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José Bártolo

Corpo e Sentido. Estudos Intersemióticos

Livros LabCom 2007

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Livros Labcom http://www.labcom.ubi.pt/livroslabcom/ Série: Estudos em Comunicação Direcção: António Fidalgo Design da Capa: João Sardinha Paginação Catarina Rodrigues Covilhã, 2007 Depósito Legal: 261574/07 ISBN: 978-972-8790-71-4

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Conteúdo
Introdução 1 2 3 4 5 Corpo, Sentido e Significação O signo e a sua história Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce As semióticas do corpo 1 35 55 75 81

A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem 107 O Corpo na fenomenologia e na semiótica O corpo como “ancoragem” de sentido O Leibproblem (Heidegger) Acerca da presença e do contágio 115 123 137 149 157 195 203 i

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10 Corpo e devir 11 O corpo como construção semiótica 12 Corpos e instrumentos

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i i i i ii 13 Corpo e Design Conclusão Bibliografia José Bártolo 211 235 251 www.ubi.labcom.pt i i i i .

mais feliz. i i i i . Aníbal Alves. É meu dever fazer uma série de agradecimentos de então e de agora. Agradeço à Escola Superior de Design e à Escola Superior de Artes e Design o apoio manifestado. o saber. Estarmos em dívida para connosco será a mais terrível sensação que a conclusão de um projecto poderá deixar. em particular à Sílvia Patrício e ao José Filipe Costa a preocupação e amizade reveladas. a vida. Agradeço aos meus colegas da Escola Superior de Design.i i i i Prefácio Este livro corresponde a uma reformulação da tese de doutoramento em Ciências da Comunicação apresentada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em Julho de 2006. atenção e amizade permanentes foram decisivos no desenvolvimento do estudo. Mas a conclusão de um projecto confronta-nos com uma outra dívida. Uma palavra de gratidão para os professores Luís Carmelo. A reconstrução retrospectiva de um trabalho coloca-nos perante o reconhecimento de uma dívida. consciência de que o percurso jamais poderia ter sido desenvolvido solitariamente. sinal de que alguém veio em nosso auxílio. O meu agradecimento particular ao Professor Doutor António Fidalgo a quem devo o convite para que esta publicação se fizesse. Fernando Cascais e Maria Teresa Cruz. Ao Professor Eric Landowski agradeço a disponibilidade que teve permitindome ter nele um interlocutor lúcido de muitas das questões por mim trabalhadas. de que se está sempre em falta – perante o tempo. O meu primeiro agradecimento vai para o Professor Doutor José Augusto Mourão cujos conhecimentos aliados ao seu rigor. consciência de que se desejava ir mais longe. Maria Augusta Babo.

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Hjelmslev. a herança das ciências da linguagem – de Saussure. Por um lado. construção técnica e construção semiótica do corpo É numa terra abandonada que nos propomos fazer a nossa lavoura. corresponde a um exercício condenado a uma certa solidão. Martinet). expressando-o melhor. por outro lado. da análise das linguagens e das coisas a partir do “social” (análise que tem em Foucault uma presença tutelar). 1 1 i i i i . visando uma melhor compreensão da dimensão social dos factos de significação (Greimas. Jakobson. fundamentalmente. ao enunciar do sentido em acto.i i i i Introdução Enquadramento do estudo. estas duas heranças estabelecem para o semiótico as coordenadas necessárias à definição do projecto sociossemiótico: a montante. à actualização do sentido designamos por significância. a herança das ciências sociais ou. Landowski mas também Foucault. o reconhecimento da importância das fontes linguísticas e dos métodos estruturais (de novo Saussure mas também Troubetskoy. a jusante. a intenção de operar as ferramentas semióticas dinamicamente. Mesmo introduzidas de modo tão sucinto. mas também marcado por um diálogo silencioso que resulta do partilhar de uma riqueza deixada por duas heranças. sendo que a significação corresponde. que Avancemos desde já com uma definição possível do que se entende por semiótica: a semiótica é um processo gerativo de produção de significação. actualmente. Sabemos que no interior da prática científica existe um discurso. O estudo que agora se introduz desenvolverá uma análise semiótica do corpo e das suas produções de sentido. M.de Certeau). Benveniste e Jakobson – a partir das quais o projecto semiótico tem a sua origem contemporânea. Fazer semiótica1 .

Neste sentido. aguarda a nossa mão para se entregar”. Ensayos/Destino. Barcelona. um domínio territorial Qualquer estudo envolve. considerado naquilo que tem de irredutivelmente único. a outra refere-se ao ponto de vista a partir do qual consideramos o objecto de estudo: a convicção é a de que a sociossemiótica é a disciplina que mais se adequa ao nosso propósito. A semiótica não fornece saberes a professar. que espera o nosso olhar para despertar. uma verdade talvez adormecida.pt i i i i . que a verdade. Lógica del Limite. Aquilo a que se chama de modelação semiótica pressupõe que é no próprio objecto. neste sentido. Ao investigador cabe então encontrar a boa perspectiva. mas fundamentalmente para se produzir. há duas convicções orientadoras deste estudo. O processo de construção de um objecto teórico novo asseme. segmentado e definido. como o relâmpago. que se deve procurar localizar os modos de agenciamento e as propriedades singulares que o fazem significar. Sobre esta ideia leia-se o excelente livro de Eugénio Trías. Redefinir implica uma alteração do limite territorial. o ângulo correcto. não nos espera onde temos a paciência de embosca-la e a habilidade de surpreende-la. lugares privilegiados. que afirma que “nem tudo é verdadeiro. Se este discurso alicerça grande parte da prática científica ele parece emudecer no interior da semiótica.i i i i 2 José Bártolo sempre temos presente quando iniciamos uma determinada investigação. Trata-se de construir. poder-se-ia chamar de “discurso verdadeiro” mas fundamentalmente à produção de sentido. não tanto para sair da sombra. O semiótico admite. seleccionar os instrumentos necessários ao evidenciar da verdade. uma reterritorialização na medida em que redefine um objecto já anteriormente definido no interior do território disciplinar das ciências sociais e humanas.labcom. pois pretendia-se evitar projectar sobre o real em estudo qualquer esquema de reconhecimento e de classificação preestabelecido. para falar como Georges Canguilhem. geralmente. no interior de um espaço conceptual já ocupado. mas que tem instantes propícios. uma referese ao objecto de estudo: a convicção é a de que o corpo é um desses lugares privilegiados não apenas à produção do que. mas que em qualquer lugar e em qualquer momento existe uma verdade que aguarda ser vista e ser dita. a uma conquista territorial2 .lha-se.ubi. a semiótica fornece-nos antes instrumentos heurísticos a utilizar. antes. na medida em que a semiótica não sabe nada – pelo menos em antecipação – sobre o corpo ou sobre qualquer outro objecto que possa estar sob análise. 1991. 2 www. Este aspecto era fundamental para nós. que antecipadamente formatem quer o objecto quer o nosso olhar sobre ele.

a partir do qual uma determinada realidade escolhida como objecto de investigação possa ser reconstruída – de novo situada. Somos. contudo. construções e confrontações inesgotáveis. saturado de referências que. classificações. prescrições. tristeza. Lisboa. Enquanto tal. a determinada altura. numa perspectiva dita “natural”. sonolência – emocionalmente – sentimos alegria. menos ele existe por si próprio. educados. Relógio d’Água. www. quando se considera o corpo como objecto de saber. 13. segmenta e define uma sobre outra vez. Metamorfoses do Corpo. assim. segmentada. A esta docilidade da linguagem dizer o corpo equivale. passível de descrição. experimentamos.”3 Vindos de muitas direcções.ubi.i i i i Corpo e Sentido 3 autónomo. 1997.pt i i i i . todas elas susceptíveis de operarem sobre o corpo agenciamentos específicos. com intensidades. mas orientada pela consciência lúcida de que é através da proposta de novas esquematizações do real que a sua inteligibilidade pode ser aprofundada. desadequados.labcom. de teorização. mais ou menos vão. para falar como Marcel Mauss. é partilhado por várias disciplinas da fisiologia à filosofia. de operação. anormais. como bem anotava José Gil. “evidentes” e “naturais”. o corpo faz parte dos fenómenos empiricamente “óbvios”. gordos. de desrespeitar os modelos estabelecidos. não nos referimos a uma realidade abstracta que se situaria numa esfera intelectual reservada a um conhecimento especializado. Todos temos um corpo que nos constrange morfologicamente – somos altos. baixos. mas de um modo tão ostensivo que. confrontados com uma abordagem contemporânea do corpo que o situa. não parecem capazes de lhe devolver estabilidade. partilhamos. adequados. cansaço. faz com que o objecto trabalhado desapareça escondido ou despedaçado pela presença de todos aqueles 3 José Gil. o território no qual iremos intervir encontra-se particularmente movediço. uma violência real que sobre o corpo é exercida: “quanto mais sobre ele se fala. deseducados – constrangimentos que dão lugar no plano quotidiano a técnicas do corpo. A mesma multiplicidade de considerações constrangedoras é produzida num plano mais afastado do vivido. objectivos e graus de eficácia distintos uma longa série de discursos sobre o corpo foram e continuam a ser produzidos. Ambição motivada não por um qualquer prazer. Pág. Todos temos um corpo que sentimos. definida – a partir de um ponto de vista próprio. Quando falamos em corpo. magros – patologicamente – sentimos dor. pelo contrário. angústia – e socialmente – somos normais. de análise. No caso do estudo que agora se apresenta.

No 28. que consiste em considerar que o nosso objecto de estudo – o corpo – é da ordem da significação. Se. devemos admitir que quase sempre A expressão é usada por Maria Teresa Cruz em “A Histeria do Corpo”. Prado Coelho. desde já. A.ubi. Tendências da Cultura Contemporânea. Pág.pt i i i i . tal sentido dá-se. como resultado de um corpo-a-corpo que modifica os dois. são eles os “nossos selvagens” – a questão que pretendemos colocar é afinal simples: sob que condições o corpo adquire o sentido que tem? Seria ingénuo pensar o corpo como uma matéria objectual. A pergunta prévia que a semiótica colocará relativamente ao corpo é a pergunta pelo contexto semiótico que a própria disciplina deve ser capaz de identificar e descrever. Por contexto semiótico entendemos o conjunto geral de traços. No 28. mera carne. A semiótica visará.labcom. nesta nota introdutória. em todo o caso. necessariamente. Mantendo. no interior de um determinado contexto semiótico. 363-375. O corpo constrói-se. publicado na Revista de Comunicação e Linguagens. a construção de uma gramática (actancial e discursiva) das produções e apreensões de sentido do corpo.i i i i 4 José Bártolo que o trabalham. Trata-se de entender os vários discursos que operam sobre o corpo – da antropologia à medicina – como construções que pretendem dar sentido ao corpo. por interacção. de facto. assim designados por Marcel Mauss. que produzem processos de atribuição de significação. nessa produção estão envolvidos determinados formalismos que se podem reportar a um plano de produção objectiva ou a um plano simbólico ou intersubjectivo. Cf. como dizia Greimas. tendo em vista elaborar uma análise intersemiótica do corpo. na medida em que a intencionalidade está do lado do sujeito. permanentemente. os. sobre análise a positividade dos discursos e das práticas – pois. que se define a estratégia seguida no presente estudo. então. RCL. Bragança de Miranda e E. contextualizar pressupõe realizar uma operação formal intencional que selecciona no real referencial os elementos significantes que entram no processo de produção semiótica. que passivamente recebe um sentido que um determinado sujeito lhe dá. J. formalismos eficazes. a construção acima referida é a principal tarefa de uma semiótica do corpo uma precisão deve ser feita. É em relação a este contexto dominado por um “surto do corpo”4 . sendo que o contexto é. Tal pergunta é correlativa dessa outra que questiona sob que condições o corpo ganha o sentido que tem. 4 www. 2000. pertinentes para a atribuição de uma significação. Tal objectivo decorre de uma posição de princípio decisiva. por definição selectivo. linguísticos ou não.

i i i i Corpo e Sentido 5 os discursos e as práticas que operam sobre o corpo são. porque de máquinas semióticas se tratam. compreensões. no interior de uma máquina. uma série. produção de sentido. identificar várias máquinas. Todo o trabalho assenta na convicção de que não há corpo natural. realmente. Sempre que localizarmos um corpo objectivo deveremos localizar uma máquina semiótica: o biólogo trabalha um corpo www. pois onde se encontra um corpo dever-se-á encontrar uma rede de relações instrumentais. apenas parece detectável retrospectivamente. disciplinarmente identificáveis. semântica e pragmática do corpoobjecto-dinâmico em corpo-objecto-imediato.labcom. de que o corpo corresponde a um exercício operativo de constituição objectiva de algo que se constrói para nós como este corpo. uma lógica. em funcionamento. à sua funcionalização. usos. de diferentes perspectivas de análise. Assim há um operar que. para recorrermos à classificação de Peirce.pt i i i i . também. produtores intencionais do sentido do corpo.). deste modo. enfim. esse operar invisível corresponde a processos subtis de tradução. etc. uma construção que procura transformar o corpo num instrumento. se identificamos vários corpos devemos. antes de mais. O argumento que este trabalho desenvolve e a partir do qual se guia. num sentido que não se reduz à mera identificação de diferentes olhares. já operava antes de a podermos reconhecer. à disposição tanto de uns como de outros. formulações. igualmente. deve ser identificado com clareza: o corpo é sempre uma construção. Esta máquina. mesmo perante a crítica mais intensa. O segundo operar corresponde já a uma série de processos que se dão no interior de dispositivos de domínio do objecto e da experiência do objecto (modelos de análise. de produção que é. devemos admiti-lo. As estas máquinas daremos o nome de máquinas semióticas. de um determinado sentido legitimador da rede de relações. de operadores epistémicos. Se o nosso estudo identifica vários corpos. do próprio procedimento das lógicas produtivas. muito claramente. do corpo. do funcionamento dos operadores. funcionalização e instrumentalização do corpo anteriores à sua constituição como corpo-objecto.ubi. Esta construção é instrumental num duplo sentido: é uma construção feita a partir do operar de uma série de instrumentos sobre o corpo e é. Este duplo procedimento técnico visa depor os instrumentos-corpo e o corpo-instrumento numa relação instrumental que corresponde. antes corresponde a diferentes processos de construção sintáctica.

a figura do biólogo é uma figura instrumental já semioticizada. deste modo devemos procurar perceber que máquinas produtoras de sentido estão. A produção semiótica não é nunca linear. as máquinas não são estanques. no entanto. com gestos já semioticizados. semioticizadas pela máquina semiótica da biologia. nas formas de contaminação horizontal e vertical. o próprio biólogo e já uma construção instrumental. o juiz trabalha um corpo enquanto instrumento produzido pela máquina semiótica do direito. o industrial trabalha com corpos enquanto instrumentos de trabalho produzidos pela máquina semiótica da fábrica.pt i i i i .i i i i 6 José Bártolo enquanto instrumento de trabalho produzido pela máquina semiótica da biologia. como é evidente. O biólogo esta já deposto no resultado de uma determinada produção de sentido gerada pela máquina semiótica da biologia. complexos. entre tantas outras. O mesmo princípio é claro em relação à máquina semiótica da produção industrial – semioticizada. ou por uma www. em relação à máquina semiótica proprioceptiva – como em relação a qualquer máquina semiótica: o corpo é instrumentalizado por uma máquina mas essa máquina é tornada corpo-instrumento por uma outra. isto é. em permanência. entre tantas outras. Mapa Frenológico de Franz Gall (1758-1828) Os procedimentos maquinicos são. Assim trabalha num espaço já semioticizado. em permanência a semioticizar a máquina semiótica da biologia e que máquinas semióticas estão a ser.labcom. com instrumentos já semioticizados. pela máquina semiótica capitalista e semioticizante. e.ubi. Os procedimentos maquinicos complexos revelam-se. também.

Não há regimes de signos que não estejam associados a regimes de poder. estar particularmente atenta às operações que essa produção suporta a nível sintáctico. a ele ligado. os seus modelos e conceitos. atormentam-no e forçam-no a emitir sinais”5 .i i i i Corpo e Sentido 7 série de outras.ubi. no qual as tensões. que a instrumentalizam. O corpo. Fetiche. Se há herança radical deixada pela modernidade. o regime semiótico é sempre construtor de procedimentos particulares ao nível de um poder-saber e de um poder-fazer. na expressão de Walter Benjamin. semântico e pragmático. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. Sobre o tema das ligações leiam-se o conjunto de ensaios publicados por José A. herança que. a contemporaneidade.pt i i i i . os seus territórios e as suas fronteiras.labcom. remete para uma tradição e isola a mais profunda originalidade. “as diversas formas de disciplina a que submetemos o corpo marcam-no. como se colocassem o corpo num processo de querer-dizer. em grande medida. Pág. essa é a da Válerie Steele. Neste processo o corpo torna-se espaço. Lisboa. zona de trocas intersemióticas. simultaneamente. 2002. a um tempo. o corpo será mesmo o tema central a partir do qual a contemporaneidade pensa e se pensa.). 6 5 www. Segundo Valérie Steele. Tropismos. em ultima análise para uma meta-máquina semiótica que estranhamente (ou não) poderá muito bem ser o corpo. a própria contemporaneidade. Mode. nessa sua tensão de já não ser moderna e ainda não ser autónoma da modernidade que enterrou. 1997. ligações e contaminações surgem como sintomas de demarcação em relação à modernidade e. portanto. Há assim séries ligadas a séries de relações transitivas entre instrumento e máquina que remetem. como se permanecesse perseguida por um fantasma do qual passa a depender a sua própria identidade. 61. tema recorrente na cultura contemporânea. A partir do corpo contemporâneo desenvolve-se toda uma reflexão que “enterra” a modernidade e tende a questionar. tornouse.6 A marca distintiva do projecto contemporâneo é a da desterritorialização. deste modo. O tema das “ligações” assume. esse grande ausente. no limite. coloca-se perante quem a quer pensar como um puzzle a ser montado. A análise da produção semiótica do corpo deverá. Abbeville Press. sexe et pouvoir. onde tudo se pode ligar a tudo. os seus objectos e os seus sujeitos. na última década. Crítica das ligações na era da técnica. jogo de combinatórias possíveis. como conceitos a partir dos quais a contemporaneidade e tudo o que nela se situa podem ser pensados. particular protagonismo. A par do tema da técnica e. formam-no.

o advento do pós-humano. pelo menos aparente. .”7 À margem das chamadas “disciplinas bem consolidadas”8 – história. 2004. bem conhecido: o fim das ideologias. transgressor. que faz aparecer devires. 17-18. o negar. de um modo meio explicativo. do imutável. “contaminação”9 . a falência das luzes. a produção de referências bem sucedidas do ponto de vista da exportação mas.10 Se o funeral da modernidade foi. Matosinhos. a superação do humano e. assim. 10 A obra de Jean François Lyotard. Paris. diversos pensadores foram-nos fornecendo.ubi. das mais variadas formas. Talvez seja incorrecto falar em fantasmas “puros”. ao triunfo do fantasma puro”11 . uma referência incontornável por todas as leituras (as boas e as más leituras) que permitiu. 11 Bruce Benderson. 1999. de novos objectos. ). Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento. filosofia. Paris.pt i i i i . Pág. na maior parte dos casos. não deixa de ser interessante questionarmos. IN Revista Lusitana. novos sujeitos e novos sentidos traduziu. 2005. demasiado apressado para a ele aderirmos sem uma cuidadosa atenção crítica. Payot. O diagnóstico que extraem das suas análises é. . Pág. Um entre-dois do real e do virtual. 1998. A condição pós-moderna [Gradiva. s/d] contínua a ser. intelectualmente. disjunções e fluidificações. “Le regard implique”. da sua. o porquê de haver tanto sentido que conduza à proliferação de discursos sobre o corpo. meio divinatório. em traços gerais.. IN José Bártolo et al. Eric Landowski. Lisboa. Ela releva de uma cultura de fluxos e redes. L’esthétique du temps au Japon. 15. Por exemplo. a este título. o fim das “grandes narrativas”. se o anuncio de novas disciplinas. talvez a essência do fantasma seja o seu carácter “impuro”. Como bem mostra Christine Buci-Glucksmann “a nossa topologia existencial e teórica já não é a do estável. o afirmar.i i i i 8 José Bártolo necessidade de redefinir o território e de nesse exercício de redefinição se estabelecerem as bases do projecto a construir. Lisboa. seja para. direito – mas tirando partido do seu desenvolvimento e. Christine Buci-Glucksman. do idêntico. o desmoronamento geral dos sistemas. Galilée. seja para. 43. das mais variadas formas. na maioria das situações. Sexe ey solitude. sobrevalorizadas. 9 Leia-se. ESAD/CML. 8 7 www. à luz desta análise. Contaminação. própria a todos os entre-dois (. o nosso ensaio “A contaminação entre as artes”. a “crise” do corpo.labcom. ciências da linguagem. os modelos a partir dos quais podemos pensar a nossa condição neste início de século.

de espectros. em parte. 14 Idem. 13 José Augusto Mourão. imagina-se em toda a parte.”14 Foucault defendia a necessidade de se constituir uma “filosofia do fantasma” que. (. ). Os Leia-se o excelente artigo de José Augusto Mourão. O fantasma é sempre um corpo que se perdeu. 288-289. o fetiche. Cada vez mais ignoramos o que seja um corpo. “Os espectros pertencem ao domínio do visível invisível: são a visibilidade de um corpo sem carne”13 . uma excrescência que pode remeter para outros mundos. Ele é uma “coisa” que não é coisa. é uma intensificação. Págs. como o mutante.. remática. seria igualmente inútil tentar fixa-lo segundo figuras estáveis. Os quaseobjectos”. Cit. . Vivemos numa época de fantasmas. 287-301. indicam uma perda e. uma imaginação. “Hibridismo e Semiótica.pt i i i i . RCL. O que falta ao fantasma é a materialização. encontrava na Lógica do sentido de Deleuze e Guattari. icónica. já que jogam entre si.ubi. Como dele fala José Augusto Mourão. para concluir que “é necessário deixá-los desenvolveremse no limite dos corpos: contra eles. parecem não haver dúvidas de que o abandono fantasmiza e que o abandono do corpo pode ser induzido quer através de ausência de discurso quer através de excesso de discurso. E no entanto as nossas palavras procuram de cada vez a coisa a que se referem. o seu excesso. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. O campo da semiótica. seccionam. Pág. cortam. No 29. a carne. particularizam e multiplicam as superfícies. o fantasma “pressente-se. de torção.i i i i Corpo e Sentido 9 em todo o caso. 12 www.labcom. de “quase-objectos”12 . Como se fala de um amputado de membro fantasma. Ibidem. Advertia-nos. no entanto. O modo de presentificação do fantasma está muito próximo da ordem do quali-signo: é uma impressão vaga. O fantasma é a expressão de um constrangimento que não se deixa fixar senão enquanto devir. porque aí se agarram e se projectam. tentar constituir núcleos sólidos de convergência entre essas imagens do além e a nossa realidade objectiva (é inútil fenomenologizá-lo). O objecto fantasma define um além de uma presença mundana.). como se o tomássemos como a um signo confuso (é inútil sintomatologizá-lo). fora deles também. Págs. mas porque também os tocam. A sua transitoriedade. seguindo leis de vizinhança. ainda assim. 2001. . de distância variável que não conhecem em absoluto. para a inutilidade de ir procurar num fantasma uma verdade mais certa do que ele mesmo. Op. 288. temese como o objecto mágico. uma tensão para restaurar essa perda.

”15 O fantasma não representa uma acção ou uma paixão. sociais ou politicas. Como mostra Deleuze “a distinção não é entre o imaginário e o real. nunca o é na perspectiva a partir do qual ele é tratado na história ou na sociologia da técnica. mais do que as formas de continuidade –os modelos – ou de descontinuidade do corpo – os fantasmas. Signes et paraboles. nem sequer o devir técnico que. 2005. analisar as dinâmicas de sentido que a partir dessa significação particular contaminam os modos de ser no mundo desse corpo. O objectivo da semiótica discursiva é o de fornecer uma base teórica e metodológica para a análise seMichele Foucault. De Luiz Fortes. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. 17 A. 16 Gilles Deleuze. Como a entendia Greimas. 2003. diferem em natureza das suas causas reais.labcom. Logique du sens. Paulo. Sémiotique et texte évangélique. topologizam a materialidade do corpo. Págs. “a semiótica. Minuit. Seuil. cuja análise pertence a outras disciplinas. Pág. Lógica do sentido. Em relação ao nosso estudo. condição de eficácia do seu fazer e da transmissibilidade do saber que permite adquirir. bem como.J. São Paulo. p. Landy Editora. “Postace”. 82-83. antes de ser um método é antes de mais um estado de espírito. posicionado no campo da semiótica. A nós interessa-nos o devir dos regimes de sentido que fazem significar as diferentes transformações técnicas. A uma semiótica do corpo cabe. económico ou politico. Paris. libertá-los do dilema verdadeiro-falso. Não o devir social. 227. particularmente. e deixar que efectuem as suas danças. ele não é uma acção ou uma paixão mas um agenciamento.ubi. pois. 1977. mas um resultado de uma ou de um conjunto de acções ou de paixões. Port. S. Acresce que os fantasmas no momento em que são efeitos e porque são efeitos. analisar o devir dos regimes de sentido que fazem significar cada um dos corpos enunciados. uma ética que formula a exigência de rigor para consigo mesma e para com os outros. Perspectiva. 15 www. IN Groupe d’Entrevernes. Greimas.são as formas em vias de construção – o devir – aquilo que. É preciso. que façam as suas mímicas como extra-seres.”17 . os sublinhados são nossos. mesmo que muitas vezes por nós considerado. mas entre o acontecimento como tal e o estado de coisas corporal que o provoca ou no qual ele se efectua”16 .pt i i i i . antes de mais. trad. Por isso questionar o fantasma em termos de realidade ou imaginário implica questioná-lo mal.i i i i 10 José Bártolo fantasmas não prolongam o organismo no imaginário. nos interessa. Paris. os monstros . 1969. 217. ser-não-ser.

Nessa altura a problemática da enunciação. sobre o contínuo. vários instrumentos foram perdendo a sua operatividade (como o próprio “quadrado semiótico”) e desaparecendo da metodologia semiótica (como o par “adjuvante/oponente”). seja o sentido de um texto seja o sentido de um corpo. tão fundamental. 7. foi publicada em 1966 (Paris. existe somente como resultado de uma construção efectuada pelos sujeitos “em situação”. a presença. Págs. Présences de l’autre.Paris. a reflexão. Larousse). Un lecture de Tintin au Tibet. 21 J. 22 A. IN AAVV. falar dos modos de “ser no mundo” (Floch)21 . 24 e segs. ou do outro (Landowski)23 . Floch. contudo. por exemplo. teria parecido incongruente. 1994. www. 23 Eric Landowski. antes. O processo de transformação que marca a história recente da semiótica não deverá.i i i i Corpo e Sentido 11 miótica dos discursos sociais (verbais e não verbais) no contexto das práticas sociais em que têm lugar. La parole lettéraire. menos aprisionadas pela exigência de formalização. preocupações. PUF. problemáticas.labcom. Semiótica e Bíblia. Paris. actualmente central. a intensidade. Graças ao trabalho de vários semióticos contemporâneos. tratar da “presença a si” ou ao outro. PUF. qualquer tremor de terra no interior do nosso campo de trabalho – a semiótica. 1999. Paulinas. Não era assim há menos de quarenta anos atrás quando Algirdas Julien Greimas publicou a sua Semântica Estrutural19 . o contágio. estimular uma leitura menos definida. porque esse sentido. Paris. “É precisamente essa construção – conjuntamente aquela do sentido e aquela dos sujeitos eles mesmos – que constitui o objecto da sociossemiótica. modelos e referências deve ser identificável com uma 18 José Augusto Mourão. 12. a foria era dificilmente pensável. a inclusão de novos objectos. 1987.pt i i i i . Paris. Lisboa. PUF. as paixões não eram consideradas. ou de “ritmos não verbais que fazem corpo” (Hénault)22 ou. potencialmente mais híbrida da disciplina. 19 Esta obra. ainda.”18 Falar em “semiótica do corpo” já não provoca. “ Apresentação ”. Le pouvoir comme passion. analisá-los não para neles encontrar ou revelar o sentido. usar expressões como “corpo sentido” ou “semiosis em acto” (Geninasca)20 .ubi. 1997. e inversamente à medida que novas ferramentas conceptuais apareciam. como quem esgravatando a terra descobre um tesouro. já não causam perturbação. PUF. 20 Jacques Geninasca. 213-216. Pág. permitem identificar o modo como a semiótica dispõe de conceitos específicos para pensar algo que também a ela cabe pensar – o corpo. ferramentas. 1997.M. Hénault. era rigorosamente circunscrita. hoje. Pág. Pág.

”25 A. J. Será. It is no longer a matter of perpetuating the human species reproduction. 561-62. For it is only when the body becomes aware of its present position that can map its post-evolutionary strategies. é anunciado como obsoleto. São Paulo. 25 24 www. its performance is determined by its age. Stelarc. Gille fala em “sistema técnico”).”24 . Its survival parameters are very slim. Human thought recedes into the human past. The body’s lack of modular design and its overreactive immunological system make it difficult to replace malfunctioning organs. London/New York.pt i i i i . It is susceptible to disease and is doomed to a certain and early death. Por sua vez. Stelarc afirmao com veemência: “The body is neither a very efficient nor a very durable structure. Greimas e Courtés. e essa particular intensificação que é o corpo-tecnológico ou tecnologizado. Routledge. The cybercultures reader.). Dicionário de Semiótica. It can survive only weeks without food. pela qual os sujeitos e os objectos que dela fazem parte constroem. Courtés. The body is obsolete. mas mais devido ao facto da acção técnica. desconstroem e reconstroem a própria identidade em função de outros sujeitos/objectos com os quais entram em relações enunciativas. que por definição envolverá sempre uma relação utilizador/utilizado. Greimas e J. pois. 2002. se pode tornar objecto de análise de uma teoria da significação interessada no estudo dos fenómenos sociais. and minutes without oxygen. por propriedade transitiva. but of enhancing male/female intercourse by human-machine interface. 203. Cultrix. Págs. It malfunctions often and fatugues quickly.labcom. IN David Bell e Barbara Kennedy (Ed. It might be highest of human realizations. no seu dicionário.ubi. não tanto porque se trate de um objecto de interesse sociológico que. “From psycho-body to cyber-systems. a partir de um percurso gerativo que iremos procurar desenvolver um “discurso semiótico” sobre o corpo. Pág. não poderiam ser mais explícitos em relação a este aspecto: “a abordagem gerativa opõem-se radicalmente à abordagem genética. o campo da técnica é também um pertinente objecto de investigação sociossemiótica. Images as post-human entities”.i i i i 12 José Bártolo disciplina possuidora de um modelo epistemológico distinto. We are at the end of philosophy and human physiology. biológico. O corpo humano. days without water. Sabe-se que um dos grandes princípios que fundamentam a semiótica e que a distinguem de outras disciplinas se prende com uma concepção gerativa da análise. relevar uma condição eminentemente estrutural (sistémica do sentido em que B.

amado. como tal. defende-se. “Princípios de Método”. e tanto pode ser um esfregar de mãos de contente. Público. obedecendo com celeridade aos processos da tecnologia do virtual. “ um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. então. quer um lamento de impotência. 70. nos dois casos o corpo é tratado como um conjunto de órgãos substituíveis e sobressalentes.i i i i Corpo e Sentido 13 Anuncia-se. 28 de Maio de 2001. da mesma forma que não existe um corpo imune à técnica. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes. 27 Maria Filomena Molder. Lisboa.”27 O corpo é atirado para o interior de um território paradoxal que. Hoje. e que apresenta manifestamente os sinais dessa violência. Etimologicamente um corpus obsoletus significa um corpo manchado ou violado. 28 Citação de G. a correcções. 24.”. não estando nenhum deles mais no centro do que outros porque o universo é infinito e portanto sem centro e sem margens. resiste. Fragmentos de uma história. 319. 1999.ubi. um corpo sobre o qual se exerceu algum tipo de violência. que “o corpo tornou-se para um determinado número de pessoas numa espécie de acessório da presença. não corresponde a um corpo natural mas um obsolefactus. redigida por Maria Lucília 26 www. na verdade. Maria Filomena Molder dá-nos conta deste fazer violento que sobre o corpo se exerce: “Tornou-se comum ouvir dizer: “já não há corpo!”. ocupava o espaço fundamental da identidade. Antes. 2002. entrevista de David Le Breton por Andreia Azevedo Soares. sujeito a desmontagens e remontagens. adaptações e utilizações específicas. também o embrião passou a ser um órgão manipulável. Pág. física ou simbólica. Cf. mas. Imagens Médicas. IN Manuel Valente Alves (Coord. sofre. Pág. simultaneamente.”28 Não existe um modelo único do corpo. Um corpo obsoleto é um corpo produzido dentro de um regime técnico e que. “A sociedade vê no corpo um rascunho a ser corrigido”. Porto. o corpo pertence ao reino do silêncio.labcom. 29 Citamos livremente uma ideia apresentada na apresentação. Breve história do corpo e de seus monstros. Tucherman. se torna um corpo provisório. o pensa e o produz. a carne humana funciona como uma matéria prima que nós podemos consertar ou completar. a obsolescência do corpo humano26 . O corpo obsoleto é um corpo que assim foi feito. Pág. Bruno transcrita de I. Porto Editora. O corpo espera.pt i i i i . por não se conseguir transfigurar a carne em corpo místico.).29 Cada corpo é sempre o resultado de um processo Em entrevista ao Jornal Público David Le Breton dizia. bem a propósito. Vega. o espaço do destino. o corpo cala-se sempre e obedece à morte possante – mesmo na convulsão que arranca gritos.

Sobre essas tensões desmarcantes desenvolve-se uma febril actividade demarcante que isola o corpo numa multiplicidade de corpos-objecto-de-estudo. Técnica e Subjectividades. negá-lo na sua diferença e na sua ambivalência radical para o organizar num material estrutural de troca/signo”31 . múltiplos corpos individuais. Relógio d’Água. Lisboa. é a da sua demarcação mas também. também. acrescentamos nós. por vezes. A troca simbólica e a morte. Corpos e mais corpos. sempre. da acção de uma determinada máquina semiótica. para o construir instrumentalmente a serviço de uma máquina que é.i i i i 14 José Bártolo particular de corporização. www. fazem com que dentro de um mesmo território disciplinar as produções de corpos sejam múltiplas: múltiplos corpos da arte e do desporto. 1996.to. o seu a cada um e. I Volume. “da rede de marcas e de signos que vêm quadriculá-lo. Edições 70. múltiplos corpos do design e da teologia. 30 Jean Baudrillard. corpo-objec. A história actual do corpo. resultado do operar de diferentes máquinas semióticas proprioceptivas que levam um braço. isto é. a cada um múltiplos. ao número 33 da Revista de Comunicação e Linguagens. como explicita Jean Baudrillard30 .pt i i i i . Pág. Ibidem. máquina semiótica. a cada disciplina o seu. isto é. um olho. múltiplos corpos da medicina e da cibercultura. O corpo contemporâneo é o corpo nessa tensão de desmarcação de uma matriz semiótica que o identificava: desmarcação do território biológico na tensão para o território tecnológico. As especializações (aprofundamentos verticais) e as contaminações (alargamentos horizontais) disciplinares. como procuramos mostrar. desmarcação do território do natural na tensão para o território do artificial e deste para o território do sintético. corpoMarcos e António Fernando Cascais. desmarcação do território orgânico na tensão para o território maquinico. a cada indivíduo o seu corpo. despedaçá-lo. de objectivação particular de um universal e esta construção é sempre técnica. agrupando isso mesmo que previamente cindimos. 2004. 169 e segs. Lisboa. hoje tão evidentes. desmarcação do território da subjectividade na tensão para o território da objectualidade.ubi. Falamos e pensamos o corpo por generalia. corpos sobre corpos. Corpo. um pénis ou um ouvido a serem instrumentalizados de modo particular por cada um dos indivíduos. Agrupar ocorrências múltiplas – corpus princeps.labcom. tradução portuguesa de João Gama. reunindo. a da sua desmarcação. releva. a cada máquina o seu. 31 Idem.

poderá sempre ser tomado como tabula rasa. Esta body turn não toma por objecto propriamente o corpo mas. the channelling of processes. p. não tanto por razões que tenham a ver com a “qualidade” do discurso .pt i i i i .é sempre desviante em relação ao que se pretendia atingir: no meio desta profusão de discursos que falam do corpo e pelo corpo. A semióse identifica sempre a ocorrência de uma certa violência. relativamente ao corpo. Significar e marcar são gestos idênticos. 72. flows. de penúria nominum. 33 Maria Teresa Cruz. A história do corpo é a história da sua permanente produção.ubi. máquina ou pedaço de terra) marcam-no com o seu sentido. nas palavras de Jacqueline Rose “how a particular body-regime has been produced. qualquer corpo. e esse sentido será operatório até que um sentido mais forte o suplante.i i i i Corpo e Sentido 15 sujeito. London. carne. melhor dito. facilmente. cibercorpo. constatar uma viragem. 1986. que se perde. que leva a que prevaleça sempre no corpo algo que é da ordem do “inexpressado”. para o corpo. Mais do que se considerar o corpo humano per se considera-se um conjunto de processos constitutivos de um regime no interior do qual se situa e se interpreta o corpo humano. espaço de marcação.talvez faça pouco sentido falar. Sexuality in the field of Vision. Há algo que se esconde e perde de cada vez que se procura expressar o corpo. Cit. a cada novo regime de saber capaz de produzir uma leitura do corpo corresponde um determinado regime de poder cujo impacto extravasa sempre e em muito a pequeJacqueline Rose. um regime de signos ou. de discursos “desviados” e de discursos “acertados” – mas antes com a qualidade do “objecto”. “The Imaginary”. um processo de significação do corpo. connections. Este “surto do corpo” levou Maria Teresa Cruz a falar em Histeria33 .”32 . espaço de inscrição. significam-no. multidisciplinar como anteriormente anotámos. Significar corresponde à imposição de um sentido. Esta histeria dos discursos sobre o corpo – entendendo-se por histeria essa estranha condição que necessariamente e desvairadamente se espectaculariza no corpo . Verso. 32 www. organs. cadáver – sob um único tipo é o modo como funciona a linguagem. considera-se. como diziam os medievais. Não há sentido sem suplício. afectada. O corpo. Op.labcom. é o corpo que se esconde. Os marcadores que definem um determinado espaço (seja esse espaço carne ou palavra. the alignment of one aspect with another. numa palavra. A descrição da actual situação do corpo permite-nos.

sonhos e medos. de novo. um grau de incerteza. onde tudo. se fantasmiza.pt i i i i . de www. todo o corpo social se torna instável. apenas. dos seus aparelhos. um golpe de sorte (um lançar de dados). nem fuga. silenciosamente. pode ser traduzido pela lisura fria de um código binário. do seu estado de saúde e da sua relação com a alma. milhares de corpos tão frágeis e tão anónimos. que será. ainda. ainda. no trabalho e no lazer. e o próprio jogo como azar. um modelo ideal de circulação que estará na base do capitalismo moderno. na oração e no combate. o presente é. em cada corpo individual e em cada corpo colectivo. Não que forme parte de um jogo no interior do qual se introduza algo de contingência. ou que os utilitaristas do final de setecentos projectem edifícios panópticos e cidades que se parecem com enormes máquinas de integração e ordenação plenas que. Não surpreende por isso que o iluminismo do século XVIII imagine as cidades como compostas por artérias e veias contínuas. na sua repetição. nos hábitos de higiene e no comportamento sexual. Quando no início do século XVII William Harvey publica as suas descobertas sobre a circulação do sangue. passou pela vida. a construção de uma nova imagem do corpo como forneceu. De cada vez que a concepção do corpo se altera. estava a contribuir para a introdução de uma nova imagem-modelo da compreensão do corpo. que servirá de modelo de desenvolvimento urbano aos arquitectos setecentistas. como um trovão surpreendendo a noite escura.labcom. alegrias e tristezas. Na sua ruptura. mas a sua descrição do funcionamento do coração e do sistema circulatório não permitiu. um corpo estável sob o qual possa. É. integram centenas. traduzido pelos modernos estrategas de táctica militar. como dizia Foucault. através das quais os habitantes se pudessem deslocar como as hemáceas e os leucócitos num plasma saudável. há um impacto profundo em tudo aquilo que é corporado. se o corpo se altera.ubi. à vez. que o apresenta em tudo o que isso implica de construção. De cada vez há um presente que pensa o corpo. corpos e almas. o azar do jogo. repousar. que apenas podem descansar nos frios arquivos que técnica e minuciosamente os possuem. errante.i i i i 16 José Bártolo nez do corpo de alguém que. redes complexas. como também não nos deve surpreender que a nossa época imagine cidades feitas de bits e intermináveis canais electrónicos. nas máquinas e nas cidades. estabelecendo um novo entendimento da sua estrutura. sem escolha. qual alma penada procurando.

estabelecendo relações entre as transformações da tecnologia e as transformações dos corpos. 80. social e politicamente activas do corpo: o corpo “normal” e o corpo “anormal”. de conceber e dar à luz. por acção de “máquinas semióticas” relativamente invisíveis. do mesmo modo que os médicos falam e descrevem a saúde do corpo e as suas exigências. Richard Sennett confirma-o ao mostrar como a revolução médica moderna “opera a troca da moralidade pela saúde”.labcom. Progressivamente vão-se alterando as formas de viver. conformam a construção de dois modelos do corpo. a ideia de que o corpo é uma “representação”. também a economia medicaliza o seu reportório. ainda que tornando-a potencialmente fantástica. “exercício de capital”. reforça esta visão. de uma ideia de Focault apresentada no ensaio “Theatrum Philosoficum”. de comer e copular. a partir de meados do século XX.34 Michele Foucault gostava de citar uma frase escrita nos anos 60 por um desconhecido historiador onde se afirmava que “nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. mostrando que o corpo é uma “simulação”. de duas metaconstruções cultural.35 É sabido como gradualmente. 1994. livremente. a sua negociação e cotação. a cibercultura a partir do início dos anos 80. “respiração das mercadorias”.i i i i Corpo e Sentido 17 uma só vez lançam-se tanto os dados como as regras – e um novo corpo se produz.ubi. no limite. da classe (classe média/classe baixa) e da raça (branco/preto. as formas de morrer e de matar. A crítica a este dualismo surgiu-nos vinda dos mais variados campos: dos estudos feministas aos estudos do género e da raça. Os cultural studies renovaram. Os “alicerces” que fundavam a compreensão ocidental do corpo foram postos em causa. Em grande medida o dualismo alma/corpo foi semioticizado politicamente e instrumentalizado enquanto modelo fundador de uma série de outros dualismos ligados às questões do género (masculino/feminino). de uma forma clara. Pág. no interior e por Apropriamo-nos. Carne e Pedra. a sua circulação e o seu depósito. a partir do século XVII. anglo/hispano) que.pt i i i i . Nova Fronteira. Ambas as visões nos recordam que o corpo se constrói socialmente. 35 Richard Sennett. 34 www. alteram-se os cuidados do corpo. Rio de Janeiro. a partir dos anos 70. passando a falar-se em “saúde económica”. O principal desses pilares a ser questionado teve a ver com o dualismo – estruturante da tradição do pensamento ocidental – alma/corpo.

“not-self” e “not-me”. real/virtual) é. Sage. gerador da ambiguidade do dualismo. não apenas uma lógica de crescente ligação. “Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystallization of Nature”. acompanhando-as. potencialmente anuladora da fronteira entre o biológico e o tecnológico – cria novos dualismos – Hardware/Software. Cyberspace / Cyberbodies / Cyberpunk: Cultures of Technological Embodiment. na linha de muitos outros autores. por assim dizer. 1995. Sujeito/Objecto. marca de uma crescente ausência de fronteira entre dimensões tradicionalmente polarizadas. um estatuto de reversibilidade: o sujeito é também objecto.pt i i i i . o objecto é também sujeito e a nova interacção entre um e outro baseia-se nesse princípio de interrelação. o pensamento ocidental foi construindo a alma e o corpo a partir de uma relação de oposição. www. homem/compu. O princípio simbiótico orientador da cibercultura – a ideia de uma crescente aproximação. Não há dualismo que não construa um dispositivo de valores a partir de um termo positivo e de um termo negativo.i i i i 18 José Bártolo acção de materiais e práticas discursivas. Pág. entre pólos. biológico/tecnológico. corresponde a um princípio de instru36 Mike Featherstone e Roger Burrows (eds. o corpo.37 A negação. Boston. mas. 48. pode afirmar que “The Contemporary western body is the product of an information technology society. e à medida que essas práticas se transformam. Cf. Susan Bordo. 37 Os termos utilizados por Bordo são “alien”. o dualismo alma/corpo é colocado em nova tensão. A tradição ocidental desenvolveu-se considerando o “corpo” como par negativo do par positivo “alma”. sujeito/Objecto.). tal como a afirmação. Homem/Máquina – ao mesmo tempo que impõe o principio de interface. Feminism and Foucault: Reflections on Resistance. também se transforma. conexão. como um “outro-de-si”. o facto do corpo ser habitualmente experienciado como “estranho”. como “não-eu”.ubi. Na sequência da tradição da filosofia grega.).tador. 87-118. Neste sentido Mike Featherstone. IN Irene Diamond and Lee Quimby (Eds. Págs. A lógica de interface (homem/máquina.labcom. sobretudo de uma crescente aproximação. impõe. the so-called “cyborg” body whose name conflates the “cybernetic” (the study of systems of control and communication within animals and machines) with the “organic”36 Com o advento do cibercorpo. Northeastern University Press. London. No seu artigo sobre a anorexia nervosa Susan Bordo sumaria como consequência dessa negação do corpo.

1990.pt i i i i .. Berthelot. Turner42 . L. permitindo a concepção de um significante-fantasma permanentemente e polisemicamente significado. 47 T. etc. Harvard University Press. com a “sociologia da incorporação” (Bál38 Marc Berg e Madeleine Akrich. London. University of Minnesota Press. 103-18. Sage. Routledge. 1993. etc. and the idea of Gender. Bodies that matter: On the discoursive limits of “Sex”. ergueu o seu tribunal. 40 L. “Decentering the natural body: Making difference matter”.-M. 10. 1992. Da negação do corpo como signo por uma certa semiótica à afirmação do corpo como fenómeno carnal pela fenomenologia. London. 42 B. à sua inserção dentro de uma máquina semiótica que governará os significados desse corpo. “Gender. 1995. Págs. Duke University Press. Um novo território. Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology.ubi. Cartwright. Sage. Hood-Williams45 . Laqueur47 . Lock. 1997. Minneapolis. Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud. Cambridge. Bodies and Discursisivity”. com as ciências médicas (Hausman46 . Harrison e J. 44 W. a contemporaneidade apresenta-nos muitos corpos. Nas intersecções dos STS com a sociologia e antropologia médica (através de autores como Berthelot39 .labcom. Lock41 . “The body as discoursive operator: Or the aporias of a sociology of the body”. IN Configurations. Technology. Sage. Pág. Cartwright40 . IN Body & Society.C. Body & Society. Págs. 1. 45 Idem. Vol. 43 Judith Butler. “em julgamento”38 . da politização dos estudos do género (gender studies) à tecnologização do corpo pela cibercultura passando pela epidermização do corpo pela sociologia (orientado a sua atenção para fenómenos de decoração do corpo ligados ao body painting ou body piercing). 267-92. 13-23. 1994. Routledge.i i i i Corpo e Sentido 19 mentalização do corpo. 1.). que a autora identifica com os “science and technology studies”. segundo a expressão de Madeleine Akrich. Durham. Laqueur. os corpos disciplinares sempre assumiram essa função de ventríloquia falando pelo corpo que tomavam como objecto de estudo. 1997. 5. 41 M. Hood-Williams. Mass. S. London.). etc. Ibidem. Turner. IN Body & Society. Screening the body: Tracing medecine’s visual culture. O corpo sempre falou pela voz de outro. 2004.) com os estudos de género (a partir das análises de Butler43 . 46 B. O corpo está actualmente. 39 J. Hausman. 3 (4). Changing Sex: TRansexualism. 1995. Págs. “Introduction – Bodies on Trial: Performances and POlitics in Medicine and Biology”. www. 2-3. Harrison44 . London. London.

Sage. Invocação ao meu corpo. no 96. sobretudo Pág. London. New York. 1-8. O absoluto do nosso corpo é o absoluto do nosso “eu”. Hepworth e B. ). 207-38. e só podemos mesmo imaginar o corpo significante (. Changing Order: Replication and INtroduction in scientific Pratice. Bertrand Editora. perspectivá-los. Talvez a pergunta pelo corpo sempre nos afaste dele. S. Simians. 1994. vive-se de dentro para fora. 114-129. Wigley54 . Collins. 255.ubi. Págs. o olhar que vê. ou vê com os olhos. Porque o “eu” que observa está ainda no “eu” observado. Págs. Cambridge. Por vezes. 28. 1999. Featherstone. 1991. entre aquele que observa e o que é observado. Routledge.). . M. Mass. no 5. London. Latour52 . The Body: Social Process and Cultural Theory. e os pés portanto se distanciam no acto de nós os observarmos (objectivam-se). Turner. enquanto sabemos que somos alguém que anda com os pés. com a teoria do design (Forty53 . justamente porque o corpo é subjectivo. Harvard University Press. etc. onde a representação se forma ou se projecta A. Haraway49 . a mão que prende. Talvez essa pergunta deva ser antecedida de outra que questiona o próprio questionar. O nosso desdobramento é portanto do tipo daquele em que alguém se desdobra entre o “eu” e o “mim”. London.i i i i 20 José Bártolo samo48 . etc. ou prende com a mão. 1998. Talvez o corpo se manifeste sem ser questionado. “Industrial Design and Prosthesis”. e ser então alguém que anda com o pé. “só conhecemos e concebemos. Decerto que um corpo é ambíguo. “On the cutting edge: Cosmetic Surgery and the technological production of the gendered body”. estamos sendo também esses pés que andam. . “Whatever Happened to Total Design?”. Bálsamo. 1991. Sage. Featherstone50 . 50 M. 1985. com a nova epistemologia científica (Collins51 .. Lisboa. o “mim” que contemplo inclui aquele que contempla. 49 Donna Haraway. IN Camera Obscura. diz-nos Nancy.). M. é como se também estivéssemos nele. Mas aí mesmo há uma parte de nós implicada nas partes do nosso corpo que observamos e assim. IN Harvard Design Magazine. 55 Estes dois parágrafos são.). 1992. o corpo vai sendo redefinido. Cyborgs and Women: The reinvention of Nature. Pandora’s Hope: Essays on the reality of science studies. no essencial. 53 Adrian Forty.55 “Rigorosamente falando”. Somos o pé que anda. Págs. 48 www. no instante em que os vemos andar. este corpo é ele próprio o “dentro”. uma citação livre do texto de Vergílio Ferreira. 54 Mark Wigley.pt i i i i . porque se o somos. 52 Bruno Latour.labcom. etc. 51 H. IN Ottagono. Mas podemos sair deles.

2000. 66-67. Tradução portuguesa de Tomás Maia. consciência) – e neste caso o “dentro” aparece (e aparece a si) como estrangeiro ao corpo e como “espírito”. Dessa perda. ainda que seja. Págs. sentido. operar uma clivagem entre eles de modo a entender Jean-Luc Nancy. Ibidem. esse sentido tangível. con-sentido. 80. Apresentação da estrutura do trabalho O presente estudo desenvolve uma análise intersemiótica sobre o corpo. a nossa irremediável vinda e a nossa definitiva ida. em cada reconhecimento do outro. origem e receptor das relações. antes de tudo.labcom. se renova. Vega. a abarrotar de intencionalidade. Lisboa. entalha-se em nós. corpóreo. O corpo significante não deixa assim de continuamente permutar dentro e fora. inconsciente). Seis mil milhões de corpos humanos que estão aí. Com cada um deles o nosso corpo se comove. “Existimos na dor porque somos organizados para o sentido. e a sua perda fere-nos. memória. a fragilíssima condição humana. no tratamento semiótico dos regimes de signos. solidão sentida. e neste caso o “fora” aparece como uma interioridade espessa. a pena. como lhe chamava Kant.ubi. Há um sentido de humaniora. ou seja. como senão houvesse reconhecimento do outro sem o reconhecimento de uma dor comum. de abolir a extensão num único organon do signo: isso onde se forma e donde ganha forma o sentido”56 e o sentir. Pág. de reconhecer no outro a dimensão da humanidade. também não o dá à perda.i i i i Corpo e Sentido 21 (sensação. uma caverna cheia. a queimadura. as suas técnicas e as técnicas que sobre ele operam. comoção desse sentido que nasceu connosco já sabido e que. 56 www. a sua tecnologização. a dor é somente o gume. ideia.”57 Não se passa pela vida sem dor. em cada instante. no qual sempre se enceta o nosso ser-aqui e o nosso aqui-jaz.pt i i i i . Mas assim como a dor não dá sentido ao sentido perdido. O corpo é. percepção. o corpo é o “fora” significante (“ponto zero” da orientação e da mira. doloroso. as suas produções de sentido. Outras vezes. Como salienta Maria Augusta Babo “é constante. sentido que nunca poderá ser plenamente dito ou partilhado. 57 Idem. Transportando no corpo a dor e a alegria. que nos faz comovermo-nos diante de um outro corpo. Corpus. o sonho e o medo. imagem.

Retórica. A. desenvolver uma abordagem intersemiótica – utilizando o conceito. C) Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. etc. Assim.”58 Na sua Semântica Estrutural. reconfiguração dos processos narrativos. Pág. Greimas mostrava a necessidade de uma estratégia de convivência interdisciplinar por parte da semiótica. J. sendo que a semiótica mais desenvolvida é hoje claramente intersemiótica caracterizada por uma análise de fronteira interdisciplinar: I. Relógio d’Água. Parret ou Landowski e menos no senMaria Augusta Babo. Landowski na semiótica jurídica e na sociossemiótica. 58 www. etc.ubi. . No entanto.) que determinam diferentes representações e significações do corpo.J. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. falamos de uma semiótica visual face a uma semiótica linguística ou gestual. J.-M. M. em última análise. Coquet na psicanálise. pelo menos. mais no sentido que lhe dão Fontanille. da corporeidade. Lisboa. “A dimensão imagética da metáfora”. H. Mourão na teologia. ) a atenção focalizada nos regimes mistos pode fazer-nos perceber que. estratégias argumentativas.labcom. . IN Tito Cardoso e Cunha e Hermenegildo Borges. E. os seguintes quatro pontos: A) Em micro-análise.pt i i i i . na sua praxis semiósica. Parret na filosofia. sistemas semi-simbólicos. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. determina a formação de regimes específicos ou de semióticas próprias. uma semiótica do corpo consistirá num projecto declinável em. 2005. Darrault na psicologia. publicada em 1966. O primeiro capítulo do trabalho intitula-se Semiótica do corpo: O corposigno. A substância de expressão. B) Em macro-análise. A intersemiótica responde a essa estratégia. a intersemioticidade das formações semióticas emergentes no social é cada vez mais salientada nas análises (. Não se pretende desenvolver aí verdadeiramente uma semiótica do corpo. não há regimes puros. 103. então. para falar como Baudrillard. descrevendo os diferentes “modelos”. facilmente se estenderia. Arrivé e J—C. para empregar a metalinguagem hjelmsleviana.i i i i 22 José Bártolo cada regime como um sistema autónomo. Floch nos media e na comunicação e a lista. nada exaustiva. D) Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. RCL no 36. do corpo. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. A.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. como lhes chamaria Fontanille. Aquilo que pretendemos no nosso primeiro capítulo é. Courtés e J. como já se percebeu.

o agenciamento não pode ser expresso pela significação ou pelo sujeito. interligadas. Uma semiótica é um regime de signos. . incapaz de dar conta do que de mais importante atravessa um corpo. 175. antes as cruzam. semiótica e fisicamente: “regimes muito rebuscados (. então.i i i i Corpo e Sentido 23 tido da tradução intersemiótica de Jakobson – do corpo. devires moleculares. estas às funções diagramáticas (interligando agenciamentos semióticos e físicos) e estes aos agenciamentos maquinicos “que ultrapassam qualquer semiologia”61 .pt i i i i . Pág. 140 e segs. os regimes de signos às máquinas abstractas. pelo contrário. constituições de corpos sem órgãos. funções de existência da linguagem que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades desta ou daquela ordem. ) devires-animais. Minuit. 60 Idem. partindo de três ideias fundamentais: a integração do corpo na ordem da significação. 61 Idem. O corpo é um palco significante no qual ocorrem É fundamentalmente esta a definição trabalhada com consequências muito profundas por Deleuze e Guattari nos seus Mille Plateuax. 62 Idem. A semiologia seria. . Pág. Un régime de signes contitue une sémiotique. Ibidem. a identificação do corpo como constructo de uma máquina semiótica. Neste sentido os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria linguística consegue dar conta. é a significância e a subjectivação que supõem um agenciamento e não o contrário. 1980. antes de mais. Paris. Deleuze e Guattari falam a propósito em máquina abstracta ou em máquina diagramática para dar conta da conjugação de duas formas. que deve ser compreendido como alterador no plano da intensidade mas não no plano da identidade (rejeitando-se aqui qualquer visão pós-humana). Pág. é a linguagem que remete aos regimes de signos. trans-sexulaidades reais. gerador de um devir-máquina. continuuns de intensidades. . 177. Ibidem. produzindo-o.ubi.labcom. au moins dans le cãs où l’expression est linguistique. de agenciamento: formas de expressão ou regimes de signos (sistemas semióticos). Ibidem. 59 www. formas de conteúdo ou regimes de corpos (sistemas físicos).”59 Foucault ensinava que os regimes de signos são. ”62 O corpo é na tradição historicamente mais enraizada da semiótica – a semeiologia – um signo. a interpretação da tecnologia como elemento intensificador do corpo. . é assim que Deleuze e Guattari nola apresentam: “On appelle regime de signes toute formalization d’expression spécifique.60 É sabido que. para Deleuze. atravessam e fazem aparecer no espaço e no tempo.

ocorrem. de uma condição. é transitório e operatório. uma “apreensão mais processual e contextual. interessa-nos trabalhar o processo a partir do qual se gera a significação. também. 63 A. em relação ao estudo das emoções. . no sentido em que o mito é um discurso que autoriza e regula práticas. No início dos anos 90. os sinais e os símbolos de uma linhagem. ). como signo ou como índice. assente na natureza arbitrária (sinais. Como qualquer discurso comporta as suas gramatizações. das intensidades e dos devires que permanentemente atravessam um corpo. www. o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Págs. 1991. a valorização e desvalorização de certas paixões. de palco significante.J. 99-103. o corpo. dando conta das tensividades fóricas. das paixões.63 Paolo Fabbri propõe. Mais do que nos atermos aos sintomas que se manifestam num determinado corpo-signo. simultaneamente.ubi.pt i i i i . Não é nesta perspectiva semiológica que nos interessará desenvolver o trabalho. os seus agenciamentos. Sémiotique des passions. tanto se podem apresentar como sinal. Se recorrermos à classificação de Benveniste. nesta perspectiva. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa. Neste sentido. do adorno. da escarificação. Fontanille. Considerado em si mesmo. Greimas e Fontanille propuseram-se analisar o universo passional-idiolectal cuja especificidade passava pelos seguintes aspectos: A) A sobrearticulação de certas paixões. B) A dominação isotópica ou funcional de certas modalizações. índices) da relação entre o significante e o significado. mais interpessoal e cultural da significação (. qualquer corpo. C) As orientações axiológicas. Greimas e J.labcom. de um comprometimento. de um classe. . Mas a semiótica não se deverá ater ao corpo-em-discurso deverá ser capaz de semioticizar. como qualquer língua comporta os seus idiolectos. é claro que o corpo é. signos) ou analógica (símbolos. Paris. O corpo é mítico. D) A recategorização de paixões na sequência da passagem de um universo sociolectal para um universo idiolectal.i i i i 24 José Bártolo manifestações. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. Os modos de “ser” do corpo. Seuil. como um objecto que não está por um outro. durante a viagem. dizia Michel de Certeau. o corpo-em-situação. as suas improvisações e desvios. Os corpos viajam e o semiólogo deve estar atento às manifestações que.

Não se procura aí. escapavam à semiologia. Harré (Ed. The social construction of emotions. E) Analisar as formas narrativas que intervêm nos três pontos anteriores. a semiótica vai ficando mais competente para analisar aquelas tensões.65 A partir destas abordagens. no 47/48. de um ou de outro modo. a sua adequação objectiva a um determinado fim. como anotámos anteriormente. Harré. quer a narração das emoções jogam nos processos de organização de uma cultura. considerando que estes são a base para o estabelecimento das emoções. Págs. a sua produção de sentido. isto é. a sua instrumentalização. Éditions Liana Levi. uma história do corpo no sentido que Jacques Le Goff66 lhe dá ou uma semiótica do 64 P. IN R.ubi.pt i i i i . paixões e devires que tem lugar no corpo e que. já que descobrimos as emoções a partir de uma linguagem publica compartilhada. 65 R. 66 Pensamos nomeadamente na obra de Jacques Le Goff. “Postfazione. percebe-se que o nosso objecto de estudo seja menos o corpo do que as operações praticadas sobre o corpo e que visam. www. Fabbri. verdadeiramente. Harré que. Pág. 1988.labcom. Harré.). B) Estudar os processos de ordenação moral que produzem determinadas axiologias que determinam o significado e o uso motivado das práticas discursivas emocionais. fazer um design do corpo (como o que nos aparece em alguns projectos biotecnológicos). C) Mostrar a função social que quer as manifestações emocionais. parte da tese de que as nossas emoções estão determinadas pelo nosso repertório linguístico e pelas nossas práticas sociais. na mesma linha de raciocínio. 2-14. 2003. As análises dedicadas à semiótica. é feita por R. 205. Basil Blackwell. Versus. Face ao que dissemos. F) Descobrir o sistema de normas a partir dos quais se regem as formas complexas de acção social dentro das quais se geram e transformam as classificações emocionais das acções e dos actores. “An outline of the social constructionist viewpoint”. Une Histoire du corps au Moyen Âge.i i i i Corpo e Sentido 25 A nova tarefa é reconstruir uma teoria das emoções subjacente ao processo da significação. Paris. A passion veduta: il vaglio semiotico”. Oxford.64 Outra proposta. dentro da sua sociossemiótica das emoções considera que se poderiam levar a cabo as seguintes investigações: A) Reunir o repertório de jogos linguísticos usados disponíveis numa determinada cultura. de natureza intersemiótica. à história e ao design do corpo devem ser lidos sob esta perspectiva.

percebe-se que ao longo da história o corpo sempre foi derrotado. . então. a legenda. aqui e ali o corpo aparecia-nos esboçado em alguns retratos de reis. assim. . Pág. nem carne. Jacques Le Goff identificava essa mesma ausência nos trabalhos dos historiadores: “(.”70 Ficávamos.ubi. London. La société féodale. um novo lugar para as questões do corpo no interior da investigação historiográfica: “Uma história mais digna desse nome do que os tímidos ensaios a que hoje nos reduzem os meios de que dispomos reservaria o devido lugar às aventuras do corpo. assim. Com efeito. nem vida. 5. de um corpo sem ossos. sempre.”69 . Academic Press. corpos transformados em símbolos. 67 Cf. Albin Michel. se a história sempre foi escrita do ponto de vista dos vencedores. Pág. Op. 5. www. Marc Bloch reivindicava. um grande esquecimento para o historiador. no sentido de Deleuze. Mas quase sempre sem corpo. Paris. que o instrumentaliza. A história tradicional era efectivamente descarnada. antes. foram mudando em todas as sociedades históricas. a história e a semiologia68 são constructoras de sentidos particulares do corpo. como dizia Walter Benjamin. a história da sua permanente construção social. New York & San Francisco. E no entanto o corpo tem uma história. Cit. em “semiologia” para criar uma demarcação que torne mais compreensível a ideia do operar da máquina semiótica. pelas mulheres. perceber como o design. mas tratava-se. excepcionalmente. o seu lugar na sociedade. acessoriamente. o arquivo. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. que o adequa funcionalmente a um determinado território disciplinar. O que se afirma é. IN John Blacking (Ed.i i i i 26 José Bártolo corpo no sentido de Roy Ellen67 . produzido por três máquinas semióticas ou semiófísicas. ) o corpo constitui uma das grandes lacunas da história.pt i i i i . 343-373.). particulares. 1939. Interessava-se pelos homens e. 68 Falamos aqui. The Antropology of the Body. Mais recentemente. santos ou guerreiros. com uma história sem corpos e com corpos sem história. a descrição. A concepção do corpo. o corpo-objecto produzido pelo historiador e o corpo-signo produzido pela semiólogo são já o resultado de uma construção particular do corpo. Págs. nos anos 30. 1977. 69 Marc Bloch. representações e figuras de que o historiador fazia a enumeração. 70 Jacques Le Goff e Nicholas Truong. Roy Ellen. o corpo-tecnológico produzido pelo designer. bem entendido. que um determinado autor e uma determinada análise semiótica serão condicionados por uma semiótica que os abarca: o semiólogo semioticiza mas é também semioticizado.labcom. a sua presença no imaginário e na realidade..

de trabalhar. mas também o corpo-cadáver. de morrer – corporizando normas e desvios. fornecendo uma cena às acções sociais – modos de estar. tensão entre o homem e máquina. Cada corpo pode ser definido como um teatro de operações: segmentado de acordo com os quadros de referência de uma sociedade. essa oscilação entre a exaltação e a humilhação do corpo.pt i i i i . E. cadáveres de cristãos incensados na liturgia dos funerais. Cadernos ISTA. tensão entre o centro e a periferia. tensão entre a guerra e a paz e. tolerâncias e marginalidades. e de ódio repressivo para impor a ordem duma identidade.labcom. Tal tensão atravessa não só o corpo vivo. Pág. a eucaristia é o corpo e o sangue de Cristo. Encarniça-se a codificá-lo sem poder conhecê-lo.ubi. proibições e desconhecimentos. O Enigma da Sexualidade.. imagem da morte produzida pelo pecado original e matéria a honrar: nos cemitérios trazidos do exterior para o interior das povoações. 72 71 www. semioticizado como matéria repugnante. as suas improvisações e os seus desvios. a comunhão é um repasto. alvo de uma esquadria que faz a sua anatomia moral e alvo de uma outra esquadria que faz a sua anatomia politica.”72 Os gregos antigos dividiam a realidade observável entre phusei e thesis Idem. de falar. Este corpo tão estritamente controlado é paradoxalmente a zona opaca e a referência invisível da sociedade que o especifica. Os sacramentos santificam os corpos. é atravessado por essa tensão. Ibidem. a um tempo. 2003. sobretudo durante a Idade Média. no 16. tensão entre o campo e a cidade.i i i i Corpo e Sentido 27 Como bem mostra Jacques Le Goff71 . a dinâmica de qualquer sociedade pode ser entendida a partir da leitura das suas polaridades. “Sexo. tensão entre a riqueza e a pobreza. José Augusto Mourão. tensão entre o homem e a mulher. sobretudo. de viver. Esta luta nocturna duma sociedade com o seu corpo é feita de amor e de ódio – de amor por esse outro que a sustenta. de nascer. a rejeição e a sua veneração. simultaneamente. O corpo cristão. de guerrear. José Augusto Mourão di-lo bem: “Cada sociedade tem o “seu” corpo e este está submetido a uma gestão social e a um policiamento. IN José Augusto Mourão et al. paredes-meias com a igreja. das suas tensões ordenadoras: tensão entre deus e o homem. ossas veneradas dos santos e dos mártires nos seus túmulos e nas suas relíquias. de comer. de copular. de andar. comporta os seus idiolectos. 112-13. texto e corpo virtual”. tensão constitutiva do pensamento ocidental entre corpo e alma. tensão entre o topo e a base. como cada língua.

labcom. O corpo pode ser “bem olhado” ou “mal olhado”. o próprio olhar não escapa a ser François Martin. da pele até as entranhas. para eles. Edições Paulinas. freak. “Figuras e transfigurações”. como diziam Deleuze e Guattari. física e outra semiótica. isto é. IN AAVV. quase sempre. o olhar é o lugar teórico da enunciação: lugar de uma possível formalização capz de fornecer um conhecimento novo. o corpo é sempre. o olhar do voyeur o seu. Se olharmos “desinteressadamente” para um corpo – olhar por olhar – esse olhar produz um regime de sentido diferente de um olhar “interessado” – como o olhar do médico sobre o doente ou o olhar do treinador sobre o atleta. mas é. Semiótica e Bíblia. sempre. uma corpórea. de exercitarmos os músculos ou de os disfarçarmos tem. de nos obrigarmos a emagrecer ou a engordar. lugar de um theôrein – de uma contemplação – pela qual a componente visionária ou visual – em semiótica dir-se-ia figurativa – é precisamente fonte de um conhecimento real sobre a relação dos homens à palavra. Págs. 1999. ciborgue. Na sua semiótica do olhar. Lisboa. 163-175. então. releva de um determinado uso semiótico do corpo. atravessado por dois tipos de agenciamentos. para o corpo mal olhado. falar.73 O olhar é sempre atraído pelo diferente relativamente ao déjà-vu. No entanto. já passivo produto resultante daquele olhar. Mas o próprio olhar exige ser ordenado. François Martin defende que o olhar é um processo de enunciação. causas sociais. àquilo que é.pt i i i i . mesmo que se esconda. de nos sentarmos. o olhar do polícia o seu. assim. precisamente porque o olhar é ordenador vira-se para o corpo ainda não ordenado. diferentes corpos. diferentes olhares produzem. para o monstro. O corpo é.i i i i 28 José Bártolo as coisas têm o sentido que têm por assim serem por natureza ou por convenção. 73 www. para o deformado. sempre olhado. mais. a máquina física tende sempre a ser permeável à máquina semiótica: o modo de andarmos. por duas máquinas. para o corpo desviado ou desviante. Também o corpo deve colocado no interior desses dois espaços: o espaço do constrangimento físico regido pela ordem da causalidade e das interacções físicas e o espaço da semioticidade regido pela ordem da significação e dos valores. O olhar do médico tem o “seu” corpo.ubi. qualquer que seja o seu nome: aberração. O corpo tende a assumir o modo como o olhamos e é sempre alvo de um olhar.

mórbido e neutro no corpo”. Veja-se o exemplo da medicina pensada desde as suas origens como o “conhecimento do que é saudável. Cada máquina semiótica tem o seu corpo. de deslocamento. pelo contrário. o corpo da grávida e o do aleijado. percepções. Cit. já que o corpo que têm é o corpo que produziram. conhecimento que se produz. ou dos nossos pais ou o nosso próprio corpo porque esses não modelos mas modelações. são modelos de ordenação quer do corpo. o seu. que estabilizam a relação entre o que é e o que não é corpo. seguindo Nobert Wiener. ou a ciência e o Estado. nas palavras de Galeno. um corpo normal. se exerce sem a extracção. Assim. O modelo deve modelar o corpo possante do mineiro e o corpo frágil do doente. de acumulação. cada cultura técnica. Há que ordenar o olhar do médico que ordena o olhar do doente. 144. Richard Sennett. Op.ubi. cada cultura social. não é nunca um corpo como os corpos. Igualmente cada cultura tem o seu corpo. identificar quatro modelos do corpo. podemos. a apropriação. Nenhum poder.. por acção dessa “virtuosa crueldade que faz o governante atacar os maus até que a segurança dos bons esteja assegurada”75 . estabilizam uma determinada semiótica que estrutura trocas e usos. Michele Foucault di-lo com a sua habitual pertinência: “Nenhum saber se forma sem sistema de comunicação.pt i i i i . Em A ordem do discurso. Pág. em si mesmo. que é. entre o que é por natureza e que é por cultura. L’ordre du discours.labcom. há que ordenar o olhar do mestre que ordena o olhar do aprendiz na oficina. na sua existência e no seu funcionamento. entre o que é biológico e o que técnico: O 74 75 Michele Foucault. o seu. seu de direito. às outras formas de poder.”74 Os modelos do corpo. a distribuição ou a retenção de um saber. mas as formas fundamentais de saber-poder. Todo o olhar almeja ser panóptico. 1971. uma forma de poder e que é ligado. cada cultura politica o seu. não deve ser. O modelo não tem de ser. mas não deve corresponder.i i i i Corpo e Sentido 29 olhado por um outro olhar que o integra. a nenhum dos modelados. a que fizemos referência partindo de Baudrillard. www. condição de possibilidade da modelação. de registo. Gallimard. não é nunca o corpo do nosso irmão. Paris. discursos e práticas do corpo e sobre o corpo. há que ordenar o olhar do padre que ordena o olhar do fiel. Neste nível não há conhecimento de um lado e sociedade de outro. quer do olhar sobre o corpo. 40. Pág.

encontramo-lo na figura do Golem. a proposta de Mcluhan76 do computador como extensão do corpo e da mente. tanto quanto de ficção (. por correlato. cujo modelo é o do corpo mágico. . nascido das especulações cabalísticas sobre a criação de Adão por Deus. Barcelona. “Um ciborgue é um organismo cibernético. ) A medicina moderna está cheia de ciborgues (. Identidade e Desejo. Lisboa. 1995. Cotovia. 221-250. IN Ana Gabriela Macedo. o terceiro figura o corpo como um engenho térmico-mecânico. Os ciborgues são objectos de prova. Ralph W. Actualmente o modelo do corpo trabalhado pela ciência e o modelo do corpo trabalhado pela ficção é dominado pela mesma figura: o ciborgue. nano-próteses. . maleável. permanentemente citada quando se fala em ciborgues.ubi. o segundo corresponde ao corpo-autómato como um mecanismo de um relógio. isto é do computador e. um híbrido de máquina e organismo. com 76 Marshall McLuhan. mas não vivemos o nosso corpo ou o corpo do outro como ciborgues. A galáxia de Gutenberg. a tecnologia e o feminismo socialista nos finais do século XX”. 1972. São Paulo.78 Vivemos num mundo cheio de ciborgues.”77 . de 1832. .i i i i 30 José Bártolo primeiro. Paidós. La vida en la pantalla. permitem-nos perceber como a ciência e a técnica vão intervindo sobre o corpo e sobre a vida dominando-os. do corpo. Pág. que dominou as lendas europeias dos séculos XV e XVI. ou pela conexão de terminais nervosos ou musculares com materiais mecânicos ou electrónicos. como interface. em 1968. 78 Donna Haraway. sob o modelo da locomotiva a vapor. . )”.pt i i i i . 77 Ralph Emerson. Género. Para Donna Haraway. As fronteiras entre o biológico e o tecnológico atenuam-se ou dissolvem-se. Editora da Universidade de São Paulo. Numa passagem do seu diário. Com o desenvolvimento tecnológico. O crescente acoplamento vivo-máquina conquistou extensão e profundidade ao se estender ao campo médico e à vida comum. a que. o quarto corresponde à época da electrónica pensando o corpo enquanto sistema electrónico. feito de barro. Págs. são objectos de prova. alterando-os. Apud Sherry Turkle. A supressão das fronteiras entre o artificial e o natural traduzem-se pela fabricação de biomateriais.labcom. produzindo-os. “O manifesto Ciborgue: A ciência. numa época (século XVII e XVIII) em que o relógio era o modelo da tecnologia. 30. uma criatura de realidade social. juntar-se-ia. 2002. www. Emerson escrevia que “os sonhos e as bestas são duas chaves através das quais vamos descobrir a nossa natureza.

já não polarizadas mas agora. da bioengenharia e da engenharia genética . por sua vez o “cérebro” da máquina também já há algum tempo vem sendo apurado para ganhar inteligência e mesmo sensibilidade.pt i i i i . chips electrónicos e se produzem máquinas feitas de carne. clonagem. crescentemente. vivo ou inanimado. artérias e fluidos. as polaridades fundadoras da sociedade ocidental colapsam. próteses internas e externas. Houve uma clara preocupação em fazermos o estado da arte em relação às possibilidades actuais de artificialização e de sintetização do corpo. A carne do homem vai sendo enxertada de metal. utilizações científicas dos cadáveres). para se tratarem as mais variadas disfunções vão-se recorrendo a próteses. inclusivamente no cérebro. e a carroçaria da máquina vai sendo enxertada de carne. cada vez mais leves.na reconstrução do corpo ) até à fase post mortem (Criogenisação. no campo do design biotecnológico.i i i i Corpo e Sentido 31 a crescente hibridização entre o natural e o artificial. nos últimos quinze anos. interfaciadas. mas houve uma idêntica preocupação em não fazer coincidir o corpo é tecnicamente produzido exclusivamente com as ferramentas técnicas contemporâneas. dito de um modo mais rigoroso. passando pela reconstrução em vivo (desenvolvimento de próteses duras e moles. homem ou máquina – são substituídas por tensões conexas – natural e artificial. o campo de possibilidades de instrumentalização do vivo. recuperação de órgãos. chips e electrónica. aplicações de engenharia de polímeros na fabricação de biomaterias e aplicações de tecnologias engenhariais -ferramentas CAD-CAM. interfaces. www.labcom. O desenvolvimento das biotecnologias. desenvolvimentos nanomedicos. genoterapia e engenharia genética). “Quais as capacidades de um corpo biomolecular e como podem ser essas capacidades realizadas?”. desde a sua génese (fertilização in vitro. de transistors. cada vez mais “compatíveis”. vivo e inanimado.ubi. Prototipagem rápida e virtual. as tensões polares – natural ou artificial. redefiniu. É sob o desígnio da interface que se introduzem no corpo humano. biopolímeros. pela questão técnica “Como é que um corpo é feito?” ou. O cérebro humano já há algum tempo deixou de ser intocável à experimentação médica. homem e máquina – na medida em que o desenvolvimento tecnológico produz novas formas de organização e de expressão das tensões. cada vez mais pequenas. do biodesign. Quando falamos de corpo tecnológico não falamos de um objecto de estudo exclusivamente actual em relação ao qual se torne fundamental estar up to date. A questão filosófica “O que é um corpo?” encontra-se hoje traduzida. matéria orgânica.

Pág. anuncia-se um novo corpo: ciborgue. o pensamento dela partilhar. talvez. não é nesse sentido que usamos aqui a expressão. corpoprotésico. também. Há no corpo. a revelar-lhe essa ossadura. da medicina ao movimento extropista) nos chegam nomes para o corpo anunciado. mas à semioticização técnica da vida. corpo-enxertado. Didier Anzieu di-lo bem: “Os pensamentos precedem o pensar. expressão de um devir-corpo. também. Por “alma” procuramo-nos aproximar de um determinado “corpo” intangível que não se deixará. ossos que formam um esqueleto e. Pensemos o corpo. há no corpo. ruga. Cit. 81 Idem.ubi. 1 (não publicado). IN Ana Gabriela Macedo. no sentido em que se entende “a comunidade que vem” (Agamben).i i i i 32 José Bártolo pelo contrário é importante perceber que esta interpretação que exige a actualização do corpo face à técnica e a actualização da técnica face ao corpo corresponde já a um processo tecnológico de agenciamento do corpo. corpo-digital. 19. Ibidem. corpo que vem79 . talvez. há no corpo. por último. 79 www. o pensamento sobre o corpo. as possa enunciar.pt i i i i . uma estética do caos. Mas o corpo não é só o suporte dessas marcas e cicatrizes. para indicar um potencial (um devir). “O Corpo que vem”. “coisas que agradam”81 e. Pág. nunca. tenda a “estrutura-lo”. desfiguração ou descoloração. para dizer a invenção dum corpo no tempo. uma distopia (Crash). Também o pensamento sobre o corpo o tende a marcar. então. obrigando-o a ficar refém desse pensamento.labcom. 82 Michele Foucault em Vigiar e Punir afirma a existência da alma. corpo-em-fluxo. uma utopia (Hic est locus). Da actual relação entre corpo e técnica. enunciar ou adestrar. a aprisiona-lo. se for feliz. Eles têm José Augusto Mourão fala em “Corpo que vem”: “Digo “o corpo que vem”. uma alma82 e dela poderá. 80 Pedimos o conceito emprestado a Adrienne Rich. Op. entendendo por alma todo o tipo de exercício que qualquer expressão de biopoder exerce sobre o corpo. dos variados campos (do design à cibercultura. como a ambicionam os extropistas. o pensamento. corpo-em-rede. O que se percebe com a leitura dos três capítulos do estudo é que a obsolescência do corpo não corresponde tanto à tecnologização da vida. Não há pensamento que não comece pele corpo. Não há corpo que não apresente cicatriz.” IN José Augusto Mourão. bio-máquina. também. trabalhado no seu magnífico ensaio “Notas para uma política da localização”. também. de uma reterritorialização do corpo. Em cada reterritorialização do corpo uma marca lhe é infligida. crescentemente hibridizadas. resultante de uma particular tensão entre tecnologia e biologia. a exercer sobre ele uma determinada “politica da localização”80 . a uma particular gramatização do vivo a partir de uma semântica técnica há muito implantada.

”83 . Oxalá o nosso apelo seja acolhido. o pensar procura reunir estes pensamentos num corpo de pensamentos.labcom. . 21. Pág. enfim. Dunod. de a ele nos dirigirmos. todo o pensamento é pensamento do corpo: do corpo próprio. dos outros corpos. . (.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 33 necessidade de serem pensados para serem reconhecidos como pensamentos. Reencontramos aí um dos enunciados de origem da psicanálise: o inconsciente é o corpo. Interrogarmos os modelos do sentir e do pensar que fazem o corpo é uma forma de esclarecer o que do corpo é capturado e o que do corpo é incapturável em cada exercício de poder que sobre ele se exerce. 83 Didier Anzieu. ) Em resumo. É uma forma. Não há pensamento que não comece pelo corpo tal como não há sentido que não comece pelo corpo mas. não há corpo que não seja pensado tal como não há corpo que não seja sentido. Du moi-peau au moi-pensant. 1997. Le penser.ubi. Paris. www. igualmente. Eles convocam a criação do aparelho de pensar (a função cria o órgão).

i i i i i i i i .

1970. 2004.”2 A. Du Sens. posso dizer que o meu corpo faz sentido. Rivista dell’Associazione italiana di studi semiotici. é. faz sentido o facto de estar aqui a trabalhar. nós não “fazemos” osentido da mesma forma que “fazemos” um objecto (como uma cadeira ou uma mesa) e parece claro que o sentido se faz mais para nós do que nós o fazemos a ele. Lembramo-nos de Greimas e da ideia de que estaremos sempre condenados ao sentido. Fazer sentido é uma expressão que se presta a alguma equivocidade. au gré d’une intuition que patronnent un savoir ou des convictions partagés ou au terme d’un travail descriptif subordonné aux contraintes d’un modèle théorique. empenhado que estou em procurar que as ideias que vou escrevendo façam sentido e. No nosso corpo-a-corpo com as coisas faz-se sentido. Seuil. se sobre isso me questionar. evidentemente. faz sentido ter corpo. Iuglio. 2 1 35 i i i i . como muito bem esclarece Geninasca “le sens que l’on donne. Fazer sentido. Sentido e Significação Encontro-me sentado numa cadeira de pele escura em frente do computador onde escrevo. p. faz sentido a mesa suportar o computador. 1. Paris. alors. ne saurait coïncider avec le sens des choses et des êtres ou des discours dont l’immédiateté tient à notre double inscription dans un corps biologique et dans un corps social. Greimas. Estar aqui faz sentido. Jacques Geninasca. “Quand donner du sens c’est donner forme intelligible” IN E|C. doar sentido às coisas. J. alvo de toda a actividade hermenêutica. por sua vez.i i i i Capítulo 1 Corpo. Mas.1 Faz sentido a cadeira suportar o meu peso.

i i i i 36 José Bártolo O sentido nasce como um acaso antes de ser subjectivado no quadro dos acontecimentos humanos3 . Paixão e Discurso. o direito a sua. 4 Os níveis de experiência com que a semiótica trabalha serão desenvolvidos adiante neste estudo. o corpo começa por ser como que um texto. sentirmo-nos – mediada não só por signos mas. tensiva – fórica. campo de referência do nosso estudo.se. que realizou a semiosis. que enuncia e é enunciado. 1996.labcom. Munidos de determinados instrumentos de leitura. a sua beleza. 103 e segs. o sujeito é. envolvendo uma série de mecanismos e competências. intersubjectivamente. como discurso. tímica e patémica – com outras subjectividades que recebem a sua objectivação no plano social. o sujeito é uma instância discursiva e praxeológica. a sua fragilidade ou a força da sua presença. um documento a ler. Ler. Seguramente estes níveis são atravessados por uma discursificação e uma praxis dinâmicas. A anatomia tem a sua a máquina semiótica. que deve ser entendida como plano sócio-semiótico de produção de sentido do corpo. o design industrial a sua. Resulta daí que a compreensão de si coincide com a interpretação aplicada a estes termos mediadores. enquanto situação. fundamentalmente pelo outro e na relação com o mundo. Vega. Podemos assim considerar a existência de um corpo-sujeito que constrói A formulação é de José Augusto Mourão encontramo-la em Sujeito. semioticizar o corpo. o corpo-que.ubi. qualquer corpo. Trabalhos de Jesus. dissecar. expressão de um sentido fixado4 . p. que fala e responde. De facto. o biólogo.pt i i i i . corresponde a construir o corpo-texto como discurso.12. isto é. Cf. dando conta da significação do corpo.abreoutro. o corpo passa então a poder ser considerado como o resultado do acto de uma instância enunciativa determinada. como paixão e enquanto forma de vida. assim. Sabemos hoje que a semioticização não se detém nos textos e nos discursos. construindo permanentemente corpos. a sua fonte residirá na compreensão de nós próprios – fazermo-nos sentido. das situações e das formas de vida. que o corpo. para dar conta dos quais iremos recorrer à noção de máquina semiótica. supra pág. ela avança para o nível dos objectos. Para alguém orientado pelo olhar semiótico. Para a sociossemiótica. é semioticizado como texto. o coreógrafo. não fazemos outra coisa senão “ler” corpos – a sua estatura. o designer procedem a uma leitura determinada dos corpos. analisar. Dever-se-à considerar. portanto. cada um de nós a sua. enfim. a economia a sua. anatomizar. em relação dinâmica. 3 www. Lisboa. o anatomista.

Se Greimas evoca a parábola bíblica. em grande medida. reversivelmente. Sémiotique en jeu. nomedamente a nota 9. de cada vez e sempre.ubi. 5 www. veja-se. sem dúvida. Aqueles que encontraram o sentido da vida aparentemente estão mortos. A tensão semiótica não resulta senão de um anúncio. A semiótica é uma disciplina tensiva. mas ao construi-lo sob determinadas condições – chamemoslhe contexto semiótico ou contexto maquinico – ao construi-lo no interior de um determinado imaginário – no sentido em que Petitot define a semiótica como estrutura antropológica do imaginário – esse corpo-sujeito poderá ser visto. mas. Poder-se-à. O semiótico deve “honrar o que lhe aparece”.labcom. em cada corpo-a-corpo . Paris. que existir é estar em “tensão semiótica”. é por se aperceber que é essa a tarefa que.agora que vejo a minha mão. sobretudo para uma semiótica que anseia ser. se sentir vivo e. como corpo-objecto. nessa interoperatividade. de cada vez. na medida em que não só os seus procedimentos construtivos sobre o outro não são “livres”. envolve-o uma certa “nostalgia da perfeição” que só deverá agudizar a sensação intensa de.pt i i i i . como a semioticização de base e de profundidade tomará corpo aos dois. À semiótica não se pode exigir a descoberta do sentido mas. agora que observo mais adiante o sofá verde. (Eds. Fanlac. de cada vez. não sé os estatutos de sujeito e objecto podem ser reversíveis. assim. agora que me apercebo do brilho A ideia é também trabalhada por Greimas em “Algirdas Julien Greimas mis à la question”. mais. 1987. 6 A. que ser é estar em tensão e. em cada instante.esteja. vislumbre estésico que ocorre em cada encontro de nós com as coisas. se sentir morrer. de um vislumbre. p. Arrivé et al. Em De la Imperfección Greimas escreveu que “a fronteira entre o observável e o desejável é insustentável. estar à altura do que lhe aparece. e ele o saiba. tão somente.). Greimas. porque essa construção é interconstrutiva. J. A significação tende para o sentido. mesmo que o pleno encontro – a “fusão total do sujeito e do objecto”6 . cabe em sorte ao semioticista: saber honrar o instante. IN M. mas poder-se-ia dizer. Hadès. ao mesmo tempo. uma axiologia.”5 . de um modo igualmente verdadeiro. fundamentalmente. em “vigilante espera”.73. na expressão de Greimas. a explicitação da significação. Périgueux. 1997. De la imperfection. prometido e adiado. dizer que o anatomista se constrói ao longo da operação em que constrói um determinada semiótica do corpo-cadáver. Só há espera no que é antecipável.i i i i Corpo e Sentido 37 um corpo-objecto. aludindo à vã tarefa de “edificar sobre a areia”.

p. E há nisso um sentido que se emudece. . Zilberberg. 1993. ou até de unidades de conteúdo): deverá ter uma noção do alto e do baixo (essencial para o seu equilíbrio corporal). Zilberberg recorre ao mesmo conceito para explicitar. . e assim por diante. numa semiótica do corpo. este consentimento operado pela experiência estética sobre mediação do corpo perceptivo.ubi. A este estado de consentido entre nós e as coisas. algumas “noções” fundamentais (mesmo que a seguir decida institui-las em sistema de categorias. 8 Umberto Eco. Difel. olfactivas ou gustativas. IN Protée.i i i i 38 José Bártolo distante mas intenso de uma estrela na noite escura. ou em geral com o ambiente circundante. “Le schéma narratif à l’épreuve”. Assim que entra em contacto com outros seres. Seja como for que chegue a conferir nomes a estas experiências fundamentais. 66. 7 www. deverá ter noções respeitantes à presença de algo que se oponha ao seu corpo.labcom. p. do penetrar com o dedo uma matéria mole. da luta. C. 1. do coçar-se.7 Nesse corpo-a-corpo entre nós e as coisas estão envolvidos determinados conteúdos decisivos no modo como o sentido se faz. do estar de pé ou deitado. num intercorpo entre sujeito que observa e objecto que aparece. do ouvir. Este ser deverá adquirir. Brodal. Umberto Eco di-lo assim: “Pensemos num ser posto num ambiente elementar.pt i i i i . designa Greimas por coalescência. que sei não ser nunca capaz de dizer plenamente e todavia senti-o e “fizemos sentido” – um ao outro. ainda antes de entrar em contacto com outros semelhantes. A esses conteúdos designa Umberto Eco por primitivos semiósicos e a sua consideração é de decisiva importância numa semiótica do sensível e. Cf. essa experiência que é sustentada juntamente com. 147. certamente elas são originais. Kant e o Ornitorrinco.”8 Se Greimas emprega o termo “coalescência” para definir o poder das sensações que operam em sincretismo. do sentir dor ou alívio. C. do esfregar. do dormir. a actuação simultânea de um programa e de um anti-programa narrativo que assegura o teor tensivo do termo complexo. da cópula. É por a vida ser irrecuperável que a aparência é maravilhosa. seja como for que decida denominá-las. do caminhar. provavelmente da cessação da vida. de algumas operações fisiológicas como engolir ou expelir. do ver. 1999. em particular. aproximando-se de V. da posse ou da perda de um objecto de desejo. do perceber sensações térmicas. XXI. Lisboa. do bater as mãos. do apanhar. do bater.

A semiótica estuda a significação na medida em que ela se ocupa do parecer. corpóreo. apenas pode almejar a estudar a significação. 2001. Relógio d’Água. O Campo da Semiótica. no estudo dos processos a partir dos quais é enunciado um poder-ser do sentido do corpo. www. antes.. Assim é relativamente a uma semiótica do corpo. que embora tendo o sentido como alvo. Uma abordagem intersemiótica do corpo será assim: uma análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro e macro social do corpo. a consideração dos seguintes problemas: A) Análise das modalidades de conversão entre estruturas profundas e estruturas de superfície da significação do corpo. p. no entanto.J. 1976]. Sémiotique et Sciences Sociales. por tradução intersemiótica Jakobson compreendia a operação que permite a transferência de um determinado signo de um regime semiótico para outro. 214. RCL no 29. como a ele se refere Herman Parret. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. O que nós traduzimos falando em análise do devir dos regimes de sentido que fazem significar o corpo.ubi. Mais decisiva é a definição que Greimas avança em Semiótica e Ciências Sociais caracterizando a intersemioticidade como a análise semiótica da dinâmica das relações intersubjectivas constitutiva da mudança micro ou macro social de um determinado objecto [Cf. O real é o que se faz sentido. O semiótico sabe. O conceito de intersemioticidade é originário do pensamento de Roman Jakobson. na introdução ao presente trabalho. Rastier et al. B) Problemas da colocação em discurso e da colocação em acção do corpo. agora. o que se faz sentir. também ele. uma definição mais clara daquilo em consiste a intersemiótica. 11 Herman Parret. Paris.i i i i Corpo e Sentido 39 Na sua microsemântica François Rastier9 mostrou que há certas classes de significados a que os seres humanos são ajustados de modo inato. entre nós e o real. IN F. C) Problemas das relações entre discursos. Paris. “O real é.labcom. Lisboa. Seuil. Masson. o real é. Dissemo-lo já. ela consistirá. 1994. na verdade. A diferença entre o sentido e a significação é análoga à diferença entre ser e parecer. 10 Justifica-se. Greimas.”11 . uma leitura intersemiótica dos processos de significação do corpo associados a práticas e a discursos 9 François Rastier. há algumas disposições ao significado que são de carácter pré-linguistico. práticas e os seus contextos. entre outros. quer dizer que no momento em que se entra na linguagem. “La microsémantique”. Análise essa que pressupõe. que são inerentes a esse corpo-a-corpo original com as coisas. Para a intersemiótica10 recente torna-se claro que há sentido resultante desse intercorpo. do poder-ser do sentido. A. que não iremos aqui desenvolver uma semiótica do corpo mas.pt i i i i . IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. Sémantique pour l’analyse.

Em micro-análise. É sabido que o corpo.ubi. Elaborar um corpus de “motivos semióticos”. 3. claramente pouco sistemático. etc. Uma semiótica do corpo deverá consistir num projecto declinável em. Analisar os procedimentos (conversões meta-semióticas. o anatomista e o designer . descrevendo os diferentes “modelos”. Ao longo dos ultímos 40 anos vão-se tornando perceptíveis os sinais da evolução que se dá no interior da semiótica www. Interessounos mais.i i i i 40 José Bártolo particulares. da sua instrumentalização. só de um modo muito introdutório e. como lhes chamaria Fontanille. do corpo. etc.. pelo menos. na medida em que transforma “operador” e “operado”. Intencionalmente. 2. estratégias argumentativas. partindo de duas premissas semióticas muito claras – a geratividade do corpo e a sua compreensão na ordem da significação – desenvolver uma análise dos processos de “produção do corpo” enquanto processos intencionais de “produção de sentido” do corpo. -o semiólogo. a corporeidade e a experiência sensível são objectos de estudo recente para a semiótica. para falar como Baudrillard.pt i i i i .) que determinam diferentes representações e significações do corpo. desenvolver uma tipologia das configurações discursivas (posições de enunciação. incluindo a própria prática do semiótico que toma o corpo como “objecto de estudo”. da corporeidade.) a partir dos quais os discursos “tratam” as heterogeneidades do corpo. ainda que outros sejam mencionados e pensados. Em macro-análise. e identificar as isotopias sobre as quais eles são “recategorizados”. reconstruir as “representações semânticas” implicadas nos processos somáticos desencadeados pelas práticas e pelos discursos. isto é. sistemas semisimbólicos. mas mais do que a análise das operações concretas por cada um praticadas. reconfiguração dos processos narrativos. Ter-se-à privilegiado a análise de três operadores. nos aproximamos do desenvolvimento de tal projecto. os seguintes quatro pontos: 1. o que sempre nos interessou foi entender como o corpo se dá a ser operado e como essa operação discursiva é inter-relacional.labcom. 4.

Esta evolução da semiótica é devedora. Não é menos certo. De facto. Há uma relação de pressuposição que se estabelece entre o surgimento de uma “existência” (a do sentido) e o exercício de uma competência (a do sujeito): o sujeito semiótico competente faz ser sentido. que. 8. em definitivo. para uma semiótica das situações. como um método de análise do conteúdo. na maior parte das vezes. de Greimas. mas por causa de um mal-entendido sobre o objecto.”12 . dela se esperava que dissesse o sentido dos textos. A atenção que a semiótica hoje dedica ao corpo não será surpreendente se nos recordarmos que. porém. enunciando-o). se tratam de duas abordagens distintas. é pensado como resultante de um acto semiótico gerador. foi dentro do campo da fenomenologia que nasceu o empreendimento semiótico lançado por Greimas.i i i i Corpo e Sentido 41 discursiva concebida na perspectiva de Hjelmslev e. Sémantique structurale. sobretudo.labcom. durante muito tempo. quer de fora da semiótica foi colocada de um modo de certa forma distorcido. 12 A. A semiótica foi tida. do trabalho de Greimas. da relação entre um observador competente e o sentido enquanto “alvo”. O sentido releva de um acto (para a semiótica só há sentido em acto. Em muitos aspectos. apesar destas afinidades. só há fazer sentido na medida em que no corpo-a-corpo entre um sujeito e um objecto o sujeito o faz ser. Larousse. Paris. Greimas. Essa evolução manifesta-se através da integração sucessiva – da semioticização – de três tipos de objectos: passou-se de uma semiótica dos discursos enunciados. hoje. a pesquisa mais avançada se volta novamente. no início dos anos 60.ubi. A semiótica postula que o sentido não está “nas coisas”. P. J. não por falta de instrumentos de leitura. Esta abertura da semiótica em termos de objectos e problemáticas veio ajudar a disciplina a sair de uma problemática do “texto” que. quer de dentro. www. construção dinâmica. antes resulta na sua colocação em forma. Nisto distingue-se o “olhar semiótico” do “olhar fenomenológico”: o sentido longe de ser apreendido ou recebido. antecipadora da actual semiótica da experiência sensível que se ocupa da análise da nossa presença no mundo enquanto portadora e produtora de sentido. através da dimensão do sensível e da “estesia”. 1966. a presença do corpo e a mediação da percepção como “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. redescobrindo. não sendo razoável diluir a semiótica na fenomenologia ou a fenomenologia na semiótica.pt i i i i . tarefa que a semiótica não poderia realizar. é para esta mesma fonte de inspiração que. geratividade.

A abertura ao sensível que passa a caracterizar alguma da semiótica mais recente representa um momento de avanço 13 Luce Irigary. e construi-lo a dois. p. Minuit. o semiótico deve evitar ater-se aos termos polares (vida/morte. corpo-a-corpo. que seja coisa a ser descoberta. ao seu aprofundamento e à sua reinterpretação no quadro de uma intersemiótica contínua. O sentido é antes um tesouro peculiar. em segundo lugar. que subsume os precedentes. outra enquanto “objecto”. isto e o seu oposto). “Les couleurs de la chair”. separá-los. competentes para interagir em situação. permutáveis. Sexes et parentés. sobretudo dos termos subcontrários que regem espaços instáveis e designam zonas de transição. semioticamente falando. devires (já não totalmente isto. dentro/fora.labcom. colocando o semiótico como uma espécie de descobridor que escava os textos até encontrar neles escondido o tesouro.”13 . Nas últimas décadas um conjunto de princípios gerais estiveram na origem de uma evolução teórica que conduziu inicialmente à radicalização dos fundamentos da semiótica narrativa clássica – uma teoria da acção “em papel” foi pouco a pouco substituída por uma teoria do sentido em acto – e. que anseia sugar o sentido das coisas qual sangue de que se alimenta. www. 1987. e geralmente são-no. segundo a imagem de Umberto Eco. como produto da colocação em presença de duas instâncias. em compensação. concentrar a atenção nas estratégias de sentido fundadas na exploração do termo complexo (ao mesmo tempo. Paris.pt i i i i . para que ele exista há que construi-lo. o semiótico deve evitar considerar qualquer elemento de uma relação isoladamente dos outros. Luce Irigaray escreveu que “a significação devia exprimir o corpo e a carne e não cortá-los. em síntese. uma enquanto “sujeito”. mesmo/outro) utilizados para manifestar as categorias semânticas de base. isso não quer dizer que o sentido esteja presente como uma propriedade. uma espécie de vampiro. mas ainda não verdadeiramente o oposto). Os princípios gerais que proporcionam essa evolução podem ser. oferecendo uma e outra o carácter de entidades organizadas.i i i i 42 José Bártolo se os textos (assim como outras coisas) fazem sentido. 173. mesmo que estas posições sejam. tratando-se de dar conta dos processos de construção do sentido em acto. depois. na análise dos sistemas de representações e de valores. mas também do termo neutro (nem um nem outro) que torna possível a sua superação e. por exemplo “um sujeito” independentemente de “outro” sujeito/objecto. devendo. identificados: em primeiro lugar. a nossa carne envolvida na carne do outro.ubi. Porque se ele existe só pode ser.

de um modo que mesmo que se considere parcial não deixa de ser pertinente. 10-11.ubi. contudo. 174. pelo menos de forma decisiva. o que justifica que algumas referências cronológicas sejam feitas. 15 14 www. Relógio d’Água. Identificar os cenários. limitando-se às funções e acções. por exemplo. E. pp. 2004.”15 Para enquadrar melhor a posição da qual partimos é necessário avaliar a evolução recente da semiótica. IN Ma Lucília Marcos e A. José Augusto Mourão. a tarefa da semiótica interpretativa. a significação discursiva dos “textos” repor. ainda. em grande parte sob a J.ta..pt i i i i . “ Ego affectus sum”. estabelecer entre eles relações do tipo inferencial (relações de dependência unilateral). situá-las no quadro do espaço euclidiano e do tempo linear que lhes são próprios tal é. José Augusto Mourão nos recorda que “A morfologia de Propp excluía a dimensão passional dos textos. não experimenta qualquer paixão. “desempatar” uma visão da semiótica bipartida entre as análises “gerativas” (mais ou menos inspiradas na teoria greimassiana) e as análises “interpretativas” (identificáveis com a semiótica de Umberto Eco herdeira de Peirce). Cit. a narrativa é uma concatenação tanto de acções como de paixões que se convertem umas das outras. Lisboa.i i i i Corpo e Sentido 43 importante ao nível dos estudos semióticos contribuindo. Fernando Cascais. O lector in fabula de Eco. p. Corpo. celui de notr “ monde” ou celui d’un quelconque “monde possible”. Loc. digamolo de modo rude. Um tal tratamento dado ao problema da interpretação tende sempre a ignorar a função dialógica que pode revestir dificuldades ou impossibilidades de sentido. Geninasca.ta-se fundamentalmente à análise do encadeamento de determinados “cenários” sem se considerar. les sémiotiques interpretatives on ceci de particulier qu’elles subordonnent la question de la cohérence discuirsive au double respect d’un savoir de nature encyclopédie et des príncipes de la pensée logique dont dépend le vraisemblable.labcom. RCL no 33. os esquemas semânticos que condicionam a interpretação. para. Em relação aos “semióticos interpretativos” Geninasca comen. não levando em consideração que determinadas dinâmicas de paixão enunciativa – por exemplo sentimentos de frustração ou de cólera do leitor – desempenham um papel fundamental na produção de sentido. em traços gerais. que: “Relativement peu soucieuses de l’ organisation des énoncés verbaux. Foi no decorrer dos anos 60. qualquer que seja a sua manifestação linguística.”14 Nesta perspectiva. Técnica e Subjectividades.

Paris. Cultrix. reeditado em 1986 pelas PUF. ainda que sob a influência da edição da obra de Propp em 197020 os semioticistas sejam orientados numa outra direcção (ainda que complementar da primeira). da criação da Associação Internacional de Semiótica de que Greimas foi secretário geral. ano. 18 Cf. 18-25 . Paris. no Brasil. Barthes. 16 www. uma renovação completa da problemática semântica.i i i i 44 José Bártolo influência da obra de L. São Paulo. Hjelmslev. em 1966. Morphologie du conte. por exemplo. visando. 19 A. apontando duas espécies de fraquezas ou insuficiências: “Certos semióticos não souberam ter em conta os resultados de um Dumézil ou de um Lévi-Strauss. 1970. como a análise sémica. uma tipologia da relação de “diferença” relativamente aos objectos semióticos.J. J.J. B. no seu prefácio à Introduction à la Sémiotique Narrative et Discursive de Joseph Courtés.ubi. São Paulo. Greimas. como o quadrado semiótico. prefigurado por A. também. Hjelmslev16 que um pequeno grupo de lexicólogos e linguistas franceses (principalmente A. Pottier. Surgem-nos. O desenvolvimento das estruturas elementares da significação. R. na sua Semântica Estrutural19 . IN Critique. Cf. Greimas. É no final dos anos 60 que Hjelmslev é “descoberto” em França com a tradução da sua obra maior.labcom. 1967. pág. terá continuidade. Propp. na revista “Critique”18 . Prolégomes à une théorie du langage. uma série de análises estruturais da narrativa. neste contexto. Pottier.) 17 Da acção de Greimas. bem expresso. Pottier e Quemada nasceu a revista Langages. B. L. em 1975 (Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Isso mesmo é comprovado com o aparecimento de novos métodos. de novos instrumentos de descrição e análise. Dubois. em 1966. 1966. na véspera da tradução francesa da obra de Hjelmslev. Seuil. 1975. a tradução portuguesa aparecerá. na esteira de Jakobson. Minuit.pt i i i i .) 20 V. determinando a emergência de objectos de valor face a sujeitos de carácter antropomorfo susceptíveis de os manipularem de acordo com certas regularidades. Larousse. “ Au-dèla du structuralisme en linguistique ”. em particular. Pottier publicado em 1967. baseadas no reconhecimento das estruturas ditas de “superfície”. EDUSP. movimento esse que iria desencadear. Paris. 1973. Barthes. no importante ensaio de B. assim iniciada. Perspectiva. em que os conteúdos mínimos previamente categorizados (em nível semântico “profundo”) investem em figuras do mundo. No 237. Paris e traduzido para português em 1973 (Semântica Estrutural. 1968. Sémantique Structurale. Guiraud. Mathoré e A. F. É conhecida a crítica então desenvolvida por Greimas. Greimas) iniciou um movimento de reflexão crítica17 no seio da corrente estruturalista.

23 Cf. 25 Idem. Semântica Estrutural.i i i i Corpo e Sentido 45 que evidenciaram a existência das estruturas profundas.24 Diz-nos Greimas que “se as ciências da natureza se indagam para saber como são o homem e o mundo. começa com uma análise de Greimas onde nos é afirmado que.22 . de maneira mais ou menos explícita. 21 www. Ibidem. sendo a significação “omnipresente e multiforme”23 . as ciências humanas.ubi. 9.pt i i i i . 1973. igualmente.labcom. mas subjacentes às manifestações da narratividade de superfície de tipo proppiano”21 . IN J.25 Apesar disso. de resto. 1979. Pág. Introdução à Semiótica Narrativa e Discursiva. Dito de outro modo. seria aos problemas da colocação em discurso das estruturas semio-narrativas pertencentes aos dois níveis trabalhados pela semiótica narrativa (“profundo” e de “superfície”) que a semiótica consagrou o essencial dos seus esforços. J. Pág. organizadoras dos discursos. uma teoria geral do fazer. Cultrix. o nível profundo a que pertencem as estruturas elementares (tão bem analisadas por Lévi-Strauss) e as estruturas discursivas serão objecto da semiótica discursiva. “ As aquisições e os projectos ”. Greimas. 21 e segs. São Paulo.J. 11. Perante o facto (detalhadamente examinado por Greimas na sua interpretação do esquecimento a que a semântica fora votada e na sua crítica à linguística bloomfieldeana e ao formalismo behaviorista) de não haver uma disciplina científica adequada para tratar a significação. Courtés. Greimas. Posteriormente. considerava Greimas não existir uma disciplina adequada para responder capazmente a esse questionar do sentido das coisas humanas. o nível de superfície será objecto da semiótica narrativa. Livraria Almedina. Greimas propõe-se “reA. pág. a ponto de a realidade poder ser definida como um “mundo de significação”. de que um primeiro momento se encontra desenvolvido na elaboração da já referida semiótica da acção. de ambição axiológica. um exame crítico por parte de Greimas que lhe apontou várias lacunas ao mesmo tempo que lançava as bases da sua semiótica da acção. 22 Idem. 24 Idem. Ibidem. A. mereceu. A Semântica Estrutural. pág. “morfologia” que. EDUSP. interrogam-se sobre o que significam um e outro”. o denominador comum das ciências humanas é a pesquisa acerca da significação. Ibidem. 15. mas estas demarcações técnicas mascaram um projecto de maior fôlego. Coimbra.

à maneira de Monsieur Jourdain. portanto.pt i i i i . por intermédio de interdiscursividades28 . reinstituindo uma memória disciplinar através da filiação na tradição saussuriana e hjelmsleviana.i i i i 46 José Bártolo flectir acerca das condições pelas quais seja possível um estudo científico da significação”26 Bakhtin ensinara que o dialogismo é o fundamento de toda a discursividade27 . 88.ubi. também. T. 29 Idem. contemporânea de Greimas. 1981. nas palavras do autor: busca uma explicação extra-linguística para a significação. Hachette. concebida como a “união. distinto do “formalismo” que preconiza que a linguística nada podia dizer sobre o conteúdo. 24. instaurando um novo domínio de pesquisa. e uma linguagem metodológica. A proposta de análise discursiva lançada por Greimas é em tudo diferente aquela que. 28 D. que defina os conceitos descritivos e verifique a sua coesão interna”29 O discurso greimasiano é decididamente fundador. começa a definir-se o projecto semiótico que Greimas vai construindo e que se pretende: alicerçado na verdadeira tradição saussuriana. para tal. mas. de um “voltar-se para as próprias coisas”. Ibidem. Mikhail Bakhtine: le príncipe dialogique. sem o saber”. o analista da sua “memória discursiva”. o que significa que o discurso não nasceria. Nouvelles tendances en analyse du discours. Ibidem. baseia-se no beletrismo e. estabelecendo uma semântica científica. Pág. fundado no princípio da imanência. valendo-se. Todorov. A análise do discurso. 1987. postula o formalismo em linguística e faz “semântica. A partir daqui. hipoteticamente. Seuil. como era por vezes sua pretensão. Pág. Cf.labcom. de duas meta-linguagens: uma linguagem descritiva ou translativa. Paris. onde as significações contidas na linguagem-objecto poderão ser formuladas. Paris. critica a criação de uma metalinguagem descritiva. defendia que todo o discurso se constitui numa relação polémica com outros discursos. vale-se da introspecção ou das categorias da retórica clássica para a análise da significação. rompendo com uma determinada visão da linguística. porta de entrada para o acolhimento da Idem. Maingueneau. 27 26 www. pela relação de pressuposição recíproca. funda-se numa tradição pseudo-saussuriana. antes se formava. procura “explicações qualitativas tradicionais”.

“Da semiótica e seu objecto”. Jakobson. apurar as razões para o que é considerado um dado adquirido. Dumézil. reafirmar os signos como objecto da semiótica. Apud. pág. vai-se tornando claro que Greimas e os semióticos unidos em torno do projecto da revista “Langages” se afastam da definição apresentada por Saussure no Curso. intencionalidade e comunicação. Fifalgo. a enunciação (outro dos conceitos decisivos mencionaMoisés Lemos Martins. corpo-a-corpo.pt i i i i . por outro. consiste em colocar a questão de saber como a significação acontece e como a existência semiótica advém aos “sujeitos”. A função semiótica. e justificar esse entendimento. pp. 30 www. Lévi-Strauss. 1999. 20. muito menos a seguir algumas leituras suas contemporâneas. interacção. Encontramos em Moisés Lemos Martins uma compreensão da semiótica claramente influenciada pelo projecto greimasiano: “Não circunscrevemos a semiótica ao regime do signo. isto é. pág. E enquanto num caso acentuamos o domínio da escrita. Quer isso dizer que pensamos a semiótica como disciplina da significação”30 e já não como “ciência dos signos”31 .ubi. mostrar que esse é o entendimento laragmente predominante na comunidade científica internacional. Op. não se limitando a segui-la e. entre sujeito e objecto. De algum modo retomo os propósitos do artigo de Umberto Eco “Signo” na Enciclopédia Einaudi”. e suspendemos a relação com o contexto.labcom. para proporem uma teoria da significação que dê conta das condições de produção e de compreensão do sentido. Cf. Programa e Metodologia. Série Comunicação. 19-20. À época da publicação da Semântica Estrutural. dito do modo mais simples. É bem sabido que Greimas reinterpreta a obra de Saussure. Fidalgo.i i i i Corpo e Sentido 47 semiótica a propostas de autores como Brödal. Cit. O postulado semiótico é o de que a significação não está nas coisas mas resulta da sua colocação em forma (que pressupõe uma determinada “competência” do sujeito) resultante da relação.. Cadernos do Noroeste. bem como Bergson e Merleau-Ponty entre outros. A. 12 (1-2). Semiótica. 1 e 2. reflectividade. 31 António Fidalgo comenta de um modo muito pertinente a exposição de Moisés Lemos Martins com um duplo intuito: “compreender o abandono dos signos pela Escola de Paris. e. Pensamo-la antes na confluência de dois níveis semânticos não sígnicos: o da textualidade/discursividade e o da enunciação. intersubjectividade. A. Vol. o domínio do objecto textual. Universidade do Minho. colocamos a ênfase nas dimensões da prática discursiva. IN Comunicação e Sociedade 1. segundo a qual a “a semiótica é a ciência que estuda os signos no seio da vida social”. no outro. Relatório para provas de agregação.

de tal maneira que cada um dos seus patamares possa receber uma representação metalinguística explícita. como a consideração da percepção como o “lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação”. sob influência de Merleau-Ponty.labcom. Ibidem. Pág. no percurso gerativo.. o enunciado aparece como o objecto cujo sentido faz o sujeito ser. 327.34 Como sabemos. aí. Semântica. chamada de percurso gerativo. Enquanto esta. 27. Ao estudar a estrutura elementar da significação. assim. além de uma teoria geral e sintagmática da significação. a interpretação desenvolvida por Jacques Fontanille sobre A. indo dos investimentos mais abstractos aos mais concretos e figurativos.. Greimas estabelece. segundo Greimas. Aparecemnos. Actualmente a semiótica. 34 Idem. dois componentes: um sintáctico e um semântico. A economia geral de uma teoria semiótica. as estruturas semionarrativas das estruturas discursivas. remontando ao nível mais alto possível”33 . Pág.”32 . Greimas. onde estão a sintaxe e a semântica fundamentais. assim. dispostos em patamares sucessivos. Greimas e J. cujos procedimentos são a actorialização. como uma teoria gerativa. 1979. a ruptura com a “linguística tradicional”. O nível das estruturas discursivas apresenta a sintaxe discursiva. que contém a sintaxe e a semântica narrativas. e um de superfície. distinguindo-se. o projecto greimasiano vai focalizar o problema da significação. 33 A. “a tarefa do linguista histórico consistia em reduzir diferenças a identidades. A. Courtés.ubi. insistia habitualmente no carácter contínuo dos fenómenos linguísticos. 15. Sémiotique. Greimas e Courtés reconhecem. que a semiótica concebe o sentido como sendo gerado “sob a forma de investimentos de conteúdos progressivos.i i i i 48 José Bártolo dos por Moisés Martins) é o acto pelo qual o sujeito faz o objecto ter sentido e. Paris. de modo explícito.. J. cujas operações são a tematização e a figurativização. Pág. apresenta-se. correlativamente.pt i i i i . também. pois. e a semântica discursiva. isto é. Desde a publicação do Dicionário por Greimas e Courtés. 32 www. a disposição dos seus componentes uns em relação aos outros na perspectiva da geração é.quelas apresentam dois níveis: um profundo. algumas das características fundamentais do projecto semiótico de Greimas. descontinuidades no plano da percepção. J. afirmando. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Hachette. a temporalização e a espacialização.

il détermine. de l’autre côté. et. o novo estatuto dado à percepção.. suspendendo. corps propre qui a la propriété d’appartenir simultanément aux deux macrp-sémiotiques entre lesquelles il prend position.i i i i Corpo e Sentido 49 a obra do último Greimas levou-o a fazer a passagem da semiótica do discurso para a semiótica do contínuo que domina uma estrutura tensiva dependente das flutuações do corpo próprio. . Pulim. dans le monde où il prend position. 1998. D’un côté. de certa forma. . Pág. encontramos o trabalhar desse tema. univers intérioceptif. entre la perception du monde extérieur. p. uma a partir da interioceptividade outra da exterioceptividade: “Le corps propre est une enveloppe sensible..ubi. para Fontanille (mas não o era já. www.pt i i i i . ) a afirmação de que as significações do mundo humano se situam ao nível da percepção consiste em definir na sua exploração no mundo do senso 35 36 Jacques Fontanille. la perception du monde intérieur. consequências dessa posição: “(. grâce au corps propre du sujet de la perception. 15. retirando. com alguma influência merleau-pontyneana. para o ultímo Greimas?) o lugar não linguístico onde se situa a apreensão da significação. qui détermine de ce fait in domaine intérieur et un domaine extérieur. A. Sémiotique du discours. . tem “a vantagem e o inconveniente de não poder estabelecer. Partout où il se déplace. et ce. et un univers proprioceptif. uma classe autónoma de significações linguísticas. 35. Para Jacques Fontanille a significação é o acto que reúne duas macro-semióticas. et la percéption des modifications de l’enveloppe-frontière elle-même (. La signification est donc l’acte qui réunit ces deux macro-sémiotiques. implicitamente. . Limoges. Semântica. Greimas. l’intérioceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une langue naturelle. Greimas anota que. conceito de raiz fenomenológica. l’ extéreoceptivité donne lieu à une sémiotique qui a la forme d’une sémiotique du monde naturel. Na Semântica Estrutural. A função semiótica passa a estar centrada sobre o corpo próprio. que ocupa na semiótica fontanilleana o lugar dado por Greimas à percepção: o corpo próprio é. é possível. hoje decisivo: a relação entre a semiótica da língua natural e a semiótica do mundo natural. a distinção entre a semântica linguística e a semiologia saussuriana”36 . no seu estatuto particular.). J. ambas geradas pelo corpo próprio. .labcom.”35 . un clivage entre univers extéreoceptif. já.

central em Saussure e Hjelmslev. 37 Idem. o que funda os “objectos semióticos” é a produção e/ou o reconhecimento das redes relacionais. bem como. talvez nos ajude a perceber. Greimas defenderá que um elemento linguístico isolado não comporta significação. o facto de o corpo próprio ser a nova instância a partir da qual a semiótica passa a pensar o sentido. 16.labcom.i i i i 50 José Bártolo comum.pt i i i i . da relação. no mundo sensível. Ibidem. ou. a sua produção.ubi.Revisitez l’opposition extéroceptivité vs proprioceptivité de la physiologie que vous identifiriez aux plan de l’ expression et du contenu de la nouvelle sémiotique. Na brilhante síntese feita por Geninasca da semiótica fontanilleana.37 Recuperando a categoria. www. Pág. com menos surpresa. como se diz. Este enquadramento. a sua interpretação. A semântica é reconhecida assim abertamente como uma tentativa de descrição do mundo das qualidades sensíveis”. a significação pressupõe a existência da relação. percebemos que a partir do corpo próprio é possível ao semiótico: • “ .

Vous obtenez deux gradients correspondant aux paramètres par rapport auxquels vous mesurez tensions et détentes en rapport avec l’intensité de la “présence de quelque chose”. Cit. les seules déterminables en vertu de leurs positions relatives. à cet effet.”39 38 39 J. atravessado que é por fluxos. Loc. directement ou indirectement proportionnel. • Le passage des schémas tensifs de l’“énonciation en acte” aux structures catégorialles de la “sémiotique classique” est désormais assuré. Geninasca. www. la seconde apparaissant désormais comme la transposition. Fontanille. les droites diagonalement orientées qui expriment le rapport des variables préalablement etenues. é uma das unidade de análise da semiótica. Sémiotique et littérature. • Après avoir réservé quatre “zones extrêmes”.. J. uma instância de devir. mais ou menos numerosos. sabemo-lo. vous obtiendrez une représentation visuelle en tout comparable avec celle du “carré sémiotique”.i i i i Corpo e Sentido 51 • Ravivez-la en la distribuant sur l’abscisse et sur l’ordonnée d’un schéma non sans l’avoir préalablement rebaptisée : retenez.ubi. des modulations de la présence. centro de enunciação. • Une fois établis deux graphiques. que fazem “aparecer. par des valeurs minimales (distintes de zéro) ou maximales (à definir). • Postulez à ce point. um agenciamento de enunciação. em definitivo. espaço de devir. um desejo de fazer sentido. nesta perspectiva não há discurso que não comporte uma arquitectura. organizado em torno de um corpo próprio. mais ou menos rápidos. Não há. surposez-les: vous dispozes désormais d’un “schéma de la structure tensive”. que é permanentemente agenciado. O discurso. discurso que não comporte uma erótica do sentido. dont vous aurez limité en leurs extrémités. entre les degrés de l’abscisse et de ’ordonnée un rapport de corrélation. pp.”38 Plotino definia a arquitectura como “aquilo que fica do edifício quando se retira a pedra”. dans l’ordre du discontinu. Na semiótica de Fontanille o discurso é um campo de presença. 73. les termes “saisie” et “visée”.labcom. p. 10-11. desaparecer e que modificam os valores.pt i i i i .

que o corpo é produtor mas também produto de determinadas modalidades de sentido. hic et nunc . para falar como Fontanille ou Zilberberg. as sensações. a partir de que operadores se constituem formas dominantes de poder-fazer-sentido. O poder de fazer sentido que se exerce sobre um determinado corpo exercese tendo em vista objectua-lo.“eu” (identidade). Numa palavra. que aquém e além envolvem o corpo próprio. os afectos.labcom. a partir de uma análise das variadas modelações de tensão discursiva. que é antes de mais. 40 Per Aage Brandt. “aqui” (espacialidade). mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. modela-lo de acordo com uma construção de sentido particular. o corpo.”40 Parece-nos que uma semiótica do corpo não se pode. Neste sentido a semiótica terá de considerar não apenas o corpo próprio para reconhecer na sua expressão a produção do acto de enunciação enquanto acto de presença a partir dos dícticos ego. do design à biologia. sob que forma. torna-lo objecto. www. a partir delas produzidos. É a esta dinâmica de produção de sentido relacionada com um determinado poder-fazer e poder-saber que nós designamos por produção associando-a à acção de um determinada máquina semiótica. pelo menos no plano da intersemiótica ou da sociossemiótica. poder semiótico: poder de fazer sentido. ela não pode evitar de tomar como objecto de trabalho os discursos sobre o corpo e os discursos do corpo que se produzem em variados domínios. Aarhus University Press. “agora” (temporalidade) – deverá ser capaz de reconhecer nessas acções vivenciais e nos sistemas de signos.pt i i i i . 3. p. os regimes de produção. desenvolver sem o envolvimento de uma semiótica das produções semióticas. de uma semiótica que esclareça em que condições. Dynamiques du sens. as situações da produção.ubi. para falar como Jakobson ou Deleuze. Não andaremos aqui muito longe da semiótica dinâmica de Brandt para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. nos discursos. numa palavra. a semiótica deve ser capaz de considerar. 1994. A um determinado regime de signos estará sempre associado um determinado regime de poder. a partir da análise dos agenciamentos. capazes de materializarem esse poder sobre o plano das coisas e sobre o plano da vida.i i i i 52 José Bártolo A partir do momento em que a semiótica passa a considerar as percepções. da medicina às biotecnologias.

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Há não muito tempo, Gianfranco Marrone, alertava para a urgência em se desenvolver uma semiótica do corpo: “In primo luogo, emerge in tutta la sua urgenza il problema di una semiotica della corporeità. Più volve la semiotica s’è posta il problema del corpo, facendo riecheggiare al suo interno questioni ora di origine psicanalitica (Kristeva), ora di derivazione letteraria e antropologica (Bachtin, Ponzio), ora di orientamento marxista (Prieto, Rossi-Landi, Miceli), ora di marca cognitivista (Violi). In tutti questi casi, anche se per ragioni opposte, il corpo resta in qualche modo esterno al linguaggio.”41 . O facto do corpo ser “corpo estranho” para a linguagem, também tinha, seguramente, a ver com uma concepção empobrecedora da linguagem; a linguagem era pensada como um simples “mediador” entre sujeito e objecto, em vez de ser considerada como o lugar da interconstituição de um e de outro. A análise intersemiótica do corpo que aqui se inicia começa pelo princípio, pela reflexão sobre a semiologia, para quem o corpo é um signo; esta reflexão parece-nos decisiva pelo modo como, por exemplo, a relação entre a semiologia, enquanto tarefa de ler o “exterior” do corpo, e a anatomia, enquanto tarefa de “ler” o interior do corpo, nos surge, expressando uma solidariedade da qual resultava uma determinada construção do corpo. O semiólogo tal como o anatomista, na antiguidade, na idade média e, certamente, ainda na modernidade, não são simples “leitores” da carne, entre eles e a carne que eles estudam, desenrola-se um corpo-a-corpo do qual, de uma forma ou de outra, a força do operador (o semiólogo, o anatomista, o médico, o padre, mas também, o senhor feudal, o pai, o marido etc.) se impõe sobre o operado (o corpo doente, o corpo cadáver, o corpo do escravo, o corpo da mulher etc.) produzindo-o, podendo sobre ele passar a fazer sentido.

Gianfranco Marrone, “Tre esteticher per la semiótica”, IN E. Landowski et al., Semiótica, Estesis, Estética, Educ/Uap, São Paulo, 1999, pág. 65.

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Capítulo 2

O signo e a sua história
O termo que a tradução filosófica ocidental traduziu como signo é, na tradição latina, signum e, em grego, σηµειoν ugle aparece como termo técnicofilosófico no século V, com Parménides e com Hipócrates que o encontram no léxico dos médicos e semiólogos que o antecederam. σηµειoν gurge, muitas vezes, como sinónimo de tekmerion (“indício”, “sintoma”) e uma primeira distinção decisiva entre os dois termos só surge com a Retórica aristotélica. Alcméon diz que “das coisas invisíveis e das coisas mortais têm os deuses imediata certeza, mas aos homens cabe proceder por indícios (τ εκµαιρεσυαιp”.1 Como dirá Peirce, “um signo é algo através do conhecimento do qual nós conhecemos algo mais” daquelas coisas que não poderemos nunca conhecer plenamente. Remete-nos, pois, para uma certa ideia de representação, ínsita à linguagem, quer “das coisas invisíveis” quer das “coisas visíveis”. De resto, pelo signo como que se gera um encontro particular entre uma determinada invisibilidade que não se conforma nunca plenamente no que é visível. Se é verdade que a semiótica até à segunda metade do século XX não tomou o corpo como objecto de análise, também é verdade que a história do signo, da sua classificação, e das operações signicas, é indissociável da história do corpo e da sua gradual tecnicização – a primeira técnica aplicada ao corpo é, claramente, a linguagem – e objectivização.
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Idem, Ibidem.

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Os médicos Cnídios conheciam o valor dos sintomas: parece que os codificavam em forma de equivalência. Hipócrates considera que o sintoma é equívoco se não for avaliado contextualmente, tendo em conta o ar, as águas, os lugares, a situação geral do corpo e o regime que poderá modificar essa situação: estabelece-se assim uma semiótica dinâmica em que o sintoma vai sendo deslocado do corpo físico do paciente para o próprio espaço semiótico e, nele significando, um determinado estado do corpo. Umberto Eco considera que Hipócrates não está interessado nos signos linguísticos. De certa forma, o signo remete para uma corporização, para qualquer coisa que ocorre no corpo e que deve ser identificada e classificada. Essa classificação seria, seguramente, linguística, mesmo que, à época não se aplicasse o termo signo às palavras. Mas parece claro que o estudo anatómico antigo fornecerá matrizes que serão decisivas para, pelo menos, a gramatologia medieval. A sintaxe, a semântica e a pragmática são, antes de mais, conceitos anatómicos. É incerto se a anatomia formatou a filosofia da linguagem ou se a filosofia da linguagem formatou a anatomia certo é que entre o estudo do corpo físico e a definição de um corpus linguístico as trocas foram permanente e intensas. Depois do desenvolvimento da clínica, isto é, depois de Hipócrates, a questão do signo torna-se, como bem mostra Michel Balat2 , central. O diagnóstico médico feito na antiguidade é indissociável do que poderíamos designar, utilizando um termo que Peirce foi buscar à filosofia medieval, a elaboração de uma gramática especulativa. Importa, no entanto, sublinhar que a partir dela se desenvolvia um processo de gramatização quer da doença, quer do corpo do doente e, por contraposição, da saúde e do corpo saudável. As análises ulteriores desenvolvidas no capítulo 2 dedicado à “História do Corpo: o Corpo-Objecto” permitem perceber como a anatomia antiga, medieval e moderna, de modo diferente, sempre se constituiu como uma gramatização do corpo, quer do corpo cadáver, quer do corpo vivo. Mais, ver-se-à que a anatomia deve ser associada a uma tipologia dos regimes de signos (que sofre alterações na passagem da anatomia antiga, para a anatomia medieval e desta para a anatomia moderna e contemporânea) que, por sua vez, se duplica numa tipologia de formações de poder. A anatomia semioticiza o corpo e, essa produção semiótica do corpo, não só constrói o objecto (um modelo
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Michel Balat, “Peirce et la clinique”, IN Protée, volume 30, numéro 3, pp. 9-24.

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particular do corpo), como constrói as operações que sobre ele se exercem, como impõe, ainda, os operadores epistémicos que validam um saber e um fazer. Não há construção de objecto semiótico que não seja integrável numa determinada tipologia de poder que define, em relação ao objecto semiótico, um saber e um fazer. Com Platão e Aristóteles, quando se fala das palavras pensa-se já numa diferença entre significante e significado e, sobretudo, entre significação e referência. Mas Aristóteles em todas as suas obras onde se ocupa do estudo da linguagem mostra-se renitente em usar o termo semeion para as palavras.

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O signo necessário vai do universal ao particular e pode.pt i i i i . Aristóteles distingue aí dois tipos de signos: o primeiro tipo de signo tem um nome particular. 1 – 1357 b. Uma classificação dos signos aparece na retórica a partir de 1357 a. na passagem onde se diz que os entinemas se extraem dos verosímeis (eixota) e dos signos (σηνεια). a partir da qual se gramatiza o corpo – quer o corpo cadáver quer o corpo vivo. τ εκηµριoν . p.40. servir de premissa a um silogismo. como facilmente se entende. 35. De certa forma. garantiria ao anatomista uma coerência entre saber e fazer que seria sustentada pela referida gramática especulativa. regendo-se o termo linguístico (símbolo) pelo modelo da equivalência. Eco. www. no sentido de “prova”. podendo ser traduzido por “signo necessário”: se tem febre logo está doente. 3 Cf. Tal conversibilidade. Aristóteles instaura o modelo da equivalência usado pelos anatomistas seus contemporâneos no domínio da linguagem: o termo é o equivalente da sua definição e nela é plenamente conversível3 .ubi.labcom.i i i i 58 José Bártolo Médico tratando doente (final do Século XVII) Na Retórica o signo é sempre entendido como princípio de inferência. neste sentido.

de antecipar o que.”5 Entre os incorporais aparece-nos uma categoria semiótica decisiva: o λεκτ oν estóicos falam de λεκτ α completos e incompletos. modos de ser. uma maneira de ver as coisas. Eco.ubi. então tem febre”. Quanto ao conteúdo ele não é. são estados de coisas. Quanto à linguagem verbal distinguem. “expressão”. admitir. com clareza.i i i i Corpo e Sentido 59 O segundo tipo de signo não tem um nome particular. “conteúdo” e “referente”. uma imagem mental ou ideia. o elemento linguístico articulado e a verdadeira palavra. como se dedicam a uma análise anatómica da linguagem.4 Da expressão. que o mesmo conteúdo pode significar com expressões de línguas diferentes. “os incorporais são entia rationis na medida em que um ens rationis é uma relação. não só aprofundam a múltipla articulação. ainda. muito mais tarde. os λεκτ α incompletos são elementos que se compõe na 4 5 Cf.labcom. p. que apenas subsiste quando relacionada e relacionável com um conteúdo. Trata-se. Também os estóicos parecem não unir claramente doutrina da linguagem e doutrina dos signos. Por exemplo no juízo “Se tem os lábios rebentados. Devemos aos estóicos o estabelecimento da natureza provisória e instável do signo em que se baseia. 41. sendo a forma lógica da conjunção e não da implicação. O λεκτ oν completo é a proposição. muito da semiótica peirceana. Saussure tematizará ao considerar que o signo linguístico é uma entidade de duas faces. o tempo e portanto as relações espaciais e as sequências cronológicas. por exemplo. São incorporais o vazio. São incorporais. a conclusão é apenas provável. como era para os seus antecessores. 42. para os estóicos. Não é ideia. e não o é no sentido psicológico porque ainda neste caso seria “corpo”. não é som articulado.pt i i i i . no sentido platónico porque a metafísica estóica é materialista. como são incorporais as acções e os eventos. afinal. Os incorporais não são coisas. Os estóicos sugerem que o conteúdo seja um incorporal. p. facto físico. Poder-se-ia indicálo por “signo fraco” ou “hipotético”. numa palavra. Como esclarece Eco. as condições de possibilidade a partir das quais se dão processos de corporização. Eco. distinguindo a voz emitida pela laringe e músculos do órgão respiratório que. www. Cf. afinal. o lugar.

os acontecimentos do corpo serem significativos dos acontecimentos da alma. Ou pode ser indicativo e. confirmada pela experiência precedente: se há fumo sei. . que deve haver fogo. exemplo maior do Lekton incompleto. De facto.i i i i 60 José Bártolo proposição através de uma série de vínculos sintácticos: entre os λεκτ α incompletos aparecem o sujeito e o predicado. Com efeito o sujeito é o exemplo máximo do caso. Os signos só se formam www. um incorporal. é um incorporal. mas são categorias do conteúdo. Devemos. nem aquele fumo e aquele fogo. Ora o caso não é a flexão (categoria gramatical que exprime o caso). os conteúdos são elementos incorporais expressos pelas expressões linguísticas que se ligam para produzir enunciados que exprimem posições. os estóicos podem dizer que o signo é um λεκτ oν . mas à possibilidade de uma relação de antecedente e consequente que rege toda a ocorrência da febre e da doença. como. ) que se relaciona por inferência mais ou menos necessária com o consequente (então deve estar doente). remete para algo que não é evidente.labcom. portanto. porque a atenção às proposições afirmativas levava a considerar o sujeito como o caso por excelência. deste modo.ubi. por exemplo. .pt i i i i . onde as variáveis não são realidades físicas nem acontecimentos mas proposições em que os acontecimentos se exprimem. sejam incorporais. mas antes o conteúdo expresso ou exprimível – uma pura posição actancial. empiricamente. Parecem categorias gramaticais e lexicais. O signo é tipo não ocorrência. Une-se. Por conseguinte o conteúdo estóico. já estados transitórios dos corpos. doutrina da linguagem e doutrina dos signos: para que haja signos é necessário que se formulem proposições e as proposições devem organizar-se segundo uma sintaxe lógica que é reflectida e tornada possível pela sintaxe linguística. portanto categorias da expressão. o modelo estóico do signo tem a forma da implicação (P → Q). Assim. Para os Estóicos o signo pode ser comemorativo e neste sentido nasce de uma associação entre dois eventos. então. na semiótica estóica. suspeitar de que os acontecimentos. O signo não concerne aquela febre e aquela doença. Neste sentido o sujeito. aproxima-se do futuro sentido que lhe dará Hjelmslev. Sexto Empírico reconhece que o signo de que se tira a inferência não é o acontecimento físico mas a proposição em que se exprime. porém. A febre não é signo senão na medida em que o intérprete determina o acontecimento como antecedente verdadeiro de um raciocínio hipotético (se tem febre.

9. uma enorme classificação dos signos que está para a semiótica. como a classificação de Lineu para a história natural. A leitura definitiva aparece. Cinema 1. Mas. o seu objecto. ainda. Gilles Deleuze. intensão (Carnap).i i i i Corpo e Sentido 61 enquanto exprimíveis racionalmente através dos elementos da linguagem. são geralmente considerados os traços mais distintivos do signo. o que uns apelidam de objecto (Peirce). Assírio & Alvim. igualmente. outros designam de símbolo (Ogden-Richards). a classificação peirciana com um quadro de Mendeleiev em química. A linguagem articula-se enquanto exprime eventos significativos. o triadismo do signo – reconhecido de Occam a Peirce.6 Peirce diz-nos que um signo ou representamen “é algo que está para alguém (to somebody) por alguma coisa (for something) sob certo aspecto (in some respect) ou virtualidade (capacity). interpretante (Peirce).e. e dele se distingue o lekton ou o que era dito pelo próprio signo (semainómenon). Remetência para uma exterioridade – aliquid stat pro aliquo – e estrutura triádica. e o objecto a que ele se referia. Lisboa.. mas em referência a uma A comparação é de Gilles Deleuze que compara. expressão (Hjelmslev) ou sema (Buyssens).ubi. Imagem-Movimento. p. Desde os estóicos que ao signo é conferida uma estrutura triádica: identificase o signo material (semaínon). denotação (Russel) ou extensão (Carnap). A linguagem e os signos linguísticos seriam a presença de uma ausência mas. um pouco. denotatum (Morris). a obra de Peirce é antes de mais uma taxinomia. o pragma. i. e ao que uns dão o nome de signo ou representamen (Peirce). Ele direcciona-se para alguém. ou referência (OgdenRichards). A esse signo criado apelido eu de interpretante do primeiro signo. ou de OgdenRichards a Frege – deu lugar a muitos trabalhos e diferentes interpretações. com a definição peirciana do signo. tradução portuguesa de Rafael Godinho. outros apelidam de referente (Ogden-Richards).labcom. 6 www. a marca que nos recorda a impossibilidade da plena presença. talvez. A concepção mais permanente do signo é aquela que o define como algo que está em vez de qualquer coisa a si exterior. Está contudo em vez desse objecto não sob todos os apectos. cria no espírito (mind) dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. O signo está em vez de alguma coisa. 2004. O que uns apelidam de significado (Saussure) outros designam de conotação (Stuart Mill). cf.pt i i i i .

Assim são gerados objectos-signos a partir de um signo-objecto inicial. E cada um desses interpretantes.labcom. permanecendo o Objecto Dinâmico. 7 www. Ter “sarampo” é simplesmente manifestar na pele os signos conhecidos da patologia a que se dá este nome. 2. é mais um signo que sob algum aspecto representa o objecto inicial. A definição peirciana do signo envolve uma volubilidade indetível. Peirce sublinha-o bem: qualquer signo “determina uma outra coisa (o seu interpretante) a referir-se a um objecto a que ele próprio se refere (o seu objecto). nesta perspectiva. a partir do momento em que voltamos ao objecto dinâmico estamos de novo na situação de partida. tanto se podem apresentar como sinal. por sua vez. Pierce. por sua vez traduzível numa série potencialmente infinita de interpretantes e por vezes. senão precisamente por meio da semióse. voltamos ao Objecto Dinâmico. e por aí adiante ad infinitum”8 . Collected Papers os Charles Sanders Pierce. Problema que envolve a confrontação com um terminus ad quem de qualquer semiótica (que signos usamos e como os usamos para nos referirmos a algo) e um terminus ad quo (o que é esse algo que nos induz a produzir signos).303. do mesmo modo (in the same way) volvendo-se o interpretante por sua vez num signo. através do hábito elaborado no decorrer do processo de interpretação. qualquer interpretante do signo suscita toda uma série de outros interpretantes. sempre presente e jamais captável. Mas regressemos ao nosso objecto de estudo. 1931-66. Qualquer linguagem coloca o problema da sua origem. De facto.228. Os modos de “ser” do corpo. como signo ou como índice. Cambridge. da semiótica – a semeiologia – um signo.ubi. este produz numa quase-mente um objecto imediato. num certo sentido. É com Peirce que a semiótica faz deste problema a própria base da sua teoria. O corpo é um palco significante no qual ocorrem manifestações. sendo necessário voltar a denominá-lo através de um outro representamen. no sentido de historicamente mais implantada. a um tempo linguística e cognitiva. S. ad infinitum. sempre pairante. 2.pt i i i i . Se recorrermos à classificação de C.i i i i 62 José Bártolo espécie de ideia a que certas vezes tenho chamado o fundamento (groun) do representamen”7 . Harvard University Press. O corpo é na tradição maior. Mass. Um objecto dinâmico leva-nos a produzir um representamen. 8 Idem. da mesma forma que se diagnostica “timidez” no enrubescimento do rosto..

simultaneamente. parece consolidar-se a hipótese de que o mundo natural pode ser tratado como um objecto semiótico: os signos naturais. como observou F. situado ao mesmo nível do primeiro. pelo facto da existência de uma relação semiótica.i i i i Corpo e Sentido 63 Benveniste. de um comprometimento. concebe-o como uma referência a outro signo natural: o signo “nuvem”. podemos constatar que ela se articula com uma relação de causa-efeito. Lotman. de uma condição. poderíamos retirar algumas conclusões. signos) ou analógica (símbolos.pt i i i i . torna-se possível desenvolver uma análise de tipologia das culturas baseadas numa tipologia das relações estruturais que definem os signos naturais. não deixando de ser uma referência. remete para o signo “chuva”. interpreta o signo como a referência a essa segunda ordem de realidade atribuindo a essa relação a estrutura de ordem paradigmática ou sistemática. índices) da relação entre o significante e o significado. tal como Greimas nos indica: “Em primeiro lugar. da realidade natural. o corpo seria entendido como um signo natural. Desta interpretação duas consequências se destacam: a primeira é a de que uma vez estabelecida a relação referencial. por outro lado. Rastier. assim a relação de causa-efeito que encontramos na semiologia médica (reflexo rotular-boa saúde) mais não é do que a inversão da primeira. essa relação remete para outro signo. sem que abandonemos do encadeamento causal o nível dos signos-fenómenos. O século XVIII europeu. da escarificação. Por outro lado. assim.ubi. de qualquer destas interpretações. instrumento e espaço de comunicação quando remete para sinais numa situação de coordenação da acção. e quaisquer que sejam as articulações. é claro que o corpo é. “chuva” pode remeter para “Inverno” e assim sucessivamente. de um classe. No entanto. assente na natureza arbitrária (sinais. que justamente valorizou a noção de signo natural. tão bem desenvolvida por J. os sinais e os símbolos de uma linhagem. por exemplo. opõe-se aquela outra interpretação dos signos naturais que defendendo um segundo nível. A partir desta interpretação. mais profundo. se “nuvem” remete para “chuva”. espaço de significação quando se dá a ler a outro por intermédio da roupa.labcom. Na perspectiva histórica da semiótica. A esta corrente que concebe o mundo natural como o único nível de realidade organizado a partir das leis sintácticas do discurso. esta abordagem nos informa sobre a natureza e a organização interna dos próprios signos: dependendo de uma relação variáwww. possuem realmente o estatuto de signos. do adorno.

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vel da relação semiótica, ela constitui uma reflexão meta-semiológica sobre os signos, uma conotação semiótica que transforma os signos naturais em signos culturais.”9 Considerado em si mesmo, como um objecto que não está por um outro, o corpo não é um signo – não há diferenciação entre ele e o seu veículo. Esta posição que durante longo tempo a semiótica defendeu, pode ajudar a perceber uma certa “ausência do corpo” no interior da semiótica pelo menos até Greimas e, sabendo-se que, a partir dele, e nos trabalhos de Landowski, Fontanille, Mourão ou Parret o “sensível” passa a ser, como em parte já começámos a ver, tema relevado nas análises semióticas.10 Num texto publicado em 1990 mas apresentando reflexões trabalhadas no final dos anos 80, num período de clara abertura sensível da semiótica, Maria Augusta Babo procurava qualificar o tipo de objecto que o corpo é para a semiótica: “Dizer o corpo na escrita e no nome implica pois averiguar o que dele se deposita na linguagem.”11 . Dir-se-ia que o ponto de vista que se lança sobre o corpo tende já a construir um corpo em falha. O semiólogo procuraria averiguar o que do corpo se deposita na linguagem mas esquecia o que da linguagem se deposita no corpo, ora de cada vez que há ocorrência de sentido não há apenas um signo (significado e significante) envolvido, há semióse, encontro intersubjectivo, entre nós e a coisa, de nós na coisa, da coisa em nós. Mais do que falar de um depósito mais ou menos residual do corpo na linguagem e da linguagem no corpo, a semiótica pode falar em construção de um no outro e deve considerar zonas de junção, dobras, a partir das quais um se constrói no outro. No referido ensaio escrevia Ma Augusta Babo: “A primeira questão a levantar aqui diz respeito à apropriação que o discurso semiológico faz do corpo. O corpo humano é tido como um fenómeno simbólico no discurso da semiologia. Ele é olhado como signo, como matéria moldável pelo processo da semiosis.
9 A. J. Greimas, “Introdução”, IN A. J. Greimas et al., Práticas e linguagens gestuais, Vega, Lisboa, 1979, Pág. 12. 10 Consulte-se, por exemplo, “Fronteiras do corpo: fazer signo, fazer sentido”, IN Ma A. Babo e J. A. Mourão, O Campo da Semiótica, RCL no 29, 2001, pp. 271-286. Esta abordagem domina a mais recente obra de Landowski Passions sans noms (no prelo). 11 Maria Augusta Babo, “Apresentação”, IN AAVV, O Corpo, O Nome e a Escrita, RCL no 10/11, Lisboa, 1990, p. 7.

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O discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um sentido que nele se inscreve; tal como o sujeito descreve a rota do seu descentramento. A função de representação à qual, desde logo ele é votado, permite ao discurso do saber anular uma qualquer irredutibilidade do corpo à linguagem, a corporeidade, para fazer dele signo ou sistema de signos. O corpo torna-se transparente dada a sua permeabilidade significante. Tornar o corpo linguagem é, por conseguinte, retirá-lo à sua opacidade de corpo para o transformar no écran fisco mas translúcido, da produção de sentido.”12 Partindo de Barthes, dir-se-à que a saturação de significados sobre o significante-corpo “exténu(ent) le sens”, Babo fala, a propósito, da “prepotência do sema sobre o soma”, seria errado, contudo, pensar-se o soma como uma espécie de puro significante, a exaustão do sentido a que Barthes alude começa, desde logo, no facto do “significante-corpo” ser já, ser sempre, de algum modo, significado, o corpo, qualquer corpo é sempre corporema. O corpo é uma superfície sensível, sensível a ser significada, que apara todos os golpes e de cada golpe apara um certo sentido, a volumetria do corpo obtém-se por efeito de multiplicação, o que é que poderá conter um corpo senão o que a ele se pode juntar? Os signos “significam” a ideia de um sentido “por baixo” (e por vezes “por cima”) da matéria em que aparecem. “Os signos indicam uma segunda natureza” para falar como José Augusto Mourão. Também o corpo, este corpo de que os dedos tocando no teclado do computador são uma extremidade (extremidade “estranha” em todo o caso, porque o meu corpo excede os dedos, prolonga-se no teclado, no computador, na mesa, na sala, no tempo do trabalho, nas palavras, em todas as palavras; não estamos retidos em nós próprios, afirmava Bergson, o nosso olhar alcança as estrelas), o corpo do retrato colocado sobre a cómoda, o corpo do outro, da mulher e do velho, o corpo do doente e o corpo da criança, o corpo daquele homem alto passeando na praia que guardo na memória, todos esses corpos-signos são “segundos corpos”, o “corpo-primeiro” não é da ordem do signo mas da significância. A semiótica greimasciana distingue, com clareza, o sentido da significância. O sentido pertence ao plano do produzido, do enunciado, enquanto que
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a significância pertence ao plano da produção, da enunciação. Podemos dizer, nesta perspectiva, que o corpo é da ordem da significância na medida em que, de cada vez, há corpo como resultado de uma produção ou enunciação do corpo, isto é, do operar de uma determinada máquina semiótica. Os corpos são todos diferentes, porque cada máquina os produz de um modo determinada: ao médico corresponde um corpo específico, ao padre corresponde outro, ao biólogo, outro ainda. E no entanto significar é um processo indiviso. Se a semiótica do corpo não o percebe, ela cederá à disposição de não ser uma análise crítica dos processos de produção de sentido para se tornar uma máquina de produção de sentido. O semiótico deve aspirar a uma visão integral do sentido, considerando as condições de possibilidade do discurso, algumas das quais seguramente extra-linguísticas. O corpo só é o meu corpo por apropriação. Aproprio-me de uma determinada porção do espectro das significações virtuais do meu corpo, actualizando esse leque de significações disponíveis, de cada vez, no espaço interlocutivo. Aproprio-me do meu corpo, intersubjectivamente, quando vou ao médico, quando vou à missa, quando vou à escola. “A significância é um processo ao longo do qual o sujeito, escapando à mão do ego cogito e entrando num processo relacional de simbolização, se desconstrói como sujeito hegemónico para se reconstruir segundo a sua competência comunicativa. O processo de significância não se reduz então ao jogo do significante nem à comunicabilidade duma significação acabada.”13 , é, antes um processo, intercorpóreo, intersubjectivo, jogado no interior de um determinado contexto semiótico, de apropriação dinâmica de sentido. Um signo é o que se repete. Sem repetição não há signo, porque sem repetição não há reconhecimento e, como sublinha Barthes, o reconhecimento é o que fundamenta o signo. O corpo-signo corresponde sempre a uma reduplicação: construção de um sentido que a pele significante do corpo acolhe e reconhecimento desse sentido. Há nesta reduplicação de sentido o funcionar de uma máquina semiótica que faz corpo. Se o corpo (enquanto objecto semioticamente constituído) pertence ao domínio do significado do signo, a corporeidade (essa dimensão sempre aquém e além de um significado partiJosé Augusto Mourão, A sedução do real (literatura e semiótica), Vega, Lisboa, 1998, Pág. 76.
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cular, repetível textualmente) pertencerá mais ao domínio da significância de que Benveniste esboçou a teoria. O signo é algo que pode “fazer sentido” – fazer considerado como produção, acto de linguagem, acto intencional, semiosis.O signo faz corpo. O corpo-signo é um corpo-feito, corpo produzido por uma determinada máquina semiótica que o faz adequado à sua própria economia. Não há regimes de signos que não estejam associados a formações de poder, já o afirmamos, e não há poder que não seja produtivo e, desde logo, semioticamente produtivo, produtor de lógicas de sentido que veiculam lógicas de poder. O poder sobre o corpo (do corpo do médico sobre o corpo do doente, por exemplo) releva desta relação indissociável entre a aplicação de um regime de signos que produz um determinado corpo, produzido para ser dócil ao exercício de um poder específico. Em certa medida, o corpo é o referente de um signo, é “significado” por um sujeito e para outro sujeito. Um interpretante é um percurso gerativo por intermediação de um sujeito semioticizado, isto é um sujeito cujo sistema semiótico estratificado é modelado, social, politica e tecnicamente investido. Um signo é uma performance semiótica o fazer de um sujeito (de uma presença, de um sentido da presença e de uma presença com sentido para aludir a Landowski), em contacto com um outro sujeito. A semiótica deve, pelo que anteriormente se afirmou, ocupar-se, também, com o sentido das práticas, das trocas, das produções, do exercício dos poderes. O corpo-signo ou corpo-objecto corresponderá, então, aquilo que em pragmática se designa por “objecto modal”, é isso que o corpo tende a ser, um objecto modal, no sentido de uma espécie de virtual, de matéria significável que se dá a ser feito, que se dá ao poder-fazer de um determinado sujeito. José Augusto Mourão, partindo de Fontanille, faz alusão a esta ideia: “Na esfera cognitiva, J. Fontanille apresenta face à noção de sujeito observador, a de informador revestido pelo objecto. Este reconhecimento sobre o plano cognitivo de uma certa factitividade do objecto percebido transforma-o de certo modo em sujeito-informador mantendo com o observador relações conflituais ou contratuais. O estudo das paixões, entre as quais as paixões de objectos, leva Greimas e Fontanille a continuar a elaboração do simulacro por excelência da semiótica quer é o percurso generativo da significação para lá do universo significante, nas precondições da significação, onde sujeito e objecto não estariam ainda disjuntos e definidos, mas num contacto de ordem
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proprioceptivo. Neste universo tensivo e fórico, um quase-sujeito pressentiria um quase-objecto definido como sombra de valor e depois como valência. Esta valência emergiria pouco a pouco e apresentaria uma potencialidade de atracção ou de repulsão.” 14 Esta “valência” fixa já um valer-poder ou, por outras palavras, as valências de um corpo, semioticamente produzidas, definem o que um corpo vale, na certeza de que os corpos não valem todos o mesmo. A axiologia confundese aqui com a semiótica, o valor de um corpo confunde-se com o sentido do corpo, com a sua valência quando pensado no interior de uma determinada máquina de produção. As valências de cada corpo-objecto são estabelecidas pela máquina que o produziu. As diferentes máquinas semióticas (da economia, da medicina, da religião, do design. . . ) produzem corpos paradigmáticos, isto é, corpos que se adequam a um determinado sistema em vigor que deve ser entendido como sistema de produção (do fazer) enquadrado por um paradigma do saber. Dizer que um corpo é paradigmático significa entende-lo como provisório. À medida que o campo de acção e o paradigma de explicação no qual se insere um determinado corpo se transformam, as valências do corpo dever-se-ão, igualmente, transformar. Veja-se o exemplo do desporto de alta competição onde as características morfológicas de um atleta de uma determinada especialidade são hoje profundamente diferentes daquelas de há 40 anos atrás. A valência, no sentido de eficácia, que um determinado corpo hoje assume (para ser um paradigma do corpo de um manequim para desfilar numa passerelle ou para ser o paradigma do corpo de um soldado, ou para ser o paradigma do corpo de um doente) é uma valência, de cada vez, afirmada por um paradigma, é uma eficácia assumida por alguém, pressupondo, para recorrer a Brandt, a categoria da veridicção, da validade em acto. Na construção de um determinado corpo-objecto duas operações ocorrem; significação e interpretação. Um determinado modelo é requisitado para desfilar numa passerelle na medida em que há construção semio-física do corpo (através da dieta, da cosmética, da géstica, de determinadas subtilezas proxémicas) e, na medida em que é alvo de uma escolha deliberada, isto é, na
José Augusto Mourão, “A Máscara dos objectos. Convocação para a leitura”, IN TRIPLOV www.priplov.pt.
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actualizando-a. Mas. continuando. tem uma natureza produtiva. Assim. independentemente dos investimentos semânticos que os objectos de valor podem receber. a interpretação dá-se sob condições que. como uma virtualidade de ser susceptível de acolher a sua própria “história”. representam momentos de acção de uma máquina semiótica que não cessa de investir um corpo. A interpretação ratifica a significação. que a conjunção com o sujeito o realiza. sujeito actualizado. o sujeito de estado define-se essencialmente e somente pela sua relação com o objecto de valor. . de algum modo. que a assunção pelo sujeito e a sua inscrição no programa narrativo actualiza o valor. De resto. um outro significou e interpretou o nosso corpo. sujeito realizado.pt i i i i .ubi.i i i i Corpo e Sentido 69 medida em que alguém interpreta o seu corpo como adequado a um determinado fim. ). (. Três estados narrativos em que o primeiro é anterior à aquisição e em que o último designa o sujeito que produziu o acto que o faz entrar em conjunção com o objecto de valor. relação que está submetida a variações ao longo do percurso narrativo. que uma renúncia o revirtualiza ou que uma disjunção forçada o reactualiza. Pode-se dizer. Encontramos assim não somente os três modos de existência semiótica dos objectos de valor: objecto virtual. . A isto se designa por construção totalitária: o constructo é simultaneamente construtor seguindo regras de construção que o definem sempre como constructo. Greimas di-lo assim: “o sujeito semiótico pode ser igualmente considerado na sua qualidade de sujeito de estado. politicamente. Interpretação e significação são acontecimentos. socialmente. quer à significação.labcom. na medida em que nós funcionamos quer como “narrado”. já estão estabelecidas na significação e que remetem para uma regime de signos comuns quer à interpretação. Ora. objecto www. Sabe-se que Greimas considerava três modos de existência semiótica de um determinado sujeito: sujeito virtual. a “narrativa” como que estabelece a possibilidade de nós próprios ratificarmos sobre o nosso corpo uma determinada significação e interpretação que recebemos do exterior. estabelecendo as valências do nosso corpo no interior de uma determinada “narrativa”. quer como “narrador”. O corpo significado e interpretado corresponde ao que designamos por objecto. é lícito falar tanto do seu estatuto modal como dos modos da sua existência semiótica. de o produzir linguisticamente. realizando assim o seu projecto.

o afecto. Courtés. É ainda Mourão que nos chama a atenção para o facto de Fontanille. “ As aquisições e os projectos”. uma vez reconhecida a “macro-estrutura” da máquina. p. à emoção. por exemplo. a concepção do signo num e noutro remete para o problema das relações entre percepção e significação. Greimas. 1979. a acção. IN J. ao apresentar o signo saussuriano e o signo peirciano. servindo-nos. de resto. a fronteira entre aquilo que é da ordem da expressão (mundo exterior) e aquilo será da A. Introdução à semiótica narrativa e discursiva. às paixões”16 . 2003. pretextos para o lançamento de novos percursos. 173. a vida. que toma posição no mundo do sentido. Corpo. J. uma intersemiótica do corpo.labcom. mas também novos desenvolvimentos possíveis a partir da performance em que as renúncias dos objectos criam prolongamentos do esquema narrativo e em que novas privações de objectos servem de eixos narrativos. torna-se possível. José Augusto Mourão escreve com pertinência que “ a semiótica da última geração tenta largar as amarras de uma racionalidade logicizante e acrónica para passar a outras regiões muito mais fluidas que exigem uma reflexão imanente ao sensível. dos instrumentos elaborados no quadro da sintaxe actancial (enunciados de estado e de fazer).i i i i 70 José Bártolo actualizado. Coimbra.pt i i i i .”15 São fáceis de entrever as possibilidades de aplicação de uma tal teorização dos percursos narrativos do sujeito/objecto à análise do corpo e das máquinas semióticas que o produzem. objecto realizado. na sua abertura sensível. 27-28. Por isso. legitimar. O último Greimas parece. Relógio d’Água.ubi. se colocarmos entre parêntesis nos dois autores a questão da delimitação e da segmentação das unidades. que correspondem ao percurso geral do sujeito e o definem como ente. 15 www. de empreender a análise das “micro-estruturas”. “ EGO AFFECTUS SUM. próxima daquela que este trabalho apresenta e que encontra em Landowski. os dois planos da linguagem substituem agora as duas faces do signo: os dois planos da linguagem são subsumidos por um corpo que percebe. marca de uma semiótica que arrisca o pensamento do sensível incluindo no seu discurso e na sua prática o fazer. em Fontanille ou em Parret um precioso auxilio. RCL no 33. Técnica e Subjectividades. o corpo. Para falar como Greimas. que define graças a esta posição. Livraria Almedina. 16 José Augusto Mourão. paixão. pp. Pensando na evolução recente da semiótica. IN Ma Lucília Mraques e António Fernando Cascais. Sujeito. na semiótica de Fontanille. afirmar que. discurso”.

sede de percepções e de emoções.ubi.18 Na sua Sémiotique du discours. 30. de algum modo. 20 Jacques Fontanille. “ Modes du sensible et syntaxe figurative ”.pt i i i i .17 Não andamos aqui longe da semiótica de Herman Parret para quem “o real é corpóreo”. ainda que. por vezes. o sentido. IN Ma Augusta Babo e José Augusto Mourão. de efeitos actancias. modais e axiológicos da máquina semiótica que o produz. p. p. Herman Parret. NAS.i i i i Corpo e Sentido 71 ordem do conteúdo (mundo interior). Limoges. RCL no 29. no 61-62-63. considerando que a sensação e. 266. 1998. em que se articulam o sensível e o inteligível supõe: i) a posição (a tomada de posição) de um corpo no mundo. Relógio d’Água. corpo-em-vida do sujeito. acrescentamos nós tal abandono não seja forçoso. Jacques Fontanille afiram que: “O discurso em acto. “ A intersemioticidade das correspondências artísticas”. É no corpo que se reúnem estes dois planos numa mesma linguagem. 2001. Sémiotique du discours. Tais Idem.”19 A explanação de Fontanille é riquíssima. Fontanille ensina-nos que os modos semióticos se actualizam sob a forma de efeitos de campo posicional. 1999. graças à reunião dos dois mundos que formam a semiosis. que exigem para serem compreendidas uma semiótica do contínuo (Fontanille) ou uma intersemiótica (Parret). 175-176. 214. 18 17 www. p. também. está no choque dos corpos: corpo do mundo. O Campo da Semiótica. PULIM. Um determinado corpo é produzido por uma determinada semiótica sob o efeito do campo posicional e dos efeitos actanciais. ii) a escolha dum ponto de vista (fito). como produtora do corpo e do sujeito-objecto. em favor da dinâmica das linguagens. 19 Jacques Fontanille. p.labcom. iv) a formação de um sistema de valores. abandonando a perspectiva do signo. o mundo exterior e o Mendo interior. modais e axiológicos. ii) sistemas de valores graças aos quais a significação se torna inteligível Assim se afinam as condições de possibilidade de elaboração desta semiótica a partir de quatro propriedades do discurso: i) a coexistência de dois universos sensíveis. mas considerando-a. Fontanille orienta-nos para uma análise do que ele designa por “modos semióticos do sensível” e cujo alcance se aproxima do que nós designamos por “máquina semiótica” identificando-a. como o corpo e com o sujeito.20 Esta caracterização pode ser aplicada à análise dos mecanismos de funcionamento de uma qualquer máquina semiótica. iii) a delimitação dum domínio de pertinância (apreensão). Lisboa.

sobre essa base de semelhança ou de identidade. Mas não só a enunciação é “produtora” como obedece a condições de possibilidade que remetem para uma produção em vigor anterior à própria enunciação. um determinado sujeito ou uma determinada disciplina enunciam o corpo. para falar como Greimas. é necessário que tenham algo em comum a fim de que. da respectiva máquina semiótica. Esta concepção greimasciana encontra eco no dispositivo psicanalítico. como é. não há corpo que não resulte do funcionamento. de um modo muito claro. não há corpo que não seja expressão. ele identificado com uma máquina semiótica. a maior parte das vezes. representações www. Greimas. Estas considerações ajudar-nos-ão. Ao discutir o problema da relação.pt i i i i . esse sujeito ou essa disciplina estão a produzir corpo. que “a expressão somática é sempre enunciação”. cujo funcionamento corresponde ao funcionamento da máquina. quer as teses seguintes onde. não apenas. por exemplo. José Augusto Mourão afirma. já o dissemos. Faz notar que. na medida em que opera com signos que envolvem pelo menos três tipos de representações: representações de palavras (próximas do significante linguístico).labcom. por exemplo. de uma máquina semiótica. O sentido do corpo aparece como resultado de redes relacionais. também. para falar como Althusser. sê-lo-à para Greimas como. apresentado por Julia Kristeva. também. a melhor compreender quer as análises do capítulo 2 onde a anatomia é identificada com uma “máquina semiótica” produtora do corpo. que não pode ser plenamente compreendido considerando. é-o sem dúvida. contribuindo para a sobredeterminação. depois dele. essa frase. estamos em crer. era-o. qualquer que seja a forma pela qual se apresente. sob regras específicas. enuncia de uma forma pertinente a questão da continuidade e da descontinuidade perceptiva e enunciativa. para Lévi-Strauss. era uma categoria central para Saussure e Hjelmeslev.i i i i 72 José Bártolo efeitos têm. uma dupla actualidade. activos mas também retroactivos. para Brandt. O que quer dizer que diferenças só podem ser articuladas sobre identidades. sejam distinguidos por uma diferença. A relação. para que os dois elementos linguísticos sejam captados conjuntamente. na medida em que são. na medida em que não há corpo que não seja construção.ubi. o design é. que descontinuidades são percebidas apenas sobre continuidades. de resto. o modelo linguístico e o desdobramento signico (“significante” e “significado”). Quando uma determinada frase. apenas.

quer para regressarmos à análise do processo de significação. é fundamental para o funcionamento de uma determinada máquina ou sistema.21 Em ulteriores capítulos retomaremos estes ensinamentos. 21 Julia Kristeva. Au commencement était l’amour.i i i i Corpo e Sentido 73 de coisas (próximas do significado linguístico). www. que não encontra estabilidade na definição normativa .monstra vero per excessum sunt segundo as palavras do setecentista Vandelli – estabilidade normativa essa que. a importância das produções normativas. Psychanalyse et fois. evidente.labcom. A norma (de que a norma anatómica é o supremo exemplo) estabiliza um determinado quadro identitário. e representações de afectos (próximas dos processos tímicos) a que Kristeva chama de “semióticos”. Pág. cuja proximidade com a leitura psicanalítica de Kristeva é. como se verá. quer para recuperarmos a interpretação do corpo como significância. considerando. 15. também. por exemplo. Paris. nomeadamente para analisar a importância da norma na definição de um sentido do corpo.pt i i i i . Hachette. da semiótica das paixões fontanilleanas. em oposição às representações simbólicas dos sistemas linguísticos. por vezes. partindo. 1985.ubi. territorializando o excesso semiótico.

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portanto. o consequente de uma significação particular que. por outro lado. se age sobre o corpo. tem o mérito de responder à aporia entre uma corporeidade muda do corpo e a sua inesgotável capacidade de se relacionar com a significação. não sendo o próprio corpo. Esta noção tão bem trabalhada por José Gil2 . §536. de uma dilucidação particular do fundamento da significação. Relógio d’Água. De cada vez que se pensa o corpo. isto é. se estuda o corpo. a partir do pensamento de Lévi Strauss. Ed.i i i i Capítulo 3 Uma reflexão sobre o corpo a partir da semiótica de Peirce Em relação ao corpo. 75 i i i i . a par de muitas outras possíveis. Mass. o corpo é. 16 e segs. significável. Harvard University Press. Vol. Lisboa. Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Pág. “o objecto como o próprio signo o representa. pois.”1 . O Objecto possível é. é efectuada. se opera o corpo. 1997. o estuda ou o opera. proposta por Peirce entre Objecto Dinâmico e Objecto imediato. Metamorfoses do corpo. IV. mas carece. 1 Confirme-se em Charles Sanders Peirce. para ganhar autêntica fertilidade. por inteiro. Retoma-se aqui a consideração do corpo como espaço de inscrição de signos. 1965. para esse que o pensa.. Cambridge. e cujo Ser depende. objecto imediato. 2 José Gil. O corpo acolhe códigos que nele ancoram ganhando assim um estatuto de significante flutuante. By Charles Hartshorme and Paul Weiss (1931-35). poder-se-ia recorrer à distinção. da Representação que dele no signo é dada.

se instaura sobre um objecto total um objecto-fragmento (uma simples predicação). O objecto imediato assim constituído. por exemplo. este fenómeno: “O fundamento é um atributo do objecto na medida em que ele (o objecto) foi escolhido duma certa maneira.34. Lector in Fabula. A. a olhar para a minha mão esquerda. Há um lugar na linguagem que actualiza um lugar “aqui”. a um objecto imediato. Qualquer análise objectiva do meu corpo parcelariza-o enquanto objecto dinâmico e o fractiza em objectos imediatos. da estrutura da epiderme. A análise de uma amostra de sangue extraído da minha mão esquerda daria lugar a um objecto imediato que seria ainda uma actualização do meu corpo por inteiro enquanto objecto dinâmico. então. Em “Peirce et la sémantique contemporaine”. 1980). Valentino Bompiani. sentado em frente ao computador.”. p. pp. que corresponde à minha mão esquerda. redu-lo necessariamente a uma certa aspectologia. daria lugar. In Langages. Mas esse mesmo fundamento deixa de fora (em estado de potência ou de possibilidade de significação) o objecto dinâmico de base. “mão esquerda”.pt i i i i .ma Eco. 75-91.cresce a tudo o que dissemos Confirme-se em Umberto Eco. do interior da mão etc. O fundamento. como defende Eco3 . na proposição “O ecrã do computador é cinzento”). onde eu estou.i i i i 76 José Bártolo Se o Objecto Imediato é o Objecto Dinâmico enquanto enfocado sob determinado aspecto. no desenvolvimento da análise.labcom. de cada vez. dando lugar a uma proposição particular.ubi. tal como Peirce o define. à geração de uma série interminável de novos objectos imediatos resultantes da análise das unhas. Umberto Eco explica. constitui-se um objecto imediato. 1979. torna-se compreensível que. dos ossos da mão. Peirce a propósito não deixa de lembrar que o fundamento tem o estatuto de mera possibilidade “previamente determinativa das próprias existencialidades das coisas”. 58 (Juin. com uma notável clareza. é o pólo de uma relação diádica que performa um objecto imediato (é no horizonte do Ground que eu ponho em relação a proposição “o ecrã do computador” e a proposição “Cinzento”. Quando eu descrevo a minha mão esquerda. como lhe cha. e se é nesse modo de enfoque que consiste o significado e o fundamento. 4 3 www. que não pode ser identificável com todas as suas aspectologias4 (isto não discutindo já se o corpo por inteiro é identificável com a soma da totalidade das suas aspectologias). e em que apenas alguns dos seus atributos foram considerados pertinentes com o intuito de assim constituir o Objecto Imediato do signo. enquanto significação do signo. Milano. A passagem citada refere-se á página 82 do referido artigo.

os conceitos. as fronteiras. o corpo lógico na biologia como modelo orientador para o biólogo etc. e falar acerca dele.i i i i Corpo e Sentido 77 que compreender o meu corpo por inteiro como objecto dinâmico de uma análise é uma compreensão que pertence totalmente ao “mundo dos signos” e. por outro lado. as proposições e os argumentos. Idem. sobre o corpo que o delimitam dando lugar a um corpo lógico: o corpo lógico da medicina como modelo orientador para o médico. a qual. persegue-o tensionalmente. de original. como lembra Peirce. da análise. este devir-outro nunca desemboca num outro. os argumentos . e visto que a explanação será um signo. mas não pode fornecer uma relação íntima com esse objecto (acquaintance) ou a sua recognição”5 . §230 www. Op.ubi. Perante a possibilidade ilimitada de ampliar o corpo a partir de significados particulares do corpo. Cit. estancando o processo de semióse ilimitada e desviando-a para a acção. que não as do corpo. criará um signo ainda mais amplo. o devir-outro é um movimento de intensidade.operam o devir-outro do corpo. 5 6 Confirme-se em Charles Peirce. admitir. Os perigos que decorrem da admissão desta tese são evidentes: por um lado se aceitarmos que o objecto dinâmico é original a qualquer agenciação sígnica.. Donde: o objecto dinâmico é de algum modo pressuposto como anterior a qualquer agenciação sígnica. 2. de qualquer processo de significação: cada objecto imediato evoca o objecto dinâmico. ainda. não há um corpo da medicina ou um corpo da biologia. são marcadas pelos interpretantes lógicos: são as definições. O operar dos interpretantes lógicos sobre o corpo .”6 Decorre daqui a necessidade dos interpretantes. §231.labcom. que o objecto dinâmico estará sempre numa posição de exterioridade por relação a qualquer signo que o signifique. precisamente na medida em que é uma espécie de imagem pairante. Como muito bem explica Peirce: “O signo juntamente com a explanação gera um outro signo. abre-se uma inultrapassável fissura entre objecto dinâmico e qualquer objecto imediato. os conceitos. devemos. tomada juntamente com o signo já ampliado. tem a ver com as definições. Vol.as definições. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior.pt i i i i . “qualquer signo só pode representar o objecto.

Op. por exemplo. 58 (Juin 1980). desejando dele se apossar. Peirce”. p. contudo perceber que Peirce pensa no estatuto nos interpretantes lógicos numa determinada área de investigação como potencialmente estanques a uma semioticização ilimitada. 9 Confirme-se em Charles Peirce. p. a uma opinião final que coincidiria com a verdade: é a ideia da verdade e da realidade como consenso. Do que ficou merecem ser destacadas duas ideias: A) Fica claro que uma investigação sobre o corpo. é “esse quid que permite harmonizar todos os seus interpretantes”8 . Vol. sem que a posse plena se dê. Peirce acredita que a evolução do conhecimento numa determinada área. Este processo de intensificação corresponde. a medicina utiliza para poder pensar o corpo na medicina. Uma análise mais desenvolvida permitir-nos-ia. Cit. A constituição de um corpo lógico resulta de um processo de intensificação desenvolvido a partir do objecto dinâmico. o objecto dinâmico.pt i i i i .ubi. Umberto Eco resume de forma seminal o estatuto do objecto dinâmico: “Enquanto do ponto de vista semiótico ele é o possível objecto de uma experiência concreta. Qualquer análise toma como objecto de estudo não o corpo (entendido Cf. a um deitar-se diante de algo. a um processo de objectuação: o querer tomar o corpo como objecto corresponde a desenvolver a objaceo a um cravar as mãos em algo. como sublinha Peirce. Confirme-se em David Savan. do ponto de vista ontológico ele é o objecto concreto de uma experiência possível. de onde decorre que nenhuma ciência possa ser dita definitiva. in the long run.13. precisamente. 47. §§12 e 13 8 7 www. “La Séméiotique de Charles S. passará sempre pela constituição de um objecto de estudo inidentificável com o corpo por inteiro. Langages. Independente do signo. os argumentos que.labcom. seja ela desenvolvida no domínio da semiótica seja em qualquer outro domínio.. Há a esperança de qualquer comunidade científica chegar. VIII. processo em processo aliás.. Op. permanecer deitado ao lado dele representa a máxima intensidade no processo de devir-outro. Umberto Eco. Peirce esforça-se para evitar a identificação entre o estatuto do objecto dinâmico e o estatuto da coisa-em-sí kantiana: “Não há coisa-em-si-mesma no sentido de não ser relativa ao entendimento”. terminará por atingir o conhecimento das coisas “tal como realmente são”9 .”7 . Cit.i i i i 78 José Bártolo os conceitos.

eles não são menos do que o corpo por inteiro. a qualquer significação. igualmente. 480-495. essa dor. IN Jonathan Crary and Sanford Kwinter (Ed. fica claro que este body-of ideas “só é definível através da resposta que esse corpo dá aos métodos e às técnicas que o formaram”11 (métodos e técnicas que correspondem à noção de interpretantes lógicos de Peirce). como aquilo. 10 www. Os corpos/objectos imediatos não são tanto. objecto dinâmico. claro que o objecto imediato corresponde a uma processo de significação que desenvolve numa tensão de significar. o meu corpo não é a minha dor de cabeça. isto é não se reduz a este ou aquele signo/objecto imediato. essa fórmula são formas de sentido que só podem ter lugar por relação a uma unidade de sentido. verdadeiramente não está presente nos corpos. original. 11 Idem. de facto. mas ele é outra coisa. Estes corpos-de ideias não são “corpos parciais” eles são “corpos totais”. é evocado por estes. mas. são expressões do meu corpo. “Dancing Bodies”. Urzone.) Incorporations. assim. Ibidem. O corpo. ele é a condição de possibilidade da presença destes. como acredita.i i i i Corpo e Sentido 79 como o objecto dinâmico de Peirce) mas um corpo-de-ideias. o meu corpo não é a fórmula do meu sangue. New York. B) Fica. p. o objecto dinâmico. dir-se-ia de ser. autenticamente. objectos imediatos. em si anterior. nem menos que o corpo/objecto dinâmico que naquele é evocado. no sentido em que não significa isto ou aquilo. para usar a feliz expressão de Susan Foster10 (entendido como o objecto imediato de Peirce). próximo da imagem pairante kantiana. mas isto. O corpo para o cardiologista ou o corpo para o engenheiro genético não é mais. ele é um quase-signo. A expressão é usada no artigo de Susan Foster.ubi. mas esse gesto. enquanto. O corpo/objecto dinâmico está.labcom. 1992. eles são outra coisa. Mais. Baudrillard: “corpos parciais ou metonímicos nascidos de sistemas.pt i i i i . o meu corpo não é a minha estrutura de ADN. mas corresponde a uma unidade do sentido: o meu corpo não é o gesto da minha mão. neles se não revela. de discursos e de diversas práticas”. O meu corpo não é isto nem aquilo.

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pelo processo anatómico. ser capaz de saber que a linguagem pode perfeitamente nomear aquilo de que não pode falar. que o indizível é o dinâmico. pelo contrário. pelo menos desde Antístenes. no sentido peirceano. mas uma divisão que se dá no interior da relação entre corpo e linguagem. operação sobre um corpo feito é construção de um corpo que. por uma divisão que jamais será ultrapassada. 81 i i i i .i i i i Capítulo 4 As semióticas do corpo Talvez fosse proveitoso a um estudo que considera as ligações entre corpo e linguagem. o plano do nome (onoma) do plano do discurso (logos). de anatomizar. aproxima Platão e os místicos. fá-lo porque corpo e linguagem se permitem esse tipo de construção. mas apenas nome. como Pierce. neste aspecto. É importante sermos capazes de saber que o acto de dissecar. e o dizível. aquilo de que se pode falar num discurso definitório. ser capaz de saber distinguir. objecto dinâmico e objecto imediato. ser capaz de saber. seja através de um discurso instrumental (bisturis. pinças. aquilo que na linguagem apenas pode ser nomeado. se vai fazendo. Que o corpo seja onoma e logos. como o soube toda uma tradição que. apenas. a saber que o semiótico opera como o anatomista e que a anatomia não é. deve levar-nos a sermos capazes de saber distinguir o corpo do corpo. que o dizível e o indizível são ocorrências da linguagem. ser capaz de saber distinguir. que das substâncias simples não pode haver logos. a sua afinidade profunda é uma afinidade fendida. é o imediato. gazes) seja de um discurso verbal constrói corpo sobre o corpo. como o faziam os antigos.

mas o próprio corpo. as imagens.ubi. 2 Idem. Há bordas do corpo e bordas da escrita. semio-lógico. afastado para “fora do texto” com um gesto da mão que o escreve) e bordas invisíveis. Corpus. Talvez não haja obra recente a ser capaz de pensar melhor esta relação profunda entre corpo e linguagem.labcom. Talvez não se possa responder a este “como?” do mesmo modo que se responde a uma pergunta técnica. Nancy declara que se extinguiu um programa da modernidade. Vega. pensa Nancy. p. é um corpo integrado no plano do discurso. O corpo que abraçamos. para sempre. há uma exigência que a ambos convoca: a escrita exige corpo. o pensamento não para no limiar do nome. e como nela se vão constituindo corporeidades e.pt i i i i . e na borda e de um de outro. Sermos capazes de “reconhecer” o corpo ausente.está sempre a acontecer na escrita”2 . tocar. incorpóreo que esse pequenino livro de Jean-Luc Nancy. as unhas. simultaneamente. ). Colecção Passagens. distraidamente. na sua consciência de que toda a linguagem assenta sobre um único nome: o nome de Deus. Jean-Luc Nancy. os dedos. as cifras do corpo. tradução portuguesa de Tomás Maia. não a corporeidade. “Como tocar então no corpo. o teclado e o ecrã do computador. um cabelo caído sobre o branco do papel e. 1 www. há algo que vai permanecendo sempre. Não os signos. . mas o corpo. intitulado Corpus1 . no nome ele persegue a ideia. 2000. Lisboa. entre a escrita e o corpo. eles não param de se tocar. o corpo exige escrita.i i i i 82 José Bártolo Embora não possamos conhecer para lá no nome. o corpo que vemos envelhecer. a própria linguagem nolo permite. em vez de significá-lo ou de obrigá-lo a significar? (. Nos pontos de tangencia. nos contactos. que pretendia escrever não acerca do corpo. o corpo que estudamos. nas intersecções. Os místicos perceberam-no melhor do que ninguém. a folha. tocar o corpo. bordas visíveis (a caneta. Escrever é tocar a extremidade. . o corpo que adoece. Ibidem. 11. É no interior da ligação entre corpo e linguagem que o indizível é nomeado. enfim. nas deslocações. O que importa dizer é que isso – tocar no corpo. mas ainda o corpo. um corpo lógico. é por o corpo objecto-dinâmico ser “real” no interior da relação entre corpo e linguagem que não cessamos de construir corpos objectosimediatos.

suspendendo-se sobre este limite que faz o seu “sentido” mais próprio.i i i i Corpo e Sentido 83 Talvez. aquém e além dela. fluindo nos bordos. Goethe dizia que tudo aquilo de que nos apercebemos e de que podemos falar – este tronco. aqui. e que o expõe como Ibidem. ou escrever “o” corpo sem rupturas. escrita e por escrever. na relação entre corpo e linguagem. reviravoltas. O Pensamento Morfológico de Goethe. O excesso não tem. a palavra que sempre se excreve. e só a este “sujeito” a palavra corpo impõe uma dureza seca.ubi. ao contrário é o fim dessa idealidade.”3 O corpo não se escreve sem “reviravolta”. a ver com o que não cabe na linguagem. o seu excesso. do corpo com a linguagem. poder-se-ia aqui evocar Max Scheler para quem as ideias não podem ser consideradas nem ante res. o corpo seja a palavra por excelência sem emprego. apenas. 4 3 www. a qualquer momento. A excrescência avisa-nos da possibilidade do corpo (o onoma) se derramar no discurso (no logos) que o pretendia enunciar. mas com aquilo que não se contém nem no corpo nem na linguagem mas. Perante esta concha. como sangue com demasiada vida que parece. o fim do sentido. o plano da significação. nos bordos. como pensa Nancy.4 Uma vez mais. porquanto o sentido deixa de se reenviar e de se referir a si próprio (a idealidade que o faz “sentido”). INCM. revolta-se excrevendo-se. 1995. desvios do discurso em si próprio. um calhau. o corpo é a ideia. como um bocado de osso. estando no acto de escrever. ou derramar o seu sentido. no sentido da escrita. este tronco ou este bocado de osso. descontinuidades (discrição). p. esta concha – são apenas manifestações da ideia. nem post res. na possibilidade da escrita. ele não se escreve sem revolta. Nancy di-lo maravilhosamente: “O corpo do sentido não é de modo nenhum a encarnação da idealidade do “sentido”. fazendo estalar as frases onde nós a empregamos. nem é uma função operatória. nem in re. um tronco. A palavra a mais em qualquer linguagem. poder-se derramar. É preciso atravessar este “sujeito”. na relação. contradições. mas unicamente cum rebus. Sobre a ideia como “fenómeno originário” leia-se o excelente trabalho de Maria Filomena Molder. Mas a ideia não diz respeito a um estado de coisas. A ideia é. diz Nancy.pt i i i i . nervosa. Série Universitária. e nessa excrescência o corpo anuncia-se (na sua ausência) e enuncia-se numa palavra que o traduz: o corpo como aquele corpo. a sua fertilidade. 21. nem mesmo sem inconsequências. para foras das veias por onde corre.labcom. Talvez “não seja possível escrever “ao” corpo. então. quase derramando para fora deles. Lisboa.

labcom. que melhor conhecemos. corpo e mundo. nas dobras. na borda. tão distante que nos faz não saber o que queremos objectivar.5 O corpo expõe existência sobre os corpos. Cit. p. Não cessamos de reflectir sobre esse corpo a corpo cujo sentido. o calhau que designamos por “aquele corpo”. como bem mostra Herman Parret no intercorpo6 . em semiótica. O sentido dá-se. no face a face entre o dentro e o fora. para usar expressões de Parret. Relógio d’àgua. 215. 25. É sem duvida verdade. Não há sentido sem corpo a corpo. p. não pode ser senão intersemiótica. designamos por semiosis. O corpo do sentido expõe esta suspensão “fundamental” do sentido (expõe a existência) – a qual pode também ser designada por efracção: a efracção que o sentido é na própria ordem do “sentido”.ubi. e num certo sentido. vivemos o corpo de dentro para fora. 215. nas intersecções. em que dentro e fora. a carne do corpoem-vida e a carne do mundo. e o corpo a corpo tem lugar num solo próprio: o da linguagem. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um Jean-Luc Nancy. quando se estuda o corpo. p. para ser adequada. Herman Paret. mal sabemos por estarmos a ele demasiado atentos e nos esquecermos de o sentir. mais do que nós o designamos a ele. são derramamentos do sentido do corpo na ordem do sentido que. nas junções.i i i i 84 José Bártolo tal. Não só o corpo mas também o mundo. Op. é o objecto que nos designa. nas bordas. corpo e linguagem. constituem-se intersubjectivamente. 7 Idem. 2001. No 29. o corpo do velho e o corpo do doente.7 Porque não cessamos de reflectir sobre o sentido que ocorre nas dobras. É ainda Herman Parret que nos ensina que uma reflexão deste tipo. O corpo é um estranho objecto de estudo.. que aquilo que é por “nós conhecido de mais perto. Maio de 2001. Habitualmente. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. basta que falemos de um objecto para nos considerarmos objectivos. Lisboa. das “significações” e das “interpretações”.pt i i i i . nas uniões. são sentidos. de outras vezes. como o anota Eric Landowski. Revista de Comunicação e Linguagens. 6 5 www. tão familiar que nos faz perder a necessária distância para que o consigamos objectivar. Porém. por vezes mal sabemos por estarmos demasiado sentidos e que. “A Intersemioticidade das correspondências artísticas”. no interface.

Relógio d’àgua.é um não encontrar auxilio na linguagem para apresentar isso que se conhece num modo íntimo de distanciação .um saber o que se quer saber .271286. naturalmente. o que o método pretende alcançar. 9 Lewis Carroll. very Gravely. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Organização) O Campo da Semiótica. pp. condição da sua objectivação. processo este que é. 8 www.é um não encontrar formas de separar-me de mim para que eu seja. afinal. Revista de Comunicação e Linguagens. um problema de orientação . A determinação do método como momento primeiro pressupõe a compreensão do que se procura . o “ideal” seria que o próprio corpo fornecesse o modo pelo qual o seu esclarecimento se tornaria possível. he asked. Chanceler Press. please your Majesty?.quando se estuda o corpo existe um momento propedêutico ao estudo que é o da construção de um objecto de estudo não dado e que naturalmente se não dá. Maio de 2001. mas de um problema de enunciação . o conhecido preceito metodológico de Lewis Carroll: “ Where shall I begin. No 29. por onde seguir.enunciação. p. “Fronteiras do corpo: Fazer signo.. Os Três problemas . sujeito que analisa e objecto de análise – e é.de como orientar-me metodologicamente perante um tal objecto . que é. a um tempo. the King said.ubi. Trata-se de saber. Begin at the beginning. seria alcançar um ponto de partida real. London. 2001.labcom. em relação a este corpo objectivado.pt i i i i . and go on till you come to the end: then you stop.109. quando se estuda o corpo não há um objecto determinado .”9 Seria “ideal” que o método decorresse e se determinasse pelo objecto. então. aliás. O “ideal”. distanciação e orientação .podem ser circunscritos ao problema de orientação pela forma como ele envolve e coloca os dois anteriores. Ou seja.como haveria se se estudasse um facto histórico ou se se estudasse um determinado minério . porque não se trata tanto de um problema de conhecimento. onde começar.i i i i Corpo e Sentido 85 objecto de conhecimento comum”8 . Lisboa. finalmente. The Complete Illustrated Works of Lewis Carroll. 1982. isto é. mas isso implicaria conhecer antecipadamente a identidade e a natureza do objecto. Alice’s adventures in Wonderland. onde parar.que é precisamente o que não acontece quando se estuda o corpo. A possibilidade de objectivação do corpo corresponde ao processo da sua Confirme-se em Eric Landowski. fazer sentido”. Seguir-se-ia.

esse halo que torna cada representação do corpo incomparável.a objectivação . As Ciências do Artificial.pt i i i i . Deste modo a objectivação reduzir-seia a uma questão de perspectiva. cada análise médica . identificações que também não culminam uma experiência indiferenciada e repetida da variedade. um typus. não induzida da totalidade de representações afins. um determinado agenciamento discursivo.do plano da vida . retira-se o corpo do seu enquadramento natural . a ideia de corpo. Ponto de partida na medida em que qualquer representação do corpo . isto é. ou que uma noite é uma noite. mas tal não significa de modo algum que ela seja inválida.25-28. preenchendo. Por outras palavras. a transferência cientifica . Pelo contrário. a sua ideia gerativa. é essa a sua organicidade. do corpo da mulher. a objectivação do corpo e a sua subsequente análise permitiriam fazer corpo. Lisboa.e isola-se num enquadramento artificial . do corpo do doente .cada desenho. 10 www. Cada representação do corpo constrói a sua atmosfera.do plano da vida para o plano de estudo . porque a ideia do corpo nunca é a soma das parcelas. Ponto de chegada na medida em que a representação é uma “forma”. cada fotografia. Cada representação do corpo .do corpo da criança. Herbert Simon o define.enquanto forma contém a sua ideia.labcom. na medida em que a compreensão analítica do corpo pressupõe que a transferência que se efectuou . isto é.o plano do estudo – um mundo de substituição na expressão de Husserl. sobre esta ultima definição veja-se H.não modifica essencialmente a estrutura do que está em causa. movimento para um original. Simon. cada representação do corpo é uma visiFalamos aqui de “artificial” num sentido que está mais próximo do “hipotético” kantiano. A objectivação do corpo dá-se por separação e isolamento. Neste sentido o corpo não seria apenas um ponto de partida mas um ponto de chegada.ubi. deixa aparecer. 1981.permite exteriorizar. cada radiografia. trata-se efectivamente da identificação de uma forma: assim como o acto de identificar que uma estrela é uma estrela. pp. Qualquer análise científica do corpo é artificial 10 . a artificialização é parte do processo de validação. esse que só é admitido “sob a vigilância severa da razão” do que de um sentido mais recente do “artificial” tal como. que se não dá nunca. Isto é.i i i i 86 José Bártolo simultânea abstracção e artificialização. por exemplo. englobando a denominação de “perspectiva” um determinado horizonte de acesso. concretizando.tem necessariamente de pressupor que o corpo-objecto-de-estudo e o corpo-em-vida são o mesmo identificados a partir de perspectivas diferentes. Arménio Amado.

como todos os seres que nascem.labcom.pt i i i i . ao mesmo tempo.ubi. porque nela se mantém vivo o seu percurso generativo: cada representação do corpo é uma metamorfose do corpo que representa. www. leva a cabo a sua própria possibilidade. potência e acto.i i i i Corpo e Sentido 87 bilidade que persiste.

Se por um lado nos está de tal modo próximo que o distinguimos mal daquilo que constitui a nossa própria identidade. de A. que melhor conhecemos.i i i i 88 José Bártolo Imagens do Clinique photographique de l’Hopital Saint-Louis. De Montméja (1868). ou por um qualquer inex- www.pt i i i i .labcom. Dardy e A. O corpo é um desses territórios ambíguos. estranhos e íntimos ao mesmo tempo. por outro lado essa intimidade não impede que vivamos numa ignorância quase completa em relação à sua plena constituição. é ao mesmo tempo aquilo que nos parece menos redutível ao estatuto de um objecto de conhecimento comum: como se este corpo que somos nós próprios tivesse por natureza.ubi. Tal facto talvez derive de uma espécie de naturalidade que Eric Landowski anota: “Porque aquilo que nós conhecemos de mais perto. disposição e funcionamento. e num certo sentido.

contudo. p. “Fronteiras do corpo. 271 12 Para Ma Augusta Babo “O Corpo terá sido. Cit. Fazer signo. 13 Confirme-se em Maria Augusta Babo. “na medida em que a semiótica o não pôde reduzir por inteiro aos códigos que. 255. por um lado. marca de uma limitação. “Para Uma semiótica do Corpo”. a ser estudado (ou a ser operado.)..”13 . investigado. está ligado a uma inacção. O corpo é. de um embaraço. enquanto objecto de estudo. em relação ao seu significado. “cravar”. parece. na irredutibilidade por inteiro do corpo a uma qualquer análise objectiva e por outro lado na necessidade de. vocação para escapar aos poderes de investigação da ciência. O obstáculo. Fazer sentido”. obstáculo na medida em que é objecto. Maio de 2001. prolongado) o corpo só o poder ser mediante reduções objectivas constitutivas Confirme-se em Eric Landowski. pelo simples facto que ele é nós próprios). “fincar”. “impedimento”. Relógio D’Água. assim. Cf. 2001. na linguística. o cravar as mãos em algo. Os conceitos de “objecto” e de “obstáculo” estão.i i i i Corpo e Sentido 89 plicado privilégio (ou talvez.pt i i i i .. Revista de Comunicação e Linguagens. p. num certo sentido um pressupõe o outro. de facto. manipulado. Obstaculum significa. IN Ma Augusta Babo e J. pois. porventura. no entanto. concretamente a Ob-jaceo. “embaraço”3 . “obstáculo. ele sempre acolheu.255. o estar deitado diante de algo. Talvez seja fértil demorarmo-nos um pouco na compreensão deste duplo estatuto. de uma falha. o aproximarse de algo. mais estreitamente. A questão central está precisamente. revelar esta “vocação para escapar aos poderes da investigação”.ubi. mais correctamente. ou. Op. por seu lado. Op. uma acção de nos apossarmos de qualquer coisa. 11 www. no 29. Objecto significa “pôr diante”. precisamente. O corpo. Augusto Mourão. tudo o que não foi agarrado torna-se obstáculo. próximos. por sua vez. mas. O Campo da Semiótica.”11 . O que a leitura etimológica nos pode dizer é que tomarmos algo para nós pressupõe uma atenção que é sempre redutora: não se crava as mãos no todo mas apenas onde as mãos agarram. Cit. em suma. “interpor”. “objecto”. p. Ao tomar-se algo como objecto. Lisboa. “expor” (a um perigo). A este propósito Ma Augusta Babo referia o duplo estatuto do corpo enquanto objecto de investigação: simultaneamente ob-jecto e ob-stáculo12 . mais do que objecto”. o ob-jecto/-stáculo a toda uma postura semiótica que viu na linguagem e. está ligado a uma acção. e ainda.labcom. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão (Org. a base da sua elaboração”.

algumas conclusões do operar da linguagem sobre o corpo que neste estudo desenvolvemos . por exemplo. As limitações do estudo de Ellen podem. assim. como se sabe. antecipando assim.343-373. O que Ellen desenvolve pode ser classificado. De facto. em relação a Referimo-nos ao artigo de Roy Ellen. 1977. que uma semiótica do corpo parece exigir a capacidade de. actualizadoras de um corpus ao qual o corpo por inteiro é irredutível.ubi. Paris. The Antropology of the Body. a Ellen interessa. p. desenvolvidos. anotando segmentações do corpo operadas por diferentes linguagens verbais.aliás o estudo de Roy Ellen permite perceber que a plena elaboração de uma gramática do corpo exige sempre um estudo que. deixar perceber. sintomaticamente relevante se se quiser. numa antecipação que não é apenas intuitiva.i i i i 90 José Bártolo de corpus ou. Ellen antecipa. Há neste procedimento dois aspectos que merecem ser destacados: por um lado. New York & San Francisco. essencialmente. IN Encyclopaedia Universalis. ao contemplar o modo como a linguagem verbal faz corpo. pelo alargamento de horizonte de análise semiótica e. Este estudo teve uma importância mínima na evolução dos estudos semióticos. de semântica do corpo.pt i i i i . London. A noção “semiótica do corpo” foi introduzida pelo etnolinguista Roy Ellen em 1977 no seu artigo “Anatomical classification and the semiotics of the body”14 . Cit. os significados linguísticos do corpo. por outro lado o estudo de Roy Ellen não consegue evitar a lacuna de negligenciar todas as implicações extra-semânticas que devem estar envolvidas numa semiótica do corpo. 344. “Anatomical Classification and the semiotics of the body”. quase exclusivamente. uma série de estudos. O estudo de Roy Ellen procura descrever “the different ways in which the bodily continuum is segmented and organized into parts by the different languages of the world. Op. IN John Blacking (Ed. mais do que de semiótica do corpo.labcom. mas não deixa de ser relevante. por nesse alargamento. 14 www. Academic Press. Marin correspondente à entrada “Corps: La Sémiotique du Corps”. 16 Confirme-se em Roy Ellen. pp. num outro sentido.).. diríamos de base antropológica. tomar o corpo como objecto de análise. em particular.”16 . 1985. 15 Pensamos em Particular no Texto de L. a partir da segunda metade dos anos 8015 . à falta de melhor definição.

com pertinência. e de l’indice. 20 Idem. torna-se evidente que o corpo é. ganhará Por tradução intersemiótica Jakobson pressopunha uma operação semiótica que permitia a “transferência” de um determinado signo de um sistema semiótico para outro (ou seja passagens entre sintaxe. 21 Landowski. como a linguagem não ganha corpo. como nos mostra Berthelot.“Le Corps Contemporain: Figures et Structures de la corporéité”. Cit. O corpo ganha corpo na linguagem e a linguagem ganha corpo ao dize-lo. plenamente rigorosa. no entanto. signos) ou analógica (símbolos. Ibidem. afirmando que o corpo é “fundamentalmente signo”. fundada sobre da natureza arbitrária (sinais. as traduzir intersemioticamente para usar as palavras de Jakobson. às suas categorias e aos seus modelos de comunicação”. também que nesse processo a linguagem ganha corpo e que é ainda o corpo (o mesmo? outro?) que se dá a ser identificado com a semióse.ubi. não deveríamos poder abandonar a noção de signo dado que “o problema essencial que encontra.i i i i Corpo e Sentido 91 algumas das excelentes análises semânticas que o autor desenvolveu.”20 De facto. 18 Cf. Em Jean-Michel Berthelot.19 Diz-nos Berthelot : “ Tout aussi fondamentalement le corps est signe. espaço de fronteira.17 Foi Louis Marin um dos primeiros autores a questionar se. Cit. Em L. du symbole. contudo.pt i i i i . Eric Landowski faz notar. Recherches Sociologies. 17 www. uma semiótica do corpo e do gesto reside na sua subordinação à linguística. demos já a entender um certo corpo através da linguagem. Marin. não só o corpo não ganha corpo. A afirmação não é. du signe. antes ganha expressão ou significação.18 Num outro quadrante. por definição “exigir dele que se apague por trás daquilo que supostamente significa”21 . il peut jouer tout à la fois du signal. que fazer do corpo um signo é. semântica e pragmática). indíces) da relação entre significante e significado. não somos capazes de conhecer. no que diz respeito ao corpo. op. se recuperamos a classificação de Benveniste. 19 Cf. e no entanto. Couvrant l’ensemble de la palette sémique. instrumento e espaço de comunicação e significação. pensar ou dizer um corpo que não esteja já significado. na sua elaboração. encontramos Jean-Michel Berthelot. onde a interacção se dá mas no qual a fixação (semiótica ou outra) nunca é plena. lugar de encontro. 9.labcom. Op. Certo é. p. 1998/1. a um tempo.

Como bem mostra José Gil esta pertinência das figuras confirma um parentesco profundo: “mostra que a linguagem não se reduz a um sistema de signos verbais Sobre a noção de “figura” leia-se o magnifico ensaio de Paola Aretini. que identificam dois tipos de signos radicalmente heterogéneos: os signos verbais e os signos pré-verbais.pt i i i i . As figuras designam como que a zona de troca. neste jogo de palavras reside um sentido e uma aparente inevitabilidade. Estamos na presença de dois campos semióticos distintos. do mesmo modo. Claro está que o recurso a metáforas e analogias resulta não apenas de uma original solidariedade entre a “definição” do corpo e a “definição” da linguagem. IN Invigilatata Lucernis. a junção que permitem circulações entre o campo semiótico verbal e o campo semiótico não verbal. da separação inultrapassável dos domínios a que corpo e linguagem pertencem. então. O facto de as transduções entre corpo e linguagem se darem a partir de figuras22 – metáforas. quer a linguagem. em “linguagem corporal”. em “fôlego” da escrita e. mas igualmente. um aspecto. Assim. 22 www. formas de significação não-verbal que. que uma expressão facial por exemplo “vale por mil palavras”. de irredutibilidade entre o corpo e a linguagem. por exemplo. signos. desde a tradição original da semiótica – a semeiologia – vão sendo apreendidos enquanto sinais. “Non Corpus. 2000. sem o notar. Corpo e linguagem “abraçam-se” numa ausência de resistência mútua sem a qual dificilmente poderíamos pensar quer o corpo. admitimos que o corpo e. importante. reciprocamente.i i i i 92 José Bártolo corpus. recuperamos a intima solidariedade entre a anatomia e a sintaxe antigas falando em “articulações” para dar conta das possibilidades combinatórias dos monemas e dos fonemas. que o doente foi infectado por um bacilo de Koch. em particular. De qualquer modo. os gestos “falam por si” e. estrutura. De facto. as metáforas corporais parecem poder ser aplicadas e correctamente descrever diversas características e funções da linguagem: falamos no “tronco” de uma obra. 7-12. seguramente. Há modos de ser no corpo. um médico pode identificar no corpo no paciente determinados sinais que o levaram a diagnosticar. símbolos ou indíces e traduzidos verbalmente. ao mesmo tempo. o uso de recursos linguísticos parece inevitável quando pretendemos caracterizar certas funções do corpo.ubi.labcom. um como o outro afirmam uma espécie de inseparabilidade e. pp. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. falamos. 22. estando tuberculoso. analogias – é.

a essa comunicação que acedemos através das figuras que fazem o corpo falar e que incorporam a linguagem. Revista de Comunicação e Linguagens. há. Há uma linguagem comunicante que integra os dois regimes semióticos e que opera por sedimentações e integrações de um no outro.pt i i i i . autenticamente. p. Fontanille não errava ao chamar a atenção para esse esquecimento que feria a análise semiótica. Greimas. 23 www. reduzir. excessivo.labcom. porventura.59. da mesma forma que os signos verbais relativos ao corpo não têm necessariamente de ser uma tradução que ocorra após uma manifestação não-verbal. não rasga. José Gil. a Fontanille o desenvolvimento de uma semiótica do corpo. O laço que une a linguagem ao corpo é. Ricoeur ou Fabbri. muitas das análises fontanilleanas reportam-se. sem qualquer laço de linguagem”23 . mesmo que em traços gerais. e que este não é apenas um “objecto” susceptível de descrição objectiva (como o da ciência médica). É. sendo que a sociossemiótica não rompe. antes desenvolve. actualiza e redeCf. Para se entender o lugar da semiótica do corpo fontanilleana no interior do actual desenvolvimento dos estudos semióticos é necessário tentar traçar.i i i i Corpo e Sentido 93 sem qualquer relação ao corpo. de resto. “ O corpo. claramente. justamente. mas seria errado afirmar que toda uma tradição semiótica anterior a Fontanille incorria nesse esquecimento da mesma forma que seria. marcado pela abertura a diversas problemáticas de âmbito sociossemiótico (da semiótica das interfaces às várias aplicações –do campo do discurso artístico ao campo do discurso politico – proxémicas).ubi. Jacques Fontanille afirmava que o seu trabalho envolvia uma reinterpretação da teoria semiótica a partir de um ponto de vista pouco explorado pela tradição semiótica: o da corporeidade. quer dizer. um organismo sem expressão nem fala. constitutivo de ambos e actual em ambos. sem mais. uma ordem pela qual os signos não-verbais ou pré-verbais se constituam antes da linguagem. Não há. a análises anteriores desenvolvidas por Merleau-Ponty. o actual rumo da disciplina. 24 A comunicação foi apresentada no dia 03 de Março de 2004 com o título “Figure del corpo”. tal rumo parecenos. digamo-lo assim. Numa comunicação intitulada “Figuras do corpo” apresentada em Março de 2004 na Universidade IULM de Milão24 . explicita ou implicitamente. no 10/11. antes processos contínuos de integração dos movimentos do corpo na linguagem verbal e da linguagem verbal nos movimentos dos corpos. a arte e alinguagem : o exemplo de alberto caeiro ”.

entre outros. Saussure. et l’enveloppe le sôme. sobretudo através dos trabalhos de Landowski e Fabbri. Afastando-se da leitura do signo desenvolvida pelos autores seus contemporâneos. Fabbri. Na semiótica da última geração – representada. Fontanille na sua interpretação do corpo próprio enquanto enveloppe sensible aproxima-se da leitura saussureana. nos seguintes termos: “On ne peut vraiment maîtriser le signe. o da escola interpretativa desenvolvida por Umberto Eco. sans que le ballon soit rien pour sa part. mais cela est loin de la conception qui dit que l’enveloppe est le signe. dans l’air hydorgène qu’on y insuffle et qui ne vaudrait rien de tout sans l’enveloppe. avec certitude de le rattraper.i i i i 94 José Bártolo fine as investigações desenvolvidas pela semiótica do texto. pela semiótica da experiência e pela semiótica das práticas culturais. A semiótica do discurso que encontra em Fontanille o seu grande semiótico surge-nos assente em quatro grandes pilares: o da sociossemiótica. www.labcom. não é nem o invólucro (l’enveloppe) nem o ar é o conteúdo.115.ubi.o corpo passa a ser pensado como: a) Fundamento da semiose. O corpo.”25 . por Fontanille. traduzido pela figura do balão. corpo-semântico e corpo-carne. nature double ne consistant nullement dans l’enveloppe et pas davantage dans l’esprit. Saussure aproxima-se de uma interpretação dinâmica da significação construída a partir do par sema/soma. Landowski ou Marsciani . et l’ hydrogène la signification. de même que le séme est tout pour le linguiste. Il est tout pour l’aérostier. mas eles são as duas coisas: conteúdo-contentor. Le ballon.pt i i i i . p. le suivre comme un ballon dans les airs. b) Ancoradouro deíctico. Parret. c’est l’séme. Mourão. Se bem que com um desenvolvimento distinto daquele que lhe dará Fontanille uma análise da construção signica em termos “corporais” surge-nos já em Saussure. e o da tradição peirceana. c) Estrutura figurativa que está na base da estabilização de um 25 F. sema/soma. que lorsqu’on s’est rendu complètement compte de sa nature. Écrits de Linguistique générale. Geninasca. o da semântica interpretativa de Rastier.

que se estende a fenómenos como a tensão. d) Uma revalorização do deíctismo (envolvendo uma nova abordagem do triângulo corpo/espaço/tempo) e da modalização como operações de organização de sentido. reservando espaço ao acidente e às paixões. Rivista www.pt i i i i . 2005. attorno all’ elaborazione di una sintassi figurativa.i i i i Corpo e Sentido horizonte inter-subjectivo e intratímico. passa a admitir précondições do sentido de carácter conjectural. ). “Figure del corpo di Jacques Fontanille”. dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici. 95 A semiótica do corpo que a partir destes pressupostos vai sendo desenvolvida.1. in secondo luogho perché si dipana.”26 .labcom. d) Figura central na análise das diversas formas de elaboração cultural da identidade. se abre a novos esquemas narrativos ao mesmo tempo que passa a haver uma focalização na enunciação em acto. e) A semiótica do contínuo. o devir. . b)Uma revisão da sintaxe narrativa que. il quale rimarrebbe in memoria nei testi. p. c) Uma revisão geral do processo generativo.ubi. Pierluigi Basso. 26 IN E|C. reinterpreta a semiótica tradicional na medida em que propõe: a) Uma reformulação da função semiótica. Gennaio. un percorsso generativo dell’espressione. . a agitação proprioceptiva. pressuposicional. revisão devida a dois procedimentos bem salientados por Pierluigi Basso “in primo luogo perché le conversioni sono “incarnate” e dipendenti da un ancoraggio al sensible e da una percezione semântica (. dependente da constituição local de uma macro-semiótica interioceptiva e de uma macro-semiótica exterioceptiva mediadas pela macro-semiótica da proprioceptividade.

i i i i 96 José Bártolo f) A teoria da “dupla convocação” fontanilleana. devires. textos e corpos. imagens e gestos. quer na análise de um determinado gesto ou de um determinado discurso do corpo. a partir dos mesmos instrumentos.pt i i i i . uma intersemiótica (no sentido de Parret). representa antes uma actualização da semiótica discursiva.neste sentido uma semiótica do corpo não se encontra num outro território sem contacto nem ligação com o território onde se desenvolve uma semiótica do texto. já o dissemos. leva-nos a admitir que a construção da significação convoca da mesma maneira continuidades (fluxos. Podemos tentar esquematizá-lo: www. pese as denominações diferentes. A consideração do corpo próprio pela semiótica do contínuo fontanilleana não representa um corte com a semiótica discursiva. tensões) e descontinuidades (procedimentos de regulação dos fluxos). de analisar regimes de signos. uma semiótica do contínuo (no sentido de Fontanille). de desenvolver uma sociossemiótica (no sentido de Landowski). de fazer análises semióticas dos discursos.ubi.labcom. por parte do semiótico que desenvolve essa tarefa comum. o objecto de análise da semiótica. acções e paixões são objectos de análise possível. O trabalho de Fontanille fornece ao semiótico um modelo de análise que pode ser aplicado quer na leitura de um determinado texto. o discurso – verbal e não-verbal . é. antes de mais.

). T. a semiótica dos autores da “Langages” ou. 29 M. que a finalidade do seu projecto é analisar a intentio operis27 . de um modo mais geral. Greimas. pelo menos ao nível da frase. Reinehart & Winston. A. a evolução da semiótica greimasiana da Semântica estrutural para aquela greimasiana/fontanilleana da Semiótica das Paixões e desta para as mais recentes análises de Fontanille? Façamos um pequeno percurso para responder à questão. enquanto que para um ponto de vista psicológico a interpretação fica por conta da intentio lectoris. Para o ponto de vista hermenêutico. Greimas anuncia na Semântica Estrutural. “The case for case”. . corpo-invólucro 97 O esquema facilmente confronta o semiótico com novas possibilidades de questionação do sentido do corpo. a interpretação tem por finalidade. o que significa. 1974.pt i i i i . Holt. como simultaneamente presentes” e apreender a relação entre eles. Bach e R. Fillmore. Universals in linguistic theory. J.i i i i Corpo e Sentido Identidade incorporada do actante Agir constitutivo da corporeidade Forma icónica do actante-corpo Eu-carne Movimento Corpo-carne Corpo-próprio Invólucro Corpo-pele. “captar ao menos dois termos-objectos. devedor de Propp e Lévi-Strauss. “descobrir o que o autor quer realmente dizer”. 34. como mostrou Umberto Eco. 1968. Se o modelo clássico de sintaxe narrativa é o da sintaxe da acção. IN E. em oposição a estas duas perspectivas. New York. da gramática de casos de Fillmore28 e da proposta de Halliday de uma função ideacional (com a estrutura da transitividade). Harms (Orgs. 28 27 www. da Escola de Paris.ubi. a semiótica de Greimas e.29 Como é sabido. 132-33. se se preferir. então. Halliday. ou seja a intentio auctoris. Pág. IN Langages. Semântica. no final dos anos 60 tal modelo aproximavase. . “Le base fonctionnelle du langage”. e no entanto. Ch. também é verdade que se interrogarmos a semiótica fontanilleana sobre o modo como um corpo toma forma diante de nós e para nós a resposta poderá ser dada em letra greimasiana: um corpo toma forma para nós graças ao facto de percebermos diferenças. K. na definição dada pela Semântica Estrutural.labcom. Como identificar. .

labcom. crítica da qual resulta a proposta de reformulação da unidade sintagmática da função em enunciado narrativo. do sujeito e do objecto. a junção e a transformação. a semiótica passa a incorporar também os modos de existência do sujeito. Com a competência modal e. o enunciado elementar da sintaxe narrativa como a relação constitutiva dos actantes ou seja. A semiótica define três modos de existência do sujeito: o virtual (definido modalmente pelo quer-fazer e pelo dever-fazer). são apontadas algumas lacunas (Greimas estaria. as unidades sintagmáticas constantes ou as invariantes narrativas de Propp. encontram-se na definição lógico-matemática da função. o dever-fazer.fazer.pt i i i i . de Benveniste. entre estrutura e função. mais próximo de Lévi-Strauss do que de Propp) ao modelo proppiano. Greimas e Fontanille.i i i i 98 José Bártolo reinterpretou muitas das reflexões suas contemporâneas – as regularidades paradigmáticas subjacentes da antropologia estrutural de Mauss e. acrescentaram um quarto modo de existência. e entre duas formas canónicas de enunciados elementares. passo decisivo. de Lévi-Strauss (e sabe-se como a obra de Strauss é ancoradouro interpretativo de autores tão distintos como Troubetzkoy ou Jakobson. como uma relação entre duas variáveis e na conciliação. em particular. o modo potencial. as relações distribucionais e integrativas e a questão dos níveis de descrição de Barthes – mas nessa reinterpretação avançaram. o actual (definido pelo poder-fazer e pelo saber-fazer) e o realizado (definido pelo fazer. A estes três estados. Na semiótica greimasiana. na Semiótica das Paixões. Define-se. como uma www. com a inauguração de uma nova sintaxe (a sintaxe narrativa) e de uma nova semântica (a semântica estrutural). o poder-fazer e o saber-fazer. estamos em crer. As bases dessa reformulação. Essas condições forma examinadas por Greimas sob a forma da competência modal. da função em enunciado. em Hjelmslev. como já fizemos notar. que transformam a relação do sujeito com o quer. com a modalização do fazer. Modalmente qualificado o sujeito é competente para a acção.ubi. a partir daí. o enunciado de estado e o enunciado de fazer. ou seja de programas narrativos. o que permitiu o desenvolvimento consistente de uma sintaxe narrativa. O fazer do sujeito exige condições prévias para a sua realização. Malinowski ou Nobert Wiener). pela transformação de estado). consequentemente. Investimentos semânticos complementares permitem estabelecer a relação entre duas diferentes funções.

No seu decisivo ensaio sobre as modalizações do ser31 . No segundo tipo de modalização do ser – pelo quer. o diz verdadeiro.i i i i Corpo e Sentido 99 espécie de precondição ou pré-disposição do sujeito para o fazer. que determina o objecto (ou. que recai sobre o predicado.30 À modalização do fazer. 52-55. Sémiotique des passions. relacionando-se com o sujeito. para o encontro com o sentido. diferenciam-se dois tipos de modalização. como dissemos. que não o modalizado. IN Actes Sémiotiques-Bulletin. Greimas estabelece os seguintes três princípios: a) Cada termo modal pode ser tratado como uma estrutura modal definida sintacticamente pela relação entre enunciados e com um valor modal. “De la modalisation de l’être ”. a partir daí.pt i i i i . 1979. Enquanto a modalização veridictória assegura a respectiva existência dos sujeitos. Seuil. pelo dever. Greimas e J. Paris. a qualificação modal incide sobre o enunciado de estado. determinam-se diferentes tipos de narrativas. inscrito nos objectos e circulando entre sujeitos. deste modo.labcom. 31 A. II. no objecto e repercute no sujeito de estado.ubi. ao ser investido de valor. quanto ao local de incidência: modalização do enunciado. o problema da verdade pelo da veridicção: um estado é considerado verdadeiro quanto um outro sujeito. substituindo-se. 30 www. No primeiro caso. modalização do objecto. c) Como na modalização do ser. 9. b) As modalidades combinam-se conforme as suas compatibilidades e incompatibilidades e. Fontanille. Greimas. tratam-se de modalizações veridictórias e epistémicas. melhor. o valor nele investido) e repercute no sujeito de estado. a modalização do ser atribui existência modal aos sujeitos de estado. a semiótica define sintacticamente as denominações da lógica (por exemplo: prescrição=dever-fazer). J. intencionaliza-se. Por isso mesmo. seguiu-se a modalização do ser. pp. J. 1993. Des états des choses aux états d’âme. A. pelo saber e pelo poder – a modalização incide. a modalização do sujeito de estado passa pela modalização do objecto que.

Por outras palavras. A modalização do enunciado de estado foi o primeiro passo para o exame das paixões. já no domínio das paixões. tal como se distinguiam os valores investidos nos objectos: o estado das coisas. uma semiótica centrada. essencialmente. “medo”. definido pela relação juntiva com o objecto de valor descrito e transformado pelo sujeito da acção. uma configuração patémica e desenvolvem percursos gerativos. Numa segunda etapa. colocada lá atrás.i i i i 100 José Bártolo ao determinar a existência modal dos objectos. Podemos identificar dois momentos na semiótica das paixões. sendo que o segundo nos permite a passagem para a semiótica do corpo e através dela regressarmos a Fontanille e. darmos resposta à pergunta. Distinguem-se paixões simples. A semiótica interpretou os efeitos de sentido passional produzidos no interior de um discurso como emanado de uma determinada disposição de modalidades do ser. “angústia” ou “ambição”. o estado de alma ou estado modal que também se transforma pela acção de um sujeito. Numa primeira etapa os estudos sobre as paixões mostram-se. é possível reconhecê-los como “amor”. assim. a modalização dá-lhe competência modal (modalização do fazer) e existência modal (modalização do ser). as paixões eram entendidas como efeitos de sentido de qualificações modais que modificam o sujeito de estado. www. por exemplo) tentou-se dar-lhes definição sintáctica. Partindo de paixões-lexemas (“cólera” ou “desespero”. Se os sujeitos querem-ser e não podem-ser. gradualmente. estabelecendo a diferença entre modalização narrativa e a sensibilização passional do discurso. Se o sujeito de estado tem a sua relação transitiva de junção com o objecto enunciado. na instância do discurso. sobre o avanço que podemos detectar na evolução recente da semiótica. ainda que sublinhando a estreita relação existente entre eles. resultantes de um determinado arranjo modal da relação sujeito-objecto.pt i i i i . desenvolvendo as pistas de análise lançadas por Greimas e Fontanille. atentando-se para os efeitos de sentido do sujeito. Abre-se.ubi. assim.labcom. de paixões complexas. em três aspectos: a) As “precondições” tensivo-fóricas. vinculados à organização narrativa e aos dispositivos modais que ligam sujeito e objecto. sobretudo. Com a modalização diferenciam-se tipos de estado do sujeito. em que várias organizações de modalidades constituem. a semiótica foi.

c) Finalmente. os simulacros modais e passionais. A significação surge-nos como um processo. por outras palavras. que podemos designar por devir. www. também. em resultado de um determinado corpo-a-corpo no interior do qual se manifesta. a semiótica passa a considerar. b) Ao definir essa precondições como tensivo-fó. patológico.rica caracteriza-se como um contínuo potencial e instável. O sujeito modalizado ou sensibilizado constrói simulacros – que decorrem ou que dependem de propriedades semio-narrativas – sobre cuja circulação se funda a comunicação e a interacção. não só. A semiótica dos humores. c) Os simulacros modais e passionais.ubi. a semiótica foi levada a considerar um momento anterior ao percurso. bem entendido que toda a comunicação é. 101 Retirando-se desta tripla focagem outras tantas consequências importantes: a) Ao rever-se o percurso gerativo da significação a partir da questão das “precondições”. a semiótica procurou aproximar a tensividade do sujeito que percebe (relação entre o exteroceptivo e o interioceptivo) e a foria do sujeito que sente (na dimensão proprioceptiva). o corpo-a-corpo original.labcom. contagiosa. em que quase-sujeitos estão indissoluvelmente ligados a um pressentimento do valor de um quase-objecto. intersubjectiva mas. A precondição tensivo-fó.ricas.pt i i i i . em relação ao sujeito modal. o que significa.i i i i Corpo e Sentido b) A questão do contínuo e da conversão do percurso gerativo da significação. como diz Landowski. a analisar. ela dá-se. de certa forma. passando-se a analisar as condições do aparecimento da significação. passional.

. 95. 100. revelação tardia. (3) les orientations axiologiques. le sujet passionné est amené à énoncer d’une façon qui s’oppose à l’usage normatif de la langue. dans le processus humoristique. No limite. ou a semiótica da doença desenvolvida por Jacques Fontanille33 . IN Protée. anómala. Seuil. Morin propõe que se percebam os “humores” como uma paixão linguística idiolectal.ana.). Greimas e J.ubi. “ Il discorso della salute”. No 3. la valorisation ou la dévolorisation de certaines passions (. 2004. (2) la domination isotopique ou fonctionnelle de certacertaines modalisations (. Morin. Fontanille.34 Na esteira da Semiótica das Paixões. a doença comporta uma outra dimensão figurativa. dans l’idiolecte.i i i i 102 José Bártolo trabalhada por Christian Morin32 . Fontanille. “en ce sens que. ela não deixara de se referir ao estado de saúde que ela perturba. extraordinária. Em todo o caso.labcom. (4) la recatégorisation des passions empruntées aux univers sociolectaux et qui. o corpo-sem-orgãos que a manifesta.) . Sabemos que a doença manifesta-se patológica e semeiologicamente. a doença é uma espécie de sintoma efémero da nossa fragilidade. tal como um idiolecto ou sociolecto: “[1] a “spécificité” de l’idiolecte passionnel se traduira plus particulièremennt par : (1) la surarticulation de certaines passions (. Sémiotique des passions. uma certa modificação da experiência interna de nos sentirmos. Op. 33 J.pt i i i i . 34 A. isto é. J.. Morin parte da semiótica das paixões greimasciana/fontanille. alerta.. ne correspondent plus à la définition “ en langue ”. “La Malaise”. vai Fontanille na sua semiótica da doença.”35 Mais longe ainda. que considera manifestar-se a paixão no interior de um determinado discurso.. Pág. Congresso AISS. 30. 1991. permite-nos avançar um pouco mais na nossa análise. Pág. Spoleto.). 32 www. Paris. 35 C. Cit.. relacionada directamente com o que Fontanille chama de figuras do corpo: “De Christian Morin. seja qual for a forma a partir da qual a doença é acolhida./01 Nov. fim de remissão etc. Como “motivo”. “Pour une définition sémiotique du discours humoristique ”.. há sensações. considerando a existência da doença a partir de um sentido que a pensa no interior de um estado de saúde. e há sintomas de uma determinada perturbação. Vol. provoca a dissociação e a pluralização de um estado massivamente unitário. 29 Ott. A primeira perturbação é tensiva: uma determinada presença. Quase sempre a doença é percebida negativamente.. podendo desencadear toda uma série de actos prospectivos ou retrospectivos: aviso. a saúde.

o corpo são. Deve-se admitir que a expressão da forma de vida normal. a manifestação da norma apresenta-se como um segmento temporal. uma fase inicial de instalação do problema (lesão. a aparição da forma de vida “anormal” no interior da forma de vida “normal”. constituem um fenómeno sensível que possui a sua própria forma semiótica: “Certes. do ponto de vista figurativo. incubação. www. enquanto que a expressão da forma de vida “anormal”.”36 Uma das ideias centrais da semiótica do corpo. no caso da doença como no caso da “avaria” de um instrumento. l’éprouve d’un désordre de l’état de santé. l’éprouvé nous fournit des informations (sensorielles) sur l’état intérieur de notre corps. é uma sequência narrativa. qui donne lieu à des représentations. por intermédio da experiência da modificação das figuras semióticas do corpo. à des interprétations. por exemplo a doença. A saúde é o elemento normativo que estabiliza um determinado sentido do corpo e que opera todos os outros corpos por referência a esse modelo. compreendendo. O corpo-doente. et cette expérience est entre autres celle des modifications des figures sémiotiques du corps. é a de que a “éprouvé somatique”. “La malaise”. aliás. mais cês informations ont une forme significante. O corpo defeituoso deve ser reparado. funcional. por exemplo a saúde. que se compreende por relação com o corpo normal. apresenta todas as características de um percurso segmentado e aspectualizado. bem como o conjunto das nossas experiências sensorias. De facto. et qui fait qu’elles ne sont pas de simples signaux ou des influx qui susciteraient des réactions automatiques”37 O corpo doente é um corpo anormal. o corpo-estranho. o corpo-marginal. 2. um segmento de vida estável e sem “ocorrências”. O corpo normal é o corpo eficiente. Qualquer máquina semiótica possui o seu modelo de corpo. a reparação normaliza o monstro. o seu corpo normal. Fontanille. enquanto que a manifestação “anormal”.labcom. mais il est l’expérience intime. é um estado.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 103 ce point de vue. como diz Fontanille. Pág. o corpo-monstruoso. desligação ). prestável enquanto instrumento integrável numa máquina. Idem. Ibidem. on ne peut plus le traiter simplement comme un symptôme (interpréable de l’extérieur). uma fase de desenvolvimento do problema 36 37 J. fazem funcionar.ubi.

este não é mais fenomenológico do que aquele. et le niveau dit du plan de l’expérience.”38 daí este autor considerar a manifestação da norma. e uma fase terminal (handicap. 4. Médico (corpo 38 39 Idem. por assim dizer. correspondendo a um processo “multi-polémico”39 . le malaise.40 Estes dois níveis ou planos devem ser considerados sempre que estão envolvidas quaisquer actualizações do par normal / anormal. por sua vez. um estado de alma. ocorrendo.ubi. a saber o plano da existência e o plano da experiência. saturação). uma perturbação provisória.labcom. à la différence de la maladie. Pág. 3 Idem. um estado de coisas. Ibidem. como resultante de uma “tensão permanente”. a par destes dois níveis de “funcionamento”. Pág. entropia. la santé se manifeste et se donne à ressentir. Mas como Fontanille bem anota “L”état “normal” n’offre qu’ une apparence de stabilité. Do ponto de vista semiótico. e a anormalidade um acidente. Jacques Fontanille afirma: “Certes. e. comme un état stable et durable. et il faut donc distinguer deux niveaux de fonctionnement : le niveau que nous appellerons le plan de l’existence. devemos identificar outros dois níveis de apreensão: um nível maquinico. a duração do estado normal. morte). onde a normalidade é vivida como “estado” e a anormalidade como “transformação”. por outro lado. comme une absence d’événement. um nível fenomenológico. où la différence entre la santé et la maladie se réduit à quelques transformations narratives et aux modifications des équilibres figuratifs. où elle se manifeste par l’apparition d’un “éprouvé” spécifique. et qu’une illusion d’absence de transformations.i i i i 104 José Bártolo (infecção. estes dois níveis são entendidos como dois planos narrativos que se interdefinem. ni même “symptomatique” ”. Comme les deux niveaux ne sont pas liés par une présupposition réciproque. Trabalhando o par doença/saúde. desgaste.pt i i i i . Ibidem. Ibidem. O nível no interior do qual o médico opera o doente não é mais maquinico ou cientifico do que o nível a partir do qual o doente é operado. onde a normalidade é uma produção e tensão permanentes. quando as defesas baixam. inversamente a “anormalidade” é o resultado de um “relaxamento das tensões normalizadoras”. 40 Idem. www. le malaise n’est pas obligatoirement “sincère”. grâce aux equilibres en mouvement qu’elle parvient à maintenir. inflamação.

A reunião dos dois num só actante. a partir de tensões de resistência. profundo e existencial. noutras palavras. forças. por um lado. une individualité susceptible de se sentir comme “corps propre” unique et conscient de lui-même. Ibidem. constituirá o plano de mediação entre 41 42 Idem. estabilizar. a doença) como a “manifestação” da embraiagem do primeiro nível sobre o segundo. ou. no qual podemos distinguir dois níveis de operatividade: o corpo-carne correspondendo ao que Fontanille designa por “totalité composite dans l’existence”42 (partes. 3. Fontanille chama-nos a atenção para o facto de. como um estado estável. le “corps-actant” du plan de l’expérience.”41 O modelo narrativo do corpo normal/corpo anormal permite-nos.pt i i i i . mas que é possível controlar. Devemos considerar a existência de um corpo-actante.labcom. outro. perceber: 1. ataques e defesas em todas as direcções). “le statut de l’actant change radicalemnt.i i i i Corpo e Sentido 105 operador) e doente (corpo operado) interdefinem-se um por relação com o outro. qui éprouve l’etat de bien-être et l’événement morbide est au contraire une unité intégrale. le “corps-actant” du plan de l’existence. 2. em síntese. que manifesta. a resistência síncrona e controlada. e o corpopróprio. Pág. Podemos. qui est le siège des luttes polymorphes et des relâchements accidentels est un totalité composite (et donc partitive). constituée d’une multitude de composants et de forces en conflit. por embraiagem. de certo modo. por outro lado. a anomalia. o anormal (o monstro. A existência de dois níveis narrativos: um. Idem. un vaste champ de batailles où se déroulent simultanément et sucessivement d’innombrables escarmouches. e. normalizada. definir. nesta perspectiva. www. constituído por uma estrutura polémica multiforme. Ibidem. como um acontecimento perturbador e destabilizador. superficial e experiencial. o “baixar de defesas” e a “perda de controlo”. 5.ubi. a “manifestação” do protagonismo do nível polémico profundo e do plano da existência no nível superficial e no plano da experiência. como unidade coerente da experiência.

num corpo unificado. a ligação do que. nunca esteve verdadeiramente separado.ubi.labcom.i i i i 106 José Bártolo existência e experiência.pt i i i i . www. afinal.

“Observa tio diuturna. mas porque a visão é. 1 107 i i i i . olhar o corpo é. enunciá-lo. por excelência. Ibidem. é apresentada por José Augusto Mourão e Estela Guedes em “Fenómenos estranhos: Os monstros no naturalismo” On-line www. para alguns institutos de anatomia. a sua divisa.triplov. pouco a pouco. sabe que o olhar exige muito mais: “olhar acaba por ser impor objectivos ao visível e. a fazer dele objectos”. um processo de construção do objecto que se tem diante dos olhos. não apenas porque a visão realiza um processo de enunciação. como o anatomista. já.1 Se é verdade que para ver basta ter olhos. sempre.2 A visão é um processo de enunciação. em certo sentido. bem como a ideia. tal como o anatomista. a fórmula de Cícero tornou-se na divisa do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina do Porto. notanbis rebus. 2 Idem. A citação. o semiólogo. só conhece o que analisa e o processo de análise é. fecit artem” escrevia Cícero no De divinatione.i i i i Capítulo 5 A existência de um espaço de ressonância entre o corpo e a linguagem O semiólogo opera. de certo modo. formulando aquela que se tornará.pt. o lugar teórico da enunciação: • O lugar de uma possível formalização capaz de fornecer um conhecimento novo.

Corpo. 1988. tal como o anatomista desfaz um braço para melhor o analisar. a um tempo. mas nesse trabalho sobre o corpo este é mais desfeito do que feito. em grande medida porque a descrição do corpo corresponde. O espaço de ressonância é um espaço de relação intersubjectiva entre o m’eu corpo e o mundo através da linguagem. antes. inevitavelmente. sendo que a determinação de “ausência” só se torna possível pela inscrição actual. 3 A expressão e a ideia são de José Gil. Cf. Litoral. a linguagem apresenta-a. por exemplo. circulação sanguínea etc. coisa entre coisas – havendo nele operações aparentemente mudas: transformações celulares. há. disseca-o. sentida por de dentro. A primeira tentação contra a qual é necessário estar preparado é a de fazer do corpo uma linguagem3 . aliás. comparável ao corte anatómico. A descrição só pode ser feita desfazendo aquilo que se descreve.122. p. ao mundo (ao espaço e ao tempo) e à linguagem.i i i i 108 José Bártolo • O lugar de um theôrein pelo qual a componente figurativa é precisamente fonte de um conhecimento real. um laço intersubjectivo que liga. através da linguagem no presente real. e que propriosentida. A linguagem que diz a dor que eu sinto do meu braço é um modo de apresentação de um ausente. A linguagem não se limita a verbalizar ou a traduzir a minha dor. José Gil. Fenómenos como o desejo. Poder. Espaço. www. muito mais. Anteriormente dissemos haver um espaço de ressonância entre a linguagem e o corpo.labcom. Qualquer descrição do corpo tende a constitui-lo de um modo absolutamente distinto daquele em que temos corpo. funcionamento orgânico. descreve-o.ubi. a dor que eu sinto do meu braço. – e zona de ressonância interna/externa. o medo ou a alegria são formas que vivendo na profundidade do espaço do sujeito e manifestando-se não-verbalmente não se encontram desligadas nem do mundo nem da linguagem. Compreender o corpo a partir de uma determinada linguagem é. O corpo é. por exemplo. corta-o. objectiva-a como coisa real tornando-a. passível de ser analisada por um médico. ao seu desmembramento – o corte linguístico é. Lisboa. um processo de que nos permite compreender a linguagem que utilizamos do que um processo que nos permite compreender o próprio corpo. A descrição não pode evitar desmembramento e nessa medida toda a descrição pode ser tomada como uma análise.pt i i i i . embora olhar o corpo quase sempre tenda a posiciona-lo no interior de uma linguagem. a dor.

Zilberberg. o “eu penso”.. que se constitui. significa. é como que uma unidade perceptiva dominante de formas parciais de representar. Esta interpretação não é estranha.ubi.. É pacífico. A síntese da coisa dá-se intersubjectivamente. um representado que exprime modos de representação. pp 1-31. à semiótica. toco. O corpo orgânico é. A representação não é. É o corpo. como diria José Gil.labcom.pt i i i i . relativamente ao corpo. Poder-se-ia. o corpo e a linguagem devem. frequentemente citado por ter desenvolvido uma filosofia da subjectividade verdadeiramente incarnada: o corpo que percebe é a condição orgânica do percebido. são formas que reenviam ao eu enquanto unidade perceptiva singular. A restrição da apresentação. pelo menos desde Greimas. pelo facto de se representar um corpo. e não apenas algo representado. exterior ao representado. a partir do m’eu corpo. C. aqui evocar Merleau-Ponty. Língua e infra-língua. Quando eu penso. intercorporeamente. uma forma da representação.i i i i Corpo e Sentido 109 Agora é claro que o sentido da realidade do corpo orgânico no sistema intersubjectivo não pode reduzir-se ao de um qualquer corpo representado. de lamelas. 4 www. Como dizia Zilbeberg “se a significação é o mediador. verdadeiramente uma operação de relação entre o que é exterior e o que é interior mas um modo de apresentação – de mim às coisas e das coisas a/em mim – em que o exterior é simultaneamente interior e o interior simultaneamente exterior. “eu vejo” etc. Tal operação não é. Actes Sémiot. vejo. O corpo orgânico não corresponde apenas a possibilidades perceptivas não dadas. ouço. neste caso. “Modalités et pensée modale ”. ser identificáveis”4 . No 3. sob certas condições. IN Nouv. pelo contrário a representação só se dá por serem possíveis trocas semióticas entre o corpo orgânico e a linguagem. signo e infra-signo são postos em comunicação no espaço do corpo. 1989. espaço feito. de esfoliações que operam as reversibilidades interior/exterior. Zilberberg não específica claramente quais as “condições” sob as quais tal identificação poderia ser feita. desde logo. ao operar Cf. mas seguramente poderíamos pensar em operações como o deítismo em que essa identificação se torna particularmente pertinente. a uma espécie de indeterminação do fenómeno na medida em que grande parte das operações que nele se dão são mudas. pelo menos para a semiótica mais recente a tese de que a deixis se organiza intersubjectivamente a partir do eu. então.

un corps sentant qui prend une position sensible entre deux domianes destinés à devinir l’un. quase biológico. Não é. “De la sémiotique de la présence à la structure tensive ”. O corpo falar e nós falarmos com o corpo ou pelo corpo não situações identificáveis. expressões que parecem pressupor uma espécie de língua do corpo. Dizemos que o corpo fala. celui du contenu. et (2) grâce à la corrélation entre une intensité et une étendue. pese embora a importância percursora da semiótica saussureana. o que. 2003.i i i i 110 José Bártolo marcações hic et nunc.). IN Eric Landowski et al. ISPA. comme le soutient la vulgate saussurienne et hjelmslevienne . 222. vindo do campo da filosofia tem o sugestivo título de “Por o Corpo a Pensar”7 . São Paulo.”6 . celui de l’expression. 1997. que o “sorriso comunica”. no entanto esta a perspectiva que mais nos interessa. et l’autre.ubi. 6 Jacques Fontanille. No Curso de Linguística Geral. Cf. talvez não corresponda. também exactamente ao mesmo que dizer que o corpo se expressa patologicamente quando sentimos frio ou dor.pt i i i i . 7 Maria João Ceitil. que nos permitem saber se alguém está alegre ou triste. Pág. Educ/Uap. associado à língua e ao seu uso social. Mas terá o corpo uma língua? utilizamos expressões nas quais dizemos que os “olhos falam”. Estética. a dizer a verdade ou a mentir. No 17. Semiótica. que temporaliza e espacializa. ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social.labcom. Estesis. 1970. Saussure desenvolve a concepção axial de língua como um sistema de signos – um sistema de signos que expressam ideias – cujo estudo competiria à semiologia. Lisboa. De entro os estudos recentes que em Portugal foram publicados sobre o corpo. IN Langages. determinando as posições do Tu e do Ele5 . Pôr o Corpo a Pensar. Nas palavras de Fontanille “la sémiosis n’est pás seulement un lien logique de préssuposition entre deux fonctifs abstraits. “L’appareil formel de l’énonciation”. como Sabe-se que foi pelo perspectiva dos pronomes que Benveniste reintroduziu o paradigma suplementar que permite reconstruir a subjectividade na linguagem. não corresponda exactamente ao mesmo que dizer que possuímos técnicas que nos permitem ler o corpo. elle est accomplie (1) sous le contrôle d’un corps propre. 5 www. por analogia poder-se-ia dizer que a tarefa do semiólogo que estuda o corpo é a de “Pôr o Corpo a Falar”. (Eds. Ao semiólogo caberia a tarefa de conhecer a língua do corpo. O corpo pode falar por ventríloquia. talvez. um dos mais interessantes. Benveniste. A terminologia utilizada por Saussure é particularmente interessante no modo como reforça um sentido dinâmico. tornar comunicantes os seus sinais. E.

A antropologia tornou clara a importância das condições culturais da produção de modalizações de sentido do corpo. sendo as condições desse fazer. analisa-se em termos de estruturas elementares em estruturas actanciais e. Qualquer que seja o objecto de análise do semiótico. da “aparição” dos fenómenos que se dá a ser a ser acolhida pela nossa aparelhagem sensível. aliás. e da estratégia.pt i i i i . do contágio. a semiótica deverá começar por interrogar os níveis da experiência. por um lado. eles correspondem ao percurso gerativo da significação. Os níveis de pertinência do plano do conteúdo são bem conhecidos. designar por uma semiótica cultural. que nos interessam aqui dilucidar. mais do que a partir da perspectiva da antropologia. qualquer que seja o projecto semiótico a constituir. a semiótica das situações e. em termos de estruturas narrativas. isto é. seguindo a proposta de Fontanille. pode falar na medida em que ele é feito falar. quer no plano semântico quer pragmático. sobre a apercepção fenomenal e a sua respectiva esquematização semiótica. deverá questionar sob que condições diferentes níveis de experiência sensível podem ser convertidos em níveis pertinentes de análise semiótica. que fundamenta.i i i i Corpo e Sentido 111 já dissemos. No entanto. O corpo é feito no interior de um determinado contexto semiótico. em estruturas modais. A proposta fontanilleana é a de que podemos dispor esses níveis de pertinência sobre os modos do sensível. permanentemente. a semiótica do contínuo e das tensões graduais.ubi. interessa-nos analisar o corpo a partir do que podemos. www. a “existência semiótica” uma vez convertida em “conteúdo de significação”. por outro lado. a semiótica tenderá actualmente a assentar sobre uma hierarquia e um percurso de integração de diferentes níveis de pertinência semiótica e deverá procurar reconstituir uma continuidade que estabeleça uma espécie de compromisso entre a semiótica modal e actancial. que fundamenta as análises semióticas acerca da interface.labcom. indo. Se partirmos. estão a investir de sentido um determinado objecto no interior de uma cultura. Já em relação aos níveis de pertinência do plano de expressão eles são muito menos dominados ou estabilizados pelo semiótico. buscar a Fontanille a definição. tal como ele se nos apresenta nas obras de Marc Augé ou de Carlo Severi. aliás. mas tal proposta permanece insuficiente para definir os níveis de análise a partir dos quais podemos trabalhar a hierarquia dos valores semióticos que.

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José Bártolo

Citando Jacques Fontanille : “L’histoire récent de la sémiotique fournit déjà quelques indications en ce sens, et notamment le passage, dans les années soixante-dix, d’une sémiotique du signe à une sémiotique du texte. En effect, défenir comme niveau pertinent de l’analyse sémiotique le signe ou le texte, c’est décider de la dimension et de la nature de l’ensemble expressif à prendre en considération pour opérer les commutations, les segmentations et les catalyses qui dégageront les signifiés et les valeurs. Dans un cas, cette dimension est celle des unités minimales (les signes) et dans l’autre cas, celle des “ ensembles signifiants” et des textes-énoncés. Mais en termes d’expérience, la différence se fait tout aussi bien, puisque, dans le premier cas, on segmente, on sélectionne, et on identifie des figures, alors que, dans l’autre, on tente de saisir d’une totalité qui se donne en entier, sous la forme matérielle de données textuelles (verbales ou non-verbales).”8 Dois conceitos se destacam no comentário de Fontanille, o conceito de “texto” e o conceito de “figura”, elementos estruturantes de dois níveis de experiência: a experiência figurativa donde extraímos os signos; e a experiência textual donde extraímos os enunciados. Por figura entende-se a “unidade mínima”, o “morfema”, enquanto que por texto se entende uma “unidade complexa”, “articulada”, verbal ou não-verbal. Mais, importa sublinhar que a experiência textual englobará, já, a experiência figurativa, constituindo-se por integração de propriedades presentes na experiência figurativa, transformando em unidades pertinentes (em enunciados) propriedades que no primeiro nível seriam acessórios (os signos). A estes dois, podemos acrescentar três outros níveis de experiência que a semiótica mais recente vem trabalhando: a) o nível dos objectos; o nível das situações; e o nível das formas de vida. Os objectos, que vêm sendo bem estudados pela semiótica de Michela Deni9 ou de Alessandro Zinna10 , constituem uma instância intermediária entre os textos e as situações, (muito bem trabalhadas, sobretudo, por Eric Lan8 Jacques Fontanille, “ Textes, objects, situations et formes de vie. Les niveaux de pertinence de la semiotique des cultures ”, IN E|C, Rivista dell’Associazione Italiana di Studi Semiotici, Maggio, 2004, Pág. 2. 9 Michela Zenni (Dir.), La semiotica degli oggeti, Versus, no 91/92, Milan, Bompiani, 2002. 10 Alessandro Zinna, Synthèse pour l’Habitation à diriger les Recherches, Université de Limoges, Limoges, 2001.

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Corpo e Sentido

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dowski11 ) nomeadamente na competência de suportes que permitem, não só, o envolvimento dos “textos” nas situações mas daí figurarem como instâncias enunciativas incarnadas, em interacção com outros corpos-actantes que participam da mesma situação. As situações definem, o que Landowski chama, as “condições semióticas da interacção”12 e, concretamente, das formas de vida que subsumem o conjunto dos outros níveis de experiência – das figuras, dos textos, dos objectos e das situações – e que fornecem as condições constitutivas das diferentes culturas. O semiótico só pode pensar o corpo inserindo-o numa determinada situação semiótica. Uma situação semiótica é uma configuração heterogénea que reúne todos os elementos necessários à produção e à interpretação da significação. Eric Landowski definiu a semiótica das situações como o resultado de uma “semioticização do contexto”13 . Landowski propõe que consideremos a “armadura modal” das situações como o operador organizacional das situações semióticas. Tal proposta tem vindo a ganhar, recentemente, uma amplitude ainda maior, em dois sentidos: “ i) dans le sens de la généralization : en effet, à chaque niveau d’analyse, le principe de pertinence retient des éléments comme pouvant constituer la “ forme ” recherchée, et traite les autres comme accessoires et contextuels ; et para conséquence, c’est au niveau suivant que, par intégration à un autre principe de pertinence, les éléments contextuels du niveau précédent seront “ semiotisés ”. ii) dans le sens de la specification : bien d’autres éléments viennent s’agréger au noyau actantiel et modal de la situation (...)”14 Em síntese, e na perspectiva de uma semiótica do corpo: a) O corpo começa por ser aquilo que me salta à vista, encontro, lugar de encontro, “signo” que solicita os meus sentidos, que se dá a ser sentido. b) Esses “signos” e figuras são organizados, pela enunciação,
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Eric Landowski, Présences de l’autre, PUF, Paris, 1997. Eric Landowski, La société réfléchie, Seuil, Paris, 1989. 13 Idem, Ibidem, Pág. 199. 14 Jacques Fontanille, “Textes, objects...”, Pág. 7.

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José Bártolo em “textos-enunciados”: um determinado gesto ou uma tatuagem, por exemplo. c) Esses “textos” são inscritos em objectos: a pele no caso da tatuagem, o corpo do doente no caso do gesto médico de auscultação, por exemplo. d) Cada um desses objectos pertence a um determinado nível de “práticas culturais” (como a prática médica, por exemplo), constituídas por “cenas predicativas” sucessivas, que determinam zonas críticas a considerar no percurso semiótico. e) As “cenas predicativas” e as práticas devem ser, na análise semiótica, ajustadas entre elas. f) A experiência daí resultante, análise de recorrências, de regularidades ou irregularidades, de ajustamentos estratégicos, etc., deve ser direccionada pelo semiótico para o interior de um dispositivo de “expressão pertinente” que dará lugar à consideração de uma forma de vida que integra todos os níveis inferiores de produção de sentido. g) A forma de vida que um determinado corpo assume integra assim uma série de momentos de produção de sentido fixados, ainda que sempre instavelmente, na sua forma de vida, ou seja, naquilo que ele é.

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Capítulo 6

O Corpo na fenomenologia e na semiótica
São inúmeras as referências que, na obra de Greimas, podemos encontrar a Merleau-Ponty. Se por um lado não é de estranhar essa referência, sabendo-se que nos anos 50 e, em grande parte, nos anos 60, a filosofia francesa está dominada pelo projecto fenomenológico, também é verdade que a evocação greimasiana do projecto fenomenológico é, sempre, suficientemente atenta para nos dar a ver as proximidades mas, também, as diferenças. Por outro lado, se alguma semiótica se inspirou na tradição fenomenológica também sabemos que Merleau-Ponty soube recolher ensinamentos nos cursos de Saussure. Greimas afirmou diversas vezes existir uma componente fenomenológica no conceito de existência semiótica do objecto, enquanto expressão de uma imanência que supera, ou pelo menos torna indecidível a diferença entre pensamento e linguagem.1 Uma aproximação, de carácter mais geral, está numa semelhante atitude analítica que poderíamos, em síntese, identificar com um programa de retorno às próprias coisas. Na Fenomenologia da Percepção Ponty afirma que “A fenomenologia é uma filosofia que recoloca as essências na existência e não acredita que se possa compreender o homem e o mundo senão a partir da sua facticidade.”2
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A. J. Greimas, “L’actualité du saussurisme”, IN Le français moderne, 3, 1956, Pág. 193. M. Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception, Paris, Gallimard, 1945, p.III.

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A partir desta concepção de fenomenologia e de mundo fenomenológico interessava a Merleau-Ponty a definição da estrutura fenoménica, a estrutura do comportamento, da consciência e do ser-no-mundo. Outro dos grandes pontos de convergência entre a fenomenologia e a semiótica mais recente reside na centralidade do conceito de corpo. Landowski lembrava com pertinência que “ce n’est pás nous, sémioticiens, qui avons invente la distinction entre l’intelligible et le sensible – entre l’âme et le corps ! Et notre but n’est pas de découvrir comment nous en passer. Mais ce qui nous revient peut-être à présent, ce serait de cesser de les opposer en théorie, et de montrer au contraire qu’au-delà ou en deçà de la diversité admise des régimes de construction et de saisie du sens, le sens est un.”3 Um dos grandes méritos da fenomenologia é o de considerar o corpo no mundo, trata-se de estudar o papel do corpo próprio na constituição do sentido. Merleau-Ponty mostrará que a estrutura fenoménica é reflexiva, constructo de uma reflexão que ocorre antes de mais no corpo e não na consciência. Ocorre nessa “matéria animada que não é uma máquina de informação mas a sentinela silenciosa das minhas palavras e dos meus actos.”4 . Jacques Geninasca recorda que “la notion philosophique de “corps propre” a été introduite pour établir une nécessaire distinction entre le corps objectivé de la medicine et des sciences biologiques et le corps vécu du sujet. Plusieurs sémioticiens la convoquent aujourd’hui, à juste titre, dans le but de spécifier la position qui est la leur par opposition à la perspective des sciences de la nature.”5 É portanto o corpo que instaura a estrutura simbólica destruindo a oposição do objectivo e do subjectivo ao situar o para-si num domínio que, tradicionalmente, era considerado como pertencente ao em-si. Em O Olho e o Espírito Merleau-Ponty escreve: “O enigma consiste em que o meu corpo é ao mesmo tempo vidente e visível. Ele, que olha todas as coisas, pode também olhar-se e reconhecer então naquilo que vê o “outro lado” do seu poder vidente. Ele vê-se vendo, toca-se tocando, é visível e sensível para si mesmo.”
Eric Landowski, “ Introduction a Passions Sans Nom. Essais de socio-semiotique III, IN E|C, mars, 2003, Pág. 6. 4 M. Merleau-Ponty, L’oeil et l’esprit, Paris, Gallimard, 1964, p. 13. 5 Jacques Geninasca, Op. Cit., Pág. 8.
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que caracteriza precisamente o próprio corpo. também. Enquanto escrevo ao computador agarrei numa caneta. ou umas sobrepostas ás outras. A análise perfecciona o corpo limpando uma mancha que. escrevi uma breve nota e voltei à redacção do texto em computador. do eu e do outro. O corpo aparece. a imperfeição contínua. A noção de imperfeição tão essencial no pensamento de Greimas procura dilucidar esse inacabamento que caracteriza qualquer fenómeno e que é particularmente evidente quanto se estuda o corpo. Merleau-Ponty sublinha que na fenomenologia “il s’agit de décrire. “escrevo no computador”. et non pas d’expliquer ni d’analyser”6 . por mais cuidadosos e precisos que eles sejam e por mais adequados que possam ser às imperfeições do corpo ou da vida. no corpo vivo. www. Porém se quiser analisar os meus gestos terei de “partir” a acção e reduzi-la a momentos formais: “escrevo ao computador”. então. fendas ou falhas de sentido. interrompeu-a. as determinações e as fronteiras. sem que entre um e outro hajam brechas. de tocante e de tangível. De facto. o sentido de qualquer outro – desta mesa ou daquela árvore – que se faz presente em mim. mistura de visível e de invisível. Verdadeiramente apenas a análise mostra um entre. Paris. “agarro a caneta”. mas.ubi.pt i i i i . a própria vida. L’oeil et l’esprit. o seu sentido. sob este ponto de vista. como algo simultaneamente expressivo e oculto. 6 M. sem falha. ao ser analisado pelo biólogo ou pelo anatomista como partes extra partes. “escrevo com a caneta”.labcom. de um modo não-natural. que retomam a tocar o teclado . p. mas que deixam escapar a continuidade. Gallimard.num corpus .i i i i Corpo e Sentido 117 O mundo fenomenológico surge. “ dirijo as mãos para o teclado”. “levanto as mãos e dirijo-as a uma caneta”. A análise não só quebrou a acção. não pode ser limpa.que se dão umas na sequência das outras. há uma mancha que passa do gesto dos dedos tocando o teclado. mas é a própria análise quem estabelece. no plano da vida não há entre.sem fendas. há uma ligação. a sua realização terminará no inventário de posições . 1964. Analisar parece pressupor. para o gesto dos dedos que agarram uma caneta. 13. a efectuação de cortes na situação em que naturalmente nos encontramos. No corpo vivo há uma mancha que passa dos dedos para a mão e da mão para os pulsos. que escrevem uma frase. uma imperfeição que faz com que um escorra para o outro. Merleau-Ponty. os vários passos sucederamse sem que o seguinte implica-se o encerramento do anterior.

Perceber pressupõe. o sentir : percebo a minha mão sentindo-a tocar no teclado. de outro. entre estar dentro e estar diante. Ora o corpo. à continuidade entendida como “paragem da paragem”. enquanto na acção. na expressão de Cl.pt i i i i . “passagem”. Greimas e J. escrita por Greimas e Fontanille. Quando de um lado falamos em saliências. sentido o frio. “dés états des choses aux états d’âme”. uma “paragem”. distensões ou euforia. apresenta uma noção de corpo. respectivamente. um sincretismo categorial correspondente ao que a semiótica chama de tensividade fórica. sentido o seu cansaço. Seuil. e impôs-lhe rupturas internas. O corpo é a inscrição da impossibilidade de um sair para fora. cobre um horizonte teórico onde se processam flutuações de tensão alternando saliências e passâncias. por idênticas operações de “paragem” e de “paragem da paA. Fontanille. Zilberberg. “transitividade”. isto é. é a mancha de um estar dentro mesmo quando se opera o estar diante. De facto. 1991. por exemplo. Raison et poétique du sens. Zilberberg8 . PUF. A tensividade fórica pode ser entendida como uma proto-sinta. define tanto a predominância dos estados de retenção (disforia) como a predominância dos estados de distensão (euforia). deste modo. numa espécie de sucessão de ininterrupções entre. uma circulação que neutraliza as tensões próprias da relação sujeito/objecto e que constitui o ponto de partida para se pensarem as articulações realizadas em outros níveis. estamos a articular em descontinuidade e continuidade. com o seu sentido de “transporte”. como se inscreve num plano cognitivo totalmente diferente daquele onde a própria acção decorreu. entre este estar dentro e este estar diante das coisas.xe. 8 Cl. o acto de escrever ao computador e o apontar de uma nota numa folha de papel. eu estou dentro dela.J. A noção de perceber. 7 www. perante o qual a descontinuidade da análise provoca uma “fenda”. prefigura a tensão entre sujeito e objecto. Paris. O próprio subtítulo da obra. retenções ou disforia e.labcom. A Semiótica das paixões7 . na análise eu passo a ter os meus gestos “diante de mim”. Paris. supõe o estabelecimento de uma continuidade entre percebido e sentido.ubi. ou. A noção de sentir pertencendo ao domínio da foria. falamos em passâncias. Sémiotique des passions. p.i i i i 118 José Bártolo retirou-a do espaço da vida. Des états de choses aux états d’âme. em semiótica. Este conceito. por oposição.101. em Merleau-Ponty é precisamente a categoria que deve superar a distância entre sujeito e objecto. próxima da Merleau-Ponty.

11 Idem. “conscient”) qu’au moment de la dénomination-lexicalisation. Ibidem. J. 12 A. 1992. Não há significação sem semiosis. “Quer se trate do corpo do outro ou do meu próprio corpo. pois. eu não tenho outro meio de o conhecer senão vivendoo. Pelo sentir um quase-objecto torna-se para mim um “objecto imediato como conjunto impregnado de uma significação imanente”10 . dans ce contexte donné. Para Merleau-Ponty há uma “significação primordial que se obtém pela coexistência”11 . Oliveira. on a l’impression que l’indice de sensibilisation ne se trouve ajouté qu’au lexème dénommant le dispositif modal qui.‘susceptible de’). Na belíssima definição de Merleau-Ponty a palavra é uma espécie de “plenitude abafada” que dá conta do sentido na medida em que dá conta do meu sentir.. J. elas prolongam um acontecimento. Phénoménologie de la perception. 155. a partir de um “entendimento erótico” entre corpos. Merleau-Ponty. de prender o sentido ao dar espessura a um objecto previamente sentido em nós.”9 Só conhecemos aquilo que vivemos e não aquilo que pensamos. Ibidem. isto é retomar à minha conta o drama que o atravessa e de me confundir com ele. num caso como noutro. Do inteligível ao sensível. A palavra viva da filosofia de Merleau-Ponty tem um estatuto próximo daquele que a semiótica atribui à enunciação. uma estrutura de espaço e uma estrutura de tempo na qual o sentido possa ser construído. deviendra un pathème réalisé (et non plus. A enunciação tem a capacidade de constituir um adquirido intersubjectivo. “ Notas manuscritas de A. Greimas”. Greimas. Pág. 144.pt i i i i .labcom. Pág. Greimas aproxima-se desta ideia ao afirmar que “tout se passe comme si la sensibilization d’un dispositif modal donné ne se faisait (ou de moins ne devenait apparent. não vivemos no pensamento: vivemos as coisas a partir do seu sentido incarnado. Só conhecemos aquilo que vivemos. que nasce do corpo próprio. sentindo-as. C. São Paulo. Gallimard.”12 M. 1995.estaremos então concebendo antes de mais um horizonte de sentido. 10 9 www.ubi. 231. Educ.i i i i Corpo e Sentido 119 ragem” . a significação corresponde sempre ao resultado de um encontro durante o qual eu me constituo como sujeito enunciador face a um objecto enunciado. o acontecer do sentido. sendo que na fenomenologia pontyana a palavra é expressão de sentido. Pág. Idem. IN A.. Paris.

Rio de Janeiro. o tempo da referência e o tempo da alocução. Cit. O efeito de presença foi já analisado e nomeado pela semiótica: é o “acidente estético” em Greimas. . o instante em que a presença se rasga. Ter a experiência do outro. Pág. Ponty. assumi-lo. 299. Barthes. “Digo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência.”14 Se a relação com o outro gera angústia. Desta singular distorção. associar esta “plenitude abafada” de que fala Merleau-Ponty e o “presente” classificado por Barthes como um “pedaço de angústia”13 . Tradução portuguesa de H. 29. dos santos. situação com efeito extraordinária. por outro lado. Ibidem. (. isto é. Não só a “palavra” pontyneana é uma palavra incarnada. no interior de uma “máquina” que controla uma semiótica sem resto. antes. de presença.”16 Quando Merleau-Ponty nos de experiência sensível. Em Landowski encontramos uma análise cuidada em torno das condições de reconhecimento de um objecto no interior de uma semiótica da preR. . Pág. de encontro. presente como alocutório. 16 Idem. reencontrar aí o sentido imanente. tal tem a ver dessa não ser uma relação técnica como a relação que o anatomista mantém com o cadáver que disseca. 65. como diria Parret.pt i i i i . o outro está ausente como referente.i i i i 120 José Bártolo Não será difícil a um leitor de Barthes. não é recebê-lo passivamente mas. ela não acontece no interior de um “mundo de substituição”. o presente barthesiano é o presente da enunciação. a “apreensão amorosa” em Geninasca. estou bloqueado entre dois tempos. 13 www. Fragmentos de um discurso amoroso. a relação acontece no “campo da intersubjectividade”. Pág.ubi. inscrita num espaço e num tempo a partir da ancoragem do corpo próprio como. não está a falar de matérias estranhas ao semiótico. no “intercorpo”. ) Sei então o que é o presente. 1988. 15 M. em ausência por desse outro.labcom. simultaneamente.15 Nas palavras de Merleau-Ponty “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que no-lo torna presente como lugar familiar da nossa vida. Op. que me faz presente e a quem presentifico. para falar como Merleau-Ponty. vivêlo. nasce uma espécie de presente insustentável. retomá-lo. eventualmente os acontecimentos de ordem “poética” de Jakobson. Livraria Francisco Alves. 14 Idem. esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia. Ibidimem. não pode restar nada mais do que uma enunciação..

Paixão e Discurso.ma-se desta leitura ao trabalhar. se o sujeito anseia pelo encontro isso quer dizer que ele estará mobilizado para que o encontro se dê e que essa mobilização. 117. A semiótica pela voz de Zilberger ou Fontanille. 21 Idem. o conquistada. es necesario y suficiente pasar en el buen momento y encontrarse situado en el buen ángulo. 1996. na perspectiva da fenomenologia se expressa falando em intencionalidade do corpo próprio18 . Op. em parte.. reúne condições de possibilidade de o encontro se dar. “Sobre el contagio ”. Semiótica. Cit. a existência do corpo próprio: “Para que el encuentro tenga lugar. porque sujeito e objecto aproveitaram a oportunidade. IN E. fundamentalmente. mesmo que não lhe dê a centralidade que ele ocupa em Merleau-Ponty ou Fontenille. e na perspectiva da semiótica o que. A teoria da mobilização de competências pré-semióticas traduz.. como de resto já vimos. 18 17 www. o corpo próprio como a instância ad quo sob a qual podemos ancorar o sentido. tempo oportuno.. 19 José Augusto Mourão. A intencionalidade do corpo próprio. O encontro não identifica um “puro acidente” mas.”17 Por outras palavras. Pág.i i i i Corpo e Sentido 121 sença que não ignora.21 Eric Landowski.. Lisboa.pt i i i i . Ibidem.ubi. O instante do encontro é kairos. 2001. falando do corpo próprio como o operador que estabelece a “instalação das primeiras coordenadas a ancoragem do corpo activo num objecto”20 . uma pré-construção do encontro. 278. Segundo José Augusto Mourão o corpo emite infra-signos que são a matriz pré-verbal do sentido. lo que.labcom. pero no armonía preestablecida. circunstancialmente. antes. aproxi.19 . expressão de identidade entre semiosis e corpo próprio: “como se o meu corpo fosse a obscuridade da sala necessária à claridade do espectáculo”. Merleau-Ponty expressa-o através da bela imagem do “marinheiro que nun. Lisboa. Landowski et al. nos pondrá de hecho en presencia de un juego de relaciones en sí mismo eficaz aun si ello depende únicamente de ese instante y de nuestra propria posición: recompensa de una disponibilidad querida.ca abandona o mar” graças a essa ancoragem do corpo. O corpo é para a fenomenologia como para a semiótica “ancoragem de sentido”. 20 Merleau-Ponty. Vega. 128. Instituto Piaget.. Pág. Sobre este tema leia-se o excelente estudo de Paulo Dantas. Sujeito. uma preparação na qual um quase-sujeito antecipa competências que lhe permitirão honrar o encontro. Pág.

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Mais il semble difficile de considérer les sémiotiques en elles-mêmes: en effet. são agenciamentos discursivos decisivos do tipo de regime semiótico. Paris. de resto. As análise de Deleuze e Guattari são aqui decisivas. que actualiza. isto é. Un régime de signes constitue une sémiotique. et les deux formes renvoient à des agencements qui ne sont pas principalement linguistiques. quer a forma de expressão. o “literal” e o “figurado” são sentidos (assim diz-se “sentido figurado” ou “sentido literal”) isto é. lembrava Benveniste que o signo deve ser reconhecido e o semântico compreendido. ou. il y a toujours une forme de contenu. compreende-se a representação. 140.”1 Quer a forma de contéudo. Mille Plateaux. Pág. compreende-se a figuração. à la fois inséparable et indépendante de la forme d’expression. dizem-nos eles: “On appelle régime de signes toute formalization d’expression spécifique. 123 i i i i . 1980. O 1 Gilles Deleuze e Félix Guattari. au moins dans le cas où l’expression est linguistique. A este respeito. a distinção formulada por Dilthey e que percorre toda uma tradição semiótica. reconhece-se a literalidade. remetem a agenciamentos que não são essencialmente linguisticos mas antes discursivos. Contudo o literal “factual” e o “representado”.i i i i Capítulo 7 O corpo como “ancoragem” de sentido É conhecido o debate desenvolvido por Ricoeur e por Greimas entre explicar e compreender. Minuit. reconhece-se a factualidade. por outras palavras.

me cortar etc. corpo sensivel. Por outro lado. a que referimos o fenómeno. isto é. intersubjectiva e. já o dissemos evocando Umberto Eco. por exemplo). tornado transmissível. quer a pele que a reveste. que decide do “regime de linguagem”. isto é. tornado acessível. são fixados por interdefinição. mas discursiva. corpo-signo. a geração. carne e cadáver. por exemplo. Literatura e semiótica. Conceitos como. Mas a linguagem também não existe em si. Como Ricoeur mostra o compreender combina várias categorias: em primeiro lugar. Se tomarmos como exemplo. a “intenção de dizer”. e que cria um sentido (antes inexistente) entre isto. o interno e o externo. a compreensão natural do corpo humano a articulação destas três combinações de categorias revela-se clara. quer o interior que vejo se. nada de estável permitirá a leitura. Pág. A metáfora usada por Eco é operativa em relação ao processo de apropriação através do qual compreendemos isto ou aquilo ( e a partir do qual distinguimos isto de aquilo).labcom. a qualidade do agenciamento que decide do regime de signos. corpo-em-vida. não é linguistica. Ibidem. em terceiro lugar a ipseidade e a alteridade. A compreensão é. Esta é mais do que uma metalinguagem: supõe uma operação de um sujeito que interpreta. Na perspectiva semiótica coabitam várias espécies de explicação: a reduçãoestabilização. a explicação procede por subsunção: “por trás de um fenómeno descobrimos sistemas. aquilo e aquilo ( entre corpo. assim. A sedução do real. a parte e o todo. na perspectiva semiótica. carne.pt i i i i . regularidades. são necessários interlocutores. 1998. 2 www.i i i i 124 José Bártolo sentido semiótico. uma operação de estabilização. 3 Idem. José Augusto Mourão no-lo recorda: “A linguagem em si não tem intencionalidade. Como escreve Fontanille: “Se José Augusto Mourão. de redução.”3 . 45. soma. uma apropriação. por reconstituição dos estados intermediários. Sobre eles opera um determinado agenciamento discursivo: uma intersemiótica. É o discurso. é a partir delas que a minha mão faz parte do meu corpo.ubi. de geração de um fenómeno para o tornar objecto de estudo: assim nos aparece o “corpo” como objecto de estudo.”2 O semiólogo opera como o vampiro. por acidente. não a linguagem. então. Vega. em segundo lugar. numa relação de superfície/profundidade. Se o discurso se torna diaforia pura. Lisboa. como objecto tornado compreensivel. “Explicar” é.

Quando a anatomista “explica” o corpo humano ele está a estabilizar um determinado saber do corpo. Pág. explicando-lhes o que vem e como devem ver. Torna-se claro que não existem comprrensões-puras.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 125 compreender é captar claramente. Envolve-se. não é possivel. por seu turno se converte em uma nova factualidade reclamando uma outra des4 J. A demonstração exige autoridade. tornar compreensivel. a fixar possibilidades no interior de um determinado quadro discursivo. analisamos no capítulo seguinte deste estudo. o facto descrito anuncia-se. Mas demonstrar é. Não surpreende pois. Explicar significa demonstrar. A explicação tende. Fernado Gil di-lo assim: “Não há descrições em estado puro. Explicar é. é legitimar um fazer que passa a ser revestido de valor epistemológico. explicar é fazer compreender. no entanto. irrompe dentro da explicação . Vesálio faz a demonstratio perante um magister que autoriza a hipotipose. isto é. Apud.ubi. em rigor. tornar acessivel. construir um objecto destinado a ser transmitido”4 . da mesma forma que não existem explicações ou descrições-puras: não há descrição que não esteja infectada por compreensões prévias e não há compreensão que não se suporte em descrições já tidas. sempre. Cit. Demonstrar quer dizer provar a correspondência entre o saber impresso nos livros e o saber que “os próprios olhos veêm”. Fontanille. a figura do comentador e a figura do crítico. chegar a compreender sem se ter descrito. corelacionando explicação e compreensão. assim. do saber e do fazer.labcom. também. portanto. www. semioticizar o olhar. é que o comentário “forja” a crítica e. então.que. guiar o olhos. em detalhe. a demonstração requisita esses olhar.. Dupla semioticização. Os olhos que observam o corpo esventrado são conduzidos a ver a demonstração. Op. Na lição de anatomia representada no frontispício do De Humani Corporis Fabrica que. não é possivel desenvolver-se a tarefa crítica sem o desenvolvimento do comentário. e neste sentido. 45. a ter um valor normativo. vemos uma representação de Vesálio a levar a cabo a demonstratio. que o comentário seja propedeutico à crítica. intimamente. tende a ser estabilizadora de um saber e de um fazer: explicar é declinar o fazer no saber. um saber que a própria máquina semiótica da anatomia produziu. inteiramente. estabilizar um sentido que previamente se construiu. José Augusto Mourão. sem que contudo se esteja já a interpretar.

pt i i i i . Imprensa Nacional-Casa da Moeda. o procedimento teórico que visa diminuir a amplitude do arbitrário da descrição. Sabemos que durante muito tempo. isto é. a partir das quais.”. isto é. mas a fórmula que ele utiliza para dizer o sangue. essa possibilidade revela de a minha mão só poder ser vivida por de dentro.ubi. 272. Págs. que tem cinco dedos.é esse o seu ideal. Compreensão e explicação interpenetram-se requesitando-se mutuamente. é o objecto que. Pág. O conceito da minha mão pode ser significado. tem-se desenvolvido uma hermenêutica que tende a considerar mais a relação do que a oposição entre “compreender” e “explicar”. que a vivo como minha. à semelhança da fórmula que o biólogo utiliza para adizer. Op. actualmente. a realidade seja agenciavel pela práctica discursiva que sobre a realidade é exercida. 271José Augusto Mourão. podendo evidentemente ser enunciada de várias maneiras. Thom: “É por isso que o pensamento racional ( a lógica sobretudo) se esforça por reduzir a propagação das pregnâncias a construções combinatórias de formas salientes: reduzir o imaginário ao simbólico . como objecto. O que se visa é constituição de sínteses. o debate hermenêutico orientou-se segundo o binómio diltheyniano (gnosiológico e metodológico) entre “compreender” e “explicar” a que já aludimos.. “My Hand” é uma enunciação de “a minha mão”. por assim dizer. ela pode ser enunciada. 48. tais como “a minha mão”. Este corpo extenso que se prolonga a partir do meu pulso.labcom. que toca o teclado etc. ou as artérias ou os musculos ou os ossos ou a pele ou na sua totalidade a minha mão. funda vários representamen possíveis. De facto. Como escreve R. Lisboa. sobretudo a partir de Ricoeur.i i i i 126 José Bártolo crição e uma outra explicação. a compreensão é um agenciamento da explicação. Mas como coisa-no-mundo.. numa medida identica. reduzir toda a propagação a uma construção de sólidos. isto é por mim.”5 . aquela pela qual.”6 É claro que se pode dizer o corpo e estudar o corpo através de uma construção de sólidos como o faz o biólogo ou o quimico. propriamente... 6 www. José Augusto Mourão lembra-nos que: 5 Fernando Gil. tal fórmula só é coincidente com a minha mão no interior de um agenciamento discursivo especifico que liberta e propaga as pregnâncias de sentido que se pretendia estar reduzidas pela formulação lógica. 2001. Mediações. Cit. “este corpo extenso que. “My hand”. a explicação é um agenciamento da descrição. A explicação é.

O químico quer explicar e o alquímico quer compreender. sido fixada: Apel8 . Thom lembra que “o pensamento puramente matemático. mas que não pode progredir com segurança. 9 Max Weber fundou uma “sociologia compreensiva” que nega a oposição entre explicação e compreensão. Ora é a relação com o objecto que faz o objecto. 10 R. Editorial de la Universidad Complutense.) É uma distinção que possibilita uma teoria diferenciada da ciência. Thom. K.”. entre “compreender” e “explicar” tem. Ricoeur reforça a ideia: “expliquer plus. que vê. 1-2. que não a oposição. O pensamento intuitivo. próxima da práxis. XV. é cego. Págs. quando formalizado. dando-se sempre parcialmente na disposição. têm a ver com um querer-poder. nem nunca se compreende totalmente o objecto. 71.”7 A relação. 503.labcom. nunca se explica totalmente o objecto. Em certo sentido quer a explicação. na esteira de Max Weber9 . como se um e outro se geracem em paralelo sem que nunca coincidam num só. daí eles relacionarem-se de modo diferente com o seu objecto. Pág. de um determinado querer-poder. Pág.ubi. Hachette. 1968. 1985. Veja-se.. nomeadamente. Tubigen. de facto. fala na “mediação” entre a explicação e a compreensão. no contacto com o real. IN Teorema. mas capaz de andar e mesmo de ir muito longe. fixa-lo fazendo dele um objecto de conhecimento. Vol. há sempre um resto. o seu Gesammelte Aufsatzer zur Wissenchaftseorie.10 A visão pragmática pode ter-se apróximado desta sintese. 436 e segs.pt i i i i . Greimas também: explicar é pôr em relação o fenómeno com aquilo que ele não é. c’est comprendre mieux”. Apologie du logos. quando Rorty propõe a abolição Idem. 8 7 www. O que o químico quer-poder é diferente do que o alquímico quer-poder. o objecto é constituido a partir de uma determinada disposição. gradualmente. isto é. é o paralítico da parábola. na palavra de Benjamin. 1990. Cf. R.. Pág. porque se estabelece no plano onto-semântico da diversa referência objectiva e no plano pragmáticotranscendental em que os diversos interesses internos do conhecimento constituem o sentido das diversas investigações. 95-114. Otto Apel. “La distinción diltheyana entre explicación e comprensión y la possibilidad de “mediación” entre ambas”. que só poderia ser ultrapassado na síntese perfeita entre a explicação e a compreensão. Mas no momento em que a disposição cria o objecto este escapa-se à ser fixado por aquela disposição. Ibidem. Por isso. é qualquer coisa próximo dela que está pressuposto. Madrid.i i i i Corpo e Sentido 127 “Esta distinção não consiste numa ruptura ideológica entre as ciências da natureza e as ciências do espírito (. quer a compreensão. Paris.

il n’y a pas de discours (. 26 (1976). mais tout discours dit l’identité. uma morfologia. escreve Gisel: “Tout discours dit le monde.) Tout le discours naît d’une distance et marque une nouvelle distance. demeure l’art de discerner le discours dans l’oeuvre.ubi. o projecto ricoeuriano de constituição de uma poética da acção (PdA): “Une poétique de l’action demande autre chose qu’un reconstruction à valeur descriptive. para que ele se torne facto. Págs. seguindo a proposta de Rorty. 223- 224. que Benjamin designa de “teor material”) e o querer-poder do crítico ( que procura conhecer o objecto tomando-o como um acto discursivo individual. ou. IN Revue de théologie et de philosophie.”14 O discurso sobre uma àrvore ou o discurso sobre um corpo. Para um horizonte semelhante nos remete. o termo parole pelo termo discours13 . l’imagination a une fonction projective qui appartient au dynamisme même de l’agir.. o que há são usos de um objecto. 13 12 www. Págs.pt i i i i . 1996. Gisel. não é a identidade da àrvore ou a identidade do corpo.Du texte à l’action. 14 P. como lhe 11 P. substituindo. O discurso é um acontecimento.labcom.. Não haveria. mais correctamente. par-delà sa fonction mimétique. Ricoeur vai retomar o estatuto da parole saussureana. a poética da acção é um quer-poder que procura fazer a mediação entre o querer-poder do comentador ( que procura conhecer o objecto a partir da sua análise formal. Ibidem. que Benjamin designa de “teor de verdade”) o querer-poder do hermenêuta (aquele que para Ricoeur desenvolve a poética da acção) procura encontrar o “teor de verdade” no próprio “teor material”: “L’herméneutique. no interior do qual o discurso surge como elemento não-sistemático..”12 . exige como sua condição de possibilidade. porém. même appliquée à l’action. “Paul Ricoeur ou le discours entre la parole et le langage”. O discurso é o paradoxo do sistema da linguagem. 98-110. um sistema. No desenvolvimento do projecto da PdA. afirma Ricoeur. no 2. Seuil. Or. senão usos variados de um determinado objecto: não há objecto em sí. igualmente. Paris. Idem.i i i i 128 José Bártolo entre “uso” e “interpretação”. Ricoeur. il n’y a pas de dire (. Essais d’herméneitique II. 110. Para que o discurso se dê.) Mais sans le monde. Todo o discurso diz o mundo.. Ibidem.”11 A poética da acção de Ricoeur parece inscrever-se no território de um querer-poder fazer a mediação entre o comentário e a crítica. dirais-je. mas é “o sentido da vida”. Sans distance. Idem. Pág.

tensões. mas o movimento continuo de um a outro. de não suspender inteiramente a conexão”. o seu lugar enquanto principio do movimento .pt i i i i . só se tornará objecto de estudo da hermenêutica. esta cerejeira. O hermeneuta visa a constituição do plano da imanência. O discurso exige “distância”. como se a distância fosse um elo simultaneamente de distinção e de ligação. A distância é o “campo tensional” (Spannunsgsfeld) como lhe chama Gögelein: “A polaridade encontra. Para o hermeneuta não há nunca luz plena (fixação total) nem escuridaão plena ( total ausência de fixação). fundamentalmente. tal como o comentário ou a crítica são intensidades. designação proposta por Émile Benveniste para caracterizar o carácter temporal do acontecimento discursivo. portanto no campo tensional. A distância é o motor do querer-poder que caracteriza o projecto da PdA. como se o discurso apazigua-se o conflito. o entrelaçamento. entre o desparecer ( efeito erosivo da duração. A efectividade do discurso é geradora de um plano de imanência. mas permanece desse mundo um resto guardado na própria enunciação que faz querer dizer de novo. em todos os casos. do ser-em-tempo. há naquilo que se enuncia. dizer melhor. dizer mais. concretamente este pedaço de mármore). do um/muito. que se constitui no acto discursivo. um mundo que se perde. Para a hermenêutica de Ricoeur não é a efemeridade do acontecimento discursivo que se procura apreender. isto é. concretamente. mas antes o sentido que o percorre: o sentido do nunc tal como nele se dá um determinado quer-poder. enquanto actualização. este corpo.i i i i Corpo e Sentido 129 chama Greimas. de que toda a existência é expressão. ser res temporalis) e um principio abstracto de permanência. da àrvore ou do corpo. são. O que Ricoeur faz é. A distância aqui é o resto.ubi. entre “apropriação” e “distanciamento”.labcom. A PdA é uma intensidade. aqui e agora. mostrar a tensão simbólica do discurso. expressões de querer-poder. o hermeneuta “não acha em si mesmo o alimento de que vive e o elemento no qual vive”. Esta instance de discours. da àrvore ou do corpo. Parece possível pensar que num plano de imanência não há discurso (ou se preferir num plano de imanência não há nada a dizer). a partir do momento em que se torne possível a inscrição material do sentido comunicado (esta àrvore. que podem existir por existir distância. o dizer dá lugar a um espaço em que não há nada a dizer (isto é sentido cumprido): www.mas com a particularidade de conseguir manter uma co-relação.

Págs. directa. ou Plano Imanente. A ideia proposta por Ricoeur é a de que esta diferença entre sentido e referência seria tanto quanto possivel anulada na PdA.i i i i 130 José Bártolo “Revenons au caractère dialectique du discours: celui d’ étre un événement qui a un sens . No primeiro caso. a que Ricoeur chama de “referência de segundo grau”. por um lado. isto é.Disons maintenant: un événement qui se suprime dans un sens. mais compris comme sens. no segundo caso perante a consciência hermenêutica de que o sentido não é tanto criado por nós. isto é.] Ce rapport événement-sens est l’ enigme.pt i i i i . nos daria conta da nossa própria situação no mundo.un événement qui paraît et disparaît. mas representa o plano para o qual devimos. Le discours est un événement -Sens. Cette Aufhebung est le phénomène fondamental du discours [.”15 . bem entendido. o mundo se constitui objecto para uma linguagem. ao acontecimento da linguagem enquanto expressão natural de uma imanência no mundo. Neste contexto.labcom.ubi. na qual. coincidiria com os conceitos fenomenológicos de mundo-da-vida e ser-no-mundo. Le discours représent donc une certaine extériorisation de l’événement par rapport à lui-même. Ricoeur vai definir a significação como o “mesmo” do discurso. A PdA. como se lhe queira chamar. informativa. Ricoeur. no essêncial traduz a situação. www. esta para se constituir exigiria a libertação de um mundo referencial construido a partir de referências imediatas e exigiria a participação das referências simbólicas. dá particular importância a distinção proposta por Frege entre sentido [Sinn] e referência [Bedeutung]. ou função simbólica da linguagem. Ricoeur. estamos confrontados com o poder operativo do sentido em re-construir o mundo. que a identidade da significação diz respeito ao discurso. “a significação não é mais do que esta transposição de um nível de linguagem noutro. de uma 15 P. entre o plano da imanência e a dimensão do referente (o querer-poder). Daí as constantes indicações de Ricoeur. uma linguagem recria um mundo e. Seria esta referência em segundo-grau que. através da suspensão da referência imediata. Herméneutique. enquanto retoma a oposição agostiniana entre signum e res. Como nos diz Greimas. Tout discours est produit comme événement. 33-34.. Et c’est ce sens qui peut être inscrit. un sens qui peut être compris. por outro.. o que quer dizer. segundo as quais esta split reference como lhe chama Jakobson.

e o sentido coincide com esta possibilidade de transcodificação.labcom. mas igualmente. pois o horizonte de abertura para o corpo (como para qualquer objecto semiótico).”17 . Se é claro que conseguimos estabelecer linhas de fronteiras separadoras da tradição semiológica e da tradição fenomenológica. a forte relação entre a figuratividade e o espaço tímico.i i i i Corpo e Sentido 131 linguagem numa linguagem diferente. mancha. ponto de encontro. no tecido do discurso. herdados do objecto “externo” das nossas sensações. que em alguns casos. significa. isto é. a semiose. ao estabelecer a relação existente entre as figuras semânticas e o efeito de realidade propõe uma resposta: “Em primeiro lugar. Ouellet : “Em relação aos dados figurativos da percepção sensível. O próprio Dictionnaire II. Parece evidente que o corpo-próprio fenomenológico dificilmente poderá ser objecto semiótico. O Dictionnare II sublinha. também é certo. 16 17 A. é. Du sens I. quem de forma mais clara chamou a atenção para a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. Como sublinha P. www. como já referimos. Greimas e J. mas também (principalmente?) Porque elas se agenciam. o semantismo figurativo resultante de um tratamento cognitivo e tímico dos dados verbais acrescentaria ao acto de perceber esse segundo objecto “externo”: o sujeito ele mesmo. como se percebe em Lacan o corps propre é um corpolimpo e o corpo na semiótica nunca é um corpo limpo. porque elas [as figuras] fazem referência a um elemento do mundo natural de que a segmentação lexemática de uma língua dada isola como tal ( a que os linguistas chamam de referenciação). nomeadamente. 191. inscreve. aoutras figuras que seleccionam e confirmam a “consistência” virtual das primeiras. Coutes.ubi. marca. Pág. em certo sentido a semiose. Pág. por um lado.pt i i i i . Greimas. quebra da époche.”16 A questão essêncial que cabe colocar pode ser expressa na articulação de duas questões: “como é que passamos da realidade para os signos ?” E “como é que as figuras semânticas de um texto produzem o efeito de realidade? “ (esta ultíma questão colocada por Greimas e Courtés no Dictionnaire II ). isto é. Dictionnaire II. 13. ausência. sendo inconciliável como processos de époche.” Foi Ricoeur. J. A. a forte relação que se estabelece entre a figuratividade e o espaço cognitivo. precisamente. na obra de Greimas existiu uma intenção de ultrapassar tais linhas de fronteira.

parece evidente que a experiência do corpo-próprio. para Descartes. ad quorum certam et indubitatam cognitionem nostra ingenia videntur sufficere”. então. objectos semióticos. antes de mais. não deixa de chamar a atenção para o facto de que a estrutura do estar-no-mundo. o da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. é. Como bem compreenderam Ricoeur ou Greimas o corpo é objectivado de modo diferente na fenomenologia e na semiótica por uma diferença de método. Tal só pode ser compreendido com o auxílio das duas regulae precedentes: a segunda delas diz-nos “Circa illa tantum objecta oportet versari.i i i i 132 José Bártolo Porém. Pág. fenomenológico. Uma primeira resposta. Para compreender este enunciado é necessário compreender o significa. decorre. É necessário o método para investigar a verdade das coisas. evidente. Dito de outro modo. suspensa esta divergência. Ricoeur ao analisar a ruptura entre a linguística e a fenomenologia. não do vivido ou do contínuo das expressões. Precisamente por isso. que implica. no seu hic et nunc. pertence inteiramente à semântica linguística. os objectos estudados pela sintaxe/semântica não são os que os sujeitos falantes utilizam num plano pretensamente pragmático e. Na quarta das suas Regulae. Mourão. de que o ser-corpo é uma articulação. as “coisas” que os sujeitos falantes utilizam na sua linguagem não são frases-objectos”18 . esta veritas rerum . isto é. A. uma crítica radical do método. vel quid ipsi 18 J. de qualquer modo. www. nas frases-objectos relevam do funcionamento enunciativo. como nota Mourão “dos pressupostos metodológicos desta disciplina: a linguística ocupa-se dos enunciados. Era neste contexto que Ricoeur levantava a questão do porquê da noção de corpo próprio estar ausente da análise linguística. a terceira regra diz-nos “Cirac objecta proposita non quid alii senserint. paixão e discurso.pt i i i i . “mostra-se”. 138. Descartes estabelece a seguinte regra: “Necessaria est methodus ad [rerum] veritatem investigam”.labcom. O estudo linguístico dos operadores e das marcas que. sensorio-perceptivo “dizse”. igualmente. Sujeito. uma dificuldade que resulta de diferenças metodológicas.ubi. O problema que aqui está é. só pode reconhecer-se a partir de uma crítica radical da relação sujeito-objecto. é um corpo enunciado pela experiência da linguagem. A dificuldade dos objectos fenomenológicos serem. “reflecte-se” em expressões linguísticas. evidentemente.

291. Clark. und hat aus iherer Leistung seinen ursprünglichen Sinn. dos modelos de análise fenomenológicos.”. Pág. que ela. por assim dizer. Clarck se pode interrogar: “Does Ricoeur remain a phenomenologist? There is no simple answer. Não é por acaso que S. 18. isto é. De facto quer a pergunta . Ao analisar o sentido da Explikation husserliana. H. 1990. que o sentido original da experiência descobre-se no acto da sua explicitação: “Auch mein Eigens erschliesst sich durch Explikation.”21 Deste modo parecia inegável. A partir do método cartesiano percebemos que o que pode ser conhecido é colocado de antemão como objecto de uma previsibilidade absoluta.quer a resposta estão longe de serem simples. H. Husserliana I. Du texte à l’action. que o método fenomenológico enquanto explicitação (a fenomenologia é nas palavras de Husserl Selbstauslegung des ego) exigiria a solidariedade permanente de um método hermenêutico. cést la coincidence de l’intuition et d’explicitation. ce que Husserl appelle précisément horizons externes et horizons internes de l’object. non aliter enin scientia acquiritur.ubi. Ricoeur. se objectiviza: “Expliciter. une explicitation qui déploie S. para Ricoeur. c’est déployer le potentiel de sens d’une expérience.”20 .. decididos em relação à sua pertinência por uma dada ciência. nesse questionar Ricoeur vai-se aproximar. Une évidence qui s’explicite. New York. isto é.. isto é. a verdade das coisas é veritas objectorum.labcom. A segunda regra identifica o método com um processo de limitação. Toute la phénoménologie est une explicitation dans l’évidence et une évidence de l’explicitation. 23. Pág.acerca das ligações entre a semiótica e a fenomenologia . London.”19 . 20 19 www. sed quid clare et evidenter possimus intueri vel certo deducere quaerendum est. verdade no sentido da objectividade dos objectos. É a objectividade dos objectos fenomenológicos e dos objectos semióticos que Ricoeur questiona. Porém. os objectivos que são. Routledge.pt i i i i . Pág.) sans en tirer toutes les conséquences. 21 P. Ricoeur percebe que é pela explicitação que se constitui o horizonte de sentido de uma experiência.i i i i Corpo e Sentido 133 suspincemur. Husserl. por isso a terceira regra já fala de objecta proposita . porventura mais do que ele próprio suspeitaria à partida. Paul Ricoeur. Husserl reconhece nas Meditações Cartesianas. Ricoeur di-lo com muita clareza: “Ce que Husserl a aperçu (. percebemos que a veritas rerum. o método corresponde sempre a uma decisão sobre aquilo que é o carácter fundamental daquilo que pode ser tema de uma dada ciência.

como abertura semiótica: “(. paixão e discurso. Pág. Ibidem. Idem. Mourão. segundo Ricoeur a redução husserliana não deve ser entendida como uma operação de suspensão ou subtracção do mundo em favor de consciência residual (uma espécie de cogito fantástico) mas antes. Greimas enfraquecia a distinção entre o “nível semiológico” e o “nível semântico”. mais comme l’explicitation de l’être-au-monde montré par le texte.pt i i i i . no entanto. por outro lado. Ricoeur fala no projecto de constituição de uma fenomenologia hermenêutica24 . Pág. 134.) Le sujet instauré par la réduction n’est rien d’autre que le commencement d’une vie significante. Sujeito. parcialmente resolvida recorrendose ao conceito de intenção: a intencionalidade da interpretação.. Ibidem. afinal. A questão da mediação é. 55. C’est en ce sens que la phénoménologie ne peut s’effectuer que comme herméneutique. 72. telle est l’expérience phénoménologique. heideggeriana: a explicitação de qualquer coisa (destas chaves ou deste texto) é sempre uma explicitação no meu serno-mundo: “La question n’est plus de définir l’herméneutique comme une enquête sur les intentions psychologiques qui se cacheraient sous le text. mas nunca falho o sujeito. em sentido ricoeuriano.. Zilberberg mostrou a convergência que une a semiótica greimassiana e a fenomenologia pontyana. Pág. mais precisamente. reside na similitude de dois percursos distintos: enquanto Merleau-Ponty renunciava ao esquizo do ante-predicativo e do predicativo.”22 .ubi. como sublinha Mourão26 . faz deslocar a questão do objecto para o sujeito. 25 Idem. na interpretação intencional eu posso falhar o objecto. Ibidem.nológica. A solução de Ricoeur é. é que em algum momento do exercício hermenêutico seja possível realizar a mediação total. neste projecto reconhece-se. convergência que. ambos convergiam para uma conclusão idêntica: a da identificação da significação como mediador entre o “sujeito” e o “mundo”. como abertura.”25 . www.i i i i 134 José Bártolo une évidence. no sentido heideggeriano. Ibidem. como se comprovará adiante. uma vez que a redução pensa radicalmente a relação entre o sujeito e objecto e a construção de um sentido daí resultante. em primeiro lugar. 64. a legitimidade metodológica de se partir da redução fenome. A. para usar a expressão de Gadamer. 26 J. entre a interpretação e a compreensão da realidade e a realidade-elaprópria. 24 Idem. isto é.”23 .labcom. Pág. na medida em 22 23 Idem. O que Ricoeur nega. Em relação a Greimas.

que se confunde com o sentimento da “substância da nossa presença”.ubi. ou um tronco). Como mostra Ricoeur o corpo próprio não é. em relação de desejo. de interlocutividade. Ibidem. Como escreve José Augusto Mourão: “A ancoragem do sentido é o corpo. Assim a questão da corporeidade aparece. mas relação (e condição de possibilidade da relação) sujeito/objecto. Tal crítica. é antes de mais imposta pelo estatuto do corpo-próprio. sim este corpo situado. nem objecto. num certo sentido o seu corpus. 129. antes é condição de possibilidade desses corpos. de intercorporeidade”27 . nem sujeito.labcom. mostrar. ainda. como questão central. sendo esta tarefa crítica é identificada como o desafio central da semiótica. ou como corpo objectivo dos anatomistas. www. com a minha carne. o que implicaria a identificação ou pelo menos o encontro do corpo e da linguagem. 27 Idem. estas chaves etc. características do que a fenomenologia impõe como corpo próprio. nem se assemelha ao corpo de uma coisa (uma cadeira.i i i i Corpo e Sentido 135 que só há mundo enquanto mundo objectivado e a objectivação é essencialmente semântica (este copo.). procuraremos. enquanto objecto não objectivável. ancoradouro do sentido. massa opaca ou hostil. Pág. em Ricoeur. com propriedade. não como corpo conceptual. Ricoeur em o Conflito de Interpretações (“A questão do sujeito: o desafio da semiologia”) refere-se à crítica da relação sujeito-objecto. e a que Heidegger chama de corporeidade e que não se identifica com o meu corpo físico.pt i i i i .

i i i i i i i i .

Martin Heidegger. obriga a determinar a relação entre sujeito e objecto do ponto de vista espacial e temporal. Hegglin escreve o seguinte: Trata-se de um conjunto de seminários dados por Martin Heidegger a convite do médico suíço Medard Boss. Educ. veremos.). R. É nos seminários de 11 e 14 de Maio de 1965 que tiveram lugar na casa de Menard Boss (conhecidos por seminários de Zollikon)1 que Heidegger aborda o denominado Leibproblem. É sabido que o corpo-próprio que a fenomenologia erigiu a conceito se relaciona mal com a concepção de um corpo enquanto unidade “psyché-soma”. tarefa que Heidegger vai desenvolver confrontando-se com as teorias psicossomáticas de Hegglin. o sentido e a validade da concepção do corpo enquanto unidade psicossomática. em determinar. por Medard Boss em 1987. precisamente. Utilizamos a tradução portuguesa. 1 137 i i i i . São Paulo. Seminários de Zollikon.i i i i Capítulo 8 O Leibproblem (Heidegger) A exposição anteriormente desenvolvida sobre a fenomenologia do corpo pontyneana. 2001. que se iniciaram a 08 de Setembro de 1959 e se prolongaram por uma década. em Zolkion. bem como a analisar a constituição do sentido. no espaço e no tempo. a analisar fenomenologicamente o corpo enquanto res materialis e res temporalis. Medard Boss (Ed. Este problema-do-corpo. bem como algumas das considerações sobre pontos de contacto entre a fenomenologia e a semiótica ficaram mais sustentados se recuperamos a teoria dos processos de corporização desenvolvida por Martin Heidegger. a partir de aberturas corporais. após a morte de Heidegger. ou seja. Editora Vozes. O problema-do-corpo consiste. Os seminários foram publicados.

o acesso constrói-se em círculo. o princípio de diferenciação que ele encontra reside no diferente modo de compreender fenómenos psíquicos (não quantificáveis) e fenómenos somáticos (quantificáveis).como Heidegger mostra qualquer principio procura fundar um modo de investigação. ser apreendido por números. Pág.. De facto.) Gostaríamos de reunir todas as influências mútuas de psyché e soma sob o conceito de Psicossomática (. É evidente que. Hegglin pretende que as ligações psique-soma possam ser provadas cientificamente. Op. por sua vez. pois só estes são mensuráveis e a 2 M.labcom. equivale a identificar a diferença entre psyché e soma como uma diferença de método (que se pode considerar superável através de uma superação metodológica). www. O luto não pode ser medido. o seu princípio simples é um princípio filosófico . Ora. clínicos. mas afirmar que os fenómenos psíquicos são distintos dos fenómenos somáticos pelas diferentes circulações operadas. faríamos uma separação demasiado rigorosa entre psique e soma.ubi. para diferenciar soma e psique: os fenómenos psíquicos não podem ser pesados nem medidos. Entretanto.”2 Hegglin procura identificar um princípio simples para a diferenciação entre psique e soma.. isto é. é determinado pelo objecto. embora esta modificação possa ser condicionada emocionalmente. uma teoria do conhecimento pelo que é sempre filosófico . ao contrário da pretensão de Hegglin. pela soma e pela psique. mesmo provável. mas as lágrimas formadas pelo luto em virtude da relação psicossomática podem ser examinadas numericamente de diferentes maneiras. Heidegger mostra que a pretensão de Hegglin (a exigência de prova das relações psique-soma) é uma pretensão insustentável. isto é. Isto certamente é possível. Por outras palavras.).pt i i i i . excluímos quaisquer especulações filosóficas e atemo-nos ao princípio simples. 105. Cit. Quando os valores numéricos se modificam eles mostram uma modificação das estruturas somáticas. uma prova científica das ligações psique-soma. de alguma forma. mas penetraria todo o organismo. Tenho recebido censuras de que nós. e o modo de acesso.o que ele afirma é que os âmbitos temáticos de psique e soma são determinados pelo respectivo modo de acesso que a eles temos. Boss.i i i i 138 José Bártolo “(. só poderia ser feita a partir da consideração dos fenómenos somáticos. como Heidegger havia mostrado claramente no Sein und Zeit.... enquanto tudo o que é somático pode. A psique não estaria ao lado do corpo material [Körper] como algo separado. só podem ser sentidos intuitivamente.

o estudar) é um modo de corporar o estudo de Heidegger. mas sim da exigência e do dogma científiconatural: só seria real o que fosse mensurável. Mas na verdade.labcom. Como Heidegger afirma: “Aquilo que corresponde à exigência de conhecimento válido do cientista natural deve ser provável e provado pela mensuração. junto de algo. podia-se questionar. O problemático reside na questão o que é o corpo: é algo somático? É psíquico? É psicossomático? Ou nenhum dos dois? A questão pode. como se pudesse aprisionar o estudo) seria desprovida de sentido. Por exemplo. Heidegger começa por determinar em que consiste o problemático do problema-do-corpo. dir-se-ia que o meu corpo está sentado na cadeira. ou está nesta sala. Estar “de corpo e alma” no estudo significa que o meu corpo pertence aqui. pois. È por essa corporização do estudo que eu tenho de ficar sentado na cadeira (se eu corre-se pela sala não poderia estudar ou. O autor [Hegglin] exige. por essência. com as duas mãos tocando no teclado e os olhos concentrados no ecrã do computador. um estar-lá. neste momento. 106. onde é que está o meu corpo? Se a pergunta considera o corpo como corpo material. ter o braço apoiado na mesa etc. em termos muito heideggerianos aliás. mas por outro lado. ser colocada assim: neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger. Eu posso dizer que. “só tenho olhos” para o estudo de Heidegger. e com isso estou a identificar que o olhar (o ver.”3 . pois não provém da relação dos factos em questão. mas o estar-aqui do corpo (estar sentado na cadeira. com o antebraço esquerdo apoiado sobre a mesa. significa escrever e ler o texto no ali do ecrã do computador. quem está sentado na cadeira sou eu e não o meu corpo (como se eu o visse de fora). 3 Idem. pelo menos não o faria tão bem). Ibidem. igualmente.ubi. Em relação a este problema-do-corpo. Imediatamente a resposta à pergunta (onde é que está o meu corpo neste momento em que eu me dedico de “corpo e alma” ao estudo de Heidegger?) não aparece. Pág. www.pt i i i i . o ler.i i i i Corpo e Sentido 139 prova exige essa mensurabilidade (só o que é mensurável pode ser provado cientificamente). que a relação entre soma e psique seja mensurável. Mas isto é uma exigência injustificada.) É. onde está o “estudo de Heidegger”? Qualquer identificação material ou espacial (está neste livro. o meu estar-aqui.

ubi. nem outro. pombas. o telemóvel.”4 Heidegger comenta esta passagem do seguinte modo: “Na verdade. Hegglin. Idem. pela febre. Qual é o lugar das lágrimas? São elas algo de somático ou algo psíquico? Nem uma coisa nem outra. Ibidem. olhar o puxador da janela e agarrar o copo de água com a minha mão direita. assim como o copo está na minha mão). em virtude das relações psicossomáticas. as lágrimas nunca podem ser medidas. Todos estes tipos de enrubescimento acontecem na face. mais à frente tenho a janela que me permite olhar para uma série de determinações que estavam “ausentes” enquanto escrevia e das quais tenho notícia agora que olho pela janela (a própria janela. o enrubescimento da face provocado pela vergonha pode ser diferenciado do enrubescimento provocado.labcom. Quando se mede. por exemplo. a impressora. Ibidem. embora sejam diferentes e diferenciáveis. ainda. Eu posso relacionar-me de modo diferentes com as coisas que estão diante de mim. o que é mensurável é a vermelhidão. Também aqui o enrubescimento não pode ser medido. ou pela diferença de temperatura quando entramos numa case aquecida vindos do frio da noite. o rato. antenas. “vemos” no rosto de alguém se ele está. De facto. o hotel Tivoli mais ao fundo). chaminés. Posso. De facto. as cortinas. falando na relação entre o psíquico e o somático afirma: “O luto não pode ser medido. medem-se na melhor das hipóteses um líquido e as suas gotas. este outro exemplo: enquanto escrevo ao computador. o puxador. sobre a mesa uma série de objectos (o tapete do rato. eu tenho à minha frente. que a mão pertencem ao meu corpo. As lágrimas só podem ser vistas directamente. por exemplo. por 4 5 Idem.”5 Analisemos um outro fenómeno: uma pessoa que enrubesce de vergonha. porém. o candeeiro. www. por exemplo. O enrubescimento é algo somático ou psíquico? Nem um. constrangido ou febril. as lágrimas formadas pela tristeza podem ser examinadas numericamente de várias maneiras. O tipo de relação que eu tenho com o puxador é evidentemente diferente do que o que eu tenho com o copo (o puxador não está no meu olho. quer o olho. o telhado das casas. pela medida do fornecimento de sangue. Fenomenologicamente. mas. um copo com agua). mas não lágrimas. No entanto a determinação da diferença do tipo de relação é mais complexa do que a constatação da diferença.pt i i i i . Tomemos em consideração.i i i i 140 José Bártolo R. por exemplo.

o momento em que se actualiza o reconhecimento de uma coisa por alguém. À medida que eu vou movendo a cabeça vou vendo objectos que me aparecem: o computador. o seu estar de facto em presença hic et nunc perante um sujeito empírico. O que Heidegger procura mostra são diferentes modos de relação com a realidade estabelecidos a partir do corpo. ao contrário eu não posso ver o meu olho. aquela janela etc. posso. esta diferente subjeicção é determinada pela constituição de sensações duplas: quanto eu pego o copo de água com a minha mão eu vejo-me a agarrar o copo. nem aponta para uma forma secundária de acontecimento. aparecem. isto é.destas chaves. eu posso sentir os olhos quando movo o olhar (quando desvio o olhar do ecrã do computador para o puxador da porta). as chaves dão-se em estado de presença. ao ver eu não sinto o meu olho desta maneira. isto é. não as classifica numa hierarquia ontológica. do modo como o corpo se relaciona com o espaço e como nessa relação torna presentes as coisas.pt i i i i . mas esta sensação não pode ser classificada de sensação dupla. “Aparecer” parece querer significar. se se quiser. já estavam lá. a impressora. constituem-se desse modo. a fenomenalidade não é um adjectivo extrínseco das coisas. antes de me aparecerem . Ora. pois eu não sinto o puxador da janela que vejo quando desvio o olhar para ele.eu tomo conhecimento de algo. para sermos rigorosos. nem o meu ver e muito menos pega-los. a realidade (este copo.i i i i Corpo e Sentido 141 outro lado se eu digo que o copo está na minha mão. o mínimo denominador comum de tudo o que há. por exemplo . neste sentido. Das coisas . a forma mínima de toda a posição. comum a tudo o que podemos reconhecer como coisa. A diferença está na diferente subjeicção. o copo de água. o aparecer. o sentir do que é tocado e o sentir da minha mão (o que toca). representação. inclusivamente. que evidentemente já existiam. na diferente relação sujeito/objecto que se estabelece entre mim e o copo e entre mim e o puxador da janela. também posso dizer que a imagem do puxador fixada pela retina está no meu olho. www. Quando algo me aparece . o livro. Porém.das chaves.labcom. fenómeno. antes de mais. deste copo sabemos que são fenómenos. a condição de acesso ao mundo.) . A representação constitui. agarrar com a minha mão esquerda a minha mão direita enquanto esta agarra o copo.aquelas chaves. não é um acontecimento da coisa . a chamada sensação dupla. A diferença é claramente uma diferença de propriocepcção: quanto eu agarro o copo eu sinto o copo e sinto a mão.ubi.mas um acontecimento meu. A aparição é. Ou seja. assim. isto é.

106. A este respeito escreve Heidegger: “Se o corpo como corpo é o meu corpo 6 O reconhecimento de que o que há é apenas percepção e de que. está na intencionalidade da representação. mas um acontecimento meu.labcom. ou seja. da consciência de algo. por exemplo.i i i i 142 José Bártolo A este respeito. portanto. em Leibniz o Cogito surge como uma estrutura duvidosa e a investigar. mas sim representa-se: a aparição das chaves não é um acontecimento delas. A objectividade dos objectos é a consciência. Como escreve Heidegger.. Não há consciência sem consciência de si e o si não se torna necessariamente temático. refere-se aquele saber que não se refere já aos objectos empiricamente perceptíveis .6 Toda a consciência é. acha-se também marcada por essas direcções”. sobretudo através da teoria do corporar do corpo (Leiben des Leibes) enquanto modo do Dasein. em frente-atrás). Heidegger desenvolve. não se tem uma representação. eu tenho de construía-la [bilden] para mim mesmo. Assim no §23 de Ser e Tempo é dito: “Da mesma maneira que os seus distanciamentos que os seus dis-tanciamentos. ou seja. mas não desenvolve. Quando Kant fala em consciência pura. em cima-em baixo. no sentido de Husserl. se identifica como “o Dasein na sua corporeidade”. em contrapartida.mas sim aquilo que possibilita a experiêncialidade dos objectos. em rigor. que Kant promove e que vai até Heidegger. em Ser e Tempo procura. contudo. Importa sublinhar. Em Bretano e em Husserl quando se fala em intencionalidade (em intencionalidade corpórea. que não existe. Op. a grande viragem ocidental. o Da-sein também traz permanentemente consigo as direcções (esquerda-direita. Esta é a estrutura mais geral da representação ou. “Também quando eu imagino [einbilde] uma montanha de ouro. que não será tratada aqui. consciência de si. a qual obriga em si a uma problemática especial.estas chaves ou este copo . em Ser e Tempo.”7 Sobretudo no seminário de 11 de Maio de 1965.pt i i i i . que não existe na tradução filosófica uma uníca filosofia do Cogito. www. Descartes reconhece que na experiência do “eu penso” (Ego cogito) se inclui a certeza da existência do sujeito (Ego sum) como verdade necessária ( certum est) presente no acto de representar. Pág.ubi. há apenas uma percepção é a experiência original do cogito. Esta problemática que Heidegger identifica. Boss. é orientada para algo. A espacialização do Dasein na sua corporeidade. por exemplo) diz-se que toda a consciência é consciência de algo. a sua objectividade. 7 M. via Husserl. então desenvolver nos seminários de Zollikon. o que. Cit.

portanto.“o computador está em cima da mesa” .“estou aqui”-. O que eu digo com esta afirmação remete para uma circunstância determinada. tocar. Isto é. é o spatium. O Corpo nunca vê o computador. quer em Brentano. ou. ver. Eu estou no meu espaço. Ora é evidente que não é o corpo que ouve. ao tocar. num espaço interior não localizável materialmente.”8 . ele está envolvido no ouvir. os meus olhos. Tomemos um outro exemplo: eu digo “o computador está em cima da mesa”. eu que vejo. então este modo-de-ser é o meu e. os meus dedos e. Pág. isto é. foi necessário transferir o corpo material para o espaço interior (o que se deu por ocasião na minha estada nesta sala. por exemplo. eu que toco. no ver e no tocar. Mas para este ouvir. daí a resposta ser sempre qualitativa . cap. mas sentir-me. “estou mal” . 8 Idem. “este é o meu corpo”. trabalhando em frente ao computador etc.sou eu que ouço. O espaço é o aberto.labcom. mas sou eu .). portanto. “este sou eu”. no Livro IV. naturalmente. enquanto estava sentado nesta cadeira. é o horizonte (grande. IV é dito que “o espaço parece ser algo grande.é uma afirmação sobre a relação espacial entre mim e o computador. a minha afirmação . 114. mas como é óbvio para que eu diga “o computador está em cima da mesa”. por isso posso dizer.“estou bem”. são necessários os meus ouvidos.pt i i i i . É esta transferência que me permite sentir não o corpo. O meu corpo está. é necessário que o meu corpo esteja suficientemente próximo do computador para que eu o consiga ver. difícil de determinar) que possibilita operações de abertura. importante.i i i i Corpo e Sentido 143 em cada caso. o corpo. como lhe chamamos anteriormente. na fenomenologia. O limite do corporar (o corpo só é corpo uma vez que ele corpora) é o horizonte-do-ser no qual eu permaneço. mais correctamente. o estar [Befinden] do homem acontece no Spatium. Na Física Aristóteles desenvolve a essência do τ oπoζ (topos). enquanto toco com as mãos no meu peito. importante e difícil de determinar”. O computador foi corporado no meu espaço. Ibidem. Este horizonte-do-ser é o espaço-do-corpo.e numa factual . Ou seja. Quando perguntamos a alguém “ Como está?” Estamos a questionar esse espaço interior e não a perguntar objectivamente pela localização do corpo de alguém num espaço físico. Para que eu diga. envolvido nessa circunstância.ubi. o corporar é codeterminado pelo meu ser-homem no sentido da permanência ek-stática no meio do ente iluminado. com as mãos no meu peito. www. Estas operações de abertura são. vê ou toca.

em que toco o copo. Em cada percepção particular. A identidade entre sujeito e percepção é particularmente evidente nos fenómenos somáticos: eu agarro as chaves e sinto-as frias ou aperto-as e sinto uma ligeira dor. Este corporal forma-se de tal modo que pode ser utilizado no trato com o “material” do animado e inanimado do que vem ao encontro. mas não me identifico com essa dor. ao perceber o copo ou as chaves.ubi. quer em Heidegger. permanente. em Heidegger. eu corporizo-me. por exemplo. significa eu corporizei algo. ou seja. do que consiste todo o Dasein. antes. representações.pt i i i i . faz parte essencialmente do interior do existir.no sentido de Husserl . mas sim um âmbito daquele poder perceber não objectivável. até a última fibra muscular e a molécula hormonal mais oculta. a redução do sujeito à percepção que em cada caso eu reconheço como “uma percepção”: eu sinto frio. em que as aperto. Mas ao contrário de uma ferramenta as esferas corporais do existir não são descartadas do serhomem. enquanto o próprio sujeito se vive como definitivo. pois. desde logo porque cada uma é vivida como “percepção particular”. É por eu ser “o mesmo” que posso sentir inúmeras percepções da chave e de seguida largar a chave e sentir inúmeras percepções do copo. Por outras palavras. ou seja. Ao www. sinto a dor na mão. como “o mesmo”. o sujeito não se esgota em nenhuma percepção particular. transitória e variável. que a percepção das chaves provocou uma alteração em mim e não nas chaves. fundamentalmente matéria inanimada. não definitiva. mas não sou o frio. a notícia das chaves é um acontecimento em mim que consigo identificar. a que nos referimos.i i i i 144 José Bártolo quer em Husserl. de facto. eu modifico-me ao nível do espaço interior do meu corpo. Martin Heidegger di-lo assim: “Então tudo o que chamamos a nossa corporeidade. daí poder passar por inúmeras e distintas sensações sem sair da cadeira. eu corporizo de vários modos a chave ou o copo. de cada vez que eu agarro as chaves. não significa porém. de cada vez eu torno-me presente a mim mesmo. não é. não opticamente visível de significações do que vem ao encontro. perfeitamente. Não podem ser guardadas isoladas numa caixa de ferramentas. sendo que o si mesmo não se torna necessariamente temático: esta é a estrutura fundamental mais comum da representação ou . consciência de si.a consciência de algo que. Eu percebo. a partir da sensação fria que sinto na mão ao agarrar a chave ou na sensação de desconforto que sinto ao aperta-las com mais força.labcom. A identidade entre sujeito e percepção.

No entanto. Decorre daqui que nenhuma transformação protésica que possa ocorrer no espaço material do meu corpo pode alterar o espaço interior do meu corpo. enquanto um homem viver. O peso do corpo não é mensurável é. como de facto somos. Heidegger di-lo assim: “Por isso. a que Heidegger chama de Dasein e que S. Heidegger identifica. a minha disposição corpórea. a condição de possibilidade do copo. só podemos ter olhos porque segundo a nossa natureza fundamental somos seres que vêm. a minha natureza. o cogito) corporiza as chaves e o copo. já perdeu de vista para sempre o essencial do corporal. aberto. e o seu-ser-corpo não é redutível ao corpo-físico. isto é. existimos. o spatium. na massa de um cadáver que decompõe. como uma espécie de máquina complicada. porque o espaço do corpo (o espaço interior. nem é transformável a partir de transformações do corpo-físico. Assim. a consequência de tal observação insuficiente é a perplexidade perante todas as manifestações essenciais do corporal. ao morrer. Então. antes. das chaves ou do meu corpo físico (quando eu me relaciono com ele como fenómeno) serem mensuráveis. Por outras palavras. o humano é naturalmente corpóreo. aqui. o meu peso é o meu modo de acesso ao mundo. elas permanecem habitadas pelo ser-homem. pode-se dizer o mesmo que já foi citado com referência ao ver e aos olhos corporais: não podemos “ver” porque temos olhos. também poderíamos ser corporais. seguras por ele. Agostinho chamava de Pondus. o espaço interior com o que denomina de orientação essencial do Dasein: percebe-se que a minha mão é capaz de sentir as chaves frias ou a superfície do copo lisa.i i i i Corpo e Sentido 145 contrário. o esquerdo do direito. Tal observador. 244. Ibidem. mas. isto é. o alto do baixo. inanimado. em relação à totalidade da corporeidade. www. Somente graças a tal orientação essencial do nosso Dasein podemos diferenciar a frente do verso.”9 . se o nosso ser-no-mundo não consistisse fundamentalmente de um sempre já perceptivo estar-relacionado com aquilo que se nos fala a partir do aberto do nosso mundo como o que. precisamente. pertencentes a ele. Pág. Além disso. é. nesta interligação já estamos sempre orientados para os acontecimentos que se nos revelam. na verdade. este âmbito corporal transforma o seu modo de ser naquele de uma coisa inanimada. em linguagem heideggeriana o meu ser-no-mundo. Graças ao mesmo 9 Idem.labcom.pt i i i i .ubi. Certamente o corporal do Dasein admite que já em vida ele seja visto como um objecto material.

antes. organizando-o. 239. etc. Para Heidegger.labcom. se dá nele. a corporeidade abre-se ao espaço. a partir disso uma frente. porém. qualquer percepção é reenviada a mim. ou melhor.pt i i i i . Apenas não podemos confundir o nosso ser-corporal existencial com a materialidade-corpórea de um objecto inanimado simplesmente presente. qualquer sensação. etc.i i i i 146 José Bártolo ser orientado para algo que se nos fala podemos na verdade ter um corpo. que a porta está atrás de mim. permitindo-me dizer que o ecrã está à minha frente. estar na clareira e estar-aí [ Da-sein] são categorias equivalentes: o meu aqui (indicação objectiva da minha localização no espaço exterior) está aberto a um aí (por exemplo quando através da janela olho as árvores da avenida da Liberdade e localizo-as a partir de uma reconstrução imagética da avenida como se lá estivesse). Págs. um narcisismo da representação. e o espaço exterior tem de ganhar uma tonalidade semelhante à do espaço interior. Não somos. Ibidem. estar no aberto [Offenen]. qualquer dado. 244-245. www. efectivamente. O que Heidegger faz ao falar na corporeidade como abertura é.”10 . Repraesentatio = de volta para mim. sermos corporais. Heidegger di-lo de forma clara: “Representar = tornar presente. um atrás. mas o que se percebe é que existe. por isso Merleau-Ponty falava de um narcisismo da visão. mas este transgredir das fronteiras do corpo próprio não se dá independente ao corpo próprio. antes de mais. torna-se de certo modo espaço. que eu estou cá dentro. Ibidem. Pág. e eu mesmo não me represento especialmente”11 .ubi. apresentar a mim. É precisamente a este abertura ou dilatação do espaço do corpo para além das fronteiras do corpo próprio que chamamos de Spatium. caracterizar o espaço interior como coextensivo ao espaço exterior: há uma abertura da orientação essencial do meu espaço interior ao espaço objectivo. “Re” = de volta para mim. O corpo transporta consigo esta reversibilidade do vidente e do visível. re-apresenta-me numa nova abertura. Como Merleau-Ponty descreveu bem. constituindo 10 11 Idem. que a estante está ao meu lado. um corpo que vê entra num campo de visão que lhe reenvia sempre a sua imagem em espelho: ver é ser visto. isto é. requalificando-o em relação ao seu pondus. Por outras palavras. consequentemente. primeiramente corporais tendo. Idem. que as árvores estão lá fora.

ou seja.pt i i i i . gerando uma nova intensidade corpórea. A abertura é devir.ubi. se se quiser.i i i i Corpo e Sentido 147 uma nova ligação do corpo ao espaço. www.labcom. uma nova relação entre aqui e aí.

i i i i i i i i .

Op. a fenomenologia pontyneana). retomando. como seu o tema central que atravessa a tradição fenomenológica que lhe é mais intima – sinal de comunhão com uma família de problemas que também era de Merleu-Ponty . exigência que aliás Greimas partilha com a fenomenologia (quer a fenomenologia heideggeriana anteriormente analisada quer. as suas reflexões sobre a presença contagiosa1 . A. assim.C. Não se trata. identificando os fundamentos que permitem entender a co-naturalidade – que a linguagem semiótica de raiz fenomenológica denominará de intersubjectividade . em particular. exigese o questionar do carácter mundano da realidade humana.a inserção do homem no mundo. Dorra. como comprometimento em relação à actividade de construção de sentido) e.i i i i Capítulo 9 Acerca da presença e do contágio Sabemos de Greimas que a intenção de desenvolver uma semiótica da experiência deve clarificar os modos de presença do sujeito no espaço e no tempo. de afirmar que o homem é um ser-no-mundo.). desde logo pela presença do corpo. como vimos.entre a consciência e o mundo. Cit. Greimas toma. R. a partir de um agenciamento Referimo-nos ao ensaio de Landowski “Sobre el contagio”. 1 149 i i i i . in E. de Oliveira (ed. Os recentes estudos de Eric Landowski sobre a lógica da presença ( fazerse presente. apenas. Landowski.

Uma semiótica da espacialidade é aflorada por P. por contágio. percezione. antecipadamente. a relação com a realidade dá-se. sobre o estatuto da reversão interior-exterior. o que deles faz corpos. O lógico corresponde às condições transcendentais do discurso – princípios. regras de formação. de corporização do espaço objectivo a partir de dentro (a partir de um espaço do corpo) podem ser considerados contributos centrais para o desenvolvimento de uma semiótica da presença. por antecipação imediata. enfim. 59-60. pertencem ainda os números. Frankfurt. Heidegger. matemático. 1950. Martin Heidegger define nestes termos o sentido grego de matemático : “ Tá mathémata significa para os gregos o homem. o operar de uma espécie de maquinaria que a co-presença do humano num espaço e num tempo – a presença hic et nunc – faz funcionar. sobretudo. regras de transformação – e aos termos formais do seu exercício. PUF. Aquilo que a desmontagem da lógica da presença revela é essencialmente a natureza matemática do espaço humano. A semiótica não falha quando considera que uma análise do espaço consiste fundamentalmente na análise da operatividade gerativa da semióse enquanto presença de um sujeito no espaço2 . 3 M. Violi.pt i i i i . o que faz delas plantas. 4 E. Holzwege. esperienza: il caso della spazialità”. Présences de l’autre.labcom. a possibilidade do cálculo. dos animais. a partir deles que este artigo se desenvolve procurando alicerçar duas ideias que. IN Versus. 1997.ubi. “Linguagio. do homem – a humanidade. quando observa os entes e entra em comércio com as coisas que conhece já antecipadamente: dos corpos. num espaço e num tempo interiores sendo desenvolvida.i i i i 150 José Bártolo da linguagem próprio da semiótica. dizem respeito ao procedimento lógico. num espaço e num tempo físicos. Paris. isto é. È. se poderiam identificar assim: a relação com a realidade espacio-temporal não é uma relação de interpretação mas uma relação de poder que traduz uma experiência imediata. Landowski. sobre a lógica. A matemática pressupõe um antecipadamente conhecido que em semiótica se designa por semióse. análises sobre a constituição do sentido em acto. das plantas. Os números. Págs. A este antecipadamente conhecido. 1991. No seu estudo sobre A idade das concepções do Mundo. o que faz deles animais. 71-72. 2 www. Quando Landowski fala da lógica da presença4 pressupõe a concretização destas condições.”3 .

num determinado segmento de realidade . na medida do possível. A outra concepção. igualmente.labcom. Deste modo. A presença. o qual. teríamos de admitir que um texto não tem necessariamente a priori o estatuto de discurso manifesto. O texto é de resto um objecto interessante. a presença do sentido.i i i i Corpo e Sentido 151 Por sua vez o matemático é como que a condição de possibilidade do operar lógico – não há lógica que não seja lógico-matemática – exige uma espécie de encontro antecipadamente conhecido. pelo contrário. quer dizer. sobretudo a partir de Greimas. trata-se de uma apreensão. ao exercício de leitura que dele se faz. a presença sentida. o regime da sua leitura. No primeiro caso. na medida em que as condições de realização do encontro – ele dar-se e nele se dar a constituição de um sujeito e de um objecto – estão sempre em potência. O termo designa. para que a metáfora fosse não apenas operativa mas. situado na posição sintáctica do “enunciatário” institui como texto o espaço mesmo de onde o sentido advém a ele como presença. rigorosa. distinguir. leva-nos pelo contrário a ampliar ao máximo a própria noção de texto de modo a que não se exclua nenhum tipo de suporte no qual se possa dar ocorrência de sentido. duas concepções do objecto texto: a primeira entende o texto como discurso manifesto. reconhecível como tal e produzido pela intenção comunicativa de um enunciador conhecido ou hipotético. para começar. neste caso. no segundo caso. pelo contrário. pela busca do espaço de aparição do sentido enquanto experiência imediata. Claro que se tornaria necessário. de um puro acto semiótico de presentificação de um sentido imanente. Admitiríamos. actualizado. para usar a expressão de Landowski. a que nos interessa aqui.pt i i i i . como resultado dos seus próprios efeitos sobre um sujeito. mais ambivalente. Sem dúvida que a tradicional procura do sentido conduzida a partir do texto – a interpretação – é substituída. quer enquanto dispositivo estratégico quer enquanto querer-dizer. pressupõem um espaço de sentido. programando. há um discurso enunciado que preexiste. a presença com sentido. podendo funcionar como metáfora do objecto de trabalho semiótico. pela busca do texto. que se trata de uma ordem de realidade que em certas ocasiões chega a existir unicamente a posteriori.correswww. Foi a pergunta por esse espaço que a semiótica sempre formulou.ubi. uma classe de realidade empíricas deliberadamente construídas por um enunciador com o fim de produzir determinado efeito num enunciatário. verbal ou não verbal.

labcom.pt i i i i . entre si e a realidade. Págs. www. dáse uma configuração de outra ordem – de ordem sensível – que se converte directamente inteligível sem a mediação de nenhuma linguagem formalmente definida.)Previamente a qualquier principio cognitivo de categorización del mundo. ou seja ainda que as ligações.samo-lo como uma espécie de “ancoragem do sentido” para recorrer à expressão de Granger. isto é. tão fértil. De Husserl sabemos que nenhum processo deste tipo se pode dar sem uma efectiva alteração do regime relativo ao estatuto do sentido tal como o concebemos habitualmente e. pues.i i i i 152 José Bártolo pondendo a um certo modo de ser da matéria (como para Sartre) ou a uma disposição particular do corpo do outro (como na leitura. temos então de admitir uma forma de co-presença entre sujeito e objecto. Landowski. Al contrario.. los “causantes” de la existencia de um sentido en tanto que efecto. Esta compreensão não é. Quando pensamos no “corpo-próprio” da fenomenologia pen. Sabemos que o corpo é um difícil objecto semiótico: a semiótica na sua 5 E. 271-272. entre corpo e linguagem nos apareçam naturais elas são. (. porque responde al proprio modo de estar-en-el-mundo del sujeto desde la coincidencia. senão as substituibilidades e transduções. Como reconhece Eric Landowski “Ya no son pues ni la actividad eficaz de un interlocutor ni tan siquiera la organización adecuada de su producto. es la propria aprehension de un efecto (de sentido) lo que se da en primer término. entre su proprio “gusto” y el del mundo-objeto.. precisamente porque responde ao próprio modo de estar-no-mundo do sujeito na coincidência. uma alteração do próprio regime sob o qual o sujeito vive o seu próprio modo de presença no mundo – em vez de um estado de separação. também. sino de una aprehensión inmediata del sentido a través de la propria forma de la presencia del objeto. “Sobre el contagio”. resolutiva em relação ao problema da transdução do sentido entre o corpo e a linguagem. de una configuración de otro orden – del orden de lo sensibleque se vuelve directamente inteligible sin la mediación de ningún lenguaje socialmente instituido o formalmente aprendido. de Svevo) – que faz do mundo percebido o equivalente de um discurso enunciado. se trata. um regime de inter-subjectividade. paradoxais. no entanto.”5 Antes de qualquer princípio cognitivo de categorização do mundo. cuerpo a cuerpo. el enunciado. por conseguinte. Tampoco se trata de una lectura del texto com huella. corpo a corpo. como marca o como “mensaje” dejado por algún “emisor”.ubi.

os factos como existência de estados de coisas. Wittegenstein di-lo assim: “O sujeito não pertence ao mundo. o que constrói e. de identificação. enquanto ancoragem do sentido. ela é um “modelo” da realidade. se ele se produz. da inscrição ou da localização é assegurada pelo corpo-próprio. e noutra passagem. pelo que o conceito de corpo-ancoragem. em Frege. a compreensão da afirmação de Wittegenstein pode. não do vivido. um processo de focagem. O elo constituído pelos estados de coisas impõe-se em nome da possibilidade da não-ocorrência do facto.pt i i i i . era o valor de verdade. sobretudo. na posição de Ricoeur. Para Wittegenstein a possibilidade de dizer o mundo (de enunciar estas chaves ou este copo de agua) equivale à afirmação do mundo como possibilidade. tal é afirmado. “A significação de uma proposição é o facto que lhe corresponde efectivamente. Aproximávamo-nos. define o que Wittegenstein chama de “limite do mundo”. mas existe www. O corpo-ancoragem-do-sentido define não apenas um limite semiótico.ubi. Toda a minha tarefa consiste em explicar a natureza da proposição. assim. a imagem representa a existência e a não-existência do estado das coisas. quer dizer em indicar a natureza dos factos dos quais a proposição é a imagem” A teoria da imagem é introduzida desde cedo na exposição do Tractatus.labcom. enquanto que em Wittegenstein é o facto: “Eis a dificuldade encontrada pela minha teoria da representação lógica: encontrar um elo entre o signo escrito no papel e um estado de coisas no mundo exterior. estados de coisas (Sachverhalten) coisas (Sachen). ser alcançada se recuperarmos a articulação wittegensteiniana entre sentido e referência. e não que o facto tenha realmente lugar”. Não há não-factos.i i i i Corpo e Sentido 153 aproximação à linguística ocupa-se dos enunciados. segundo a qual a correlação entre os fenómenos da datação. mas de um modo radical. mais facilmente. Temos a seguinte cadeia ontológica: factos (Tatsachen). ele é antes de mais um limite do mundo”. A proposição descreve um facto que pode não se produzir.” A bedeutung. sucessivamente definindo o mundo como totalidade dos factos. com clareza. No Tractatus. nos Carnets: “O signo proposicional garante a possibilidade do facto que ele representa. uma determinada combinação de objectos é representada. e os estados de coisas como combinação de objectos é introduzida a teoria da imagem. entre o corpo-próprio e o sujeito da enunciação. O Tractatus vai.

6 www. Mas que sujeito? Em semiótica. e o sujeito é a condição de possibilidade do mundo (destas chaves.i i i i 154 José Bártolo a possibilidade de um estado de coisas não existir. ele é um shifter. uma disponibilidade. para mostrar que num importante sentido. não existe um único sujeito. Pág. ainda não foi sequer plenamente tematizada. sabemo-lo. independentemente do que possamos dizer delas.pt i i i i . como em Ricoeur. o sujeito é. Qualquer discurso diria o sujeito.ubi. na verdade a cada maneira de apreender a significação corresponde um sujeito específico. Cada enunciado estabelece um limite do mundo. A linguagem representa-se e. no dado mas ele nunca é enunciado. Lisboa. condição de possibilidade do conjunto de possibilidades. coloca necessariamente o problema da “existência semiótica”. porém.labcom. 1998. digamo-lo assim. Poderá chegar a aparecer uma identificação (ou quase-identi. 69. Isto mesmo é dito nos Carnets: “Com efeito. partindo do postulado teórico da preeminência da relação sobre os termos: a relação bastaria para definir os dois termos de sujeito e de Objecto. nem psicológica. deste copo) e não uma coisa no mundo. o horizonte de possibilidade. mas nunca um facto. o que Greimas procurou esclarecer. A ancoragem não pressupõe apenas enunciação. objectivado ou dado. Fernando Gil. ou antes. na terminologia de Hintikka. mas a compreensão desta ligação implica a reconstrução de um percurso que. Ele é a única coisa que não estaria em questão neste livro. Sabemos que uma definição do sujeito que não seja nem ontológica. no enunciado. ainda que as coisas sejam ou não. não há sujeito. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. isto é. O sujeito da enunciação é a condição de possibilidade da enunciação.ficação) entre corpo-próprio e sujeito. essa potência de ancorar sentido.”6 . ao faze-lo representa o mundo: fornece-nos uma configuração. Modos da evidência. constrói. no presente trabalho. deparamo-nos com um mínimo denominador comum do sujeito que é. ainda que também a presWittegenstein. uma abertura. precisamente. eis aqui um método para isolar o sujeito. abstraídas as especificidades. co-dadas em toda a proposição. um mundo possível. A distinção que há entre factos e estados de coisas refere-se igualmente à negação como possibilidade inerente da proposição. O sujeito está sempre implicado no objecto. Apud. um em relação com o outro.

Para Sollers o ego é um tomar forma. Pág.“o enunciado é a enunciação de um sujeito a propósito de um objecto” lembra Hamburger7 .a apropriação intersubjectiva implica.pt i i i i . 1988. Ricoeur. aquelas chaves são na medida em que eu as corporizo. é o espaço do corpo. Le volontaire et l’involontaire. não é indiferente em relação à noção transcendental de sentido.i i i i Corpo e Sentido 155 suponha . fazer aparecer o que o sustenta: o cogito. nem-além do mundo (expressões temporais que pressupõe uma localização corporal do corpo no mundo) ele é o ser-no-mundo e como tal referência a partir da qual o mundo é representado (e eu e o meu corpo e este copo e estas chaves etc. isto entendeu-o primeiro a fenomenologia. um corpo-ancoragem-desentido: “Mon corps n’est ni constitué au sens de l’objectivité. mas aparece claramente intuído na hermenêutica de Ricoeur: eu sou na medida em que me corporizo. Paris. Hamburger. ele não está nem aquém. no seu inconsciente. il échappe à ce couple de cointraires. na sua deriva.mas precisamente porque a enunciação é um acto (objectuar é um acto) ela necessita de um tempo e de um espaço. Philosophie de la volonté 1. Pág. na medida em que isso dá conta da própria forma de assumpção da inteligibilidade pelo sujeito (a enunciação). Estabelecemos anteriormente. 9 P.. uma aproximação entre esta concepção da corporeidade e a concepção de wittegensteiniana do sujeito como limite: também aqui o corpo é o limite. necessita de um peso (de um pondus) específico e esse é o corpo. Paris. Sollers. ni constituant au sens du sujet transcendantal.labcom. que entre se dá pela experiência da corporeidade. A. Sujeito. a sua incarnação. assim. Aquilo que a fenomenologia de Husserl fez foi suspender o mundo e. como coisas no mundo). o corpo expressa a noção de um espaço originário (de um Spatium) onde o sentido se inscreve e se enraíza.pois ele não é dedutível temporalmente . Aubier. 64. em todas as variantes possíveis onde ele pode tomar a formada primeira pessoa”8 . K. Apud. como mostra Michel Henry. a corporeidade. na sua sexualidade.”9 . A situação do corpo. Se a génese do sentido é sempre transcendental . paixão e discurso. Sollers no-lo recorda “É preciso que o sujeito se implique no seu corpo. Em Ricoeur. 8 7 www. 1986. Seuil. J. Logique des genres littéraires. Il est moi existant. 19.ubi. Mourão. eu corporizo-as no acto de as enunciar.

(. está a situar. carne e objecto coincidiriam. Op.) Vient former entre le pur sujet et l’object un troisième genre d’être. a relação entre sujeito e objecto: em ultima instância.i i i i 156 José Bártolo O corpo não é nem sujeito.)”10 . Pág. Quando a fenomenologia estabelece a distinção entre “corpo próprio” e “corpo material”. corpo-próprio.labcom. cogito e sujeito coincidem. do mesmo modo que corpo-material. Ponty. toda a subjectividade são “intersubjectivas”.. www. nem objecto. Cit.. 10 M. como o diz Merleau-Ponty “le corps (.. do mesmo modo..pt i i i i . 52.ubi. no lugar do corpo. O que levaria a concluir que toda a objectividade e..

Pezzini (Eds.i i i i Capítulo 10 Corpo e devir Em Semiótica das Paixões Greimas e Fontanille advertem-nos: “la médiation du corps est loin d’être innocente”. das tensividades fóricas. vem chamando à atenção para a “regulação biológica” do sujeito.). o tratamento das paixões. enraizado na subjectividade constituinte e estruturante dos fenómenos de sentido. apresentava-se difícil de alcançar mas. sobretudo. Também Jean Petitot. Affectività e sistemi semiotici. Fabbri e I. necessário de alcançar. das estruturas deícticas. Recordamonos da advertência veemente lançada por Herman Parret do risco que a semiótica incorre de sucumbir no “fragmentário” e no “ilusório” se não for capaz de dar conta da “incrível riqueza das conceptualizações filosóficas concernentes às paixões e ao Affekt. dirigia-se. Esta advertência. A construção de um espaço para a subjectividade em semiótica. 1 157 i i i i . 167. fundamentalmente. chamada de atenção para a importância e para a dificuldade do projecto semiótico nascido dessa abertura ao sensível. estamos em crer. Versus. 1987. Advertência com várias interpretações possíveis: chamada de atenção para a necessidade daquele que se pretende semiótico não se perder do seu campo de trabalho mas. IN P. Le passioni nel discorso. ao semióticos que começam a trabalhar com conceitos tradicionalmente mais enraizados no campo da fenomenologia do que no campo de análise da semiótica. 47/48.”1 . procurando reinterpretar a semiótica das paixões no terriHerman Parret. também. Pág. “ Lettre sur les passions ”.

São Paulo. Deleuze identifica quatro condições de possibilidade de constituição de uma estrutura: 2 Cf. talvez.ubi. Donde se poderia concluir. porque não se trata de operar identidades mas intensidades. aliás. a restaurar nem a re-empregar: é algo a ser produzido por novas maquinarias. são mais importantes do que essas mesmas coisas. como essa instabilidade/estabilidade se dá no espaço do corpo.i i i i 158 José Bártolo tório das pulsões-ainda-assemânticas. Deleuze. nas palavras de Deleuze. muito próximo da leitura de Greimas. de cada vez.”2 . Lógica do sentido. definidoras de tipos de relação. leitura que toma de Thom para integrá-la em Greimas. sem se perceber em que consiste uma estrutura. enquanto reconhecimento de um modo de enunciação em que. A anunciação do sentido precede a sua enunciação. entendido menos como fundamento ontológico do sujeito e mais como “anunciação” do sentido anterior à sua descritização em categorias modais. operada pelo corpo-que-sente. sendo a posição definidora de um tipo particular de intensificação. ainda assim. por vezes e como veremos. A semiótica pós-greimasciana. O estruturalismo é. 2003. Em grande medida não se pode bem compreender a lógica do sentido. decisivos. isto é.pt i i i i . que os lugares que o sujeito pode ocupar numa topologia discursiva são. “os lugares são mais importantes do que quem os preenche”. Ele não é algo a ser descoberto. numa proto-instância das pregnâncias tímicas. G. espaço de atravessamento de devires. foram reconhecendo e trabalhando um horizonte ôntico. Para Deleuze o sentido “jamais é princípio ou origem. Estando. Pág. Perspectiva. como lhe chamamos antes “pré-construção do encontro” dá-se a partir da mediação. 54. entre o mundo (os “estados de coisas”) e o sujeito (os “estados de alma”): único universo de sentido ao dispor do sujeito na sua somação. sem dúvida que Deleuze já havia pensado a instabilidade própria à produção de sentido e. pensado por Deleuze de uma forma peculiar. Estas maquinarias são.labcom. aproximando-o. nomeadamente da antropologia de Lévi-Strauss e da semiótica greimasciana. em Deleuze “maquinarias semióticas” cujo funcionamento não pode ser desligado do corpo (e da relação deste com a linguagem) enquanto campo estrutural do sentido. que as posições topológicas. ele é produzido. www. analisando cuidadosamente o estatuto da “existência semiótica” do sujeito e estando atenta à existência de uma instância prévia à modalização da sua competência. segundo Deleuze. Tal anunciação ou.

relações). b) Greimas ensina que a significação pressupõe a existência da relação. Deleuze corrobora esta ideia ao afirmar que é preciso que existam. outra. outra. a relação entre os elementos é a condição necessária 3 Sobre este assunto. Linguagem e Estruturas. 1965. 1974.3 Confronte-se. importa notar a influência que sobre ele é exercida por uma série de autores – Jakobson. Cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. la recherche et le savoir. Les structures. É preciso que existam.para quem o tópico das estruturas da linguagem era essencial. determinada. leiam-se por exemplo. PUF. Lévi-Strauss. 3. as obras de Noel Moulod. 1968 . pelo menos. www.pt i i i i . Paris. como “significada”. Não obstante toda a originalidade do pensamento deleuziano. 1970 [Trad. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. Payot. Langue et structures – Essais de logique et de sémeiologie. pelo menos. duas séries heterogéneas. La psychologie et les structures. determinada. Livraria Almedida.ubi. e. sobretudo. 2. Port. De Manuel Francisco Catarino. Paris. séries. a este título. e sobretudo uma potencialidade (“real sem ser actual. como “significada”. 4. duas séries heterogéneas.labcom. a exposição da Lógica do sentido de Deleuze com a exposição da Semântica Estrutural de Greimas: a) Greimas afirma que um elemento linguístico isolado não comporta significação. uma como “significante” e. As duas séries referidas convergem para um elemento paradoxal. Coimbra. que as diferencia e funciona como princípio de emissão de singularidades. Greimas .i i i i Corpo e Sentido 159 1. uma como “significante” e. Qualquer estrutura é entendida como uma multiplicidade (de elementos. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura.]. ideal sem ser abstracta”) que pode actualizar-se de diversas maneiras em diversos tempos ou lugares. Paris. Payol.

mas. ela própria um corpo e um “corpo estranho”. claramente. Vega. sendo que o devir tem lugar. Foi Thure von Uexküll quem trouxe a metáfora da rede para o interior da semiótica do corpo ao pensar the body as a web of semioses. Na sua leitura da Filosofia Estóica. ela representa o espaço orgânico da aranha bem como. O corpo é. 5 G. Op. que se vem tornando central – graças a Coquet. Da leitura deleuziana fica claro que o sentido é um produtor. 9. e a sua integração na semiótica contemporânea. A rede constitui. a rondar um tema.ubi.labcom. tessituras. Na profundeza dos corpos – no seu poder de organizar e produzir – vai circulando o sentido como produtor e produzido. então. como intensidade que o atravessa. leia-se a obra de José Augusto Mourão. pois a topografia da rede anula centro e periferia. Discurso. o seu complemento inorgânico. emaranhado de encontros. sabemo-lo. A essas relações correspondem acontecimentos ou singularidades localizáveis na estrutura. sentido que resulta das acções e paixões intercorpóreas. Os acontecimentos são causados. e que só existem e possuem um sentido relativo segundo as relações que mantêm uns com os outros. como extensão ou prótese que a prolonga de dentro para fora e de fora para dentro. 4 www. Paixão. Cit. Deleuze. nas suas intermináveis correlações. Sujeito.i i i i 160 José Bártolo da significação. Lisboa. 1996. Percorrer a rede. isto é. lado. coisas que são causadas a partir de coisas que acontecem num sujeito. cruzamentos. Landowski ou Mourão – na semiótica contemporânea do corpo como ancoragem do sentido4 . Andamos aqui. apresentada em a Lógica do sentido.. Para estas Sobre esta noção. Deleuze corrobora-o ao afirmar que cada uma dessas séries é constituída por termos que em si mesmos carecem de sentido. no corpo. por sua vez é coextensivo à linguagem”5 . não são simplesmente coisas que acontecem a um sujeito mas. mais. por outro. sobretudo as páginas 128140. Pág. mas também um produzido. na expressão de Uexküll. essa rede de semióse. é estar perdido.pt i i i i . estrutural. A rede funciona no interior e no exterior da aranha. na ausência de referências exteriores ela remete para o próprio corpo como ponto ou centro da representação. Gilles Deleuze afirma que “o acontecimento é coextensivo ao devir e o devir. Fontanille.

pt i i i i . pois esses devires são condição de possibilidade da sua constituição plena como sujeito competente. como diz Benveniste. podendo. www. Idem. a crença é a espera deste objecto ou “estado de coisas”. c) A significação caracteriza a relação da proposição com conceitos “universais” ou “gerais” e das ligações sintácticas com implicações de conceito. Tais “indicações” (palavras ou imagens) não devem ser tratadas como conceitos universais. qualidades. constituído por um corpo. Pág. enunciados ou enunciáveis por meio de “proposições”. 13. são singulares formais que tem o papel. de indicadores (isto.labcom. nem rosto. b)A manifestação caracteriza a relação da proposição ao sujeito enunciatário.6 Entre os acontecimentos-efeitos e a linguagem ou mesmo a possibilidade da linguagem. etc.). aquele. agora. para os quais ele ainda dispõe de competência enunciativa. entrar em relações de quasecausalidade sempre reversíveis. Mas. O desejo é a causalidade interna de uma “indicação” no que se refere à existência do objecto ou “estado de coisas” correspondente. contudo. pré-modalizados. há uma relação essencial: é próprio aos acontecimentos o facto de serem expressos ou exprimíveis.ta-se como o enunciado dos desejos e das crenças que correspondem à proposição. 6 7 Idem. relações. isto é. como refere Deleuze. quantidades. A manifestação apresen.i i i i Corpo e Sentido 161 coisas que lhe acontecem o sujeito não encontra nome. Ibidem. há “muitas relações na proposição”7 : a) A indicação caracteriza a relação da proposição a um “estado de coisas” exterior e individual. Os desejos e as crenças são inferências causais. são devires assemânticos. Ibidem.ubi. misturas de corpos. Sendo causados os acontecimentos são da ordem dos “efeitos”. antes. aquilo. Deleuze exemplifica-o com uma imagem em carne viva: a relação de reversibilidade entre a ferida e a cicatriz.

Vimos já que a semiótica mais recente não se afasta muito desta leitura.”8 . isto é. el “resorte” de las distintas formas de experiencia en la que un sujeto se descubre a sí mismo gracias a la asunción de su co-presencia con el objeto en términos de contagio?”10 Idem. nem representação racional. Contudo Deleuze sublinha que “O sentido se atribui.pt i i i i . 22. O próprio Husserl se aproxima da teoria estóica dos incorporais quando. el principio dinámico. ou seja. Pág. o sentido não vive fora da sua sensação. na designação estóica. Ibidem. 10 Eric Landowski. o reconhecimento do sentido é equivalente ao reconhecimento de que há alguma coisa. o sentido é o expresso. instavelmente. 274. no sería posible aprehender el núcleo.ubi. as análises sobre o corpo-a-corpo contagioso que caracteriza a experiência sensível tão bem trabalhadas por Landowski: “Si admitimos que el cuerpo toma siempre parte en las operaciones por las cuales la superfície del mundo-objeto puede transformarse en una red de imagens que convocan la inteligibilidad de lo sensible. “Sobre el contagio”. mas não é absolutamente atributo da proposição é o predicado. nem corpo. Incorporal. 23. aliquid. Idem. nem os conceitos. Para Deleuze o expresso não vive fora da sua expressão.i i i i 162 José Bártolo d) O sentido caracteriza a quarta relação da proposição. nem palavra. 9 8 www. das representações mentais e dos conceitos lógicos. Ibidem. uma quinta relação corresponderia à categoria husserliana da expressão. entre “estados de coisas” e “estados de alma”. aqui. Husserl distingue a expressão da designação.labcom. Na Lógica da sensação Deleuze afirma que “o sentido é o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas”9 . Vale a pena voltar a lembrar. Pág. por exemplo. e) Finalmente. do vivido psicológico. mesmo que se deva considerar que o sentido circula. que não se confunde nem com a proposição ou os termos da proposição. nem representação sensível. pensa o “noema perceptivo” ou “o sentido da percepção” distingue-o dos objectos físicos. nem mesmo com as significações. da manifestação e da demonstração. Pág.

também. tudo integra. Assim o faz a máquina semiótica da anatomia na relação médico/cadáver. 11 Idem. Pág. porque ela não permite fugas. uma máquina semiótica. antes nos instalamos logo “de saída” em pleno sentido.pt i i i i . que tende a gerar excesso semiótico. dos sons às imagens e das imagens ao sentido. em cada enunciação. O funcionamento da máquina deve eliminar a entropia. um sentir sentido nessa enunciação. há sempre excesso. porque a máquina tende a ser totalitária na sua produção. Estamos condenados ao sentido. não permite desperdício. isto é. tudo funcionaliza. a sua lógica circulante. É a eliminação do não-senso que superproduzirá sentidos. A máquina tende a gerar excesso semiótico. tende a produzir sentido na exacta proporção em que produz “estados de coisas”. a sua lisura. anulado a partir de mecanismos permanentes de superprodução de sentido. 74.labcom. dizia Greimas. Para Deleuze a estrutura é. antes articula a sua diferença: corpo/linguagem. em que funcionaliza “estados de coisas”. há um plano de produção de sentido que não deixa lugar ao não sentido. Há. em que os semioticiza. Esta fronteira não os mistura. por outro lado. tomamos o sentido do que dizemos como objecto de uma proposição. a sua linearidade. assim o faz a máquina semiótica capitalista na relação operário/máquina. Por outras palavras. As coisas e as proposições acham-se menos numa dualidade radical do que de um lado e de outro de uma fronteira representada pelo sentido.ubi. da mesma forma o não-senso não possui nenhum sentido particular. podemos sempre tomar o seu sentido a partir de uma espécie de repercussão (ou contágio) em termos de “estado de alma”. Assim como Jakobson define um fonema-zero que não possui nenhum valor fonético determinado. não permitem a irrupção do sentido. uma regressão indefectível. mas que se opõe à ausência de fonema e não ao fonema.i i i i Corpo e Sentido 163 O acontecimento subsiste na linguagem. nós não dizemos o sentido daquilo que dizemos mas. Ibidem. A entropia é. sendo dada uma proposição que designa um “estado de coisas”. do ponto de vista de uma máquina semiótica o não-sentido. já o dissemos. não dizemos o sentido. por sua vez. como se fizemos um percurso. tudo instrumentaliza. uma máquina de produção de sentido. Como diz Bergson nós não somos conduzidos. www. da qual. não os reúne. mas acontece às coisas. “Do ponto de vista da estrutura há sempre sentido demais”11 . as características do plano.

“Introdução à obra de Marcel Mauss”. O Anti-Édipo.ubi. tudo o que está fora da estrutura. www.labcom. Ensaio sobre a dádiva. IN Marcel Mauss. é o que corta e é cortado segundo três modos: a) Na medida em que qualquer máquina está em relação directa com um denominado “fluxo material contínuo (hylè)” sobre o qual a máquina efectua cortes (intensificações) e cortes extracções (identifica. O significante flutuante não funciona apenas como elemento de estrutura semântica. 44-45. nomeadamente ao opor-se à ausência de significação. Edições 70.ções).i i i i 164 José Bártolo mas opõe-se à ausência de sentido e não ao sentido que ele produz em excesso sem nunca manter com o seu produto uma relação de simples exclusão. Lisboa. com um valor simbólico zero. 2004. a máquina despótica instaurou uma espécie de sobrecodificação. Assírio & Alvim. ao estabelecer-se sobre as ruínas mais ou menos longínquas de um estado despótico. pois que ele vive dela. É em O Anti-Édipo. isto é. Mas a máquina capitalista. 37. 2001. Não é do exterior que o capitalismo enfrenta essa situação. Pág. Lévi-Strauss na sua “Introdução à obra de Marcel Mauss” trabalha a noção de mana definindo-a como um significante flutuante. Lisboa. funcionamento que corresponde ao 12 Claude Lévi-Strauss. encontra-se numa situação absolutamente nova: a descodificação e a desterritorialização de fluxos. “um signo marcando a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que carrega já o significado. Capitalismo e Esquizofrenia 1. nela encontra tanto a sua condição como a sua matéria. e não ser já. e impõem-na com toda a violência. não existe. Pág. A máquina desejante. 13 Gilles Deleuze e Félix Guattari. Ao contrário do que Lévi-Strauss dá a entender este significante é da ordem da realidade.pt i i i i .”13 As máquinas são-nos apresentadas como um sistema de cortes. mas podendo ser um valor qualquer na condição de fazer ainda parte da reserva disponível. da realidade significante significada no interior de uma linguagem. articula também as relações de reciprocidade entre significados e significantes dados nos códigos estabelecidos. um termo de grupo”12 . modelo ideal de qualquer outra máquina. da máquina. que encontramos a descrição dessa máquina a que Deleuze e Guattari designam de máquina capitalista e que nos interessa envolver agora: “Quando a máquina territorial primitiva deixou de ser suficiente. Só há real significante. como dizem os fonólogos.

chaves. denominada no Anti-Édipo por síntese conjuntiva de produção de consumo ou. para onde conduzi-lo. é “consumado” como instrumento-máquina. de acordo com a qual se opera qualquer processo de produção sobre um corpo sem órgãos. olhos. troncos mas. no interior de um processo de meta-ligação ou transformação do cortado e do extraído em “produto final”) que ligam objectos parciais (as máquinas-órgãos.i i i i Corpo e Sentido funcionamento do “plano de produção” no qual cada máquina se vê. a sua linearidade. tornos. isto é.labcom. Deleuze e Guattari dirão. cada uma das séries organizadas a partir de órgãos. como cortá-lo. lado a lado com outras peças e outras máquinas. Trata-se de cadeias ou. extracções no interior de uma lógica de produção que orientou já a sua própria montagem). ainda e preferencialmente. alavancas. b) Uma outra síntese tem a forma disjuntiva. ele é atravessado por uma intensidade que o coloca. por exemplo. mãos. braços. a sua lógica circulante. a sua integração sistemática) opera ligações (o corte e a extracção dãose. pernas. também.ubi. etc. também. serras e as máquinasorigem. envolvida e que Deleuze e Guattari designam por “síntese conectiva de produção” na medida em que o plano ( a sua lisura. A partir da sua acção o operário. mais correctamente. num 165 www. c) Uma terceira síntese é. do tipo: que fluxo cortar. que a máquina desejante efectua cortes-destacamentos em cadeias significantes heterogéneas. uma vez montadas tem capacidade produtiva operando cortes. isto é.pt i i i i . “síntese conjuntiva de intensidades e devires”. instrumentos ou peças isoladas e que. a propósito. planos (na medida em que a hierarquia tende a ser anulada pelo funcionamento de uma lógica dominante de produção) que fornecem às máquinas o código que lhes permite resolverem os problemas funcionais. como qualquer engenheiro de produção bem sabe.

constituem. É com todas as suas forças que tende a produzir o esquizo como sujeito de fluxos descodificados sobre o corpo sem órgãos – mais capitalista do que o próprio capitalista e mais proletário do que o próprio proletário” na medida em que. www.ubi.labcom. Ibidem. devir-pénis quer. devir-braço. é intensificado para um ou para outro lado. 45. devir-máquina. paroxisticamente. devir-fábrica. Ele não pára de tender para o seu limite. Pág.pt i i i i . peça adjacente à máquina”14 Para Deleuze e Guattari “A descodificação dos fluxos. 14 Idem. entretanto quer em devir-mão. que é um limite propriamente esquizofrénico.i i i i 166 José Bártolo devir-máquina: “sujeito ao lado das máquinas. pois. a tendência mais essencial do capitalismo. por outro lado em devir-peça. a desterritorialização do socius.

etc. www. retira dele o que precisa. produz um corpo-instrumento. olhos. podendo avançar numa espécie de tapete rolante (o plano de produção) para uma outra posição onde se tornará “máquina de corte”. mãos. que esta máquina também é.i i i i Corpo e Sentido 167 Estudo de proporções humanas de Albrecht Dürer (1471-1528) A máquina. um corte.pt i i i i . define-se como um sistema de cortes.ubi. O operário é cortado por uma máquina que faz determinadas extracções.. tapetes. roldanas. já o mostramos. por fornos. máquinas-boca. 15 Idem. claro. Ibidem.labcom.”15 Aos cortes .destacamentos que têm por objecto fluxos contínuos e remetem para objectos parciais e. a este os olhos.extracções seguem-se cortes . serras. “Em suma. e é fluxo ou produção de fluxos em relação à que está conectada com ela. ele é instrumentalizado. qualquer máquina é corte de fluxo em relação àquela com que está conectada. a máquina só produz um corte de fluxo se estiver ligada a uma outra máquina que se supõe produzir o fluxo e. braços. como dissemos. tornos. 40. ouvidos. por sua vez. computadores. Ficaremos assim com uma máquina que é constituída. último (?) corte. Pág. partes extra partes. aquele braços e mãos. peça adjacente à máquina. o corte-resto ou resíduo que. finamente.

que é produzido como uma parte ao lado das partes. para “re-aproximar.ubi. reenquadrar.i i i i 168 José Bártolo máquinas-instestino. Assim.pt i i i i . pois. que ele não unifica nem totaliza. 46. unidades transversais entre elementos que conservam toda a sua diferença nas suas dimensões próprias. era o que Joyce chamava “re-embody”. ao aplicar-se sobre elas. nunca existe uma totalidade daquilo que se vai vendo. Re-aproximar. o papel de peça que se integra numa máquina e de máquina que faz a integração de peças. Ibidem Pág. lê-se no Anti-Édipo: “Proust dizia. nem uma unidade dos pontos de vista.labcom. mas apenas a transversal que o desnorteado viajante traça entre uma janela e outra. na viagem de comboio. sendo que não há máquina que não estejam associada a outra máquina assumindo reversivelmente.”16 16 Idem. que o todo é produzido. www. para re-enquadrar os fragmentos intermitentes e opostos. Evocando Proust. apenas instaura comunicações aberrantes entre vasos não comunicantes. mas que.

no silêncio. que visa produzilo semioticamente para o integrar. de cada vez. . José Augusto Mourão recorda-nos que “a relação é algo. ) www. no seu lugar próprio. O corpo intensificado por um fluxo que o quer significar. que é a amostra de tecido com a qual o biólogo trabalha (mas o biólogo mal sabe que também ele é uma amostra objectual numa outra posição do plano). no interior da mesma máquina que o produziu. . o corpo sem órgãos é produzido como um todo. não uma substância. (. como peça sua. esse corpo sem órgãos. um plano de relação. que é o corpo mercadoria da prostituta que o cliente usa (mas o cliente mal sabe como também ele é um pedaço de carne usado numa outra posição do plano). esse corpo-objecto que é o cadáver com o qual o anatomista opera (mas o anatomista mal sabe que também ele é um corpo objecto numa outra posição do plano).i i i i Corpo e Sentido 169 Anatomia uteri humani gravidi tabulis illustrata de William Hunter (1718-1783). A palavra “relação” permite entender uma acção. Não há produção sem relação. que é o corpo da criança adestrada na atenção. no gesto certo pelo professor (mas o professor mal sabe como também ele é adestrado numa outra posição do plano).ubi. no processo de produção.pt i i i i . ao lado das partes que ele não unifica nem totaliza.labcom. antes de mais. O plano de produção é. mas.

Pág. colocou em questão não só o estatuto objectual do corpo mas. IN AAVV.Cadernos ISTA. salvo excepções não teria sido capaz de desenvolver. de inúmeros discursos do corpo. fonte à qual o próprio Deleuze vai beber. Relógio d’Água.17 Sabe-se a importância dada por Deleuze e Guattari aquela frase de Artaud que nos diz que “le corps sous la peau est une usine surchauffée. 116. a não ser que se trate de um médico ou dum polícia.ubi. com alguma injustiça. Guattari. no entender de Deleuze uma boa parte da filosofia foi incapaz de se dar conta . o tipo de agenciamento que sobre ele diferentes práticas discursivas (da psicanálise. É neste contexto que nos aparecem reflexões sobre o que seria uma semiótica adequada ao estudo do corpo humano. 32. 1997. O Anti-Édipo. Pág. convirá dar lugar de importância ao corpo.labcom. devires para os quais. permanecem desconhecidas . José Augusto Mourão. 2003.e assim permanecerão até que uma semiologia adequada (isto é. para os inscrever sobre si mesmo. A crítica que Gil desenvolve tem a ver com a inadequação de um determinado regime de signos enquanto formalização específica de expressão do corpo. A expressão é médico-jurídica.i i i i 170 José Bártolo mas “relação” não designa nenhuma coisa. a fábrica em sobre aquecimento tem muito mais a ver com as “paixões da alma” em sentido greimasiano.pt i i i i . Dizemos ‘Dormiram juntos” e não ‘tiveram uma relação’. o corpo não é uma “fábrica” no sentido cartesiano. 9. Lisboa. Só no registo jurídico e económico aparece a expressão ‘relações íntimas e depois ‘relação sexual”’. no 16. sobretudo a partir dos anos 80. Metamorfosees do Corpo. igualmente. “ Sexo. Sabe-se que José Gil estende esta crítica à semiologia embora. das artes performativas às ciências do desporto) desenvolveram. para os traduzir uns nos outros. 19 José Gil. 17 www. à antropologia. não sendo capaz de ressalvar a importância da semiótica desenvolvida em torno de Greimas. Pág. Em particular.”19 .”18 . não que a visão deleuziana seja mecanicista.daí a referência à filosofia estóica como momento inaugural de uma perspectiva de olhar que a filosofia seguinte. O Enigma da sexualidade. texto e corpo virtual”.à sua aptidão para emitir e receber signos. 18 G. José Gil coloca assim a questão: “As operações que nesse campo se realizam [no corpo]. O proliferar. que tenha em conta domínios trans-semióticos) seja estabelecida. espaço atravessado por fluxos intensivos. Deleuze e F.

A ultrapassagem da inadequação desenvolveria um processo de amplificação do signo ad infinitum. sem o conseguir fixar. Language in Relation to a unfied theory of the structure of human behaviour. Pike tentou em vão.. Não é por miopia que não vemos o objecto dinâmico. ancoragens.. 38. Op. essencialmente. de dizer exactamente onde um segmento acaba e começa o seguinte. L. Ora. a inadequação entre o objecto-em-próprio e o objecto de estudo.230. se se quiser. derivaria numa semiologia sobre o corpo. mais correctamente não é apenas de amplitude) ou. não só os signos são escorregadios (havendo sempre desfocagem entre objecto imediato e objecto dinâmico) como o corpo.labcom.pt i i i i . pois o próprio corpo é “condutor” de significado. transduções. A falha não é de amplitude (ou. 20 www. criará um signo ainda mais amplo”22 . espremelo analiticamente até dele sair uma expressão. Pike. Ibidem. Cit. parece-nos. A solução não poderá passar por justaposições semióticas. ela requererá provavelmente uma explanação ulterior.”21 O corpo formaria um continuum semiótico dificilmente interrompível. que as dificuldades de constituição de uma semiótica do corpo não são marcadas por uma finitude de amplitude. reduplicações signicas. Pág.ubi.20 A conclusão de Pike é relevante. é condutor semiótico. mas por um permanente erro de paralaxe. para além de signo. K.i i i i Corpo e Sentido 171 Ora. 21 Idem. ela recorda-nos que é “impossível determinar com precisão a fronteira que separa um fragmento de um outro. a constituição deste modo de uma semiologia do corpo. essas sendo inevitáveis constituem-se como problema para uma semiótica do corpo e não como solução. uma língua. a qual. opera circulações. A tese da finitude de amplitude mostra. L. não é quantitativa. A segunda possibilidade era centrarmo-nos do corpo. ou seja o objecto imediato por maior que seja a sua amplitude não se torna jamais objecto dinâmico. Foi o que K. circunscrevendo o corpo a um determinado regime formal de signos e esquecendo o próprio corpo como emissor e receptor de signos. Peirce mostra que “o signo juntamente com a explanação gera um outro signo. 22 Pierce. tornando o significado escorregadio. 2. e visto que a explanação será um signo. tomada juntamente com o signo já ampliado. A conclusão de Pike remetia precisamente para a ideia de uma transsemiótica. citado por José Gil. mas qualitativa. Cit. Op.

. e existindo ao mesmo tempo na abertura permanente ao mundo através da linguagem e do contacto sensível.”23 Este corpo paradoxal é transformado. Um corpo que se abre e se fecha. o corpo fenomenológico (o de Husserl.ubi. máquina-laboratório. impondo um sentido que ela própria construiu e que é. e habitando outros corpos e outros espíritos.. as máquinas desejantes ou moleculares (máquina-olho do corpo do vigilante da prisão panóptica intensificada por um regime que o colocam num processo de devir-binóculo e reversivelmente máquina-prisão composta pela integração de olhos. Deleuze e Guattari distinguem. aliás. não tanto o de Susanne Langer) não compreendia dois elementos essenciais (. o não-senso. corpos. evoluindo no espaço cartesiano objectivo. um corpo paradoxal. máquina-ouvido do confessor e. que se conecta sem cessar com outros corpos e outros elementos. comportando um interior ao mesmo tempo orgânico e pronto a dissolver-se ao subir à superfície. www. No entanto. Pág. emissor de signos e transsemiótico. mas como um corpo metafenómeno.labcom.pt i i i i . barras. digamo-lo de novo. também. ali como máquinas desejantes apreendidas nas suas singularida23 José Gil.): a energia. tratam-se das mesmas máquinas sob regimes diferentes: “aqui como máquinas orgânicas. (. visando quer a fenomenologia. mãos.. o sentido que preside à sua própria constituição como máquina. visível e virtual ao mesmo tempo. celas. a máquina. um percebido concreto. Cit. um corpo que pode ser desertado. uma diferença de regime. reversivelmente. máquina-igreja etc. visível.) e as máquinas molares (máquinas sociais.i i i i 172 José Bártolo José Gil di-lo assim. Op. deve anular o paradoxo.. quer a semiologia.. e no recolhimento da sua singularidade. Em suma. Um corpo habitado por. Consideramos aqui o corpo já não como um fenómeno. 175. e o espaçotempo do corpo. máquina-olho. feixe de forças e transformador de espaço e de tempo. esvaziado. reversivelmente. no corpo do biólogo que analisa uma amostra de tecido e. técnicas ou sociais apreendidas no seu fenómeno de massa ao qual se subordinam. antes. roubado da sua alma e pode ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida.).. que em certo sentido equipara nas suas limitações analíticas: “A fenomenologia teve o mérito de considerar o corpo no mundo (. através do silêncio e da não-inscrição. técnicas ou orgânicas) a diferença entre os dois tipos de máquinas não é uma diferença de natureza mas..). pelas diferentes máquinas semióticas em corpo objectual.

Pág. Pág. Terá sido Aristóteles. J. www. Pág.25 Interrogando-se sobre o facto da máquina surgir como o modelo do real deleuziano. oeuvre de l’homme. L’esthétique de Gilles Deleuze. Canguilhem “ On peut définir la machine comme une construction artificielle. Le mécanisme est donc un assemblage de parties déformables avec restauration périodique des mêmes rapports entre les parties. . produzida e produtora. 1990.ubi. onde o que existe é desejo. Deleuze e F. 26 Mireille Buydens. 28 Georges Canguilhem. ). ”28 Uma análise mais exaustiva surge-nos trabalhada por Félix Guattari num dos seus últimos cursos: 24 25 G. La Connaissance de la Vie. Op. . ao definir o escravo como uma “máquina animada”. Mireille Buydens dá a entender que a explicação para essa utilização da máquina reside no facto de ela ser “por essência o que é produzido e não dado. mas não é de modo algum o mesmo regime. . Ibidem. Para G. 67. ontologicamente contingente e não ontologicamente necessário”26 . nas páginas d’A Politica. ele próprio necessário pela sua própria perfeição. 102.. devir. isto é. dont une fonction essentielle dépend de mécanismes. Pág. Sahara. a determinada altura Deleuze e Guattari e nós com eles. Paris.”27 Uma “arqueologia” do corpo parece indissociável de uma “arqueologia” da máquina. as mesmas relações de grandeza. 241-242. c’est-à-dire en limitations de mouvements de solides au contact. não apenas funcionamento mas produção e auto-produção? Questionam-se. acrescentando que “enquanto artefacto. Guattari. Pág. 295. 27 Idem. a explicitar pela primeira vez essa possibilidade do corpo entrar num processo de devirmáquina. os mesmos usos de sínteses.”24 Mas como é que podemos falar em máquinas nesta região microfísica ou micropsíquica. La réalisation matérielle de ces degrés de liberté consiste en guides. 68. a máquina aparece bem como a síntese do organismo que é ou se impõe como o resultado de uma evolução ancorada nas leis necessárias da natureza ou como criação de Deus. c’est une configuration de solides en mouvement telle que le mouvement n’abolit pas la configuration. Idem.i i i i Corpo e Sentido 173 des submicroscópicas que subordinam a si os fenómenos de massa (.labcom. Un mécanisme. Cit. ) São portanto as mesmas máquinas. Ibidem. . L’assemblage consiste en un système de liaisons comportant des degrés de liberté déterminés (.pt i i i i . Vrin.

biologie et sciences humaines. Leur secret n’est pas dans la transmission du mouvement selon des procédures automatiques. le positivisme se donne simplement pour tâche de répertorier les propriétés émergentes de la matière. L’embryologiste Driesch montre que si l’on dissocie les blastomères d’un oeuf d’oursin. Il suffira pour les décrire d’un simple diagramme mettant en évidence la différenciation des parties.i i i i 174 José Bártolo “L’inconscient du machiniste déroute encore par la prolificité de sa production. Les machines biologiques et psychiques sont alors conçues comme des corps organisés. Réalisés pour accomplir quelque tâche nécessairement préétablie par leur constructeur. ils appartiennent à un monde dualiste.labcom. et leur agencement respectif. 2/ La science du XIXe siècle se veut matérialiste. Elles sont constituées d’organes auxquels sont attribués des fonctions spécifiques. moniste. L’ évidence de leur fonctionnement ne réside pas dans le jeu prédéterminé des pièces et des rouages. mais dans la complexité organisationnelle de l’ensemble. au cours de l’histoire des sciences inexactes. La créature renvoie à son créateur : cause finale. trois grandes périodes au cours desquelles l’idée de machine s’est renouvelée. philosophe de l’organicisme et de l’évolutionnisme. évolutionniste. 3/ Le XXe siècle voit réalisée la continuité substantielle du monde dans toute l’étendue de l’échelle des sciences. qui base sa philosophie sur deux principes: • l’instabilité de l’homogène • la conservation de la force À chaque niveau de complexité structurale. chaque blastomère peut régénérer un individu.ubi. comme chez celles qui sortent de la fabrique. 1/ Les automates de l’époque de Descartes sont les seuls qui correspondent à l’image classique du mécanisme.pt i i i i . à partir de points d’observation dispersés le long de l’échelle des sciences : cause matérielle. Les “fonctions ” de l’ organisme n’ont plus leur contenu www. capables d’assurer leur développement par des voies endogènes. Ces machines organicistes n’ont pas à être construites. car toutes les machineries imaginaires ne sont pas construites sur un mode unique et l’on peut distinguer. L’âme de cette époque est le positiviste Herbert Spencer. et s’intéresse maintenant aux propriétés structurelles.

esteja. Por outro lado. Milano. Le comble des machines imaginaires est de n’avoir jamais fonctionné sur le mode de la prétendue cause efficiente. o laboratório) hierarquizada a partir de lógicas de apropriação: os poderosos delas se apropriam os pobres. levada a cabo por Deleuze e incluída em O Anti-Édipo. no seu próprio corpo. mas diz que elas são. “Industrial Design and Prosthesis”. são simplesmente rupturas de equilíbrio numa série de alavancas. a capacidade que a máquina tem para explicar os funcionamentos do organismo. Les mêmes équations valent pour une variété de systèmes sans apparentement évolutif : cause formelle. aliás também defendida pelo butleriano Ernest Kapp32 . por um lado. mas não consegue pôr-se a funcionar a si própria. Samuel Butler.ubi. outro acolá.”)30 . 1877. muito presente. 114 e segs. Elles sont prises dans des explications formelles qui transcendent leur nature particulière. de passagens dos capítulos 24 e 25. a escola. Samuel Butler.”)31 . Westermann.pt i i i i . 32 Ernest Kapp. não se limita a dizer que as máquinas prolongam o organismo. No 96. como mostra Adrian Forty33 . 1975) embora respeitando a tradução. ao passo que a maioria dos membros do homem são livres e estão um aqui. quais corpos mutilados. “La Machine”. Pág. No seu Erewhon. espalhados pelos diferentes lugares do mundo. Utilizamos a edição italina da obra de Butler (Erwhon. É precisamente isto que explica os desencontros entre o vitalismo e o mecanicismo. a começar pelas alavancas que são pequenas demais para aparecerem ao microscópico.i i i i Corpo e Sentido 175 immanent. 30 29 www. parte das duas teses dominantes: a de que os organismos são apenas máquinas mais perfeitas (“Até as coisas que supomos puramente espirituais. o convento. estão delas privados. Pág. ainda que essa visão protésica. 31 Idem.1984. 296. como também não se consegue formar nem produzir. Adelphi. de facto. Grundlienien einer Philosophie der Technik. e a sua profunda incapacidade para explicar as suas formações. Butler Félix Guattari.labcom. ou seja. e a que defende que as máquinas não passam de prolongamentos do organismo (“Os animais inferiores guardam os membros neles próprios. Braunschweig. membros e órgãos espalhados pelo corpo sem órgãos de uma sociedade (ou micro-sociedade como a fábrica. Seminário 06. 33 Adrian Forty.02. publicado em 1872. IN Ottagono.”29 Uma máquina funciona segundo as ligações prévias da sua estrutura e a ordem da posição das suas peças. a quem regressaremos com maior destaque no nosso último capítulo.

ubi.labcom. Guattari. Raymond Ruyer. Deleuze conclui: “Num tal ponto de dispersão das duas teses. Mas se estes fenómenos individuais se complicarem por meio de interacções sistemáticas. neste sentido. Págs. conduz. enquanto análise material do imaterial. que “em toda a cultura. antes flúem como uma “imensa toalha de sombra” por baixo da representação. Flammarion. maquinando umas sobre as outras. como as de Raimundo Ruyer. remetendo umas para as outras. é a mesma coisa dizer que as máquinas são órgãos. A produção. há a experiência nua da ordem e dos seus modos de ser”36 . como as de Foucault. à biologia. A acumulação estatística conduz às leis da física clássica. Vamos. económica e social. 12-13. é. Deleuze e F. que contêm uma tal abundância de partes que devem ser comparados a peças extremamente diferentes de máquinas distintas. bem como a ideia do corpo 34 35 G. ou que os órgãos são máquinas. Págs. Paris. 297. depois da macromolécula. depois do vírus. assim. 80-81. advertindo para o seu particular estruturalismo. semiótica e política. em particular de “máquina semiótica”. www. A microfísica. Com efeito. mas diz.i i i i 176 José Bártolo não se limita a dizer que os organismos são máquinas.”35 Por sua vez. e depois do unicelular dominando os fenómenos de massa. a demonstração do modo exemplar como a produção moderna. A partir desta leitura de Samuel Butler. evidentemente. ao irromper no mundo da representação. entre o uso do que se poderia chamar os quadros ordenadores e as reflexões sobre a ordem. quer vinda do campo das ciências humanas. devemos a Michele Foucault. produz um corte radical. Raymond Ruyer explica-nos: “A física clássica só trata dos fenómenos de massa. Pág. tornando já mais amplo o alcance do conceito de “máquina” e. 36 M. apela sempre a forças que já não se deixam fixar na representação.pt i i i i . As duas definições são equivalentes. por maior que seja. também. La genèse des formes vivantes. Foucault. a partir dos fenómenos individuais do átomo podem tomar-se duas direcções. chegaremos então a um organismo que. conservando a sua individualidade. individual e colectiva. pelo contrário. As palavras e as coisas. O Anti-Édipo. Daí Foucault nos recordar. microscópico.”34 Encontramos leituras próximas desta. quer vindas do campo das “ciências da vida”. no seio da molécula.

As proposições identitárias (tó auto. a questão da identidade ? Como a colocar. Frankenstein mas onde a experimentação é substituída por uma. desenvolvida no capítulo seguinte. a identidade não pode ser definida”. Série Universitária. transversais a todos os Apud. ens. 1995. Maria Filomena Molder. nesse sentido. nota 87. dominado por uma profusão de conceitos que definem o corpo e as degenerações (sabendo-se que o corpo degenerado continua sendo corpo e. por nós. usado com valor operativo e cognitivo.pt i i i i . que deixa perceber o modo como em qualquer momento histórico. identidade e problema de identidade) ? Frege observou que a identidade é indefinível “visto que toda a definição é uma identidade. corpo-tecnológico estamos a falar de um hibrído que relaciona opostos. p.145. A leitura de Deleuze. Como colocar. O Pensamento morfológico de Goethe. um pouco á semelhança do que alguns contemporâneos farão a partir da linguagem cibernética ou computacional. por muitos modernos (Goethe. Estudos Gerais. Lisboa. isto é. corpo-máquina. Ao falarmos em corpo-objecto. então. o sentido da relação só pode aparecer a um ponto de vista que seja capaz de captar a relação e nunca a um ponto de vista que que se limite à justaposição dos opostos.i i i i Corpo e Sentido 177 como “produção” e. ligou. Biologia e tecnologia. uma determinada máquina integrou em si um determinado corpo e sobre ele operou cortes e extracções. de integração e produção. são noções de ontologia formal. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. a degeneração é. num horizonte.ubi. 38 O termo amalgamar é de origem alquímica e designa a aextracção da prata a partir do bronze através da acção do mercúrio. em particular. a amálgama dos opostos. anteriormente usado. “produção de sentido”. unum) pertencem á lista dos “transcendentais” medievais. No corpo-tecnológico dá-se a relação.labcom. a um tempo. como tal. será retomada. lógica de controlo. enxertou. bem como a de Foucault. Hamann ou Kierkegaard). deste modo. Não deixa de ser interessante anotar que naqueles autores modernos interessava-lhes usar a simbologia cognitiva das práticas hibridas associadas á alquimia. 37 www. Goethe ensina que a relação entre opostos não pode ser pensada colocando “uns ao lado dos outros” mas apenas “uns nos outros e uns com os outros”37 . como foi aliás. cozeu. Ele é. bem controlada.38 Enquanto corpo amalgamado o corpo humano alterado pela tecnologia torna-se lugar de questão das identidades próprias transtornadas pela própria amálgama. como se a máquina fosse uma espécie de Dr. natural e artificial são opostos. no nossa leitura crítica da história do corpo. idem.

De facto se a iden39 J. ou seja. Quando identificamos o corpo humano. “mesmo”. na perspectiva crítica. Como esclarece Fernando Gil “Há uma dificuldade intrínseca em apreender a identidade. da compreensão do mundo . a consciência dos paradoxos não resolvidos que ensombram o ponto de vista . com rigor. que é agenciado de um determinado modo (que modifica-o identitariamente ) ao ser “objectivado”. De facto. o andróide. e no entanto. estamos a evidenciar “um certo número de paradoxos” à luz de um determinado agenciamento linguistico “do corpo”. marcados por uma relativa indeterminação. para falar como Heidegger. 241.pt i i i i . não há. O que se dá é a constituição de um “ponto de vista artificial” que em relação ao ponto de vista natural tem. Cit. para um plano ontológico. deste modo. se perde. por exemplo. como tal. Como mostrou John Austin. como o desenvolvimento do estudo. O que Frege indica é que qualquer evidenciação da identidade (seja positiva ou negativa) resulta de uma definição de identidade. psicológico e antropológico -. “real” ou “identidade” são palavras cujo uso negativo (cuja evidênciação apofantica) é mais facilmente referenciável do que a sua utilização directa assertiva.mas a sua significação própria permanece obscura. então. o corpo anormal. ele apenas é. Neste sentido.labcom.da compreensão de si. Gil. que resulta de um determinado agenciamento da linguagem e que. www. isto é. parcialmente. a identidade permanece sempre fugidia em relação ao nosso ponto de vista ( seja ele “natural” ou “técnico”). nunca um “ponto de vista natural”. não pode ser transposto. da compreensão do outro. também não há uma inteligibilidade plena do corpo. do ponto de vista da sua validade. Aquilo que identificamos quando oestudamos o corpo não é tanto uma identidade ( e ainda menos aidentidade) mas uma intensificação (ou enunciação) da identidade. Nesta perspectiva este agenciamento é identitário mas. estamos a usar uma definição identitária operativa. o freak. o cyborg. de um corpo-signo especifico que é o nosso objecto de estudo. Pág. Elas fornecem (como categorias) a estrutura seMãntica da lingua . O corpo enquanto objecto de estudo é. Op. nos mais diversos planos -lógico e metafísico. como principal diferença. Quando descrevemos. identitário. cedo ou tarde. do corpo. e a explicação da identidade consiste em evidenciar um certo número de paradoxos”39 .i i i i 178 José Bártolo modos do discurso e.mas essa é uma consciencia que.ubi. um corpo cuja identidade é um agenciamento da linguagem que estuda.

sem dúvida.pt i i i i . Hyde. o corpo de uma mulher num filme pornográfico. quase-sujeitos e quase-objectos. Aristóteles sublinha-o na Métafisica.labcom.ubi. Assim “uma taça que brada ainda é uma taça. de devir-louco. alterou-se a intensificação da sua identidade. o corpo de um velho amputado.i i i i Corpo e Sentido 179 tidade se não deixa nunca fixar ela deixa-se enunciar. É o horizonte de seres hibridos. o corpo cadáver de uma jovem. A taça quebrada mantém a identidade que tinha antes de ser quebrada. se coloca no Dr. como uma condição de possibilidade da própria discursividade. Ao quebrar-se ela entra num processo de devir-outro. mas todos eles são corpos humanos. quando demonstra que a identidade não pode ser entendida apenas como a identidade numérica. uma identidade segundo o logos. mas que ela é. embora o número já não seja o mesmo”. de facto. embora em permanente devir. O corpo de uma criança loura. o corpo de Bill Viola na água. Jekill e no Mr. São todos diferentes porque em todos eles à uma diferente intensidade de afastamento do limite que identifica o corpo humano. o corpo “iluminado” de um homem numa fotografia de Dueane Michals. o corpo de uma criança chinesa. ela permaneceu sempre como um transcendental. isto é. A história muito perturbadora do Dr. através.mas num certo sentido. de devir-outro. do principio ao fim. essa intensidade é maior do que corpo da criança loura ou no corpo da criança chinesa. o barco de teseu. mas a intensificação da sua identidade. mas o devir impõe modificações de intensidade e não de identidade. O exemplo que Hobbes dá no De Corpore. de devir-hyde. o mesmo problema de intensificação da identidade. a identidade mão se altera porquer ela nunca se deu. sobretudo. o corpo do terminator. sem que a identidae. Sem duvida que o corpo do terminator intensifica-se em direcção ao limite que define o corpo humano. o que está em causa não é a sua identidade. que assim se rasga. todos estes “corpos” não identitades mas intensificações de uma identidade que não se dá a fixar. talvez. Jekill mostra-o no meio das crises resultantes da acção de uma substância quimica num processo de devir-montro. é a esta luz elucidativo: o barco de teseu permanece. A investigação que os procure compreender deve ser orientada pela convicção da existência de um principio de unidade que permita reunir num comum a origem e o devir do corpo. do reconhecimento da oriwww. O que distingue uma enunciação de cariz identitário de uma outra é o tipo de intensificação que se agencia pela linguagem. está fora do domínio humano. se altere . O mesmo devir outro. o corpo do homem-elefante. mas nenhum deles.

do corpo tecnológico é um elemento fundamental.i i i i 180 José Bártolo gem no devir mesmo. que não anulam. do sujeito no seu devir-objecto. ainda que estejamos na presença do objecto no seu devir-sujeito. devir-outro. O devir evoca a origem porque ao devir objecto o sujeito mantem a siua identidade de sujeito sem nunca se tornar objecto. na capacidade do corpo encadear o estranho. intemporal. fundamentalmente. O devir não tem a ver com indentidade mas com intensidade. ajustar-se ao estranho. procurar as correspondências que nunca anulam a autonomia entre sujeito e objecto. A relação.pt i i i i . da natureza do objecto de análise: o corpo tecnológico é uma estrutura compósita cujas características dependem de um trabalho de composição que reveste de significado a própria estrutura significante. de relação. O carácter intersemiótico da análise decorre. corpo compósito a partir de operações especificas e envolvendo elementos específicos. ao devir sujeito o objecto mantem a sua identidade de objecto sem nunca se tornar sujeito. da entrecedura entre sujeito humano e qualquer objecto: cada objecto torna-se manifestação. corpo de patente. cria flutuações. Por outras palavras o corpo tecnológico. igualmente.ubi. é dominado pela imposição de objectivos.labcom. a teleologia é dominante e integra as flutuações dentro de um sistema. de objectivos de construção. não podem anular. entrelaçar o estranho na sua individualidade. Em relação ao corpo humano há uma arqueologia que cria flutuações. que está a chave da relação entre corpo humano (sujeito) e o artificial (objecto). a humanidade. Trata-se na relação entre corpo e tecnologia. na expressão de José Gil. É no encadeamento. com intensidade de tensão. no ajustamento. O que aqui se identifica é que essa construção é interdisciplinar. é esta natureza que exige uma análise adaptativa que de cada vez seja capaz de acompanhar e interrogar um objecto que se transforma sem deixar nunca de ser o mesmo. de ligação. procede da compreensão. imagem do outro. A identidade do corpo tecnológico não é dada pela permanência www. corpo de design. Mais do que um significante flutuante. uma genealogia que cria flutuações e uma teleologia que. de limite. quando não a penetração. no entreleçamente entre o corpo humano e tudo aquilo que ele não é. a natureza de ser entre. falarmos em composição pressupõe encontrar em operações estritas de construção a condição de possibilidade do carácter flutuante. Mas o devir é tensão. do corpo pelo artificio tecnológico. dir-se-ia. Este carácter de fronteira. inter. na medida em que é corpoprojecto. dir-se-ia originária. No caso do corpo tecnológico.

Pág. Serres. a congregation of heterogeneous materails and flows. Um dos reflexos mais decisivos da evolução nas ciências contemporâneas encontramo-lo. impõe. estável. um sistema. o organismo como sistema cibernético. Kirby. não-lineares e abertos. then. A complexidade caracteriza os sistemas inteligentes. o vivo e o não-vivo. Na leitura. no interior destes sistemas complexos: “Increasingly. 61. 146. da qual.labcom. em relação a um mesmo. an unfinalized product of morphogenesis. Hermes V. O encontro contemporâneo entre as noções de organismo e de sistema é anunciado.”41 . diferentes significantes e diferentes significados. Le passage du Nord-Ouest.i i i i Corpo e Sentido 181 evidente de significantes e significados. por exemplo. A imposição das teorias em torno dos sistemas dinâmicos complexos assume um papel fundamental no repensar de definições e de distinções entre. Pág. mas é com Wiemer e com a fundação da cibernética que passa a ser pensável o organismo como sistema e. mas também. marca-os de inde40 41 V. do domínio da biologia para o domínio da IA e do domínio da IA para o domínio da filosofia. são precisamente os conceitos de organismo e de sistema a serem alvos de uma incessante reinterpretação transdisciplinar. sem dúvida. mas pela permanência de operadores que articulam. Ela caracteriza um estado. an infinite partioning. Esta concepção fixada pela imagem do ciborgue mil vezes representada na literatura e no cinema. pelo seu carácter central.pt i i i i . Corporeal existence is generative and genereous in its inclusiviness. numa tecitura teórica quase interminável. “O nosso problema é a complexidade.ubi. Serres. pelo estudos dos sistemas orgânicos. Cit. O Corpo humano passa a ser pensado ou. na biologia. Paris. o humano e o não-humano. sempre acutilante. mais do que pensado.. o orgânico e o inorgânico. constroem. an animated representation whose fractured mirroring includes cellular and atomic life. faz deslocar. the organismic body is being construed as an open system. Minuit. M. de M. em particular. reinterpretativamente. Op. construído. linear e fechado deu lugar a uma concepção que impõe os sistemas como horizontes instáveis. www.”40 . em que o número de elementos e de ligações interactivas é imensamente grande ou inacessível. como nota V. uma série de conceitos do domínio da filosofia para o domínio da Inteligência artificial. 1980. na nova concepção de sistema: o que tradicionalmente se considerava. mediated from and within itself. Kirby.

www. ou seja é o sistema que constitui as partes e não as partes que constituem o sistema. Pág. O meu corpo não é constituído pela realidade e identidade das 42 Idem. regras dedutivas. por exemplo.ubi. deixar o espaço de combate. antes o oculta recorrendo a metáforas desviantes. mas uma multiplicidade sem partes (complexa). à luz dessa indecidibilidade. a esta totalidade não sintética. o pulso e assim sucessivamente que constituem o meu corpo. as articulações entre as falanges. Qualquer visão maquinica do sistema é errada. portanto. A complexidade de que fala Serres não aconselha a colocar o corpo no centro deste combate interpretativo. A realidade não pode ser fechada num sistema fechado. linear. num sistema é a identidade e realidade do todo que pressupõe a realidade e identidade das partes. isto é. onde se levanta a poeira. propriamente. A simplificação nasce da luta. Ela não é um todo sintético. A esta complexidade. Esta indecidibilidade estimula as mais variadas interpretações descontrutivistas que consideram que o corpo “só ganhará se for visto numa perspectiva desconstrutivista. a multiplicidade não o compõe. indecidível. O corpo tecnológico passa a ser pensado como um sistema complexo. bem entendido. 22. o oposto de uma máquina: enquanto na máquina a identidade do todo pressupõe realidade. É preciso injectar paz para ver um pouco mais claro.pt i i i i . como um sistema aberto. um conjunto de termos ordenado por meio de. a mão. surge-nos como exemplo. identidade e lógica combinatória prévias das partes. o recurso à metáfora fractal. por exemplo. define-os como abertos. a realidade é um todo porque inclui uma multiplicidade. se chama. que o recupera na sua desarmonia. enquanto totalidade. desta tentação descontrutivista que verdadeiramente não interpreta o corpo. para conseguir ver. pelo contrário: “A complexidade está do lado do real. Mas a abertura tem a ver com um fecho operativo interno ao sistema que se traduz do seguinte modo: é aquele sistema a reconhecer-se marcado pela complexidade. Um sistema não é. Não são. mas sou eu que constituo o meu corpo. mas uma diferença de género. A diferença entre o sistema e uma máquina não é uma diferença qualitativa ou de complexidade. Ibidem. na sua assimetria. O sistema é. e constituinte da identidade das partes. no seu desequilíbrio”.”42 .i i i i 182 José Bártolo cidibilidade e. Um sistema é uma totalidade que.labcom. de sistema.

uma extensão.labcom. a sua res extensa. a partir do ponto de o constitui. adquirindo relações definidas e concretas. O meu corpo é. De facto. mas a madeira não é possível sem ela. a cor não é extensão. todos os aspectos possíveis se ligam e organizam entre si. A partir do ponto-centro da representação (do spatium em sentido deleuziano) os aspectos de diferentes coisas (o ecrã. nem a lisura. por exemplo. de cerejeira para ser mais específico. uma idêntica lisura deste ecrã e desta folha quando tocados pela minha mão). uma forma definida e uma determinada articulação das partes (as pernas da mesa. pelo contrário todas as propriedades a pressupõe: a consistência específica da madeira de cerejeira não é a extensão. como nessa relação. mas.ubi. é operada por mim. como esta mesa. É evidente que nenhuma destas propriedades constitui a “essência da extensão”. uma viga que a percorre etc.i i i i Corpo e Sentido 183 partes. Esta mesa não se esgota num ser “pura extensão” ela apresenta. e em primeiro lugar. além disso determinadas cores e tons. ou seja essa constituição da identidade e da realidade é intersubjectiva. por exemplo. Qualquer destes três exemplos pode ser desenvolvido. como que. nem uma determinada temperatura. como um corpo qualquer. possui. se “sobrepõem” à extensão. que ocupa um espaço. a extensão é uma propriedade da mesa que parece pressuposta em towww. “este ecrã de computador que está diante mim” não é um fenómeno a-referencial. naturalmente. opacidade.pt i i i i . Assim. O corpo próprio. vários tipos de determinação: é uma mesa de madeira. um aspecto qualquer recebe uma específica correspondência com outro aspecto qualquer mediante a forma como está a ser considerado a partir do centro de referência de todas as representações (por exemplo. esta folha de papel ou a minha mão. pelo eu do m’EU corpo. enquanto expressão fenoménica do sujeito no espaço é evidentemente um corpo como os corpos. De facto. a folha. assim. possui um determinado conjunto de propriedades que definem a sua resistência. de “corpo-em-vida” é o próprio sistema de intersubjectividade que constitui qualquer fenómeno dado e o integra num sistema ordenado de correspondências a partir das quais posso por exemplo descrever: o ecrã do computador. a mão) não só adquirem uma relação a uma mesma referência.). mas antes a identidade e realidade das partes são constituídas pelo meu corpo. O que chamamos de “corpo próprio”. pelo contrário ele está constituído (desde logo como dado) a partir de uma referência (de um aqui e agora) que é centro e nexo do sistema de possibilidades de representação que a partir de mim se constituem. é claro que.

a mesa não é a sua cor. informe . A “extensão” é em si uma abstracção. possibilidade de constituição num espaço e num tempo. indefinido. a res extensa. na sua essência. desta folha. à afectação pela matéria). etc.i i i i 184 José Bártolo das as determinações da mesa e que não parece determinável para além desse carácter de pressuposição. mais um conjunto de determinações que resultam de uma propriocepcção) que a pressupõe mas não a identificam com uma coisa concreta. isso que se estende num espaço não sendo identificável -sendo. até ao ponto em que. a identidade da extensão. como interface entre eu e o mundo. declinação no espaço e declinação no tempo (res materialis e res temporalis). a extensão é enunciável apenas enquanto condição de possibilidade da apresentação de todas as determinações identificáveis num objecto. um quase-nada. é. nem sequer a reunião ou soma das suas determinações . que não corresponde a isto ou aquilo . como a minha situação no mundo. temperaturas) isso que está pressuposto em todas as suas determinações sendo indefinido e informe não é.mas corresponde sim à pura negatividade da sua identidade . a que chamamos ponto-centro da representação. que ocupa espaço (deixando revelar cores. todas as determinações nele identificáveis. a mesa não é a sua temperatura. isto é. cada vez mais consistente. pode ser recuperada para analisarmos o meu próprio corpo. de modo algum abstracto.labcom. a sua forma. evidentemente. é a concretude da extensão.a mesa não é a sua cor. pois. possibilidade de ser aqui e agora. em rigor a concretude de uma abstracção. por redução negativa. como negatividade. O corpo extenso é.não. A res extensa. A análise desenvolvida em relação a este corpo mesa. aquilo que eu posso denominar de a minha situação (a minha situação de sujeito que corresponde à aparição de um corpo extenso. a sua temperatura. desta mesa ou da minha mão não é possível em si. também aqui. essa res. uma pura abstracção.ubi. a coisa extensa é condição de possibilidade de identificação de uma série de determinações (uma série de determinações de identifico de um modo idêntico às identificações das propriedades da mesa. O corpo aparece-nos assim como interface. é redutível a um ponto. isto é. formas.pt i i i i . mas não é identificável em si. A operatividade do corpo-interface não se reduz à identificação de um ponto-centro da representação ( à identiwww. mas esta nesta mesa que se estende. grau mínimo de fenómeno. a mesa não é. A identificação da res extensa deste ecrã de computador. o meu corpo. isto é. A identidade vai aparecendo.

inétendu. Rien à voir avec un fantasme. Deleuze e F. rien à interpréter. o espaço do corpo (espaço imanente) e o espaço objectivo. dos olhos de um cadáver. o corpo-orgânico é um órgão do espírito e. Seules les intensités passent et circulent. nunca se acaba de chegar. é um processo que percorre o corpo. para o ilustrar. Nos Mille Plateaux. muitas vezes. o corpo interface revela-se como corpo orgânico.”43 A relação entre o espaço e o spatium pressupõe a relação entre o corpoorgânico e o espírito. que define. enquanto pondus na expressão agostiniana. Assim o vê Aristóteles. O corpo orgânico é um corpo animado (possuído de alma) e a condição de possibilidade da acção orgânica está na sua animação. de poder no espaço e de poder no tempo. para usara expressão de Kierkegaard.pt i i i i . www. ele é um limite”. ni même un support où se passerait quelque chose. Pág. O corpo enquanto interface. Deleuze e Guattari. não considerado. não se pode chegar. 189. está para o espírito como. mas actualiza tudo isso de um modo particularmente interessante. dar o exemplo. assim o vê Leibniz. muito em especial se nos quisermos aproximar desse objecto estranho a que denominamos “corpo tecnológico”. é uma interface disjuntiva que opera que me permite saber do mundo e actuar sobre o mundo. peuplé que par des intensités. O CsO não é um corpo. de estado de consciência. A noção de corpo-orgânico remete para algo de decisivo e. un lieu. Mille Plateaux. É sempre o espaço do corpo que cria a “profundidade” do espaço objectivo. bastar-se-ia. representa um ponto-de-poder. A toda e qualquer transformação do espírito (alteração de humor. é uma intensidade.labcom. afirmam que “ao corpo sem órgãos não se chega. Nesta perspectiva. Encore le CsO n’est-il pas une scène. digamo-lo assim. o que quererá dizer esta afirmação? Será a expressão da impossibilidade do corpo ultrapassar a sua dimensão orgânica? A afirmação da necessária instrumentabilidade do corpo em relação ao espírito? A afirmação quer dizer tudo isso. de disposição) corresponde uma modificação 43 G. il les produit et les distribue dans un spatium lui-même intensif. Guattari. remete para a identificação do corpo como um órgão.ubi. Há. os olhos (os órgãos da visão) estão para a visão.i i i i Corpo e Sentido 185 ficação de um hic et nunc da representação). enquanto tal. Deleuze di-lo assim: “Un CsO est fait de telle manière qu’il ne peut être occupé. a atmosfera. Le CsO fait passer des intensités. por exemplo. assim o vê Kierkegaard.

o nosso corpo relaciona-se com o espaço (desde logo com o espaço imanente) como se não o fosse. em noutro grau. isto é. ao exemplo mais limite do corpo pornográfico ou do corpo do homembomba em que o corpo. Sendo corpo-interface. Deleuze e Guattari no-lo confirmam: www. Deleuze e Guattari é que o espírito agencia o corpo e.i i i i 186 José Bártolo do espaço do corpo que gera diferentes níveis de profundidade do espaço físico. isto é. o drogado. A experiência do paranóico. O atleta. no hipocondríaco ou no drogado que tal devir se manifesta. corpo animado. por sua vez o corpo agencia o espaço. O que nos diz. O que se está aqui a dizer é. a modelo estão igualmente nesse devir-CsO. Quando o maratonista está a correr. como que nos esquecemos de que temos corpo. é a experiência de um corpo vivido na imanência da sua organicidade. desde o exemplo mais simples de um lago que vimos em criança e que memorizamos como enorme e ao ser revisitado por nós quando adultos nos aparece muito menor. o paranóico. do drogado.pt i i i i . que sempre que o corpo é agenciado pelo desejo (mesmo que tal agenciamento seja quimicamente motivado) o corpo é intensificado nesse devir-CsO: o corpo esquece-se do espírito ou. então. corpo orgânico.labcom. por um “impulso vital” como lhe chama Bergson. para sermos rigorosos. Mas não é a apenas no paranóico. isto é num devir-CsO. o espírito esquece-se do corpo. afinal. As inúmeras descrições de experiências com drogas são a este respeito muito claras. o masoquista em todos esses exemplos as modificações de disposição provocam alterações de intensidade do espaço do corpo que são geradoras de diferentes níveis de profundidade do espaço físico.o hipocondríaco. quando somos orientados por uma disposição forte. mas uma série de outros exemplos poderiam ser dados. O que é que provoca esta relação de imanência do corpo? Kierkegaard di-lo definitivamente no Tratado da Angústia: é o desejo. São conhecidos os exemplos que Deleuze dá para ilustrar as modificações do espaço do corpo . que introduz alterações da atmosfera que nos rodeia ( aquilo que identificamos como a situação do sujeito no mundo). o bailarino. como se fosse um Corpo sem Órgãos. do hipocondríaco. quando o homem-bomba se prepara para despoletar o mecanismo explosivo e. sendo um instrumento de pura função constrange o espaço físico a uma dimensão de suporte da de realização da função instrumentalizada no corpo ( o sexo na pornografia. a explosão no homem-bomba).ubi.

o sinal do seu carácter vivo . isto é. Ibidem. agencia o espaço do corpo como se o pudesse fazer. o espírito. um corpo de afectos amorosos no amor cortês. o plano de consistência ( a omnitudo.” Enquanto campo de imanência do desejo.i i i i Corpo e Sentido 187 “O CsO é o campo de imanência do desejo. por exemplo o frio do CsO drogado. poderíamos distinguir: “1) Os CsO que diferem como tipos. www.labcom. Dito de outro modo a visão tem nos olhos o seu ponto de constituição . 3) o conjunto eventual de todos os CsO. géneros. isto é. de interface). o nome que damos a um sistema de correspondências entre os órgãos e as estruturas de agenciamento dos órgãos. as intensidades produzidas. pura possibilidade de agenciamento. como se o corpo fosse possibilidade de acontecimento. tal relação de agenciamento pode ser estabelecida ( e posso ser reconhecida) a partir do que chamamos de ponto centro. Os olhos são.pt i i i i . quer dizer. uma tensão. um corpo de pensamento no filósofo.os olhos são o meio e o instrumento pelo qual a visão se dá ( a esta duplo papel mediúnico e instrumental chamamos. precisamente. A intersubjectividade é. isto é.”44 O Corpo sem órgãos é o corpo no seu devir-corpo-não-orgânico. de facto essa mediação e instrumentalização é a sua animação. isto é. Construir o CsO consiste em determinar a matéria que convém ao corpo que se quer edificar: um corpo de dor no masoquista. tudo no CsO é uma questão de matéria. um corpo de saúde no doente. vemos com os olhos . mas ele é precisamente isso. às vezes chamado de CsO). 44 Idem. 2) o que se passa sobre cada tipo de CsO. as ondas e vibrações que passam ( a latitudo). como vimos. uma interface da visão.da mesma forma que dizemos dos olhos de um cego que são “órgãos mortos”. não um estado. O órgão é então um meio e um instrumento dado a ser mediado e instrumentalizado. um limite. na sua aproximação ao limite da imanência do organismo. Em cada caso o desejo agencia a matéria adequada. um órgão. atributos substanciais. o plano de consistência própria do desejo. o dolorífero do CsO masoquista. Como insiste Deleuze. quer dizer que qualquer agenciamento é intersubjectivo. isto é. justamente. um devir.ubi. Estabelece-se então uma relação de agenciamento entre o espírito e o corpo-orgânico ou corpo-interface.vemos pelos olhos. de agenciamento da matéria. Pág. Recuperemos a relação que se estabelece entre os olhos e a visão. cada um tem o seu grau 0 como princípio de produção (é a remissio). os modos. 188.

Pág. disso a que Kierkegaard chama de interioridade. em condição alguma a relação que se estabelece entre o espírito e o corpo é comparável à situação de um fantasma que habita uma máquina. o espaço interior compõe-se de “matéria intersticial”. atrair a si todo o movimento do interior. Falando deste “espaço do corpo”. A relação do meu corpo a mim é orgânica. permeável a disposições.”45 O espaço interior é. e sendo da ordem do corporal não corporado.EU não sou redutível a cada um dos meus estados nem tão pouco à soma deles .labcom. quer dizer de matéria do devir por excelência. As metamorfoses do corpo. que é agenciavel. www. Assim rasga-se um horizonte-nú. 2. o m’EU corpo tem uma correspondência sistemática comigo na medida em que EU tenho uma correspondência sistemática com o m’EU corpo. a parte traseira e a dianteira). ela interfaciada. isto é. A matéria intersticial não tem espessura. então. essa “matéria do devir por excelência”. intenções. Neste sentido. tal como procuramos mostrar tal implica que: 1. plano de operação de um sistema de correspondências que acontecem para que seja possível “eu ver o ecrã do computador”ou “eu sentir a lisura da mesa” ou enunciar que “esta folha de papel é 45 José Gil.a constituição da totalidade numa limitação ( num corpo etc. essa matéria vai permitir: a) ao corpo inteiro tornar-se superfície (pele). tensões.ubi. plano de agenciamento possível. é a matéria do devir. o espaço do corpo. ainda que. como verificamos o corpo-orgânico é um sistema e não uma máquina.) É um modo particular da totalidade. isto é. 75. tornou-se pura matéria transformável em energia de superfície. A relação com o mundo não é imediata. isto é. por outro lado o espírito não é um fantasma mas antes o concreto total que nessa medida não é redutível a esta ou aquela determinação concreta particular . José Gil esclarece-nos: “Sendo vazio.i i i i 188 José Bártolo Por outras palavras.pt i i i i . em particular o movimento dos afectos. uma vez que o interior já não separa em espessura (vísceras) os diferentes planos do corpo que se opõem (as costas e a frente. e que por sua vez é gerador de diferentes graus de “profundidade” do espaço objectivo. mas resulta de uma representação. É uma matéria de devir. b)ao exterior.

para mim a única representação possível da folha de papel é a minha representação da folha de papel. portanto. a rua. auditivas.labcom.a mesa. o quarto. Deste modo. assim. tácteis e olfactivas. tal como cada percepção se organiza por referência a um sistema de correspondências que chamamos órgão. a representação “desta folha de papel” compreende-me a mim ainda que. “a lisura da mesa” é uma determinação táctil contagiada pela determinação visual de uma mão propriocepcionada a percorre-la. um anuncio de mim.de facto no momento do www. ele é uma máquina orgânica para falar como Leibniz e como tal não identificável.ubi. o mundo . sob a forma de corpo.por referência a um sistema de órgãos que chamamos corpo próprio. mas de algum modo poderíamos dizer que a primeira prótese do corpo é natural é imanente: o espaço interior é precisamente um espaço onde o corpo se proteciza em função de determinados agenciamentos. digo “está frio no meu quarto” ou “está frio lá fora” e “o meu quarto” ou o “lá fora” são um complexo sistema de correspondências entre percepções visuais. naturalmente. do mesmo modo todas as percepções se organizam e constituem unidades . muito menos redutível a uma máquina inorgânica. Por outras palavras. pelo que a representação compreende em si mesma a expressão da forma de representação. Assim. No interior do sistema de representações a que demos o nome de intersubjectividade “esta folha branca” é uma representação minha e. no corpo cyborg (no computador por exemplo) as partes são anteriores ao todo e sentido do todo ( daí ser possível a redução do computador a um chip que sintetiza um determinado sistema operativo). mas uma totalidade anterior às partes. e. Da mesma foram que o Corpo-sem-orgãos de um atleta de salto em altura entra num devir-pássaro . O corpo humano diferencia-se radicalmente do corpo cyborg por uma diferença que não é de grau mas de género: no corpo humano o todo é anterior às partes e sentido das partes. em absoluto. os graus de contágio ou de correspondências tornam-se mais complexos à mediada que os fenómenos representados me aparecem já sintetizados. O corpo não é. A principal característica da tendência protésica que tende actualmente a dominar o corpo reside na possibilidade de substituição de um órgão biológico por um órgão artificial. como se não houvesse corpo. isto é. uma mera soma ou articulação de partes. o anuncio do mundo a mim e. Além do mais é evidente que as percepções não se organizam apenas mediante as regras que correspondem ao órgão respectivo. evidentemente.pt i i i i .i i i i Corpo e Sentido 189 branca”. nesse sentido.

O que Gil nos diz é que.”46 . como também a tecnologia encontra aí o seu limite. 58. representa um limite. por exemplo. com a realidade. ou virar à esquerda sem roçar o passeio.labcom. é o meu corpo que corre o risco de tocar no passeio). actualmente apenas uma alegoria. da inteligência artificial . entra num processo de devirmáquina. que nos levam. Lisboa. isto é. de um modo geral. A figura de Charles Chaplin nos “Tempos Modernos” mostra um corpo. É assim que calculamos as distâncias como se elas se referissem ao nosso corpo (na parte da frente do carro. O que significa que a tecnologia não só se funda nessa capacidade do corpo gerar um espaço próprio. talvez absoluto.o robot não tem conhecimento imediatos. enquanto tensão em nós de uma desarmonia ou desenquadramento com a realidade circundante num determinada ocasião. Todas elas são alegorias relativas ao corpo e aos seus processos de metamorfose. De igual modo todos já experimentámos também o devir-estátua. esse conhecimento imediato (sem necessidade de recurso ao cálculo) do espaço gerado a partir de contaminações entre o espaço do corpo e o espaço objectivo.ubi. que à força da repetição de gestos mecânicos. não calculável. porque. à alegoria da metamorfose em barata de Kafka. Num certo sentido o ciborgue é uma alegoria com uma intencionalidade semelhante. por isso. www.i i i i 190 José Bártolo salto o corpo parece voar e nessa tensão são postos em tensão limites do corpo que. e o devir-barata.pt i i i i .qualquer outro tipo de agenciamento do corpo fá-lo entra num processo de devir-outro que caracteriza o operar protésico. como procuramos mostrar no terceiro capítulo deste estudo. em vão. que ocorre no corpo. jamais baixaria a cabeça a partir de uma relação “mágica”. Relógio d’Água. Como esclarece José Gil : “Consideremos o simples facto de conduzir um automóvel: se podermos passar entre dois muros sem os tocar. qualquer ferramenta e a sua manipulação supõe o espaço do corpo. é porque o nosso corpo desposa o espaço e os contornos do carro. quantificar . Acontece que o ciborgue não é. ou à alegoria da petrificação descrita em inúmeras lendas populares. a baixar a cabeça quando passamos de carro por baixo de um túnel. alias os records procuram. mas igualmente um 46 José Gil. como bem demonstra Hubert Dreyfus. nas inúmeras possibilidades do devir-si-próprio. Movimento Total. quanto por esta ou aquela razão nos sentimos petrificados numa determinada situação. 2001. Elas representam simbolicamente a possibilidade do devir-outro enquanto actualização. Pág. O corpo e a dança. de num ou noutro grau de intensidade todos já experienciámos.

na afirmação “A é A” . pois a partir do momento em que eu pretende-se deixar o plano abstracto (lógico) e passar para o plano concreto (da vida) a proposição 47 B. não orgânico. I.. Como colocar a questão da identidade? Leibniz dizia que quando “isso mesmo” se apresenta e se reconhece precisamente como “isso mesmo” estamos perante a identidade. dominada pela introdução substitutiva ou não de próteses artificias no corpo humano. é nessa medida que falamos do ciborgue como corpo de design.”47 . na medida em que a tendência de tratamento do corpo por parte da ciência médica é uma tendência protésica. impossibilita. Tucherman.i i i i Corpo e Sentido 191 projecto. ambíguo. por exemplo. Stiegler. como devir) ou se ele é um estado ( uma identidade) e como tal um ente pós-humano. a afirmação “a minha mão é a minha mão” é uma afirmação verdadeira enquanto lógica. neste sentido. A questão central é a de perceber se o ciborgue é uma intensificação do humano e como tal nunca se dá. Se por um lado ele é uma realidade objectiva. a ponto de haver a pretensão de duplicar os corpos. numa forma de reconhecimento que se reduz à sua mera afirmação sem constituir a apresentação de nada. Pág 157. não-humano.labcom. por outro lado. Mas tal não acontece no plano da vida. “mão” etc. Apud. Cit.. mas nesse caso eu teria de fazer abstracção sobre o sentido das proposições “minha”. Op. a identidade está imediatamente assegurada na medida em que o termo apresentado é uno. www. sem mediações. Mas o mesmo não se passa evidentemente no horizonte das coisas experimentadas. o devir-ciborgue é perturbador. a noção de devir.pt i i i i . Daí o reconhecimento da identidade ser imediato no plano lógico. De facto.) Podemos cada vez mais aparelhar o corpo. no âmbito da lógica. um devir-si-próprio. nega. isto é. colocando um problema de identidade. o que traz o imenso problema da identidade. Ora enquanto projecto.. A questão da identidade aqui é muito bem colocada por Bernard Stiegler: “Com as nanotecnologias e todas as futuras próteses interiorizáveis (. surgindo apenas como limite (como tensão para. isto é.ubi. enquanto afirmação vazia. de ter vários corpos simultaneamente. o que implica que na sua mera posição se expõe já a sua identidade. Quer dizer. a identidade define a apresentação em evidência. o devir-ciborgue é perturbador porque parece actualizar directamente. abstracta. construção científica de um corpo artificial. o que.. simples. logo não biológico.

O que não significa que os diversos momentos se relacionem imediata e directamente entre si. enquanto a identidade do abstracto é imediata. lógica e não à noção de identidade que. O que acabamos de concluir pode ser expresso de. mas também cada perspectiva da minha mão. tal não pode acontecer pois “a minha mão ontem” e “a minha mão neste instante” são determinações que. Daqui se conclui que cada determinação da minha mão não pode ser tomada de modo abstracto resultando a identidade numa abstracção sintética que uniria todas as determinações particulares. a minha mão fotografada. “a minha mão tocando o teclado” são actualizações do modo como a minha mão se me dá. a minha mão ferida.ubi. a minha mão a tocar agora o teclado. cada determinação tem de ser compreendida de modo concreto. Pelo contrário. sou o mediador que torna possível a identidade da minha mão. “o interior da minha mão”. pelo menos. Cada determinação da minha mão (“ a minha mão ontem”. a minha mão ontem. isto é. a do concreto exige mediações através das quais se possa constituir e revelar a unidade de algo que aparece numa variedade e multiplicidade de posições: a minha mão em criança. a constituição de uma unidade idêntica a posteriori. no plano da vida. então a identidade seria dada a partir de fora. explodiria por força da variedade que caracteriza a minha mão. De facto tal não acontece. não abstracto.labcom. como tal se excluem. enquanto sujeito dos predicados. equivale a reconhecer que a identidade é dada num plano de imanência. “A minha mão ferida”. Por outras palavras se a unidade da minha mão se constituísse a partir da ligação. não se podendo dar. o que só é possível se cada determinação for compreendida como constituída e não como constituinte de uma identidade. dois modos complementares: equivale a reconhecer que a identidade é intersubjectiva. Ou seja. Se tal acontecesse não se poderia nunca ultrapassar a exterioridade de cada posição (“a minha mão ontem”. Eu. pelo que corresponderia a uma unidade sintética. da soma de cada uma das suas posições.pt i i i i . “o interior da minha mão”. a minha mão vista numa visão microscópica.) A não ser através de uma ligação simbólica entre elas que não restituiria nunca o ente na sua unidade. A identidade surge como o resultado de um sistema de mediações dos seus diversos momentos. portanto. o interior da minha mão etc. “ a minha mão a tocar o teclado” etc. “o interior da www. eu tenho da minha mão.i i i i 192 José Bártolo seria insustentável.

de próteses.i i i i Corpo e Sentido 193 minha mão”. como mostraremos. um signo. a uma ideia. laboratorialmente pensado. nomeadamente no que se refere ao discurso escrito.ubi.labcom. A diferença fundamental. também aí. o terceiro capítulo. isto é. assim. “ a minha mão a tocar o teclado”) não é. tecnologicamente intervencionado. ocupar-se-à da análise dos actuais processos de produção biotecnológica do corpo que. tal como Ricoeur a coloca tem a ver com o signo. de uma sua produção desenvolvida por uma determinada máquina semiótica. Regressamos. indiciam constantemente a situação do discurso. enquanto o discurso reenvia permanentemente ao sujeito da sua emissão. mas um acto discursivo. pelo conjunto de pronomes pessoais que. enquanto unidade virtual do sistema de uma língua. Este poder de auto-referência é proporcionado. estão longe de poderem ser lidos como sendo exclusivamente processos de engenharia. não ter sujeito. no entanto. de órgãos corpóreos. repetidas vezes identificada ao longo deste capítulo: de cada vez o corpo corresponde ao resultado de uma sua discursificação. como demonstrou Benveniste. O capítulo seguinte retomará várias ideias por nós introduzidas. www. se quisermos seguir a distinção ricoeurieana. processos de produção de materiais. de tecidos. devemos ser capazes de identificar processos de produção semiótica que dizem respeito a um corpo de design. desenvolvendo-as à luz da história das produções de sentido do corpo.pt i i i i .

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Paris. isto é. na ideia de uma produção do corpo que corresponde. difícil de delimitar.a experiência proprioceptiva. As práticas sociais. antes de mais. Estes procedimentos são. por sua vez se declina no social. que estão na dependência de um conjunto. a uma produção do sentido do corpo. 2003. Em Vigiar e Punir2 . no jurídico. 1975. para copular etc. quer públicas quer privadas. na fábrica.Artes de fazer. no científico etc. Gallimard. A invenção do cotidiano . Surveiller et punir. envolvem as técnicas do corpo a que Mauss aludia. 1 195 i i i i . para dormir. no político.i i i i Capítulo 11 O corpo como construção semiótica Nos parágrafos anteriores fomos insistindo. afirmada pela família. para o estudo dos quais Foucault e Bourdieu deram contributo decisivo. na escola. esquemas de operações e manipulações técnicas. à sua semioticização que. na igreja. progressivamente. Editora Vozes. como mostra Michele de Certeau1 . que podemos designar por procedimentos. no religioso.) a experiência social etc – é. 2 Michele Foucault. a experiência funcional (o seu uso para trabalhar. Petrópolis. para comer. pressupõem sempre práticas corporais. ela própria determinada por uma semiótica do corpo que é imposta a partir de fora e que é. A experiência do corpo . no económico. Foucault estuda o modo como se organizam os proMichele de Certeau. de um modo mais ou menos explicito.

Não que este novo corpo disciplinar seja menor ou menos complexo. ritual sangrento do corpo a corpo que teatraliza o triunfo da ordem real sobre criminosos escolhidos pelo seu valor simbólico. úteis à sociedade. as instituições revolucionárias e instala em toda a parte o penitenciário no lugar da justiça penal. centrando-se no século XVIII. militares. quer colectivo. por Foucault. mas o mondo como ele integra. como biopoder. nos aproxima de um conjunto de procedimentos que estão activos na sua ausência. o que identificamos não é nunca o sistema. intrumentalizações. mas a própria análise de Foucault. sexo e arquitecturas. na ginástica flexível das suas declinações. funcionaliza. Esta descrição que identifica no particular o modo como ele é agenciado por um ausente. por eles se impõe um processo de www. técnicas. afirmado. mais ainda. por eles se impõe a universalização de uma uniforme. essa história de um exercício do poder sobre o vivo. justamente. desenvolvidas nos parágrafos precedentes deste capítulo procuram mostra que em todas as épocas não há poder que não se exerça sobre o corpo – quer individual. produzir. As análises anteriores. o dispositivo. operários. processos ínfimos mas decisivos. Os iluministas querem substituir o suplício do Ancien Regime. que inverte. na sua disseminação. é afinal a descrição dos mecanismos do poder moderno. no fundo. Foucault actualiza. procedimentos disciplinares lentamente aplicados na escola e no exército vão substituindo o enorme e complexo aparelho elaborado pelas luzes.ubi. que o procura controlar. Com efeito. educadores para os condenados. instrumentaliza tudo – máquinas e corpos. parece sublinhar a ausência: dispositivos. dominar. por castigos aplicáveis a todos. Tratam-se de detalhes tecnológicos.pt i i i i . pelo contrário. maquinarias. a prisão. Mediante um lugar celular do mesmo tipo para todos – estudantes. escolar e médica no começo do século XIX. A incerteza e a constante mobilidade da coisa na linguagem já estão a indica-lo. muito mais subtil mas igualmente mais presente. Para tentar identificar tais procedimentos Foucault introduz uma longa série de conceitos sinónimos. internamente. abordagens sucessivas de uma identificação em nome próprio que sempre parece escapar e que a intensidade conceptual do nomear. mecanismos.i i i i 196 José Bártolo cedimentos da vigilância carcerária. vigiar e de tratar não importa que grupo humano. ele é. criminosos. doentes -.labcom. estas técnicas aperfeiçoam a eficácia e o reticulado do espaço social para o transformar num espaço-instrumento capaz de disciplinar. mãos e roldanas.

de ler e de ser – uma semiótica integral. feitas em Vigiar e Punir.3 . Ao espaço cortado. Foucault tenta denominar e classificar – afinal aquilo que os faz deter. da continuidade do processo. mecanismos.discurso. em peças de um corpo social que os integra e significa. 96-102. A Arqueologia do Saber propunha a distinção de dois tipos de formações práticas. a eficácia que uma tecnologia politica do corpo conquistou sobre a elaboração de um corpo doutrinal.pt i i i i . anulador das diferenças individuais. classificar. mas o gesto. por outro lado. opaco. sem hierarquia. dos procedimentos. que transforma os corpos próprios. 274-275. na horizontalidade do plano. sem rosto nem lugar. dois sistemas heterogéneos. já não como na História da Loucura. identifica. o gesto epistemológico e social de confinar um excluído para criar o espaço que possibilita a ordem de uma razão. Foucault distingue. das técnicas. para usar a expressão de Michel de Certeau. montando uma extraordinária engrenagem que se quer sem resto. corpos ligados a corpos. Numa série de descrições clínicas. sendo procedimentos autónomos que não devem ter nome para assumir todo o nome possível (mão. de delimitar meticulosamente um espaço que ofereça aos seus habitantes um modo de ver. aqui se menciona o elenco: Págs. sucede um espaço que integra. barómetro. Este conjunto de análises tem como dupla função delimitar uma camada social de práticas sem discurso e instaurar um discurso sobre essas práticas.i i i i Corpo e Sentido 197 uniformização. das condições de funcionamento. formação discursiva. umas “discursivas”. 276. sem corte. sem hierarquia. Foucault detecta aí “o gesto que organizou o espaço do discurso”. numa geografia moral que traça pelo ventre o corte entre corpo alto e corpo baixo. 189-194. torno. corpos ao lado de corpos. associar. distribuir. 143-151. eficaz de modo quase autónomo pela sua capacidade tecnológica de ligar. pois. 106-113. pequeno e por toda a parte reproduzido. 28.ubi. olhos.labcom. falando de regras gerais. seguindo o particular sobre o qual esse poder se exerce. 238-251. 159-161. que domina a Idade Média. ânus. separado horizontalmente. princípios e elementos que compõem uma microfísica do poder. que não devem ter classificação para serem classificadores – esses procedimentos de poder. são inúmeras. prática discurAs referências a uma “microfísica do poder”. 185. por um lado. das operações distintas. cadeira). e. 3 www. procura pôr em evidencia a aparelhagem desse poder ausente. analisar e individualizar espacialmente o corpo particular. 211-217.

i i i i 198 José Bártolo siva. ) – os limites e as formas da memória tal como surge nas diferentes formações discursivas (. .labcom. o sentido do corpo e do corpus. à margem. o escravo.outras “não-discursivas” ou de meios – técnicas. definem: os limites e as formas da dizibilidade (. . não entendo a massa de textos que puderam ser recolhidos numa dada época. ) – os limites e as formas da conservação (. 1994. que descreve aquela máquina e o seu operar. operar sobre o corpo tensionando singular no plural e o plural no singular.pt i i i i . corpos que devem ser fixados pelo direito matrimonial. Cf. Não há direito que não se escreva sobre o corpo. como escritura) e lidos. . .dade-pura. pp. sentida pela justiça penal. Por esta palavra. aquilo que faço não é e nem uma formalização nem uma exegese. . . . então. corpos que devem ser marcados. função enunciativa . é instaurada devido à necessidade. nas transacções sociais. que mesmo que não sejam traduzidos num corpus jurídico. Do nascimento ao luto. Nessa descrição desenvolve-se uma arqueologia do corpo que é sempre uma arqueologia dos corpos4 . São as molas do poder que abrem o corpo (individual) aos corpos e fecham os corpos (o conjunto de indivíduos) num corpo (social). procedimentos. Enunciação e operação. . a descrição do arquivo. www. 681-682. de Foucault. isolável do grupo. Dits et écrits. Paris. ) – os limites e as formas da reactivação (. Assim fala Dromio. com um preço. fazendo deles o seu texto. A própria ideia do “indivíduo”. IN Daniel Defert e François Ewald (Orgs. de controlar corpos que devem ser marcados por um castigo. como o seu nome indica de maneira muito evidente.. . . o direito apodera-se dos corpos. ). ou conservados dessa época através dos avatares do apagamento. 2005. .ubi. complexificando uma e outra.”. singularidade-pura ou plurali. ) – os limites e as formas da apropriação (. 14]. não permitindo. Michele Foucault. “Réponse à une question”. em ultima análise. Há toda uma tradição a comprova-lo: a pele do súbdito é o suporte onde a mão do senhor escreve.). É a partir destes dois tipos de formações que se sustenta quer a maquina politica que opera sobre os corpos – o biopoder – quer a máquina conceptual. numa dada época e para uma determinada sociedade. operações. Todo o poder gera princípios de ordenação. afinal. . enunciado. p. Mas uma arqueologia: quer dizer. Lisboa. mecanismos . ao seu senhor Antífolo em The Comedy of Errors the Shakespeare: “If the skin were parchment and 4 Foucault esclarece-nos sobre o projecto da arqueologia: “. seguimos aqui a tradução da passagem de Fernando Cascais inserida na “Nota de Apresentação” da edição portuguesa de A Arqueologia do Saber [Almedina. I – 1954-1969. devem poder ser escritos (o exercício funciona. Gallimard. Entendo o conjunto de regras que. discursos e mecanismos parecem. ao estabelecer.

13. corresponde. uma grade grava “o parágrafo violado na pele do culpado”.. Língua esotérica e hermenêutica. Pág. a única capaz de vincular o sentido. 6 5 www. quase imediatamente para a descrição que Kafka desenvolve em A Colónia Penitenciária.ubi. Quando em pleno século XIX se anuncia o triunfo da racionalidade científica. em nome do qual se rejeitarão os obscurantismos da magia. 1997. uma metamorfose do corpo. Cit. A grade marca os seus traços segundo os modelos desenhados pelo inventor da máquina: desenhos ilegíveis. estabelecedor das correspondências entre significantes e significados. uma transfiguração.”7 Não há poder sem o funcionamento de uma maquinaria que infiltra o sentido do poder em todas as coisas – corpos. da superstição.”6 Esta relação entre lei e inscrição da lei no corpo. The Comedy of Errors. a espacialidade e a temporalidade antigas são substituídas por uma nova temporalidade e por uma nova espacialidade prontamente agenciadas pelo novo dispositivo semiótico: tempo de prisão/espaço prisional (valor da pena). o tribunal e o responsável pelo funcionamento da máquina. A pena consiste sempre nisto: prende-se o condenado no “leito”. 103. ”5 .pt i i i i . o papel não basta para a lei. A racionalidade moderna impõe uma nova semiótica do espaço e do tempo. Lisboa. de tal modo as letras são enfeitadas e se prolongam em arabescos. Dela nos dá José Gil uma admirável interpretação: “Kafka descreve uma máquina que produz. Michele de Certeau. Op. Como bem nota Michele de Certeau “Os livros são apenas as metáforas do corpo. Pág. tempo de trabalho/espaço laboral (valor da troca). III. Será a partir da análise desta “racionalidade moderna” enquanto bio-poder. por exemplo “respeita o teu superior”. e ela se escreve de novo nos corpos. tempo de sobrevivência/espaço vital (valor da vida). a afirmação de um novo paradigma em detrimento de outro. da religião. palavras – a partir do estabelecimento de um complexo dispositivo semiótico. 232. I. remete-nos. Metamorfoses do Corpo. ainda aí.i i i i Corpo e Sentido 199 the blows you have gave were ink. Shakespeare. é por si próprio o juiz. Relógio d’Água.labcom. . Mas nos tempos de crise. 7 José Gil. . aliás. também. objectos. à imposição de um novo quadro de correspondências simbólicas em detrimento de outro. Esta máquina aplica as pensa às quais os acusados forma condenados por um celebrante que. entre as coisas e o seu valor simbólico.

O poder que opera sobre o corpo e o saber que opera sobre o corpo são concumitantes. Já havíamos encontrado esta relação bem presente no interior do processo anatómico.pt i i i i . à metáfora da propriedade.labcom.i i i i 200 José Bártolo que Foucault irá falar numa tecnologia politica do corpo sobre a qual se debruça. analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violênciaideologia. Foucault. o exercício desse saber-poder. em torno das figuras do magister e do demonstrator processam-se jogos de relação saber/poder. os seus recursos. vai colocando em evidência a profunda relação existente entre “poder” e “saber”. Esta dupla renuncia. Rio de Janeiro. de reforço. www. ao modelo do contrato ou da conquista. Não há prática de poder que não baseie num determinado saber em relação ao qual as práticas de poder são produtoras e a partir do qual as práticas de poder são legitimadas e. Assim. enquanto premissa metodológica. não há prática de saber que não se baseie num determinado poder em relação ao qual as práticas de saber são produtoras e a partir do qual as práticas de saber são legitimadas. definição metodológica essa que tem o mérito de ir revelando. Editora Vozes. A máquina semiótica que constrói os corpos constrói-os a partir desse duplo gesto de construção de poder e de construção de saber. 24-29. ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito. M. a autoridade do magister é a autoridade do saber mas também a autoridade do poder e a figura do demonstrator põe em prática. o próprio objecto de análise. Págs. de vias de comunicação e de 8 Cf. 1987. em particular. demonstra. que se renuncie à oposição do que é interessado e o do que é desinteressado. no que se refere ao saber. as suas forças) mas não seria tampouco o estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. do mesmo modo. Já então havíamos falado numa anatomia moral e numa anatomia politica do corpo expressão que Foucault também utiliza para logo esclarecer que esta não consistiria no “estudo de um Estado tomado como um “corpo” (com os seus elementos.8 Foucault começa por estabelecer princípios metodológicos a partir dos quais a análise poderia ser feita. Trataríamos aí do “corpo político” como conjunto de elementos materiais e das técnicas que servem de armas. dilucidando.ubi. Vigiar e Punir. em Vigiar e Punir.

”9 A análise desta “anatomia política do corpo” era. sem dúvida mais ampla do que a análise de Foucault foi capaz de fazer. do modo como a tecnologia da lei opera sobre os corpos. Ibidem. em Vigiar e Punir o próprio Foucault esclarece que a sua análise das práticas penais. www. 27. Pág. talvez ainda por fazer.pt i i i i . é um “capítulo” dessa análise maior.i i i i Corpo e Sentido 201 pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber.labcom.ubi. 9 Idem. do modo como os corpos são produzidos tecnicamente por essa máquina semiótica congregadora dos processos de poder-saber e de saber-poder.

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serve um sistema político. em menor ou menor grau. sendo pensado a para servir um espaço particular (a escola) recria na escola hierarquia. existe toda uma instrumentalidade para trabalhar o corpo. não são desenhados e fabricados à partida com uma função que. do funcionamento do jurídico e do judicial. deve haver um aparelho que mediatize e opere a relação entre lei e corpos. apenas. das algemas à pulseira electrónica. mas seria ingénuo não admitir que os objectos.i i i i Capítulo 12 Corpos e instrumentos Para que a lei se escreva sobre os corpos. cadeiras eléctricas. Desde os instrumentos de escarificação. pensar-se a importância dos dispositivos técnico-instrumentais a partir de uma análise. O mobiliário de uma sala de aula. encontramos todo um aparato instrumental cujo objectivo é disciplinar e ordenar a partir de uma intervenção directa sobre o corpo. Seria no entanto. das cadeiras de tortura medieval. para fazer exercer o poder que é sempre poder de exercer sobre corpos. ordena o espaço (o estrado. a maioria deles. de tatuagem e de iniciação primitiva até aos instrumentos da justiça. o mobiliário define possibilidades e impossibilidades de orientação e ocupação do espaço. por exemplo. demarcava o professor do aluno) mas ordena simulta- 203 i i i i . Uma análise mais exaustiva mostrar-nos-ia que todos os objectos são instrumentalizaveis pelo poder. isto é. Do punhal de Sílex à guilhotina. podem ser adequados a posteriori a uma função politica. ordens que podem ser traduzidas socialmente. condição de possibilidade da sua actualidade. por exemplo. tensões. Assim. muitíssimo redutor.

madeiras compactas. e podem ser usadas novamente a serviço de outras leis. É pelo preço de algum horror sufocado que se pode transformar em Centro Português da Fotografia a Cadeia da Relação do Porto. Pode ser coleccionada. instrumentos curvos ou direitos.1 Os instrumentos particulares funcionam.pt i i i i . É posta em reserva nos depósitos ou nos museus. que não se há-de converter em moeda de troca. aos seres de carne e osso. nem sequer com cuidado. Cf. tal semiótica permitir-nos-ia perceber que quanto mais poder estiver envolvido mais desmaterializado ele está. 1997. Fronteira ofensiva. de outro. 111. mas também os articulam. 233. possibilitando que os gestos façam da ficção política o modelo reproduzido e realizado pelo corpo. mas ainda estão ausentes.i i i i 204 José Bártolo neamente o tempo (na medida em que uma cadeira impõe um ritmo do sentar. . há uma evolução progressiva do duro para o mole. Porto. do técnico para o tecnológico.2 Numa passagem admirável. diferentes daquelas que permitiram a sua “aplicação”. Essas coisas duras são utilizáveis em corpos que estão ainda longe. AAVV. Traduzir esta 1 www. Qualquer instrumento isolado que possamos considerar – um computador. uma cadeira. as galerias desses instrumentos estáveis pontuam o espaço.”. isto é. necessariamente.”. não. conheci. 2 Falta. por exemplo). porque a matéria envolvida seja menor mas porque o funcionar é deslocado do que é material para o que é imaterial. nunca. recebe a validação funcional graças à pertença a um dispositivo. de Certeau. não caminhar. “Matérias Sensíveis”. envolventes ou contundentes. isso que não se há-de sujeitar a nenhuma teoria. cortar. p. abrir ou encerrar corpos se expõem em vitrinas fantásticas: ferros ou aços brilhantes. Michele de Certeau. Op. escreve a este propósito: “Essa panóplia de instrumentos pode ser isolada.. Pág. IN Murmúrios do Tempo. uma câmara de vigilância. por sua vez. formam redes de nervuras. que esboçam os movimentos de uma justiça suspensa e moldam já partes de corpos que se hão de marcar. não caminhar pelo caminho por que caminhou aquele que conheceu o que eu nunca. remetendo de um lado ao corpo simbólico e. um revólver – são sempre elementos particulares de uma série de objectos destinados a aplicar princípios de poder. desconhecidos. nem sequer com leveza. Fica lá. Maria Filomena Molder. nem sequer em local de peregrinação.ubi. Centro Português de Fotografia.labcom. do material para o tendencialmente desmaterial. seguramente. Entre as leis que mudam e seres vivos que vão passando. recebem a sua validação funcional. à espera ou como resíduo. Da gradação que vai do objecto particular ao dispositivo. próxima destas inquietações está também Maria Filomena Molder nessa magnifica reflexão sobre a transformação da Cadeia da Relação do Porto em Centro Português da Fotografia: “Não.. M. Cf. a realização de uma semiótica da “dureza” e da “moleza” associadas à tecnologia. antes ou depois do uso. através da integração numa série de objectos que funciona através da integração num plano que. cifras sólidas e abstractas alinhadas como caracteres de imprensa. Cit. Esses objectos feitos para apertar. as séries de objectos organizam o espaço social: separam o texto e o corpo. a definição do espaço e do tempo releva da imposição de uma “coreografia” que ordena o corpo.

veias. Referimo-nos atrás ao olhar que o cristianismo medieval lança sobre o corpo falando em anatomia moral. separa-o. IN Science. também aqui a gradação pressupõe uma diminuição de dureza. síntese perfeita de uma mudança no quadro de valores da cultura ociden- www. “Nos nossos dias a saúde substitui a salvação”. 4 Foucault gostava de recordar uma ideia do historiador Garcia. De um biopoder se tratava já.4 explicação usando os conceitos de Hardware e Software não sendo inútil não consegue. Nessa gradação a carne converte-se. quando a unidade de referência. justamente. o corpo individual transforma-se um corpo simbólico.labcom. cientifica e economicamente os corpos. March 10. que estabelece diferenciações ao nível do corpo social de um modo que. que isolam o transgressor do cumpridor) e que faz do corpo espaço político. ainda assim.pt i i i i . “The historical roots of our ecological crisis”. famoso atribui ao Cristianismo a principal responsabilidade pela legitimação fundamental do impulso tecnológico do Ocidente para o “domínio da natureza”. leis e grupos por o princípio de ordenação circula fluido. encontrávamos aí.i i i i Corpo e Sentido 205 Esta maquinaria transforma os corpos individuais em corpo social. deixa de ser o corpo social para tornar-se o corpo individual. progressivamente. traduzir a subtileza e. reforça o funcionamento de uma ordenação que se abate sobre o espaço (através da criação de hospitais que isolam a loucura da normalidade. a complexidade do exercício do poder que tal semiótica poderia clarificar. 1967. uma desmaterialização.3 Ocorre uma mudança de postulados sócio-culturais. o conceito foucaultiano de “biopoder”. paralela à primeira mas de tipo médico ou cirúrgico. que se torna claro pelo menos desde o século XIV. Se a maquinaria jurídica desmembra o particular no colectivo (conversão do corpo individual no corpo social). ordenando social. da representação. e quando o regime de uma politica jurídica começa a ser sucedido pelo reino de uma politica médica. progressivamente em texto. nunca. Págs. o desenrolar lento desse processo. Cf. do cuidado e do bem-estar. que isola o corpo. Sem utilizar. no 3767. que isolam o leproso do são. Lynn White. Já revisitamos. a maquinaria médica isolao. carne e músculos dão lugar a uma montagem de regras. Nos parágrafos anteriores fomos vendo que a esta maquinaria uma outra se vem juntar. simultaneamente. ainda que através de olhar sumário. 1203-1207.ubi. 3 O historiador Lynn White em artigo. já. todavia. e não mais jurídico. o princípio de uma anatomia politica que disseca. a análise de White dá força à possibilidade de nós extendermos o seu uso a um tempo e a um tipo de poder que não os analisados por Foucault.

Paulo. www. expressão de um indizível. 2005. contudo transmite outro significado.pt i i i i . isolamento e integração dão-se ao serviço de uma mesma ordem que eles fazem funcionar. dupla desconfiança em relação à linguagem acaba por ser. O sentido que se apreende e que se manifesta de forma imediata. o significado que “está por baixo”. desde sempre. O “corte” a que nos referimos corresponde. a partir da qual o corpo vai sendo produzido. e que tal: no século XVI a máquina semiótica construía o sentido a partir da revelação e da salvação. 5 Referimos ao breve ensaio “Nietzsche. pesaram sobre a linguagem: • Por um lado a suspeita de que a linguagem não diz exactamente o que diz. corte com o processo anterior de produção de sentido – circunscreve um espaço corporal próprio onde se deve poder analisar uma combinatória de elementos e as leis dos seus intercâmbios. a linguagem rebaixa a forma propriamente verbal.i i i i 206 José Bártolo E no entanto. O corte médico – corte semiótico antes de mais. à substituição de uma máquina semiótica por outra. a produção pela linguagem funcionar em paralelo a uma. em certo sentido. S. não terá porventura um significado menor. fundamentalmente. a linguagem engendrou esta outra suspeita: que. Num texto sobre as técnicas de interpretação. isso de que os gregos se aproximam através da allegoria e da hyponia. Landy Editora. talvez apenas nas sociedades míticas os dois regimes estejam desarticulados. pois. a partir do século XIX o sentido vai sendo associado à terapêutica. expressão das tensões que marcam o funcionamento de qualquer máquina semiótica que possamos identificar. Um diálogo sobre os prazeres do sexo. • Por outro lado. O facto. Freud e Marx”. parece claro haver um elemento comum ao qual nos poderíamos referir falando de uma produção pela linguagem. marca de uma intradutibilidade.labcom.ubi. com as suas técnicas de interpretação e de produção de sentido específicas. Qualquer que seja a máquina semiótica. A uma geografia moral traduzível numa anatomia moral (expressão de um espaço dominado pela revelação e pela salvação) sucede-se uma geografia terapêutica traduzível numa anatomia médica (expressão de um espaço dominado pelo sentido terapêutico). integração do corpo num corpo social e isolamento do corpo num corpo individual são processos concomitantes e solidários. de pelo menos na cultura ocidental. Foucault5 ajuda-nos a identificar essas duas suspeitas que. IN Michel Foucault. este seria de cada vez o significado mais importante. pelo menos.

fosse o ajuste mais particular. e que podia ser decifrado. Este corpus da semelhança estava. Estas duas suspeitas. da semelhança. ao semaion grego. grosso modo. na anatomia. tudo isso diria respeito a uma outra linguagem todavia mais essencial para a compreensão dos corpos do que a linguagem verbal que os pretendia traduzir. Talvez. de tal forma que os atributos eram como que o reflexo de uns e outros. que significava o ajuste (fosse o ajuste mais geral da série animal e vegetal ou da alma e do corpo. por exemplo. os seus regimes de circulação entre produção teórica e produção prática. os métodos. a partir de uma atenção às linguagens não verbais: os gestos. as suas formas específicas de produção pela linguagem. certas afinidades electivas. Isto equivaleria.ubi.i i i i Corpo e Sentido 207 há muitas outras coisas que falam e não são linguagem verbal. as suas técnicas. as doenças. No século XIX a nova construção do corpo. o seu sistema de interpretação.pt i i i i . o projecto para a realização da tábua. o saber seiscentista ergue uma máquina semiótica cujo funcionamento parte da consideração. Para tal. quer dizer. então. • A noção de emulatio. também. na botânica. Cada cultura da civilização ocidental teve a sua própria máquina semiótica. Aí onde as coisas se assemelham. todo o tumulto que atravessa os corpos. na filosofia da natureza mas. sabe-se o suficiente para reconhecer o importante papel que a semelhança desempenhou e todas as noções que giram à sua volta na cosmologia. plenamente organizado. que nos aparecem já entre os gregos. na filosofia da linguagem do século XVI. o seu mapa autónomo da semióse. algo que deseja ser dito.labcom. faz-se. como unidade mínima de interpretação. a emulatio tanto podia ser usada para pensar as correspondências entre www. aquilo que com isto se parece. estruturado a partir de cinco noções bem definidas: • A noção de conveniência. a convenentia. é um enorme projecto que visa uniformizar todos os sistemas de interpretação. os seus modos de entrever que há linguagens dentro da mesma linguagem. numa ou noutra substância. Assim. no século XVI essa consciência seja mais nítida do que algumas vezes se teve. em grande medida. dos humores orgânicos em medicina). como se dizia no século XVI. que traduzia as correspondências dos atributos de substâncias ou seres distintos. perduram ao longo da história.

A importância da física e da mecânica da construção de um modelo de compreensão do corpo. da função no interior da máquina permite a substituição. fabrica-se. impõe uma leitura maquinica do corpo enquanto complexa maquinaria de tubos. A panóplia de instrumentos de intervenção médica e ortopédica prolífera à medida que o homem se torna capaz de decompor e reparar.pt i i i i . acrescentar. Esse exercício de corte e reparação feito sobre o corpo torna-se literal mas. com as sete partes que nele distinguiam como uma emulação do céu com os seus sete planetas. • Finalmente.ubi. A identificação das peças e o estabelecimento do seu valor instrumental. social e político. susceptível de ser traduzido tanto no plano médico como no plano das práticas quotidianas. entre as propriedades visíveis de um indivíduo. a noção de analogia. assim. de bombas. No século XVI a máquina semiótica tem o seu funcionamento centrado num sistema de semelhanças (de que o pensamento místico e alquímico são bons exemplos) é a semelhança nas suas mais variadas declinações o sentido central na produção semiótica do corpo. a física das acções à distância (século XVIII) e a termodinâmica (século XIX). a partir do século XIX pela referência termodinâmica e química. a imagem de uma propriedade invisível e oculta. modificar. de filtros. como para pensar o rosto humano. tirar. repara-se. Alquimia. o aparelho dos instrumentos modificou-se (ao nível do tipo de instrumentos. • A noção de signatura. física mecanicista e termodinâmica são os modelos científicos que sucessivamente vão impondo modelos de representação do corpo humano. elementos orgânicos podem ser substituídos por elementos artificiais – o corpo educa-se. a assinatura era. Passamos de um sistema de aplicação do direito a um sistema médico-cirurgico e ortopédico. de alavancas. cortar. onde circulam fluidos e há órgãos que se correspondem.i i i i 208 José Bártolo a doença física e a doença da alma (a doença como emulação do pecado). há muito que ele já era actual no plano económico. www. substituir. da qual são variantes e aplicações: a física dos choques (século XVII). que era a identidade das relações entre duas ou mais substâncias divinas. a partir do século XVII pela ideia de uma física dos corpos em movimento e. Entre o século XVII e o século XIX as três figuras sucessivas do corpo encontram-se ligadas aos três paradigmas da física. sentido este que será substituído.labcom.

mitológico) se transforma. a necessária afirmação desse corpus sobre os corpos não pode cessar. Mesmo quando a ideologia médica se inverte lentamente.ubi. a aparelhagem da instrumentalidade continua a exercer o seu papel de escrever sobre o novo texto do saber. ou da alma pelo exorcismo) é substituída por uma terapêutica de acréscimos (o mal é uma falha que se deve suprir por drogas. quer cientifico quer social.).do no inicio do século XIX uma terapêutica de extrações (o mal é um excesso que se deve arrancar do corpo pela sangria. jurídico. Se o corpus textual (cientifico.labcom. pela purga etc. próteses etc.pt i i i i . da sua lógica de presença e funcionamento) mas mantém a função de marcar ou conformar os corpos em nome de uma lei.i i i i Corpo e Sentido 209 do tipo de presença dos instrumentos. www. quan.

i i i i i i i i .

Surveiller et punir. Sobre a crescente simbiose entre o homem e a máquina veja-se. Canguilhelm. o orgânico e o maquinico2 . parece. por exemplo. em muitos aspectos. Foucault.). 1971. da continuidade entre a vida e a técnica. M. M. Sociologie et anthropologie. Pense-se na “técnica do corpo” e todo o conjunto de técnicas sociais coercivas exercidas sobre um corpo-objecto. por Canguilhem1 . trabalhada por Foucault4 . entre o organismo e a máquina. 2 1 211 i i i i . Seine Natur und seine Stellung in der Welt. mostra-nos como o humano. Athenäum Verlag. Hayes (Org. K. Cambridge. Android Epistemology. Bonn. no contexto social. 5 Cf. G. 3 M. 1968. plenamente em curso. A primeira. ser hoje confirmada por um processo. Gallimard. e com elas Cf. do corpo humano é hoje retomada à luz das novas possibilidades de reconstrução tecnológica do corpo. 1975. Era Arnold Gehlen quem pensava o homem como incompleto (unfertig). The MIT Press. mostra como o poder humano. 4 Cf. trabalhada por Mauss3 . por técnicas sócio-politicas. 1950. Mass. Glimour e P. Paris. o instrumentaliza. agenciado.i i i i Capítulo 13 Corpo e Design A tese sustentada. indeterminado (nicht festgestellt) e dependente (mangelhaft)5 . Vrin. no contexto social. Gehlen. Naissance de la prison. C. A tese da incompletude. a segunda. o instrumentaliza. se serve do corpo do outro. Mauss. A. Der Mensch. La connaissance de la vie. senão da obsolescência. nos anos 60. Paris. se serve do próprio corpo. O corpo humano sempre nos apareceu condicionado. Paris. para alcançar os seus próprios fins. Ford. 1995. PUF.. de hibridização e simbiose entre o biológico e o tecnológico.

Feltrinelli. Milano. ciborgues – reaparecem com uma força crescente. o laboratório.labcom. A construção semiótica e a construção técnica andam.”. p. Critica della ragione informática. alta tecnologia e baixa tecnologia são planos reversíveis de um modo idêntico à reversibilidade que podemos identificar entre estruturas-hard e estruturas-soft. enquanto conhecimento prático daquilo que se produz. como as sociedades arcaicas possuem a sua tecnologia: “Les plus simples techniques d’une quelconque société primitive revênt le caractère d’un système. precisamente. ligadas por um 6 7 Cf. muitas vezes a par.. Este processo de “construção do corpo” não pode ser compreendido senão à luz de processos “naturais” de construção. quando há “alta tecnologia”. fundamentalmente. processos esses que identificámos atrás falando de corpo-objecto e de corpo-signo.pt i i i i . pressupõe a legitimação de uma prática. Não há tecnologia. a invenção do estetoscópio por René Laennec ajudou a conferir maior credibilidade à auscultação semiótica6 . nos planos sintáctico. Muitas das técnicas primitivas. Na semiótica do corpo – na sua significação – está já envolvida uma tecnologia de construção do corpo. De facto. A tecnologia. afastar-se no projecto funcionalista que o enquadrava Bahaus ou em ULM. A história da semiótica ensina-nos como. isto é. tecendo jogos de legitimação. a tecnologia que funda. Maldonado. Lévi-Strauss mostra-nos. “Leçon inaugurale au Collège de France ”. 5 de Janeiro de 1960. Por um lado. Cf. o design parece. condições de funcionamento do laboratório. nem tampouco apenas perante a existência de “dispositivos científicos” que suportam a “alta” e a “baixa” tecnologia. p. Neste sentido. 151. 1997. C.16. por exemplo. Lévi-Strauss. gradualmente. pelo contrário. não é exclusiva das sociedades desenvolvidas.i i i i 212 José Bártolo uma série de figuras que o imaginário faz advir do corpo – Autómatos. do design do corpo.ubi. www. progressivamente. T. não é o “dispositivo científico”. aliás. semântico e pragmático. o reconhecimento da tecnologia corresponde precisamente ao reconhecimento da existência de dispositivos tecnológicos cuja dimensão epistémica é. andróides. deixando de ser uma disciplina que projecta para a realidade para passar a ser uma disciplina que projecta arealidade. pragmática. no facto destas figuras serem deslocadas do campo da alegoria – da representação ou da intensificação do corpo – para o campo do projecto – da construção intencional. apenas.. por outro lado. que funda o “dispositivo tecnológico” é. analysable dans les termes d’un système plus général7 . A sua força reside.

que pode devir-morte.labcom. de devir-outro. 9 Escreve Lévi-Strauss: “Presque tous cês masques sont dês mécaniques à la fois naïves et véhémentes. O realismo não advém tanto da tridemensionalidade e do mimetismo com o corpo humano mas mais da sobrecodificação que o reveste e que o semioticiza. règnent ici dans leur primitive unité. A máscara é. porque de mascaras falamos quando nos referimos a centauros e lobisomens. Falámos de máscaras. vol. ou seja. 23-24. pp. replicantes e ciborgues. A máscara é uma técnica agenciadora do corpo que provoca perturbações no plano da identidade. a sua articulação e automação. Os bonecos articulados usados nas culturas primitivas são um outro do eu. O rosto é escondido para que se desencadeie um processo de agenciamento do rosto – enquanto expressão mágica do agenciamento da identidade. antes. funcionando como um outro que se autonomiza tensionando o eu. Cf. Na sua semiótica da máscara8 . 1. Lévi-Strauss mostra como a máscara é uma arquitectura complexa9 . Lévi-Strauss. à semelhança do corpo humano que duplica. cet art réunit dans ses figurations la sérénité contemplative des statues de Chartres ou des tombes égyptiennes. isto é. um excesso. aux yeux de pleurer sa mort. dont les boutiques de foire et les cathédrales préservent aujourd’hui les restes démembrés.i i i i Corpo e Sentido 213 “sistema mágico”. um corpo agenciável. Ces traditions d’une égale grandeur et d’une pareille authenticité. Trata-se de um conteúdo formal. modificada. Lévi-Strauss. 8 www. que nele desencadeiam processos de agenciamento. Skira. 1975 . A identidade não é alterada mas. Un jeu de cordes. La Voix des masques. representa.pt i i i i . A máscara é.” . sobretudo a máscara articulada que não reveste o corpo mas o duplica. são técnicas de intensificação do corpo. em todo o caso. dão-lhe um carácter mais realista do que aquele existe numa imagem. aqui e sempre.ubi. de poulies et charnières permet aux bouches de railler les terreurs du novice. um desvio à norma. há uma modalização da identidade que é provocada por um processo de deviroutro. um objecto sobrecodificado e que sobrecodifica o que ela esconde – o rosto. O excesso formase a partir de perturbações do saber comum. Idem. gadgets e transformers. um estudo particularmente atento aos agenciamentos linguísticos que na e pela máscara se dão. O boneco articulado é. aux becs de le dévorer. et les artifices du carnaval. Unique en son genre. significante-nú que pode ser revestido de inúmeras significações possíveis. do modelo definido por um Referimo-nos a C. devir-doença ou devir-fertilidade. Um dos recursos técnicos mais exemplares é o recurso à máscara. o trabalho de Strauss não sendo um trabalho de um semiólogo. Genève. neste sentido.

Não haverá. em relação aos fins – estabelecendo modelos de funcionalidade – mas que www. também.ubi. no plano do poder-saber e no plano do poder-fazer. normalização sem resto.i i i i 214 José Bártolo determinado paradigma semiótico e epistemológico. o seu corpo-monstro. mesmo. isto é. a cibercultura) isso significa que a própria ciência se tornou mágica. Cada máquina semiótica possui o seu próprio corpo. Por exemplo. a publicidade etc. se não existir a semioticização do erro controlado. possuirá. codificação absoluta. A máquina deverá ser entendida como produtora na medida em que por isso se entende uma determinada aplicação de meios da qual resulta um determinado fim. da mesma forma que o têm a economia. a produção não tem. por outro lado. Cada máquina semiótica produz os seus objectos específicos que deverão ser. a medicina. No entanto. as ciências do artificial e. a manifestação do funcionamento e da codificação sem falha. a filosofia. complexa porque se dá no interior de um esquema ou plano marcado por uma pretensão ou por um carácter sistemático. que foi construído um excesso que não corresponde à prática dessa ciência mas que a representa e que a representa no interior de um determinado imaginário. no entanto. sempre. a produção nunca é simples. semioticização total. A biologia tem o seu corpo-modelo. o cinema.pt i i i i . quando falamos em máquina estamos a falar de uma situação que não determina. o corpo que cada vez possui é o último corpo à data a ser construindo e que funciona como modelo. Quando disciplinas científicas ou cientificizantes se tornam potencializadoras do fantástico (como acontece com o design. as biotecnologias. sempre. o design.labcom. da descodificação e o contrário. um sistema pré-cientifico. materializante. De facto. a produção técnica é. de ser material ainda que tenda a ser. característica de uma máquina que domina quer o modelo normal quer o modelo anormal. por definição. a máquina semiótica não deve ser entendida como um plano de simples produção. O sistema no interior do qual o excesso se torna reactivo é o sistema mágico é. retroactivos em relação à máquina que os produziu. isto é. corpo que representa o modelo de adequação ideal à máquina que o produziu. apenas. Cada máquina semiótica possuindo um corpo-modelo. de resto. necessariamente. O monstro representa a um tempo a possibilidade do disfuncionamento maquinico. no domínio da biologia o excesso forma-se a partir de perturbações do saber biológico comum sobre o ser humano e é esse excesso (a um tempo excesso e deficit de codificação) que deforma um determinado saber biológico “normal” ou “normalizado”.

ciber-design etc. Essay in Sociological Pure and Applied. o que acontece dentro ou fora acontecerá. à superfície e em profundidade. nesse sentido. Glencoe. Mas tal reencontro só é possível porque o corpo vem sendo tensionado – de todos os lados. essencialmente.). De um excesso se trata. quer semânticas quer pragmáticas. também.”. Free P. como sobredetermina na medida em que ela própria produz. nas farmácias. não pode ser compreendido no plano humano (não é susceptível de ser plenamente estudado nem pela biologia nem pela psiquiatria) mas. na banda-desenhada. não pode ser compreendido fora do plano humano (não pode ser. 10 www. mas um excesso que se reverte no corpo e que o deforma. com proveito. mais. Cf. nas fábricas. ou é disfuncional na medida em que atenta contra a integridade e a eficácia do sistema. citar Parsons. 1957. é um indíce de algo que não é redutível a nada de material. sobrecodificação. No cinema. T.10 A cibernética e. por exemplo. nos ginásios. por ela sobredeterminado. determinará em relação às possíveis traduções. mais do que ela a cibercultura em todas as suas expressões (ficção ciber-punk. mas também nos laboratórios. um excesso semiótico. necessariamente. isto é. no Design. Parsons. produção semiótica. também. as posições dentro e fora relativas a si e. porque o imaginário é. segundo o qual “A condição mais decisiva para que uma análise dinâmica seja boa é que cada problema seja contínua e sistematicamente referido ao estado do sistema considerado como um todo (. A deformação do corpo materializa o próprio excesso. a máquina semiótica não apenas determina um conjunto de procedimentos e as suas possíveis leituras. Reencontro com o rito antigo do devir-animal xamânico. nos consultórios médicos. poder-se-ia. ou “contribui” para a manutenção (ou o desenvolvimento) do sistema. por exemplo.i i i i Corpo e Sentido 215 determina. o corpo humano vai sendo atravessado por fluxos que o intensificam: fisicamente e imaginariamente. na literatura. deforma o corpo mas não se localiza totalmente no corpo. tornou-se território favorável ao retorno do imaginário. Freud mostrou bem. .pt i i i i . plenamente pensado pela engenharia mecânica) ele pertence a um sistema mágico e o sistema mágico Não andamos aqui particularmente distantes das análises que desde os anos 50 os autores ligados à teoria dos sistemas foram desenvolvendo. Numa palavra. ) Um processo ou um conjunto de condições. como qualquer outra deformação por excesso do corpo biológico.labcom. como o neurótico acredita sempre que existe uma determinada deformação física correspondente à sua patologia psíquica. O ciborgue. a este respeito. Este excesso.ubi. em relação aos meios e. . que a partir de fora se façam da máquina. dentro..

Tucherman. e tantas outras figuras. agenciamentos linguísticos. só podem ser pensadas no limite do humano. 157. é que as fronteiras não são naturais. umas por relação às outras. tal como Deleuze o pensou. no entanto. circunscrições que demarcam espaço e movimento. entre-planos. em Deleuze e Guattari no Anti-Édipo e nos Mil Plateaux produção de máquina semiótica). Relógio d’Água. analógico. antes.mecânico. é a de como localizar a fronteira a não ser pela construção de um plano de agenciamento do conceito de “fronteira” e que não corresponderia à localização do espaço próprio onde estas figuras podem ser tematizadas mas. Na abordagem da esquizoanálise. são agentes de intensificação do humano. A alteração. digital são. digital.1982. p. a construção de uma zona de troca semiótica que. integrando-os. homens-biónicos. e na fronteira. Ciborgues. In J. Prado Coelho (Org. os territórios que funcionam como construções que procuram particularizar. Precisamente como fronteiras podemos pensar os estados técnicos – mecânico. Bragança de Miranda e E. analógico.pt i i i i . Tendências da cultura contemporânea. trabalhada nomeadamente por Félix Guattari encontramos uma excelente análise dos processos de agenciamento (designados também por semioticização ou. no 28. que permitem a circulação de fluxos energéticos e semióticos. instrumentalizar. as máquinas que funcionam.ubi. aproxima-se do conceito de território.). do corpo como do pensamento”. 11 www. 2000. I. a ocorrer. para escrever: “O que testemunham. Revista de Comunicação e linguagens. “Entre anjos e cyborgs”. lobisomens. Cf. São processos de territorialização. No seminário de 26. anotava Ieda Tucherman11 . delas nos afastaria. “As formações dos níveis de agenciamento” Guattari mostra que quaisquer agenciamentos podem ser pensados a partir do funcionamento de quatro tipos de referentes: Os fluxos que funcionam como correntes de transmissão energética e semiótica sobre um registo de trocas de fluxos. são “figuras de fronteira” como. com os fluxos e as Ieda Tucherman. antes de mais. sobre um regime de segmentarizações.01. difícil de responder.labcom. em certo sentido. entre saberes e práticas. ao nível da intensidade. mais do que nos aproximar. antes. no seu limite. muito bem. Os estados técnicos. não sucede nunca ao nível da identidade mas. enquando incorporadores. realidade e imaginário. e esta intensidade é fundamentalmente semiótica . A questão que se deve pôr.i i i i 216 José Bártolo constrói canais.A. A fronteira identifica um regimente tangente ao humano susceptível de o alterar. devem ser inseridas e pensadas. a partir dos seus poderes especiais. interagindo e. intitulado. Lisboa.

altera-se. é o estudo “Hygien. Lisboa.ubi. 1995. Se. Assim. como temos vimos a afirmar. numa palavra. finalmente os universos. Um ensaio muito revelador dos processos de semioticização do espaço. Os fluxos semióticos tornam possíveis vários tipos de comunicação semântica e pragmaticamente controladas: a comunicação entre corpo cadáver e corpo vivo. do espaço doméstico. decisor) quer os instrumentos (há toda uma semiótica da instrumentalidade médica que impõe um regime de instrumentos técnicos que a partir de determinada altura se podem relacionar com instrumentos pessoais (do paciente) eles próprios semioticizados pelo máquina clínica) quer o espaço13 (é como resultado de um intenso trataJean Baudrillard. o médico é também identificado como sujeito. operador.labcom. 1996. máquinas semióticas e universos semióticos. se para a medicina o corpo de referência é o cadáver. tal só é possível a partir de uma particular construção semiótica. MIT Press. Zone. entre o interior e o exterior do corpo. Os “modelos do corpo” a que Baudrillard fazia referência12 correspondem a “tipos” particulares de construção semiótica do corpo e a um nível sintáctico. pp. Incorporations. semântico e pragmático. 13 12 www. ainda que aqui. A troca simbólica e a morte. sob o signo da preservação da vida. segmentarizam-no e essa segmentarização é antes de mais semiótica e constrói quer o objecto (um determinado detalhe coronário tornado objecto do cardiologista) quer o sujeito (ou melhor os sujeitos na medida em que o objecto entra em devir-sujeito na medida em que é particularmente vivificado – evolui. territórios semióticos. os operadores dessa construção correspondem a fluxos semióticos. Edições 70. entre um determinado modelo médico e a reacção in vivo. no 6.i i i i Corpo e Sentido 217 segmentarizações.496515. espécie de dispositivos no sentido de Foucault. a especializar ou a dissecar. pp. 193-194. In Jonathan Crary e Sanford Kwinter.pt i i i i . e que se caracterizam por implicarem relações de duração totalmente heterógeneas. Cuisine and the product world of Early Twentieth-Century America” dos teóricos do Design Ellen Lupton e J. sempre. fundamentalmente. os fluxos impõem uma semântica particular do corpo que o tendem já a objectivizar. tem comportamentos de aceitação ou de rejeição – o paciente é identificado como sujeito que em primeiro lugar territorializa o objecto possibilitando a sua segmentarização. I. na medida em que é ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. o corpo é. se o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. uma construção e que essa construção deve ser entendida como construção semiótica. Abbott Miller.

tradução portuguesa de Maria João Pereira. 15. ao triunfo do fantasma puro”15 .). Não será. 15 Bruce Benderson. 179. o monstro é sempre o corpo próprio num processo de devir-outro. replicantes. p. uma perturbação do reconhecimento. de devir-monstro. ciborgues.i i i i 218 José Bártolo mento semiótico que se produz um modelo de espaço clínico profundamente segmentarizado . prolongamento do corpo) é. 292. uma tecnologia semiótica que transforma e prolonga sentidos do corpo. essencialmente. Fantasmas. Lisboa. espaço de recobro. significações do corpo. p. 1991. essencialmente. sempre. tecnologicamente motivado. ao computador. andróides. Sexe ey solitude. O Campo da Semiótica. É no campo da intensidade e não da identidade que ela se joga. Para que aja monstro tem de haver. algum tipo de reconhecimento e. 1999. Relógio d’Água. do autómato. no interior do que Bruno Latour e M. Paris. RCL no 29. “Hibridismo e Semiótica”. estatutos de significante e significado. Esta tecnologia é menos produtora que reprodutora. Todas estas figuras – fantasmas. são figuras que procuram dar conta do corpo no interior de um processo. no sentido do mesmo Baudrillard. ao mesmo tempo reverte e intensifica. no corpo.labcom. corpo-mecânico do século XVII e XVIII. corpoJean Baudrillard. p. Lisboa. mesmo na perspectiva marxista. Akrich designam por uma “semiotic of human and non human assemblies”16 De entre os vários modelos de corpo-tecnológico que conhecemos. não corresponde a produções identitárias mas a produções intensivas. 2001. o transforma e o prolonga (a tecnologia é. 14 www. em segundo lugar. residual. Simulacros e Simulação. Relógio d’Água. IN Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão. Payot. mas a sua actuação é.pt i i i i . áreas comuns e de isolamento etc. como sugere José Augusto Mourão. há no monstro uma tensão de identidade. São várias as possíveis definições que podemos dar de um “monstro” mas seja qual for a definição aproximarnos-emos sempre desta: o monstro é aquela imagem que não nos representa sem horror. uma tecnologia de reciclagem.bloco de operação. em primeiro lugar.14 Bruce Benderson escreve que “o abandono do corpo apela ao isolamento.ubi. Todo o real é residual. anjos biónicos – talvez possam ser analisados. e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no fantasmal. ciborgues. no sentido em que Baudrillard situa a economia politica contemporânea. 16 José Augusto Mourão. Poder-se-ia considerar que a tecnologia que afecta o corpo.

a criação do ciborgue. de pueril o esforço de forjar palavras. 2001.a este respeito Michele Serres anota: “Ainsi eut et a toujours lieu une sorte d’appareillage. F. leur ressemblance “pareille” avec les fonctions du corps et la mise à distance de ces derniéres. assurément.ubi. M. o facto dessas máquinas serem. em que Kant nos fala das ameaças que os neologismos representam no texto filosófico. o seu corpo. 2003. na segunda obra. No interior de uma cultura exo-darwiniana. Hominescence. 18 17 www. Ceiade. cette perte des parties de notre corps dans des objects fabriqés lancés à l’aventure dans le monde.20 Ieda Tucherman. in E.pt i i i i . p. a clonagem. a replicação e as intervenções científicas viabilizadas pela engenharia genética. “O Corpo do Design: uma análise do Design biotecnológico”. en tous les sens que l’on peut donner à ce mot qui évoque à la fois les appareilles eux-mêmes. Michele Serres. et cette objectivation peut améliorer les performances. possuírem o principio interno do seu movimento e deterem as suas próprias leis de funcionamento. colocamos em cena o “teatro do corpo”. o corpo no seu devir-outro. leur externalisation. Duarte. Nos fonctions vitales se perdent au-dehors. Vega. em aparelhar o corpo. hoje.labcom. 19 Sobre as transformações que a tecnologia impõe no corpo humano. Kant aconselhava que se aprenda a eloquência de uma língua morta. onde as cristalizações de sentido alcançaram um equilíbrio que lhes vem de um carácter definitivo de obra acabada. C. o corpo-outro. Paris. as passagens da Kritik der reinen Vernunft (A 312-13/B 36970) e da Kritik der praktischen Vernunft ( AK 1-11). o corpo no seu devir-ferramenta. Rodrigues. a biologia molecular e as novas técnicas cirúrgicas e de visualização. Passagens. veja-se J.i i i i Corpo e Sentido 219 digital do século XX e XXI. falamos. Dos autómatos modernos aos ciborgues actuais. que pode ser identificado a partir dos mais diversos sintomas . como lhe chama Michel Serres. et intelligentes. Corte-Real. e onde não há qualquer submissão do pensamento aos passageiros apelos da moda. em particular. 20 Lembremos. que a noção de cyborg traduz19 .C. como refere Ieda Tucherman17 . que colocam em questão o humano. as possibilidades de vida em ambiente virtual . Lisboa. máquinas filosóficas. 52. Senses and sensibility in technology. todos eles podem ser pensados a partir de um mesmo mínimo denominador comum: serem endomecânicos. classificando. outro aspecto se destaca. certes. Bártolo.”18 Anuncia-se o outro do corpo. Éditions Le Pommier. a sua vida. 1999. de um modo ou de outro. en des choses inertes.o aumento das próteses. Breve História do Corpo e de seus monstros.

Freiburg/München. segundo Heidegger. September 1969). não são novos termos mas uma nova Sorgfalt pela linguagem21 . p. entretanto perdido. experirir. Martin Heidegger confessa ter-se enganado no caminho.labcom. ou convertido em abstracção. os vocabulum emortum. corresponde à experiência do que não se sabe através. Martin Heidegger im Gesprächt ( 26. Tarefa vã e baseada num propósito inautêntico. A abertura a uma dimensão ontológica corresponde ao ter-lugar da linguagem. 77. hrsg. A experiência de pensar. os fantasmas da experiência e os fantasmas do pensamento. A palavra experiência. como mater. que também é mater. no início. A língua é corpo vivo que alimenta e se alimenta de outros corpos vivos e as palavras mortas. Em conversa com Wisser. na sua tradução mais literal. por se tornarem inamen vocem. Experiri é. 21 www. a este gesto de antecipação do que ainda não foi por nós compreendido e. Von Richard Wisser. A palavra cyborg. corresponde a esse que. 1970. neologismo em língua franca. por isso. dizer espectro ou dizer fantasma. Este gesto de estender a mão à linguagem é o gesto de a tomar como matéria e como abrigo. nessa abertura é dito e significado. locução composta a partir de cybernetic organism. precisamente no momento em que essas experiências nos atiram para um lugar ainda sem nome.ubi. banalizado.pt i i i i . quando. Os termos são sempre os mesmos. como dizia Herder. medos ou esperanças. sonhos. pensou que havia que inventar novos termos. de algum modo. deriva de periri. pois. que se acha. que é matriz. O neologismo é um esforço de encontrar na linguagem uma companheira que nos acompanhe nas nossas experiências. Verlag Karl Alber. aguardam quem as desperte do seu repouso. porque eles são a nossa permanente companhia. Assim. como diria Bacon. a antiga força da árvore é recuperada. torna-se abrigo de incompreensão. E neste ponto convém levar a sério os fantasmas. Falar em experiência da linguagem corresponde. da antecipação da linguagem. são palavras que anseiam por dizer. em periculum. permanece fantasma. a travessia de um perigo. o pensamento é capaz de devolver à palavra a formação do seu sentido. o que é imprescindível. voz viva. de traduzir o pensamento em linguagem é. também.i i i i 220 José Bártolo Quando se pensa em língua morta.

ainda que breve. Bragança de Miranda e E. A imagem alegórica é a imagem antecipativa. é uma forma de antecipação.” 24 A autora estabelece uma anologia entre anjos e cyborgs enquanto figuras de fronteira. Revista de Comunicação e Linguagens. provém de uma experiência de reunião. que constituem “processos de territorialização.” Cf.pt i i i i . sabemo-lo. no 28. porque.A. de fronteira. da fertilidade ínsita à fragmentação e à ruína. do ausente e da coisa presente. movemo-nos no lugar do homem amarrado ao seu cadáver.140157. circunscrições que demarcam espaço e movimento. do conhecido e do desconhecido. esse suplício que.i i i i Corpo e Sentido 221 uma travessia por um caminho perigoso. também.P: Coelho (Org. “Entre anjos e Cyborgs” IN J. ela levar-nos-ia a perceber a operatividade do uso da metáfora do limes. Lisboa. 157-171. o seu estado é semelhante ao do homem agrilhoado. corresponde a uma travessia pelos nossos próprios limites. na palavra de Goethe é o lugar da expectativa e a expectativa. 2000. se deve perceber a sua natureza híbrida. Ieda Tucherman. Cf. Assim se deve começar por perceber o ciborgue como alegoria. que.1. onde a reunião das partes A questão insere-se no pensamento benjaminiano sobre a linguagem originária. afinal. da adopção de um conceito político-administrativo para o plano do pensamento. do visível e do invisível. da noção de limite. pp. 995 a 27) quando nos diz: “A dificuldade com a qual o pensamento embate mostra que há um nó no próprio objecto. o recado que eles nos trazem é o da necessidade de aprender a pensar contra as fronteiras24 . em que a totalidade não é experienciável como todo. misturada. Em particular “ Über die Sprache überhaupt und über die Sprache des Menschen”. do corpo como do pensamento. Seria proveitoso traçar uma genealogia. enquanto [o pensamento]está no embaraço. procurar eliminar o indizível da linguagem corresponde à forma mais eficaz e mais acessível de agir no interior da linguagem22 . De acordo com Benjamin. pela imagem e na imagem. é reflexo da natureza da alegoria. assim. Ieda Tucherman diz-nos que os ciborgues são figuras de fronteira. 22 www.labcom. 23 A ideia é ainda desenvolvida por Aristóteles na Metafísica ( B 1. Aristóteles diz ser experienciado pelos supliciados dos piratas etruscos e pelos amantes do saber23 .ubi. no Protreptikos.) Tendências da Cultura Contemporânea. por excelência. pp. O limes é o umbral (limen) que. I1. como princípio incoactivo de qualquer língua e como ponto de conflacção de todas as línguas.

E com isto ainda não abandonámos o registo alegórico. mesmo que entendido como corpo alegórico não se destitui nunca desta outra .ubi. in AAVV. A anatomia medieval chamava à reunião dos ossos humanos de esqueleto 25 Anne Balsamo. inclusive aqueles da polaridade ou da dominação hierárquica está em questão no mundo Cyborg. and on-line databases. é corpo-interface.) In a more material sense. Simians. Durham. íntimas e estranhas. 1996. unexplored territory. que ele suporta como suas: perplexidades passadas. London. O ciborgue enquanto corpo alegórico compõe. p. que se desenvolve contra as fronteiras.i i i i 222 José Bártolo é o efeito lento de um olhar decifrador. Cyborgs and Women: The reinvention of nature. A ausência de um acordo imediato entre as partes e o todo. O ciborgue não é. 1991. presentes e futuras.pt i i i i . Donna Haraway diz-nos que “a formação da totalidade a partir de fragmentos.. 2002. na travessia de um perigo. Anne Balsamo desloca. mas por uma espécie de alteridade orgânica. “O Lugar dos Cyborgs: da alegoria ao projecto”. Technologies of the Gendered Body: Reading Cyborg Woman.a de corpoprojecto26 . através de uma interessante análise. para um horizonte de fronteira electrónica associada ao ciborgue: “The frontier metaphor suggests the possibility of a vast. Cadernos ISTA. information services such as Prodigy and ComputerServe. New York. que pode ser expressa dizendo-se que.”27 A identidade do ciborgue não é dada pela sua integridade orgânica. apenas.. file servers. que está presente em toda a imagem alegórica é um aspecto que importa reconhecer no ciborgue. networks and bulletin boards.”25 . 62. As transformações da experiência. uma série de outras perplexidades. num mosaico. mais do que corpo-organismo. Duke University Press. Routledge. 27 Donna Haraway. 26 Sobre esta relação entre alegoria e projecto. as well as the code of application programs. Mas para se compreender a capacidade representativa do ciborgue é necessário perceber os mecanismos da alegoria e as especificidades da alegoria ciborgue.labcom. a fronteira que o corpo coloca. www. veja-se J. the electronic frontier includes workstations. uma alegoria. (.Bártolo. apertando o nó que nos abraça ao cadáver.M. no 13. o ciborgue. é um corpo que.

o desconhecido torna-se conhecido por antecipação. Helkiah Crooke.26-27. por exemplo. afirma que um esqueleto seria um conjunto de teses (thesis)28 . residual. seria uma thesis articulada a uma outra thesis. Daí o risco das imagens fantasmagóricas propostas como suportes de identificação dos corpos no imaginário da cibercultura. Era Heidegger quem. p. 1954. 1631. London. pois velando-o anula-lhe a invisibilidade. Martin Heidegger. pp. Esta ideia de substituição. pela sintaxe. e restaura-lhe a identidade ainda que uma identidade fantásmica. tem a ver. Microcosmographia. eram diferenças de sintaxe que proporcionariam diferenças de esquelética entre.ubi. como desvendamento/ocultação?”29 . é o perigo da anulação do corpo depois da queda da imagem que o representa (a queda da máscara como queda irrecuperável descrita pelos antropólogos. questionava “será possível pensar ou esperar que a realidade ou a verdade alguma vez nos sejam dispensadas sem o disfarce? não será o véu. da propensão humana para identificar-se com as imagens e para se pensar representativamente. Conforme nos recorda Jacques Derrida: “Para que exista um fantasma é 28 29 Cf. As armadilhas da espectralidade valem-se. Essais et Conférences. em grande medida. torna-o semelhante e no jogo do reconhecimento da semelhança. Conforme essa imagem tenha uma relação afirmativa em relação ao corpo ou a negue. O perigo de se representar o corpo como resto. Neste sentido uma tíbia artificial seria uma pro-thesis na medida em que seria um elemento de substituição da thesis que não implicaria alteração sintáctica. que simultaneamente cobre e descobre a verdade. M. a identificação do sujeito irá fundar-se no reconhecimento ou na negação da sua própria corporeidade. este jogo quase de ilusionista. com razão. o modo da sua dispensação aos humanos. idêntica à queda da sombra na personagem de Peter Schlemihl em O Homem que perdeu a sombra). 930. Sparke. Num jogo de disfarces o pensamento recorre à alegoria para poder entrar no jogo. Tal como ao fantasma. o véu o cobre e descobre. por exemplo. de 1631. Paris. digamo-lo assim. como aquilo que fica.labcom.pt i i i i . Helkiah Crooke na sua Microcosmographia. para fazer. A tíbia.i i i i Corpo e Sentido 223 e à sua articulação particular de sintaxe. um humano e um cavalo. directamente. www. jogo alegórico por excelência. Gallimard. com o procedimento alegórico. o perónio. o jogo da realidade. de confundir thesis e pro-thesis. original e réplica.

tal como Marx nos leva por vezes a pensar. 1993. p. .”30 Se quisermos recorrer à distinção formulada por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas. pode operar-se por um gesto que ganha sentido dentro de um sistema operaJacques Derrida.pt i i i i . Não regressando ao corpo real. Falar alegoricamente significa dizer uma coisa para significar outra31 . 31 30 www. à partida um espectro. caso a primeira espiritualização produza. e de agoreuein. engendra-se um fantasma ao conceder-lhe um corpo. Cf. mais ainda. Esta ideia de substituição é o denominador comum que associa a alegoria às possibilidades de intervenção protésica. Etimologicamente. de onde são extraídas as ideais ou os pensamentos. 1819 (2a ed. mas a um “ver como”. a imagem dá-o em si mesmo e não de forma mediatizada. A economia do trabalho impede-nos de fazer um estudo da alegoria e. o olhar alegórico não corresponde a um “ver perceptivo”. também ela. diferentes dela mesma. totalmente revista).. foi a partir da leitura da obra de Benjamin que tomamos contacto com o estudo sobre os símbolos de Friedrich Creuzer. exercício alegórico. sempre. Apud. falar na àgora. A possibilidade de substituição de uma anca biológica por uma anca sintética. O processo espectrogénico responde então a uma incorporação paradoxal. um fantasma do espírito e. ou uma ideia. pp. . Spectres de Marx. alegoria deriva de allos. um fantasma do fantasma. no do símbolo o próprio conceito desce e integra-se no mundo corpóreo. Embora circunscrito. As possibilidades de substituição de um elemento por outro sem alterar um sistema estrutural é um princípio que só pode vigorar se definido pelo próprio sistema estrutural dentro do qual o exercício de substituição tem lugar.ubi. um corpo-protésico. A partir do momento em que a ideia ou o pensamento são separados do seu substracto. mas a um corpo mais abstracto do que nunca.”. Benjamin. susceptível de ser descrito. . No caso da alegoria há uma substituição. mesmo quando se apresenta como exercício específico da prática médica. corpórea. Leipzig-Darmstadt. 179. o exercício protésico é. Synbolik und Mythologie der altern Völker.i i i i 224 José Bártolo necessário um regresso ao corpo. poderíamos até dizer. Friedrich Creuzer. onde a diferença entre a representação simbólica e a representação simbólica é seminalmente apresentada: “A diferença entre a representação simbólica e a alegórica está em que esta significa apenas um conceito geral. enquanto captação imagética da semelhança.labcom. 202-203. A origem. enquanto aquele é a própria ideia tornada sensível. outro. Paris. a obra de Walter Benjamin sobre a origem do Trauerspiel continua a oferecer-nos algumas das mais interessantes reflexões sobre o simbólico e o alegórico. Dito de outro modo. W. Galilée. mas sim encarnado-os num outro corpo: um corpo-artefacto. de fazer uma taxinomia das imagens e dos signos que alegoriacamente representam o corpo humano.

Para o ortopedista a anca biológica não é diferente da anca sintética. mas através da união de objectos simples numa série expressiva abstracta que.ubi. o que acrescenta a aparência enlaçando os termos entre si e transformando-os em objecto composto. que nos invade as ruas.” Corpo protésico. ainda que persistindo como partes componentes. o recurso pelo qual falando de uma coisa queremos dizer outra. semelhante no caso daquele que opera com alegorias e daquele que opera com próteses de silício ou de polietileno. Este sistema operativo é um sistema de composição: o sentido das operações de substituição é um sentido de composição. o que faz superar toda a simples representação como nexo. as cawww. Dentro deste sistema que reveste de sentido todo um modus operandi. se fundem numa nova unidade. corpo compósito. nem. As preocupações médicas. Giorgio Colli diz-nos que “o objecto composto. a anca biológica não é apenas significada mas igualmente significante . pelo impulso para trás. a pergunta que deve ser colocada é a seguinte: o que queremos nós dizer quando utilizamos a alegoria do ciborgue? Sem dúvida que a alegoria ciborgue representa o acontecimento da técnica. a performance etc. ao nível da intervenção protésica.i i i i Corpo e Sentido 225 tivo. ambas são concreções de um modelo abstracto. ela é já uma réplica do modelo abstracto de anca pelo qual o operador se orienta. formado já não no interior mediante uma composição de nexos. pelo abandono do dissemelhante.pt i i i i .labcom. ciborgue. É importante perceber esta identificação do corpo protésico enquanto corpo composto ou corpo compósito. isto é. tão-pouco. Se a alegoria é o recurso pelo qual nós nos abeiramos do conhecimento usando de disfarces. a sua presença abaladora. os transportes. A consistência do objecto composto resulta condicionada pela tensão do vínculo causal dentro de uma série. com a manutenção. neste sentido. tudo isto são alegorias. como concreção do modelo abstracto realizada dentro de um sistema operativo que a valida e por ela é validado. têm a ver com a compatibilidade. Em contrapartida uma prótese biocompatível já não é entendida como uma pro-thesis mas como uma thesis. são preocupações sintácticas.ela é uma thesis e. por mediação da série. um agregado integrador de objectos homogéneos destinados a desaparecer. com o perigo de rejeição. Uma prótese que seja rejeitada pelos tecidos biológicos é um problema pois implica um problema sintáctico.

”32 . ao tornar-se uma pele electrónica fluida. não é um artefacto externo ou uma Donna Haraway. o seu carácter perturbador tem a ver com esta tensão de aproximação. of couplings between organism and machine. A estranheza do ciborgue.i i i i 226 José Bártolo sas. IN Hari Kunzru. efectuado por técnicas de manipulação genética e pela construção de artefactos miniaturizados e biocompatíveis. IN Simians. each conceived as coded devices. aí. da hibridação do natural e do artificial. p. representa. Donna Haraway diz-nos: “Contemporary science fiction is full of cyborgs . Mas o ciborgue não é. Donna Haraway. 2000. disfarçada. Antropologia do Ciborgue. Trata-se de uma nova carne. quando não de fusão. neste planeta. Ao falarmos de ciborgues “estamos falando de formas inteiramente novas de subjectividade. os sonhos. e a fronteira entre o físico e o não-fisico. apenas.ubi. Cyborgs and Women. Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics agains heterosexism). o ciborgue entra na cultura contemporânea através da fenda aberta a partir de três abalos de fronteira: a fronteira entre os animais e os seres humanos. Trata-se da introdução da tecnologia no corpo. desmaterializada.”33 . A técnica.labcom. de elementos polares. o acontecimento da técnica num tempo em que a técnica se diluiu. é a representação alegórica. Segundo Haraway. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes. a fronteira entre o orgânico e o inorgânico. Se analisarmos os actuais dispositivos tecnológicos e a respectiva capacidade de agenciamento do corpo humano. Modern medicine is also full of cyborgs. do projecto científico contemporâneo ele próprio assumindo mil disfarces. Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction. 33 32 www. 149-150. sem dúvida.creatures simultaneously animal and machine. disfarçada. who populate worlds ambiguously natural and crafted.pt i i i i . in an intimacy and with a power that was not generaded in the history of sexuality. encontramos duas linhas de intervenção complementares mas distintas que Ieda Tucherman apresenta numa síntese esplêndida: “O primeiro campo é constituído pelo princípio da intrusão. “A cyborg manifesto”. pura interface. São Paulo. modificando tanto o seu espaço e funcionamento interno quanto as suas fronteiras com a exterioridade. os corpos. “Você é um ciborge: Um encontro com Donna Haraway”. E não se trata simplesmente de ideias. a representação alegórica.

expandindo a capacidade de conexão para além da pele e dos limites territoriais: é o caso das tecnologias de comunicação à distância. O aparecimento do ciborgue. caos. A Cultura das Redes. o facto de ele se situar numa fronteira indecisa entre a humanidade e a não-humanidade.próteses exotécnicas e próteses esotécnicas . deixando em aberto os acontecimentos que inauguraram. Segundo Tucherman os ciborgues são figuras. Bragança de Miranda. mostra como potencialmente a humanidade do homem.”34 . Já desenvolvemos neste estudo uma definição da noção de “figura”. a existência de dispositivos técnicos capazes de o tornar real. Marcos e J. Talvez por isso os signos do ciborgue se prestem a servir de alegorias: eles anunciam. O que faz do ciborgue um “atractor” é. Por isso também há sempre no excesso do corpo cyborg. Número Extra. formado. o que lhes suceder efectuará o. 2002. o cyborg atrai pois pode aparecer quer como um atractor de vida. quer como atractor de inumanidade. parte do corpo. Revista de Comunicação e Linguagens. 66.labcom. Sabemos que a relação de depenIeda Tucherman. de fronteira. 34 www.ubi. literalmente. “Novas Subjectividades: Conexões intempestivas”.pt i i i i . como a Internet e a Realidade Virtual. Situado numa zona de indiscernibilidade entre o devir-outro e a destruição.à luz dos processos de territorialização da subjectividade que elas operam. apenas em parte. configurada no corpo normal.L. e um corpo super-orgânico que pode assemelhar-se a um corpo-sem-orgãos pronto a acolher intensidades. O segundo campo caracteriza-se pelo princípio complementar de mediaçãoconexão e concerne às tecnologias que geram ramificações do corpo no espaço externo: seriam dispositivos tecnológicos localizados na superfície ou fora do corpo. na mão do Terminator. O ciborgue é um ser estranho. precisamente. falta uma mão capaz de sentir nuances. mesmo que afectando algumas funções e movimentos): é. p.i i i i Corpo e Sentido 227 prótese que se acople no corpo (que pode ser desacoplada sem alterar a “inteireza” do corpo. ao tocar noutra. IN M. a privação: falta uma mão mais hábil para pintar à mão do Robocop. Ieda Tucherman faz assim a releitura da dupla classificação das próteses desenvolvida por Baudrillard . saúde e felicidade (como na visão extropista). loucura. também porque produz um excesso que se confunde com uma intensificação. contem o germe da sua inumanidade.

Cfr. 2-3). exprime. rifatta su figulus ed effigies (Cfr. A. De facto há uma circulação de sentido. Zellmer. sistemas com uma única articulação36 .” Cfr. P. significante sem articulações. Invigilata Lucernis. porca. nas figuras de Hjelmslev. se se quiser.pt i i i i . Die Lateinischen Wörter auf-ura. Walde. Por outras palavras. nos stoichea dos Estóicos. exprime genericamente a cegueira. Paola Aretini. p. A afirmação de Tucherman segundo a qual os ciborgues são figuras poderia levar-nos a pensar que os ciborgues são figuras de conteúdo aglutinadoras de uma série possível de figuras de expressão (ou. Fingo). de uma expressão difusa da relação homem-máquina). Heidelberg 1965. Paris 1967. porco. Lateinische Grammatik . I. Meillet. 236. E. 1963. s. probabilmente “creacione estemporanea di Plauto suggerita dalla presenza di fictor e fingo e modellata sul rapporto coniectura/coniector e simili”. La forma più antica. I derivati latini in-tura.i i i i 228 José Bártolo dência etimológica entre figura e fingere era. mulher podem ser reduzidos às figuras macho vs. Messages et Signaux. pede passagem. Fingo. 35 www. A. com rigor.” 108. 1976. ausência) no plano do uso comunicativo Paola Aretini chama a atenção para a fecundidade desta relação: “La particolare formazione del termine figura si presta a valutazioni discordanti: secondo alcuni sarebbe il relitto di un strato linguistico molto antico e deriverebbe directamente dalla radice del verbo fingire e non dal supino come altri sostantivi analoghi (Cfr. s. M. 22. Sabemos que a teoria das figuras pressupõe uma correspondência entre figuras de expressão e figuras de conteúdo (Carneiro. Ernout . 365. ma fictura attestato in Plaut. 277. Paris. secondo altri si tratterebbe invece di una voce analogica seriore. München. M. por exemplo). homem. Frankfurt a. I. Ist. Lomb. 36 Cf. o ciborgues é a figuração do processo de devir-máquina. pp. 501-502. 1974. “Non Corpus. PUF. e na teoria dos traços distintivos de Jakobson. 219. V. 1966. “Rend. Lateinisches Etymologisches Wörterbuch.labcom. derivato dal supino. Giacalone Ramat. L.7-12 (Loc. Este autor alargou decisivamente o campo de uma sistemática dos signos reconhecendo sistemas sem articulações. Dificilmente podemos afirmar. Para além de Hjelmslev poder-nos-ia mos socorrer aqui de Prieto. uma multiplicidade de conteúdos. Leumann. ovelha. 7). No plano do sistema a bengala é muito pobre (presença vs.ubi. fêmea. muito fecunda de significação. Dictionnaire étymologique de la langue latine. 247) sembra essere non figura. Prieto. pois.A.35 Por outro lado a tradição semiótica ensina-nos a relação entre signo e figura. para os latinos. Cit. postula compreensão por parte dos presentes. uma partilha comum. Trin. presença positiva que se constitui como pertinente contra a ausência da bengala. sed quasi corpus: note sulla semantica di figura”. A bengala branca do cego. secondo la Giacalone Ramat (I derivanti Latini cit. Inoltre A. V. 2000. que o ciborgue é um traço distintivo ou uma figura hjelmsleviana.

labcom. Lisboa. tensões. aliás. o ciborgue envolve não apenas uma multiplicidade de articulações internas (articulações. Este além-presença. O ciborgue é claramente rico quer do ponto de vista do sistema (é. Para além das endo-articulações e das exo-articulações sistematizáveis. O espaço do devir-ciborgue (o seu Spatium) é o corpo. A. A. é figura. é a aparição. Babo e J. De facto. É uma coisa que não é coisa (. José Augusto Mourão di-lo bem “Ficou o fantasma. ainda.). no 29. Do ponto de vista do sistema. “Hibridismo e semiótica”.mais do que um signo objectivo . um corpo composto) quer do ponto de vista comunicativo. 30. Ieda Tucherman é. Como comenta Eco “se não é um signo. Mourão (Org. a figura pressupõe uma presença. membros. p. A noção de território dá conta de uma presença não redutível a um ponto objectivo. próteses etc. 7. órgãos.o da além-presença ou presença-fantasma . por excelência. Col. dificilmente sistematizáveis e contudo decisivos para se compreender que ciborgue mais do que um objecto . trocas e reenvios. mais clara ao considerar que o ciborgue pressupõe uma presença e um território. José Augusto Mourão.é um processo de devir e um processo de contágio. mas igualmente uma multiplicidade de articulações externas (articulações espaciais e temporais por exemplo).como nos Cf. mas que se expande ou é passível de expansão. obsessiva. Teoria das artes e literatura. 37 www. Semiótica e Filosofia da Linguagem. Maio de 2001.i i i i Corpo e Sentido 229 é muito rica. U. é fantasma.pt i i i i . Revista de Comunicação e Linguagens. uma excrescência que pode remeter para outros mundos”38 .ubi. uma das suas figuras. além-presença e todos estes conceitos talvez não sejam totalmente coincidentes. ligações. mas alguma coisa ela há-de ser”37 . 38 Cf. De decisivo..). o território que dele se constitui (por presença contagiosa) é contudo ausente de corpo. que é uma figura da sombra manifestação da materialidade e da opacidade dos corpos em interacção com a luz que os torna visíveis. a carne. um articulado. do género dos quase-objectos. a presença do ciborgue territoriza. apreensão estética em Geninasca. O Campo da Semiótica. p. acontecimentos de ordem poética em Lévi Strauss. será necessário dar-lhe um outro nome.). 2001. não anda longe de um efeito de presença que encontra na tradição semiótica diversos nomes: acidente estético em Greimas. mas num caso . O objecto fantasma define um além de uma presença mundana. in M. o território é. Mas precisamente o que falta ao fantasma que é uma figura iterativa. Instituto Piaget. Eco. comunicações. circuitos.. há todo um conjunto de circulações.288.

41 Cf. Cf. a la manera misma en la que el sujeto vive su proprio modo de presencia en el mundo. p. pueda hacerse repentinamente imagen imagen capaz de configurar desde el interior la propria modalidad de la mirada del sujeto y.ubi. 1999. devir-pássaro. próximo do factish de que fala Bruno Latour: um quaseobjecto que tem de ser fabricado. Le Discours et son sujet. Coquet. não é a figuração de uma identidade mas antes a figuração de uma intensidade que. Harvard UP. . tendremos que admitir una forma de co-presencia entre los dos elementos. 272. pero como si no estuviera allí. da figura de que fala Tucherman. é um quase-objecto40 . enquanto tal determina o sujeito . de lo simplemente percibido o en todo o caso nombrado. de modo que la única posible relación entre uno y otro pasaría por la mediación de un sistema sígnico de representación y comunicación). 40 39 www. a distancia y como vacío de sentido.i i i i 230 José Bártolo outros . en consequencia. Paris.labcom. B. enquanto configuradoras “desde o interior” da própria modalidade do olhar do sujeito. apreensão capaz de. A imagem de que fala Landowski aproxima-se. Cambridge.devir-criança. de uma presença pura. um não-sujeito na expressão de Coquet41 .há em comum uma idêntica apreensão imediata do sentido a partir da presença do objecto. em presença para o sujeito começa a produzir sentido.essa mesma que não pode ser tão bem identificada com uma coisa quanto com um território. cada actualização de um devir . En lugar de un estado de separación (aquí un mundo-objecto. “Sobre el contagio”. su proprio modo de ser en relación con lo que lo rodea. 1985. de imediato. que convertida. um espaço.pt i i i i . J.acidente estético etc. O ciborgue não é uma coisa.não pode ser “determinado” senão enquanto figura ou imagem que mais do que visível ou presente.”39 .-Cl. é configuradora do ponto de vista e organizadora de um modo de presença . provocar a existência de algo anterior a qualquer enunciado. aqui. a partir desse instante. 270. Latour. Eric Landowski. devir-ciborgue . por consiguinte. y allí un sujeto. O Cyborg está. de tal forma que lo que en general no es sino del orden del “espectáculo”. Se o devir é uma experiência constitutivamente humana e constitutiva do humano. Pandora’s hope: Essays on the reality of science studies.e que enquanto tal se aproxima dos quase-sujeitos. mais do que dada a ver. nesta perspectiva. isto é. Klincksieck. p. a fazer contágio para falar como Eric Landowski: “Es cierto que ningún proceso de este tipo podría darse sin un auténtico cambio de régimen relativo al estatuto del sentido tal como lo concebimos habitualmente y.

O que a prótese (qualquer prótese a começar pelo espelho) gera em contacto com o corpo humano é a transformação do corpo em superfície intensiva. corresponde à consciência (mesmo que difusa) da possibilidade da secessão da identidade e. A mão é nessa experiência o Orgão-Corpo. como tal. uma figura de conteúdo que contém em si todo o corpo. corresponde a uma muito particular experiência de devir-outro. É tão delirante ver num homem com parcelarei e anca metálica um ciborgue. num processo particular de devir CsO.experiênciar a morte do corpo . www. Também Landowski utilizava o exemplo da mão para ilustrar a sua teoria do contágio: “Sea el caso de una mano: no nos tomamos de una mano . é aquele que sucede quando. decisivo. afinal. a partir da experiência da mão organiza-se toda uma experiência do corpo . sino de lo que ella significa por médio de la relación que mantiene con eso que. Parece claro que a identidade não é dada pelo corpo. como ver num velho a jogar às escondidas uma criança. um devir-outro. A mão é.i i i i Corpo e Sentido 231 Figuração e imagem são modos de presença do outro a partir do mesmo.não o pode neste ou naquele órgão particular. Devir-ciborgue é uma actualização do devir-si-mesmo no que é. sempre.pt i i i i . posición.não transtorne a identidade. não o pode no organismo . aqui. sobre el plano de su figuratividad específica (complexión. A prótese desempenha o papel de operador de metamorfose: tornar-se um outro é viver por de dentro a prótese. É algo semelhante o que acontece com algumas experiências protésicas: não sentir a mão (depois da substituição da mão biológica por uma mão artificial ou simplesmente quando a mão fica dormente) corresponde à experiência da morte da mão.ubi.labcom. uma dilatação do sujeito sobre o sujeito a partir do objecto. Um exemplo claro. No devir o corpo humano transforma-se numa superfície intensiva. Na presença da prótese o humano corporiza-a num processo de devir-outro que é.e o seu efeito estranho ou anómalo . a experiência da perturbação da identidade é aqui limite. nem pode ser encontrada no corpo . a experiência de devir-morte.que transforma o corpo numa superfície intensiva geradora de um devir-morte.de esta mano -. O avanço das ligações entre o corpo humano e as mais variadas próteses externas e internas não fez do humano um ciborgue. nos olhamos ao espelho e mal reconhecemos o nosso rosto. para que a prótese . igualmente. isto é. para a não rejeição interna da prótese.mas parece. que intensifica a própria identidade. claro que o corpo é superfície intensiva da identidade. isto é. acordando a meio da noite.

é. É precisamente o plano da figuratividade. 276-277. da propriocepcção. como vimos. 155. um ligado ao corpo outro ligado à corporeidade. Word. manera. Aquele dir-se-ia ser um sistema volume-cavidade. corporizado a partir dela. isto é. “Notes on the French Phonemic Pattern”. a natureza humana é corpórea. 1949. Como a fenomenologia mostrou com clareza. Nova Iorque. um pé. ela constitui-se como Órgão-Corpo. o “corpo” é uma sobrecodificação de algo que se encontrava descodificado isso que eu sinto na experiência proprioceptiva. 43 42 www.43 Se a prótese se constitui. tal não sucede (ou não sucede apenas) no interior da propriocepcção. antes um “mapa”. não é uma parte do corpo como uma mão. olhos.labcom. que é transtornado pela presença da prótese. uma sobrecodificação. Eric Landowski. a corporeidade não está no corpo. más distante pero que le responde como un eco. A prótese opera então por corporização a partir de si.”42 . ossos. su modo de ser parece volver a decir a propósito de algo diferente de ella misma y que seguramente ha sido ya dicho en otro lenguaje: por exemplo en el tono de voz. próprio da corporeidade. como lhe chama Deleuze. próprio do corpo. A prótese parece gerar um outro registo de consciência do corpo pelas inúmeras possibilidades de corporização a partir de órgãos-Corpo particulares.ubi. . R.i i i i 232 José Bártolo ritmo.pt i i i i . ânus. Todos os elementos volumes-cavidade do corpo . como órgão-Corpo. Cf. “Sobre el contagio”. no 2. p. gesto). Una presencia inmediata convoca otra. Eram Deleuze e Guattari quem avançavam com a noção da existência de dois sistemas. orelhas. Lotz. Ela é o ponto-central da corporização. como indicamos. Inversamente o órgão-zero tem por função própria opor-se à ausência de órgão. sexo. pele etc.mãos. um tecido.têm de ser corporizados (como que integrados num sistema superfície-buracos) dando-se então a sobrecodificação.o que equivale a dizer que o eu se constitui corporeamente. Por outras palavras. pés. um órgão. quer ao nível da expressão quer ao nível do conteúdo. este dir-se-ia um sistema superfície-buracos. a corporeidade é um agenciamento do corpo a partir do qual o corpo se torna m’eu . Jakobson e J. Traduzindo para a questão da prótese a leitura de Jakobson e Lotz poder-se-ia dizer que a prótese é sempre um órgão-zero. Agosto de 1949. Quando me é colocada uma mão protésica o meu corpo é. do corpo. órgão-Zero que se opõe a todos os outros órgãos pelo facto de não comportar nenhuma característica diferencial e nenhum valor orgânico constante. 5. Vol. pp.

Considerar órgãos sem corpo é considerar. nem o último a se produzir ou a ocorrer. Neste sentido a função da prótese é reterritorializar. no desequilíbrio de um desenvolvimento dissincrônico de estratos entretanto simultâneos. Como nos ensinou Deleuze de dois www.ubi. cortados. de uma mão humana por uma mão protésica. um corpo animado por diferentes movimentos intensivos que determinarão a natureza e o lugar dos corpos em questão.” A mão protésica implica uma desterritorialização em relação à mão biológica. por exemplo. etc. retorno a uma territorialidade original: a prótese implica. contudo. biocompatibilidade. A questão aqui é a de perceber em que circunstâncias a referida “máquina abstracta” é desencadeada. chamemos-lhe assim. um plano não-humano. um lábio de silicone não é humano. se conectar com ele. expressão plena da sua corporização. antes. muito mais do que da sua propriocepcção. de velocidades diferentes. Precisamente porque o corpo humano não é uma soma de partes a substituição. obriga antes a considerar um corpo sem órgãos. É um erro agir como se a prótese se tornasse humana a partir de um determinado limiar: semelhança formal. E o mais rápido pode convergir para ele. A reterritorialização não pressupõe. produzindo corpo e corporização. o plano-humano.i i i i Corpo e Sentido 233 É precisamente porque a prótese depende. Uma orelha de Algimax não é humana. A prótese não é humana. desligados. semelhança funcional. O corpo não é questão de objectos parciais mas de velocidades parciais. A prótese é sempre um objecto parcial é o objecto parcial não é humano. sem sucessão de estágios. Esses movimentos são movimentos de desterritorialização. procurámo-lo mostrar. que farão do corpo um organismo. de uma máquina abstracta que ela não se contentará em replicar a mão (a mão perdida. que permanece como mão-fantasma) mas afectará as outras parte do corpo: é a prótese no seu devir-mão. ligados. um conjunto de artifícios pelos quais um elemento. cozidos.labcom. em linguagem deleuzina. ele mesmo desterritorializado. ao mesmo tempo que se torna meio de organização de um corpo ele mesmo desterritorializado. Recorremos de novo a Deleuze: “De súbito o movimento mais lento não é o menos intensivo. serve de territorialidade nova ao outro que também perdeu a sua.pt i i i i . formalmente. implica todo um sistema de reterritorializações. No plano dos objectos parciais não saímos do mostro de Frankenstein: mãos mais boca mais olhos que podem ser anatomizados em todos os sentidos.

procuramos mostrar ao falar da prótese como órgão-corpo. se se preferir. www. mas o corpo quer ser requisitado e agenciado. externa . É o Real que se virtualiza menos na força de aparelhagens tecnológicas do que na força humana de o querer virtualizar. as desterritorializações relativas (transcodificações) reterritorializam-se sobre uma desterritorialização absoluta em determinado aspecto (sobrecodificação). intensificar. O ambiente artificial (seja este escritório onde escrevo. antes de mais.dir-se-ia cirúrgica ou. ainda que permanecesse negativa. fantasiar. objectos. no limite. o meu pulso. a própria realidade. modificar.como a substituição da pele que caiu por pele nova .a mão que me dói desterritorializa/reterritorializa. por movimentos mais lentos. só assim ele pode ser fantasiado e o que antes era ambiente artificial. O artificial requisita o corpo e agencia-o. o meu braço.mas de uma substituição. o meu ombro. o que equivale a sublinhar de novo a diferença entre propriocepcção e corporeidade: o movimento mais intenso a nível proprioceptivo (determinada dor por exemplo) não é o mais intenso a nível de corporização. O que se requisita e se agencia é. a dor) enquanto a experiência de corporização faz-se de movimentos horizontais e complementares . É a partir do mais desterritorializado que se dá a corporização . o frio operar das ferramentas tecnológicas é como que contaminado de sangue e esperança e sonho. essencialmente porque a experiência proprioceptiva tende a ser isoladora (a identificar. a totalidade do meu corpo. a minha clavícula. o mais rápido não é forçosamente o mais intenso ou o mais desterritorializado.o que. Podemos igualmente concluir que. polarizar. logo a isolar. aliás. em regra. pelo nosso mundo tornado artificial passam fluidos humanos e tudo se transforma no que quer que nós queiramos – como se nos sonhássemos. enfim. o meu antebraço. não de uma substituição interna ao organismo .pt i i i i .i i i i 234 José Bártolo movimentos de desterritorialização. dá-se a essa requisição e agenciamento. isto é. Pode-se mesmo concluir daqui que o menos desterritorializado se reterritorializa sobre o mais desterritorializado.ubi.labcom. artificial. tratava-se enfim. seja uma sala de cirurgias ou um ambiente de RV) é ainda real e realmente humano. Como procuramos mostrar a desterritorialização da prótese em mão era absoluta.

de encerrar. O que é.i i i i Conclusão Devemos agora fazer o gesto de conclusio. São estes dois momentos que procuraremos. O termo latino concludo era rico de significado remetendo-nos para ideia de fechar. como quem toma algo para si e. apresentar. como quem fecha uma porta. ao concluirmos podemos estar a fechar ou a rodear. declinável em termos ontológicos – os corpos não são todos iguais .em termos semânticos – os corpos não significam todos o mesmo – em termos pragmáticos – os corpos não servem todos para o mesmo – em termos epistemológicos – os corpos não identicamente compreensíveis – e em termos axiológicos – os corpos não valem todos o mesmo. De algum modo. A semântica da palavra conclusão acentua regimes de possibilidade. não permitiu desenvolver. um elemento menor no interior do estudo. facilmente. como quem sitia uma cidade. ao reconhecermos este ou aquele corpo estamos a operar com fixações de um sentido particular do corpo. tal como um conquistador que toma uma cidade derrubando toda e qualquer resistência e que. o passa a possuir. de conter. podemos estar a suspender ou a cingir. Cada corpo pres235 i i i i . concluindo-o. em síntese. pode afirmar que a tomou para si. pelo contrário. Ao designarmos este ou aquele corpo. tais regimes de possibilidade confrontam-nos com o facto de uma conclusão que culmina um estudo ser inevitavelmente uma figura de retórica. o que não faz dela. a sua economia própria. Todo o trabalho se orienta no sentido de desenvolver a tese de que aquilo que designamos por corpo corresponde a uma determinada construção semiótica. Parece-nos que a autêntica conclusão deverá ser capaz de dois gestos: estabelecer o confronto crítico com o percurso desenvolvido e identificar possíveis percursos de trabalho que o estudo foi abrindo mas que. então. antes controla o excesso que está no propósito de qualquer estudo: chegar ao seu fim sem falha.

nem valem todos o mesmo. como retroactivos. intensificações. “L’hétérogenèse machinique”. Paris. nem prestam. são susceptíveis de serem “enunciados”. A noção de máquina interessa-nos. 1998. “lidos”. naturalmente. cognitivos.pt i i i i . Francesco Varela. a partir da aproximação mecânica. a perspectiva cibernética. Os corpos são enunciados em funNobert Wiener. através de palavras. num sentido mais complementar do que equivalente ao anterior. pp. dissemo-lo repetidas vezes. Mais próximo de nós está. Os corpos não são. ambos. investimentos de máquinas abstractas que se intrometem transversalmente aos níveis maquinicos matérias. “representados”. mas todos eles têm um sentido. semióticos. componentes de informação e representação individual e colectiva. as concepções sistémicas mais recentes. meta-máquina. narrativas. estejamos a trabalhar apenas com uma metáfora que traduz. assim parece de facto ser: as coisas aparecem-nos com sentido. Os “mecanicistas” tendem a conceber a máquina como uma construção partes extra partes. componentes semióticas. Paris. máquina semiótica. Galilée. sempre e de cada vez. Era Greimas quem dizia que o ser humano está condenado ao sentido. “interpretados” e “discursificados”. pelas suas ressonâncias técnicas. permitemnos pensar as máquinas como autoprodutivas (geradoras de uma autopoiésis). Mas tal não significa que quando falamos em máquina. Cybernétique et Société. a leitura desenvolvida por Félix Guattari46 para quem qualquer máquina envolve múltiplas componentes: componentes materiais e energéticas. 1. aproxima os organismos biológicos dos organismos maquinicos pensando. uma determinada construção de sentido operada no interior de um determinado contexto semiótico também designado por nós. processos de devir. aberta por Nobert Wiener44 . afectivos e sociais.labcom. contudo. Todos esses corpos. o objectivo é explicitar o sentido. como as que encontramos nos trabalhos de Francesco Varela45 . 45 44 www. isto é. actos de linguagem. o carácter “activo” dos formalismos envolvidos na produção da significação e identificáveis no interior do respectivo contexto semiótico. componentes orgânicas. mas também “escritos”. por máquina semiótica. de algum modo convertidos em corpo-objecto.ubi. os “vitalistas” pensam-no como um ser vivente. Autonomie et Connaissance.i i i i 236 José Bártolo supõe. proposições. IN Chimeres. prestando-se a uma interpretação em nosso entender mais “directa ao alvo” do corpo tecnológico. investimentos de máquinas desejantes. 46 Félix Guattari. 1984. São várias as concepções que a tradição filosófica do ocidente nos dá do conceito de “máquina”. 1-20. um organismo. PUF. Para a semiótica. gestos.

tratando o corpo como se ele fosse uma “narrativa” ou até um “texto”. Tal não significa que se abandone o campo de pertinência propriamente semiótico e que entramos com isso no domínio do “linguístico”. que se encontra expressa. produções várias) que integram classes de elementos pertinentes do ponto de vista da produção do sentido. das condições de produção de um determinado sentido do corpo. Dynamiques du sens. 4. 47 www.”. O que se pretendeu fazer foi. se possível. mas antes representações que incidem sobre as propriedades dinâmicas da estrutura destes estados de coisas. Vale a pena. no terceiro capítulo do estudo. igualmente. Wigley mas. na análise das máquinas semióticas (em particular com a descrição semio-histórica da anatomia ao longo do segundo capítulo e do design ao longo do terceiro capítulo) e se nos confrontamos com algumas interpretações desse funcionamento (Foucault. cedo se afasta do nível em que opera a sintaxe interactancial e se passa a considerar o corpo à luz de outro tipo de regularidades: o da sua “colocação em discurso” e o da sua “colocação em acto”. a propósito. parece-nos. nesse estádio. antes de mais. sobretudo. Em todo o caso. a leitura foucaultiana (o corpo instrumentalizado no interior de determinados dispositivos) introduzida no segundo capítulo. em vários momentos. um breve esclarecimento se impõe. nomeadamente a análise semiótica (que pensa o corpo integrando-o na ordem da significação) presente.i i i i Corpo e Sentido 237 ção de estados de coisas (posições. se nos detivemos. no terceiro capítulo e complementada com a interpretação proposta por Mark Wigley. isto é. no primeiro capítulo. do corpo como objecto de design total. “embraiagens” e assunção do enunciado-corpo pela instância “enunciadora” – que fazem parte da “máquina”. Em relação a esta crítica na qual o estudo supostamente incorrerá. P. Aarhus University Press. Deleuze. na análise dos mecanismos de funcionamento da produção de sentido.47 Provavelmente poder-se-á encontrar no estudo que agora se conclui uma tentação perigosa. antes.ubi. relações. ao contrário. importa sublinhar que a análise semiótica desenvolvida. citar Per Aage Brandt.pt i i i i .labcom. para quem “os significados dos nossos significantes de modo nenhum significam representações de estados de coisas. a leitura deleuziana (o corpo agenciado a partir de determinados regimes de poder) envolvida. Brandt. o seu funcionamento. ressalvar os fundamentos intersemióticos de toda a produção de sentido dilucidando. Pág. nomeadamente. Em primeiro lugar. a de procurar conciliar diferentes interpretações do corpo dificilmente conciliáveis. A. isto é. que o que se fez foi passar. a considerar determinados mecanismos – “desembraiagens” enunciativas e produção de discursos “objectivados” ou. 1994.

Gille. em poucas linhas. Por outras palavras. que intensifica. corpos em devir-cadáver. a verdade é que ao longo desse “confronto particular” se foi fundamentando a ideia de que as diferentes “máquinas” e suas produções poderiam ser integradas numa análise dos percursos gerativos da significação. devires desencadeados por um "destinador"que faz-agir. não há máquina de produção que não seja máquina de enunciação. aliás.ubi. Corpos em devir-monstro. expressou magnificamente a ideia dos “modelos do corpo”. susceptível de ser reduzida ao plano da relação entre as palavras e as coisas. dada a diversidade dos sistemas de linguagem – verbal e não verbal – capazes de serem envolvidos na definição modal das interacções entre sujeitos. Para a medicina. neste sentido. Para uma multiplicidade de máquinas uma multiplicidade de “mundos possíveis” (no sentido de Hintikka mais do que no de Kripke) e uma multiplicidade de corpos. As máquinas são “mundos possíveis” também no sentido em que são provisórias. Sabemos de J. as “palavras” devem ser substituídas pela noção mais ampla de práticas significantes. Neste sentido. Jaakko Hintikka.L. Como entender esta afirmação? Ela não é. que dispõe. 48 www. An introduction to logic of the two notions. Dizer o corpo é fazer o corpo e. Confrontamo-nos com diferentes corpos e com corpos em diferentes processos de devir. Knowledge and Belief.i i i i 238 José Bártolo também. o cadáver é o limite ideal do corpo na sua relação com o sistema da medicina. já citada neste estudo: “1. o corpo de referência é o cadáver. Heidegger.pt i i i i . seja no sentido de Austin (How to do things with words). por outro lado as “coisas” devem ser entendidas como o resultado do fazer de um meta-sujeito que exerce a capacidade ou o poder de fazer-agir. Simondon e uma série de outros). 138-139. Canguilhem. em que funcionam como paradigmas. corpos em devir-texto. Assim. dizer o corpo é fazer o corpo e haverá tantos corpos-feitos quantos corpos-ditos. pág. Jean Baudrillard. seja no sentido de Foucault (Les mots et les choses).”48 . Cornell University Press. 1964. que produz. seguramente. corpos em devir-máquina. Por um lado. Austin que dizer é fazer. repita-se. familiar aos semióticos. Hintikka nos diz que “cada um de nós constantemente se prepara para mais do que uma possível maneira de aparecimento ou devir das coisas. Ithaca e London. antes deve ser integrado no âmbito de uma problemática mais geral.labcom. numa passagem.

outra coisa de todo diferente: a sua alternativa radical. resistência do corpo a significar-se. O corpo como vala. Para a religião. a referência ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da “carne”).labcom. e o ressuscitado para lá da morte como metáfora carnal. processos de transformação do corpo num corpo-outro. Os processos de representação morfológica como quaisquer outros processos são em grande medida culturais. uma máquina produtora. . Lisboa. sob o signo da preservação da vida.) (. porque não pode haver sistema do corpo como anti-objecto. enformada. fazendo-agir a sua permanente produção. 49 Jean Baudrillard. é a extrapolação da produtividade racional absoluta. nem fantasma director. Cada máquina constrói os seus próprios corpos a partir de uma referência ideal que a própria máquina assume e a partir da qual se orienta o seu funcionamento.i i i i Corpo e Sentido 239 É ele que produz e reproduz a medicina no seu exercício completo. antes de mais. o que não acontece nunca sem resistência. a diferença irredutível que os nega. da mesma forma cada corpo-instrumental que ela produz será. 3. 2. 1996. Pág. Em determinada altura deste estudo dissemos que o corpo é. A polisemia do corpo persiste qualquer que seja o modelo de representação do corpo. . também. nem código. a objectivar-se. assexuada (pode ser um robot cerebral: o computador é sempre a extrapolação do cérebro da força de trabalho. Também se pode chamar corpo à virtualidade inversa. Mas para esta – para o corpo enquanto material de troca simbólica – não há modelo. também ela. nem tipo ideal.pt i i i i . nessa polisemia. o tipo ideal do corpo é o robot. integrado no interior de mecanismos produtores como matéria. O robot é o modelo perfeito da “libertação” funcional do corpo como força de trabalho. a ser isto ou aquilo. como se.ubi.”49 . A referência ideal circula definindo não só a posição relativa dos corpos mas. ) Estranho é que o corpo nada mais seja do que os modelos em que diferentes sistemas o encerram e. numa outra posição. Para o sistema da economia política. www. Neste sentido a máquina não é apenas produtora de corpos. ao mesmo tempo. 193-194. carne a ser trabalhada. A troca simbólica e a morte. I. Edições 70. numa determinada posição é um corpo instrumental susceptível de ser integrada dentro de uma máquina mais ampla. fosse a resistência do corpo que se manifestasse.

na economia. nas suas palavras. mostra-nos-ia que não é possível encontrar um corpo que não seja operado. do corpo. antes sistemas de operação. de cada vez. Uma análise da história do corpo. identificar um operador. “O Corpo que vem”. o semiólogo) são também operados. dado que esta operação consiste na convocação e no desenrolar de figuras. Uma história do corpo. mas.pt i i i i . o que deve permitir. Na perspectiva do percurso generativo. www. em Itália ainda no século XIII. no seu Leviatã. Porém. deixou de acreditar no “sentido”: “O ponto de ruptura situa-se no dia em que Lévi-Strauss e Lacan. por Michele Foucault para que os dispositivos de produção pudessem ser postos em evidência. isto é. descrita. tal como ele foi apresentado por Greimas. por Hobbes.”50 Cada olhar refigura o corpo. refigurações. Ainda aí a semiótica prevalecerá sobre a anatomia. a história das suas modelações e produções. no entanto. permite-nos perceber que o corpo foi lido antes de ser visto. A figurativização pode. Pág. um soberano por sua vez formado pelo corpo da multidão humana. onde os operadores (o anatomista. na política. Michele Foucault enquadrava o momento em que. fundada numa semântica herdada de Galeno e interpretada pela escolástica medieval. pois é aquela a estabelecer a linguagem e os modelos de leitura que esta usará. produz uma sua determinada refiguração. antecipa-se e impõe-se à anatomia médica.pt.labcom. identificam-se.ubi. naturalmente. editado on-line em www. 3.triplov. mantém-se fixada nas e pelas estruturas sémio-narrativas. Em semiótica as figuras são os elementos constitutivos da discursificação. foi necessário esperar por Norbert Elias e. na descrição de um estado simbolizado pelo corpo de um gigante. Só no século XVII essa gigantesca máquina semiótica será. A semiótica do corpo. em França no século XIV. a produção do corpo não se reduz a uma relação específica operador/operado. desfigurações. as figuras são convocadas para tomar a seu cargo os valores temáticos previamente articulados e categorizados pelas estruturas estabelecidas ao nível sémio-narrativo. conduzir a uma certa iconicidade do discurso.i i i i 240 José Bártolo É José Augusto Mourão quem afirma que “a história do corpo é a história das várias visões. O mesmo protagonismo desta máquina semiótica far-se-á sentir na ciência. não há nunca um operador. o corpo visto confrontar-se-á com o corpo lido. o primeiro no que se refere às 50 José Augusto Mourão. o padre. Numa conhecida entrevista. sobretudo. de-monstrações. Quando as primeiras dissecações surgem no ensino médico. verdadeiramente. em parte.

labcom. substituindo-o por uma máquina da mais alta perfeição.”53 O desenvolvimento da ciência instrumental moderna modifica. deixam entrar. Pág. de fazeres e de poderes. INCM. O grande instrumento de abertura. abrindo os corpos cadavéricos. no 17. 30. objecto de análise. “Texto”. de modificá-lo. mostraram que o “sentido” não era. 53 David Le Breton. atingir uma pureza técnica. que possibilita tal revolução. na expressão de Cesare Segre52 . definindo as condições de possibilidade. de seus limites. mostramo-lo. David Le Breton afirmao com clareza: “Diante desse despeito de ser constituído de carne. informulável em um contexto de pensamento leigo é subjacente – a de abolir o corpo. 17. da própria discursificação. AAVV. São Paulo. radicalmente. Pág. Uma fantasia implícita. Tradução portuguesa de Marina Appenzeller.ubi. 52 51 www. uma reverberação. um novo olhar que não só reorganiza a carne morta mas que reinventa a carne viva e a partir dela toda uma organização de saberes. provavelmente. o que estava ante nós. Cesare Segre. É como res extensa. correlativas ao contexto semiótico. dá-se com o desenvolvimento da anatomia antiga que rasga os limites da pele para levar a dissecação ao seu termo no desmantelamento do sujeito. a organização epistemológica da cultura medieval. Visão técnica e laica da ensomatose. o corpo é dissociado do homem que ele encarna e considerado como um em si. o que nos sustentava no tempo e no espaço. 152-175.”51 Ao “sistema geral da formação e transformação dos enunciados”. para controlar essa parcela inapreensível. por não se conseguir torná-lo uma máquina realmente impecável. s/d. chama Foucault de arquivo. a partir daí. Portugália. O momento inaugural da ruptura concreta do homem com o seu corpo. Adeus ao Corpo. Págs. Antologia de textos teóricos. Estruturalismo. estrutura que funciona como o normativo do dizível. Lisboa. e o que nos atravessava profundamente.pt i i i i . IN Enciclopédia Einaudi. era o sistema. mais do que um efeito de superfície. Papirus Editora. Tentação demiúrgica de corrigi-lo. o corpo humano é isolado do sujeito humano tornando-se. terão sido os afiados escalpelos dos anatomistas que a partir do final do século XIII. eliminá-lo pura e simplesmente. uma espuma.i i i i Corpo e Sentido 241 sociedades e o segundo no que respeita ao inconsciente. Lisboa. Consagrado aos inúmeros cortes para escapar de sua precariedade. tratamento e reconstrução. Antropologia e Sociedade. pela incisão. matéria ou carne moldável que o corpo se nos apresenta ao longo da modernidade e até aos nossos dias. 2003.

produção semiótica. um sentido idêntico. O operário moderno. Na análise dos processos de instrumentalização do corpo que. Ao longo do estudo fomos falando de diversos regimes de produção do corpo. corpo-instrumento) assumem uma relevância particular. onde uma lógica instrumental que se vai impondo. e a mesma lógica que define o operador como um “instrumento”. os alicates. por exemplo. dos discursos e das práticas provocada pela revolução científico-instrumental. regime de poder e regime técnico surgem-nos numa interrelação decisiva. semioticiza de um modo determinado cada objecto e cada sujeito. sendo indissociável da transformação dos meios técnicos mas. as pinças. parcialmente. numa perspectiva sociossemiótica identifica e caracteriza um novo contexto de produção de significação. Relevância que deve ser entendida numa dupla perspectiva: numa perspectiva histórica caracteriza a evolução do mundo medieval para o mundo moderno – o projecto moderno é sustentado instrumentalmente. Daí ser importante. se praticam dissecações. para uma melhor compreensão dos regimes de sentido associados ao corpo. é fabricado a partir da mesma lógica funcional que orienta a concepção e fabricação de qualquer instrumento www. definirá o operado. Falar de máquinas pressupõe a consideração de determinados processos de organização dos componentes instrumentais.ubi. também eles instrumentos que devem ser “afinados”. reforçando a tese que o corpo corresponde sempre ao resultado de um regime específico de produção. uma análise da história e da filosofia da técnica. produção artificial e produção técnica adquirem.labcom. fazendo do cemitério onde. ocultamente. mais importante. uso instrumental. como mostramos no terceiro capítulo. Regime semiótico. ao resultado do funcionamento de uma determinada máquina. “apurados”. utilizados pelos anatomistas e pelos cirurgiões revelam a importância dos “instrumentos de operação” mas. introduzimos. a noção de instrumento e algumas das suas derivações (instrumentalização.i i i i 242 José Bártolo Os escalpelos. também. “máquinas instrumentais” complexas. do teatro anatómico.pt i i i i . Tão importante como escalpelo é a mão ou olho. do laboratório. a determinada altura. pois a evolução técnica é solidária de uma transformação dos processos de instrumentalização do corpo. revelam a importância de uma nova lógica instrumental.

A análise sobre a existência de máquinas. na medida em que. tende a suspender. petrificam ou são.labcom. ao longo da história. por assim dizer.ubi. como que fundidos com o metal imóvel. De Baudelaire à Benjamin. “Quero partilhar-te-que me fazes? Aterrado e imóvel: o corpo íntimo”. que os inter-liga funcionalmente. atravessado. discursificado. um interessante esquisso de uma “economia politica do corpo” que pressupõe uma redefinição axiológica do corpo e do trabalho (valor de mercado). num sentido próximo de Walter Benjamin.pt i i i i . os reveste. A suspensão dos corpos recorda-nos que algo. a análise da prostituição em Benjamin apresentam-nos. IN José A. à nossa formação de imaginário. tem mostrado como. 1984. a principal reacção física do homem ao deparar-se com criaturas artificiais tem sido descrita como uma súbita imobilidade corporal: da cabeça de Medusa. às nossas práticas. tensionado pelo seu funcionamento. o ensaio de Bojana Kunst. O artificial paralisa. Págs. a imobilizar um sentido. os cinge. 2002. Paris. vejase Christine Buci-Glucksmann. uma produção marcada por uma certa artificialidade. agora. nem sem o sistema. 242-256. 54 www.i i i i Corpo e Sentido 243 técnico: operar como peça de um sistema54 . é o seu verdadeiro limite operativo. e se de cada vez há corpo na medida em que o corpo é enunciado. Nos seus estudos. a réplica de ferro da esposa do ditador espartano Nabis. também. portanto. materializa o poder estabilizador da norma. que o ser humano prolonga o instrumento. Ao serem envolvidos num fluxo artificial os corpos paralisam. os vela. tal imposição. Eles são peças do mesmo sistema que não opera sem eles e que procura afirmar que eles não operam nem um sem o outro. Nesta perspectiva. 55 Leia-se. Tropismos. de resto. Lisboa. Galilée. à força. Daqui se pode extrair que o instrumento prolonga o ser humano. La raison baroque. O operário é o limite aparente do instrumento e o instrumento é o limite aparente do operário mas o sistema que os integra. Nas mitologias greSão conhecidas as leituras de Marx do trabalho como alienação e de Benjamin do trabalho como prostituição. nomeadamente. na perspectiva da sociossemiótica resulta de um processo dinâmico de geração da significação que se dá no interior da máquina social e. a Agipa.). para uma análise do corpo-feminino como princípio interpretativo da alegoria moderna. sempre. estruturas ou sistemas que produzem sentidos que se impõe aos nossos discursos. Bojana Kunst55 . como dizia Greimas. cortado. leva-nos a admitir que. podemos extrair. se o sentido se nos impõe. mas concomitantemente. Bragança de Miranda e Maria Teresa Cruz (Org. Crítica das ligações na era da técnica. devemos aceitar que qualquer corpo é.

1990. reestruturando os seus discursos. antes. são ilustrações “cientifizadas” que representam o funcionamento de uma série de mecanismos que se encontram no corpo humano e. As análises finais deste estudo desenvolvem a ideia de que o corpo-tecnológico. a um processo linear de imposição do pensamento científico-instrumental em detrimento do pensamento antigo. Cit. 57 56 www. Se compararmos duas obras contemporâneas de Descartes. que exige.pt i i i i . a tradição medieval baseada numa complexa rede de analogias entre micro-maquinarias (os corpos) e macromaquinarias (o cosmos). de um modo também gradual. Os corpos não se mantém por si próprios. 353. Bojana Kunst. Spirits and Clocks. para lá do véu não existe mais nada. de que a ficção nos deu várias representações (do Golem ao ciborgue passando pelo monstro de Frankenstein). sendo que o modelo científico vai. Cornell University Press. o Forces mouvantes (1615) de Salomon de Caus e o Utrisque cosmi historiam (1617) de Robert Fludd. Pág. reorganizando as suas ligações. “É o aviso de que o que existe.. que os discursifica. pelo menos. Pág. o que acontece é. a partir do século XV. sacrifício ou morte) exige um véu. mas. 99. não deve hoje ser pensado apenas como uma alegoria que representa as possibilidades de transformação humana através da tecnologia.i i i i 244 José Bártolo gas. Verdadeiramente. as máquinas não têm nada de misterioso. por si só. reinterpretando as suas imagens. Cotovia. cheia de corpos imobilizados e despedaçados. núpcias.ubi.”57 Tal passagem não corresponde. sinal de que “a artificialidade vai lenta mas seguramente passando da mitologia para o âmago do pensamento científico em desenvolvimento. Op. Lisboa. Ithaca and London. cada vez mais.labcom. que os produz. seja uma palavra ou um gesto. 58 Dennis des Chenes. aparecer e desaparecer”56 . Machine and organism in Descartes. semioticizando o modelo antigo. 2000. sobretudo. têm de se cumprir e tudo o que se cumpre (iniciação. As núpcias de Cadmo e Harmonia. não se mantém. de um modo geral. o devir-outro. O véu é o outro. na natureza. que os enuncia. veremos que no livro de Caus. reflectindo. 245. entre essas duas lógicas. ser permanentemente coberto e descoberto. como um projecto. só com Descartes é que a ligação entre o homem e o monstro ou o homem e a máquina deixa de ser perigosa. Pág. contudo. já as ilustrações de Fludd “parecem ocultar tanto quanto revelam”58 . seja uma faixa ou uma ligadura. uma gradual coexistência. A emergência Roberto Calasso.

progressivamente auto-referenciais. Leviatã. Na norma trata-se da estabilização do imaginário através da referência ao semelhante. pois.labcom. idêntica perspectiva de análise é desenvolvida por José 59 www. In Harvard Design Magazine. Summer 1998. sistemas de objectos e interfaces. é nesta perspectiva que se situa o texto de Mark Wigley. Da alegoria para o projecto. Brandt. que projecta arquitecturas em devir-templo. mecanismo que. a imposição das bio-tecnologias confirmam-no. caracteriza a identidade categorial e analógica. a partir do século XIX vamos assistindo. aprendemos de Foucault. por um design total59 que projecta objectos. em devir-fortaleza ou em devir-monumento.pt i i i i . que só se pode entender representativamente no monumento que para ele reenvia. mas antes pela categoria moderna do biopoder. ao desenvolvimento e à aplicação de práticas de fazer-poder (o design) e de saber-poder (por exemplo a medicina) que incidem ao mesmo tempo sobre o particular . quer de um SoftDesign. O elemento que vai circular entre o regimentador e o regulador.i i i i Corpo e Sentido 245 do bio-design. dando conta da necessária intervenção projectual quer no âmbito de um HardDesign. como bem mostrou P. no quadro do biopoder. O poder moderno já não pode ser pensado através da categoria medieval do poder-soberano.ubi. que se vai aplicar da mesma forma ao particular – ao corpo individual como ao objecto industrial – e ao geral – à população como ao sistema de objectos – esse elemento que circula entre um e outro é a norma. sobre o organismo e sobre os processos bio-sociais tendo efeitos regimentadores – imposição de um regime de comportamento – e reguladores – manutenção da ordem do regime de comportamento imposto. como abstracção da guerra. o corpo do individuo – aplicado regras de identidade e sobre o geral – a população – aplicando regras de alteridade que incidem. o protagonismo no interior da cultura do projecto é desempenhado pelo Design. no 5. o protagonismo da cultura do projecto é desempenhado pela arquitectura. “Whatever happened to Total Design?”. recentemente o conceito foi recuperado para o interior da teoria do Design dando conta das transformações sofridas e infligidas pelo Design.o individuo. no quadro do poder-soberano. o desenvolvimento de materiais e tecnologias associadas à medicina de reconstrução. síntese de um regime de poder aplicável ao concreto como função desse concreto – seja ele um braço ou um corpo. materializando intensificações de um poder que se configura comunicativamente como expressão do sagrado. então. uma cadeira ou todo o mobiliário de um escritório. sem exO conceito de “Design Total” foi imposto na teoria do Design pelos pensadores da Bauhaus. como entidade simbólica.A.

a compreensão da vida passou a coincidir com a possibilidade de a controlar. mal o sabemos. “O Artificial ou A Era do Design Total” ambos publicados on-line na revista Interact – www. por isso. no modelo do contrato ou da conquista). mapeamento. pelo menos desde Francis Bacon.pt. de dissecação. que não existe conhecimento científico sem o uso de instrumentos de mediação. ainda assim. lugares que evitamos. ao primado do sujeito). tende a considerar-se que a ciência busca a compreensão e a explicação teórica dos fenómenos. compreendem o organismo humano a partir do modelo da “máquina”. www. Em Vigiar e Punir. às suas “lógicas” (ao modelo do conhecimento. problematização. jamais o saberemos. objecto por excelência.pt i i i i . Normalmente.interact. ficando claro que faz parte do próprio espírito científico compreender para controlar. até ao limite do corpo humano e da vida humana se tornarem objectos de Design que podem ser produzidos e produzidos em série como hoje em dia são produzidos em série órgãos sintéticos pensados a partir do modelo da “peça” e que. uma espécie de meta-cadáver. e que se renuncie. que se renuncie.labcom. por sua vez. e que vão continuamente regimentado a vida. enquanto a tecnologia visa o controlo desses mesmos fenómenos. Jamais saberemos até onde foi possível suportar a dor. Mas. neste sentido. Tratar-se-ia aí do corpo como “conjunto de Bragança de Miranda “O Design Como Problema” e Maria Teresa Cruz.i i i i 246 José Bártolo terior.ubi. O ciborgue é. na metáfora da propriedade. no que se refere ao saber. de tantos documentos históricos onde isso nos levou. até onde foi possível suportar a humilhação. Michele Foucault ensina-nos que analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe. anatomização do corpo contemporâneo: do corpo na contemporaneidade e da contemporaneidade como “corpo” cujo funcionamento parece remeter para a sua permanente interrogação. Sabemos. até que ponto se pode cravar o corpo antes de chegar à alma. no que se refere ao poder. então.com. rizomamento. a ficar-se focado nos seus “jogos” (na oposição violência/ideologia. Não os esquecendo nunca. com uma anatomia politica que não corresponderia ao estudo geopolítico de um estado tomado como corpo. Há. Com os regimes modernos. nem tão pouco ao estudo do corpo e do que lhe está conexo tomados como um pequeno estado. que se defende que não existe ciência sem técnica. sabemo-lo tão bem e. só através dessa dupla renúncia poderíamos sonhar (o termo é de Foucault).

capaz de abarcar. o conjunto das práticas significantes não-verbais.labcom. o que nos auxiliaria a perceber melhor o valor sociossemiótico da higienisização e da odorização que tem. estamos em crer. como sabemos. ser prevista.ubi. Recordemo-nos. ser capaz de aplicar essa análise da higiene ao mundo dos objectos. então. os discursos devem ser “limpos”. Ao longo do nosso estudo. Pág. Nesta perspectiva. um hardware passível de melhoramentos (um corpotecnológico). dos tempos e das situações de interacção micro e macrosocial. “higiénicos”. de facto a ciência instrumental moderna constrói-se de um modo fundamental envolvida nessa semioticização particular dos instrumentos. permitiu-nos desenvolver uma problemática politica dos corpos. uma importante tradução histórico-politica.i i i i Corpo e Sentido 247 elementos materiais e das técnicas que servem de armas. e que nos parecem não ter merecido até à data um cabal desenvolvimento. a título de exemplo. progressivamente. desde já. de reforço. os gestos. de vias de comunicação e de pontos de apoio para as relações de poder e de saber que investem os corpos humanos e os submetem fazendo deles objectos de saber”60 . uma nova ampliação da problemática pode. o espaço de trabalho. da manipulação intersubjectiva e das estratégias. A leitura que. os operadores. 60 Michele Foucault. sucessivamente analisando essas relações de poder e de saber que investem os corpos e os submetem fazendo deles uma carne significante (um corpo-signo). que nos permitiria. alguns deles relevantes para desenvolverem determinadas perspectivas teóricas por nós levantadas. como espaço de interacção e como conjunto amplo de processos cuja análise pertence fundamentalmente a uma gramática narrativa. uma matéria moldável (um corpo-objecto). correlativa da sua higienisização: os instrumentos científicos. e de uma teoria da enunciação. que se manifestam na diversidade dos espaços. problemática politica no sentido mais amplo do termo. fomos. tal investigação deveria. em direcção a uma teoria das relações de poder em geral. perceber melhor como diferentes sociedades utilizam os odores como técnicas corporais. fomos também. e mais precisamente. fomos desenvolvendo sobre os processos de produção de sentido do corpo. ainda. da importância de se desenvolver uma semiótica da higiene. isto é. www. além da esfera dos discursos propriamente ditos. Ao longo do nosso estudo.pt i i i i . “assépticos”. identificando uma série de possíveis percursos de investigação. ou seja. Vigiar e Punir. a uma semiótica da acção. 27.

essa Em português a referência vai para A. refere-se a um campo que. entre nós. de uma conversa de baixo nível”. o gesto instrumental. no entanto. Da ética. em particular. inaugurada. Sabemos que Robert Cresswell. no entanto parece-nos faltar uma análise que. Mínima Moralia. anotamos a ausência de estudos capazes de trabalhar. De igual modo.ubi. Paolo Fabbri entre outros desenvolveram alguns estudos de semiótica do gesto61 . W. fixar campos de pertinência ou de referência. 62 T. Igualmente importante seria o desenvolvimento de uma actual semiótica das práticas e das linguagens gestuais. Alguns estudos de ergonomia e de semiótica das interfaces têm-se aproximado da questão sem. as circulações de sentido entre o funcionamento das máquinas e o funcionamento dos corpos. foi considerado como o próprio da filosofia (. 7. 61 www. Greimas et al. Alguém decide pela nossa morte como decidiu pela nossa vida. Greimas. por José Augusto Mourão. “as discussões sobre o significado das palavras “vida” e “morte” são índices. durante muito tempo. . Muitas destas e outras linhas de investigação (a necessária actualização da proxémica capaz de dar conta das tensões geradas pelas novas interfaces. com o objectivo de apreender uma dinâmica da produção social do sentido. seja capaz de desenvolver e actualizar a importância dos gestos no quadro de uma teoria da significação. actualmente.) carecem. . Práticas e linguagens gestuais. em biologia. 1951. etc. o gesto técnico. ). Alguém decidirá pela sorte do nosso corpo depois. Julia Kristeva. em relação a elas. François Rastier. no entanto. J. tal como decidiu durante e tal como decidiu antes.i i i i 248 José Bártolo Esta cultura da higiene científico-instrumental teve um importante impacto sócio-politico que. 1979. a economia do trabalho não nos permitiu aqui desenvolver. neste aspecto.. Pág. o desenvolvimento de uma semiótica do híbrido. senão mesmo isolar estruturas. de um desenvolvimento que possa. ainda. se revelarem.labcom. Adorno. na perspectiva da sociossemiótica. Lisboa. Vega. constituir tipos. mas conceitos políticos que adquirem significado na medida em que estão envolvidos numa decisão. decisivos. Segundo Medawar. a doutrina da vida correcta”62 . da qual ofereço a meus amigos alguns fragmentos. Frankfurt am Main.pt i i i i . As Mínima moralia de Theodor Adorno começam com um refrão melancólico sobre A Gaia Ciência de Nietzsche – com a confissão de uma incapacidade: “A ciência triste. vida e morte não são propriamente conceitos científicos.

O cepticismo justificado de Horkheimer em relação à esperança imensa de Walter Benjamin numa força reparadora da memória humana – “Aqueles que foram abatidos estão realmente mortos” – não desmente o impulso impotente que persiste em mudar o mundo. www. o nosso conhecimento não tem outra luz senão aquela que a redenção faz brilhar sobre o mundo. e em cada corpo. haverá sempre.ubi.pt i i i i . há. dizia Kierkegaard. mas quando acontecer só poderá ser recebido por aqueles que mantiveram a esperança. E no entanto. tanto se pode chorar como rir ao se perceber que todo esse saber e essa compreensão não exercem nenhum poder sobre a vida dos homens. Quando menos o esperarmos aquilo que tanto esperámos pode acontecer.labcom.i i i i Corpo e Sentido 249 ciência triste. uma promessa.

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