe. de confundir thesis e pro-thesis. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. o perónio. www. London. Era Heidegger quem.ubi. Esta ideia de substituição. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. residual. 930. é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. A tíbia. o véu o cobre e descobre. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. um humano e um cavalo.26-27. Essais et Conférences. pela sintaxe. 1954. com razão. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . pp. como desvendamento/ocultação?”29 . de 1631. Helkiah Crooke. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). p. directamente. Paris. eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre. Gallimard. por exemplo. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura. o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. por exemplo. O perigo de se representar o corpo como resto.labcom. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. com o procedimento alegórico. tem a ver. da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente. o jogo da realidade. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. digamo-lo assim. 1631. M.

à partida um espectro. mas a um corpo mais abstracto do que nunca. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano. Benjamin. Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. A origem. Cf. enquanto captação imagética da semelhança. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos. mais ainda. W. um fantasma do espírito e.i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. Embora circunscrito. sempre.”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. outro. Galilée. Dito de outro modo. foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 . tal como Marx nos leva por vezes a pensar. engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo. .”. pp. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. também ela. totalmente revista). susceptível de ser descrito. Etimologicamente. mas a um “ver como”. As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. Friedrich Creuzer. . a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. 179. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. ou uma ideia. poderíamos até dizer.. Spectres de Marx. alegoria deriva de allos. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. o exercício protésico é. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”. diferentes dela mesma. No caso da alegoria há uma substituição. Não regressando ao corpo real. p. e de agoreuein. um fantasma do fantasma.labcom. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. 202-203. A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto. caso a primeira espiritualização produza.pt i i i i . Apud. 1819 (2a ed. exercício alegórico. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. Paris. 1993. 31 30 www.ubi. um corpo-protésico. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida. Synbolik und Mythologie der altern Völker. Leipzig-Darmstadt. . corpórea. falar na àgora.

o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. pelo abandono do dissemelhante. a sua presença abaladora. o que faz superar toda a simples representação como nexo.ela é uma thesis e. se fundem numa nova unidade. Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico.ubi. a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. As preocupações médicas. por mediação da série. as cawww. A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito.” Corpo protésico. neste sentido. a performance etc. os transportes. que nos invade as ruas. são preocupações sintácticas. formado já não no interior mediante uma composição de nexos. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. ambas são concreções de um modelo abstracto. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que. corpo compósito.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . tudo isto são alegorias. ainda que persistindo como partes componentes. ciborgue. nem. com a manutenção. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. com o perigo de rejeição.pt i i i i . ao nível da intervenção protésica. como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado. têm a ver com a compatibilidade. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto. pelo impulso para trás. isto é.labcom. tão-pouco.

IN Simians. o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. Mas o ciborgue não é. quando não de fusão. Cyborgs and Women.pt i i i i . in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality. each conceived as coded devices. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão. de elementos polares. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . desmaterializada. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. Trata-se de uma nova carne. não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway. Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu. da hibridação do natural e do artificial. “A cyborg manifesto”. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. os corpos. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade.ubi. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces. who populate worlds ambiguously natural and crafted. ao tornar-se uma pele electrónica fluida. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes. 33 32 www. Segundo Haraway. representa. disfarçada. disfarçada. IN Hari Kunzru. neste planeta. p. 149-150.labcom. São Paulo. aí. a representação alegórica. A técnica. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação. A estranheza do ciborgue. os sonhos. 2000.i i i i 226 José Bártolo sas. pura interface. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo. “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”. Modern medicine is also full of cyborgs.creatures simultaneously animal and machine. é a representação alegórica.”33 . apenas. Antropologia do Ciborgue.”32 . sem dúvida. E não se trata simplesmente de ideias. of couplings between organism and machine. Donna Haraway.

contem o germe da sua inumanidade. Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman. deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. 34 www. saúde e felicidade (como na visão extropista). Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam. a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real. IN M. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição. A Cultura das Redes. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida. a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop. mostra como potencialmente a humanidade do homem. como a Internet e a Realidade Virtual. O aparecimento do ciborgue.”34 . de fronteira.pt i i i i . quer como atractor de inumanidade. Bragança de Miranda. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras. o que lhes suceder efectuará o. O ciborgue é um ser estranho. caos. precisamente. loucura. apenas em parte. na mão do Terminator.L. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. Número Extra. Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. falta uma mão capaz de sentir nuances. 66.à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam. formado. parte do corpo. ao tocar noutra. 2002. literalmente.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . Revista de Comunicação e Linguagens.i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo. p. configurada no corpo normal. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação.ubi. o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade. Marcos e J. O que faz do ciborgue um “atractor” é.labcom. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard .

E.7-12 (Loc. 219. Lomb. exprime genericamente a cegueira. 277.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. 2-3). e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. PUF.labcom. 365. Fingo. No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs. mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs. Meillet. Dictionnaire étymologique de la langue latine. 36 Cf. se se quiser. Die Lateinischen Wörter auf-ura. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. Por outras palavras. nos stoichea dos Estóicos. Prieto. Lateinische Grammatik . Heidelberg 1965. ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr. derivato dal supino. pois. 236. 1976. P. de uma expressão difusa da relação homem-máquina). secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore. Cit. rifatta su figulus ed effigies (Cfr. 22.” Cfr. p.i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. porca. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch. Paris 1967. Paris. para os latinos. 2000. 1966. o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana. Inoltre A. V. “Non Corpus. porco. s. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. Cfr. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. 501-502. 247) sembra essere non figura. exprime. Invigilata Lucernis. Fingo). Paola Aretini. fêmea. Zellmer. pp. Ernout . sistemas com uma única articulação36 . V. M. Walde. Leumann. München. La forma più antica.ubi. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. A. nas figuras de Hjelmslev. M.pt i i i i . L. “Rend. pede passagem. Dificilmente podemos afirmar. De facto há uma circulação de sentido.” 108. postula compreensão por parte dos presentes. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala.A. I. homem. uma partilha comum. 1974. significante sem articulações. I derivati latini in-tura. Trin. uma multiplicidade de conteúdos. muito fecunda de significação. Ist. Giacalone Ramat. probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”. ovelha. ma fictura attestato in Plaut. s. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit. 7). 1963. A. Messages et Signaux. Frankfurt a. Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações. 35 www. com rigor. por exemplo). I. A bengala branca do cego.

O Campo da Semiótica. José Augusto Mourão.pt i i i i ..). in M. é a aparição. 38 Cf. ligações. por excelência. Lisboa.). 2001. José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma. Este além-presença. De facto.mais do que um signo objectivo . mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. 7. além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. mas num caso . p. A.288. “Hibridismo e semiótica”. Instituto Piaget. Maio de 2001. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo). Ieda Tucherman é.é um processo de devir e um processo de contágio. De decisivo. no 29.labcom.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss. Semiótica e Filosofia da Linguagem. é figura. a presença do ciborgue territoriza. membros. Como comenta Eco “se não é um signo. p. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis. circuitos. órgãos. tensões. aliás. um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo.ubi. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 . 37 www. É uma coisa que não é coisa (. é fantasma. U.. o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo.o da além-presença ou presença-fantasma . a carne. não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas.). O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é. Do ponto de vista do sistema. obsessiva. Teoria das artes e literatura. Babo e J. comunicações. mas que se expande ou é passível de expansão. há todo um conjunto de circulações. do género dos quase-objectos. próteses etc. 30. apreensão estética em Geninasca. A. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . Revista de Comunicação e Linguagens. Mourão (Org. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. uma das suas figuras. a figura pressupõe uma presença. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. um articulado.como nos Cf. Eco. Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa. ainda. o território é. será necessário dar-lhe um outro nome. trocas e reenvios. que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis. Col.

1985. cada actualização de um devir . en consequencia.há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto. Cf. p. Klincksieck. aqui.ubi. é um quase-objecto40 . a partir desse instante. enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito.-Cl. apreensão capaz de.”39 . a distancia y como vacío de sentido. por consiguinte. pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y. 270.i i i i 230 José Bártolo outros .e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos. de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. 272.acidente estético etc. de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). J. p. Le Discours et son sujet. Paris. Harvard UP.pt i i i i . um não-sujeito na expressão de Coquet41 . Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies. de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. da figura de que fala Tucherman. nesta perspectiva. . devir-pássaro.devir-criança. Eric Landowski. O Cyborg está. 40 39 www. En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. de uma presença pura. mais do que dada a ver. enquanto tal determina o sujeito .não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente. provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado. é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . de imediato. “Sobre el contagio”. 41 Cf. próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. em presença para o sujeito começa a produzir sentido. um espaço. pero como si no estuviera allí. Coquet. Cambridge.labcom. O ciborgue não é uma coisa. que convertida. a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y. isto é. B. tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea. devir-ciborgue . y allí un sujeto. A imagem de que fala Landowski aproxima-se.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. 1999. Latour.

para que a prótese . é aquele que sucede quando. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão.experiênciar a morte do corpo .não transtorne a identidade. isto é. nem pode ser encontrada no corpo . aqui. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto. No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva.e o seu efeito estranho ou anómalo . claro que o corpo é superfície intensiva da identidade. Um exemplo claro.não o pode neste ou naquele órgão particular. a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo . num processo particular de devir CsO. não o pode no organismo . O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. www. A mão é. a experiência da perturbação da identidade é aqui limite.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte. Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é.ubi. acordando a meio da noite. sempre. igualmente.labcom. um devir-outro.mas parece. como tal. para a não rejeição interna da prótese. isto é. Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano . corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e. uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo. decisivo. O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva. a experiência de devir-morte. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que. afinal. que intensifica a própria identidade.de esta mano -. posición. como ver num velho a jogar às escondidas uma criança. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue. nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto.

ubi. Ela é o ponto-central da corporização. como lhe chama Deleuze. Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão.labcom. Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. Word. Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. como órgão-Corpo. isto é. um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade. ânus. quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo.pt i i i i . R. pés. Eric Landowski. Agosto de 1949. manera. orelhas. 5.têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação. Nova Iorque. A prótese opera então por corporização a partir de si. é.43 Se a prótese se constitui. corporizado a partir dela. A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas.i i i i 232 José Bártolo ritmo. 1949. p. más distante pero que le responde como un eco. sexo. uma sobrecodificação. a corporeidade não está no corpo. É precisamente o plano da figuratividade. um pé. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante. um órgão. Vol. pp. Una presencia inmediata convoca otra. 43 42 www.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente. ossos. 276-277. 155. como indicamos. Jakobson e J. próprio da corporeidade. que é transtornado pela presença da prótese. da propriocepcção. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. antes um “mapa”. gesto). Como a fenomenologia mostrou com clareza. “Sobre el contagio”. próprio do corpo. um tecido. Lotz. “Notes on the French Phonemic Pattern”. no 2. . a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu . Cf. como vimos. Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. a natureza humana é corpórea. Por outras palavras. não é uma parte do corpo como uma mão. ela constitui-se como Órgão-Corpo. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz.mãos. olhos.”42 . do corpo. pele etc.

Esses movimentos são movimentos de desterritorialização. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. procurámo-lo mostrar. produzindo corpo e corporização. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. implica todo um sistema de reterritorializações. o plano-humano. Como nos ensinou Deleuze de dois www. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão. contudo. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos.ubi. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. Considerar órgãos sem corpo é considerar.pt i i i i . A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano. ele mesmo desterritorializado. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada. se conectar com ele. um plano não-humano.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. muito mais do que da sua propriocepcção. sem sucessão de estágios. que farão do corpo um organismo. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos. desligados. etc.labcom. nem o último a se produzir ou a ocorrer. A reterritorialização não pressupõe. em linguagem deleuzina. semelhança funcional. expressão plena da sua corporização. E o mais rápido pode convergir para ele. de velocidades diferentes. por exemplo. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal. de uma mão humana por uma mão protésica. ligados. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais. cozidos. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar. um lábio de silicone não é humano. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. antes. chamemos-lhe assim. Uma orelha de Algimax não é humana. A prótese não é humana. formalmente. biocompatibilidade. cortados.

O artificial requisita o corpo e agencia-o. modificar. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. o meu pulso.ubi. tratava-se enfim. fantasiar. procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo.como a substituição da pele que caiu por pele nova . por movimentos mais lentos. Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado. no limite. É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização . o meu braço. O que se requisita e se agencia é. o meu antebraço. externa . essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar. a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares . em regra. logo a isolar. a totalidade do meu corpo. polarizar.dir-se-ia cirúrgica ou. Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta. o meu ombro. intensificar. enfim.o que. ainda que permanecesse negativa. artificial. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos. não de uma substituição interna ao organismo . Podemos igualmente concluir que.mas de uma substituição. isto é. o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização. www. só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial. a minha clavícula.i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização. objectos.a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa. aliás. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). se se preferir. dá-se a essa requisição e agenciamento. a própria realidade. antes de mais. É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar.pt i i i i .labcom.

Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. a sua economia própria. podemos estar a suspender ou a cingir. então. um elemento menor no interior do estudo. concluindo-o.em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. em síntese. Cada corpo pres235 i i i i . apresentar. pelo contrário. De algum modo. o passa a possuir. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais . facilmente. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. de encerrar. O que é. Ao designarmos este ou aquele corpo. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar. como quem fecha uma porta.i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. não permitiu desenvolver. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha. pode afirmar que a tomou para si. como quem sitia uma cidade. o que não faz dela. de conter. tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica. como quem toma algo para si e. São estes dois momentos que procuraremos. ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo.

isto é. Paris. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. A noção de máquina interessa-nos. afectivos e sociais. componentes de informação e representação individual e colectiva. as concepções sistémicas mais recentes.labcom. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. de algum modo convertidos em corpo-objecto. IN Chimeres.ubi. Os corpos não são. 1984. dissemo-lo repetidas vezes. a partir da aproximação mecânica. 1-20. Francesco Varela. contudo. naturalmente. proposições. a perspectiva cibernética. Todos esses corpos. sempre e de cada vez. como retroactivos. componentes semióticas. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. Cybernétique et Société. nem prestam. São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. Para a semiótica. pp. investimentos de máquinas desejantes. intensificações.pt i i i i . cognitivos. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. 46 Félix Guattari. PUF. pelas suas ressonâncias técnicas. meta-máquina. através de palavras. um organismo. Mas tal não significa que quando falamos em máquina. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. 1998. mas também “escritos”. máquina semiótica. aberta por Nobert Wiener44 . 45 44 www. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido. 1. são susceptíveis de serem “enunciados”. gestos. processos de devir. “interpretados” e “discursificados”. “L’hétérogenèse machinique”. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . Paris. por máquina semiótica. “representados”. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente. nem valem todos o mesmo. actos de linguagem. o objectivo é explicitar o sentido. Autonomie et Connaissance. semióticos. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas.i i i i 236 José Bártolo supõe. mas todos eles têm um sentido. narrativas. “lidos”. Galilée. uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós. ambos. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). Mais próximo de nós está. componentes orgânicas.

o seu funcionamento. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. em vários momentos. A. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. Pág. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido. antes. Deleuze. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas.labcom. a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou. do corpo como objecto de design total. no primeiro capítulo. a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. ao contrário. a propósito. 1994. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley. se possível. 47 www.”. igualmente. nesse estádio.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. 4. que o que se fez foi passar. isto é. que se encontra expressa.ubi. P. Em primeiro lugar. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. se nos detivemos. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. Dynamiques du sens. sobretudo. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. Aarhus University Press. Brandt. Em todo o caso. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido. isto é.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. O que se pretendeu fazer foi. no terceiro capítulo do estudo. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente. Wigley mas. nomeadamente. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando.pt i i i i . antes de mais. Vale a pena. relações. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”. um breve esclarecimento se impõe. parece-nos. citar Per Aage Brandt.

Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. Heidegger. 138-139. familiar aos semióticos. Por outras palavras. aliás. An introduction to logic of the two notions. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. seguramente. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”. que dispõe.L. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes. Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir.”48 . Ithaca e London.i i i i 238 José Bártolo também.pt i i i i . Gille. corpos em devir-texto. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação. Corpos em devir-monstro. que produz.ubi. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses). dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos. Sabemos de J. corpos em devir-cadáver. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir. Canguilhem. neste sentido. que intensifica. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. repita-se. Por um lado. Para a medicina. o corpo de referência é o cadáver. Knowledge and Belief. Assim. em que funcionam como paradigmas. Jean Baudrillard. 1964. já citada neste estudo: “1. 48 www. Dizer o corpo é fazer o corpo e. seja no sentido de Austin (How to do things with words). Neste sentido. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. Jaakko Hintikka. corpos em devir-máquina. Cornell University Press. pág. em poucas linhas. Austin que dizer é fazer. Como entender esta afirmação? Ela não é.labcom. devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral. Simondon e uma série de outros). numa passagem.

labcom. 2. O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. nem código. resistência do corpo a significar-se. uma máquina produtora. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo. da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. ao mesmo tempo. A troca simbólica e a morte. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”). Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento. . Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. fazendo-agir a sua permanente produção. como se. porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. 193-194. fosse a resistência do corpo que se manifestasse. a objectivar-se. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. carne a ser trabalhada. I. nessa polisemia. Pág. é a extrapolação da produtividade racional absoluta.”49 . 49 Jean Baudrillard. a ser isto ou aquilo. numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla. integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. Para a religião. a diferença irredutível que os nega. também. numa outra posição. ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. 3. nem tipo ideal. 1996. Lisboa. nem fantasma director. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais.ubi. www. também ela. A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas.) (. o que não acontece nunca sem resistência.pt i i i i . Edições 70. enformada. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é. e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. o tipo ideal do corpo é o robot. antes de mais. O corpo como vala. Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. . processos de transformação do corpo num corpo-outro. outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. Para o sistema da economia política. sob o signo da preservação da vida.

de-monstrações. identificam-se. o semiólogo) são também operados.”50 Cada olhar refigura o corpo. refigurações. www. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. desfigurações. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. Numa conhecida entrevista. no seu Leviatã.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. por Hobbes. onde os operadores (o anatomista. foi necessário esperar por Norbert Elias e. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. o que deve permitir. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. em parte. A figurativização pode. antes sistemas de operação. Michele Foucault enquadrava o momento em que. nas suas palavras. Uma história do corpo. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. em Itália ainda no século XIII. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia. naturalmente. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará. na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo. no entanto. em França no século XIV. o padre. identificar um operador. verdadeiramente.ubi. descrita. não há nunca um operador. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico. 3. A semiótica do corpo. editado on-line em www. Pág. Uma análise da história do corpo. fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. na política.pt i i i i . mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas.pt. a história das suas modelações e produções. do corpo. de cada vez.triplov. conduzir a uma certa iconicidade do discurso. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica. produz uma sua determinada refiguração. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido.labcom. “O Corpo que vem”. tal como ele foi apresentado por Greimas. Porém. isto é. na economia. sobretudo. Na perspectiva do percurso generativo. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado. mas.

152-175. 2003. da própria discursificação. Papirus Editora. provavelmente. IN Enciclopédia Einaudi.pt i i i i . Tradução portuguesa de Marina Appenzeller. uma reverberação. correlativas ao contexto semiótico. era o sistema. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. O grande instrumento de abertura. radicalmente. atingir uma pureza técnica. 30. 17. Visão técnica e laica da ensomatose. AAVV. na expressão de Cesare Segre52 . mais do que um efeito de superfície.labcom. “Texto”.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. o que nos sustentava no tempo e no espaço. a organização epistemológica da cultura medieval. o que estava ante nós. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. 53 David Le Breton. de modificá-lo. Uma fantasia implícita. Portugália. no 17. É como res extensa. abrindo os corpos cadavéricos. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. Adeus ao Corpo. Tentação demiúrgica de corrigi-lo. Estruturalismo. Págs. 52 51 www. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. Lisboa. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se. para controlar essa parcela inapreensível. INCM. objecto de análise. São Paulo. uma espuma. chama Foucault de arquivo. Pág. definindo as condições de possibilidade. Antologia de textos teóricos. mostraram que o “sentido” não era.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica.ubi. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. e o que nos atravessava profundamente. Cesare Segre. Pág. deixam entrar. dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito. de seus limites. de fazeres e de poderes. mostramo-lo. eliminá-lo pura e simplesmente. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição. que possibilita tal revolução. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. estrutura que funciona como o normativo do dizível. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. Lisboa. a partir daí. tratamento e reconstrução. s/d. pela incisão. Antropologia e Sociedade.

como mostramos no terceiro capítulo. Regime semiótico. do laboratório. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo. produção semiótica. definirá o operado. “apurados”. se praticam dissecações. por exemplo. também. Tão importante como escalpelo é a mão ou olho.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. O operário moderno. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. fazendo do cemitério onde. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. a determinada altura. também eles instrumentos que devem ser “afinados”. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva. parcialmente.ubi.pt i i i i . ocultamente. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. Daí ser importante. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. “máquinas instrumentais” complexas. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. revelam a importância de uma nova lógica instrumental. os alicates. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo. introduzimos. dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental. mais importante. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www.labcom. produção artificial e produção técnica adquirem. as pinças. utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. uso instrumental. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais. um sentido idêntico. uma análise da história e da filosofia da técnica. para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. do teatro anatómico.

Crítica das ligações na era da técnica. petrificam ou são. IN José A. também. 55 Leia-se. uma produção marcada por uma certa artificialidade. tal imposição. Nos seus estudos. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam. às nossas práticas. o ensaio de Bojana Kunst. Págs.labcom. Tropismos. é o seu verdadeiro limite operativo. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e. Lisboa. por assim dizer. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. De Baudelaire à Benjamin. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. nomeadamente. como dizia Greimas. num sentido próximo de Walter Benjamin. nem sem o sistema. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro.pt i i i i . O artificial paralisa. à nossa formação de imaginário. Galilée. Paris. Bojana Kunst55 . Nesta perspectiva. agora. leva-nos a admitir que. vejase Christine Buci-Glucksmann. La raison baroque. a Agipa. cortado. a imobilizar um sentido. que o ser humano prolonga o instrumento.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. os reveste. os vela. atravessado. tem mostrado como. discursificado. ao longo da história. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos.). sempre. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. 242-256. podemos extrair. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. tende a suspender. como que fundidos com o metal imóvel. à força.ubi. de resto. que os inter-liga funcionalmente. A análise sobre a existência de máquinas. 54 www. tensionado pelo seu funcionamento. na medida em que. materializa o poder estabilizador da norma. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado). Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. se o sentido se nos impõe. portanto. mas concomitantemente. os cinge. devemos aceitar que qualquer corpo é. 1984. 2002. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org.

99.ubi. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico. cada vez mais. Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. na natureza. mas. aparecer e desaparecer”56 . 57 56 www. as máquinas não têm nada de misterioso. Verdadeiramente. semioticizando o modelo antigo. reestruturando os seus discursos. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . Lisboa. Cotovia. Os corpos não se mantém por si próprios. Pág. Ithaca and London. sacrifício ou morte) exige um véu. sobretudo. As núpcias de Cadmo e Harmonia. 245. cheia de corpos imobilizados e despedaçados.pt i i i i . uma gradual coexistência.”57 Tal passagem não corresponde. a partir do século XV. que os discursifica. seja uma palavra ou um gesto. 58 Dennis des Chenes. por si só. contudo. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. pelo menos. veremos que no livro de Caus. 2000.i i i i 244 José Bártolo gas. como um projecto. Pág. Machine and organism in Descartes. antes. reorganizando as suas ligações. Bojana Kunst. para lá do véu não existe mais nada. Cornell University Press. que os produz. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia. sendo que o modelo científico vai. o que acontece é. reinterpretando as suas imagens. a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). Op. não se mantém. Cit. que os enuncia. “É o aviso de que o que existe. de um modo também gradual. o devir-outro. 1990. entre essas duas lógicas.. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). Spirits and Clocks. o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. Pág. seja uma faixa ou uma ligadura. núpcias. de um modo geral. O véu é o outro. 353. reflectindo. ser permanentemente coberto e descoberto. que exige.labcom. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo. A emergência Roberto Calasso.

dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano. que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia. sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . Da alegoria para o projecto. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado.labcom. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. quer de um SoftDesign. por um design total59 que projecta objectos. o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. como abstracção da guerra. como bem mostrou P. em devir-fortaleza ou em devir-monumento. no quadro do poder-soberano. progressivamente auto-referenciais. caracteriza a identidade categorial e analógica. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design. como entidade simbólica.o individuo. In Harvard Design Magazine.ubi. que projecta arquitecturas em devir-templo. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. Brandt. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www.pt i i i i . mecanismo que. no quadro do biopoder.A. Leviatã. aprendemos de Foucault. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus. pois. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. então. mas antes pela categoria moderna do biopoder. no 5. Summer 1998. a partir do século XIX vamos assistindo. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no. “Whatever happened to Total Design?”. sistemas de objectos e interfaces.

www. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault). pelo menos desde Francis Bacon.i i i i 246 José Bártolo terior. então. no que se refere ao poder. por isso. neste sentido. uma espécie de meta-cadáver. rizomamento.pt i i i i . tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe. e que se renuncie. com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. na metáfora da propriedade. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos. Normalmente. Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz. mapeamento. que se defende que não existe ciência sem técnica.pt. a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. e que vão continuamente regimentado a vida. Em Vigiar e Punir.labcom. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. Mas. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”. mal o sabemos. ainda assim. Sabemos. no que se refere ao saber. jamais o saberemos. anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento. por sua vez. a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia. que se renuncie.ubi. Com os regimes modernos. Não os esquecendo nunca. objecto por excelência. nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. sabemo-lo tão bem e. lugares que evitamos. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que.com. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. até onde foi possível suportar a humilhação. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação. Há.interact. ao primado do sujeito). O ciborgue é. no modelo do contrato ou da conquista). de dissecação. problematização. até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma.

Vigiar e Punir. como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos. uma matéria moldável (um corpo-objecto). da manipulação intersubjectiva e das estratégias. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. problemática politica no sentido mais amplo do termo. o espaço de trabalho. desde já. correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos. identificando uma série de possíveis percursos de investigação. a título de exemplo. Pág.ubi. os discursos devem ser “limpos”. dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. tal investigação deveria. uma nova ampliação da problemática pode. alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. que se manifestam na diversidade dos espaços. estamos em crer. “assépticos”. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). capaz de abarcar. de reforço. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. que nos permitiria. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. Ao longo do nosso estudo. Nesta perspectiva. uma importante tradução histórico-politica. 60 Michele Foucault. além da esfera dos discursos propriamente ditos. ou seja. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. e de uma teoria da enunciação. de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. a uma semiótica da acção. Ao longo do nosso estudo. como sabemos. então. A leitura que. fomos também. progressivamente.labcom. e mais precisamente. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento.pt i i i i . os operadores. ser prevista. o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. www.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas. “higiénicos”. o conjunto das práticas significantes não-verbais. 27. isto é. fomos. ainda. Recordemo-nos. os gestos. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral.

decisivos.) carecem. refere-se a um campo que. Lisboa. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. 1951.i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. Pág. actualmente. no entanto parece-nos faltar uma análise que. inaugurada. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. 1979. Greimas et al. . “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. de um desenvolvimento que possa.pt i i i i . no entanto.ubi. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão. no entanto. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste. constituir tipos. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. Vega. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. W. Adorno. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. Frankfurt am Main. Julia Kristeva. Segundo Medawar. François Rastier. . da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. em biologia. na perspectiva da sociossemiótica. por José Augusto Mourão. se revelarem. neste aspecto. a doutrina da vida correcta”62 . durante muito tempo.labcom. 62 T. entre nós. ainda. Greimas. em particular. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver. ).. o gesto instrumental. Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 . etc. essa Em português a referência vai para A. o gesto técnico. Sabemos que Robert Cresswell. anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar. 61 www. senão mesmo isolar estruturas. J. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes. 7. fixar campos de pertinência ou de referência. Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. de uma conversa de baixo nível”. em relação a elas. Mínima Moralia. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido. De igual modo. Da ética. Práticas e linguagens gestuais. vida e morte não são propriamente conceitos científicos. foi considerado como o próprio da filosofia (.

o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo. O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. haverá sempre.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste.labcom. e em cada corpo. E no entanto.ubi. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança. uma promessa. há. dizia Kierkegaard. Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer. tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens. www.

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