ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

Os . ou seja. pois.C. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização. Quando esse elo se rompe. De certo modo. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente. Nesses casos. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados. só com muito estudo. A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. por abandono ou porque é trocado por outro modelo. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. por alguma razão estranha e desconhecida. a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. A alfabetização é. quando Micenas foi destruída. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas. Na história da escrita.. tão antiga quanto os sistemas de escrita. permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas. deixaram de fazê-lo.

Curiosamente. pelo contrário. esses dois tipos de escrita.. A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B.C. 1996b.C. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita. tiveram um uso muito popular. sempre foram simples e práticos. O primeiro . ou seja. No vale do rio Indo.p. < CAGLIARI. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. ao que tudo parece. Por essa razão. ~. Naquela região. percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si. 106-24. no século III a. a escrita só ressurgiria muito tempo depois. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. usando o alfabeto semítico. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde. com a escrita brãmane.

representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social.c. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente. que não faz sentido algum. certamente. Essa é uma idéia errada e estranha. Ao ler o que ele . fundador do Império Babilônico. A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI. os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a.. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade. É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. não pensa. Os fatos históricos também mostram o contrário. O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém.

ficamos sabendo que. numa caverna. hoje em dia. súdito do monarca. o texto tem como interlocutor o próprio povo. objetos e cenas do cotidiano. Depois. um livro de medicina por um médico. O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. assim como. Isso não significa que somente engenheiros. Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. pessoas. às vezes. um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. ficou pensando no que tinha . Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes.mandou escrever. representando ~. Na Mesopotâmia. <13> animais. um livro de religião por um teólogo e assim por diante. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. Naquele momento. médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno. Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. à noite.

se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. figurativas ou não. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. quando uma forma gráfica representa o mundo. mas. além dos números. e usado provavelmente para contar o gado. ser alfabetizado significava . por sua vez. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. Para isso. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. era um passo fácil de ser dado. além de representar objetos da vida real. porque pertence ao reino do pensamento. a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito. era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. é apenas um desenho. Ou seja. criar um sistema de formas gráficas. Provavelmente. A partir dessa descoberta. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. os desenhos. A humanidade descobria assim que. numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. passa a ser uma forma de escrita. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais. mas revela algo importante. Nessa época de escrita primitiva. De acordo com fatos comprovados historicamente. quando representa uma palavra. podiam servir também para representar palavras que.

as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente. esse processo autônomo tenha se repetido. as sílabas. Os maias da América Central .C. fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. ou seja.. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala. A escrita. repetindo um modelo mais ou menos padronizado. a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente. em média. por volta de 1500 a.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los.C. como.. e na China. o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido. É muito provável que no Egito. começou de maneira autônoma e independente. por volta de 3300 a. por exemplo. pelo que se sabe hoje. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto. na Suméria. Com a expansão do sistema de escrita. <14> por língua.C. por volta de 3000 a.

Aprender a decifrar a escrita. já que não pretendiam tornar-se escribas. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. de uma maneira ou de outra. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . A alfabetização. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. A curiosidade. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. Aqui. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. nesses casos. Finalmente. Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. passavam a escrever seus próprios textos. a ler. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos. que eram estudados exaustivamente. escrevendo para a sociedade e a cultura da época. num tempo indeterminado ainda pela ciência. que talvez se situe por volta do início da era cristã. certamente. ou seja. devia ser o procedimento comum. dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. Na Antiguidade. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios. relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. contato com algum sistema de escrita.

escrever é algo que vem como conseqüência. ou seja. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado.ler. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais. que era oclusiva glotal. E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes. sem dúvida alguma. o processo de alfabetização. por exemplo. a lista ficou apenas com consoantes. Por exemplo. da escrita cuneiforme. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. a primeira palavra da lista era 'alef. a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. que significava "boi". de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. Para quem sabe ler. Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal. Além disso. Para representá-las graficamente. esse nome passou . Dessa maneira. <15> Ao formar seu sistema de escrita.

bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. pronunciando. tirada também de um hieróglifo egípcio. feitos os devidos ajustes. e. que significava "porta" e representava o som de D. porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. e assim por diante. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. o significado vinha automaticamente. era usada para o som de B e significava "casa". já se tinha um som para ela. dava o resultado final de sua pronúncia. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. tinha a forma gráfica da figura de uma porta. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que. Uma vez identificada a letra pelo nome. A terceira letra era o Daieth. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras. ou seja. por exemplo. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. .

mas também as vogais. em grego. agora denominada alfa. Apesar de manter o princípio acrofônico. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. mantendo o mesmo princípio acrofônico.usando o princípio acrofônico. resolveram escrever não apenas as consoantes. bastava identificar as consoantes DVD. a letra 'alef passou a representar a vogal A. por exemplo. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. Para escrever David. Assim. como vimos. 'alef. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas. procurar. como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. ou seja. aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi. a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada. . Como sempre. por exemplo. mas também as vogais. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes. uma vez que. para escreverem alfabeticamente. na lista de letras. Já os gregos. Para eles.

Foi assim que alfa. De fato. etc. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. inclusive o alfabeto. bê. delta. Práticos como sempre. por assim dizer. na ordem tradicional dos alfabetos. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto. Na verdade.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. épsilon. A alfabetização. e. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. <17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever. Tais documentos foram. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. transformaram-se em a. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. serviam ~. etc. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. dê. Os semitas. beta. ou mesmo quando fossem escrever. cê. na Idade Média. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. gama. Dessa forma.

mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa. Ainda hoje.ensinava a quem não sabia. a leitura correta. Nessa época. pois. descobria-se que palavra estava escrita. somando-se os valores das letras. Vê-se. . a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. as que podiam eram educadas em casa pelos pais. a qual se completava quando.c. como as crianças já não iam mais à escola. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. que é a chave de sua decifração. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar. entre as várias possibilidades. Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir. facilitadoras do processo de decifração. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga.

que passaram a chamar-se maiúsculas. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. ainda. "CASA' equivale a "casa". as quais. em geral. <18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. saber fazer a categorização correta das formas gráficas. seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso. Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). agora. portanto. Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. Agora. que podia ser representado por muitas formas gráficas.outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar. Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. reconhecendo a que . o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. Não bastava saber o alfabeto. Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse.

ao analisar o todo. Freqüentou a escola por apenas três meses. uma esprofessora. Nesse caso. ainda através da ortografia. Este último aspecto pode ser observado ainda hoje. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra.categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. Como sabemos. Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. do ponto de vista fonético. Patenteou 1093 inventos. quais letras devem compor aquela palavra. esse princípio é posto em prática a todo instante. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. Na escrita cursiva. sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema. Notas Thomas Alva Edison (1931). quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. era americano de Milan Obio. . considerado um dos maiores inventores do milênio.

uma vez que agora se faziam livros para um público maior. a preocupação com os leitores aumentou. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual. sobretudo. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada . Essa obra era voltada para a alfabetização do povo. Em 1525. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas". deixando de lado cada vez mais o latim. apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e.O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. cada qual iniciando com uma letra diferente. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. Nessa época. Por isso. com o uso da imprensa na Europa. <19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. na ordem do alfabeto. juntamente com este trabalho. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas.

publicada em 1658. cada uma tendo três partes. em 1702. outra aos médios e a terceira aos avançados. etc. os dez mandamentos. Valentim Ickelsamer incluiu. chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). O educador tcheco Jan Amos Komensky. orações e os algarismos.Bokeschen vor leven ond kind. Somente no século XVIII. a letra S com o desenho de uma cobra. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. listas de sílabas simples. numa obra semelhante. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. a letra A com a figura de uma escada. que continha o alfabeto. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". publicado em 1720. mais conhecido como Comênius (15921670). um regulamento para as escolas que fundara. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. Em 1527. a . São João Batista de la Salle escreveu. fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). Com essa obra. O ensino era dividido em "lições". apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. inclusive as de alfabetização. por exemplo. uma destinada aos alunos principiantes.

o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. para o trabalho na <20> sociedade. O ensino é nitidamente coletivo. Nesse modelo de ensino. estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. a escrita. Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. Após a Revolução Francesa. Para ensinar ortografia. o segundo livro. O pedagogo alemão José Hamel. a quarta. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um . ao mesmo tempo. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. a "tábua das sílabas". coisas úteis para a vida. a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. para aprender a soletrar e a silabar. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. o silabário. a terceira.segunda. em sua obra Ensino Mútuo. surgiu o Ensino Mútuo. No terceiro livro. descreve o método de alfabetização em detalhes. etc. Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. os alunos aprendiam a ler com pausas. aparece uma distinção clara entre ler e escrever.

cada uma enfatizando um fato. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. Com poucas modificações superficiais. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. os alunos que freqüentavam essas . o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo. Diante dessa nova realidade. jardins de infância ou escola maternal. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. passaram a ser mais desenvolvidas. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. as escolas infantis. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. membros da burguesia. O estudo foi dividido em lições. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. O ensino silábico passou a dominar o alfabético.tipo de escola para as crianças. introduzindo a alfabetização como matéria escolar. na Escócia. Com a escolarização. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização. ou seja.

que é um outro diminutivo de "carta". junto com a gramática. No Brasil. depois. A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. publicada em 1540. até as primeiras décadas deste século. mapa de orientação. O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta". no sentido de esquema. a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano. O povo simples e pobre continuava fora da escola. ao lado de "cartilha". razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. . Naquela época. Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização.escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. publicou a Cartinha. CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga. que eram as da imprensa da época). os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. Muitos professores queixavam-se dos baixos salários.

a pessoa decorava o alfabeto. havia uma lista de palavras. Para se alfabetizar. Notem que a ortografia não tinha vez. A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". <22> A cartilha do ABC. etc. interpretando.vinham as "taboas" ou "tabelas". nas "taboas" (ou tabuadas). e depois punha-se a escrever e a ler. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa. uma vez que a escola naquela época não alfabetizava.). com todas as combinações de letras. O livro servia igualmente para adultos e crianças. tesoira. vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. decorava as palavras-chave. tendo o nome das letras como guia para sua decifração. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de . as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. Em seguida. Por último. próprio do alfabeto. para pôr em prática o princípio acrofônico.

dessa forma. segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros. fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. o aprendiz . outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896).trem e rodoviárias. ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". Essa obra merece um estudo detalhado. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. A segunda edição. intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras. Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. publicada em 1850. chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade. até hoje aparecem nas cartilhas modernas. de 1853. desenhando-as com hachuras. Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever. Muitas pessoas que não podem ir à escola. manuscrito. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. <23> Além do método de Castilho.

sem dúvida. apareceram inúmeras outras. passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. então. no título da obra. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. haja um destaque à leitura. de João de Deus. na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. <24> No Brasil. Essa cartilha foi. O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. Pedro II. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura.se concentrava no que de novo era apresentado. organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". depois individual e. encontra-se. o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. vêm os exercícios de escrita. Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. publicada no Rio de Janeiro em 1859. Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). embora. Entre . Entre os livros que pertenceram a D.

do mesmo autor. é um tipo de cartilha. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos. desde a letra até o texto. Na introdução. Joviano. e o famoso Teste ABC (1934). Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). Com a Cartilha maternal. de A. que vai assumir importância maior na década de 30. Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação. de Branca Alves de Lima. o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. é um bom exemplo. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. . cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico. começa o método analitico. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades. Um livro como Primeira leitura para crianças. apareceram mais obras que seguiam o método misto. A cartilha Caminho suave (1948). Com o passar do tempo. com o período preparatório. ou seja. de Lourenço Filho. No final dos anos 90.elas há quatro tipos bem marcantes. O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático.

por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras. Achavam importante ensinar o abecedário. Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. Como acontecia com as gramáticas. ou seja. e os modelos eram sempre os bons autores. Copiava-se muito. de A. seguindo a ortografia da época. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia).Nota Primeira leitura para crianças. a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. autores famosos da literatura. . trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. voltado para o padrão social.

Completadas todas as letras. por uma modificação radical. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis. mas não era. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes. Em lugar do alfabeto. Parecia que ia dar certo. já na década de 50. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. E a escola percebeu . era aprender a escrever palavras. A cartilha parecia um caminho suave. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. até recentemente. agora. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. O importante. em seguida. mas não foi bem assim. quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres. apareceram as palavras-chave. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. o aluno começava seu livro de leitura.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. que empregavam dialetos diferentes da fala culta.

do ciclo II do ensino fundamental).logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização. Diante de um quadro desolador e perturbador. não conseguindo superar essa barreira inicial. ou seja. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. cerca de dez por cento. Diante dessa realidade. a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. conseguiam concluir a última série do ginásio (na época. Apesar de todos os esforços para superar essa situação. pais e professores. A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. A primeira coisa que saltava aos olhos era . Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos. o correspondente à oitava série do primeiro grau. e apenas uns poucos. E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes. muitos alunos abandonavam a escola. outros desistiam logo depois.

o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. em seguida. o que podia dificultar a sua aplicação. Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. o índice de repetência continuou assustador. As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula. Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor. comprometendo assim o processo educativo. dar uma ajuda especial aos professores. a dificuldade deveria residir nas crianças. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. uma orientação mais pormenorizada. pois. dizendo o que o professor e o aluno devem . Era necessário. como a Cartilha Sodré. Mesmo assim. Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. subsídios mais práticos para uso em sala de aula. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação. com raríssimas exceções. então. partem ~. e vão.

Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. para ver se o aluno aprende. carentes de estímulos ambientais. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. sem formação lingüística. nem eles próprios tinham entendido muito bem. sendo determinada a fala de cada um. Nenhum diálogo. muitas vezes. a escola foi buscar socorro nas universidades. Carentes de alimentação na infância. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. Muitos alunos pesquisavam para teses. uma estultícia. obviamente.fazer. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. Sem formação pedagógica. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores. necessários para que . o que é. passo a passo. O período preparatório A partir dos anos 50. porém. Se o aluno responder diferente. a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. aplicando teorias que. senão a lição não funciona.

como alguns chamam. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. então. Para resolver o problema. etc.pudessem desenvolver o conhecimento. CAGLIARI. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". o chamado período preparatório. carentes de praticamente tudo. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo". 193224. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. Os psicólogos inventaram. Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. p. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. 1997c. completar figuras. fazer bolinhas. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. fazer o ~. enfim. não podiam aprender. A . <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá. Assim. localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". Além da cartilha e do manual do professor.

sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. mas as conclusões são muito evidentes. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. por causa da história de vida . que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem.discussão é longa. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. do que as crianças ricas. Em meio a tantos equívocos. envolvendo questões de linguagem. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. com mil teorias acadêmicas. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. sobretudo da noção de variação lingüística. baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. Por trás de tudo. Mais antigamente. Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. mas que era um grande equívoco. ao entrar na escola.

psicológica.de cada uma e da natureza das nossas escolas. ninguém aprende a escrever nem a ler. Aliás. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade. na verdade. segundo a opinião desses acadêmicos. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. motora. e vice-versa. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. Fazendo curvinhas. Perguntar a uma criança se uma . perceptiva. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. no entanto. Isso. ou seja lá o que for. justamente por causa dos exercícios de prontidão. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. Para não escrever espelhado. de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. simplesmente porque falavam ou escreviam errado. excepcionais e carentes. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos. Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto.

Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. quando responde. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão. você pode pegar que é todo seu" e deixar. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante. não é uma resposta à pergunta que fez à criança. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto. Por coisas como essas (e tantas outras. Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade. a criança fazer o que lhe foi dito. são sempre muito dóceis e condescendentes. que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque. que a melhor solução é abandona-lo por completo. o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado.caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa. que contribuam de fato para o processo de . Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela.. Está tudo tão errado. de fato. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes.. porque o próprio professor não sabe responder e.. simplesmente exemplifica.. não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de". sem dúvida alguma.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico. o que.

alfabetização. Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. de valor inestimável. A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação. 1 996e). demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental. é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres. Uma delas. mesmo plenamente justificáveis. <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997). 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). Algumas idéias. ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. Quando o professor diz que não adota a . por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida.

procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. estão voltando a ter importância na alfabetização. Por outro lado. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. número. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. continua usando o método da cartilha. etc. como ensinar o alfabeto. como o estudo de categorias gramaticais. a ortografia. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. Contudo. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. Velhas idéias. gênero. tem sido removido. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos. . até chegar ao amadurecimento esperado pela escola. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos.cartilha. as relações entre letras e sons. grau. o "entulho" que se acumulou com o tempo. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. que é a linguagem. porém básicas.

a instrução. um incorporando a terceira. Além disso. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo. A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. Apesar disso tudo. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. com grandes vantagens para a educação como um todo. <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação.Num esforço de muitas pessoas. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". uma vez que agora a promoção era automática. só foi posto em prática o cicio básico. a começar pelo estado de São Paulo. Infelizmente. a educação. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho. e outro. alguns ~. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. mas a formação. juntando a primeira e a segunda série. a quarta e a quinta série. Desse modo. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. enfim. a sexta. a sétima e a oitava série.

as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. nas primeiras séries. mas. A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. infelizmente.A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. Porém. uma melhor interação entre professor e aluno. Aqui. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem. proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados". A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade. já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. vemos como a escola veio para complicar tudo. Por outro lado. métodos e livros. que tinham todo o processo preparado de antemão. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. como em outros campos. constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres. A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. . tornou-se um pesadelo na escola.

todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. ditando ~. quer. é o método sintético. etc. analítico. o que é certo e o que é duvidoso. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. desse modo. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo. vítimas da própria incompetência. fônico. não conseguem dar a formação necessária para os professores. quer ditando as regras da burocracia. lúdico. construtivista. de acordo com os modismos da época. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho. o que é verdade e o que é engodo. Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. freinet. lingüístico. Se sua competência já era muito . Como as escolas de formação de professores para o magistério. Os professores. atormentados com tantas mudanças. psicopedagógico. semiótico. sobretudo. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo. foram experimentando todos os "pacotes". que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. global.Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. <32> as normas pedagógicas. achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia.

Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. quer se trate de um "pacote educacional. Estudar pedagogia. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor. metodologia psicologia é importante. MAGNANI. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. CAGLIARI. ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. 1992c. O fundamental é saber .limitada. incompetente. Alguns. diante de tantas "experiências educacionais". que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. é um professor malpreparado. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam. agora além de tudo ficou confusa. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. dando as razões de sua conclusão. Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos. 1993.

nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética). a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive. aliados aos de pedagogia e psicologia. fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro. Resumindo. em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas. Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico. não só existem milhões de pessoas analfabetas. O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e.). como também não .como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. mal alfabetizadas. teríamos. na alfabetização... de fato. em especial. isso só se obtém com a competência do professor. Esses conhecimentos. como também pessoas que foram. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. neste país. Hoje.

A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta. <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. apenas . enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire. Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem. além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização.alfabetiza somente com lingüística. Nada substitui a competência do professor e. O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países. Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos.

é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. Daí o descrédito de alguns professores na educação. rever a história. . é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. bem como conhecer as limitações de cada um. no mercado. Por isso. já não sabem mais no que acreditar. apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. Às vezes. às coisas mais simples e claras.uma ferramenta. ou mesmo contraditórias. Como o assunto é muito vasto e complexo. Para isso. e sobre ele já existe considerável literatura. em meio a tantas posições diferentes. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. retomando uma visão correta do fenômeno. os quais. acaba confundindo seus leitores. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. Existe. é preciso voltar às origens. fruto da indignação metodológica. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. aprendizagem e métodos. aos princípios básicos.

como fruto inevitável do ensino. O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação. Muitos aceitariam a diferença sem problemas. O que é importante para quem ensina. 1990. CAGLIARI. para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir.Por incrível que pareça. de acordo com sua história de vida e. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. acompanha passo a passo a ordem do ensino. etc. raramente. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente. na teoria. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. PATTO. o que é um erro grosseiro. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. . pode não parecer tão importante para quem aprende. 1990.

que um aluno automaticamente aprende. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. por ação própria. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. na aprendizagem. a partir da iniciativa individual de quem aprende. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. Quando simplesmente se repete um modelo. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. mesmo quando o fazer significa dizer. de seu metabolismo . Não é porque o professor ensina. de seus interesses. gostam de manter classes homogêneas. não ocorre exatamente uma aprendizagem. mas cada aluno deverá aprender por si. em detrimento do processo de aprendizagem. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos. Por isso. seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. ao contrário do ensino. Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. é muito importante o que se diz.No ensino. Ela vai aparecer somente quando a pessoa. para facilitar o processo de ensino. sempre que oportuno e possível. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. fazendo remanejamentos. Aprender depende muito da história de cada aprendiz. entre outros fatores pedagógicos. mas criar algo semelhante. o que se faz.

As atividades de sala de aula estão voltadas para o que .intelectual. corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como. não é porque um professor não ensina algo. antes da escola. o que cada um espera do outro. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola. que se aprenda com os pais. É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. todavia. A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. Nada impede. O fato de se ter um professor. por iniciativa própria. aliás. com um colega. Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". Por outro lado. o que compete a cada um. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. Afinal. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. uma classe. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. Sem uma visão clara e correta da atividade escolar.

A insensibilidade dos professores. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. tentar fazer. nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. pensar. Na maioria das vezes. Um aluno pode ensinar ao outro. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. refazer. Infelizmente. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. Há muitos professores e profissionais da educação. Falta o professor educador que em . se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. etc. os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares. refletir. mas poucos educadores.

não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior. professores que. no Brasil.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação. honesta e adequada. para <38> a vida. de fato. depois de formados. seu modo de ser e de trabalhar. A educação. Está na hora de devolver a educação aos educadores. pararam seus estudos. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. ou seja. é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. sem respeitar a individualidade de cada um. Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua . Infelizmente. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão. de maneira clara. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. aquilo que os educa. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira.

tem-se um amontoado de leis e regulamentos. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. sem escola. Muito se fala sobre o assunto. mas. de que o Brasil tanto precisa.obrigação diária de sala de aula. <39> DOIS MÉTODOS . O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. Ninguém parece confiar mais no professor. Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. e. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. não há educação de massa. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. Sem o professor. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais. São professores que sabem ler e escrever. A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. Em vez disso. não há escola. mas não usam esse conhecimento. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer.

na sua essência. caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . Por essas razões. Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem. pois cada um aprenderia por iniciativa própria. o professor não pode ser o dono da educação. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. as escolas não precisariam existir.A educação não pode viver só do ensino. tem dois métodos apenas. caso contrário. saber que aprendeu. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. como também não pode viver só da aprendizagem. A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. por iniciativa própria. quando. Nos estudos pedagógicos. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. sobretudo. na medida adequada. entre outras. pode-se dizer que a educação. Por outro lado. às vezes com conseqüências sérias. aquele que tem tudo sob seu comando. com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem.

método indutivo. método mecanicista. Há uma tipologia de métodos que. no fundo. método global. baseiam-se em um dos dois métodos básicos. a seguir.produzido uma vasta literatura a respeito. considerando os seus processos de argumentação. como. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2). algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. método fônico. No entanto. Toda essa discussão pode. Por essa razão. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. <40> método construtivista. método dedutivo. etc. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. apresenta-se. Em primeiro lugar. São as variantes das duas vertentes principais. de certo modo. o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. tem as características básicas apresentadas abaixo. por exemplo. podemos dizer que todos os métodos. o método 1 e o 2 servem . Talvez por isso mesmo. no seu extremo. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2.

pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. tudo gira em torno dela. tendo de decidir entre o . quem ensina e quem aprende. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. O aluno procura sempre responder. Inversamente. dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é. DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. Na verdade. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição". esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. na alfabetização. transmitido como ensino. devem seguir um modelo prévio. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. Por isso. nos métodos que a escola usa. uma importância fundamental. que usos tem. na prática. Por exemplo. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. Não conheço. em nenhuma cartilha. como funciona. qual é a concepção de linguagem subjacente. nesse momento. Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino. com o que faz. A linguagem exerce.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem.

quando as pessoas usam a linguagem. porque. passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor. não têm esse tipo de preocupação: elas. que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia". Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função . Há. pensam e falam o que quiserem. Ora. o que é falso. simplesmente. na vida real. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. ainda. aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. a não ser na escola. Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". quando falamos. o problema da ortografia. do jeito que acharem mais conveniente.certo e o errado. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido". trata-se de regras lingüísticas diferentes. Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". Nenhum falante acha que fala errado. ou por influência da educação escolar. nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. e muito. <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. mas que irá atrapalhar.

porém. A comunicação é uma função importante da linguagem. Ora. nem talvez a mais usada. . a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação. transmite-se uma cosmovisão. senão a única. que essas verdades logo se revelam. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino. A linguagem também serve para comunicar. esta não se reduz apenas a comunicar.mais importante da linguagem. Nesse caso. quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte. Atrás de notícias encontram-se censuras. O MÉTODO 1. ocorrem tomadas de posição. mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem. Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar".. Quanto de enganação. é a comunicação. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida.. Basta refletir um pouco.

uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. o professor programa o que vai ensinar. isso é muito conveniente para quem ensina. O método 1 considera que a melhor . na prática. na alfabetização. dizem. essa é a regra geral. No começo do ano. Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização. Nas séries mais adiantadas da escola. mas é má pedagogia. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. de todas as formas possíveis. em todos os seus níveis. A técnica A técnica do método 1. Obviamente. dando chances iguais para todos. que alunos vão ter. Os alunos que se virem. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor.<42> o marco zero de uma caminhada. Nesse quadro. sem sequer conhecer seus alunos. é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos. porque os alfabetizadores já aprenderam. que não podem ser tão cegos assim. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um.

o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. extraídos das palavraschave. escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". Assim. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. formando "palavras . Com esses pedaços. tem-se BA. segundo o professor. Por exemplo. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons). Nesse caso. desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). diferentes das palavras-chave. desmontando BATATA. Depois.maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. no primeiro exemplo. por exemplo. Com alguns pedaços de palavras. Em seguida. pode-se descobrir que é possível formar palavras novas. e que sabem juntar os pedaços de palavras. Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. "bata" e "taba". parte-se sempre de um modelo exemplar. Por exemplo. uma palavrachave. a palavra é remontada. pode-se formar as palavras "Tatá". TA. mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. Feito isso. TA. As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. ou montando coisas novas a partir de pedaços.

as crianças ligam os pedacinhos. não ele. liga os pedacinhos de letras para formar palavras.. mas não sabem de seus limites e usos reais. vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. que a criança nunca tinha ouvido. Por mais estranho que pareça. achando que o professor. que sabe tudo. Na linguagem oral.). foi mais por culpa do professor do que dele. alguns professores. como sabia antes o que significava "taba". juntando dois pedaços de palavras. no segundo caso. quem deve saber essas coisas é o professor. porque além de tudo aquilo que não entendeu. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias. porque o método não ensina isso. Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita. porque seguem apenas as regras do jogo. Aprendem o jogo da escola. forma-se uma palavra nova. diante de fatos como esse. .. se aconteceu. o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. isto é. Ele apenas faz a lição. A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda. que diz que. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. E. apenas uma estratégia de ensino escolar.novas". saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa".

falamos tudo junto. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. ou seja. de fato. uma após a outra. Dominado ou aprendido algo. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. Não falamos fazendo pausa após cada palavra. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. passa-se ao conteúdo seguinte. A base desse . Aprender é dominar. A base: o já dominado Com o método 1. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos. Por outro lado. as quais o aprendiz precisa dominar. separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. para que os alunos aprendam a ler. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons. que deve ser aprendido. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua. não porque falamos desse modo. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. fazendo pausas apenas em alguns lugares. Ora. Na escrita.

embora garanta. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. nunca se questiona o ensino. pois. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. Por exemplo. fazem sem erros os . sim. produzindo escritas absurdas. Nesses casos. Esses professores mostram que usam o método 1. dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Para isso. e. Conseqüentemente. Portanto. Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. acabam revelando sua ignorância.método é. decorar é fundamental. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. mas tãosomente o comportamento do aprendiz. repetindo-a corretamente. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. o conhecimento já dominado. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. Na alfabetização. enquanto não provar que já o faz.

e o resultado é uma enorme decepção para ele e. para o aluno. é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. Neste. ou não fazem nada. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. mas não pode ser um truque. conseqüentemente. como acontece no método 1.ditados das palavras já dominadas. Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado. o já dominado apenas revela um modelo repetido. mas. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. não chegam <45> a se alfabetizar. nas atividades escolares. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". como se decifra algo escrito para ler e. logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho). Esses alunos foram ensinados pelo método 1. No processo de . quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. O uso da memória O uso da memória. A memorização é fundamental no processo de aprendizagem. principalmente.

palestras ou lêem em livros. Às vezes. como se esperaria de alguém que tem bom senso. o . e de que aprender é entender e não decorar. Outras vezes. Memorizar é fundamental. como acontece com a prática pedagógica do método 1. querendo fugir desse esquema. alguns professores. isto é. São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido.aprendizagem. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente. convencem-se. Obviamente. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. a memorização faz parte do processo de reflexão. trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. de que a memória não tem vez na aprendizagem. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. São duas realidades muito diferentes. Por essa razão. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. disposto numa ordem necessária.

Isso acontece porque partem do pressuposto que . Será que as coisas são mesmo assim. No entanto. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. e talvez seja mesmo impossível. E difícil. a organização hierarquizada é uma atitude esperada. utilizada pela educação nos currículos escolares. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. tais afirmações são tão gerais. para o processo de ensino. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. mesmo em sua forma sistematizada. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. No entanto. É claro que alguém precisa aprender a ler. por exemplo.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente. até certo ponto. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. que não se aplicam ao que se quis dizer acima. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade.

A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática. tudo é difícil. Para ele. Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. por exemplo. Para uma criança que não sabe ler nem escrever. aconselho estudar árabe. "estender" ou "extensão". "andano" ("dentro". no começo. qualquer palavra. esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles. Ledo engano. "bardi". A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza. qualquer palavra é igualmente difícil. mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. "balde". Para quem duvidar disso. não há nenhuma palavra fácil. "andando") tem uma dificuldade . <47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores. Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza". e não ao processo de alfabetização. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. porque erramos menos a ortografia com elas. Na verdade.escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. achamos difícil escrever. O aluno que fala "drentu".

mas que deve ser escrito: "toda amiga". É preciso. o que é um absurdo. e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. O que há de diferente é o uso das letras na escrita. separar fatos da fala dos da escrita ortográfica. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram". por estar entre duas vogais. dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. Dizemos "rapais" ou "rapaich". Além do som de S. a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). nesse caso. pois. de CH ("lixo") e de Z ("exame"). uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo". Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. seria o de Z. mas. Por exemplo. o som da letra S. mas. um aluno fala "fizeru". suprimimos o I: "rapaz". em palavras como "caixa". Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. se escrevêssemos "prósimo". "acharu". Por outro lado. "acharam". De acordo com as regras de nossa ortografia.muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). poderíamos escrever "esterno". na hora de escrever. é comum não se pronunciar o I .

estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. porque A é mais fácil do que X. Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe. mas precisaram ir além. Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito. E a lista é longa.que vem junto com o A. desenvolvendo-se passo a passo. quanto para quem aprende. que realmente são armadilhas para os alunos. mas não se pode deixar de escrevê-lo. Esses casos. Como o ensino é completamente hierarquizado. em todos os ramos do saber. cobrando a mais rigorosa e constante avaliação. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados. . Na verdade. o resto não faz sentido. Fáceis e difíceis "aparentemente". tanto para quem ensina. mas não de fato. jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X. do mais fácil para o mais difícil.

A avaliação. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta. para que o ensino possa dar um passo adiante. de repetir o ano todo. só porque cometeu dez errinhos. aqui. prevista pelo método 1. sobretudo para as crianças na alfabetização. Isso é tão ridículo. E as outras coisas que . Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. O aluno escreve urna história de dez linhas e. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. mesmo que tenha. no final do ano. o que conta são os erros e não os acertos.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas. voltando àquele zero inicial. Se não houver uma avaliação rigorosa e constante. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. não o que ele aprende. o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. ganha nota cinco. Na avaliação. até demonstrar que já dominou.

A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. e o resto que fez e fez bem.escreveu certo. fazendo aparecerem erros. tem de voltar atrás e repetir a lição. o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. e em nada contribui para a aprendizagem. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. O ditado. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo. na verdade. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente. como se escreve uma palavra. que já dominou um certo conteúdo programático. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. na alfabetização. Não é pensando que ele vai descobrir. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada. O aluno não aprende fazendo ditados. naquele momento. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na . passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. que os ditados.

a solução que adota é ignorá-lo. Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. Repetir e repetir é o que manda o método 1. Simplesmente ensina-se o certo. tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo. Fora isso. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. Mais raramente. Há. Por isso. como naquele momento da avaliação. em geral. a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno.mente do aprendiz. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. Nesse caso. o erro é um problema que o método não sabe resolver. na tradição pedagógica de nossas escolas. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence. discutir o erro. sobretudo nas classes de alfabetização. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. Por que as crianças fixariam . O que fazer com o erro No método 1. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. a vida toda. Nesse caso.chegassem. portanto. ela automaticamente sabe e. como acontece com o método 1. seguindo um processo de reflexão. e existe outra memorização que é . revelando as decisões que os alunos tomaram. E ninguém fica perdido no meio do caminho. o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. no método 2. A fixação da aprendizagem. Quando uma pessoa entende algo. Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor. sabemos como operar com certos conhecimentos. Em muitos casos. Isso também é saber. é o outro lado da moeda da reflexão. não precisa "fixar". o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas. caso contrário. não pelos efeitos. não sabe.

essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. No caso do método 2.simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar. Salva-se a ortografia nos cadernos. No início. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. de produzir textos orais. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia. o uso real da linguagem. mas sacrifica-se a produção de textos reais. para isso. Porém. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas. mesmo que. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir. para a habilidade de . Nessa fase. o aluno aprende primeiro a ler.

o processo educativo depende do . quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever. Porém. por sua vez. Aos poucos. principalmente. ficará perplexo e não saberá. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. e este. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. será uma simples transferência do oral para o escrito. no início. de muita leitura. Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. A culpa será atribuída ao professor de português. Com a produção de textos desde o início da alfabetização. salva-se o uso real da linguagem. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. quer na sua manifestação escrita. Tem-se a impressão. de imediato. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. quer na sua forma oral. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. com a ajuda dos dicionários e. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. o que há de errado. No começo. no entanto. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação.produtor de textos escritos. O aluno. como se pode notar pelas observações anteriores. Todavia.

Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. No entanto. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. acostumados com essa prática. promoção. Os dois métodos podem alfabetizar. embora aparentemente adequada. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. <60> 3 Avaliação. ou seja. O método 2 exige experiência e competência do professor. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . Isso parece óbvio e natural para muitos professores. paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável.método adotado. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção.

como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte. a questão central não é essa. entre outras razões. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. porque se poderia contra-argumentar. Na verdade. para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. Certamente esse argumento é um contra-senso. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. 1996e. NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. Este último argumento é o mais comum para . facilitando.que o professor faz para ensinar. Na verdade. CAGLIARI. Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. portanto.

faz o gol da vitória. se no último minuto o adversário. como um jogo social. a exemplo da tradução do título de um filme. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". sem as notas. com o tempo.justificar o uso de notas e conceitos. abrangendo todas as atividades. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. mas um nocaute basta para qualquer . Os professores dizem que. mas não sem razão. No boxe. Como a escola educa para a sociedade. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. Como o objetivo é muito claro. contam-se pontos. que jogava mal. de acordo com qualquer parâmetro. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. A necessidade de dar e receber nota tomou-se. Curiosamente. Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho.

Nosso problema. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica. da série. da escola. simplesmente. Em algumas escolas. é outro: será que os alunos. ou seja. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. quando estudam. refletindo um julgamento de valor. Neste último caso. as notas estão por toda a parte. Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva. porém. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. Como se vê. funcionam bem quando se trata de classificação e. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. da educação. Nesse sentido. o melhor de todos. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. sobretudo. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. dos estudos? <63> . As notas. Nos concursos de seleção.lutador vencer. as notas servem também para indicar o campeão da turma. estão participando de uma competição.

O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. Na vida. fazendo determinadas tarefas. Nas escolas da . com mais arte e perfeição do que outras. a partir da capacidade de cada um. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar. logo fica evidente que algumas fazem melhor. pela própria natureza das atividades da escola. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar. Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar.Na prática. é comum haver competição. E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. Quando se reúnem muitas pessoas. Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima.

Basta fazer uma análise de provas. .Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. principalmente no que se refere à ortografia. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho. do jeito que era ensinado. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. Ou seja. deixando de lado as opiniões individuais. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo". A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar. É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual. Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. testes e exames.

Assim. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição. por exemplo. a pelo menos metade das aulas. no fundo. o que significa que. a não ser em casos muito excepcionais. depende da avaliação. a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. . Certamente. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. julgadas inaptas para o trabalho escolar. como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação. Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. Aliás. No caso. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas.

Em primeiro lugar. Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu. expresso por notas ou conceitos. deixando a idéia de formação. num plano secundário e mesmo dispensável. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria. embora haja muito mais a ser dito.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. faz menos sentido ainda falar em reprovação. O aluno estuda não porque é importante para a vida. a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova . Nesse caso. Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto. não é razão suficiente para reprovar alguém. no sentido pleno da palavra. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. mas para livrar-se de mais uma competição intelectual.

uma vez que piorar o ensino é impossível. até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa. como aprimoramento pessoal e profissional. De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua. Num país como o Brasil. depois de terminada uma prova. dizer isso é uma piada. então. A avaliação não volta atrás. como irremediável é a nota. mas ao longo da vida. quantos alunos chegam mesmo a dizer. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. já não há mais tempo. talvez. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. que fazem questão de se esquecer de tudo. entre outras coisas. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos.como se resolve uma questão? Mas. Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. E preciso educar para a vida. porque a nota já garantiu a promoção e. Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. A educação precisa modificar sua visão de si própria. queimar livros e tratar de esquecer a escola. O tempo da avaliação é irreversível. A qualidade do ensino se . não para a nota. Por outro lado.

passa a ser avaliado como alguém irresponsável. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno. se não houver provas exigentes e notas baixas. os alunos não estudam. desde cedo. Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. Ainda nessa linha de raciocínio. . quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. Professor que não faz isso. Pelo menos com medo das provas. Se o professor nunca passar uma prova. fica sem controle. Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa. E nada disso tem a ver com notas. quer na ação do professor como educador. alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade.consegue com um trabalho <66> competente. uma outra perspectiva de trabalho escolar. que gosta de matar o tempo. Os alunos são vítimas desse processo. Outro argumento. eles estudam um pouco. não culpados.

Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. Por fim. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem. Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas. nas provas e notas. O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. Em troca. o professor se volta de novo contra os alunos. se sentirem humilhados e castigados. três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. Com o aumento das irregularidades de comportamento.encontraria. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias. usando sua arma terrível que é a nota. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para .

. Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras.. aluno por aluno. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. estão ensinando seus alunos a estudarem direito.responder direito e de maneira completa. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação. uma perda de tempo. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. não obstante. Como vimos. por fim. duas questões de resposta fácil. dessa forma. e a mais honesta. Acreditam que. e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. mas o próprio fato de dar . Gostaria. a não se deixarem enganar pelas aparências.

57% de erros contra 68. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano. Na verdade. a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros. O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho". dizendo que havia apenas uma palavra certa. o que dá uma porcentagem de 3 1. Analisando. Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos. a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros. o professor achava que estava tudo errado. Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho").43% de acertos nesta frase. uma das mais problemáticas do texto. ou "piçoa" em vez de "pessoa". constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido.) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos. porém. mas da qualidade dos erros.notas.

A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. é desconhecer a realidade de cada aluno. Assim como a promoção não precisa de notas. também a avaliação não precisa delas. Somente aquele tipo de ensino massilicante. cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. Não é porque o professor ensinou algo. AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. A avaliação é uma atividade importante. começariam a ver as notas com outros olhos.alunos acertam. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. O importante é que todos cresçam. O professor também deve se auto-avaliar. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. em que o professor manda e os alunos obedecem. que todos os alunos . Na escola. sobretudo nas primeiras séries. trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. uniformizante. porque cada um é diferente dos demais. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. O erro é sempre muito chocante.

fica muito fácil para o professor provar. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. aplicado à solução de algum problema. em primeiro lugar. Nesse clima pedagógico. como um aluno começou sem saber muito e. Em vez de boletim de notas. outros por iniciativa própria sob a supervisão dele. por trabalhos que os alunos irão fazer. enfim as notas. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. o . nesse arquivo. para quem quiser ver. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes.aprendem do mesmo jeito. A escola precisa trocar as provas. Não é porque o professor ensinou. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. os testes. e se esses trabalhos forem guardados. não para passar de ano. Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. na forma de provas ou chamadas. uma reprodução do modelo apresentado. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos. o próprio aluno poderia ver. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. alguns sob orientação direta do professor. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida. No final do ano letivo. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. depois de uns tantos meses de aula.

como também para julgar . Com isso. durante o ano escolar. além de ajudá-lo. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho. porém. Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor. paralelo a tudo o que se faz. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. quando <70> realizam suas tarefas. levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer. Esse tipo de avaliação.professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias.

apesar das provas e das notas. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou.o que os outros e o que elas próprias fazem. que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. no começo do ano. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. o professor do ano seguinte. Mesmo hoje. mas também os demais. Analisando friamente. Quais serão esses erros. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. . não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. quando um aluno é promovido. partirem da realidade de seus alunos. tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber. incluindo não só os da alfabetização. por exemplo. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. O aluno na série seguinte Se todos os professores. que o aluno errou o sujeito da oração. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas. Portanto. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano. em vez de reclamar do colega.

Tal reprovação. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz. além de causar danos emocionais nos alunos. um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo. Por causa de um predicativo do objeto direto. não soube resolver um binômio de segundo grau. 1993c. os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra. Como avaliar essa avaliação. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho . muitos alunos já foram reprovados.mesmo. Na alfabetização.

Muitas vezes.do processo de aprendizagem. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos. a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. Por isso. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam. O processo de aprendizagem não funciona assim. E se o aluno vai mal na prova. mas somente para promover ou não o aluno. Agir assim requer uma mudança de atitude. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. pode ficar condenado a não aprender nada. Ora. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais . o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo.

de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. ele pode até agir assim. Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. não pode dar outra nota senão 10 ou A. pesquisando. sem mencionar a tradicional queixa dos pais. que muita gente passou a ter. e não através de provas e testes padronizados. e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o . fazendo todo tipo de atividade escolar.profundas do educador. Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. Ninguém pode reclamar disso. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus). dentro de suas possibilidades. mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos.

processo escolar. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria. isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. que precisa ser feito com responsabilidade. < CAGLIARI. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias. uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. Todos eles aprendem alguma coisa. esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. Na alfabetização. se um aluno não aprendeu a ler. 1998a. e isso basta. Infelizmente. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. os alunos aprendem. como deve estar. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende. sem . Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. mas alguma coisa eles aprendem. considerando uma tarefa do professor. Quando o professor ensina com competência e seriedade. Estudar é outra coisa. É algo sério.

. no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. especialmente se for na primeira série. sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o . As escolas costumam fazer seu planejamento. Para os repetentes incorrigíveis.) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico. Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente.. a única solução que visualiza é a evasão escolar. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau). de vez em quando. O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. levando em conta as principais áreas da lingüística moderna. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. Por causa da variação lingüística.ligar para o que acontece com seus alunos. Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários. Então. recomenda <73> uma mudança para a classe especial. Para os piores.

Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria.certo da norma culta e o errado das variações dialetais. para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. no seu dialeto. como têm demonstrado os lingüistas modernos. 1991a. usam a linguagem. o seguinte: . cada um do seu jeito. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. Entretanto. 74 CAGLIARI. Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser. por exemplo. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem. chama-se epilingüismo. num primeiro momento. Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria. deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua.

Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita. Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão. História da escrita. . sobretudo a ortografia. Leitura de lazer e de pesquisa. etc.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. Produção de narrativa orais e escritas . Visão geral da aquisição da linguagem oral. explicar como funcionam os sistemas de escrita. 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística. Primeiras noções de variação lingüística. como cartas notícias. Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão. Produção de textos de natureza diferente.1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. treinar o aluno na produção de textos espontâneos. Produção de textos orais e escritos. Autocorreção da ortografia. 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização. Introdução de noções básica de fonética e de fonologia.

ou seja. 4° ano Estudo mais sistemático de fonologia. Leitura de lazer e de pesquisa. dos usos da linguagem oral e escrita. Produção de textos oriundos de pesquisas. por exemplo). sobretudo poesia. lJabaibo com contos e pequenos romances. Leitura literária orientada. regência e concordância. Produção de textos orais e escritos. Introdução à . Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. 6º ano Estudo de sintaxe. Noções básicas de sociolingüística. ou seja. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos. Introdução à teoria da literatura. Leitura de romances. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. Cuidado especial na produção de textos orais. Leitura de lazer e de pesquisa. 5º ano Estudo de morfologia. Apresentação das línguas indígenas brasileiras. Produção de textos mais sofisticados.Exploração de textos literários.

o que deverá aprender no primeiro ano. No ensino médio (segundo grau). História da literatura. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional. Como verá coisas diferentes a cada ano. a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. Produção de textos literários e científicos. linguagem e pensamento). tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. Leitura de textos científicos. artísticos e de autores famosos da literatura universal. Diante de um quadro como esse. percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. num trabalho metalingüístico. Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau. interpretadas agora segundo uma teoria e . Estudo da história da língua portuguesa. História da ortografia. podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas. Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual.análise literária. interação lingüística.

através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. Depois. Na pós-graduação. haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado.formando uma gramática moderna descritiva da língua. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística. O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia. a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições. desde o primeiro ano. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores. Em termos mais específicos. não importando os erros de ortografia. . com vistas a um estudo crítico de teorias. No terceiro grau (graduação). deve ensinar o aluno. • Produzir textos espontâneos.

competente e constante. • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas. • Participar das atividades escolares. testes. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante. a escola não pode fugir à sua missão. Basta fazer um trabalho sério. que não precisará de provas. A escola precisa saber lidar com as diferenças. de modo a eliminar os erros de ortografia. • Preparar e ler um texto no dialeto padrão.• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo). Por outro lado. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. Como se vê. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras.

principalmente nas primeiras séries. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente. que infelizmente proliferam em nossas escolas. Criança precisa se divertir e. Em casa. podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa. Nas escolas públicas. fará na escola. Lugar de estudar é na escola. lugar para brincar e lugar para estudar. A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar. Isso é um absurdo. Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. não há livros. se não fizer isso em casa. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. sobretudo brincar e se divertir. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. . Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar. onde os alunos pobres estudam. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. em geral. depois de um dia de trabalho. mas normalmente farão outras coisas. e seus pais.fraca e ruim. elas tornam-se um absurdo. as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis.

diminuindo. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. E. mais importante. nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar. o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. Por outro lado. sobretudo para provas e exames. ensinando aos seus filhos matemática. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa.Mesmo em séries avançadas. o professor não pode passar tarefas todos os dias. como achará tempo para estudar. gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. Mas. geografia. Isso é tarefa exclusiva da escola. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições. é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. . já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. do que gastar muito tempo de vez em quando. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. A medida que vão crescendo. para que isso aconteça.

Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos. sem diploma. sem nota. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. o aluno poderá fazer o mesmo em casa. estudando e trabalhando fora da escola. não para dar satisfação ao professor. sem professor. aluno. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula. mas para estudar o que ele. escolheu para si.Pelo contrário. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. numa ordem crescente de dificuldades. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. sem prova. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . depois tornou-se uma tabela de letras. pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal.

em substituição. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. não querendo adotar uma cartilha. ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. livrinhos de histórias. Mesmo quando. que. Muitos professores fizeram sua própria cartilha. recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. todos os anos. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho. alguns professores deixam de usar as cartilhas. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos . fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. atendendo a pedidos de professores. compram. Os próprios órgãos encarregados da educação. compram. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. os quais. Alguns chegaram até a publicar esse material. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha. por alguma razão. baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas.desmontar e montar palavras. dedicada ao período preparatório. Tempos depois. Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação).

Como é constituído de letras. que se conheça como elas são. . agora de maneira muito mais confusa e difícil. ou seja. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. exige. a habilidade e o bom senso de alguns professores. antes de tudo. <80> principalmente. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. A opção por um trabalho alternativo. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. como propõem. sem cartilhas. o que propõem. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. o que pretendem e. Por essa razão. Como as letras representam consoantes e vogais. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. o que deixam de fazer.

Cada lição trata apenas de uma unidade silábica.nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. Geralmente. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. No fim. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. segundo algum critério escolhido pelo autor. ilustrada com um desenho. Depois. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. e destacam a sílaba geradora. apresenta-se um resumo. Em seguida. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. do mais fácil ao mais difícil. em que o alfabeto pode estar ou não presente. escritas com elementos já dominados. aparecem os exercícios estruturais em que . Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. a cartilha acaba num texto. Vêm abaixo algumas palavras novas. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. mais elementos novos introduzidos na lição. No entanto. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. em que se emprega o princípio acrofônico. Na verdade.

Como as letras representam consoantes e vogais.palavras <81> principalmente. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. ou seja. o que deixam de fazer. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. em que se emprega o princípio acrofônico. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. a habilidade e o bom senso de alguns professores. Por essa razão. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. No entanto. Na verdade. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. . nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Como é constituído de letras. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo.

então. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. Depois. No fim.essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. Em seguida. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. um pequeno "texto" para leitura. ilustrada com um desenho. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo". Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. e que pode servir também . ainda. segundo algum critério escolhido pelo autor. apresenta-se um resumo. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. Há. do mais fácil ao mais difícil. a cartilha acaba num texto. escritas com elementos já dominados. Vêm abaixo algumas palavras novas. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. Geralmente. e destacam a sílaba geradora. aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. Ou. mais elementos novos introduzidos na lição. em que o alfabeto pode estar ou não presente. cópia e ditado.

para exercícios de interpretação de texto. Nas lições mais adiantadas. a linguagem tem esses aspectos. essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra. através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". uma quantidade enorme de atividades. representados pelas . elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida. As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. até propostas de representações teatrais pelos alunos. Como se disse antes. que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases. Ora. Em geral. de letras. uma sílaba. além das tradicionais cópias. tudo muito bem ligado. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". Recheando esse esqueleto.

Ora. Com relação às diferenças. porém. a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. a escrita e a leitura. pois são aceitas socialmente. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização. portanto. interpretadas de maneira preconceituosa pela . A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala. Há. que apresentam semelhanças e diferenças. Analisando esses três pontos. e que são. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". diferenças que representam a fala de pessoas pobres. algumas não causam estranheza.sílabas e unidades geradoras. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. para elas. No fundo. pois. que não usam a norma culta da língua. ficando apenas com o que há de mais superficial. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos.

percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. "drobar". acompanhadas ou não da zombaria dos colegas. quase sempre lidando com questões muito fáceis. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. Ou seja. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual. Obviamente. A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. recebendo dos professores inúmeras correções. O aluno vai seguir as lições da cartilha usando. esse . fala seguindo seu próprio dialeto. usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. em vez de "dentro".sociedade como um modo errado de falar. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula. Como não domina a norma culta. de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. etc. Exemplos: "drento". "dobrar". desde o começo.

incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. exige que o aluno . sem vida na sociedade. pronunciando "balde" em vez de "baudi". para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. etc. Um professor. mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. Para ilustrar o que ficou dito acima. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto). pronuncia todas as letras L com o som de L. Quando o professor se esquece de que está passando matéria. "alto" em vez de "autu". <83> Por ser um dialeto artificial. Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu". a ideal. que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. "póte" e não "pótchi".modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. de fato. fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula. "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. etc. Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é. Do mesmo modo. nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo. seguem alguns exemplos.

mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". Esquecemse. XAVIER & MATEUS. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. porém. O método das cartilhas não leva em conta. não sabe como se escrevem as palavras e. que a maior dificuldade dos alunos. Ortografia se aprende de outra maneira. . Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). "pranta". procedendo assim. por sua vez. sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. Para esses alunos. Esses professores acham que. 1990. "drobar". conseqüentemente.leia "tudo" e não "tudu". farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. no entanto. O aluno. falar palavras como "casa". "uzómitrabaia". "batata". não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa. etc. etc. de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra.

Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. Tudo gira em torno da silabação. Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. justamente porque. Ao fazer isso. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados. para ler. e. porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. bem-articulada). a escola destrói essa habilidade já conquistada. descaracterizando a fala natural. de quem fala assim. com conseqüências como pedantismo e preciosismo. A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida. como falantes nativos. sobretudo. Porém.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante.

ignora esse fato e. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. <CAGLIARI. Depois de certo tempo. Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. Elas observam demais a própria fala. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. nesse momento. a não ser através da escrita ortográfica.grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão. porém. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. aos poucos. as crianças têm. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. É muito importante passar da . A cartilha. como única referência de conhecimento já adquirido. E uma pena. 1989b. a própria fala.

Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). na verdade. muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. Eles acham que os alunos têm problemas . como aquelas relativas às famosas trocas de letras.habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto. Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando. porque confundem fatos da fala com fatos da escrita. eles representam um único som. Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada. em particular com relação à fonética. como se pode comprovar. Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata".

de quem eles tanto reclamam. exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. por exemplo. etc. "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). E isso. os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). Não sabem se existe ou não um I depois do X. é necessário admitir. A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). <86> trocam V por F. Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que. B por P. O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização). Se podemos ter um . que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. Z por 5. como as pronúncias de "vaca" e "faca". que não sabem observar corretamente as letras. Em primeiro lugar. eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. exatamente como fazem seus alunos. porém. que não são capazes de memorizar diferenças elementares. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos. como. apesar de todos esses problemas. é verdade. Acontece.

94-117. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990. p. 1984b. como antigamente). por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. Tudo na cartilha gira em torno da escrita. no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. na sua essência. é oral. Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. os . A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura.ensino decente. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola. Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua.

sem passar pela organização da linguagem humana. gire em torno dela. ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. A escrita. Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura. uma linguagem cheia de erros e falhas. na sua essência mais profunda. <87> a qual. pior ainda. perfeito. constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. passou a ser considerada algo nobre. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. no processo de alfabetização. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita.estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. A escrita requer decifração para ser entendida. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. então. A palavra . deselegante. portador do pensamento lógico e literário.

tirase o significado total do texto.Sem dúvida alguma. no entanto. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras. A cartilha foi além: não só assumiu isso. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. a qual. junto com as lições. porém o que vale não é o texto em si. a palavra. Do significado de cada palavra. fica tão marcada na formação dos alunos. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida. escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. como unidade lingüística. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. . Podese até ter uma frase ou um pequeno texto. Todavia. a palavra é o centro das atenções da cartilha. Na verdade. mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela. o que é falso. seguindo os padrões da escrita. Desse modo. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita.

<88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. etc. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. Esses pedacinhos. constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. serão organizados em famílias. pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. As cartilhas apresentam os piores textos. como nas palavras an-jo. etc. Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber . cada família recebe uma palavra-chave.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem. Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu. Finalmente. Como resquício do princípio acrofônico. elaborados por "razões pedagógicas". Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral. do prá-pré-pri-pró-pru. cam-po. é claro. como a família do chá-ché-chichó-chu. que servirá de recurso mnemônico. Assim. estudam-se primeiro as famílias mais simples. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes.

como ABCÇDEFG. Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho . nesses casos. etc. e abcçdefg. que é o fato de existirem alfabetos diferentes. às vezes. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz.imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). passa despercebido. advérbios.. Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e.. 1997a. > Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. nem com a coerência discursiva. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados.. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". Certamente. com os pronomes substituindo nomes. o essencial. e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes. o que faz deles péssimos exemplos para os alunos.. No entanto. um compromisso com a verdade do texto. <MASSINI-CAGLIARI.

porque não é o tamanho que conta. A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes.menor do que uma letra minúscula. Para quem está aprendendo. é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. a letra de . Os alunos acabam constatando por si. depois de certo tempo. Também é verdade. ou seja. porém. pessoas já alfabetizadas. E a cartilha não explica isso. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. mas isso pode ser um processo longo e difícil. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros. nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. mas a forma gráfica.

A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. Alguns professores acham que. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores). Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais. a escrita deixou de ser feita à mão. Apesar disso. dificulta o trabalho de leitura.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva. que. freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. por outro lado. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. se os alunos começarem a . uma vez que. a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. facilitando uma escrita rápida. A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. sendo mais difícil de elaborar. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras. Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno.

"v". cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I".). ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s". fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. Ou. redondinha. seguida dos de uma letra — A. — etc. P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. que a letra "A" é formada de um "C" e "e". igual para todos.escrever com letras de fôrma. distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. ainda. em palavras como TV e TIA. O aluno pode até constatar que há uma diferença na . Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. não vão aprender a escrever com letras cursivas. É por isso que um aluno pode pensar que. <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva. Como ela deforma certas letras quando agrupadas.

que também varia. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa. Quando diz isso ao aluno. por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. em início de palavras.. o professor está pensando na ordem das letras nas palavras. Porém. esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada. Afinal. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. Por exemplo. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral.altura da "perninha". esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita. o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares. Escrita sem sistema . um caso sério para a medicina resolver. C. Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente. de caso para caso. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. etc.

toda aventura . cheia de rabiscos. pelo contrário. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu. sobretudo porque. vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. horas depois vai ao banco. ganhar seu famoso diploma de alfabetização. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. até que o aluno passe por todas as lições. O aluno. em geral becos sem saída para si e para o professor. O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. podendo. Esse mesmo professor. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. que concluiu que seu aluno era "doido". a natureza. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. ao ser indagado. o trabalho prossegue. escrevem — fazendo rabiscos. Pelo contrário.Como a cartilha não apresenta nem discute. orgulhase de ter uma assinatura exótica. O professor pensa que ele está "doido". É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. então. nesse meio tempo. em momento algum. a função e os usos dos sistemas de escrita.

mais adiante. e os cinco sons do X. a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. por essa razão. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. copiam as primeiras frases e. Por isso. A cartilha pensa que ensina a ler. e o erro pode ser irremediável. depois. como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. a não ser o que já tenha estudado com o professor. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O. finalmente. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização. Antes de chegar a este ponto. <92> . por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras.individual pode levar ao erro. a decifração. A cartilha jamais discute a leitura em si. no mesmo momento. ninguém pode escrever nada. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. da mesma maneira. os primeiros textos. os primeiros textos. Somente depois de terminada a cartilha.

assim. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. Em particular. para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade. Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos. conseqüentemente.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. Seria interessante apresentar ainda. mesmo que sumariamente. feita com pictogramas ou com caracteres convencionais. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa. pelas cartilhas. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. na alfabetização. conferindo.

o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. para corrigir os textos que produzem.com as letras do alfabeto. a escrever de acordo com as regras ortográficas. primeiro. Para isso. depois. A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum. de perguntar. não se escandalizaria diante dessas dúvidas. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. a aprender a escrever e. Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. sem medo de ter dúvidas. parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . A escola precisa explicar o que é ortografia. familiar. que sempre escrevemos. como funciona. para tirar dúvidas. como se decifra uma escrita com letras. porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. Às vezes. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. ela precisa ensinar os alunos. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. o que são letras.

por exemplo. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto. mais adiante. te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. E é só o que os livros apresentam. dizendo. de acordo com o nível de escolaridade. "le-a-la. E quando não se sabe como se escreve uma palavra.palavras. Quando chega o momento da leitura. não adianta pensar. pois depende crucialmente da escrita. refletir. mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita. a leitura também fica prejudicada. Mas esse ponto terá um tratamento especial. Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita.

Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação.letra por letra. a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. não são capazes de lembrar o que leram. ele precisa decifrar a escrita com facilidade. como deveria ser a leitura. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. sem cobranças. com o tempo. quando acabam de ler um texto. não está ao alcance da maioria dos alunos. Para um aprendiz ler em voz alta. é quase impossível que um aluno. Todavia.). pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência. em que o aluno gaguejou. decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo. se já dominou um determinado conteúdo ou não. mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. nos primeiros meses de alfabetização. composto só de palavras já estudadas. As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas. . parou para pensar. uma depois da outra.. o que. não raramente ocorre que. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. na alfabetização.. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas).

Mais uma vez. já que o aluno mal sabe . A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. Alguns professores. passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos.. Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. Essa atividade é a interpretação de textos. se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó". a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade. Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. ainda. Por exemplo. Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. a cartilha meteu as mãos pelos pés. achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos".. reduzindo suas aulas a essa atividade. pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a. bons leito res. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial." Ora. não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido.A cartilha usa.

Como tudo vem rigidamente em seu lugar. O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. Alguns deles merecerão aqui um destaque. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno. uma vez que o resto "já foi dominado". deve voltar atrás e repetir a lição. Acontece. ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos. Por outro lado. e isso gera . baseado na idéia dos elementos já dominados. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda. porém. que à medida que os alunos avançam. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem.ler. escrita e leitura. acabam se esquecendo de coisas já vistas. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. quando o aluno erra. estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem.

de gênero. Assim. um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais. esses exercícios não só não ensinam nada. coisas que. parece mais natural que o . de número e de graus das palavras. nesses exercícios. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre. Há. nota-se que muitos alunos erram. Como não há explicações sérias. Resumindo. de "tio". conhecem perfeitamente. a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. exercícios de identificação de categorias gramaticais. esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. sobretudo. Para muitos alunos. <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia". como ainda induzem os alunos a errar. julgando-se incapaz nos estudos. Para alguns alunos. onde começarão tudo de novo. escreve "tioa". apenas exercícios como "faça segundo o modelo". O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. como falantes nativos da língua. Esses exercícios tratam.uma enorme confusão na aplicação do método. ainda. de fato.

as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. porém. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia. . figuras. definitivamente. mas não "macacão". deve haver uma história e. Então. evitando um tratamento sério. sílaba virou "pedacinho". mas a um lugar sério. Para tudo. Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. preciso e direto das verdades que se devem ensinar. Por se tratar de crianças. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. "macacão" é um tipo de roupa. indireta. uma musiquinha para cantar. cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. com muito colorido e enfeites.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). sabem que não estão indo a uma festa. objetivo. precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. Para elas. quando vão para a escola. se possível. Tudo precisa vir acompanhado de gravuras. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica.

porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U. acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. apresentadas apenas como pretexto pedagógico. O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos. portanto. e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. As diferenças individuais não são . a letra o é "a letra da boca". favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. A escola. As letras não têm nomes: em vez de U. os alunos dizem "a letra do chifre". Elas têm essa consciência da seriedade. O excesso de histórias. avaliação com promoção. Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. na maioria das vezes sem nenhuma graça. O diferente é combatido e não pode existir na escola. e o que saiu errado precisa ser refeito. importantes. úteis para a vida e. com os remanejamentos de alunos para classes especiais. até acertar. às vezes torna-as levianas e comodistas. não obstante.onde se aprendem coisas sérias.

Na cartilha. para a criatividade.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma. por experiência própria. para uma livre iniciativa. Os professores sabem. segundo manda o figurino. bons para adestramento. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. por isso. iguais para todos. Por essa razão. para condicionamento. não encontramos nas cartilhas. mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento. tudo vem pronto para o aluno. A uniformização é um imperativo. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. para continuar com as características próprias. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida . que é difícil ensinar a ler e a escrever. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. nenhum erro será objeto de estudo. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho. nem nos manuais de professores.

um grande livro didático. seguindo o próprio livro didático. a saída da escola é a solução para o problema. E se não se corrigirem. os chamados "alunos carentes". 1985b e 1986b. se possível. de fato. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível. com métodos excelentes de alfabetização. Há ainda o interesse econômico. que tem feito das cartilhas . remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem. da mesma maneira.mostra claramente que o método não funcionou. A única saída é repetir tudo de novo. de preferência. <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. escolhendo. < CAGLIAR!. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas. Por falta de espírito crítico. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. comprovados desta e daquela maneira.

esquecendo-se do lápis e do papel. Em primeiro lugar. Apesar de tudo. Em algumas escolas. Aprender a ler. SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. aqui. o governo insiste em distribuir cartilhas. significa aprender a decifrar a escrita. <99> . Mas. se a cartilha é tão ruim assim. ou melhor. Para um bom trabalho de alfabetização. analisando a história e os métodos de alfabetização. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação.um negócio muito lucrativo. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa. sobretudo. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. sem o método das cartilhas? Qual é a saída. na escola. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e. sobretudo nas es colas públicas. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro.

principalmente. pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. por sua vez. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. ainda. Alguns autores de livros didáticos. Apesar desse quadro pouco animador. por falta de infra-estrutura. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo. Infelizmente. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. aos poucos. Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. com . pela incompetência de alguns professores. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna.Para saber decifrar a escrita. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos. são tão despreparados quanto os malformados professores. quais os seus usos e. constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos.

O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho. ele é capaz de realizar um excelente trabalho. na pesquisa.dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. o próprio professor verá. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante. num processo de aprendizagem verdadeiro. acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. O professor também aprende ensinando. o professor sabe ler e escrever. A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. A própria prática . sem precisar gastar muito tempo. de ir direto ao assunto. refazendo desde o início sua formação. 1997c. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. Afinal de contas. Mais do que isso. no trabalho compartilhado.ajuda muito.mestra da vida . . que ele também está aprendendo. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. como deveria existir sempre nas escolas. para sua surpresa.

como fazia antes. que não irá durar muito. nem do método. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita. do mais fácil para o mais difícil. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. mas da incapacidade do aluno. no mesmo tempo. O método da . o professor apaga e coloca o certo. os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos. Ledo engano. que ele usa como modelo. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. quando apenas falava. em que tudo está perfeito. que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. em ordem. Se o aluno errar alguma coisa. do mesmo modo. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. Se o aluno não aprender. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. Por trás de toda aquela aparente ordem. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas.Apesar de todos esses problemas. a responsabilidade não é dele. esconde-se muita coisa mal compreendida. Para o professor. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural.

sem erros. Finalmente. O que salva. inocentando os professores e os livros de sua incompetência. que muita gente fez isso e aprendeu bem. porque os alunos só reproduzem o já dominado. em parte. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. Como a matemática não tem dessas coisas. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. em séries posteriores. mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. já não aparecem mais cartilhas. deve-se rebater. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. as aulas de português é a produção de textos. cometerão toda sorte de erros.cartilha produz cadernos belos. Alguns professores. a leitura e a literatura. Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. são tão obcecados por elas. . no entanto. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. Depois. convém ressaltar que. e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo.

Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. em vez de escolher livros mais interessantes. Na verdade. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. preferem as cartilhas.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. por professores. para que servem os exercícios de matemática. que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. do começo ao fim. Afinal. e como eles não têm outra visão do processo de . e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares. porque são mais "práticas". será um fato surpreendente. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. em geral. sem propor nada de diferente. da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. Os livros didáticos são feitos. só que.

é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização. O círculo vicioso se fecha quando. os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem. Em primeiro lugar. repetem sempre o velho esquema. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica. Os esforços devem estar voltados para isso.alfabetização. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. Por exemplo. mas o principal deles é alfabetizar as crianças. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. todo o período preparatório veio como uma . o próprio método das cartilhas. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição.

a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. Portanto. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas. recortar. a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. Brincar. Como já dissemos. colar. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). ou seja. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos. lendo e escrevendo. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. em seguida. cantar. desenhar. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e. então. etc. sem dúvida são atividades escolares. em grande parte. Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. contar histórias. e não pulando corda e fazendo . Aprende-se a ler e a escrever. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. Conhecendo a rotina nas escolas. A alfabetização passou a se resumir. Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler. enquanto o mais importante era deixado de lado.

Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. essa deverá ser uma atividade secundária. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. Brincar é imprescindível.festa. e deve começar desde a alfabetização. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive. tecnicamente falando. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. Porém. OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. sílabas ou outros . Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar. Vendo essa questão por outro ângulo. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos. São todos falantes nativos do português. Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto.

não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão. não deixa de ser falante de português. marcando um uso informal e outro formal da língua. "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. das fricativas CH e TCH. de concordância (por exemplo. de regência (por exemplo. variações como "déis" ou "dés". não precisa se desvencilhar daquele que conhece. sem esquecer a outra. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). às exigências do momento. etc. Do mesmo modo. a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade. por exemplo. do lugar e das pessoas com quem se fala. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola.). 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . inglês ou francês. Variações de pronúncia (do R. MASSINI-CAGLIARI. Na sociedade. Uma coisa não é condição para a outra. Aprende-se uma língua. Numa sociedade tão heterogênea como a nossa.elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. Quando alguém estuda uma língua estrangeira.

interesses políticos e econômicos. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. ficou estabelecido que a alfabetização. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. aliás. no Brasil. a préescola é importante como escola e não como creche. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. e os problemas sérios continuam sem solução. Com quatorze anos. mas não se muda a mentalidade dos governantes. começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos. Nessa idade. Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada. etc. Além disso. Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como. do mundo e até da . Dos cinco aos sete anos. Muda-se a Constituição do país. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. avós. começando a alfabetização aos cinco anos. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula.Por razões ideológicas. pais. muitos jovens já são arrimo de família. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida.

é algo simples e banal. seu relacionamento com pessoas diferentes. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização. Por isso. converse com seus alunos para . As vezes. <106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. Essas considerações mostram que. Para elas. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. Dependendo do modo de vida. já testou sua participação na sociedade. Aprender a ler e a escrever. dentro desse contexto. no início do ano. Estar na escola é um fato que cria expectativas. ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja.história. ganhar dinheiro é o que realmente conta. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. isso não significa que ela queira ser alfabetizada. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. é necessário que o professor.

essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. fora da escola. Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. A escrita e a leitura têm muitos usos. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. o que se faz com esses conhecimentos. Não é raro haver alunos. É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever. Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. O que eles .saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. provenientes de classes pobres. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização. Mas é imprescindível. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida.

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. Por outro lado. a escrita está em toda a parte. As crianças que vivem em casas onde há livros. Mas. Por exemplo. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. Fora de casa.A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. na embalagem de um produto. uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse . não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. nas placas comerciais há coisas escritas. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. revistas. jornais. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. no mundo. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras. Por exemplo. de modo geral. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita.

Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. mas a <116> . Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. nesse caso) é de fato uma leitura. Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica. urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. um rótulo onde aparece escrito. Porém. mais especificamente. de maneira típica. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico. se o professor não perceber. Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons. o nome da marca. uma por uma.produto ou uma propaganda ou. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona.

dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. respondendo à pergunta mencionada acima. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. que exige uma explicação particular e detalhada. que a escrita vem associada a sílabas. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. Ora.identificação de uma ou mais palavras. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. antes de estar associada a palavras. ou seja. Ao fazer isso. não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. como se estivesse interpretando uma transcrição fonética. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita. . raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. No início. Por exemplo. é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas. E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. mas também. Na sociedade. algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. Essa é uma idéia muito elaborada.

comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome. isto é.Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. Nesse caso. U de urubu e X de xarope. A de árvore. antes de descobrir o que ela representa. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. C de cebola. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. típico do método das cartilhas. não é transparente para o analfabeto. S de sapo. E de escola. e acento agudo no E: LÉSCAUX. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. sem uma explicação muito detalhada e convincente. Aquele procedimento de decifração. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser. Só mostra as relações entre letras e sons para . <117> Diante disso.

etc. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. como em "u de urubu". têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. Por isso. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. No máximo. em geral. . o que já exige um enorme esforço de análise. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino.quem conhece as regras do jogo. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. conversando a respeito do que já sabem. T de Tomás. No mais. Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete. Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico. Algumas classes. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito. "a — de árvore". R de Regina. Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. Depois.

ainda. <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. Com esses alunos. o professor deverá tomar cuidados especiais. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa . esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou. da leitura e da fala. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças. Em outras palavras.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo. uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. Por outro lado. Se esses alunos não receberem uma boa explicação.

é muito complexa. mas a ler "com naturalidade". vamos encontrar uma série de normas. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita... mas jamais . 1. A questão. que. posso ficar tentando descobrir o que está escrito. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita.nessa tarefa. se elas não existissem. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. com efeito. Para quem já sabe ler. mesmo porque. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar. a decifração é algo mecânico. por isso. se eu não souber chinês. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. por sua vez. é o segredo do processo de alfabetização.

Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. portanto. Uma mesma forma gráfica. por sua vez. A história das decifrações tem mostrado isso. O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra. Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. 2. isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto. Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto . O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). 3. conhecendo uma língua. pode ser apenas um desenho ou uma escrita. ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler.conseguirei ler. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. Por outro lado. A linguagem oral. representa o mundo. e não outra.

tendo cada letra um nome. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva). 5. a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças. como podemos ver na história dos sistemas . mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm. Contar um pouco da história do alfabeto é. É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras. formando um conjunto. É composto de letras.latino e segue um conjunto de normas atuais. 4. Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas. Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. Variam na forma gráfica e no valor funcional. Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo. gerando diferentes alfabetos. não. As variações gráficas seguem padrões estéticos. talvez. através do uso de um princípio acrofônico. que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua.

de escrita. de acordo com a ortografia da língua portuguesa. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. é preciso saber a categorização das letras. principalmente. quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). reconhecer a letra cê. 3ª letra: letra esse. no caso da palavra CASA. a. 2ª letra: letra a. novamente. pela ortografia das . Ou seja. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. 4ª letra: letra a. <121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema. Assim. Apesar da diferença gráfica entre essas formas. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e. esse e a. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras. ou seja. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. 6. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). vendo um rabisco. as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras.

Além disso. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra.palavras. X = S). desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. Portanto. nos servimos dos conhecimentos . P = A. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. e. escrever CASA com as letras APXP (onde A C. Se as letras não tivessem esses valores. poderíamos. a palavra pronunciada "casa". poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais. ou mesmo MRIT. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. por exemplo. para tanto. em princípio.

Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. quem não consegue. pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. . fica tentando em vão outras maneiras de aprender. No início da alfabetização. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta. <122> 7. portanto. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. porque ela controla a categorização gráfica e funcional. para o estudo desses dois aspectos. Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita. muito mais do que o princípio alfabético.ortográficos da palavra CASA.

A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. Conhecer a natureza. Por outro lado. de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). assim. 1986b e 1994b. permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. ou seja. através do estudo dos sons e dos significados. estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. o usuário está livre para dizer o que está escrito. Além disso. usando seu dialeto ou outro qualquer. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem. atribuindo . porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita. Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. neutralizadas na escrita pela ortografia. Uma vez identificada a palavra. que chamamos de palavras. a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura.CAGLIARI. entender o que está escrito. estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles.

Ou ainda. Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura. como vimos. quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. Desse conhecimento. no nome "bê". é mais fácil decifrar e ler do que escrever. que é o som mais comum que essa letra assume. O nome das letras traz. da letra B. dependem muitas noções básicas.valores fonéticos às letras. Em outras palavras. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras. necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. contudo. O importante. 8. E isso acontece com praticamente todas as letras. em seu início. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. Assim. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. encontramos o som "b". temos o quadro completo das relações entre letras e sons. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia.

erre. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. i. Depois. cá. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita. u. que fazia os alunos aprenderem. é. bê. quê.usamos para decifrar os valores sonoros das letras. eme. no nome da letra W não aparece o som correspondente. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler. dáblio. esse. Na verdade. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. ele. cê-cedilha. Nesse momento. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. ene. 9. cê. gê. efe. xis. jota. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. tê. vê. zê. ípsilon. dê. Num primeiro momento. Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. pê. agá. nem no nome da letra Y. ô. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua).

para facilitar o uso do princípio acrofônico. para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto . Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso.não está mais presente em todas as letras. e isso facilita o trabalho. Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. nê. O. como K. W e Y. mê. As considerações acima mostram que existem regras que . a letra H é exceção. a letra T tem os sons de "tche" e "tê". Alguns dialetos (por exemplo. Por outro lado. U tem o som de "ka" e não de "cê". é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). C diante de A. para esses. Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. Em Portugal. 10. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem. fê. Eles dizem. do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. nesses contextos verbais. mas para outros tem apenas o som de "tê". em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". etc. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. a letra D não tem som. rê. lê. Por exemplo. Em inglês o nome significa "duplo u". por exemplo.por exemplo. S entre duas vogais tem o som de "zê". para alguns falantes.

mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. Ao ler a palavra XA. dará à letra X o som de CH. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado. Por exemplo. Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos. 11. o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. teria diante de si muitas alternativas. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. a partir da análise dos dados. se alguém quisesse escrever "kaza". e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua. o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. porque de acordo com as normas da nossa língua .

é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. ou seja. 12. Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. saber que X no início de palavras representa o som de CH. muito preocupadas com o traçado das letras. XEQUE/CHA. uma vez que esse som pode ser representado também por CH. Quando se diz "andano" e "drentu". Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque". o caminho é outro. Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler. Mas. uma vez que o movimento <126> da mão. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada. Não basta. o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ.em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. CHEQUE. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita. Por outro lado. indo dos sons para as letras. quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. nesse modo de escrever. no caminho inverso. Algumas crianças. a "drentu". vai da esquerda para a direita . por exemplo. significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem.

indicada pelo espaço em branco. ritmo. volume. na forma correta. Mas. fazemos algumas separações. O importante é permitir uma leitura clara. duração e ainda a nasalidade. pontos) da escrita.) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. na escrita. corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala. Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e . A segmentação de palavras na escrita. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação. Quando falamos. etc. a qualidade de voz. Depois. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. o acento. 13. velocidade. As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas.e. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases.

que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. mas não resolve todas as dúvidas. deve ater-se apenas à escrita. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras. Cabe ao leitor. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra. como conhecedor da língua. 14. De acordo com as normas ortográficas. mas é fácil na escrita. Nem tudo o que se escreve são letras . Para chegar lá. Para tal. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente. No esforço para ler. 15. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal. todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. O critério semântico ajuda muito. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura.

O ponto final representa uma pausa longa possível. representam também elementos prosódicos. mas nem sempre necessária. Outras marcas como ponto de interrogação. a escrita usa sinais de pontuação. As vírgulas servem.Além de letras. um A nasalizado. nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. sobretudo relacionados com a entoação. A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. exclamação. reticências. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . acentos e outras marcas. Porém. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia. que é preciso conhecer. 16. às vezes. embora façam isso de maneira muito precária. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. ou seja. etc. mostrando se são abertas ou fechadas. para indicar pausas ou elementos parentéticos. o que bloqueia o processo de decifração. A letra A com um til representa um som diferente.

que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. Essas unidades formadas da soma de palavras. como o grupo tonal por exemplo.vai ou não encontrar na escrita. Dado que nossos leitores são falantes do português. Na prática. e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. aaaan tiiii-gooo. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. essa é uma questão complexa. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. No fundo. saberão concatenar as palavras devidamente. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita. comparada com a fala. as letras representam apenas os segmentos fonéticos. isto é. na alfabetização basta o professor falar. precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. . Como vimos. an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. No sistema alfabético. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. por exemplo.

Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos. Por outro lado. e não a partir das possibilidades articulatórias do homem. > Se deixarmos de lado a ortografia. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo. Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — . mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). 1992c. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. 17. revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar.

Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente. Para tanto. como também no processo de aprendiza gem da leitura. A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. Dessa forma. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita. pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. os conhecimentos . E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente.há melhores sistemas para isso. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. é preciso ter. por exemplo. Não obstante. as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. em primeiro lugar. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. com a qual os alunos começam a escrever. Pode-se transcrever.

metodológicos e psicológicos. é uma questão não tão óbvia. porém. Como professor alfabetizador. Os < CAGLIARJ. Como educador. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos. é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. Se acontecer algum imprevisto. precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. saberá como se comportar. <130> Um professor bem-preparado. e menos fácil e comum ainda entre os professores. Para ensinar língua portuguesa. e esses conhe cimentos são básicos. é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. Para ensinar alguém a ler e a escrever. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas. Sabe o que o espera pela frente. 1992c e 1 99 6h. com competência técnica. o professor precisa ter uma formação geral. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho. cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como .

no entanto. Ele não precisa de "pacotes" educacionais. muitas informações. O conhecimento de como a escrita. E se quiser escrever a mesma palavra. um aluno precisará descobrir. vendo as questões não do ponto de vista metodológico. ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. Nessas circunstâncias. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve. Com apenas esses conhecimentos. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino. capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. mas da sua competência. Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. basta observar que sons a palavra tem. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. O professor precisa libertar- .

como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área. que pode e deve ser aproveitada. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. sociolingüística. Aos poucos. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. como ensinar os grupos consonantais. semântica. Mas. Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. No entanto. para isso.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado. para que esta autonomia possa se sustentar. etc. essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. etc.

porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas. fala e escreve. Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. aprender a ler é o segredo da alfabetização. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. Deve procurar explicitar. escrita e leitura e quais os seus usos. Para alguém conseguir ler algo. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras.trazem. sobretudo. através de pequenas regras. isto é. refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. Deve. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo. <132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. que serão passadas oportunamente para os alunos. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. Se o professor sabe ler. o que faz quando ouve. precisa saber . Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las.

Por essa razão. como os sinais de pontuação. 1. indo da análise de letra por letra e . Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. em alguns diacríticos. a título de sugestão. logo adiante. a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. é possível escrever a mesma palavra. apresenta-se. Antes disso. Cada letra representa um valor abstrato. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). que pode ter inúmeras formas gráficas. Quando se lê. como os acentos e o til. o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. Ler não é o mesmo que escrever. variando esses caracteres: "SELO" e "selo". Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. "E" representa o mesmo valor de "e". o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. porém. e. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. De acor do com o sistema de escrita.decifrar a escrita. embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes. de acordo com as normas ortográficas. A escrita representa sons da fala. e em marcas. Por exemplo.

Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra. consultar um dicionário. que o aluno pode checar. Quando se trata da palavra isolada. leva-se em conta a ortografia. então. Depois. ou seja. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. deverá resolvê-las antes. escreve com facilidade. Entretanto. o procedimento é diferente quando se escreve. é preciso verificar as alternativas possíveis. como falante nativo. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. Em seguida. perguntando ou procurando no dicionário. Qualquer falante. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular. Finalmente. Em primeiro lugar. É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. . Feita a decifração. até compor o resultado final. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral.de combinações de letras. Precisará. ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece.

o sistema também é fonográfico e usa letras. porém. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. como se fossem glifos. 2. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. O professor precisa explicar cada uma dessas noções. Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. mas essa não é uma leitura produtiva. Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. sem rodeios. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. precisará esclarecê-lo. É preciso ir direto ao assunto. seja ela familiar ou não. E é assim que os alunos devem aprender. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas. Como.de qualquer dialeto. ou seja. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. Ao escrever. caracteres ideográficos. Explicar o que é uma letra . procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve.

apoiadas na linha-base horizontal. elas têm uma direção fixada por esse espaço. É . Com relação aos usos da escrita. tal qual aparece no alfabeto. Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. Corno as letras são dispostas no espaço. da direita para a esquerda. através do reconhecimento do que é letra e do que não é. como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). e não letras em tamanho grande ou pequeno. e que uma letra sucede a outra. da esquerda para a direita. e a seqüência é da esquerda para a direita. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. Aliás. A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. linha por linha. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo. <135> em linhas. As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos. Toda letra tem uma forma básica.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). mas são interligadas na escrita cursiva. mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas. que serve para distinguir um caractere de outro. no alfabeto de letras de fôrma. As letras são escritas separadamente. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita.

Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). simb&lica. antes de se ensinar as relações entre letras e sons. As vezes. É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. ainda. em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear. ele não saberá ler e . tudo o mais fica comprometido. Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração. o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética.necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. É preciso. de outras formas de escrita. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. o que são palavras isoladas e o que é um texto. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". para "enriquecer" a escrita com mais idéias. tais como numérica. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. as que utilizam sinais e marcas. Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. e onde terminar. juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito. composta de letras e seguindo uma ortografia. Enfim.

Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco. Por exemplo. observando a linguagem oral. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão".não poderá ser considerado alfabetizado. é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. que deverão escrever. quem sabe sabe. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. há duas estratégias importantes: a primeira. A palavra final será sempre dada pela ortografia. a segmentação é possível. Para saber como segmentar uma <136> palavra. mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . quem não sabe tem de perguntar. "assistir ao filme". etc. nesse caso. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão". sem muitas dificuldades. embora represente uma idéia só. o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". "ver televisão" "consertar televisão". ou reproduzir graficamente o traçado de palavras. é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. 3. E. Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras. a segunda.

Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha. Decorar os nomes das letras é importante. no caso de "macarrão". mas não na escrita comum do dia-a-dia. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão"..televisão". Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons. mas o professor não irá exigir isso. Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado. porque as crianças costumam ir aprendendo. Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes.. para que os alunos possam consultar sempre que desejarem. 4. através de exercícios de memória. mesmo antes de entrar na escola. começará pelo nome das letras. Porém. mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". . a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto. Em geral. se houver segmentação. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. pelo menos as letras iniciais do próprio nome. porque esse é um procedimento encontrado em livros. pode-se ter "maca".

se quiser. etc. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações . Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. ou até mesmo a mesma palavra. Por outro lado. <137> Poderá.nos quais os alunos recitam o alfabeto. Entretanto. Nessa atividade. tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. pode-se ler a palavra corretamente. Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. pode-se ter palavras diferentes. o professor pode programar aulas e material. proceder a uma análise geral da palavra. O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm.). pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem. mas se a leitura for feita da direita para a esquerda. o famoso bá-bé-bi-bó-bu. como AMOR e ROMA. deixando de lado o método das cartilhas. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta). ASA.

ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria. Como resumo e conclusão das reflexões. de tanto escrever palavras com "pedacinhos". porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita. o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. As cartilhas jamais pensaram nessas coisas. em vez de uma série de regras . Levando em consideração esse estudo em anexo. como a variação dialetal e a ortografia.entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. Desse modo. Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo. sentem-se embaraçados e confusos.

para letras diferentes. A própria natureza das letras. Uma incursão por esse território será feita a seguir. Somente quem conhece o . e vice-versa. mesmo quando estão pensando na leitura. Em primeiro lugar. ele tem de decidir como escrever. não uma ordem pedagógica. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil". observando esse fato na fala. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler. Para um aluno principiante. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. na decifração ou na escrita.parecidas. é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita). Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. mas pode ser muito complicado quando. pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas. As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. Essa é uma ordem de análise científica.

OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. Sempre que se . para si. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. I. subentende-se leitura. E.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. O. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. tudo é igualmente muito difícil. U) das demais que representam consoantes. Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). é mais fácil ou não. Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. Quando se fala em decifração. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. Para o principiante. Entretanto. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. No início. sabendo das dificuldades futuras. nessas circunstâncias.

BANHA. semelhantemente à letra E). Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas. "féri". Em sílabas átonas. A letra A. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u". pode gerar a formação de ditongos. ser lida com o som de "i". BANANA. Veja os exemplos: FERE. Exemplos: JUNTO. e somente em palavras derivadas. BANHA. a letra E pode. EMPRESTADO. Em sílabas átonas. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. ainda. DELA. como em ACHARAM. A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. As vogais mais difíceis são o E e o O. BELEZA. Exemplos: DELE. tratemos da vogal oral A. BELO. Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste). TINTA. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). como em: CAMADA. é comum a letra . ou o NH. Em seguida. juntamente com o M. quando nasalizada. "imprêstadu". como CAFEZINHO.

NH). Assim. SONHA. e a consoante nasal pode ser uma velar. CANA. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. em final de palavra. COZINHA. . as vogais E e I. ENTRE. LENHA. como nos seguintes exemplos: VEM. toda vogal com til representa um som nasalizado. ACHARAM. podem ditongar-se com "u". ALGUM. quando seguidas de M. como em: LÃ. ONDA. CIDADÃOS. VIM. por sua vez. as vogais O. LEME. Confira os seguintes exemplos: FOCA. podem ditongar-se com "i". e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala. Finalmente. Porém. VINDA. EMBORA. U e A. BANHA. etc. N. quando seguidas de M. TUMBA. LIMPO. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. JUNTO. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. ZONA. PENA. PÕEM. Em final de palavra. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O. CANTO. FOGO. VINHO. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO. ocorre diante de outra vogal. UMA. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. CINEMA. UNA. COMIDA. OMBRO. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. VIME. COMA. BOM. UNHA. Por outro lado. LEÕES.O ter o som de "u". a qual. MÃE.

A . estão as letras L e Z em início de sílaba. JOVEM. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). TATU. a letra L tem o som de "u". TRABALHO. de "çê". BOLA. D. Exemplos: POTE. Exemplos: MAÇÃ. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". Terceiro grupo: L e Z. ADVOGADO. etc. Em final de sílaba. são pronunciadas com um "i" optativo. Com relação ao primeiro grupo. mais Ç e J. HERÓI. As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. podem-se ter três grupos. a letra L tem sempre o som de "lê". AJUDAR. "lhê" e "nhê"). Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. Exemplos: CHINA. e a letra J tem sempre o som de jê". Exemplos: HORA. modifica o som da letra que a precede. LIVRO. NH. VENHA. Em final de sílaba.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. Como parte de um dígrafo. VACA. BROTAR. POÇO. OBJETO. T. FRANGO. e a letra Z. RITMO. Nesse contexto. e a letra Z tem sempre o som de "zê". FACA. a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). Segundo grupo: P B. LH. HINO. HÁBITO. A letra Ç tem sempre o som de "çê". DADO. F e V. No terceiro grupo. PALHA.

NASÇA. tem o som de "kê" (diante de A. PASSO Entre duas vogais. segundo grupo: S. SÇ ou XC. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R. TÉCNICA. Com relação ao primeiro grupo. tem o som de "zê". CIDADE. O. S.<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. SELVA. CABANA. SÇ e na forma de plural de certas palavras. U ou de outra consoante). XC. Exemplo: MESA. Exemplos: CEBOLA. CLARO. CRISE. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos. na mesma sílaba. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. PSICOLOGIA. Z e M. EXCEÇÃO. como em SAPO. como no caso dos dígrafos SC. I ou de outra consoante. NASCIMENTO. ou seja. a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. em . Nos demais casos. Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. Quanto ao segundo grupo. entre uma consoante e uma vogal. depois de consoante e no dígrafo SS. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura). A letra S não representa som nos dígrafos SC. COR.

ANIQUILAR. no meio da palavra. uma vez que o U é pronunciado. AQUELE. em algumas palavras. Em alguns dialetos. Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. mas. a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. FREQÜENTE. GULOSO. em outros. SAGÜI. diante de outras letras. tem o som de "chê". IGNORAR. GARRAFA. Nesse caso. "as casas amarelas foram vendidas"). GLÓRIA. COSTA. GUIMARÃES. GRAÇA. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. MESMO.certos contextos. AQUI. Não há regras. Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. tem outro tipo de som ("guê"). TOMÁS. LÍQÜIDO. <142> dígrafos: GUERRA. DESDE. Confira os exemplos: BESTA. não-dígrafos: AGÜENTAR. O e U. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. tem o som de "çê". No entanto. GOTA. ou seja: "zê" e "jê". a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. a letra S. Com relação ao terceiro grupo. QUENTE. se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. SATANÁS. O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . Exemplos: GENTE. GIRAFA. em alguns dialetos (cf. em final de sílaba.

diferentes dialetos). costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. ainda. Z e M. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra. RIO. PORTA. além disso. Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. a variação é menos problemática (final de sílaba. FERIR. CRAVO. Exemplos: CARO. sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora). RUA. O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. CERTO. É preciso levar em conta. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). RATO. Nos outros contextos. Em todos os casos. PLANTAR. pelo contrário. não é isso o que acontece. por exemplo). soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos. BRASIL. MAR. ora desvozeada (surda). MURRO. quando falamos. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. CARRO. Em português. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. S. MURO. mas. Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. . separamos as palavras com um espaço em branco. Quando escrevemos. POBRE.

o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. tem-se uma sílaba átona . No exemplo 2. um deles cai. No exemplo 3. houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo. Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos. seguida de uma sílaba átona inicial. nos exemplos 3 e 4. quando se juntam dois "as". têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial. ocorre uma sílaba tônica final.Vamos ver uma série de exemplos. No exemplo 1. Porém.

além disso. seguida de uma sílaba tônica inicial. porém. No exemplo 4. como mostram esses exemplos. Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. O que acontece. Porém. Do ponto de vista da decifração e da escrita. como refletir sobre as relações entre fala e escrita. no contexto de juntura. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. O exemplo 2 é de difícil análise. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. como no exemplo 3. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam. nos demais casos. Essa regra inclui todos os exemplos estudados. mais uma vez. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. nos exemplos 3 e 4. não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. A dificuldade mais . formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). com a formação dos ditongos. Nota-se que. Considerando apenas o exemplo 1. ocorrem duas sílabas tônicas. a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade.final. e se for. átona. uma vez que as sílabas se fundem. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica.

é saber se devem ou não escrever o artigo "a". apenas enumera fatos. o falante quer marcar uma oposição. subseqüente). há uma consoante e. Confere. em final de palavra. Por exemplo. ainda. no segundo caso. Porém. no início da palavra seguinte. mas muda levemente o significado da frase. assim. a consoante final junta-se à vogal inicial. formando uma sílaba única e dificultando. Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. mas não na escrita.comum que os alunos enfrentam. Por exemplo. o trabalho de segmentação da fala. No primeiro caso. uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. Nesses casos. a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando. é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". em que caem dois "as" na fala. Em alguns casos. . mais raramente. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia". "toda a amizade". uma vogal. Com relação à decifração. em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. como já se viu antes). a presença do artigo não é obrigatória. encarando o problema por outro ângulo.

o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê").quando se encontra em juntura intervocabular. Porém. TRÊS AMIGOS. Concluindo. Nesse caso. . quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. RAPAZ INFELIZ. O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. troca-se o som de RR por R. se o M for precedido por outra vogal. As letras S ou Z. DEZ AMIGAS. CARÁTER AGRESSIVO. pronunciando a palavra isoladamente. encontra um tipo de som. Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. depara-se com outro. em juntura. independentemente do dialeto. mas. têm sempre o som de "zê". Veja os exemplos: CASAS AMARELAS. depois que a segmenta. ocorre uma consoante nasal velar. nesses casos. no início. etc. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. POR ALI. Quando o aluno analisa sua fala contínua. descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". de outro. a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. Em final de palavra. VIR AQUI. etc. se a nasal for precedida por I ou E. quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte.

Veja os exemplos: VEM AQUI. essa regra. VIM AQUI. o Z é opcional. contudo. em vez da consoante nasal indicada para a fala. RUM AMARGO. A falta de explicação. diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. "ir-mã-i-fe-liç". "põi-a-ki". VIERAM AQUI. IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). Uma simples explicação. permanecendo apenas sílabas diferentes. os exemplos acima. "bõu-a-mi-gu". em juntura intervocabular. BOM AMIGO. etc. PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez. Isso significa que. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. "vi-é-rãua-ki". etc. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). de acordo com a forma de cada palavra. Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. no entanto. HOMEM AMARELO. é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita. mesmo não havendo a letra M na escrita. poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. Mesmo que o aluno . pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. etc. Como se disse. Assim. A mesma regra aplica-se quando. não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações.

como nos seguintes exemplos: VEXAME. pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê". LATEX. o aluno procurará uma e acabará confuso. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR). a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". dependendo do dialeto: EXTRA. EXPLICAR. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. tem o som de "kç" ou "kch". deverá lançar mão de outro expediente. Como temos dito várias vezes. quando o leitor se encontra diante de casos assim. Em final de palavra. Para chegar à conclusão final. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". "eichçeçãu"). O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ. o que torna sua leitura fácil. Aqui. que ele aprenderá mais tarde. saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. nesse contexto. PIREX.não as aprenda. Quando ocorre em final de sílaba. FIXO. o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil. no meio da palavra. Sem nenhuma explicação. etc. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". dependendo do dialeto: TÓRAX. etc. julgando-se incapaz de aprender. etc. que consiste . Porém. A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. EXAME. PROXIMO.

ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç". o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali. Por exemplo.<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. uma leitura possível seria "ficha". Deverá procurar então uma outra alternativa. as diferenças entre escrita e fala aumentam. Portanto. sobretudo quando ele está lendo sozinho. na realidade individual de cada aluno. Porém. alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno". podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. Se produz. Finalmente. ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. Porém. . confrontando com o contexto. dependendo da variedade lingüística em uso. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. Nesse caso. deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula. Se não produz. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto.

OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. na fala. Alguns casos são de fácil decifração. A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B. ser diferente da forma escrita. por causa da variedade lingüística do aluno. T/D. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. <147> De modo geral. F/V É curioso. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. em geral. F em vez de V e T em vez de D. ou de a forma lexical de uma palavra. Essa afirmação . Para o professor e para o aluno. pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). em princípio. ou seja. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. quando os alunos escrevem P em vez de B.

produzir uma fala sem sons sonoros. Nesses casos. a única solução é o aluno decorar a ortografia. sempre que achar que precisa escrever F. em outras situações. Assim. assim como as fricativas. assim. A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia. Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. os imigrantes poloneses). se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra. . Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. assim como as laterais.não faz sentido.). sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras". se o aluno for escrever "livro". logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. Nesse caso. Será mais dificil quando não houver um par mínimo. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. as vibrantes podem ser sonoras ou surdas. Então.. Em seguida. como a troca de V por F não muda o significado.. Por exemplo. começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra. porque analisando tudo o que as crianças fazem. deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V.

O ou U: JACA. ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. etc. porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. CLARO. TENHO. Em outras palavras.Passando a outros casos. JOVEM. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. JUNIOR. o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. BANHO. HAJA. Pode. em início de sílaba: MAPA. CANA. etc. na fala do aluno. Por isso. como em: PLANTA. CAMA. esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. LIVRO. "nê" e "nhê". que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. Porém. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. etc. Quando faz parte de grupos consonantais. então. LADO. pode ser fácil se. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos. CORUJA. GLÓRIA. Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. CORRIJO. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. . O mesmo vale para os sons "mê". ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. NATA.

Nenhuma palavra começa com Ç. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. TH. RIO. há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. GUIMARÃES. HR. O ou U (não seguido de outra vogal): CADA.VIAJA. nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . NHOQUE. FREQÜENTE. Por outro lado. etc. etc. no início de palavra. etc. Do mesmo modo. etc. o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. GULA. O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE. etc. Por exemplo. QUINTO. como em: QUATRO. INÍQUO. GARRAFA. NHEENGATU. Há outros modos de ver o problema. como por exemplo. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. numa mesma sílaba. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A. etc. não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i". COLAR. etc.). só se escreve um R. nunca dois: RATO. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. pode-se ensinar aos alunos que. etc. etc.

a ortografia obriga o uso da letra N. Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA. Exemplos: FIZERAM. INFELIZ. passam a . e os finais oxítonos. INTEIREZA (de inteiro). etc. "é". ENLATADO. BANCO. INGLESA (de inglês). ONÇA. Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR).s são escritas com -ESA. entre a vogal e a consoante. quando identificados na fala. Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM.ÃO. IAM. BOMBA. As que terminam em . porém: MARQUESA (de marquês). Exemplos: CAMPO. no meio de palavra. Com relação às vogais. ENVIAR. CANTO. a ortografia obriga o uso da letra M. entre a vogal nasalizada e a consoante. etc. os quais. FARÃO. ACHARÃO. é mais fácil escrever os sons "é".terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR). "ó". "ô". ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante. ESTAVAM. se essa consoante for P ou B (M é muito raro). porém: ESTÃO. Exemplos: BELEZA (de belo). Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B). UTILIZAR (de útil). É relativamente fácil mostrar aos alunos que. SÃO. etc. como: FERTILIZAR (de fértil). com .

é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. "palavras primitivas . ALEMÃO. por acaso. Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til). ISCA. ÓRGÃO. ISTMO. etc. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL.. ele será escrito sempre com til: LÃ. ÍMÃ. Como exceção temos ISQUEIRO. Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. ISLANDÊS. são menos interessantes na alfabetização. por essa razão. Em geral. quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante". Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites. ISLAMITA. O professor não deve se preocupar se. também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. etc. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". porém nas sílabas átonas é muito difícil. houver exceções às suas regras. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. ESPADA.. Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. TALISMÃ. ESQUADRA. IRMÃ. em alguns dialetos). usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO. ao encontrarem o som de "à" em final de palavra.corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). etc. Nesse campo. "adjetivo". Por exemplo.

Entretanto. "paroxítonas e oxítonas". às vezes. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos.<150> e derivadas". da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos. o conhecimento do funcionamento da escrita. Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como. Às vezes. o sistema alfabético nos leva a crer). . "sílabas tônicas e átonas". cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. Dentro desse quadro de preocupações. deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. etc.

porém: "çaudadi" — SAUDADE. como em ALTO e AUTO. como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado. . justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. é escrito com U. quando se consideram os fatos a partir da fala. Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. DESDE. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. "méu" — MEL. em certos dialetos. alguns casos. e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. e não da escrita. às vezes. EXTRA. As vezes. Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba. Z ou X (X somente no meio da palavra). a seguir. como em CASAS. O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. "çóu" — SOL. "mêu" — MEU. Em alguns casos. RAPAZ. representando o som de "u". como parte final de alguns ditongos. etc.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. será representado por S. Vejam-se. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L. esse "u" é escrito com L e. mas esses casos são raros e ajudam pouco. etc. "çôu" — SOU.

Nos demais casos. só se emprega a letra Z. Notar que algumas diferenças de fala. que pode ser escrito com Z. O ou U. quando pode ser representado por C ou por QU. C (somente diante de I e E). mas esse . Por exemplo. A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras. Z (somente em final de sílaba) e X. Nesses casos. Só se usa RR. na verdade. em alguns dialetos. Porém. Ç. nunca C. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. há pessoas que falam "tchia". em início de palavras. Nos demais casos. por oposição a R.Mais um caso dificil é o som de "çê". que pode ser escrito com S. S ou X. não trazem dificuldades para a escrita. Diante dos SONS "j" ou "e". quando o som estiver entre duas vogais. O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. "djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande. só se escreve QU. Um caso mais simples é o do som "zê". será usado apenas o J. o aluno escreverá sempre um R só.

<152> Com relação às vogais.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I. cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba. Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita. Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". etc. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. U ou E. Q Aqui. Porém. como COLOCAR. mesmo sem eliminar sua pronúncia original. Como se disse anteriormente. SOCAR. Apesar do que foi dito acima. a escrita será provavelmente com X. não há regras para facilitar o aprendizado. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. FICAR. nos demais casos. o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . Portanto. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. Por exemplo. o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. a única saída é recorrer à ortografia.

HORRIVEL. e se souber como se escreve esse sufixo. -OSA. etc. Outros exemplos. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. FERRÕES. são escritas com ESC. etc. PÕEM. ALEGREMENTE. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. ESCORREGADOR. poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita. dependendo do dialeto. ESCOLHER. DANOSO. etc. Já se falou antes. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. TERRÍVEL. . e não de outra forma: ESCADA. FARÃO. BONDOSO. TÃO. por exemplo. ESPADA. "prefixos". SIMÃO. Conferir: PÃO. POTÁVEL. LIMÕES. LEÕES. Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". vendo as seguintes palavras. etc. constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). ou melhor ainda. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. SIMÕES. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). MELÃO. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. ESPÍRITO. como HORROROSO. FORMOSO. TRISTEMENTE. INCRÍVEL. PREGUIÇOSAMENTE. ou PÕE. que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk".palavra". Por exemplo.

Porém. Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. até mesmo a extensão dessas considerações. eles não pronunciam essas consoantes nasais. em seus dialetos. CORRENDO. etc. FUGINO. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular. aprenderá a escrever também ANDANDO. Portanto. FAZENDO. Isso acelera o domínio da ortografia. FUGINDO.Alguns alunos falam o gerúndio. Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. CORRENO. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. usando a terminação -NO e não -NDO. Escrever M. Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. FALANDO. sobretudo . porque. FAZENO. o aluno. em vez de escrever: ANDANO. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO. FALANO. escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. N e NH em início de sílaba é fácil. se possível. ao aprender o sufixo do gerúndio. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. apenas nasalizam a vogal precedente.

Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. seguindo o exemplo da palavra MUITO. escolhendo exemplos apropriados. Com relação ao problema da nasalidade. propostos pelo professor e pelos alunos.numa fala mais rápida. em primeiro lugar. anotando em colunas. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade. menos formal. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado. para esclarecer. <154> . palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações.

Na verdade. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. quem tiver dúvidas. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis. uma palavra) não ajuda muito nesse momento. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. Nesse caso. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer.Logo no início. inclusive de como a escrita funciona. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. Em último caso. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. ou mesmo TAMA em vez de MATA. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. não adianta ficar . E o caso de quem escreve ON em vez de NO. Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. A regra de identificação semântica (uma idéia. As inversões de letras representam os casos mais comuns. Portanto.

pode ir tentando escrever. as relações entre letras e sons são muito complexas. para ler. para escrever. além dos relacionados à leitura. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. se misturar as duas coisas. Muitas . pior ainda. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. mas.pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. Isso mostra. Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. como faz tradicionalmente o método das cartilhas. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler. são necessários conhecimentos complementares. Resumindo. acabará com sérios problemas de leitura e. ainda. alguns complexos. A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. de escrita. são necessários alguns conhecimentos e. do que a escrever. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento.

a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto. para a escola. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria.. é incompleta e. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. Nessa situação. a . enquanto eles fazem tudo errado. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. por essa razão. Um aluno aprende umas poucas palavras-chave. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram. fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI. e acabam sem saída. encontramos alunos que.). Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler.vezes. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. que fazem coisas certas.. não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. senão aprende errado. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda. Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. Então. para o professor. para o governo e para os pais. umas poucas famílias de sílabas geradoras.

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

posso representar uma frase como: "Vou para casa". e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). As figuras transformam-se em escrita. O professor pode explorar esse tipo de atividade. E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. portanto. etc. pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. não constituindo. Cada figura ou foto está representando coisas do mundo. Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam. "Ele vai para casa". ou de alguém andando.Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. Nesse momento. frases. isto é. linguagem escrita. juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. escrevendo palavras. Porém. Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa". nessa seqüência. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). Podem testar a leitura. mais o desenho da casa. . fazer o desenho de um caminho. pequenas mensagens e até pequenas histórias. o processo de decifração e de interpretação da escrita. Escrevendo desse modo. as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. "Irei para casa".

animais. podem tentar escrever usando . recortar figuras de objetos. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos. as bandeiras. Depois. ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. com desenhos) é usada na vida real. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. Para isso. e colocá-las em colunas. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras. além de desenhos que representam figuras de objetos.Recortando material de jornais e revistas. como os logotipos. pessoas. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. Pode exemplificar como. as grifes. Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. os escudos. por exemplo. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. Podem. etc.

Essa imitação do que aconteceu historicamente. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . onde vivem milhões de pessoas. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. pois eles começam a ver que. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. como também já conseguiram ler e escrever. há muito tempo. de certo modo. sem mostrar as figuras a que eles se referem. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade. enfim. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. uma vez estabelecido. todos se comunicariam apenas através dele.o sistema de escrita que inventaram. Além disso. ou seja. essa tarefa será resolvida apenas em parte. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. usando apenas os símbolos inventados. Exceto quem inventou o símbolo. Em seguida. Com isso. motiva-os a progredir. vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura.

Pode-se escrever a palavra . dependendo da forma como o sistema se apresenta. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. e não apenas de letras. como se explica com o exemplo a seguir. como os de um código secreto. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. Isso irá facilitar. nesse momento. e outro constituído de caracteres arbitrários. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras. futuramente.secretos. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. através do uso de rébus. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso. As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje. bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras. Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras.

é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. assim. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. pode-se também escrever essa mesma palavra. Através dessa estratégia de escrita. será preciso reinventar as letras. Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão". a questão é muito mais complexa."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. Vão ser necessárias três etapas: primeiro. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão". o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem . Temos. consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão. um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. Por outro lado.

aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. Esse pode ser um longo caminho. como as fricativas). particular e distintivo no sistema. mas basta percorrê-lo uma vez. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala. segundo. Por exemplo. . prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. duas estratégias de observação. destacamos um som na primeira sílaba. achar as letras correspondentes. Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. a vogal "a". na ordem correspondente e. terceiro. então.às nossas letras. Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas. segmento por segmento. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta"). passo a passo. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). Agora. ou seja. aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala. a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa". com as letras convencionadas. escrever a palavra. Desse modo. há duas maneiras principais. pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som.

Seguindo esse procedimento de análise. Uma delas. é fazer levantamento das rimas. ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas.que é o "ééé". a consoante inicial das sílabas. Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). na segunda. Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . acompanhado dos devidos comentários. de uso muito comum. o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. Por outro lado. Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. e outro diferente na segunda. o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. na segunda sílaba da palavra FES-TA. "aaa". Na primeira abordagem. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral. as rimas são dadas não por sílabas completas. analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente.

Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. <168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. DESMONTAR. IRMÃO. etc. pode começar escrevendo a palavra "camelo". Procedendo assim para cada som da palavra . etc. Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. DISTRIBUIR. associar o desenho à fala. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo). ACHARÃO. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição.CORAÇÃO. DESCARREGAR. Por exemplo. Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. SINO. um desenho não representa mais uma palavra inteira. etc. o som inicial do nome do desenho. DEDÃO. Por exemplo. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. CINEMA. mas apenas um pedaço. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. Além disso. DESCASCAR. DISTINTO. SITIO. através do princípio da acrofonia. de preferência apenas um som. Nesse segundo modo de escrita. CIGARRO. SINAL. DISPUTAR.

Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. Se um aluno preferir usar um cacho de uva. um elefante ("e"). Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. uma lata ("L") e um ovo ("o"). como um dos resultados possíveis. A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. e o aluno. a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. um avião ("a"). o mar ("m"). acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. Como se vê. E é assim que deve ser. Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras. razão pela qual ele optou pelo som de "o". um cabide ("e"). um assunto puxa outro. basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão."camelo". e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar. representando o som "u" no final da palavra "camelo". por ordem. pelo som de "u". está perfeito. O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. Por exemplo.

Assim. isoladamente. podendo ou não resultar outro significado. quando segmentamos os sons da palavra "casa". "cá estou eu". perde-se o significado original. janela. que fazem parte da idéia mais geral. com os sons "kaza". como telhado.representavam. as palavras sempre se compõem de idéias e sons. "aqui". existe um significado. a língua que falam. Portanto. Ao fazer isso. Assim. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. chão. em português. considerando cada pedaço (sílaba) em separado. porta. vendo a foto de uma casa. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando. Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . na escrita. As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. são apenas ruídos. No todo. mas "za" não significa nada (talvez um apelido. etc. podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. gerando novas idéias (significados). Ao fazermos isso. Porém. Por exemplo. A escrita revelou uma idéia. "ka" significa. descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos. descobrimos que essas idéias formam novas palavras. temos "ka-za".. E sons sem significado não formam palavras.. Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. Por outro lado.). paredes.

Para isso.. é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. que pudesse ficar bem visível. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. mas também para terem um . chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. talvez acima da lousa (ou quadro-negro). O alfabeto Aos poucos. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos. Sempre se descobre algo novo. Quando se chega às letras. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. dos grifos para as letras e. Porém. passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. seguindo a ordem alfabética. na prática. Apresentado o alfabeto. seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil.idéia ou não é muito complicado e. não só para que os alunos o aprendam. ensina-se o nome das letras. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z.. assim.

mas isso não acontece na alfabetização ou. a palavra. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. e não apenas sons. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). por exemplo. Portanto.referencial dos sons que as letras têm. sem dizer do que se trata. pode-se decifrar a escrita de uma palavra. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. Então. cujo significado é evidente. Descobre-se que a tentativa não deu certo. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. apresentar uma palavra na forma escrita. sabendo o nome das letras. Para ilustrar o que foi dito. que o aluno deverá reconhecer facilmente. será algo extremamente raro. se acontecer. se o resultado final é uma palavra desconhecida. mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura. e pedir aos alunos para decifrá-la. suponhamos que o professor . ou seja. O professor pode. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. Portanto. pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. O que vale sempre é o resultado final. como falante nativo. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. sem grandes dificuldades.

o professor pode escolher palavras. Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. E sempre preferível dar uma . agora. mas já é um grande avanço. fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas. Não é tudo. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". <171> dizer que palavra está escrita. os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. Está descoberta uma palavra conhecida. O resultado. é "kaza". analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. Com os nomes das letras. Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. a. identificar cada letra com seu respectivo nome. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". esse. a. Com essa técnica. como também ensina-os a ler palavras simples. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas.escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras.

Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil. Se os alunos não entenderem direito (ou nada). a escrita e a . poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. Portanto.boa explicação. incompleta e meio deturpada. a aquisição da linguagem oral e da escrita. a ter de camuflar o problema. Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. disfarçar. Ao iniciar a decifração da escrita. as noções básicas de fonética e fonologia. metafórica. Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. o modo como a fala. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. os alunos terão outras chances de aprender. mesmo que complicada. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões. é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. não faz mal. os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita.

como analisar e interpretar os erros. São os pares mínimos. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião.leitura funcionam e quais os seus usos. como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. o que é decifrar uma escrita e como fazer. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados . numa ordem predeterminada. <172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler. Em geral. quando os alunos já tiverem certas noções básicas. Somente em séries mais adiantadas. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. há um tipo de exercício. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. muito usado pelos lingüistas. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala.

que se opõe a M no início das palavras do par). quando já se sabe o som. etc. Do ponto de vista da fala. destacam. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som. porque representam palavras de significados diferentes. "mar/mas". relacionados entre si ou não.diferentes. formariam uma espécie de "par mínimo". observando a fala. Feito isso.se as letras diferentes que representam um mesmo som. O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico. por exemplo. mas do ponto de vista da escrita. basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. ou de que letra terá de ser usada para escrever. "casa/caça". já se tem uma dica de que som ela representa. com o par mínimo escrito. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de . Com o par mínimo falado. Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. que significa uma fruta e uma parte de roupa). "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga". explicando que no próprio nome da letra.

"coração". e têm. em "ão": "avião". o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes. etc.rimas: palavras terminadas em sons semelhantes. como. <173> por exemplo. para que os alunos percebam que. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). fazendo colunas. Como usamos muitos alfabetos. "ão"). o mesmo valor alfabético. de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. "irmão". e que as letras. é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. portanto. usando apenas as letras de fôrma maiúsculas. nas colunas verticais. há uma letra. Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. "habitação". para cada lugar de escrita na palavra. Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. Primeiras leituras de textos . em colunas. ditadas pelos alunos. O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas.

para si. O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque. Assim. Uma leitura mais rigorosa. dizer o que foi que leu.. Portanto. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante.). há alguns pontos importantes a serem considerados. no início. Em primeiro lugar. mais fiel ao texto. então. < MASSINI-CAGLIARI. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases. Feito isso.Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. para isso. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto.. o professor estimulará seus alunos a lerem em particular. é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler. poderá. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. Aqui. 1998a. Aqui. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos. será cobrada mais adiante. <174> Com o tempo. Porém. o professor os levará a ler pequenos textos. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. deixando sempre os alunos lerem .

uma vez que os textos são. mostrando como ela deve ser feita. etc. Interpretar textos com perguntas e . será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência.). Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. em geral. Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. histórias de fácil compreensão. sem a correta entoação. pois é claro que estão entendendo. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância. o que vale é a discussão das idéias pessoais. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas. sem ritmo. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura. silabando. servindo-se da leitura de textos.individualmente. Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. Se algum aluno quiser ler para os colegas. Nesse tipo de atividade. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. incluindo as expressas pelo autor do texto. Portanto. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries. e mesmo ridículo.

etc. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas. da vida de pessoas famosas. É preciso ler histórias (muitas). devem ler propagandas ou outro material semelhante. enfim. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. E ler nunca é demais. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado.respostas é uma idiotice. Usos especiais em propagandas também são interessantes. É preciso ler jornal. reportagens que falem de assuntos científicos. técnicos. ler de tudo. O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. curiosos. <175> revistas. receitas culinárias. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. quer com relação à forma gráfica. porque um processo necessariamente . quer com relação aos variados tipos de textos. notícias. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura. Por exemplo. instruções de uso de equipamento. de montagem ou de conserto.

do ponto de vista gráfico e funcional. ou seja. os alunos podem colecionar letras. em decifrar o sistema de escrita que temos. Tal qual foi feito em seções anteriores. Por essa razão. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais.implica outro. Depois. Em outras palavras. as noções básicas de um sistema de escrita. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler. dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura. isto . As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra.

é. Por exemplo. logomarcas. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. etc. que é recortado. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis. pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas. sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira. como histórias e cartas. inventando sistemas de escrita. grifes. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. símbolos. podendo chegar a escrever textos relativamente longos. sinais de trânsito. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. Brincar de escrever. Esse material já impresso. Podem. Até para o professor. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. colecionar pictogramas. Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. ainda. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares. E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. logotipos.

mas deve. lembrando o dilúvio.. É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras. escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante. cartas enigmáticas. No primeiro caso. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. frágil. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita..). sem que eles percebam. escreve-se a partir . pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar. sempre que possível. Assim.. O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos. A exploração desse material. pictogramas que representam palavras (banheiro masculino. para a criança. andar um passo atrás e não à frente dos alunos. algo familiar e banal..). natação.da paz com o ramo de oliveira.. Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer... o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico. etc. Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares.). aliada ao processo de leitura.. sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar).

Existem estratégias diferentes para ler e para escrever. que depois deverá compor os sons da palavra. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. a cada letra será associado um som. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. através de rébus. é necessário associar a cada letra um som. com exceção da letra h. procurando encontrar depois os sons que esses significados têm.do significado. A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. estamos diante de uma escrita ideográfica. o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade. usando-se o sistema fonográfico. <177> No segundo caso. Para ler. sílabas. É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. o fonográfico. Tratando-se da escrita alfabética. que se traduz numa palavra. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. somar os . Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. AVÓ). Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra.

Os recursos visuais aqui são úteis. sua evolução. Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. Contar a história do alfabeto. privilegiando as letras e os números. dos livros.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. até que o significado apareça. tem sons diferentes. Nota Português Inglês Francês. uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. Explorar esse assunto ao máximo. As vezes. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita. a história dos estilos de letras. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . A. por exemplo. da caligrafia. Se não der certo.

dizendo. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever. Com relação à parte gráfica.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional. um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas). ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. pode ser através do uso de gabaritos. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra. um gabarito de três linhas é o suficiente. que nas de fôrma maiúsculas.). como fazem os letristas. por exemplo. em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos. Para as letras de fôrma maiúsculas. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm. o traçado é feito sempre de cima para baixo e .

Por outro lado. em geral. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente. na parte mais alta. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. segurando o lápis displicentemente. e vão para a direita. o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. O professor deve avaliar. são traçadas da direita para a esquerda. usando o bom senso. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. a escola . As crianças podem inventar alguns traços. As letras. Letras que apresentam apenas curvas. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. quando houver mais de um traço. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. <179> Explicações como essa são de grande ajuda. sobretudo as de fôrma maiúsculas. descendo. Todavia.da esquerda para a direita. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. sem hastes. etc. ou da direita para a esquerda. quando houver só curvas. e de cima para baixo. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou.

ora para baixo ou para os lados. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada. há várias formas de dispor as letras em curvas. a do círculo externo. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas . Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. Nesse caso. isto é. a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo. exemplificando com moedas e medalhas. Isso também tem de ser discutido com os alunos. que o leitor verá sempre numa única posição. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. podemos escrever na vertical. Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo.tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. Nesse caso. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. estando ora com uma parte voltada para cima. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo.

em contrapartida. há uma notável distinção gráfica entre D. o bem q. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. q e p é apenas a sua localização espacial. o que se consegue. para se saber o valor das letras. o q em b e o p em d. o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. Além disso.elas bem distintas graficamente. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. Para ensinar isso. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. passar exercícios de "prontidão". B. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. deve dizer que. com a escrita cursiva. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. b. e. Pelo contrário. dependendo do modo como se observam as letras. Por exemplo. Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). menos ainda. eles podem se confundir. analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a .

Faz muito bem a eles. Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar. é algo que os alunos apreciam. Porém. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar. Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. como a letra A. Copiar para aprender Fazer cópias. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. pensam naquilo que as letras representam. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. . Enquanto os alunos copiam.direita (ou vice-versa). se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não). caso das cartilhas. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. essa atividade pode não só não ajudar o aluno. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos.

e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. Seguindo essa direção. O . supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. Porém. o S e o C de forma espelhada. compõem todas as demais no mesmo padrão. por exemplo. Quando o professor diz isso. pelo retrovisor. eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. Carros de bombeiros. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada. nesse momento. mais preocupados em como se traçam as letras. muitos alunos estão.Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. Lembrando das orientações do professor. o que está escrito nesses carros oficiais. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual.

ilustrada com exemplos do passado. visando sempre à redação de um texto. como funciona e quais os seus usos. Então. Mas hoje é diferente.professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. que a escola costuma chamar de troca de letras. escrever "onrras" (honras). porque a ortografia naquela época permitia. . "çinquo" (cinco). Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. "deru" (deram). está na hora de explicar o que é ortografia. Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas. inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. Como exemplo. Quando isso começar a acontecer. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. seja ele curto ou longo. Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente.

mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. por exemplo. ao explicar a ortografia. "milhor" (melhor. de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. serão levados a reconsiderar o que fizeram. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. "vaquas" (vacas). "flecha" e "frecha". Com essas explicações. em função das normas ortográficas. "louro" e "loiro". etc. "dici" (disse). "caminhão" e "camião". Somente depois. "assobiar" e "assoviar". Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. "aluguel" e "aluguer". chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia."homes" (homens). os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. portanto. À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. "filia" (filhas). etc. já mais familiarizados com o ato de escrever. é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. Ficarão mais consolados ainda quando. admitem mais de uma maneira de grafá-las como. não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e. em alguns casos. Como atividade de escrita. . procurarão escrever cada vez mais corretamente. "doçe" (doce).

como qualquer arte. A escola. podem-se fazer gestos. quando se escreve. é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. perguntando o que não entendeu. todavia. por essa razão. não espera que todos os alunos . como se diz. Fazer isso requer prática. o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. já nasça com a arte <183> no sangue. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. embora o gênio. etc. o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente. Escrever. tem-se o interlocutor diante de si e. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. porque isso faz parte da nossa cultura. Quando se fala. Portanto. desde a alfabetização. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente. pedindo explicações. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e.

melhorar e. do jeito que . que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante. A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. não basta dar um peixe a quem tem fome. No começo. corrigir. sem precisar do professor. como se autocorrigir. passar a limpo. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional.sejam grandes escritores. Como diz um velho ditado chinês. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. é preciso ensinar a pescar. sem dúvida. vale o que o aluno faz. depois. Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem. Nos primeiros textos. Não basta dizer ao aluno que ele errou. leva anos para atingir um nível satisfatório. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos.

Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. acima de tudo. uma prática pedagógica muito importante. que irão formar livrinhos. A partir daí. ininteligível com relação às idéias e à grafia. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. sujo. nem é preciso. Com o tempo. um bilhete ou um trabalho mal escrito. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. e outros. o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. os quais deverão atender às exigências da escola. não só no aspecto visual-gráfico. mal planejado. produzindo textos espontâneos. a estruturação do conteúdo do discurso. pedagogicamente. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. como também levando em conta a ortografia e. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão. a que a escola precisa dedicar-se.ele fez. portanto. <184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. que serão lidos por outras pessoas. e serão feitos em pelo menos duas versões. mal organizado. .

os acentos e os sinais de pontuação. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos. como o ponto final. um layout. desde a alfabetização. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes.Diacríticos. Esses temas serão tratados a seguir. Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. A arte de escrever prevê uma programação gráfica. por causa do método das cartilhas. ao mesmo tempo. enfeitadas. além da caligrafia bonita. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. No início. uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos. Tradicionalmente. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . a vírgula. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e. o ponto de interrogação. juntamente com o alfabeto. marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. ou seja.

De acordo com sua natureza. Em geral.). O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos. Por essa razão. <185> deformando características gráficas das letras (isoladas). O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra .. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento.(manuscrita. Porém. script.. Quando os alunos estiverem na terceira série. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem. os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica. ou forem mais adiantados. ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. Além das formas pessoais de amalgamar letras.

Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. Caligrafia é uma arte típica da escola. quando necessário. no entanto. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . Caligrafia é simplesmente escrever bonito. elegante. abandonaram o ensino da caligrafia. sofisticada. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. não tem tido a menor chance nas salas de aula. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca. complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. por razões estranhas. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). No Brasil. que muitos professores. pode ser ensinado em séries mais adiantadas. essa manifestação de arte. charmosa. Parece. à semelhança de outras. sem saber escrever de uma maneira elegante. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. É uma pena. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas.

Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. força-se o traçado com a caneta. títulos. é uma forma de ensinar não só a escrever. cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. etc. etc. desse modo. suaviza-se. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. classificá-las do ponto de vista das . Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. quando se escreve a linha ascendente. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra. o professor pode mostrar catálogos de letras.espessura dos traços. e a escola não pode deixá-las de lado. e. Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. enquanto se preocupam com os enfeites. cartazes. essas formas escritas são muito comuns. vento. letras sugerindo fogo. No mundo em que vivemos. tristeza. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. As crianças divertem-se com essa atividade e. Na alfabetização. quando se escreve a linha descendente. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. alegria. como também a escrever segundo uma cultura. Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito.

além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas. pode introduzir algumas idéias gerais. Essas idéias básicas constituem os parágrafos. Um texto fala de um assunto. como nas enumerações. seguindo algumas idéias básicas. Quando alguém disser alguma coisa.características gráficas e organizar álbuns. é fácil mostrar o emprego da vírgula. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. porém. usa-se o espaço de parágrafo. A vírgula traz algumas dificuldades. em certos casos. coloca-se ponto final. a marca do travessão e escreve-se a fala. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). no mundo em que vivemos. O professor. as letras . o professor precisará explicar como se cuida do layout. mas. em seguida. também merece a atenção de professores e alunos. quando souberem. como dividir um texto em parágrafos. com as contribuições dos alunos. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. Quando estes estiverem escrevendo textos. por exemplo. A classe pode fazer um álbum coletivo.

dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. as palavras são cortadas no final de linhas. quando os alunos estiverem escrevendo histórias. por razões estéticas. Embora as explicações não sejam rigorosas. mesmo na escrita à mão. e se acharem que não vai caber.minúsculas do alfabeto adotado. mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. Porém.. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras.. mas não é preciso fazer margem . (Existem regras para isso. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia. Nos livros. vão ter de tomar alguns cuidados especiais. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda. da clareza e da beleza gráfica das letras. os alunos escrevem palavras isoladas. Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida. quando as pessoas escrevem à mão. quando isso é necessário. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas. não é costume cortar palavras. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha.) Porém. simplesmente a escrevem na outra linha. No começo.

Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. Nessa hora. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . O professor pode deixá-las fazer isso. também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. Porém. no segundo semestre. esses aspectos precisam ser esclarecidos. deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens). as crianças gostam de copiar. o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. provavelmente.direita. No entanto. O acabamento correto do texto. quanto à sua apresentação gráfica. No primeiro semestre de aulas.

nomes. e não o contrário. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . provérbios. expressões. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício. frases. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. outros. quer colando recortes. Como sempre. Isso desarticula o texto. O professor ficará atento a todos os detalhes. etc. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. Quando o aluno faz o texto primeiro. fazer pequenas cópias de versos. cada uma relativa a algo que vê nas figuras. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos. A cópia ajuda. Nesse momento. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. então. quer desenhando o que quiserem.virando: alguns alunos copiarão direitinho. a aliviar um pouco a tensão. pequenos textos. não. Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito.

dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. Algumas até se arriscam a fazer poesias. Portanto. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. dia não. se for o caso. os alunos vão escrever o que quiserem.texto mais bem planejado. É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. o professor pode deixar os alunos redigirem. Ao iniciar esse tipo de atividade. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. ou. porque. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro. Os alunos farão o texto e o ilustrarão. O professor não corrige . por exemplo. do jeito que quiserem. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas. dia sim. por sugestão do professor. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor. assim. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas.

até textos longos e pequenos livros. trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização. escrevendo. . Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito. realizadas por diferentes alunos. mas cada um a sua tarefa. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. desde textos curtos e simples. e não que os alunos façam segundo um modelo. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras.nada que for entregue pelos alunos. ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. todos escrevendo. No próximo capítulo. Aprende-se a escrever. mais e melhor aprenderão. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem. em grupos ou individualmente. O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização. e quanto mais os alunos escreverem.

porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala. a tarefa é praticamente impossível. Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. discutir.<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos. Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito. quando eles forem ler. se a pessoa não conhece a língua. é um grande alívio. Quando as pessoas adquirem a linguagem. Isso. decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. aprendem não só a falar. podese conversar com eles. Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. como também a entender o que as outras pessoas dizem. Como todos os alunos são falantes de português. ouvi-los e. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística . na verdade.

O problema escolar coloca-se quando se pretende . os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. apresenta variedades. quando ouve. depois de certo tempo e costume. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa. o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto). Na verdade. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. Para entender o que ouve. Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. de todos os dialetos. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. Mais ainda. como ouvinte. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira. conversam entre si e. firmando-se assim os dialetos. como a língua portuguesa. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem.estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. comunicam-se. é falada em muitos lugares. <191> Como se vê. relativos aos dialetos. todo falante é falante de um dialeto. Em resumo. como um todo. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. Porém.

O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos. Na verdade. Falar uma outra língua ou um outro dialeto. por parte do professor. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira. porque. o falante entende. para saber o que a escola espera dele. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. Como o objetivo da escrita é a leitura. para explicar adequadamente o que deve ser feito e. passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões. é uma tarefa árdua. No começo. que não é falante de um determinado dialeto. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. embora não fale.que uma pessoa. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente. uma pessoa pode ler um . que requer tempo e muita prática. por mais semelhante que seja do próprio. no caso do dialeto. quando necessário. por parte do aluno. Nesse caso. dentro de uma mesma língua.

é preciso que haja muito recreio.texto em seu próprio dialeto sem problema algum. a escrever. que automaticamente se entende "dentro" e "milho". "djia". sobretudo. Para escrever. seguindo seu dialeto. muita festa. Entendem que o aluno precisa. aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. "miiu". Na escola. porque. há menos problemas ainda. muito entrosamento . um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. etc. a escrita e a leitura funcionam. outra pessoa pode ler "pótchi". e ler. Assim como alguém vê escrito "pote". "milho". "dentro". "dia". e assim por diante. "pranta". "dia" e pode ler "póti". e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. "drentu". Do mesmo modo. Basta conferir "pote" e "dia". sempre. embora usemos um alfabeto.

explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. Nessas ocasiões de interação social. nos momentos oportunos. quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. na escola. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. CAGLIARI. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. Mas às vezes isso requer muito tempo. 1997a. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. é preciso que o professor.entre alunos e professores. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. Na sala de aula. só o dialeto padrão. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem. As zombarias dos colegas. Certamente. muitas vezes.

as crianças entendem frases na voz passiva. os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. aproximadamente. Nessa ocasião. Como já dissemos antes. Ninguém consegue . ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. Qualquer um. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. Por exemplo. Na fala. O vocabulário. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. por outro lado. em qualquer lugar do mundo. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. principalmente. pelo resto da vida. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. o português do Brasil. porém não costumam usar essa construção quando falam. Nesse <193> espaço de tempo. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida. aprende uma gramática.de conversar sobre a fala dos alunos.

e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim". ficando todas no singular ou no plural. sem seguir regras muito precisas.. Já num outro dialeto. seja que dialeto for. mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes. um mesmo pensamento. etc. Todas as línguas do mundo — ou. mais especificamente. a gramática tem regras diferentes. num dialeto. As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo. os falantes nativos não cometem. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. No segundo caso. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. Se alguém diz que "mesa" é "copo". Por exemplo. por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". dito no dialeto padrão de uma . mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. Em razão disso. não está seguindo as regras da língua portuguesa. esse tipo de "erro". Deve-se dizer. com regras de combinação muito específicas.falar. conforme o caso. algumas palavras precisam concordar. "cavalo" é "árvore". Porém. cada uma específica de um dialeto. A linguagem não é feita só de palavras isoladas. não há falta de regras ou de lógica.

diferente das apresentadas pelos dialetos do português. Falar diferente.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. tem o mesmo valor semântico. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado. O exemplo acima. Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . Para ele. se vertido para o inglês. Isso pode acontecer até com línguas diferentes. sobretudo para uma criança. o que nem sempre é uma idéia muito atraente. são as diferenças que permitem que as línguas existam. seria deixar de ser falante de seu dialeto. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. Aí. para ele. encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". Ser diferente não é um problema lingüístico. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". pelo contrário. Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. Traduzida literalmente para o português.

da manifestação dos preconceitos. levar vantagem. rodeado de preconceitos. GNERRE. ocorre o contrário.representa a expressão do pensamento lógico. um dialeto próprio. seus concorrentes. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. Na prática. ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. 1985. Como. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. por isso mesmo. bem-estruturado. depois de muito tempo. na nossa sociedade. como pode. formam-se as classes sociais. ilógica e sem . basta o usuário se dispor a isso. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. Por essas razões. então. Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. destruindo. Na verdade. passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. conseqüentemente. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. As diferenças lingüísticas passam. desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. Desse modo. A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e.

elegância. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. mas. Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos. Aprender o dialeto padrão é indispensável. <195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro. sobretudo eliminar a idéia de que o professor . explicando o que significam. desde a alfabetização. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam. Todos os dialetos representam bens culturais. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. não para justificar os preconceitos associados a ele. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo.

mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de . sua intenção é dar uma informação completa. as pessoas não pronunciam palavras isoladas. as pessoas dizem palavras isoladas. quanto as pesquisas lingüísticas modernas. num contexto específico.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade. tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. <196> 9. Somente em circunstâncias especiais. Na verdade. e isso acontece através de um texto. Quando alguém se põe a falar. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura. ao longo de anos de observação. Além disso. da escrita e da fala. Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. nem tão complicado. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho.

tendo em vista a necessidade do momento. Na vida real. As pessoas falam o que acham que precisam falar. dizer apenas uma palavra é o que basta. ou dá uma ordem. Houve apenas mudança de falante. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. O tamanho do texto varia. do que em falar certo ou errado. Assim. Em outro contexto. o texto continua na resposta do interlocutor. o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar. posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". dada a situação. se alguém fizer uma pergunta. Nesse momento. Por isso. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. se alguém grita por socorro. Na verdade. sobretudo. esquece-se de que é falante . que motivou a resposta. seus preconceitos e suas manias. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela.ações ocorridas. quando as pessoas usam a linguagem oral. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. Normalmente.

e até mesmo para as letras. da escola e. porque em certas situações o significado depende do contexto. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. às vezes. modificações do texto. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. como as carreadas pela entoação e o ritmo. principalmente. até informações gramaticais importantes. ora apenas para os sons da linguagem. O professor desmonta e monta textos. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa.nativo e de que é senhor da sua língua. Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . como os elementos prosódicos se modificam. do professor. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado. A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. No entanto. palavra por palavra. Mesmo quando se procura explicar um texto. os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. de certo modo. frases. Todo corte implica.

e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. Com o uso dos sistemas de escrita. na sua essência. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. tudo vem normalmente. Depois que alguém passa a . Caso contrário. Quando as pessoas pensam e falam. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. é o significado e. No entanto. em segundo lugar.segmentação da fala. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade. a maneira como esse significado é dito. A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. isso se torna ainda mais corriqueiro. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz. guiam-se quase exclusivamente pelo significado. o que vale. Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. em primeiro lugar.

analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever. ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados. é preciso traçar as letras. Quando se interrompe a fala ou a escrita. guiando-se apenas pelo significado. Essas atividades são feitas automaticamente. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia. a todo instante. Mas esses são casos especiais e raros. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica. para escrever. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. as crianças lidam com a linguagem como . é preciso articular os sons de maneira precisa e. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. Para falar. Quando entram na escola. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento.escrever com velocidade e fluência.

será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. Sempre que possível. sobretudo no início. criar situações em sala de aula em que predominem o texto. do bá-bé-bi-bó-bu. mas também para analisar a linguagem oral. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". Isso tudo mostra que. a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. pertencem à família dos "bês". Por outro lado. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . Obviamente. o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. sílabas ou outros segmentos. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. Por essa razão.qualquer falante nativo. ou seja. os quais. para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. principalmente no começo. Para elas. um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. por sua vez. o professor deve tentar. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas.

Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. concluindo que nem toda produção oral é um texto. mas somente aquelas que revelam traços literários. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos . Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. Resumindo. Para os alunos. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam. algumas pessoas se confundem. uma carta é escrita com outro estilo. tudo o que se diz. trata-se de algo fantástico.linguagem. forma um discurso ou texto. os textos têm estilos diferentes. No fundo. mais o contexto em que é dito. TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). Um texto literário precisa ter um toque de arte. É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso. restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito.

. Em outras palavras. científicos ou mesmo de uso escolar mais comum. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. a fala é diferente da escrita. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). Para tanto. ao contrário. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos. por isso. discutir o assunto com os alunos. e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos. esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança. especialmente os da linguagem escrita. Pior ainda. dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. Como se disse. no seu sentido mais amplo. e nisso não há nada de novo nem de ruim. eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e.textos orais e nossos textos escritos. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza. Precisa.

O excesso de metáforas pode levar o ensino ao . acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). Porém. Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado. como os exercícios de monta/desmonta a linguagem.O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras. Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. se em vez de fazer isso. mas nas pontes que ligam as palavras num texto. Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. acabam destruindo o texto na sua essência. O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. Essas regras não estão em palavras isoladas.

pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior". Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. Há momentos em que a escola tem de ser clara. Apesar do que ouve e faz na escola. que . quer falando. Além disso. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. comparar sua fala com outros tipos de texto. de estilos diferentes. A partir deles. o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. pode aprender como a linguagem funciona. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. quer escrevendo. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia.caos. objetiva. precisa. e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores.

letras e sons. Temos o alfabeto com letras. Há muita diferença entre uma palavra-chave. O professor acha. As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. mas escrevemos palavras e não apenas letras. O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. geradora de uma análise em sílabas. Fora desse âmbito. ser isoladas. Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar. uma depois da outra. a ponto de impedir a aprendizagem. às vezes. quando na verdade o está complicando. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita.precisam. formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis. em que elas encontram <203> vida própria. as regras perdem seu poder explicativo. e um uso de palavras num outro contexto. Para aprender a falar. às vezes. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível. que está facilitando o trabalho do aluno. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. quer do ponto de . cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido.

Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. etc. . Obviamente. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico. sobretudo a escrita. Esse uso da linguagem é típico da escola. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". o professor não vai ficar fazendo só isso. no qual o próprio sentido literal soa estranho. carteiras. entretanto. quer do ponto de vista da motivação do ensino. Na vida real. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas. Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. etiquetando cabides.vista lingüístico. As duas coisas são indispensáveis. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. uma indicação. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial. sem levar em conta o uso de palavras isoladas. material escolar. o rótulo de um produto.

O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. é melhor usar textos do que palavras soltas. essa abordagem é mais evidente. Com relação à escrita. de maneira isolada. Em primeiro lugar. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta. Desse modo. Aqueles que recebem esse . mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais. Em segundo lugar. o professor precisa dar explicações. através de regras que consideram uma questão por vez. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. Nesse caso. Mas. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. para tanto. mas precisam ser explicitados aos alunos. é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. e não apenas palavras isoladas. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. Sempre que possível.

esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. mesmo nunca tendo ido à escola. esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem. pelo contrário. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases. Porém.tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis. irão enriquecê-las. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem . pedaços de palavras. Num texto. porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. mas também as formas de argumentar.

como atividade escolar de produção de textos. esses escritores não seriam famosos. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. Primeiro. isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos. Para facilitar e se adequar aos métodos usados. segundo as expectativas do método. os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição. porque o texto de um escritor famoso. caso contrário. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los. Depois. Se é difícil escrever um texto desse tipo. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . de fato envolve os leitores. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. Essa é uma <205> visão equivocada. que escreve para crianças. Ouvir.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. que não seja apenas o de ganhar uma nota. O texto sai espontaneamente. A própria cartilha dá exemplos de textos assim. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros. seguindo o mesmo caminho.. fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo. empregando as palavras já dominadas. em geral. juntando-as do jeito que acharem melhor. quem. meio e fim. Não precisam se preocupar com começo. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. Os alunos só escrevem frases.. onde. quando. <214> Além disso.outro contexto. como. Após a indicação do título. de acordo com as idéias que têm na . alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. dão roteiros. não se esquecendo de que o texto deve ter começo. Quando falam. Para tanto. vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. não propõe a produção de textos. De acordo com o método das cartilhas. menos ainda textos espontâneos e livres. por quê.

depois. guiando-se por esquemas como os mencionados acima. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original. a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. cobra deles justamente o contrário. com criatividade e arte.cabeça. nas séries mais adiantadas. Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. como em outras ocasiões. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. que serão severamente criticados. torna-se um texto literário. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . O professor. Quando elas forem escrever seus textos. Aqui. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. noutra com adjetivos. noutra com verbos e assim por diante. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos). pela própria escola. e se seu estilo agradar a uma comunidade. devem agir do mesmo modo. no entanto. depois. eles acabarão produzindo textos estereotipados. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem.

No final. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso. seguindo o velho esquema de responder a perguntas. de Antônio Pedro Wolff. 7ª ed. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos. Por exemplo. O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. água. destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos. Tenho diante de mim o livro da 2ª série. o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira.contextos. terão cinco frases.. Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. Para se ter uma idéia mais . intitulado Composições escolares. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras. alto. 1950.

Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado. questionário. — Redação de cartões de visita. — Formação de sentenças exclamativas. esquecendo-se dos que não aprenderam. perguntas. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. . — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. perguntas. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. — Reprodução de contos sem questionário. — Passar quadrinhos para prosa. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades.completa. — Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas. Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas. — Redação de envelopes. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. — Redação de bilhetes.

como ensina o método das cartilhas. Pensavam que seus alunos. é desastroso.<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. pelas evidências encontradas no próprio trabalho. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. não seriam capazes de escrever belas . porém. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. como já vimos. a conseguir melhores resultados. O excesso dessas atividades. Surpreenderam-se com os resultados. em geral. com a segurança de que será um bom trabalho. pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio. por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. A verdade não é bem essa. muitos professores acabaram se convencendo. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. E isso.

uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. O tempo como sempre é um fator importante. nesses casos.históri as. encontra-se . certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. no início. Entretanto. Lamentam. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos. quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos. Com muito bom senso e um pouco de coragem. dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. pelo que aprenderam até então). o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. sentem-se inibidos. conseqüentemente. já que os alunos. É preciso tomar certos cuidados. e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais. acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. textos espontâneos. por exemplo. para que eles não errassem e. Um outro tipo de comentário comum. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais. a fazer. não fixassem o erro. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares.

tal qual sugerida por nós. querendo dizer que. não é bem assim. Em primeiro lugar. não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos. se algum aluno não aprendia. com todos os problemas que já tinham antes.. Um comentário diferente. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". Em outras palavras. eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade..na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos.. de fato. porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim".. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas. mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos. Portanto. usando o método das cartilhas. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar. o professor quer dizer que. gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo. tanto faz agir .

e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. apesar de o aluno acertar tudo no ditado. pelo menos em parte e em certas ocasiões. como faz para escrever. ele erra ao escrever espontaneamente. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba. o que denuncia que o ditado não é uma boa . Conseqüentemente. A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais.bé-bi-bó-bu. Na verdade. que tipo de solução dá para suas dúvidas. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. E isso faz muita diferença. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. não é bem assim.de um jeito ou de outro. certos erros vão evidenciar que. dos ditados. Por outro lado. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto.

escreveu frases soltas para completar o texto. da leitura e da fala. será apresentada. em busca de uma explicação. uma série de textos dos mais variados tipos e origens. os erros serão analisados. Depois. estudadas e copiadas. EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. a seguir. Para ilustrar os comentários expostos acima. eram apenas . de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita. errando cada vez menos no futuro. que aprendeu na cartilha. Essas frases não pretendiam formar um texto. Será feito um comentário geral sobre cada texto e. Como se vê. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar.forma de avaliação (e pior ainda de ensino). uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. até dominar a produção de textos escritos. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto. depois.

Devemos seguir os bons exemplos. 3. 6. 33ª lição — A zebra 1. Por . o burro zurra. 2. LOURENÇO FILHO. cópia e ditado. mas também com as relações entre sons e letras. quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). de Manuel B. 5. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. o sapo coaxa. O rapaz estudou a lição do exame. ou seja. <219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente. A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons. 1951. Lourenço Filho. Zezé não zela de suas coisas. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. Ponha o vidro de xarope debaixo da luz. Os textos vinham ao final da cartilha.exemplos para leitura. não só com a leitura que as letras têm. 4. O besouro zumbe.

9. Posso conhecer minha terra. 3. Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. Todos os brasileiros precisam saber ler. "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". 10. O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. 4. Já sei ler nos livros. "A galinha esperta" (fábula). "A nossa bandeira". 5. uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. . Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. como o X e o S. em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". Para o autor. aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". Já sei ler! 2. porém. O primeiro texto é este: 1. como em outras cartilhas.isso. Da lição 37 em diante. 6. Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. Como é bom saber ler! 8. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. escritos com outras letras. 7. nas cartas e nos jornais.

Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico . Como falantes nativos de uma língua. seja capaz de ler qualquer coisa. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. nem com as noções já dominadas. dificultando ou impossibilitando a leitura. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. Como o texto vem ao final da cartilha. Apesar disso. achou conveniente. denota isso. o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra. por bom senso. com números e paragrafação. escrever um texto "fácil". nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. uma vez que ele supõe que o aluno. de Cecília Meireles. mas não redigiu um texto. Depois que eles decifraram a escrita. Até mesmo a disposição das frases. nessa altura.Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. Na verdade.

pode escrever para a Rua das Casas. a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e. dizer se o texto da cartilha. apresentado acima. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. que não corra nem pule.especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. Número das Portas. Um burrinho manso. mas que saiba conversar. das montanhas. assim. Não é possível. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear.) Intencionalmente. não precisou escrever números . (Quem souber de um [ burrinho desses. das flores — de tudo o que aparecer. ao Menino Azul que não [sabe ler. cientificamente falando.

mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo. Esse poema é um <221> dos que não se prendem. bem diferente dos exemplos da cartilha. Carolina corre por entre as colunas da colina. 10. põe coroas de coral nas colunas da colina. E o sol. A casa é de Lalá. O calor de Carolina cobre o colo de cal. de maneira típica.antes das frases. A casa tem copa. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. torna corada a menina. p. . Por exemplo. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967. como ocorre com outros poemas do livro. vendo aquela cor do colar de Carolina. ao ensino de determinada letra ou som. É uma casa bonita. como se pode ver.

o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. até que encontre um professor que chame sua atenção. para as finalidades da escola. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma . e juntando palavras para formar frases. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. E assim continuará fazendo. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. é assim que se faz um texto. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. ou esse conjunto de frases. rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão.A copa tem caco. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa. o aluno passa a entender que. Como se vê. É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e. como o método está organizado de modo hierárquico.

PEIXOTO.p. O boi bebe e baba. > Texto 1 — 1ª Lição 1.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita. produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo. 8. > Texto 2 — 4ª Lição 1.p. extraídos da cartilha Coração infantil. de Vicente Peixoto. 2. O boi bebe. 14. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola. O boi bebeu e babou. além de se alfabetizar. ele acaba entendendo que. 1950. Fábio foi cedo à cidade. O boi baba. 2. 4. 1950. 3. O boi de Fábio fugiu. . começaremos apresentando alguns outros textos típicos. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas.) PEIXOTO. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. cartilha de alfabetização rápida.

PEIXOTO. 2. Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. 3. 3. A blusa de Carlos não é de brim.3. Os exames estão próximos. Xerxes estuda dia e noite. 30. O sapo sobe a rua. 2. 1950. A blusa de Carlos é de seda. > Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. > Texto 3 — 1ºª Lição 1. 4. 5. É de seda branca. p. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. 1950. p. 1950. Oh! que bonita blusa! 2. O sapo pula na rua. Como cai bem no ombro! 7. PEIXOTO. p. É a blusa de Carlos. 4. 6. 4. 70. A rua é de subida. Romeu ri do sapo. Fábio fugiu da geada. 46. <223> . A geada "caiu" cedo.

No texto 4. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. Quando se analisam esses textos. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto.3. Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente. No último exame fez provas exatas. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. apenas frases para treinar os alunos. Por isso explica bem o que estuda. Aqui. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. percebe-se logo que o autor quis. Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. 4. só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno. 5. na verdade. como no método do bá-bé-bi-bó-bu. uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é. escrever frases. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência). Ele fixa a atenção nas lições. QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. seria mais inofensivo. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. por isso. discorrendo sobre um certo tema e. na verdade. e não simplesmente de frases soltas. mas procurou uma ligação semântica entre elas. . a frase 7.

devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". por exemplo. Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente. frase 6. como a neve. no texto 2. mas se forma com a umidade. do ponto de vista semântico.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride. fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias. outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade. Esse texto tem. sem colocar aspas. logo abaixo. foge de geada. a expressão "pé de mesa"). Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica. e com referência ao qual tudo é construído. Quem lê o texto sem saber dessas informações. ainda. e não lógica (veja. percebe-se logo o mau gosto . Dentro das preocupações subjacentes do autor. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. e se a geada caiu cedo. uma vez que a geada não cai. lendo esses textos. porque ninguém. logicamente. por exemplo. Entretanto.

Apesar disso. São textos sem graça. do ponto de vista do valor. E estálio = história. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. a respeito da ortografia das palavras. a chatice com que é tratado qualquer tema. e. TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). apresentados a seguir. quando apresentados por um livro didático ou por um professor.literário. idiotas. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . insípidos e. Texto 6—Alvaro L. mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita. até certo ponto. Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó. a falta de originalidade. são no mínimo razoáveis. os textos têm um certo sabor interessante e. menos ainda. Os meus dio nadaro debecireta.

O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história.Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. o rerudo = orelhudo. ela resolveu experimentar. O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade. as crianças fizeram textos e não frases . Depois de uma discussão sobre o assunto.

Em outras palavras. No final do ano. Quando a professora começou a passar textos espontâneos. percebeu que o aluno era pior ainda. Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases). daí para a frente. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. não fazendo direito as lições da cartilha.desconectadas. ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos. . Segundo a professora. Apesar do esforço da professora. o aluno escrevia páginas. segundo a expectativa da escola. ele não dominava o que era ensinado. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. mas passaram a se interessar muito por leitura. ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. ele confundia todas as coisas. no tempo em que os demais apenas completavam a lição. Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. inventando um modo estranho de grafar as palavras.

e que essa forma deve ser usada por todos. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. Todavia. como uma loteria. a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia. Com a produção dos textos espontâneos. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita. Seguindo a cartilha. ou seja. Ortografia não era questão de sorte.embora escrevesse histórias interessantes. Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. seguindo o modelo. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo.

(d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha. a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova.princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. esta noiva. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor.

O texto 10 é também de uma aluna repetente. Epa a policea vemvino.mamãe e papai ficarão triste. Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta. Enquanto os colegas . Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta. duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7. Texto 12— Dirceu L.

ela fez quatro. Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. em vez de dizer . Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. Além disso. o resultado foi um amontoado de palavras. PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. numa tentativa de compor frases soltas. A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas.fizeram apenas um texto. GOSTA DE NADAR fica "gota de nada". Assim. ao invés de BONITA escreve "baoneta". <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14. Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata.

Como se vê. a seu modo: "A macaca é a tata". Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta. (?) Amanha é dia pascua. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. Os outros alunos. arriscando. observando a fala. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua. O giigante gebrevu daliom. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente. essa aluna tem grandes chances de errar. escreve. A dona da casa e o pai e a mãe. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra.que A MACACA SE CHAMA TATA. Pior de tudo é a estrutura do texto. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras. do professor e do aluno. mesmo com todo o esforço das cartilhas. . então. qualquer forma de escrita. Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. sendo apenas um jogo de palavras. mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. produto do método do bá-bé-bi-bó-bu.

O dia comeu nublado. (c) O aniversario.Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho. O bone e da menina. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. <229> (b) O chapeu. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. . — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. M. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente. O pelo da duensa nas criansas. fim Altor Samuel J. O feio e o leão (?) A menina e a jogadora.

quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario. Ninguem lembrou que era o aniversario da titia. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens. A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. Então ela foi ate o medico. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. Texto 16— Graziela P S. quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente.

b. sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d). e. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita. mas aos poucos foi aprendendo. o texto que produz. Vou aproveitar que ele saiu. d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. de maneira integral. no segundo semestre.<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. Ali está o cachorro. Por outro lado. Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. O primeiro aluno (texto 15 — a. Apesar das dificuldades ortográficas. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano. O esconderijo é ali.

nesse caso. Além disso. Note que o aluno. <231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. mas que aparecem na escrita. qualquer palavra que deseja. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. escreve qualquer história. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. É por isso que um aluno acaba . geralmente mais longos. sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. já estudado. sem medo.em detalhes. porque não tem de se preocupar com o já dominado. Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). justamente por essas razões. o aluno passa a escrever com naturalidade. os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. interessam-se muito pela leitura. como uma forma sofisticada de uso da linguagem. Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar.

Extraído de Relatos de Experiências . JÁ ESTOU CHEGANDO. como também se vê no mesmo texto). Os pronomes ELE e EU. que a aluna já percebeu. O bandido roubou o banco".transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". O menino assistiu um belo filme. O mocinho matou o bandido. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. O filme era de mocinho. ao ler. vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano". A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos. Texto 17. prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. a saber: "O menino foi no cinema. Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU. AGORA VOU LASSAR. Na fala. e está tentando empregar na redação. BOM.Reinaldo C. exceto o último "eu". TENHO UM PRANO. JÁ PEGUEI. É preciso dizer. nesses casos. um elemento semântico que precisa ser realçado. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. ainda. mais do que orais. os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. isto é.

MEC. II Concurso. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. mas certos tipos de erros. Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. 45. às vezes. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S. como . II Concurso.premiados 1989. O que choca. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. 32.E. S. Como se pode observar. p. MEC. Professora Aurea de Godoi. Responder: O que é melhor. p.PG. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos.

Veja. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. em detalhe. Quando escrevem textos espontâneos. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. MEC. organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. II Concurso. mas têm de escrever EU NÃO FUI. 108-9. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio. mais adiante. Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . por exemplo. etc. extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. "eu sinto ni mim". EU SINTO EM MIM.analisaremos. mas que se escreve de outro. os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito. As pessoas falam "eu num fui". p.

c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola. <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham.POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. b. As crianças se saem bastante bem. que estão começando a aprender a ler e a escrever. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que .

é usar as letras QU. Mais para a frente. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê". Um balão de São João. Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor. Para se obter o som de "kê". Nesse primeiro momento. Agora. ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" . neste caso. Veja no texto 19c. freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas. se eu cair. COECE é uma excelente transcrição fonética. Texto 20— Fábio E G. sem a marca da nasalidade.resulta. Por outro lado. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. a única saída. (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. levando-se em conta o contexto de escrita.

Então ela foi para casa e comeu. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. Então ela ficou na cama. Os textos 20 e 21 são da 2ª série. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. desde a 1ª série. <234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. E lá mais adiante ela encontrou as formigas.Já está de manhã. sobretudo. os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. jamais . Note como os textos amadureceram.

que. Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para . Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa. Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida.terão problemas de redação. Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio. Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão. certamente.

O aluno não produz um texto espontâneo. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado. tem de fazer um texto do tipo padrão. distinguindo-a do "q". Começou com palavras. Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa. apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA. ensinado pelo professor. Escreve TUDO em lugar de TODOS. como traçar corretamente a letra "g". O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época. sua nota foi maior. a ortografia adotada pela escola era diferente.se lavar no tanque. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. Naquela época. Além disso. ou seja. o professor achou . agora. No texto b. que segue um modelo. escreve textos seguindo o modelo. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. Certamente. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937.

PREPARANDO. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM. Na 4ª série. APANHA. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. ou seja ARRUMANDO. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. NECESSÁRIOS. ou seja. Já no texto b. como produzem textos mais interessantes. as coisas não eram bem assim. BICHINHOS. ou seja. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. HOUVER. TORA O. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS). ele achou que a descrição era melhor. na verdade.. não descreveu exatamente o cão. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. No texto b. OVER. etc. NESSESARIOS. ARRUUMANDO. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. Há de se notar. ou seja. ou seja. pois a maioria estudava até a 2ª série.. TODO. ou seja. . Como se vê. TORRA-O. TODOS. ou seja. fazendo textos menos criativos. no texto a. APANHAR. BIXINHOS. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. ou seja.que o aluno. do ponto de vista literário. O que interessa. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. mas falou de seus hábitos. ainda.

Certamente. para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. Hoje. indo do mais fácil para o mais difícil.Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). reproduzindo o modelo do já dominado. A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia. Por essas razões. segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. para que o aluno aprenda em ordem. tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia. Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. Se ocorrer. deve ser eliminado o mais rápido possível. O que está errado deve ser evitado. Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda). QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu. . A meta a ser atingida era outra.

Produção de textos livres será feita como última atividade. como esse tipo de argumentação é freqüente. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando). principalmente no início da alfabetização. com o tempo. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. mas. Porém. <237> Uma outra questão. desde a primeira série. Para eles. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto. são claramente reveladores. depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. é bom lembrar aqui. através de exemplos. inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos. especialmente para comparar o que significa. que perturba demais certos professores. o que é comum. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z . mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas. mas o tipo de erro cometido.esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado.

que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d). EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12).. consideram o certo e o errado . que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem.. aumento. ou LIXO com CH (LICHO). não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8). apoiando-se naquilo que já aprendeu. derrubando. É a avaliação punitiva. etc. JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles.). e nunca pelos acertos. progresso.(CAZA). Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. Por outro lado. dizendo que são justos. É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância. ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). destruindo coisas que o aluno faz (o errado). e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades. e não um processo de construção. Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c).

que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?). eles dizem que não. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8). o aluno tem índice baixo de acerto. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco.. o que ele representa em termos de erros e acertos. foi bem na escola e merece ser aprovado. Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. Quando. . E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante.. portanto.). Em resumo. acertou muito menos do que os 70% esperados.objetivamente. porque o aluno não tem condições. Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. acham por exemplo. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. ou seja. porém. Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. precisando. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes. sendo essa mais uma razão para a reprovação. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. ser reprovado. mas numa certa desconfiança imprecisa.

07 21. n. Procedendo assim. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos. o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2.Contaremos. o (7). u. t. n. m. Por exemplo. ã. em primeiro lugar. na verdade um "i": MUITA) (I). Portanto. o aluno acertou as letras 0. na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA. a. o m (de MUMTA. o (2). o (5). d.93 . c. a. e. e errou: m (falta em COM. na primeira linha. a (4). d. que ele escreveu CO) (I).1.

Vamos transcrever o texto. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2. numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. si/nos = sauva/você = 2 2 8. um professor que tivesse como critério de . coando = voce = tive = 3 — 9. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5.

deveria aprovar Ronaldo.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. no fundo. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. apresenta muitos problemas. ambos poderiam ver. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. são muito mais certos do que errados. Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. que ele. a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. comparado com outros. o que significa. quando os professores vêem somente o texto. que muita coisa já foi aprendida. considera gravíssimos. professor. que escreve tudo errado. não tem condições mínimas de ir adiante. Mostra. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas. desde o início da prática de escrita. o preconceito contra certos erros de ortografia. A produção de textos espontâneos pelos alunos. constata-se que. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos. pelo lado positivo. mas. por outro lado. Essa constatação é um bom argumento para convencer . Porém. O texto 8. e que. acham que o aluno não aprendeu quase nada. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. conseqüentemente. ainda. analisados com mais cuidado. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos.

mesmo quando comete barbaridades. sob nenhum pretexto. sempre e em todas as circunstâncias. caso contrário. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. a humanidade sabe que o homem é um animal especial. Nisso. fruto de uma reflexão. simplesmente deixaria de ser homem. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade. ou ainda ficar sem fazer nada. não há nenhuma novidade. O homem é escravo de sua racionalidade. em nenhum momento. O homem não pode se ver livre da racionalidade.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. o homem é um animal racional. Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. como uso da faculdade da racionalidade. em outras palavras. <240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. sem que isso seja o resultado de uma decisão. Desde os mais antigos filósofos. Nem toda .

por exemplo. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. mal sabemos como fazemos isso. pode agir sob influência de fatores externos. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. A reflexão e a decisão sobre como andar. etc. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. mas o andar requer uma tomada de decisão. . não andaríamos. por exemplo. pelas suas características físicas. Quando andamos. A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. usando sua estratégia de ataque ou defesa.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos. É evidente que a estrutura de nosso corpo. caso contrário. um instinto. nos animais. ou seja. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. Se em vez de andar alternando os pés. que antes eram inconscientes.

a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . É por essa razão que. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário. portanto. da vida e do mundo. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. ou linguagem e pensamento. como fruto de uma necessidade essencial. linguagem e racionalidade. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. através da linguagem e da cultura. Além disso.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. e isso já é refletir. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. Por isso. sem ter o outro. já percorreu um longo caminho de exploração do homem. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. Ao interpretar a realidade. um animal racional. para muitos filósofos. senão não seria gente. quando uma criança entra para a escola.

Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. Por essas razões.perspectivas. Nesse âmbito. é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. Nessa aventura humana pela vida. vive interpretando a realidade. acumulando uma bagagem de pensamento. aprende a falar português deste jeito ou daquele. diria Aristóteles. Através da interação social.5 a 3 anos). a fala. a escrita. a leitura. Portanto. é inata. as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. os usos da linguagem. <243> que é a marca de sua personalidade. Durante vários anos — em geral 7 —. em outras palavras. a gramática da língua. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. ou a faculdade da linguagem. Esse . ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente. aprende chinês de um jeito ou de outro. ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade.

da escrita e da fala. Para aprender. os livros didáticos e os professores pensam. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos. mas em todos os dias. E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. razão pela qual se começa a buscar sutilezas. Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola. É por essa razão que as ciências. assim.acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. novos conhecimentos. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. os livros didáticos ou os professores transmitem. Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. se desenvolvem. as novidades tornam-se cada vez mais raras. alunos e escola não entrarão num acordo. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. caso contrário. . por outro lado. elas precisam descobrir o que a escola. a escola. Para ensinar. Ao longo da vida. por exemplo. Nessa bagagem. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. em todas as séries.

da leitura. 6) da linguagem e. e. da superstição. nessa lista. Há muitas idéias em comum e. da ilusão. da promoção. a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria. em suma. do aprender. das noções de certo e errado. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização. sobretudo. 4) da sociedade e da cultura. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. da fé. na prática. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. As idéias estranhas. de suas idéias e atitudes. estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. do real e do imaginário. do ensino. da vida escolar. da avaliação. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. 5) da ciência. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer. de tal modo que. em particular. Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . Ao longo do ano escolar.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. da vida e do mundo. essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. 2) do professor. 3) da realidade: do homem.

Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização. Em resumo. Nesses casos. que serão mencionadas oportunamente. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que . a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. escrita e leitura. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras. prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem. Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele. as causas mais evidentes serão as escolhidas. trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. isto é. Porém. principalmente de leitura e escrita. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação. há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. <245> . Por outro lado. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros. 1997. Outras vezes. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente.PATTO.detalhe. há a possibilidade de explicações alternativas.

São coisas diferentes. apenas isso. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. é enganar ao aluno e a si. mas toda a vida da pessoa.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. de fato. preguiçoso. incapaz. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. quando de fato ocorrem. Os erros escolares são sempre muito . como problema emocional do aluno ou de sua família. como aquelas que sugeriram o período preparatório. por exemplo. Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. Também dizer que o aluno é burro. acabam aparecendo interpretações equivocadas. lento. caso contrário. etc. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade. não esclarece. emocional). como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. a razão do erro do aluno. Interpretar erros de ortografia. relaxado. Problemas de outra natureza (físico. Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. como distúrbios da fala. afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo).

resultando em 840. ou seja. 840. Em seguida. Sem dúvida alguma. Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). acrescentando um zero ao resultado). Ocorrem em determinados contextos. escrevendo 40. O aluno chegou ao resultado certo. 1 200 . e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). mas também quando eles acertam (às vezes).localizados e circunstanciais. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. Por isso. 60 0. acrescentando um zero ao resulta do). 800.O = 13 440. que por sua vez. que é a resposta. um aluno pode multiplicar 420 por 32. seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. o que dá 600. Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. o que dá 12 000. Por exemplo. são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. dá o total de 13 440. somado ao resultado anterior (1 440). multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400. Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. esse aluno não copiou o . 1 440. ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. 40 + 800. depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20.

Por isso. apesar dos baixos salários. de uma decisão pensada. achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega. estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. Todo ser humano.resultado e muito menos colou. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. de uma reflexão. tudo o que faz é fruto de um pensamento. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. é preciso. ainda. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno. Conseqüentemente. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. eventualmente. causar uma repetição de ano. por mais simples. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. graças à racionalidade. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos. mais rico ou pobre que seja. toda pessoa precisa estar constantemente . Talvez seja esse o motivo pelo qual. em todas as circunstâncias. é escravo da própria racionalidade.

Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal. .lendo o mundo e procurando entendê-lo. . resultante de uma reflexão. tentando interpretar fatos iguais. Em <247> outras palavras. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. segundo as características da sua personalidade. todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro. Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas.

Por exemplo. quem troca -NHO por NIO. Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala. o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade. L por R. CARDO por CALDO. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. Nessas circunstâncias. foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. como em CRAVÃO. curiosamente. quem inverte a ordem de letras em palavras. segundo um dialeto que não respeita a norma culta. Já em métodos antigos de alfabetização. fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. de Francisco Alves da Silva Castilho. aluno que mistura letras. p. NAVA em vez de .Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. acaba escrevendo errado. 45-7. ou TIVE por ESTIVE. como ARMA por ALMA. no Manual explicativo < CASTILHO. do método de leitura denominado escola brasileira. 1859.

apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais). porém. os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. O MÉTODO. interpretando até mesmo o que o método ensina. Por . aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. alguns alunos cometem erros. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). porque está sendo submetido a um método ou a outro. quase sempre. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. acabam. O PROFESSOR. tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método. sempre. nem seu direito de refletir. Quando o método é muito rigoroso. o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. XUA em vez de SUA. É por isso que. O aluno não deixa de lado sua racionalidade. Nenhum método de alfabetização controla tudo. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo.LAVA.

um professor que não for capaz disso. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . CP para CAPA. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados. sendo dispensável na escrita. não é porque o professor ensina de um determinado modo. quando eles vão ler ou escrever. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. Um professor que conhece profundamente como a escrita. para tudo o que fazem. é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. seja em que método for. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante. O importante é o fato de que. escreve no ditado LT para LATA. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização. isto é. No fundo. etc. os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas.exemplo. que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. Por outro lado. o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende.

submetido a processos de recuperação. Se. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos. o aluno é remanejado. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . Quando um aluno começa a errar sistematicamente. Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola.bem-adquirida. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. Às vezes. para isso. Mas. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam. reprovado. Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita. Nem sempre o bom senso funciona. seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz. apesar disso. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar.

de inteligência. médicos. fonoaudiológicos. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. tudo está em ordem. sejam eles quais forem. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola. O ERRADO E O DIFERENTE . com seus déficits. porque tem medo de enfrentá-las. sem saber se são verdadeiros ou não. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. sem medir as conseqüências.deficiências dos alunos. A escola usa de rótulos já prontos. etc. a fatores socioeconômicos. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. < MASSINI CAGLIARI. de desnutrição. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. 1996i <250> O CERTO. eliminando os erros a qualquer preço. criando a falsa aparência de que.

o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. no Japão. A partir da correta análise desses erros. A nota é o castigo do erro. a escola. o método das cartilhas não gostam de erros. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. apesar de essas pessoas usarem a mesma língua. se não forem sanados. não se alfabetiza. sobretudo. no Brasil falam português. Como a linguagem oral é um fato social. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos. Ao fazer isso. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. De modo geral. é preciso distinguir o certo. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz. o errado e o diferente. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. Obviamente. Uma língua vive em função de seus falantes. Em se tratando de linguagem. conseqüentemente. as pessoas falam o japonês. na Coréia falam coreano. os livros didáticos e. descobre que. o aluno acaba não aprendendo a ler e. Para estudar essas línguas. Tradicionalmente. Alguns erros são tão sérios que. O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro. jamais nos seus próprios. na França falam francês. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. falam . Por exemplo.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever.

Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral.com diferenças regionais e até pessoais. trouxe uma grande vantagem no uso. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. É preciso acabar com esse equívoco. está acima dessas diferenças entre os dialetos. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. . <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. Para organizar a gramática de uma língua. por outro. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico. o lingüista precisa descrever. as diferenças. Porém. errado e diferente em cada um dos casos. Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. obviamente. por um lado. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala. nosso sistema de escrita. as igualdades e. podemos voltar à discussão do que é certo. sendo um só para todos. por ter um uso social muito abrangente. Isso.

Por exemplo. O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. e não apenas uma manifestação de estilo individual. e não de erros. Passemos agora à linguagem falada. São diferenças aceitáveis. escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. um escreve de forma mais clara. estamos diante de diferenças dialetais. Outro de forma mais confusa. uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra. por exemplo). ou gagueja. outro não. Porém. está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita.Do ponto de vista da escrita. Às vezes. Assim. ou se atrapalha na pronúncia. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. na sintaxe ou na semântica. um escreve mais elegantemente. como em propaganda. Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . mas acidentes lingüísticos. A escrita também tem um estilo próprio. outro menos. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro. Não são erros propriamente ditos.

nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da". de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. . a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias. Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística. como foi mencionado anteriormente. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. Isso seria um erro. Portanto. ou viceversa. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. trata-se de diferenças dialetais e não de erros. Está tudo certo nos seus devidos lugares. e o contrário também. Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha". Assim. Assim. Os falantes nativos não cometem erros.pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada. sem misturas de regras. ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá". a não ser por acidente. Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". quando há diferenças entre elas. Cada dialeto tem seu modo de ser.

Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. enquanto perdurar a patologia. mas . Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. em grande parte diferente do uso comum das pessoas. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. por exemplo. <253> Na prática.PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e. Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos. Não é raro. neurológica. Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. sobretudo na escola. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física. na pronúncia das palavras. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. conseqüentemente. Uma educação especial poderá ajudá-las. encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. uma pessoa que faz tudo normalmente.

mas com os sons em geral. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". e sempre. não é um afásico. inventaram um termo chamado . mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. Esses termos já são complicados por si. Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. escrita de forma cursiva pelo professor. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. Se a pessoa é deficiente auditiva. mas simplesmente porque interpretou errado a escrita. não apresenta um caso patológico. escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". Se a pessoa tem problemas de lateralidade. depois. Na prática. e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência.apenas "fala errado". Se uma pessoa fala com os colegas. causadas por lesão dos órgãos da fala. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras. brinca discutindo o que acontece e. As patologias físicas são perenes. Para erros semelhantes de ortografia. idiossincrasias. diferenças dialetais. Por aí.

. Por outro lado."disortografismo". Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto. ser o ponto principal na aquisição da linguagem. mas somos ouvintes de todos os dialetos. Entender parece. Resumindo. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar. algumas crianças acabam falando de modo estranho. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. Somos falantes de um dialeto. na aquisição da linguagem. criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e . Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral.). Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte.. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral. então. que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia". pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo. Por exemplo.

"póla" (130. A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. por causa da pressão social. com muito tato. Por outro lado.fricativas. "faka?' (VACA). Em todos esses casos. quando a pressão familiar é muito forte. algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo. É o caso típico de pessoas gagas. a criança pode cristalizar a gagueira. essas crianças deixam de falar assim. sob pressão psicológica muito forte. que desaparece normalmente. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA). em vez de eliminá-la. com medo de aprender algo diferente e com outros erros. Essas crianças se fazem entender e. "katu" (GATO). continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam. mas não outros segmentos fonéticos.LA). Com o tempo. "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?). que continuam sonoros. as famílias deveriam . Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. Mas. típico da fala do adulto. se a família entra neste jogo. Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?).

deveríamos considerar muitos adultos. evitando. esses modos de falar estranhos. como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). no convívio. Os problemas da escola. receber críticas e até zombarias. assim. que estão . porque. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia. Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal. o melhor é expô-la à comunidade. em vez de esconder a criança. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física. Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo. É por isso que as atividades sociais na escola. principalmente para as primeiras séries. O tempo ajuda mais do que os conselhos. não se deve criar um problema maior do que existe. precisará agir com muito cuidado.forçar as crianças a imitar os adultos. ela própria deveria resolver. a partir da observação de como usam a fala e a escrita. deixá-la interagir com outras crianças. Todavia. como os recreios e as festas. são tão importantes. sabendo que o melhor remédio é a pressão social. Por isso.

como deficientes. porque falam tudo errado. etc. e assim por diante. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. e o que precisa ser deixado de lado. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado. Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral. Então. Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame.aprendendo línguas estrangeiras. a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações. Pelo contrário. não conseguem aprender direito. por ser um erro. Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . principalmente se não for falante da norma culta.

as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro. contudo. mas também do processo de aprendizagem. Em casos de dúvida. Quanto menos informações tiver o indivíduo. que .aprendendo a ler e a escrever. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. ela chega a uma das alternativas. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades. como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada. mais dificuldades terá para acertar. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. O professor não deve falar apenas dos erros. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. ao tomar uma decisão. Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. que nem tudo sairá correto. Através de um processo de reflexão. considerada a mais adequada. Assim. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes. sabendo.

juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. através da produção de escrita espontânea pelas crianças. Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura. Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. No segundo caso. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. e logo se vê se houve acerto ou erro. Confere-se com o original.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. ter melhores chances de tomar as decisões corretas. . assim. pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e. No caso da cartilha. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização. Talvez acerte. analisando o que o aluno pensou. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. se o aluno errou. O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação.

Usando a idéia do realismo nominal. Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. alguns psicólogos fizeram testes. principalmente as crianças. segundo Emilia Ferreiro. Medir volume por outros meios não parece ser fácil. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. depois. Algumas pessoas. na forma escrita. oriunda de experimentos como o mencionado acima. e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA. Para a criança. mostrando as palavras FORMIGA e BOI. mais água contém a jarra. . Então. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água.

guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. para então dizer em que caso a palavra é maior. Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. leva mais tempo para falar. porque. certamente a resposta seria diferente. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. ou seja. no primeiro caso. quando falam. de fato. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação. nada provam. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. Provavelmente. Aliás. Concluíram. então. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado. Se. em vez de mostrar as palavras escritas.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. o animal representado é maior. inclusive as crianças. a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. pedíssemos para a criança analisar sua fala. <258> do ponto de vista semântico. Portanto. na verdade. sabem distinguir . as pessoas.

oriundo do trabalho de psicólogos. Ela diz que é impossível ler. se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. A criança corre com o dedo o texto escrito. apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. e a criança. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e. porque não tem desenho.quantidades ou sabem responder corretamente. neste caso. Daí. 2. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento. Depois. é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. com a semântica. O pesquisador está preocupado com a escrita. nesse caso. Portanto. mostram-se as letras. confundindo fala com escrita. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA. As crianças. com relação à linguagem. respondem corretamente. Por exemplo. diz-se o que está escrito. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. o . Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior".

psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. Nem por isso. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça. sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. É uma saída inteligente. usada comumente pelos especialistas em decifração. Como se trata de uma criança que não sabe ler. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. os pesquisadores . escreve-se justamente para que alguém possa ler. quando acompanhados de fotos ou desenhos. Aliás. a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse. interpretando as figuras e os desenhos. a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. Isto é. Como ela não sabe ler o texto. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos. e desenho não é letra. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto. referem-se a essas figuras. <259> Curiosamente. porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. caso contrário.

mostra-se uma foto. A criança tem. de um trator com dois homens conversando. A escrita maia é outro exemplo. Obviamente. Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. O teste consiste em fazer com que uma criança. 3. A criança é constrangida pela obrigação de responder e. indique onde está escrita a palavra TRATOR. A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . porém. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. embora reconhecessem que isso poderia ajudar. para ver sua reação. a palavra EMPRESTOU).acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). por exemplo. em geral. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. para se ver livre do pesquisador. um texto em chinês ou mesmo em árabe. responde qualquer coisa. A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo. usando. e uma legenda: "João emprestou o trator a José". que não sabe ler.

baseandose em analogias com o mundo real. então. porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e. Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . confundindo seu próprio raciocínio. Depois disso. algumas delas começam a dar retorno.errada. Ela tem consciência de que não sabe ler. não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. Se ela não faz isso quando fala. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. ela continua mostrando outras palavras. 4. 1957 e MELLA 1981. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. <260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita. portanto. Por outro lado. como tamanho e forma de palavras. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura.

e ler letras iguais não tem graça. uma enorme repetição da mesma letra. quando tentam identificar palavras ouvidas. por exemplo. Por Outro lado. sem dúvida alguma. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico. Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. 5. O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. BOLO. que não podiam ser iguais. mas lingüístico. a idéia principal. as crianças vão procurar as palavras FESTA. e não COMPROU. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —.crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. <261> . às vezes. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. MARIA. Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. apontando onde elas ocorrem na escrita. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU.

Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado. isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando. As modificações representam sua interpretação do texto original. Quando lemos . Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. não uma análise gramatical. A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. nas primeiras tentativas de leitura. que mais interessa ao interlocutor. Nesses casos.aquilo do que se fala. tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem. a escolha é um substantivo e não um verbo. a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. 6. Pelo contrário. Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE.

inventando mil coisas paralelas ao texto escrito. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente. Na escola. por exemplo.. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7. sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. quando falam ou ouvem. a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. <262> as pessoas. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia.. não aprenderiam a falar. . porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. Assim. ao lermos em voz alta. porém. Segundo os lingüistas. ou uma poesia.um romance. Se não soubessem disso. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. "Cachorro começa com FU" Com muita razão. guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais. Como fomos educados pela escola.

O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. A professora está pensando na forma escrita das palavras. e não literalmente.Uma professora me contou. ouve o que não quer". GARFO (sic!). mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?". são reprovados não porque não saibam. certa vez. mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras. a palavra MIAU. Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. Todos riram e a professora a mandou sentar. A forma de perguntar é muito importante. por exemplo. de todos os níveis escolares. a professora não disse. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. nas idéias que o enunciado transmite. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU". e o aluno. estava pensando no animal cachorro. para ela. como resposta. . Porém. Muitos alunos. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. sem nenhuma explicação. em suas partes e.

ao aprender a ler e a escrever. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. com perguntas capciosas. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras. nos casos discutidos anteriormente. Em vez <263> de aplicar testes idiotas. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. deixando a criança exposta a atividades de escrita. por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8. . É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que.

os alunos estão pensando e. Os alunos escrevem como quiserem. tentando desenhar letras. por exemplo. nesse tipo de atividade. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando. que não sabem ler. apóiam-se em conhecimentos que . etc. como os nomes dos colegas. Por exemplo. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura.Para jsso. não só com relação à classe como um todo. imitando a escrita cursiva. mas também para um mesmo indivíduo. Não existe um caminho certo e único para aprender. quando não têm um modelo para copiar. alguns põem-se a copiar o que vêem escrito. Mesmo agindo assim. Não se pretende discutir aqui a classificação científica. Quando um professor pede aos alunos. Mas é verdade que. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). que escrevam qualquer coisa. Copiam fazendo rabiscos. tem-se constatado que. silábico e alfabético. aparece de tudo um pouco. Na prática. ao longo do tempo. orienta o professor. mas os fatos.

A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. Aliás. como a escrita egípcia e a cuneiforme. A razão disso é que. ainda hoje. A partir de umas poucas idéias de como . fica mais fácil. sem dúvida. Além de copiar. torna-se praticamente impossível. É o que o professor deveria fazer em sala de aula. Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua. Quando o sistema de escrita é conhecido. E esta é. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. do contrário. É preciso muito mais. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. poderá facilmente entender as regras de decifração. as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. uma boa maneira de alfabetizar alguém. <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. foram decifradas com certa facilidade. Sabendo a língua. Como o aluno conhece a língua.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram.

pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si.funcionam as relações entre letras e sons. Assim. faz seus rabiscos. não faz sentido. que pode ser feita de inúmeras maneiras. representando a fala. a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas. têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. Porém. Portanto. cuja aceitação ainda não foi confirmada. se não tiver algumas explicações iniciais. Por isso. Nota Recentemente. Como é que as formas . A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente. Mina!. Logo.

A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas.. acaba procurando as letras. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica. A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez. Isso parece algo muito interessante. porque sabe da sua existência. agora. descobrir como as letras representam os sons. mas não sabe. portanto.. Então. surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras.. a produção gráfica da escrita é mais fácil. Com isso. "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever.. e assim por . Então. porque tem consciência de que não sabe ler. pelo menos. como ninguém a ensina a ler e a escrever. pensa o aluno. ela já as viu de muitas formas.gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. nada mais natural do que acrescentar mais uma. O resultado é bem mais semelhante ao modelo. Então. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora. Resta.

analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. Por outro lado. Por exemplo. quer escrever BOLO. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. Como fazer? Falar é fácil. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. B de BOLO. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. Descoberta a técnica. A explicação é a que foi dada acima. Ora. o aluno começa a analisar sua fala. Então. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. Eles escrevem letras corretas. como U de URUBU. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. e escreve: B L. E preciso descobrir as letras. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO. mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala.diante. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. e não por simples e espontânea reflexão. de . dizendo: B0000-LUUUU. ao tentar escrever uma palavra. por que. agora. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. em vez de dar uma informação tão reduzida.

porém. numa tentativa de escrever o que foi identificado. mas não conhece o L (o "lê" de LU). hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. não é de que uma letra represente uma sílaba. mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável. na verdade. A hipótese dele. Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica. conhece o U do LU. para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal.acordo com a ortografia. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. dessa forma.. o M ("mê"). Ele conhece o C ("kê"). e escreve C M U. fenícia. por exemplo). árabe clássico. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões. mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. Por exemplo. de um modo ou de outro. Por exemplo. mas pode-se encontrar uma mistura. Falam "u" e escrevem O. <266> Em geral. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. ou seja. pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e. existe uma letra .. em que. Porém. Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. Essa hipótese. corresponde uma letra na escrita. é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia.

como referência principal para sua argumentação. juntando as sílabas . lê analisando as letras em famílias de sílabas. na escola. O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. usando apenas as letras C V L ou A A O. finalmente. Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. outro é o da decisão pessoal. explicita em voz alta essa técnica. por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. 9. Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. la-ta: a lata". E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa. lendo. quando vai ler. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. tê-a-tá. prefere usar. Concluindo.

do bá-bé-bi bó-bu. no método do bá-bé-bi-bó-bu. é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. precisa descobrir que idéias ele usa para ler. O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil". Agora. Ao ler uma palavra como APTO. o esse do sá-sé si-só-su. o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu. O professor insiste em que está errado. Quando o professor diz que está errado. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). . que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal. A. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu". juntando: bê rê-a-çê. O professor perde a paciência. as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. Assim. o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga.e formando a palavra. Nesse caso. diz que está escrito "Brasil". e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?).-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. ao tentar ler uma palavra como BRASIL. rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru. Isso acontece porque. Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas".

Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. como: brá-bré-bri-bró--bru. por outro lado. está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora". é preciso usar os conhecimentos de decifração. os quais devem ser processados na cabeça.Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método. Isso. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. corrigindo-o sem explicar. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . procede-se à leitura. <268> respeitando o princípio da literalidade. O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. Às vezes. em silêncio. em voz alta. Para um aluno ler segundo o modelo. Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". Depois de descoberto o que está escrito. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. Quando se lê.

não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. Diante de casos como esses. na alfabetização. É impressionante como os professores de alfabetização. O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". é pior ainda. dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). Em vez de ajudar o aluno. que acabam desistindo de ler. em geral. Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura. mas faz isso com .para alguns alunos. Se o professor corrige dizendo "beôleá". o que os faz desanimar. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. quando não para psicólogos. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência. porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa".

certa rapidez. A leitura de improviso. ou que só entendem o que lêem em silêncio. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. por outro lado. quer com relação à assimilação dos conteúdos. Por outro lado. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. Acabará sendo um leitor lento. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. O professor pode mostrar como se lê. é sempre problemática e deve ser evitada. Depois de muitas repetições. que têm de ler em voz alta <269> para entender. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. Como alguns falam mais depressa do que . quer com relação à quantidade de material que lê. 11. 10. com os quais o professor deve se preocupar. ler em grupos. Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente.

para tomar as decisões que julgar melhor. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. Por isso. Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. tendendo-se para uma leitura mais literal. típico do método das cartilhas. mas saborear a arte dessas obras. é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. existe uma certa variação. Quanto mais se acelera a leitura. já no outro dia. depois voltam a escrever certo e mais uma vez. pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança. errado. Conseqüentemente. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. a criança usa de sua reflexão.outros. No primeiro caso. porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente. errado. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se . Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). baseada em seus conhecimentos.

porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. ou o passo seguinte. Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. cometendo erros. através da produção de escrita espontânea. 1. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita). Conhecendo essas razões. No segundo caso. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados. de maneira cada vez mais sólida.<270> mantêm integralmente dentro do modelo. Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. para não errar e levar adiante. alguns casos de erros de escrita. . Apresentam-se. misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. o professor pode mostrar e discutir isso com ele. Finalmente. indicando a saída. a seguir. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. o processo de aprendizagem. Depois.

pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante. Ao fazerem isso. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque. Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes. Na vida. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos. Os alunos podem . ou seja. mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. são capazes de ler. Enquanto estão conscientes do que fizeram.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. 2. além de ser uma marca individual. Isso pode trazer uma certa frustração. estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. o professor deveria brincar de fazer assinaturas. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura.

as pessoas nem precisam saber ler e escrever. ou seja. Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função. o professor constata o que o aluno fez.. Dessa maneira. Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra. A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. 3. o aluno está seguindo a explicação do professor. para assinar documentos e cheques. Diante de tal explicação. um professor pode convencê-lo a escrever com letras. etc. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos.entender que.). um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO. escrevendo com letras. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. Isso quer dizer. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. Diante disso.:' Para resolver isso. . diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social). ainda. fazendo rabiscos.

alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. deixando a decifração da leitura de lado. com as letras B e b (que estranhamente. porque o aluno vê escrito ( e pensa que. A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. ocorrem na grafia das palavras. nessa forma de escrita. a coisa piora. de fato. para ele. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba. Por exemplo. as letras são: <272> O + i + v + a. quando o professor escreve com letras cursivas. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . Agora. Como o método concentra-se na escrita. aparecem traçadas de formas diferentes). o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va.4.

O professor ensina que se deve . pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza. Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. Um bom exercício. para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. 5. Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. é fazer transliteração. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro. podem cometer vários enganos. Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. ou seja. como letras cursivas e de fôrma. Um deles é o da escrita espelhada. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE. nesses casos.

é como segmentar o fluxo da fala em palavras. assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. o resto acompanha. Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. . resultando na palavra espelhada. e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. como a escrita exige. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. quando um aluno vai escrever a letra S. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. Por essa razão. No início. Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. como entoação e ritmo.escrever da esquerda para a direita. Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. levando em conta essa regrinha. como C e S e outras letras como Z e N. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. 6. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las. Então. Com isso.

Quando encontram a palavra ABACAXI. Na prática. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio. separam A BACAXI. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. encontra-se o som básico que a letra . conjunções e expressões adverbiais. a partir da análise semântica. como preposições. pensando que é algo semelhante a A CASA. o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. Aos poucos. Veja. colocando uma parte em cada palavra. como no caso de VISITA. "çe-ru-mã-nu". sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais. A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. os alunos vão descobrindo os itens lexicais. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver).surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. ainda. segmentando erroneamente palavras. os alunos se apegam a algum elemento semântico. no próprio nome das letras. Às vezes. 7. ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO.

de acordo com a maneira como analisa a fala. Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. PTC ou EEA para PETECA. TAPTE em vez de TAPETE. como se conhecessem a ortografia das palavras. Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. . Ao aplicar isso. LC em vez de HELICE. como em "caaaa-vaaaa-loooo". 8. LFATE em vez de ELEFANTE. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. como em AAO ou CVL para CAVALO. Se repete as sílabas. O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. o que é representado na escrita pelas consoantes. como em "cacacacavavavava-lolololo". Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. Se prolonga as sílabas. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. etc. basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever. etc. acaba salientando e escrevendo as vogais. APARECU em vez de APARECEU.representa (princípio acrofônico). CAMLO em vez de CAMELO.

Se BAR RIGA tem o "bê". querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. ta-te-ti-to-tu. registra OPAFNOLA. Em outras palavras. Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente.Obviamente. LATA tem o "lê". ta. demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. la-le-li lo-lu. lembrou-se da . Então. Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave). encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. que são interpretadas a partir da observação da fala. ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence. que é o lá-lé-li ló-lu. observando a palavra LATA. então. não estão produzindo uma escrita silábica para as letras. LT para LATA. Mais raramente. Por exemplo: la-ta. e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. MCC para MACACO.

lição da laranja e chegou à letra L. introduz-se o estudo da família de letras. 11. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. etc. quando o aluno. a forma escrita das palavras. algumas crianças . Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. Resultados pela metade Ao escreverem. a partir de seu dialeto. no ditado. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e. dessa forma. DRENTO em vez de DENTRO. Portanto. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever. escreve LT. além das dificuldades para encontrar. Para ser objetivo. basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras. que era o objeto de estudo dessa lição. 10. Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. PRANTA em vez de PLANTA.

Isso se torna ainda mais complicado quando. L 12. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. PIONHO em vez de PIOLHO. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos. CAGLIARI. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. do começo ao fim. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. analisando a própria fala. PISICRE em vez de BICICLETA. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. com uma análise detalhada. têm de fazer isso aos pedaços. o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA. passo a passo. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente. 1985b.defrontam-se. Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. quer as que ele costuma escrever. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . principalmente no início. ou seja.

. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética. até que. isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante. sem insistir muito. Como uma letra pode representar muitos sons. o professor chama a atenção dos alunos. Acertará algumas e errará outras. Aos poucos. 13. confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. e um som pode ser representado por letras diferentes.

o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. Então. Esses fatos são menos comuns. para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam. usando-a para contextos não permitidos.comece a grafar as palavras corretamente. 14. às vezes. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns. mas existem. A sua dificuldade é maior no início. Outro exemplo: o aluno . Por exemplo. Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra. o que se fala com "i" será escrito com E. Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais.

BATATA. Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. GORILA. o aluno pode. na escrita. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. Se o aluno fala certo. POLA. utensílio. BOLA. em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. . a escrita é FACA. Nesse caso. Se o aluno fala como escreve. 15. do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. além da explicação acima. PATATA. e quando está pensando na ferramenta. CORILA em vez de VACA. pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. percebe que. na sua fala (sussurrada).quer escrever TATU mas registra TATO. como no exemplo de "faka". Assim. ainda. mas se escrevia O). a escrita é VACA. mas escreve errado. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. escrevem FACA. Como escreve sussurrando as palavras.

mas apenas variantes. A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português. Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. Lembrar. e não falha de discriminação auditiva. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. eles ficam perplexos porque nunca souberam que . e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. como as vogais. as laterais. porém. Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda. as nasais.

passa a escrever com H depois do D: IDHO. dando uma determinada informação técnica. por se tratar de crianças. numa palavra como BARRIGA. L e N. se consideram portadores de deficiências auditivas. que já tinha errado. seguindo a última regra dada pelo professor. no meio de palavras. mas pode levá-lo a cometer erros. Assim C com H dá "chê". é muito comum o professor "enfeitar" o que diz. (Na pronúncia comum de muitas pessoas. o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. Na alfabetização. encontramos RR surdo. e numa palavra como RATO. N com H dá "nhê". escrevendo ÍNDIO com IGO.. nem por isso. <279> . Por um lapso. Mas. Por exemplo.podia haver RR surdos e sonoros. o aluno. ou dizer por partes. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros. Então. um pouco. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". L com H dá "lhê". serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes. Isso ajuda o aluno a progredir.) 16. o professor explica que a letra H é um coringa que.. O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez. Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. encontramos RR sonoro.

seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e. Com a identificação de mais alguns sons. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. vão errar. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores. minha gente! Mais rápido! Papai.. Pa-paaaiii.. . fique quieto no seu lugar! Pap. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. Assim.. Vamos lá.. Pa. etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro. não por causa do erro. produzindo às vezes resultados surpreendentes.. Se vocês não ficarem quietos. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha.. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos. depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA. Assim. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez.17. Mistura de informações Nos primeiros ditados. o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM. após o último esforço. Em seguida. Papai. Por exemplo. Joãozinho. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. Paaa-iii. escreve AAI.

nem sempre sabem solucionar dúvidas e. Assim. faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa. notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). ao escrever IDADE. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. DONAIMEA por DONA ESMERALDA. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram. resultando algo como i Outro exemplo. Então. resultando daí uma grafia estranha. 19.18. Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. Por exemplo. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR. tendo feito o "d". etc. SATUX por SANDUÍCHE. acabam escrevendo tudo corretamente. o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. por SOCORRO. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). ele emenda tudo sem .

às vezes. erros de supressão ou de acréscimo de letras. explicando que se tratava de uma aranha preta.correção. e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva. resultando: CATSELO. nesses casos. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo. "apachonada". . Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. que depois leria corretamente para o professor. de repente. acabam escrevendo: "cachorro". etc. Medo de escrever Mais raramente algum aluno. até adultos cometem. Inversões desse tipo são muito comuns. 21. começa a escrever coisas muito estranhas. 20. seus erros têm pouca lógica. Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO. tomado por um pânico muito grande. que sabe escrever umas poucas palavras. Por distração. Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula.

e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras. Sinais de pontuação Além das letras. Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. 23. No começo. ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1. o professor não deve enfoca-los.22. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. a escrita tem marcas e sinais de pontuação. .

e erros oriundos da má formação de concordância. costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. Nesse caso. Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto. 2. Assim: "eu vi ele".Por isso. etc. na fala de muitos alunos. A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. etc. De modo geral. "fumu". "ela viu eu". "pobrema". Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. "arriba". "Maria achou nós". Na alfabetização. os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita. como: "bardji". . "uzómíveiu". como: "drentu". o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos. incluem-se três tipos de erros mais comuns. como: "nóis vai". "askazakaiu". obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries. Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. "çértu" (com R retroflexo).

como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos". é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime". 3.Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas. especialmente de falantes de dialetos estigmatizados. De vez em quando. sujeito da oração. "em que". Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. Por exemplo. "Ele falou uma piada . O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. etc. de modo especial. esse tipo de construção precisa ser evitado. há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções.. convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. como por exemplo "que". "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". fazendo ver que na linguagem escrita. entretanto. para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos.

Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor. Mais uma vez. Todavia. é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e. esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. Por exemplo. a melhorarem seus textos. "Tudo estava perdido. O professor .. Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. 4. onde eu deduzo que havia muita corrupção". o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". ele deixará de se preocupar tanto com isso. por isso mesmo. mas não insistir. no sentido de ajudar seus alunos. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. desde cedo. o professor não precisará se preocupar muito com eles. "depois". "aí". Por tanto. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos. como "ééé.:'. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente.onde o papagaio morreu afogado". marcando todas as pausas que fazem. O professor alfabetizador deve mostrar o certo.

costuma colocar nessa palavra o foco semântico. A repetição. Note que quem usa "ele". O carro assim não pega. variando a estratégia de construção das frases. e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida. evitando a repetição dessas palavras. nesses casos. . Ele viu o carro.. o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. O mecânico chama-se Toninho.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. às vezes. <283> Alguns professores. representado pelo acento frasal. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina. deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada. que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração. Por outro lado. A repetição pode também ser desnecessária e. em frases como essa. O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. sobretudo de séries mais adiantadas. um texto como: "O mecânico chegou em casa. ou seja. Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos.

pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . Esse tipo de texto precisa ser evitado. O pato nada no lago. Desse modo. No exemplo acima. completando o que foi dito antes. acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. no qual o aluno foi alfabetizado. como quem monta um quebra-cabeça. O texto acima só aparece como exercício na escola. não na vida real. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases. ou seja. e reflete um modelo muito típico de cartilha. Xaxá é a vovó. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas.5. cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. O pato é belo.

Porém. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. Por exemplo. não requer explicações mais detalhadas. agora. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. Não tem propósito aparente. por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO.daquele jeito. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. o elemento anafórico ELE. levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. esse tipo de problema quase não aparece e. . confusão com os elementos anafóricos. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. 6. PEDRO FICOU FELIZ. quando vem. a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. ELE FICOU FELIZ. desestruturando o texto. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. Veja o exemplo. às vezes. Se o professor adotar outra estratégia. Alguns alunos fazem. tem um antecedente claro e bem-definido no texto. que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos.

Na segunda linha. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. por exemplo. Na maioria das vezes. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início. no início do segundo semestre. É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. Portanto. o professor não irá questionar esses aspectos. assim. quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. Depois. embora fale sobre eles com os alunos. todos os verbos. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia. esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor. o sujeito de FOI é o PADEIRO. Esse é um típico problema de coesão. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas. como JOGOU e FOI MOSTRAR. a forma de apresentação estética. o layout. <285> Todavia. 7. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. Caligrafia Finalmente. cujos sujeitos estão ocultos. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro.

O ditado. as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI. Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". Tudo . 1990.trabalho. No início do processo de alfabetização. razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. na verdade. enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação. O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento. Textos que vão ser expostos. é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais.

fazendo confusões fonéticas e semânticas.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. Em algumas profissões. a prática do ditado é intensa. . Na escola. certas aulas expositivas são espécies de ditado. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. Nessa prática. até à moda da escola. obviamente. do conteúdo da matéria de todas as aulas. ditamos o que ela precisa escrever. O professor fala como quem dita aos alunos. controlando o que escrevem. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio. às vezes. como nos escritórios. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. antes de escrever. escreve-se. Nessas circunstâncias. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. no final do ano. Ditado e cópia são atividades interdependentes. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. por exemplo. ou até mesmo entender o que foi dito. especialmente perceptivo-auditivas. Quando se quer guardar uma informação. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. Quando se tomam notas numa conversa de telefone.

outros reproduzem apenas as idéias principais. Nesse último sentido. vê-se que o ditado é uma . certamente. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia. realizados apenas no plano da oralidade. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor.Pela experiência de cada um. como as anotações feitas numa aula. esse sentimento é. Embora pouco recomendado. testar as dificuldades de realização de escrita. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. obrigando-os a estudar. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem. Portanto. além de ser uma prática que constrange os alunos. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. expressões ou frases para a criança repetir. como as informações passadas por telefone. avaliar o desempenho. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal. Esse quadro geral. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. de fato. A mãe ou o adulto dita palavras. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. gerando ansiedade. largamente manipulado pela escola.

Do ponto de vista da maneira como são feitos. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. depois. em geral. algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. enquadra-se nesse caso. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. TOLO. Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu.prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta. Muitas vezes. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e. ditando-lhe as palavras já vistas. os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. LUTO. . se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. TELA. Para esse método. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. etc. LOTA. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico.

percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. porque tem dificuldades mentais. Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. neurológicas ou fonoaudiológicas. não presta <289> atenção no que o professor diz.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). Se o aluno erra. . até mesmo. as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). Entretanto. ao passo que. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). Nos ditados. não estuda. nos textos livres. quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito. não aprende ou. é porque não se concentra. Os próprios erros são outros.

ou seja. esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U. Acham que além de avaliar. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA. Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos . para não fixar o erro (sic!). o professor fala e o aluno escreve. o aluno não escreveria da maneira correta.. Curiosamente.Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. Ora. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras. nesse caso. pode variar. onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar. Tais ditados são realizados foneticamente. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever. se o objetivo do professor é esse. quando deveria pronunciar U.. Mas. servem de reforço para a aprendizagem. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. O modo como o professor fala. como vimos.

o professor passa para a palavra seguinte.. Depois. este já está silabando NHA. é com S ou Z? Nesse momento. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos. na hora do ditado. . Quando os alunos estão escrevendo. e o aluno escreve o NHA junto com o CA. o professor já está repetindo sílabas: CA. serve-se dessas regras para ditar. FLORZINHA se escreve com Z. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. E CASINHA. O aluno escreve CASI e pára. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente. CA. como o ditado ocorre com bases fonéticas. Finalmente. dita pronunciando as sílabas isoladas.. o professor quer ditar a palavra CASINHA. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. O resultado é: CASIZICANHA. Por exemplo. e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. NHA. Em alguns casos. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. Começa falando-a normalmente. embora quase silabando as palavras. porque fica pensando: CASA se escreve com S. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. Porém. Quando presta atenção de novo no professor.

vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. aplicando-se. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave. Esse procedimento. nota-se hoje que. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. DEODÓ. como: DEODORO com DEEDÊ. com DÊ. soletrando. é raro as pessoas soletrarem. Assim: DEODORO com D de DADO. a primeira letra da palavra-chave. REORU. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. Na cultura inglesa. Ó. nesses casos. dizendo o nome das letras das palavras. Assim. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. e não TEODORO com T de TATU.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização. isso é muito comum. Resumindo. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata. Outros procedimentos podem ser observados. sem dúvida. quando eles os ajudam. No Brasil. que se supõe de conhecimento fácil. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. próprio das cartilhas.

da maneira como as escolas fazem ditados. chamar esses ditados de ditados semânticos. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos). e o aluno escreve BOLA. O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente. uma galinha. Na verdade. Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. Poder-se já. uma laranja. Por exemplo. talvez. com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. Além dos tradicionais erros de ortografia. desenha-se um pato. O professor desenhou uma laranja. etc. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. sobretudo. essa atividade não é um ditado.de alfabetização e. podem ocorrer erros de interpretação das figuras. e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. Anotações .

O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. Seria interessante que o professor. como da maneira como se estuda. fosse ensinando como fazer anotações. discutindo com eles como se fazem essas anotações. o que é mais importante. A escola precisa cuidar não só do conteúdo. Feito isso. por exemplo. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o .Finalmente. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando. outros de menos. uns copiam só questões secundárias. das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. passa-se a discutir o que cada um anotou. numa aula ou numa palestra. o que está a mais ou está faltando. o que é secundário. O professor pode passar sua experiência aos alunos. etc. A escola deixa que cada um se vire como pode. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. e é o que os alunos acabam fazendo. desde a alfabetização.

mas não é uma garantia disso. não é um bom exemplo. ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R. Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". algumas vezes. Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. esse tipo de asserção é um equivoco. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. mas PORTA não pode ser dita "póuta". uma vez que se escreve com L. Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão.que acontece nas salas de aula. Como se viu anteriormente. e o que encontram aí. quando o aluno escreve certo. A partir daí. . Assim.

de fato. Esses ditados são.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra. Em questão de ortografia. ou tiver dúvidas. Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. Todavia. formas de ensinar a fazer transcrição fonética. ou se está certo ou errado.. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto). como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro. para aplicação das normas dos alfabetos . porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve. Servem. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras. Ora. ainda. escrevendo do jeito que acham mais provável.. Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. Não há o que discutir.

Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. Não envolvem nada de ortografia.fonéticos de transcrição de pronúncias. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. todo som de "i" seria representado por i e somente por i. usando diferentes dialetos. Seriam escritos somente os sons realmente falados. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola. sem qualquer preocupação com a ortografia. do modo como fossem pronunciados. Feito esse tipo de exercício. Nesse caso. Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. as dificuldades geralmente crescem. que ele pode . o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar.

são feitos ditados apenas para controlar a disciplina. Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. para saber ortografia. algumas vezes. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- . mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu.observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. Ditado e avaliação Na escola. Como a escola não consegue se livrar da nota. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala. Na verdade. que o professor não sabe como aproveitar. os ditados são usados para dar notas. Na alfabetização. Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários. tampouco consegue se livrar dos ditados. fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima. a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. por mais cuidadosa que seja. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. É sempre um item indispensável nas provas e testes.

como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante. Nesses casos. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada. ou dar uma nota num teste. Nesse caso. Pode-se até fazer um campeonato. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. o significado da atividade também muda. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. Pelas razões expostas. o objetivo não é ensinar ortografia. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula.versa. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los. nem avaliar a lição anterior. Não só não fazem falta. inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente. para saber quem escreve mais palavras corretamente. como o enfoque muda. Entretanto.

cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. direitinho. se um aluno escreve LT. alguns professores acham que conseguem. e o aluno volta a fazer tudo de novo. saber se um aluno aprendeu ou não. Assim. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras. . é composta de famílias de letras. não sabe como tirar o aluno do impasse. em vez de LATA. o B de BARRIGA ou BEBÊ). E agora. Pega-se uma palavra. CPA. Na prática. Volta a explicar tudo de novo. "lata" se decompõe em LA + TA. diante desses casos. Por exemplo. do mesmo jeito. Essa questão é tão óbvia que o professor. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). e achase a letra correspondente. LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. se está progredindo ou não. Ora. MACC. que é analisada em seus componentes (sílabas).inadequados perante a linguagem. guiando-se pela palavrachave. CAPA. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. MACACO. através dos ditados. O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. E escreve LT Mas. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele.

principalmente o A. de fato.. Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas.. o ditado não faz sentido. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. através de exercícios de montar e desmontar palavras. existem as vogais. vai arriscando escrever também as vogais. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. além das consoantes. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. Para o método das cartilhas.então. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu. como vimos. aos poucos. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. porém raramente sabem interpretá-los. já viu que. Nesses casos. Quando o fazem. Por outro lado. Conseqüências dos ditados na alfabetização . o induz a isso. e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades. para se autocorrigir. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos.

não só do ponto de vista do que se faz na escola. mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola. auditivos e articulatórios. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes.Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. punir com cópias alunos indisciplinados. e classificados como deficientes mentais. como das conseqüências da avaliação. os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. etc. De todas as atividades da escola na alfabetização. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. fazer remanejamentos. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola. Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem. psicológicos. mais levianos. neurológicos. . Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas. mas também para reprovalos. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. na prática. Entretanto. porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis. Isso mostra que.

etc. A linguagem vive nos textos. Os alunos. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. pedagogicamente falando. .Além dos aspectos negativos já apontados. a destruição da semântica das palavras. eles mesmos as escrevem na lousa. a fala silabada. a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras. quer com equipes de alunos. Mesmo assim. os ditados. então. nesse caso. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. quer com indivíduos. apenas copiam do quadro-negro. juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. É claro que seria possível fazer ditados de textos. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão.

a melhor solução é a simples cópia. Depois. como no ato de fazer anotações ou cópia de informações. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. depois. Nesses casos. Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. Os alunos acabam errando demais. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. Na alfabetização. Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. procede-se a uma discussão geral e. Feita a atividade. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados. essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia. invertem-se os papéis. à análise com comentários sobre cada caso. Além das finalidades.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis.

o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou.se deve fazer. de certo modo. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. Em suma. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. quer na Mesopotâmia. Assim. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. Inúmeros documentos mostram que. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem. as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas. com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. No Museu do Louvre. CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. na Antiguidade. a . nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. encontram-se trabalhos de cópia. um procedimento que ofende a quem escreve. no Museu Britânico e em outros. Para esclarecer como se escreve uma palavra. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. se for uma simples falta de compreensão. além de aprender como o sistema de escrita funcionava. repetir o que se disse de maneira mais lenta.

Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. objetivo principal da tarefa de cópia. ou seja. Ele tinha diante de si. quer pelo contexto. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. para guardar . Como falante de grego. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. mas não é a única nem a principal. numa tábua. que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário. nesses casos. Na Antiguidade. por exemplo. comparar o que fez com o original. portanto. Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. finalmente. o alfabeto grego. não se copiava. precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. desenvolvia a habilidade da leitura. aprendia como decifrar o que copiava e. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras.

pelo contexto. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. Isso é importante. a deduzir. paredes. Portanto. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. copia e avalia o resultado obtido. uma palavra que encontrou escrita em objetos. Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove. a criança toma iniciativas. faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. por si só. traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. Alguns professores consideram que a cópia é um simples .um documento. Embora a criança. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. livros. a juntar informações. Ao proceder assim. etc. o simples ato de se copiar um rótulo. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo. Esse tipo de atividade. usada logo no início. não consiga decifrar o sistema de escrita.

exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. com que letra começa a palavra. Escrever uma palavra ou frases. ocasiona esse tipo de problema. se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. que som tem determinada letra naquela palavra. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. etc. a cópia é uma ótima estratégia de ensino. O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que. poderá ter como reação um ato mecânico. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. Por isso. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. ou seja. na tarefa de copiar. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente. vão procurar descobrir que letras copiaram. vão precisar saber o que está escrito. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. Isso é verdade e pode acontecer. . que letra vem depois. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo..

fazendo comentários orais. separando assim desenhos de letras. copiando ou não. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. desde então. Em geral. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas. como também de copiar material escrito. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. apesar de suas limitações para usar o lápis. para sentir um pouco o que é escrever e ler. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula. letras e até palavras. irão colocar apenas material escrito. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). Numa folha de papel. Ao fazer isso. e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. . Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. Seria bom que essas crianças recebessem. fazem o que chamamos de rabiscos. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. brincam não só de imitar os adultos que escrevem.

Ainda bem no início. Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel. uma espécie de cópia. usados. por exemplo. nomes de colegas. que são escolhidas e montadas em lugares próprios. além de letras. pois. animais e objetos. Cada página pode ter um título: . que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. acompanhadas <301> da colagem de figuras. Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes. eles podem confeccionar um álbum de letras. por exemplo. sinais. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa. sendo. marcas. O professor irá solicitar que usem. útil e mesmo necessário no início da alfabetização. recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante. No mundo da escrita em que vivemos. como também através de letras soltas. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). etc. os alunos podem copiar. Copiar. juntamente com os desenhos.. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. há muitos pictogramas.

Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores. letra da propaganda Y. seguindo o padrão gráfico das letras já feitas. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. Às vezes. Os títulos podem ser obtidos de outro modo.letras de fôrma maiúsculas. etc. O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. Em vez de copiar graficamente. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. listrada. Nesse caso. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. usando a imaginação: letra do jornal X. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. mais tarde. quando estiverem mais adiantados. como se fossem figurinhas. letra florida. minúsculas. letras cursivas. Cada . porque elas não aparecem no texto consultado. baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos. o professor pode propor o dicionário da classe. por sua vez. os quais.

etc. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. O ou U. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I. e acompanhada de A. Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada. Ligado às atividades de ensino. o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. e. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. Por exemplo.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha. numa coluna. o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. na qual irá escrever uma palavra. ilustração. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares . propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas. ao mesmo tempo. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons. em outra coluna. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. seguindo as instruções do professor quanto a layout. se o professor estiver estudando a letra C. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas.

próprios de cada um na sala de aula. Melhor seria. como faz o método das cartilhas. Atividades como essa. que misturam escrita com desenho (quadradinhos). Esse aluno. e que. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel. dando a impressão de que as aprendeu. Cópia não é um reforço da aprendizagem. Nesse caso. o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. na hora do ditado. . Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. memorizar informações sobre o que fez e. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. porém. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. uma vez realizada. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. pode servir como reforço da aprendizagem. então. pode esconder o fato de não saber ler. quando todos estão sentados.

não está nas atividades em si. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. e ele não saberá o que fazer. Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. é essencial. Já dizia Dante . apenas decora o que lhe apresentam. quando. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e. na verdade.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado. desse modo. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos. mas no método das cartilhas. Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. na verdade. transformando-a em leitura. O problema apresentado aqui. Por outro lado. esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. No entanto. sem entender verdadeiramente.

Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. Como acontece com muitos fatos escolares.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo. mas é muito usada por artistas. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. incluindo não apenas obras literárias. Infelizmente. esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. Desde a alfabetização. mas também científicas. Citar um autor ipsis litteris. procura-se reproduzir o que se quer decorar. a escola deveria cultivar a memorização. um texto em prosa. Faz. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto. a escola usa uma estratégia de maneira . Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e.se isso em círculos cada vez maiores. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos. até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória. um diálogo. desde as primeiras séries. escrevendo. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. <304> de cabeça. depois.

Copiar informações. ou algo específico de uma lição. Por essa razão. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. se o aluno não presta atenção às explicações do professor. de livros. por isso. por ser seu contexto correto. prejudicando-se muito nos estudos. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima. para punir alunos indisciplinados. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro. Na escola. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo. concluindo que não serve aos seus propósitos. às vezes. passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. quando deveria empregá-la. utilizase dela. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. depois. textos.inadequada num determinado momento e. etc. eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. se o problema for de indisciplina. de apontamentos. não o faz. fazer cópia pode ser uma boa atividade .

das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. é a transliteração. passando-o para outro tipo de alfabeto. . que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. ligada à cópia. corresponde à letra n cursiva.de iniciação ao mundo da leitura e escrita. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M. o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras. quando a criança. além de copiar. Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. Assim. é importante que peçam cópias. Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início. põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura. o traçado das letras maiúsculas. por ter somente "dois morrinhos".versa. seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas. passando da letra cursiva para a de fôrma. minúsculas. <305> Outra atividade importante na alfabetização. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável. Por exemplo.

composta de i + v. não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita. o sc. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. deverão passar da . Como eles não sabem que palavras estão escritas.). mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. Por outro lado. revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever. nesses exemplos. um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. Quando aparecem erros como os apontados acima.Erros de cópia. etc. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. fornecido pelo próprio professor. analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los. o nh. Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas). Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. etc. Para isso.

Os franceses e os americanos. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu. ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para . as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico. Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. ao encontrar material que exemplifique. Depois. Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. por exemplo. De acordo com a tradição educacional de cada país.escrita cursiva para a escrita de fôrma. escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma.

O objetivo aqui é experimentar. caso contrário.analisar os erros e as dificuldades encontradas. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos. usa outra construção sintática. passa-se ao aluno um exemplo menos interessante. <307> . andando junto com o autor na elaboração de um texto. Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. sua organização e desenvolvimento. O aluno troca palavras. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos. em vez de ensinar o melhor. Por isso mesmo. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. A escola precisa aproveitar mais o que faz. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original.

Em geral. dando ao aluno uma frase para ele copiar. mas a semântica é outra. religiosa. Através do exercício de exegese. Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. de fïsica). conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. as várias etapas que o . Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos. textos de reflexão filosófica. etc. substituindo uma ou mais palavras que ele queira. às vezes. como problemas (de matemática. Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa. agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele. enigmas. Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. praticada em atividades de interpretação de texto. Éo que se chama de exegese de um texto. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma. ou substituindo progressivamente todas as palavras.

um texto e. um pensamento. Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. Copia-se o que se ouve do professor. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. um conteúdo qualquer. uma idéia de um livro. até mesmo.problema exige vão se apresentando mais claramente. Isso se aprende também na escola. Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. uma piada ou um simples nome. A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. com o uso comum de computadores. aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante. Hoje. por razões sentimentais. inclusive a ligação de uma parte com outra. Às vezes.

A prática. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. além de colecionar objetos. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. pode colecionar informações sobre passarinhos. mantendo um arquivo com recortes. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. etc. em primeiro lugar. crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito. esse banco de dados vai se enriquecendo. até poesias. O professor deve. nesses casos. . sempre ensina mais e melhor do que a teoria.informação em arquivos. e se a escola souber aproveitar isso. desenhos. fichas com anotações. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente. também. A medida que o tempo passa. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. fotos. Assim como um aluno coleciona selos. As crianças adoram colecionar. Através de cópias. dependendo menos da escola. flores. árvores. desde formas gráficas de letras e alfabetos.

<310> . etc. porque associam essa tarefa à de cópia punitiva. também merece cuidado especial. corrigir e melhorar e. A educação não germina em meio à desorganização mental e material. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever. por trás da atividade de estudar. envolvendo isso tudo. Como se vê. Como se viu neste capítulo. caixas. executar uma versão preliminar num rascunho. das coleções e dos álbuns. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. A distribuição espacial do material nas fichas. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição.Classificar. além do conteúdo das matérias. finalmente. folhas. rotular. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. A organização material é prova da organização mental. <309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. passar a limpo. Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social. há muito trabalho de cópia e.

Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. a decifrar a escrita. sabe decifrar a escrita com facilidade.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. ou seja. Na prática escolar. . Trata-se. e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. Alfabetizar é. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. então. ensinar alguém a ler. na sua essência. vista sob esses dois aspectos. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária. Na alfabetização. da leitura para conhecer um texto escrito. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura. na maioria das vezes. por isso o termo "leitura" adquire outro sentido. Os próprios textos escritos são. e não o inverso. ou seja.

parece muito fácil e natural. a passagem pela estrutura lingüística é essencial. que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras. Além da decifração Quando lê. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras. para chegar a esse ponto. em primeiro lugar. Sem . Para quem já sabe ler. o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. função e usos da ortografia. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. a diferença entre desenho e escrita. e não de outra maneira. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. apesar disso. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento. é preciso adquirir certos conhecimentos. uma pessoa precisa. Em ambos os casos. entre outras coisas. Entretanto. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir.Ao longo deste livro.

e de forma coesa e coerente. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para . pode ser feita por etapas. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo. porém. não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. Este último caso acontece. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. As vezes. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto.isso. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. portanto. não existe linguagem e. segundo as regras dessa língua. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. A decifração. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. Quando uma pessoa fala espontaneamente. por exemplo.

uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. Isso. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler. além de falante.pronunciar as palavras. do controle sobre aquilo que se diz. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. se apropria das idéias que descobriu no texto. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. processar a compreensão da linguagem. Assim. Contudo. como a linguagem tem todos esses aspectos. No entanto. acontece apenas como um processo de feedback. mas também de si próprio. toda pessoa. pronunciá-los em forma de palavras. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. a partir dessa audição. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e. <313> Perdurando essa prática. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. e acaba sendo um mau leitor. elabora . ou seja. obviamente. Portanto.

Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere. algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. nota-se como se pode ler de várias maneiras. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. talvez não. passa a dizer o que leu. Talvez isso seja irrelevante. pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo. mais fácil torna-se ler novos textos. o leitor pode conhecer todas as palavras. saber como pronunciá-las e não entender o texto.todos esses conhecimentos como se fossem seus e. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. Além disso. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. Quanto mais se lê. Por outro lado. Dependendo do texto e do leitor. Se se deparar com uma palavra desconhecida. terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. X). seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. Nas explicações dadas acima. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia. dependendo do que se encontra pela frente.

que varia de falante para falante. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala. Em ambos os casos. Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto. A única diferença entre elas acontece no momento em que. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Certamente. inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito. quando lêem para si próprias. as leituras .de saída. o planejamento lingüístico deve ser completo. Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia. quando a leitura se realiza em voz alta. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade.

mesmo em silêncio. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente. ao aprender a ler. pode-se ler em outros dialetos. através da leitura.feitas em silêncio são assim. Isso se dá ao ler. do mesmo modo. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos. Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. mas todo um processo de produção de fala. Assim. mas a base dos . acaba tendo. o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. futuramente. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa. se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada. Por outro lado. recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar. pois. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica.

no meu dialeto. mas deve chegar o mais próximo possível disso. A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. ler não é falar. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético. Quando leio Vinicius de Moraes. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. Leio no dialeto que desejo. Ao contrário. baiana ou gaúcha ao texto. quanto menos . Castro Alves ou Érico Veríssimo. <315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. na língua e no dialeto retratado. Assim. é oral. dependendo de como o professor lida com eles. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. Esses são dois pontos de suma importância na escola e. que. não me esforço para dar uma pronúncia carioca. reproduzindo fielmente os sons representados. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz.dois é a língua. Assim sendo. na sua essência. E os portugueses lerão meus textos com sotaque português.

ipsis litteris. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. mas também a semântica. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser.alguém se preocupar com a parte fonética. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. perdem o fio do raciocínio. . mas o leitor fica divagando. Quando se lê uma poesia ou um romance. Como vimos acima. Por outro lado. entender o que se lê. A leitura. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto. Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. também. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. O leitor interfere no literal do texto Na leitura. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. truncada e. Afinal de contas. dessa forma. ao decifrar o texto. voando nas asas da imaginação e da fantasia. mais fácil fica acompanhar a parte semântica e. muitas vezes. A fala deve ser monitorada pela semântica.

A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo. dizendo tudo em palavras e em voz alta. ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. Esse tipo de interpretação está equivocado. conforme . No início da alfabetização. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando". implica algumas restrições. Diante de tais fatos. as crianças ainda não sabem disso e. Na nossa cultura.<316> A leitura em voz alta. sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. Por exemplo. por essa razão. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. ao lerem os primeiros textos. existe a lei da fidelidade ao literal do texto. o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito. todavia. que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas. Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso".

Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo). É preciso que o professor alfabetizador. sem se preocupar com os outros aspectos da leitura. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia. Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. Assim. diante de um público. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado.exigência da nossa cultura. obrigando-o a ler apenas o literal. alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. A lei da . Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto. O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. Porém. ela em geral pune esse tipo de leitor. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. naquelas circunstâncias. desde o início. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. para quem um texto tem de ser lido literalmente. mas no dialeto padrão.

mas também com a sua própria interpretação. esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. a linguagem se perderia num mundo de fantasias.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. da mesma forma. Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. para quem escreve e quem lê. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através . Sem o princípio da literalidade. Porém. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. tornando-se por sua vez uma realização literal. Contudo. O falante diz um enunciado a seu modo.

Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. mais propriamente. como por exemplo locutores de rádio e de televisão. esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor. mas não em outras situações. através de uma leitura especial em voz alta. porque. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. Algumas vezes. de leitura para um público ouvinte. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. O professor não deve se preocupar com isso. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. Na nossa cultura. a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se.da fala do leitor (leitura em voz alta). . desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. A escola deveria seguir esse procedimento. Os professores devem incentivá-la o mais possível. se a leitura estiver sendo feita individualmente. Na vida real. para um melhor desempenho.

podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. mesmo na alfabetização.. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. Nesses casos. e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. Da mesma forma que o ditado e as notas.. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. . Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados. alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso. como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta. Por outro lado. esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores. por exemplo. através do desempenho dos alunos. Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita. simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito.

Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos.. Já que eles sabem o texto de cor. depois decorá-lo e. para não criar uma pronúncia artificial. Nesse caso. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. como em qualquer atividade de leitura em voz alta. somente então. durante a leitura de um texto. Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . ela repete sem dificuldade. Alguns professores <319> antigos recomendavam que. lê-lo em voz alta. depois. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura. o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando. ler acompanhando as palavras (não as letras). basta estudar um pouco e. Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso". O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito. Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto.letras de música ou poesias..

dominando inclusive certa fluência na leitura. porém. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. externamente. Tipos de leitura No fundo. procedendo daquela forma. Mas. Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. assumam características diferentes em . Simplesmente precisa rá praticá-la e. ao chegar nesse ponto. num primeiro momento. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. com o tempo. embora. o professor permitirá que ele leia para a classe. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. A medida que os estudos avançam. Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. A escola.público. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e. se não estiverem lendo de maneira correta. o aluno deverá preparar a sua leitura. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. Isso requer um certo estudo prévio. tudo estará em ordem. não apresenta problemas de leitura. em vez de decorar o texto. todos os tipos de leitura são da mesma natureza. e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior.

diversas circunstâncias. parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. Com relação à natureza dos textos. uma leitura interpretativa. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. ainda. Neste último caso. como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. Quando se lê num sistema ideográfico. a leitura pode ser informativa. segundo o modo como cada um o interpreta. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado. representado. etc. a outros tipos de leitura. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. Um terceiro tipo de leitura. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem. pois. estudado. para divertir. Como vivemos num mundo caótico de escrita. Quando se lê num sistema fonográfico. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê. ou seja. que também já foi apresentado anteriormente. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões. Temos. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . Um estudo mais aprofundado levaria. etc.

as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento. refletindo-se sobre um . até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia. Infelizmente. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e. o uso de rébus. a ortografia. as grifes. os sinais. Os símbolos. No mundo fora da sala de aula. com freqüência. os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro. não raramente. as letras. Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. a escrita apresenta-se de muitas formas. Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. ao sistema fonográfico. ao sistema ideográfico. Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. somente para o aspecto literal do texto. ao sistema fonográfico.muitas maneiras. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. Para muita gente.

por exemplo. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua. a não ser no Quênia e em outros países africanos. fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". por essa razão. um professor não poderia usar a palavra ZEBRA. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa. no entanto. Para um aluno ler o que está escrito. estudá-lo fisicamente. no sentido técnico. não precisa pegar um pote. a palavra POTE. etc. Esse uso metafórico da leitura. um dia. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa.. a linguagem representa o mundo no pensamento e. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para . algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. Assim.determinado objeto. Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora.. Assim. e não de um processo de leitura. "ler as mãos". Em decorrência de idéias como essa. "ler as estrelas". Alguém. apalpá-lo. Isso tudo é um uso da linguagem. saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante.

A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. ou. não basta detectar apenas os significados literais das palavras. as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . tanto quanto as frases. mais tipicamente. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita. Basta alguém explicar o que significa. os pressupostos. O testemunho é algo de importância essencial na vida humana. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim. a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). Por isso. geralmente. Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo. Porém. Num texto. as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. A literatura. como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras.aprender a palavra "elefante". a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto.

outra palavra. ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que.. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha. o aluno diz "kaça" ou "çeaça". quando são solicitados a ler. portanto. põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala. O professor deve. como não sabem exatamente o que estão fazendo. seria nas entrelinhas da própria fala. não sabendo decifrar a escrita. mas. Por exemplo.. não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. de concatenação ou de compreensão.um texto escrito (na verdade. quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. desse modo. Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar. ao ver a palavra CASA. e não apenas da escrita). . Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto.

la-ta Esse aluno sabe ler. Assim como atribuímos palavras às coisas. linhas de ônibus. o que resulta. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. no seguinte: "lêa-lá. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. não sendo um conhecimento produtivo. por exemplo. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. como ela não sabe decifrar a escrita. Porém. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu.Esse caso é semelhante à leitura incidental. etc. Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. tê-a-tá. do contrário eles se acomodam. como logotipos ou marcas de produtos. às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler.

então. porque sua leitura não lhe traz significados. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira. mesmo curtos. tal aluno não aproveita o que lê. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. O professor. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada. nesses casos. o que impressiona bem o professor. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. Alunos que apresentam problemas de naturalidade. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. apenas sons da fala. porém. O leitor é. um simples decodificador fonético da escrita.descobriu. de . Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas.

como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . Pode-se fazer isso de vez em quando. a leitura de um texto por várias pessoas. Ler textos com muita. de concatenação. enfim.fluência. não é uma boa estratégia. Criança gosta de ler textos com ilustrações. há apenas um leitor e. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura. sendo que. Porém. em alguns trechos. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura. pelo contrário. de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. podem ajudá-la. Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade. ou seja. especialmente quando a classe não gosta de ler. Essa prática é muito interessante. Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. Alguns professores gostam de promover leituras coletivas. em outros. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos. pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. vários leitores em coro.

Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. Assim como o ditado e a cópia. a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. reviver sentimentos . inclusive uma revisão histórica. "Sinos de Belém". para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. Ideografia e leitura Pela própria natureza. sem entrar em considerações específicas.Recife". Há vários pontos importantes que é preciso considerar. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar. meditar. A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto.

que significa "som" -. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). etc. falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. "televisão" significa "algo que se vê longe". embora. tem o significado de "som longe". a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra. portanto. coisas ou fatos que a fotografia evoca. persiste até hoje. procurando recuperar formas e significados antigos. Logo se vê que. que inclui outra palavra grega . Por exemplo. por exemplo. "chuva" se dizia pluvia e.fortes de patriotismo. Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. as pessoas cultas discutem o significado das palavras. no caso da palavra "pluviométrico". Portanto. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica. em "televisão" e "telefone". lembram que. uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar. <325> Esse tipo de escrita. "Telefone". Uma leitura literal. dos mais antigos. Desde os tempos mais antigos. para explicar a palavra "pluviométrico". nesse caso. em latim. podem compreender melhor o uso das palavras na sua época. que significa "longe". a revelação etimológica . Portanto. Assim.fone.

e dissesse apenas "algo que se vê longe". embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe". Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . dificilmente se faria entender. Fora do mundo escolar. Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. mas não ajuda muito. mesmo quando faz pouco sentido. Porém. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. nem é conveniente. muitas vezes. por um lapso de memória. como no caso de "televisão" e "telefone". Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". dizendo a origem das palavras que as compõem.ensina mais grego do que português. parece realmente ridículo. esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos. Se alguém. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e. para estudar o uso atual das palavras na língua. fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico.

A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). Qualquer texto . mas existe de maneira própria. menos ainda grego. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. portanto. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso. ou seja. O português tem vínculos com essas línguas. Essas palavras devem ser entendidas. mas no segundo sim. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. não mais com textos necessariamente antigos. mas não culposo. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". dentro do contexto legal em que se inserem. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. que passou a ser feita. A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese. mas devem ser entendidos corretamente. Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. são muito importantes. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. não há crime. Pelo contrário.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua. posteriormente. No primeiro caso.

não só a especificação de palavras. Porém. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. mesmo na interpretação literária moderna. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época. a sociologia e a psicologia. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita. ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. a interpretação de texto enriquece-se. Posteriormente. Aqui já não há mais exegese. No caso das obras literárias. os comentários (exegese) abrangem. por vezes. pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. sobretudo a filosofia. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos). encontram-se. . envolvendo textos literários. que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu.passou a servir para um trabalho de análise exegética. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. uma espécie de reescritura (sem a arte do autor).

Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. houve de fato uma interpretação. cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. Nota-se. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. No primeiro caso. sempre. por exemplo. As respostas. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. Naquela época. Porém. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. mas. necessariamente criativa e individualizada. podiam até vir dadas de antemão no . no segundo caso. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários. química. A interpretação de texto deve ser. física. portanto. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. geografia. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. necessariamente. bem como história e português.

Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. Análise do discurso Há. psicológicas. por exemplo. como reflexões filosóficas. ideológicas. etc. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. nada de pesquisa individual sobre o assunto. em todas as matérias. fruto de pesquisas sérias ou não. Nada de interpretação. mas uma análise do conteúdo lingüístico. . psicológico. ainda. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta. Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita. nos livros didáticos e nas aulas de português. e.. ideológico. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola. Obviamente. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. filosófico. nada de opinião pessoal. que são explicitadas pelo leitor que interpreta. principalmente. Certas análises do discurso.Manual do Professor.

É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto. etc. etc. que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. como acontece nos diálogos.).). A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão. psicológicas. não as noções filosóficas. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras. etc. além de estar inserido num contexto (pragmática. etc. Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas. etc. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto. fonologia. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto. ideológicas. morfologia. Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação. Lingüisticamente.psicanalítico. . debates. sociolingüística. conversas..

frases. ideológica. ideológicas. uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas.. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. comentários pessoais dos mais diversos tipos. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras. Por outro lado. estudos etimológicos. etc. . ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. quando uma delas predomina. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. análise do discurso de base ideológica. mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem. psicológica. análise exegética. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave. Em resumo. Por exemplo. pois. extrapolações de natureza filosófica. Porém. argumentativa ou simplesmente estrutural. temas ou assuntos tratados.Os pretextos da interpretação de texto Pode-se. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. etc. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. lingüística textual e análise da conversação. desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem.

da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos. dos lingüistas. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. Por essa razão. em última análise é tarefa da lingüística. portanto. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. por outro lado.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto. por um lado. é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere. fácil e óbvio <330> . tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem. para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos. No mundo todo. Em outras palavras. Se. formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes.

essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez. isto é.. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto. Na verdade. Na Bíblia. É preciso interpretar um texto? . sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. por exemplo. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. toda descoberta feita pelo homem nas ciências.como andar e comer. Caso contrário. Isso traz uma nova dimensão ao assunto. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes. e essa é uma atividade tipicamente lingüística. Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição.. colocar as idéias em palavras. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. Somente quando surge uma dúvida específica. Aliás. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto. Sem esse pressuposto. supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente. se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo.

Nesse último caso. notamos que uma pessoa conversa com outra e. No fundo. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. Porém. como. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. certo tipo de pergunta. conduzindo um assunto. Por mais pobre. denota que está acontecendo algo de errado. não. ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis. Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. Em outras situações da vida.Ao observar os usos da linguagem. miserável e . ou pensa que está entendendo errado. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. quando alguém está assistindo a um filme. agindo assim. no caso anterior. ou visitando um museu. seria uma forma de negar a racionalidade do homem. ou mesmo uma quantidade grande delas. por exemplo. a um programa de televisão. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não. Quando o interlocutor não entende algo.

se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. isso pode até ser respondido. se movimentar. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. e. e nenhuma informação nova é solicitada. que pede para ela dizer quem comeu o bolo. Entender o texto no seu contexto Chegamos.estúpido que alguém seja. isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. assim. É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. Por isso. perguntar às vezes pode ofender. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. ou ainda. uma ofensa. nesse caso. se o texto for oral ou escrito? . as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder. Mudando um pouco o contexto. sem dúvida. que tipo de bolo ela comeu. parar. menosprezar e humilhar seu semelhante. depois dos exercícios. desprezar.

as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem. que entendem errado o que ouvem. Portanto. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário".Pelas considerações feitas acima. come tem enganos com a linguagem. Na verdade. apesar disso. um falante de português como ele. <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta. No entanto. cada um entende um texto. seu ouvinte. agindo assim. mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido. sem saber explicitar as regras que a regem. e assim por diante. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. inserida no mundo. seja ele oral ou escrito. Vimos também que. entende o que foi dito.

para que esta seja um instrumento útil aos homens. como alguns gostariam que fosse. inequívoca e completa. Um desses limites é a interpretação literal. Em outras palavras. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações. Portanto. no sentido literal do que dizem ou ouvem. falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. . Os usos sociais da linguagem. a palavra "pé". Por interpretação literal.interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. entenda-se o uso comum que se faz das palavras. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. todavia. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham. o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto. A linguagem não é apenas lógica. tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. aqui. porque isso também faz parte das funções da linguagem. encarregam-se de estabelecer certos limites. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou".

Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". é levar em conta algo que não foi dito. nem pensado. para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. depois. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. Literal. Para entender o que se lê. nesse caso. interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou. o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. do jeito que está dito. significa o que está dito. <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. ou seja. Pensar em parte do corpo. do mundo em que o texto se insere. de coesão. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. uma vez que ela possui esse significa do. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si. portanto. coerência e. no máximo. cada um usa a linguagem segundo . sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. quer com relação aos usos da linguagem. mas simplesmente associado à palavra "pé". referencial. mesmo. o que se ouve ou. Quando o contexto lingüístico não é favorável. Em outras palavras. mas em contexto muito diferente. de solução duvidosa.

como os de matemática. avaliar a aprendizagem. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . Essa avaliação. sem dúvida alguma. Se fosse diferente. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. é preciso entendê-la corretamente. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. Isso inclui. história. a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. é algo fascinante.seu próprio metabolismo intelectual. Não só faz sentido. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. geografia. se isso é assim. faz parte das preocupações da escola. como é necessário que o professor faça interpretação de texto. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. quando se trata de textos científicos. Ora. etc. Porém. Porém. para checar se os alunos entendem o que lêem. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. entre outras coisas. Do jeito que ela se apresenta. desafiador e maravilhoso.

a cronologia histórica. quando muito. um passatempo.de interpretação de texto. Em outras palavras. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. e um texto puxe outro. mas deve. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. as características geográficas. mais uma vez. principalmente. ensinar como estudar esse conteúdo. é simplesmente um exercício idiota ou. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente. Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. um trabalho leve a outro e assim por diante. Se errar. Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. ela precisa cuidar muito . Por trás dessa discussão. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro.

de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. outras pessoas irão achar que eles são imbecis. se passar de ano pensando que aprendeu. Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas. no fundo geralmente descabidas. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. falta a reflexão criadora do aluno. Nesse tipo de atividade. há sempre a possibilidade de enganos. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura.atentamente do modo como os alunos estudam. Quando se fala e se ouve. Isso faz parte dos usos da linguagem. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los. a partir de coisas velhas que aprende. porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e. conseqüentemente. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. Esse é o jogo da linguagem. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido. Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. não necessita fazer uma lista de perguntas. pior ainda. Por isso. <335> .

Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. Portanto. Além disso. é imperativo que outros conhecimentos. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias.O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas. quer para aprender sua natureza lingüística. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes. como vimos. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. Nesse caso. além dos detectados no texto. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo.

uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias. o conto. Pior ainda. esse tipo de texto é o menos recomendável. resolver seus problemas escolares. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. Ora. Resumindo.presumivelmente). a piada. Textos científicos. esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. Mais uma vez. deve se dizer que esses . etc. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos. que eu saiba. como a poesia. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios. Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. A formulação de problemas de matemática tem características próprias. os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila.

se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido.professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. E uma prática . é natural que pergunte. Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. não pode tomar a iniciativa antes deles. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando. Por essa razão. Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. procurando no dicionário ou de outras formas. conseqüentemente. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. Então.

é o debate. um texto literário pode servir para discutir literatura. um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia. O professor pode estudar a estrutura de uma piada. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. Nesse caso. Determinados assuntos podem ser analisados. observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. o texto representa apenas uma . diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto. como cartas. pois. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos.saudável que deve acompanhar toda leitura. Estamos. Assim. Em lugar disso. estudo técnico sobre o assunto. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. <337> e não com todo texto que se lê. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. Obviamente. etc. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. que a escola deve cultivar com carinho. notícias de jornal.

e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola.das idéias em discussão. para estudar. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. o que causa freqüentemente confusões. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. apoiar ou rejeitar o que o autor disse. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo. Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. instruções. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação. estranhas conceituações e conclusões falsas. dessa forma. Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram. elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. para se . Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. levando em conta o que ouvem e. como também. mas irão. pelo contrário. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto.

Uma prática muito usada por alguns professores. em cadernos de anotações pessoais. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. Esses esquemas devem ser personalizados. colecionando <338> esses excertos. portanto. é partir de um texto para fazer outro. e. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. Em lugar disso. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. depois. o professor promove a atividade. versos. seja recontando uma história. e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário. etc. se divertir. seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias. e não só dos de português e de alfabetização. pensamentos. descansar. etc. cada um faz de seu modo. escreve com as próprias . Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. Aqui também.distrair.

Os textos da interpretação de texto Finalmente. De modo geral. o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos. como atividade individual. pois ensina as características dos textos. Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. especialmente na alfabetização. Esse tipo de trabalho é muito recomendável. Na alfabetização. Um professor alfabetizador não precisa. Alguns escolhem os textos semelhantes . porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. Se os textos forem os de leitura comum. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem. Ou então.palavras o que se lembrar do que leu. o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível. na verdade. se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico.

ridículas ou. Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. tem senso da realidade. . Todo o mundo. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. quando muito. que tratem de coisas sérias. mesmo as crianças. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça. histórias para boi dormir. Além desse tipo de livros. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso.aos <339> encontrados nas cartilhas. à moda dos contos de fada modernos. mesmo os adultos. que são os piores textos já produzidos por alguém. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. Todo o mundo. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. Destes. a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios. como se costuma dizer. vive no mundo da fantasia.

porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. Para a escola. porém. Felizmente.A partir de 1964. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA . os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. A salvação não é fazer interpretação de textos. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem. Apesar dessas facilidades atuais. Nos últimos anos. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional. já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores. hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. sobretudo nas primeiras séries. Com isso. mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores.

O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. Havia também o galego. Durante essa época. como língua. Logo depois da expulsão dos árabes. entre as pessoas cultas. nas escolas.A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. hoje território espanhol. depois. nos livros e nos documentos religiosos. firmando-se inicialmente como dialeto e. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. além do basco. O latim foi se fixando nessa colônia. Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. uma ou mais línguas iberas. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. no dia-a-dia. implantando a cultura latina entre os povos da região. antes da chegada dos romanos. o latim era usado nos documentos oficiais. ao norte de Portugal. Em Portugal. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . Em Portugal. no final da Idade Média. falado na Galícia. sempre pobre e ignorante. O povo. certamente era falada alguma língua celta e. adquirindo seu sotaque próprio. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. na Espanha.

por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. dando a impressão de que a fala não mudou muito. uma espécie <342> de latim estropiado. Naquela época. deixando o latim para algumas obras . tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. como sempre. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. Esse é um método não muito seguro. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos. mas que permite um começo de pesquisa. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. que se tornava notório na escrita. que antes era o latim clássico. Por outro lado. de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. A ortografia. o espanhol. lá falava-se o romanesco. as pessoas sabiam que.do latim clássico. se o latim podia ser escrito. resiste mais às variações dialetais.

tem dito que o documento mais antigo em língua . onde havia centros culturais de grande importância na época. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. na França e sobretudo na Espanha. fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. sobretudo nas relações entre letras e sons. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino. a adaptação das línguas apresentou muitas variações. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. como o português não era latim. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. passaram a usar esse sistema para escrever. revelando uma espécie de transcrição fonética. No princípio. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis. No nosso caso. misturada com representações ortográficas próprias do latim. depois.científicas. Somente a ortografia iria. José Lei te de Vasconcellos. Esbarrando na variação dialetal.

Sancho Diaz testes.. Trata-se de um título de venda. Menendus Sanchiz testes.portuguesa. ÁMEN. Vermúú Ordoniz testes.. Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. A ortografia que se vê no texto pode . Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE. (a letra u é igual à letra V). AMEN. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. Nesse documento. e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil. contando o descobrimento do Brasil. Gonsaluus Diaz testes. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila". que é bem curto. Stephanus Suariz testes. misturada com o latim da época. data de 1161. Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit.

"grosura" e ' escritas com apenas um S.. Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. a palavra "cubertura" escrita com U. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador. Compare "demtes" com "dentro". entre outras coisas. "coussa" escrita com SS. Há ainda fatos de segmentação. Observe.. Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta". e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro.ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. A questão da carta . mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber. os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas. "bramcos". como "os beiços" e "obeiço". amdam nuus sem nhuua cubertura.

A comissão . com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas. na história da língua portuguesa. Quanto mais se fazia nesse sentido. mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. Certamente. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. no final do século passado. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado. veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. percebia-se logo que piorava. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho. é gente interessada em mudar a ortografia. Gonçalves Viana. Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. Ainda hoje.não se refere apenas à ortografia em uso na época. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. Carolina de Michaelis. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras.

Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. PROSSIMO (próximo). — contraproducente. sob a presidência de Machado de Assis. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. ou ainda: TAM (tão). Mas ele propunha coisas mais audaciosas. A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. etc. O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras. ELEJER (eleger). . EMQUANTO (enquanto). sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras". PAJINA (página).encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. ÇAPATO (sapato). julgando-a. Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque. A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. a recém-criada Academia Brasileira de Letras. como tenho demonstrado. aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. como escrever FICSO (fixo).

apesar de tudo estabelecido. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. Curiosamente. chegando-se a um acordo em 30/04. A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. com a participação das duas Academias. Em 1929. O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911. por iniciativa do acadêmico Estrada. As reformas da reforma ortográfica Em 1915. Em 1919. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas. a reforma acabou aprovada com emendas. Silva Ramos. anti-patriotaa. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo . descriteriosa. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931. antiphilosophica.selvagem. inoportuna. da Academia Brasileira de Letras. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão.

também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940. Dada a nova situação. porém. O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. curiosamente. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. recomeçaram as discussões nos dois países. Em 29 de dezembro de 1943. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. que. fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. ar quivado. mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias. no entanto. O . de 23/02. que foi. reunid em Lisboa. entregue em 21/12/1937. Em 1938. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência. Aprovadas as Instruções (bases ou regras). Em 29/01 de 1942. elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa.projeto de reforma ortográfica. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937.

A briga continuava forte fora das Academias. publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das . modificando bastante o de Portugal. com o de 1943. Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. revogando o decreto-lei 8 285. em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. Por isso. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. modificando o uso mais comum no Brasil. Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal. em 1955. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo).decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. Desse modo. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário. O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso.

APTO. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. Em Portugal. como em FACTO.ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. Na prática. Depois de tantas reformas. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . pelo menos do jeito como aconteceu. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. mesmo dos políticos. Dessa forma. <347> Como vimos. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. E quem escreve errado. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória. ACTO. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. Deveria ser objeto da educação. mas como. ou seja. RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. as "consoantes mudas". escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas. num país como o Brasil.

Y e que. Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. por exemplo.decidiram (ou que o cartório registrou). de tal modo que na prática nada muda. não deveriam ser usadas. cidades. nesses casos. Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos. Nomes próprios de lugares. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. Uma vez feita uma mudança. também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia. Do mesmo modo. Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". aparecem as letras K. Na verdade. etc. . de acordo com as normas vigentes. haveria outras regras semelhantes. Todavia. Assim. em muitos nomes.

Indo contra a tradição da língua portuguesa. não um problema geral da língua. para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. dizendo. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural. <348> Voltando à regra anterior. Se for para seguir a pronúncia. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS. mostrando que. em vez de se escrever apenas CASAS. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. as coisas são diferentes. dependendo do contexto. as coisas seriam diferentes. agora. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual. se tiver de escrever CASAS FEIAS. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). 'bs bororó' ' tupinambá' etc. não há .. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". Porém. Porém. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ. Se fosse um carioca. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. Ora. Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z. Na verdade. por exemplo. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas..

seguindo ou não a ortografia. e as formas de escrever as palavras. 1994b. em geral. mas em escrever QAXA. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . QUAZA. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente. como alguns fazem. etc.vantagens nas modificações. de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia. ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. Para quem não sabe. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. > Nas aulas de português. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara. o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. a ortografia tem sempre um papel muito importante.

Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. Às vezes. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado. São erros insuportáveis. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Obviamente. mas infelizmente existe em muitas escolas. Em situação pior estão os próprios alunos. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. que denotam um analfabeto (sic!). Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. de fato. Os colegas zombam. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas.um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu .

o dicionário até parece um livro proibido. mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário. pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e.PEÇOA ou BRICPZA. As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. Na verdade. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor. se souber essas duas coisas. em todas as aulas. inclusive para resolver dúvidas ortográficas. sobretudo nas provas. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia. o que deveria acontecer sempre. quando tivessem urna dúvida ortográfica. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . Porém. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado.

sem nenhuma explicação e. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia. Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava. era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de . não saía da primeira série. Depois. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. ou melhor. Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro. com as novas idéias pedagógicas.respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. como parte do desenvolvimento escolar. que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. desde que escrevesse. Nesses casos. sobretudo. Certamente. A ortografia seria aprendida depois. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta.

Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. sintáticos. tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. criou uma situação de frustração para muitos alunos.cuidar da ortografia. Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. Tendo ouvido todas essas explicações. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. sabendo o que e como está aprendendo. o objetivo é apenas escrever. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. Assim. No inicio. Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. um aluno pode apren . um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização. de onde saiu e aonde vai chegar. que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido. semânticos e textuais. Então. Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno).

e o professor não precisa se preocupar. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. Por outro lado. porém. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. O que fazer. o aprendizado da leitura. e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. ou seja. Procedendo assim. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns. Superada a primeira fase. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia. é fácil ver como. mas também não se pode abandoná-la. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. no primeiro ano escolar. o aluno não só aprende a escrever livremente. vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. Ele precisa saber como se virar. que é decisiva. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. Às vezes. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos.

Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras. o professor <352> deverá falar. Entre outras coisas. em particular do nosso. a respeito do processo de aquisição da linguagem. exigindo um trabalho preliminar de . se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. da variação lingüística. da natureza. Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. Portanto. cometendo erros intoleráveis.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. função e usos dos sistemas de escrita. como se mencionou acima. é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. para fazer transcrição fonética). os professores das demais séries têm a mesma obrigação. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las.

Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. Como é óbvio em educação. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor. 38. podem ter sobrado três erros. em qualquer momento da escolarização. em que série da escola isso estiver acontecendo. seja o que for.revisão do aluno. por exemplo. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. Quando um aluno não sabe alguma coisa. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. para descobrir quais estão com a grafia errada. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia. Por exemplo. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia. o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. Finalmente. IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . No caso de alunos preguiçosos.

podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. <353> Desde os primeiros contatos com a escrita. percebe-se logo que. Por essa razão. às quais são atribuídos valores fonéticos. e representá-los na escrita por letras. o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. seria o caos. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. o aluno precisa aprender que. Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. Esse é o primeiro passo. mas não é tudo. A partir da ortografia. as vogais e consoantes. as palavras terão . Feito isso. Assim.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. Portanto. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. se cada um escrevesse do jeito que fala. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. cada um lê conforme fala. a escrita inventou a ortografia. Fazendo o caminho inverso. Para neutralizar a variação dialetal. Portanto. dizendo-a de acordo com seu dialeto. Nosso sistema usa letras.

caso das primeiras atividades de escrita das crianças. <354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. PORTUGUESA). Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos. Como se vê.pronúncias diferentes. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. A verdade. Às vezes. muitas das explicações que são dadas aos alunos. O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever. Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. porém. ele já não se . independentemente da maneira como pronunciam as palavras. Depois. com S (FRANCESA. POBREZA) e as que formam um plural feminino. Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia. é possível elaborar algumas regrinhas. Depois de certo tempo. é outra. as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia. desde a alfabetização.

porque o professor corrige mesmo. A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro. Para que essa prática desse certo. . Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. passar a limpo. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. não só nas redações escolares da aula de português. mas de todas as palavras. seja em que matéria for. Esse tipo de cópia serve apenas para castigar. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. decorando a grafia das palavras. quando necessário. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. Então. O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem.preocupa com a ortografia. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade.

uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER. ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. formas ortográficas paralelas de algumas palavras. > Um ponto importante que os professores. Além disso. 1963. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica. em geral. principalmente de alfabetização. analisando seu dicionário. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. SOLUÇO e SALUÇO. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal).A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. criando. como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico). Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. . Por exemplo. BALSA e BALÇA. desse modo. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. FLECHA e FRECHA. Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. etc.

escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. Às vezes. À medida que uma palavra se torna mais familiar. diante de uma palavra comum. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. Aliás. menos dúvida causará. às vezes ajuda a decidir. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. Assim. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA. Para um aluno nas primeiras séries. Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que.Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. mas não para um aluno já alfabetizado. EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA. a partir da . PRINCESA ou PRINCEZA. A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA. sendo praticamente inexistente em outros. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. Para um professor alfabetizador. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras.

a questão da variação dialetal e. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. "psicreta" (bicicleta). é preciso ter bem clara.memória visual. como funcionam. causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. "nóis fumo dispois" (nós fomos depois). Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. Entretanto. Para um aluno que fala "bardji" (balde). <356> Para muitos alunos. É por essa razão que a letra X vem por último. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X. o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em . nem sempre é difícil ler a letra X. antes de tudo. Para ele. A ortografia. tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. "brabuleta" (borboleta). no seu caso. pois. sobretudo. Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema.

E antes de passar a limpo.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. Como já se disse. checar a forma ortográfica das palavras. o aluno deveria. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. Por essa razão. mas também bons hábitos nos estudos. como se . A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos. entre outras coisas. vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas. não dando maior importância do que esse assunto merece e. Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. que deve começar desde a alfabetização. quando tivessem de escrever. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos. Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. principalmente. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa.

Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras.tem enfatizado ao longo deste livro. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras. ou seja. sempre que . explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. por exemplo. bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita. Por outro lado. <357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. As considerações a seguir estão organizadas. através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras).

Como qualquer letra. quando urna palavra tiver o som de "a". pode escrever AMIGA. terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. segundo a ordem do abecedário. Depois. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. que se verão a seguir Portanto. ela representa o som de "a". entretanto. na maioria das vezes. Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala. Talvez. mostrando como levantar dados e formular regras. ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". O professor poderá escrever algumas palavras na lousa.possível. esse som será escrito com a letra A. dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. com a letra A. Nos quadros aparecem o nome das letras. pode ter outros sons. . identificando-a com o som "a" na fala. no início e no meio: ASSADO. Como exemplo. portanto. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. O professor. Em seguida. são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. A seguir. não precisa seguir essa ordem.

uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). na fala. início-e-final. tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. São os casos particulares. HINO. outros casos). ou seja. ATRÁS. HELICE. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". HUMILDE. etc. e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. a letra A tem um som . além do som básico. Quase todas as letras têm outros sons. a letra A. PAZ. dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto). de acordo com o dialeto). em sílaba final de palavra oxítona. "é". ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). "ô" e "ó"). A mesma regra vale para as vogais U. • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. TOMÁS.O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). pela vogal. na fala. Neste caso. Outro caso particular da letra A ocorre quando. final. HOJE. Por exemplo. o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. etc. PÉS ("péis"). tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. E e O (com os sons de "ê". como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. VEZ ("vêis"). Exemplos: RAPAZ. como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich").

LAURA. como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). ficando com uma qualidade . Para testar e conferir qual a vogal que cai. TODO O MUNDO ("todumúndu"). ou ainda MURO AMARELO. Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. Outros exemplos: SAL. às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. RAUI SAUL. podemos ver outros exemplos. que se torna "kaziskizita". Às vezes. CALDO. Veja. Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". Se não houver a formação de ditongo. ALTO e AUTO. que é dito "muramarélu". É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla"."posterior" (de "garganta"). etc. a letra A possui o som básico de "a". variando a vogal: CASA ESQUISITA. A vogal A pode ser nasalizada. Por razões semelhantes. por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente. etc. BAÚ. MAL. é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. etc. ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). BALDE.

Na verdade. embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". em muitos dialetos. caso da palavra ANA — compare com ASA. a pronúncia é "rãu". Se for átona. por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). e a vogal é tônica. tem sempre um som nasalizado. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). CÂNFORA. como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). a letra A será sempre nasalizada. CAMPO.vocálica diferente. como em: ANTÔNIO. cujo som do primeiro A é oral. no dialeto padrão. Portanto. CANA. etc. Quando uma palavra termina em -RAM. ou numa fala bem informal. CAMA. mas. CANAVIAL. TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". CAMADA. AMA. ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). AMOR. . CANTIGA. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante. a letra A pode ter o som nasalizado ou não. quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. Na leitura. como mostram os seguintes exemplos. a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. caso dos verbos. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". AMADEU. Som nasalizado ou não: ANÃO. Quando a letra A vem antes de NH. Som nasalizado: ANA. sabe-se que deverá ser escrito com a letra A.

SABÃO. ainda. Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. Note que.derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. tem de saber a ortografia de palavra por palavra. e.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). No primeiro caso. Os exemplos apresentados anteriormente revelam. Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta. a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). na escrita. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . Além disso. ou. no segundo caso. Por exemplo. em grande parte. são de grande utilidade no . Porém. pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. Esses casos podem ser explicados e. uma vez aprendidos. etc. Geralmente. nesses casos. VIRAM e VIRÃO. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. LIMÃO.trabalho de decifração. os valores fonéticos letra A. um aluno que fale um tipo de variação . Compare: ACHARAM e ACHARÃO. nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar. IRMÃO.

e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia. chegando-se às mesmas regras. etc.CANFUSO (confuso). ADESPOIS (depois). foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala. No próprio dicionário. Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. como em: BÊBEDO e BÊBADO. Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual. Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o . Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons.único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. encontramos registro desse tipo de dificuldade. SEJE (seja). quando se trata de variação dialetal. . mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. Para esses casos. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE. fica tudo mais fácil. terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico.lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). ILUMINAR e ALUMIAR. ao buscar as formas ortográficas.

"ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. fazendo as seguintes afirmações: 1. em exemplos como: "élalavôtodakaza". numa faia pausada. Para saber como escrever. Se o significado for "lavou casas que existem". a primeira palavra é "minha" e termina em "a". na escrita haverá o artigo. cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. é preciso fazer uma averiguação para saber se. o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". Para representar o som de "a" ou de "ã". sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". 3. esse é um problema para quem escreve em português. intercalando outra palavra entre essas duas. pronunciando as palavras isoladamente.que se escreve com a letra i. Nesses casos. podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. é preciso analisar as palavras isoladamente. Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. Assim: em "minhamiga". Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. recebe til. Às vezes. por exemplo. Exemplos: "batata" BATATA. é possível que a seguinte também comece por "a". não haverá . deve-se escrever a letra A. Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". então. "kãneta" = CANETA. o significado é "lavou a casa inteira". há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. 2.

Se essa frase não se referisse às crianças em geral. Assim "çê". a qual. mas não em todas. neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. Com já foi dito. mas. introduzida na língua portuguesa). de fato. Há raras exceções. Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. Nas outras palavras. escreve-se apenas A. etc. Em algumas palavras. apenas "ç". a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA. 5. a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. <361> 4. não são escritas com AI. como: "istuçérvipratodacriãça". porém. "a". etc. quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê". "kachu" (CACHO). porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A.artigo. é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X. mas a uma criança em particular (cada criança). etc. precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante. Palavras como "machu" (MA CHO). como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira. O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . "çê" Note que no caso de consoante. deve-se escrever AI e não apenas A. são. "kê". sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". para saber isso. "k". Num outro caso. zê".

etc. "zéru" não vai ser escrito ZERAM. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). 6. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA. mas representadas apenas pela letra A. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. CORAÇÃO. BÃÜ. 9. "fizérú" e "fizéru". Diante do som de "u". nos demais casos. Nas formas verbais do tempo passado. 7. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita.). SÃO). ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos. etc. Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". MECADTO. Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. LATÃO. CHEGUEMO) e . 8. etc. como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO.em casos de diminutivos. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. Encontrando a escrita NH. como CÃOZINHO. mas apenas ZERO. ALEMÃES. Portanto. Estudando essas variações. ou com ÃO. Em palavras como "mãinh "alemãinhs". Em qualquer dos dois casos. ADISPOIS. escreve-se apenas a letra A. podese saber que na escrita teremos -RAM.

Pior ainda é o fato de as crianças. CHEGAMOS). Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. no início da alfabetização. . Os alunos. e o professor precisa saber disso. O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. ainda. Às vezes. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. Nesses casos. MERCADJNHO. ainda. quando estão aprendendo. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. BOM.outra. Mostra. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. mas nem sempre. em outros dialetos (BORBOLETA. como conseqüência. estão defrontando todas essas dificuldades. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não. Esse tipo de análise revela. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. que o preço pago por essa medida traz. A análise acima mostra como a letra A. DEPOIS. envolve várias dificuldades. somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas.

TÉCNICA ("tékinica"). Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. na fala comum e informal. Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. RITMO ("ritimu"). etc. BARCO. ponto por ponto. G. decifrar a escrita e analisar a fala. M. SUBMARINO ("çubimarinu"). etc. F. ele pode ensinar a seus alunos como ler. O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade. como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei"). ela é pronunciada "bi". AFTA ("áfita"). para achar a letra correspondente à escrita. C. ele não irá ensinar tudo isso. CABELO. Exemplos: BOLA. <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê. ABSOLUTO ("abiçolutu"). Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T. D.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. Na verdade. como em: OBJETO ("obijétu"). Certamente. ADVOGADO ("adivo gadu"). um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. IGNORAR ("iguinorar") .

Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". quando se aprende a ortografia dessas palavras. CAPELO (cabelo). o aluno é levado a escrever POLA (bola). Nesses casos. Só se sabe quando colocar B ou não. Por essa razão. fala-se "trabeçêru". Exercícios com pares mínimos (tais como. FACA! VACA). Por exemplo. têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem. Em certos dialetos. C/G. T/D. ADIVINHAR e não ADVINHAR. etc. Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas. MENINO e não MNINO. PATATA (batata). escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. . etc. BULA/PULA. F/\ S/Z. mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. e o aluno precisa aprender palavra por palavra. "pçicréta". encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". como vimos antes. CH/J).MNEMÔNICO ("minemônicu"). mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA. Nos dicionários. podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes).

"faca" e não "batata". bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito. com o tempo. <363> dados pelos próprios alunos. "vaca". o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos.). é preciso estudar como se decifra a letra B. e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. quando precede I ou E. etc. O que vale é a bagagem de informação que se . No segundo. de fato. e isso o ajuda em muito a aprender. e por "g" nos demais casos. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU. que admite 'pineu" ou "peneu". Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. No primeiro caso. ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. com base em sugestões orientadas por ele. como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. mas deve escrever de outro. formulando as regras com os alunos.

o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. caso de CARA. AQUELE. QUILO. O e U. Portanto. Diante das outras três vogais. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". Exemplos: QUERO. um aluno pode estar pensando em outra. dependendo da vogal que vier depois. etc. Para explicar o que são vogais e consoantes. O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. observando o que acontece no início de palavra. COLAR e CUIDADO. como em CEBOLA. Resumindo. pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". O e U. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal. Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. a letra C tem o som de "kê". o professor explicará que usamos as letras QU. Quando o professor ensina uma coisa. CÉLEBRE e CIDADE. . A.revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. Assim. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I.

A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. é fácil ler essas letras. O ou U. Essa letra. quando em início de palavras. como SAPO.A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. . terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). no entanto. que aparece diante de qualquer vogal. "ço" e "çu". SOBRADO e SUBIDA. Se alguém. partindo da escrita. Como uma coisa puxa outra. tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça". uma vez que.

Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som . A seguir. apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto.tem sempre o som de "çê" (mais vogal).

"kê" + "i" ou "chê".C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. chegamos às seguintes regras: . Analisando detalhadamente os dados apresentados acima. a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê". "kê".

A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. "ki". Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". No último caso. O SC tinha apenas o som de "çê". "naiç" ou "naich". pode ser "naç". em vez de "a"). com ou sem a . o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —. O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). No caso de C. O ou U. desde que a consoante não seja R ou L. ou seja. pode também ter o som de "kê" + "i". em outros. os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". Quando a letra C tem o som de "kê". passa a ter o som de "chê". Em alguns dialetos. que se tornou um ditongo ("ai". independentemente da letra que vier antes. 5. 4. Com a nova pronúncia. além de influenciar na leitura da vogal anterior.1. A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. 2. A leitura de NAS. 3. A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. de uma outra consoante ou no final de palavra. se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer". quando não seguida por vogal na escrita. só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". A letra C tem o som de "kê" quando diante de A. Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. em final de enunciado diante de pausa.

deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos. Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. apresenta dificuldades. principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C.' o sistema manda usar a letra 5. Portanto. Nesses casos. além da letra C. obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida. porque a letra S também pode ser . "çubir". A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. Por essa razão. a letra S também representa o som. "çopa". Isso pode gerar confusões. desde que venha antes das letras E ou I. Na verdade. no entanto.ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". Uma palavra como "çapu". não pode ser escrita com a letra C. em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE. O ou U). Desse modo. "eich-çeçãu". Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C. palavras como CEBOLA e CIDADE. A questão da escrita. de <365> "çê". palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. "eç-çe-çãu".

Ç. 2. em início ou final de sílaba. pode ajudar a . como em SINO e SELO. "pró-çi mu" PRÓXIMO. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras. "pa-çu" PASSO ou PAÇO. Às vezes temos uma palavra homófona. "na-ça" NASÇA. como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a". Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. Esse é um procedimento comum. iremos escrever PROXIMIDADE também com X. Somente conhecendo ortografia. em casos semelhantes. Se escrevemos PRÓXIMO com X. se NASCER é com SC. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. SÇ e XÇ. O critério semântico. e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO). NASCIMENTO também será com SC.usada diante da vogal I e E. a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). XC. Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. Em NASÇA. X. SS. I o caso de "paçu". mas que tem ortografias diferentes para cada significado. Assim. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. Se existe a grafia EXCEÇÃO.

Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. etc. só o conhecimento da ortografia pode dizer se . em final de palavra. "koiza" COISA. vamos estudar esse caso agora. "kê" QUE e "kéru" QUERO. diante de vogais que não sejam 1 nem E. Como a letra C também pode ter o som de "kê". quando se pronuncia o U. quando vem antes de A. 3. "atraiç" ATRÁS. "kê" e "ké". Exemplos: "kãma" CAMA. 4. "kuçtumi" COSTUME. como nas palavras: "kuidado" CUIDADO. "biç-pu" BISPO. "fiç" FIZ.encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. O ou U. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. para escrever os sons de "ki". Essa letra U não é pronunciada. a única saída é o Q. como nos exemplos: "kis" QUIS. "tauveiç" TALVEZ. "kuéka" CUECA. "çekuéla" SEQÜELA. O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). como não se pode usar a letra C. Porém. Aqui também. A letra Q tem o som de "kê" sempre. Nesses exemplos. em qualquer caso. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q. podendo ocorrer também em final de palavras. como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. "rrapaiç" RAPAZ. ou seja. Como vimos antes.

Ver CAGLIARI. "krônika" CRÔNICA. quando a letra U deve ser pronunciada. etc. Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. etc. só se pode escre ver a letra C. Exemplos: "klareza" CLAREZA. completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). Nesses exemplos. 6. como em: "akni" ou "akini" ACNE. e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i".ocorre uma letra ou outra. Nas histórias em quadrinhos. como em: "tik-tak" ou "tiki-taki". caso em que pode haver uma variação. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. dependendo do artista. que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita. Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. Nas formas QUE e QUI. "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. 5. 1993ª. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). É o caso de tic-tac e tique-taque. <366> . algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial. Nesse caso. nunca a letra Q. ela é escrita com trema (Ü). O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". há uma vogal em seguida.

De modo geral. Como vimos no estudo da letra A. junto com outra palavra que começa com o som de vogal. 8. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C. como à letra X. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO). quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê". Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. diante de pausa ou silêncio.7. servindo apenas para os nomes próprios. sobretudo se não for nome próprio. esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. Essa letra não tem outro som a não ser esse. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. 9. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). ficando com o valor fonético de "zê". aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . Porém.

Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia. então. CERIDO (QUERIDO). quando se parte da observa ç cia fala. Aparecem. que serão indicados por S na escrita. o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. e a outra é mais própria da leitura. QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. estas grafias: ACELI (AQUELE). Como esta última é mais comum na fala. por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). mas podem formar uma sílaba própria. do que quem fala "kualidadji" 11. a letra C não tem o som de "kê". observando a própria fala. quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. CI (QUE). COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). etc. Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. Mas não há apenas problemas de concordância. como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka").enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. Outra dificuldade é a troca de QU por C. como. para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". sendo seguido de "i". Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba. . vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta.

o que não é o caso na alfabetização. FIXE. A partir da observação da fala. COLOCA. Todavia. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê". se a escrita mantivesse a letra C. etc. "çin-ta-kçi" . mas COLOQUEMOS. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê". 13. o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra. a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. Nesses casos. escreve-se com X: TAXI. COLOCO. etc.kçi" ou "fi-ki-çi". mas TOQUINHO. mas um pouco diferente.como QUATORZE e CATORZE. quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E. VAQUEIRO. é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita. TOCO. TORAX. etc. Por isso. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". no caso da primeira. Para manter o som de "kê". isso é para quem já tem muita fluência na escrita. Veja os seguintes exemplos: VACA. QUOTA e COTA. Nesses casos. 12. mas FIQUEM. TAQUE-SE. em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. no caso da segunda palavra. COLOQUEM. embora pouco usuais. Nesses dois exemplos. "fi-. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO).ki-çi". FIQUEÇO em vez de FIXO. Mas. FICAR. Uma questão relacionada com os últimos exemplos. em palavras derivadas.

o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z.. como em BASTA. em vez de outras alternativas. pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. nesses casos. como em PASSO. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A.(SINTAXE). quando se trata de passar da fala para a escrita. a escrita será com 5 e não Z. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. como atestam os seguintes exemplos: CASAS. etc. Quem decide se vai ser C ou 5. não poderá ocorrer a escrita da letra Z. basta ver que vogal vem depois. Em final de palavras. Portanto. revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". a questão é bem complicada. MÊS. em início de palavras. é a ortografia. Mas. etc. Sempre que o som representar o plural de uma palavra. EXTRA. em vez de "pró-çi mu". "çin-ta-çi". Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. quando a palavra não for oxítona. RAPAZ. com Ç. como em MOÇA. com X. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante.. então. com S. nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. No meio de palavra. com a letra S (seguida de qualquer vogal). Além disso. Não adianta ficar observando a fala. FEZ. a dificuldade real fica . O e U. O som de "çê". <367> Resumindo os principais pontos. como em PRÓXIMO.

LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). a criança vai assimilando a ortografia. na escrita. escrevem CE em vez de QUE. o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka". É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. Com relação ao som de "kê" da letra C. seguido do som "u" e depois o som "a". Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". QU seguido de A ou O. a escrita usará as letras QU (que. em meio de palavras. "ô". quando na fala ocorrer o som de "kê". cu). ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. no início. qui). com o tempo. "ó". É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. co. "ko" e "ku". A confusão é esperada e. E vice-versa. Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". Alguns alunos. A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. Nos demais casos. temse na escrita a letra C (ca. Quando aparecer. a escrita quase sempre será feita com QU. a letra U se pronuncia (nesses casos.restrita às palavras oxítonas e singulares. A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. e ocorre diante do grupo . a escrita será sempre com S. não tem trema).

"oünça" (ONÇA). <368> ESTUDO DA LETRA D . ACONTE CE e ACONTEÇA. Portanto. ainda. AÇO. "lãn" (LÃ). O e U e nunca diante de E e I. FAÇA. NASCIMENTO e NASÇO. Por exemplo. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. a ortografia recorreu à letra Ç. Nesse caso. sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). etc. ONÇA. FAZEMOS. CALÇADA. as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. POÇO. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. AÇUDE. "õ" e 'à". como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê".das vogais A. MAÇÃ. AÇUCAR. CAÇA. o seguinte exemplo: FAZER. nunca no início ou no fim. king. depois das vogais "u". Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. mas algumas delas têm uso muito freqüente. na língua portuguesa. Observe. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. etc. etc. são escritas com essa letra. O ou U. PEÇO. Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. FAÇO. MOÇO. ou em final de sílabas. FAÇO. Poucas palavras. song.

Confira os exemplos: DIA ("djia"). Diante de outras vogais. DIJVIDA ("dúvida"). POTE ("pótchi"). POTE ("pótchi"). Portanto. Para ler o D. etc. mas PATO ("patu"). PATO ("patu") POÇO ("pôçu"). etc. quando ocorre antes da vogal "i". DIZER. Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). RITMO ("ritchimu"). PODE ( "pódi"). etc. DEDO. POÇO ("pôçu"). num tipo de dialeto. DOCE ( "dôci") e assim por diante. há uma regrinha que diz que diante do som de "i". Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji". e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). DOCE.A letra D tem o nome de dê. continuando com o som de "tê". Exemplos: DATA. sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). em alguns dialetos. DOCE ("dôçi"). Em outros dialetos. esse caso na verdade é muito simples. POTE ("póti"). etc. — e. representa o som de "tchi". e não causa problemas aos alunos. Apesar da aparência complicada. que. sempre que se encontrar a letra D. Fato semelhante ocorre com a letra T. a letra D passa a ter o som de "dj". em outro tipo. mas DEDO ("dêdu"). DÚZIA. nos demais casos — TIA ("tchia"). . PODE ("pódji"). a letra D permanece com o som de "dê". DEDO ( "dêdu").

tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj". Como falante nativo. E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio". porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. Quando se decifra uma palavra. MESA ("mesa"). tem o nome de é. no alfabeto. ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. é preciso conhecer a palavra. ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua. tem o nome de ê e. uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". . quando se dizem os nomes das vogais. Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". descobre-se aos poucos sua pronúncia. a letra "djê". "ê" e "é". e não achava. DELA ("dela"). se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. Assim. mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. como falante nativo. Exemplos: DELE ("dêli"). que pronunciava "idjo". PERTO ("pértu"). Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra. A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem.

O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente. Na verdade. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa. Por exemplo: VÊ. a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . ATÉ. precisará saber quando colocar os acentos. Nesses casos. Explicará o que for necessário. EU ERRO NOS ACENTOS ("érru"). é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra. tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. dentro de uma frase. Às vezes. Mas. porém. ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. No primeiro semestre. para facilitar a leitura. o professor pode ignorar o assunto. se algum aluno perguntar. Às vezes. o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. Quando se escreve. Por exemplo. Ao escrever. INTRÉPIDO ("ê").portanto. ACADÊMICO ("ê"). etc. não se sabe se é "êrru" ou "érru".

há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. aparecem as vogais orais "i". A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é". diz. em outros dialetos. Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua. etc. Porém. Nas sílabas átonas. é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". a pronúncia é "mêninu". a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. fechada ("ê". em geral. "ô" e "u". ao passo que. que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. "ê". por exemplo.se "êrói" e não "irói" para HERÓI. no baiano). Em sílabas átonas. na fala. Todavia. "u" e "a". "a".marca de acento na escrita. Para a . "ô") ou reduzida ("i". "méninu" (MENINO). exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". também em sílabas átonas. Em posição pré-tônica. ENFEITE ("ifeiti"). em posição pós-tônica. em alguns dialetos (por exemplo. Hoje. "ó"). Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). "u"). Eles dizem. De modo geral. encontram-se apenas as vogais orais "i". as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura.

ENTRA. às vezes. etc. E isso ele fez muito bem. mas. escreve MÉDECO em vez de MÉDICO. Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. TEM.leitura. por exemplo. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). Nesses casos. ENCONTRO. o aluno. TENHO. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. Por exemplo. a gente fala "i". mas deve escrever E: DISSE. O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM. Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante. ela adquire um som nasalizado. que aprendeu a lição (até aí). Em seguida. O aluno não está aprendendo errado. ENTRADA. essa questão traz pouca dificuldade. que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. um aluno escreve DICI e o professor explica que. etc. O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. HÍFEN. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis"). o problema é sério. EMBORA. Conforme as . Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos. para a escrita.

Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra"). etc. a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). seguida de I. DESDÉM ("dezdêi"). Exemplos: FACA. FUMAÇA.). PEIXE ("peichi" ou "pêchi"). etc. mesmo nasalizada. como em ITEM ("itêi"). FIQUE. quando seguida de I. 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome. A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. Em certos dialetos. usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e. quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). FOCA. PENTE ("pêinti"). algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê. Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". nê. Encontrando-se esse som na fala. também a letra E. EMBORA ("êimbóra"). Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). FEITO. o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes.regras vistas anteriormente. às . pode ser pronunciada sem o I. ou mesmo em distingui-lo do "vê". Tal qual a letra A. CONFIAR.

tem o som de "guê". que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". A questão não é fonética. (FACA = VACA. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa. O e U.quando diante do grupo de vogais A.zes. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. ELE FEIO AQUI. A letra G. mas dialetal e ortográfica. A letra G.no latim). contudo.tem o som de "jê" e. FEIO = VEIO. MARIA COMPROU UMA VIFELA. "vê". em vez de falar em voz alta. Essas confusões se corrigem com a prática. ANDRE MORA NA FAFELA. tem também outro som muito comum. VIFELA = FIVELA. FAFELA = FAVELA). Quando sussurram. como se constata nos seguintes exemplos: . o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. quando diante do grupo de vogais E e I.

nesses casos. GULA (com som de "guê"). tem-se uma sílaba a mais na palavra. Quando se pronuncia o "i". pronuncia-se também oU. basta acrescentar um U entre o G e a vogal. Note que há casos em que ocorre G + U. veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). etc. AGUA. FOGUEIRA.GENTE ('jênti"). GATO. como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. GUIAR. R. seguidos das vogais E ou I. EXÍGUO. a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". Quando não se pronuncia o "i". visto no estudo da letra C. não é pronunciada. (todos com som de "guê" ou de "gui"). M e X em alguns casos em meio de palavra). AGÜENTAR ("aguéntar"). Para escrever o som de "guê". A letra U. CONTIGUO. GIRASSOL ("jiraçóu"). No caso da letra G. quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. o caso acima é semelhante ao da letra Q. ou no final de palavra (exceto com S. como em SAGÜI ("sagui"). Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver. Ela simplesmente modifica o valor da letra G. GOTA. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar"). Porém. seguido de E ou de I. e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. Z. o . ÁGUIA. mas. se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. Exemplos: GUERRA. que.

mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. Mais raramente. mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. para manter o valor fonético original da palavra ("guê"). QUI). AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO. GIRAR. JOVEM. "Como é que se escreve tal palavra. ora se tem G. Se não aparecer trema nas escritas GUE. HOJE. JILÓ. cometem esses enganos . 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. não por dificuldades auditivas. Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). GUI (ou QUE. JUIZ.som "g" fica no final da sílaba que o precede. FOGO/FOGUEIRA. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA. JANELA. ora GU. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem. o U não será pronunciado. descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita.

funciona como uma espécie de curinga. Nesses casos. essa letra serve para formar dígrafos. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. MANGA e MANGUEIRA. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. como em AMICO em vez de AMIGO. UNHA. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. Exemplos: HOMEM. Quase sempre. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. como também o que não se pode fazer. CHAVE. HORA No entanto. Na língua portuguesa. ILHA. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. no nosso sistema de escrita. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. e acabam escrevendo. servindo para modificar o valor fonético da . HERA. Por exemplo. A letra H.por dificuldades de reconhecimento fonético. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá.

a letra H pode vir precedida por C. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal. som algum.letra que a precede. são usadas para modificar o valor do som anterior. 372 Em palavras de origem estrangeira. NH e LH. sem alterar o alfabeto. não forma dígrafos e não apresenta. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. a leitura começará na letra imediatamente seguinte. como CH. e mais raramente a letra X. HORA. HINO. etc. pois. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. através de pares mínimos: MALA/MALHA. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. Em conseqüência. HELENA. sobretudo em nomes . A letra H. Quando a letra H vem no início de palavras. comparando-os com os das letras simples. FICA/FICHA. N e L. SONO/SONHO. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. HUMILDE. como se vê em: HABITAÇÃO. como uma estratégia para não inventar letras novas. a solução encontrada foi criar dígrafos. formando dígrafos. Esse emprego do curinga H. Na escrita da língua portuguesa. etc.

que escrevemos ESPANHA. HLÏA (GALINHA). encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia . Para ilustrar esse fato. quando vão escrever (e mais raramente ler). etc. fazem coisas como: HRA (AGORA). irão fixando a grafia das palavras mais comuns. dependendo do significado da palavra. etc. como ocorre em HORA e ORA. Note. etc. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). dá até para saber se haverá H ou não. HAJA e AJA. é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. ainda. Em alguns poucos casos. Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer.próprios. mas deve explicá-las aos alunos. YAMAHA ("iamarra"). ou. escrevemos ERVA e HERBICIDA. mas temos de escrever HISPÂNICO. pensam que a letra H funciona como as demais e. Com o tempo. Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. Alguns alunos. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). por exemplo. Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda").

O professor deverá. pois. Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos. As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal. mas controlada pela ortografia. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente. ter paciência com os erros dos alunos. FAMÍLIA ("família" ou "familha"). ainda. partindo da fala. Nesses casos. Há. saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. na qual a ortografia se baseia. Com relação ao CH.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. existe uma dificuldade extra na escrita. e pedir a eles que corrijam o material que escreverem. . etc. o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. Portanto. Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos.

Como acontece com as demais vogais. Esse problema. "pichta" (PISTA). o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA). "rrapaich" (RAPAZ). representa pouco para os alunos. às vezes. da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". Veja os exemplos: VI. CINTO. Eles o resolvem facilmente. ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias. escrevendo T e não TX ou TCH. podendo. A letra I não apresenta dificuldades para leitura. atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura. "ifiar" ENFIAR. CIDADE. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. VINHO. Essa variação pode. por causa do medo de errar. quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. Não há como . fica difícil saber a ortografia. mas o mesmo não acontece com a escrita. Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i". na verdade. ser escrito com a letra E. VIM. por exemplo. que ora se escrevem com E. etc. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. CINEMA.Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. ora com I.

em vez de escrever PÊRA. em palavras como "opitei" OPTEI. Como já foi visto. como LOIRO e LOURO. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. Por exemplo. etc. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. COISA e COUSA. etc. uma com um ditongo (M. Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. • El) e outra sem o ditongo (A. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção. Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU. "obijétu" OBJETO. BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). E). DOURADO e DOIRADO. o aluno escreve PEIRA. como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). "bãinha" BANHA. nenhum problema. pode existir uma vogal "i" na fala.ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las. O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. portanto.. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). porém não na escrita. Além da dificuldade específica dessas palavras. etc. .

JIBÓIA. "ô" e "u". o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. Essa letra caiu em desuso já no latim. o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS. etc. Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais.ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. formando o "djê". para escrever o som de "jê" seguido de "a". JOGADOR. JEITO. BODE ("bódji"). na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. podem ser escritas com . Saber isso. A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal. Sempre que a letra J aparecei. como em DIA ("djia"). ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê". sobretudo nomes próprios. aparentemente simples. pode-se ter a letra J ou G. Diante dos sons de "ê". etc. Esse fato. Como algumas línguas usam essa letra. deve rá ser escrito com a letra D apenas. JUVENTUDE. palavras de origem estrangeira. dependendo da ortografia. ajuda muito o aluno na hora de escrever. mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. "ó". Portanto. "é" e "i". O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê".

LOGO ("lógu"). A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. PIANO ("plãnu"). a letra L tem o som básico de "lê». SOL. G (com o som de "guê"). No segundo caso. ATLÂNTICO. LETRA ("letra"). FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L. como. tem também o som de "u' Exemplos: LATA. O ensino. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba. seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. . Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. CLASSE ("klaçi"). No primeiro caso. CLARO. por exemplo: LATA ("lata"). Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas.Nesses casos. LIVRO. CLARO. do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios. PROBLEMA. sempre antes de vogal. Veja os exemplos: PLANTA. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). B. C (com o som de "kê"). D. sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra. tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza"). LIGA ("liga"). e c) em final de sílaba.ela.F e V . km. MAL. kg. T. GLORIA. Alguns exemplos: Kwait. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal.

como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). pois. Partindo da fala para a escrita. A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. e assim o aluno consegue dizer o que está escrito."funil" (FUNIL) "mél" (MEL). o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. SAL ("çau"). Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. é fácil ler. no mesmo contexto do L. Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas. TERRÍVEL. a formação de ditongo. "çal" (SAL ). as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). SUL ("çuu"). encontramos um problema sério para os alunos. VÉU. SAL. POUPA. e como. Compare as seguintes palavras: CALDA. mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra. a não ser DLIN-DLON. tem o som de "u". Em alguns dialetos do Sul do Brasil. FUNIL ("funiu"). CHAPÉU. CÉU. pode ocorrer a letra U. como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente.porém. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. PAPEL. CAUSA. No terceiro caso. não ocorrendo. POLPA. Nesses dialetos. MEL. como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . não existem palavras com essas ocorrências. MEL ("méu"). SAUDADE. usando L ou U São palavras homófonas. também com o som de "u". VLADIMIR e pouquíssimas outras). as palavras emergem automaticamente.

podem ir escrevendo do mesmo modo. na alfabetização. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA). fazendo. reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. Os alunos. O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever. acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala. Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema. uma formada por ALTO e outra. estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. aliás. "bardji" (BALDE). ao lado de palavras como "prato" (PRATO).próprio'). O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. "pobri" (POBRE) e assim por diante. o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. etc. "pobrema" (PROBLEMA). sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . Ao escrever.. como em outros casos. É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras. Por exemplo. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. "barcu" (BARCO). por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L.

EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra"). res. ALGUM ("augú" ou "augürJ"). depois da vogal nasalizada "ii". por exemplo. o princípio acrofônico fica mais evidente. BOM ("bõu" ou "bõuij"). e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). ou um som consonantal velar ("13 »)8. uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. Nos dialetos em que o nome da letra é mê. entre "e" e "i". como dizem alguns professo. observe o fenômeno de juntura intervocabular. representa o som básico da letra. MORAR. uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). em: MAR. O som que aparece no meio. a letra M representa a nasalização da vogal precedente. a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh"). CAMELO. depois da vogal nasalizada "i". quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. etc. como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . como.375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. 1 A letra M tem duas funções distintas. em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. No primeiro caso. a letra M tem o som básico de "mê". MURO. Além disso. No segundo caso. COMIDA. Veja os exemplos.

diante de consoante no início da sílaba seguinte. CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. Nos verbos. Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. LIMPO ("limpu" ou "lipu"). a letra M pode ter o som de "mê". SÊMEN. com ou sem a sobreposição da nasalização). etc. etc. Raras palavras serão escritas com N em vez de M. CORAÇÕES. Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. haverá sempre a mudança de qualidade. a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A.("véi-nha-qui"). Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. quando ocorre o som do "mê". Nesse caso. diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. etc. Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu"). ÓRFÃ. sem a ocorrência da con soante nasal M. ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). em fmal de sílaba. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades. As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. além dos casos contemplados acima. as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. ANÕES. as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. Às vezes. PÓLEN. . como HÍFEN. como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. TEMPO ("témpu" ou "têpu").

Exemplos: CAMPO. e N diante das demais consoantes. ou seja. Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente.Estudar a estrutura de contextos. 8 o som Fiji. INFELIZ. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B. é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. ver explicaçáo na página 368. Quando aparecer o som de "mê". em muitos casos. o aluno a decidir sobre a escrita. seguido ou não do S do plural. CONSUMIR. etc. antes de consoante. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. CANTO. no meio de palavras. a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba. BOMBA. ENVELOPE. Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções. toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. usase a letra M. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). Essa . o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal.

lembre que a palavra "muitu".pronúncia é muito evidente. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. MAES. . mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. PÕEM. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. BALÕES. Deve ficar claro para o aluno que. PÕE. N. que é o til. ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. Seu som básico é o que está intercalado. ANÕES. etc. "sõurj" (SOM). que essa regra serve apenas para algumas palavras. Nos dialetos em que o nome da letra é nê. é escrita sem consoante nasal ou til. Note. porque assim foi fixada sua grafia. como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. CIDADÃOS. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente. CIDADÃO. NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização.. Exem plos: IRMÃ. Veja. BALÃO. apesar da nasalização do ditongo "ui". sempre que houver uma vogal nasalizada. IRMÃS. etc. as grafias de MÃE. no seu nome. "tãmbëinh" (TAMBÉM). deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). entre o "é" e o "i". não para todas. O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. Por fim. MÃE. porém. PÕES. por exemplo.

uma consoante nasal velar (rj) como. MANGA ("mãrjga"). V S. Em falas muito enfáticas. Diante das consoantes oclusivas velares. ONÇA ("õuça" ou "ourJça").Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. Lembre que. A letra N será raramente . será usada a letra N. no final de sílaba. no interior de palavra. e depois de "ã". R. Quando se parte da fala para a escrita. ENQUADRAR ("irjkuadrar"). em: BANCO ("bãrjku"). como F. Diante de outras consoantes. G (com o som de "guê") ou QU. Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. a letra N pode representar. como nos seguintes exemplos: CANTO. pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). etc. vale a regra segundo a qual. Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). como mostram os últimos exemplos. ANDO. NETO. NADA. por exemplo. a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. sempre que for detectado o som de "nê". só ocorre a nasalização da vogal precedente. NUCA. ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar"). etc. depois de "i" ou de "e" nasalizados. na fala. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). não tendo outro som. REDONDO. no interior de palavra. Z. como em: NIVEL. NOTA. L. em final de sílaba. "õ" e "á ". Ç. pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". sem a presença da consoante nasal. SINTO.

Z. Tal som não ocorre em início de palavra. D. 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. FRANGO. O. exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). F. CINCO. ENLAMEAR. X. e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante). o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. TRANSPORTAR. para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. G. ou seja. ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. Q. ENXADA. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). E. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. Ç. No meio de palavra. a letra M só será escrita diante das letras P e B. a decisão é fácil. I. quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). L. CONFIAR. C. Exemplos: SANTO. CONQUISTA. R. INDO. em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. U . \' 5. diante de T. Como já foi visto.usada em final de palavra. HON RA. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). ENVIAR. ENZIMA. TRANÇA.

Exemplos: AVÔ. Às vezes. PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. PORCA ("pórka"). a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. Quando eles não estão marcados. ANTÔNIO. PORTA ("pórta"). como em: PORCO ("pôrku"). mas PORCOS ("pórkuç). depois. Entretanto. pode ocorrer o som "ó" ou "ô". pode mostrar a ele como se pronuncia. Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). saber se se trata de um som ou de outro. Em alguns casos particulares. Por exemplo. trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. PORTO ("pôrtu"). como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar'). Veja ainda. pode-se saber um pouco mais. Às vezes. como exemplos. AVÓ. BOLA ("bóla"). como falante nativo. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". se for a sílaba tônica da palavra. SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. Como se disse acima. para. algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala. etc. CÓLICA. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos.

se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba). Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. Exemplos: TODO ("todu"). a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). é preciso conhecer a ortografia da palavra. Quando se parte da observação da fala para a escrita. a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. MUNDO ("múndu").("kõfôrtu" e "kõfórtu"). A letra O. para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. Porém. o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U. sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). Entretanto. como COMPRIDO. a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. Algumas vezes. ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). ou COLOCAR. em sílaba átona. como em COMIDA ("kumida"). por exemplo. tende a ser pronunciada "u". quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. COMBATE ("kõmbati"). TOU RO . cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. que praticamente é homófono de CUMPRIDO.

é impossível saber quando escrever P com ou sem 1. Confira. ou seja. diante de outra consoante que não seja R nem L. A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. ADAP TAR ("adapitar"). a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso.("tôru" ou "tôuru"). etc. de 'poupar'). "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO). A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. Ocaso não é tão simples. pode ter o som de "pi". Somente observando a fala. RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. por exemplo. POUCO ("pôku" ou "pôuku"). ou apenas de "p". OPÇÃO ("opição"). Exemplos: APTO ("ápitu"). ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. . No segundo caso. revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons.

para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. TOCARJTOQUE. FICO/FIQUEI. Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura. PISI. ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5. porque eles se resolvem com o tempo. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender. "piçina" ou "pçina" PISCINA. Como foi dito nos comentários à letra C. pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. como em: QUERIDA ("kerida"). Em palavras derivadas. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê". Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. "é" ou "i". A ortografia tem vários modos de escrever. O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade. QUERO ("kéru"). . porém o Unem sempre é pronunciado. QUINTAL ("kintau"). como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba.

"kué". AQUARELA ("akuaréla"). todavia. Esse tipo de problema. Essa dificuldade atrapalha a escrita. basta o aluno identificar QU com o som de "kê". e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI.BARCO/BARQUINHO. Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não. CUIDAR. O mesmo. porém. CUE. porém. a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). Quanto à leitura. têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. Observe. SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. Quando não é pronunciada. Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). não acontece com os exemplos anteriores. "kuê". TAQUARA ("takuara"). Quando a letra A vem depois das letras QU. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). QUE ou CUI. etc. FREQÜENTE ("frekuénti"). etc. a . é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. sem insistir muito. RECUE. para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo. CUECA.

CASA. QUAXA (casa). ESTUDO DA LETRA R . a for ma ortográfica atual é apenas CASA.). Um bom exercício para o professor fazer no início. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia. CAXA. uma palavra como "casa". CINCO escrito CINQUO. Dadas as dificuldades de escrita. etc. QUAXA. quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). Entretanto. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras. QUOTIDIANO/COTIDIANO.ortografia admite a forma com a letra C. QUAZA. revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. Pelo contrário. embora descartadas pela ortografia atual. em princípio. poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA. etc. KAZA. mas nem por isso estranhas. Por exemplo. Quando os alunos cometem esses erros. QUIDADO (cuidado). como VACA escrito VAQUA. em vez do dígrafo QU. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. QUOTISTA/COTISTA. não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. QUASA. KASA.

por sua vez. CERTO. No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste. FURO. A vibrante múltipla "rr". entre duas vogais. MAR. em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes. como em CARRO. . Dessa maneira. representando dois sons diferentes. O sistema de escrita. a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. Em alguns dialetos do Sul do país. ROUPA. Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. MURO/MURRO. SERA. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. porém. como ocorre tipicamente em CARRO. formando um dígrafo. basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA. FERA/FERRA. dependendo do dialeto.A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. pode ocorrer apenas um R ou dois RR. uma "aspiração"). Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. etc. CERTO (no dialeto carioca). mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons.). Portanto. a vibrante simples representa um tepe'. pode representar vários valores fonéticos. a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). TIRO. distingue o uso de um R do uso de dois RR.

mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. etc. quer a vibrante simples. Nos chamados dialetos "caipiras". TIRO. ROUPA. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). ERRO. dentro de sílabas. ARARA. ora sonoras. TORRADA. RODA. Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. FERA. o falante usa a vibrante surda. PORTEIRA. CERTO. com uma vibrante surda. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. 380 Por exemplo. BR. às vezes. VIR. produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira.como em CARRO. outras vezes usa a vibrante sonora. O mesmo som "r" (vibrante simples). MURRO. como em RITA. Dependendo da palavra. MAR. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. Em alguns casos. TERRA. MAR. MURO. Exemplos: ROÇA. que aparece em CARO. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. TR. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. BRASIL. RETA. . os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas.

FRACO. quando na fala corrente. com a sílaba seguinte começando por consoante. forma o início da sílaba da palavra seguinte. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. RUA. BRASIL. Se. como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). CARPA ("karpa" ou "karrpa"). É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . VR. Em início de palavra. FINGIR ("fijir" ou "fijirr"). Porém. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba. CRIANÇA. a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO. RODA. ISRAEL ("izrraéu"). O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). TRABALHO. ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla. uma palavra terminada por R junta-se a outra. FR. GR. que começa por vogal. PADRE. CARRO). GRATIDÃO. RITA. CR.DR. a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". Além disso. a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). VIR AQUI ("vi-ra-ki"). ROLO. LIVRO. como em RATO. por exemplo: PRATO. porém. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N).

obviamente. mas depende de como o professor irá tratar a questão. ainda. Em final de sílaba. Em início de palavras. a escrita usa apenas um R e nunca dois. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. Como vimos. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto. No contexto intervocálico. dependendo do dialeto. conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro. no meio de sílaba. tem-se um som diferente. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo. que se o R vier depois de uma consoante N ou S. no meio de palavra. e o som será sempre de uma vibrante múltipla. com segurança. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples. terá o som de uma vibrante múltipla. Algumas idéias. Nos demais contextos. ajudam bastante. porém. mesmo quando não são muito elaboradas. dependendo do dialeto. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. Sabe-se.lembrando todas as regras associadas a essa letra. Essa dificuldade não é do falante.

muito as variações de pronúncia. os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. No começo. Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. como uma vogal "longa". são todos escritos com R ou RR. mas devem usar apenas a letra R. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita. igual à vogal precedente. vindos de diferentes dialetos. assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos. Por isso. um som único. mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. isto é. a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. como ainda não chegaram a essa conclusão. 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). ou seja. É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: .

já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. Como em muitos outros casos. de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem. o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante. Em outras palavras. Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita. POTA ("porta"). Nesse caso. PR. o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte.. como ensinam os foneticistas. ou ainda ATALAS (ATLAS). quando encontra grupos consonantais como BR. esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). etc. o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. Depois. em que há mais de um som consonantal numa única sílaba.MECADIO ("mercadinho"). Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. GR. CADENO ("caderno"). mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". AGARADECE (AGRADECE). que o aluno . etc. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez.

VASO. Em final de sílaba. Exemplos: BASTA ("bachta"). E também é verdade que não é porque não se explicou. nos demais casos. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. como em SACOLA. Do mesmo modo que as letras R e RR. Em início de palavra. Assim como existe uma letra R e um dígrafo. NÓS ("nóis"). ocorre o som de "çê". ATRÁS ("atraich"). No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê".automaticamente aprende. MESA. Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. SEMANA. etc. Exemplos: BASTA ("basta"). dependendo do dialeto. as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". SINO. a letra 5. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. há uma letra 5 e um dígrafo SS. NÓS ("nóich"). ISSO. POSSÍVEL. Nos demais dialetos. OSSO. a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". SUCO. SOCO. INGLESA/ESSA. ROSA. que o aluno não irá aprender. ou ainda os exemplos: USO. POSA/POSSA. o RR. a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. ATRÁS ("atrais"). ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura .

G. Diante de consoante surda. ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu"). tem o valor fonético de "çê". MESMO ("mezmu"). como S e R. DESLIGAR ("dizligar"). saber que há várias . no meio de palavra. DESDE ("dezdi"). 382 No meio de palavra. CASPA ("kaçpa"). Apesar disso. L. há nesses casos uma concordância. Então. D. ISRAEL ("izrraéu"). R). tem o som de "zê". CASCO ("kaçku"). ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi"). Algumas letras. DESGRAÇA ("dizgraça"). Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade. OS HOMENS ("u-zó-mêis"). tem o som de "çê". Quando a letra 5 vem depois de consoante. M. Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte. quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B. Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas").intervocabular. Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). correspondem a muitos sons diferentes na fala. etc. Isso vale para todos os dialetos.

os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. Ç. Somando esses dois tipos de informação. SÇ. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. PROXIMO. RAPAZ. EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). Z. SC. como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. CH. DESDE ("dejdji"). TRAZ. RAPAZ ("rrapaich"). J e G. SC. mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. XC. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas. temos: S. Por outro lado. HOJE ("ôji"). X. parece fácil e simples. XÇ. CRESÇO. XC. como "zê" e "chê". SS. ATRÁS. X. como vimos. Confira os seguintes exemplos: SAPO. AÇO. Para quem sabe como se grafa essas palavras. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. NASCER ("naiççêr"). O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. XÇ. o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". CHUVA ("chuva"). para confundir mais as coisas. SÇ. etc. ou ainda em certos dialetos. ASSO.

AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA). mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato. ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. Em muitos dialetos.só que uma é surda (1) e outra é sonora (D). nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. o melhor conselho é mostrar que. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige. as explicações impressionam os alunos. a . Na maioria das vezes. diante da vogal "i" (na fala). Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma). A letra T é semelhante à letra D. através da ortografia. Como dissemos.para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. e o som inicial de seu nome. Então. seguindo o princípio acrofôníco. representa o valor fonético básico da letra. . esses problemas se resolverão com relativa facilidade. a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê.

Em alguns dialetos. apesar das variações . em: CHUVA ("tchuva"). POTE ("pótchi"). o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. MITO ("mitchu"). mesmo diante de "i": TIA ("tia"). RITMO ("rritchimu"). Como se disse em relação à letra D. sobretudo do Sul do país. por exemplo. nunca se fala "tchê". Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. etc. Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê". Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). mas apenas "tê". não antes de "i". XAROPE ("tcharópi"). mas depois dessa vogal. FECHAR ("fetchar"). como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). porém: TIA ("tia POTE ("póti"). mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. POTE ("póti"). como. etc. Às vezes. FERIDO ("feridju"). Em alguns dialetos do Nordeste. 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. Por exemplo: TIA ("tchia"). TERRÍVEL ("terríveu"). TESTA ("téchta" ou "téçta"). porém: TATU ("tatu"). o som "i" não aparece na escrita. JOVEM ("djóvêi"). LEITE ("leitchi").letra T temo som de "tchê". Na grafia das palavras. ÓTIMO ("ótchimu"). ocorre o som de "tchê".

como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). ocorre imediatamente antes de uma consoante. Como acontece com todas as letras que representam vogais. nem para a escrita. a letra U representa uma vogal nasalizada "u". 1. alguns alunos fazem confusão entre o T e o D. na escrita. e em seu nome está o som básico que a letra representa. Às vezes. Escrevem T em vez de D. preocupados com a ortografia. Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). E. SUJO ("çuju"). UM ("iirj"). Fazendo isso. ELE POTEÍ (ELE PODE IR). Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. O. Quando ocorre diante da letra M ou N que. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. FUNÇÃO .encontradas. a letra T também não causa grandes dificuldades. todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. CHUMBO ("chúbu"). ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U. nem para decifração na leitura. etc. por sua vez. CÉU ("çéu"). e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever. a sonoridade do D perde-se. U). É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO).

há muita variação entre "ô" e "ou". na fala atual.("f€íçãu"). podendo ficar apenas com a grafia de O. UNIDO ("tinidu" ou "unidu").. o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever. como em: UNHA ("ünha". PROFESSORA ("profeçôra"). como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa"). Porém. Quando ocorre OU na escrita. a letra U pode ter um som nasalizado ou não. "unha". etc. Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. PUNHO ("p "punhu". "püinhu" ou "puinhu"). etc. nem todo som de "ô" será escrito com OU. como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA. Entretanto. BOUA. Na verdade. CHOURO (CHORO). pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". quando se parte da fala. se a letra U estiver diante de NH. VOU ("vô"). 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. etc. em um número muito grande de palavras. "flinha" ou "uinha"). Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). etc. SOURO (SORO). Veja os . pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". POUCO ("pouku" ou "pôku").

"çéu" CEU. "chapéu" CHAPÉU.casos: QUERO ("kéru"). sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO. porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. "çau" SAL. LIQUIDO ("likido"). Quando os processos . QUILO ("kilu"). o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. "uutchimu" ULTIMO. nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. EQÜINO ("ekuinu"). "autu" ALTO ou AUTO. há outra dificuldade grande. no começo. Quando se escreve partindo da observação da fala. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. "papéu" PAPEL. Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. Aqui. com certeza mais do que parecia. Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. No final do ano. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. e assim por diante. etc. O aluno precisa. com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. "çaudadji" SAUDA DE. "méu" MEL.

AVULSO ("avuuçu"). muitos erros desaparecem. Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . ou da vogal que ocorre depois do L ou do R. Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R.de leitura e escrita se aceleram. dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. A letra V não apresenta dificuldades de decifração. percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala. Nesse momento. VIZINHO ("viztnhu"). pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. porém. Por exemplo. Alguns alunos. esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka"). uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru". o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível. como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. VELHO ("vélhu").

também tem o valor fonético de "chê". WILMA ("viuma"). essa letra tem o nome de duplo vê. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade. FERDE (VERDE). ENXAME ("ichãmi"). ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". como em ENXADA ("ichada"). Mais uma vez. ENXERGAR ("ichergar"). A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. etc. XUCRO ("chukru"). Nesse caso. produzindo formas gráficas como FELA (VELA). depois de N. Em Portugal. etc. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. FELHO (VELHO). Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). etc. Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . WC ('dabliu-çê'). dependendo da palavra em que ocorre. XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. pode levá-los a trocar a escrita de V por F. observando a própria fala.anteriormente. Esse é o valor da letra X em início de palavra. como em: XAROPE ("charópi').

SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). ficando apenas uma ocorrência do som "ç".consoante no início da sílaba seguinte. "chê". Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. a não ser quando se tem o sufixo -EX. Na posição intervocálica. A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. o som correspondente. Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). etc. que ocorre nesse contexto. Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. XEROX ("cherókç" ou "cherókiç"). LIXO ("lichu"). dependendo de a consoante ser surda ou sonora. Em alguns dialetos (por exemplo. como no carioca. XÇ. NASÇA ("naça"). é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). "kç" (ou "kiç". o carioca). tem o som de "ks" ou "kis". tem o som de "çê" ou "zê". maiS informal. podendo ter os seguintes sons: "çê". SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). "kch" e "kich"). AUXÍLIO ("auçíliu"). EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). EXCELENTE ("eçelêfiti"). EXSURGIR ("eçurjir"). em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). "zê". Quando a letra X aparece no fmal de palavra. como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). XS). . ocorre uma assimilação. Em alguns diale tos.

ESTUDO DA LETRA Z H. Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA.BAIXO ("baichu"). É por isso que se escreve INFERNIZAR. BELEZA. RIQUEZA. terá o som de "zê". Note que há diferença entre . ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. ZERO ("zéru"). quando o som de "zê" ocorre em início de palavra. EXIGIR ("izijir"). TÁXI ("tákçi") e assim por diante. O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. SEXTA/CESTA. Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). a escrita será com Z e não 5. só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). ZOMBARIA ("zõubaria?'). palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. EXAME ("izámi"). ZUMBIDO ("zümbidu"). Quando se parte da fala para a escrita. 386 Note que. Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. "néchta" NESTA. FIXO ("fikçu"). etc. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ. etc.rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. ZANGADO ("zãgadu").

Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização. conforme o dialeto). vier antes de outra que 1I começa com vogal. etc. como mostram os XC exemplos: BELEZA. mas receberam apenas um A do feminino. os dialetos. como INGLES/INGLESA. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). EX. EXAME.letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. e palavras que terminam com o som de "êza". Se a palavra que termina com a letra Z. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich"). Veja.StCO o sufixo . FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. Regrinhas como essas.. INGLESA. FEZ ("feiç" ou "feich"). tem o som de "çê" (ou "chê". caso de BELO/BELEZA.EZA. em início de palavra. ocorre o fenômeno da juntura intervocabular. AZAR. etc. FREGUÊS/FREGUESA. X di. MARQUÊS/MARQUESA. ocor . Porém. na fala contínua. mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra. a dificuldade da . Isso acontece em todos itexto. Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). RAPAZ. ASA. RICO/RIQUEZA.

kHz. Como. só ocorre r) etc. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras. etc. km. WILMA. YARA. Elas estão nos dicionários e.EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. VISGO ("vizgu"). kg. orren Lórakç" is diale Jdch"). a não ser quando . porém. Além disso. também fazem parte do nosso alfabeto. o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. DESDE ("dezdi"). em nomes pró. ainda no meio de palavra. YAMAHA. elas aparecem em alguns casos. Senao WILSON. embora tenham um uso muito reduzido. uirtes portanto. . abreviaturas. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. como já se disse acima. e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). YVONE. etc. ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. WC. em siglas. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba.onsta rerá somente a letra Z. As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. AS LETRAS K. KARINA.

conforme consta do cartório. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum. MANUEL. HOBBY. Veja. Assim. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. ainda. THEREZA. abat-jour ficou ABAJUR. assim como club ficou CLUBE. ficando portanto: LUIS. 387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. TERESA. a letra H passou a ter tam bidu"). New York ficou NOVA IORQUE. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI). NETO. Por exemplo. NErFO. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos. o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . etc. CARMEM. JOAQUIM. em outros casos. VICTOR. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. DORACY.usados como um apelativo comum. Fora disso. MANOEL. DORACI. KARMEN. YAMAHA. surgindo novas relações entre letras e sons. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento. Por exemplo. mas pode rá escrever. VÍTOR. bém o som de RR em nomes como HONDA. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ. JOACHIN. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos.escrita.

mas não tinha nenhum exemplo. 1817. surgem palavras com sons em certos contextos em que normalmente não ocorrem. A. Methodofacillimo para aprender a ler perfeitamente em pouco tempo com mais allivio dos mestres. Outra palavra italiana de uso muito co mum foi aportuguesada: TCHAU (do italiano ciao). Por exemplo. O conjunto de letras TCH forma um trígrafo. acompanhando o nome de um país que se escreve REPÚBLICA TCHECA. Ou tro exemplo desse fenômeno pode ser visto no nome VLADIMIR. 5. .pronúncia italiana "pítça". J. Outras vezes. 13 ed. seja estranho o som "tçê". BARBOSA. como LHAMA e NHOQUE (que alguns escrevem INHOQUE ou ENHOQUE). e menos en fado dos dlscipulos: descoberto pela experiencia. em início de palavra não ocorrem os sons "lhê" e "nhê" (exceto na palavra LHE e na forma abreviada de senhor: NHÔ). Grammaticaphilosophica da linguaportugueza. que aparecem em palavras de origem estrangeira. embora. S.. 388 BIBUOGRAFIA Referências A. em que aparece a seqüência de V + L.J. que é possível no sistema da língua portuguesa. e mais estranho ainda atribuir esse som ao dígrafo ZZ. e reflexão de alguns annos de ensino. em português. Lisboa: na nova impressão da Viúva Neves & Filhos.

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. 1997c. ano VI.à psicologia escolar. Campinas: Mercado de Letras. • & MASSINI-CAGLIARI. Roxane (Org. 1998. Iii: ROJO. 1994.). História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1. Gladis. 3 cd. Jornal da Alfabetizadora. atual. Continuando o debate sobre construtivismo. n.. 31. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo. p. rev. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 . p23. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS.193-224. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3.

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5.

Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer a ortografia 123 8.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11. Conhecer o alfabeto 121 4. Conhecer os nomes das letras 125 10. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de . Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2. Conhecer as letras 121 5.

Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1. Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 . Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. Explicar o que é uma letra 135 3. Reconhecer uma palavra 128 15. Nem tudo o que se escreve são letras 128 16.escrita) 126 12.

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 . marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.

O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10. As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. o professor. interpretação semântica da palavra 258 . o aluno e a escola 248 O certo.

a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. assinatura e escrita 271 3.2. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. letras em vez de rabiscos 272 4. escrita espelhada 273 6. quantas letras formam uma palavra? 261 5. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. explicitação da decifração na leitura 267 10. segmentação 274 7. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. a forma gráfica das letras 272 5. adivinhando palavras na leitura 260 4. velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . cachorro começa com FU 262 8. identificação de palavras 261 6.

uso de pronomes 282 3. frases soltas — coerência 284 6. repetição 283 5. erros não corrigidos 280 20. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. resultados pela metade 276 12. troca de letras 277 14. escrevendo foneticamente 277 13. coesão 285 7. medo de escrever 281 21. mistura de informações 280 18. hipercorreção 278 15. formas morfológicas diferentes 276 11. variação lingüística 282 2. letras maiúsculas 281 22. sintaxe 283 4. só o esforço não adianta <399> 19. um pouco por vez 279 17. caligrafia 285 . surdas ou sonoras? 278 16.398 10. sinais de pontuação 281 23.

11. Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13. Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 .É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O.

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .Estudo da letra Z 386 As letras K.