ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

por alguma razão estranha e desconhecida. De certo modo.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização. Na história da escrita. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo. Nesses casos. Os . A alfabetização é. a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas.C. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. ou seja. deixaram de fazê-lo. A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas. tão antiga quanto os sistemas de escrita.. quando Micenas foi destruída. pois. por abandono ou porque é trocado por outro modelo. só com muito estudo. Quando esse elo se rompe. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que.

.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde. sempre foram simples e práticos. < CAGLIARI.C. com a escrita brãmane. ao que tudo parece. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas. ou seja. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita. Por essa razão. esses dois tipos de escrita. a escrita só ressurgiria muito tempo depois. 106-24. tiveram um uso muito popular. usando o alfabeto semítico.p.C. ~. no século III a. Naquela região. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. pelo contrário. No vale do rio Indo. Curiosamente. percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. 1996b. O primeiro . A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B.

c. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém. não pensa. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado.representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte.. É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. Os fatos históricos também mostram o contrário. que não faz sentido algum. Ao ler o que ele . os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado. fundador do Império Babilônico. A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas. certamente. Essa é uma idéia errada e estranha. O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado.

à noite. O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade. ficou pensando no que tinha . Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes. Naquele momento. assim como. às vezes. um livro de medicina por um médico. Depois. hoje em dia. representando ~. numa caverna. Isso não significa que somente engenheiros. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno. ficamos sabendo que. súdito do monarca. um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. <13> animais.mandou escrever. pessoas. objetos e cenas do cotidiano. o texto tem como interlocutor o próprio povo. um livro de religião por um teólogo e assim por diante. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. Na Mesopotâmia.

Provavelmente. era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. A partir dessa descoberta. Para isso. Ou seja. A humanidade descobria assim que. figurativas ou não.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito. mas. além de representar objetos da vida real. numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história. é apenas um desenho. quando uma forma gráfica representa o mundo. podiam servir também para representar palavras que. De acordo com fatos comprovados historicamente. os desenhos. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. criar um sistema de formas gráficas. quando representa uma palavra. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. e usado provavelmente para contar o gado. porque pertence ao reino do pensamento. mas revela algo importante. Nessa época de escrita primitiva. era um passo fácil de ser dado. por sua vez. passa a ser uma forma de escrita. se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. além dos números. ser alfabetizado significava .

a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente. repetindo um modelo mais ou menos padronizado. A escrita. como. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto..C. as sílabas. esse processo autônomo tenha se repetido. na Suméria.. Os maias da América Central . Com a expansão do sistema de escrita. É muito provável que no Egito. pelo que se sabe hoje. e na China. por exemplo. por volta de 3000 a.C. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los. o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido.C. começou de maneira autônoma e independente. por volta de 3300 a. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. <14> por língua. ou seja. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala. em média. fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade. por volta de 1500 a.

dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. Na Antiguidade. passavam a escrever seus próprios textos. a ler. A curiosidade. Finalmente. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. Aprender a decifrar a escrita. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. contato com algum sistema de escrita. que eram estudados exaustivamente. que talvez se situe por volta do início da era cristã. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . de uma maneira ou de outra. nesses casos. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. certamente. Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. já que não pretendiam tornar-se escribas. ou seja. devia ser o procedimento comum. escrevendo para a sociedade e a cultura da época. num tempo indeterminado ainda pela ciência.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos. A alfabetização. relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. Aqui. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios.

os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais. <15> Ao formar seu sistema de escrita. que significava "boi". a primeira palavra da lista era 'alef. Para representá-las graficamente. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. por exemplo. Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal. Por exemplo. Além disso. Para quem sabe ler. ou seja. da escrita cuneiforme. de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes. o processo de alfabetização. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. que era oclusiva glotal. esse nome passou . escrever é algo que vem como conseqüência. a lista ficou apenas com consoantes. Dessa maneira. a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef.ler. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. sem dúvida alguma. foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado.

e assim por diante. feitos os devidos ajustes. pronunciando. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. tinha a forma gráfica da figura de uma porta. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. por exemplo. A terceira letra era o Daieth. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que. bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. o significado vinha automaticamente. O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa. já se tinha um som para ela. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. que significava "porta" e representava o som de D. era usada para o som de B e significava "casa". . Uma vez identificada a letra pelo nome. tirada também de um hieróglifo egípcio. ou seja. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. dava o resultado final de sua pronúncia. e.

a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. agora denominada alfa. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. como vimos. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes. para escreverem alfabeticamente. aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. 'alef. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas. mas também as vogais. uma vez que. ou seja. Para escrever David. resolveram escrever não apenas as consoantes. bastava identificar as consoantes DVD. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. por exemplo. Já os gregos. mantendo o mesmo princípio acrofônico. Como sempre. Apesar de manter o princípio acrofônico. como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. Assim. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi. por exemplo. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras.usando o princípio acrofônico. em grego. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. procurar. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. a letra 'alef passou a representar a vogal A. Para eles. na lista de letras. . mas também as vogais. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada.

De fato. e. ou mesmo quando fossem escrever. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. etc. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. dê. por assim dizer. <17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. bê. etc. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. Dessa forma. épsilon. Práticos como sempre. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. Foi assim que alfa. A alfabetização. gama. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto. Na verdade. acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. Tais documentos foram. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . serviam ~. na Idade Média. transformaram-se em a. inclusive o alfabeto.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. na ordem tradicional dos alfabetos. beta. delta. Os semitas. cê.

que é a chave de sua decifração. como as crianças já não iam mais à escola. a leitura correta. . como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga. descobria-se que palavra estava escrita. entre as várias possibilidades. pois. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. Nessa época.c. a qual se completava quando. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa. Vê-se.ensinava a quem não sabia. Ainda hoje. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. facilitadoras do processo de decifração. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando. somando-se os valores das letras. Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar. Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem. mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. as que podiam eram educadas em casa pelos pais. a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir.

seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso.outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar. que passaram a chamar-se maiúsculas. Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse. Não bastava saber o alfabeto. o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. <18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. as quais. "CASA' equivale a "casa". o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. portanto. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). que podia ser representado por muitas formas gráficas. Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. em geral. agora. saber fazer a categorização correta das formas gráficas. reconhecendo a que . Agora. ainda.

esse princípio é posto em prática a todo instante. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. Nesse caso. Este último aspecto pode ser observado ainda hoje.categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". Patenteou 1093 inventos. do ponto de vista fonético. Como sabemos. inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema. ainda através da ortografia. Freqüentou a escola por apenas três meses. ao analisar o todo. era americano de Milan Obio. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra. Notas Thomas Alva Edison (1931). Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. considerado um dos maiores inventores do milênio. uma esprofessora. quais letras devem compor aquela palavra. . Na escrita cursiva.

<19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. deixando de lado cada vez mais o latim. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada . apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. com o uso da imprensa na Europa. cada qual iniciando com uma letra diferente. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas. Nessa época. Essa obra era voltada para a alfabetização do povo. na ordem do alfabeto.O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. a preocupação com os leitores aumentou. Em 1525. juntamente com este trabalho. Por isso. Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e. uma vez que agora se faziam livros para um público maior. sobretudo. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas".

chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). inclusive as de alfabetização. em 1702. Com essa obra. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. etc. listas de sílabas simples. a letra S com o desenho de uma cobra. uma destinada aos alunos principiantes. numa obra semelhante. apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. por exemplo. São João Batista de la Salle escreveu. a . mais conhecido como Comênius (15921670). cada uma tendo três partes. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. Valentim Ickelsamer incluiu. que continha o alfabeto. O ensino era dividido em "lições". O educador tcheco Jan Amos Komensky. Em 1527. os dez mandamentos. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". outra aos médios e a terceira aos avançados. a letra A com a figura de uma escada. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. orações e os algarismos.Bokeschen vor leven ond kind. fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). Somente no século XVIII. um regulamento para as escolas que fundara. publicada em 1658. publicado em 1720.

a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. Após a Revolução Francesa. os alunos aprendiam a ler com pausas.segunda. a terceira. o silabário. surgiu o Ensino Mútuo. etc. aparece uma distinção clara entre ler e escrever. em sua obra Ensino Mútuo. Nesse modelo de ensino. a escrita. coisas úteis para a vida. para o trabalho na <20> sociedade. O pedagogo alemão José Hamel. o segundo livro. Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. Para ensinar ortografia. o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. descreve o método de alfabetização em detalhes. a "tábua das sílabas". ao mesmo tempo. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. No terceiro livro. estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. para aprender a soletrar e a silabar. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um . a quarta. O ensino é nitidamente coletivo.

Diante dessa nova realidade. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. passaram a ser mais desenvolvidas. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza. A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo. os alunos que freqüentavam essas . ou seja. jardins de infância ou escola maternal. O estudo foi dividido em lições.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. introduzindo a alfabetização como matéria escolar. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. Com a escolarização. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização.tipo de escola para as crianças. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. cada uma enfatizando um fato. na Escócia. membros da burguesia. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer. O ensino silábico passou a dominar o alfabético. as escolas infantis. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças. o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. Com poucas modificações superficiais.

até as primeiras décadas deste século. Naquela época. No Brasil. O povo simples e pobre continuava fora da escola. CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga. junto com a gramática. Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização. os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. Muitos professores queixavam-se dos baixos salários. que eram as da imprensa da época). publicou a Cartinha. . razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. mapa de orientação.escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta". A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano. que é um outro diminutivo de "carta". no sentido de esquema. publicada em 1540. ao lado de "cartilha". depois.

vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. havia uma lista de palavras. Para se alfabetizar. O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. Por último. Notem que a ortografia não tinha vez. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". O livro servia igualmente para adultos e crianças. nas "taboas" (ou tabuadas). para pôr em prática o princípio acrofônico. <22> A cartilha do ABC. A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa. interpretando.vinham as "taboas" ou "tabelas".). decorava as palavras-chave. e depois punha-se a escrever e a ler. que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de . Em seguida. próprio do alfabeto. tendo o nome das letras como guia para sua decifração. a pessoa decorava o alfabeto. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. com todas as combinações de letras. as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. uma vez que a escola naquela época não alfabetizava. etc. tesoira.

outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896). chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever. manuscrito. A segunda edição. segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros. publicada em 1850. ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. Essa obra merece um estudo detalhado. de 1853. o aprendiz . intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. até hoje aparecem nas cartilhas modernas.trem e rodoviárias. dessa forma. <23> Além do método de Castilho. desenhando-as com hachuras. Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. Muitas pessoas que não podem ir à escola. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade.

encontra-se. o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. Entre os livros que pertenceram a D. organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. apareceram inúmeras outras. de João de Deus. haja um destaque à leitura. Pedro II. O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. Essa cartilha foi. publicada no Rio de Janeiro em 1859. vêm os exercícios de escrita. na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura. depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). Entre .se concentrava no que de novo era apresentado. no título da obra. <24> No Brasil. então. sem dúvida. Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. embora. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. depois individual e.

é um bom exemplo. de Lourenço Filho. Com o passar do tempo. Joviano. apareceram mais obras que seguiam o método misto. começa o método analitico. desde a letra até o texto. Um livro como Primeira leitura para crianças. de Branca Alves de Lima. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). com o período preparatório. têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático. o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. Na introdução. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos. Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação. ou seja. No final dos anos 90. do mesmo autor. . de A. e o famoso Teste ABC (1934). O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades. Com a Cartilha maternal. que vai assumir importância maior na década de 30. é um tipo de cartilha. A cartilha Caminho suave (1948). cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico.elas há quatro tipos bem marcantes.

Copiava-se muito. Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. de A. voltado para o padrão social. por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons. a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores.Nota Primeira leitura para crianças. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia). e os modelos eram sempre os bons autores. trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. Como acontecia com as gramáticas. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. Achavam importante ensinar o abecedário. seguindo a ortografia da época. . ou seja. autores famosos da literatura.

mas não era. O importante. era aprender a escrever palavras. A cartilha parecia um caminho suave. Completadas todas as letras. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. E a escola percebeu . agora. o aluno começava seu livro de leitura. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. por uma modificação radical. Parecia que ia dar certo. em seguida. quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. já na década de 50. até recentemente. apareceram as palavras-chave. mas não foi bem assim. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. Em lugar do alfabeto.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. que empregavam dialetos diferentes da fala culta.

muitos alunos abandonavam a escola. do ciclo II do ensino fundamental). A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. ou seja. outros desistiam logo depois. o correspondente à oitava série do primeiro grau. conseguiam concluir a última série do ginásio (na época. Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos. pais e professores. Diante dessa realidade. Diante de um quadro desolador e perturbador. e apenas uns poucos. <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento. não conseguindo superar essa barreira inicial. Apesar de todos os esforços para superar essa situação. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. cerca de dez por cento. a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar. A primeira coisa que saltava aos olhos era . E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes.logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização.

As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor. pois. como a Cartilha Sodré. em seguida. o índice de repetência continuou assustador. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente. e vão. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação. Mesmo assim. dar uma ajuda especial aos professores. comprometendo assim o processo educativo. Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. o que podia dificultar a sua aplicação. subsídios mais práticos para uso em sala de aula. Era necessário. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. com raríssimas exceções. Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. partem ~. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. dizendo o que o professor e o aluno devem . Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor.o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. a dificuldade deveria residir nas crianças. uma orientação mais pormenorizada. então. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula.

a escola foi buscar socorro nas universidades. nem eles próprios tinham entendido muito bem. O período preparatório A partir dos anos 50. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. Nenhum diálogo. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. sem formação lingüística. Se o aluno responder diferente. senão a lição não funciona. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores. Carentes de alimentação na infância. passo a passo. Sem formação pedagógica.fazer. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. necessários para que . carentes de estímulos ambientais. para ver se o aluno aprende. sendo determinada a fala de cada um. Muitos alunos pesquisavam para teses. muitas vezes. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. o que é. obviamente. uma estultícia. porém. aplicando teorias que. Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos.

Para resolver o problema. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". carentes de praticamente tudo. Assim. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola. enfim. etc. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. A . completar figuras. o chamado período preparatório. fazer o ~. Além da cartilha e do manual do professor. não podiam aprender. localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá. fazer bolinhas. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. 193224. 1997c. então. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. como alguns chamam. Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". p. no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. Os psicólogos inventaram. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo".pudessem desenvolver o conhecimento. CAGLIARI.

Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. Em meio a tantos equívocos. sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. mas as conclusões são muito evidentes. envolvendo questões de linguagem. do que as crianças ricas. com mil teorias acadêmicas. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. sobretudo da noção de variação lingüística. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. por causa da história de vida . Mais antigamente. Por trás de tudo. A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem.discussão é longa. mas que era um grande equívoco. baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. ao entrar na escola.

perceptiva. na verdade. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. justamente por causa dos exercícios de prontidão. Fazendo curvinhas. no entanto. excepcionais e carentes. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. psicológica. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos. e vice-versa. motora.de cada uma e da natureza das nossas escolas. segundo a opinião desses acadêmicos. Isso. Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. Perguntar a uma criança se uma . de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. ou seja lá o que for. Aliás. Para não escrever espelhado. ninguém aprende a escrever nem a ler. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade. simplesmente porque falavam ou escreviam errado.

são sempre muito dóceis e condescendentes.caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa.. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes. Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela. que a melhor solução é abandona-lo por completo. o que. que contribuam de fato para o processo de . não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de". Está tudo tão errado. que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças.. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico. o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado. simplesmente exemplifica. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante. você pode pegar que é todo seu" e deixar. quando responde.. sem dúvida alguma. de fato. porque o próprio professor não sabe responder e. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto.. Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade. não é uma resposta à pergunta que fez à criança. Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. a criança fazer o que lhe foi dito. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão. Por coisas como essas (e tantas outras.

alfabetização. por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida. demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental. ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). mesmo plenamente justificáveis. Algumas idéias. 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI. <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997). Quando o professor diz que não adota a . Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação. é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres. de valor inestimável. a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). 1 996e). Uma delas.

número. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. gênero. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. Velhas idéias. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. continua usando o método da cartilha. estão voltando a ter importância na alfabetização. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos. as relações entre letras e sons. etc. a ortografia. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. que é a linguagem. como ensinar o alfabeto. Por outro lado. fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos. Contudo. porém básicas. . procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. grau. até chegar ao amadurecimento esperado pela escola. como o estudo de categorias gramaticais. o "entulho" que se acumulou com o tempo.cartilha. tem sido removido.

a sexta. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. uma vez que agora a promoção era automática. mas a formação. a instrução. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. e outro. a sétima e a oitava série. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. juntando a primeira e a segunda série.Num esforço de muitas pessoas. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. a educação. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho. só foi posto em prática o cicio básico. com grandes vantagens para a educação como um todo. alguns ~. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". enfim. Infelizmente. <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação. a quarta e a quinta série. Apesar disso tudo. o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . Além disso. Desse modo. a começar pelo estado de São Paulo. um incorporando a terceira.

constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres. já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. métodos e livros. uma melhor interação entre professor e aluno. tornou-se um pesadelo na escola. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem.A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. nas primeiras séries. que tinham todo o processo preparado de antemão. proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade. A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. como em outros campos. mas. vemos como a escola veio para complicar tudo. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados". Por outro lado. infelizmente. as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. . A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. Porém. Aqui.

Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia. <32> as normas pedagógicas. Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho. construtivista. não conseguem dar a formação necessária para os professores. quer ditando as regras da burocracia. etc. sobretudo. Os professores. lingüístico. freinet. fônico. desse modo. quer. atormentados com tantas mudanças. global. analítico. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo. Como as escolas de formação de professores para o magistério. ditando ~. o que é verdade e o que é engodo. o que é certo e o que é duvidoso. é o método sintético. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. lúdico. de acordo com os modismos da época. vítimas da própria incompetência. foram experimentando todos os "pacotes". semiótico. todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. psicopedagógico. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo. que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. Se sua competência já era muito .

que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. incompetente. Estudar pedagogia. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor.limitada. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam. O fundamental é saber . ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. quer se trate de um "pacote educacional. agora além de tudo ficou confusa. Alguns. 1993. 1992c. CAGLIARI. dando as razões de sua conclusão. metodologia psicologia é importante. MAGNANI. é um professor malpreparado. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. diante de tantas "experiências educacionais". Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos.

não só existem milhões de pessoas analfabetas. de fato. Resumindo.. em especial. Hoje. como também pessoas que foram. neste país. em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo. na alfabetização. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética). a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia.. Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico. O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas. Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores.). como também não . aliados aos de pedagogia e psicologia. Esses conhecimentos. isso só se obtém com a competência do professor. teríamos. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica.como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. mal alfabetizadas.

apenas . <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos. Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire. A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta. enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores. O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países.alfabetiza somente com lingüística. além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização. Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem. Nada substitui a competência do professor e.

já não sabem mais no que acreditar. é preciso voltar às origens.uma ferramenta. . retomando uma visão correta do fenômeno. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. acaba confundindo seus leitores. Por isso. ou mesmo contraditórias. apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. os quais. aos princípios básicos. Como o assunto é muito vasto e complexo. às coisas mais simples e claras. fruto da indignação metodológica. no mercado. Para isso. é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. Existe. em meio a tantas posições diferentes. aprendizagem e métodos. Às vezes. bem como conhecer as limitações de cada um. é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. rever a história. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. e sobre ele já existe considerável literatura. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. Daí o descrédito de alguns professores na educação.

raramente.Por incrível que pareça. . o que é um erro grosseiro. 1990. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. acompanha passo a passo a ordem do ensino. PATTO. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. etc. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. 1990. O que é importante para quem ensina. como fruto inevitável do ensino. de acordo com sua história de vida e. para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. Muitos aceitariam a diferença sem problemas. na teoria. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. CAGLIARI. pode não parecer tão importante para quem aprende. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente.

No ensino. para facilitar o processo de ensino. gostam de manter classes homogêneas. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. Quando simplesmente se repete um modelo. Por isso. entre outros fatores pedagógicos. sempre que oportuno e possível. em detrimento do processo de aprendizagem. ao contrário do ensino. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. mesmo quando o fazer significa dizer. Não é porque o professor ensina. por ação própria. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. de seus interesses. o que se faz. mas criar algo semelhante. a partir da iniciativa individual de quem aprende. Ela vai aparecer somente quando a pessoa. que um aluno automaticamente aprende. de seu metabolismo . seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. fazendo remanejamentos. é muito importante o que se diz. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. não ocorre exatamente uma aprendizagem. Aprender depende muito da história de cada aprendiz. mas cada aluno deverá aprender por si. na aprendizagem.

que se aprenda com os pais.intelectual. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. antes da escola. Nada impede. uma classe. por iniciativa própria. com um colega. As atividades de sala de aula estão voltadas para o que . corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como. Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". não é porque um professor não ensina algo. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. Sem uma visão clara e correta da atividade escolar. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. todavia. o que compete a cada um. o que cada um espera do outro. aliás. Por outro lado. É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. O fato de se ter um professor. Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". Afinal. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola.

nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. pensar. refletir. os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares. tentar fazer. Infelizmente. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. Há muitos professores e profissionais da educação. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. Um aluno pode ensinar ao outro. Na maioria das vezes. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. mas poucos educadores. A insensibilidade dos professores. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. refazer. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. etc. Falta o professor educador que em .

Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua . é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. seu modo de ser e de trabalhar. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. pararam seus estudos. depois de formados. sem respeitar a individualidade de cada um. Está na hora de devolver a educação aos educadores. de fato. no Brasil. Infelizmente. aquilo que os educa. professores que. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. A educação. honesta e adequada. para <38> a vida. ou seja. de maneira clara. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação.

O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. Muito se fala sobre o assunto. tem-se um amontoado de leis e regulamentos. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. mas não usam esse conhecimento. sem escola. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante. e. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. não há educação de massa. Em vez disso. Ninguém parece confiar mais no professor. Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. <39> DOIS MÉTODOS . não há escola. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer. Sem o professor. mas. São professores que sabem ler e escrever. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais.obrigação diária de sala de aula. de que o Brasil tanto precisa.

A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. saber que aprendeu. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. pode-se dizer que a educação. como também não pode viver só da aprendizagem. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar. Nos estudos pedagógicos. às vezes com conseqüências sérias. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. por iniciativa própria. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem.A educação não pode viver só do ensino. na medida adequada. quando. entre outras. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. as escolas não precisariam existir. Por essas razões. o professor não pode ser o dono da educação. com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem. sobretudo. Por outro lado. aquele que tem tudo sob seu comando. na sua essência. tem dois métodos apenas. pois cada um aprenderia por iniciativa própria. caso contrário.

baseiam-se em um dos dois métodos básicos.produzido uma vasta literatura a respeito. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. o método 1 e o 2 servem . método fônico. apresenta-se. no fundo. método global. No entanto. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2). a seguir. algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. por exemplo. método dedutivo. o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. Em primeiro lugar. tem as características básicas apresentadas abaixo. método indutivo. etc. <40> método construtivista. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. Há uma tipologia de métodos que. Talvez por isso mesmo. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. método mecanicista. como. considerando os seus processos de argumentação. Por essa razão. de certo modo. no seu extremo. São as variantes das duas vertentes principais. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2. podemos dizer que todos os métodos. Toda essa discussão pode.

DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. uma importância fundamental. Na verdade. Inversamente. devem seguir um modelo prévio. nesse momento. tudo gira em torno dela.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem. que usos tem. Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos. O aluno procura sempre responder. na alfabetização. na prática. Por isso. quem ensina e quem aprende. esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. em nenhuma cartilha. Não conheço. nos métodos que a escola usa. com o que faz. pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. tendo de decidir entre o . dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é. transmitido como ensino. A linguagem exerce. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. qual é a concepção de linguagem subjacente. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino. Por exemplo. como funciona. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição".

Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia. na vida real. não têm esse tipo de preocupação: elas. do jeito que acharem mais conveniente. o que é falso. porque. Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". quando falamos. ainda. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido". pensam e falam o que quiserem. passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor. o problema da ortografia. simplesmente. Há. a não ser na escola. quando as pessoas usam a linguagem.certo e o errado. Ora. trata-se de regras lingüísticas diferentes. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. ou por influência da educação escolar. Nenhum falante acha que fala errado. nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. mas que irá atrapalhar. que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia". e muito. Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função .

O MÉTODO 1. quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte. porém. Ora. Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar". que essas verdades logo se revelam.. Basta refletir um pouco. Nesse caso. é a comunicação. Quanto de enganação. esta não se reduz apenas a comunicar. ocorrem tomadas de posição. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino. A comunicação é uma função importante da linguagem. Atrás de notícias encontram-se censuras. transmite-se uma cosmovisão. a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida. . mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo. nem talvez a mais usada. A linguagem também serve para comunicar. senão a única..mais importante da linguagem.

dizem. Os alunos que se virem. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor. que alunos vão ter. na prática. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. dando chances iguais para todos. de todas as formas possíveis. Nas séries mais adiantadas da escola. sem sequer conhecer seus alunos. em todos os seus níveis. essa é a regra geral. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um. mas é má pedagogia.<42> o marco zero de uma caminhada. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. A técnica A técnica do método 1. o professor programa o que vai ensinar. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização. Obviamente. porque os alfabetizadores já aprenderam. uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. isso é muito conveniente para quem ensina. na alfabetização. No começo do ano. O método 1 considera que a melhor . que não podem ser tão cegos assim. Nesse quadro. é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos.

Depois. uma palavrachave. desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). Por exemplo. mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. Assim. formando "palavras . extraídos das palavraschave. diferentes das palavras-chave. TA. pode-se formar as palavras "Tatá".maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons). Em seguida. por exemplo. Com alguns pedaços de palavras. Por exemplo. As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. a palavra é remontada. Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. TA. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". Feito isso. Com esses pedaços. "bata" e "taba". no primeiro exemplo. segundo o professor. parte-se sempre de um modelo exemplar. e que sabem juntar os pedaços de palavras. tem-se BA. Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. ou montando coisas novas a partir de pedaços. desmontando BATATA. Nesse caso. pode-se descobrir que é possível formar palavras novas.

vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. não ele. Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita. apenas uma estratégia de ensino escolar. E. mas não sabem de seus limites e usos reais. se aconteceu. que sabe tudo. no segundo caso.). porque além de tudo aquilo que não entendeu. alguns professores. porque o método não ensina isso. foi mais por culpa do professor do que dele. as crianças ligam os pedacinhos. Ele apenas faz a lição. Por mais estranho que pareça.novas". Aprendem o jogo da escola.. . quem deve saber essas coisas é o professor.. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. juntando dois pedaços de palavras. como sabia antes o que significava "taba". forma-se uma palavra nova. porque seguem apenas as regras do jogo. isto é. que a criança nunca tinha ouvido. achando que o professor. que diz que. liga os pedacinhos de letras para formar palavras. o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias. Na linguagem oral. diante de fatos como esse. saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa". A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda.

Aprender é dominar. Por outro lado.falamos tudo junto. A base desse . uma após a outra. Ora. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos. não porque falamos desse modo. para que os alunos aprendam a ler. Na escrita. A base: o já dominado Com o método 1. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. as quais o aprendiz precisa dominar. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua. de fato. passa-se ao conteúdo seguinte. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. que deve ser aprendido. Dominado ou aprendido algo. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons. Não falamos fazendo pausa após cada palavra. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. ou seja. fazendo pausas apenas em alguns lugares.

Conseqüentemente. sim. decorar é fundamental. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. pois. Por exemplo. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado. Esses professores mostram que usam o método 1. produzindo escritas absurdas. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. Na alfabetização. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. repetindo-a corretamente. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. e. Nesses casos. Portanto. Para isso. embora garanta. dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. acabam revelando sua ignorância. mas tãosomente o comportamento do aprendiz.método é. fazem sem erros os . Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos. O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. enquanto não provar que já o faz. o conhecimento já dominado. nunca se questiona o ensino.

A memorização é fundamental no processo de aprendizagem. logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho). mas. quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. e o resultado é uma enorme decepção para ele e. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". não chegam <45> a se alfabetizar. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. conseqüentemente.ditados das palavras já dominadas. ou não fazem nada. é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. principalmente. o já dominado apenas revela um modelo repetido. No processo de . nas atividades escolares. para o aluno. Esses alunos foram ensinados pelo método 1. O uso da memória O uso da memória. como acontece no método 1. mas não pode ser um truque. Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado. Neste. como se decifra algo escrito para ler e.

disposto numa ordem necessária. Às vezes. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. a memorização faz parte do processo de reflexão. convencem-se. trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas. querendo fugir desse esquema. Obviamente. Memorizar é fundamental. e de que aprender é entender e não decorar. São duas realidades muito diferentes. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. o . como acontece com a prática pedagógica do método 1. Por essa razão. Outras vezes.aprendizagem. São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável. isto é. palestras ou lêem em livros. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. de que a memória não tem vez na aprendizagem. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. alguns professores. como se esperaria de alguém que tem bom senso. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada.

para o processo de ensino. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. E difícil. por exemplo. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. No entanto. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade. utilizada pela educação nos currículos escolares. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. a organização hierarquizada é uma atitude esperada. Isso acontece porque partem do pressuposto que . Será que as coisas são mesmo assim. que não se aplicam ao que se quis dizer acima.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. mesmo em sua forma sistematizada. tais afirmações são tão gerais. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. No entanto. até certo ponto. e talvez seja mesmo impossível. é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente. É claro que alguém precisa aprender a ler. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros.

Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza". Ledo engano. "andano" ("dentro". Na verdade. aconselho estudar árabe. "andando") tem uma dificuldade . esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles.escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. Para quem duvidar disso. e não ao processo de alfabetização. por exemplo. Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. porque erramos menos a ortografia com elas. tudo é difícil. no começo. A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática. <47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores. "bardi". achamos difícil escrever. "balde". qualquer palavra é igualmente difícil. qualquer palavra. A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza. Para ele. "estender" ou "extensão". O aluno que fala "drentu". Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. Para uma criança que não sabe ler nem escrever. não há nenhuma palavra fácil.

poderíamos escrever "esterno".muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. por estar entre duas vogais. separar fatos da fala dos da escrita ortográfica. Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. o que é um absurdo. pois. Dizemos "rapais" ou "rapaich". seria o de Z. em palavras como "caixa". e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. É preciso. o som da letra S. Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. se escrevêssemos "prósimo". De acordo com as regras de nossa ortografia. na hora de escrever. a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). de CH ("lixo") e de Z ("exame"). um aluno fala "fizeru". "acharu". Além do som de S. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram". "acharam". Por outro lado. mas. Por exemplo. suprimimos o I: "rapaz". nesse caso. é comum não se pronunciar o I . dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. mas. O que há de diferente é o uso das letras na escrita. como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). mas que deve ser escrito: "toda amiga". uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo".

Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. mas precisaram ir além. do mais fácil para o mais difícil. . o resto não faz sentido. Fáceis e difíceis "aparentemente". é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe. Na verdade. tanto para quem ensina.que vem junto com o A. que realmente são armadilhas para os alunos. Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito. em todos os ramos do saber. Esses casos. porque A é mais fácil do que X. E a lista é longa. desenvolvendo-se passo a passo. estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. mas não de fato. cobrando a mais rigorosa e constante avaliação. Como o ensino é completamente hierarquizado. mas não se pode deixar de escrevê-lo. jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X. quanto para quem aprende. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados.

prevista pelo método 1. Isso é tão ridículo. àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. no final do ano. até demonstrar que já dominou. não o que ele aprende. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. aqui. só porque cometeu dez errinhos.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas. E as outras coisas que . o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. Se não houver uma avaliação rigorosa e constante. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. para que o ensino possa dar um passo adiante. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar. o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta. Na avaliação. mesmo que tenha. O aluno escreve urna história de dez linhas e. Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. de repetir o ano todo. ganha nota cinco. voltando àquele zero inicial. o que conta são os erros e não os acertos. sobretudo para as crianças na alfabetização. A avaliação.

passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada. que os ditados. visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. como se escreve uma palavra. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. na verdade. e o resto que fez e fez bem.escreveu certo. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente. O ditado. que já dominou um certo conteúdo programático. o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. na alfabetização. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na . e em nada contribui para a aprendizagem. fazendo aparecerem erros. O aluno não aprende fazendo ditados. naquele momento. Não é pensando que ele vai descobrir. tem de voltar atrás e repetir a lição.

O que fazer com o erro No método 1. a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. como naquele momento da avaliação. Repetir e repetir é o que manda o método 1. Por isso. discutir o erro.mente do aprendiz. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. Fora isso. Por que as crianças fixariam . a solução que adota é ignorá-lo. sobretudo nas classes de alfabetização. Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. Nesse caso. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações. em geral. Simplesmente ensina-se o certo. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo. Há. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir. o erro é um problema que o método não sabe resolver. Mais raramente. na tradição pedagógica de nossas escolas.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

não precisa "fixar". seguindo um processo de reflexão. a vida toda. Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. caso contrário. E ninguém fica perdido no meio do caminho. Quando uma pessoa entende algo. no método 2. A fixação da aprendizagem. ela automaticamente sabe e. é o outro lado da moeda da reflexão. Isso também é saber. e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. portanto. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor. não sabe. sabemos como operar com certos conhecimentos. o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos. o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. não pelos efeitos. Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender.chegassem. como acontece com o método 1. Nesse caso. Em muitos casos. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. revelando as decisões que os alunos tomaram. e existe outra memorização que é .

Nessa fase. No caso do método 2. para a habilidade de .simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas. o aluno aprende primeiro a ler. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar. de produzir textos orais. essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir. mas sacrifica-se a produção de textos reais. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. No início. Porém. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. para isso. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. Salva-se a ortografia nos cadernos. o uso real da linguagem. mesmo que. escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia.

Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. Aos poucos. Todavia. quer na sua manifestação escrita. com a ajuda dos dicionários e. e este. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. Tem-se a impressão. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. o que há de errado. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. salva-se o uso real da linguagem. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. A culpa será atribuída ao professor de português. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação. como se pode notar pelas observações anteriores. de imediato. principalmente. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever. por sua vez. no entanto. ficará perplexo e não saberá. será uma simples transferência do oral para o escrito. O aluno. de muita leitura. Porém. No começo. no início. o processo educativo depende do .produtor de textos escritos. quer na sua forma oral. Com a produção de textos desde o início da alfabetização.

No entanto. Os dois métodos podem alfabetizar. Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável. O método 2 exige experiência e competência do professor. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. <60> 3 Avaliação. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. acostumados com essa prática. promoção.método adotado. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . Isso parece óbvio e natural para muitos professores. ou seja. planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção. embora aparentemente adequada.

que o professor faz para ensinar. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. facilitando. entre outras razões. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. a questão central não é essa. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. porque se poderia contra-argumentar. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno. Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. Este último argumento é o mais comum para . Certamente esse argumento é um contra-senso. CAGLIARI. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte. portanto. NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. Na verdade. 1996e. como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. Na verdade.

A necessidade de dar e receber nota tomou-se. com o tempo. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis.justificar o uso de notas e conceitos. de acordo com qualquer parâmetro. a exemplo da tradução do título de um filme. como um jogo social. sem as notas. ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho. abrangendo todas as atividades. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. mas um nocaute basta para qualquer . No boxe. contam-se pontos. Como a escola educa para a sociedade. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". se no último minuto o adversário. mas não sem razão. faz o gol da vitória. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. Curiosamente. Como o objetivo é muito claro. Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. que jogava mal. os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. Os professores dizem que.

da série. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica.lutador vencer. porém. é outro: será que os alunos. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação. simplesmente. quando estudam. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. as notas servem também para indicar o campeão da turma. Como se vê. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. Nosso problema. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. da escola. Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva. da educação. Neste último caso. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. Nesse sentido. as notas estão por toda a parte. sobretudo. funcionam bem quando se trata de classificação e. refletindo um julgamento de valor. As notas. o melhor de todos. estão participando de uma competição. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. Em algumas escolas. Nos concursos de seleção. ou seja. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. dos estudos? <63> .

o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. fazendo determinadas tarefas.Na prática. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar. Quando se reúnem muitas pessoas. a partir da capacidade de cada um. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. logo fica evidente que algumas fazem melhor. é comum haver competição. Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar. pela própria natureza das atividades da escola. Nas escolas da . com mais arte e perfeição do que outras. Na vida. O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar.

Ou seja. as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. . Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. principalmente no que se refere à ortografia. É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual. do jeito que era ensinado. para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo". A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. deixando de lado as opiniões individuais. testes e exames. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. Basta fazer uma análise de provas. a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho.Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre.

Assim. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição. o que significa que. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. . servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação. a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. julgadas inaptas para o trabalho escolar. a não ser em casos muito excepcionais. Aliás. depende da avaliação. seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. a pelo menos metade das aulas.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas. no fundo. No caso. Certamente. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. por exemplo.

a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. não é razão suficiente para reprovar alguém. embora haja muito mais a ser dito. expresso por notas ou conceitos. Em primeiro lugar. Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. deixando a idéia de formação. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria. Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto. O aluno estuda não porque é importante para a vida. Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. Nesse caso. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova . faz menos sentido ainda falar em reprovação. no sentido pleno da palavra. num plano secundário e mesmo dispensável.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. mas para livrar-se de mais uma competição intelectual.

Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. quantos alunos chegam mesmo a dizer. A avaliação não volta atrás. A qualidade do ensino se . porque a nota já garantiu a promoção e. De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua. até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa.como se resolve uma questão? Mas. que fazem questão de se esquecer de tudo. A educação precisa modificar sua visão de si própria. O tempo da avaliação é irreversível. depois de terminada uma prova. Num país como o Brasil. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. entre outras coisas. dizer isso é uma piada. então. já não há mais tempo. como irremediável é a nota. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. queimar livros e tratar de esquecer a escola. como aprimoramento pessoal e profissional. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos. talvez. uma vez que piorar o ensino é impossível. mas ao longo da vida. Por outro lado. não para a nota. E preciso educar para a vida.

se não houver provas exigentes e notas baixas. Pelo menos com medo das provas. não culpados. eles estudam um pouco. fica sem controle. que gosta de matar o tempo. Ainda nessa linha de raciocínio. Outro argumento. Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola. uma outra perspectiva de trabalho escolar. . quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. E nada disso tem a ver com notas. Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles. quer na ação do professor como educador. os alunos não estudam.consegue com um trabalho <66> competente. desde cedo. Se o professor nunca passar uma prova. Os alunos são vítimas desse processo. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. passa a ser avaliado como alguém irresponsável. Professor que não faz isso. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno. alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade.

os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas. Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. Por fim. Com o aumento das irregularidades de comportamento. Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar. se sentirem humilhados e castigados. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para . nas provas e notas.encontraria. usando sua arma terrível que é a nota. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem. Em troca. O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. o professor se volta de novo contra os alunos. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias. um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes.

Acreditam que. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. estão ensinando seus alunos a estudarem direito. e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras..responder direito e de maneira completa. Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. não obstante.. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina. e a mais honesta. por fim. a não se deixarem enganar pelas aparências. dessa forma. duas questões de resposta fácil. mas o próprio fato de dar . Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota. aluno por aluno. Como vimos. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Gostaria. uma perda de tempo. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não.

ou "piçoa" em vez de "pessoa". a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros. Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos. (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos. Na verdade. Analisando.57% de erros contra 68. o professor achava que estava tudo errado. o que dá uma porcentagem de 3 1. a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros. Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho"). dizendo que havia apenas uma palavra certa.notas.43% de acertos nesta frase.) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho". constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido. porém. mas da qualidade dos erros. uma das mais problemáticas do texto. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano.

também a avaliação não precisa delas. cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. O professor também deve se auto-avaliar.alunos acertam. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. O erro é sempre muito chocante. Somente aquele tipo de ensino massilicante. A avaliação é uma atividade importante. Não é porque o professor ensinou algo. Assim como a promoção não precisa de notas. porque cada um é diferente dos demais. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. começariam a ver as notas com outros olhos. uniformizante. A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. O importante é que todos cresçam. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. sobretudo nas primeiras séries. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro. é desconhecer a realidade de cada aluno. que todos os alunos . Na escola. em que o professor manda e os alunos obedecem. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe.

enfim as notas. e se esses trabalhos forem guardados.aprendem do mesmo jeito. nesse arquivo. fica muito fácil para o professor provar. outros por iniciativa própria sob a supervisão dele. como um aluno começou sem saber muito e. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. A escola precisa trocar as provas. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. depois de uns tantos meses de aula. o próprio aluno poderia ver. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. em primeiro lugar. o . No final do ano letivo. na forma de provas ou chamadas. aplicado à solução de algum problema. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. Nesse clima pedagógico. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida. Em vez de boletim de notas. para quem quiser ver. Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. alguns sob orientação direta do professor. uma reprodução do modelo apresentado. por trabalhos que os alunos irão fazer. os testes. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. não para passar de ano. Não é porque o professor ensinou.

servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. Com isso. além de ajudá-lo. quando <70> realizam suas tarefas. levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho.professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. como também para julgar . Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor. Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. porém. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer. Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. paralelo a tudo o que se faz. durante o ano escolar. Esse tipo de avaliação.

que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. mas também os demais. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. em vez de reclamar do colega. partirem da realidade de seus alunos. o professor do ano seguinte. apesar das provas e das notas. O aluno na série seguinte Se todos os professores. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte.o que os outros e o que elas próprias fazem. que o aluno errou o sujeito da oração. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. quando um aluno é promovido. Analisando friamente. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano. . no começo do ano. Portanto. Mesmo hoje. tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber. incluindo não só os da alfabetização. Quais serão esses erros. por exemplo.

os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. Tal reprovação. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho . não soube resolver um binômio de segundo grau. 1993c. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra. Como avaliar essa avaliação. um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. Na alfabetização. Por causa de um predicativo do objeto direto. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. além de causar danos emocionais nos alunos.mesmo. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. muitos alunos já foram reprovados.

Ora. Por isso. a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais . Agir assim requer uma mudança de atitude. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. mas somente para promover ou não o aluno. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. E se o aluno vai mal na prova. pode ficar condenado a não aprender nada. o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo. O processo de aprendizagem não funciona assim. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos. Muitas vezes. Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam.do processo de aprendizagem.

e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o . mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos. não pode dar outra nota senão 10 ou A. Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. ele pode até agir assim. pesquisando. sem mencionar a tradicional queixa dos pais.profundas do educador. Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus). de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. dentro de suas possibilidades. e não através de provas e testes padronizados. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. fazendo todo tipo de atividade escolar. que muita gente passou a ter. Ninguém pode reclamar disso.

isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. Estudar é outra coisa. 1998a. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende. se um aluno não aprendeu a ler. Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. É algo sério. Na alfabetização. como deve estar. é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. sem . e isso basta. que precisa ser feito com responsabilidade. uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. considerando uma tarefa do professor. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria.processo escolar. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. < CAGLIARI. Todos eles aprendem alguma coisa. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias. os alunos aprendem. Quando o professor ensina com competência e seriedade. Infelizmente. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. mas alguma coisa eles aprendem. esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa.

) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico. Então.ligar para o que acontece com seus alunos. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. Para os repetentes incorrigíveis.. sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o . Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários. recomenda <73> uma mudança para a classe especial. Para os piores. a única solução que visualiza é a evasão escolar. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau). de vez em quando. As escolas costumam fazer seu planejamento. levando em conta as principais áreas da lingüística moderna. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente. Por causa da variação lingüística. no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas. especialmente se for na primeira série..

74 CAGLIARI. num primeiro momento. deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua. Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. cada um do seu jeito. por exemplo.certo da norma culta e o errado das variações dialetais. chama-se epilingüismo. Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. o seguinte: . para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem. usam a linguagem. como têm demonstrado os lingüistas modernos. 1991a. Entretanto. no seu dialeto. usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria.

. Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão. Produção de textos de natureza diferente. Visão geral da aquisição da linguagem oral. Produção de narrativa orais e escritas . Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão. treinar o aluno na produção de textos espontâneos. explicar como funcionam os sistemas de escrita. História da escrita.1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. Autocorreção da ortografia. Produção de textos orais e escritos. Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita. como cartas notícias.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. Introdução de noções básica de fonética e de fonologia. etc. Primeiras noções de variação lingüística. 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização. Leitura de lazer e de pesquisa. sobretudo a ortografia. 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística.

Exploração de textos literários. Introdução à . Cuidado especial na produção de textos orais. regência e concordância. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. por exemplo). Introdução à teoria da literatura. lJabaibo com contos e pequenos romances. Leitura de romances. 4° ano Estudo mais sistemático de fonologia. Produção de textos oriundos de pesquisas. Leitura literária orientada. dos usos da linguagem oral e escrita. 5º ano Estudo de morfologia. Leitura de lazer e de pesquisa. Produção de textos mais sofisticados. Leitura de lazer e de pesquisa. Noções básicas de sociolingüística. ou seja. ou seja. 6º ano Estudo de sintaxe. Produção de textos orais e escritos. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos. Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. sobretudo poesia. Apresentação das línguas indígenas brasileiras.

interpretadas agora segundo uma teoria e . 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual.análise literária. a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. Leitura de textos científicos. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional. Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. No ensino médio (segundo grau). o que deverá aprender no primeiro ano. Produção de textos literários e científicos. interação lingüística. Como verá coisas diferentes a cada ano. podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas. percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. História da literatura. num trabalho metalingüístico. tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. História da ortografia. Diante de um quadro como esse. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau. linguagem e pensamento). Estudo da história da língua portuguesa. artísticos e de autores famosos da literatura universal.

. Na pós-graduação. a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições. Em termos mais específicos. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística. através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia. haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado. desde o primeiro ano. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. deve ensinar o aluno. não importando os erros de ortografia. No terceiro grau (graduação). com vistas a um estudo crítico de teorias.formando uma gramática moderna descritiva da língua. Depois. • Produzir textos espontâneos. O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores.

• Preparar e ler um texto no dialeto padrão. Como se vê. testes. que não precisará de provas. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante. A escola precisa saber lidar com as diferenças. com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras. • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas. de modo a eliminar os erros de ortografia. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . • Participar das atividades escolares. Por outro lado. a escola não pode fugir à sua missão. notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. competente e constante.• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. Basta fazer um trabalho sério. • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo).

onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. Em casa. se não fizer isso em casa. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente. elas tornam-se um absurdo. Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar. podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. depois de um dia de trabalho. fará na escola. em geral. Isso é um absurdo. A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar. não há livros. Lugar de estudar é na escola.fraca e ruim. mas normalmente farão outras coisas. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. e seus pais. Criança precisa se divertir e. sobretudo brincar e se divertir. onde os alunos pobres estudam. Nas escolas públicas. lugar para brincar e lugar para estudar. . principalmente nas primeiras séries. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. que infelizmente proliferam em nossas escolas. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa.

Por outro lado. gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. do que gastar muito tempo de vez em quando. como achará tempo para estudar. o professor não pode passar tarefas todos os dias. geografia. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. ensinando aos seus filhos matemática. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições. para que isso aconteça. Isso é tarefa exclusiva da escola. diminuindo.Mesmo em séries avançadas. Mas. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. . E. nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. A medida que vão crescendo. já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. mais importante. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa. sobretudo para provas e exames. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições.

pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. sem professor. depois tornou-se uma tabela de letras. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. numa ordem crescente de dificuldades. estudando e trabalhando fora da escola. mas para estudar o que ele. sem nota. Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula.Pelo contrário. sem diploma. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . sem prova. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. não para dar satisfação ao professor. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário. o aluno poderá fazer o mesmo em casa. aluno. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos. escolheu para si.

compram. Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação). recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. Alguns chegaram até a publicar esse material. Os próprios órgãos encarregados da educação. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. compram. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho. em substituição. atendendo a pedidos de professores. livrinhos de histórias. os quais. dedicada ao período preparatório. não querendo adotar uma cartilha. fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha. uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas.desmontar e montar palavras. ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. Tempos depois. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos . Muitos professores fizeram sua própria cartilha. por alguma razão. alguns professores deixam de usar as cartilhas. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. que. Mesmo quando. baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos. todos os anos.

o que pretendem e. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. Como é constituído de letras. que se conheça como elas são. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. a habilidade e o bom senso de alguns professores. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. Por essa razão.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. A opção por um trabalho alternativo. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. sem cartilhas. agora de maneira muito mais confusa e difícil. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. o que propõem. . Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. Como as letras representam consoantes e vogais. antes de tudo. <80> principalmente. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. exige. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. como propõem. ou seja. o que deixam de fazer. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência.

No fim. apresenta-se um resumo. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. a cartilha acaba num texto. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. escritas com elementos já dominados. Em seguida. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. e destacam a sílaba geradora. segundo algum critério escolhido pelo autor. Geralmente.nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. mais elementos novos introduzidos na lição. Vêm abaixo algumas palavras novas. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. em que se emprega o princípio acrofônico. Na verdade. No entanto. aparecem os exercícios estruturais em que . Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. do mais fácil ao mais difícil. Depois. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. em que o alfabeto pode estar ou não presente. ilustrada com um desenho.

a habilidade e o bom senso de alguns professores.palavras <81> principalmente. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. Por essa razão. o que deixam de fazer. em que se emprega o princípio acrofônico. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. No entanto. ou seja. . Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. Como as letras representam consoantes e vogais. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. Como é constituído de letras. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. Na verdade. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras.

e destacam a sílaba geradora. ilustrada com um desenho. segundo algum critério escolhido pelo autor. Vêm abaixo algumas palavras novas. mais elementos novos introduzidos na lição. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. do mais fácil ao mais difícil. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. Geralmente. Em seguida.essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. Depois. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo". aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. então. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. Há. ainda. em que o alfabeto pode estar ou não presente. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. cópia e ditado. apresenta-se um resumo. e que pode servir também . a cartilha acaba num texto. escritas com elementos já dominados. um pequeno "texto" para leitura. Ou. No fim.

uma quantidade enorme de atividades. Ora.para exercícios de interpretação de texto. através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem. elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. Como se disse antes. além das tradicionais cópias. até propostas de representações teatrais pelos alunos. tudo muito bem ligado. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". Recheando esse esqueleto. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. a linguagem tem esses aspectos. Em geral. que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados. Nas lições mais adiantadas. representados pelas . de letras. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases. essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra. uma sílaba.

a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. e que são. portanto. pois. que apresentam semelhanças e diferenças. A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala. Há. interpretadas de maneira preconceituosa pela . algumas não causam estranheza.sílabas e unidades geradoras. a escrita e a leitura. que não usam a norma culta da língua. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. Ora. como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". porém. pois são aceitas socialmente. No fundo. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. para elas. Com relação às diferenças. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos. Analisando esses três pontos. ficando apenas com o que há de mais superficial. diferenças que representam a fala de pessoas pobres. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização.

percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. Obviamente. "drobar". Ou seja.sociedade como um modo errado de falar. recebendo dos professores inúmeras correções. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. Como não domina a norma culta. esse . Exemplos: "drento". A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. "dobrar". O aluno vai seguir as lições da cartilha usando. fala seguindo seu próprio dialeto. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. desde o começo. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula. quase sempre lidando com questões muito fáceis. em vez de "dentro". usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. etc. Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. acompanhadas ou não da zombaria dos colegas.

que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. Quando o professor se esquece de que está passando matéria. etc. Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu".modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. Do mesmo modo. levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. <83> Por ser um dialeto artificial. "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). seguem alguns exemplos. pronunciando "balde" em vez de "baudi". Um professor. etc. "póte" e não "pótchi". para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. a ideal. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto). pronuncia todas as letras L com o som de L. incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo. mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". "alto" em vez de "autu". Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é. sem vida na sociedade. de fato. Para ilustrar o que ficou dito acima. exige que o aluno . como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula.

procedendo assim. "batata". "drobar". é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). conseqüentemente. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. Para esses alunos. XAVIER & MATEUS. de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra. 1990. "uzómitrabaia". mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. etc. Ortografia se aprende de outra maneira. etc. porém. no entanto. O aluno. sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. . "pranta". O método das cartilhas não leva em conta. por sua vez. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". Esquecemse. não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa. não sabe como se escrevem as palavras e. que a maior dificuldade dos alunos. Esses professores acham que. falar palavras como "casa".leia "tudo" e não "tudu".

e. A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante. justamente porque. Ao fazer isso. porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados. a escola destrói essa habilidade já conquistada. descaracterizando a fala natural. Porém. de quem fala assim. Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada. bem-articulada). com conseqüências como pedantismo e preciosismo. é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. como falantes nativos. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. para ler. Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. sobretudo. Tudo gira em torno da silabação.

grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão. nesse momento. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. Depois de certo tempo. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. ignora esse fato e. aos poucos. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem. É muito importante passar da . 1989b. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. A cartilha. porém. a não ser através da escrita ortográfica. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. E uma pena. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. Elas observam demais a própria fala. Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. <CAGLIARI. as crianças têm. a própria fala. como única referência de conhecimento já adquirido.

como aquelas relativas às famosas trocas de letras. Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata". na verdade. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando.habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto. Eles acham que os alunos têm problemas . muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X. em particular com relação à fonética. como se pode comprovar. a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. eles representam um único som. Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada. porque confundem fatos da fala com fatos da escrita.

apesar de todos esses problemas. estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. Acontece. que não sabem observar corretamente as letras. "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). Z por 5. exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. por exemplo. que não são capazes de memorizar diferenças elementares. é necessário admitir. etc. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos. que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. <86> trocam V por F. E isso. Não sabem se existe ou não um I depois do X. Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que. como as pronúncias de "vaca" e "faca". os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). porém. de quem eles tanto reclamam. como. B por P. A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). exatamente como fazem seus alunos. Se podemos ter um . O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem. Em primeiro lugar. é verdade.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização).

como antigamente). no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. p. é oral. por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. Tudo na cartilha gira em torno da escrita. A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura. 1984b. os . Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. na sua essência.ensino decente. Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola. 94-117.

ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. uma linguagem cheia de erros e falhas. na sua essência mais profunda. A escrita. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. gire em torno dela. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo. deselegante. passou a ser considerada algo nobre. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. A escrita requer decifração para ser entendida. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita. sem passar pela organização da linguagem humana. no processo de alfabetização. A palavra .estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. pior ainda. <87> a qual. portador do pensamento lógico e literário. Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura. então. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. perfeito.

Podese até ter uma frase ou um pequeno texto. o que é falso. Do significado de cada palavra. Desse modo. escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana. como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. Todavia. seguindo os padrões da escrita.Sem dúvida alguma. A cartilha foi além: não só assumiu isso. Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. como unidade lingüística. fica tão marcada na formação dos alunos. junto com as lições. a qual. tirase o significado total do texto. . a palavra é o centro das atenções da cartilha. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita. no entanto. Na verdade. porém o que vale não é o texto em si. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras. a palavra.

e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes. compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. cada família recebe uma palavra-chave. etc. estudam-se primeiro as famílias mais simples. etc. Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral. Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu. Como resquício do princípio acrofônico. elaborados por "razões pedagógicas". como nas palavras an-jo. Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber . que servirá de recurso mnemônico. pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. cam-po. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. Finalmente. para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. é claro. do prá-pré-pri-pró-pru. Assim. <88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. As cartilhas apresentam os piores textos. Esses pedacinhos. serão organizados em famílias. como a família do chá-ché-chichó-chu.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem.

e abcçdefg. um compromisso com a verdade do texto. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz. o essencial. nem com a coerência discursiva. Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho .. > Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. advérbios. etc.. <MASSINI-CAGLIARI. o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. como ABCÇDEFG. Certamente. Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e. nesses casos. que é o fato de existirem alfabetos diferentes.. 1997a. No entanto. com os pronomes substituindo nomes. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados. às vezes. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes..imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". passa despercebido.

ou seja. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. porém. Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. pessoas já alfabetizadas. Também é verdade. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva. mas isso pode ser um processo longo e difícil. é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. Os alunos acabam constatando por si. a letra de . E a cartilha não explica isso. depois de certo tempo. porque não é o tamanho que conta. nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros.menor do que uma letra minúscula. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes. Para quem está aprendendo. mas a forma gráfica.

sendo mais difícil de elaborar. que.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. Apesar disso. Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica. A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. dificulta o trabalho de leitura. a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras. a escrita deixou de ser feita à mão. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva. Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno. A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. facilitando uma escrita rápida. se os alunos começarem a . freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores). uma vez que. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. por outro lado. Alguns professores acham que. A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais.

seguida dos de uma letra — A. e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. que a letra "A" é formada de um "C" e "e". cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. Como ela deforma certas letras quando agrupadas. em palavras como TV e TIA. não vão aprender a escrever com letras cursivas. na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I". O aluno pode até constatar que há uma diferença na . igual para todos. ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s".).escrever com letras de fôrma. ainda. distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. Ou. "v". — etc. redondinha. P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva. É por isso que um aluno pode pensar que.

Escrita sem sistema . que também varia. um caso sério para a medicina resolver. de caso para caso. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral. esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. etc. Afinal.altura da "perninha". Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente. em início de palavras. Quando diz isso ao aluno. C. Por exemplo. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa. o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada. o professor está pensando na ordem das letras nas palavras.. por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. Porém. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita.

Como a cartilha não apresenta nem discute. pelo contrário. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. ao ser indagado. o trabalho prossegue. toda aventura . a natureza. até que o aluno passe por todas as lições. ganhar seu famoso diploma de alfabetização. cheia de rabiscos. podendo. horas depois vai ao banco. O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. a função e os usos dos sistemas de escrita. vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. sobretudo porque. O professor pensa que ele está "doido". nesse meio tempo. É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. que concluiu que seu aluno era "doido". Pelo contrário. Esse mesmo professor. então. orgulhase de ter uma assinatura exótica. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. escrevem — fazendo rabiscos. em geral becos sem saída para si e para o professor. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu. em momento algum. O aluno.

depois. os primeiros textos. os primeiros textos. finalmente. como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. <92> . Antes de chegar a este ponto. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. por essa razão. deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização.individual pode levar ao erro. a não ser o que já tenha estudado com o professor. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. Somente depois de terminada a cartilha. A cartilha pensa que ensina a ler. ninguém pode escrever nada. por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras. e os cinco sons do X. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. copiam as primeiras frases e. A cartilha jamais discute a leitura em si. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa. Por isso. da mesma maneira. e o erro pode ser irremediável. mais adiante. no mesmo momento. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O. a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. a decifração.

conferindo. na alfabetização. As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. pelas cartilhas. Em particular. feita com pictogramas ou com caracteres convencionais. conseqüentemente. assim. os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. Seria interessante apresentar ainda. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa. Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. mesmo que sumariamente. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade.

Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. a escrever de acordo com as regras ortográficas. depois. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. a aprender a escrever e. não se escandalizaria diante dessas dúvidas. como funciona. o que são letras. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. de perguntar. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. A escola precisa explicar o que é ortografia. porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. ela precisa ensinar os alunos. para tirar dúvidas. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. para corrigir os textos que produzem. como se decifra uma escrita com letras. primeiro. familiar. que sempre escrevemos. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. Para isso. parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum.com as letras do alfabeto. o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. sem medo de ter dúvidas. Às vezes.

mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. não adianta pensar. A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita.palavras. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras. "le-a-la. E quando não se sabe como se escreve uma palavra. Mas esse ponto terá um tratamento especial. refletir. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum. dizendo. a leitura também fica prejudicada. pois depende crucialmente da escrita. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto. te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita. mais adiante. E é só o que os livros apresentam. por exemplo. alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . Quando chega o momento da leitura. de acordo com o nível de escolaridade. especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário.

nos primeiros meses de alfabetização.). a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. como deveria ser a leitura. não são capazes de lembrar o que leram. na alfabetização. As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas. pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência.. sem cobranças. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. composto só de palavras já estudadas. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo. Para um aprendiz ler em voz alta.letra por letra. o que. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas). ele precisa decifrar a escrita com facilidade. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição.. mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. não raramente ocorre que. Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro. se já dominou um determinado conteúdo ou não. uma depois da outra. Todavia. com o tempo. é quase impossível que um aluno. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. quando acabam de ler um texto. em que o aluno gaguejou. parou para pensar. não está ao alcance da maioria dos alunos. .

" Ora. a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta. que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos". Alguns professores.A cartilha usa. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade. a cartilha meteu as mãos pelos pés. pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a.. Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. Essa atividade é a interpretação de textos. Por exemplo. se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó". passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos.. Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. ainda. bons leito res. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial. já que o aluno mal sabe . não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido. Mais uma vez. reduzindo suas aulas a essa atividade.

estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem. Como tudo vem rigidamente em seu lugar. baseado na idéia dos elementos já dominados. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda. quando o aluno erra. escrita e leitura. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno. que à medida que os alunos avançam. esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. uma vez que o resto "já foi dominado". ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos. Por outro lado.ler. Alguns deles merecerão aqui um destaque. deve voltar atrás e repetir a lição. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. e isso gera . O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. porém. Acontece. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem. acabam se esquecendo de coisas já vistas.

um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia". de "tio". Esses exercícios tratam. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre.uma enorme confusão na aplicação do método. nota-se que muitos alunos erram. de gênero. Assim. A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais. parece mais natural que o . sobretudo. Há. onde começarão tudo de novo. O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. como falantes nativos da língua. de número e de graus das palavras. conhecem perfeitamente. Como não há explicações sérias. ainda. exercícios de identificação de categorias gramaticais. de fato. Resumindo. nesses exercícios. esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. coisas que. Para alguns alunos. escreve "tioa". como ainda induzem os alunos a errar. esses exercícios não só não ensinam nada. Para muitos alunos. julgando-se incapaz nos estudos. apenas exercícios como "faça segundo o modelo".

quando vão para a escola. sabem que não estão indo a uma festa. . precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. Por se tratar de crianças. porém. Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. com muito colorido e enfeites. se possível. Então. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. Para elas. evitando um tratamento sério. as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. deve haver uma história e. sílaba virou "pedacinho". objetivo. cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica. indireta. "macacão" é um tipo de roupa. uma musiquinha para cantar. mas não "macacão". Tudo precisa vir acompanhado de gravuras. Para tudo. preciso e direto das verdades que se devem ensinar. definitivamente.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). mas a um lugar sério. figuras.

os alunos dizem "a letra do chifre". As diferenças individuais não são . portanto. acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. na maioria das vezes sem nenhuma graça. O excesso de histórias. A escola. As letras não têm nomes: em vez de U. avaliação com promoção. partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. O diferente é combatido e não pode existir na escola. e o que saiu errado precisa ser refeito. até acertar. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. não obstante. a letra o é "a letra da boca". com os remanejamentos de alunos para classes especiais. porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U. úteis para a vida e. Elas têm essa consciência da seriedade. Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos.onde se aprendem coisas sérias. favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. importantes. às vezes torna-as levianas e comodistas. Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. apresentadas apenas como pretexto pedagógico.

mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento. Os professores sabem. iguais para todos. por experiência própria. nem nos manuais de professores. formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. para uma livre iniciativa. nenhum erro será objeto de estudo. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma. A uniformização é um imperativo. para continuar com as características próprias. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. tudo vem pronto para o aluno. por isso. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida . Por essa razão. Na cartilha.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. não encontramos nas cartilhas. para a criatividade. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. que é difícil ensinar a ler e a escrever. bons para adestramento. para condicionamento. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. segundo manda o figurino.

de preferência. Há ainda o interesse econômico. 1985b e 1986b. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. seguindo o próprio livro didático. que tem feito das cartilhas . A única saída é repetir tudo de novo. remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem. escolhendo. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. da mesma maneira. Por falta de espírito crítico. E se não se corrigirem. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível. com métodos excelentes de alfabetização. a saída da escola é a solução para o problema. comprovados desta e daquela maneira. de fato. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. os chamados "alunos carentes". muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas. <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. se possível. um grande livro didático. < CAGLIAR!.mostra claramente que o método não funcionou.

esquecendo-se do lápis e do papel.um negócio muito lucrativo. na escola. se a cartilha é tão ruim assim. sem o método das cartilhas? Qual é a saída. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa. sobretudo. significa aprender a decifrar a escrita. o governo insiste em distribuir cartilhas. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas. <99> . SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. Aprender a ler. sobretudo nas es colas públicas. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação. Apesar de tudo. ou melhor. Em primeiro lugar. Mas. Em algumas escolas. aqui. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. Para um bom trabalho de alfabetização. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. analisando a história e os métodos de alfabetização. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e.

aos poucos. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo.Para saber decifrar a escrita. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. são tão despreparados quanto os malformados professores. é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral. principalmente. Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. Infelizmente. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. Apesar desse quadro pouco animador. com . Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos. ainda. quais os seus usos e. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna. pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos. por sua vez. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. pela incompetência de alguns professores. constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. por falta de infra-estrutura. Alguns autores de livros didáticos.

O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério. o professor sabe ler e escrever. Afinal de contas. no trabalho compartilhado. A própria prática . para sua surpresa. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. num processo de aprendizagem verdadeiro. refazendo desde o início sua formação. Mais do que isso. o próprio professor verá. de ir direto ao assunto.mestra da vida . ele é capaz de realizar um excelente trabalho.dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante.ajuda muito. O professor também aprende ensinando. 1997c. como deveria existir sempre nas escolas. A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. que ele também está aprendendo. acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. na pesquisa. sem precisar gastar muito tempo. .

esconde-se muita coisa mal compreendida. em ordem. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. no mesmo tempo. fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. em que tudo está perfeito. do mais fácil para o mais difícil. Ledo engano. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. do mesmo modo. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. quando apenas falava. os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos. mas da incapacidade do aluno. O método da . Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas. a responsabilidade não é dele. que não irá durar muito. Para o professor. Por trás de toda aquela aparente ordem. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural.Apesar de todos esses problemas. como fazia antes. nem do método. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita. Se o aluno não aprender. que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. Se o aluno errar alguma coisa. que ele usa como modelo. o professor apaga e coloca o certo.

no entanto. e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo. a leitura e a literatura. Depois. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. . já não aparecem mais cartilhas. as aulas de português é a produção de textos. mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. cometerão toda sorte de erros. Como a matemática não tem dessas coisas. Finalmente. em parte. que muita gente fez isso e aprendeu bem. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. O que salva. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. em séries posteriores. inocentando os professores e os livros de sua incompetência. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente.cartilha produz cadernos belos. convém ressaltar que. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. deve-se rebater. Alguns professores. Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. porque os alunos só reproduzem o já dominado. são tão obcecados por elas. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não. sem erros.

e como eles não têm outra visão do processo de . será um fato surpreendente. que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. Afinal. Os livros didáticos são feitos. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. porque são mais "práticas". sem propor nada de diferente. da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. Na verdade. só que. preferem as cartilhas. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares. em vez de escolher livros mais interessantes.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. do começo ao fim. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. por professores. em geral. Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. para que servem os exercícios de matemática.

mas o principal deles é alfabetizar as crianças. o próprio método das cartilhas. todo o período preparatório veio como uma . é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais. Os esforços devem estar voltados para isso. Em primeiro lugar. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos. Por exemplo. repetem sempre o velho esquema. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem.alfabetização. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição. O círculo vicioso se fecha quando. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização.

o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). colar. ou seja. desenhar.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. Aprende-se a ler e a escrever. em seguida. etc. Conhecendo a rotina nas escolas. A alfabetização passou a se resumir. então. lendo e escrevendo. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever. a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. recortar. sem dúvida são atividades escolares. contar histórias. e não pulando corda e fazendo . Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler. Portanto. cantar. a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas. enquanto o mais importante era deixado de lado. Como já dissemos. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. Brincar. em grande parte. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e. a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos.

percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. e deve começar desde a alfabetização. São todos falantes nativos do português. OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar.festa. Brincar é imprescindível. Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. tecnicamente falando. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos. Porém. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos. Vendo essa questão por outro ângulo. sílabas ou outros . essa deverá ser uma atividade secundária.

marcando um uso informal e outro formal da língua. Uma coisa não é condição para a outra. Aprende-se uma língua. etc. inglês ou francês. MASSINI-CAGLIARI. não deixa de ser falante de português. sem esquecer a outra. das fricativas CH e TCH. por exemplo. "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . Numa sociedade tão heterogênea como a nossa. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. Quando alguém estuda uma língua estrangeira. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola. não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão.elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. Do mesmo modo. Variações de pronúncia (do R.). do lugar e das pessoas com quem se fala. às exigências do momento. Na sociedade. não precisa se desvencilhar daquele que conhece. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade. de regência (por exemplo. variações como "déis" ou "dés". de concordância (por exemplo.

pais. avós. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada. interesses políticos e econômicos. ficou estabelecido que a alfabetização. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula. Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. no Brasil. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida. Nessa idade. a préescola é importante como escola e não como creche. Dos cinco aos sete anos. aliás. começando a alfabetização aos cinco anos. Com quatorze anos. e os problemas sérios continuam sem solução. muitos jovens já são arrimo de família. Além disso.Por razões ideológicas. etc. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. mas não se muda a mentalidade dos governantes. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. Muda-se a Constituição do país. do mundo e até da . começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos.

<106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada. Aprender a ler e a escrever. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. já testou sua participação na sociedade.história. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. ganhar dinheiro é o que realmente conta. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos. seu relacionamento com pessoas diferentes. é necessário que o professor. isso não significa que ela queira ser alfabetizada. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização. converse com seus alunos para . Por isso. no início do ano. Dependendo do modo de vida. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. Essas considerações mostram que. Para elas. Estar na escola é um fato que cria expectativas. dentro desse contexto. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. é algo simples e banal. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. As vezes. ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja.

A escrita e a leitura têm muitos usos. É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever.saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. o que se faz com esses conhecimentos. A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. provenientes de classes pobres. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização. Mas é imprescindível. Não é raro haver alunos. essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. fora da escola. O que eles .

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras. uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse .A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. no mundo. na embalagem de um produto. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. revistas. jornais. nas placas comerciais há coisas escritas. Por exemplo. Mas. de modo geral. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita. Fora de casa. Por outro lado. Por exemplo. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. As crianças que vivem em casas onde há livros. não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. a escrita está em toda a parte.

Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons. de maneira típica. urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. uma por uma. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica. Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. se o professor não perceber. Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo. o nome da marca. nesse caso) é de fato uma leitura.produto ou uma propaganda ou. um rótulo onde aparece escrito. Porém. mais especificamente. mas a <116> . Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico.

E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. ou seja. No início. mas também. Ora. apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas. que exige uma explicação particular e detalhada. Ao fazer isso. raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. Essa é uma idéia muito elaborada. que a escrita vem associada a sílabas. como se estivesse interpretando uma transcrição fonética. . Por exemplo. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. respondendo à pergunta mencionada acima. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita. antes de estar associada a palavras. Na sociedade.identificação de uma ou mais palavras.

E de escola. Só mostra as relações entre letras e sons para . Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. não é transparente para o analfabeto.Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. isto é. Aquele procedimento de decifração. A de árvore. Nesse caso. comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. antes de descobrir o que ela representa. U de urubu e X de xarope. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. S de sapo. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. <117> Diante disso. C de cebola. Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome. típico do método das cartilhas. sem uma explicação muito detalhada e convincente. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. e acento agudo no E: LÉSCAUX. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser.

o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino. terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. Por isso. como em "u de urubu". Depois. Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico. T de Tomás. "a — de árvore". Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. . etc. querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. conversando a respeito do que já sabem. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito. No mais. o que já exige um enorme esforço de análise. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. R de Regina. Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio. No máximo.quem conhece as regras do jogo. Algumas classes. têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. em geral. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete.

da leitura e da fala. Se esses alunos não receberem uma boa explicação. ainda. começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. Em outras palavras. o professor deverá tomar cuidados especiais. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa . Por outro lado. uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. Com esses alunos. esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou.

vamos encontrar uma série de normas. a decifração é algo mecânico. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e.nessa tarefa. se eu não souber chinês. mas jamais . mas a ler "com naturalidade". é o segredo do processo de alfabetização. A questão. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. por isso. Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita. por sua vez. O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita. se elas não existissem. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar. que. 1. com efeito. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. posso ficar tentando descobrir o que está escrito. é muito complexa. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. mesmo porque... e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. Para quem já sabe ler.

A história das decifrações tem mostrado isso. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. 3.conseguirei ler. pode ser apenas um desenho ou uma escrita. conhecendo uma língua. O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra. Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler. representa o mundo. 2. O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). por sua vez. Por outro lado. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). e não outra. ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. A linguagem oral. portanto. Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto . isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto. Uma mesma forma gráfica.

como podemos ver na história dos sistemas . Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras. É composto de letras. mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm. gerando diferentes alfabetos. através do uso de um princípio acrofônico. As variações gráficas seguem padrões estéticos. talvez. 5. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva).latino e segue um conjunto de normas atuais. a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças. É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. formando um conjunto. 4. não. Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas. tendo cada letra um nome. Contar um pouco da história do alfabeto é. Variam na forma gráfica e no valor funcional. Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua. Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo.

quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). 4ª letra: letra a. a. Apesar da diferença gráfica entre essas formas. Ou seja. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. Assim. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. 2ª letra: letra a. vendo um rabisco. principalmente. reconhecer a letra cê. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e. é preciso saber a categorização das letras. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. pela ortografia das . 3ª letra: letra esse. no caso da palavra CASA. novamente. esse e a. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). de acordo com a ortografia da língua portuguesa. 6. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. <121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras.de escrita. ou seja.

e. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra. para tanto. desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. X = S). Se as letras não tivessem esses valores. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. em princípio. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. a palavra pronunciada "casa". P = A. escrever CASA com as letras APXP (onde A C. por exemplo. Além disso. poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais. ou mesmo MRIT. Portanto.palavras. poderíamos. nos servimos dos conhecimentos .

fica tentando em vão outras maneiras de aprender. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita. pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. portanto.ortográficos da palavra CASA. muito mais do que o princípio alfabético. quem não consegue. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras. <122> 7. . porque ela controla a categorização gráfica e funcional. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. para o estudo desses dois aspectos. No início da alfabetização. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta.

através do estudo dos sons e dos significados. usando seu dialeto ou outro qualquer. porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita. Por outro lado. de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. neutralizadas na escrita pela ortografia. A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles. que chamamos de palavras. Uma vez identificada a palavra. Conhecer a natureza. Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. o usuário está livre para dizer o que está escrito.CAGLIARI. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem. ou seja. Além disso. 1986b e 1994b. atribuindo . entender o que está escrito. a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura. assim.

da letra B. Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. 8. como vimos. O nome das letras traz. necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. E isso acontece com praticamente todas as letras. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. O importante. no nome "bê". temos o quadro completo das relações entre letras e sons. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia. em seu início.valores fonéticos às letras. é mais fácil decifrar e ler do que escrever. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. dependem muitas noções básicas. encontramos o som "b". contudo. que é o som mais comum que essa letra assume. Desse conhecimento. Ou ainda. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras. Assim. Em outras palavras. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura.

9. agá. i. xis. ene. que fazia os alunos aprenderem. erre. jota. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler. cê-cedilha. efe. dê. esse. cê.usamos para decifrar os valores sonoros das letras. Nesse momento. quê. no nome da letra W não aparece o som correspondente. nem no nome da letra Y. pê. tê. são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. cá. bê. gê. Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. Depois. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . ípsilon. Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita. ele. Na verdade. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua). u. Num primeiro momento. ô. vê. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. dáblio. zê. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. eme. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. é.

a letra D não tem som. por exemplo. a letra T tem os sons de "tche" e "tê". Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. O. para esses. mê.não está mais presente em todas as letras. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem. Eles dizem. 10. Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso. nesses contextos verbais. rê. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. Por outro lado. para facilitar o uso do princípio acrofônico. Em Portugal. Por exemplo. para alguns falantes. do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. fê. S entre duas vogais tem o som de "zê". Em inglês o nome significa "duplo u". em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". U tem o som de "ka" e não de "cê". W e Y. mas para outros tem apenas o som de "tê". para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto .por exemplo. é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). como K. etc. nê. Alguns dialetos (por exemplo. lê. C diante de A. e isso facilita o trabalho. As considerações acima mostram que existem regras que . a letra H é exceção.

se alguém quisesse escrever "kaza". aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. Ao ler a palavra XA. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto. e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto. mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. Por exemplo. Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. dará à letra X o som de CH.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos. porque de acordo com as normas da nossa língua . a partir da análise dos dados. um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado. Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente. teria diante de si muitas alternativas. 11.

vai da esquerda para a direita . Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque".em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. uma vez que esse som pode ser representado também por CH. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada. a "drentu". ou seja. o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ. Algumas crianças. Quando se diz "andano" e "drentu". 12. Mas. é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. no caminho inverso. indo dos sons para as letras. muito preocupadas com o traçado das letras. quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita. Não basta. Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. o caminho é outro. CHEQUE. Por outro lado. significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem. saber que X no início de palavras representa o som de CH. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. XEQUE/CHA. uma vez que o movimento <126> da mão. Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler. nesse modo de escrever. por exemplo.

As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. ritmo. Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. Quando falamos. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação. volume. Depois. o acento. Mas. o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. indicada pelo espaço em branco.e. duração e ainda a nasalidade. a qualidade de voz.) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases. fazemos algumas separações. na escrita. pontos) da escrita. corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala. etc. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. O importante é permitir uma leitura clara. A segmentação de palavras na escrita. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e . Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. velocidade. 13. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. na forma correta.

No esforço para ler. deve ater-se apenas à escrita. 15. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil. todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. 14. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras. O critério semântico ajuda muito. Nem tudo o que se escreve são letras . mas é fácil na escrita. De acordo com as normas ortográficas. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente. mas não resolve todas as dúvidas. Para chegar lá. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura.que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. como conhecedor da língua. Cabe ao leitor. Para tal.

A letra A com um til representa um som diferente. 16. embora façam isso de maneira muito precária. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. às vezes. representam também elementos prosódicos. ou seja. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. um A nasalizado. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita. Outras marcas como ponto de interrogação.Além de letras. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia. acentos e outras marcas. O ponto final representa uma pausa longa possível. etc. que é preciso conhecer. Porém. As vírgulas servem. para indicar pausas ou elementos parentéticos. sobretudo relacionados com a entoação. reticências. a escrita usa sinais de pontuação. mostrando se são abertas ou fechadas. exclamação. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. o que bloqueia o processo de decifração. A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . mas nem sempre necessária.

vai ou não encontrar na escrita. saberão concatenar as palavras devidamente. isto é. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. essa é uma questão complexa. Essas unidades formadas da soma de palavras. No sistema alfabético. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. as letras representam apenas os segmentos fonéticos. precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. No fundo. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. Na prática. por exemplo. Como vimos. aaaan tiiii-gooo. e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. comparada com a fala. Dado que nossos leitores são falantes do português. como o grupo tonal por exemplo. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores. na alfabetização basta o professor falar. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. .

e não a partir das possibilidades articulatórias do homem. > Se deixarmos de lado a ortografia. revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo. podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. 17. Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos. Por outro lado. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). 1992c. Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — .

em primeiro lugar. Pode-se transcrever. pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. Dessa forma. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. com a qual os alunos começam a escrever. Não obstante. é preciso ter. E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente. as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. por exemplo. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. como também no processo de aprendiza gem da leitura. os conhecimentos . A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita.há melhores sistemas para isso. Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente. Para tanto.

cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio. Para ensinar língua portuguesa. <130> Um professor bem-preparado. Como professor alfabetizador. precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como . é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. e esses conhe cimentos são básicos. Como educador. Sabe o que o espera pela frente. Para ensinar alguém a ler e a escrever. Os < CAGLIARJ. é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. o professor precisa ter uma formação geral. e menos fácil e comum ainda entre os professores. porém. com competência técnica. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. 1992c e 1 99 6h. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho. Se acontecer algum imprevisto. metodológicos e psicológicos. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos. saberá como se comportar. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. é uma questão não tão óbvia.

Ele não precisa de "pacotes" educacionais. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros. mas da sua competência. vendo as questões não do ponto de vista metodológico. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. O professor precisa libertar- . capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. E se quiser escrever a mesma palavra. no entanto. a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. muitas informações. basta observar que sons a palavra tem.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. um aluno precisará descobrir. Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". Com apenas esses conhecimentos. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve. O conhecimento de como a escrita. Nessas circunstâncias.

para que esta autonomia possa se sustentar. Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. como ensinar os grupos consonantais. etc. essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho. o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado. sociolingüística. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área. No entanto. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. que pode e deve ser aproveitada.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. Mas.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . etc. para isso. Aos poucos. semântica. como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba.

Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. precisa saber .trazem. escrita e leitura e quais os seus usos. Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las. fala e escreve. refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. Para alguém conseguir ler algo. Deve procurar explicitar. que serão passadas oportunamente para os alunos. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. o que faz quando ouve. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. aprender a ler é o segredo da alfabetização. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. Se o professor sabe ler. isto é. Deve. porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas. <132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. sobretudo. através de pequenas regras. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras.

decifrar a escrita. Cada letra representa um valor abstrato. Antes disso. de acordo com as normas ortográficas. como os sinais de pontuação. embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). "E" representa o mesmo valor de "e". De acor do com o sistema de escrita. em alguns diacríticos. variando esses caracteres: "SELO" e "selo". Quando se lê. Por exemplo. é possível escrever a mesma palavra. que pode ter inúmeras formas gráficas. como os acentos e o til. Por essa razão. apresenta-se. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. a título de sugestão. indo da análise de letra por letra e . a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. A escrita representa sons da fala. e em marcas. logo adiante. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. e. o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. porém. Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras. 1. o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. Ler não é o mesmo que escrever. o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização.

Finalmente. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. Em seguida. até compor o resultado final. deverá resolvê-las antes. Precisará. Depois. como falante nativo. escreve com facilidade. é preciso verificar as alternativas possíveis. Em primeiro lugar. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). Feita a decifração. perguntando ou procurando no dicionário. que o aluno pode checar. o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. Entretanto. Qualquer falante. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. o procedimento é diferente quando se escreve. É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular. . Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra. ou seja. então. leva-se em conta a ortografia. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral. consultar um dicionário. ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece.de combinações de letras. Quando se trata da palavra isolada.

precisará esclarecê-lo. porém. Explicar o que é uma letra . seja ela familiar ou não. E é assim que os alunos devem aprender. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma. Como. sem rodeios.de qualquer dialeto. Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. É preciso ir direto ao assunto. Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. 2. O professor precisa explicar cada uma dessas noções. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. ou seja. Ao escrever. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. o sistema também é fonográfico e usa letras. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. mas essa não é uma leitura produtiva. como se fossem glifos. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. caracteres ideográficos. procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve.

Toda letra tem uma forma básica. A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos. mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas. e que uma letra sucede a outra. tal qual aparece no alfabeto. Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. É . e não letras em tamanho grande ou pequeno. Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. Aliás. e a seqüência é da esquerda para a direita. Corno as letras são dispostas no espaço. <135> em linhas. elas têm uma direção fixada por esse espaço. linha por linha. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita. apoiadas na linha-base horizontal. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo. que serve para distinguir um caractere de outro. da esquerda para a direita.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). Com relação aos usos da escrita. no alfabeto de letras de fôrma. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. As letras são escritas separadamente. através do reconhecimento do que é letra e do que não é. mas são interligadas na escrita cursiva. da direita para a esquerda.

distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética. É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. para "enriquecer" a escrita com mais idéias. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. de outras formas de escrita. ainda. composta de letras e seguindo uma ortografia. Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. Enfim. o que são palavras isoladas e o que é um texto. tais como numérica. antes de se ensinar as relações entre letras e sons. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. simb&lica. ele não saberá ler e . Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra. as que utilizam sinais e marcas. As vezes. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração. e onde terminar. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. É preciso. tudo o mais fica comprometido.necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito.

E. a segmentação é possível. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . observando a linguagem oral. 3. nesse caso. embora represente uma idéia só. Para saber como segmentar uma <136> palavra. a segunda. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão".não poderá ser considerado alfabetizado. há duas estratégias importantes: a primeira. Por exemplo. "assistir ao filme". etc. quem não sabe tem de perguntar. Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão". mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. "ver televisão" "consertar televisão". Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras. que deverão escrever. sem muitas dificuldades. o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". quem sabe sabe. é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. A palavra final será sempre dada pela ortografia. ou reproduzir graficamente o traçado de palavras.

começará pelo nome das letras.. Decorar os nomes das letras é importante. pelo menos as letras iniciais do próprio nome. através de exercícios de memória. se houver segmentação. no caso de "macarrão". mesmo antes de entrar na escola. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. porque as crianças costumam ir aprendendo. pode-se ter "maca". porque esse é um procedimento encontrado em livros. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão". a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto. para que os alunos possam consultar sempre que desejarem. 4. Em geral. Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes. Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons.televisão". mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". mas não na escrita comum do dia-a-dia.. mas o professor não irá exigir isso. Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha. Porém. . Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado.

o famoso bá-bé-bi-bó-bu. proceder a uma análise geral da palavra. pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. ASA. Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança. pode-se ter palavras diferentes. deixando de lado o método das cartilhas. pode-se ler a palavra corretamente. ou até mesmo a mesma palavra. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações .). O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. o professor pode programar aulas e material. Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta).nos quais os alunos recitam o alfabeto. etc. Nessa atividade. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm. tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. Por outro lado. como AMOR e ROMA. <137> Poderá. Entretanto. mas se a leitura for feita da direita para a esquerda. se quiser. dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem.

entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita. JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). de tanto escrever palavras com "pedacinhos". sentem-se embaraçados e confusos. Desse modo. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo. em vez de uma série de regras . quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. Levando em consideração esse estudo em anexo. Como resumo e conclusão das reflexões. Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. As cartilhas jamais pensaram nessas coisas. deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria. É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. como a variação dialetal e a ortografia.

mas pode ser muito complicado quando.parecidas. não uma ordem pedagógica. Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler. As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. A própria natureza das letras. Somente quem conhece o . Essa é uma ordem de análise científica. é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita). Em primeiro lugar. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil". para letras diferentes. escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. Para um aluno principiante. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. observando esse fato na fala. e vice-versa. Uma incursão por esse território será feita a seguir. ele tem de decidir como escrever. na decifração ou na escrita. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. mesmo quando estão pensando na leitura. pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas.

Entretanto. O. U) das demais que representam consoantes. I. E. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras. é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. nessas circunstâncias. tudo é igualmente muito difícil. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. Para o principiante. Quando se fala em decifração.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. Sempre que se . Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. para si. é mais fácil ou não. subentende-se leitura. sabendo das dificuldades futuras. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. No início.

semelhantemente à letra E). BELO. como em: CAMADA. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. EMPRESTADO. Veja os exemplos: FERE. e somente em palavras derivadas. Exemplos: DELE. As vogais mais difíceis são o E e o O. BANHA. ainda. BANANA. DELA. é comum a letra . ou o NH. o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). BELEZA. A letra A. quando nasalizada. Em seguida. pode gerar a formação de ditongos. juntamente com o M. Em sílabas átonas. ser lida com o som de "i". ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste). tratemos da vogal oral A. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas. Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u". como em ACHARAM. TINTA. como CAFEZINHO. "féri". BANHA. a letra E pode. Em sílabas átonas. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. Exemplos: JUNTO. "imprêstadu".

PENA. quando seguidas de M. COMIDA. quando seguidas de M. etc. TUMBA.O ter o som de "u". que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. podem ditongar-se com "i". as vogais O. COZINHA. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. ZONA. ONDA. e a consoante nasal pode ser uma velar. ocorre diante de outra vogal. Em final de palavra. podem ditongar-se com "u". ENTRE. UMA. CANA. MÃE. como nos seguintes exemplos: VEM. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. ACHARAM. SONHA. COMA. U e A. VIME. CANTO. JUNTO. em final de palavra. VINDA. Porém. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. UNA. Por outro lado. toda vogal com til representa um som nasalizado. como em: LÃ. NH). FOGO. as vogais E e I. Assim. VIM. UNHA. LEÕES. CIDADÃOS. por sua vez. LEME. PÕEM. BOM. Confira os seguintes exemplos: FOCA. OMBRO. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. . N. LIMPO. VINHO. ALGUM. embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. Finalmente. e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala. LENHA. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O. a qual. CINEMA. BANHA. EMBORA.

etc. Nesse contexto. FRANGO. LH. JOVEM. "lhê" e "nhê"). Exemplos: POTE. são pronunciadas com um "i" optativo. e a letra Z. Exemplos: CHINA. de "çê". HÁBITO. Em final de sílaba. BROTAR. Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. NH. ADVOGADO.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. A letra Ç tem sempre o som de "çê". DADO. AJUDAR. OBJETO. FACA. HERÓI. F e V. Como parte de um dígrafo. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". Com relação ao primeiro grupo. D. Exemplos: HORA. Terceiro grupo: L e Z. mais Ç e J. TRABALHO. T. Segundo grupo: P B. VACA. As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. e a letra J tem sempre o som de jê". estão as letras L e Z em início de sílaba. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). e a letra Z tem sempre o som de "zê". LIVRO. a letra L tem o som de "u". POÇO. TATU. No terceiro grupo. RITMO. BOLA. VENHA. a letra L tem sempre o som de "lê". Em final de sílaba. A . a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). HINO. modifica o som da letra que a precede. Exemplos: MAÇÃ. PALHA. podem-se ter três grupos.

Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. Nos demais casos.<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. TÉCNICA. como no caso dos dígrafos SC. A letra S não representa som nos dígrafos SC. SÇ e na forma de plural de certas palavras. CIDADE. a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. EXCEÇÃO. tem o som de "kê" (diante de A. I ou de outra consoante. Com relação ao primeiro grupo. U ou de outra consoante). como em SAPO. em . XC. PASSO Entre duas vogais. depois de consoante e no dígrafo SS. ou seja. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos. NASCIMENTO. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. tem o som de "zê". COR. terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R. PSICOLOGIA. entre uma consoante e uma vogal. segundo grupo: S. na mesma sílaba. Z e M. CRISE. S. SELVA. Quanto ao segundo grupo. NASÇA. CABANA. Exemplo: MESA. O. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura). CLARO. Exemplos: CEBOLA. SÇ ou XC.

ANIQUILAR. QUENTE. em alguns dialetos (cf. No entanto. em algumas palavras. Nesse caso. "as casas amarelas foram vendidas"). ou seja: "zê" e "jê". GUIMARÃES. O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . Exemplos: GENTE. Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. no meio da palavra. MESMO. GULOSO.certos contextos. AQUELE. GARRAFA. diante de outras letras. em outros. AQUI. mas. tem o som de "çê". LÍQÜIDO. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. GRAÇA. DESDE. a letra S. tem outro tipo de som ("guê"). em final de sílaba. SAGÜI. Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. Em alguns dialetos. Confira os exemplos: BESTA. a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. TOMÁS. FREQÜENTE. GIRAFA. tem o som de "chê". uma vez que o U é pronunciado. Não há regras. a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. não-dígrafos: AGÜENTAR. SATANÁS. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. GLÓRIA. GOTA. Com relação ao terceiro grupo. se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. O e U. IGNORAR. COSTA. <142> dígrafos: GUERRA.

O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos. RATO. Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. CRAVO. POBRE. RIO. Quando escrevemos. por exemplo). além disso. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. Em todos os casos. o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. É preciso levar em conta. Em português. Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. BRASIL. MURRO. costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra. a variação é menos problemática (final de sílaba. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. quando falamos. ainda. ora desvozeada (surda). pelo contrário. separamos as palavras com um espaço em branco. FERIR.diferentes dialetos). MAR. Z e M. CERTO. CARRO. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. Exemplos: CARO. Nos outros contextos. RUA. PLANTAR. S. MURO. mas. . não é isso o que acontece. PORTA. sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora).

tem-se uma sílaba átona . nos exemplos 3 e 4. No exemplo 2. quando se juntam dois "as". Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos. um deles cai. o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. seguida de uma sílaba átona inicial. houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo. têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial. No exemplo 3. No exemplo 1. ocorre uma sílaba tônica final. Porém.Vamos ver uma série de exemplos.

O que acontece. ocorrem duas sílabas tônicas. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. com a formação dos ditongos.final. Porém. como refletir sobre as relações entre fala e escrita. Do ponto de vista da decifração e da escrita. seguida de uma sílaba tônica inicial. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9. formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). porém. nos exemplos 3 e 4. no contexto de juntura. mais uma vez. nos demais casos. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. como mostram esses exemplos. No exemplo 4. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. Considerando apenas o exemplo 1. O exemplo 2 é de difícil análise. A dificuldade mais . Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica. Essa regra inclui todos os exemplos estudados. não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. além disso. como no exemplo 3. uma vez que as sílabas se fundem. e se for. átona. Nota-se que. E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam.

uma vogal. é saber se devem ou não escrever o artigo "a". Nesses casos. no início da palavra seguinte. "toda a amizade". o trabalho de segmentação da fala. mas não na escrita. em que caem dois "as" na fala. como já se viu antes). em final de palavra. Por exemplo. subseqüente). a presença do artigo não é obrigatória. a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando. formando uma sílaba única e dificultando. Em alguns casos. No primeiro caso. .comum que os alunos enfrentam. assim. encarando o problema por outro ângulo. mas muda levemente o significado da frase. em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. Confere. o falante quer marcar uma oposição. Porém. há uma consoante e. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia". ainda. Com relação à decifração. no segundo caso. apenas enumera fatos. Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. mais raramente. Por exemplo. a consoante final junta-se à vogal inicial.

quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. CARÁTER AGRESSIVO. ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê").quando se encontra em juntura intervocabular. nesses casos. Concluindo. Quando o aluno analisa sua fala contínua. mas. a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. As letras S ou Z. RAPAZ INFELIZ. pronunciando a palavra isoladamente. Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. TRÊS AMIGOS. Em final de palavra. etc. quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. depois que a segmenta. no início. têm sempre o som de "zê". se a nasal for precedida por I ou E. POR ALI. de outro. depara-se com outro. independentemente do dialeto. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte. DEZ AMIGAS. . VIR AQUI. encontra um tipo de som. etc. se o M for precedido por outra vogal. ocorre uma consoante nasal velar. descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". Porém. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. Nesse caso. em juntura. o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. troca-se o som de RR por R. Veja os exemplos: CASAS AMARELAS.

pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. permanecendo apenas sílabas diferentes. PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". o Z é opcional. VIM AQUI. Mesmo que o aluno . não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações. em juntura intervocabular. os exemplos acima.Veja os exemplos: VEM AQUI. Uma simples explicação. VIERAM AQUI. Assim. "ir-mã-i-fe-liç". etc. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. "vi-é-rãua-ki". IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). "bõu-a-mi-gu". Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. BOM AMIGO. etc. HOMEM AMARELO. em vez da consoante nasal indicada para a fala. "põi-a-ki". etc. no entanto. Como se disse. é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita. mesmo não havendo a letra M na escrita. de acordo com a forma de cada palavra. pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. Isso significa que. RUM AMARGO. sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez. contudo. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). essa regra. A mesma regra aplica-se quando. diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. A falta de explicação.

que consiste . PROXIMO. etc. que ele aprenderá mais tarde.não as aprenda. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. FIXO. Como temos dito várias vezes. dependendo do dialeto: EXTRA. a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". Quando ocorre em final de sílaba. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". Para chegar à conclusão final. quando o leitor se encontra diante de casos assim. O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ. EXAME. tem o som de "kç" ou "kch". nesse contexto. pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê". o aluno procurará uma e acabará confuso. EXPLICAR. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". julgando-se incapaz de aprender. A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. "eichçeçãu"). Em final de palavra. o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil. etc. como nos seguintes exemplos: VEXAME. etc. saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR). Sem nenhuma explicação. no meio da palavra. PIREX. deverá lançar mão de outro expediente. LATEX. Porém. o que torna sua leitura fácil. dependendo do dialeto: TÓRAX. Aqui.

Nesse caso. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". uma leitura possível seria "ficha". na realidade individual de cada aluno. Portanto. Se produz. dependendo da variedade lingüística em uso. sobretudo quando ele está lendo sozinho. deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula. Porém. Deverá procurar então uma outra alternativa. ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno". Finalmente. Porém. podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. . confrontando com o contexto. a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto. as diferenças entre escrita e fala aumentam. Por exemplo.<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. Se não produz. ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç". o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali.

OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. ou de a forma lexical de uma palavra. A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. quando os alunos escrevem P em vez de B. por causa da variedade lingüística do aluno. F/V É curioso. pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. Alguns casos são de fácil decifração. T/D. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. F em vez de V e T em vez de D. Para o professor e para o aluno. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. ou seja. ser diferente da forma escrita. em princípio. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). Essa afirmação . em geral. <147> De modo geral. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. na fala.

logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra. Então. A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. Assim. Em seguida. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. produzir uma fala sem sons sonoros. se o aluno for escrever "livro". Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. Por exemplo. em outras situações. Nesse caso. Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. assim como as fricativas. Será mais dificil quando não houver um par mínimo. como a troca de V por F não muda o significado.. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras". o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra. os imigrantes poloneses).). assim. assim como as laterais. as vibrantes podem ser sonoras ou surdas. sempre que achar que precisa escrever F. deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V..não faz sentido. começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. a única solução é o aluno decorar a ortografia. porque analisando tudo o que as crianças fazem. Nesses casos. .

LIVRO. etc. etc. CLARO. TENHO. O ou U: JACA.Passando a outros casos. JUNIOR. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. HAJA. como em: PLANTA. em início de sílaba: MAPA. CORUJA. que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. na fala do aluno. Porém. ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. etc. Quando faz parte de grupos consonantais. CANA. esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. GLÓRIA. Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. CAMA. Pode. JOVEM. CORRIJO. então. BANHO. LADO. Em outras palavras. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. "nê" e "nhê". . Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. Por isso. o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. O mesmo vale para os sons "mê". porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. pode ser fácil se. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). NATA. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos.

Nenhuma palavra começa com Ç. NHEENGATU. QUINTO. HR. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A. pode-se ensinar aos alunos que. no início de palavra. O ou U (não seguido de outra vogal): CADA. só se escreve um R. etc. como por exemplo. etc. como em: QUATRO. não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. nunca dois: RATO.VIAJA. etc. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i". etc. Do mesmo modo. GARRAFA. etc.). (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. COLAR. Há outros modos de ver o problema. Por outro lado. Por exemplo. nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. RIO. FREQÜENTE. NHOQUE. etc. etc. GUIMARÃES. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. etc. TH. GULA. INÍQUO. há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. etc. numa mesma sílaba.

Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR). IAM. e os finais oxítonos. FARÃO. BANCO. se essa consoante for P ou B (M é muito raro). Com relação às vogais. "ó". quando identificados na fala. Exemplos: FIZERAM. SÃO. ENLATADO. como: FERTILIZAR (de fértil). As que terminam em . no meio de palavra. UTILIZAR (de útil). Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM. ENVIAR. porém: MARQUESA (de marquês). etc. Exemplos: BELEZA (de belo). Exemplos: CAMPO. entre a vogal e a consoante. ACHARÃO. etc. INTEIREZA (de inteiro). CANTO. ESTAVAM. entre a vogal nasalizada e a consoante. os quais. BOMBA. Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B).ÃO. ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante.terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR).s são escritas com -ESA. "é". a ortografia obriga o uso da letra N. É relativamente fácil mostrar aos alunos que. a ortografia obriga o uso da letra M. porém: ESTÃO. passam a . INGLESA (de inglês). ONÇA. "ô". é mais fácil escrever os sons "é". com . etc. INFELIZ. Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA.

Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. houver exceções às suas regras. ESQUADRA. ISCA. "adjetivo". Nesse campo. também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. Em geral.corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante".. Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL. por essa razão. etc. usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO. ALEMÃO. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites. O professor não deve se preocupar se. "palavras primitivas . ISTMO. ele será escrito sempre com til: LÃ. ÍMÃ. por acaso. porém nas sílabas átonas é muito difícil.. Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. ISLAMITA. etc. ISLANDÊS. etc. em alguns dialetos). ÓRGÃO. são menos interessantes na alfabetização. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". Como exceção temos ISQUEIRO. IRMÃ. TALISMÃ. ESPADA. Por exemplo. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. ao encontrarem o som de "à" em final de palavra. Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til).

Às vezes. deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. Dentro desse quadro de preocupações.<150> e derivadas". OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como. Entretanto. Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos. "sílabas tônicas e átonas". Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. o sistema alfabético nos leva a crer). o conhecimento do funcionamento da escrita. "paroxítonas e oxítonas". Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos. cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta. da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. às vezes. etc. .

Em alguns casos. em certos dialetos. e não da escrita. As vezes. Z ou X (X somente no meio da palavra). EXTRA. como parte final de alguns ditongos. RAPAZ. "çôu" — SOU. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. como em ALTO e AUTO. . mas esses casos são raros e ajudam pouco. etc. a seguir. é escrito com U. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L. às vezes. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. Vejam-se. como em CASAS. quando se consideram os fatos a partir da fala. DESDE. será representado por S. alguns casos. justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. "mêu" — MEU. porém: "çaudadi" — SAUDADE. "méu" — MEL. esse "u" é escrito com L e. "çóu" — SOL. representando o som de "u". como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. etc. e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba.

"djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". quando pode ser representado por C ou por QU. mas esse . Um caso mais simples é o do som "zê". Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. em início de palavras. Diante dos SONS "j" ou "e". só se emprega a letra Z. Nos demais casos. Nos demais casos. Só se usa RR. em alguns dialetos. Notar que algumas diferenças de fala. o aluno escreverá sempre um R só. nunca C. A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. Ç. O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. C (somente diante de I e E). A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. O ou U. Z (somente em final de sílaba) e X. que pode ser escrito com Z. quando o som estiver entre duas vogais. será usado apenas o J. que pode ser escrito com S. Porém. S ou X. há pessoas que falam "tchia". O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. Nesses casos. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande.Mais um caso dificil é o som de "çê". só se escreve QU. por oposição a R. na verdade. não trazem dificuldades para a escrita. Por exemplo.

U ou E. Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I. Portanto. SOCAR. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas. o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. FICAR. o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . mesmo sem eliminar sua pronúncia original. cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). Porém. Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". <152> Com relação às vogais. nos demais casos. Q Aqui. a escrita será provavelmente com X. Por exemplo. Como se disse anteriormente. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. como COLOCAR. etc. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. Apesar do que foi dito acima. a única saída é recorrer à ortografia. não há regras para facilitar o aprendizado. Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita.

por exemplo. Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. TRISTEMENTE. ALEGREMENTE. Por exemplo. ou melhor ainda. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita.palavra". BONDOSO. FARÃO. SIMÃO. LIMÕES. POTÁVEL. LEÕES. SIMÕES. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). como HORROROSO. etc. "prefixos". FERRÕES. MELÃO. . Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". dependendo do dialeto. ESCOLHER. FORMOSO. etc. etc. ou PÕE. e se souber como se escreve esse sufixo. TERRÍVEL. PREGUIÇOSAMENTE. ESPADA. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. HORRIVEL. constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. INCRÍVEL. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. Conferir: PÃO. Já se falou antes. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. DANOSO. -OSA. etc. que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk". ESCORREGADOR. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. Outros exemplos. ESPÍRITO. PÕEM. vendo as seguintes palavras. TÃO. e não de outra forma: ESCADA. são escritas com ESC.

sobretudo . CORRENO. Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular. Portanto. em vez de escrever: ANDANO. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. etc. FALANO. se possível. FAZENDO. N e NH em início de sílaba é fácil. Escrever M. em seus dialetos. Isso acelera o domínio da ortografia. FUGINDO. FAZENO. o aluno. FUGINO. Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. usando a terminação -NO e não -NDO. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. eles não pronunciam essas consoantes nasais.Alguns alunos falam o gerúndio. aprenderá a escrever também ANDANDO. escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. apenas nasalizam a vogal precedente. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO. Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. FALANDO. ao aprender o sufixo do gerúndio. CORRENDO. até mesmo a extensão dessas considerações. Porém. porque.

em primeiro lugar.numa fala mais rápida. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. para esclarecer. Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. <154> . a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. escolhendo exemplos apropriados. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade. a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. seguindo o exemplo da palavra MUITO. propostos pelo professor e pelos alunos. palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações. Com relação ao problema da nasalidade. menos formal. anotando em colunas.

Logo no início. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. inclusive de como a escrita funciona. As inversões de letras representam os casos mais comuns. ou mesmo TAMA em vez de MATA. Nesse caso. quem tiver dúvidas. Portanto. não adianta ficar . E o caso de quem escreve ON em vez de NO. Na verdade. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. Em último caso. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. uma palavra) não ajuda muito nesse momento. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. A regra de identificação semântica (uma idéia.

são necessários alguns conhecimentos e. de escrita. ainda.pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. para escrever. do que a escrever. Muitas . como faz tradicionalmente o método das cartilhas. alguns complexos. para ler. as relações entre letras e sons são muito complexas. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. são necessários conhecimentos complementares. além dos relacionados à leitura. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. pior ainda. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento. se misturar as duas coisas. Isso mostra. Resumindo. acabará com sérios problemas de leitura e. A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler. Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. pode ir tentando escrever. mas.

Um aluno aprende umas poucas palavras-chave. Então..). e acabam sem saída. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. que fazem coisas certas. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram. a . a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto. Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria. por essa razão. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda. para a escola. enquanto eles fazem tudo errado. umas poucas famílias de sílabas geradoras. senão aprende errado. não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. Nessa situação. para o professor. fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI. Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler.vezes. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever. encontramos alunos que. para o governo e para os pais. é incompleta e.. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si.

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. não constituindo. juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. "Ele vai para casa". Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam.Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. Cada figura ou foto está representando coisas do mundo. isto é. O professor pode explorar esse tipo de atividade. . ou de alguém andando. Nesse momento. Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. o processo de decifração e de interpretação da escrita. posso representar uma frase como: "Vou para casa". linguagem escrita. e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). escrevendo palavras. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa". As figuras transformam-se em escrita. etc. portanto. Podem testar a leitura. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. mais o desenho da casa. "Irei para casa". E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. Escrevendo desse modo. fazer o desenho de um caminho. pequenas mensagens e até pequenas histórias. pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. Porém. nessa seqüência. frases.

podem tentar escrever usando . as grifes. os escudos. Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. por exemplo. recortar figuras de objetos. as bandeiras. Pode exemplificar como. pessoas. etc. como os logotipos. Depois. Para isso. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. animais. com desenhos) é usada na vida real.Recortando material de jornais e revistas. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras. Podem. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. além de desenhos que representam figuras de objetos. e colocá-las em colunas. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos.

vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita.o sistema de escrita que inventaram. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. essa tarefa será resolvida apenas em parte. Com isso. onde vivem milhões de pessoas. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . pois eles começam a ver que. motiva-os a progredir. uma vez estabelecido. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. Além disso. sem mostrar as figuras a que eles se referem. todos se comunicariam apenas através dele. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. usando apenas os símbolos inventados. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. Em seguida. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. como também já conseguiram ler e escrever. ou seja. de certo modo. há muito tempo. enfim. os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. Exceto quem inventou o símbolo. Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade. Essa imitação do que aconteceu historicamente.

Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. futuramente. através do uso de rébus. bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras. dependendo da forma como o sistema se apresenta. e outro constituído de caracteres arbitrários. como se explica com o exemplo a seguir. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras. mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras. Isso irá facilitar. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. como os de um código secreto. As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje.secretos. Pode-se escrever a palavra . nesse momento. e não apenas de letras.

Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. Através dessa estratégia de escrita. assim. pode-se também escrever essa mesma palavra. o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem ."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. Temos. Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão". Vão ser necessárias três etapas: primeiro. a questão é muito mais complexa. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão". um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. Por outro lado. consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. será preciso reinventar as letras. D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão.

como as fricativas). Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa". prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. segundo. . então. aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. Agora. duas estratégias de observação. aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala.às nossas letras. mas basta percorrê-lo uma vez. Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). a vogal "a". achar as letras correspondentes. segmento por segmento. Desse modo. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. ou seja. passo a passo. pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som. particular e distintivo no sistema. Esse pode ser um longo caminho. destacamos um som na primeira sílaba. Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. com as letras convencionadas. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta"). na ordem correspondente e. escrever a palavra. terceiro. há duas maneiras principais. Por exemplo. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala.

tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". Seguindo esse procedimento de análise. repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas. e outro diferente na segunda. a consoante inicial das sílabas. de uso muito comum. as rimas são dadas não por sílabas completas. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral. na segunda sílaba da palavra FES-TA. Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente. acompanhado dos devidos comentários. O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). na segunda. A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. Na primeira abordagem. Por outro lado. é fazer levantamento das rimas. "aaa". o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. Uma delas.que é o "ééé".

Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. pode começar escrevendo a palavra "camelo". Além disso. etc. SINO. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. Por exemplo. Por exemplo. CINEMA. etc. Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. DEDÃO. ACHARÃO. um desenho não representa mais uma palavra inteira. através do princípio da acrofonia. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição. associar o desenho à fala. mas apenas um pedaço. Procedendo assim para cada som da palavra . <168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. o som inicial do nome do desenho. DISTINTO. Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. DISPUTAR. SITIO. CIGARRO. etc. IRMÃO. de preferência apenas um som. SINAL.CORAÇÃO. DESMONTAR. Nesse segundo modo de escrita. DESCARREGAR. DISTRIBUIR. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo). DESCASCAR.

A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. Como se vê. Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. Por exemplo."camelo". um assunto puxa outro. pelo som de "u". o mar ("m"). acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . está perfeito. um cabide ("e"). Se um aluno preferir usar um cacho de uva. Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão. um elefante ("e"). por ordem. Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. razão pela qual ele optou pelo som de "o". E é assim que deve ser. O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. uma lata ("L") e um ovo ("o"). um avião ("a"). e o aluno. representando o som "u" no final da palavra "camelo". e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras. como um dos resultados possíveis. mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar.

E sons sem significado não formam palavras.. descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. paredes. No todo. descobrimos que essas idéias formam novas palavras. chão. perde-se o significado original. na escrita. Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. etc. "ka" significa. Ao fazermos isso.. considerando cada pedaço (sílaba) em separado. Por outro lado. em português. que fazem parte da idéia mais geral. A escrita revelou uma idéia. como telhado. Por exemplo. a língua que falam. porta. vendo a foto de uma casa. isoladamente. Portanto. podendo ou não resultar outro significado.representavam. "aqui". as palavras sempre se compõem de idéias e sons. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando.). com os sons "kaza". Assim. "cá estou eu". Assim. temos "ka-za". As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. quando segmentamos os sons da palavra "casa". Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . Ao fazer isso. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. janela. gerando novas idéias (significados). podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. existe um significado. mas "za" não significa nada (talvez um apelido. são apenas ruídos. Porém.

assim. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil. passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. mas também para terem um . seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. Para isso. que pudesse ficar bem visível. chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. dos grifos para as letras e. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. Porém. do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. Quando se chega às letras. talvez acima da lousa (ou quadro-negro).. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos. ensina-se o nome das letras. Apresentado o alfabeto. seguindo a ordem alfabética. Sempre se descobre algo novo.. na prática. é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. O alfabeto Aos poucos. não só para que os alunos o aprendam.idéia ou não é muito complicado e.

mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura. Portanto. O professor pode. Portanto. O que vale sempre é o resultado final. pode-se decifrar a escrita de uma palavra. será algo extremamente raro. sem grandes dificuldades. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. apresentar uma palavra na forma escrita. por exemplo. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. se o resultado final é uma palavra desconhecida. sem dizer do que se trata. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. como falante nativo. ou seja. Para ilustrar o que foi dito. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). sabendo o nome das letras.referencial dos sons que as letras têm. a palavra. Então. esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. se acontecer. pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). cujo significado é evidente. suponhamos que o professor . mas isso não acontece na alfabetização ou. que o aluno deverá reconhecer facilmente. Descobre-se que a tentativa não deu certo. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. e não apenas sons. e pedir aos alunos para decifrá-la.

como também ensina-os a ler palavras simples. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas. a. Está descoberta uma palavra conhecida. agora. esse. o professor pode escolher palavras. identificar cada letra com seu respectivo nome. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". Com os nomes das letras. Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. mas já é um grande avanço. Não é tudo. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. <171> dizer que palavra está escrita. a. analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. Com essa técnica.escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c. é "kaza". O resultado. E sempre preferível dar uma . os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas.

mesmo que complicada. Portanto. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. a aquisição da linguagem oral e da escrita. as noções básicas de fonética e fonologia. Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões.boa explicação. metafórica. disfarçar. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. a escrita e a . Se os alunos não entenderem direito (ou nada). é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. a ter de camuflar o problema. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. os alunos terão outras chances de aprender. Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. não faz mal. o modo como a fala. incompleta e meio deturpada. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. Ao iniciar a decifração da escrita.

numa ordem predeterminada. São os pares mínimos. o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. quando os alunos já tiverem certas noções básicas. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. Em geral. há um tipo de exercício. como analisar e interpretar os erros. como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. o que é decifrar uma escrita e como fazer. Somente em séries mais adiantadas. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala. <172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler. muito usado pelos lingüistas. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados .leitura funcionam e quais os seus usos. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos.

porque representam palavras de significados diferentes. Com o par mínimo falado. que significa uma fruta e uma parte de roupa). basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga".se as letras diferentes que representam um mesmo som. relacionados entre si ou não. por exemplo. Do ponto de vista da fala. já se tem uma dica de que som ela representa. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som. observando a fala. destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. "casa/caça". destacam. com o par mínimo escrito. quando já se sabe o som. explicando que no próprio nome da letra. O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. etc. Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico. ou de que letra terá de ser usada para escrever. mas do ponto de vista da escrita. formariam uma espécie de "par mínimo". "mar/mas". Feito isso. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de .diferentes. que se opõe a M no início das palavras do par).

há uma letra. Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. etc. e que as letras. portanto. usando apenas as letras de fôrma maiúsculas. para cada lugar de escrita na palavra. como. o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes.rimas: palavras terminadas em sons semelhantes. em "ão": "avião". "habitação". <173> por exemplo. é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. fazendo colunas. O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas. Primeiras leituras de textos . para que os alunos percebam que. "ão"). "coração". Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. "irmão". o mesmo valor alfabético. nas colunas verticais. e têm. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). ditadas pelos alunos. em colunas. Como usamos muitos alfabetos.

O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos. Feito isso. Portanto. 1998a. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. então. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante. no início. dizer o que foi que leu. Porém. Em primeiro lugar. há alguns pontos importantes a serem considerados. Aqui. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. mais fiel ao texto. para si. é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler. < MASSINI-CAGLIARI.. será cobrada mais adiante. para isso. o professor estimulará seus alunos a lerem em particular. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito. Aqui. deixando sempre os alunos lerem . poderá.Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas. Assim.. <174> Com o tempo. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. o professor os levará a ler pequenos textos. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases. Uma leitura mais rigorosa. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto.).

). Se algum aluno quiser ler para os colegas. Portanto. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas.individualmente. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. o que vale é a discussão das idéias pessoais. Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. mostrando como ela deve ser feita. Nesse tipo de atividade. Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura. uma vez que os textos são. sem a correta entoação. Interpretar textos com perguntas e . etc. Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. incluindo as expressas pelo autor do texto. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância. servindo-se da leitura de textos. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. sem ritmo. em geral. e mesmo ridículo. silabando. histórias de fácil compreensão. pois é claro que estão entendendo.

receitas culinárias. curiosos. enfim. incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado. quer com relação aos variados tipos de textos. etc. Por exemplo. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura. da vida de pessoas famosas. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas. devem ler propagandas ou outro material semelhante. O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. E ler nunca é demais. Usos especiais em propagandas também são interessantes. notícias. a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. É preciso ler histórias (muitas). quer com relação à forma gráfica. porque um processo necessariamente . de montagem ou de conserto.respostas é uma idiotice. reportagens que falem de assuntos científicos. ler de tudo. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. <175> revistas. instruções de uso de equipamento. técnicos. É preciso ler jornal.

as noções básicas de um sistema de escrita. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra. Tal qual foi feito em seções anteriores. dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler. os alunos podem colecionar letras. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais. Depois. Em outras palavras. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. isto . As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. ou seja. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. Por essa razão.implica outro. em decifrar o sistema de escrita que temos. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura. do ponto de vista gráfico e funcional.

E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. Brincar de escrever. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis.é. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. sinais de trânsito. sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira. logotipos. Por exemplo. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . símbolos. e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas. como histórias e cartas. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. etc. podendo chegar a escrever textos relativamente longos. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. Até para o professor. Esse material já impresso. pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas. Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. inventando sistemas de escrita. grifes. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. colecionar pictogramas. logomarcas. ainda. Podem. que é recortado.

escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante. mas deve. Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer. escreve-se a partir .da paz com o ramo de oliveira.).). etc. aliada ao processo de leitura. o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico. pictogramas que representam palavras (banheiro masculino.. natação.. A exploração desse material.. algo familiar e banal. para a criança. pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar.. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita. sempre que possível.. andar um passo atrás e não à frente dos alunos. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares.. O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos. É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras. sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar).. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras.. lembrando o dilúvio. cartas enigmáticas. sem que eles percebam. Assim. frágil.). No primeiro caso.

ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. usando-se o sistema fonográfico. com exceção da letra h. que se traduz numa palavra. estamos diante de uma escrita ideográfica. somar os . procurando encontrar depois os sons que esses significados têm. É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra. a cada letra será associado um som. A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. <177> No segundo caso. que depois deverá compor os sons da palavra.do significado. Existem estratégias diferentes para ler e para escrever. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. AVÓ). sílabas. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. o fonográfico. Para ler. através de rébus. Tratando-se da escrita alfabética. Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. é necessário associar a cada letra um som.

Nota Português Inglês Francês.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. por exemplo. dos livros. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . Explorar esse assunto ao máximo. uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. As vezes. Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. tem sons diferentes. Contar a história do alfabeto. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. privilegiando as letras e os números. Se não der certo. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. Os recursos visuais aqui são úteis. da caligrafia. sua evolução. a história dos estilos de letras. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo. A. até que o significado apareça. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita.

Para as letras de fôrma maiúsculas. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra. em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos.). pode ser através do uso de gabaritos. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm. o traçado é feito sempre de cima para baixo e . por exemplo. um gabarito de três linhas é o suficiente. que nas de fôrma maiúsculas. como fazem os letristas. Com relação à parte gráfica.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional. ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever. dizendo. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos. um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas).

ou da direita para a esquerda. o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. <179> Explicações como essa são de grande ajuda. Todavia. Por outro lado. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. a escola . quando houver mais de um traço. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. sobretudo as de fôrma maiúsculas. O professor deve avaliar. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. na parte mais alta. e vão para a direita. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou. As crianças podem inventar alguns traços. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. descendo. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. usando o bom senso. segurando o lápis displicentemente. As letras. Letras que apresentam apenas curvas. Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente. são traçadas da direita para a esquerda. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. quando houver só curvas. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. em geral. e de cima para baixo. sem hastes.da esquerda para a direita. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio. etc.

podemos escrever na vertical. Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo. exemplificando com moedas e medalhas. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas . a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada. há várias formas de dispor as letras em curvas. Isso também tem de ser discutido com os alunos. O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra. isto é. que o leitor verá sempre numa única posição.tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. Nesse caso. ora para baixo ou para os lados. Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. estando ora com uma parte voltada para cima. Nesse caso. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. a do círculo externo.

com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. q e p é apenas a sua localização espacial. dependendo do modo como se observam as letras. o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. passar exercícios de "prontidão". Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). Por exemplo. o q em b e o p em d. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. eles podem se confundir. deve dizer que. b. em contrapartida.elas bem distintas graficamente. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. Além disso. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. para se saber o valor das letras. e. o que se consegue. B. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. menos ainda. o bem q. com a escrita cursiva. há uma notável distinção gráfica entre D. Para ensinar isso. Pelo contrário. analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a .

Porém. Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar. se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não). Copiar para aprender Fazer cópias. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos. como a letra A. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar. é algo que os alunos apreciam. essa atividade pode não só não ajudar o aluno. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. pensam naquilo que as letras representam. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. caso das cartilhas. . Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar.direita (ou vice-versa). Enquanto os alunos copiam. Faz muito bem a eles.

e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. muitos alunos estão. Seguindo essa direção. Carros de bombeiros. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada.Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. Quando o professor diz isso. pelo retrovisor. compõem todas as demais no mesmo padrão. por exemplo. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. Porém. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual. Lembrando das orientações do professor. eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. O . o S e o C de forma espelhada. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. mais preocupados em como se traçam as letras. nesse momento. o que está escrito nesses carros oficiais.

porque a ortografia naquela época permitia. Mas hoje é diferente. "çinquo" (cinco). está na hora de explicar o que é ortografia. Quando isso começar a acontecer. seja ele curto ou longo. Como exemplo. Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. como funciona e quais os seus usos. Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas. Então. que a escola costuma chamar de troca de letras. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente. "deru" (deram). ilustrada com exemplos do passado. visando sempre à redação de um texto. escrever "onrras" (honras).professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. .

"dici" (disse). Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. "assobiar" e "assoviar". "milhor" (melhor. "vaquas" (vacas). mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e. etc. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. em alguns casos. etc. "flecha" e "frecha"."homes" (homens). Como atividade de escrita. serão levados a reconsiderar o que fizeram. Ficarão mais consolados ainda quando. ao explicar a ortografia. "doçe" (doce). portanto. chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia. "filia" (filhas). é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. Com essas explicações. os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. "caminhão" e "camião". já mais familiarizados com o ato de escrever. "louro" e "loiro". procurarão escrever cada vez mais corretamente. por exemplo. À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. . em função das normas ortográficas. de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. admitem mais de uma maneira de grafá-las como. Somente depois. "aluguel" e "aluguer".

A escola. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e. todavia. Escrever. podem-se fazer gestos. quando se escreve. etc. o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. Fazer isso requer prática. desde a alfabetização. por essa razão. pedindo explicações. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. embora o gênio. como se diz. não espera que todos os alunos . o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. perguntando o que não entendeu. é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. já nasça com a arte <183> no sangue. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido. tem-se o interlocutor diante de si e. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. como qualquer arte. Quando se fala. Portanto. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente. porque isso faz parte da nossa cultura.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente.

sejam grandes escritores. Como diz um velho ditado chinês. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. sem dúvida. melhorar e. sem precisar do professor. passar a limpo. do jeito que . O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. leva anos para atingir um nível satisfatório. vale o que o aluno faz. que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante. corrigir. não basta dar um peixe a quem tem fome. Não basta dizer ao aluno que ele errou. Nos primeiros textos. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. depois. No começo. A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos. é preciso ensinar a pescar. como se autocorrigir.

ininteligível com relação às idéias e à grafia. sujo. e outros. a que a escola precisa dedicar-se. <184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. os quais deverão atender às exigências da escola. não só no aspecto visual-gráfico. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. mal organizado. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. portanto. a estruturação do conteúdo do discurso. pedagogicamente. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão. um bilhete ou um trabalho mal escrito. uma prática pedagógica muito importante. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. Com o tempo. . que irão formar livrinhos. Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. e serão feitos em pelo menos duas versões. A partir daí. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. acima de tudo. nem é preciso. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. como também levando em conta a ortografia e. produzindo textos espontâneos.ele fez. mal planejado. que serão lidos por outras pessoas.

Tradicionalmente. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos. além da caligrafia bonita. marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. a vírgula. ao mesmo tempo. enfeitadas. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. ou seja. juntamente com o alfabeto.Diacríticos. como o ponto final. Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. o ponto de interrogação. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e. os acentos e os sinais de pontuação. Esses temas serão tratados a seguir. No início. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. um layout. A arte de escrever prevê uma programação gráfica. Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos. desde a alfabetização. por causa do método das cartilhas.

script.. Porém.. ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra . Em geral. <185> deformando características gráficas das letras (isoladas). O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. Por essa razão. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem.(manuscrita.). De acordo com sua natureza. os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos. Quando os alunos estiverem na terceira série. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. ou forem mais adiantados. Além das formas pessoais de amalgamar letras. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento.

por razões estranhas. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. sofisticada. no entanto. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. charmosa. abandonaram o ensino da caligrafia.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. não tem tido a menor chance nas salas de aula. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . pode ser ensinado em séries mais adiantadas. Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso. que muitos professores. É uma pena. Parece. sem saber escrever de uma maneira elegante. complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca. à semelhança de outras. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. Caligrafia é uma arte típica da escola. essa manifestação de arte. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. elegante. No Brasil. quando necessário. Caligrafia é simplesmente escrever bonito.

cartazes. quando se escreve a linha descendente. títulos. No mundo em que vivemos. As crianças divertem-se com essa atividade e. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. Na alfabetização.espessura dos traços. desse modo. como também a escrever segundo uma cultura. é uma forma de ensinar não só a escrever. Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. e a escola não pode deixá-las de lado. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra. suaviza-se. Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. o professor pode mostrar catálogos de letras. quando se escreve a linha ascendente. vento. classificá-las do ponto de vista das . Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito. etc. etc. e. Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. tristeza. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. essas formas escritas são muito comuns. alegria. letras sugerindo fogo. enquanto se preocupam com os enfeites. força-se o traçado com a caneta.

Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno. A vírgula traz algumas dificuldades. como dividir um texto em parágrafos. as letras . em certos casos. é fácil mostrar o emprego da vírgula. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. Essas idéias básicas constituem os parágrafos. além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. com as contribuições dos alunos. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas.características gráficas e organizar álbuns. pode introduzir algumas idéias gerais. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). quando souberem. usa-se o espaço de parágrafo. Quando estes estiverem escrevendo textos. porém. coloca-se ponto final. no mundo em que vivemos. A classe pode fazer um álbum coletivo. Quando alguém disser alguma coisa. o professor precisará explicar como se cuida do layout. em seguida. seguindo algumas idéias básicas. por exemplo. como nas enumerações. Um texto fala de um assunto. também merece a atenção de professores e alunos. a marca do travessão e escreve-se a fala. mas. O professor.

quando isso é necessário. Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida. No começo. quando os alunos estiverem escrevendo histórias. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras. Nos livros. vão ter de tomar alguns cuidados especiais.. não é costume cortar palavras.) Porém. as palavras são cortadas no final de linhas.. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. (Existem regras para isso. e se acharem que não vai caber. os alunos escrevem palavras isoladas. da clareza e da beleza gráfica das letras. quando as pessoas escrevem à mão. Embora as explicações não sejam rigorosas. mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. Porém.minúsculas do alfabeto adotado. mas não é preciso fazer margem . por razões estéticas. dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. simplesmente a escrevem na outra linha. mesmo na escrita à mão. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda.

as crianças gostam de copiar. Porém. o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. provavelmente. O professor pode deixá-las fazer isso. quanto à sua apresentação gráfica. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. esses aspectos precisam ser esclarecidos. No primeiro semestre de aulas.direita. mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. O acabamento correto do texto. No entanto. no segundo semestre. Nessa hora. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens).

quer colando recortes. nomes. outros. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. quer desenhando o que quiserem. pequenos textos. O professor ficará atento a todos os detalhes. Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. provérbios. fazer pequenas cópias de versos. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa. Como sempre. e não o contrário. cada uma relativa a algo que vê nas figuras. Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. a aliviar um pouco a tensão. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . A cópia ajuda. Isso desarticula o texto. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício. etc. frases.virando: alguns alunos copiarão direitinho. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. expressões. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito. então. Nesse momento. não. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. Quando o aluno faz o texto primeiro. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos.

Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. se for o caso. porque. o professor pode deixar os alunos redigirem. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. dia não. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas. do jeito que quiserem. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. por sugestão do professor. Os alunos farão o texto e o ilustrarão. assim. O professor não corrige . Algumas até se arriscam a fazer poesias. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas.texto mais bem planejado. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. Portanto. dia sim. É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. por exemplo. Ao iniciar esse tipo de atividade. ou. os alunos vão escrever o que quiserem.

O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização.nada que for entregue pelos alunos. e não que os alunos façam segundo um modelo. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras. em grupos ou individualmente. e quanto mais os alunos escreverem. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. No próximo capítulo. até textos longos e pequenos livros. realizadas por diferentes alunos. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem. escrevendo. ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. . mais e melhor aprenderão. Aprende-se a escrever. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. todos escrevendo. o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito. desde textos curtos e simples. mas cada um a sua tarefa. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização.

Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. quando eles forem ler. podese conversar com eles. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística . ouvi-los e. é um grande alívio. Como todos os alunos são falantes de português. a tarefa é praticamente impossível. decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. Quando as pessoas adquirem a linguagem. discutir. como também a entender o que as outras pessoas dizem. Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. aprendem não só a falar. Isso. na verdade. porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala. se a pessoa não conhece a língua.<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos. Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito.

estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto). Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. conversam entre si e. é falada em muitos lugares. de todos os dialetos. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. Para entender o que ouve. como um todo. depois de certo tempo e costume. Em resumo. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa. apresenta variedades. Porém. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. firmando-se assim os dialetos. comunicam-se. quando ouve. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira. O problema escolar coloca-se quando se pretende . relativos aos dialetos. Na verdade. como ouvinte. todo falante é falante de um dialeto. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. <191> Como se vê. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. Mais ainda. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem. como a língua portuguesa.

para saber o que a escola espera dele. que requer tempo e muita prática. Como o objetivo da escrita é a leitura. Nesse caso. por mais semelhante que seja do próprio. Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. que não é falante de um determinado dialeto. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente. quando necessário. O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos. para explicar adequadamente o que deve ser feito e. Falar uma outra língua ou um outro dialeto. é uma tarefa árdua. passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões. por parte do professor. no caso do dialeto. dentro de uma mesma língua.que uma pessoa. porque. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira. o falante entende. Na verdade. uma pessoa pode ler um . embora não fale. por parte do aluno. No começo.

A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. que automaticamente se entende "dentro" e "milho". e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. "dia". Assim como alguém vê escrito "pote". "djia". seguindo seu dialeto. porque. "drentu". sobretudo. a escrita e a leitura funcionam. Do mesmo modo. é preciso que haja muito recreio. sempre. muita festa. somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. a escrever. há menos problemas ainda. e ler. "pranta". "milho". outra pessoa pode ler "pótchi". "dia" e pode ler "póti". muito entrosamento . A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. Basta conferir "pote" e "dia". Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. embora usemos um alfabeto. "dentro". e assim por diante. Para escrever. Na escola.texto em seu próprio dialeto sem problema algum. etc. um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". Entendem que o aluno precisa. "miiu".

entre alunos e professores. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos. muitas vezes. na escola. 1997a. é preciso que o professor. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. nos momentos oportunos. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura. As zombarias dos colegas. CAGLIARI. Na sala de aula. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. só o dialeto padrão. Certamente. Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem. a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. Mas às vezes isso requer muito tempo. Nessas ocasiões de interação social.

Qualquer um. principalmente. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral. e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. o português do Brasil. as crianças entendem frases na voz passiva. pelo resto da vida. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. aproximadamente.de conversar sobre a fala dos alunos. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. por outro lado. Nessa ocasião. os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. Ninguém consegue . Na fala. Como já dissemos antes. ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. porém não costumam usar essa construção quando falam. O vocabulário. em qualquer lugar do mundo. Por exemplo. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. aprende uma gramática. Nesse <193> espaço de tempo.

mais especificamente. Porém. ficando todas no singular ou no plural. esse tipo de "erro". sem seguir regras muito precisas. os falantes nativos não cometem. mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. não está seguindo as regras da língua portuguesa. cada uma específica de um dialeto. um mesmo pensamento. por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". Se alguém diz que "mesa" é "copo". num dialeto. seja que dialeto for. Por exemplo. a gramática tem regras diferentes. conforme o caso. Já num outro dialeto. Deve-se dizer. Todas as línguas do mundo — ou. e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim".. não há falta de regras ou de lógica. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. algumas palavras precisam concordar. "cavalo" é "árvore". com regras de combinação muito específicas. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. No segundo caso. Em razão disso. etc. A linguagem não é feita só de palavras isoladas. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo. dito no dialeto padrão de uma . mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes.falar.

O exemplo acima. diferente das apresentadas pelos dialetos do português. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado. tem o mesmo valor semântico. Traduzida literalmente para o português. encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância. para ele. Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. o que nem sempre é uma idéia muito atraente. Isso pode acontecer até com línguas diferentes. sobretudo para uma criança. pelo contrário. se vertido para o inglês. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". Para ele. Aí.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. Ser diferente não é um problema lingüístico. seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". seria deixar de ser falante de seu dialeto. são as diferenças que permitem que as línguas existam. Falar diferente.

ilógica e sem . a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. levar vantagem. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. na nossa sociedade. basta o usuário se dispor a isso. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. por isso mesmo. ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. GNERRE. passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. As diferenças lingüísticas passam. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. da manifestação dos preconceitos. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. Desse modo. 1985. um dialeto próprio. conseqüentemente. rodeado de preconceitos. Por essas razões. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. seus concorrentes. então. como pode. depois de muito tempo. ocorre o contrário. Na prática. A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e. Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. formam-se as classes sociais. bem-estruturado. Na verdade. destruindo. Como.representa a expressão do pensamento lógico.

explicando o que significam. <195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro. não para justificar os preconceitos associados a ele. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam.elegância. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. Todos os dialetos representam bens culturais. Aprender o dialeto padrão é indispensável. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos. mas. sobretudo eliminar a idéia de que o professor . A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. desde a alfabetização. Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita.

Somente em circunstâncias especiais. da escrita e da fala. Na verdade. tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. as pessoas não pronunciam palavras isoladas. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho. as pessoas dizem palavras isoladas. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. sua intenção é dar uma informação completa. Além disso. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura. e isso acontece através de um texto. mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de . num contexto específico.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade. Quando alguém se põe a falar. ao longo de anos de observação. <196> 9. Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. nem tão complicado. quanto as pesquisas lingüísticas modernas.

que motivou a resposta. o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar. estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. quando as pessoas usam a linguagem oral. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. o texto continua na resposta do interlocutor. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. Na vida real. sobretudo. O tamanho do texto varia.ações ocorridas. dizer apenas uma palavra é o que basta. Assim. do que em falar certo ou errado. se alguém fizer uma pergunta. Na verdade. Nesse momento. Em outro contexto. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. dada a situação. Por isso. esquece-se de que é falante . posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". As pessoas falam o que acham que precisam falar. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. Normalmente. seus preconceitos e suas manias. quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. ou dá uma ordem. Houve apenas mudança de falante. se alguém grita por socorro. tendo em vista a necessidade do momento.

A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. às vezes. ora apenas para os sons da linguagem. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa. Mesmo quando se procura explicar um texto. até informações gramaticais importantes. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . No entanto. modificações do texto. de certo modo. os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. palavra por palavra. da escola e. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado.nativo e de que é senhor da sua língua. O professor desmonta e monta textos. porque em certas situações o significado depende do contexto. frases. e até mesmo para as letras. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. como as carreadas pela entoação e o ritmo. do professor. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. principalmente. Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. como os elementos prosódicos se modificam. Todo corte implica.

Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. Quando as pessoas pensam e falam. Com o uso dos sistemas de escrita. guiam-se quase exclusivamente pelo significado. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. em primeiro lugar. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade. é o significado e. Caso contrário. o que vale.segmentação da fala. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. No entanto. na sua essência. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz. Depois que alguém passa a . isso se torna ainda mais corriqueiro. em segundo lugar. a maneira como esse significado é dito. tudo vem normalmente.

as crianças lidam com a linguagem como . Essas atividades são feitas automaticamente. é preciso traçar as letras. Quando entram na escola. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica. para escrever. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. guiando-se apenas pelo significado. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. Para falar. analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever. Mas esses são casos especiais e raros.escrever com velocidade e fluência. a todo instante. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia. Quando se interrompe a fala ou a escrita. começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. é preciso articular os sons de maneira precisa e. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados.

qualquer falante nativo. do bá-bé-bi-bó-bu. a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . criar situações em sala de aula em que predominem o texto. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. sílabas ou outros segmentos. Para elas. Sempre que possível. principalmente no começo. o professor deve tentar. ou seja. Por essa razão. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. pertencem à família dos "bês". um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. Por outro lado. será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. sobretudo no início. por sua vez. Obviamente. Isso tudo mostra que. mas também para analisar a linguagem oral. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas. o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". os quais.

os textos têm estilos diferentes. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam.linguagem. restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso. trata-se de algo fantástico. algumas pessoas se confundem. mais o contexto em que é dito. É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. uma carta é escrita com outro estilo. concluindo que nem toda produção oral é um texto. mas somente aquelas que revelam traços literários. No fundo. tudo o que se diz. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito. Para os alunos. forma um discurso ou texto. Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. Resumindo. TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). Um texto literário precisa ter um toque de arte. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos .

e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos.textos orais e nossos textos escritos. e nisso não há nada de novo nem de ruim. dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza. especialmente os da linguagem escrita. no seu sentido mais amplo. por isso. eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e. Como se disse. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança. Em outras palavras. . científicos ou mesmo de uso escolar mais comum. a fala é diferente da escrita. discutir o assunto com os alunos. essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). Pior ainda. ao contrário. Para tanto. Precisa. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena.

como os exercícios de monta/desmonta a linguagem. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. mas nas pontes que ligam as palavras num texto. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto. O excesso de metáforas pode levar o ensino ao . acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. se em vez de fazer isso. Porém. Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado. Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. acabam destruindo o texto na sua essência. Essas regras não estão em palavras isoladas. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras.O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura.

o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. quer falando. Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. pode aprender como a linguagem funciona.caos. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia. de estilos diferentes. Apesar do que ouve e faz na escola. comparar sua fala com outros tipos de texto. objetiva. pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior". quer escrevendo. Além disso. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. Há momentos em que a escola tem de ser clara. e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. que . A partir deles. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. precisa.

formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis. O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. quando na verdade o está complicando. que está facilitando o trabalho do aluno. geradora de uma análise em sílabas. Fora desse âmbito. quer do ponto de . As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. mas escrevemos palavras e não apenas letras. cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido. uma depois da outra. letras e sons. às vezes. em que elas encontram <203> vida própria. O professor acha. ser isoladas. às vezes. Temos o alfabeto com letras. a ponto de impedir a aprendizagem. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível. Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar. e um uso de palavras num outro contexto. Há muita diferença entre uma palavra-chave.precisam. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. as regras perdem seu poder explicativo. Para aprender a falar.

Esse uso da linguagem é típico da escola. quer do ponto de vista da motivação do ensino. carteiras.vista lingüístico. etiquetando cabides. sobretudo a escrita. uma indicação. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito. o professor não vai ficar fazendo só isso. Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas. As duas coisas são indispensáveis. o rótulo de um produto. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". etc. Obviamente. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. entretanto. Na vida real. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. . sem levar em conta o uso de palavras isoladas. Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. no qual o próprio sentido literal soa estranho. material escolar. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial.

é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento.O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. Aqueles que recebem esse . Com relação à escrita. é melhor usar textos do que palavras soltas. através de regras que consideram uma questão por vez. Em primeiro lugar. Sempre que possível. Mas. o professor precisa dar explicações. essa abordagem é mais evidente. e não apenas palavras isoladas. mas precisam ser explicitados aos alunos. Em segundo lugar. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais. Nesse caso. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. Desse modo. de maneira isolada. para tanto.

porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. Porém. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases.tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois. mesmo nunca tendo ido à escola. mas também as formas de argumentar. esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. Num texto. irão enriquecê-las. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis. Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem . Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. pedaços de palavras. de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem. pelo contrário.

Ouvir. como atividade escolar de produção de textos.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. segundo as expectativas do método. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. esses escritores não seriam famosos. caso contrário. que escreve para crianças. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição. porque o texto de um escritor famoso. Para facilitar e se adequar aos métodos usados. Primeiro. isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . de fato envolve os leitores. Se é difícil escrever um texto desse tipo. os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. Essa é uma <205> visão equivocada. Depois. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

quem. empregando as palavras já dominadas.outro contexto. De acordo com o método das cartilhas. o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. não propõe a produção de textos. não se esquecendo de que o texto deve ter começo. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas. de acordo com as idéias que têm na . Quando falam.. vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo. juntando-as do jeito que acharem melhor. meio e fim. que não seja apenas o de ganhar uma nota. quando. onde. por quê. como. Os alunos só escrevem frases. menos ainda textos espontâneos e livres. alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". dão roteiros. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. Para tanto. O texto sai espontaneamente. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros. meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. em geral. Após a indicação do título. Não precisam se preocupar com começo. seguindo o mesmo caminho.. <214> Além disso. A própria cartilha dá exemplos de textos assim.

Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original. com criatividade e arte. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. no entanto. cobra deles justamente o contrário. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem. Quando elas forem escrever seus textos. depois. torna-se um texto literário. pela própria escola. mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . e se seu estilo agradar a uma comunidade. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. noutra com adjetivos. devem agir do mesmo modo.cabeça. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. O professor. nas séries mais adiantadas. como em outras ocasiões. Aqui. a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. eles acabarão produzindo textos estereotipados. noutra com verbos e assim por diante. depois. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos). que serão severamente criticados. guiando-se por esquemas como os mencionados acima.

Para se ter uma idéia mais . destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. água. de Antônio Pedro Wolff. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso. alto. intitulado Composições escolares. terão cinco frases.. 1950. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos. Tenho diante de mim o livro da 2ª série.contextos. o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira. 7ª ed. Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. seguindo o velho esquema de responder a perguntas. O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. No final. Por exemplo.

— Passar quadrinhos para prosa. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas. — Redação de cartões de visita. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. perguntas.completa. — Formação de sentenças exclamativas. — Reprodução de contos sem questionário. — Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas. — Redação de envelopes. Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. . — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. — Redação de bilhetes. perguntas. questionário. esquecendo-se dos que não aprenderam. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades. Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas.

Pensavam que seus alunos. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. muitos professores acabaram se convencendo. em geral. Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. Surpreenderam-se com os resultados. O excesso dessas atividades. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. porém. com a segurança de que será um bom trabalho. E isso.<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. pelas evidências encontradas no próprio trabalho. como ensina o método das cartilhas. é desastroso. A verdade não é bem essa. a conseguir melhores resultados. não seriam capazes de escrever belas . pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio. como já vimos.

e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais.históri as. pelo que aprenderam até então). O tempo como sempre é um fator importante. uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. a fazer. já que os alunos. certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. encontra-se . quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos. Com muito bom senso e um pouco de coragem. conseqüentemente. É preciso tomar certos cuidados. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares. acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. no início. textos espontâneos. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos. por exemplo. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. para que eles não errassem e. dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. nesses casos. Um outro tipo de comentário comum. não fixassem o erro. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais. sentem-se inibidos. Entretanto. o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. Lamentam.

Um comentário diferente. não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos. eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade. o professor quer dizer que. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". querendo dizer que. mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos.. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar.. tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim". porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. com todos os problemas que já tinham antes. Em outras palavras. usando o método das cartilhas.na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas. se algum aluno não aprendia. Portanto. Em primeiro lugar. tal qual sugerida por nós. de fato.. tanto faz agir . mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos.. não é bem assim. gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo.

pelo menos em parte e em certas ocasiões. não é bem assim. certos erros vão evidenciar que. Na verdade. apesar de o aluno acertar tudo no ditado. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. Por outro lado. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto. ele erra ao escrever espontaneamente.bé-bi-bó-bu. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. como faz para escrever. o que denuncia que o ditado não é uma boa . Conseqüentemente. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais. dos ditados. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba.de um jeito ou de outro. que tipo de solução dá para suas dúvidas. A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. E isso faz muita diferença.

Depois. Para ilustrar os comentários expostos acima. a seguir. depois. até dominar a produção de textos escritos. será apresentada. que aprendeu na cartilha. em busca de uma explicação. da leitura e da fala. de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita. uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. escreveu frases soltas para completar o texto. Essas frases não pretendiam formar um texto. uma série de textos dos mais variados tipos e origens. Como se vê. O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. estudadas e copiadas. eram apenas . EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto.forma de avaliação (e pior ainda de ensino). os erros serão analisados. errando cada vez menos no futuro. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar. Será feito um comentário geral sobre cada texto e.

Devemos seguir os bons exemplos. 5. 6. não só com a leitura que as letras têm. o burro zurra. cópia e ditado. 1951. LOURENÇO FILHO. 4. 3. Lourenço Filho. Por . A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons. de Manuel B. 2. ou seja. mas também com as relações entre sons e letras. Zezé não zela de suas coisas.exemplos para leitura. <219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente. Os textos vinham ao final da cartilha. O besouro zumbe. quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). o sapo coaxa. 33ª lição — A zebra 1. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. O rapaz estudou a lição do exame. Ponha o vidro de xarope debaixo da luz.

9. . porém. "A galinha esperta" (fábula). Já sei ler! 2. Para o autor. aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. 7. Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. 6. 3. O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. 10.isso. 4. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". Da lição 37 em diante. Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. 5. Já sei ler nos livros. como o X e o S. Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. escritos com outras letras. "A nossa bandeira". Todos os brasileiros precisam saber ler. como em outras cartilhas. nas cartas e nos jornais. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. Como é bom saber ler! 8. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. Posso conhecer minha terra. O primeiro texto é este: 1.

escrever um texto "fácil". com números e paragrafação. denota isso. Na verdade. nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. seja capaz de ler qualquer coisa. o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra.Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. Apesar disso. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. nem com as noções já dominadas. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. uma vez que ele supõe que o aluno. Até mesmo a disposição das frases. Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico . nessa altura. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. Depois que eles decifraram a escrita. por bom senso. Como falantes nativos de uma língua. achou conveniente. dificultando ou impossibilitando a leitura. de Cecília Meireles. Como o texto vem ao final da cartilha. mas não redigiu um texto.

O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. pode escrever para a Rua das Casas. dizer se o texto da cartilha. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. ao Menino Azul que não [sabe ler.especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). Número das Portas. apresentado acima. das flores — de tudo o que aparecer. que não corra nem pule. das montanhas. a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim. cientificamente falando. Um burrinho manso.) Intencionalmente. não precisou escrever números . assim. Não é possível. mas que saiba conversar. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear. (Quem souber de um [ burrinho desses.

ao ensino de determinada letra ou som.antes das frases. E o sol. como ocorre com outros poemas do livro. O calor de Carolina cobre o colo de cal. . vendo aquela cor do colar de Carolina. mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo. põe coroas de coral nas colunas da colina. A casa é de Lalá. 10. de maneira típica. bem diferente dos exemplos da cartilha. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. Carolina corre por entre as colunas da colina. Esse poema é um <221> dos que não se prendem. torna corada a menina. A casa tem copa. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. como se pode ver. p. Por exemplo. É uma casa bonita.

E assim continuará fazendo. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. Como se vê. para as finalidades da escola. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma . acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases.A copa tem caco. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. o aluno passa a entender que. ou esse conjunto de frases. rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão. até que encontre um professor que chame sua atenção. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa. é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e. e juntando palavras para formar frases. é assim que se faz um texto. como o método está organizado de modo hierárquico.

produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu. cartilha de alfabetização rápida.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita. O boi de Fábio fugiu. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola. 4. além de se alfabetizar. ele acaba entendendo que. > Texto 2 — 4ª Lição 1. 1950. . 14. começaremos apresentando alguns outros textos típicos. extraídos da cartilha Coração infantil. PEIXOTO. O boi baba. 2. O boi bebe. 2. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. 3.p. Fábio foi cedo à cidade. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo. 8. 1950.) PEIXOTO. O boi bebeu e babou. > Texto 1 — 1ª Lição 1. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas. de Vicente Peixoto. O boi bebe e baba.p.

Romeu ri do sapo. É de seda branca. 70. A geada "caiu" cedo. > Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. p. O sapo sobe a rua. A blusa de Carlos é de seda. 1950. Fábio fugiu da geada. 4. Oh! que bonita blusa! 2. 2. 3. PEIXOTO. 46. O sapo pula na rua. 4. 1950. É a blusa de Carlos. 3. PEIXOTO. Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. Os exames estão próximos. 4. 1950. <223> . A rua é de subida. > Texto 3 — 1ºª Lição 1. 5. 2. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. Como cai bem no ombro! 7. 6. A blusa de Carlos não é de brim. p.3. 30. Xerxes estuda dia e noite. p.

e não simplesmente de frases soltas. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. 4. uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. mas procurou uma ligação semântica entre elas. só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas. escrever frases. No último exame fez provas exatas. por isso. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto. Aqui. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é. Ele fixa a atenção nas lições. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. Quando se analisam esses textos. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno. QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. percebe-se logo que o autor quis. na verdade. discorrendo sobre um certo tema e. Por isso explica bem o que estuda. seria mais inofensivo. apenas frases para treinar os alunos. como no método do bá-bé-bi-bó-bu. No texto 4. 5. a frase 7. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. na verdade. . Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente.3. Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência).

Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride. do ponto de vista semântico. a expressão "pé de mesa"). lendo esses textos. e não lógica (veja. por exemplo. sem colocar aspas. devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. ainda. logo abaixo. Esse texto tem. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente. porque ninguém. fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias. foge de geada. Quem lê o texto sem saber dessas informações. Entretanto. É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. como a neve. frase 6. logicamente. percebe-se logo o mau gosto . mas se forma com a umidade. e se a geada caiu cedo. e com referência ao qual tudo é construído. por exemplo. no texto 2. outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade. Dentro das preocupações subjacentes do autor. uma vez que a geada não cai. ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA.

Texto 6—Alvaro L. são no mínimo razoáveis. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). E estálio = história. do ponto de vista do valor. Apesar disso. os textos têm um certo sabor interessante e. apresentados a seguir. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. quando apresentados por um livro didático ou por um professor. TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. a chatice com que é tratado qualquer tema. Os meus dio nadaro debecireta. insípidos e. a respeito da ortografia das palavras. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . a falta de originalidade. até certo ponto.literário. idiotas. Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. menos ainda. e. São textos sem graça. mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita.

as crianças fizeram textos e não frases . o rerudo = orelhudo. ela resolveu experimentar.Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história. Depois de uma discussão sobre o assunto. O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade.

ele confundia todas as coisas. No final do ano. Quando a professora começou a passar textos espontâneos. ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. ele não dominava o que era ensinado. Apesar do esforço da professora. percebeu que o aluno era pior ainda. . mas passaram a se interessar muito por leitura.desconectadas. ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos. Em outras palavras. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. no tempo em que os demais apenas completavam a lição. Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. o aluno escrevia páginas. Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce. Segundo a professora. daí para a frente. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. segundo a expectativa da escola. inventando um modo estranho de grafar as palavras. não fazendo direito as lições da cartilha. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases).

a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. ou seja. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo. Com a produção dos textos espontâneos. Seguindo a cartilha. Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia. este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. e que essa forma deve ser usada por todos. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. Todavia. Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita.embora escrevesse histórias interessantes. Ortografia não era questão de sorte. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . seguindo o modelo. nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. como uma loteria.

princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . (d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor. a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova. esta noiva.

Enquanto os colegas . Epa a policea vemvino. O texto 10 é também de uma aluna repetente. ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7. Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta. Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta. duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. Texto 12— Dirceu L.mamãe e papai ficarão triste.

ela fez quatro. PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". GOSTA DE NADAR fica "gota de nada". A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas. o resultado foi um amontoado de palavras. em vez de dizer . Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. numa tentativa de compor frases soltas. Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata.fizeram apenas um texto. Assim. ao invés de BONITA escreve "baoneta". Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. Além disso. <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14.

Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra. então. a seu modo: "A macaca é a tata". Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. arriscando. do professor e do aluno. sendo apenas um jogo de palavras. . Como se vê. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. (?) Amanha é dia pascua. A dona da casa e o pai e a mãe. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras. O giigante gebrevu daliom. mesmo com todo o esforço das cartilhas. mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. observando a fala. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua.que A MACACA SE CHAMA TATA. produto do método do bá-bé-bi-bó-bu. Os outros alunos. Pior de tudo é a estrutura do texto. qualquer forma de escrita. essa aluna tem grandes chances de errar. escreve.

M. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. O bone e da menina. O dia comeu nublado. <229> (b) O chapeu. O pelo da duensa nas criansas. O feio e o leão (?) A menina e a jogadora. — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre. (c) O aniversario. . fim Altor Samuel J. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente.Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho.

a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo. Ninguem lembrou que era o aniversario da titia. quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. Então ela foi ate o medico. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens. FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. Texto 16— Graziela P S. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu.

Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita. Vou aproveitar que ele saiu. b. O esconderijo é ali. Apesar das dificuldades ortográficas. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d).<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. de maneira integral. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . o texto que produz. Ali está o cachorro. mas aos poucos foi aprendendo. Por outro lado. d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. no segundo semestre. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano. O primeiro aluno (texto 15 — a. e.

Além disso. <231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. porque não tem de se preocupar com o já dominado. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito.em detalhes. nesse caso. escreve qualquer história. qualquer palavra que deseja. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar. sem medo. É por isso que um aluno acaba . sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. interessam-se muito pela leitura. como uma forma sofisticada de uso da linguagem. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras. Note que o aluno. o aluno passa a escrever com naturalidade. geralmente mais longos. justamente por essas razões. mas que aparecem na escrita. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. já estudado.

O menino assistiu um belo filme. Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. BOM. vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano". isto é. como também se vê no mesmo texto). A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos.Reinaldo C. AGORA VOU LASSAR. Extraído de Relatos de Experiências . os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU. mais do que orais. O mocinho matou o bandido. JÁ PEGUEI. JÁ ESTOU CHEGANDO. O filme era de mocinho. ainda.transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". que a aluna já percebeu. nesses casos. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. e está tentando empregar na redação. Na fala. a saber: "O menino foi no cinema. O bandido roubou o banco". prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. exceto o último "eu". Texto 17. É preciso dizer. um elemento semântico que precisa ser realçado. TENHO UM PRANO. ao ler. Os pronomes ELE e EU.

p. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S. II Concurso. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. Professora Aurea de Godoi. Como se pode observar.PG. como .premiados 1989. Responder: O que é melhor. S.E. O que choca. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. II Concurso. Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. às vezes. MEC. 32. mas certos tipos de erros. p. MEC. 45. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E.

Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . em detalhe. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio.analisaremos. mas que se escreve de outro. organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito. mas têm de escrever EU NÃO FUI. Veja. Quando escrevem textos espontâneos. 108-9. "eu sinto ni mim". etc. MEC. II Concurso. mais adiante. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. As pessoas falam "eu num fui". EU SINTO EM MIM. os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. p. por exemplo.

c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que . b. <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham. As crianças se saem bastante bem.POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. que estão começando a aprender a ler e a escrever.

Nesse primeiro momento. levando-se em conta o contexto de escrita. Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor. é usar as letras QU. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. a única saída. Texto 20— Fábio E G. Um balão de São João. sem a marca da nasalidade. Agora. COECE é uma excelente transcrição fonética. (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê". Mais para a frente. neste caso. Veja no texto 19c. Por outro lado. não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" . E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. Para se obter o som de "kê". freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas.resulta. se eu cair.

Então ela ficou na cama. Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos.Já está de manhã. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. jamais . sobretudo. <234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. desde a 1ª série. Os textos 20 e 21 são da 2ª série. E lá mais adiante ela encontrou as formigas. Então ela foi para casa e comeu. Note como os textos amadureceram. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como.

Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão. Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. certamente. resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida.terão problemas de redação. que. Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para . Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio. Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa.

No texto b. como traçar corretamente a letra "g". Começou com palavras. o professor achou . O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado. que segue um modelo. apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). sua nota foi maior. distinguindo-a do "q". Escreve TUDO em lugar de TODOS. Naquela época. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. ensinado pelo professor. Além disso. ou seja. O aluno não produz um texto espontâneo. Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa. O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. Certamente. tem de fazer um texto do tipo padrão. escreve textos seguindo o modelo. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937.se lavar no tanque. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. agora. acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA. a ortografia adotada pela escola era diferente.

nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. BIXINHOS. ele achou que a descrição era melhor. NECESSÁRIOS. na verdade. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM. mas falou de seus hábitos. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. fazendo textos menos criativos. como produzem textos mais interessantes. Como se vê. Já no texto b. ou seja. ainda. etc. não descreveu exatamente o cão. no texto a. Na 4ª série. ARRUUMANDO. ou seja ARRUMANDO. ou seja. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS).que o aluno. pois a maioria estudava até a 2ª série. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. OVER. ou seja. ou seja. APANHAR. TORRA-O. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO. APANHA. NESSESARIOS. PREPARANDO. ou seja. ou seja. No texto b. TORA O.. BICHINHOS.. Há de se notar. TODO. O que interessa. ou seja. HOUVER. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). . as coisas não eram bem assim. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. do ponto de vista literário. TODOS.

A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia. Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. Se ocorrer. Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda).Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). . Certamente. indo do mais fácil para o mais difícil. A meta a ser atingida era outra. Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia. reproduzindo o modelo do já dominado. Por essas razões. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu. segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. para que o aluno aprenda em ordem. O que está errado deve ser evitado. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. deve ser eliminado o mais rápido possível. tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia. Hoje.

como esse tipo de argumentação é freqüente. depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. com o tempo. são claramente reveladores. mas. que perturba demais certos professores. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. Produção de textos livres será feita como última atividade. Porém. especialmente para comparar o que significa. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia. mas o tipo de erro cometido. é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z . desde a primeira série. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando). inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos. através de exemplos. principalmente no início da alfabetização. o que é comum. Para eles. mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas.esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado. é bom lembrar aqui. <237> Uma outra questão.

que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. e nunca pelos acertos. etc. derrubando. e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades. Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. e não um processo de construção. ou LIXO com CH (LICHO). consideram o certo e o errado . JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância. A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d). que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem. Por outro lado. porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles. É a avaliação punitiva. aumento..(CAZA). progresso. destruindo coisas que o aluno faz (o errado). EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12). dizendo que são justos. Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8). EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c).. apoiando-se naquilo que já aprendeu.).

o aluno tem índice baixo de acerto. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes. E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante.). . eles dizem que não. porque o aluno não tem condições. o que ele representa em termos de erros e acertos. foi bem na escola e merece ser aprovado. sendo essa mais uma razão para a reprovação. Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. ser reprovado. mas numa certa desconfiança imprecisa. Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. Em resumo. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. ou seja. portanto. Quando. acham por exemplo. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. acertou muito menos do que os 70% esperados. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco. porém.. precisando. que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?).objetivamente. Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8)..

o aluno acertou as letras 0. Por exemplo. o (5). n. t.1. na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA. d. na verdade um "i": MUITA) (I). os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos. ã. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. a (4). o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2. em primeiro lugar. e. u. Portanto. n.93 .07 21. e errou: m (falta em COM. que ele escreveu CO) (I). a. d. Procedendo assim. na primeira linha. o m (de MUMTA. o (7). m. a. o (2). c.Contaremos.

o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. coando = voce = tive = 3 — 9. dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5. numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. si/nos = sauva/você = 2 2 8. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual. Vamos transcrever o texto.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. um professor que tivesse como critério de .

a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. o preconceito contra certos erros de ortografia. pelo lado positivo. não tem condições mínimas de ir adiante. analisados com mais cuidado. apresenta muitos problemas. o que significa. acham que o aluno não aprendeu quase nada. Porém. O texto 8. A produção de textos espontâneos pelos alunos. conseqüentemente. mas. constata-se que. que escreve tudo errado. comparado com outros. ambos poderiam ver. no fundo. professor. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos. que muita coisa já foi aprendida. ainda. deveria aprovar Ronaldo. desde o início da prática de escrita. Essa constatação é um bom argumento para convencer . Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. considera gravíssimos. que ele. por outro lado. Mostra. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. e que. são muito mais certos do que errados. quando os professores vêem somente o texto.

Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. sempre e em todas as circunstâncias. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. <240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. Desde os mais antigos filósofos. Nem toda . caso contrário. O homem é escravo de sua racionalidade. mesmo quando comete barbaridades. em nenhum momento. O homem não pode se ver livre da racionalidade. simplesmente deixaria de ser homem. Nisso. o homem é um animal racional. não há nenhuma novidade. sob nenhum pretexto. sem que isso seja o resultado de uma decisão. como uso da faculdade da racionalidade.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. fruto de uma reflexão. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade. ou ainda ficar sem fazer nada. Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. a humanidade sabe que o homem é um animal especial. em outras palavras.

A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida. mas o andar requer uma tomada de decisão. caso contrário. um instinto. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. mal sabemos como fazemos isso. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. por exemplo. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. A reflexão e a decisão sobre como andar. mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas. nos animais. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. pode agir sob influência de fatores externos. não andaríamos. É evidente que a estrutura de nosso corpo. por exemplo. usando sua estratégia de ataque ou defesa. pelas suas características físicas. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente. Se em vez de andar alternando os pés. ou seja. que antes eram inconscientes. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. Quando andamos. etc. .

uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. ou linguagem e pensamento. portanto. um animal racional. para muitos filósofos. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. como fruto de uma necessidade essencial. sem ter o outro. linguagem e racionalidade. senão não seria gente. a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. quando uma criança entra para a escola. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. e isso já é refletir. da vida e do mundo. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. Ao interpretar a realidade. É por essa razão que. Além disso. Por isso. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. através da linguagem e da cultura. já percorreu um longo caminho de exploração do homem.

a leitura. Portanto. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade. ou a faculdade da linguagem. vive interpretando a realidade. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem. os usos da linguagem.perspectivas. Nesse âmbito. Através da interação social. a fala. em outras palavras. aprende a falar português deste jeito ou daquele. Durante vários anos — em geral 7 —. as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. <243> que é a marca de sua personalidade. Nessa aventura humana pela vida. a escrita. ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. Por essas razões. Esse . toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente. é inata. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana. Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. aprende chinês de um jeito ou de outro. a gramática da língua. diria Aristóteles.5 a 3 anos). é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. acumulando uma bagagem de pensamento.

a escola. os livros didáticos e os professores pensam.acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. Ao longo da vida. da escrita e da fala. elas precisam descobrir o que a escola. Para ensinar. razão pela qual se começa a buscar sutilezas. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. mas em todos os dias. assim. novos conhecimentos. caso contrário. Nessa bagagem. por exemplo. por outro lado. É por essa razão que as ciências. os livros didáticos ou os professores transmitem. . E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. alunos e escola não entrarão num acordo. em todas as séries. Para aprender. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. as novidades tornam-se cada vez mais raras. se desenvolvem. Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola.

essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer. do aprender. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização. estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. do real e do imaginário. de tal modo que. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. Há muitas idéias em comum e. da avaliação. da fé. em particular. de suas idéias e atitudes. da vida escolar. da leitura. Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria. e. na prática. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. 4) da sociedade e da cultura. As idéias estranhas. da vida e do mundo. da ilusão.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. sobretudo. 5) da ciência. 2) do professor. 3) da realidade: do homem. Ao longo do ano escolar. das noções de certo e errado. da superstição. nessa lista. 6) da linguagem e. da promoção. em suma. do ensino.

principalmente de leitura e escrita. as causas mais evidentes serão as escolhidas. escrita e leitura. Outras vezes.PATTO. <245> . isto é. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação. Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele. prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem. Porém. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente.detalhe. há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. Em resumo. e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras. que serão mencionadas oportunamente. Nesses casos. Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização. Por outro lado. 1997. a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que . trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. há a possibilidade de explicações alternativas.

caso contrário. é enganar ao aluno e a si. Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. a razão do erro do aluno. Interpretar erros de ortografia. Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo). Também dizer que o aluno é burro. relaxado. São coisas diferentes.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. como problema emocional do aluno ou de sua família. etc. acabam aparecendo interpretações equivocadas. preguiçoso. incapaz. emocional). como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. não esclarece. Problemas de outra natureza (físico. Os erros escolares são sempre muito . Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. quando de fato ocorrem. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. de fato. apenas isso. como aquelas que sugeriram o período preparatório. lento. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade. por exemplo. mas toda a vida da pessoa. como distúrbios da fala.

resultando em 840.localizados e circunstanciais. Sem dúvida alguma. 60 0. Ocorrem em determinados contextos. que é a resposta. 1 440. somado ao resultado anterior (1 440). o que dá 12 000. escrevendo 40.O = 13 440. Em seguida. 800. multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400. e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). esse aluno não copiou o . seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. que por sua vez. Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. mas também quando eles acertam (às vezes). acrescentando um zero ao resulta do). acrescentando um zero ao resultado). o que dá 600. Por exemplo. 840. dá o total de 13 440. 1 200 . O aluno chegou ao resultado certo. Por isso. ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. um aluno pode multiplicar 420 por 32. depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. ou seja. 40 + 800.

Conseqüentemente. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. em todas as circunstâncias. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. toda pessoa precisa estar constantemente . de uma reflexão. graças à racionalidade. achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. eventualmente. Por isso. tudo o que faz é fruto de um pensamento. ainda. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno.resultado e muito menos colou. é preciso. causar uma repetição de ano. por mais simples. de uma decisão pensada. mais rico ou pobre que seja. Todo ser humano. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. Talvez seja esse o motivo pelo qual. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. é escravo da própria racionalidade. apesar dos baixos salários.

Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes. . . todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro. Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. resultante de uma reflexão. O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. tentando interpretar fatos iguais.lendo o mundo e procurando entendê-lo.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas. Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. segundo as características da sua personalidade. Em <247> outras palavras.

Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. de Francisco Alves da Silva Castilho. quem troca -NHO por NIO. Já em métodos antigos de alfabetização. Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. quem inverte a ordem de letras em palavras. como em CRAVÃO. Nessas circunstâncias. CARDO por CALDO. NAVA em vez de . Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala. curiosamente. fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. 1859. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. aluno que mistura letras. como ARMA por ALMA. L por R. o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade. ou TIVE por ESTIVE. no Manual explicativo < CASTILHO. acaba escrevendo errado. foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. do método de leitura denominado escola brasileira. 45-7. p. segundo um dialeto que não respeita a norma culta. Por exemplo.

O aluno não deixa de lado sua racionalidade. Por . XUA em vez de SUA. sempre. quase sempre. É por isso que. Nenhum método de alfabetização controla tudo. aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. nem seu direito de refletir. porém. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais). O MÉTODO. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. interpretando até mesmo o que o método ensina. os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método.LAVA. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. O PROFESSOR. porque está sendo submetido a um método ou a outro. alguns alunos cometem erros. Quando o método é muito rigoroso. o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo. acabam.

o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. Por outro lado. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante. volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende. CP para CAPA. não é porque o professor ensina de um determinado modo.exemplo. O importante é o fato de que. é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. Um professor que conhece profundamente como a escrita. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. quando eles vão ler ou escrever. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. para tudo o que fazem. isto é. escreve no ditado LT para LATA. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. etc. um professor que não for capaz disso. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. No fundo. seja em que método for. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados. que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . sendo dispensável na escrita.

é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam. reprovado. submetido a processos de recuperação. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. para isso. Quando um aluno começa a errar sistematicamente. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. Às vezes. a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar. Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita.bem-adquirida. apesar disso. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. o aluno é remanejado. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. Nem sempre o bom senso funciona. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola. É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. Se. Mas.

sem medir as conseqüências. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. etc. 1996i <250> O CERTO. A escola usa de rótulos já prontos. < MASSINI CAGLIARI. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola. tudo está em ordem.deficiências dos alunos. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros. sem saber se são verdadeiros ou não. com seus déficits. são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. sejam eles quais forem. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. de inteligência. a fatores socioeconômicos. criando a falsa aparência de que. porque tem medo de enfrentá-las. de desnutrição. eliminando os erros a qualquer preço. fonoaudiológicos. médicos. O ERRADO E O DIFERENTE .

o errado e o diferente. Em se tratando de linguagem. De modo geral. o aluno acaba não aprendendo a ler e. não se alfabetiza. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos. no Brasil falam português. se não forem sanados. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. é preciso distinguir o certo. as pessoas falam o japonês. jamais nos seus próprios. apesar de essas pessoas usarem a mesma língua. A partir da correta análise desses erros. Tradicionalmente. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. Obviamente. os livros didáticos e. o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. a escola. Uma língua vive em função de seus falantes. Como a linguagem oral é um fato social. Alguns erros são tão sérios que. no Japão. falam . A nota é o castigo do erro. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro. na França falam francês.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever. Ao fazer isso. Para estudar essas línguas. Por exemplo. o método das cartilhas não gostam de erros. descobre que. sobretudo. conseqüentemente. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. na Coréia falam coreano. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz.

É preciso acabar com esse equívoco. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. as diferenças. <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico. . podemos voltar à discussão do que é certo. sendo um só para todos. trouxe uma grande vantagem no uso. o lingüista precisa descrever. obviamente. errado e diferente em cada um dos casos. as igualdades e.com diferenças regionais e até pessoais. está acima dessas diferenças entre os dialetos. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral. Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. Para organizar a gramática de uma língua. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala. por ter um uso social muito abrangente. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. por um lado. Isso. por outro. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. Porém. nosso sistema de escrita.

uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra. Não são erros propriamente ditos. como em propaganda. está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita. Assim.Do ponto de vista da escrita. escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. na sintaxe ou na semântica. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. Porém. e não apenas uma manifestação de estilo individual. ou gagueja. outro não. Por exemplo. Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro. São diferenças aceitáveis. um escreve mais elegantemente. A escrita também tem um estilo próprio. Passemos agora à linguagem falada. estamos diante de diferenças dialetais. por exemplo). escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. e não de erros. ou se atrapalha na pronúncia. Às vezes. O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. um escreve de forma mais clara. Outro de forma mais confusa. mas acidentes lingüísticos. se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . outro menos.

. quando há diferenças entre elas. como foi mencionado anteriormente. ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá". Assim. Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística. Portanto. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias. sem misturas de regras. de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. Assim. a não ser por acidente. ou viceversa. nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da". Isso seria um erro. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada. Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". trata-se de diferenças dialetais e não de erros. Os falantes nativos não cometem erros. Está tudo certo nos seus devidos lugares. Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha". e o contrário também.pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". Cada dialeto tem seu modo de ser.

Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. Uma educação especial poderá ajudá-las. Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. Não é raro. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. neurológica. <253> Na prática. por exemplo. Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. conseqüentemente. Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física. sobretudo na escola. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. mas .PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. uma pessoa que faz tudo normalmente. enquanto perdurar a patologia. na pronúncia das palavras. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. em grande parte diferente do uso comum das pessoas.

escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual. idiossincrasias. e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência. não apresenta um caso patológico. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. brinca discutindo o que acontece e. e sempre. Se a pessoa tem problemas de lateralidade. Se a pessoa é deficiente auditiva. mas simplesmente porque interpretou errado a escrita. a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. mas com os sons em geral. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras. Para erros semelhantes de ortografia. Se uma pessoa fala com os colegas. mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. inventaram um termo chamado . escrita de forma cursiva pelo professor. causadas por lesão dos órgãos da fala. não é um afásico. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". Por aí. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. depois. Na prática.apenas "fala errado". Esses termos já são complicados por si. As patologias físicas são perenes. diferenças dialetais.

que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". Por exemplo. ser o ponto principal na aquisição da linguagem. algumas crianças acabam falando de modo estranho. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar.. Somos falantes de um dialeto.. Entender parece. na aquisição da linguagem. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral. concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia". A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos. então."disortografismo". Por outro lado. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral. mas somos ouvintes de todos os dialetos.). Resumindo. modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo. Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte. criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e .

Em todos esses casos. continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam. "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?). "póla" (130. com medo de aprender algo diferente e com outros erros. por causa da pressão social. essas crianças deixam de falar assim. "katu" (GATO). Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. Mas. Com o tempo. que desaparece normalmente. Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?). com muito tato. mas não outros segmentos fonéticos. algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. "faka?' (VACA). quando a pressão familiar é muito forte. se a família entra neste jogo.fricativas. sob pressão psicológica muito forte. Essas crianças se fazem entender e. em vez de eliminá-la. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA). A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. típico da fala do adulto.LA). Por outro lado. as famílias deveriam . a criança pode cristalizar a gagueira. É o caso típico de pessoas gagas. que continuam sonoros. Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo.

esses modos de falar estranhos. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física. assim. Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. deixá-la interagir com outras crianças. ela própria deveria resolver. O tempo ajuda mais do que os conselhos. no convívio. são tão importantes. precisará agir com muito cuidado. não se deve criar um problema maior do que existe. Os problemas da escola. porque. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia. principalmente para as primeiras séries. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo. como os recreios e as festas. como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso. sabendo que o melhor remédio é a pressão social. Por isso. deveríamos considerar muitos adultos. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal.forçar as crianças a imitar os adultos. em vez de esconder a criança. o melhor é expô-la à comunidade. evitando. que estão . receber críticas e até zombarias. É por isso que as atividades sociais na escola. a partir da observação de como usam a fala e a escrita. Todavia.

a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. principalmente se não for falante da norma culta. Pelo contrário. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame. somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado. não conseguem aprender direito.aprendendo línguas estrangeiras. etc. Então. e o que precisa ser deixado de lado. Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral. e assim por diante. porque falam tudo errado. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo. como deficientes. com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. por ser um erro.

Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. sabendo. uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades. Assim. ela chega a uma das alternativas. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. que nem tudo sairá correto. mas também do processo de aprendizagem. para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro. Em casos de dúvida. Através de um processo de reflexão. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes. que .aprendendo a ler e a escrever. A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada. ao tomar uma decisão. Quanto menos informações tiver o indivíduo. contudo. O professor não deve falar apenas dos erros. considerada a mais adequada. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. mais dificuldades terá para acertar.

Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. e logo se vê se houve acerto ou erro. Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si. O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação. analisando o que o aluno pensou. ter melhores chances de tomar as decisões corretas. se o aluno errou. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. No segundo caso. juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. . através da produção de escrita espontânea pelas crianças. pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. assim. Confere-se com o original. Talvez acerte. No caso da cartilha. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização.

Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA. . mais água contém a jarra. Para a criança. oriunda de experimentos como o mencionado acima. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. mostrando as palavras FORMIGA e BOI.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. principalmente as crianças. depois. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. Algumas pessoas. segundo Emilia Ferreiro. alguns psicólogos fizeram testes. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água. Então. Medir volume por outros meios não parece ser fácil. na forma escrita. acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga. Usando a idéia do realismo nominal.

a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. então. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação. Portanto. Aliás. quando falam. o animal representado é maior. na verdade. as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. sabem distinguir . em vez de mostrar as palavras escritas. as pessoas. de fato. leva mais tempo para falar. pedíssemos para a criança analisar sua fala. ou seja. guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. inclusive as crianças. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. porque. no primeiro caso. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado. Concluíram. para então dizer em que caso a palavra é maior.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. nada provam. Provavelmente. Se. Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. certamente a resposta seria diferente. <258> do ponto de vista semântico.

se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. com relação à linguagem. Daí. Ela diz que é impossível ler. o . respondem corretamente. As crianças. diz-se o que está escrito. apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior". Por exemplo. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. Depois. é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. nesse caso. com a semântica. A criança corre com o dedo o texto escrito. neste caso. confundindo fala com escrita. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. O pesquisador está preocupado com a escrita. 2. oriundo do trabalho de psicólogos. É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. e a criança. porque não tem desenho. Portanto.quantidades ou sabem responder corretamente. mostram-se as letras. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA.

está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. Como ela não sabe ler o texto. referem-se a essas figuras. Nem por isso.psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. escreve-se justamente para que alguém possa ler. interpretando as figuras e os desenhos. a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. Aliás. quando acompanhados de fotos ou desenhos. e desenho não é letra. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse. Como se trata de uma criança que não sabe ler. a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. usada comumente pelos especialistas em decifração. os pesquisadores . caso contrário. É uma saída inteligente. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto. sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. <259> Curiosamente. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça. Isto é.

mostra-se uma foto. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. de um trator com dois homens conversando. indique onde está escrita a palavra TRATOR. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). A criança tem. porém. 3. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. A criança é constrangida pela obrigação de responder e.acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. e uma legenda: "João emprestou o trator a José". A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . um texto em chinês ou mesmo em árabe. embora reconhecessem que isso poderia ajudar. A escrita maia é outro exemplo. por exemplo. Obviamente. Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso. para ver sua reação. para se ver livre do pesquisador. responde qualquer coisa. O teste consiste em fazer com que uma criança. usando. A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo. que não sabe ler. a palavra EMPRESTOU). em geral.

Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . Ela tem consciência de que não sabe ler. 1957 e MELLA 1981. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e. portanto. como tamanho e forma de palavras. não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. Se ela não faz isso quando fala. porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. Depois disso. então. algumas delas começam a dar retorno. baseandose em analogias com o mundo real. 4. <260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita.errada. ela continua mostrando outras palavras. Por outro lado. confundindo seu próprio raciocínio. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor.

que não podiam ser iguais. Por Outro lado. por exemplo. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. e ler letras iguais não tem graça. Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico. sem dúvida alguma. Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. quando tentam identificar palavras ouvidas. a idéia principal.crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. 5. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU. às vezes. BOLO. <261> . MARIA. e não COMPROU. uma enorme repetição da mesma letra. as crianças vão procurar as palavras FESTA. apontando onde elas ocorrem na escrita. mas lingüístico.

aquilo do que se fala. Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE. As modificações representam sua interpretação do texto original. isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando. tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo. Pelo contrário. Quando lemos . Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado. Nesses casos. Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. não uma análise gramatical. 6. a escolha é um substantivo e não um verbo. nas primeiras tentativas de leitura. que mais interessa ao interlocutor. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem.

porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. não aprenderiam a falar... "Cachorro começa com FU" Com muita razão. sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. porém. Assim. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente.um romance. por exemplo. <262> as pessoas. inventando mil coisas paralelas ao texto escrito. ao lermos em voz alta. . Na escola. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. Segundo os lingüistas. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. ou uma poesia. Se não soubessem disso. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais. a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. Como fomos educados pela escola. quando falam ou ouvem. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia.

Muitos alunos. O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. nas idéias que o enunciado transmite. são reprovados não porque não saibam. GARFO (sic!). a palavra MIAU. A professora está pensando na forma escrita das palavras. para ela. sem nenhuma explicação. mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?".Uma professora me contou. a professora não disse. de todos os níveis escolares. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. ouve o que não quer". mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. como resposta. por exemplo. Todos riram e a professora a mandou sentar. . certa vez. Porém. e o aluno. A forma de perguntar é muito importante. Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. estava pensando no animal cachorro. e não literalmente. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU". era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. em suas partes e.

por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8. ao aprender a ler e a escrever. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita. É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU. . Em vez <263> de aplicar testes idiotas. com perguntas capciosas. deixando a criança exposta a atividades de escrita.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. nos casos discutidos anteriormente. Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças.

orienta o professor. tentando desenhar letras. etc. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura. os alunos estão pensando e. tem-se constatado que. apóiam-se em conhecimentos que . Mesmo agindo assim. Os alunos escrevem como quiserem. que escrevam qualquer coisa. alguns põem-se a copiar o que vêem escrito. Não se pretende discutir aqui a classificação científica. imitando a escrita cursiva. Por exemplo. como os nomes dos colegas. mas também para um mesmo indivíduo. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). Copiam fazendo rabiscos. não só com relação à classe como um todo. mas os fatos. quando não têm um modelo para copiar. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. ao longo do tempo. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando. silábico e alfabético. por exemplo. Quando um professor pede aos alunos. nesse tipo de atividade. Na prática.Para jsso. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. que não sabem ler. Não existe um caminho certo e único para aprender. aparece de tudo um pouco. Mas é verdade que.

ainda hoje. A razão disso é que. Sabendo a língua. <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. sem dúvida. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. A partir de umas poucas idéias de como . foram decifradas com certa facilidade. A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. uma boa maneira de alfabetizar alguém. como a escrita egípcia e a cuneiforme. fica mais fácil. as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. Quando o sistema de escrita é conhecido. Como o aluno conhece a língua. Aliás. poderá facilmente entender as regras de decifração. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua. E esta é. do contrário. É o que o professor deveria fazer em sala de aula. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. Além de copiar. É preciso muito mais. Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram. torna-se praticamente impossível.

cuja aceitação ainda não foi confirmada. Nota Recentemente. Mina!. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas. Logo. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente.funcionam as relações entre letras e sons. A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. Porém. Por isso. que pode ser feita de inúmeras maneiras. poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si. pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. não faz sentido. então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. representando a fala. Portanto. Assim. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida. se não tiver algumas explicações iniciais. têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. faz seus rabiscos. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. Como é que as formas .

surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". porque tem consciência de que não sabe ler. a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras. mas não sabe. descobrir como as letras representam os sons. A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas. pensa o aluno. A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever. A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez. acaba procurando as letras. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora. Então. O resultado é bem mais semelhante ao modelo. Isso parece algo muito interessante. Com isso.. Então. a produção gráfica da escrita é mais fácil... pelo menos. Resta. como ninguém a ensina a ler e a escrever. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica. e assim por . "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". agora.. ela já as viu de muitas formas. porque sabe da sua existência. portanto. Então.gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. nada mais natural do que acrescentar mais uma.

de . ao tentar escrever uma palavra. Por outro lado. quer escrever BOLO. mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala. agora. em vez de dar uma informação tão reduzida. e escreve: B L. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. Por exemplo. por que. Como fazer? Falar é fácil. Descoberta a técnica. E preciso descobrir as letras. dizendo: B0000-LUUUU. e não por simples e espontânea reflexão. observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO. Eles escrevem letras corretas. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. A explicação é a que foi dada acima.diante. Ora. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. B de BOLO. o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. Então. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. como U de URUBU. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. o aluno começa a analisar sua fala.

mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. fenícia. Porém. e escreve C M U.. Falam "u" e escrevem O. em que. a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável. Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões. <266> Em geral. Ele conhece o C ("kê"). Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica. Por exemplo.. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. Essa hipótese. é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia. Por exemplo. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. ou seja. mas não conhece o L (o "lê" de LU). existe uma letra . para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal. porém. mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. A hipótese dele.acordo com a ortografia. por exemplo). mas pode-se encontrar uma mistura. o M ("mê"). na verdade. dessa forma. de um modo ou de outro. numa tentativa de escrever o que foi identificado. não é de que uma letra represente uma sílaba. árabe clássico. hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. conhece o U do LU. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. corresponde uma letra na escrita. pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e.

Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa. Concluindo. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. juntando as sílabas . tê-a-tá. quando vai ler. por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. como referência principal para sua argumentação. finalmente. E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. lendo. Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. explicita em voz alta essa técnica. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO. 9. usando apenas as letras C V L ou A A O. lê analisando as letras em famílias de sílabas. na escola. la-ta: a lata". Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. outro é o da decisão pessoal.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. prefere usar.

diz que está escrito "Brasil". rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu". as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. O professor perde a paciência. no método do bá-bé-bi-bó-bu. o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu. precisa descobrir que idéias ele usa para ler. Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas". Assim. juntando: bê rê-a-çê. Quando o professor diz que está errado. O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil". o esse do sá-sé si-só-su. Nesse caso. O professor insiste em que está errado. Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. . do bá-bé-bi bó-bu.-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). ao tentar ler uma palavra como BRASIL. mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?). o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga. Isso acontece porque. é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. A. Ao ler uma palavra como APTO. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). Agora. que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal.e formando a palavra.

O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. Para um aluno ler segundo o modelo. <268> respeitando o princípio da literalidade. Depois de descoberto o que está escrito. como: brá-bré-bri-bró--bru. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. em silêncio. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . Quando se lê. Às vezes. Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. corrigindo-o sem explicar. está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora". os quais devem ser processados na cabeça.Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. é preciso usar os conhecimentos de decifração. em voz alta. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. procede-se à leitura. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. Isso. por outro lado. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba.

O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. mas faz isso com . não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. É impressionante como os professores de alfabetização. Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa".para alguns alunos. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". que acabam desistindo de ler. o que os faz desanimar. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência. na alfabetização. em geral. é pior ainda. quando não para psicólogos. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. Se o professor corrige dizendo "beôleá". Em vez de ajudar o aluno. pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. Diante de casos como esses. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura.

quer com relação à quantidade de material que lê. Acabará sendo um leitor lento. A leitura de improviso. Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. ou que só entendem o que lêem em silêncio. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. 10. ler em grupos. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. é sempre problemática e deve ser evitada. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. quer com relação à assimilação dos conteúdos. que têm de ler em voz alta <269> para entender.certa rapidez. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. O professor pode mostrar como se lê. 11. Como alguns falam mais depressa do que . por outro lado. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. com os quais o professor deve se preocupar. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. Por outro lado. Depois de muitas repetições.

Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. Quanto mais se acelera a leitura. errado. já no outro dia. No primeiro caso. existe uma certa variação. típico do método das cartilhas. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. depois voltam a escrever certo e mais uma vez. errado.outros. a criança usa de sua reflexão. é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente. Por isso. mas saborear a arte dessas obras. Conseqüentemente. baseada em seus conhecimentos. Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). tendendo-se para uma leitura mais literal. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. para tomar as decisões que julgar melhor. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se . pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança.

Apresentam-se. No segundo caso. o processo de aprendizagem. cometendo erros. Conhecendo essas razões. Depois. .<270> mantêm integralmente dentro do modelo. Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. Finalmente. para não errar e levar adiante. 1. Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. através da produção de escrita espontânea. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados. indicando a saída. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita). alguns casos de erros de escrita. a seguir. o professor pode mostrar e discutir isso com ele. de maneira cada vez mais sólida. porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. ou o passo seguinte.

estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos. ou seja. além de ser uma marca individual.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. 2. mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. Isso pode trazer uma certa frustração. Enquanto estão conscientes do que fizeram. pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque. Ao fazerem isso. Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes. são capazes de ler. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura. Os alunos podem . Na vida. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. o professor deveria brincar de fazer assinaturas.

ou seja. Isso quer dizer.:' Para resolver isso. Diante de tal explicação. escrevendo com letras. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função.). Dessa maneira. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. etc. 3. as pessoas nem precisam saber ler e escrever. fazendo rabiscos. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. o professor constata o que o aluno fez. para assinar documentos e cheques. Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra. ainda. diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social).entender que. o aluno está seguindo a explicação do professor. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos.. . A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. Diante disso. Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome. um professor pode convencê-lo a escrever com letras. um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO.

a coisa piora. porque o aluno vê escrito ( e pensa que. ocorrem na grafia das palavras. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba. as letras são: <272> O + i + v + a. aparecem traçadas de formas diferentes). para ele. Agora.4. o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. Como o método concentra-se na escrita. Por exemplo. deixando a decifração da leitura de lado. quando o professor escreve com letras cursivas. nessa forma de escrita. de fato. com as letras B e b (que estranhamente.

Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. O professor ensina que se deve . ou seja. Um deles é o da escrita espelhada. Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. 5. pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra. é fazer transliteração. como letras cursivas e de fôrma. podem cometer vários enganos. Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza. Um bom exercício. nesses casos. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade.

o resto acompanha. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. No início. Por essa razão. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. como a escrita exige. levando em conta essa regrinha. Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. como entoação e ritmo.escrever da esquerda para a direita. Com isso. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. resultando na palavra espelhada. Então. é como segmentar o fluxo da fala em palavras. como C e S e outras letras como Z e N. 6. assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. . e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. quando um aluno vai escrever a letra S. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las.

A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. Às vezes. como preposições. segmentando erroneamente palavras. Quando encontram a palavra ABACAXI. Veja. como no caso de VISITA. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio. ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO. no próprio nome das letras. A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. pensando que é algo semelhante a A CASA. a partir da análise semântica. ainda. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver). os alunos vão descobrindo os itens lexicais. conjunções e expressões adverbiais. Aos poucos. os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais. Na prática. colocando uma parte em cada palavra. encontra-se o som básico que a letra . o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. separam A BACAXI. "çe-ru-mã-nu".surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. os alunos se apegam a algum elemento semântico. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. 7.

como se conhecessem a ortografia das palavras. basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever. . LC em vez de HELICE. PTC ou EEA para PETECA. APARECU em vez de APARECEU. Se prolonga as sílabas. O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. CAMLO em vez de CAMELO. de acordo com a maneira como analisa a fala. LFATE em vez de ELEFANTE. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. etc. como em AAO ou CVL para CAVALO. acaba salientando e escrevendo as vogais. o que é representado na escrita pelas consoantes. Ao aplicar isso. Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. como em "cacacacavavavava-lolololo". O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. como em "caaaa-vaaaa-loooo".representa (princípio acrofônico). É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. 8. Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. TAPTE em vez de TAPETE. etc. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. Se repete as sílabas.

ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence. Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave). ta-te-ti-to-tu. la-le-li lo-lu. Por exemplo: la-ta.Obviamente. lembrou-se da . que é o lá-lé-li ló-lu. LT para LATA. demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. LATA tem o "lê". então. Então.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente. O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras. Em outras palavras. ta. observando a palavra LATA. que são interpretadas a partir da observação da fala. e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. Se BAR RIGA tem o "bê". não estão produzindo uma escrita silábica para as letras. Mais raramente. Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. MCC para MACACO. registra OPAFNOLA.

Resultados pela metade Ao escreverem. PRANTA em vez de PLANTA. Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. Para ser objetivo. a partir de seu dialeto. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. quando o aluno. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. 10. que era o objeto de estudo dessa lição. dessa forma. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. 11. Portanto. escreve LT. a forma escrita das palavras. Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. introduz-se o estudo da família de letras. apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e. etc. algumas crianças . no ditado. além das dificuldades para encontrar. basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO. DRENTO em vez de DENTRO. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras.lição da laranja e chegou à letra L. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever.

ou seja. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. PISICRE em vez de BICICLETA. têm de fazer isso aos pedaços. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos. Isso se torna ainda mais complicado quando. principalmente no início. do começo ao fim. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . passo a passo. Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. quer as que ele costuma escrever. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. L 12. CAGLIARI. 1985b. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente. PIONHO em vez de PIOLHO. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. analisando a própria fala.defrontam-se. com uma análise detalhada.

isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante. Como uma letra pode representar muitos sons. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética. até que.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. Aos poucos. sem insistir muito. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras. confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. . Acertará algumas e errará outras. o professor chama a atenção dos alunos. 13. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética. e um som pode ser representado por letras diferentes.

às vezes. mas existem. usando-a para contextos não permitidos. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. o que se fala com "i" será escrito com E. A sua dificuldade é maior no início. Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra.comece a grafar as palavras corretamente. Então. Por exemplo. 14. Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns. Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais. Esses fatos são menos comuns. o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. Outro exemplo: o aluno . para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam.

além da explicação acima. na sua fala (sussurrada). em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". e quando está pensando na ferramenta. guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. Como escreve sussurrando as palavras. mas se escrevia O). pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. BOLA. GORILA. ainda. o aluno pode. Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. a escrita é VACA. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. CORILA em vez de VACA. PATATA. do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. Se o aluno fala como escreve. na escrita. o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. Nesse caso. como no exemplo de "faka". a escrita é FACA. Assim. . percebe que.quer escrever TATU mas registra TATO. POLA. escrevem FACA. 15. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. BATATA. Se o aluno fala certo. mas escreve errado. utensílio.

Lembrar.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala. Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. mas apenas variantes. Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos. como as vogais. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. porém. e não falha de discriminação auditiva. as nasais. eles ficam perplexos porque nunca souberam que . Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português. A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. as laterais.

Assim C com H dá "chê". Na alfabetização. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros. ou dizer por partes.podia haver RR surdos e sonoros. nem por isso. por se tratar de crianças. serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes. N com H dá "nhê". L e N. é muito comum o professor "enfeitar" o que diz. que já tinha errado. Então. (Na pronúncia comum de muitas pessoas. Por um lapso. um pouco. Por exemplo.. O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez. mas pode levá-lo a cometer erros. seguindo a última regra dada pelo professor. passa a escrever com H depois do D: IDHO. o aluno. o professor explica que a letra H é um coringa que. o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. e numa palavra como RATO. L com H dá "lhê". se consideram portadores de deficiências auditivas.) 16. no meio de palavras. escrevendo ÍNDIO com IGO. numa palavra como BARRIGA. Mas. dando uma determinada informação técnica. encontramos RR sonoro. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". Isso ajuda o aluno a progredir. encontramos RR surdo. Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. <279> ..

Joãozinho. Se vocês não ficarem quietos. minha gente! Mais rápido! Papai.. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores. Papai. Por exemplo. após o último esforço. Paaa-iii. seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e. produzindo às vezes resultados surpreendentes. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido.. Assim.. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez.17. Com a identificação de mais alguns sons. não por causa do erro. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha. o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente. Pa. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos.. Assim.. fique quieto no seu lugar! Pap. Mistura de informações Nos primeiros ditados. Vamos lá.. . etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA. Pa-paaaiii. vão errar. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM. escreve AAI. Em seguida.

notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). ao escrever IDADE. DONAIMEA por DONA ESMERALDA. nem sempre sabem solucionar dúvidas e. 19. resultando algo como i Outro exemplo. Então. o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. Assim. por SOCORRO. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR.18. Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. resultando daí uma grafia estranha. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa. tendo feito o "d". Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. acabam escrevendo tudo corretamente. SATUX por SANDUÍCHE. faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo. ele emenda tudo sem . etc. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). Por exemplo.

começa a escrever coisas muito estranhas. "apachonada". que depois leria corretamente para o professor. e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. nesses casos. Por distração. . erros de supressão ou de acréscimo de letras. até adultos cometem. etc. Inversões desse tipo são muito comuns. 21. 20. de repente. Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. seus erros têm pouca lógica. Medo de escrever Mais raramente algum aluno. Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO. tomado por um pânico muito grande. acabam escrevendo: "cachorro". que sabe escrever umas poucas palavras.correção. Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula. explicando que se tratava de uma aranha preta. resultando: CATSELO. às vezes. O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo.

Sinais de pontuação Além das letras. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita. Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. a escrita tem marcas e sinais de pontuação. o professor não deve enfoca-los. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras.22. 23. No começo. e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. .

De modo geral. "ela viu eu". A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos.Por isso. Na alfabetização. Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto. "askazakaiu". Nesse caso. É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. 2. "pobrema". Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. etc. . os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita. incluem-se três tipos de erros mais comuns. Assim: "eu vi ele". etc. Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. "fumu". como: "bardji". obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries. como: "nóis vai". "uzómíveiu". "çértu" (com R retroflexo). "Maria achou nós". costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. na fala de muitos alunos. "arriba". e erros oriundos da má formação de concordância. como: "drentu".

etc. Por exemplo. de modo especial. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime". "em que". especialmente de falantes de dialetos estigmatizados.Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas. sujeito da oração. "Ele falou uma piada . Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. De vez em quando. sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções. 3. "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. como por exemplo "que".. Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. entretanto. esse tipo de construção precisa ser evitado. como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos". fazendo ver que na linguagem escrita. é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo. para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos.

como "ééé. O professor alfabetizador deve mostrar o certo..onde o papagaio morreu afogado". há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos. ele deixará de se preocupar tanto com isso. "Tudo estava perdido. Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor. onde eu deduzo que havia muita corrupção". desde cedo. 4. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente. o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". no sentido de ajudar seus alunos.:'. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. O professor . "depois". "aí". Todavia. a melhorarem seus textos. Por tanto. esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. Mais uma vez. o professor não precisará se preocupar muito com eles. mas não insistir. Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. Por exemplo. marcando todas as pausas que fazem. por isso mesmo.

nesses casos. representado pelo acento frasal. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina. ou seja. O mecânico chama-se Toninho. Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". às vezes. evitando a repetição dessas palavras. <283> Alguns professores. A repetição pode também ser desnecessária e. variando a estratégia de construção das frases. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada. costuma colocar nessa palavra o foco semântico. Por outro lado. o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. um texto como: "O mecânico chegou em casa.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração. O carro assim não pega. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. Ele viu o carro. Note que quem usa "ele". em frases como essa. deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão. O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. . cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos. e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida. A repetição.. sobretudo de séries mais adiantadas.

pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases. e reflete um modelo muito típico de cartilha. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas. O pato nada no lago. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. O texto acima só aparece como exercício na escola. Xaxá é a vovó. O pato é belo. ou seja. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". No exemplo acima.5. Desse modo. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. no qual o aluno foi alfabetizado. completando o que foi dito antes. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. não na vida real. cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. Esse tipo de texto precisa ser evitado. como quem monta um quebra-cabeça.

6. esse tipo de problema quase não aparece e. por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. Se o professor adotar outra estratégia. ELE FICOU FELIZ. desestruturando o texto. Não tem propósito aparente. . Por exemplo. quando vem.daquele jeito. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. não requer explicações mais detalhadas. PEDRO FICOU FELIZ. Alguns alunos fazem. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. Porém. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. o elemento anafórico ELE. que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos. agora. tem um antecedente claro e bem-definido no texto. confusão com os elementos anafóricos. a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. às vezes. Veja o exemplo.

quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. assim. Depois. o layout. Esse é um típico problema de coesão. a forma de apresentação estética. Caligrafia Finalmente. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas. como JOGOU e FOI MOSTRAR.Na segunda linha. cujos sujeitos estão ocultos. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. <285> Todavia. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início. Na maioria das vezes. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro. 7. o professor não irá questionar esses aspectos. embora fale sobre eles com os alunos. todos os verbos. no início do segundo semestre. podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. Portanto. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. o sujeito de FOI é o PADEIRO. por exemplo. esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia.

O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram. Textos que vão ser expostos. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento. é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais. Tudo . as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. No início do processo de alfabetização. Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação. 1990. razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. O ditado. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI.trabalho. na verdade.

controlando o que escrevem. . até à moda da escola. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. por exemplo. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. O professor fala como quem dita aos alunos. certas aulas expositivas são espécies de ditado. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. às vezes. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. Nessa prática. Na escola. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. antes de escrever.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. especialmente perceptivo-auditivas. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. ditamos o que ela precisa escrever. Ditado e cópia são atividades interdependentes. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. escreve-se. fazendo confusões fonéticas e semânticas. Nessas circunstâncias. a prática do ditado é intensa. obviamente. como nos escritórios. no final do ano. Quando se tomam notas numa conversa de telefone. ou até mesmo entender o que foi dito. Em algumas profissões. Quando se quer guardar uma informação. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. do conteúdo da matéria de todas as aulas. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio.

esse sentimento é. de fato. certamente. como as informações passadas por telefone. vê-se que o ditado é uma . outros reproduzem apenas as idéias principais. Embora pouco recomendado. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal. largamente manipulado pela escola. A mãe ou o adulto dita palavras.Pela experiência de cada um. realizados apenas no plano da oralidade. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. como as anotações feitas numa aula. além de ser uma prática que constrange os alunos. Nesse último sentido. Esse quadro geral. Portanto. testar as dificuldades de realização de escrita. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. expressões ou frases para a criança repetir. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. obrigando-os a estudar. avaliar o desempenho. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem. gerando ansiedade.

Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu. LUTO. os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e. LOTA. enquadra-se nesse caso. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. TELA. Muitas vezes. algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. em geral. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização.prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. . depois. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. TOLO. Para esse método. ditando-lhe as palavras já vistas. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. etc. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar. Do ponto de vista da maneira como são feitos.

nos textos livres. é porque não se concentra. Os próprios erros são outros. porque tem dificuldades mentais. Se o aluno erra. Nos ditados. não presta <289> atenção no que o professor diz. neurológicas ou fonoaudiológicas.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. Entretanto. até mesmo. . não aprende ou. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). ao passo que. não estuda. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças. quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito.

quando deveria pronunciar U. Curiosamente. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. o professor fala e o aluno escreve. servem de reforço para a aprendizagem. para não fixar o erro (sic!). onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar. Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos . ou seja. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U.. nesse caso. como vimos. pode variar. o aluno não escreveria da maneira correta.Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. Mas. esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar. Ora. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. O modo como o professor fala. se o objetivo do professor é esse. Acham que além de avaliar. Tais ditados são realizados foneticamente.. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras.

O resultado é: CASIZICANHA. porque fica pensando: CASA se escreve com S. Finalmente. NHA. CA. o professor passa para a palavra seguinte. e o aluno escreve o NHA junto com o CA. dita pronunciando as sílabas isoladas. Em alguns casos. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. na hora do ditado. O aluno escreve CASI e pára. Porém. FLORZINHA se escreve com Z. e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. Quando presta atenção de novo no professor. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos.. Depois.. o professor quer ditar a palavra CASINHA. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. este já está silabando NHA. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA. E CASINHA. como o ditado ocorre com bases fonéticas. o professor já está repetindo sílabas: CA. Começa falando-a normalmente. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. serve-se dessas regras para ditar. é com S ou Z? Nesse momento. Quando os alunos estão escrevendo. . Por exemplo. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente. embora quase silabando as palavras.

e não TEODORO com T de TATU. Ó. Assim. Esse procedimento. REORU. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . Resumindo.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. Assim: DEODORO com D de DADO. com DÊ. dizendo o nome das letras das palavras. Na cultura inglesa. aplicando-se. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. nesses casos. que se supõe de conhecimento fácil. <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). é raro as pessoas soletrarem. nota-se hoje que. soletrando. DEODÓ. isso é muito comum. sem dúvida. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. a primeira letra da palavra-chave. é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. quando eles os ajudam. próprio das cartilhas. No Brasil. como: DEODORO com DEEDÊ. Outros procedimentos podem ser observados. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata.

da maneira como as escolas fazem ditados. essa atividade não é um ditado. uma galinha. podem ocorrer erros de interpretação das figuras. e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. O professor desenhou uma laranja. O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente. Poder-se já. etc. Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. desenha-se um pato. sobretudo. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos). com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. uma laranja. Além dos tradicionais erros de ortografia. e o aluno escreve BOLA. Anotações . Na verdade. Por exemplo. uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. talvez.de alfabetização e. chamar esses ditados de ditados semânticos.

O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. o que é mais importante. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o .Finalmente. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. o que é secundário. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. A escola deixa que cada um se vire como pode. das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. desde a alfabetização. fosse ensinando como fazer anotações. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. e é o que os alunos acabam fazendo. O professor pode passar sua experiência aos alunos. como da maneira como se estuda. o que está a mais ou está faltando. numa aula ou numa palestra. etc. A escola precisa cuidar não só do conteúdo. discutindo com eles como se fazem essas anotações. Feito isso. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando. outros de menos. Seria interessante que o professor. uns copiam só questões secundárias. passa-se a discutir o que cada um anotou. por exemplo.

esse tipo de asserção é um equivoco.que acontece nas salas de aula. . ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. mas PORTA não pode ser dita "póuta". A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão. Como se viu anteriormente. Assim. Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. mas não é uma garantia disso. A partir daí. algumas vezes. e o que encontram aí. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". quando o aluno escreve certo. Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). uma vez que se escreve com L. não é um bom exemplo.

ainda. para aplicação das normas dos alfabetos . Ora. será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. Todavia.. Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto). porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve. ou se está certo ou errado. Esses ditados são. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra. Em questão de ortografia. escrevendo do jeito que acham mais provável. Servem. ou tiver dúvidas. formas de ensinar a fazer transcrição fonética. Não há o que discutir. A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro. de fato..

Feito esse tipo de exercício. Não envolvem nada de ortografia. as dificuldades geralmente crescem. o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. que ele pode . Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar. Nesse caso. sem qualquer preocupação com a ortografia. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. do modo como fossem pronunciados. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. Seriam escritos somente os sons realmente falados. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras.fonéticos de transcrição de pronúncias. Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. usando diferentes dialetos. todo som de "i" seria representado por i e somente por i.

Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários. algumas vezes. Na verdade. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala. Ditado e avaliação Na escola. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- . a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. Na alfabetização. para saber ortografia. os ditados são usados para dar notas. fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. Como a escola não consegue se livrar da nota. tampouco consegue se livrar dos ditados.observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima. que o professor não sabe como aproveitar. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu. por mais cuidadosa que seja. É sempre um item indispensável nas provas e testes. são feitos ditados apenas para controlar a disciplina.

Pode-se até fazer um campeonato. como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . para saber quem escreve mais palavras corretamente. o objetivo não é ensinar ortografia. Entretanto. como o enfoque muda. pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada. Não só não fazem falta. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente. ou dar uma nota num teste. nem avaliar a lição anterior. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula. inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização.versa. o significado da atividade também muda. Nesses casos. Nesse caso. Pelas razões expostas.

saber se um aluno aprendeu ou não. O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. E agora. não sabe como tirar o aluno do impasse. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras. Volta a explicar tudo de novo. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. CPA.inadequados perante a linguagem. E escreve LT Mas. guiando-se pela palavrachave. CAPA. . Ora. alguns professores acham que conseguem. Essa questão é tão óbvia que o professor. que é analisada em seus componentes (sílabas). e o aluno volta a fazer tudo de novo. o B de BARRIGA ou BEBÊ). e achase a letra correspondente. MACACO. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. Assim. é composta de famílias de letras. se um aluno escreve LT. do mesmo jeito. cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. diante desses casos. "lata" se decompõe em LA + TA. Por exemplo. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). através dos ditados. MACC. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele. se está progredindo ou não. em vez de LATA. direitinho. LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. Pega-se uma palavra. Na prática.

e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos. existem as vogais. principalmente o A. Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. além das consoantes. como vimos.. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro. de fato. Nesses casos. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. Para o método das cartilhas. vai arriscando escrever também as vogais.. Quando o fazem. aos poucos. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas. Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. Conseqüências dos ditados na alfabetização . Por outro lado. para se autocorrigir. o induz a isso. já viu que.então. o ditado não faz sentido. através de exercícios de montar e desmontar palavras. porém raramente sabem interpretá-los.

Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas.Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. De todas as atividades da escola na alfabetização. neurológicos. mas também para reprovalos. punir com cópias alunos indisciplinados. fazer remanejamentos. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola. os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. psicológicos. Entretanto. como das conseqüências da avaliação. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes. mais levianos. e classificados como deficientes mentais. etc. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola. porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. Isso mostra que. . Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis. não só do ponto de vista do que se faz na escola. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. auditivos e articulatórios. na prática. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas.

a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras. eles mesmos as escrevem na lousa. Mesmo assim. A linguagem vive nos textos. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. apenas copiam do quadro-negro. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas. etc.Além dos aspectos negativos já apontados. É claro que seria possível fazer ditados de textos. então. a destruição da semântica das palavras. O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. pedagogicamente falando. quer com indivíduos. os ditados. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. nesse caso. quer com equipes de alunos. Os alunos. a fala silabada. . juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas.

como no ato de fazer anotações ou cópia de informações. Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. Nesses casos. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . à análise com comentários sobre cada caso.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável. Feita a atividade. a melhor solução é a simples cópia. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. depois. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis. invertem-se os papéis. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. Depois. Além das finalidades. procede-se a uma discussão geral e. Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. Na alfabetização. Os alunos acabam errando demais. essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados.

um procedimento que ofende a quem escreve. encontram-se trabalhos de cópia. na Antiguidade. de certo modo.se deve fazer. no Museu Britânico e em outros. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. Para esclarecer como se escreve uma palavra. Em suma. quer na Mesopotâmia. as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas. nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou. repetir o que se disse de maneira mais lenta. No Museu do Louvre. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma. além de aprender como o sistema de escrita funcionava. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. Assim. Inúmeros documentos mostram que. a . se for uma simples falta de compreensão. com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem.

não se copiava. desenvolvia a habilidade da leitura.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. Na Antiguidade. Como falante de grego. precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. finalmente. que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons. Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". ou seja. para guardar . objetivo principal da tarefa de cópia. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. mas não é a única nem a principal. o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. Ele tinha diante de si. comparar o que fez com o original. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. por exemplo. numa tábua. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário. nesses casos. portanto. quer pelo contexto. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras. <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. o alfabeto grego. aprendia como decifrar o que copiava e.

usada logo no início. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo. Alguns professores consideram que a cópia é um simples . Embora a criança. traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. pelo contexto. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. livros. Ao proceder assim. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. Isso é importante. a deduzir. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. a criança toma iniciativas.um documento. uma palavra que encontrou escrita em objetos. o simples ato de se copiar um rótulo. etc. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. Esse tipo de atividade. Portanto. paredes. por si só. copia e avalia o resultado obtido. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. a juntar informações. faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. não consiga decifrar o sistema de escrita. Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove.

Escrever uma palavra ou frases. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. . vão procurar descobrir que letras copiaram. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. que som tem determinada letra naquela palavra. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente. ou seja. na tarefa de copiar. vão precisar saber o que está escrito. com que letra começa a palavra. ocasiona esse tipo de problema. O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que.exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. poderá ter como reação um ato mecânico. etc. que letra vem depois. Isso é verdade e pode acontecer. se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo.. Por isso. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. a cópia é uma ótima estratégia de ensino.

copiando ou não. desde então. brincam não só de imitar os adultos que escrevem. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. Seria bom que essas crianças recebessem. Em geral. apesar de suas limitações para usar o lápis. Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. letras e até palavras. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). fazendo comentários orais. irão colocar apenas material escrito. Ao fazer isso. separando assim desenhos de letras. Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. Numa folha de papel. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. como também de copiar material escrito. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita. fazem o que chamamos de rabiscos. . e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. para sentir um pouco o que é escrever e ler.

No mundo da escrita em que vivemos. há muitos pictogramas. animais e objetos. acompanhadas <301> da colagem de figuras.. Cada página pode ter um título: . O professor irá solicitar que usem. sendo. eles podem confeccionar um álbum de letras. etc. sinais. usados. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa. nomes de colegas. os alunos podem copiar. recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante. pois. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes.Ainda bem no início. Copiar. uma espécie de cópia. Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel. que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. juntamente com os desenhos. além de letras. por exemplo. por exemplo. que são escolhidas e montadas em lugares próprios. como também através de letras soltas. útil e mesmo necessário no início da alfabetização. marcas.

O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. Os títulos podem ser obtidos de outro modo. letra florida. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. mais tarde. baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. listrada. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. Em vez de copiar graficamente. como se fossem figurinhas. etc. usando a imaginação: letra do jornal X. podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores.letras de fôrma maiúsculas. o professor pode propor o dicionário da classe. porque elas não aparecem no texto consultado. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. letras cursivas. os quais. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos. Nesse caso. minúsculas. letra da propaganda Y. Cada . quando estiverem mais adiantados. seguindo o padrão gráfico das letras já feitas. por sua vez. Às vezes.

As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas. o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. e. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares . O ou U. ilustração.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha. Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada. etc. numa coluna. na qual irá escrever uma palavra. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas. e acompanhada de A. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. Por exemplo. em outra coluna. o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. se o professor estiver estudando a letra C. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. Ligado às atividades de ensino. ao mesmo tempo. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons. seguindo as instruções do professor quanto a layout.

dando a impressão de que as aprendeu. memorizar informações sobre o que fez e. Atividades como essa. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente. pode esconder o fato de não saber ler. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa. Esse aluno. Cópia não é um reforço da aprendizagem. Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. e que. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. Melhor seria. quando todos estão sentados. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. que misturam escrita com desenho (quadradinhos). na hora do ditado.próprios de cada um na sala de aula. então. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel. Nesse caso. porém. como faz o método das cartilhas. uma vez realizada. pode servir como reforço da aprendizagem. .

O problema apresentado aqui. quando. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. e ele não saberá o que fazer. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e. na verdade. não está nas atividades em si. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem. No entanto. Já dizia Dante . desse modo. Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. mas no método das cartilhas. na verdade. sem entender verdadeiramente. esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. Por outro lado. é essencial. apenas decora o que lhe apresentam. Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. transformando-a em leitura.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos.

faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. incluindo não apenas obras literárias. Desde a alfabetização.se isso em círculos cada vez maiores. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos. <304> de cabeça. a escola usa uma estratégia de maneira . esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. mas é muito usada por artistas. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e. Infelizmente. Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários. procura-se reproduzir o que se quer decorar. Faz. Citar um autor ipsis litteris. depois. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto. Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. Como acontece com muitos fatos escolares. um texto em prosa. desde as primeiras séries. mas também científicas.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. a escola deveria cultivar a memorização. um diálogo. escrevendo. até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo.

não o faz. se o aluno não presta atenção às explicações do professor. de apontamentos. Na escola. de livros. Copiar informações. concluindo que não serve aos seus propósitos. utilizase dela. para punir alunos indisciplinados. depois. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo. por ser seu contexto correto. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro. eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. textos. por isso. se o problema for de indisciplina. prejudicando-se muito nos estudos. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. Por essa razão. etc. ou algo específico de uma lição. às vezes.inadequada num determinado momento e. quando deveria empregá-la. passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. fazer cópia pode ser uma boa atividade . A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima.

Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início. passando-o para outro tipo de alfabeto. ligada à cópia. é importante que peçam cópias. minúsculas. passando da letra cursiva para a de fôrma. quando a criança. por ter somente "dois morrinhos".versa. das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. Assim. Por exemplo. põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura. é a transliteração. além de copiar. um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M. o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. . Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. o traçado das letras maiúsculas. que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável.de iniciação ao mundo da leitura e escrita. corresponde à letra n cursiva. seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas. <305> Outra atividade importante na alfabetização.

um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas). nesses exemplos. não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. Quando aparecem erros como os apontados acima. isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita.Erros de cópia. Para isso. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. deverão passar da . Por outro lado. etc. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. o sc. Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema. composta de i + v. Como eles não sabem que palavras estão escritas. revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno.). o nh. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever. Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. etc. fornecido pelo próprio professor. analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los.

para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma. Depois. escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para . Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. Os franceses e os americanos. Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. por exemplo. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico. interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu. Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. De acordo com a tradição educacional de cada país.escrita cursiva para a escrita de fôrma. ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional. ao encontrar material que exemplifique.

em vez de ensinar o melhor. sua organização e desenvolvimento. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. O aluno troca palavras. <307> . exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar.analisar os erros e as dificuldades encontradas. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original. para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. O objetivo aqui é experimentar. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. usa outra construção sintática. Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. caso contrário. A escola precisa aproveitar mais o que faz. passa-se ao aluno um exemplo menos interessante. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos. andando junto com o autor na elaboração de um texto. Por isso mesmo. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos.

praticada em atividades de interpretação de texto. mas a semântica é outra. ou substituindo progressivamente todas as palavras. de fïsica). Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele. as várias etapas que o . enigmas. Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos. conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. dando ao aluno uma frase para ele copiar. Através do exercício de exegese. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto. Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. Em geral. às vezes. substituindo uma ou mais palavras que ele queira. religiosa. como problemas (de matemática. etc. textos de reflexão filosófica. Éo que se chama de exegese de um texto. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma.

aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. Copia-se o que se ouve do professor. uma idéia de um livro. Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. uma piada ou um simples nome. Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . Hoje. Isso se aprende também na escola. até mesmo. Às vezes. um conteúdo qualquer. com o uso comum de computadores. inclusive a ligação de uma parte com outra.problema exige vão se apresentando mais claramente. A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. por razões sentimentais. A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. um pensamento. um texto e.

nesses casos. flores. além de colecionar objetos. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente.informação em arquivos. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. mantendo um arquivo com recortes. esse banco de dados vai se enriquecendo. crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. também. dependendo menos da escola. etc. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. . Através de cópias. As crianças adoram colecionar. desenhos. O professor deve. fichas com anotações. e se a escola souber aproveitar isso. em primeiro lugar. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula. Assim como um aluno coleciona selos. até poesias. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. pode colecionar informações sobre passarinhos. A medida que o tempo passa. fotos. A prática. desde formas gráficas de letras e alfabetos. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. árvores. sempre ensina mais e melhor do que a teoria. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito.

passar a limpo. A organização material é prova da organização mental. também merece cuidado especial. <310> . <309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. porque associam essa tarefa à de cópia punitiva. folhas. A educação não germina em meio à desorganização mental e material. corrigir e melhorar e. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. etc. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. Como se vê. rotular. executar uma versão preliminar num rascunho. Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. Como se viu neste capítulo. por trás da atividade de estudar. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever. das coleções e dos álbuns. além do conteúdo das matérias.Classificar. A distribuição espacial do material nas fichas. finalmente. há muito trabalho de cópia e. envolvendo isso tudo. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição. caixas.

por isso o termo "leitura" adquire outro sentido. Na alfabetização.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. . Os próprios textos escritos são. ou seja. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. então. da leitura para conhecer um texto escrito. na sua essência. na maioria das vezes. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura. e não o inverso. a decifrar a escrita. e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. Na prática escolar. Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. ensinar alguém a ler. O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária. sabe decifrar a escrita com facilidade. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola. ou seja. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. vista sob esses dois aspectos. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. Alfabetizar é. Trata-se.

em primeiro lugar. uma pessoa precisa. função e usos da ortografia. para chegar a esse ponto. o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento.Ao longo deste livro. a passagem pela estrutura lingüística é essencial. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras. é preciso adquirir certos conhecimentos. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza. Além da decifração Quando lê. e não de outra maneira. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir. apesar disso. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras. entre outras coisas. Entretanto. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita. parece muito fácil e natural. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. Para quem já sabe ler. que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. Sem . a diferença entre desenho e escrita. Em ambos os casos.

isso. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. segundo as regras dessa língua. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. Quando uma pessoa fala espontaneamente. e de forma coesa e coerente. porém. portanto. por exemplo. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. Este último caso acontece. Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua. pode ser feita por etapas. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo. não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. A decifração. As vezes. não existe linguagem e. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para .

pronunciá-los em forma de palavras. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler. a partir dessa audição. <313> Perdurando essa prática. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e. como a linguagem tem todos esses aspectos. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. elabora . obviamente.pronunciar as palavras. e acaba sendo um mau leitor. Portanto. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. se apropria das idéias que descobriu no texto. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. mas também de si próprio. toda pessoa. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. Assim. Isso. uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. acontece apenas como um processo de feedback. do controle sobre aquilo que se diz. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. processar a compreensão da linguagem. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. Contudo. No entanto. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. além de falante. ou seja.

dependendo do que se encontra pela frente. Se se deparar com uma palavra desconhecida. X). algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere. seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. Além disso. Nas explicações dadas acima. nota-se como se pode ler de várias maneiras. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. passa a dizer o que leu. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. Por outro lado. pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo. talvez não.todos esses conhecimentos como se fossem seus e. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. mais fácil torna-se ler novos textos. Dependendo do texto e do leitor. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. o leitor pode conhecer todas as palavras. Quanto mais se lê. saber como pronunciá-las e não entender o texto. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. Talvez isso seja irrelevante.

o planejamento lingüístico deve ser completo. A única diferença entre elas acontece no momento em que. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto. Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto.de saída. quando lêem para si próprias. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade. Em ambos os casos. que varia de falante para falante. quando a leitura se realiza em voz alta. as leituras . Certamente. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala. inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia.

do mesmo modo. mas todo um processo de produção de fala. Por outro lado. ao aprender a ler. através da leitura. Isso se dá ao ler.feitas em silêncio são assim. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente. se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada. futuramente. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. mas a base dos . acaba tendo. Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa. Assim. recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar. o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. pode-se ler em outros dialetos. mesmo em silêncio. pois. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos.

reproduzindo fielmente os sons representados.dois é a língua. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. Esses são dois pontos de suma importância na escola e. dependendo de como o professor lida com eles. baiana ou gaúcha ao texto. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. que. na sua essência. Leio no dialeto que desejo. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético. Ao contrário. A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. <315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. quanto menos . E os portugueses lerão meus textos com sotaque português. Castro Alves ou Érico Veríssimo. Quando leio Vinicius de Moraes. é oral. no meu dialeto. na língua e no dialeto retratado. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. não me esforço para dar uma pronúncia carioca. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz. Assim sendo. ler não é falar. Assim. mas deve chegar o mais próximo possível disso.

ao decifrar o texto. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto. mas também a semântica. perdem o fio do raciocínio. Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. muitas vezes. A leitura. Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser. A fala deve ser monitorada pela semântica. mas o leitor fica divagando. dessa forma. Afinal de contas. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. também. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. mais fácil fica acompanhar a parte semântica e. voando nas asas da imaginação e da fantasia.alguém se preocupar com a parte fonética. truncada e. Por outro lado. . a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. entender o que se lê. Quando se lê uma poesia ou um romance. O leitor interfere no literal do texto Na leitura. ipsis litteris. Como vimos acima.

<316> A leitura em voz alta. O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. existe a lei da fidelidade ao literal do texto. as crianças ainda não sabem disso e. que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas. A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo. implica algumas restrições. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. todavia. ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". conforme . ao lerem os primeiros textos. Por exemplo. No início da alfabetização. dizendo tudo em palavras e em voz alta. Diante de tais fatos. Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso". Na nossa cultura. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve. por essa razão. Esse tipo de interpretação está equivocado. Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito. sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando".

É preciso que o professor alfabetizador. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado.exigência da nossa cultura. Porém. naquelas circunstâncias. Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo). A lei da . Assim. obrigando-o a ler apenas o literal. alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia. Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. para quem um texto tem de ser lido literalmente. ela em geral pune esse tipo de leitor. mas no dialeto padrão. desde o início. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. diante de um público. O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. sem se preocupar com os outros aspectos da leitura. Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto.

Porém. tornando-se por sua vez uma realização literal. O falante diz um enunciado a seu modo. Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico. pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê. Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. a linguagem se perderia num mundo de fantasias. mas também com a sua própria interpretação. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através . Sem o princípio da literalidade. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. Contudo. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. da mesma forma. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. para quem escreve e quem lê.

Na nossa cultura. a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. de leitura para um público ouvinte. Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. Na vida real. através de uma leitura especial em voz alta. mas não em outras situações. . esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. O professor não deve se preocupar com isso. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. como por exemplo locutores de rádio e de televisão. Algumas vezes. Os professores devem incentivá-la o mais possível. A escola deveria seguir esse procedimento. Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. se a leitura estiver sendo feita individualmente. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se.da fala do leitor (leitura em voz alta). mais propriamente. porque. para um melhor desempenho. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor.

alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso.. como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta. . esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores. podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. Nesses casos. mesmo na alfabetização. simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito. através do desempenho dos alunos. Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita. e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. por exemplo. Da mesma forma que o ditado e as notas. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que.. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. Por outro lado. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam. Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola.

O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito. Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos. o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. lê-lo em voz alta. basta estudar um pouco e. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura. Alguns professores <319> antigos recomendavam que. ela repete sem dificuldade. ler acompanhando as palavras (não as letras). Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso". Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto.. depois decorá-lo e. somente então.letras de música ou poesias. como em qualquer atividade de leitura em voz alta. depois. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . durante a leitura de um texto. Já que eles sabem o texto de cor. Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. para não criar uma pronúncia artificial.. Nesse caso.

Simplesmente precisa rá praticá-la e. embora. o aluno deverá preparar a sua leitura. assumam características diferentes em . Isso requer um certo estudo prévio. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. se não estiverem lendo de maneira correta. não apresenta problemas de leitura. procedendo daquela forma. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. em vez de decorar o texto. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. A escola. o professor permitirá que ele leia para a classe.público. com o tempo. tudo estará em ordem. externamente. Mas. ao chegar nesse ponto. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. porém. Tipos de leitura No fundo. A medida que os estudos avançam. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e. dominando inclusive certa fluência na leitura. Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. num primeiro momento. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior. e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades. todos os tipos de leitura são da mesma natureza.

etc. Quando se lê num sistema fonográfico. ainda. representado. a leitura pode ser informativa. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem.diversas circunstâncias. uma leitura interpretativa. ou seja. segundo o modo como cada um o interpreta. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões. Quando se lê num sistema ideográfico. parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. Temos. estudado. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. etc. para divertir. pois. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. Um estudo mais aprofundado levaria. que também já foi apresentado anteriormente. a outros tipos de leitura. Neste último caso. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. Com relação à natureza dos textos. Um terceiro tipo de leitura. Como vivemos num mundo caótico de escrita. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê.

os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro. Para muita gente. ao sistema fonográfico. as letras. refletindo-se sobre um . Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. somente para o aspecto literal do texto. as grifes. Infelizmente. com freqüência. ao sistema ideográfico. até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia. a escrita apresenta-se de muitas formas. o uso de rébus. No mundo fora da sala de aula.muitas maneiras. Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e. a ortografia. os sinais. Os símbolos. Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. não raramente. ao sistema fonográfico. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento.

Isso tudo é um uso da linguagem. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua. Assim. estudá-lo fisicamente... a linguagem representa o mundo no pensamento e. por exemplo. não precisa pegar um pote. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa. a palavra POTE. Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora. por essa razão. Alguém. Para um aluno ler o que está escrito. etc. um dia. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". no entanto. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa.determinado objeto. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para . apalpá-lo. "ler as mãos". Assim. e não de um processo de leitura. Em decorrência de idéias como essa. fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". "ler as estrelas". Esse uso metafórico da leitura. algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. um professor não poderia usar a palavra ZEBRA. tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. no sentido técnico. a não ser no Quênia e em outros países africanos. saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante.

as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. tanto quanto as frases. geralmente. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita. Num texto. Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo. não basta detectar apenas os significados literais das palavras. a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem. O testemunho é algo de importância essencial na vida humana. os pressupostos. A literatura. Por isso. ou. Basta alguém explicar o que significa. as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim.aprender a palavra "elefante". Porém. a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. mais tipicamente.

mas. Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. seria nas entrelinhas da própria fala. Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha. Por exemplo. e não apenas da escrita). o aluno diz "kaça" ou "çeaça". não sabendo decifrar a escrita. portanto.um texto escrito (na verdade. quando são solicitados a ler. não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. ao ver a palavra CASA. Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que. desse modo. de concatenação ou de compreensão. quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. O professor deve. outra palavra. . O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que. como não sabem exatamente o que estão fazendo.. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar. põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala..

do contrário eles se acomodam. etc. tê-a-tá. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. la-ta Esse aluno sabe ler. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas. Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades. como ela não sabe decifrar a escrita. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto. Assim como atribuímos palavras às coisas. no seguinte: "lêa-lá.Esse caso é semelhante à leitura incidental. o que resulta. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu. como logotipos ou marcas de produtos. linhas de ônibus. por exemplo. Porém. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. não sendo um conhecimento produtivo. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto.

porque sua leitura não lhe traz significados. então. O professor. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. Alunos que apresentam problemas de naturalidade. porém. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira. Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. apenas sons da fala. tal aluno não aproveita o que lê.descobriu. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. um simples decodificador fonético da escrita. nesses casos. O leitor é. o que impressiona bem o professor. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. mesmo curtos. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. de . Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas.

Alguns professores gostam de promover leituras coletivas. pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. Essa prática é muito interessante. a leitura de um texto por várias pessoas.fluência. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si. não é uma boa estratégia. Porém. pelo contrário. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura. podem ajudá-la. enfim. sendo que. vários leitores em coro. em outros. Pode-se fazer isso de vez em quando. há apenas um leitor e. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. especialmente quando a classe não gosta de ler. em alguns trechos. Ler textos com muita. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos. Criança gosta de ler textos com ilustrações. ou seja. de concatenação. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura.

"Sinos de Belém". Há vários pontos importantes que é preciso considerar. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. sem entrar em considerações específicas. Assim como o ditado e a cópia. para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto. reviver sentimentos .Recife". inclusive uma revisão histórica. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar. a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. Ideografia e leitura Pela própria natureza. Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. meditar.

Portanto. embora. tem o significado de "som longe". Uma leitura literal. Assim. as pessoas cultas discutem o significado das palavras. em "televisão" e "telefone". lembram que. podem compreender melhor o uso das palavras na sua época.fortes de patriotismo. Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. no caso da palavra "pluviométrico". a revelação etimológica . que significa "longe". portanto. que inclui outra palavra grega . etc. procurando recuperar formas e significados antigos. para explicar a palavra "pluviométrico". em latim. Por exemplo. uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar. Logo se vê que. que significa "som" -. por exemplo. <325> Esse tipo de escrita. nesse caso. "chuva" se dizia pluvia e. dos mais antigos. persiste até hoje. "Telefone". falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica.fone. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra. Desde os tempos mais antigos. "televisão" significa "algo que se vê longe". Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). coisas ou fatos que a fotografia evoca. Portanto.

Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. dificilmente se faria entender. dizendo a origem das palavras que as compõem. mesmo quando faz pouco sentido. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. para estudar o uso atual das palavras na língua. mas não ajuda muito. e dissesse apenas "algo que se vê longe". fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico. parece realmente ridículo. Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e. Fora do mundo escolar. esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos. Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . Se alguém. nem é conveniente. Porém. por um lapso de memória. muitas vezes. como no caso de "televisão" e "telefone". embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe".ensina mais grego do que português.

mas existe de maneira própria. Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. No primeiro caso. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". são muito importantes. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. mas devem ser entendidos corretamente. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). Pelo contrário. mas não culposo. ou seja. que passou a ser feita. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. menos ainda grego. Essas palavras devem ser entendidas. posteriormente. portanto. não mais com textos necessariamente antigos. não há crime. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. mas no segundo sim. dentro do contexto legal em que se inserem. O português tem vínculos com essas línguas. A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua. Qualquer texto .

No caso das obras literárias. que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu. Porém.passou a servir para um trabalho de análise exegética. uma espécie de reescritura (sem a arte do autor). pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. a interpretação de texto enriquece-se. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. a sociologia e a psicologia. . não só a especificação de palavras. Posteriormente. os comentários (exegese) abrangem. encontram-se. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita. sobretudo a filosofia. envolvendo textos literários. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época. por vezes. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. mesmo na interpretação literária moderna. Aqui já não há mais exegese. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos).

geografia.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. sempre. por exemplo. As respostas. Nota-se. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. química. podiam até vir dadas de antemão no . No primeiro caso. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. Porém. Naquela época. no segundo caso. Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. mas. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários. bem como história e português. portanto. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro. física. houve de fato uma interpretação. Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. A interpretação de texto deve ser. necessariamente. necessariamente criativa e individualizada.

Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola. ideológico. nada de opinião pessoal. fruto de pesquisas sérias ou não. Nada de interpretação. em todas as matérias. Certas análises do discurso. Obviamente. por exemplo. mas uma análise do conteúdo lingüístico. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. Análise do discurso Há. ainda. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta.Manual do Professor. nada de pesquisa individual sobre o assunto. principalmente. psicológicas. Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. como reflexões filosóficas. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita.. nos livros didáticos e nas aulas de português. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. . e. ideológicas. que são explicitadas pelo leitor que interpreta. filosófico. psicológico. etc.

Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação. que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. sociolingüística. ideológicas. Lingüisticamente. não as noções filosóficas. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras. como acontece nos diálogos. etc. Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas. . debates. etc. etc. além de estar inserido num contexto (pragmática. morfologia. conversas. etc. fonologia..). etc. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão.).psicanalítico. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto. psicológicas. É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto.

lingüística textual e análise da conversação. argumentativa ou simplesmente estrutural. etc. desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem. Em resumo. ideológicas. ideológica. psicológica. pois. análise exegética. Por exemplo. ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. etc. comentários pessoais dos mais diversos tipos. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. quando uma delas predomina. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. temas ou assuntos tratados. Porém. estudos etimológicos. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave.Os pretextos da interpretação de texto Pode-se.. uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas. análise do discurso de base ideológica. Por outro lado. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras. frases. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. extrapolações de natureza filosófica. . mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem.

tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto. para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). dos lingüistas. fácil e óbvio <330> . por um lado. por outro lado. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem. formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. Em outras palavras. em última análise é tarefa da lingüística. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes. da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos. portanto. No mundo todo. é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. Por essa razão. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos. Se.

Isso traz uma nova dimensão ao assunto. por exemplo. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente. toda descoberta feita pelo homem nas ciências. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo. sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. Caso contrário. Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição. Na verdade. e essa é uma atividade tipicamente lingüística.. Aliás. Na Bíblia. Sem esse pressuposto. isto é. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes. nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez.como andar e comer.. É preciso interpretar um texto? . não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. Somente quando surge uma dúvida específica. essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto. colocar as idéias em palavras. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos.

a um programa de televisão. no caso anterior.Ao observar os usos da linguagem. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa. quando alguém está assistindo a um filme. Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. denota que está acontecendo algo de errado. por exemplo. agindo assim. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. como. ou pensa que está entendendo errado. seria uma forma de negar a racionalidade do homem. notamos que uma pessoa conversa com outra e. certo tipo de pergunta. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis. conduzindo um assunto. ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. Nesse último caso. ou mesmo uma quantidade grande delas. não. Por mais pobre. miserável e . Quando o interlocutor não entende algo. ou visitando um museu. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não. Porém. No fundo. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. Em outras situações da vida.

perguntar às vezes pode ofender. desprezar. assim. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. Entender o texto no seu contexto Chegamos. parar. se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. Por isso. Mudando um pouco o contexto.estúpido que alguém seja. e nenhuma informação nova é solicitada. ou ainda. É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. isso pode até ser respondido. que tipo de bolo ela comeu. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. menosprezar e humilhar seu semelhante. e. se o texto for oral ou escrito? . se movimentar. nesse caso. sem dúvida. uma ofensa. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. depois dos exercícios. as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. que pede para ela dizer quem comeu o bolo.

No entanto. agindo assim. seja ele oral ou escrito. seu ouvinte. um falante de português como ele. <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. Vimos também que. entende o que foi dito. vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem. mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . que entendem errado o que ouvem. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário". inserida no mundo. apesar disso. cada um entende um texto. e assim por diante. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. Portanto.Pelas considerações feitas acima. Na verdade. come tem enganos com a linguagem. sem saber explicitar as regras que a regem. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido.

tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham. a palavra "pé". encarregam-se de estabelecer certos limites. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou". Portanto. como alguns gostariam que fosse. Por interpretação literal. falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. Em outras palavras. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. todavia. Os usos sociais da linguagem. Um desses limites é a interpretação literal. A linguagem não é apenas lógica. entenda-se o uso comum que se faz das palavras. aqui. inequívoca e completa.interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. para que esta seja um instrumento útil aos homens. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações. no sentido literal do que dizem ou ouvem. porque isso também faz parte das funções da linguagem. . o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto.

o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. coerência e. Pensar em parte do corpo. Em outras palavras. mas simplesmente associado à palavra "pé". significa o que está dito. mesmo. depois. uma vez que ela possui esse significa do. mas em contexto muito diferente. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. portanto. <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. Para entender o que se lê. nesse caso. ou seja. do mundo em que o texto se insere. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. é levar em conta algo que não foi dito. nem pensado.Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. referencial. sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. de solução duvidosa. o que se ouve ou. quer com relação aos usos da linguagem. Literal. interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si. Quando o contexto lingüístico não é favorável. cada um usa a linguagem segundo . de coesão. do jeito que está dito. no máximo.

desafiador e maravilhoso.seu próprio metabolismo intelectual. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. Ora. entre outras coisas. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. quando se trata de textos científicos. avaliar a aprendizagem. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . Porém. é algo fascinante. como os de matemática. se isso é assim. Se fosse diferente. faz parte das preocupações da escola. geografia. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. Porém. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. sem dúvida alguma. é preciso entendê-la corretamente. para checar se os alunos entendem o que lêem. a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. Do jeito que ela se apresenta. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. etc. Isso inclui. Não só faz sentido. Essa avaliação. história. como é necessário que o professor faça interpretação de texto.

mais uma vez. quando muito. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro.de interpretação de texto. Por trás dessa discussão. ensinar como estudar esse conteúdo. a cronologia histórica. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. e um texto puxe outro. Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. Se errar. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. Em outras palavras. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. um passatempo. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente. ela precisa cuidar muito . principalmente. as características geográficas. é simplesmente um exercício idiota ou. mas deve. um trabalho leve a outro e assim por diante.

atentamente do modo como os alunos estudam. Por isso. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. <335> . falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas. falta a reflexão criadora do aluno. Nesse tipo de atividade. de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura. Isso faz parte dos usos da linguagem. outras pessoas irão achar que eles são imbecis. a partir de coisas velhas que aprende. Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e. se passar de ano pensando que aprendeu. Quando se fala e se ouve. não necessita fazer uma lista de perguntas. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. conseqüentemente. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. pior ainda. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los. no fundo geralmente descabidas. Esse é o jogo da linguagem. há sempre a possibilidade de enganos. bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido.

além dos detectados no texto. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias. Nesse caso.O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas. Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. como vimos. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. Portanto. quer para aprender sua natureza lingüística. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto. Além disso. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes. é imperativo que outros conhecimentos.

esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. deve se dizer que esses . o conto. como a poesia. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos. resolver seus problemas escolares.presumivelmente). os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila. Textos científicos. etc. A formulação de problemas de matemática tem características próprias. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios. Pior ainda. esse tipo de texto é o menos recomendável. Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. Mais uma vez. Ora. Resumindo. uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias. que eu saiba. a piada.

não pode tomar a iniciativa antes deles. O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido.professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. é natural que pergunte. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. conseqüentemente. Por essa razão. Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. procurando no dicionário ou de outras formas. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. E uma prática . Então. Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação.

pois. como cartas. Assim. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. Determinados assuntos podem ser analisados. <337> e não com todo texto que se lê. Nesse caso. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. Estamos. notícias de jornal. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos. que a escola deve cultivar com carinho. o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. etc. Obviamente. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. é o debate. um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia. Em lugar disso.saudável que deve acompanhar toda leitura. o texto representa apenas uma . Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. estudo técnico sobre o assunto. diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto. um texto literário pode servir para discutir literatura. O professor pode estudar a estrutura de uma piada.

levando em conta o que ouvem e. pelo contrário. estranhas conceituações e conclusões falsas. Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. o que causa freqüentemente confusões. dessa forma. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. para se . mas irão. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram. Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola. como também. instruções. elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam.das idéias em discussão. apoiar ou rejeitar o que o autor disse. para estudar.

descansar. e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. é partir de um texto para fazer outro. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. colecionando <338> esses excertos. em cadernos de anotações pessoais. etc. seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. Esses esquemas devem ser personalizados. Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. depois. escreve com as próprias . e.distrair. Em lugar disso. cada um faz de seu modo. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. e não só dos de português e de alfabetização. Aqui também. o professor promove a atividade. Uma prática muito usada por alguns professores. seja recontando uma história. pensamentos. versos. se divertir. etc. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. portanto.

Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler. especialmente na alfabetização. Esse tipo de trabalho é muito recomendável. a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos.palavras o que se lembrar do que leu. como atividade individual. Na alfabetização. o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. Alguns escolhem os textos semelhantes . Um professor alfabetizador não precisa. Os textos da interpretação de texto Finalmente. pois ensina as características dos textos. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. na verdade. De modo geral. Se os textos forem os de leitura comum. Ou então. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico. o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível.

As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. histórias para boi dormir. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça. à moda dos contos de fada modernos. quando muito. Além desse tipo de livros.aos <339> encontrados nas cartilhas. ridículas ou. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. mesmo os adultos. Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. . Todo o mundo. vive no mundo da fantasia. como se costuma dizer. Destes. que tratem de coisas sérias. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro. tem senso da realidade. Todo o mundo. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. que são os piores textos já produzidos por alguém. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso. mesmo as crianças.

Com isso. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal. sobretudo nas primeiras séries. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. Apesar dessas facilidades atuais. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional. os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. A salvação não é fazer interpretação de textos. Nos últimos anos. Para a escola. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. porém. já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores.A partir de 1964. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA . Felizmente. mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores.

Em Portugal. falado na Galícia. Havia também o galego. O latim foi se fixando nessa colônia. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. nos livros e nos documentos religiosos. ao norte de Portugal. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. hoje território espanhol. Logo depois da expulsão dos árabes.A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. depois. implantando a cultura latina entre os povos da região. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . Durante essa época. como língua. sempre pobre e ignorante. adquirindo seu sotaque próprio. firmando-se inicialmente como dialeto e. O povo. certamente era falada alguma língua celta e. o latim era usado nos documentos oficiais. no final da Idade Média. Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. no dia-a-dia. antes da chegada dos romanos. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. na Espanha. uma ou mais línguas iberas. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português. entre as pessoas cultas. nas escolas. além do basco. Em Portugal.

as pessoas sabiam que. por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português. uma espécie <342> de latim estropiado. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. mas que permite um começo de pesquisa. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. o espanhol. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas. que se tornava notório na escrita. Naquela época. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos. se o latim podia ser escrito. dando a impressão de que a fala não mudou muito. Por outro lado.do latim clássico. que antes era o latim clássico. Esse é um método não muito seguro. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. deixando o latim para algumas obras . resiste mais às variações dialetais. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. lá falava-se o romanesco. A ortografia. como sempre.

a adaptação das línguas apresentou muitas variações. definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. sobretudo nas relações entre letras e sons. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. revelando uma espécie de transcrição fonética. passaram a usar esse sistema para escrever. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. No nosso caso. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. Esbarrando na variação dialetal. Somente a ortografia iria. depois. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis.científicas. onde havia centros culturais de grande importância na época. No princípio. como o português não era latim. misturada com representações ortográficas próprias do latim. na França e sobretudo na Espanha. José Lei te de Vasconcellos. tem dito que o documento mais antigo em língua .

.portuguesa. que é bem curto. (a letra u é igual à letra V). Vermúú Ordoniz testes.. contando o descobrimento do Brasil. Menendus Sanchiz testes. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE. AMEN. Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. Nesse documento. Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. Stephanus Suariz testes. A ortografia que se vê no texto pode . ÁMEN. Sancho Diaz testes. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. Trata-se de um título de venda. data de 1161. e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil. Gonsaluus Diaz testes. misturada com o latim da época. Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila".

os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas. Há ainda fatos de segmentação. Compare "demtes" com "dentro". mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber. Observe. "grosura" e ' escritas com apenas um S. A questão da carta . e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro. nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. a palavra "cubertura" escrita com U. "bramcos". Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". entre outras coisas.ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador.. Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta". "coussa" escrita com SS. como "os beiços" e "obeiço".. amdam nuus sem nhuua cubertura.

até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. A comissão . Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. Certamente. veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. Ainda hoje. no final do século passado.não se refere apenas à ortografia em uso na época. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal. mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. na história da língua portuguesa. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. é gente interessada em mudar a ortografia. Gonçalves Viana. com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas. Quanto mais se fazia nesse sentido. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras. Carolina de Michaelis. percebia-se logo que piorava.

encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. julgando-a. a recém-criada Academia Brasileira de Letras. A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. Mas ele propunha coisas mais audaciosas. recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque. etc. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. . Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. ELEJER (eleger). aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. ou ainda: TAM (tão). A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. como escrever FICSO (fixo). — contraproducente. PAJINA (página). PROSSIMO (próximo). Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras. ÇAPATO (sapato). como tenho demonstrado. declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. sob a presidência de Machado de Assis. EMQUANTO (enquanto). sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras".

selvagem. inoportuna. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. antiphilosophica. e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. apesar de tudo estabelecido. com a participação das duas Academias. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. Em 1929. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. chegando-se a um acordo em 30/04. As reformas da reforma ortográfica Em 1915. descriteriosa. O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. da Academia Brasileira de Letras. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931. Curiosamente. anti-patriotaa. por iniciativa do acadêmico Estrada. a reforma acabou aprovada com emendas. A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. Silva Ramos. Em 1919. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo .

Em 29/01 de 1942. ar quivado. de 23/02. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. entregue em 21/12/1937. introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937. Dada a nova situação. também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940. Em 29 de dezembro de 1943. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. porém. que. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. curiosamente. reunid em Lisboa. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. no entanto. que foi. O . O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica. Em 1938. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias.projeto de reforma ortográfica. fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. recomeçaram as discussões nos dois países. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa. Aprovadas as Instruções (bases ou regras).

No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. revogando o decreto-lei 8 285. em 1955. A briga continuava forte fora das Academias. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das . Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário.decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. Por isso. Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo). O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. modificando o uso mais comum no Brasil. Desse modo. em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. modificando bastante o de Portugal. Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. com o de 1943. publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa.

Na prática. num país como o Brasil. Depois de tantas reformas. Em Portugal. mesmo dos políticos. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . APTO. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. ACTO. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. mas como. RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. E quem escreve errado. pelo menos do jeito como aconteceu. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória. as "consoantes mudas".ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. Dessa forma. como em FACTO. Deveria ser objeto da educação. <347> Como vimos. Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. ou seja.

em muitos nomes. haveria outras regras semelhantes. Uma vez feita uma mudança. não deveriam ser usadas.decidiram (ou que o cartório registrou). também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. aparecem as letras K. cidades. REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. Assim. por exemplo. de acordo com as normas vigentes. de tal modo que na prática nada muda. são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. etc. Todavia. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos. Y e que. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. nesses casos. Do mesmo modo. Nomes próprios de lugares. Na verdade. Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia. .

se tiver de escrever CASAS FEIAS. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ.. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS.Indo contra a tradição da língua portuguesa. as coisas seriam diferentes. Na verdade. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. não um problema geral da língua. Ora. 'bs bororó' ' tupinambá' etc. Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. não há .. Porém. agora. as coisas são diferentes. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). dizendo. Porém. <348> Voltando à regra anterior. por exemplo. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. mostrando que. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS. Se for para seguir a pronúncia. em vez de se escrever apenas CASAS. dependendo do contexto. Se fosse um carioca.

como alguns fazem. etc. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. QUAZA. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara. seguindo ou não a ortografia. de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. mas em escrever QAXA. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente. o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia. ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . > Nas aulas de português. 1994b.vantagens nas modificações. em geral. Para quem não sabe. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. a ortografia tem sempre um papel muito importante. e as formas de escrever as palavras. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia.

um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. que denotam um analfabeto (sic!). uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. Em situação pior estão os próprios alunos. Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. Às vezes. Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão. Obviamente. de fato. Os colegas zombam. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu . São erros insuportáveis. mas infelizmente existe em muitas escolas.

mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário. As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. Na verdade. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . inclusive para resolver dúvidas ortográficas. pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e. o dicionário até parece um livro proibido. quando tivessem urna dúvida ortográfica. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns.PEÇOA ou BRICPZA. sobretudo nas provas. Porém. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. o que deveria acontecer sempre. em todas as aulas. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado. se souber essas duas coisas.

que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de . A ortografia seria aprendida depois. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava. Nesses casos. desde que escrevesse. era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. ou melhor.respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. Depois. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. sobretudo. Certamente. Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta. sem nenhuma explicação e. como parte do desenvolvimento escolar. não saía da primeira série. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia. com as novas idéias pedagógicas.

No inicio. Então. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. Tendo ouvido todas essas explicações. sintáticos. o objetivo é apenas escrever. Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno).cuidar da ortografia. criou uma situação de frustração para muitos alunos. um aluno pode apren . Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. semânticos e textuais. Assim. está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos. sabendo o que e como está aprendendo. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. de onde saiu e aonde vai chegar. que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido. tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito.

O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. Ele precisa saber como se virar. e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. que é decisiva. Procedendo assim. vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e. é fácil ver como. O que fazer. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. e o professor não precisa se preocupar. Superada a primeira fase. o aprendizado da leitura. Por outro lado. aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . mas também não se pode abandoná-la. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. no primeiro ano escolar. Às vezes. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. o aluno não só aprende a escrever livremente. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. porém. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. ou seja.

se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia. Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. cometendo erros intoleráveis. os professores das demais séries têm a mesma obrigação. Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras. como se mencionou acima. Portanto. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las. é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. exigindo um trabalho preliminar de . Entre outras coisas.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. para fazer transcrição fonética). da variação lingüística. da natureza. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. em particular do nosso. Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. função e usos dos sistemas de escrita. a respeito do processo de aquisição da linguagem. o professor <352> deverá falar.

seja o que for. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. em que série da escola isso estiver acontecendo. Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. Por exemplo. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia.revisão do aluno. por exemplo. Quando um aluno não sabe alguma coisa. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. 38. No caso de alunos preguiçosos. para descobrir quais estão com a grafia errada. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . em qualquer momento da escolarização. Finalmente. podem ter sobrado três erros. Como é óbvio em educação.

<353> Desde os primeiros contatos com a escrita. A partir da ortografia. as vogais e consoantes. podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura. o aluno precisa aprender que. se cada um escrevesse do jeito que fala. que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. às quais são atribuídos valores fonéticos. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. e representá-los na escrita por letras. Portanto. o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. seria o caos. Portanto. dizendo-a de acordo com seu dialeto. Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. a escrita inventou a ortografia. Nosso sistema usa letras. as palavras terão . mas não é tudo. Feito isso. Fazendo o caminho inverso. cada um lê conforme fala. percebe-se logo que. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes. Esse é o primeiro passo. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. Para neutralizar a variação dialetal. Por essa razão.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. Assim.

é outra. caso das primeiras atividades de escrita das crianças. ele já não se . muitas das explicações que são dadas aos alunos. Depois. PORTUGUESA). POBREZA) e as que formam um plural feminino. <354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. Depois de certo tempo. independentemente da maneira como pronunciam as palavras.pronúncias diferentes. as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. é possível elaborar algumas regrinhas. Às vezes. Como se vê. Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever. Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia. desde a alfabetização. não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia. A verdade. com S (FRANCESA. porém. Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos.

O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem. seja em que matéria for. passar a limpo. Esse tipo de cópia serve apenas para castigar. Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. porque o professor corrige mesmo. Então. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. não só nas redações escolares da aula de português. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. quando necessário.preocupa com a ortografia. . A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura. decorando a grafia das palavras. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. mas de todas as palavras. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade. Para que essa prática desse certo. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro.

principalmente de alfabetização. . criando. etc. FLECHA e FRECHA. Por exemplo. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica. formas ortográficas paralelas de algumas palavras.A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. > Um ponto importante que os professores. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. BALSA e BALÇA. 1963. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico). ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal). em geral. analisando seu dicionário. uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. desse modo. Além disso. Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. SOLUÇO e SALUÇO. Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las.

Assim. Para um aluno nas primeiras séries. PRINCESA ou PRINCEZA. a partir da .Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. sendo praticamente inexistente em outros. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras. Para um professor alfabetizador. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário. mas não para um aluno já alfabetizado. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. Às vezes. menos dúvida causará. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA. diante de uma palavra comum. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. À medida que uma palavra se torna mais familiar. Aliás. escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. às vezes ajuda a decidir. Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que.

o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. a questão da variação dialetal e. causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. A ortografia. Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X. Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em . <356> Para muitos alunos. no seu caso. "psicreta" (bicicleta). tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. é preciso ter bem clara. as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. "nóis fumo dispois" (nós fomos depois).memória visual. antes de tudo. Para ele. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. Para um aluno que fala "bardji" (balde). nem sempre é difícil ler a letra X. Entretanto. É por essa razão que a letra X vem por último. O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. como funcionam. pois. "brabuleta" (borboleta). sobretudo.

Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos. E antes de passar a limpo. Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. Por essa razão. A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos. quando tivessem de escrever. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. entre outras coisas. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. checar a forma ortográfica das palavras. o aluno deveria. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. Como já se disse.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. que deve começar desde a alfabetização. como se . vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa. Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. principalmente. não dando maior importância do que esse assunto merece e. mas também bons hábitos nos estudos.

<357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. Por outro lado. bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. sempre que . ou seja. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita.tem enfatizado ao longo deste livro. explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. As considerações a seguir estão organizadas. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras. através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras). por exemplo. Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras.

O professor. O professor poderá escrever algumas palavras na lousa. com a letra A. na maioria das vezes. mostrando como levantar dados e formular regras. Como exemplo. Como qualquer letra. pode escrever AMIGA. no início e no meio: ASSADO. esse som será escrito com a letra A. portanto. quando urna palavra tiver o som de "a". . entretanto. identificando-a com o som "a" na fala. dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. segundo a ordem do abecedário. pode ter outros sons. um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. A seguir. Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala. Talvez. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. que se verão a seguir Portanto. ela representa o som de "a". não precisa seguir essa ordem. Depois. Em seguida.possível. E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. Nos quadros aparecem o nome das letras.

início-e-final. São os casos particulares. final. na fala. como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich"). Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. E e O (com os sons de "ê". a letra A tem um som . de acordo com o dialeto). o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). em sílaba final de palavra oxítona. a letra A. ATRÁS. VEZ ("vêis"). ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). ou seja. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". Quase todas as letras têm outros sons. etc. HINO. pela vogal. Por exemplo. outros casos). • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto). tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. Outro caso particular da letra A ocorre quando.O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. HOJE. PAZ. além do som básico. "é". A mesma regra vale para as vogais U. tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. Neste caso. etc. uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. TOMÁS. Exemplos: RAPAZ. HELICE. PÉS ("péis"). ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). na fala. "ô" e "ó"). HUMILDE.

MAL. Veja. Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. LAURA. é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. TODO O MUNDO ("todumúndu"). o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla". Por razões semelhantes. BAÚ."posterior" (de "garganta"). Outros exemplos: SAL. às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. que é dito "muramarélu". variando a vogal: CASA ESQUISITA. etc. se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. ficando com uma qualidade . Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. ou ainda MURO AMARELO. RAUI SAUL. Às vezes. por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente. ALTO e AUTO. etc. ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). A vogal A pode ser nasalizada. podemos ver outros exemplos. CALDO. Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). Se não houver a formação de ditongo. É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). que se torna "kaziskizita". BALDE. Para testar e conferir qual a vogal que cai. etc. a letra A possui o som básico de "a".

ou numa fala bem informal. a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". CAMA. caso da palavra ANA — compare com ASA. tem sempre um som nasalizado. Portanto. Na leitura. Quando a letra A vem antes de NH. a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. etc. CÂNFORA. Se for átona. sabe-se que deverá ser escrito com a letra A. CANA. cujo som do primeiro A é oral. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante. . como mostram os seguintes exemplos.vocálica diferente. CAMADA. ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. a pronúncia é "rãu". Som nasalizado ou não: ANÃO. a letra A será sempre nasalizada. caso dos verbos. a letra A pode ter o som nasalizado ou não. Na verdade. em muitos dialetos. no dialeto padrão. CANAVIAL. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". CANTIGA. AMA. CAMPO. por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). e a vogal é tônica. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). AMADEU. mas. Som nasalizado: ANA. Quando uma palavra termina em -RAM. TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". como em: ANTÔNIO. AMOR.

ainda. Os exemplos apresentados anteriormente revelam. Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. no segundo caso. pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar. uma vez aprendidos. Além disso. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. No primeiro caso. os valores fonéticos letra A. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. em grande parte. ou. SABÃO. na escrita. estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). Por exemplo.derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras.trabalho de decifração. Geralmente. etc. Porém. VIRAM e VIRÃO. nesses casos. Esses casos podem ser explicados e. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). tem de saber a ortografia de palavra por palavra. são de grande utilidade no . a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). e. IRMÃO. Compare: ACHARAM e ACHARÃO. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta. Note que. um aluno que fale um tipo de variação . LIMÃO.

Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala. ao buscar as formas ortográficas. mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE. ADESPOIS (depois). SEJE (seja). . chegando-se às mesmas regras. fica tudo mais fácil.único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual. No próprio dicionário. ILUMINAR e ALUMIAR. encontramos registro desse tipo de dificuldade. Para esses casos.lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). etc. não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons. Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o . quando se trata de variação dialetal.CANFUSO (confuso). e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia. terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico. Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. como em: BÊBEDO e BÊBADO.

Às vezes. fazendo as seguintes afirmações: 1. Se o significado for "lavou casas que existem". em exemplos como: "élalavôtodakaza". é preciso analisar as palavras isoladamente.que se escreve com a letra i. Assim: em "minhamiga". podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. Nesses casos. Exemplos: "batata" BATATA. 3. cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. o significado é "lavou a casa inteira". Para representar o som de "a" ou de "ã". numa faia pausada. é possível que a seguinte também comece por "a". 2. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". pronunciando as palavras isoladamente. "ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. recebe til. não haverá . Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. por exemplo. Para saber como escrever. na escrita haverá o artigo. então. intercalando outra palavra entre essas duas. Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. "kãneta" = CANETA. Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". a primeira palavra é "minha" e termina em "a". deve-se escrever a letra A. o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". esse é um problema para quem escreve em português. sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. é preciso fazer uma averiguação para saber se.

apenas "ç". sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". como: "istuçérvipratodacriãça". Em algumas palavras. zê". a qual. mas a uma criança em particular (cada criança). Num outro caso. introduzida na língua portuguesa). Se essa frase não se referisse às crianças em geral. etc. "a".artigo. <361> 4. são. neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. 5. etc. a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. Há raras exceções. porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A. Com já foi dito. como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira. Palavras como "machu" (MA CHO). etc. escreve-se apenas A. "kachu" (CACHO). "çê" Note que no caso de consoante. mas não em todas. deve-se escrever AI e não apenas A. porém. O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . Nas outras palavras. mas. não são escritas com AI. é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X. Assim "çê". para saber isso. a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA. "k". quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê". "kê". precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante. Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. de fato.

Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". podese saber que na escrita teremos -RAM. "fizérú" e "fizéru". LATÃO. Nas formas verbais do tempo passado. 9. "zéru" não vai ser escrito ZERAM. etc. etc. mas representadas apenas pela letra A. ADISPOIS. ou com ÃO. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". Em palavras como "mãinh "alemãinhs". escreve-se apenas a letra A. sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. MECADTO. 6. 7. CORAÇÃO. Em qualquer dos dois casos. etc. Diante do som de "u". Encontrando a escrita NH. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA. Portanto. Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. como CÃOZINHO. BÃÜ. Estudando essas variações. SÃO).em casos de diminutivos. como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO. Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. 8. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. nos demais casos. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). mas apenas ZERO. ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos. CHEGUEMO) e .). ALEMÃES.

. Às vezes. no início da alfabetização. envolve várias dificuldades. Mostra. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos. como conseqüência. Nesses casos. A análise acima mostra como a letra A. em outros dialetos (BORBOLETA. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas. ainda.outra. quando estão aprendendo. e o professor precisa saber disso. O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. Esse tipo de análise revela. Pior ainda é o fato de as crianças. que o preço pago por essa medida traz. Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não. ainda. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. Os alunos. MERCADJNHO. BOM. CHEGAMOS). DEPOIS. estão defrontando todas essas dificuldades. mas nem sempre.

na fala comum e informal. ele não irá ensinar tudo isso. Na verdade. etc. ponto por ponto. Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. etc. para achar a letra correspondente à escrita. <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. ele pode ensinar a seus alunos como ler. M. como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei"). BARCO. como em: OBJETO ("obijétu"). decifrar a escrita e analisar a fala. SUBMARINO ("çubimarinu"). TÉCNICA ("tékinica"). IGNORAR ("iguinorar") . O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. CABELO. e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. ela é pronunciada "bi". ADVOGADO ("adivo gadu"). Exemplos: BOLA. Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. AFTA ("áfita"). D. ABSOLUTO ("abiçolutu"). Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T. RITMO ("ritimu"). Certamente. G. C. F.

CH/J). CAPELO (cabelo). etc. têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. o aluno é levado a escrever POLA (bola). pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes). Exercícios com pares mínimos (tais como. PATATA (batata).MNEMÔNICO ("minemônicu"). F/\ S/Z. . encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial. BULA/PULA. Por essa razão. Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". "pçicréta". Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. FACA! VACA). T/D. quando se aprende a ortografia dessas palavras. Em certos dialetos. fala-se "trabeçêru". como vimos antes. Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas. escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. Só se sabe quando colocar B ou não. Nesses casos. e o aluno precisa aprender palavra por palavra. mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA. o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. C/G. Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem. Por exemplo. ADIVINHAR e não ADVINHAR. mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. etc. MENINO e não MNINO. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". Nos dicionários.

é preciso estudar como se decifra a letra B. No segundo."faca" e não "batata". com base em sugestões orientadas por ele. ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. etc. No primeiro caso. e por "g" nos demais casos. Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. O que vale é a bagagem de informação que se . mas deve escrever de outro. discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU. <363> dados pelos próprios alunos. "vaca". e isso o ajuda em muito a aprender. com o tempo. bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito.). como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. formulando as regras com os alunos. e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons. o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos. que admite 'pineu" ou "peneu". 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". de fato. quando precede I ou E.

QUILO. A. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". AQUELE. observando o que acontece no início de palavra. Para explicar o que são vogais e consoantes. O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. etc. Diante das outras três vogais. a letra C tem o som de "kê". Exemplos: QUERO. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal. o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. como em CEBOLA. COLAR e CUIDADO. CÉLEBRE e CIDADE. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A.revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. Portanto. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I. um aluno pode estar pensando em outra. Assim. o professor explicará que usamos as letras QU. . Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. dependendo da vogal que vier depois. O e U. Resumindo. Quando o professor ensina uma coisa. pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". O e U. caso de CARA.

Essa letra. no entanto. quando em início de palavras. "ço" e "çu". que aparece diante de qualquer vogal. partindo da escrita. uma vez que. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça". A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. é fácil ler essas letras. tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. . terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). como SAPO. Se alguém.A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. O ou U. Como uma coisa puxa outra. SOBRADO e SUBIDA.

A seguir. apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto. Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som .tem sempre o som de "çê" (mais vogal).

chegamos às seguintes regras: . "kê". "kê" + "i" ou "chê".C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. Analisando detalhadamente os dados apresentados acima. a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê".

A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —. que se tornou um ditongo ("ai". quando não seguida por vogal na escrita. se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer". No último caso.1. A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. No caso de C. Quando a letra C tem o som de "kê". O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). independentemente da letra que vier antes. 2. A leitura de NAS. O SC tinha apenas o som de "çê". 3. os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". passa a ter o som de "chê". "naiç" ou "naich". desde que a consoante não seja R ou L. além de influenciar na leitura da vogal anterior. pode ser "naç". 4. ou seja. A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. Em alguns dialetos. Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. Com a nova pronúncia. em final de enunciado diante de pausa. O ou U. no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". em outros. de uma outra consoante ou no final de palavra. só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. 5. com ou sem a . "ki". pode também ter o som de "kê" + "i". em vez de "a"). A letra C tem o som de "kê" quando diante de A.

principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C. O ou U). não pode ser escrita com a letra C. palavras como CEBOLA e CIDADE. "eç-çe-çãu". de <365> "çê". obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida. A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. Isso pode gerar confusões. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C. "eich-çeçãu". palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. Portanto. deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos.' o sistema manda usar a letra 5. Uma palavra como "çapu". que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. desde que venha antes das letras E ou I. A questão da escrita.ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C. apresenta dificuldades. "çubir". Na verdade. a letra S também representa o som. "çopa". além da letra C. no entanto. em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE. porque a letra S também pode ser . Nesses casos. Por essa razão. Desse modo.

"na-ça" NASÇA. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras.usada diante da vogal I e E. Somente conhecendo ortografia. Assim. Esse é um procedimento comum. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. mas que tem ortografias diferentes para cada significado. iremos escrever PROXIMIDADE também com X. Se escrevemos PRÓXIMO com X. Ç. Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. O critério semântico. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. "pa-çu" PASSO ou PAÇO. SÇ e XÇ. em início ou final de sílaba. Às vezes temos uma palavra homófona. 2. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. Em NASÇA. SS. XC. se NASCER é com SC. como em SINO e SELO. pode ajudar a . X. Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. "pró-çi mu" PRÓXIMO. I o caso de "paçu". Se existe a grafia EXCEÇÃO. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO). uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). NASCIMENTO também será com SC. Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. em casos semelhantes. como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a".

como nas palavras: "kuidado" CUIDADO. "kuçtumi" COSTUME. vamos estudar esse caso agora. Como a letra C também pode ter o som de "kê". O ou U. Porém. podendo ocorrer também em final de palavras. para escrever os sons de "ki". em qualquer caso. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. como nos exemplos: "kis" QUIS. O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. "biç-pu" BISPO. 3. etc. só o conhecimento da ortografia pode dizer se . como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. 4. "rrapaiç" RAPAZ. o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. "koiza" COISA. Essa letra U não é pronunciada. "kê" e "ké". quando vem antes de A.encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. quando se pronuncia o U. A letra Q tem o som de "kê" sempre. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q. "kuéka" CUECA. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). "tauveiç" TALVEZ. "çekuéla" SEQÜELA. "fiç" FIZ. Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. diante de vogais que não sejam 1 nem E. "atraiç" ATRÁS. Como vimos antes. em final de palavra. a única saída é o Q. como não se pode usar a letra C. "kê" QUE e "kéru" QUERO. Aqui também. ou seja. Exemplos: "kãma" CAMA. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. Nesses exemplos.

Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. 1993ª. 6. algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial. quando a letra U deve ser pronunciada. <366> . como em: "tik-tak" ou "tiki-taki".ocorre uma letra ou outra. 5. "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i". completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). etc. Exemplos: "klareza" CLAREZA. Nas histórias em quadrinhos. Nesses exemplos. há uma vogal em seguida. etc. É o caso de tic-tac e tique-taque. "krônika" CRÔNICA. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). dependendo do artista. O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. Nesse caso. caso em que pode haver uma variação. Nas formas QUE e QUI. nunca a letra Q. ela é escrita com trema (Ü). Ver CAGLIARI. Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. como em: "akni" ou "akini" ACNE. só se pode escre ver a letra C.

ficando com o valor fonético de "zê". servindo apenas para os nomes próprios. 8. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). 9. em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO). Porém. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. Essa letra não tem outro som a não ser esse. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. junto com outra palavra que começa com o som de vogal. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê".7. não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. Como vimos no estudo da letra A. como à letra X. diante de pausa ou silêncio. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. De modo geral. sobretudo se não for nome próprio. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10.

Aparecem. para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". Mas não há apenas problemas de concordância. . CI (QUE). então. como. quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. Outra dificuldade é a troca de QU por C. quando se parte da observa ç cia fala. que serão indicados por S na escrita. o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta. Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia. sendo seguido de "i". do que quem fala "kualidadji" 11. mas podem formar uma sílaba própria. Como esta última é mais comum na fala.enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka"). Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. a letra C não tem o som de "kê". Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba. e a outra é mais própria da leitura. QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). estas grafias: ACELI (AQUELE). O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. observando a própria fala. CERIDO (QUERIDO). etc.

é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita. em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. se a escrita mantivesse a letra C. mas COLOQUEMOS.como QUATORZE e CATORZE. COLOQUEM. isso é para quem já tem muita fluência na escrita. etc. 13. TAQUE-SE. Nesses casos. embora pouco usuais. Uma questão relacionada com os últimos exemplos. no caso da primeira. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê". FIQUEÇO em vez de FIXO. o que não é o caso na alfabetização. mas TOQUINHO. Nesses dois exemplos. Nesses casos.ki-çi". quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E. etc. a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. mas FIQUEM. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra. QUOTA e COTA. "fi-. Para manter o som de "kê". em palavras derivadas. A partir da observação da fala. "çin-ta-kçi" . TOCO. Por isso. COLOCA. Veja os seguintes exemplos: VACA. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO). etc. 12.kçi" ou "fi-ki-çi". COLOCO. FICAR. mas um pouco diferente. VAQUEIRO. FIXE. Mas. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". Todavia. TORAX. no caso da segunda palavra. escreve-se com X: TAXI. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê".

No meio de palavra. Não adianta ficar observando a fala. em vez de outras alternativas. quando a palavra não for oxítona. a escrita será com 5 e não Z. com X. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. como em PASSO. Mas. o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z. EXTRA. pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. em vez de "pró-çi mu".(SINTAXE). "çin-ta-çi". RAPAZ. como atestam os seguintes exemplos: CASAS. como em PRÓXIMO. etc. Sempre que o som representar o plural de uma palavra. com S. MÊS. com a letra S (seguida de qualquer vogal). como em BASTA. com Ç. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante. nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. quando se trata de passar da fala para a escrita.. a questão é bem complicada. basta ver que vogal vem depois.. não poderá ocorrer a escrita da letra Z. Além disso. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A. é a ortografia. então. <367> Resumindo os principais pontos. Quem decide se vai ser C ou 5. Portanto. nesses casos. FEZ. revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". a dificuldade real fica . etc. O som de "çê". O e U. Em final de palavras. em início de palavras. Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. como em MOÇA.

a escrita usará as letras QU (que. o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka". temse na escrita a letra C (ca. qui). na escrita. a escrita quase sempre será feita com QU.restrita às palavras oxítonas e singulares. no início. É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. seguido do som "u" e depois o som "a". "ó". ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. quando na fala ocorrer o som de "kê". Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. Quando aparecer. e ocorre diante do grupo . "ko" e "ku". a escrita será sempre com S. não tem trema). "ô". Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". cu). QU seguido de A ou O. E vice-versa. Com relação ao som de "kê" da letra C. a letra U se pronuncia (nesses casos. Alguns alunos. com o tempo. LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. em meio de palavras. A confusão é esperada e. a criança vai assimilando a ortografia. co. Nos demais casos. escrevem CE em vez de QUE.

são escritas com essa letra. AÇUCAR. Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. Portanto. A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. Observe. ou em final de sílabas. as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. Por exemplo. song. FAZEMOS. Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. king. AÇO. como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê". Nesse caso. o seguinte exemplo: FAZER. MAÇÃ. POÇO. CAÇA. depois das vogais "u". "oünça" (ONÇA). FAÇO. NASCIMENTO e NASÇO. "õ" e 'à". ainda. etc. "lãn" (LÃ). a ortografia recorreu à letra Ç. nunca no início ou no fim. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. Poucas palavras.das vogais A. CALÇADA. AÇUDE. sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). FAÇA. etc. FAÇO. ACONTE CE e ACONTEÇA. ONÇA. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. O e U e nunca diante de E e I. PEÇO. MOÇO. O ou U. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. na língua portuguesa. mas algumas delas têm uso muito freqüente. etc. <368> ESTUDO DA LETRA D .

A letra D tem o nome de dê. que. continuando com o som de "tê". Diante de outras vogais. DOCE ("dôçi"). Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji". . em alguns dialetos. Para ler o D. DÚZIA. DIZER. POÇO ("pôçu"). DEDO. Portanto. Exemplos: DATA. etc. quando ocorre antes da vogal "i". o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). num tipo de dialeto. POTE ("pótchi"). há uma regrinha que diz que diante do som de "i". Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). sempre que se encontrar a letra D. POTE ("póti"). e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. a letra D passa a ter o som de "dj". esse caso na verdade é muito simples. mas DEDO ("dêdu"). etc. a letra D permanece com o som de "dê". POTE ("pótchi"). PODE ( "pódi"). Fato semelhante ocorre com a letra T. DEDO ( "dêdu"). DOCE ( "dôci") e assim por diante. sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). etc. DOCE. DIJVIDA ("dúvida"). e não causa problemas aos alunos. — e. RITMO ("ritchimu"). nos demais casos — TIA ("tchia"). mas PATO ("patu"). Apesar da aparência complicada. representa o som de "tchi". PODE ("pódji"). etc. Confira os exemplos: DIA ("djia"). Em outros dialetos. em outro tipo. PATO ("patu") POÇO ("pôçu").

tem o nome de ê e. E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio". A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem. Quando se decifra uma palavra. Assim. PERTO ("pértu"). porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. é preciso conhecer a palavra. Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra. descobre-se aos poucos sua pronúncia. DELA ("dela"). ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. que pronunciava "idjo". e não achava. no alfabeto. se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. tem o nome de é.tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj". uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". como falante nativo. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. a letra "djê". "ê" e "é". mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. MESA ("mesa"). Exemplos: DELE ("dêli"). . quando se dizem os nomes das vogais. Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. Como falante nativo. e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua.

Mas. Às vezes. não se sabe se é "êrru" ou "érru". O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. Por exemplo: VÊ. a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra. dentro de uma frase. Por exemplo. etc. EU ERRO NOS ACENTOS ("érru"). a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . Ao escrever. porém. Às vezes. Explicará o que for necessário. Nesses casos. se algum aluno perguntar. Quando se escreve. ACADÊMICO ("ê"). Na verdade. precisará saber quando colocar os acentos. é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). INTRÉPIDO ("ê"). o professor pode ignorar o assunto. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa. ATÉ. tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. para facilitar a leitura. o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente.portanto. o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. No primeiro semestre.

que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. Hoje. Todavia. "ó"). Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é". De modo geral. Em posição pré-tônica. exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". também em sílabas átonas. na fala. em posição pós-tônica. Para a .marca de acento na escrita. a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. a pronúncia é "mêninu". por exemplo. "ê". Eles dizem. "ô") ou reduzida ("i". há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. "méninu" (MENINO). Em sílabas átonas. em outros dialetos. as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura. em geral. encontram-se apenas as vogais orais "i". "u"). em alguns dialetos (por exemplo. Nas sílabas átonas.se "êrói" e não "irói" para HERÓI. etc. Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). "ô" e "u". Porém. ao passo que. aparecem as vogais orais "i". "a". encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). "u" e "a". A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. no baiano). é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". ENFEITE ("ifeiti"). fechada ("ê". diz. Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua.

O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. ENTRA. etc. para a escrita. TENHO. Nesses casos. Por exemplo. O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. um aluno escreve DICI e o professor explica que. ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis").leitura. etc. ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante. Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos. ENCONTRO. por exemplo. que aprendeu a lição (até aí). o problema é sério. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). TEM. a gente fala "i". que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. EMBORA. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. escreve MÉDECO em vez de MÉDICO. mas. ENTRADA. mas deve escrever E: DISSE. E isso ele fez muito bem. ela adquire um som nasalizado. essa questão traz pouca dificuldade. Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM. às vezes. Conforme as . o aluno. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). HÍFEN. O aluno não está aprendendo errado. Em seguida.

FIQUE. ou mesmo em distingui-lo do "vê". DESDÉM ("dezdêi"). pode ser pronunciada sem o I. A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. também a letra E. o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes. Tal qual a letra A. etc. algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê. usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". PEIXE ("peichi" ou "pêchi"). mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e.regras vistas anteriormente. CONFIAR. quando seguida de I. Em certos dialetos. FOCA. Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). etc. FUMAÇA. nê. Exemplos: FACA. como em ITEM ("itêi"). EMBORA ("êimbóra"). seguida de I. PENTE ("pêinti"). quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). FEITO. Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra").). Encontrando-se esse som na fala. a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). mesmo nasalizada. às . 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome.

contudo.zes. O e U. A questão não é fonética. "vê". Quando sussurram.tem o som de "jê" e. A letra G. mas dialetal e ortográfica. FAFELA = FAVELA). A letra G. que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". Essas confusões se corrigem com a prática. quando diante do grupo de vogais E e I. em vez de falar em voz alta. MARIA COMPROU UMA VIFELA. tem também outro som muito comum. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa. (FACA = VACA. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. FEIO = VEIO.no latim). como se constata nos seguintes exemplos: . ELE FEIO AQUI.quando diante do grupo de vogais A. tem o som de "guê". o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. ANDRE MORA NA FAFELA. VIFELA = FIVELA. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta.

ou no final de palavra (exceto com S.GENTE ('jênti"). R. basta acrescentar um U entre o G e a vogal. Porém. Ela simplesmente modifica o valor da letra G. a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". visto no estudo da letra C. M e X em alguns casos em meio de palavra). GIRASSOL ("jiraçóu"). A letra U. mas. se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. como em SAGÜI ("sagui"). Quando não se pronuncia o "i". AGÜENTAR ("aguéntar"). como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. Quando se pronuncia o "i". tem-se uma sílaba a mais na palavra. EXÍGUO. Z. GUIAR. (todos com som de "guê" ou de "gui"). e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. seguidos das vogais E ou I. Para escrever o som de "guê". GULA (com som de "guê"). Exemplos: GUERRA. nesses casos. CONTIGUO. AGUA. o . não é pronunciada. Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. No caso da letra G. pronuncia-se também oU. que. Note que há casos em que ocorre G + U. o caso acima é semelhante ao da letra Q. GATO. etc. GOTA. FOGUEIRA. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar"). veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. ÁGUIA. seguido de E ou de I. Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver.

JILÓ. cometem esses enganos . GIRAR. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA. Mais raramente. ora se tem G. não por dificuldades auditivas. Se não aparecer trema nas escritas GUE. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. ora GU. "Como é que se escreve tal palavra. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem. FOGO/FOGUEIRA. descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). JUIZ. mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita. mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. para manter o valor fonético original da palavra ("guê").som "g" fica no final da sílaba que o precede. AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. JANELA. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. JOVEM. QUI). como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO. Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). GUI (ou QUE. 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. o U não será pronunciado. HOJE.

Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). HERA. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. essa letra serve para formar dígrafos. a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. ILHA. Por exemplo. HORA No entanto. A letra H. MANGA e MANGUEIRA. funciona como uma espécie de curinga. servindo para modificar o valor fonético da . Quase sempre.por dificuldades de reconhecimento fonético. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. Nesses casos. no nosso sistema de escrita. Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. UNHA. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. Na língua portuguesa. e acabam escrevendo. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá. Exemplos: HOMEM. há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. CHAVE. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. como em AMICO em vez de AMIGO. como também o que não se pode fazer.

372 Em palavras de origem estrangeira. a solução encontrada foi criar dígrafos. como CH. comparando-os com os das letras simples. pois. FICA/FICHA. sobretudo em nomes . formando dígrafos. Esse emprego do curinga H. A letra H. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). Quando a letra H vem no início de palavras. HELENA.letra que a precede. Em conseqüência. e mais raramente a letra X. HORA. Na escrita da língua portuguesa. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. etc. som algum. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. N e L. sem alterar o alfabeto. SONO/SONHO. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal. como uma estratégia para não inventar letras novas. não forma dígrafos e não apresenta. a letra H pode vir precedida por C. etc. a leitura começará na letra imediatamente seguinte. através de pares mínimos: MALA/MALHA. NH e LH. como se vê em: HABITAÇÃO. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. são usadas para modificar o valor do som anterior. HUMILDE. HINO.

fazem coisas como: HRA (AGORA). ou. YAMAHA ("iamarra"). Em alguns poucos casos. Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). dá até para saber se haverá H ou não. HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). Com o tempo. Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. ainda. Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer. dependendo do significado da palavra. mas deve explicá-las aos alunos. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda"). HAJA e AJA. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia . Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. Note. etc. mas temos de escrever HISPÂNICO. Para ilustrar esse fato. é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". pensam que a letra H funciona como as demais e. etc. por exemplo. escrevemos ERVA e HERBICIDA. Alguns alunos. que escrevemos ESPANHA. quando vão escrever (e mais raramente ler). etc. como ocorre em HORA e ORA.próprios. HLÏA (GALINHA). irão fixando a grafia das palavras mais comuns.

o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. mas controlada pela ortografia. O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente. Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). existe uma dificuldade extra na escrita. O professor deverá. e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". ter paciência com os erros dos alunos. Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. ainda. na qual a ortografia se baseia. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. Portanto.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal. etc. partindo da fala. e pedir a eles que corrijam o material que escreverem. Com relação ao CH. Há. Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. Nesses casos. . FAMÍLIA ("família" ou "familha"). pois. criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos.

Esse problema. podendo. CIDADE. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. Eles o resolvem facilmente. representa pouco para os alunos. "ifiar" ENFIAR. ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i".Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. ora com I. fica difícil saber a ortografia. "pichta" (PISTA). escrevendo T e não TX ou TCH. às vezes. CINTO. que ora se escrevem com E. Essa variação pode. Como acontece com as demais vogais. o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA). da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". VIM. etc. Não há como . mas o mesmo não acontece com a escrita. por causa do medo de errar. na verdade. ser escrito com a letra E. VINHO. por exemplo. Veja os exemplos: VI. A letra I não apresenta dificuldades para leitura. quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. CINEMA. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. "rrapaich" (RAPAZ). atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura.

"bãinha" BANHA. "obijétu" OBJETO. uma com um ditongo (M. como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU. COISA e COUSA. Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). nenhum problema. • El) e outra sem o ditongo (A. DOURADO e DOIRADO. Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. Como já foi visto. Por exemplo. o aluno escreve PEIRA. em vez de escrever PÊRA. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. pode existir uma vogal "i" na fala. etc.ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las. E). como LOIRO e LOURO. O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. . quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). Além da dificuldade específica dessas palavras. em palavras como "opitei" OPTEI. etc. portanto. etc. porém não na escrita. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção..

Portanto. Sempre que a letra J aparecei. na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS. Saber isso. JIBÓIA. Diante dos sons de "ê". A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal. o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. Como algumas línguas usam essa letra. "é" e "i". "ó". etc. ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê". JUVENTUDE. sobretudo nomes próprios. O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê". para escrever o som de "jê" seguido de "a". podem ser escritas com . JOGADOR. "ô" e "u". como em DIA ("djia"). deve rá ser escrito com a letra D apenas. ajuda muito o aluno na hora de escrever. pode-se ter a letra J ou G.ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. Essa letra caiu em desuso já no latim. formando o "djê". Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais. dependendo da ortografia. etc. JEITO. aparentemente simples. Esse fato. palavras de origem estrangeira. mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. BODE ("bódji").

Nesses casos. CLARO. CLARO. No segundo caso. e c) em final de sílaba. 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas. GLORIA. T. ATLÂNTICO. G (com o som de "guê"). FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L. SOL. MAL.F e V . LOGO ("lógu"). . No primeiro caso. sempre antes de vogal. seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. km. PROBLEMA. sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra. kg. LIGA ("liga"). tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza"). PIANO ("plãnu"). Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. D. LIVRO. LETRA ("letra"). Alguns exemplos: Kwait. A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. B. a letra L tem o som básico de "lê». O ensino. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal. Veja os exemplos: PLANTA. como. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). por exemplo: LATA ("lata"). CLASSE ("klaçi"). C (com o som de "kê"). do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios.ela. tem também o som de "u' Exemplos: LATA.

POUPA. pode ocorrer a letra U. pois. o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. SUL ("çuu"). CÉU. não ocorrendo. usando L ou U São palavras homófonas."funil" (FUNIL) "mél" (MEL). não existem palavras com essas ocorrências. no mesmo contexto do L. as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). Em alguns dialetos do Sul do Brasil. e como. CHAPÉU. CAUSA. como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas. POLPA. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). "çal" (SAL ). a formação de ditongo. A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. Compare as seguintes palavras: CALDA. SAL. MEL. Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente. PAPEL. é fácil ler. SAUDADE. Nesses dialetos. também com o som de "u". FUNIL ("funiu"). VÉU. e assim o aluno consegue dizer o que está escrito. VLADIMIR e pouquíssimas outras). Partindo da fala para a escrita. a não ser DLIN-DLON. TERRÍVEL. encontramos um problema sério para os alunos. mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra.porém. as palavras emergem automaticamente. SAL ("çau"). No terceiro caso. tem o som de "u". MEL ("méu").

por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L. "pobrema" (PROBLEMA). como em outros casos. Ao escrever. o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA). "barcu" (BARCO). O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever. É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras. reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. Os alunos. na alfabetização. ao lado de palavras como "prato" (PRATO). fazendo. "pobri" (POBRE) e assim por diante. estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema. Por exemplo.. O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. etc.próprio'). acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala. aliás. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. uma formada por ALTO e outra. "bardji" (BALDE). podem ir escrevendo do mesmo modo.

em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. O som que aparece no meio. ALGUM ("augú" ou "augürJ"). como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra"). MORAR. No segundo caso. como dizem alguns professo. ou um som consonantal velar ("13 »)8. e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). depois da vogal nasalizada "i". CAMELO. COMIDA. depois da vogal nasalizada "ii". quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh"). Veja os exemplos. No primeiro caso. MURO. etc. Além disso. a letra M representa a nasalização da vogal precedente. BOM ("bõu" ou "bõuij").375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. como. Nos dialetos em que o nome da letra é mê. entre "e" e "i". uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. res. representa o som básico da letra. por exemplo. a letra M tem o som básico de "mê". o princípio acrofônico fica mais evidente. uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). em: MAR. observe o fenômeno de juntura intervocabular. 1 A letra M tem duas funções distintas.

etc. Nesse caso. Às vezes. além dos casos contemplados acima. as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. haverá sempre a mudança de qualidade. a letra M pode ter o som de "mê". diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. TEMPO ("témpu" ou "têpu"). PÓLEN. CORAÇÕES. Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu"). como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades. Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. em fmal de sílaba. diante de consoante no início da sílaba seguinte. LIMPO ("limpu" ou "lipu"). quando ocorre o som do "mê". a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. Nos verbos. Raras palavras serão escritas com N em vez de M. como HÍFEN. SÊMEN. as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). etc. etc. ANÕES. . com ou sem a sobreposição da nasalização).("véi-nha-qui"). ÓRFÃ. sem a ocorrência da con soante nasal M.

8 o som Fiji. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. no meio de palavras. o aluno a decidir sobre a escrita. Quando aparecer o som de "mê". ver explicaçáo na página 368. CONSUMIR. a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". antes de consoante. Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba. etc. Exemplos: CAMPO. Essa . Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções.Estudar a estrutura de contextos. CANTO. usase a letra M. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente. em muitos casos. e N diante das demais consoantes. toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra. o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal. INFELIZ. ou seja. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. BOMBA. Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. ENVELOPE. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. seguido ou não do S do plural. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B.

Deve ficar claro para o aluno que. Veja. que essa regra serve apenas para algumas palavras. é escrita sem consoante nasal ou til. sempre que houver uma vogal nasalizada. Nos dialetos em que o nome da letra é nê. no seu nome. BALÃO. ANÕES. NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização. Seu som básico é o que está intercalado. as grafias de MÃE. lembre que a palavra "muitu". etc. Note.. mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. entre o "é" e o "i". apesar da nasalização do ditongo "ui". O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). que é o til. PÕES. não para todas. MAES. deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. BALÕES. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). Exem plos: IRMÃ. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. PÕE. CIDADÃOS. por exemplo. N.pronúncia é muito evidente. etc. A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. porque assim foi fixada sua grafia. IRMÃS. "sõurj" (SOM). como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. "tãmbëinh" (TAMBÉM). porém. CIDADÃO. MÃE. ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. Por fim. PÕEM. .

sempre que for detectado o som de "nê". como mostram os últimos exemplos. Z. no interior de palavra. pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar"). no final de sílaba. a letra N pode representar. em: BANCO ("bãrjku"). A letra N será raramente . como F. Em falas muito enfáticas. L. não tendo outro som. por exemplo. NADA. Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. em final de sílaba. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). REDONDO. Lembre que. Ç. será usada a letra N. Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). Diante de outras consoantes. no interior de palavra. pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. V S. como em: NIVEL. depois de "i" ou de "e" nasalizados. "õ" e "á ". etc. Quando se parte da fala para a escrita. MANGA ("mãrjga"). e depois de "ã". na fala. etc. só ocorre a nasalização da vogal precedente. ONÇA ("õuça" ou "ourJça"). JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). uma consoante nasal velar (rj) como. NETO. NUCA.Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. vale a regra segundo a qual. sem a presença da consoante nasal. ANDO. Diante das consoantes oclusivas velares. ENQUADRAR ("irjkuadrar"). NOTA. como nos seguintes exemplos: CANTO. SINTO. R. G (com o som de "guê") ou QU.

ENVIAR. ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. Como já foi visto. FRANGO. a letra M só será escrita diante das letras P e B. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). ENLAMEAR. INDO. o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. HON RA. CONQUISTA. Q. Z. para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. ENXADA. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). G. diante de T. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). C. E. F. D. R. ENZIMA. X. ou seja. Ç. exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante). 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. O. L. U . \' 5. I. TRANÇA. a decisão é fácil. em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. Exemplos: SANTO. Tal som não ocorre em início de palavra. CONFIAR. No meio de palavra. TRANSPORTAR. CINCO.usada em final de palavra.

Quando eles não estão marcados. algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular. como falante nativo. Entretanto. AVÓ. Como se disse acima. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. se for a sílaba tônica da palavra. pode ocorrer o som "ó" ou "ô". pode-se saber um pouco mais. PORCA ("pórka"). como exemplos. CÓLICA. PORTO ("pôrtu"). depois.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala. mas PORCOS ("pórkuç). etc. como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar'). Veja ainda. Às vezes. a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. Em alguns casos particulares. e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. BOLA ("bóla"). como em: PORCO ("pôrku"). nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos. Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . Às vezes. saber se se trata de um som ou de outro. Por exemplo. para. PORTA ("pórta"). ANTÔNIO. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). Exemplos: AVÔ. pode mostrar a ele como se pronuncia.

quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. em sílaba átona. o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U. CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. Exemplos: TODO ("todu"). A letra O. para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". Quando se parte da observação da fala para a escrita. ou COLOCAR. como COMPRIDO. ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). COMBATE ("kõmbati"). que praticamente é homófono de CUMPRIDO.("kõfôrtu" e "kõfórtu"). TOU RO . Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. MUNDO ("múndu"). por exemplo. como em COMIDA ("kumida"). Porém. Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). Entretanto. Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba). Algumas vezes. tende a ser pronunciada "u". é preciso conhecer a ortografia da palavra.

ADAP TAR ("adapitar"). Exemplos: APTO ("ápitu"). porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. de 'poupar'). POUCO ("pôku" ou "pôuku"). RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). . a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso. 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. ou apenas de "p". Ocaso não é tão simples. Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. é impossível saber quando escrever P com ou sem 1. Somente observando a fala.("tôru" ou "tôuru"). "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO). A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. por exemplo. OPÇÃO ("opição"). ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. diante de outra consoante que não seja R nem L. ou seja. Confira. etc. No segundo caso. pode ter o som de "pi". revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons.

pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. "é" ou "i". A ortografia tem vários modos de escrever. . Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. Como foi dito nos comentários à letra C. Em palavras derivadas. porém o Unem sempre é pronunciado. porque eles se resolvem com o tempo. Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura. para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. QUERO ("kéru"). como em: QUERIDA ("kerida"). QUINTAL ("kintau"). como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. FICO/FIQUEI. TOCARJTOQUE. ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê". PISI. O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade. "piçina" ou "pçina" PISCINA. PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5.

FREQÜENTE ("frekuénti"). é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. Quando não é pronunciada. Quanto à leitura. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. basta o aluno identificar QU com o som de "kê". AQUARELA ("akuaréla"). todavia. SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). Observe. para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo. RECUE. QUE ou CUI. têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. sem insistir muito. CUE. Esse tipo de problema. não acontece com os exemplos anteriores. Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". O mesmo. etc.BARCO/BARQUINHO. porém. etc. "kué". e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI. Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). "kuê". a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). a . CUIDAR. CUECA. Essa dificuldade atrapalha a escrita. TAQUARA ("takuara"). o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). porém. Quando a letra A vem depois das letras QU. A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não.

Por exemplo. poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA.ortografia admite a forma com a letra C. QUIDADO (cuidado). Dadas as dificuldades de escrita. mas nem por isso estranhas. QUAXA. revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. QUOTISTA/COTISTA. etc. CAXA. embora descartadas pela ortografia atual. CASA. Quando os alunos cometem esses erros. a for ma ortográfica atual é apenas CASA. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. etc. como VACA escrito VAQUA. ESTUDO DA LETRA R . QUASA.). em vez do dígrafo QU. quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). Um bom exercício para o professor fazer no início. CINCO escrito CINQUO. Entretanto. QUOTIDIANO/COTIDIANO. KASA. KAZA. Pelo contrário. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia. mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. QUAXA (casa). em princípio. não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. uma palavra como "casa". QUAZA.

por sua vez. etc. a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). FURO. formando um dígrafo. MAR. porém. . CERTO. mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons. A vibrante múltipla "rr". em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes. como ocorre tipicamente em CARRO. representando dois sons diferentes. pode representar vários valores fonéticos. entre duas vogais. Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. pode ocorrer apenas um R ou dois RR. O sistema de escrita. uma "aspiração"). FERA/FERRA. No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste.A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. TIRO. Dessa maneira. dependendo do dialeto. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. ROUPA. Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. Portanto. distingue o uso de um R do uso de dois RR. a vibrante simples representa um tepe'. CERTO (no dialeto carioca). basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO.). Em alguns dialetos do Sul do país. SERA. a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. como em CARRO. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR. MURO/MURRO. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA.

com uma vibrante surda. MAR. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). outras vezes usa a vibrante sonora. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. . que aparece em CARO. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. MAR. como em RITA. produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira. ora sonoras. PORTEIRA. os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas. quer a vibrante simples. O mesmo som "r" (vibrante simples). Exemplos: ROÇA. Em alguns casos. Dependendo da palavra. RETA. Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. ROUPA. mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. TORRADA. etc. TERRA. ARARA.como em CARRO. TIRO. BR. às vezes. VIR. CERTO. BRASIL. o falante usa a vibrante surda. FERA. dentro de sílabas. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. MURO. TR. RODA. MURRO. ERRO. Nos chamados dialetos "caipiras". 380 Por exemplo.

RODA. como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". FINGIR ("fijir" ou "fijirr"). como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). ROLO. VR. que começa por vogal. Se. RUA. a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO. por exemplo: PRATO. O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). Porém. PADRE. forma o início da sílaba da palavra seguinte. com a sílaba seguinte começando por consoante. Em início de palavra. uma palavra terminada por R junta-se a outra. houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N). FRACO. CRIANÇA. porém. GRATIDÃO. Além disso. CARRO). BRASIL.DR. ISRAEL ("izrraéu"). FR. VIR AQUI ("vi-ra-ki"). quando na fala corrente. a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . TRABALHO. CR. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). LIVRO. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. RITA. como em RATO. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba. CARPA ("karpa" ou "karrpa"). GR. ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla.

ainda. dependendo do dialeto. mesmo quando não são muito elaboradas. com segurança. a escrita usa apenas um R e nunca dois. porém. mas depende de como o professor irá tratar a questão. que se o R vier depois de uma consoante N ou S. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples.lembrando todas as regras associadas a essa letra. Algumas idéias. Essa dificuldade não é do falante. e o som será sempre de uma vibrante múltipla. ajudam bastante. Em final de sílaba. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . terá o som de uma vibrante múltipla. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro. no meio de sílaba. no meio de palavra. No contexto intervocálico. Em início de palavras. dependendo do dialeto. tem-se um som diferente. Nos demais contextos. conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras. A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. Como vimos. Sabe-se. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. obviamente. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto.

igual à vogal precedente. Por isso. como ainda não chegaram a essa conclusão. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. isto é. ou seja. assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos. É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: . 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). mas devem usar apenas a letra R. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita.muito as variações de pronúncia. como uma vogal "longa". a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. vindos de diferentes dialetos. No começo. são todos escritos com R ou RR. um som único.

Em outras palavras. Como em muitos outros casos. o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte. de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem. como ensinam os foneticistas.MECADIO ("mercadinho"). PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante. o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". quando encontra grupos consonantais como BR. GR. mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. PR. Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita. que o aluno . em que há mais de um som consonantal numa única sílaba. CADENO ("caderno"). etc. já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". POTA ("porta").. AGARADECE (AGRADECE). Nesse caso. ou ainda ATALAS (ATLAS). etc. esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). Depois.

ATRÁS ("atraich"). Exemplos: BASTA ("basta"). SOCO. Assim como existe uma letra R e um dígrafo. a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". SUCO. Nos demais dialetos. Do mesmo modo que as letras R e RR. NÓS ("nóich"). MESA. SINO. há uma letra 5 e um dígrafo SS. Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura . a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. Exemplos: BASTA ("bachta"). E também é verdade que não é porque não se explicou. dependendo do dialeto. Em final de sílaba. No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê". que o aluno não irá aprender. ocorre o som de "çê". POSA/POSSA. o RR. as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. a letra 5. Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. ATRÁS ("atrais"). nos demais casos. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. OSSO. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. POSSÍVEL. etc. como em SACOLA. ROSA.automaticamente aprende. ou ainda os exemplos: USO. VASO. SEMANA. ISSO. NÓS ("nóis"). INGLESA/ESSA. Em início de palavra.

correspondem a muitos sons diferentes na fala. Diante de consoante surda. Isso vale para todos os dialetos. saber que há várias . DESDE ("dezdi"). a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte. D. Apesar disso. G. CASCO ("kaçku"). há nesses casos uma concordância. Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). OS HOMENS ("u-zó-mêis"). Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. Algumas letras. quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B. L. como S e R. ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu").intervocabular. 382 No meio de palavra. DESGRAÇA ("dizgraça"). Quando a letra 5 vem depois de consoante. ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi"). Então. MESMO ("mezmu"). como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas"). Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. tem o som de "zê". no meio de palavra. como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). CASPA ("kaçpa"). M. tem o som de "çê". com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade. R). tem o valor fonético de "çê". DESLIGAR ("dizligar"). etc. ISRAEL ("izrraéu").

fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. J e G. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . SÇ. X. mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. SC. parece fácil e simples. CRESÇO. TRAZ. O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. RAPAZ. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. AÇO. como vimos. HOJE ("ôji"). XÇ. o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". CHUVA ("chuva"). Ç. para confundir mais as coisas. XC. etc. temos: S. DESDE ("dejdji"). o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever. CH. os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. Z. ou ainda em certos dialetos. PROXIMO. como "zê" e "chê". XÇ. Por outro lado. NASCER ("naiççêr"). EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). Somando esses dois tipos de informação. X. SÇ. como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). ASSO. XC. ATRÁS. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. RAPAZ ("rrapaich"). Para quem sabe como se grafa essas palavras. Confira os seguintes exemplos: SAPO. SC. SS.

nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. representa o valor fonético básico da letra. Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma). seguindo o princípio acrofôníco. e o som inicial de seu nome. . diante da vogal "i" (na fala). ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. esses problemas se resolverão com relativa facilidade. Como dissemos. AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA). mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato.para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. através da ortografia. as explicações impressionam os alunos. A letra T é semelhante à letra D. Então.só que uma é surda (1) e outra é sonora (D). o melhor conselho é mostrar que. Em muitos dialetos. Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. Na maioria das vezes. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige. ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê. a .

MITO ("mitchu"). FERIDO ("feridju"). como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). sobretudo do Sul do país. Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê". etc. TESTA ("téchta" ou "téçta"). LEITE ("leitchi").letra T temo som de "tchê". mesmo diante de "i": TIA ("tia"). como. Como se disse em relação à letra D. JOVEM ("djóvêi"). ÓTIMO ("ótchimu"). Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). em: CHUVA ("tchuva"). mas apenas "tê". o som "i" não aparece na escrita. permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. RITMO ("rritchimu"). por exemplo. Às vezes. mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. não antes de "i". nunca se fala "tchê". porém: TATU ("tatu"). Em alguns dialetos. Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). Em alguns dialetos do Nordeste. mas depois dessa vogal. Por exemplo: TIA ("tchia"). XAROPE ("tcharópi"). ocorre o som de "tchê". o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. etc. 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. Na grafia das palavras. porém: TIA ("tia POTE ("póti"). POTE ("póti"). POTE ("pótchi"). FECHAR ("fetchar"). TERRÍVEL ("terríveu"). apesar das variações .

E. SUJO ("çuju"). ELE POTEÍ (ELE PODE IR). Às vezes. UM ("iirj"). na escrita. A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever.encontradas. FUNÇÃO . O. É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO). a letra U representa uma vogal nasalizada "u". Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). e em seu nome está o som básico que a letra representa. Quando ocorre diante da letra M ou N que. ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U. por sua vez. etc. alguns alunos fazem confusão entre o T e o D. nem para decifração na leitura. todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. Fazendo isso. Escrevem T em vez de D. preocupados com a ortografia. nem para a escrita. 1. ocorre imediatamente antes de uma consoante. e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. a letra T também não causa grandes dificuldades. Como acontece com todas as letras que representam vogais. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. CÉU ("çéu"). a sonoridade do D perde-se. U). como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). CHUMBO ("chúbu").

o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever. na fala atual. Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). "unha". etc. SOURO (SORO). nem todo som de "ô" será escrito com OU. como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). etc. Na verdade. como em: UNHA ("ünha". a letra U pode ter um som nasalizado ou não. se a letra U estiver diante de NH. Entretanto. PROFESSORA ("profeçôra").("f€íçãu"). quando se parte da fala. Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). "flinha" ou "uinha"). PUNHO ("p "punhu". Quando ocorre OU na escrita. "püinhu" ou "puinhu"). podendo ficar apenas com a grafia de O. não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA. UNIDO ("tinidu" ou "unidu"). etc. pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". VOU ("vô"). em um número muito grande de palavras. como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa").. Veja os . CHOURO (CHORO). etc. POUCO ("pouku" ou "pôku"). pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. há muita variação entre "ô" e "ou". BOUA. Porém.

com certeza mais do que parecia. No final do ano. uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. "papéu" PAPEL. Aqui. "autu" ALTO ou AUTO. com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. "chapéu" CHAPÉU. "çaudadji" SAUDA DE. o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam. Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. O aluno precisa. e assim por diante. Quando se escreve partindo da observação da fala. "çau" SAL. "uutchimu" ULTIMO.casos: QUERO ("kéru"). ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. há outra dificuldade grande. EQÜINO ("ekuinu"). sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. QUILO ("kilu"). LIQUIDO ("likido"). Quando os processos . Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. no começo. É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO. nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. "çéu" CEU. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. "méu" MEL. porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). etc.

Alguns alunos. como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. Por exemplo. dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru". percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala. A letra V não apresenta dificuldades de decifração.de leitura e escrita se aceleram. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". VELHO ("vélhu"). ou da vogal que ocorre depois do L ou do R. pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. muitos erros desaparecem. VIZINHO ("viztnhu"). sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R. porém. Nesse momento. ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka"). Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . AVULSO ("avuuçu").

etc. Nesse caso. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade. XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. pode levá-los a trocar a escrita de V por F. ENXERGAR ("ichergar"). Em Portugal. Mais uma vez. dependendo da palavra em que ocorre. XUCRO ("chukru"). etc. etc. FERDE (VERDE). também tem o valor fonético de "chê". como em: XAROPE ("charópi'). essa letra tem o nome de duplo vê. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. como em ENXADA ("ichada"). a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". depois de N. Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. Esse é o valor da letra X em início de palavra. observando a própria fala. Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). produzindo formas gráficas como FELA (VELA). ENXAME ("ichãmi"). WILMA ("viuma").anteriormente. FELHO (VELHO). WC ('dabliu-çê').

tem o som de "ks" ou "kis". . A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). Na posição intervocálica. etc. o carioca). EXSURGIR ("eçurjir"). SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). o som correspondente. Quando a letra X aparece no fmal de palavra. EXCELENTE ("eçelêfiti"). Em alguns dialetos (por exemplo. a não ser quando se tem o sufixo -EX. NASÇA ("naça"). "kç" (ou "kiç".consoante no início da sílaba seguinte. "kch" e "kich"). Em alguns diale tos. tem o som de "çê" ou "zê". SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). XEROX ("cherókç" ou "cherókiç"). XS). Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). AUXÍLIO ("auçíliu"). que ocorre nesse contexto. "chê". podendo ter os seguintes sons: "çê". XÇ. como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). maiS informal. dependendo de a consoante ser surda ou sonora. Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). LIXO ("lichu"). como no carioca. EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). "zê". a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. ocorre uma assimilação. Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). ficando apenas uma ocorrência do som "ç".

Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA. ZERO ("zéru"). ZUMBIDO ("zümbidu"). etc. etc. Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). FIXO ("fikçu"). É por isso que se escreve INFERNIZAR. terá o som de "zê". a escrita será com Z e não 5. EXIGIR ("izijir"). Note que há diferença entre .rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. RIQUEZA. ZANGADO ("zãgadu"). Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ. só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). ESTUDO DA LETRA Z H. ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. Quando se parte da fala para a escrita. BELEZA. EXAME ("izámi"). O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. ZOMBARIA ("zõubaria?').BAIXO ("baichu"). 386 Note que. TÁXI ("tákçi") e assim por diante. SEXTA/CESTA. quando o som de "zê" ocorre em início de palavra. "néchta" NESTA.

que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. tem o som de "çê" (ou "chê". Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). Porém. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). FEZ ("feiç" ou "feich"). vier antes de outra que 1I começa com vogal. EX.StCO o sufixo . como mostram os XC exemplos: BELEZA.letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. a dificuldade da . mas receberam apenas um A do feminino. como INGLES/INGLESA. caso de BELO/BELEZA. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich"). Isso acontece em todos itexto. MARQUÊS/MARQUESA. AZAR. FREGUÊS/FREGUESA. INGLESA. Veja. FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). ocor . RAPAZ.Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. ASA. X di. etc. mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra. em início de palavra. RICO/RIQUEZA. na fala contínua. Se a palavra que termina com a letra Z. ocorre o fenômeno da juntura intervocabular. etc. os dialetos. os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização. Regrinhas como essas. conforme o dialeto).EZA. e palavras que terminam com o som de "êza". EXAME..

onsta rerá somente a letra Z. YARA. kHz. também fazem parte do nosso alfabeto. AS LETRAS K. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras.EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. km. elas aparecem em alguns casos. orren Lórakç" is diale Jdch"). Como. a não ser quando . etc. Além disso. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. . ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. uirtes portanto. etc. WC. embora tenham um uso muito reduzido. o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. YAMAHA. porém. YVONE. abreviaturas. Senao WILSON. Elas estão nos dicionários e. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba. só ocorre r) etc. em siglas. como já se disse acima. em nomes pró. ainda no meio de palavra. kg. WILMA. As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. KARINA. VISGO ("vizgu"). e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). DESDE ("dezdi").

NETO. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI).escrita. bém o som de RR em nomes como HONDA. em outros casos. 387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ. JOACHIN. MANUEL. Veja. ficando portanto: LUIS. conforme consta do cartório. HOBBY. Por exemplo. Assim. abat-jour ficou ABAJUR. TERESA. ainda. JOAQUIM. NErFO. VICTOR. MANOEL. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos. YAMAHA. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. DORACI. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos.usados como um apelativo comum. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum. Fora disso. VÍTOR. CARMEM. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. Por exemplo. a letra H passou a ter tam bidu"). o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . surgindo novas relações entre letras e sons. KARMEN. mas pode rá escrever. THEREZA. assim como club ficou CLUBE. DORACY. etc. New York ficou NOVA IORQUE.

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Gladis. Roxane (Org. • & MASSINI-CAGLIARI. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo. Campinas: Mercado de Letras.). Continuando o debate sobre construtivismo. p. rev.. 3 cd. 1994. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1. 31. Iii: ROJO. n. 1997c.193-224. São Paulo: Casa do Psicólogo. ano VI. História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar.. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 . atual. Jornal da Alfabetizadora.à psicologia escolar. 1998. p23. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS.

O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3. Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5.

Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de . Conhecer os nomes das letras 125 10. Conhecer as letras 121 5. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2. Conhecer o alfabeto 121 4.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer a ortografia 123 8.

Explicar o que é uma letra 135 3. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Reconhecer uma palavra 128 15. Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2.escrita) 126 12. Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 . Nem tudo o que se escreve são letras 128 16. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1.

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 .Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.

interpretação semântica da palavra 258 .O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10. o aluno e a escola 248 O certo. o professor. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método.

assinatura e escrita 271 3. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7. identificação de palavras 261 6. a forma gráfica das letras 272 5. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. adivinhando palavras na leitura 260 4. letras em vez de rabiscos 272 4. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1.2. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. quantas letras formam uma palavra? 261 5. cachorro começa com FU 262 8. segmentação 274 7. explicitação da decifração na leitura 267 10. escrita espelhada 273 6.

só o esforço não adianta <399> 19. caligrafia 285 . resultados pela metade 276 12. letras maiúsculas 281 22. variação lingüística 282 2. mistura de informações 280 18. surdas ou sonoras? 278 16. erros não corrigidos 280 20. troca de letras 277 14.398 10. hipercorreção 278 15. medo de escrever 281 21. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. formas morfológicas diferentes 276 11. repetição 283 5. uso de pronomes 282 3. sinais de pontuação 281 23. coesão 285 7. frases soltas — coerência 284 6. escrevendo foneticamente 277 13. um pouco por vez 279 17. sintaxe 283 4.

Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .11.

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O. princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13. Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 .

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

Estudo da letra Z 386 As letras K. W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .

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