ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

por alguma razão estranha e desconhecida. Os . Na história da escrita.C. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. só com muito estudo. a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. Nesses casos. pois. A alfabetização é. ou seja. Quando esse elo se rompe. permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. De certo modo. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. por abandono ou porque é trocado por outro modelo. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que. tão antiga quanto os sistemas de escrita. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados. A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. deixaram de fazê-lo. quando Micenas foi destruída.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização.. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas.

No vale do rio Indo. ao que tudo parece. Por essa razão. Naquela região. O primeiro . < CAGLIARI. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. 106-24. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas. pelo contrário. com a escrita brãmane. 1996b.. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos. ~.C. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si. no século III a. a escrita só ressurgiria muito tempo depois.p.C. Curiosamente. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita. percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. usando o alfabeto semítico. ou seja. esses dois tipos de escrita. tiveram um uso muito popular. sempre foram simples e práticos. A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde.

fundador do Império Babilônico. Essa é uma idéia errada e estranha. O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado. Ao ler o que ele ..representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte.c. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade. É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI. Os fatos históricos também mostram o contrário. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado. certamente. não pensa. os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado. que não faz sentido algum. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas.

representando ~. O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes. Naquele momento. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. <13> animais. às vezes. numa caverna. pessoas.mandou escrever. ficamos sabendo que. Depois. assim como. médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno. Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade. o texto tem como interlocutor o próprio povo. um livro de medicina por um médico. um livro de religião por um teólogo e assim por diante. hoje em dia. objetos e cenas do cotidiano. ficou pensando no que tinha . um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. à noite. súdito do monarca. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. Na Mesopotâmia. Isso não significa que somente engenheiros.

a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. porque pertence ao reino do pensamento. quando representa uma palavra. figurativas ou não. era um passo fácil de ser dado. é apenas um desenho.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito. Para isso. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. podiam servir também para representar palavras que. quando uma forma gráfica representa o mundo. criar um sistema de formas gráficas. e usado provavelmente para contar o gado. além de representar objetos da vida real. mas revela algo importante. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. Provavelmente. Nessa época de escrita primitiva. os desenhos. por sua vez. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. além dos números. era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. mas. A partir dessa descoberta. Ou seja. De acordo com fatos comprovados historicamente. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história. passa a ser uma forma de escrita. numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. A humanidade descobria assim que. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais. ser alfabetizado significava .

o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los.. ou seja. Os maias da América Central .. como. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala.C. por volta de 3000 a. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~. por volta de 1500 a.C. fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade.C. A escrita. e na China. na Suméria. por volta de 3300 a. começou de maneira autônoma e independente. pelo que se sabe hoje. É muito provável que no Egito. por exemplo. esse processo autônomo tenha se repetido. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente. Com a expansão do sistema de escrita. as sílabas. a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente. em média. <14> por língua. repetindo um modelo mais ou menos padronizado.

Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios. de uma maneira ou de outra. Aqui. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral. nesses casos. certamente. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. num tempo indeterminado ainda pela ciência. que eram estudados exaustivamente. Finalmente. passavam a escrever seus próprios textos. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. escrevendo para a sociedade e a cultura da época. a ler. A alfabetização.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. A curiosidade. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. devia ser o procedimento comum. já que não pretendiam tornar-se escribas. que talvez se situe por volta do início da era cristã. Aprender a decifrar a escrita. contato com algum sistema de escrita. dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. ou seja. Na Antiguidade.

ler. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal. esse nome passou . Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado. da escrita cuneiforme. Para quem sabe ler. <15> Ao formar seu sistema de escrita. o processo de alfabetização. que era oclusiva glotal. por exemplo. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. a primeira palavra da lista era 'alef. os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais. ou seja. a lista ficou apenas com consoantes. que significava "boi". E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes. Além disso. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. sem dúvida alguma. Para representá-las graficamente. escrever é algo que vem como conseqüência. Por exemplo. a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef. Dessa maneira.

e. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. já se tinha um som para ela. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa. que significava "porta" e representava o som de D. ou seja. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. e assim por diante. O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras. tinha a forma gráfica da figura de uma porta. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. A terceira letra era o Daieth. pronunciando. tirada também de um hieróglifo egípcio.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. dava o resultado final de sua pronúncia. feitos os devidos ajustes. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. era usada para o som de B e significava "casa". Uma vez identificada a letra pelo nome. bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. o significado vinha automaticamente. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. . por exemplo.

aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. mantendo o mesmo princípio acrofônico. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi. a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. como vimos. mas também as vogais. para escreverem alfabeticamente. procurar. na lista de letras. por exemplo. bastava identificar as consoantes DVD. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. em grego. a letra 'alef passou a representar a vogal A. . Já os gregos. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. Assim. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas.usando o princípio acrofônico. Como sempre. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada. por exemplo. Para escrever David. como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. mas também as vogais. 'alef. uma vez que. Para eles. resolveram escrever não apenas as consoantes. ou seja. Apesar de manter o princípio acrofônico. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. agora denominada alfa.

Práticos como sempre. inclusive o alfabeto. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. A alfabetização. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. cê. De fato. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. Os semitas. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. beta. por assim dizer. e. transformaram-se em a. dê. na ordem tradicional dos alfabetos. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto. etc. delta. serviam ~. acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . bê. épsilon. <17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. ou mesmo quando fossem escrever. gama. Dessa forma. etc. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. Tais documentos foram. Foi assim que alfa. Na verdade. na Idade Média.

a qual se completava quando. mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. pois. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa. facilitadoras do processo de decifração. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar.c. somando-se os valores das letras. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir.ensinava a quem não sabia. como as crianças já não iam mais à escola. entre as várias possibilidades. Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. Ainda hoje. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga. a leitura correta. Vê-se. a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. que é a chave de sua decifração. as que podiam eram educadas em casa pelos pais. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. Nessa época. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem. . Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. descobria-se que palavra estava escrita. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando.

reconhecendo a que . ainda. agora. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. "CASA' equivale a "casa". o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. saber fazer a categorização correta das formas gráficas. que podia ser representado por muitas formas gráficas.outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar. Agora. que passaram a chamar-se maiúsculas. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. em geral. seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso. as quais. o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. portanto. <18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse. Não bastava saber o alfabeto.

categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. ainda através da ortografia. Freqüentou a escola por apenas três meses. Este último aspecto pode ser observado ainda hoje. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. Na escrita cursiva. quais letras devem compor aquela palavra. Como sabemos. . era americano de Milan Obio. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra. passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". esse princípio é posto em prática a todo instante. uma esprofessora. inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema. Notas Thomas Alva Edison (1931). ao analisar o todo. considerado um dos maiores inventores do milênio. do ponto de vista fonético. Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. Patenteou 1093 inventos. Nesse caso.

Nessa época. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas. juntamente com este trabalho. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas". Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e. na ordem do alfabeto. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. Por isso. a preocupação com os leitores aumentou. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. uma vez que agora se faziam livros para um público maior. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada . Em 1525. cada qual iniciando com uma letra diferente. <19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. sobretudo. apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. Essa obra era voltada para a alfabetização do povo.O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. com o uso da imprensa na Europa. deixando de lado cada vez mais o latim.

em 1702. a . uma destinada aos alunos principiantes. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". Em 1527. chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). a letra A com a figura de uma escada. orações e os algarismos. mais conhecido como Comênius (15921670). numa obra semelhante. que continha o alfabeto. por exemplo. Com essa obra. publicada em 1658. fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). O ensino era dividido em "lições". publicado em 1720. Valentim Ickelsamer incluiu. apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. a letra S com o desenho de uma cobra.Bokeschen vor leven ond kind. inclusive as de alfabetização. Somente no século XVIII. um regulamento para as escolas que fundara. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. listas de sílabas simples. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. os dez mandamentos. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. O educador tcheco Jan Amos Komensky. etc. cada uma tendo três partes. outra aos médios e a terceira aos avançados. São João Batista de la Salle escreveu.

Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. a terceira. para o trabalho na <20> sociedade. a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. Para ensinar ortografia. Nesse modelo de ensino. estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. O ensino é nitidamente coletivo. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. aparece uma distinção clara entre ler e escrever. Após a Revolução Francesa. o silabário. O pedagogo alemão José Hamel.segunda. coisas úteis para a vida. etc. Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. o segundo livro. em sua obra Ensino Mútuo. a "tábua das sílabas". O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um . No terceiro livro. o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. surgiu o Ensino Mútuo. para aprender a soletrar e a silabar. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. os alunos aprendiam a ler com pausas. a quarta. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. ao mesmo tempo. descreve o método de alfabetização em detalhes. a escrita.

O estudo foi dividido em lições. o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. Com poucas modificações superficiais. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer. as escolas infantis. jardins de infância ou escola maternal. membros da burguesia. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. Com a escolarização.tipo de escola para as crianças. os alunos que freqüentavam essas . A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo. cada uma enfatizando um fato. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. na Escócia. O ensino silábico passou a dominar o alfabético. Diante dessa nova realidade.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. passaram a ser mais desenvolvidas. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. ou seja. introduzindo a alfabetização como matéria escolar.

Muitos professores queixavam-se dos baixos salários. A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização. os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano. até as primeiras décadas deste século. que é um outro diminutivo de "carta". depois. No Brasil. publicou a Cartinha. publicada em 1540. O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta". O povo simples e pobre continuava fora da escola. Naquela época. CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga. no sentido de esquema.escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. . junto com a gramática. que eram as da imprensa da época). razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. mapa de orientação. ao lado de "cartilha".

as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. <22> A cartilha do ABC. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa. tendo o nome das letras como guia para sua decifração. O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. a pessoa decorava o alfabeto. próprio do alfabeto. interpretando. uma vez que a escola naquela época não alfabetizava. tesoira. Por último. nas "taboas" (ou tabuadas). vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. etc. Para se alfabetizar. havia uma lista de palavras.vinham as "taboas" ou "tabelas". O livro servia igualmente para adultos e crianças. Notem que a ortografia não tinha vez. e depois punha-se a escrever e a ler. com todas as combinações de letras.). A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. para pôr em prática o princípio acrofônico. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". Em seguida. decorava as palavras-chave. que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de .

Essa obra merece um estudo detalhado. dessa forma. chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever. ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. o aprendiz . Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras. de 1853. até hoje aparecem nas cartilhas modernas. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. <23> Além do método de Castilho. segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros. outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896). chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. desenhando-as com hachuras. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. Muitas pessoas que não podem ir à escola. fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. publicada em 1850. A segunda edição. manuscrito. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade.trem e rodoviárias.

haja um destaque à leitura. depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). publicada no Rio de Janeiro em 1859. embora.se concentrava no que de novo era apresentado. Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. encontra-se. Entre . o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. então. Essa cartilha foi. seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". depois individual e. sem dúvida. Entre os livros que pertenceram a D. Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. no título da obra. Pedro II. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. de João de Deus. apareceram inúmeras outras. <24> No Brasil. passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. vêm os exercícios de escrita. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura.

O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. . ou seja. têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático. Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. do mesmo autor.elas há quatro tipos bem marcantes. Com a Cartilha maternal. é um tipo de cartilha. e o famoso Teste ABC (1934). apareceram mais obras que seguiam o método misto. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos. Com o passar do tempo. A cartilha Caminho suave (1948). de Lourenço Filho. com o período preparatório. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. começa o método analitico. de Branca Alves de Lima. Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação. Um livro como Primeira leitura para crianças. Joviano. Na introdução. que vai assumir importância maior na década de 30. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades. cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico. de A. desde a letra até o texto. é um bom exemplo. No final dos anos 90.

Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. Copiava-se muito. Achavam importante ensinar o abecedário. seguindo a ortografia da época. ou seja. trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. autores famosos da literatura. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras. e os modelos eram sempre os bons autores. voltado para o padrão social. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. . por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia). a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores. Como acontecia com as gramáticas.Nota Primeira leitura para crianças. de A.

agora. quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres. apareceram as palavras-chave. mas não era. o aluno começava seu livro de leitura. Parecia que ia dar certo. mas não foi bem assim. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. A cartilha parecia um caminho suave. até recentemente. Em lugar do alfabeto. já na década de 50. que empregavam dialetos diferentes da fala culta. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. em seguida. era aprender a escrever palavras. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. E a escola percebeu . por uma modificação radical. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. O importante. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. Completadas todas as letras.

Apesar de todos os esforços para superar essa situação. muitos alunos abandonavam a escola. não conseguindo superar essa barreira inicial.logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização. outros desistiam logo depois. cerca de dez por cento. Diante de um quadro desolador e perturbador. ou seja. o correspondente à oitava série do primeiro grau. a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. A primeira coisa que saltava aos olhos era . conseguiam concluir a última série do ginásio (na época. Diante dessa realidade. e apenas uns poucos. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes. A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos. pais e professores. do ciclo II do ensino fundamental). <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento.

Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. com raríssimas exceções. e vão. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. pois. dar uma ajuda especial aos professores. então. uma orientação mais pormenorizada. dizendo o que o professor e o aluno devem . Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula. Era necessário. em seguida. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. partem ~. o índice de repetência continuou assustador. como a Cartilha Sodré. Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. comprometendo assim o processo educativo. a dificuldade deveria residir nas crianças. o que podia dificultar a sua aplicação.o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. subsídios mais práticos para uso em sala de aula. As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente. Mesmo assim. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação.

Se o aluno responder diferente. nem eles próprios tinham entendido muito bem. uma estultícia. sendo determinada a fala de cada um. para ver se o aluno aprende. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. O período preparatório A partir dos anos 50. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. sem formação lingüística. Muitos alunos pesquisavam para teses. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. carentes de estímulos ambientais. Sem formação pedagógica. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos. Carentes de alimentação na infância. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores. Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. aplicando teorias que. o que é. porém. Nenhum diálogo.fazer. muitas vezes. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. a escola foi buscar socorro nas universidades. necessários para que . a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. senão a lição não funciona. obviamente. passo a passo.

1997c. Assim. como alguns chamam. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". p. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. não podiam aprender. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. fazer o ~.pudessem desenvolver o conhecimento. <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. etc. carentes de praticamente tudo. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. fazer bolinhas. enfim. Para resolver o problema. Além da cartilha e do manual do professor. então. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola. localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo". completar figuras. uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". o chamado período preparatório. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. 193224. CAGLIARI. Os psicólogos inventaram. A .

sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. com mil teorias acadêmicas. Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. por causa da história de vida . A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. Mais antigamente. mas que era um grande equívoco. Por trás de tudo. ao entrar na escola. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem. mas as conclusões são muito evidentes. do que as crianças ricas. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto.discussão é longa. sobretudo da noção de variação lingüística. Em meio a tantos equívocos. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. envolvendo questões de linguagem.

segundo a opinião desses acadêmicos. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. excepcionais e carentes. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto. motora. no entanto. simplesmente porque falavam ou escreviam errado. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. Perguntar a uma criança se uma . Aliás. Para não escrever espelhado. psicológica. e vice-versa.de cada uma e da natureza das nossas escolas. perceptiva. Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. justamente por causa dos exercícios de prontidão. ou seja lá o que for. ninguém aprende a escrever nem a ler. na verdade. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. Fazendo curvinhas. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos. Isso. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade.

Está tudo tão errado. Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade. Por coisas como essas (e tantas outras. o que. simplesmente exemplifica. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque. são sempre muito dóceis e condescendentes. quando responde. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante. que a melhor solução é abandona-lo por completo. o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado. de fato. porque o próprio professor não sabe responder e. Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela. não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de".. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão. não é uma resposta à pergunta que fez à criança.. sem dúvida alguma. Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto. que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças..caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico. que contribuam de fato para o processo de . a criança fazer o que lhe foi dito. você pode pegar que é todo seu" e deixar.. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes.

A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI. ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. Quando o professor diz que não adota a . Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental. por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida. Uma delas.alfabetização. demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. Algumas idéias. a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres. mesmo plenamente justificáveis. 1 996e). de valor inestimável. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997). cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação.

número. grau. Velhas idéias. Contudo. Por outro lado. até chegar ao amadurecimento esperado pela escola. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. gênero. porém básicas. como o estudo de categorias gramaticais. fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos.cartilha. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos. as relações entre letras e sons. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. continua usando o método da cartilha. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. a ortografia. o "entulho" que se acumulou com o tempo. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. . que é a linguagem. como ensinar o alfabeto. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. tem sido removido. etc. estão voltando a ter importância na alfabetização.

um incorporando a terceira. enfim. a sétima e a oitava série. A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. uma vez que agora a promoção era automática. juntando a primeira e a segunda série. mas a formação. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". alguns ~. a sexta. o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo. Infelizmente. Apesar disso tudo. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. Desse modo. a instrução. Além disso. a começar pelo estado de São Paulo.Num esforço de muitas pessoas. a quarta e a quinta série. a educação. com grandes vantagens para a educação como um todo. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. só foi posto em prática o cicio básico. e outro. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho.

proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. uma melhor interação entre professor e aluno. as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. Porém.A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. Aqui. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. infelizmente. nas primeiras séries. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados". constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem. vemos como a escola veio para complicar tudo. que tinham todo o processo preparado de antemão. métodos e livros. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. como em outros campos. já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. Por outro lado. . mas. tornou-se um pesadelo na escola. A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade.

Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. vítimas da própria incompetência. foram experimentando todos os "pacotes". sobretudo. ditando ~. todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. lingüístico. semiótico. Os professores. mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho. Como as escolas de formação de professores para o magistério. construtivista. Se sua competência já era muito .Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. global. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. <32> as normas pedagógicas. quer. freinet. de acordo com os modismos da época. quer ditando as regras da burocracia. atormentados com tantas mudanças. o que é certo e o que é duvidoso. lúdico. fônico. achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo. analítico. psicopedagógico. é o método sintético. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". não conseguem dar a formação necessária para os professores. etc. o que é verdade e o que é engodo. desse modo. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo.

MAGNANI. ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. é um professor malpreparado. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam. metodologia psicologia é importante. Alguns.limitada. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor. Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. 1992c. que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. incompetente. dando as razões de sua conclusão. diante de tantas "experiências educacionais". 1993. agora além de tudo ficou confusa. Estudar pedagogia. quer se trate de um "pacote educacional. Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. CAGLIARI. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. O fundamental é saber . e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos.

. na alfabetização. aliados aos de pedagogia e psicologia. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores. fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas. como também não . em especial. de fato. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. Resumindo. isso só se obtém com a competência do professor. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica.como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. não só existem milhões de pessoas analfabetas. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia.). teríamos. Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico.. a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive. O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e. Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. Esses conhecimentos. como também pessoas que foram. Hoje. nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética). em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo. neste país. mal alfabetizadas.

O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos. Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem. além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização. A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta. Nada substitui a competência do professor e.alfabetiza somente com lingüística. <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. apenas . Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire.

já não sabem mais no que acreditar. retomando uma visão correta do fenômeno. no mercado. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. . Como o assunto é muito vasto e complexo. Para isso. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. é preciso voltar às origens. rever a história. e sobre ele já existe considerável literatura. acaba confundindo seus leitores. bem como conhecer as limitações de cada um.uma ferramenta. fruto da indignação metodológica. aos princípios básicos. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. ou mesmo contraditórias. aprendizagem e métodos. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. em meio a tantas posições diferentes. Daí o descrédito de alguns professores na educação. Por isso. os quais. Existe. é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. às coisas mais simples e claras. Às vezes.

para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir. O que é importante para quem ensina. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação. etc. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. . de acordo com sua história de vida e. Muitos aceitariam a diferença sem problemas. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. como fruto inevitável do ensino. 1990. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente. CAGLIARI. o que é um erro grosseiro. PATTO. na teoria. raramente. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. 1990.Por incrível que pareça. pode não parecer tão importante para quem aprende. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. acompanha passo a passo a ordem do ensino.

No ensino. Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. que um aluno automaticamente aprende. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. Ela vai aparecer somente quando a pessoa. é muito importante o que se diz. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. em detrimento do processo de aprendizagem. gostam de manter classes homogêneas. sempre que oportuno e possível. por ação própria. Por isso. não ocorre exatamente uma aprendizagem. a partir da iniciativa individual de quem aprende. ao contrário do ensino. Quando simplesmente se repete um modelo. o que se faz. mas criar algo semelhante. de seu metabolismo . na aprendizagem. para facilitar o processo de ensino. entre outros fatores pedagógicos. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. fazendo remanejamentos. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. mas cada aluno deverá aprender por si. Não é porque o professor ensina. de seus interesses. mesmo quando o fazer significa dizer. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos. seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. Aprender depende muito da história de cada aprendiz.

uma classe. Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". com um colega. É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. todavia. corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como. O fato de se ter um professor. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. por iniciativa própria. que se aprenda com os pais. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". Afinal. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. não é porque um professor não ensina algo. o que compete a cada um. Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. Por outro lado. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. As atividades de sala de aula estão voltadas para o que . antes da escola. Nada impede. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola.intelectual. o que cada um espera do outro. A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. Sem uma visão clara e correta da atividade escolar. aliás.

Há muitos professores e profissionais da educação. tentar fazer. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares. Um aluno pode ensinar ao outro. A insensibilidade dos professores.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. Infelizmente. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. Na maioria das vezes. refazer. nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. Falta o professor educador que em . se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. mas poucos educadores. refletir. pensar. etc.

A educação. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. professores que. é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. aquilo que os educa. sem respeitar a individualidade de cada um. não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. pararam seus estudos. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação. Infelizmente. para <38> a vida. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão. honesta e adequada.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. depois de formados. Está na hora de devolver a educação aos educadores. de maneira clara. no Brasil. ou seja. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. de fato. seu modo de ser e de trabalhar. Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua .

não há escola. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. sem escola. Sem o professor. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer. tem-se um amontoado de leis e regulamentos.obrigação diária de sala de aula. A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. mas. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. Em vez disso. Ninguém parece confiar mais no professor. São professores que sabem ler e escrever. mas não usam esse conhecimento. não há educação de massa. <39> DOIS MÉTODOS . Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. e. Muito se fala sobre o assunto. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. de que o Brasil tanto precisa. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais.

Por outro lado. Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . pois cada um aprenderia por iniciativa própria. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo. Por essas razões. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. por iniciativa própria. como também não pode viver só da aprendizagem. na sua essência. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem. Nos estudos pedagógicos. sobretudo. na medida adequada. as escolas não precisariam existir. quando. às vezes com conseqüências sérias. A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. caso contrário. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. tem dois métodos apenas. saber que aprendeu. aquele que tem tudo sob seu comando. pode-se dizer que a educação. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. entre outras. o professor não pode ser o dono da educação. caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem.A educação não pode viver só do ensino.

Talvez por isso mesmo. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. de certo modo. método mecanicista. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. o método 1 e o 2 servem . algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. Por essa razão. No entanto.produzido uma vasta literatura a respeito. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. no fundo. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. São as variantes das duas vertentes principais. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2. a seguir. por exemplo. baseiam-se em um dos dois métodos básicos. no seu extremo. como. Em primeiro lugar. apresenta-se. <40> método construtivista. Há uma tipologia de métodos que. considerando os seus processos de argumentação. etc. Toda essa discussão pode. método indutivo. método dedutivo. método global. método fônico. podemos dizer que todos os métodos. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2). o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. tem as características básicas apresentadas abaixo.

Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição". devem seguir um modelo prévio. quem ensina e quem aprende. tendo de decidir entre o . pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. na prática. dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. O aluno procura sempre responder. Inversamente. nesse momento. como funciona. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. nos métodos que a escola usa. em nenhuma cartilha. na alfabetização. A linguagem exerce. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino. Na verdade. com o que faz. Não conheço. Por exemplo. tudo gira em torno dela. Por isso. qual é a concepção de linguagem subjacente. que usos tem. uma importância fundamental. transmitido como ensino.

ainda. mas que irá atrapalhar. Há. pensam e falam o que quiserem. Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia. Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". do jeito que acharem mais conveniente. o problema da ortografia. aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. trata-se de regras lingüísticas diferentes. o que é falso. Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função . ou por influência da educação escolar. e muito. quando as pessoas usam a linguagem. simplesmente. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. na vida real. quando falamos. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido". que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia". Ora. não têm esse tipo de preocupação: elas. Nenhum falante acha que fala errado.certo e o errado. a não ser na escola. porque.

Basta refletir um pouco. ocorrem tomadas de posição.mais importante da linguagem. A linguagem também serve para comunicar. Nesse caso. transmite-se uma cosmovisão.. quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte. esta não se reduz apenas a comunicar. mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem. a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação. que essas verdades logo se revelam. Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar". O MÉTODO 1.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino. é a comunicação. A comunicação é uma função importante da linguagem. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário.. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo. porém. Atrás de notícias encontram-se censuras. nem talvez a mais usada. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida. Ora. . Quanto de enganação. senão a única.

isso é muito conveniente para quem ensina. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização. uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. Nesse quadro.<42> o marco zero de uma caminhada. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor. No começo do ano. Nas séries mais adiantadas da escola. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. Os alunos que se virem. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. na alfabetização. de todas as formas possíveis. é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos. Obviamente. Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. A técnica A técnica do método 1. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um. porque os alfabetizadores já aprenderam. dando chances iguais para todos. que alunos vão ter. O método 1 considera que a melhor . essa é a regra geral. dizem. sem sequer conhecer seus alunos. em todos os seus níveis. que não podem ser tão cegos assim. mas é má pedagogia. o professor programa o que vai ensinar. na prática.

desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). pode-se descobrir que é possível formar palavras novas. no primeiro exemplo. Com esses pedaços. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. TA. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons).maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. "bata" e "taba". escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". Assim. segundo o professor. extraídos das palavraschave. Depois. Com alguns pedaços de palavras. Por exemplo. Nesse caso. desmontando BATATA. Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. Em seguida. ou montando coisas novas a partir de pedaços. As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. uma palavrachave. mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. Por exemplo. e que sabem juntar os pedaços de palavras. Feito isso. a palavra é remontada. diferentes das palavras-chave. tem-se BA. Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. pode-se formar as palavras "Tatá". TA. por exemplo. formando "palavras . o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. parte-se sempre de um modelo exemplar.

mas não sabem de seus limites e usos reais.. quem deve saber essas coisas é o professor. que diz que. forma-se uma palavra nova. foi mais por culpa do professor do que dele. E.. juntando dois pedaços de palavras. . alguns professores. Por mais estranho que pareça. Aprendem o jogo da escola. apenas uma estratégia de ensino escolar. porque o método não ensina isso. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. no segundo caso. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias. A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda. saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa". Ele apenas faz a lição. que a criança nunca tinha ouvido. diante de fatos como esse. que sabe tudo. porque seguem apenas as regras do jogo. Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita.novas". como sabia antes o que significava "taba". liga os pedacinhos de letras para formar palavras. se aconteceu. não ele. Na linguagem oral. achando que o professor.). o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. isto é. vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. porque além de tudo aquilo que não entendeu. as crianças ligam os pedacinhos.

que deve ser aprendido. Dominado ou aprendido algo. passa-se ao conteúdo seguinte. ou seja. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. A base desse . Na escrita. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. não porque falamos desse modo. Aprender é dominar. Por outro lado. de fato. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua.falamos tudo junto. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. uma após a outra. para que os alunos aprendam a ler. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. as quais o aprendiz precisa dominar. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos. Não falamos fazendo pausa após cada palavra. Ora. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons. A base: o já dominado Com o método 1. separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. fazendo pausas apenas em alguns lugares.

repetindo-a corretamente. pois. Conseqüentemente. Por exemplo. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. enquanto não provar que já o faz. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. embora garanta. Esses professores mostram que usam o método 1. fazem sem erros os . o conhecimento já dominado. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. Portanto. Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. Para isso. decorar é fundamental. dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem. nunca se questiona o ensino. acabam revelando sua ignorância.método é. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. Na alfabetização. mas tãosomente o comportamento do aprendiz. e. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. Nesses casos. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. produzindo escritas absurdas. sim. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado.

A memorização é fundamental no processo de aprendizagem. quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho).ditados das palavras já dominadas. Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado. Neste. O uso da memória O uso da memória. o já dominado apenas revela um modelo repetido. não chegam <45> a se alfabetizar. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". No processo de . para o aluno. mas não pode ser um truque. Esses alunos foram ensinados pelo método 1. ou não fazem nada. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. mas. principalmente. e o resultado é uma enorme decepção para ele e. como acontece no método 1. como se decifra algo escrito para ler e. nas atividades escolares. é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. conseqüentemente.

Memorizar é fundamental. de que a memória não tem vez na aprendizagem. São duas realidades muito diferentes. querendo fugir desse esquema. convencem-se. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada. Por essa razão. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. Outras vezes. e de que aprender é entender e não decorar. trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas. Às vezes. a memorização faz parte do processo de reflexão. como se esperaria de alguém que tem bom senso. São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido. Obviamente. palestras ou lêem em livros. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável. isto é. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. como acontece com a prática pedagógica do método 1. disposto numa ordem necessária.aprendizagem. alguns professores. o .

até certo ponto. E difícil. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. a organização hierarquizada é uma atitude esperada. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente. É claro que alguém precisa aprender a ler. No entanto. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. Será que as coisas são mesmo assim. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros. por exemplo.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. Isso acontece porque partem do pressuposto que . tais afirmações são tão gerais. No entanto. e talvez seja mesmo impossível. para o processo de ensino. utilizada pela educação nos currículos escolares. mesmo em sua forma sistematizada. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. que não se aplicam ao que se quis dizer acima.

Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. por exemplo. "andando") tem uma dificuldade . e não ao processo de alfabetização. esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles. no começo. Para quem duvidar disso.escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. Para uma criança que não sabe ler nem escrever. Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. Ledo engano. porque erramos menos a ortografia com elas. Na verdade. Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza". Para ele. aconselho estudar árabe. "balde". achamos difícil escrever. qualquer palavra é igualmente difícil. qualquer palavra. "bardi". <47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores. A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática. O aluno que fala "drentu". não há nenhuma palavra fácil. "andano" ("dentro". "estender" ou "extensão". tudo é difícil.

se escrevêssemos "prósimo".muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. suprimimos o I: "rapaz". de CH ("lixo") e de Z ("exame"). na hora de escrever. Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. Além do som de S. é comum não se pronunciar o I . como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). mas. nesse caso. mas que deve ser escrito: "toda amiga". mas. seria o de Z. em palavras como "caixa". Por exemplo. O que há de diferente é o uso das letras na escrita. Dizemos "rapais" ou "rapaich". pois. dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. poderíamos escrever "esterno". "acharam". por estar entre duas vogais. a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). um aluno fala "fizeru". "acharu". Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo". e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. o som da letra S. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram". É preciso. De acordo com as regras de nossa ortografia. o que é um absurdo. Por outro lado. separar fatos da fala dos da escrita ortográfica.

do mais fácil para o mais difícil. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados. Fáceis e difíceis "aparentemente". é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe. E a lista é longa. porque A é mais fácil do que X. mas precisaram ir além. mas não de fato. que realmente são armadilhas para os alunos. estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. em todos os ramos do saber. tanto para quem ensina. quanto para quem aprende. Na verdade. desenvolvendo-se passo a passo. Como o ensino é completamente hierarquizado. jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X. Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. mas não se pode deixar de escrevê-lo. o resto não faz sentido. Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito. . cobrando a mais rigorosa e constante avaliação.que vem junto com o A. Esses casos.

o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas. A avaliação. aqui. E as outras coisas que . Se não houver uma avaliação rigorosa e constante. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta. Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. sobretudo para as crianças na alfabetização. voltando àquele zero inicial. Na avaliação. o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. ganha nota cinco. prevista pelo método 1. só porque cometeu dez errinhos. de repetir o ano todo. mesmo que tenha. àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. para que o ensino possa dar um passo adiante. Isso é tão ridículo. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. no final do ano. até demonstrar que já dominou. O aluno escreve urna história de dez linhas e.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar. o que conta são os erros e não os acertos. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. não o que ele aprende.

como se escreve uma palavra. que já dominou um certo conteúdo programático. A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo. e em nada contribui para a aprendizagem. na alfabetização. na verdade. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. fazendo aparecerem erros. e o resto que fez e fez bem. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. O ditado. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada.escreveu certo. tem de voltar atrás e repetir a lição. o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. que os ditados. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na . naquele momento. Não é pensando que ele vai descobrir. passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. O aluno não aprende fazendo ditados. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação.

a solução que adota é ignorá-lo. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. Repetir e repetir é o que manda o método 1. O que fazer com o erro No método 1. Por isso. a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno. como naquele momento da avaliação. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. na tradição pedagógica de nossas escolas. Simplesmente ensina-se o certo. sobretudo nas classes de alfabetização. o erro é um problema que o método não sabe resolver.mente do aprendiz. discutir o erro. Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. Mais raramente. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações. Há. tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo. Fora isso. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. Por que as crianças fixariam . Nesse caso. em geral.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

Isso também é saber. Em muitos casos. não sabe. não pelos efeitos. a vida toda. E ninguém fica perdido no meio do caminho. portanto. no método 2. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. Nesse caso. Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. sabemos como operar com certos conhecimentos. Quando uma pessoa entende algo. o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas. ela automaticamente sabe e. e existe outra memorização que é . Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. é o outro lado da moeda da reflexão. e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. não precisa "fixar". seguindo um processo de reflexão. caso contrário. o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos.chegassem. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor. como acontece com o método 1. revelando as decisões que os alunos tomaram. A fixação da aprendizagem.

o aluno aprende primeiro a ler. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar. Nessa fase.simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. mesmo que. Salva-se a ortografia nos cadernos. para a habilidade de . Porém. essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. mas sacrifica-se a produção de textos reais. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia. de produzir textos orais. para isso. o uso real da linguagem. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas. No início. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. No caso do método 2. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia.

O aluno. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação. será uma simples transferência do oral para o escrito. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. de muita leitura. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. Porém. principalmente. de imediato. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. Aos poucos. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever. ficará perplexo e não saberá. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem.produtor de textos escritos. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. o processo educativo depende do . com a ajuda dos dicionários e. no início. quer na sua manifestação escrita. por sua vez. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. quer na sua forma oral. salva-se o uso real da linguagem. no entanto. o que há de errado. No começo. Todavia. Tem-se a impressão. como se pode notar pelas observações anteriores. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. Com a produção de textos desde o início da alfabetização. e este. A culpa será atribuída ao professor de português.

acostumados com essa prática. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. <60> 3 Avaliação. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável.método adotado. embora aparentemente adequada. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. Os dois métodos podem alfabetizar. ou seja. paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. Isso parece óbvio e natural para muitos professores. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. promoção. Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. O método 2 exige experiência e competência do professor. planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. No entanto. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção.

Na verdade. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte. facilitando. 1996e. portanto. porque se poderia contra-argumentar. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. Certamente esse argumento é um contra-senso. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. CAGLIARI. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. Este último argumento é o mais comum para . para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. entre outras razões. Na verdade.que o professor faz para ensinar. a questão central não é essa.

justificar o uso de notas e conceitos. faz o gol da vitória. com o tempo. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. Como a escola educa para a sociedade. mas um nocaute basta para qualquer . Curiosamente. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho. contam-se pontos. abrangendo todas as atividades. compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis. mas não sem razão. No boxe. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. se no último minuto o adversário. Os professores dizem que. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. Como o objetivo é muito claro. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. a exemplo da tradução do título de um filme. sem as notas. que jogava mal. de acordo com qualquer parâmetro. como um jogo social. A necessidade de dar e receber nota tomou-se.

simplesmente. o melhor de todos. funcionam bem quando se trata de classificação e. as notas estão por toda a parte. Como se vê. porém. Nesse sentido. Neste último caso. Nos concursos de seleção. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. é outro: será que os alunos. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. dos estudos? <63> . da série. quando estudam. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. da escola. sobretudo. as notas servem também para indicar o campeão da turma. As notas. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação. estão participando de uma competição. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica. Em algumas escolas. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. refletindo um julgamento de valor.lutador vencer. ou seja. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. Nosso problema. da educação. Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva.

O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. a partir da capacidade de cada um. E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. fazendo determinadas tarefas. é comum haver competição. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar. pela própria natureza das atividades da escola.Na prática. logo fica evidente que algumas fazem melhor. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. Nas escolas da . o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima. Quando se reúnem muitas pessoas. com mais arte e perfeição do que outras. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. Na vida. Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar.

as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. Ou seja. principalmente no que se refere à ortografia. A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar.Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre. É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual. para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo". . do jeito que era ensinado. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. deixando de lado as opiniões individuais. Basta fazer uma análise de provas. Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. testes e exames. a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho.

depende da avaliação. Certamente. julgadas inaptas para o trabalho escolar.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas. o que significa que. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. Aliás. Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. No caso. . a não ser em casos muito excepcionais. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. no fundo. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. Assim. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição. a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola. seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. a pelo menos metade das aulas. por exemplo. servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação.

Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto. a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação. no sentido pleno da palavra. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. embora haja muito mais a ser dito. não é razão suficiente para reprovar alguém. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova . mas para livrar-se de mais uma competição intelectual. expresso por notas ou conceitos. Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. O aluno estuda não porque é importante para a vida. Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. Nesse caso. faz menos sentido ainda falar em reprovação. Em primeiro lugar. num plano secundário e mesmo dispensável. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. deixando a idéia de formação.

Por outro lado.como se resolve uma questão? Mas. E preciso educar para a vida. O tempo da avaliação é irreversível. quantos alunos chegam mesmo a dizer. depois de terminada uma prova. então. entre outras coisas. não para a nota. talvez. como aprimoramento pessoal e profissional. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. Num país como o Brasil. até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos. já não há mais tempo. uma vez que piorar o ensino é impossível. De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua. A educação precisa modificar sua visão de si própria. mas ao longo da vida. A avaliação não volta atrás. dizer isso é uma piada. Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. que fazem questão de se esquecer de tudo. A qualidade do ensino se . como irremediável é a nota. porque a nota já garantiu a promoção e. Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. queimar livros e tratar de esquecer a escola.

quer na ação do professor como educador. Pelo menos com medo das provas. eles estudam um pouco. Professor que não faz isso. que gosta de matar o tempo. Outro argumento. não culpados. Se o professor nunca passar uma prova. desde cedo. Os alunos são vítimas desse processo. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. uma outra perspectiva de trabalho escolar. E nada disso tem a ver com notas. se não houver provas exigentes e notas baixas. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno. Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola.consegue com um trabalho <66> competente. . Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa. passa a ser avaliado como alguém irresponsável. os alunos não estudam. alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade. fica sem controle. Ainda nessa linha de raciocínio. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles.

nas provas e notas. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas. um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes. Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. se sentirem humilhados e castigados. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para . Em troca. usando sua arma terrível que é a nota. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias.encontraria. três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. Com o aumento das irregularidades de comportamento. O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. Por fim. o professor se volta de novo contra os alunos.

mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras. mas o próprio fato de dar . Como vimos.. duas questões de resposta fácil. por fim. Acreditam que. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação.. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não. não obstante.responder direito e de maneira completa. uma perda de tempo. estão ensinando seus alunos a estudarem direito. a não se deixarem enganar pelas aparências. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. dessa forma. Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. e a mais honesta. aluno por aluno. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Gostaria. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina.

) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . dizendo que havia apenas uma palavra certa.57% de erros contra 68. o professor achava que estava tudo errado. Na verdade.notas. constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido. mas da qualidade dos erros. Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho"). porém. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano. ou "piçoa" em vez de "pessoa". Analisando. a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros.43% de acertos nesta frase. uma das mais problemáticas do texto. o que dá uma porcentagem de 3 1. (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos. O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho". Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos. a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros.

Não é porque o professor ensinou algo. começariam a ver as notas com outros olhos.alunos acertam. porque cada um é diferente dos demais. também a avaliação não precisa delas. AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. A avaliação é uma atividade importante. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro. Assim como a promoção não precisa de notas. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. é desconhecer a realidade de cada aluno. uniformizante. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. O erro é sempre muito chocante. Somente aquele tipo de ensino massilicante. cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe. em que o professor manda e os alunos obedecem. trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. Na escola. O professor também deve se auto-avaliar. que todos os alunos . O importante é que todos cresçam. A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. sobretudo nas primeiras séries.

fica muito fácil para o professor provar. na forma de provas ou chamadas. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. os testes. outros por iniciativa própria sob a supervisão dele. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. em primeiro lugar. A escola precisa trocar as provas. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. o próprio aluno poderia ver. o . Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. e se esses trabalhos forem guardados. não para passar de ano. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos. alguns sob orientação direta do professor. por trabalhos que os alunos irão fazer. como um aluno começou sem saber muito e. Não é porque o professor ensinou. depois de uns tantos meses de aula. No final do ano letivo. Nesse clima pedagógico. Em vez de boletim de notas. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. uma reprodução do modelo apresentado. enfim as notas. nesse arquivo. para quem quiser ver. aplicado à solução de algum problema. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida.aprendem do mesmo jeito. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes.

professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. durante o ano escolar. Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor. servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. como também para julgar . Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho. Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. além de ajudá-lo. quando <70> realizam suas tarefas. levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. porém. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. Com isso. paralelo a tudo o que se faz. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer. Esse tipo de avaliação. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias.

. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano. Portanto. por exemplo. não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. Analisando friamente. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas.o que os outros e o que elas próprias fazem. mas também os demais. apesar das provas e das notas. incluindo não só os da alfabetização. no começo do ano. que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte. Quais serão esses erros. partirem da realidade de seus alunos. que o aluno errou o sujeito da oração. em vez de reclamar do colega. quando um aluno é promovido. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. O aluno na série seguinte Se todos os professores. o professor do ano seguinte. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou. Mesmo hoje. tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber.

um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. 1993c. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo.mesmo. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho . Tal reprovação. os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. Por causa de um predicativo do objeto direto. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz. Como avaliar essa avaliação. além de causar danos emocionais nos alunos. Na alfabetização. não soube resolver um binômio de segundo grau. muitos alunos já foram reprovados. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra.

E se o aluno vai mal na prova. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo. Ora. Muitas vezes. mas somente para promover ou não o aluno. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais .do processo de aprendizagem. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. O processo de aprendizagem não funciona assim. Agir assim requer uma mudança de atitude. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. pode ficar condenado a não aprender nada. Por isso. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam.

de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. pesquisando. Ninguém pode reclamar disso. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus). e não através de provas e testes padronizados. Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. não pode dar outra nota senão 10 ou A. que muita gente passou a ter. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. dentro de suas possibilidades. ele pode até agir assim. e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o .profundas do educador. mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. fazendo todo tipo de atividade escolar. sem mencionar a tradicional queixa dos pais.

é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. os alunos aprendem. Na alfabetização. Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. sem . Infelizmente. que precisa ser feito com responsabilidade. mas alguma coisa eles aprendem.processo escolar. Quando o professor ensina com competência e seriedade. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende. Todos eles aprendem alguma coisa. e isso basta. se um aluno não aprendeu a ler. É algo sério. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa. isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. como deve estar. 1998a. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. < CAGLIARI. considerando uma tarefa do professor. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. Estudar é outra coisa. esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria.

. As escolas costumam fazer seu planejamento. recomenda <73> uma mudança para a classe especial. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. levando em conta as principais áreas da lingüística moderna.ligar para o que acontece com seus alunos. a única solução que visualiza é a evasão escolar. Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários. no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. especialmente se for na primeira série.) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico. sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o . Para os repetentes incorrigíveis. Para os piores. Por causa da variação lingüística. Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente. Então. de vez em quando.. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau).

deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua. Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria. 74 CAGLIARI. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem. como têm demonstrado os lingüistas modernos. no seu dialeto. num primeiro momento. usam a linguagem. o seguinte: . usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. Entretanto. para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. 1991a. Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria. Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser. chama-se epilingüismo. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. cada um do seu jeito. por exemplo.certo da norma culta e o errado das variações dialetais.

treinar o aluno na produção de textos espontâneos. Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita. História da escrita. . Visão geral da aquisição da linguagem oral. Produção de textos orais e escritos. 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística. Produção de textos de natureza diferente. explicar como funcionam os sistemas de escrita. etc. Primeiras noções de variação lingüística. sobretudo a ortografia.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. Produção de narrativa orais e escritas .1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão. Introdução de noções básica de fonética e de fonologia. 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização. Leitura de lazer e de pesquisa. Autocorreção da ortografia. como cartas notícias. Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão.

5º ano Estudo de morfologia. Leitura de lazer e de pesquisa. Produção de textos oriundos de pesquisas. 6º ano Estudo de sintaxe. ou seja. Introdução à teoria da literatura. Leitura de lazer e de pesquisa. Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos.Exploração de textos literários. regência e concordância. Leitura de romances. ou seja. por exemplo). Apresentação das línguas indígenas brasileiras. dos usos da linguagem oral e escrita. Cuidado especial na produção de textos orais. sobretudo poesia. lJabaibo com contos e pequenos romances. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. Leitura literária orientada. Introdução à . 4° ano Estudo mais sistemático de fonologia. Produção de textos mais sofisticados. Noções básicas de sociolingüística. Produção de textos orais e escritos.

interação lingüística. Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. Produção de textos literários e científicos. o que deverá aprender no primeiro ano. podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas. Leitura de textos científicos. interpretadas agora segundo uma teoria e . percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. linguagem e pensamento). 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual. História da ortografia. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau. artísticos e de autores famosos da literatura universal. Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. num trabalho metalingüístico. Como verá coisas diferentes a cada ano. tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. História da literatura. No ensino médio (segundo grau). a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. Diante de um quadro como esse.análise literária. Estudo da história da língua portuguesa. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional.

a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado. • Produzir textos espontâneos. não importando os erros de ortografia. através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. desde o primeiro ano. com vistas a um estudo crítico de teorias. No terceiro grau (graduação). . tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia. a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições.formando uma gramática moderna descritiva da língua. deve ensinar o aluno. Em termos mais específicos. Depois. haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. Na pós-graduação. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística.

com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras. • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo). notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos. Como se vê. A escola precisa saber lidar com as diferenças. Basta fazer um trabalho sério. Por outro lado. • Preparar e ler um texto no dialeto padrão.• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . competente e constante. de modo a eliminar os erros de ortografia. • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante. testes. que não precisará de provas. a escola não pode fugir à sua missão. • Participar das atividades escolares.

as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis. Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. que infelizmente proliferam em nossas escolas. podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. Lugar de estudar é na escola. Em casa. principalmente nas primeiras séries. sobretudo brincar e se divertir. mas normalmente farão outras coisas. Isso é um absurdo. Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. Nas escolas públicas. em geral. depois de um dia de trabalho. e seus pais. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. onde os alunos pobres estudam. elas tornam-se um absurdo. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa. lugar para brincar e lugar para estudar. não há livros. onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. se não fizer isso em casa. A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente.fraca e ruim. . fará na escola. Criança precisa se divertir e.

é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. Mas. o professor não pode passar tarefas todos os dias. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. Por outro lado. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. como achará tempo para estudar. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. para que isso aconteça. gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. E. A medida que vão crescendo. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. Isso é tarefa exclusiva da escola. geografia. do que gastar muito tempo de vez em quando. diminuindo. sobretudo para provas e exames. o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições. nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar.Mesmo em séries avançadas. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa. ensinando aos seus filhos matemática. mais importante. .

sem nota. pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. aluno. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . escolheu para si. Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos. não para dar satisfação ao professor. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula. mas para estudar o que ele. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. numa ordem crescente de dificuldades. estudando e trabalhando fora da escola. sem professor. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. sem prova.Pelo contrário. sem diploma. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário. depois tornou-se uma tabela de letras. o aluno poderá fazer o mesmo em casa.

não querendo adotar uma cartilha. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos . baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos. compram. Os próprios órgãos encarregados da educação. livrinhos de histórias. ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. todos os anos. Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação). uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas. atendendo a pedidos de professores. fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. Mesmo quando. os quais. que. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha.desmontar e montar palavras. por alguma razão. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. dedicada ao período preparatório. recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. alguns professores deixam de usar as cartilhas. em substituição. Alguns chegaram até a publicar esse material. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. Tempos depois. Muitos professores fizeram sua própria cartilha. compram. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho.

o que pretendem e. Por essa razão. agora de maneira muito mais confusa e difícil. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. o que deixam de fazer. A opção por um trabalho alternativo. a habilidade e o bom senso de alguns professores. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. exige. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. o que propõem. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. antes de tudo.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. Como as letras representam consoantes e vogais. sem cartilhas. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. como propõem. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. <80> principalmente. Como é constituído de letras. ou seja. que se conheça como elas são. . aplicando o bá-bé-bi-bó-bu.

Depois. mais elementos novos introduzidos na lição. ilustrada com um desenho. segundo algum critério escolhido pelo autor. Na verdade. Em seguida. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. No fim. em que o alfabeto pode estar ou não presente. É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. aparecem os exercícios estruturais em que . Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. em que se emprega o princípio acrofônico.nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. apresenta-se um resumo. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. e destacam a sílaba geradora. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. do mais fácil ao mais difícil. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. escritas com elementos já dominados. Vêm abaixo algumas palavras novas. a cartilha acaba num texto. Geralmente. No entanto.

Como é constituído de letras. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. . que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. Por essa razão. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. em que se emprega o princípio acrofônico. ou seja. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Na verdade. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. a habilidade e o bom senso de alguns professores. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas.palavras <81> principalmente. Como as letras representam consoantes e vogais. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. No entanto. o que deixam de fazer.

e que pode servir também . Ou. ainda. Há. mais elementos novos introduzidos na lição. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. Depois. em que o alfabeto pode estar ou não presente. Geralmente. Em seguida. No fim. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. então.essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. ilustrada com um desenho. apresenta-se um resumo. aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. escritas com elementos já dominados. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. a cartilha acaba num texto. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. um pequeno "texto" para leitura. segundo algum critério escolhido pelo autor. do mais fácil ao mais difícil. Vêm abaixo algumas palavras novas. cópia e ditado. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. e destacam a sílaba geradora. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo".

Em geral. Nas lições mais adiantadas. de letras. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados.para exercícios de interpretação de texto. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida. essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". Recheando esse esqueleto. até propostas de representações teatrais pelos alunos. além das tradicionais cópias. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". uma sílaba. a linguagem tem esses aspectos. que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases. através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem. tudo muito bem ligado. uma quantidade enorme de atividades. Ora. Como se disse antes. representados pelas . As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu.

como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala. Há. algumas não causam estranheza. para elas. e que são. Com relação às diferenças. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. No fundo. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. que não usam a norma culta da língua. pois. interpretadas de maneira preconceituosa pela . diferenças que representam a fala de pessoas pobres. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. ficando apenas com o que há de mais superficial. a escrita e a leitura. pois são aceitas socialmente.sílabas e unidades geradoras. portanto. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos. Analisando esses três pontos. a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. porém. Ora. que apresentam semelhanças e diferenças.

usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. Obviamente. Ou seja. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. quase sempre lidando com questões muito fáceis. "dobrar". recebendo dos professores inúmeras correções. Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual. "drobar".sociedade como um modo errado de falar. Exemplos: "drento". esse . A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula. desde o começo. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. etc. Como não domina a norma culta. acompanhadas ou não da zombaria dos colegas. de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. O aluno vai seguir as lições da cartilha usando. fala seguindo seu próprio dialeto. em vez de "dentro".

seguem alguns exemplos. de fato. para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é. etc. como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto).modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". pronunciando "balde" em vez de "baudi". "alto" em vez de "autu". a ideal. "póte" e não "pótchi". Para ilustrar o que ficou dito acima. etc. <83> Por ser um dialeto artificial. sem vida na sociedade. Um professor. que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. exige que o aluno . pronuncia todas as letras L com o som de L. Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu". Quando o professor se esquece de que está passando matéria. "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. Do mesmo modo. nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo.

farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. procedendo assim. O aluno. Ortografia se aprende de outra maneira. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. no entanto. etc. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". etc. falar palavras como "casa". "drobar". que a maior dificuldade dos alunos. XAVIER & MATEUS. Esses professores acham que. Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra.leia "tudo" e não "tudu". Para esses alunos. "uzómitrabaia". "pranta". conseqüentemente. é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. não sabe como se escrevem as palavras e. por sua vez. . 1990. "batata". não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa. O método das cartilhas não leva em conta. mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. porém. Esquecemse.

sobretudo. e. Tudo gira em torno da silabação. com conseqüências como pedantismo e preciosismo. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. descaracterizando a fala natural. aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. justamente porque. a escola destrói essa habilidade já conquistada. como falantes nativos. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. Ao fazer isso. para ler. bem-articulada). A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida. Porém. Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante. porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados. de quem fala assim.

como única referência de conhecimento já adquirido. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. Elas observam demais a própria fala. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. Depois de certo tempo. ignora esse fato e. 1989b. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. A cartilha. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. as crianças têm. <CAGLIARI. É muito importante passar da . Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. porém. a própria fala. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. nesse momento. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. a não ser através da escrita ortográfica. aos poucos. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. E uma pena.grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão.

na verdade. como aquelas relativas às famosas trocas de letras. Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata". como se pode comprovar. muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando. observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X. em particular com relação à fonética. Eles acham que os alunos têm problemas . a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada.habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto. eles representam um único som. porque confundem fatos da fala com fatos da escrita.

de quem eles tanto reclamam. Acontece. O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem. apesar de todos esses problemas. Se podemos ter um . <86> trocam V por F. B por P. porém. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos. Em primeiro lugar. Não sabem se existe ou não um I depois do X. etc. eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. é verdade. exatamente como fazem seus alunos. que não são capazes de memorizar diferenças elementares. é necessário admitir. que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. que não sabem observar corretamente as letras. Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização). exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. como. os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). por exemplo. como as pronúncias de "vaca" e "faca". Z por 5. estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. E isso.

no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. na sua essência. é oral.ensino decente. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola. Tudo na cartilha gira em torno da escrita. Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura. por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. como antigamente). Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990. 1984b. os . 94-117. p.

deselegante. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. então. A escrita requer decifração para ser entendida. sem passar pela organização da linguagem humana. na sua essência mais profunda. passou a ser considerada algo nobre. A escrita. <87> a qual. A palavra . ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. gire em torno dela. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. pior ainda. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. no processo de alfabetização. Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura.estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. portador do pensamento lógico e literário. uma linguagem cheia de erros e falhas. perfeito. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo.

mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. a palavra é o centro das atenções da cartilha. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras. escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. a qual. como unidade lingüística. como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida.Sem dúvida alguma. Desse modo. a palavra. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana. tirase o significado total do texto. . no entanto. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. porém o que vale não é o texto em si. Podese até ter uma frase ou um pequeno texto. o que é falso. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita. seguindo os padrões da escrita. A cartilha foi além: não só assumiu isso. Do significado de cada palavra. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. Na verdade. Todavia. junto com as lições. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela. fica tão marcada na formação dos alunos.

compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. Assim.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem. As cartilhas apresentam os piores textos. que servirá de recurso mnemônico. Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber . etc. cada família recebe uma palavra-chave. Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu. elaborados por "razões pedagógicas". pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. Como resquício do princípio acrofônico. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). <88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral. do prá-pré-pri-pró-pru. Esses pedacinhos. serão organizados em famílias. como a família do chá-ché-chichó-chu. como nas palavras an-jo. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. Finalmente. e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes. etc. estudam-se primeiro as famílias mais simples. cam-po. é claro.

e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes. Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho . como ABCÇDEFG. um compromisso com a verdade do texto. nesses casos. o essencial.. No entanto. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). nem com a coerência discursiva. com os pronomes substituindo nomes. 1997a... Certamente. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados. e abcçdefg. o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. passa despercebido. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e. <MASSINI-CAGLIARI. que é o fato de existirem alfabetos diferentes.imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz. > Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. às vezes. advérbios. etc..

nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes. porque não é o tamanho que conta. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros. Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. depois de certo tempo. Também é verdade. a letra de . mas a forma gráfica. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. ou seja. mas isso pode ser um processo longo e difícil. pessoas já alfabetizadas.menor do que uma letra minúscula. E a cartilha não explica isso. Os alunos acabam constatando por si. porém. Para quem está aprendendo. é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva.

A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. facilitando uma escrita rápida. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. por outro lado. dificulta o trabalho de leitura. uma vez que. Apesar disso. que. se os alunos começarem a . sendo mais difícil de elaborar. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras. A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores). Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva. a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. a escrita deixou de ser feita à mão. freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica. Alguns professores acham que.

Ou. ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s". <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva. fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. não vão aprender a escrever com letras cursivas. Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. igual para todos. redondinha. ainda. e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. O aluno pode até constatar que há uma diferença na . distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". que a letra "A" é formada de um "C" e "e". P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. em palavras como TV e TIA.escrever com letras de fôrma. Como ela deforma certas letras quando agrupadas.). — etc. na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I". seguida dos de uma letra — A. "v". É por isso que um aluno pode pensar que.

. que também varia. Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente. um caso sério para a medicina resolver. C. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral. o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares. Escrita sem sistema . Afinal. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. Quando diz isso ao aluno. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. Por exemplo. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada. por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. etc.altura da "perninha". o professor está pensando na ordem das letras nas palavras. em início de palavras. de caso para caso. esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita. Porém. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa.

O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. nesse meio tempo. escrevem — fazendo rabiscos.Como a cartilha não apresenta nem discute. orgulhase de ter uma assinatura exótica. É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. em geral becos sem saída para si e para o professor. então. ao ser indagado. podendo. toda aventura . cheia de rabiscos. sobretudo porque. ganhar seu famoso diploma de alfabetização. em momento algum. a função e os usos dos sistemas de escrita. pelo contrário. Pelo contrário. a natureza. horas depois vai ao banco. até que o aluno passe por todas as lições. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu. O professor pensa que ele está "doido". Esse mesmo professor. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. O aluno. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. que concluiu que seu aluno era "doido". vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. o trabalho prossegue.

A cartilha pensa que ensina a ler. os primeiros textos. a decifração. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. depois.individual pode levar ao erro. mais adiante. Antes de chegar a este ponto. finalmente. por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras. a não ser o que já tenha estudado com o professor. no mesmo momento. como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização. A cartilha jamais discute a leitura em si. Por isso. por essa razão. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O. os primeiros textos. a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. Somente depois de terminada a cartilha. da mesma maneira. e o erro pode ser irremediável. <92> . e os cinco sons do X. ninguém pode escrever nada. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. copiam as primeiras frases e.

na alfabetização. conferindo. para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. Seria interessante apresentar ainda. mesmo que sumariamente. feita com pictogramas ou com caracteres convencionais. assim. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. Em particular. Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. pelas cartilhas. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. conseqüentemente.

depois. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. o que são letras. não se escandalizaria diante dessas dúvidas. o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. para corrigir os textos que produzem. Às vezes.com as letras do alfabeto. como funciona. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. familiar. a escrever de acordo com as regras ortográficas. a aprender a escrever e. A escola precisa explicar o que é ortografia. Para isso. ela precisa ensinar os alunos. para tirar dúvidas. primeiro. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. como se decifra uma escrita com letras. Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. que sempre escrevemos. sem medo de ter dúvidas. de perguntar.

te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . de acordo com o nível de escolaridade. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum. Mas esse ponto terá um tratamento especial. E é só o que os livros apresentam. especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita. mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. pois depende crucialmente da escrita. "le-a-la. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto. mais adiante. a leitura também fica prejudicada. Quando chega o momento da leitura. refletir. não adianta pensar.palavras. Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita. por exemplo. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. E quando não se sabe como se escreve uma palavra. dizendo. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras.

. uma depois da outra. nos primeiros meses de alfabetização. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. não está ao alcance da maioria dos alunos. ele precisa decifrar a escrita com facilidade. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência. em que o aluno gaguejou. a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas). As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas.letra por letra. com o tempo. composto só de palavras já estudadas. não são capazes de lembrar o que leram. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. se já dominou um determinado conteúdo ou não.. Todavia. Para um aprendiz ler em voz alta. o que. não raramente ocorre que. na alfabetização. quando acabam de ler um texto. Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação. sem cobranças. como deveria ser a leitura. mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição. é quase impossível que um aluno.). parou para pensar..

Mais uma vez. Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. bons leito res. Essa atividade é a interpretação de textos. se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó". não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido.. Alguns professores. a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta.. reduzindo suas aulas a essa atividade. ainda. pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial. já que o aluno mal sabe . achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos". Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. a cartilha meteu as mãos pelos pés. A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade." Ora.A cartilha usa. passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos. Por exemplo.

Alguns deles merecerão aqui um destaque. que à medida que os alunos avançam. escrita e leitura. O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda. quando o aluno erra. baseado na idéia dos elementos já dominados.ler. acabam se esquecendo de coisas já vistas. porém. e isso gera . esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem. Por outro lado. deve voltar atrás e repetir a lição. uma vez que o resto "já foi dominado". Acontece. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. Como tudo vem rigidamente em seu lugar. estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos.

escreve "tioa". de fato. onde começarão tudo de novo.uma enorme confusão na aplicação do método. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre. julgando-se incapaz nos estudos. de número e de graus das palavras. Há. <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia". um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". Para muitos alunos. nesses exercícios. Esses exercícios tratam. exercícios de identificação de categorias gramaticais. sobretudo. de gênero. nota-se que muitos alunos erram. ainda. parece mais natural que o . esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. Resumindo. Assim. Como não há explicações sérias. Para alguns alunos. como ainda induzem os alunos a errar. a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. coisas que. apenas exercícios como "faça segundo o modelo". como falantes nativos da língua. de "tio". A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais. O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. conhecem perfeitamente. esses exercícios não só não ensinam nada.

Então. porém. indireta. com muito colorido e enfeites. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia. preciso e direto das verdades que se devem ensinar. deve haver uma história e. Para elas. se possível. Para tudo. as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. "macacão" é um tipo de roupa. precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. mas a um lugar sério. mas não "macacão". uma musiquinha para cantar. quando vão para a escola. . cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. objetivo. definitivamente. sílaba virou "pedacinho". figuras. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). evitando um tratamento sério. sabem que não estão indo a uma festa. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. Por se tratar de crianças. Tudo precisa vir acompanhado de gravuras.

favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. não obstante. até acertar. O excesso de histórias. apresentadas apenas como pretexto pedagógico. e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. portanto. O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. na maioria das vezes sem nenhuma graça. O diferente é combatido e não pode existir na escola. porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. com os remanejamentos de alunos para classes especiais. acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. importantes. a letra o é "a letra da boca". partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. úteis para a vida e. os alunos dizem "a letra do chifre". às vezes torna-as levianas e comodistas. As diferenças individuais não são . As letras não têm nomes: em vez de U.onde se aprendem coisas sérias. avaliação com promoção. Elas têm essa consciência da seriedade. A escola. e o que saiu errado precisa ser refeito. Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos.

formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. para condicionamento. Os professores sabem. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. não encontramos nas cartilhas. por experiência própria. iguais para todos. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida . Por essa razão. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma. para a criatividade. que é difícil ensinar a ler e a escrever.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. bons para adestramento. por isso. para uma livre iniciativa. nenhum erro será objeto de estudo. segundo manda o figurino. nem nos manuais de professores. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. Na cartilha. para continuar com as características próprias. tudo vem pronto para o aluno. A uniformização é um imperativo.

seguindo o próprio livro didático. < CAGLIAR!. A única saída é repetir tudo de novo. com métodos excelentes de alfabetização. Há ainda o interesse econômico. os chamados "alunos carentes". a saída da escola é a solução para o problema. muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas. que tem feito das cartilhas .mostra claramente que o método não funcionou. da mesma maneira. um grande livro didático. Por falta de espírito crítico. <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. 1985b e 1986b. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. de preferência. de fato. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. escolhendo. comprovados desta e daquela maneira. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível. E se não se corrigirem. se possível. remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem.

SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa. o governo insiste em distribuir cartilhas. Aprender a ler. esquecendo-se do lápis e do papel. ou melhor. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. Apesar de tudo. sobretudo. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas. sem o método das cartilhas? Qual é a saída. <99> . Para um bom trabalho de alfabetização. Em primeiro lugar. Mas. analisando a história e os métodos de alfabetização. significa aprender a decifrar a escrita. na escola. aqui. se a cartilha é tão ruim assim. Em algumas escolas. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e.um negócio muito lucrativo. sobretudo nas es colas públicas.

constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. Apesar desse quadro pouco animador. com . por falta de infra-estrutura. quais os seus usos e. por sua vez. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. aos poucos. pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. Alguns autores de livros didáticos. pela incompetência de alguns professores. principalmente. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. Infelizmente. Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos.Para saber decifrar a escrita. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos. ainda. é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral. são tão despreparados quanto os malformados professores.

Afinal de contas. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho. acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério. sem precisar gastar muito tempo. Mais do que isso. que ele também está aprendendo.ajuda muito. o professor sabe ler e escrever. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. para sua surpresa. A própria prática . A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. refazendo desde o início sua formação. ele é capaz de realizar um excelente trabalho. no trabalho compartilhado. de ir direto ao assunto.dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. o próprio professor verá. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. num processo de aprendizagem verdadeiro.mestra da vida . O professor também aprende ensinando. como deveria existir sempre nas escolas. 1997c. . na pesquisa.

fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita.Apesar de todos esses problemas. Se o aluno não aprender. Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. o professor apaga e coloca o certo. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. do mais fácil para o mais difícil. que ele usa como modelo. como fazia antes. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. a responsabilidade não é dele. nem do método. que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. Se o aluno errar alguma coisa. Por trás de toda aquela aparente ordem. mas da incapacidade do aluno. esconde-se muita coisa mal compreendida. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. quando apenas falava. do mesmo modo. no mesmo tempo. em que tudo está perfeito. que não irá durar muito. Para o professor. O método da . em ordem. Ledo engano. os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos.

Depois. são tão obcecados por elas. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. em séries posteriores. que muita gente fez isso e aprendeu bem. sem erros. deve-se rebater. porque os alunos só reproduzem o já dominado.cartilha produz cadernos belos. Alguns professores. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. as aulas de português é a produção de textos. no entanto. em parte. Finalmente. Como a matemática não tem dessas coisas. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. . e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. a leitura e a literatura. convém ressaltar que. mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. já não aparecem mais cartilhas. cometerão toda sorte de erros. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente. Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. O que salva. inocentando os professores e os livros de sua incompetência.

porque são mais "práticas". Afinal. Na verdade. só que. e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. para que servem os exercícios de matemática. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. preferem as cartilhas. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. em vez de escolher livros mais interessantes. do começo ao fim. e como eles não têm outra visão do processo de . sem propor nada de diferente. Os livros didáticos são feitos. por professores. Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. será um fato surpreendente. da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. em geral.

mas o principal deles é alfabetizar as crianças. os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem. repetem sempre o velho esquema. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos. é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais. é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização. Em primeiro lugar. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição. todo o período preparatório veio como uma .alfabetização. O círculo vicioso se fecha quando. o próprio método das cartilhas. Por exemplo. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. Os esforços devem estar voltados para isso. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica.

Como já dissemos. a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos. enquanto o mais importante era deixado de lado. contar histórias. Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever. cantar. recortar. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e. desenhar. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. Portanto. lendo e escrevendo. Brincar. em seguida. e não pulando corda e fazendo . a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. etc.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. A alfabetização passou a se resumir. Conhecendo a rotina nas escolas. o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). sem dúvida são atividades escolares. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas. colar. Aprende-se a ler e a escrever. Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler. então. em grande parte. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. ou seja.

OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. e deve começar desde a alfabetização. Brincar é imprescindível. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos.festa. Vendo essa questão por outro ângulo. essa deverá ser uma atividade secundária. São todos falantes nativos do português. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. tecnicamente falando. sílabas ou outros . Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. Porém. Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto. Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive.

inglês ou francês. a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. Uma coisa não é condição para a outra. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. de regência (por exemplo. "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. marcando um uso informal e outro formal da língua. por exemplo. Do mesmo modo. variações como "déis" ou "dés". MASSINI-CAGLIARI. Variações de pronúncia (do R.elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. não deixa de ser falante de português.). não precisa se desvencilhar daquele que conhece. etc. do lugar e das pessoas com quem se fala. Numa sociedade tão heterogênea como a nossa. das fricativas CH e TCH. Aprende-se uma língua. de concordância (por exemplo. Na sociedade. sem esquecer a outra. às exigências do momento. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade. não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . Quando alguém estuda uma língua estrangeira.

aliás. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como. Com quatorze anos.Por razões ideológicas. ficou estabelecido que a alfabetização. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida. do mundo e até da . mas não se muda a mentalidade dos governantes. etc. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. muitos jovens já são arrimo de família. começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos. Muda-se a Constituição do país. interesses políticos e econômicos. a préescola é importante como escola e não como creche. Nessa idade. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. começando a alfabetização aos cinco anos. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula. avós. Além disso. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. Dos cinco aos sete anos. pais. e os problemas sérios continuam sem solução. no Brasil. Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada.

no início do ano. é necessário que o professor. As vezes. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. Dependendo do modo de vida. seu relacionamento com pessoas diferentes. Por isso. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos. <106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada.história. isso não significa que ela queira ser alfabetizada. Estar na escola é um fato que cria expectativas. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização. já testou sua participação na sociedade. ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. Aprender a ler e a escrever. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. é algo simples e banal. Para elas. Essas considerações mostram que. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. converse com seus alunos para . ganhar dinheiro é o que realmente conta. dentro desse contexto.

Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. A escrita e a leitura têm muitos usos. o que se faz com esses conhecimentos. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever. provenientes de classes pobres. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola. essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida.saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. fora da escola. Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). Não é raro haver alunos. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. O que eles . Mas é imprescindível.

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

Fora de casa. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. Mas. As crianças que vivem em casas onde há livros. o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse . Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. Por outro lado. a escrita está em toda a parte. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. Por exemplo. de modo geral. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. jornais. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. na embalagem de um produto. revistas.A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. no mundo. não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. nas placas comerciais há coisas escritas. Por exemplo. Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras.

Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. o nome da marca. de maneira típica. Porém. mas a <116> . Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica.produto ou uma propaganda ou. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona. urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. nesse caso) é de fato uma leitura. uma por uma. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. um rótulo onde aparece escrito. se o professor não perceber. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e. mais especificamente. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons.

Por exemplo. antes de estar associada a palavras. raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita. que exige uma explicação particular e detalhada.identificação de uma ou mais palavras. Essa é uma idéia muito elaborada. como se estivesse interpretando uma transcrição fonética. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. . Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. Ao fazer isso. ou seja. que a escrita vem associada a sílabas. mas também. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. respondendo à pergunta mencionada acima. No início. algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas. Na sociedade. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. Ora.

Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome. Nesse caso. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. E de escola. Só mostra as relações entre letras e sons para . não é transparente para o analfabeto. U de urubu e X de xarope. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. típico do método das cartilhas.Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. sem uma explicação muito detalhada e convincente. Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. isto é. C de cebola. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser. antes de descobrir o que ela representa. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. Aquele procedimento de decifração. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. e acento agudo no E: LÉSCAUX. A de árvore. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. S de sapo. <117> Diante disso.

o que já exige um enorme esforço de análise. em geral. Algumas classes. No mais. Depois. Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. como em "u de urubu". têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. No máximo. terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. T de Tomás. Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio. R de Regina. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito.quem conhece as regras do jogo. etc. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete. conversando a respeito do que já sabem. o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. "a — de árvore". . Por isso.

da leitura e da fala. ainda. <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. Se esses alunos não receberem uma boa explicação. por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo. começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. Com esses alunos. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. Em outras palavras. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. Por outro lado. o professor deverá tomar cuidados especiais. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa .

Para quem já sabe ler. posso ficar tentando descobrir o que está escrito. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. 1. mas a ler "com naturalidade". A questão. mesmo porque..nessa tarefa. se elas não existissem. por sua vez. se eu não souber chinês. Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita. vamos encontrar uma série de normas. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. por isso. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar. com efeito. é muito complexa. O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita.. e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. é o segredo do processo de alfabetização. mas jamais . Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. a decifração é algo mecânico. que. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e.

2. isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto. por sua vez. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. A linguagem oral. Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler. A história das decifrações tem mostrado isso.conseguirei ler. portanto. representa o mundo. conhecendo uma língua. e não outra. O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra. pode ser apenas um desenho ou uma escrita. 3. Por outro lado. Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. Uma mesma forma gráfica. Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto .

latino e segue um conjunto de normas atuais. É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. não. As variações gráficas seguem padrões estéticos. Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. Variam na forma gráfica e no valor funcional. a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças. 5. 4. Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras. gerando diferentes alfabetos. É composto de letras. formando um conjunto. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva). Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas. através do uso de um princípio acrofônico. como podemos ver na história dos sistemas . tendo cada letra um nome. talvez. Contar um pouco da história do alfabeto é. que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua. Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo. mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm.

pela ortografia das . <121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. vendo um rabisco. 4ª letra: letra a. Assim. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. de acordo com a ortografia da língua portuguesa. principalmente. esse e a. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). a. 2ª letra: letra a. 3ª letra: letra esse. reconhecer a letra cê. Apesar da diferença gráfica entre essas formas. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e. quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras. Ou seja. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. é preciso saber a categorização das letras. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras. ou seja.de escrita. novamente. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. no caso da palavra CASA. 6.

e. Se as letras não tivessem esses valores. poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais.palavras. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. X = S). desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. para tanto. em princípio. a palavra pronunciada "casa". nos servimos dos conhecimentos . poderíamos. Portanto. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. escrever CASA com as letras APXP (onde A C. Além disso. ou mesmo MRIT. por exemplo. P = A.

Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita. fica tentando em vão outras maneiras de aprender. porque ela controla a categorização gráfica e funcional. quem não consegue. para o estudo desses dois aspectos. No início da alfabetização. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta. Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. . <122> 7. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras.ortográficos da palavra CASA. portanto. muito mais do que o princípio alfabético.

Conhecer a natureza. estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. Uma vez identificada a palavra. Por outro lado. de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. atribuindo . estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles.CAGLIARI. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem. Além disso. que chamamos de palavras. entender o que está escrito. usando seu dialeto ou outro qualquer. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita. a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura. ou seja. 1986b e 1994b. permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. neutralizadas na escrita pela ortografia. A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. assim. o usuário está livre para dizer o que está escrito. através do estudo dos sons e dos significados.

O nome das letras traz. temos o quadro completo das relações entre letras e sons. Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. Assim. está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . é mais fácil decifrar e ler do que escrever. contudo. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. como vimos. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. da letra B. encontramos o som "b". em seu início. quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. Desse conhecimento. E isso acontece com praticamente todas as letras.valores fonéticos às letras. dependem muitas noções básicas. que é o som mais comum que essa letra assume. Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. 8. no nome "bê". Ou ainda. Em outras palavras. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia. O importante. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras.

são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. pê. Num primeiro momento. é.usamos para decifrar os valores sonoros das letras. esse. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. dê. bê. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. tê. Nesse momento. erre. cá. zê. que fazia os alunos aprenderem. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua). Na verdade. eme. jota. Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . cê-cedilha. gê. vê. efe. ípsilon. u. i. Depois. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler. 9. agá. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita. ele. no nome da letra W não aparece o som correspondente. nem no nome da letra Y. ô. dáblio. quê. xis. cê. ene.

do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto . para esses.não está mais presente em todas as letras. W e Y. para alguns falantes. Alguns dialetos (por exemplo. 10. nê.por exemplo. nesses contextos verbais. As considerações acima mostram que existem regras que . e isso facilita o trabalho. Por exemplo. para facilitar o uso do princípio acrofônico. a letra T tem os sons de "tche" e "tê". Por outro lado. C diante de A. etc. S entre duas vogais tem o som de "zê". U tem o som de "ka" e não de "cê". lê. em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso. Em inglês o nome significa "duplo u". O. rê. fê. por exemplo. Eles dizem. a letra D não tem som. como K. é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). mas para outros tem apenas o som de "tê". Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. Em Portugal. Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. a letra H é exceção. mê. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem.

Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. teria diante de si muitas alternativas. dará à letra X o som de CH. Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado. aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. porque de acordo com as normas da nossa língua . Ao ler a palavra XA. mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. se alguém quisesse escrever "kaza". a partir da análise dos dados. Por exemplo. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". 11. um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto.

o caminho é outro. 12. é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. por exemplo. Algumas crianças. quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. Mas. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada. uma vez que esse som pode ser representado também por CH. ou seja.em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. vai da esquerda para a direita . a "drentu". Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler. Por outro lado. significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem. uma vez que o movimento <126> da mão. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. Não basta. o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ. CHEQUE. indo dos sons para as letras. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita. nesse modo de escrever. no caminho inverso. Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque". Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. muito preocupadas com o traçado das letras. Quando se diz "andano" e "drentu". XEQUE/CHA. saber que X no início de palavras representa o som de CH.

velocidade. Quando falamos.) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação. A segmentação de palavras na escrita. pontos) da escrita. As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas. Depois. etc. fazemos algumas separações. na forma correta. ritmo. volume. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. na escrita. indicada pelo espaço em branco. a qualidade de voz. o acento. 13. Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. Mas. o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases. corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala.e. O importante é permitir uma leitura clara. duração e ainda a nasalidade. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e .

todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. Nem tudo o que se escreve são letras . deve ater-se apenas à escrita. Para tal. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra. De acordo com as normas ortográficas. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente. Cabe ao leitor. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal.que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. como conhecedor da língua. Para chegar lá. 14. mas é fácil na escrita. O critério semântico ajuda muito. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura. No esforço para ler. 15. mas não resolve todas as dúvidas. Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil.

nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. sobretudo relacionados com a entoação. mostrando se são abertas ou fechadas. o que bloqueia o processo de decifração. 16. A letra A com um til representa um som diferente. O ponto final representa uma pausa longa possível. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. representam também elementos prosódicos. exclamação. Outras marcas como ponto de interrogação. As vírgulas servem. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . a escrita usa sinais de pontuação. A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia. Porém. etc. que é preciso conhecer. reticências. às vezes. ou seja.Além de letras. um A nasalizado. mas nem sempre necessária. para indicar pausas ou elementos parentéticos. acentos e outras marcas. embora façam isso de maneira muito precária. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita.

vai ou não encontrar na escrita. aaaan tiiii-gooo. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. Na prática. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. Essas unidades formadas da soma de palavras. saberão concatenar as palavras devidamente. as letras representam apenas os segmentos fonéticos. na alfabetização basta o professor falar. Dado que nossos leitores são falantes do português. No sistema alfabético. como o grupo tonal por exemplo. isto é. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores. que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. comparada com a fala. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. Como vimos. por exemplo. . precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. No fundo. essa é uma questão complexa. an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita.

1992c. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — . Por outro lado. Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos. revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia. > Se deixarmos de lado a ortografia.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. 17. Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. e não a partir das possibilidades articulatórias do homem.

pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. como também no processo de aprendiza gem da leitura. Dessa forma. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita. os conhecimentos . as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. por exemplo. Pode-se transcrever. é preciso ter. em primeiro lugar. Não obstante. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente. com a qual os alunos começam a escrever. Para tanto.há melhores sistemas para isso.

é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. Como professor alfabetizador. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio. Para ensinar alguém a ler e a escrever. metodológicos e psicológicos. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como . é uma questão não tão óbvia. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. <130> Um professor bem-preparado. saberá como se comportar. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos. cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas. Como educador. porém. e esses conhe cimentos são básicos. 1992c e 1 99 6h. e menos fácil e comum ainda entre os professores. Se acontecer algum imprevisto. Sabe o que o espera pela frente. precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. Para ensinar língua portuguesa. com competência técnica. é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. Os < CAGLIARJ. o professor precisa ter uma formação geral.

no entanto. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve. Ele não precisa de "pacotes" educacionais. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". E se quiser escrever a mesma palavra. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. O conhecimento de como a escrita. O professor precisa libertar- . ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. Com apenas esses conhecimentos. vendo as questões não do ponto de vista metodológico. muitas informações. mas da sua competência. um aluno precisará descobrir. capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. Nessas circunstâncias. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. basta observar que sons a palavra tem.

etc. semântica.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. Mas. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado. Aos poucos. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área. o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. para que esta autonomia possa se sustentar. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar. para isso. etc. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho. que pode e deve ser aproveitada. sociolingüística. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. como ensinar os grupos consonantais.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . No entanto. como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho.

Se o professor sabe ler. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. sobretudo. que serão passadas oportunamente para os alunos. isto é. porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas. refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las. <132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. escrita e leitura e quais os seus usos. Para alguém conseguir ler algo. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo.trazem. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões. Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. através de pequenas regras. Deve procurar explicitar. precisa saber . aprender a ler é o segredo da alfabetização. o que faz quando ouve. Deve. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. fala e escreve.

e. logo adiante. porém. variando esses caracteres: "SELO" e "selo". Por essa razão. Cada letra representa um valor abstrato. Antes disso. e em marcas. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. em alguns diacríticos. como os sinais de pontuação. Ler não é o mesmo que escrever. A escrita representa sons da fala. a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. como os acentos e o til. é possível escrever a mesma palavra. "E" representa o mesmo valor de "e". a título de sugestão. Por exemplo. Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. Quando se lê.decifrar a escrita. apresenta-se. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras. que pode ter inúmeras formas gráficas. De acor do com o sistema de escrita. o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização. de acordo com as normas ortográficas. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. indo da análise de letra por letra e . 1. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes.

de combinações de letras. Em primeiro lugar. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular. Depois. Finalmente. Quando se trata da palavra isolada. então. o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral. Qualquer falante. como falante nativo. até compor o resultado final. perguntando ou procurando no dicionário. deverá resolvê-las antes. Em seguida. . ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece. o procedimento é diferente quando se escreve. consultar um dicionário. Feita a decifração. escreve com facilidade. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). ou seja. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. leva-se em conta a ortografia. é preciso verificar as alternativas possíveis. Entretanto. que o aluno pode checar. Precisará. Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra.

Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve. o sistema também é fonográfico e usa letras. como se fossem glifos. Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. sem rodeios. porém. Explicar o que é uma letra . precisará esclarecê-lo. caracteres ideográficos. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma. Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. Ao escrever. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. Como.de qualquer dialeto. 2. E é assim que os alunos devem aprender. seja ela familiar ou não. mas essa não é uma leitura produtiva. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. ou seja. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. É preciso ir direto ao assunto. O professor precisa explicar cada uma dessas noções.

As letras são escritas separadamente. Aliás. e não letras em tamanho grande ou pequeno. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita. elas têm uma direção fixada por esse espaço. da direita para a esquerda. como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. Com relação aos usos da escrita. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. da esquerda para a direita. no alfabeto de letras de fôrma. apoiadas na linha-base horizontal. É . A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. mas são interligadas na escrita cursiva. Corno as letras são dispostas no espaço. As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos. <135> em linhas. através do reconhecimento do que é letra e do que não é. Toda letra tem uma forma básica. linha por linha.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas. e a seqüência é da esquerda para a direita. e que uma letra sucede a outra. tal qual aparece no alfabeto. que serve para distinguir um caractere de outro. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo.

em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear. É preciso. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. ainda. Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). tudo o mais fica comprometido. É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. tais como numérica. para "enriquecer" a escrita com mais idéias. simb&lica. antes de se ensinar as relações entre letras e sons. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. o que são palavras isoladas e o que é um texto. Enfim. ele não saberá ler e .necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética. distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". e onde terminar. As vezes. composta de letras e seguindo uma ortografia. Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. as que utilizam sinais e marcas. de outras formas de escrita. Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração.

é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras. nesse caso. etc. sem muitas dificuldades. "ver televisão" "consertar televisão". observando a linguagem oral. mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. a segmentação é possível. Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco. há duas estratégias importantes: a primeira. é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. "assistir ao filme". Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". que deverão escrever. Por exemplo. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão". 3. embora represente uma idéia só. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão". E. quem sabe sabe. ou reproduzir graficamente o traçado de palavras. A palavra final será sempre dada pela ortografia.não poderá ser considerado alfabetizado. a segunda. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. Para saber como segmentar uma <136> palavra. quem não sabe tem de perguntar.

pode-se ter "maca". 4. Porém. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". através de exercícios de memória. começará pelo nome das letras. mesmo antes de entrar na escola. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão". no caso de "macarrão". a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto. Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado. Decorar os nomes das letras é importante. porque esse é um procedimento encontrado em livros.televisão". Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons. pelo menos as letras iniciais do próprio nome. porque as crianças costumam ir aprendendo. Em geral. se houver segmentação.. mas não na escrita comum do dia-a-dia. .. Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes. para que os alunos possam consultar sempre que desejarem. mas o professor não irá exigir isso. Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha.

mas se a leitura for feita da direita para a esquerda. o famoso bá-bé-bi-bó-bu.). deixando de lado o método das cartilhas. o professor pode programar aulas e material. pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações . <137> Poderá. como AMOR e ROMA. Entretanto. ASA.nos quais os alunos recitam o alfabeto. pode-se ter palavras diferentes. Por outro lado. ou até mesmo a mesma palavra. dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. Nessa atividade. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta). se quiser. etc. tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm. pode-se ler a palavra corretamente. O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. proceder a uma análise geral da palavra. Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança.

Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria. É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. Desse modo. sentem-se embaraçados e confusos. Como resumo e conclusão das reflexões.entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita. Levando em consideração esse estudo em anexo. quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. de tanto escrever palavras com "pedacinhos". As cartilhas jamais pensaram nessas coisas. em vez de uma série de regras . o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. como a variação dialetal e a ortografia. isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo.

não uma ordem pedagógica. mesmo quando estão pensando na leitura. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler. para letras diferentes. e vice-versa. na decifração ou na escrita. ele tem de decidir como escrever. Essa é uma ordem de análise científica. Somente quem conhece o . As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. observando esse fato na fala. Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. mas pode ser muito complicado quando. escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita). A própria natureza das letras.parecidas. Uma incursão por esse território será feita a seguir. Em primeiro lugar. Para um aluno principiante. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil". pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas.

é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. E. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. No início. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras. subentende-se leitura. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. para si. OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. I. Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). é mais fácil ou não. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. U) das demais que representam consoantes. tudo é igualmente muito difícil. nessas circunstâncias. Entretanto. Para o principiante. Quando se fala em decifração. Sempre que se . sabendo das dificuldades futuras. O.

BANANA. a letra E pode. ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste). A letra A. As vogais mais difíceis são o E e o O. tratemos da vogal oral A. Em seguida. quando nasalizada. como em: CAMADA. "imprêstadu". como CAFEZINHO. DELA. Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). EMPRESTADO. ainda. o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. BELO. Em sílabas átonas.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u". e somente em palavras derivadas. BELEZA. é comum a letra . como em ACHARAM. pode gerar a formação de ditongos. Veja os exemplos: FERE. "féri". Em sílabas átonas. A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. BANHA. Exemplos: DELE. TINTA. Exemplos: JUNTO. ser lida com o som de "i". BANHA. ou o NH. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas. Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). juntamente com o M. semelhantemente à letra E).

EMBORA. CIDADÃOS. ENTRE. LEÕES. LEME. VIME. UNHA. ACHARAM. Confira os seguintes exemplos: FOCA. COMIDA. ALGUM. Finalmente. OMBRO. que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO. FOGO. Porém. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. CINEMA. podem ditongar-se com "u". NH). quando seguidas de M. ONDA. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. UMA. SONHA. por sua vez. podem ditongar-se com "i". ocorre diante de outra vogal. embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. MÃE. CANA. JUNTO. Assim. BOM. PENA. CANTO. VINHO. toda vogal com til representa um som nasalizado. N. e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala.O ter o som de "u". ZONA. Por outro lado. UNA. quando seguidas de M. as vogais E e I. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. como nos seguintes exemplos: VEM. Em final de palavra. PÕEM. VINDA. VIM. como em: LÃ. as vogais O. BANHA. LIMPO. TUMBA. COMA. . U e A. COZINHA. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. LENHA. etc. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. em final de palavra. a qual. e a consoante nasal pode ser uma velar. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O.

AJUDAR. etc. TRABALHO. VACA. a letra L tem sempre o som de "lê". Como parte de um dígrafo. HERÓI. FACA. de "çê". NH. HÁBITO. A . A letra Ç tem sempre o som de "çê". e a letra J tem sempre o som de jê". Em final de sílaba. F e V. LH. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". T. LIVRO. D. HINO. No terceiro grupo. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). JOVEM. POÇO. As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. Exemplos: POTE. e a letra Z. Em final de sílaba. podem-se ter três grupos. a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). OBJETO. "lhê" e "nhê"). Com relação ao primeiro grupo. mais Ç e J. modifica o som da letra que a precede. Exemplos: CHINA. a letra L tem o som de "u". DADO. FRANGO. Nesse contexto. ADVOGADO. Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. e a letra Z tem sempre o som de "zê". TATU. BOLA. Terceiro grupo: L e Z. RITMO. Exemplos: MAÇÃ. estão as letras L e Z em início de sílaba. Segundo grupo: P B. PALHA. Exemplos: HORA.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. VENHA. são pronunciadas com um "i" optativo. BROTAR.

ou seja. U ou de outra consoante). NASCIMENTO. I ou de outra consoante. PSICOLOGIA. em . entre uma consoante e uma vogal. XC. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. segundo grupo: S. Exemplo: MESA. PASSO Entre duas vogais. CIDADE. Com relação ao primeiro grupo. tem o som de "kê" (diante de A. Nos demais casos. SELVA. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura). como em SAPO. tem o som de "zê". Z e M. depois de consoante e no dígrafo SS. A letra S não representa som nos dígrafos SC. como no caso dos dígrafos SC. CLARO. O. EXCEÇÃO. na mesma sílaba. Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. SÇ ou XC. Quanto ao segundo grupo. S. terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. NASÇA. CABANA. TÉCNICA. Exemplos: CEBOLA. CRISE. COR.<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R. SÇ e na forma de plural de certas palavras.

QUENTE. GRAÇA. em algumas palavras. O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. ANIQUILAR. FREQÜENTE. em outros. tem outro tipo de som ("guê"). Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. AQUELE. mas. GULOSO. Exemplos: GENTE. TOMÁS. Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. GUIMARÃES. O e U. não-dígrafos: AGÜENTAR. Não há regras. "as casas amarelas foram vendidas"). GOTA. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. LÍQÜIDO. No entanto. COSTA. IGNORAR. em alguns dialetos (cf. uma vez que o U é pronunciado. GARRAFA.certos contextos. em final de sílaba. diante de outras letras. Nesse caso. AQUI. no meio da palavra. <142> dígrafos: GUERRA. Em alguns dialetos. ou seja: "zê" e "jê". a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. MESMO. tem o som de "chê". SAGÜI. GIRAFA. GLÓRIA. tem o som de "çê". Confira os exemplos: BESTA. DESDE. Com relação ao terceiro grupo. SATANÁS. a letra S.

ora desvozeada (surda). BRASIL. RUA. Exemplos: CARO. MURRO. MAR. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. RIO. CARRO. soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos. o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. FERIR. costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. pelo contrário. PORTA. PLANTAR.diferentes dialetos). por exemplo). CRAVO. Em português. Z e M. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. mas. CERTO. separamos as palavras com um espaço em branco. RATO. sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora). quando falamos. não é isso o que acontece. É preciso levar em conta. além disso. . O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. Em todos os casos. Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. Nos outros contextos. Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). POBRE. S. Quando escrevemos. ainda. a variação é menos problemática (final de sílaba. MURO. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra.

mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo. tem-se uma sílaba átona . Porém. um deles cai.Vamos ver uma série de exemplos. quando se juntam dois "as". No exemplo 2. No exemplo 1. Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos. houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. No exemplo 3. o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. nos exemplos 3 e 4. ocorre uma sílaba tônica final. seguida de uma sílaba átona inicial. têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial.

Nota-se que. átona. seguida de uma sílaba tônica inicial. No exemplo 4. como refletir sobre as relações entre fala e escrita. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. uma vez que as sílabas se fundem. O exemplo 2 é de difícil análise. a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade. O que acontece. e se for. como no exemplo 3. Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. com a formação dos ditongos. porém. nos demais casos. ocorrem duas sílabas tônicas. formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. A dificuldade mais .final. nos exemplos 3 e 4. não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. Porém. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9. Do ponto de vista da decifração e da escrita. como mostram esses exemplos. no contexto de juntura. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica. Essa regra inclui todos os exemplos estudados. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. mais uma vez. além disso. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. Considerando apenas o exemplo 1.

Confere. uma vogal. Porém. mas não na escrita. Com relação à decifração. há uma consoante e. a presença do artigo não é obrigatória. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia".comum que os alunos enfrentam. apenas enumera fatos. em final de palavra. No primeiro caso. . Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. Por exemplo. o falante quer marcar uma oposição. a consoante final junta-se à vogal inicial. a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando. no segundo caso. Por exemplo. mais raramente. ainda. o trabalho de segmentação da fala. encarando o problema por outro ângulo. em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. no início da palavra seguinte. Em alguns casos. em que caem dois "as" na fala. subseqüente). é saber se devem ou não escrever o artigo "a". Nesses casos. é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". assim. "toda a amizade". mas muda levemente o significado da frase. formando uma sílaba única e dificultando. uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. como já se viu antes).

. depara-se com outro. Concluindo. se o M for precedido por outra vogal. mas. etc. O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. encontra um tipo de som. quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. VIR AQUI. As letras S ou Z.quando se encontra em juntura intervocabular. no início. TRÊS AMIGOS. depois que a segmenta. etc. independentemente do dialeto. CARÁTER AGRESSIVO. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte. RAPAZ INFELIZ. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. se a nasal for precedida por I ou E. POR ALI. em juntura. pronunciando a palavra isoladamente. de outro. A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. têm sempre o som de "zê". descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê"). troca-se o som de RR por R. o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). Veja os exemplos: CASAS AMARELAS. Porém. DEZ AMIGAS. Em final de palavra. Quando o aluno analisa sua fala contínua. Nesse caso. nesses casos. ocorre uma consoante nasal velar.

não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações. IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). os exemplos acima. em vez da consoante nasal indicada para a fala. em juntura intervocabular. Uma simples explicação. Como se disse. "põi-a-ki". no entanto. poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". "bõu-a-mi-gu". Mesmo que o aluno . "vi-é-rãua-ki". PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). HOMEM AMARELO. contudo. A mesma regra aplica-se quando. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. etc. "ir-mã-i-fe-liç". etc.Veja os exemplos: VEM AQUI. A falta de explicação. Assim. permanecendo apenas sílabas diferentes. o Z é opcional. essa regra. sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez. mesmo não havendo a letra M na escrita. diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita. pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. Isso significa que. pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. VIERAM AQUI. RUM AMARGO. VIM AQUI. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). etc. de acordo com a forma de cada palavra. BOM AMIGO.

quando o leitor se encontra diante de casos assim. Para chegar à conclusão final. pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê". a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". nesse contexto. Sem nenhuma explicação. no meio da palavra. etc. julgando-se incapaz de aprender. tem o som de "kç" ou "kch". saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. etc. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR). o que torna sua leitura fácil. deverá lançar mão de outro expediente. etc.não as aprenda. LATEX. Em final de palavra. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". que ele aprenderá mais tarde. A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. como nos seguintes exemplos: VEXAME. Porém. Aqui. EXPLICAR. Quando ocorre em final de sílaba. EXAME. dependendo do dialeto: EXTRA. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". dependendo do dialeto: TÓRAX. Como temos dito várias vezes. PROXIMO. O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ. PIREX. o aluno procurará uma e acabará confuso. "eichçeçãu"). que consiste . FIXO. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil.

sobretudo quando ele está lendo sozinho. na realidade individual de cada aluno. o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto. . alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno". uma leitura possível seria "ficha". Se produz. Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç". ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. dependendo da variedade lingüística em uso. Porém. Nesse caso. confrontando com o contexto. Portanto. ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". Se não produz.<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. Deverá procurar então uma outra alternativa. Por exemplo. Porém. as diferenças entre escrita e fala aumentam. Finalmente. a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula.

A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. em geral. <147> De modo geral. Essa afirmação . Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). ou seja. ser diferente da forma escrita. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. por causa da variedade lingüística do aluno. Alguns casos são de fácil decifração.OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. na fala. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. em princípio. F em vez de V e T em vez de D. T/D. ou de a forma lexical de uma palavra. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. Para o professor e para o aluno. pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. F/V É curioso. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. quando os alunos escrevem P em vez de B.

A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia. produzir uma fala sem sons sonoros. como a troca de V por F não muda o significado. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. as vibrantes podem ser sonoras ou surdas. assim como as laterais. Então. Será mais dificil quando não houver um par mínimo. os imigrantes poloneses). a única solução é o aluno decorar a ortografia. Nesses casos.. Nesse caso. em outras situações. deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V.não faz sentido.. Por exemplo. o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra. Em seguida. . sempre que achar que precisa escrever F. sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra. porque analisando tudo o que as crianças fazem. Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. assim como as fricativas. se o aluno for escrever "livro". Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras".). logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. Assim. assim.

Pode. O mesmo vale para os sons "mê". "nê" e "nhê". etc. Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. etc. Em outras palavras. LIVRO. pode ser fácil se. . porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. Quando faz parte de grupos consonantais. LADO. CORUJA. NATA. CANA. o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. em início de sílaba: MAPA. na fala do aluno. BANHO. esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. O ou U: JACA. etc. que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. então. ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). Porém. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos. GLÓRIA. HAJA. TENHO. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. CORRIJO.Passando a outros casos. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. JUNIOR. Por isso. CLARO. JOVEM. como em: PLANTA. Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. CAMA.

NHOQUE. etc. etc. Por exemplo. há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. HR. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. etc. no início de palavra. etc.VIAJA. (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). Há outros modos de ver o problema.). TH. etc. etc. GUIMARÃES. Nenhuma palavra começa com Ç. numa mesma sílaba. Por outro lado. só se escreve um R. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A. COLAR. pode-se ensinar aos alunos que. como em: QUATRO. GULA. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i". NHEENGATU. Do mesmo modo. nunca dois: RATO. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. QUINTO. o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. etc. O ou U (não seguido de outra vogal): CADA. RIO. como por exemplo. não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. etc. GARRAFA. FREQÜENTE. etc. INÍQUO. O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE.

a ortografia obriga o uso da letra N. Com relação às vogais. BOMBA. "ó". "ô". IAM. se essa consoante for P ou B (M é muito raro). UTILIZAR (de útil). FARÃO. a ortografia obriga o uso da letra M. etc. ACHARÃO. porém: ESTÃO. ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante. passam a . ENVIAR. ENLATADO. como: FERTILIZAR (de fértil).terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR). As que terminam em . no meio de palavra. Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA. porém: MARQUESA (de marquês).ÃO. os quais. etc. BANCO.s são escritas com -ESA. etc. entre a vogal nasalizada e a consoante. "é". ONÇA. entre a vogal e a consoante. quando identificados na fala. É relativamente fácil mostrar aos alunos que. Exemplos: FIZERAM. e os finais oxítonos. Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B). ESTAVAM. com . INGLESA (de inglês). SÃO. INFELIZ. é mais fácil escrever os sons "é". Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR). Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM. Exemplos: BELEZA (de belo). INTEIREZA (de inteiro). Exemplos: CAMPO. CANTO.

Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. ISCA. ÓRGÃO. IRMÃ. Em geral. ao encontrarem o som de "à" em final de palavra. ÍMÃ. ISLANDÊS. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL. em alguns dialetos). etc. houver exceções às suas regras. O professor não deve se preocupar se. ISTMO. quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante". ESPADA.corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). "adjetivo". ALEMÃO. TALISMÃ. é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. ele será escrito sempre com til: LÃ. "palavras primitivas . Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. ISLAMITA. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". são menos interessantes na alfabetização. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites.. Nesse campo. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. Como exceção temos ISQUEIRO. ESQUADRA.. porém nas sílabas átonas é muito difícil. usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO. etc. por essa razão. Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til). Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. etc. Por exemplo. por acaso.

Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos.<150> e derivadas". da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta. "sílabas tônicas e átonas". Entretanto. OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como. etc. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. Às vezes. "paroxítonas e oxítonas". Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos. Dentro desse quadro de preocupações. deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. . Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. o conhecimento do funcionamento da escrita. às vezes. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. o sistema alfabético nos leva a crer).

e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. a seguir. em certos dialetos. EXTRA. "çóu" — SOL. e não da escrita. como em CASAS. como parte final de alguns ditongos. como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. etc. etc. As vezes. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado. RAPAZ.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. será representado por S. porém: "çaudadi" — SAUDADE. quando se consideram os fatos a partir da fala. como em ALTO e AUTO. "mêu" — MEU. alguns casos. Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba. O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. Em alguns casos. é escrito com U. . "çôu" — SOU. mas esses casos são raros e ajudam pouco. esse "u" é escrito com L e. representando o som de "u". às vezes. justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. Z ou X (X somente no meio da palavra). DESDE. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. "méu" — MEL. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L. Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. Vejam-se.

por oposição a R.Mais um caso dificil é o som de "çê". C (somente diante de I e E). Um caso mais simples é o do som "zê". na verdade. Diante dos SONS "j" ou "e". quando pode ser representado por C ou por QU. S ou X. Por exemplo. Nos demais casos. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. Nesses casos. A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras. Porém. não trazem dificuldades para a escrita. Nos demais casos. Notar que algumas diferenças de fala. mas esse . O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. o aluno escreverá sempre um R só. O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande. em alguns dialetos. que pode ser escrito com S. Ç. O ou U. só se escreve QU. há pessoas que falam "tchia". será usado apenas o J. A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. Z (somente em final de sílaba) e X. nunca C. quando o som estiver entre duas vogais. só se emprega a letra Z. em início de palavras. que pode ser escrito com Z. "djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". Só se usa RR.

o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita. Q Aqui. Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I. cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. Apesar do que foi dito acima. o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. <152> Com relação às vogais. FICAR. a escrita será provavelmente com X. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". etc. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. nos demais casos. Como se disse anteriormente. U ou E. Por exemplo. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). mesmo sem eliminar sua pronúncia original. como COLOCAR. SOCAR. a única saída é recorrer à ortografia. Portanto. Porém. não há regras para facilitar o aprendizado.

SIMÕES. . ALEGREMENTE. "prefixos". são escritas com ESC. TÃO. ou melhor ainda. por exemplo. Outros exemplos. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). Por exemplo. DANOSO. etc. FORMOSO. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. Já se falou antes. -OSA. TRISTEMENTE. ESPADA. dependendo do dialeto. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. ESCORREGADOR.palavra". Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. LEÕES. etc. que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk". SIMÃO. TERRÍVEL. HORRIVEL. PREGUIÇOSAMENTE. LIMÕES. ESPÍRITO. e não de outra forma: ESCADA. MELÃO. PÕEM. Conferir: PÃO. Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". BONDOSO. como HORROROSO. poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. etc. vendo as seguintes palavras. ou PÕE. INCRÍVEL. constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). FARÃO. POTÁVEL. etc. e se souber como se escreve esse sufixo. FERRÕES. ESCOLHER.

escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. FALANO. apenas nasalizam a vogal precedente. ao aprender o sufixo do gerúndio. Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. Portanto. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. o aluno. usando a terminação -NO e não -NDO. em vez de escrever: ANDANO. em seus dialetos. eles não pronunciam essas consoantes nasais. Escrever M. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO. FUGINDO. N e NH em início de sílaba é fácil. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. FAZENDO. sobretudo . Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. CORRENDO. Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. aprenderá a escrever também ANDANDO. Isso acelera o domínio da ortografia. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular. se possível. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. até mesmo a extensão dessas considerações. FALANDO. FUGINO. CORRENO.Alguns alunos falam o gerúndio. Porém. porque. FAZENO. etc.

palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações. anotando em colunas. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade. a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. escolhendo exemplos apropriados. a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. propostos pelo professor e pelos alunos. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado. Com relação ao problema da nasalidade. <154> . Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. para esclarecer. menos formal. em primeiro lugar.numa fala mais rápida. seguindo o exemplo da palavra MUITO.

Portanto. E o caso de quem escreve ON em vez de NO. A regra de identificação semântica (uma idéia. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. quem tiver dúvidas. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. uma palavra) não ajuda muito nesse momento. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. inclusive de como a escrita funciona. Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. ou mesmo TAMA em vez de MATA. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer. Nesse caso. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis. Na verdade.Logo no início. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. não adianta ficar . Em último caso. As inversões de letras representam os casos mais comuns.

A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. como faz tradicionalmente o método das cartilhas. Resumindo. pior ainda. ainda. Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. as relações entre letras e sons são muito complexas. alguns complexos. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler.pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. além dos relacionados à leitura. Muitas . são necessários alguns conhecimentos e. Isso mostra. pode ir tentando escrever. acabará com sérios problemas de leitura e. de escrita. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. se misturar as duas coisas. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento. mas. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. para ler. são necessários conhecimentos complementares. do que a escrever. para escrever.

fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI. umas poucas famílias de sílabas geradoras. a . Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever.vezes. para o governo e para os pais. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. por essa razão. Nessa situação. é incompleta e. Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler. para o professor..). não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. Então. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si. encontramos alunos que. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. enquanto eles fazem tudo errado. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram. senão aprende errado. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria. que fazem coisas certas. Um aluno aprende umas poucas palavras-chave. e acabam sem saída. para a escola.. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto.

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

"Ele vai para casa". frases. mais o desenho da casa. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). . pequenas mensagens e até pequenas histórias. nessa seqüência. fazer o desenho de um caminho. etc. portanto. O professor pode explorar esse tipo de atividade. escrevendo palavras. Cada figura ou foto está representando coisas do mundo. posso representar uma frase como: "Vou para casa". ou de alguém andando. Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. Nesse momento. e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). o processo de decifração e de interpretação da escrita. pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. não constituindo.Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. As figuras transformam-se em escrita. juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. "Irei para casa". Porém. Podem testar a leitura. isto é. Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam. linguagem escrita. as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa". Escrevendo desse modo.

Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. pessoas. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. e colocá-las em colunas.Recortando material de jornais e revistas. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. por exemplo. etc. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. animais. Para isso. os escudos. podem tentar escrever usando . O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. com desenhos) é usada na vida real. ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. as grifes. além de desenhos que representam figuras de objetos. recortar figuras de objetos. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. como os logotipos. Podem. as bandeiras. Pode exemplificar como. Depois. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras.

todos se comunicariam apenas através dele. motiva-os a progredir. de certo modo. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. como também já conseguiram ler e escrever. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa. Com isso. pois eles começam a ver que.o sistema de escrita que inventaram. enfim. há muito tempo. Além disso. Em seguida. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . Essa imitação do que aconteceu historicamente. sem mostrar as figuras a que eles se referem. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita. os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. Exceto quem inventou o símbolo. essa tarefa será resolvida apenas em parte. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura. ou seja. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. onde vivem milhões de pessoas. usando apenas os símbolos inventados. Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. uma vez estabelecido.

mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. como os de um código secreto. dependendo da forma como o sistema se apresenta. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. e outro constituído de caracteres arbitrários. As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje. e não apenas de letras. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras. como se explica com o exemplo a seguir. Pode-se escrever a palavra . futuramente. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras.secretos. Isso irá facilitar. Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. através do uso de rébus. nesse momento.

a questão é muito mais complexa. fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão". consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. Temos. Através dessa estratégia de escrita. um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. pode-se também escrever essa mesma palavra."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem . assim. será preciso reinventar as letras. Vão ser necessárias três etapas: primeiro. Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. Por outro lado. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão".

pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som. passo a passo.às nossas letras. Agora. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. segundo. na ordem correspondente e. Esse pode ser um longo caminho. Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. como as fricativas). então. ou seja. a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa". Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). segmento por segmento. mas basta percorrê-lo uma vez. particular e distintivo no sistema. com as letras convencionadas. Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas. destacamos um som na primeira sílaba. . a vogal "a". escrever a palavra. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala. aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala. Desse modo. terceiro. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. há duas maneiras principais. duas estratégias de observação. achar as letras correspondentes. Por exemplo. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta").

na segunda. as rimas são dadas não por sílabas completas. a consoante inicial das sílabas. Na primeira abordagem. Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. Por outro lado. O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. é fazer levantamento das rimas. tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. "aaa". acompanhado dos devidos comentários. A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. e outro diferente na segunda. o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral. analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente. Uma delas. Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". de uso muito comum.que é o "ééé". ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . Seguindo esse procedimento de análise. mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). na segunda sílaba da palavra FES-TA.

<168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. etc. DESMONTAR. DESCARREGAR. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. através do princípio da acrofonia. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição. DESCASCAR. etc. mas apenas um pedaço.CORAÇÃO. Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. SINO. Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. de preferência apenas um som. um desenho não representa mais uma palavra inteira. CINEMA. pode começar escrevendo a palavra "camelo". DISPUTAR. o som inicial do nome do desenho. SINAL. Nesse segundo modo de escrita. DEDÃO. Por exemplo. SITIO. CIGARRO. Procedendo assim para cada som da palavra . IRMÃO. Por exemplo. Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. etc. DISTINTO. associar o desenho à fala. Além disso. DISTRIBUIR. ACHARÃO. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo).

acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras."camelo". O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar. Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. o mar ("m"). Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. está perfeito. A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. Se um aluno preferir usar um cacho de uva. como um dos resultados possíveis. pelo som de "u". e o aluno. representando o som "u" no final da palavra "camelo". um assunto puxa outro. razão pela qual ele optou pelo som de "o". basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . por ordem. um avião ("a"). uma lata ("L") e um ovo ("o"). Por exemplo. Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão. Como se vê. E é assim que deve ser. um cabide ("e"). e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". um elefante ("e").

mas "za" não significa nada (talvez um apelido. podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. isoladamente. Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. Ao fazermos isso.. considerando cada pedaço (sílaba) em separado. "cá estou eu". E sons sem significado não formam palavras.. Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . perde-se o significado original. que fazem parte da idéia mais geral. podendo ou não resultar outro significado. Assim. a língua que falam. com os sons "kaza". quando segmentamos os sons da palavra "casa". descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos. "ka" significa. na escrita. A escrita revelou uma idéia. etc. são apenas ruídos. temos "ka-za".). paredes.representavam. vendo a foto de uma casa. Por outro lado. janela. descobrimos que essas idéias formam novas palavras. Porém. Portanto. em português. como telhado. "aqui". Por exemplo. No todo. as palavras sempre se compõem de idéias e sons. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando. Ao fazer isso. porta. existe um significado. chão. As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. gerando novas idéias (significados). Assim.

passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z. não só para que os alunos o aprendam. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. assim...idéia ou não é muito complicado e. talvez acima da lousa (ou quadro-negro). Apresentado o alfabeto. do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. dos grifos para as letras e. seguindo a ordem alfabética. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. Quando se chega às letras. Para isso. que pudesse ficar bem visível. O alfabeto Aos poucos. ensina-se o nome das letras. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos. Sempre se descobre algo novo. mas também para terem um . é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. na prática. Porém.

pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). Descobre-se que a tentativa não deu certo. apresentar uma palavra na forma escrita. ou seja. se acontecer. que o aluno deverá reconhecer facilmente. cujo significado é evidente. Para ilustrar o que foi dito. esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. sabendo o nome das letras. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. a palavra. Então. se o resultado final é uma palavra desconhecida. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). Portanto. O que vale sempre é o resultado final. O professor pode. mas isso não acontece na alfabetização ou. será algo extremamente raro. por exemplo. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. suponhamos que o professor . e não apenas sons. Portanto. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. sem dizer do que se trata. sem grandes dificuldades. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. e pedir aos alunos para decifrá-la. mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura.referencial dos sons que as letras têm. como falante nativo. pode-se decifrar a escrita de uma palavra.

escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c. E sempre preferível dar uma . é "kaza". a. Com os nomes das letras. agora. analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. como também ensina-os a ler palavras simples. identificar cada letra com seu respectivo nome. O resultado. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. <171> dizer que palavra está escrita. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas. mas já é um grande avanço. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". o professor pode escolher palavras. Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. esse. Não é tudo. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. Com essa técnica. a. fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas. Está descoberta uma palavra conhecida.

Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. Ao iniciar a decifração da escrita. poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. Se os alunos não entenderem direito (ou nada). os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. o modo como a fala. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões.boa explicação. mesmo que complicada. incompleta e meio deturpada. a ter de camuflar o problema. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. a escrita e a . Portanto. Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. disfarçar. metafórica. a aquisição da linguagem oral e da escrita. Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. não faz mal. os alunos terão outras chances de aprender. as noções básicas de fonética e fonologia.

Em geral. o que é decifrar uma escrita e como fazer. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. como analisar e interpretar os erros. Somente em séries mais adiantadas. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos. <172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. muito usado pelos lingüistas. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. há um tipo de exercício. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados . o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. São os pares mínimos. quando os alunos já tiverem certas noções básicas. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala. numa ordem predeterminada. é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião.leitura funcionam e quais os seus usos. como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler.

destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. ou de que letra terá de ser usada para escrever. com o par mínimo escrito. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som.se as letras diferentes que representam um mesmo som. mas do ponto de vista da escrita. "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga". O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. Feito isso. que significa uma fruta e uma parte de roupa). Do ponto de vista da fala. já se tem uma dica de que som ela representa. destacam. explicando que no próprio nome da letra. basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. que se opõe a M no início das palavras do par). Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. Com o par mínimo falado. "casa/caça". relacionados entre si ou não. Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico.diferentes. porque representam palavras de significados diferentes. quando já se sabe o som. "mar/mas". observando a fala. por exemplo. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de . etc. formariam uma espécie de "par mínimo".

portanto. "habitação". em "ão": "avião". e têm. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). "coração". e que as letras. ditadas pelos alunos. Como usamos muitos alfabetos. Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. fazendo colunas. como. etc. Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. "irmão". O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas. de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. há uma letra. nas colunas verticais. o mesmo valor alfabético. Primeiras leituras de textos . o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes. usando apenas as letras de fôrma maiúsculas.rimas: palavras terminadas em sons semelhantes. Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. para que os alunos percebam que. em colunas. para cada lugar de escrita na palavra. é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. "ão"). <173> por exemplo.

no início. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. Aqui. < MASSINI-CAGLIARI. Porém. O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante. Aqui. dizer o que foi que leu. 1998a. será cobrada mais adiante. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases.). poderá. <174> Com o tempo. Em primeiro lugar. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito.Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas. Feito isso. para isso. então. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos.. há alguns pontos importantes a serem considerados. o professor estimulará seus alunos a lerem em particular.. mais fiel ao texto. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. o professor os levará a ler pequenos textos. Assim. deixando sempre os alunos lerem . é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler. Portanto. para si. Uma leitura mais rigorosa.

servindo-se da leitura de textos. incluindo as expressas pelo autor do texto. e mesmo ridículo. silabando.individualmente.). em geral. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas. Se algum aluno quiser ler para os colegas. Portanto. Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. etc. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. sem ritmo. mostrando como ela deve ser feita. pois é claro que estão entendendo. Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. Interpretar textos com perguntas e . Nesse tipo de atividade. o que vale é a discussão das idéias pessoais. será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência. sem a correta entoação. histórias de fácil compreensão. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. uma vez que os textos são. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries.

respostas é uma idiotice. quer com relação aos variados tipos de textos. a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. <175> revistas. da vida de pessoas famosas. enfim. ler de tudo. É preciso ler jornal. receitas culinárias. Por exemplo. curiosos. reportagens que falem de assuntos científicos. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado. de montagem ou de conserto. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas. porque um processo necessariamente . notícias. E ler nunca é demais. instruções de uso de equipamento. É preciso ler histórias (muitas). incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. devem ler propagandas ou outro material semelhante. Usos especiais em propagandas também são interessantes. O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. técnicos. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura. quer com relação à forma gráfica. etc.

em decifrar o sistema de escrita que temos. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. os alunos podem colecionar letras.implica outro. Tal qual foi feito em seções anteriores. isto . As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. as noções básicas de um sistema de escrita. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais. Em outras palavras. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Por essa razão. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura. Depois. ou seja. do ponto de vista gráfico e funcional.

pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas. logotipos. podendo chegar a escrever textos relativamente longos. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis. Esse material já impresso.é. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. Brincar de escrever. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. Até para o professor. sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. logomarcas. símbolos. e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. Podem. como histórias e cartas. Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. que é recortado. colecionar pictogramas. ainda. sinais de trânsito. grifes. inventando sistemas de escrita. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . etc. Por exemplo. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares.

Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer.. sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar). frágil.). O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos. sempre que possível.. cartas enigmáticas. algo familiar e banal. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita.). É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. para a criança. Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras.. A exploração desse material. aliada ao processo de leitura. pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar.da paz com o ramo de oliveira. natação.. pictogramas que representam palavras (banheiro masculino. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante.. escreve-se a partir .. mas deve. andar um passo atrás e não à frente dos alunos. Assim. lembrando o dilúvio... escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se. o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico. sem que eles percebam.). etc. No primeiro caso.

o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. é necessário associar a cada letra um som. É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. Para ler. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra. a cada letra será associado um som. através de rébus. <177> No segundo caso. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. usando-se o sistema fonográfico. AVÓ).do significado. estamos diante de uma escrita ideográfica. Existem estratégias diferentes para ler e para escrever. Tratando-se da escrita alfabética. sílabas. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. que depois deverá compor os sons da palavra. somar os . com exceção da letra h. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. procurando encontrar depois os sons que esses significados têm. Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. o fonográfico. ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade. que se traduz numa palavra.

a história dos estilos de letras. por exemplo. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. da caligrafia. Explorar esse assunto ao máximo. Se não der certo. A. uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. tem sons diferentes. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . As vezes. Nota Português Inglês Francês. Os recursos visuais aqui são úteis. sua evolução. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. dos livros. privilegiando as letras e os números. até que o significado apareça. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo. Contar a história do alfabeto.

um gabarito de três linhas é o suficiente. como fazem os letristas. dizendo. Para as letras de fôrma maiúsculas. pode ser através do uso de gabaritos. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra. ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional.). um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas). Com relação à parte gráfica. o traçado é feito sempre de cima para baixo e . em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos. por exemplo. que nas de fôrma maiúsculas.

<179> Explicações como essa são de grande ajuda. As crianças podem inventar alguns traços. em geral. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. etc. O professor deve avaliar. e vão para a direita. Todavia. na parte mais alta. Por outro lado. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. e de cima para baixo.da esquerda para a direita. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. quando houver só curvas. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou. As letras. Letras que apresentam apenas curvas. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio. o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. sem hastes. descendo. sobretudo as de fôrma maiúsculas. usando o bom senso. quando houver mais de um traço. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. a escola . são traçadas da direita para a esquerda. segurando o lápis displicentemente. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. ou da direita para a esquerda. Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente.

Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo. O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo. Nesse caso. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada. que o leitor verá sempre numa única posição. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas . Nesse caso. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra.tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. isto é. ora para baixo ou para os lados. podemos escrever na vertical. Isso também tem de ser discutido com os alunos. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. a do círculo externo. exemplificando com moedas e medalhas. Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. há várias formas de dispor as letras em curvas. a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. estando ora com uma parte voltada para cima.

o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. o q em b e o p em d. Pelo contrário. em contrapartida.elas bem distintas graficamente. b. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. B. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. com a escrita cursiva. passar exercícios de "prontidão". o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. o bem q. e. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. Por exemplo. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. dependendo do modo como se observam as letras. para se saber o valor das letras. q e p é apenas a sua localização espacial. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. Para ensinar isso. Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a . o que se consegue. com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. eles podem se confundir. menos ainda. deve dizer que. Além disso. há uma notável distinção gráfica entre D.

Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar. como a letra A. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos. é algo que os alunos apreciam. Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não). Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar. Faz muito bem a eles. essa atividade pode não só não ajudar o aluno.direita (ou vice-versa). Porém. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. Copiar para aprender Fazer cópias. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. pensam naquilo que as letras representam. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. Enquanto os alunos copiam. caso das cartilhas. .

e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual.Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. o S e o C de forma espelhada. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada. O . supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. Seguindo essa direção. pelo retrovisor. por exemplo. Lembrando das orientações do professor. mais preocupados em como se traçam as letras. o que está escrito nesses carros oficiais. Quando o professor diz isso. Carros de bombeiros. muitos alunos estão. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. nesse momento. Porém. compõem todas as demais no mesmo padrão.

Então. Como exemplo. . que a escola costuma chamar de troca de letras. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. porque a ortografia naquela época permitia. Mas hoje é diferente. Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas. seja ele curto ou longo. como funciona e quais os seus usos. "deru" (deram).professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. "çinquo" (cinco). Quando isso começar a acontecer. escrever "onrras" (honras). inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente. ilustrada com exemplos do passado. visando sempre à redação de um texto. Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. está na hora de explicar o que é ortografia.

À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. portanto. "aluguel" e "aluguer". Com essas explicações. em função das normas ortográficas. "doçe" (doce). . "milhor" (melhor. serão levados a reconsiderar o que fizeram. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. em alguns casos. "louro" e "loiro". etc. não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e. Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. admitem mais de uma maneira de grafá-las como. "assobiar" e "assoviar". é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. já mais familiarizados com o ato de escrever. etc. "filia" (filhas). "dici" (disse). mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. por exemplo."homes" (homens). de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. Ficarão mais consolados ainda quando. "flecha" e "frecha". Somente depois. Como atividade de escrita. procurarão escrever cada vez mais corretamente. ao explicar a ortografia. chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia. "caminhão" e "camião". "vaquas" (vacas).

Escrever. por essa razão. podem-se fazer gestos. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente. quando se escreve. como se diz. o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. Fazer isso requer prática. A escola. todavia. é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. etc. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. não espera que todos os alunos . tem-se o interlocutor diante de si e. Portanto. porque isso faz parte da nossa cultura. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e. Quando se fala. já nasça com a arte <183> no sangue. pedindo explicações. desde a alfabetização. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente. o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. embora o gênio. como qualquer arte. perguntando o que não entendeu.

não basta dar um peixe a quem tem fome. que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante. No começo. como se autocorrigir. Não basta dizer ao aluno que ele errou. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. leva anos para atingir um nível satisfatório. corrigir. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos. é preciso ensinar a pescar.sejam grandes escritores. depois. sem dúvida. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. do jeito que . A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. Nos primeiros textos. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. Como diz um velho ditado chinês. vale o que o aluno faz. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. passar a limpo. sem precisar do professor. melhorar e.

ele fez. como também levando em conta a ortografia e. portanto. mal planejado. que serão lidos por outras pessoas. A partir daí. nem é preciso. ininteligível com relação às idéias e à grafia. uma prática pedagógica muito importante. <184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. um bilhete ou um trabalho mal escrito. produzindo textos espontâneos. o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. os quais deverão atender às exigências da escola. Com o tempo. pedagogicamente. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. e outros. que irão formar livrinhos. a estruturação do conteúdo do discurso. e serão feitos em pelo menos duas versões. Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. não só no aspecto visual-gráfico. a que a escola precisa dedicar-se. mal organizado. acima de tudo. sujo. . Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças.

por causa do método das cartilhas. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . o ponto de interrogação. enfeitadas. um layout. os acentos e os sinais de pontuação. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes. No início. desde a alfabetização. ao mesmo tempo. Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos. além da caligrafia bonita. ou seja. A arte de escrever prevê uma programação gráfica. a vírgula. marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. Esses temas serão tratados a seguir. Tradicionalmente. juntamente com o alfabeto.Diacríticos. uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel. como o ponto final. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e.

<185> deformando características gráficas das letras (isoladas).). ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre. Quando os alunos estiverem na terceira série. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. Em geral. ou forem mais adiantados. script.(manuscrita. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. Além das formas pessoais de amalgamar letras. O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra . Porém. os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica. De acordo com sua natureza. Por essa razão.. com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer.. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem.

essa manifestação de arte. Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. por razões estranhas. É uma pena. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. à semelhança de outras. não tem tido a menor chance nas salas de aula. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. No Brasil. charmosa. Parece. Caligrafia é simplesmente escrever bonito. que muitos professores. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. sem saber escrever de uma maneira elegante. elegante. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . quando necessário. Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. pode ser ensinado em séries mais adiantadas. no entanto. Caligrafia é uma arte típica da escola. sofisticada. Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. abandonaram o ensino da caligrafia.

quando se escreve a linha ascendente. suaviza-se. força-se o traçado com a caneta. As crianças divertem-se com essa atividade e. etc. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. títulos.espessura dos traços. desse modo. é uma forma de ensinar não só a escrever. quando se escreve a linha descendente. e. letras sugerindo fogo. Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. alegria. Na alfabetização. essas formas escritas são muito comuns. Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. vento. classificá-las do ponto de vista das . como também a escrever segundo uma cultura. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. No mundo em que vivemos. Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. e a escola não pode deixá-las de lado. enquanto se preocupam com os enfeites. cartazes. cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra. o professor pode mostrar catálogos de letras. etc. Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito. tristeza.

seguindo algumas idéias básicas. no mundo em que vivemos. com as contribuições dos alunos. o professor precisará explicar como se cuida do layout. também merece a atenção de professores e alunos. coloca-se ponto final. em seguida. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. mas. em certos casos. Um texto fala de um assunto. as letras . A classe pode fazer um álbum coletivo. usa-se o espaço de parágrafo. como dividir um texto em parágrafos. pode introduzir algumas idéias gerais. além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. O professor. Quando estes estiverem escrevendo textos. porém. Quando alguém disser alguma coisa. é fácil mostrar o emprego da vírgula. Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno. quando souberem. como nas enumerações. por exemplo. Essas idéias básicas constituem os parágrafos.características gráficas e organizar álbuns. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas. A vírgula traz algumas dificuldades. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). a marca do travessão e escreve-se a fala.

.. No começo. dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. mesmo na escrita à mão. quando as pessoas escrevem à mão. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha. (Existem regras para isso. Nos livros. Porém. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas.) Porém. não é costume cortar palavras. simplesmente a escrevem na outra linha. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. da clareza e da beleza gráfica das letras. quando isso é necessário. as palavras são cortadas no final de linhas. mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. por razões estéticas. e se acharem que não vai caber. vão ter de tomar alguns cuidados especiais. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia. mas não é preciso fazer margem . Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida.minúsculas do alfabeto adotado. quando os alunos estiverem escrevendo histórias. Embora as explicações não sejam rigorosas. os alunos escrevem palavras isoladas.

No primeiro semestre de aulas. Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. quanto à sua apresentação gráfica. também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens). no segundo semestre.direita. as crianças gostam de copiar. O professor pode deixá-las fazer isso. o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. provavelmente. Nessa hora. Porém. quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. O acabamento correto do texto. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. esses aspectos precisam ser esclarecidos. No entanto.

Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. não. cada uma relativa a algo que vê nas figuras. etc. O professor ficará atento a todos os detalhes. quer desenhando o que quiserem. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício. outros. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito. expressões. Quando o aluno faz o texto primeiro. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. então. provérbios. a aliviar um pouco a tensão. pequenos textos. frases. Isso desarticula o texto. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. Nesse momento. quer colando recortes. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . nomes. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. A cópia ajuda. Como sempre.virando: alguns alunos copiarão direitinho. fazer pequenas cópias de versos. e não o contrário.

por sugestão do professor. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas. o professor pode deixar os alunos redigirem. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. porque. Ao iniciar esse tipo de atividade. dia não. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas. ou. por exemplo. assim. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. Portanto. O professor não corrige . Os alunos farão o texto e o ilustrarão. É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. se for o caso. dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. dia sim. Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. os alunos vão escrever o que quiserem. Algumas até se arriscam a fazer poesias.texto mais bem planejado. do jeito que quiserem. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro.

Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. até textos longos e pequenos livros. realizadas por diferentes alunos. o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito.nada que for entregue pelos alunos. No próximo capítulo. e não que os alunos façam segundo um modelo. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. mas cada um a sua tarefa. escrevendo. Aprende-se a escrever. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem. todos escrevendo. trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização. . e quanto mais os alunos escreverem. O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. desde textos curtos e simples. em grupos ou individualmente. mais e melhor aprenderão.

ouvi-los e. quando eles forem ler. Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito. porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala. decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística . Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. discutir. Como todos os alunos são falantes de português. aprendem não só a falar. como também a entender o que as outras pessoas dizem.<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos. Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. na verdade. Isso. a tarefa é praticamente impossível. se a pessoa não conhece a língua. é um grande alívio. Quando as pessoas adquirem a linguagem. podese conversar com eles.

Para entender o que ouve. como ouvinte. de todos os dialetos. Em resumo. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem. o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto). Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. como a língua portuguesa. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. quando ouve. O problema escolar coloca-se quando se pretende . comunicam-se. todo falante é falante de um dialeto. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. Na verdade. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira. conversam entre si e. os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. Mais ainda. <191> Como se vê. apresenta variedades. é falada em muitos lugares. como um todo. relativos aos dialetos.estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. Porém. firmando-se assim os dialetos. depois de certo tempo e costume.

Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. uma pessoa pode ler um . Na verdade. passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira. por parte do professor. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. no caso do dialeto. Como o objetivo da escrita é a leitura. dentro de uma mesma língua. que não é falante de um determinado dialeto. o falante entende. por parte do aluno. No começo. para saber o que a escola espera dele. é uma tarefa árdua. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente. Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. quando necessário. para explicar adequadamente o que deve ser feito e. Nesse caso. Falar uma outra língua ou um outro dialeto. O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos.que uma pessoa. por mais semelhante que seja do próprio. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. que requer tempo e muita prática. porque. embora não fale.

seguindo seu dialeto. é preciso que haja muito recreio. Assim como alguém vê escrito "pote". que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. muito entrosamento . "dia" e pode ler "póti". "milho". e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. "dentro". "djia". aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. "dia". que automaticamente se entende "dentro" e "milho". um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. Do mesmo modo. sempre. Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. sobretudo. Na escola. "miiu". muita festa. "drentu". embora usemos um alfabeto. a escrever. e ler. A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. e assim por diante.texto em seu próprio dialeto sem problema algum. etc. a escrita e a leitura funcionam. A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. "pranta". Para escrever. porque. outra pessoa pode ler "pótchi". há menos problemas ainda. Entendem que o aluno precisa. Basta conferir "pote" e "dia".

1997a. só o dialeto padrão. na escola. o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. é preciso que o professor. Certamente. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. Na sala de aula. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão. a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. As zombarias dos colegas. CAGLIARI. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. Mas às vezes isso requer muito tempo. Nessas ocasiões de interação social. quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura. muitas vezes. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem.entre alunos e professores. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . nos momentos oportunos. explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos.

os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. as crianças entendem frases na voz passiva. Ninguém consegue . aproximadamente. e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. por outro lado. Nessa ocasião. Qualquer um. Como já dissemos antes. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. aprende uma gramática. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. Na fala. o português do Brasil. ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. O vocabulário. porém não costumam usar essa construção quando falam. Nesse <193> espaço de tempo. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida.de conversar sobre a fala dos alunos. Por exemplo. pelo resto da vida. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. principalmente. em qualquer lugar do mundo.

não há falta de regras ou de lógica. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes. Por exemplo. No segundo caso. esse tipo de "erro". As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo. Em razão disso. cada uma específica de um dialeto. Porém. dito no dialeto padrão de uma . num dialeto. a gramática tem regras diferentes. "cavalo" é "árvore". Já num outro dialeto. etc. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. seja que dialeto for. A linguagem não é feita só de palavras isoladas. sem seguir regras muito precisas.falar. mais especificamente. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. algumas palavras precisam concordar. não está seguindo as regras da língua portuguesa. com regras de combinação muito específicas. um mesmo pensamento. os falantes nativos não cometem. conforme o caso. ficando todas no singular ou no plural. por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim". Deve-se dizer. Todas as línguas do mundo — ou. Se alguém diz que "mesa" é "copo"..

seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. seria deixar de ser falante de seu dialeto. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". Aí. tem o mesmo valor semântico. são as diferenças que permitem que as línguas existam.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. para ele. sobretudo para uma criança. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". O exemplo acima. pelo contrário. o que nem sempre é uma idéia muito atraente. encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância. Traduzida literalmente para o português. Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. Ser diferente não é um problema lingüístico. Falar diferente. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. diferente das apresentadas pelos dialetos do português. Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . Isso pode acontecer até com línguas diferentes. se vertido para o inglês. Para ele. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado.

bem-estruturado. passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. ilógica e sem . Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. Na verdade. ocorre o contrário. A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. Na prática. levar vantagem. da manifestação dos preconceitos. Desse modo. Como. GNERRE. formam-se as classes sociais. ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. na nossa sociedade. As diferenças lingüísticas passam.representa a expressão do pensamento lógico. conseqüentemente. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. como pode. basta o usuário se dispor a isso. um dialeto próprio. então. 1985. Por essas razões. por isso mesmo. destruindo. desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. seus concorrentes. depois de muito tempo. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. rodeado de preconceitos.

<195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. Todos os dialetos representam bens culturais. O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. mas. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. não para justificar os preconceitos associados a ele. sobretudo eliminar a idéia de que o professor . Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita. explicando o que significam. desde a alfabetização. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. Aprender o dialeto padrão é indispensável. A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos.elegância. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam.

mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de . as pessoas não pronunciam palavras isoladas. Além disso. ao longo de anos de observação. e isso acontece através de um texto. Na verdade. da escrita e da fala. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho. quanto as pesquisas lingüísticas modernas. tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. Quando alguém se põe a falar. sua intenção é dar uma informação completa. as pessoas dizem palavras isoladas. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. Somente em circunstâncias especiais. <196> 9.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade. nem tão complicado. num contexto específico. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura.

seus preconceitos e suas manias. Na vida real. ou dá uma ordem. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". Em outro contexto. se alguém fizer uma pergunta. quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela. Assim. Houve apenas mudança de falante. tendo em vista a necessidade do momento. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. que motivou a resposta. se alguém grita por socorro. quando as pessoas usam a linguagem oral. o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar.ações ocorridas. Normalmente. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. Nesse momento. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. Por isso. O tamanho do texto varia. o texto continua na resposta do interlocutor. As pessoas falam o que acham que precisam falar. do que em falar certo ou errado. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar. Na verdade. dizer apenas uma palavra é o que basta. dada a situação. esquece-se de que é falante . sobretudo.

Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. principalmente. A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. do professor. porque em certas situações o significado depende do contexto. até informações gramaticais importantes.nativo e de que é senhor da sua língua. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa. modificações do texto. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . palavra por palavra. da escola e. frases. As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. como as carreadas pela entoação e o ritmo. ora apenas para os sons da linguagem. Todo corte implica. Mesmo quando se procura explicar um texto. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado. O professor desmonta e monta textos. e até mesmo para as letras. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. como os elementos prosódicos se modificam. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. de certo modo. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. No entanto. às vezes.

isso se torna ainda mais corriqueiro. No entanto. Com o uso dos sistemas de escrita. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. na sua essência. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade. tudo vem normalmente. a maneira como esse significado é dito. Depois que alguém passa a . é o significado e. A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. Caso contrário. Quando as pessoas pensam e falam. e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. em segundo lugar. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. em primeiro lugar. Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. guiam-se quase exclusivamente pelo significado.segmentação da fala. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz. o que vale.

ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados. começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. Quando se interrompe a fala ou a escrita. analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum.escrever com velocidade e fluência. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. guiando-se apenas pelo significado. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica. as crianças lidam com a linguagem como . para escrever. Essas atividades são feitas automaticamente. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento. é preciso traçar as letras. a todo instante. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever. é preciso articular os sons de maneira precisa e. Para falar. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. Mas esses são casos especiais e raros. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. Quando entram na escola.

criar situações em sala de aula em que predominem o texto. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas. mas também para analisar a linguagem oral.qualquer falante nativo. Obviamente. do bá-bé-bi-bó-bu. será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. pertencem à família dos "bês". Isso tudo mostra que. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . principalmente no começo. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. Por essa razão. sílabas ou outros segmentos. Sempre que possível. o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. sobretudo no início. o professor deve tentar. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. Por outro lado. os quais. a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. por sua vez. Para elas. ou seja.

algumas pessoas se confundem. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos . Resumindo. É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso. trata-se de algo fantástico. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. No fundo. TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). concluindo que nem toda produção oral é um texto. restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. os textos têm estilos diferentes. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam. Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. Um texto literário precisa ter um toque de arte. mas somente aquelas que revelam traços literários. Para os alunos. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito. forma um discurso ou texto. uma carta é escrita com outro estilo.linguagem. mais o contexto em que é dito. tudo o que se diz.

Pior ainda. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). Precisa. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e. . eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. científicos ou mesmo de uso escolar mais comum. ao contrário. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos. Para tanto. e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos. esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena. por isso. e nisso não há nada de novo nem de ruim. especialmente os da linguagem escrita. Em outras palavras. a fala é diferente da escrita. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança.textos orais e nossos textos escritos. no seu sentido mais amplo. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza. Como se disse. dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. discutir o assunto com os alunos.

acabam destruindo o texto na sua essência. Essas regras não estão em palavras isoladas. Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto. mas nas pontes que ligam as palavras num texto. acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). como os exercícios de monta/desmonta a linguagem. O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. se em vez de fazer isso. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras. O excesso de metáforas pode levar o ensino ao .O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. Porém. Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado.

pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior". o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. A partir deles. quer falando. comparar sua fala com outros tipos de texto. objetiva. Além disso. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. quer escrevendo. pode aprender como a linguagem funciona. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores. Apesar do que ouve e faz na escola. precisa. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia. Há momentos em que a escola tem de ser clara. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. de estilos diferentes.caos. que .

geradora de uma análise em sílabas. mas escrevemos palavras e não apenas letras. uma depois da outra. cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido.precisam. O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. quer do ponto de . e um uso de palavras num outro contexto. letras e sons. em que elas encontram <203> vida própria. Fora desse âmbito. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita. ser isoladas. Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar. às vezes. a ponto de impedir a aprendizagem. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. que está facilitando o trabalho do aluno. formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis. Temos o alfabeto com letras. Há muita diferença entre uma palavra-chave. Para aprender a falar. às vezes. as regras perdem seu poder explicativo. O professor acha. quando na verdade o está complicando. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível.

o rótulo de um produto. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. Na vida real. etc. As duas coisas são indispensáveis. quer do ponto de vista da motivação do ensino. entretanto. sobretudo a escrita. . Obviamente. Esse uso da linguagem é típico da escola. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". uma indicação.vista lingüístico. etiquetando cabides. carteiras. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. material escolar. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial. Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. sem levar em conta o uso de palavras isoladas. no qual o próprio sentido literal soa estranho. Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. o professor não vai ficar fazendo só isso.

Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. e não apenas palavras isoladas. Em primeiro lugar. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta. Mas. mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento. Com relação à escrita. Sempre que possível. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. é melhor usar textos do que palavras soltas. Aqueles que recebem esse . Nesse caso. mas precisam ser explicitados aos alunos. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. Desse modo. o professor precisa dar explicações. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. Em segundo lugar. essa abordagem é mais evidente. é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais.O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. através de regras que consideram uma questão por vez. para tanto. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. de maneira isolada.

esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem .tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois. pedaços de palavras. Porém. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis. se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. Num texto. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. mas também as formas de argumentar. de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases. esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. mesmo nunca tendo ido à escola. irão enriquecê-las. pelo contrário.

muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. esses escritores não seriam famosos. Primeiro. Depois. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . Ouvir. Para facilitar e se adequar aos métodos usados.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. segundo as expectativas do método. porque o texto de um escritor famoso. Se é difícil escrever um texto desse tipo. Essa é uma <205> visão equivocada. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos. caso contrário. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças. os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. de fato envolve os leitores. como atividade escolar de produção de textos. isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los. que escreve para crianças.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

empregando as palavras já dominadas. Os alunos só escrevem frases. dão roteiros. seguindo o mesmo caminho. Quando falam. como. que não seja apenas o de ganhar uma nota. por quê. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros. juntando-as do jeito que acharem melhor. Após a indicação do título. menos ainda textos espontâneos e livres. fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo.outro contexto.. não propõe a produção de textos. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. de acordo com as idéias que têm na . vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". A própria cartilha dá exemplos de textos assim. Não precisam se preocupar com começo. onde. em geral. quando. o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. não se esquecendo de que o texto deve ter começo. meio e fim. Para tanto.. O texto sai espontaneamente. quem. meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. De acordo com o método das cartilhas. <214> Além disso. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas.

que serão severamente criticados. pela própria escola. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. no entanto. cobra deles justamente o contrário. como em outras ocasiões. Aqui. noutra com adjetivos. a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. O professor. e se seu estilo agradar a uma comunidade. depois. guiando-se por esquemas como os mencionados acima. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem. eles acabarão produzindo textos estereotipados. depois.cabeça. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original. devem agir do mesmo modo. com criatividade e arte. noutra com verbos e assim por diante. torna-se um texto literário. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . Quando elas forem escrever seus textos. nas séries mais adiantadas. Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos).

Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. água.contextos.. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso. terão cinco frases. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos. No final. alto. de Antônio Pedro Wolff. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. Por exemplo. o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira. 7ª ed. seguindo o velho esquema de responder a perguntas. intitulado Composições escolares. Tenho diante de mim o livro da 2ª série. 1950. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. Para se ter uma idéia mais . O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos.

— Formação de sentenças exclamativas.completa. perguntas. Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. — Reprodução de contos sem questionário. perguntas. — Passar quadrinhos para prosa. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. — Redação de bilhetes. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. questionário. — Redação de cartões de visita. . esquecendo-se dos que não aprenderam. — Redação de envelopes. Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades. — Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas.

muitos professores acabaram se convencendo. em geral. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. Surpreenderam-se com os resultados. como ensina o método das cartilhas. pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio. com a segurança de que será um bom trabalho. A verdade não é bem essa. não seriam capazes de escrever belas . Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. E isso. porém. por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. O excesso dessas atividades. é desastroso. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. pelas evidências encontradas no próprio trabalho.<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. a conseguir melhores resultados. como já vimos. Pensavam que seus alunos.

uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares. por exemplo. encontra-se . nesses casos. sentem-se inibidos. dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. não fixassem o erro. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos. certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. já que os alunos. Um outro tipo de comentário comum.históri as. Com muito bom senso e um pouco de coragem. para que eles não errassem e. a fazer. e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais. o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. Entretanto. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. Lamentam. pelo que aprenderam até então). O tempo como sempre é um fator importante. textos espontâneos. no início. conseqüentemente. acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. É preciso tomar certos cuidados. quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos.

tal qual sugerida por nós. com todos os problemas que já tinham antes... não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos. gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas.. de fato. tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim". Portanto. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar. tanto faz agir . o professor quer dizer que. Em outras palavras.na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. não é bem assim. Em primeiro lugar. se algum aluno não aprendia. usando o método das cartilhas.. porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade. querendo dizer que. mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". Um comentário diferente. mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos.

certos erros vão evidenciar que. que tipo de solução dá para suas dúvidas. ele erra ao escrever espontaneamente. pelo menos em parte e em certas ocasiões. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto. dos ditados. e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. apesar de o aluno acertar tudo no ditado. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. E isso faz muita diferença. Na verdade. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. o que denuncia que o ditado não é uma boa . Conseqüentemente. como faz para escrever.de um jeito ou de outro.bé-bi-bó-bu. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais. A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. Por outro lado. não é bem assim.

Para ilustrar os comentários expostos acima. em busca de uma explicação. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto. até dominar a produção de textos escritos. uma série de textos dos mais variados tipos e origens. EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita. uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. Será feito um comentário geral sobre cada texto e. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar. Essas frases não pretendiam formar um texto. O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. será apresentada. depois. errando cada vez menos no futuro. que aprendeu na cartilha. a seguir. Depois. Como se vê. da leitura e da fala. os erros serão analisados.forma de avaliação (e pior ainda de ensino). estudadas e copiadas. eram apenas . escreveu frases soltas para completar o texto.

mas também com as relações entre sons e letras. 1951. 33ª lição — A zebra 1. 4. LOURENÇO FILHO. 3. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. o sapo coaxa. cópia e ditado. de Manuel B. Devemos seguir os bons exemplos. não só com a leitura que as letras têm. O besouro zumbe. O rapaz estudou a lição do exame. Ponha o vidro de xarope debaixo da luz. 5. <219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente. Zezé não zela de suas coisas. Por . quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). Os textos vinham ao final da cartilha. A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons.exemplos para leitura. 2. ou seja. Lourenço Filho. 6. o burro zurra.

como o X e o S. "A nossa bandeira".isso. porém. aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. 9. Da lição 37 em diante. em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. O primeiro texto é este: 1. 6. 5. 3. . 4. escritos com outras letras. Posso conhecer minha terra. uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. 7. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. Como é bom saber ler! 8. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. Para o autor. nas cartas e nos jornais. "A galinha esperta" (fábula). 10. Todos os brasileiros precisam saber ler. Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. Já sei ler nos livros. Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. como em outras cartilhas. Já sei ler! 2.

nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. com números e paragrafação. por bom senso. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico . o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra. Na verdade.Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. Como falantes nativos de uma língua. dificultando ou impossibilitando a leitura. uma vez que ele supõe que o aluno. seja capaz de ler qualquer coisa. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. achou conveniente. mas não redigiu um texto. denota isso. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. de Cecília Meireles. Depois que eles decifraram a escrita. nem com as noções já dominadas. Como o texto vem ao final da cartilha. escrever um texto "fácil". nessa altura. Apesar disso. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. Até mesmo a disposição das frases.

cientificamente falando. (Quem souber de um [ burrinho desses. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. Não é possível. a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e. O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. dizer se o texto da cartilha. Número das Portas. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear. que não corra nem pule.especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). apresentado acima. assim. ao Menino Azul que não [sabe ler. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim. das flores — de tudo o que aparecer. pode escrever para a Rua das Casas. Um burrinho manso. das montanhas.) Intencionalmente. não precisou escrever números . mas que saiba conversar.

como ocorre com outros poemas do livro. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. ao ensino de determinada letra ou som. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. de maneira típica. mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo.antes das frases. bem diferente dos exemplos da cartilha. É uma casa bonita. põe coroas de coral nas colunas da colina. torna corada a menina. . Esse poema é um <221> dos que não se prendem. A casa é de Lalá. 10. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967. E o sol. O calor de Carolina cobre o colo de cal. como se pode ver. A casa tem copa. vendo aquela cor do colar de Carolina. Por exemplo. p. Carolina corre por entre as colunas da colina.

é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. para as finalidades da escola. e juntando palavras para formar frases. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. E assim continuará fazendo. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. o aluno passa a entender que. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. como o método está organizado de modo hierárquico. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa. Como se vê. acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases. ou esse conjunto de frases. o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma . é assim que se faz um texto. É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e.A copa tem caco. rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão. até que encontre um professor que chame sua atenção.

cartilha de alfabetização rápida.p. ele acaba entendendo que. 1950. O boi bebe. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo.) PEIXOTO.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita. > Texto 2 — 4ª Lição 1. 3. 2. O boi bebeu e babou. 4.p. O boi baba. 1950. . além de se alfabetizar. produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas. 8. O boi de Fábio fugiu. O boi bebe e baba. começaremos apresentando alguns outros textos típicos. de Vicente Peixoto. PEIXOTO. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. extraídos da cartilha Coração infantil. > Texto 1 — 1ª Lição 1. 2. 14. Fábio foi cedo à cidade.

Fábio fugiu da geada. A blusa de Carlos não é de brim. 2. 46. A blusa de Carlos é de seda. Oh! que bonita blusa! 2. PEIXOTO. p. 3. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. 4. 3. p. <223> . > Texto 3 — 1ºª Lição 1. 1950. Os exames estão próximos. PEIXOTO. 6. O sapo pula na rua. O sapo sobe a rua. Como cai bem no ombro! 7. 1950. A rua é de subida. 70. A geada "caiu" cedo. > Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. 30. Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. 1950. Romeu ri do sapo. 4. 2. É a blusa de Carlos. 5. p. É de seda branca.3. Xerxes estuda dia e noite. 4.

No último exame fez provas exatas. na verdade. Por isso explica bem o que estuda. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno.3. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é. por isso. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. Aqui. uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. como no método do bá-bé-bi-bó-bu. Quando se analisam esses textos. seria mais inofensivo. 4. a frase 7. . escrever frases. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. Ele fixa a atenção nas lições. só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas. percebe-se logo que o autor quis. e não simplesmente de frases soltas. 5. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência). Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. na verdade. apenas frases para treinar os alunos. Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente. No texto 4. mas procurou uma ligação semântica entre elas. discorrendo sobre um certo tema e.

frase 6. do ponto de vista semântico. uma vez que a geada não cai. logicamente. logo abaixo. percebe-se logo o mau gosto . Entretanto. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". como a neve. É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica. lendo esses textos. e com referência ao qual tudo é construído. Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente. por exemplo. foge de geada. devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. Esse texto tem. ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA. sem colocar aspas. porque ninguém. mas se forma com a umidade. por exemplo. a expressão "pé de mesa"). outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade. e não lógica (veja. fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias. no texto 2. Dentro das preocupações subjacentes do autor. ainda.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride. e se a geada caiu cedo. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. Quem lê o texto sem saber dessas informações.

TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. os textos têm um certo sabor interessante e. Apesar disso. idiotas. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. a respeito da ortografia das palavras. são no mínimo razoáveis. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). menos ainda. do ponto de vista do valor. a falta de originalidade. até certo ponto. Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. Os meus dio nadaro debecireta. Texto 6—Alvaro L. a chatice com que é tratado qualquer tema. Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó.literário. E estálio = história. quando apresentados por um livro didático ou por um professor. apresentados a seguir. e. São textos sem graça. insípidos e. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita.

Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade. o rerudo = orelhudo. Depois de uma discussão sobre o assunto. ela resolveu experimentar. O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história. as crianças fizeram textos e não frases .

Segundo a professora. ele confundia todas as coisas. ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita. o aluno escrevia páginas. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. segundo a expectativa da escola. Em outras palavras. percebeu que o aluno era pior ainda. . mas passaram a se interessar muito por leitura. ele não dominava o que era ensinado. No final do ano. Apesar do esforço da professora. Quando a professora começou a passar textos espontâneos. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases). no tempo em que os demais apenas completavam a lição. não fazendo direito as lições da cartilha. ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce.desconectadas. inventando um modo estranho de grafar as palavras. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. daí para a frente.

Com a produção dos textos espontâneos. Ortografia não era questão de sorte. Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. ou seja. professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia. a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. como uma loteria. seguindo o modelo.embora escrevesse histórias interessantes. Seguindo a cartilha. Todavia. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. e que essa forma deve ser usada por todos.

esta noiva. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor. Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha.princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. (d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova.

Texto 12— Dirceu L. O texto 10 é também de uma aluna repetente. ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7.mamãe e papai ficarão triste. Enquanto os colegas . Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta. duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. Epa a policea vemvino. Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta.

Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. Além disso. ao invés de BONITA escreve "baoneta".fizeram apenas um texto. Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. Assim. numa tentativa de compor frases soltas. GOSTA DE NADAR fica "gota de nada". Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. o resultado foi um amontoado de palavras. PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas. <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14. em vez de dizer . ela fez quatro. Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata.

a seu modo: "A macaca é a tata". . essa aluna tem grandes chances de errar. do professor e do aluno. produto do método do bá-bé-bi-bó-bu. escreve. observando a fala. Pior de tudo é a estrutura do texto. Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta.que A MACACA SE CHAMA TATA. então. A dona da casa e o pai e a mãe. Os outros alunos. arriscando. Como se vê. mesmo com todo o esforço das cartilhas. (?) Amanha é dia pascua. Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. sendo apenas um jogo de palavras. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua. mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. qualquer forma de escrita. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra. O giigante gebrevu daliom. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente.

. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. fim Altor Samuel J. logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho. O bone e da menina. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. M. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente. (c) O aniversario. <229> (b) O chapeu. O feio e o leão (?) A menina e a jogadora.Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. O dia comeu nublado. O pelo da duensa nas criansas. — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre.

Então ela foi ate o medico. A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo. quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens. FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario. Texto 16— Graziela P S. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te. quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. Ninguem lembrou que era o aniversario da titia.

O esconderijo é ali. O primeiro aluno (texto 15 — a.<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. Ali está o cachorro. Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. Por outro lado. nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. de maneira integral. no segundo semestre. Vou aproveitar que ele saiu. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano. d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. e. mas aos poucos foi aprendendo. o texto que produz. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d). Apesar das dificuldades ortográficas. b.

Note que o aluno. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. mas que aparecem na escrita. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. como uma forma sofisticada de uso da linguagem. Além disso. justamente por essas razões. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar. escreve qualquer história. nesse caso. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. É por isso que um aluno acaba . Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. sem medo. qualquer palavra que deseja. o aluno passa a escrever com naturalidade. geralmente mais longos. Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. <231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. já estudado. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras.em detalhes. sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. porque não tem de se preocupar com o já dominado. interessam-se muito pela leitura.

Os pronomes ELE e EU. isto é. ainda. A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos. TENHO UM PRANO. um elemento semântico que precisa ser realçado. O filme era de mocinho. a saber: "O menino foi no cinema. O bandido roubou o banco". Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. AGORA VOU LASSAR. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. É preciso dizer. como também se vê no mesmo texto). Extraído de Relatos de Experiências . e está tentando empregar na redação. O menino assistiu um belo filme. mais do que orais. que a aluna já percebeu. os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. ao ler. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. JÁ PEGUEI. exceto o último "eu". Texto 17.transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano".Reinaldo C. nesses casos. JÁ ESTOU CHEGANDO. O mocinho matou o bandido. prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. BOM. Na fala. Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU.

II Concurso. MEC. às vezes. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. II Concurso. 45. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam.E. como . p. Como se pode observar. p. O que choca. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S.PG. S. Professora Aurea de Godoi.premiados 1989. mas certos tipos de erros. Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E. Responder: O que é melhor. MEC. 32.

organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. Quando escrevem textos espontâneos. extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. mas têm de escrever EU NÃO FUI. etc. Veja. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. "eu sinto ni mim". 108-9. MEC. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. EU SINTO EM MIM. p. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito. II Concurso. mas que se escreve de outro. Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . mais adiante. em detalhe. As pessoas falam "eu num fui". os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio.analisaremos. por exemplo.

As crianças se saem bastante bem. c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola.POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. que estão começando a aprender a ler e a escrever. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que . <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham. b.

a única saída. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). Nesse primeiro momento. COECE é uma excelente transcrição fonética. freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. Texto 20— Fábio E G. Por outro lado. Agora. Um balão de São João. Veja no texto 19c. levando-se em conta o contexto de escrita. Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê". é usar as letras QU. se eu cair. Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor.resulta. Para se obter o som de "kê". ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. Mais para a frente. neste caso. sem a marca da nasalidade. Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" .

Os textos 20 e 21 são da 2ª série. Note como os textos amadureceram. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer. sobretudo. jamais .Já está de manhã. E lá mais adiante ela encontrou as formigas. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como. <234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. Então ela ficou na cama. Então ela foi para casa e comeu. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. desde a 1ª série. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos.

Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa. Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio. certamente.terão problemas de redação. resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida. Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão. Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para . Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. que.

ensinado pelo professor. O aluno não produz um texto espontâneo. O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA. o professor achou .se lavar no tanque. tem de fazer um texto do tipo padrão. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. No texto b. Certamente. escreve textos seguindo o modelo. Começou com palavras. que segue um modelo. Naquela época. agora. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa. sua nota foi maior. ou seja. Escreve TUDO em lugar de TODOS. a ortografia adotada pela escola era diferente. como traçar corretamente a letra "g". apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). Além disso. distinguindo-a do "q". O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937.

. NECESSÁRIOS. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS).que o aluno. ele achou que a descrição era melhor. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. etc. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. pois a maioria estudava até a 2ª série. fazendo textos menos criativos. . como produzem textos mais interessantes. PREPARANDO. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO. nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. ou seja ARRUMANDO. na verdade. do ponto de vista literário. ARRUUMANDO. Há de se notar. no texto a. BICHINHOS. as coisas não eram bem assim. Na 4ª série. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. TORRA-O. ou seja. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM. O que interessa. HOUVER. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). APANHA. BIXINHOS. APANHAR. Como se vê. TORA O. No texto b. TODOS. TODO. NESSESARIOS. ou seja. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. ou seja. ou seja. ou seja. mas falou de seus hábitos. não descreveu exatamente o cão. ainda. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. ou seja. ou seja.. OVER. Já no texto b.

para que o aluno aprenda em ordem. Hoje. segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. Por essas razões. Se ocorrer. . tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia. muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia.Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). A meta a ser atingida era outra. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. Certamente. Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda). Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. deve ser eliminado o mais rápido possível. Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. O que está errado deve ser evitado. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. indo do mais fácil para o mais difícil. A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia. QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu. reproduzindo o modelo do já dominado.

é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z . especialmente para comparar o que significa. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. mas o tipo de erro cometido. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. são claramente reveladores. Porém. Para eles. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando). mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas. desde a primeira série. que perturba demais certos professores. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. <237> Uma outra questão.esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado. é bom lembrar aqui. com o tempo. principalmente no início da alfabetização. o que é comum. depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia. através de exemplos. inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos. como esse tipo de argumentação é freqüente. mas. Produção de textos livres será feita como última atividade.

. aumento. porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles. apoiando-se naquilo que já aprendeu. EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12). etc. que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. ou LIXO com CH (LICHO). que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem.).. JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades. e não um processo de construção. progresso. não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8). É a avaliação punitiva. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. consideram o certo e o errado . destruindo coisas que o aluno faz (o errado). dizendo que são justos. derrubando. e nunca pelos acertos.(CAZA). A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d). Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c). Por outro lado. É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância.

Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. Quando. porém. porque o aluno não tem condições. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. sendo essa mais uma razão para a reprovação. .objetivamente. portanto. acham por exemplo. eles dizem que não.). Em resumo. que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?). foi bem na escola e merece ser aprovado. ser reprovado. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. ou seja. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8). acertou muito menos do que os 70% esperados. mas numa certa desconfiança imprecisa. E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante... o aluno tem índice baixo de acerto. Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. o que ele representa em termos de erros e acertos. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco. precisando. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes.

na verdade um "i": MUITA) (I). u. c. t. que ele escreveu CO) (I).Contaremos. o (7). na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA. o (2). d. na primeira linha. Portanto. n. e errou: m (falta em COM. o m (de MUMTA. e.1. os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos. a. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. a (4). ã. o (5). o aluno acertou as letras 0. o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2. Por exemplo. d.07 21.93 . m. em primeiro lugar. a. Procedendo assim. n.

si/nos = sauva/você = 2 2 8. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual. o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. coando = voce = tive = 3 — 9. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. Vamos transcrever o texto. um professor que tivesse como critério de . a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras.

A produção de textos espontâneos pelos alunos. são muito mais certos do que errados. O texto 8. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas. no fundo. desde o início da prática de escrita. Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. ambos poderiam ver. Mostra. constata-se que. Porém. o preconceito contra certos erros de ortografia. considera gravíssimos. deveria aprovar Ronaldo. conseqüentemente. professor. quando os professores vêem somente o texto. a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. que ele. mas. ainda. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos. apresenta muitos problemas.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. acham que o aluno não aprendeu quase nada. que escreve tudo errado. e que. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. pelo lado positivo. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos. não tem condições mínimas de ir adiante. analisados com mais cuidado. que muita coisa já foi aprendida. o que significa. comparado com outros. por outro lado. Essa constatação é um bom argumento para convencer .

Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. mesmo quando comete barbaridades. sempre e em todas as circunstâncias. Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. caso contrário. simplesmente deixaria de ser homem. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. Nisso. a humanidade sabe que o homem é um animal especial. como uso da faculdade da racionalidade.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. em outras palavras. <240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. fruto de uma reflexão. sob nenhum pretexto. Nem toda . O homem é escravo de sua racionalidade. o homem é um animal racional. Desde os mais antigos filósofos. em nenhum momento. O homem não pode se ver livre da racionalidade. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade. ou ainda ficar sem fazer nada. sem que isso seja o resultado de uma decisão. não há nenhuma novidade.

Se em vez de andar alternando os pés. não andaríamos. etc. É evidente que a estrutura de nosso corpo. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. um instinto. por exemplo. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. nos animais. por exemplo. pelas suas características físicas. Quando andamos. que antes eram inconscientes. usando sua estratégia de ataque ou defesa. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. caso contrário. ou seja. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. A reflexão e a decisão sobre como andar. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. mal sabemos como fazemos isso. . pode agir sob influência de fatores externos. mas o andar requer uma tomada de decisão. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas.

linguagem e racionalidade. Por isso. um animal racional. A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. Ao interpretar a realidade. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. portanto. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. como fruto de uma necessidade essencial. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. ou linguagem e pensamento. uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário. É por essa razão que. através da linguagem e da cultura. sem ter o outro. e isso já é refletir. senão não seria gente. a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . quando uma criança entra para a escola. para muitos filósofos. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. Além disso.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. da vida e do mundo. já percorreu um longo caminho de exploração do homem.

acumulando uma bagagem de pensamento. a leitura. é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. aprende a falar português deste jeito ou daquele. ou a faculdade da linguagem. diria Aristóteles. vive interpretando a realidade. Por essas razões. em outras palavras. Durante vários anos — em geral 7 —. Nesse âmbito.perspectivas. ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem.5 a 3 anos). ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. Esse . a gramática da língua. a fala. Nessa aventura humana pela vida. os usos da linguagem. aprende chinês de um jeito ou de outro. é inata. a escrita. Através da interação social. <243> que é a marca de sua personalidade. toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente. as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. Portanto. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade.

mas em todos os dias. E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. razão pela qual se começa a buscar sutilezas.acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. caso contrário. Nessa bagagem. Para ensinar. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos. alunos e escola não entrarão num acordo. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. por exemplo. em todas as séries. elas precisam descobrir o que a escola. as novidades tornam-se cada vez mais raras. por outro lado. É por essa razão que as ciências. se desenvolvem. . novos conhecimentos. da escrita e da fala. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. os livros didáticos e os professores pensam. assim. a escola. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. Para aprender. os livros didáticos ou os professores transmitem. Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola. Ao longo da vida.

do ensino. nessa lista. de tal modo que.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. da vida e do mundo. do aprender. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. Ao longo do ano escolar. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer. e. em particular. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. de suas idéias e atitudes. da promoção. das noções de certo e errado. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças. a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria. As idéias estranhas. sobretudo. na prática. 6) da linguagem e. essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. Há muitas idéias em comum e. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. 4) da sociedade e da cultura. da fé. da ilusão. 2) do professor. em suma. do real e do imaginário. da superstição. da vida escolar. 3) da realidade: do homem. da avaliação. 5) da ciência. da leitura. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização.

há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. escrita e leitura. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que . Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele. 1997. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente.detalhe. há a possibilidade de explicações alternativas. Nesses casos. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação. Por outro lado. a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem.PATTO. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros. isto é. principalmente de leitura e escrita. Outras vezes. que serão mencionadas oportunamente. as causas mais evidentes serão as escolhidas. Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização. <245> . e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. Porém. Em resumo.

relaxado. não esclarece. por exemplo. é enganar ao aluno e a si. São coisas diferentes. quando de fato ocorrem. apenas isso. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. caso contrário. Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. Também dizer que o aluno é burro. como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. incapaz.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. emocional). a razão do erro do aluno. Os erros escolares são sempre muito . etc. Interpretar erros de ortografia. preguiçoso. de fato. como distúrbios da fala. Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo). Problemas de outra natureza (físico. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. como problema emocional do aluno ou de sua família. como aquelas que sugeriram o período preparatório. lento. Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. mas toda a vida da pessoa. afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. acabam aparecendo interpretações equivocadas. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade.

acrescentando um zero ao resulta do). ou seja. Por exemplo.O = 13 440. 40 + 800. 1 200 . que é a resposta. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. 800. escrevendo 40. 840. Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400.localizados e circunstanciais. Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). 60 0. resultando em 840. ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. Ocorrem em determinados contextos. somado ao resultado anterior (1 440). o que dá 600. mas também quando eles acertam (às vezes). 1 440. Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. Sem dúvida alguma. que por sua vez. o que dá 12 000. depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20. acrescentando um zero ao resultado). Por isso. um aluno pode multiplicar 420 por 32. seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. O aluno chegou ao resultado certo. e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). dá o total de 13 440. Em seguida. esse aluno não copiou o .

é preciso. é escravo da própria racionalidade. tudo o que faz é fruto de um pensamento. graças à racionalidade. estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. em todas as circunstâncias. apesar dos baixos salários. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. por mais simples. toda pessoa precisa estar constantemente . mais rico ou pobre que seja.resultado e muito menos colou. Conseqüentemente. de uma reflexão. eventualmente. ainda. Por isso. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. causar uma repetição de ano. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. Todo ser humano. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. Talvez seja esse o motivo pelo qual. de uma decisão pensada. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega.

Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas. . todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro. resultante de uma reflexão. O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. Em <247> outras palavras. segundo as características da sua personalidade.lendo o mundo e procurando entendê-lo. tentando interpretar fatos iguais. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. . Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam.

do método de leitura denominado escola brasileira. ou TIVE por ESTIVE. Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. segundo um dialeto que não respeita a norma culta. o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. de Francisco Alves da Silva Castilho. quem inverte a ordem de letras em palavras.Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. curiosamente. Nessas circunstâncias. Já em métodos antigos de alfabetização. 45-7. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. como em CRAVÃO. como ARMA por ALMA. quem troca -NHO por NIO. L por R. Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. 1859. fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. p. Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala. no Manual explicativo < CASTILHO. Por exemplo. aluno que mistura letras. NAVA em vez de . foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. CARDO por CALDO. acaba escrevendo errado.

tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método. Nenhum método de alfabetização controla tudo. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. O aluno não deixa de lado sua racionalidade. O MÉTODO. porque está sendo submetido a um método ou a outro. quase sempre.LAVA. Por . alguns alunos cometem erros. É por isso que. O PROFESSOR. interpretando até mesmo o que o método ensina. apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). XUA em vez de SUA. acabam. aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. Quando o método é muito rigoroso. porém. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo. aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais). sempre. nem seu direito de refletir.

volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende. etc.exemplo. escreve no ditado LT para LATA. os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas. isto é. para tudo o que fazem. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. não é porque o professor ensina de um determinado modo. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. seja em que método for. CP para CAPA. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. sendo dispensável na escrita. Por outro lado. o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. quando eles vão ler ou escrever. é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. No fundo. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . Um professor que conhece profundamente como a escrita. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante. O importante é o fato de que. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados. um professor que não for capaz disso. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização.

Se. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz.bem-adquirida. para isso. reprovado. apesar disso. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos. Nem sempre o bom senso funciona. seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. Às vezes. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. o aluno é remanejado. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. submetido a processos de recuperação. Quando um aluno começa a errar sistematicamente. Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam. Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita. É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . Mas.

eliminando os erros a qualquer preço. sem medir as conseqüências. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. tudo está em ordem. médicos. com seus déficits.deficiências dos alunos. O ERRADO E O DIFERENTE . criando a falsa aparência de que. fonoaudiológicos. 1996i <250> O CERTO. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. etc. a fatores socioeconômicos. porque tem medo de enfrentá-las. A escola usa de rótulos já prontos. de inteligência. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros. sem saber se são verdadeiros ou não. < MASSINI CAGLIARI. de desnutrição. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. sejam eles quais forem. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola.

é preciso distinguir o certo. descobre que. a escola. não se alfabetiza. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. jamais nos seus próprios. Obviamente. De modo geral. Alguns erros são tão sérios que. O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro. Para estudar essas línguas. o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. sobretudo. Tradicionalmente.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever. o errado e o diferente. no Japão. os livros didáticos e. A partir da correta análise desses erros. falam . as pessoas falam o japonês. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz. Ao fazer isso. o aluno acaba não aprendendo a ler e. conseqüentemente. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos. se não forem sanados. A nota é o castigo do erro. Como a linguagem oral é um fato social. na Coréia falam coreano. o método das cartilhas não gostam de erros. Em se tratando de linguagem. apesar de essas pessoas usarem a mesma língua. no Brasil falam português. Por exemplo. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. Uma língua vive em função de seus falantes. na França falam francês.

Para organizar a gramática de uma língua. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico. as diferenças. Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem. por outro. podemos voltar à discussão do que é certo. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. obviamente. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. . as igualdades e. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. Isso. o lingüista precisa descrever. sendo um só para todos. Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. por um lado. trouxe uma grande vantagem no uso. está acima dessas diferenças entre os dialetos.com diferenças regionais e até pessoais. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral. nosso sistema de escrita. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. É preciso acabar com esse equívoco. por ter um uso social muito abrangente. errado e diferente em cada um dos casos. Porém. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala.

O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. ou gagueja. como em propaganda. mas acidentes lingüísticos. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro.Do ponto de vista da escrita. Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. e não de erros. e não apenas uma manifestação de estilo individual. se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita. Passemos agora à linguagem falada. ou se atrapalha na pronúncia. São diferenças aceitáveis. na sintaxe ou na semântica. outro menos. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. um escreve de forma mais clara. A escrita também tem um estilo próprio. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural. Por exemplo. estamos diante de diferenças dialetais. Outro de forma mais confusa. outro não. um escreve mais elegantemente. Não são erros propriamente ditos. Às vezes. por exemplo). Assim. escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. Porém. uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra.

Está tudo certo nos seus devidos lugares. Os falantes nativos não cometem erros. Isso seria um erro. estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada. como foi mencionado anteriormente. de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha". Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística. ou viceversa. Assim. trata-se de diferenças dialetais e não de erros. Cada dialeto tem seu modo de ser. e o contrário também. Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá".pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". Assim. a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. Portanto. . a não ser por acidente. sem misturas de regras. quando há diferenças entre elas. nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da".

Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos. Uma educação especial poderá ajudá-las. uma pessoa que faz tudo normalmente. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e. em grande parte diferente do uso comum das pessoas. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. sobretudo na escola. por exemplo. Não é raro. na pronúncia das palavras. enquanto perdurar a patologia.PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física. mas . Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. <253> Na prática. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. conseqüentemente. neurológica.

a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. mas simplesmente porque interpretou errado a escrita.apenas "fala errado". e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. As patologias físicas são perenes. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". e sempre. diferenças dialetais. não é um afásico. mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. Se a pessoa é deficiente auditiva. e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. Esses termos já são complicados por si. Para erros semelhantes de ortografia. Se a pessoa tem problemas de lateralidade. mas com os sons em geral. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. inventaram um termo chamado . causadas por lesão dos órgãos da fala. não apresenta um caso patológico. escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual. idiossincrasias. Na prática. brinca discutindo o que acontece e. Por aí. depois. Se uma pessoa fala com os colegas. escrita de forma cursiva pelo professor. equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras.

criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e . A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. na aquisição da linguagem. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral. concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia".. pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". então. Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto. algumas crianças acabam falando de modo estranho.. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. ser o ponto principal na aquisição da linguagem. Somos falantes de um dialeto. que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. Por exemplo. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar. Por outro lado. Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte. Entender parece."disortografismo". É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos. modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo.). mas somos ouvintes de todos os dialetos. Resumindo. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral.

É o caso típico de pessoas gagas. Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. que desaparece normalmente. continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam.fricativas. mas não outros segmentos fonéticos. com muito tato. Essas crianças se fazem entender e. "katu" (GATO). Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?). Com o tempo. que continuam sonoros. Mas. com medo de aprender algo diferente e com outros erros. se a família entra neste jogo. em vez de eliminá-la. as famílias deveriam . sob pressão psicológica muito forte. "póla" (130. Por outro lado. típico da fala do adulto.LA). algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. "faka?' (VACA). por causa da pressão social. quando a pressão familiar é muito forte. Em todos esses casos. A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA). Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo. "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?). essas crianças deixam de falar assim. a criança pode cristalizar a gagueira.

como os recreios e as festas. precisará agir com muito cuidado. Os problemas da escola. esses modos de falar estranhos. Por isso. são tão importantes. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física. Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. em vez de esconder a criança. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia.forçar as crianças a imitar os adultos. O tempo ajuda mais do que os conselhos. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo. a partir da observação de como usam a fala e a escrita. deveríamos considerar muitos adultos. evitando. assim. ela própria deveria resolver. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal. É por isso que as atividades sociais na escola. Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso. no convívio. o melhor é expô-la à comunidade. como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). sabendo que o melhor remédio é a pressão social. que estão . não se deve criar um problema maior do que existe. deixá-la interagir com outras crianças. receber críticas e até zombarias. principalmente para as primeiras séries. porque. Todavia.

Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral. Pelo contrário. Então. como deficientes. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. principalmente se não for falante da norma culta. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. e o que precisa ser deixado de lado. com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. porque falam tudo errado. por ser um erro. não conseguem aprender direito. Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. etc. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações. Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo.aprendendo línguas estrangeiras. e assim por diante.

uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro. O professor não deve falar apenas dos erros. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. Em casos de dúvida. Através de um processo de reflexão. ela chega a uma das alternativas. mas também do processo de aprendizagem. Assim. A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada.aprendendo a ler e a escrever. mais dificuldades terá para acertar. ao tomar uma decisão. sabendo. que nem tudo sairá correto. que . como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. contudo. Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. considerada a mais adequada. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. Quanto menos informações tiver o indivíduo.

analisando o que o aluno pensou. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si. Talvez acerte. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. . pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e. ter melhores chances de tomar as decisões corretas. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização. se o aluno errou. através da produção de escrita espontânea pelas crianças. e logo se vê se houve acerto ou erro. Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação. assim. Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. No segundo caso. juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. Confere-se com o original. No caso da cartilha.

Medir volume por outros meios não parece ser fácil. depois. segundo Emilia Ferreiro. Usando a idéia do realismo nominal. principalmente as crianças. Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. Algumas pessoas. acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga. mais água contém a jarra. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água. e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA. oriunda de experimentos como o mencionado acima. Então. Para a criança. mostrando as palavras FORMIGA e BOI. alguns psicólogos fizeram testes. na forma escrita.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. .

que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. então. na verdade. a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado. leva mais tempo para falar. o animal representado é maior. as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. quando falam. no primeiro caso. ou seja. de fato. sabem distinguir . nada provam. Se. para então dizer em que caso a palavra é maior. Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. inclusive as crianças. Portanto.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. Provavelmente. <258> do ponto de vista semântico. porque. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação. pedíssemos para a criança analisar sua fala. as pessoas. Aliás. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. Concluíram. em vez de mostrar as palavras escritas. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. certamente a resposta seria diferente.

e a criança. Portanto. Por exemplo. o . apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e. com relação à linguagem. Depois. As crianças. neste caso. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. confundindo fala com escrita. 2. Daí. com a semântica. A criança corre com o dedo o texto escrito. Ela diz que é impossível ler. é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA. O pesquisador está preocupado com a escrita. mostram-se as letras. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior". É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. nesse caso. diz-se o que está escrito. oriundo do trabalho de psicólogos. respondem corretamente. porque não tem desenho. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento.quantidades ou sabem responder corretamente.

porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. Como se trata de uma criança que não sabe ler. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto. caso contrário. a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. interpretando as figuras e os desenhos. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos. e desenho não é letra. escreve-se justamente para que alguém possa ler. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. É uma saída inteligente. a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. Aliás. quando acompanhados de fotos ou desenhos. Isto é. Nem por isso.psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. <259> Curiosamente. Como ela não sabe ler o texto. usada comumente pelos especialistas em decifração. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse. os pesquisadores . está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. referem-se a essas figuras. sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça.

e uma legenda: "João emprestou o trator a José". A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. Obviamente. A criança tem. que não sabe ler. A criança é constrangida pela obrigação de responder e. a palavra EMPRESTOU). A escrita maia é outro exemplo. por exemplo. O teste consiste em fazer com que uma criança. porém. em geral. para ver sua reação. Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . indique onde está escrita a palavra TRATOR. 3. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso.acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. para se ver livre do pesquisador. de um trator com dois homens conversando. responde qualquer coisa. embora reconhecessem que isso poderia ajudar. mostra-se uma foto. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. usando. um texto em chinês ou mesmo em árabe.

portanto. confundindo seu próprio raciocínio. porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. baseandose em analogias com o mundo real. Por outro lado. 4. Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. Depois disso. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura. Se ela não faz isso quando fala. algumas delas começam a dar retorno. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor. <260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita. Ela tem consciência de que não sabe ler.errada. então. ela continua mostrando outras palavras. por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e. como tamanho e forma de palavras. 1957 e MELLA 1981.

Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. uma enorme repetição da mesma letra. BOLO. que não podiam ser iguais. mas lingüístico. apontando onde elas ocorrem na escrita. Por Outro lado. e ler letras iguais não tem graça. MARIA. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —. O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico. às vezes. Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. a idéia principal. quando tentam identificar palavras ouvidas. e não COMPROU. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. por exemplo. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. 5. <261> . as crianças vão procurar as palavras FESTA.crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. sem dúvida alguma. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU.

a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem. Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo. A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE. Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. Pelo contrário.aquilo do que se fala. Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. nas primeiras tentativas de leitura. Nesses casos. que mais interessa ao interlocutor. não uma análise gramatical. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. 6. Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado. tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. Quando lemos . As modificações representam sua interpretação do texto original. a escolha é um substantivo e não um verbo.

guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais. Se não soubessem disso. Segundo os lingüistas. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente. Na escola. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. ou uma poesia. Assim. porém. Como fomos educados pela escola. porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7.um romance. "Cachorro começa com FU" Com muita razão. por exemplo. inventando mil coisas paralelas ao texto escrito. ... quando falam ou ouvem. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia. sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. <262> as pessoas. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. ao lermos em voz alta. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. não aprenderiam a falar.

a professora não disse. nas idéias que o enunciado transmite. Porém. mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras. Muitos alunos. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. sem nenhuma explicação.Uma professora me contou. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU". para ela. Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. estava pensando no animal cachorro. mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. e o aluno. são reprovados não porque não saibam. . Todos riram e a professora a mandou sentar. a palavra MIAU. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. certa vez. por exemplo. era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. como resposta. A forma de perguntar é muito importante. e não literalmente. ouve o que não quer". em suas partes e. O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. GARFO (sic!). mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?". de todos os níveis escolares. A professora está pensando na forma escrita das palavras.

ao aprender a ler e a escrever. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças. por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. Em vez <263> de aplicar testes idiotas. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU. deixando a criança exposta a atividades de escrita. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. nos casos discutidos anteriormente. Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita. com perguntas capciosas. .

silábico e alfabético. Na prática. Os alunos escrevem como quiserem. etc. apóiam-se em conhecimentos que . tentando desenhar letras. mas os fatos. como os nomes dos colegas. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. imitando a escrita cursiva. por exemplo. orienta o professor. Não se pretende discutir aqui a classificação científica. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura. nesse tipo de atividade. que não sabem ler. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando. os alunos estão pensando e. não só com relação à classe como um todo.Para jsso. quando não têm um modelo para copiar. ao longo do tempo. Copiam fazendo rabiscos. Quando um professor pede aos alunos. que escrevam qualquer coisa. Mas é verdade que. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). Não existe um caminho certo e único para aprender. aparece de tudo um pouco. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. Mesmo agindo assim. Por exemplo. tem-se constatado que. mas também para um mesmo indivíduo. alguns põem-se a copiar o que vêem escrito.

Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois. É preciso muito mais. do contrário. E esta é. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. Quando o sistema de escrita é conhecido. foram decifradas com certa facilidade. Aliás. Sabendo a língua. A razão disso é que. A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. fica mais fácil. poderá facilmente entender as regras de decifração. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. ainda hoje. torna-se praticamente impossível. sem dúvida. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. É o que o professor deveria fazer em sala de aula. uma boa maneira de alfabetizar alguém. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram. A partir de umas poucas idéias de como . <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. como a escrita egípcia e a cuneiforme. Além de copiar. Como o aluno conhece a língua.

poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si. Por isso.funcionam as relações entre letras e sons. pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. Mina!. faz seus rabiscos. Porém. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. se não tiver algumas explicações iniciais. que pode ser feita de inúmeras maneiras. cuja aceitação ainda não foi confirmada. Portanto. Assim. então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. não faz sentido. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente. a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas. representando a fala. Como é que as formas . A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. Nota Recentemente. Logo. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida.

Então. pensa o aluno. agora. A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas. começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora. A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever. Então.gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. Isso parece algo muito interessante. descobrir como as letras representam os sons.. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez. ela já as viu de muitas formas. "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". acaba procurando as letras. Então. portanto. Com isso. a produção gráfica da escrita é mais fácil.. e assim por . mas não sabe. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica. surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". Resta. nada mais natural do que acrescentar mais uma. porque sabe da sua existência.. a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras. pelo menos. como ninguém a ensina a ler e a escrever.. porque tem consciência de que não sabe ler. O resultado é bem mais semelhante ao modelo.

mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala. Ora. por que. o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. o aluno começa a analisar sua fala. Eles escrevem letras corretas. quer escrever BOLO. Por outro lado. ao tentar escrever uma palavra. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. como U de URUBU. Como fazer? Falar é fácil. Por exemplo. analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. Descoberta a técnica. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO.diante. Então. em vez de dar uma informação tão reduzida. dizendo: B0000-LUUUU. E preciso descobrir as letras. B de BOLO. e escreve: B L. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. de . observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. A explicação é a que foi dada acima. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. agora. segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. e não por simples e espontânea reflexão.

árabe clássico. hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. na verdade. Por exemplo. Essa hipótese. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. de um modo ou de outro. conhece o U do LU. ou seja. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. Porém. Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica.. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões. dessa forma. pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e. mas não conhece o L (o "lê" de LU). mas pode-se encontrar uma mistura. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. o M ("mê"). para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal. <266> Em geral. em que. A hipótese dele. e escreve C M U. a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável. é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia. corresponde uma letra na escrita. existe uma letra .acordo com a ortografia.. não é de que uma letra represente uma sílaba. numa tentativa de escrever o que foi identificado. Falam "u" e escrevem O. Ele conhece o C ("kê"). mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. por exemplo). fenícia. Por exemplo. porém.

lê analisando as letras em famílias de sílabas. por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. la-ta: a lata". outro é o da decisão pessoal. quando vai ler. Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. explicita em voz alta essa técnica. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO. Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa. Concluindo. tê-a-tá. E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. finalmente. prefere usar. como referência principal para sua argumentação. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. 9. usando apenas as letras C V L ou A A O. na escola.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. juntando as sílabas . lendo.

que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal. Isso acontece porque. Quando o professor diz que está errado. Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. precisa descobrir que idéias ele usa para ler.-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?). juntando: bê rê-a-çê. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu". O professor insiste em que está errado. O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil".e formando a palavra. as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. O professor perde a paciência. Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas". é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. Ao ler uma palavra como APTO. . A. o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu. rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru. Nesse caso. diz que está escrito "Brasil". Agora. o esse do sá-sé si-só-su. o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga. no método do bá-bé-bi-bó-bu. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). do bá-bé-bi bó-bu. Assim. ao tentar ler uma palavra como BRASIL.

corrigindo-o sem explicar. é preciso usar os conhecimentos de decifração. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. Quando se lê. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba. em voz alta. Isso. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais.Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. Depois de descoberto o que está escrito. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. Às vezes. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. procede-se à leitura. como: brá-bré-bri-bró--bru. O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". em silêncio. os quais devem ser processados na cabeça. Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . <268> respeitando o princípio da literalidade. por outro lado. está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora". Para um aluno ler segundo o modelo.

Em vez de ajudar o aluno. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura. que acabam desistindo de ler. É impressionante como os professores de alfabetização. o que os faz desanimar. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. na alfabetização. alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa". Diante de casos como esses. é pior ainda. em geral. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência. porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. mas faz isso com .para alguns alunos. não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. quando não para psicólogos. Se o professor corrige dizendo "beôleá".

Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente. quer com relação à quantidade de material que lê. por outro lado. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. Como alguns falam mais depressa do que . Depois de muitas repetições. é sempre problemática e deve ser evitada. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. 11. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. O professor pode mostrar como se lê. com os quais o professor deve se preocupar. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. ou que só entendem o que lêem em silêncio. 10. quer com relação à assimilação dos conteúdos. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. A leitura de improviso.certa rapidez. ler em grupos. que têm de ler em voz alta <269> para entender. Acabará sendo um leitor lento. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. Por outro lado.

Por isso. existe uma certa variação. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. No primeiro caso. Conseqüentemente. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. já no outro dia. tendendo-se para uma leitura mais literal. Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). mas saborear a arte dessas obras. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se . é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança. errado. a criança usa de sua reflexão. para tomar as decisões que julgar melhor. Quanto mais se acelera a leitura. Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. errado. típico do método das cartilhas. porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente.outros. depois voltam a escrever certo e mais uma vez. a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. baseada em seus conhecimentos.

Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. o processo de aprendizagem. ou o passo seguinte. Depois. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita). alguns casos de erros de escrita. 1. Finalmente. através da produção de escrita espontânea. porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. de maneira cada vez mais sólida. Conhecendo essas razões.<270> mantêm integralmente dentro do modelo. No segundo caso. misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. indicando a saída. . o professor pode mostrar e discutir isso com ele. cometendo erros. a seguir. Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. para não errar e levar adiante. Apresentam-se. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados.

Na vida. Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. 2.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante. são capazes de ler. Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes. além de ser uma marca individual. permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos. o professor deveria brincar de fazer assinaturas. Isso pode trazer uma certa frustração. Ao fazerem isso. Os alunos podem . Enquanto estão conscientes do que fizeram. e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. ou seja. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque.

um professor pode convencê-lo a escrever com letras. Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra. fazendo rabiscos. um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO. Diante de tal explicação. o aluno está seguindo a explicação do professor. escrevendo com letras. Isso quer dizer.). etc.entender que.. ainda. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. . as pessoas nem precisam saber ler e escrever. diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social). o professor constata o que o aluno fez. Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. 3. para assinar documentos e cheques. ou seja.:' Para resolver isso. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função. Diante disso. A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. Dessa maneira. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos.

nessa forma de escrita. porque o aluno vê escrito ( e pensa que. A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. ocorrem na grafia das palavras. com as letras B e b (que estranhamente. aparecem traçadas de formas diferentes). a coisa piora. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba. quando o professor escreve com letras cursivas. o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va. Por exemplo. de fato. as letras são: <272> O + i + v + a. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão.4. deixando a decifração da leitura de lado. para ele. Agora. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . Como o método concentra-se na escrita.

podem cometer vários enganos. Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. Um bom exercício. Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza. pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. nesses casos. como letras cursivas e de fôrma. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE. é fazer transliteração. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro. ou seja. Um deles é o da escrita espelhada. Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. 5. O professor ensina que se deve .

quando um aluno vai escrever a letra S. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. No início. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las. como entoação e ritmo. . Por essa razão. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. é como segmentar o fluxo da fala em palavras.escrever da esquerda para a direita. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. o resto acompanha. como a escrita exige. resultando na palavra espelhada. Então. 6. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. como C e S e outras letras como Z e N. levando em conta essa regrinha. Com isso.

colocando uma parte em cada palavra. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. como no caso de VISITA. conjunções e expressões adverbiais. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver). os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. Quando encontram a palavra ABACAXI.surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. a partir da análise semântica. A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. Veja. os alunos se apegam a algum elemento semântico. ainda. A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. encontra-se o som básico que a letra . Às vezes. como preposições. no próprio nome das letras. separam A BACAXI. ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO. 7. o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. "çe-ru-mã-nu". Na prática. pensando que é algo semelhante a A CASA. Aos poucos. segmentando erroneamente palavras. os alunos vão descobrindo os itens lexicais. sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais.

como se conhecessem a ortografia das palavras. PTC ou EEA para PETECA. O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. como em "cacacacavavavava-lolololo". basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever. como em AAO ou CVL para CAVALO. o que é representado na escrita pelas consoantes. . LC em vez de HELICE. de acordo com a maneira como analisa a fala. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. como em "caaaa-vaaaa-loooo". Se prolonga as sílabas. Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. acaba salientando e escrevendo as vogais. Se repete as sílabas. Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. TAPTE em vez de TAPETE.representa (princípio acrofônico). Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. 8. etc. É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. etc. CAMLO em vez de CAMELO. LFATE em vez de ELEFANTE. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. Ao aplicar isso. APARECU em vez de APARECEU.

la-le-li lo-lu. ta-te-ti-to-tu.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. Mais raramente. Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave). Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. LT para LATA. observando a palavra LATA. registra OPAFNOLA. Se BAR RIGA tem o "bê". então. ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence.Obviamente. O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. lembrou-se da . não estão produzindo uma escrita silábica para as letras. Então. ta. MCC para MACACO. LATA tem o "lê". Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente. Por exemplo: la-ta. e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. que é o lá-lé-li ló-lu. demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. Em outras palavras. que são interpretadas a partir da observação da fala. encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras.

Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. PRANTA em vez de PLANTA. escreve LT. DRENTO em vez de DENTRO.lição da laranja e chegou à letra L. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e. além das dificuldades para encontrar. 10. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever. dessa forma. Para ser objetivo. no ditado. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. 11. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. a partir de seu dialeto. basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. que era o objeto de estudo dessa lição. a forma escrita das palavras. Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. introduz-se o estudo da família de letras. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO. Portanto. algumas crianças . Resultados pela metade Ao escreverem. etc. quando o aluno. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras.

Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. 1985b. do começo ao fim. principalmente no início. PIONHO em vez de PIOLHO. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. Isso se torna ainda mais complicado quando. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente.defrontam-se. com uma análise detalhada. CAGLIARI. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. têm de fazer isso aos pedaços. quer as que ele costuma escrever. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . analisando a própria fala. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. passo a passo. PISICRE em vez de BICICLETA. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. ou seja. L 12. o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos.

e um som pode ser representado por letras diferentes.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. até que. Como uma letra pode representar muitos sons. valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética. o professor chama a atenção dos alunos. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética. 13. Acertará algumas e errará outras. Aos poucos. sem insistir muito. . isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante.

Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. A sua dificuldade é maior no início. 14. Outro exemplo: o aluno . Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns. mas existem. Por exemplo. às vezes. Esses fatos são menos comuns.comece a grafar as palavras corretamente. para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam. Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra. o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. o que se fala com "i" será escrito com E. Então. usando-a para contextos não permitidos.

POLA. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. CORILA em vez de VACA. a escrita é FACA. o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". 15. Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. como no exemplo de "faka". ainda. a escrita é VACA. BOLA. mas se escrevia O). PATATA. Se o aluno fala como escreve. Se o aluno fala certo. BATATA. além da explicação acima. pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. e quando está pensando na ferramenta. utensílio. mas escreve errado. o aluno pode. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. na sua fala (sussurrada). do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. GORILA. na escrita.quer escrever TATU mas registra TATO. percebe que. Nesse caso. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. Assim. escrevem FACA. . Como escreve sussurrando as palavras.

eles ficam perplexos porque nunca souberam que . A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda. as nasais. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. e não falha de discriminação auditiva. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala. e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. as laterais. como as vogais. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. porém. Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. mas apenas variantes.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos. Lembrar. Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português.

.) 16. (Na pronúncia comum de muitas pessoas. Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez. ou dizer por partes. mas pode levá-lo a cometer erros. o aluno. um pouco. seguindo a última regra dada pelo professor. se consideram portadores de deficiências auditivas. nem por isso.. N com H dá "nhê". serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes. e numa palavra como RATO. Então. escrevendo ÍNDIO com IGO. o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. dando uma determinada informação técnica. por se tratar de crianças. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros.podia haver RR surdos e sonoros. Na alfabetização. o professor explica que a letra H é um coringa que. numa palavra como BARRIGA. Assim C com H dá "chê". encontramos RR surdo. L com H dá "lhê". Por um lapso. passa a escrever com H depois do D: IDHO. é muito comum o professor "enfeitar" o que diz. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". L e N. Mas. encontramos RR sonoro. Por exemplo. Isso ajuda o aluno a progredir. <279> . no meio de palavras. que já tinha errado.

minha gente! Mais rápido! Papai.. . Pa. após o último esforço. Pa-paaaiii... o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar.. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha. Assim. Papai. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. Assim. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente. produzindo às vezes resultados surpreendentes. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. Joãozinho. não por causa do erro. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. Se vocês não ficarem quietos. Vamos lá... etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. Paaa-iii. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM.17. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez. escreve AAI. depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA. Em seguida. Mistura de informações Nos primeiros ditados. Por exemplo. Com a identificação de mais alguns sons. vão errar. seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores. fique quieto no seu lugar! Pap.

tendo feito o "d". faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo. ao escrever IDADE.18. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. nem sempre sabem solucionar dúvidas e. etc. notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. Por exemplo. acabam escrevendo tudo corretamente. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR. Então. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. DONAIMEA por DONA ESMERALDA. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). ele emenda tudo sem . por SOCORRO. SATUX por SANDUÍCHE. Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. resultando algo como i Outro exemplo. Assim. Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. resultando daí uma grafia estranha. 19.

Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO. às vezes. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. erros de supressão ou de acréscimo de letras. de repente. O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo. Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. tomado por um pânico muito grande. 20. resultando: CATSELO. Por distração. que depois leria corretamente para o professor. Inversões desse tipo são muito comuns. etc. explicando que se tratava de uma aranha preta. seus erros têm pouca lógica. até adultos cometem. começa a escrever coisas muito estranhas. e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva. nesses casos. "apachonada". acabam escrevendo: "cachorro". 21. Medo de escrever Mais raramente algum aluno. que sabe escrever umas poucas palavras. . Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula.correção.

Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita. a escrita tem marcas e sinais de pontuação. e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1.22. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. 23. . Sinais de pontuação Além das letras. o professor não deve enfoca-los. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras. No começo. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos.

"arriba". na fala de muitos alunos. os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita. De modo geral. "ela viu eu". "uzómíveiu". Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. como: "bardji". costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. "askazakaiu". como: "drentu". "pobrema". "Maria achou nós". etc. Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos. e erros oriundos da má formação de concordância. obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries. incluem-se três tipos de erros mais comuns. 2. etc. "çértu" (com R retroflexo). como: "nóis vai". Na alfabetização. . Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto. Assim: "eu vi ele". "fumu". Nesse caso.Por isso.

"Ele falou uma piada . para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos. "em que". convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. De vez em quando. fazendo ver que na linguagem escrita. Por exemplo. entretanto. de modo especial. é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo.. sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções. 3. como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos". "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". sujeito da oração. como por exemplo "que".Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas. há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. especialmente de falantes de dialetos estigmatizados. O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. etc. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime". Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. esse tipo de construção precisa ser evitado.

Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. desde cedo..:'. o professor não precisará se preocupar muito com eles. Todavia. marcando todas as pausas que fazem. Mais uma vez.onde o papagaio morreu afogado". o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". a melhorarem seus textos. "aí". por isso mesmo. no sentido de ajudar seus alunos. ele deixará de se preocupar tanto com isso. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente. O professor alfabetizador deve mostrar o certo. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos. Por exemplo. 4. O professor . onde eu deduzo que havia muita corrupção". como "ééé. mas não insistir. Por tanto. Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor. esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. "depois". é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e. "Tudo estava perdido.

em frases como essa. variando a estratégia de construção das frases. <283> Alguns professores. Por outro lado. costuma colocar nessa palavra o foco semântico. às vezes. sobretudo de séries mais adiantadas. A repetição pode também ser desnecessária e. Ele viu o carro. O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada.. O carro assim não pega. representado pelo acento frasal. Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". . Note que quem usa "ele". deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão. nesses casos. ou seja. o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. evitando a repetição dessas palavras. cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos. que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. um texto como: "O mecânico chegou em casa. A repetição. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina. O mecânico chama-se Toninho. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida.

cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases. no qual o aluno foi alfabetizado. acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. ou seja. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. O pato nada no lago. Esse tipo de texto precisa ser evitado. O texto acima só aparece como exercício na escola. Desse modo.5. e reflete um modelo muito típico de cartilha. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. Xaxá é a vovó. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . completando o que foi dito antes. O pato é belo. não na vida real. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". No exemplo acima. como quem monta um quebra-cabeça.

levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. Por exemplo. esse tipo de problema quase não aparece e. Não tem propósito aparente. PEDRO FICOU FELIZ. 6. Veja o exemplo. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. ELE FICOU FELIZ. às vezes. tem um antecedente claro e bem-definido no texto. não requer explicações mais detalhadas. Alguns alunos fazem. Porém. desestruturando o texto. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. . que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos. por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO. a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. confusão com os elementos anafóricos. Se o professor adotar outra estratégia. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. quando vem.daquele jeito. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. agora. o elemento anafórico ELE.

Portanto. todos os verbos. como JOGOU e FOI MOSTRAR. É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. o professor não irá questionar esses aspectos. Caligrafia Finalmente. no início do segundo semestre. o sujeito de FOI é o PADEIRO. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início. embora fale sobre eles com os alunos. o layout. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. Na maioria das vezes. Esse é um típico problema de coesão. a forma de apresentação estética. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro.Na segunda linha. 7. quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. assim. esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor. por exemplo. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. cujos sujeitos estão ocultos. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia. Depois. <285> Todavia. podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas.

Tudo . as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento. 1990. Textos que vão ser expostos. na verdade. No início do processo de alfabetização.trabalho. razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram. Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais. O ditado. enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação.

. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. Em algumas profissões. Ditado e cópia são atividades interdependentes. às vezes. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio. Nessa prática. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. Na escola. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. Quando se quer guardar uma informação.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. ou até mesmo entender o que foi dito. do conteúdo da matéria de todas as aulas. antes de escrever. Nessas circunstâncias. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. O professor fala como quem dita aos alunos. a prática do ditado é intensa. por exemplo. certas aulas expositivas são espécies de ditado. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. fazendo confusões fonéticas e semânticas. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. Quando se tomam notas numa conversa de telefone. como nos escritórios. obviamente. ditamos o que ela precisa escrever. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. até à moda da escola. escreve-se. no final do ano. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. controlando o que escrevem. especialmente perceptivo-auditivas.

A mãe ou o adulto dita palavras. expressões ou frases para a criança repetir. de fato. largamente manipulado pela escola. Embora pouco recomendado. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. certamente. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. obrigando-os a estudar. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia. além de ser uma prática que constrange os alunos. vê-se que o ditado é uma . como as informações passadas por telefone. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem. Nesse último sentido. esse sentimento é. Esse quadro geral. realizados apenas no plano da oralidade. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor.Pela experiência de cada um. Portanto. testar as dificuldades de realização de escrita. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. gerando ansiedade. como as anotações feitas numa aula. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. outros reproduzem apenas as idéias principais. avaliar o desempenho. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal.

ditando-lhe as palavras já vistas. TOLO. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e.prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta. Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu. se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. . algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. enquadra-se nesse caso. Do ponto de vista da maneira como são feitos. os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico. etc. LOTA. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. LUTO. TELA. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. Para esse método. Muitas vezes. em geral. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização. depois.

Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. . nos textos livres. não aprende ou. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). Entretanto. não estuda. quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). ao passo que. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças. Os próprios erros são outros. as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. é porque não se concentra. até mesmo. não presta <289> atenção no que o professor diz. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. neurológicas ou fonoaudiológicas. porque tem dificuldades mentais. Se o aluno erra. Nos ditados.

Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. ou seja. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. pode variar. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U. nesse caso. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras. esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar. servem de reforço para a aprendizagem. O modo como o professor fala. como vimos. Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos . Mas. para não fixar o erro (sic!). se o objetivo do professor é esse. Ora. Acham que além de avaliar. Curiosamente. o professor fala e o aluno escreve. onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar.Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. Tais ditados são realizados foneticamente.. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA.. quando deveria pronunciar U. o aluno não escreveria da maneira correta.

CA. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar. o professor passa para a palavra seguinte. serve-se dessas regras para ditar. NHA. O resultado é: CASIZICANHA. embora quase silabando as palavras. FLORZINHA se escreve com Z. este já está silabando NHA. e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. Quando presta atenção de novo no professor. . Começa falando-a normalmente. como o ditado ocorre com bases fonéticas. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. é com S ou Z? Nesse momento. Em alguns casos. E CASINHA.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. o professor já está repetindo sílabas: CA. O aluno escreve CASI e pára. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA. dita pronunciando as sílabas isoladas. na hora do ditado. Porém. Por exemplo. o professor quer ditar a palavra CASINHA. Quando os alunos estão escrevendo. Finalmente. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. porque fica pensando: CASA se escreve com S. Depois. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente. e o aluno escreve o NHA junto com o CA. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos...

isso é muito comum. No Brasil. Outros procedimentos podem ser observados. <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. dizendo o nome das letras das palavras. Resumindo. Assim: DEODORO com D de DADO. soletrando. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). DEODÓ. vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. Assim. a primeira letra da palavra-chave. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . que se supõe de conhecimento fácil. com DÊ. é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. como: DEODORO com DEEDÊ. Esse procedimento. Na cultura inglesa. REORU. é raro as pessoas soletrarem. sem dúvida. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. Ó. nota-se hoje que. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. próprio das cartilhas.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. aplicando-se. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave. nesses casos. e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata. e não TEODORO com T de TATU. quando eles os ajudam.

Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. sobretudo. Poder-se já. e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. etc. da maneira como as escolas fazem ditados. e o aluno escreve BOLA. uma galinha. talvez. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. Por exemplo. desenha-se um pato.de alfabetização e. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. Anotações . podem ocorrer erros de interpretação das figuras. uma laranja. chamar esses ditados de ditados semânticos. O professor desenhou uma laranja. O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente. essa atividade não é um ditado. uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. Na verdade. Além dos tradicionais erros de ortografia. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos).

e é o que os alunos acabam fazendo. como da maneira como se estuda. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando.Finalmente. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o . O professor pode passar sua experiência aos alunos. Feito isso. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. uns copiam só questões secundárias. o que é mais importante. o que é secundário. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. numa aula ou numa palestra. fosse ensinando como fazer anotações. etc. A escola deixa que cada um se vire como pode. das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa. Seria interessante que o professor. discutindo com eles como se fazem essas anotações. desde a alfabetização. o que está a mais ou está faltando. A escola precisa cuidar não só do conteúdo. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. passa-se a discutir o que cada um anotou. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. por exemplo. outros de menos.

que acontece nas salas de aula. A partir daí. uma vez que se escreve com L. mas não é uma garantia disso. algumas vezes. não é um bom exemplo. quando o aluno escreve certo. Como se viu anteriormente. . mas PORTA não pode ser dita "póuta". ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R. A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). Assim. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão. Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". e o que encontram aí. esse tipo de asserção é um equivoco.

Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. Esses ditados são. Ora. Todavia. escrevendo do jeito que acham mais provável. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra.. ainda. ou se está certo ou errado. como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. Não há o que discutir.. A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro. Servem. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto). Em questão de ortografia. de fato.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. ou tiver dúvidas. formas de ensinar a fazer transcrição fonética. para aplicação das normas dos alfabetos . porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve.

Feito esse tipo de exercício. usando diferentes dialetos. sem qualquer preocupação com a ortografia. o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. Nesse caso. Seriam escritos somente os sons realmente falados. que ele pode . Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. Não envolvem nada de ortografia. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício.fonéticos de transcrição de pronúncias. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras. todo som de "i" seria representado por i e somente por i. as dificuldades geralmente crescem. do modo como fossem pronunciados. Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola.

para saber ortografia. os ditados são usados para dar notas. É sempre um item indispensável nas provas e testes. Ditado e avaliação Na escola. Na verdade. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- . Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. tampouco consegue se livrar dos ditados. que o professor não sabe como aproveitar. fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. são feitos ditados apenas para controlar a disciplina. por mais cuidadosa que seja. Como a escola não consegue se livrar da nota.observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala. mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu. algumas vezes. Na alfabetização. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima.

o significado da atividade também muda. para saber quem escreve mais palavras corretamente. ou dar uma nota num teste.versa. Não só não fazem falta. Nesses casos. o objetivo não é ensinar ortografia. como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . como o enfoque muda. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização. nem avaliar a lição anterior. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente. brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante. Pode-se até fazer um campeonato. pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. Entretanto. Pelas razões expostas. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los. Nesse caso.

do mesmo jeito. e o aluno volta a fazer tudo de novo. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). MACC. não sabe como tirar o aluno do impasse. Na prática. é composta de famílias de letras. Essa questão é tão óbvia que o professor. que é analisada em seus componentes (sílabas). CAPA. cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. MACACO. se está progredindo ou não. CPA. E escreve LT Mas. "lata" se decompõe em LA + TA. . E agora. O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. diante desses casos. o B de BARRIGA ou BEBÊ). LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. saber se um aluno aprendeu ou não. e achase a letra correspondente. Assim. direitinho. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. Pega-se uma palavra. em vez de LATA. através dos ditados. guiando-se pela palavrachave. alguns professores acham que conseguem.inadequados perante a linguagem. Ora. se um aluno escreve LT. Por exemplo. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele. Volta a explicar tudo de novo.

Quando o fazem. porém raramente sabem interpretá-los. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas. o induz a isso. Nesses casos. principalmente o A. Para o método das cartilhas. vai arriscando escrever também as vogais. o ditado não faz sentido.então. aos poucos.. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. além das consoantes. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro. existem as vogais. Conseqüências dos ditados na alfabetização . Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. através de exercícios de montar e desmontar palavras. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. de fato. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu. já viu que. como vimos.. para se autocorrigir. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. Por outro lado. e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades.

Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. psicológicos. Entretanto. Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem. mas também para reprovalos. porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis. não só do ponto de vista do que se faz na escola. . mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola. Isso mostra que. Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas. etc. e classificados como deficientes mentais. mais levianos. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas. auditivos e articulatórios. os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. como das conseqüências da avaliação. De todas as atividades da escola na alfabetização. fazer remanejamentos. na prática. punir com cópias alunos indisciplinados. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. neurológicos. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola.

etc. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. É claro que seria possível fazer ditados de textos. quer com indivíduos. pedagogicamente falando. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. nesse caso. Os alunos. A linguagem vive nos textos. Mesmo assim. O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão. a destruição da semântica das palavras. então. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. eles mesmos as escrevem na lousa. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. a fala silabada. os ditados. apenas copiam do quadro-negro. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas. quer com equipes de alunos. induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. . a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras.Além dos aspectos negativos já apontados. juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas.

essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia. procede-se a uma discussão geral e.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável. Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. depois. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. Na alfabetização. Os alunos acabam errando demais. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. Depois. Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. Feita a atividade. invertem-se os papéis. Nesses casos. a melhor solução é a simples cópia. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. Além das finalidades. Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. à análise com comentários sobre cada caso. como no ato de fazer anotações ou cópia de informações.

um procedimento que ofende a quem escreve. as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas. No Museu do Louvre. a . com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou. encontram-se trabalhos de cópia. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem. quer na Mesopotâmia. no Museu Britânico e em outros.se deve fazer. Inúmeros documentos mostram que. Assim. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma. nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. Em suma. de certo modo. repetir o que se disse de maneira mais lenta. se for uma simples falta de compreensão. Para esclarecer como se escreve uma palavra. além de aprender como o sistema de escrita funcionava. na Antiguidade.

quer pelo contexto. Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. por exemplo. o alfabeto grego. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. nesses casos. Ele tinha diante de si. numa tábua. finalmente. Na Antiguidade. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. mas não é a única nem a principal. desenvolvia a habilidade da leitura. Como falante de grego. Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". aprendia como decifrar o que copiava e.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. comparar o que fez com o original. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons. para guardar . <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. não se copiava. ou seja. objetivo principal da tarefa de cópia. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras. portanto.

faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. a deduzir. o simples ato de se copiar um rótulo. usada logo no início. Esse tipo de atividade. pelo contexto. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. Ao proceder assim. etc. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. Portanto. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. paredes. a criança toma iniciativas. Alguns professores consideram que a cópia é um simples . livros. Embora a criança. traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. a juntar informações. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo. não consiga decifrar o sistema de escrita. Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove. uma palavra que encontrou escrita em objetos. por si só. Isso é importante.um documento. copia e avalia o resultado obtido.

ou seja.. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo. ocasiona esse tipo de problema. Isso é verdade e pode acontecer. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. vão procurar descobrir que letras copiaram. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. a cópia é uma ótima estratégia de ensino. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. poderá ter como reação um ato mecânico. . O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. vão precisar saber o que está escrito. etc. que som tem determinada letra naquela palavra.exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. com que letra começa a palavra. Escrever uma palavra ou frases. na tarefa de copiar. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente. Por isso. que letra vem depois.

Ao fazer isso. separando assim desenhos de letras. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). copiando ou não. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. apesar de suas limitações para usar o lápis. desde então. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita. Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula. Seria bom que essas crianças recebessem.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. letras e até palavras. como também de copiar material escrito. . irão colocar apenas material escrito. Numa folha de papel. brincam não só de imitar os adultos que escrevem. Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. fazem o que chamamos de rabiscos. para sentir um pouco o que é escrever e ler. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. fazendo comentários orais. Em geral. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas.

Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel. além de letras. que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. sinais. etc. No mundo da escrita em que vivemos. recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante. por exemplo. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. pois. os alunos podem copiar. há muitos pictogramas. Copiar. acompanhadas <301> da colagem de figuras. Cada página pode ter um título: . usados. marcas. Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes. O professor irá solicitar que usem. por exemplo. útil e mesmo necessário no início da alfabetização.Ainda bem no início. animais e objetos. nomes de colegas. uma espécie de cópia. juntamente com os desenhos.. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa. eles podem confeccionar um álbum de letras. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). como também através de letras soltas. que são escolhidas e montadas em lugares próprios. sendo.

Às vezes. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. mais tarde. os quais. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. Em vez de copiar graficamente. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos. letras cursivas. o professor pode propor o dicionário da classe. letra florida. Cada . etc. minúsculas. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. letra da propaganda Y. Os títulos podem ser obtidos de outro modo. baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. Nesse caso. porque elas não aparecem no texto consultado. podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. por sua vez. O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. como se fossem figurinhas. listrada. Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores. seguindo o padrão gráfico das letras já feitas.letras de fôrma maiúsculas. usando a imaginação: letra do jornal X. quando estiverem mais adiantados.

O ou U. etc. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares . o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. numa coluna. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I. e. o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. e acompanhada de A. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas. ilustração. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. seguindo as instruções do professor quanto a layout. se o professor estiver estudando a letra C. na qual irá escrever uma palavra. Ligado às atividades de ensino. propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha. ao mesmo tempo. em outra coluna. Por exemplo. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada.

na hora do ditado. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. Cópia não é um reforço da aprendizagem. dando a impressão de que as aprendeu. como faz o método das cartilhas. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. e que. que misturam escrita com desenho (quadradinhos). Atividades como essa. pode esconder o fato de não saber ler. uma vez realizada. então.próprios de cada um na sala de aula. Nesse caso. . Melhor seria. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. porém. pode servir como reforço da aprendizagem. quando todos estão sentados. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente. Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel. memorizar informações sobre o que fez e. Esse aluno. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa.

No entanto. Por outro lado. é essencial.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. na verdade. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. apenas decora o que lhe apresentam. transformando-a em leitura. desse modo. sem entender verdadeiramente. e ele não saberá o que fazer. esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. quando. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. na verdade. Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos. não está nas atividades em si. mas no método das cartilhas. Já dizia Dante . Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. O problema apresentado aqui.

esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos. a escola deveria cultivar a memorização.se isso em círculos cada vez maiores. incluindo não apenas obras literárias. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. um diálogo. faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. procura-se reproduzir o que se quer decorar. depois. escrevendo. Como acontece com muitos fatos escolares. Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. Citar um autor ipsis litteris.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo. <304> de cabeça. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e. mas é muito usada por artistas. mas também científicas. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. um texto em prosa. Infelizmente. a escola usa uma estratégia de maneira . até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória. Desde a alfabetização. desde as primeiras séries. Faz. Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários.

textos. às vezes. utilizase dela. Na escola. ou algo específico de uma lição. Por essa razão. de apontamentos. não o faz. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. de livros. etc. Copiar informações. passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. fazer cópia pode ser uma boa atividade . por isso. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. concluindo que não serve aos seus propósitos. prejudicando-se muito nos estudos. para punir alunos indisciplinados. eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro. A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima. por ser seu contexto correto. depois. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. se o aluno não presta atenção às explicações do professor.inadequada num determinado momento e. quando deveria empregá-la. se o problema for de indisciplina. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo.

de iniciação ao mundo da leitura e escrita. <305> Outra atividade importante na alfabetização. põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura. minúsculas. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa.versa. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável. seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas. além de copiar. passando da letra cursiva para a de fôrma. ligada à cópia. é a transliteração. por ter somente "dois morrinhos". Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras. um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M. Assim. o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início. o traçado das letras maiúsculas. que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. quando a criança. das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. corresponde à letra n cursiva. passando-o para outro tipo de alfabeto. Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. Por exemplo. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. é importante que peçam cópias. .

composta de i + v. revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno. Como eles não sabem que palavras estão escritas. etc. deverão passar da . Para isso. fornecido pelo próprio professor. Por outro lado. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los. o nh. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. nesses exemplos. Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema.). Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas). isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita. mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. Quando aparecem erros como os apontados acima. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. etc. não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. o sc.Erros de cópia. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever.

Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu.escrita cursiva para a escrita de fôrma. Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. Os franceses e os americanos. De acordo com a tradição educacional de cada país. ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional. as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. por exemplo. ao encontrar material que exemplifique. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para . Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico. Depois.

<307> . O aluno troca palavras. A escola precisa aproveitar mais o que faz. passa-se ao aluno um exemplo menos interessante. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. Por isso mesmo. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos. O objetivo aqui é experimentar. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. em vez de ensinar o melhor. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original. caso contrário. usa outra construção sintática. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos. andando junto com o autor na elaboração de um texto. Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. sua organização e desenvolvimento. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar.analisar os erros e as dificuldades encontradas.

dando ao aluno uma frase para ele copiar. de fïsica). praticada em atividades de interpretação de texto. mas a semântica é outra. enigmas. Em geral. Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto. as várias etapas que o . substituindo uma ou mais palavras que ele queira. Através do exercício de exegese. como problemas (de matemática. textos de reflexão filosófica. Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos. ou substituindo progressivamente todas as palavras. etc. Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa. Éo que se chama de exegese de um texto.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma. às vezes. religiosa.

Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . um conteúdo qualquer. até mesmo. Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. com o uso comum de computadores. uma idéia de um livro. um texto e. um pensamento. uma piada ou um simples nome. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. Hoje. Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. inclusive a ligação de uma parte com outra. Isso se aprende também na escola. por razões sentimentais. A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. Copia-se o que se ouve do professor. Às vezes. aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante.problema exige vão se apresentando mais claramente.

além de colecionar objetos. As crianças adoram colecionar. sempre ensina mais e melhor do que a teoria. esse banco de dados vai se enriquecendo. etc. Através de cópias. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. fotos. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. fichas com anotações. mantendo um arquivo com recortes. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula.informação em arquivos. . crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente. flores. O professor deve. até poesias. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito. em primeiro lugar. pode colecionar informações sobre passarinhos. A medida que o tempo passa. A prática. também. desenhos. nesses casos. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. e se a escola souber aproveitar isso. Assim como um aluno coleciona selos. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. desde formas gráficas de letras e alfabetos. árvores. dependendo menos da escola.

executar uma versão preliminar num rascunho. A educação não germina em meio à desorganização mental e material.Classificar. rotular. Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social. finalmente. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever. folhas. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. envolvendo isso tudo. etc. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. A distribuição espacial do material nas fichas. há muito trabalho de cópia e. Como se vê. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. das coleções e dos álbuns. corrigir e melhorar e. <310> . <309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. passar a limpo. caixas. além do conteúdo das matérias. Como se viu neste capítulo. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição. A organização material é prova da organização mental. por trás da atividade de estudar. porque associam essa tarefa à de cópia punitiva. também merece cuidado especial.

Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. Alfabetizar é. Os próprios textos escritos são. por isso o termo "leitura" adquire outro sentido. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. Na alfabetização. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. vista sob esses dois aspectos. ensinar alguém a ler. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. na maioria das vezes. . a decifrar a escrita. então. ou seja. O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária. Trata-se. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. sabe decifrar a escrita com facilidade. ou seja. e não o inverso. Na prática escolar. na sua essência. da leitura para conhecer um texto escrito.

é preciso adquirir certos conhecimentos. Entretanto.Ao longo deste livro. e não de outra maneira. o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. apesar disso. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. em primeiro lugar. Em ambos os casos. Para quem já sabe ler. Além da decifração Quando lê. para chegar a esse ponto. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza. que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras. a diferença entre desenho e escrita. entre outras coisas. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento. Sem . a passagem pela estrutura lingüística é essencial. uma pessoa precisa. parece muito fácil e natural. função e usos da ortografia. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita.

por exemplo. e de forma coesa e coerente. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto. Quando uma pessoa fala espontaneamente.isso. não existe linguagem e. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. portanto. segundo as regras dessa língua. Este último caso acontece. porém. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para . Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo. A decifração. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. As vezes. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. pode ser feita por etapas.

processar a compreensão da linguagem. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. mas também de si próprio. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e. Portanto. toda pessoa. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. ou seja. se apropria das idéias que descobriu no texto. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. e acaba sendo um mau leitor. <313> Perdurando essa prática. obviamente. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. Contudo. pronunciá-los em forma de palavras. a partir dessa audição. Assim. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler.pronunciar as palavras. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. além de falante. Isso. como a linguagem tem todos esses aspectos. No entanto. elabora . do controle sobre aquilo que se diz. acontece apenas como um processo de feedback.

terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita.todos esses conhecimentos como se fossem seus e. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . X). algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. Se se deparar com uma palavra desconhecida. Por outro lado. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. talvez não. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. o leitor pode conhecer todas as palavras. seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. nota-se como se pode ler de várias maneiras. e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia. Dependendo do texto e do leitor. Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. saber como pronunciá-las e não entender o texto. Além disso. Nas explicações dadas acima. passa a dizer o que leu. mais fácil torna-se ler novos textos. Talvez isso seja irrelevante. numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. Quanto mais se lê. dependendo do que se encontra pela frente. pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo.

Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. as leituras . Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. Certamente. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade. o planejamento lingüístico deve ser completo. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Em ambos os casos. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto. quando lêem para si próprias. que varia de falante para falante. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto. inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito.de saída. A única diferença entre elas acontece no momento em que. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala. quando a leitura se realiza em voz alta.

mas a base dos . o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. mesmo em silêncio. Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. futuramente. ao aprender a ler. se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. acaba tendo. do mesmo modo. mas todo um processo de produção de fala. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa.feitas em silêncio são assim. pois. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica. Isso se dá ao ler. recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar. Por outro lado. através da leitura. Assim. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. pode-se ler em outros dialetos. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente.

Ao contrário. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. reproduzindo fielmente os sons representados. Esses são dois pontos de suma importância na escola e. mas deve chegar o mais próximo possível disso. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz. que. na língua e no dialeto retratado. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. Castro Alves ou Érico Veríssimo. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. dependendo de como o professor lida com eles. Assim sendo. Leio no dialeto que desejo. no meu dialeto. quanto menos . E os portugueses lerão meus textos com sotaque português. Quando leio Vinicius de Moraes. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. ler não é falar. é oral.dois é a língua. <315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. Assim. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. baiana ou gaúcha ao texto. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. na sua essência. A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. não me esforço para dar uma pronúncia carioca.

mais fácil fica acompanhar a parte semântica e. Por outro lado. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto. Como vimos acima. truncada e. perdem o fio do raciocínio. mas o leitor fica divagando.alguém se preocupar com a parte fonética. muitas vezes. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. dessa forma. Afinal de contas. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. entender o que se lê. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. também. A fala deve ser monitorada pela semântica. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. A leitura. ipsis litteris. Quando se lê uma poesia ou um romance. . Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu. a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. O leitor interfere no literal do texto Na leitura. voando nas asas da imaginação e da fantasia. mas também a semântica. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser. ao decifrar o texto.

Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito. dizendo tudo em palavras e em voz alta. ao lerem os primeiros textos. o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo.<316> A leitura em voz alta. todavia. O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. No início da alfabetização. Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso". ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. por essa razão. implica algumas restrições. as crianças ainda não sabem disso e. como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. existe a lei da fidelidade ao literal do texto. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando". conforme . Por exemplo. Diante de tais fatos. Esse tipo de interpretação está equivocado. Na nossa cultura. que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve.

Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. naquelas circunstâncias. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. A lei da . Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto. Assim. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. obrigando-o a ler apenas o literal. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. mas no dialeto padrão. para quem um texto tem de ser lido literalmente. sem se preocupar com os outros aspectos da leitura. O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. diante de um público. ela em geral pune esse tipo de leitor. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado. Porém. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. desde o início. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia.exigência da nossa cultura. É preciso que o professor alfabetizador. Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo).

tornando-se por sua vez uma realização literal. O falante diz um enunciado a seu modo. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através . esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve. Sem o princípio da literalidade. mas também com a sua própria interpretação. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. para quem escreve e quem lê.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico. Contudo. Porém. da mesma forma. a linguagem se perderia num mundo de fantasias.

O professor não deve se preocupar com isso. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. . mas não em outras situações. Os professores devem incentivá-la o mais possível. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. Na vida real. Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. como por exemplo locutores de rádio e de televisão. através de uma leitura especial em voz alta. Algumas vezes. mais propriamente. A escola deveria seguir esse procedimento. para um melhor desempenho. a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. se a leitura estiver sendo feita individualmente. de leitura para um público ouvinte. porque.da fala do leitor (leitura em voz alta). Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. Na nossa cultura. desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se.

simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito. Da mesma forma que o ditado e as notas. Por outro lado... podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola. mesmo na alfabetização. . e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que. Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados. esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores. como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. por exemplo. através do desempenho dos alunos. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. Nesses casos.

lê-lo em voz alta. Alguns professores <319> antigos recomendavam que. depois decorá-lo e. ler acompanhando as palavras (não as letras). O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito. depois. ela repete sem dificuldade. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura. o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando.. como em qualquer atividade de leitura em voz alta. Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto. Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso".letras de música ou poesias. somente então. Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . durante a leitura de um texto. Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos.. para não criar uma pronúncia artificial. Nesse caso. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. basta estudar um pouco e. Já que eles sabem o texto de cor.

Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. tudo estará em ordem. num primeiro momento. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. embora. procedendo daquela forma. A medida que os estudos avançam. A escola.público. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. Isso requer um certo estudo prévio. o professor permitirá que ele leia para a classe. em vez de decorar o texto. Mas. todos os tipos de leitura são da mesma natureza. se não estiverem lendo de maneira correta. ao chegar nesse ponto. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. externamente. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior. Tipos de leitura No fundo. não apresenta problemas de leitura. com o tempo. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e. porém. e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades. assumam características diferentes em . dominando inclusive certa fluência na leitura. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. Simplesmente precisa rá praticá-la e. o aluno deverá preparar a sua leitura.

parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado. para divertir. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. a leitura pode ser informativa. ainda. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê. Com relação à natureza dos textos. etc. ou seja. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . Um terceiro tipo de leitura. Temos. a outros tipos de leitura. como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. Quando se lê num sistema ideográfico. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. pois. Um estudo mais aprofundado levaria. que também já foi apresentado anteriormente. Neste último caso. uma leitura interpretativa. representado. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros. Como vivemos num mundo caótico de escrita. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões.diversas circunstâncias. etc. segundo o modo como cada um o interpreta. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. estudado. Quando se lê num sistema fonográfico.

o uso de rébus. os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro. ao sistema ideográfico. ao sistema fonográfico. refletindo-se sobre um . os sinais. a ortografia. as grifes.muitas maneiras. não raramente. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. Os símbolos. Para muita gente. Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. somente para o aspecto literal do texto. Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. No mundo fora da sala de aula. Infelizmente. a escrita apresenta-se de muitas formas. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento. as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. com freqüência. as letras. até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e. Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. ao sistema fonográfico.

por exemplo. apalpá-lo. no sentido técnico. Esse uso metafórico da leitura. Assim. algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. um dia. etc. "ler as mãos". a palavra POTE. Assim. tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". estudá-lo fisicamente.determinado objeto. no entanto. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para . a linguagem representa o mundo no pensamento e.. Alguém. Para um aluno ler o que está escrito. por essa razão. Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa. saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante. "ler as estrelas". Em decorrência de idéias como essa. não precisa pegar um pote. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa. a não ser no Quênia e em outros países africanos. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa. Isso tudo é um uso da linguagem. e não de um processo de leitura. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua.. um professor não poderia usar a palavra ZEBRA.

Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo. Por isso. Basta alguém explicar o que significa. mais tipicamente. a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto. Porém. geralmente. Num texto. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita. O testemunho é algo de importância essencial na vida humana.aprender a palavra "elefante". os pressupostos. as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. ou. A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. A literatura. não basta detectar apenas os significados literais das palavras. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). tanto quanto as frases. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim. como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem.

desse modo.. ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. ao ver a palavra CASA.. como não sabem exatamente o que estão fazendo. Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. Por exemplo. O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar. quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. e não apenas da escrita). põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala. não sabendo decifrar a escrita.um texto escrito (na verdade. mas. . O professor deve. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. de concatenação ou de compreensão. o aluno diz "kaça" ou "çeaça". Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto. quando são solicitados a ler. seria nas entrelinhas da própria fala. não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. portanto. Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha. outra palavra.

la-ta Esse aluno sabe ler. de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas. às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler. o que resulta. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . etc. linhas de ônibus. como logotipos ou marcas de produtos. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. do contrário eles se acomodam. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. tê-a-tá. Porém. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto.Esse caso é semelhante à leitura incidental. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. não sendo um conhecimento produtivo. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu. por exemplo. como ela não sabe decifrar a escrita. no seguinte: "lêa-lá. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto. Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. Assim como atribuímos palavras às coisas. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades.

porque sua leitura não lhe traz significados. o que impressiona bem o professor. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada. um simples decodificador fonético da escrita. porém. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. apenas sons da fala.descobriu. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. então. Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. O professor. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. nesses casos. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. mesmo curtos. tal aluno não aproveita o que lê. Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas. O leitor é. de . Alunos que apresentam problemas de naturalidade.

pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. ou seja. Alguns professores gostam de promover leituras coletivas. de concatenação. de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. em alguns trechos. Criança gosta de ler textos com ilustrações. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. podem ajudá-la. Porém. há apenas um leitor e. Pode-se fazer isso de vez em quando. pelo contrário. Ler textos com muita. sendo que. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos. vários leitores em coro. especialmente quando a classe não gosta de ler. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si. a leitura de um texto por várias pessoas. Essa prática é muito interessante. Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. não é uma boa estratégia. como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . em outros. enfim. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura.fluência. Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade.

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. sem entrar em considerações específicas.Recife". inclusive uma revisão histórica. Ideografia e leitura Pela própria natureza. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar. Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. Há vários pontos importantes que é preciso considerar. e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. "Sinos de Belém". Assim como o ditado e a cópia. para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. meditar. a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. reviver sentimentos .

a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. que significa "som" -. Portanto. Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). "televisão" significa "algo que se vê longe". Uma leitura literal. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". para explicar a palavra "pluviométrico". a revelação etimológica . podem compreender melhor o uso das palavras na sua época. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica. Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. "chuva" se dizia pluvia e. portanto. nesse caso. etc. procurando recuperar formas e significados antigos. persiste até hoje. no caso da palavra "pluviométrico".fone. Desde os tempos mais antigos. as pessoas cultas discutem o significado das palavras. Assim. dos mais antigos. que inclui outra palavra grega . lembram que. falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. "Telefone". Logo se vê que. embora. tem o significado de "som longe". em latim. em "televisão" e "telefone". que significa "longe". <325> Esse tipo de escrita. Por exemplo. coisas ou fatos que a fotografia evoca. por exemplo. uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar.fortes de patriotismo. Portanto. a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra.

dizendo a origem das palavras que as compõem. Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . Se alguém. Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. nem é conveniente. esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. dificilmente se faria entender. Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe". Porém. fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico. mas não ajuda muito. parece realmente ridículo. mesmo quando faz pouco sentido. e dissesse apenas "algo que se vê longe". para estudar o uso atual das palavras na língua. esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. Fora do mundo escolar. estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos. por um lapso de memória. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e. como no caso de "televisão" e "telefone". muitas vezes.ensina mais grego do que português.

Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. ou seja. são muito importantes. posteriormente. No primeiro caso. O português tem vínculos com essas línguas. mas no segundo sim. mas existe de maneira própria. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese. dentro do contexto legal em que se inserem. Pelo contrário. Essas palavras devem ser entendidas. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. menos ainda grego. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". não há crime.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua. não mais com textos necessariamente antigos. mas não culposo. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. mas devem ser entendidos corretamente. que passou a ser feita. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). Qualquer texto . portanto.

No caso das obras literárias. Porém. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. envolvendo textos literários. por vezes. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época. sobretudo a filosofia. uma espécie de reescritura (sem a arte do autor). não só a especificação de palavras. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos). . pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita. Aqui já não há mais exegese. a interpretação de texto enriquece-se. que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu.passou a servir para um trabalho de análise exegética. ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. Posteriormente. encontram-se. a sociologia e a psicologia. mesmo na interpretação literária moderna. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. os comentários (exegese) abrangem.

portanto. Porém. no segundo caso. geografia. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. física. cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. Naquela época. No primeiro caso. por exemplo. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. sempre. necessariamente criativa e individualizada. necessariamente.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. Nota-se. houve de fato uma interpretação. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. A interpretação de texto deve ser. bem como história e português. química. podiam até vir dadas de antemão no . mas. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários. Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. As respostas.

como reflexões filosóficas. que são explicitadas pelo leitor que interpreta. filosófico. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. Análise do discurso Há. psicológicas. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. nada de opinião pessoal.Manual do Professor. nos livros didáticos e nas aulas de português. por exemplo. Certas análises do discurso. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita. ideológico. etc. . em todas as matérias. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. psicológico. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta. Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. mas uma análise do conteúdo lingüístico. fruto de pesquisas sérias ou não. Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. Obviamente. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. e. Nada de interpretação. ideológicas.. nada de pesquisa individual sobre o assunto. ainda. principalmente.

conversas.). que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. Lingüisticamente. Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação. não as noções filosóficas. etc. morfologia.. . além de estar inserido num contexto (pragmática. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras. A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão. É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. etc. ideológicas.). Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto. etc. etc.psicanalítico. etc. psicológicas. fonologia. como acontece nos diálogos. sociolingüística. debates.

comentários pessoais dos mais diversos tipos.Os pretextos da interpretação de texto Pode-se. frases. etc. ideológicas. extrapolações de natureza filosófica. desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave. argumentativa ou simplesmente estrutural. Porém. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. ideológica. psicológica. pois. lingüística textual e análise da conversação. temas ou assuntos tratados. quando uma delas predomina. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. Em resumo. ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. . análise do discurso de base ideológica. análise exegética. etc.. estudos etimológicos. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. Por outro lado. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras. Por exemplo. mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem.

fácil e óbvio <330> . Se. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. em última análise é tarefa da lingüística. dos lingüistas. tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem. Em outras palavras. por outro lado. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes. Por essa razão. para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere. da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos. Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem. No mundo todo. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. portanto. por um lado. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto.

Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. Isso traz uma nova dimensão ao assunto. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo. supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente.. Na Bíblia. sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. É preciso interpretar um texto? . nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez. e essa é uma atividade tipicamente lingüística. Somente quando surge uma dúvida específica. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes.como andar e comer. isto é. toda descoberta feita pelo homem nas ciências.. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos. colocar as idéias em palavras. Aliás. por exemplo. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto. Caso contrário. essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. Sem esse pressuposto. não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto. Na verdade.

ou pensa que está entendendo errado. ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. seria uma forma de negar a racionalidade do homem. ou visitando um museu. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. por exemplo. No fundo. Quando o interlocutor não entende algo. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa. não. denota que está acontecendo algo de errado. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. miserável e .Ao observar os usos da linguagem. certo tipo de pergunta. a um programa de televisão. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. Em outras situações da vida. quando alguém está assistindo a um filme. conduzindo um assunto. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não. agindo assim. ou mesmo uma quantidade grande delas. no caso anterior. Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. Por mais pobre. notamos que uma pessoa conversa com outra e. Porém. como. Nesse último caso.

isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. depois dos exercícios. Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. ou ainda. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. desprezar. Entender o texto no seu contexto Chegamos. parar. e. se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. Mudando um pouco o contexto. as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder.estúpido que alguém seja. perguntar às vezes pode ofender. uma ofensa. que tipo de bolo ela comeu. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. Por isso. se movimentar. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. que pede para ela dizer quem comeu o bolo. assim. e nenhuma informação nova é solicitada. isso pode até ser respondido. se o texto for oral ou escrito? . sem dúvida. nesse caso. menosprezar e humilhar seu semelhante.

mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . seu ouvinte. um falante de português como ele. Na verdade. <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta.Pelas considerações feitas acima. alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). inserida no mundo. Portanto. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. seja ele oral ou escrito. Vimos também que. agindo assim. as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem. e assim por diante. cada um entende um texto. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido. entende o que foi dito. No entanto. come tem enganos com a linguagem. vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. sem saber explicitar as regras que a regem. que entendem errado o que ouvem. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário". apesar disso.

no sentido literal do que dizem ou ouvem. . a palavra "pé". o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto. inequívoca e completa. Os usos sociais da linguagem. encarregam-se de estabelecer certos limites. para que esta seja um instrumento útil aos homens. aqui. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou".interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. Por interpretação literal. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. A linguagem não é apenas lógica. tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. Um desses limites é a interpretação literal. Portanto. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham. entenda-se o uso comum que se faz das palavras. como alguns gostariam que fosse. falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. porque isso também faz parte das funções da linguagem. Em outras palavras. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. todavia. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações.

Em outras palavras. referencial. de solução duvidosa. de coesão.Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". portanto. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. quer com relação aos usos da linguagem. mas simplesmente associado à palavra "pé". é levar em conta algo que não foi dito. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. mesmo. Para entender o que se lê. Quando o contexto lingüístico não é favorável. o que se ouve ou. sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. mas em contexto muito diferente. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si. significa o que está dito. cada um usa a linguagem segundo . interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou. ou seja. do mundo em que o texto se insere. Pensar em parte do corpo. do jeito que está dito. depois. coerência e. nesse caso. no máximo. para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. uma vez que ela possui esse significa do. Literal. o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. nem pensado.

Isso inclui. a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. Porém. Se fosse diferente. é algo fascinante. avaliar a aprendizagem. Essa avaliação. é preciso entendê-la corretamente. Porém. desafiador e maravilhoso.seu próprio metabolismo intelectual. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. etc. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. como é necessário que o professor faça interpretação de texto. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. história. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . entre outras coisas. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. Do jeito que ela se apresenta. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. sem dúvida alguma. para checar se os alunos entendem o que lêem. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. faz parte das preocupações da escola. Não só faz sentido. geografia. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. se isso é assim. quando se trata de textos científicos. como os de matemática. Ora.

ensinar como estudar esse conteúdo. é simplesmente um exercício idiota ou.de interpretação de texto. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente. Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. mais uma vez. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. Se errar. Por trás dessa discussão. a cronologia histórica. ela precisa cuidar muito . um trabalho leve a outro e assim por diante. as características geográficas. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro. principalmente. um passatempo. mas deve. quando muito. Em outras palavras. Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. e um texto puxe outro. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido.

a partir de coisas velhas que aprende. outras pessoas irão achar que eles são imbecis. falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas. se passar de ano pensando que aprendeu. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los. de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. não necessita fazer uma lista de perguntas. Isso faz parte dos usos da linguagem. <335> . Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. há sempre a possibilidade de enganos. Quando se fala e se ouve.atentamente do modo como os alunos estudam. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e. conseqüentemente. Por isso. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura. Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. Nesse tipo de atividade. Esse é o jogo da linguagem. bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido. falta a reflexão criadora do aluno. pior ainda. no fundo geralmente descabidas.

como vimos. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. é imperativo que outros conhecimentos. além dos detectados no texto. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes. quer para aprender sua natureza lingüística. Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto. O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias. Nesse caso. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. Além disso. Portanto.O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas.

Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. o conto. os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila. esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. esse tipo de texto é o menos recomendável. deve se dizer que esses . Mais uma vez. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos. uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. Resumindo. Ora. como a poesia. que eu saiba. Pior ainda. resolver seus problemas escolares. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios.presumivelmente). a piada. Textos científicos. etc. A formulação de problemas de matemática tem características próprias.

professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação. Por essa razão. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. Então. se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. não pode tomar a iniciativa antes deles. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. E uma prática . Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. é natural que pergunte. O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando. procurando no dicionário ou de outras formas. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. conseqüentemente.

estudo técnico sobre o assunto. que a escola deve cultivar com carinho. é o debate. Determinados assuntos podem ser analisados. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos. diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto. pois. Em lugar disso. <337> e não com todo texto que se lê. o texto representa apenas uma . O professor pode estudar a estrutura de uma piada. notícias de jornal.saudável que deve acompanhar toda leitura. Estamos. observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. Nesse caso. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia. Obviamente. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. etc. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. como cartas. o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. um texto literário pode servir para discutir literatura. Assim.

das idéias em discussão. estranhas conceituações e conclusões falsas. elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. para se . Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. como também. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto. levando em conta o que ouvem e. mas irão. instruções. dessa forma. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola. para estudar. o que causa freqüentemente confusões. apoiar ou rejeitar o que o autor disse. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação. pelo contrário. Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram.

e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias. Aqui também. pensamentos. e não só dos de português e de alfabetização. Esses esquemas devem ser personalizados. e. se divertir. Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. escreve com as próprias . portanto. etc. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. é partir de um texto para fazer outro. cada um faz de seu modo. Em lugar disso. versos. o professor promove a atividade. em cadernos de anotações pessoais. depois. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário.distrair. colecionando <338> esses excertos. descansar. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. etc. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. Uma prática muito usada por alguns professores. seja recontando uma história.

Se os textos forem os de leitura comum. o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. na verdade. Alguns escolhem os textos semelhantes . se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem. Os textos da interpretação de texto Finalmente. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. Na alfabetização. Um professor alfabetizador não precisa. pois ensina as características dos textos. Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. Esse tipo de trabalho é muito recomendável. o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível. a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. como atividade individual.palavras o que se lembrar do que leu. De modo geral. Ou então. especialmente na alfabetização. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico.

Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. vive no mundo da fantasia. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro. tem senso da realidade. quando muito. . a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. Todo o mundo. que são os piores textos já produzidos por alguém. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso. que tratem de coisas sérias. como se costuma dizer. Todo o mundo. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. histórias para boi dormir. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça. à moda dos contos de fada modernos. Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. ridículas ou. Além desse tipo de livros. mesmo os adultos. mesmo as crianças.aos <339> encontrados nas cartilhas. Destes.

Felizmente. hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal. Com isso. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional.A partir de 1964. Apesar dessas facilidades atuais. A salvação não é fazer interpretação de textos. os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. porém. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores. Nos últimos anos. porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. sobretudo nas primeiras séries. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA . Para a escola. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem.

o latim era usado nos documentos oficiais. certamente era falada alguma língua celta e. Havia também o galego. nas escolas. no final da Idade Média. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. adquirindo seu sotaque próprio. nos livros e nos documentos religiosos. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. Durante essa época. hoje território espanhol. Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. Em Portugal. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português. firmando-se inicialmente como dialeto e. falado na Galícia. O povo. O latim foi se fixando nessa colônia. depois. Em Portugal. como língua. no dia-a-dia. sempre pobre e ignorante. além do basco. ao norte de Portugal.A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. uma ou mais línguas iberas. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . na Espanha. O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. Logo depois da expulsão dos árabes. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. antes da chegada dos romanos. entre as pessoas cultas. implantando a cultura latina entre os povos da região.

como sempre. dando a impressão de que a fala não mudou muito. Por outro lado. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. mas que permite um começo de pesquisa. que se tornava notório na escrita. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. Naquela época. lá falava-se o romanesco. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos. tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas.do latim clássico. por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português. se o latim podia ser escrito. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. as pessoas sabiam que. A ortografia. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. Esse é um método não muito seguro. Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. deixando o latim para algumas obras . de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. resiste mais às variações dialetais. uma espécie <342> de latim estropiado. o espanhol. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. que antes era o latim clássico.

na França e sobretudo na Espanha. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. a adaptação das línguas apresentou muitas variações. onde havia centros culturais de grande importância na época. passaram a usar esse sistema para escrever. sobretudo nas relações entre letras e sons. Somente a ortografia iria. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. Esbarrando na variação dialetal. No princípio. misturada com representações ortográficas próprias do latim. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis. tem dito que o documento mais antigo em língua . definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino.científicas. No nosso caso. José Lei te de Vasconcellos. como o português não era latim. revelando uma espécie de transcrição fonética. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. depois.

Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit. Vermúú Ordoniz testes. que é bem curto. Nesse documento. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE.portuguesa. Sancho Diaz testes. Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. Gonsaluus Diaz testes. Stephanus Suariz testes.. Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. contando o descobrimento do Brasil. A ortografia que se vê no texto pode . Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. Menendus Sanchiz testes. ÁMEN. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila". data de 1161. (a letra u é igual à letra V). misturada com o latim da época. Trata-se de um título de venda. AMEN. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil..

mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador. Observe.ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. a palavra "cubertura" escrita com U. Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta". "bramcos". "grosura" e ' escritas com apenas um S. Há ainda fatos de segmentação. "coussa" escrita com SS. e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro. Compare "demtes" com "dentro".. nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. A questão da carta . amdam nuus sem nhuua cubertura. como "os beiços" e "obeiço". Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". entre outras coisas. os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas..

veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. Carolina de Michaelis. Ainda hoje. na história da língua portuguesa. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras. Quanto mais se fazia nesse sentido. Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal. Gonçalves Viana. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado. com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas.não se refere apenas à ortografia em uso na época. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. percebia-se logo que piorava. é gente interessada em mudar a ortografia. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. no final do século passado. Certamente. até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. A comissão .

Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras". O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras. julgando-a. aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. ÇAPATO (sapato). . — contraproducente. Mas ele propunha coisas mais audaciosas. EMQUANTO (enquanto). PAJINA (página). ou ainda: TAM (tão). ELEJER (eleger). a recém-criada Academia Brasileira de Letras. etc. como tenho demonstrado. A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. sob a presidência de Machado de Assis. PROSSIMO (próximo).encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. como escrever FICSO (fixo). recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque.

selvagem. apesar de tudo estabelecido. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo . A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão. por iniciativa do acadêmico Estrada. inoportuna. Silva Ramos. descriteriosa. antiphilosophica. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931. anti-patriotaa. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas. a reforma acabou aprovada com emendas. Em 1929. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. Em 1919. Curiosamente. e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. chegando-se a um acordo em 30/04. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. As reformas da reforma ortográfica Em 1915. da Academia Brasileira de Letras. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. com a participação das duas Academias.

O . recomeçaram as discussões nos dois países. Aprovadas as Instruções (bases ou regras). de 23/02. que foi. que. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa. porém. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. no entanto. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. curiosamente. O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica. também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940. ar quivado. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937. Em 29 de dezembro de 1943. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. entregue em 21/12/1937.projeto de reforma ortográfica. Dada a nova situação. Em 1938. elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. Em 29/01 de 1942. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência. mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias. reunid em Lisboa.

Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário.decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo). Desse modo. em 1955. No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. revogando o decreto-lei 8 285. Por isso. publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. A briga continuava forte fora das Academias. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das . modificando o uso mais comum no Brasil. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. com o de 1943. Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa. modificando bastante o de Portugal.

mas como. como em FACTO. E quem escreve errado.ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. num país como o Brasil. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. as "consoantes mudas". RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. pelo menos do jeito como aconteceu. que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. Deveria ser objeto da educação. Depois de tantas reformas. ACTO. mesmo dos políticos. Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. APTO. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. Na prática. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . Em Portugal. ou seja. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. <347> Como vimos. Dessa forma.

são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. Uma vez feita uma mudança. por exemplo. Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. Y e que. não deveriam ser usadas. aparecem as letras K.decidiram (ou que o cartório registrou). cidades. nesses casos. Do mesmo modo. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. Todavia. de acordo com as normas vigentes. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos. as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia. Nomes próprios de lugares. Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". Assim. também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. Na verdade. etc. de tal modo que na prática nada muda. . REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. haveria outras regras semelhantes. Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. em muitos nomes.

as coisas seriam diferentes. Na verdade. <348> Voltando à regra anterior. 'bs bororó' ' tupinambá' etc. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). Porém. dependendo do contexto. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS.. agora. não há . se tiver de escrever CASAS FEIAS. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ. as coisas são diferentes. por exemplo. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS. dizendo. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural.Indo contra a tradição da língua portuguesa. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. Se for para seguir a pronúncia. Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z. Ora. Porém.. em vez de se escrever apenas CASAS. não um problema geral da língua. Se fosse um carioca. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas. mostrando que.

ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. como alguns fazem. 1994b. e as formas de escrever as palavras. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . Para quem não sabe. etc. seguindo ou não a ortografia. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. QUAZA. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente. mas em escrever QAXA. em geral. o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia. a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. > Nas aulas de português. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. a ortografia tem sempre um papel muito importante.vantagens nas modificações. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara.

São erros insuportáveis. uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Obviamente. Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão.um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. mas infelizmente existe em muitas escolas. de fato. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. Os colegas zombam. Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. Às vezes. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado. Em situação pior estão os próprios alunos. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas. Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu . que denotam um analfabeto (sic!).

se souber essas duas coisas. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso. Na verdade. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. em todas as aulas. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia. Porém. quando tivessem urna dúvida ortográfica. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado. sobretudo nas provas. o que deveria acontecer sempre. As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. inclusive para resolver dúvidas ortográficas. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor.PEÇOA ou BRICPZA. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu. o dicionário até parece um livro proibido. mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário.

era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta. A ortografia seria aprendida depois. Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. Depois. Nesses casos. como parte do desenvolvimento escolar. ou melhor. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava.respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro. sem nenhuma explicação e. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. Certamente. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de . desde que escrevesse. não saía da primeira série. com as novas idéias pedagógicas. Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. sobretudo. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia.

Então. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização. um aluno pode apren . que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido.cuidar da ortografia. No inicio. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos. Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno). sintáticos. Assim. Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. de onde saiu e aonde vai chegar. está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. Tendo ouvido todas essas explicações. criou uma situação de frustração para muitos alunos. sabendo o que e como está aprendendo. o objetivo é apenas escrever. Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. semânticos e textuais. tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito.

aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos. O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. Por outro lado. o aprendizado da leitura.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. Superada a primeira fase. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . é fácil ver como. O que fazer. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. mas também não se pode abandoná-la. vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e. no primeiro ano escolar. Procedendo assim. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. Ele precisa saber como se virar. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. Às vezes. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. porém. que é decisiva. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia. ou seja. o aluno não só aprende a escrever livremente. e o professor não precisa se preocupar.

a respeito do processo de aquisição da linguagem. cometendo erros intoleráveis. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. exigindo um trabalho preliminar de . o professor <352> deverá falar. Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras. Entre outras coisas. se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. da variação lingüística. é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. para fazer transcrição fonética). Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. função e usos dos sistemas de escrita. em particular do nosso. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. da natureza. Portanto. como se mencionou acima. os professores das demais séries têm a mesma obrigação.

38. Finalmente. No caso de alunos preguiçosos. IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . em que série da escola isso estiver acontecendo. o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. para descobrir quais estão com a grafia errada.revisão do aluno. seja o que for. podem ter sobrado três erros. Por exemplo. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia. Como é óbvio em educação. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. em qualquer momento da escolarização. Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. por exemplo. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. Quando um aluno não sabe alguma coisa. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor.

Para neutralizar a variação dialetal. o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. Portanto. se cada um escrevesse do jeito que fala. mas não é tudo. dizendo-a de acordo com seu dialeto. percebe-se logo que. Portanto. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. Nosso sistema usa letras. Fazendo o caminho inverso. a escrita inventou a ortografia. Feito isso. às quais são atribuídos valores fonéticos. A partir da ortografia. <353> Desde os primeiros contatos com a escrita. cada um lê conforme fala. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. Por essa razão. e representá-los na escrita por letras. Esse é o primeiro passo. as vogais e consoantes. as palavras terão . seria o caos. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. Assim. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. o aluno precisa aprender que. podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura.

as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. Às vezes. Como se vê. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia. não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia. Depois de certo tempo. independentemente da maneira como pronunciam as palavras. é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. ele já não se . PORTUGUESA). Depois. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. caso das primeiras atividades de escrita das crianças. é outra. com S (FRANCESA. muitas das explicações que são dadas aos alunos.pronúncias diferentes. porém. é possível elaborar algumas regrinhas. <354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. desde a alfabetização. POBREZA) e as que formam um plural feminino. A verdade. Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos. O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever.

Então. quando necessário. decorando a grafia das palavras. seja em que matéria for. mas de todas as palavras. O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem. Esse tipo de cópia serve apenas para castigar. passar a limpo. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. porque o professor corrige mesmo. não só nas redações escolares da aula de português. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade. Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. . O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. Para que essa prática desse certo.preocupa com a ortografia. A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura.

formas ortográficas paralelas de algumas palavras. desse modo. como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico). Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. etc. 1963. em geral. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. Por exemplo. SOLUÇO e SALUÇO. precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica. Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal). uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER.A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. analisando seu dicionário. ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. > Um ponto importante que os professores. . principalmente de alfabetização. criando. FLECHA e FRECHA. Além disso. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. BALSA e BALÇA.

Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que. Às vezes. Para um professor alfabetizador. sendo praticamente inexistente em outros. À medida que uma palavra se torna mais familiar. a partir da . menos dúvida causará. Assim. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. às vezes ajuda a decidir. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário.Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. Aliás. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA. escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. diante de uma palavra comum. A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. mas não para um aluno já alfabetizado. Para um aluno nas primeiras séries. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. PRINCESA ou PRINCEZA.

"brabuleta" (borboleta). Para ele. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X. a questão da variação dialetal e. É por essa razão que a letra X vem por último. pois. tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. no seu caso. como funcionam. Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema. Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. antes de tudo. Entretanto. o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. nem sempre é difícil ler a letra X. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em . é preciso ter bem clara. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. <356> Para muitos alunos. A ortografia. causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. "nóis fumo dispois" (nós fomos depois). O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. Para um aluno que fala "bardji" (balde). "psicreta" (bicicleta).memória visual. sobretudo.

não dando maior importância do que esse assunto merece e. checar a forma ortográfica das palavras. Por essa razão. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. Como já se disse. Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos. E antes de passar a limpo. quando tivessem de escrever. mas também bons hábitos nos estudos. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas. como se . Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. principalmente. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. o aluno deveria. A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos. que deve começar desde a alfabetização. entre outras coisas. Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos.

sempre que . através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras). explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita. por exemplo. Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras.tem enfatizado ao longo deste livro. <357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos. bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. ou seja. Por outro lado. As considerações a seguir estão organizadas.

E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. Como qualquer letra. mostrando como levantar dados e formular regras. não precisa seguir essa ordem. esse som será escrito com a letra A. identificando-a com o som "a" na fala. pode escrever AMIGA. com a letra A. pode ter outros sons. Depois. na maioria das vezes. Nos quadros aparecem o nome das letras. um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. O professor poderá escrever algumas palavras na lousa. entretanto. quando urna palavra tiver o som de "a".possível. Talvez. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. . são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". O professor. Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala. ela representa o som de "a". Como exemplo. portanto. A seguir. que se verão a seguir Portanto. no início e no meio: ASSADO. terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. segundo a ordem do abecedário. Em seguida.

"ô" e "ó"). início-e-final. a letra A tem um som . na fala. como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. Exemplos: RAPAZ. "é". ATRÁS.O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. de acordo com o dialeto). PÉS ("péis"). pela vogal. HINO. São os casos particulares. Outro caso particular da letra A ocorre quando. HELICE. TOMÁS. tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. ou seja. Por exemplo. Neste caso. etc. ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). outros casos). dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto). etc. HOJE. Quase todas as letras têm outros sons. além do som básico. na fala. HUMILDE. e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). a letra A. Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich"). em sílaba final de palavra oxítona. E e O (com os sons de "ê". PAZ. VEZ ("vêis"). uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). final. A mesma regra vale para as vogais U.

ALTO e AUTO. Por razões semelhantes. Se não houver a formação de ditongo. como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. BALDE. que se torna "kaziskizita". CALDO. ou ainda MURO AMARELO. Outros exemplos: SAL. é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. podemos ver outros exemplos. o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla". ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). variando a vogal: CASA ESQUISITA. por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). Para testar e conferir qual a vogal que cai. Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. RAUI SAUL. TODO O MUNDO ("todumúndu"). Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". a letra A possui o som básico de "a". que é dito "muramarélu". se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. Veja. LAURA. etc. BAÚ. A vogal A pode ser nasalizada. É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). Às vezes. etc. ficando com uma qualidade . às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. MAL. etc."posterior" (de "garganta"). Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente.

como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). Quando uma palavra termina em -RAM. CAMADA. a letra A será sempre nasalizada. no dialeto padrão. Som nasalizado: ANA. a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. ou numa fala bem informal. em muitos dialetos. por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). como mostram os seguintes exemplos. CAMPO. tem sempre um som nasalizado. mas. AMA. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". CÂNFORA. como em: ANTÔNIO. CAMA. Se for átona. CANA. embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". AMOR. a letra A pode ter o som nasalizado ou não. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). CANTIGA. TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". AMADEU. cujo som do primeiro A é oral. quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. caso dos verbos. e a vogal é tônica. caso da palavra ANA — compare com ASA. ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). sabe-se que deverá ser escrito com a letra A. Na verdade. etc. Som nasalizado ou não: ANÃO.vocálica diferente. Na leitura. CANAVIAL. Quando a letra A vem antes de NH. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante. . Portanto. a pronúncia é "rãu".

um aluno que fale um tipo de variação . Compare: ACHARAM e ACHARÃO. tem de saber a ortografia de palavra por palavra. são de grande utilidade no . estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). Note que. Esses casos podem ser explicados e. em grande parte. no segundo caso.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). VIRAM e VIRÃO. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação. IRMÃO. na escrita. Porém.trabalho de decifração. LIMÃO. Geralmente.derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. os valores fonéticos letra A. pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. nesses casos. No primeiro caso. Os exemplos apresentados anteriormente revelam. Além disso. etc. SABÃO. ainda. Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. Por exemplo. ou. uma vez aprendidos. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. e. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar.

fica tudo mais fácil. Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o . e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia. terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico. No próprio dicionário. não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons. Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala. como em: BÊBEDO e BÊBADO. encontramos registro desse tipo de dificuldade. Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. etc. ADESPOIS (depois).único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE.CANFUSO (confuso). SEJE (seja). ao buscar as formas ortográficas. chegando-se às mesmas regras. ILUMINAR e ALUMIAR. Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual.lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. . foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. quando se trata de variação dialetal. Para esses casos.

é possível que a seguinte também comece por "a". 2. Nesses casos. Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. é preciso fazer uma averiguação para saber se. na escrita haverá o artigo. "ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. o significado é "lavou a casa inteira". Para representar o som de "a" ou de "ã". pronunciando as palavras isoladamente. é preciso analisar as palavras isoladamente. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". Para saber como escrever. recebe til. deve-se escrever a letra A. numa faia pausada. por exemplo. cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. fazendo as seguintes afirmações: 1.que se escreve com a letra i. a primeira palavra é "minha" e termina em "a". Assim: em "minhamiga". sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. não haverá . 3. intercalando outra palavra entre essas duas. então. podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. Se o significado for "lavou casas que existem". em exemplos como: "élalavôtodakaza". "kãneta" = CANETA. Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. Às vezes. o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". Exemplos: "batata" BATATA. esse é um problema para quem escreve em português.

mas a uma criança em particular (cada criança). neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. etc. Com já foi dito. "kachu" (CACHO). "çê" Note que no caso de consoante. porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A. "kê". precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante.artigo. como: "istuçérvipratodacriãça". Assim "çê". é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X. Em algumas palavras. a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. Há raras exceções. escreve-se apenas A. Se essa frase não se referisse às crianças em geral. etc. a qual. deve-se escrever AI e não apenas A. Palavras como "machu" (MA CHO). introduzida na língua portuguesa). sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". mas. Nas outras palavras. <361> 4. 5. O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . são. zê". não são escritas com AI. Num outro caso. a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA. etc. "k". de fato. mas não em todas. apenas "ç". para saber isso. "a". porém. quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê". Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira.

etc. como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO. Em qualquer dos dois casos. LATÃO. Encontrando a escrita NH.em casos de diminutivos. 7. mas apenas ZERO. ALEMÃES. BÃÜ. "fizérú" e "fizéru". Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". 6. etc. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". Nas formas verbais do tempo passado. como CÃOZINHO. "zéru" não vai ser escrito ZERAM. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. 8. CHEGUEMO) e . ADISPOIS. podese saber que na escrita teremos -RAM. Estudando essas variações. etc. nos demais casos. 9.). CORAÇÃO. mas representadas apenas pela letra A. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. MECADTO. Em palavras como "mãinh "alemãinhs". Diante do som de "u". Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita. ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos. ou com ÃO. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA. Portanto. escreve-se apenas a letra A. Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. SÃO).

BOM. ainda. no início da alfabetização. quando estão aprendendo. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. envolve várias dificuldades. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. Às vezes. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não. somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos.outra. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. Mostra. Pior ainda é o fato de as crianças. MERCADJNHO. Os alunos. estão defrontando todas essas dificuldades. que o preço pago por essa medida traz. em outros dialetos (BORBOLETA. O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. como conseqüência. e o professor precisa saber disso. Esse tipo de análise revela. A análise acima mostra como a letra A. Nesses casos. mas nem sempre. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. . DEPOIS. ainda. CHEGAMOS).

como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei"). IGNORAR ("iguinorar") . ela é pronunciada "bi". SUBMARINO ("çubimarinu"). C. e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T. Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. TÉCNICA ("tékinica"). ele não irá ensinar tudo isso. F. na fala comum e informal. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. etc. etc. Exemplos: BOLA. RITMO ("ritimu"). ponto por ponto. ADVOGADO ("adivo gadu"). O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade. Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. Certamente. M. decifrar a escrita e analisar a fala. BARCO. ele pode ensinar a seus alunos como ler. CABELO. ABSOLUTO ("abiçolutu"). AFTA ("áfita"). <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. como em: OBJETO ("obijétu"). um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. D. G. Na verdade. para achar a letra correspondente à escrita.

T/D. Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas. escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. Por exemplo. Por essa razão. F/\ S/Z. etc. etc. Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. CH/J). Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem.MNEMÔNICO ("minemônicu"). CAPELO (cabelo). MENINO e não MNINO. . Exercícios com pares mínimos (tais como. Nesses casos. encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial. fala-se "trabeçêru". PATATA (batata). BULA/PULA. mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA. Em certos dialetos. Só se sabe quando colocar B ou não. o aluno é levado a escrever POLA (bola). como vimos antes. têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. "pçicréta". podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes). quando se aprende a ortografia dessas palavras. ADIVINHAR e não ADVINHAR. o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". FACA! VACA). C/G. Nos dicionários. e o aluno precisa aprender palavra por palavra.

<363> dados pelos próprios alunos. é preciso estudar como se decifra a letra B.). bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. No segundo. discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. de fato. ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. O que vale é a bagagem de informação que se . com base em sugestões orientadas por ele. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU. que admite 'pineu" ou "peneu". 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". com o tempo. "vaca". e isso o ajuda em muito a aprender. mas deve escrever de outro."faca" e não "batata". No primeiro caso. O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos. e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons. quando precede I ou E. e por "g" nos demais casos. como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. formulando as regras com os alunos. etc.

um aluno pode estar pensando em outra. Resumindo. etc. . CÉLEBRE e CIDADE. como em CEBOLA. A. dependendo da vogal que vier depois. Portanto. o professor explicará que usamos as letras QU. pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". O e U. Diante das outras três vogais. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal. COLAR e CUIDADO. o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. observando o que acontece no início de palavra. que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A.revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. Assim. Quando o professor ensina uma coisa. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. caso de CARA. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. a letra C tem o som de "kê". Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I. AQUELE. Exemplos: QUERO. QUILO. O e U. Para explicar o que são vogais e consoantes.

Como uma coisa puxa outra. no entanto. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça". O ou U. Essa letra.A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. SOBRADO e SUBIDA. quando em início de palavras. que aparece diante de qualquer vogal. A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. uma vez que. partindo da escrita. tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. Se alguém. é fácil ler essas letras. como SAPO. "ço" e "çu". terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). .

tem sempre o som de "çê" (mais vogal). A seguir. apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto. Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som .

"kê" + "i" ou "chê". Analisando detalhadamente os dados apresentados acima. a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê". chegamos às seguintes regras: .C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. "kê".

No último caso. Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. independentemente da letra que vier antes. quando não seguida por vogal na escrita. O ou U. desde que a consoante não seja R ou L. em vez de "a"). O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. 2. 3. os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". Com a nova pronúncia. 4. pode também ter o som de "kê" + "i". pode ser "naç". o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —. no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". com ou sem a . "naiç" ou "naich". ou seja. além de influenciar na leitura da vogal anterior.1. O SC tinha apenas o som de "çê". passa a ter o som de "chê". em final de enunciado diante de pausa. A leitura de NAS. só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. Quando a letra C tem o som de "kê". Em alguns dialetos. "ki". de uma outra consoante ou no final de palavra. que se tornou um ditongo ("ai". A letra C tem o som de "kê" quando diante de A. se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer". em outros. A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. No caso de C. 5.

porque a letra S também pode ser . Isso pode gerar confusões. além da letra C. de <365> "çê". Por essa razão. "çubir". em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE. desde que venha antes das letras E ou I. A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C. Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. a letra S também representa o som. Portanto. palavras como CEBOLA e CIDADE. Desse modo. O ou U). deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos. palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. "eç-çe-çãu". A questão da escrita. que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. Na verdade. obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida. no entanto. Nesses casos.' o sistema manda usar a letra 5. Uma palavra como "çapu". não pode ser escrita com a letra C. "eich-çeçãu". apresenta dificuldades. "çopa". principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C.ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C.

se NASCER é com SC. e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO). como em SINO e SELO. a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). NASCIMENTO também será com SC. SS. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). em casos semelhantes. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. Somente conhecendo ortografia. mas que tem ortografias diferentes para cada significado. SÇ e XÇ. I o caso de "paçu". Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras. Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a". Se escrevemos PRÓXIMO com X.usada diante da vogal I e E. uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. Às vezes temos uma palavra homófona. Assim. iremos escrever PROXIMIDADE também com X. em início ou final de sílaba. XC. X. pode ajudar a . O critério semântico. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. Em NASÇA. Se existe a grafia EXCEÇÃO. "pa-çu" PASSO ou PAÇO. "na-ça" NASÇA. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. "pró-çi mu" PRÓXIMO. 2. Ç. Esse é um procedimento comum.

Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. ou seja. Como vimos antes. etc. como nas palavras: "kuidado" CUIDADO.encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. "koiza" COISA. a única saída é o Q. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. para escrever os sons de "ki". O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. "biç-pu" BISPO. "fiç" FIZ. "atraiç" ATRÁS. Exemplos: "kãma" CAMA. "kê" QUE e "kéru" QUERO. 3. Nesses exemplos. 4. "kê" e "ké". O ou U. vamos estudar esse caso agora. quando se pronuncia o U. "kuçtumi" COSTUME. Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. como não se pode usar a letra C. Como a letra C também pode ter o som de "kê". "çekuéla" SEQÜELA. quando vem antes de A. em final de palavra. A letra Q tem o som de "kê" sempre. em qualquer caso. "rrapaiç" RAPAZ. diante de vogais que não sejam 1 nem E. só o conhecimento da ortografia pode dizer se . podendo ocorrer também em final de palavras. Aqui também. Essa letra U não é pronunciada. como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. "tauveiç" TALVEZ. como nos exemplos: "kis" QUIS. "kuéka" CUECA. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q. Porém.

como em: "tik-tak" ou "tiki-taki". 6. Nesses exemplos. completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i". 1993ª. "krônika" CRÔNICA. É o caso de tic-tac e tique-taque. só se pode escre ver a letra C. dependendo do artista. Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). Exemplos: "klareza" CLAREZA. 5. Nas formas QUE e QUI. quando a letra U deve ser pronunciada. nunca a letra Q.ocorre uma letra ou outra. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. ela é escrita com trema (Ü). Ver CAGLIARI. como em: "akni" ou "akini" ACNE. que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita. há uma vogal em seguida. O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". Nesse caso. caso em que pode haver uma variação. etc. Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. <366> . etc. "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. Nas histórias em quadrinhos. algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial.

Essa letra não tem outro som a não ser esse. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10. não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. diante de pausa ou silêncio. Porém. Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. Como vimos no estudo da letra A. quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê". como à letra X. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. sobretudo se não for nome próprio. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . junto com outra palavra que começa com o som de vogal. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO).7. 8. 9. esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. servindo apenas para os nomes próprios. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. ficando com o valor fonético de "zê". este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). De modo geral.

para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta. Mas não há apenas problemas de concordância. QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba.enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. e a outra é mais própria da leitura. Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). sendo seguido de "i". então. a letra C não tem o som de "kê". observando a própria fala. o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. mas podem formar uma sílaba própria. CI (QUE). como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka"). como. quando se parte da observa ç cia fala. . O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. CERIDO (QUERIDO). etc. do que quem fala "kualidadji" 11. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). estas grafias: ACELI (AQUELE). Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia. Outra dificuldade é a troca de QU por C. que serão indicados por S na escrita. Como esta última é mais comum na fala. Aparecem.

mas FIQUEM. FIXE. VAQUEIRO. Veja os seguintes exemplos: VACA. "çin-ta-kçi" . em palavras derivadas.como QUATORZE e CATORZE. Nesses casos. se a escrita mantivesse a letra C. Mas. COLOCA. TORAX. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO). a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. o que não é o caso na alfabetização. TOCO. Por isso. Para manter o som de "kê". em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê".ki-çi". o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra.kçi" ou "fi-ki-çi". Nesses dois exemplos. etc. escreve-se com X: TAXI. mas COLOQUEMOS. embora pouco usuais. mas TOQUINHO. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. no caso da primeira. FIQUEÇO em vez de FIXO. é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita. isso é para quem já tem muita fluência na escrita. "fi-. Todavia. Uma questão relacionada com os últimos exemplos. FICAR. Nesses casos. no caso da segunda palavra. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". QUOTA e COTA. etc. COLOCO. TAQUE-SE. etc. mas um pouco diferente. A partir da observação da fala. 12. COLOQUEM. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê". 13. quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E.

Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. "çin-ta-çi". Quem decide se vai ser C ou 5. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A. como em PASSO. nesses casos. em vez de outras alternativas. como em PRÓXIMO. O som de "çê". Sempre que o som representar o plural de uma palavra. a questão é bem complicada. é a ortografia. quando se trata de passar da fala para a escrita. Além disso. EXTRA. basta ver que vogal vem depois. com S. O e U. com a letra S (seguida de qualquer vogal). Mas.. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante. a dificuldade real fica . Em final de palavras. MÊS. o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z. não poderá ocorrer a escrita da letra Z.. a escrita será com 5 e não Z. então. FEZ. nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. como em BASTA. como em MOÇA. pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. RAPAZ. etc. quando a palavra não for oxítona. Portanto.(SINTAXE). como atestam os seguintes exemplos: CASAS. revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". etc. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. <367> Resumindo os principais pontos. em vez de "pró-çi mu". em início de palavras. com Ç. No meio de palavra. Não adianta ficar observando a fala. com X.

Quando aparecer. na escrita. "ó". como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka".restrita às palavras oxítonas e singulares. a criança vai assimilando a ortografia. temse na escrita a letra C (ca. com o tempo. LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. A confusão é esperada e. Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". no início. seguido do som "u" e depois o som "a". a letra U se pronuncia (nesses casos. A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. cu). E vice-versa. A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. "ô". a escrita será sempre com S. QU seguido de A ou O. ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. a escrita quase sempre será feita com QU. a escrita usará as letras QU (que. Nos demais casos. co. Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". qui). É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. Com relação ao som de "kê" da letra C. Alguns alunos. É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. "ko" e "ku". em meio de palavras. não tem trema). escrevem CE em vez de QUE. quando na fala ocorrer o som de "kê". e ocorre diante do grupo .

song. Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. ACONTE CE e ACONTEÇA. Por exemplo. mas algumas delas têm uso muito freqüente. MOÇO. nunca no início ou no fim. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. CAÇA. O e U e nunca diante de E e I. AÇUDE. depois das vogais "u". Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. O ou U. Poucas palavras. "õ" e 'à". como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê". NASCIMENTO e NASÇO. etc. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. "oünça" (ONÇA). ONÇA. AÇO. FAZEMOS. FAÇO. <368> ESTUDO DA LETRA D . POÇO. A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. ou em final de sílabas. ainda. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. AÇUCAR. FAÇA. king. sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). etc. etc. as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. são escritas com essa letra. MAÇÃ. Portanto. PEÇO. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. o seguinte exemplo: FAZER. "lãn" (LÃ). Observe. CALÇADA. a ortografia recorreu à letra Ç.das vogais A. FAÇO. na língua portuguesa. Nesse caso.

DIJVIDA ("dúvida"). esse caso na verdade é muito simples.A letra D tem o nome de dê. e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. DEDO. . continuando com o som de "tê". PODE ("pódji"). RITMO ("ritchimu"). Em outros dialetos. POTE ("pótchi"). Confira os exemplos: DIA ("djia"). POTE ("pótchi"). num tipo de dialeto. em outro tipo. mas PATO ("patu"). Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). Para ler o D. Fato semelhante ocorre com a letra T. DÚZIA. etc. DOCE ("dôçi"). PODE ( "pódi"). representa o som de "tchi". POTE ("póti"). o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). etc. POÇO ("pôçu"). há uma regrinha que diz que diante do som de "i". quando ocorre antes da vogal "i". que. DOCE. a letra D permanece com o som de "dê". DEDO ( "dêdu"). Apesar da aparência complicada. Diante de outras vogais. em alguns dialetos. a letra D passa a ter o som de "dj". DOCE ( "dôci") e assim por diante. sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). etc. Portanto. Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji". e não causa problemas aos alunos. Exemplos: DATA. sempre que se encontrar a letra D. PATO ("patu") POÇO ("pôçu"). mas DEDO ("dêdu"). DIZER. — e. nos demais casos — TIA ("tchia"). etc.

Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". quando se dizem os nomes das vogais. mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. Quando se decifra uma palavra. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". a letra "djê". tem o nome de ê e. como falante nativo. A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem. Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra. .tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj". tem o nome de é. PERTO ("pértu"). Exemplos: DELE ("dêli"). uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. Como falante nativo. é preciso conhecer a palavra. E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio". se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. e não achava. no alfabeto. descobre-se aos poucos sua pronúncia. DELA ("dela"). "ê" e "é". e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua. MESA ("mesa"). porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. que pronunciava "idjo". ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. Assim.

Explicará o que for necessário. porém. o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. para facilitar a leitura. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa. No primeiro semestre.portanto. ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. ATÉ. Por exemplo. a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . Na verdade. é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). EU ERRO NOS ACENTOS ("érru"). tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. etc. precisará saber quando colocar os acentos. O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. Mas. Às vezes. Ao escrever. ACADÊMICO ("ê"). o professor pode ignorar o assunto. INTRÉPIDO ("ê"). Nesses casos. Quando se escreve. Às vezes. não se sabe se é "êrru" ou "érru". quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente. se algum aluno perguntar. dentro de uma frase. Por exemplo: VÊ. a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra.

Para a . fechada ("ê". diz. aparecem as vogais orais "i". Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua. ENFEITE ("ifeiti"). "u" e "a". também em sílabas átonas. em outros dialetos. em alguns dialetos (por exemplo. a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). "u"). Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é". A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. "ê". a pronúncia é "mêninu". "ó"). "ô" e "u". as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura. no baiano). Em posição pré-tônica. Em sílabas átonas. Eles dizem. Porém. De modo geral. "méninu" (MENINO). em geral. "a". é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". etc. Nas sílabas átonas. "ô") ou reduzida ("i".marca de acento na escrita. por exemplo. Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). Todavia. Hoje. em posição pós-tônica. que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. encontram-se apenas as vogais orais "i". ao passo que.se "êrói" e não "irói" para HERÓI. na fala.

O aluno não está aprendendo errado. etc. Conforme as . que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. TENHO. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. às vezes. O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM. o problema é sério. HÍFEN. etc. Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. Em seguida. ENTRADA. TEM. ENCONTRO. um aluno escreve DICI e o professor explica que. Por exemplo. EMBORA. Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). essa questão traz pouca dificuldade. para a escrita. por exemplo. ENTRA. mas. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante.leitura. E isso ele fez muito bem. mas deve escrever E: DISSE. que aprendeu a lição (até aí). escreve MÉDECO em vez de MÉDICO. ela adquire um som nasalizado. a gente fala "i". Nesses casos. o aluno. ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis"). O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos.

Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra"). EMBORA ("êimbóra"). ou mesmo em distingui-lo do "vê". também a letra E. FIQUE. FEITO. FOCA. mesmo nasalizada. Em certos dialetos. algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê. Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). pode ser pronunciada sem o I. FUMAÇA. quando seguida de I. DESDÉM ("dezdêi"). seguida de I. às .). Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). PEIXE ("peichi" ou "pêchi").regras vistas anteriormente. o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes. Encontrando-se esse som na fala. quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). como em ITEM ("itêi"). etc. mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e. Tal qual a letra A. Exemplos: FACA. CONFIAR. nê. etc. usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome. PENTE ("pêinti").

o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa. O e U. Essas confusões se corrigem com a prática. tem também outro som muito comum.quando diante do grupo de vogais A. quando diante do grupo de vogais E e I.zes. A letra G. "vê". (FACA = VACA. tem o som de "guê".no latim).tem o som de "jê" e. ANDRE MORA NA FAFELA. FAFELA = FAVELA). FEIO = VEIO. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. A letra G. que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". A questão não é fonética. ELE FEIO AQUI. como se constata nos seguintes exemplos: . MARIA COMPROU UMA VIFELA. VIFELA = FIVELA. contudo. Quando sussurram. em vez de falar em voz alta. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta. mas dialetal e ortográfica.

Z. e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. ÁGUIA. Quando se pronuncia o "i". No caso da letra G. R. visto no estudo da letra C. GIRASSOL ("jiraçóu"). seguidos das vogais E ou I. pronuncia-se também oU. etc. Porém. seguido de E ou de I. o . GUIAR. Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". Ela simplesmente modifica o valor da letra G. FOGUEIRA. se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. o caso acima é semelhante ao da letra Q. AGUA. GOTA. GULA (com som de "guê"). Quando não se pronuncia o "i". tem-se uma sílaba a mais na palavra.GENTE ('jênti"). Exemplos: GUERRA. quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar"). Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver. como em SAGÜI ("sagui"). (todos com som de "guê" ou de "gui"). A letra U. basta acrescentar um U entre o G e a vogal. como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. mas. EXÍGUO. que. GATO. nesses casos. veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). Note que há casos em que ocorre G + U. CONTIGUO. não é pronunciada. M e X em alguns casos em meio de palavra). ou no final de palavra (exceto com S. AGÜENTAR ("aguéntar"). Para escrever o som de "guê".

GUI (ou QUE. ora se tem G. "Como é que se escreve tal palavra. JANELA. JUIZ. JOVEM. ora GU. cometem esses enganos . mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem. descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). o U não será pronunciado. Se não aparecer trema nas escritas GUE. não por dificuldades auditivas. como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita. mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. FOGO/FOGUEIRA. QUI). HOJE. AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA.som "g" fica no final da sílaba que o precede. JILÓ. GIRAR. para manter o valor fonético original da palavra ("guê"). Mais raramente.

HORA No entanto. UNHA. CHAVE. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. no nosso sistema de escrita. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). Quase sempre.por dificuldades de reconhecimento fonético. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. funciona como uma espécie de curinga. como também o que não se pode fazer. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. ILHA. como em AMICO em vez de AMIGO. há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. e acabam escrevendo. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. Nesses casos. como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. Exemplos: HOMEM. servindo para modificar o valor fonético da . Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. A letra H. HERA. Na língua portuguesa. Por exemplo. essa letra serve para formar dígrafos. MANGA e MANGUEIRA.

etc. e mais raramente a letra X. como CH. comparando-os com os das letras simples. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. FICA/FICHA. Na escrita da língua portuguesa. Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal. N e L. HELENA. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. A letra H. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). Esse emprego do curinga H.letra que a precede. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. não forma dígrafos e não apresenta. sem alterar o alfabeto. 372 Em palavras de origem estrangeira. HINO. HUMILDE. SONO/SONHO. pois. Quando a letra H vem no início de palavras. NH e LH. formando dígrafos. a solução encontrada foi criar dígrafos. HORA. como uma estratégia para não inventar letras novas. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. a letra H pode vir precedida por C. como se vê em: HABITAÇÃO. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. a leitura começará na letra imediatamente seguinte. etc. através de pares mínimos: MALA/MALHA. som algum. são usadas para modificar o valor do som anterior. Em conseqüência. sobretudo em nomes .

é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. escrevemos ERVA e HERBICIDA. dá até para saber se haverá H ou não. Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). por exemplo. mas temos de escrever HISPÂNICO. YAMAHA ("iamarra"). Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer. Com o tempo. dependendo do significado da palavra. HAJA e AJA. Para ilustrar esse fato. irão fixando a grafia das palavras mais comuns. fazem coisas como: HRA (AGORA). etc. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda"). Em alguns poucos casos. quando vão escrever (e mais raramente ler). etc. mas deve explicá-las aos alunos. etc. ou. Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia . pensam que a letra H funciona como as demais e. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". HLÏA (GALINHA). Note. como ocorre em HORA e ORA. Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). que escrevemos ESPANHA. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. Alguns alunos.próprios. ainda.

ainda. O professor deverá. As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal. Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". mas controlada pela ortografia. ter paciência com os erros dos alunos. partindo da fala. Há. existe uma dificuldade extra na escrita. e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos. Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos. o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. e pedir a eles que corrijam o material que escreverem. O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". Com relação ao CH. pois.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. etc. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. Portanto. . saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. FAMÍLIA ("família" ou "familha"). Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. Nesses casos. na qual a ortografia se baseia. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente.

o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA). ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. na verdade. "ifiar" ENFIAR. A letra I não apresenta dificuldades para leitura.Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. CINEMA. por exemplo. podendo. Eles o resolvem facilmente. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. ser escrito com a letra E. representa pouco para os alunos. fica difícil saber a ortografia. "pichta" (PISTA). mas o mesmo não acontece com a escrita. "rrapaich" (RAPAZ). Como acontece com as demais vogais. Não há como . Esse problema. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. VINHO. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias. às vezes. da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. ora com I. etc. atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura. por causa do medo de errar. VIM. CIDADE. Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i". Essa variação pode. Veja os exemplos: VI. que ora se escrevem com E. escrevendo T e não TX ou TCH. CINTO.

. etc. E). em palavras como "opitei" OPTEI. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção. como LOIRO e LOURO. BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). pode existir uma vogal "i" na fala. . quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. • El) e outra sem o ditongo (A. DOURADO e DOIRADO. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. "bãinha" BANHA. COISA e COUSA. etc.ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las. Como já foi visto. etc. nenhum problema. "obijétu" OBJETO. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. Por exemplo. como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. uma com um ditongo (M. Além da dificuldade específica dessas palavras. portanto. Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. o aluno escreve PEIRA. Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. porém não na escrita. em vez de escrever PÊRA.

ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. palavras de origem estrangeira. sobretudo nomes próprios. etc. Essa letra caiu em desuso já no latim. o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. JOGADOR. ajuda muito o aluno na hora de escrever. como em DIA ("djia"). Diante dos sons de "ê". A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal. BODE ("bódji"). podem ser escritas com . pode-se ter a letra J ou G. na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. Sempre que a letra J aparecei. dependendo da ortografia. Esse fato. para escrever o som de "jê" seguido de "a". ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê". deve rá ser escrito com a letra D apenas. Portanto. "é" e "i". formando o "djê". JEITO. Como algumas línguas usam essa letra. etc. "ó". Saber isso. JIBÓIA. mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. aparentemente simples. O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê". Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais. JUVENTUDE. "ô" e "u". o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS.

O ensino. LIGA ("liga"). No segundo caso. sempre antes de vogal. Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. tem também o som de "u' Exemplos: LATA. LETRA ("letra"). Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. LIVRO. por exemplo: LATA ("lata"). No primeiro caso. sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra. Alguns exemplos: Kwait. A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). . kg. PIANO ("plãnu"). seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. CLASSE ("klaçi"). CLARO. Veja os exemplos: PLANTA. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal.F e V . 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas. LOGO ("lógu"). D. do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios. G (com o som de "guê").Nesses casos. ATLÂNTICO. como. GLORIA. MAL. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba. e c) em final de sílaba. SOL. km. PROBLEMA. CLARO. T. FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L. tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza"). a letra L tem o som básico de "lê».ela. C (com o som de "kê"). B.

POUPA. TERRÍVEL. PAPEL. pois. CÉU. CAUSA. as palavras emergem automaticamente. é fácil ler. a não ser DLIN-DLON. também com o som de "u". MEL ("méu"). o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra. não ocorrendo. tem o som de "u". e como. Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. a formação de ditongo. VLADIMIR e pouquíssimas outras). usando L ou U São palavras homófonas. Compare as seguintes palavras: CALDA. Partindo da fala para a escrita. como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente. "çal" (SAL ). VÉU. como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . não existem palavras com essas ocorrências. e assim o aluno consegue dizer o que está escrito. Em alguns dialetos do Sul do Brasil. como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). MEL. A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. SAL. POLPA. no mesmo contexto do L. SUL ("çuu"). SAL ("çau"). Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas. Nesses dialetos. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. SAUDADE."funil" (FUNIL) "mél" (MEL).porém. as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). No terceiro caso. CHAPÉU. pode ocorrer a letra U. encontramos um problema sério para os alunos. FUNIL ("funiu").

o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. como em outros casos. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. Por exemplo. "pobri" (POBRE) e assim por diante. etc. Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema. reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. "bardji" (BALDE).. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA). "pobrema" (PROBLEMA). "barcu" (BARCO). na alfabetização. É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras. acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala. Ao escrever. ao lado de palavras como "prato" (PRATO). uma formada por ALTO e outra.próprio'). sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . aliás. O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever. Os alunos. podem ir escrevendo do mesmo modo. O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. fazendo. por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L.

No primeiro caso. em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . observe o fenômeno de juntura intervocabular. a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh").375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. representa o som básico da letra. CAMELO. MURO. depois da vogal nasalizada "ii". O som que aparece no meio. como dizem alguns professo. ALGUM ("augú" ou "augürJ"). quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. res. como. e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). MORAR. etc. EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra"). Nos dialetos em que o nome da letra é mê. uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). 1 A letra M tem duas funções distintas. entre "e" e "i". em: MAR. a letra M representa a nasalização da vogal precedente. o princípio acrofônico fica mais evidente. ou um som consonantal velar ("13 »)8. COMIDA. uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. No segundo caso. por exemplo. Além disso. depois da vogal nasalizada "i". a letra M tem o som básico de "mê". Veja os exemplos. BOM ("bõu" ou "bõuij").

Nos verbos. Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu"). diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. a letra M pode ter o som de "mê". como HÍFEN. a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A. em fmal de sílaba. Raras palavras serão escritas com N em vez de M. além dos casos contemplados acima. quando ocorre o som do "mê". Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. LIMPO ("limpu" ou "lipu"). TEMPO ("témpu" ou "têpu"). haverá sempre a mudança de qualidade. diante de consoante no início da sílaba seguinte. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. ÓRFÃ. PÓLEN. etc. . as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. sem a ocorrência da con soante nasal M. Às vezes. como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. Nesse caso. Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. SÊMEN. etc. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades. As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. com ou sem a sobreposição da nasalização). as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). etc.("véi-nha-qui"). CORAÇÕES. CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. ANÕES.

ENVELOPE. no meio de palavras. Essa . etc. a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. 8 o som Fiji. o aluno a decidir sobre a escrita. o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal. Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente. é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. em muitos casos.Estudar a estrutura de contextos. seguido ou não do S do plural. e N diante das demais consoantes. ver explicaçáo na página 368. ou seja. Quando aparecer o som de "mê". INFELIZ. Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. BOMBA. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. CONSUMIR. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. usase a letra M. Exemplos: CAMPO. CANTO. antes de consoante. Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra.

A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. "tãmbëinh" (TAMBÉM). Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). MÃE. NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização. é escrita sem consoante nasal ou til. O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). sempre que houver uma vogal nasalizada.pronúncia é muito evidente. porque assim foi fixada sua grafia. mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. . Por fim. ANÕES. no seu nome. Nos dialetos em que o nome da letra é nê. Deve ficar claro para o aluno que. não para todas. PÕES. porém.. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. por exemplo. Seu som básico é o que está intercalado. etc. que essa regra serve apenas para algumas palavras. as grafias de MÃE. como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. MAES. deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. BALÃO. CIDADÃOS. que é o til. Exem plos: IRMÃ. PÕEM. BALÕES. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente. CIDADÃO. apesar da nasalização do ditongo "ui". Note. etc. N. Veja. ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. IRMÃS. PÕE. entre o "é" e o "i". "sõurj" (SOM). lembre que a palavra "muitu".

Quando se parte da fala para a escrita. vale a regra segundo a qual. por exemplo. como em: NIVEL. ANDO. como nos seguintes exemplos: CANTO. ONÇA ("õuça" ou "ourJça"). a letra N pode representar.Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. Lembre que. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). não tendo outro som. etc. REDONDO. SINTO. A letra N será raramente . na fala. NADA. NOTA. NUCA. pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". ENQUADRAR ("irjkuadrar"). Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). no interior de palavra. MANGA ("mãrjga"). Em falas muito enfáticas. no final de sílaba. JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). Diante de outras consoantes. NETO. será usada a letra N. depois de "i" ou de "e" nasalizados. em: BANCO ("bãrjku"). etc. no interior de palavra. a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. "õ" e "á ". Z. uma consoante nasal velar (rj) como. G (com o som de "guê") ou QU. Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. e depois de "ã". L. R. como mostram os últimos exemplos. V S. só ocorre a nasalização da vogal precedente. Diante das consoantes oclusivas velares. sempre que for detectado o som de "nê". Ç. pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". como F. ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar"). em final de sílaba. sem a presença da consoante nasal.

R. E. para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. I. a decisão é fácil. a letra M só será escrita diante das letras P e B. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). No meio de palavra. CONQUISTA. CINCO. TRANÇA. Z. C. ENZIMA. L. O. \' 5. 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. Ç. D. em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. ENXADA. Tal som não ocorre em início de palavra. HON RA. Q. ENVIAR. Exemplos: SANTO. U . diante de T. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). TRANSPORTAR. ENLAMEAR. e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante). CONFIAR. ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. F.usada em final de palavra. ou seja. G. quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). X. Como já foi visto. INDO. FRANGO.

ANTÔNIO. Entretanto. etc. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. Exemplos: AVÔ. CÓLICA. saber se se trata de um som ou de outro. Por exemplo. Como se disse acima. Veja ainda. pode-se saber um pouco mais. como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar'). pode mostrar a ele como se pronuncia. como em: PORCO ("pôrku"). como falante nativo. algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala. mas PORCOS ("pórkuç). PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. se for a sílaba tônica da palavra. para. PORTA ("pórta"). Quando eles não estão marcados. nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos. trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. BOLA ("bóla"). SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . AVÓ. pode ocorrer o som "ó" ou "ô". a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. PORCA ("pórka"). como exemplos. Às vezes. PORTO ("pôrtu"). Em alguns casos particulares. Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). depois. Às vezes.

TOU RO . em sílaba átona. Entretanto. a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). que praticamente é homófono de CUMPRIDO. como COMPRIDO. Algumas vezes. Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U. sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". é preciso conhecer a ortografia da palavra. MUNDO ("múndu"). a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). A letra O.("kõfôrtu" e "kõfórtu"). COMBATE ("kõmbati"). Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. ou COLOCAR. Quando se parte da observação da fala para a escrita. por exemplo. Exemplos: TODO ("todu"). Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). como em COMIDA ("kumida"). Porém. quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. tende a ser pronunciada "u". se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba).

POUCO ("pôku" ou "pôuku"). pode ter o som de "pi". Confira. por exemplo. ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso. "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO).("tôru" ou "tôuru"). ou seja. 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). Ocaso não é tão simples. porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. OPÇÃO ("opição"). ou apenas de "p". ADAP TAR ("adapitar"). diante de outra consoante que não seja R nem L. etc. A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. Somente observando a fala. No segundo caso. A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. Exemplos: APTO ("ápitu"). revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons. . de 'poupar'). é impossível saber quando escrever P com ou sem 1.

QUERO ("kéru"). "é" ou "i". PISI. porque eles se resolvem com o tempo. ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita. como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. . "piçina" ou "pçina" PISCINA. pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. TOCARJTOQUE. Como foi dito nos comentários à letra C. porém o Unem sempre é pronunciado. Em palavras derivadas. O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade. QUINTAL ("kintau"). PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba. Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura. para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5. FICO/FIQUEI. como em: QUERIDA ("kerida"). A ortografia tem vários modos de escrever. Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê".

têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. etc. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). FREQÜENTE ("frekuénti"). CUIDAR. sem insistir muito. AQUARELA ("akuaréla"). SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). porém. basta o aluno identificar QU com o som de "kê". O mesmo. "kuê". Esse tipo de problema. não acontece com os exemplos anteriores. é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. todavia. A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não. e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI. Quanto à leitura. porém. a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". Quando a letra A vem depois das letras QU. CUE. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. etc. "kué". RECUE. QUE ou CUI. CUECA. Quando não é pronunciada. Observe. a . TAQUARA ("takuara"). Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). Essa dificuldade atrapalha a escrita. para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo.BARCO/BARQUINHO. o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos.

ESTUDO DA LETRA R . quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. QUOTISTA/COTISTA. embora descartadas pela ortografia atual. poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA. Pelo contrário. Por exemplo. QUOTIDIANO/COTIDIANO. revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. etc. QUASA. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia. QUAXA (casa). mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras. mas nem por isso estranhas. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. Dadas as dificuldades de escrita. CASA. CINCO escrito CINQUO. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). Quando os alunos cometem esses erros. uma palavra como "casa". KAZA. Um bom exercício para o professor fazer no início. QUAZA.). QUIDADO (cuidado). como VACA escrito VAQUA. a for ma ortográfica atual é apenas CASA. KASA. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. Entretanto.ortografia admite a forma com a letra C. em vez do dígrafo QU. etc. em princípio. QUAXA. CAXA.

em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes. porém. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA. como ocorre tipicamente em CARRO.A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. por sua vez. CERTO (no dialeto carioca). a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). representando dois sons diferentes. a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. formando um dígrafo. entre duas vogais. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. O sistema de escrita. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR. etc. pode ocorrer apenas um R ou dois RR. uma "aspiração"). Em alguns dialetos do Sul do país. ROUPA. pode representar vários valores fonéticos. MAR. dependendo do dialeto. como em CARRO. basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO. CERTO. FERA/FERRA. Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. SERA. distingue o uso de um R do uso de dois RR. Dessa maneira. FURO. A vibrante múltipla "rr". . No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste. a vibrante simples representa um tepe'.). mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons. Portanto. MURO/MURRO. TIRO.

Dependendo da palavra. Em alguns casos. com uma vibrante surda. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). RODA. Nos chamados dialetos "caipiras". produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. Exemplos: ROÇA. dentro de sílabas. ROUPA. 380 Por exemplo. . outras vezes usa a vibrante sonora. mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. CERTO. TIRO. o falante usa a vibrante surda. etc. MURRO. às vezes. os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas. quer a vibrante simples. O mesmo som "r" (vibrante simples). RETA. TR. que aparece em CARO. FERA. PORTEIRA. VIR. Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. MURO. MAR. ARARA. BR. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. TORRADA. BRASIL.como em CARRO. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. ora sonoras. TERRA. MAR. como em RITA. ERRO.

ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla. FR. LIVRO. CR. É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . BRASIL. quando na fala corrente. GRATIDÃO. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba.DR. ROLO. a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". RITA. RUA. como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). TRABALHO. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. uma palavra terminada por R junta-se a outra. a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO. CRIANÇA. FINGIR ("fijir" ou "fijirr"). CARPA ("karpa" ou "karrpa"). forma o início da sílaba da palavra seguinte. Além disso. CARRO). VR. houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N). Porém. O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". RODA. porém. Em início de palavra. VIR AQUI ("vi-ra-ki"). Se. com a sílaba seguinte começando por consoante. como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). ISRAEL ("izrraéu"). GR. FRACO. por exemplo: PRATO. como em RATO. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). que começa por vogal. PADRE.

a escrita usa apenas um R e nunca dois. Como vimos. Em final de sílaba. mesmo quando não são muito elaboradas. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . que se o R vier depois de uma consoante N ou S. terá o som de uma vibrante múltipla. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples. dependendo do dialeto. Em início de palavras. com segurança. tem-se um som diferente. obviamente. ajudam bastante. no meio de palavra. ainda. Essa dificuldade não é do falante. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro. no meio de sílaba. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras.lembrando todas as regras associadas a essa letra. A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. porém. Algumas idéias. No contexto intervocálico. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto. dependendo do dialeto. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. mas depende de como o professor irá tratar a questão. Sabe-se. Nos demais contextos. e o som será sempre de uma vibrante múltipla.

isto é. são todos escritos com R ou RR. Por isso. a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. ou seja. mas devem usar apenas a letra R. os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos. No começo. vindos de diferentes dialetos.muito as variações de pronúncia. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita. igual à vogal precedente. como ainda não chegaram a essa conclusão. 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: . Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. como uma vogal "longa". um som único.

CADENO ("caderno").MECADIO ("mercadinho"). mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. Nesse caso.. PR. que o aluno . Depois. ou ainda ATALAS (ATLAS). o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte. Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. etc. quando encontra grupos consonantais como BR. como ensinam os foneticistas. em que há mais de um som consonantal numa única sílaba. já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez. PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante. o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. POTA ("porta"). Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita. GR. o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". Em outras palavras. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". AGARADECE (AGRADECE). esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). Como em muitos outros casos. etc. de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem.

ATRÁS ("atraich"). No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê". Em início de palavra. ROSA. SEMANA. VASO. o RR. SUCO. a letra 5. ISSO. Exemplos: BASTA ("basta"). dependendo do dialeto. OSSO. ocorre o som de "çê".automaticamente aprende. ou ainda os exemplos: USO. a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. INGLESA/ESSA. Em final de sílaba. nos demais casos. etc. Do mesmo modo que as letras R e RR. Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura . SOCO. POSSÍVEL. SINO. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. Assim como existe uma letra R e um dígrafo. como em SACOLA. Nos demais dialetos. Exemplos: BASTA ("bachta"). que o aluno não irá aprender. NÓS ("nóich"). ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. há uma letra 5 e um dígrafo SS. POSA/POSSA. a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. MESA. E também é verdade que não é porque não se explicou. NÓS ("nóis"). as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". ATRÁS ("atrais").

ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu"). DESDE ("dezdi"). Apesar disso. como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). Algumas letras. MESMO ("mezmu"). com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade. como S e R. saber que há várias . Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. há nesses casos uma concordância. R). Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. DESGRAÇA ("dizgraça"). Quando a letra 5 vem depois de consoante. D. DESLIGAR ("dizligar"). ISRAEL ("izrraéu"). G. 382 No meio de palavra. Isso vale para todos os dialetos. como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas"). tem o valor fonético de "çê". OS HOMENS ("u-zó-mêis"). Então. a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte.intervocabular. etc. tem o som de "çê". M. tem o som de "zê". ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi"). no meio de palavra. CASPA ("kaçpa"). Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B. Diante de consoante surda. correspondem a muitos sons diferentes na fala. L. Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). CASCO ("kaçku").

HOJE ("ôji"). os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. AÇO. SÇ. ASSO. Para quem sabe como se grafa essas palavras. Confira os seguintes exemplos: SAPO. ATRÁS. DESDE ("dejdji"). como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). para confundir mais as coisas. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas. parece fácil e simples. SC. XÇ. J e G. SS. XC. etc.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . TRAZ. Por outro lado. EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". Z. RAPAZ. Ç. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. CRESÇO. RAPAZ ("rrapaich"). PROXIMO. CHUVA ("chuva"). mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. como vimos. CH. temos: S. SC. ou ainda em certos dialetos. X. SÇ. NASCER ("naiççêr"). XÇ. O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. como "zê" e "chê". X. o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever. XC. Somando esses dois tipos de informação.

AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA). a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. esses problemas se resolverão com relativa facilidade. mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato. seguindo o princípio acrofôníco. ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê. Então.para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. e o som inicial de seu nome. Na maioria das vezes. representa o valor fonético básico da letra. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige.só que uma é surda (1) e outra é sonora (D). . a . A letra T é semelhante à letra D. o melhor conselho é mostrar que. Em muitos dialetos. Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma). Como dissemos. nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. diante da vogal "i" (na fala). as explicações impressionam os alunos. Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). através da ortografia.

Na grafia das palavras. MITO ("mitchu"). JOVEM ("djóvêi"). não antes de "i". porém: TATU ("tatu"). Em alguns dialetos do Nordeste. etc. mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. Às vezes. FERIDO ("feridju"). XAROPE ("tcharópi"). POTE ("pótchi"). Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). ocorre o som de "tchê". Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê". POTE ("póti"). TERRÍVEL ("terríveu").letra T temo som de "tchê". TESTA ("téchta" ou "téçta"). como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). Como se disse em relação à letra D. sobretudo do Sul do país. ÓTIMO ("ótchimu"). porém: TIA ("tia POTE ("póti"). em: CHUVA ("tchuva"). permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. mas depois dessa vogal. por exemplo. Em alguns dialetos. apesar das variações . nunca se fala "tchê". etc. Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). mesmo diante de "i": TIA ("tia"). mas apenas "tê". como. Por exemplo: TIA ("tchia"). o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. LEITE ("leitchi"). 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. RITMO ("rritchimu"). o som "i" não aparece na escrita. FECHAR ("fetchar").

encontradas. todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. a letra T também não causa grandes dificuldades. 1. Fazendo isso. a letra U representa uma vogal nasalizada "u". Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. Às vezes. ELE POTEÍ (ELE PODE IR). nem para decifração na leitura. como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). nem para a escrita. UM ("iirj"). Quando ocorre diante da letra M ou N que. É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO). FUNÇÃO . O. U). Como acontece com todas as letras que representam vogais. alguns alunos fazem confusão entre o T e o D. E. e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. e em seu nome está o som básico que a letra representa. CHUMBO ("chúbu"). a sonoridade do D perde-se. etc. ocorre imediatamente antes de uma consoante. Escrevem T em vez de D. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. SUJO ("çuju"). por sua vez. A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever. ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U. na escrita. CÉU ("çéu"). Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). preocupados com a ortografia.

PUNHO ("p "punhu". 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. em um número muito grande de palavras.("f€íçãu"). quando se parte da fala. CHOURO (CHORO). o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever. podendo ficar apenas com a grafia de O. POUCO ("pouku" ou "pôku"). na fala atual. como em: UNHA ("ünha". Na verdade. como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). PROFESSORA ("profeçôra"). Veja os . a letra U pode ter um som nasalizado ou não. "flinha" ou "uinha"). há muita variação entre "ô" e "ou".. se a letra U estiver diante de NH. Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa"). Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. Porém. VOU ("vô"). Entretanto. SOURO (SORO). como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). nem todo som de "ô" será escrito com OU. etc. pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". "unha". UNIDO ("tinidu" ou "unidu"). etc. "püinhu" ou "puinhu"). BOUA. não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA. pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". etc. Quando ocorre OU na escrita. etc.

porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). no começo. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. "méu" MEL. "çaudadji" SAUDA DE. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam.casos: QUERO ("kéru"). Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. Quando os processos . uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. Quando se escreve partindo da observação da fala. com certeza mais do que parecia. EQÜINO ("ekuinu"). etc. "çau" SAL. "chapéu" CHAPÉU. ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. Aqui. somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. "çéu" CEU. sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). "papéu" PAPEL. nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. No final do ano. "uutchimu" ULTIMO. LIQUIDO ("likido"). há outra dificuldade grande. com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. O aluno precisa. Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO. e assim por diante. "autu" ALTO ou AUTO. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. QUILO ("kilu").

ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka"). A letra V não apresenta dificuldades de decifração. dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. VIZINHO ("viztnhu"). sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R. AVULSO ("avuuçu"). o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível. Por exemplo. como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. muitos erros desaparecem. VELHO ("vélhu"). esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. ou da vogal que ocorre depois do L ou do R.de leitura e escrita se aceleram. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru". Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. porém. pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. Nesse momento. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". Alguns alunos. percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala.

observando a própria fala. ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". etc. como em ENXADA ("ichada"). essa letra tem o nome de duplo vê.anteriormente. Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. Nesse caso. produzindo formas gráficas como FELA (VELA). WILMA ("viuma"). A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. Mais uma vez. WC ('dabliu-çê'). XUCRO ("chukru"). também tem o valor fonético de "chê". Em Portugal. etc. FERDE (VERDE). a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. Esse é o valor da letra X em início de palavra. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. ENXERGAR ("ichergar"). como em: XAROPE ("charópi'). depois de N. FELHO (VELHO). ENXAME ("ichãmi"). pode levá-los a trocar a escrita de V por F. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade. etc. dependendo da palavra em que ocorre.

o som correspondente. o carioca). a não ser quando se tem o sufixo -EX. Em alguns dialetos (por exemplo. Na posição intervocálica. Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). maiS informal. ocorre uma assimilação. a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. . XS). Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). "zê".consoante no início da sílaba seguinte. como no carioca. "kç" (ou "kiç". "chê". tem o som de "çê" ou "zê". como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). que ocorre nesse contexto. NASÇA ("naça"). Quando a letra X aparece no fmal de palavra. AUXÍLIO ("auçíliu"). A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. EXSURGIR ("eçurjir"). Em alguns diale tos. SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). LIXO ("lichu"). SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. XEROX ("cherókç" ou "cherókiç"). tem o som de "ks" ou "kis". "kch" e "kich"). ficando apenas uma ocorrência do som "ç". podendo ter os seguintes sons: "çê". Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). EXCELENTE ("eçelêfiti"). XÇ. dependendo de a consoante ser surda ou sonora. em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). etc.

SEXTA/CESTA. ZERO ("zéru").BAIXO ("baichu"). É por isso que se escreve INFERNIZAR. ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA. ZOMBARIA ("zõubaria?'). TÁXI ("tákçi") e assim por diante. palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. FIXO ("fikçu"). terá o som de "zê". Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). quando o som de "zê" ocorre em início de palavra. Quando se parte da fala para a escrita. EXIGIR ("izijir"). EXAME ("izámi"). O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. a escrita será com Z e não 5. ESTUDO DA LETRA Z H. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ. ZUMBIDO ("zümbidu"). Note que há diferença entre . RIQUEZA. BELEZA.rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. etc. 386 Note que. "néchta" NESTA. etc. só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). ZANGADO ("zãgadu").

Veja. Se a palavra que termina com a letra Z.StCO o sufixo . conforme o dialeto).EZA. como mostram os XC exemplos: BELEZA. ocorre o fenômeno da juntura intervocabular. XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. RICO/RIQUEZA. Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). mas receberam apenas um A do feminino. INGLESA. FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). etc. X di. como INGLES/INGLESA. na fala contínua. AZAR. em início de palavra. tem o som de "çê" (ou "chê".letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". ASA. MARQUÊS/MARQUESA. EXAME.Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. Isso acontece em todos itexto. mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra. os dialetos. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). etc. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich"). FREGUÊS/FREGUESA. caso de BELO/BELEZA. e palavras que terminam com o som de "êza". ocor . Regrinhas como essas. FEZ ("feiç" ou "feich"). os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização. Porém. que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. EX. vier antes de outra que 1I começa com vogal.. RAPAZ. a dificuldade da .

EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. também fazem parte do nosso alfabeto. AS LETRAS K. Como.onsta rerá somente a letra Z. o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. etc. em nomes pró. YARA. VISGO ("vizgu"). . só ocorre r) etc. kHz. e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). embora tenham um uso muito reduzido. como já se disse acima. uirtes portanto. WILMA. a não ser quando . ainda no meio de palavra. KARINA. km. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. abreviaturas. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras. porém. etc. As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. YAMAHA. WC. Além disso. Elas estão nos dicionários e. Senao WILSON. ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. em siglas. YVONE. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba. elas aparecem em alguns casos. DESDE ("dezdi"). orren Lórakç" is diale Jdch"). kg.

conforme consta do cartório. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI). THEREZA. 387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. KARMEN. surgindo novas relações entre letras e sons. ficando portanto: LUIS. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ. Assim. abat-jour ficou ABAJUR. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos. etc. mas pode rá escrever. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos. Por exemplo.usados como um apelativo comum. JOAQUIM. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum. VÍTOR. NETO. New York ficou NOVA IORQUE. Veja. DORACI. em outros casos. VICTOR. CARMEM. assim como club ficou CLUBE. DORACY. TERESA. o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . HOBBY. YAMAHA. Por exemplo. MANOEL. bém o som de RR em nomes como HONDA. MANUEL. a letra H passou a ter tam bidu"). ainda. NErFO. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. JOACHIN. Fora disso.escrita. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento.

seja estranho o som "tçê". S. 388 BIBUOGRAFIA Referências A. e reflexão de alguns annos de ensino. e mais estranho ainda atribuir esse som ao dígrafo ZZ. mas não tinha nenhum exemplo. surgem palavras com sons em certos contextos em que normalmente não ocorrem. 1817. Methodofacillimo para aprender a ler perfeitamente em pouco tempo com mais allivio dos mestres. 13 ed. em que aparece a seqüência de V + L. e menos en fado dos dlscipulos: descoberto pela experiencia.J. O conjunto de letras TCH forma um trígrafo. que é possível no sistema da língua portuguesa. em início de palavra não ocorrem os sons "lhê" e "nhê" (exceto na palavra LHE e na forma abreviada de senhor: NHÔ). que aparecem em palavras de origem estrangeira. BARBOSA. como LHAMA e NHOQUE (que alguns escrevem INHOQUE ou ENHOQUE). . 5. Outra palavra italiana de uso muito co mum foi aportuguesada: TCHAU (do italiano ciao). A. em português.. Outras vezes. Ou tro exemplo desse fenômeno pode ser visto no nome VLADIMIR. Lisboa: na nova impressão da Viúva Neves & Filhos.pronúncia italiana "pítça". Grammaticaphilosophica da linguaportugueza. J. embora. acompanhando o nome de um país que se escreve REPÚBLICA TCHECA. Por exemplo.

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à psicologia escolar. 1998. São Paulo: Casa do Psicólogo.193-224.. Roxane (Org. História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar. Jornal da Alfabetizadora. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo. rev. 3 cd. ano VI. atual. p. 31. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 .. Campinas: Mercado de Letras. Gladis. Continuando o debate sobre construtivismo. • & MASSINI-CAGLIARI. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. n. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1. 1997c. p23. 1994. Iii: ROJO.).

Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3.

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5.

Conhecer a ortografia 123 8. Conhecer as letras 121 5.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer o alfabeto 121 4. Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de . Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer os nomes das letras 125 10. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2. Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11.

Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2. Explicar o que é uma letra 135 3. Reconhecer uma palavra 128 15.escrita) 126 12. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1. Nem tudo o que se escreve são letras 128 16. Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 .

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 .

interpretação semântica da palavra 258 . As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método. o professor. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. o aluno e a escola 248 O certo.O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10.

velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1. explicitação da decifração na leitura 267 10.2. a forma gráfica das letras 272 5. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. segmentação 274 7. escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7. a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. adivinhando palavras na leitura 260 4. assinatura e escrita 271 3. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. escrita espelhada 273 6. cachorro começa com FU 262 8. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . quantas letras formam uma palavra? 261 5. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. identificação de palavras 261 6. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. letras em vez de rabiscos 272 4.

variação lingüística 282 2. mistura de informações 280 18.398 10. sintaxe 283 4. escrevendo foneticamente 277 13. um pouco por vez 279 17. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. letras maiúsculas 281 22. surdas ou sonoras? 278 16. troca de letras 277 14. caligrafia 285 . coesão 285 7. sinais de pontuação 281 23. resultados pela metade 276 12. hipercorreção 278 15. uso de pronomes 282 3. só o esforço não adianta <399> 19. erros não corrigidos 280 20. formas morfológicas diferentes 276 11. repetição 283 5. medo de escrever 281 21. frases soltas — coerência 284 6.

Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .11.

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13. Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 .É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O.

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .Estudo da letra Z 386 As letras K.

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