ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente. por abandono ou porque é trocado por outro modelo. tão antiga quanto os sistemas de escrita. Os . permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que.. só com muito estudo. De certo modo. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo. A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados. por alguma razão estranha e desconhecida. Quando esse elo se rompe.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização.C. a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. A alfabetização é. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. deixaram de fazê-lo. ou seja. Na história da escrita. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. quando Micenas foi destruída. Nesses casos. pois.

ao que tudo parece. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si..C. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. 1996b. ~. O primeiro . percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. usando o alfabeto semítico. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita.C. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos. No vale do rio Indo. com a escrita brãmane. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. Curiosamente. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas. ou seja. Por essa razão.p. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. tiveram um uso muito popular. a escrita só ressurgiria muito tempo depois. Naquela região. no século III a. pelo contrário.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde. A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B. < CAGLIARI. sempre foram simples e práticos. esses dois tipos de escrita. 106-24.

A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade. os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém. O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a. certamente.c. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado. não pensa. É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. que não faz sentido algum. Os fatos históricos também mostram o contrário.representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte. Essa é uma idéia errada e estranha. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente. Ao ler o que ele .. fundador do Império Babilônico.

Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes.mandou escrever. um livro de religião por um teólogo e assim por diante. à noite. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. <13> animais. pessoas. súdito do monarca. assim como. ficamos sabendo que. representando ~. às vezes. objetos e cenas do cotidiano. O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade. ficou pensando no que tinha . médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno. um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. o texto tem como interlocutor o próprio povo. Depois. Isso não significa que somente engenheiros. Naquele momento. um livro de medicina por um médico. numa caverna. Na Mesopotâmia. hoje em dia.

A partir dessa descoberta. quando representa uma palavra. figurativas ou não. De acordo com fatos comprovados historicamente. passa a ser uma forma de escrita. Para isso. porque pertence ao reino do pensamento. por sua vez. os desenhos. e usado provavelmente para contar o gado. Nessa época de escrita primitiva. além de representar objetos da vida real. era um passo fácil de ser dado. Ou seja. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história. a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. A humanidade descobria assim que. criar um sistema de formas gráficas. mas. mas revela algo importante. é apenas um desenho. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. ser alfabetizado significava . Provavelmente. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais. era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. quando uma forma gráfica representa o mundo. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. podiam servir também para representar palavras que. além dos números.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito.

as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente. como. e na China.C. por volta de 3000 a.C. as sílabas. fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade. o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido. na Suméria. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. por volta de 3300 a. A escrita. por volta de 1500 a.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los. a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente.. <14> por língua. por exemplo.. ou seja.C. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~. Com a expansão do sistema de escrita. repetindo um modelo mais ou menos padronizado. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala. Os maias da América Central . É muito provável que no Egito. começou de maneira autônoma e independente. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto. esse processo autônomo tenha se repetido. em média. pelo que se sabe hoje.

passavam a escrever seus próprios textos. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. ou seja. num tempo indeterminado ainda pela ciência. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. contato com algum sistema de escrita. Finalmente. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. A curiosidade. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios. dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. já que não pretendiam tornar-se escribas. certamente. Aqui. de uma maneira ou de outra. Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . que eram estudados exaustivamente. A alfabetização. nesses casos. a ler. Aprender a decifrar a escrita. Na Antiguidade.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral. devia ser o procedimento comum. escrevendo para a sociedade e a cultura da época. que talvez se situe por volta do início da era cristã.

os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais.ler. Dessa maneira. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. a primeira palavra da lista era 'alef. <15> Ao formar seu sistema de escrita. E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes. o processo de alfabetização. esse nome passou . de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. Para representá-las graficamente. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal. Além disso. por exemplo. escrever é algo que vem como conseqüência. ou seja. da escrita cuneiforme. Por exemplo. Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. Para quem sabe ler. sem dúvida alguma. foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado. que era oclusiva glotal. a lista ficou apenas com consoantes. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. que significava "boi". a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef.

porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. já se tinha um som para ela. pronunciando. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. tirada também de um hieróglifo egípcio. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa. A terceira letra era o Daieth. e. o significado vinha automaticamente. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. era usada para o som de B e significava "casa". dava o resultado final de sua pronúncia. . tinha a forma gráfica da figura de uma porta. e assim por diante. que significava "porta" e representava o som de D. ou seja. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. por exemplo. Uma vez identificada a letra pelo nome. O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras. feitos os devidos ajustes.

como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. 'alef. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. Como sempre. por exemplo. . bastava identificar as consoantes DVD. procurar. a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. uma vez que. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi. mas também as vogais. na lista de letras. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. mantendo o mesmo princípio acrofônico. para escreverem alfabeticamente. como vimos. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes.usando o princípio acrofônico. resolveram escrever não apenas as consoantes. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada. Apesar de manter o princípio acrofônico. Para escrever David. Para eles. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. em grego. agora denominada alfa. por exemplo. Assim. Já os gregos. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. a letra 'alef passou a representar a vogal A. mas também as vogais. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. ou seja.

<17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever. na Idade Média. Dessa forma. beta.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. transformaram-se em a. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. Os semitas. etc. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. na ordem tradicional dos alfabetos. épsilon. cê. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. ou mesmo quando fossem escrever. bê. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. De fato. Tais documentos foram. A alfabetização. Foi assim que alfa. por assim dizer. serviam ~. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. inclusive o alfabeto. delta. acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. dê. gama. Na verdade. Práticos como sempre. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. etc. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . e.

somando-se os valores das letras. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. pois. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem.ensinava a quem não sabia. . a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. entre as várias possibilidades. Ainda hoje. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. como as crianças já não iam mais à escola. como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga. Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar. a leitura correta. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. descobria-se que palavra estava escrita. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando. mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. as que podiam eram educadas em casa pelos pais.c. Vê-se. facilitadoras do processo de decifração. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. a qual se completava quando. que é a chave de sua decifração. Nessa época.

Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. ainda. que podia ser representado por muitas formas gráficas. agora. Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). saber fazer a categorização correta das formas gráficas. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso. Agora. "CASA' equivale a "casa".outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar. Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. portanto. em geral. as quais. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse. o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. reconhecendo a que . <18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. que passaram a chamar-se maiúsculas. Não bastava saber o alfabeto.

Como sabemos. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra. Freqüentou a escola por apenas três meses. Este último aspecto pode ser observado ainda hoje. do ponto de vista fonético. passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. Na escrita cursiva. quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. esse princípio é posto em prática a todo instante. . sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". uma esprofessora.categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. quais letras devem compor aquela palavra. ainda através da ortografia. Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. considerado um dos maiores inventores do milênio. Notas Thomas Alva Edison (1931). Nesse caso. Patenteou 1093 inventos. ao analisar o todo. era americano de Milan Obio. inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema.

com o uso da imprensa na Europa. <19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. cada qual iniciando com uma letra diferente. na ordem do alfabeto. Essa obra era voltada para a alfabetização do povo. sobretudo. Nessa época. a preocupação com os leitores aumentou. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas". apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. Por isso. uma vez que agora se faziam livros para um público maior. juntamente com este trabalho.O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. deixando de lado cada vez mais o latim. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas. Em 1525. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada .

uma destinada aos alunos principiantes. São João Batista de la Salle escreveu. em 1702. a letra S com o desenho de uma cobra. Somente no século XVIII. que continha o alfabeto. Com essa obra.Bokeschen vor leven ond kind. Valentim Ickelsamer incluiu. apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). orações e os algarismos. numa obra semelhante. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. listas de sílabas simples. a letra A com a figura de uma escada. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. mais conhecido como Comênius (15921670). Em 1527. etc. outra aos médios e a terceira aos avançados. O ensino era dividido em "lições". chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). O educador tcheco Jan Amos Komensky. um regulamento para as escolas que fundara. cada uma tendo três partes. publicado em 1720. inclusive as de alfabetização. publicada em 1658. por exemplo. os dez mandamentos. a .

Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. O pedagogo alemão José Hamel. o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um . Após a Revolução Francesa. O ensino é nitidamente coletivo. para o trabalho na <20> sociedade.segunda. em sua obra Ensino Mútuo. No terceiro livro. estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. os alunos aprendiam a ler com pausas. a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. etc. a quarta. a terceira. aparece uma distinção clara entre ler e escrever. surgiu o Ensino Mútuo. Para ensinar ortografia. descreve o método de alfabetização em detalhes. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. ao mesmo tempo. o silabário. a escrita. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. a "tábua das sílabas". o segundo livro. Nesse modelo de ensino. para aprender a soletrar e a silabar. Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. coisas úteis para a vida.

ou seja. jardins de infância ou escola maternal. membros da burguesia. o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. as escolas infantis. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização. Com poucas modificações superficiais. os alunos que freqüentavam essas . Diante dessa nova realidade. passaram a ser mais desenvolvidas. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças.tipo de escola para as crianças. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. cada uma enfatizando um fato. O ensino silábico passou a dominar o alfabético. Com a escolarização. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. na Escócia. introduzindo a alfabetização como matéria escolar.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. O estudo foi dividido em lições.

O povo simples e pobre continuava fora da escola. Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização. mapa de orientação. ao lado de "cartilha". que é um outro diminutivo de "carta". os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. publicou a Cartinha. depois. Naquela época. CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga.escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. que eram as da imprensa da época). No Brasil. A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. publicada em 1540. até as primeiras décadas deste século. Muitos professores queixavam-se dos baixos salários. junto com a gramática. no sentido de esquema. . O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta". a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano.

etc. tendo o nome das letras como guia para sua decifração. e depois punha-se a escrever e a ler. com todas as combinações de letras. a pessoa decorava o alfabeto. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. Em seguida. próprio do alfabeto. as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. Por último. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa.vinham as "taboas" ou "tabelas". que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de . uma vez que a escola naquela época não alfabetizava. <22> A cartilha do ABC. vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. nas "taboas" (ou tabuadas). havia uma lista de palavras. O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. O livro servia igualmente para adultos e crianças. interpretando. para pôr em prática o princípio acrofônico.). Para se alfabetizar. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". Notem que a ortografia não tinha vez. tesoira. decorava as palavras-chave.

Essa obra merece um estudo detalhado. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. publicada em 1850. dessa forma. Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896). Muitas pessoas que não podem ir à escola. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. A segunda edição. de 1853. Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras. intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever.trem e rodoviárias. <23> Além do método de Castilho. Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. desenhando-as com hachuras. ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. até hoje aparecem nas cartilhas modernas. manuscrito. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade. o aprendiz . segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros.

haja um destaque à leitura. depois individual e. Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). sem dúvida. Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. apareceram inúmeras outras. Entre . na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.se concentrava no que de novo era apresentado. Pedro II. Entre os livros que pertenceram a D. O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. publicada no Rio de Janeiro em 1859. embora. Essa cartilha foi. Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). vêm os exercícios de escrita. <24> No Brasil. encontra-se. então. seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. de João de Deus. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura. no título da obra.

de A. é um bom exemplo.elas há quatro tipos bem marcantes. o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. de Branca Alves de Lima. apareceram mais obras que seguiam o método misto. Com a Cartilha maternal. de Lourenço Filho. e o famoso Teste ABC (1934). têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático. é um tipo de cartilha. que vai assumir importância maior na década de 30. cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico. com o período preparatório. A cartilha Caminho suave (1948). Um livro como Primeira leitura para crianças. Com o passar do tempo. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. No final dos anos 90. Joviano. Na introdução. ou seja. . Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação. Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). do mesmo autor. começa o método analitico. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades. desde a letra até o texto. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos.

e os modelos eram sempre os bons autores. por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras. voltado para o padrão social. trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. Achavam importante ensinar o abecedário. ou seja. de A. autores famosos da literatura. Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia).Nota Primeira leitura para crianças. seguindo a ortografia da época. . Copiava-se muito. Como acontecia com as gramáticas.

quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. E a escola percebeu . Em lugar do alfabeto. o aluno começava seu livro de leitura. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. O importante. em seguida. já na década de 50. agora. até recentemente. mas não era. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. Completadas todas as letras. A cartilha parecia um caminho suave. apareceram as palavras-chave. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. Parecia que ia dar certo. que empregavam dialetos diferentes da fala culta. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes. por uma modificação radical. era aprender a escrever palavras. mas não foi bem assim. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis.

conseguiam concluir a última série do ginásio (na época. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento. cerca de dez por cento. ou seja. E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes. Diante de um quadro desolador e perturbador. A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. e apenas uns poucos. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. outros desistiam logo depois. <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. A primeira coisa que saltava aos olhos era . Apesar de todos os esforços para superar essa situação. pais e professores.logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização. Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos. não conseguindo superar essa barreira inicial. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. o correspondente à oitava série do primeiro grau. muitos alunos abandonavam a escola. Diante dessa realidade. do ciclo II do ensino fundamental). a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar.

dizendo o que o professor e o aluno devem . dar uma ajuda especial aos professores. Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula. com raríssimas exceções.o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. a dificuldade deveria residir nas crianças. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. Mesmo assim. partem ~. Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. Era necessário. então. uma orientação mais pormenorizada. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação. comprometendo assim o processo educativo. pois. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente. em seguida. o índice de repetência continuou assustador. subsídios mais práticos para uso em sala de aula. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor. como a Cartilha Sodré. o que podia dificultar a sua aplicação. As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor. e vão.

a escola foi buscar socorro nas universidades. para ver se o aluno aprende. Sem formação pedagógica. Muitos alunos pesquisavam para teses. sendo determinada a fala de cada um. aplicando teorias que. Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. Nenhum diálogo. necessários para que . O período preparatório A partir dos anos 50. passo a passo. senão a lição não funciona. obviamente.fazer. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos. nem eles próprios tinham entendido muito bem. Carentes de alimentação na infância. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. uma estultícia. o que é. porém. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. sem formação lingüística. Se o aluno responder diferente. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. muitas vezes. carentes de estímulos ambientais. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores.

o chamado período preparatório. Para resolver o problema. Os psicólogos inventaram. então. fazer bolinhas. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo". completar figuras. não podiam aprender. <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola.pudessem desenvolver o conhecimento. A . fazer o ~. Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. Assim. carentes de praticamente tudo. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". Além da cartilha e do manual do professor. p. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá. 1997c. enfim. localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. CAGLIARI. como alguns chamam. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". 193224. etc.

envolvendo questões de linguagem. que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. sobretudo da noção de variação lingüística. ao entrar na escola.discussão é longa. por causa da história de vida . baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. mas que era um grande equívoco. Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. Mais antigamente. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. mas as conclusões são muito evidentes. com mil teorias acadêmicas. A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. Em meio a tantos equívocos. sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. do que as crianças ricas. Por trás de tudo. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto.

Para não escrever espelhado. Perguntar a uma criança se uma . psicológica. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. perceptiva. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade. justamente por causa dos exercícios de prontidão. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. motora. Aliás. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. na verdade. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto. Fazendo curvinhas.de cada uma e da natureza das nossas escolas. no entanto. Isso. simplesmente porque falavam ou escreviam errado. segundo a opinião desses acadêmicos. ou seja lá o que for. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. ninguém aprende a escrever nem a ler. e vice-versa. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. excepcionais e carentes.

não é uma resposta à pergunta que fez à criança.. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico. Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela. a criança fazer o que lhe foi dito. Por coisas como essas (e tantas outras. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes. você pode pegar que é todo seu" e deixar. o que. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto. simplesmente exemplifica.caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa... o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado. que a melhor solução é abandona-lo por completo. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque. que contribuam de fato para o processo de . Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. porque o próprio professor não sabe responder e. são sempre muito dóceis e condescendentes.. sem dúvida alguma. Está tudo tão errado. quando responde. Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade. de fato. não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de". que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças.

Uma delas. de valor inestimável.alfabetização. Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental. por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). 1 996e). Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997). cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação. mesmo plenamente justificáveis. Algumas idéias. a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres. ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. Quando o professor diz que não adota a . 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI.

. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. que é a linguagem. como o estudo de categorias gramaticais. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. Velhas idéias. procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. as relações entre letras e sons. etc. Contudo. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. grau. número. a ortografia. gênero. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos.cartilha. continua usando o método da cartilha. o "entulho" que se acumulou com o tempo. como ensinar o alfabeto. Por outro lado. estão voltando a ter importância na alfabetização. fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. porém básicas. tem sido removido. até chegar ao amadurecimento esperado pela escola.

e outro. juntando a primeira e a segunda série. Infelizmente. Desse modo. uma vez que agora a promoção era automática. enfim. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". a educação. Além disso.Num esforço de muitas pessoas. <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo. alguns ~. a sexta. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. a sétima e a oitava série. a instrução. A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . com grandes vantagens para a educação como um todo. a começar pelo estado de São Paulo. um incorporando a terceira. mas a formação. só foi posto em prática o cicio básico. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. a quarta e a quinta série. Apesar disso tudo.

A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade. proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. Por outro lado. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados". A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. nas primeiras séries. Porém. vemos como a escola veio para complicar tudo. uma melhor interação entre professor e aluno. como em outros campos. mas. métodos e livros. . já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres. Aqui. infelizmente.A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem. A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. tornou-se um pesadelo na escola. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. que tinham todo o processo preparado de antemão.

etc. é o método sintético.Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. fônico. construtivista. foram experimentando todos os "pacotes". Se sua competência já era muito . Como as escolas de formação de professores para o magistério. quer ditando as regras da burocracia. semiótico. de acordo com os modismos da época. Os professores. Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. não conseguem dar a formação necessária para os professores. freinet. lúdico. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo. vítimas da própria incompetência. todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. ditando ~. achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia. quer. o que é verdade e o que é engodo. lingüístico. <32> as normas pedagógicas. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". atormentados com tantas mudanças. mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho. o que é certo e o que é duvidoso. sobretudo. desse modo. psicopedagógico. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo. que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. analítico. global.

Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. diante de tantas "experiências educacionais".limitada. Estudar pedagogia. e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos. ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. quer se trate de um "pacote educacional. CAGLIARI. 1992c. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. 1993. que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. agora além de tudo ficou confusa. O fundamental é saber . metodologia psicologia é importante. dando as razões de sua conclusão. Alguns. incompetente. Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor. é um professor malpreparado. MAGNANI. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam.

de fato. Esses conhecimentos. neste país. Resumindo. na alfabetização.). Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores. em especial.. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. como também não . O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas.. como também pessoas que foram. não só existem milhões de pessoas analfabetas. isso só se obtém com a competência do professor.como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica. a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive. em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo. teríamos. Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. Hoje. mal alfabetizadas. nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética). aliados aos de pedagogia e psicologia. fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro.

Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire.alfabetiza somente com lingüística. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos. <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. apenas . enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores. A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta. O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países. Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. Nada substitui a competência do professor e. além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização.

às coisas mais simples e claras. Daí o descrédito de alguns professores na educação. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. Às vezes. fruto da indignação metodológica. aos princípios básicos. ou mesmo contraditórias. Por isso. no mercado. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. já não sabem mais no que acreditar. é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. os quais. aprendizagem e métodos. em meio a tantas posições diferentes. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. Existe. Para isso. e sobre ele já existe considerável literatura. rever a história.uma ferramenta. retomando uma visão correta do fenômeno. . apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. é preciso voltar às origens. bem como conhecer as limitações de cada um. acaba confundindo seus leitores. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. Como o assunto é muito vasto e complexo.

1990. CAGLIARI. de acordo com sua história de vida e. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente. pode não parecer tão importante para quem aprende.Por incrível que pareça. PATTO. como fruto inevitável do ensino. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. O que é importante para quem ensina. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. . O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. 1990. o que é um erro grosseiro. na teoria. Muitos aceitariam a diferença sem problemas. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação. acompanha passo a passo a ordem do ensino. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. raramente. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. etc. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência.

sempre que oportuno e possível. mas criar algo semelhante. de seus interesses. que um aluno automaticamente aprende. ao contrário do ensino.No ensino. Por isso. a partir da iniciativa individual de quem aprende. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. para facilitar o processo de ensino. mesmo quando o fazer significa dizer. fazendo remanejamentos. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. na aprendizagem. mas cada aluno deverá aprender por si. de seu metabolismo . o que se faz. Aprender depende muito da história de cada aprendiz. Não é porque o professor ensina. seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. Quando simplesmente se repete um modelo. Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. não ocorre exatamente uma aprendizagem. entre outros fatores pedagógicos. por ação própria. gostam de manter classes homogêneas. em detrimento do processo de aprendizagem. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. é muito importante o que se diz. Ela vai aparecer somente quando a pessoa.

não é porque um professor não ensina algo. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como. por iniciativa própria. O fato de se ter um professor. uma classe. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. o que compete a cada um. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". Por outro lado. que se aprenda com os pais. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. As atividades de sala de aula estão voltadas para o que . É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola.intelectual. todavia. antes da escola. Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". Nada impede. A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. com um colega. aliás. o que cada um espera do outro. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. Sem uma visão clara e correta da atividade escolar. Afinal.

os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares. se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. etc. pensar.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. Falta o professor educador que em . A insensibilidade dos professores. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. refletir. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. Um aluno pode ensinar ao outro. Na maioria das vezes. Há muitos professores e profissionais da educação. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. mas poucos educadores. tentar fazer. refazer. Infelizmente.

sem respeitar a individualidade de cada um. de maneira clara. depois de formados. Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua . Está na hora de devolver a educação aos educadores. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação. de fato. aquilo que os educa. pararam seus estudos. é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. professores que. no Brasil. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. seu modo de ser e de trabalhar. ou seja. honesta e adequada. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. Infelizmente. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior. para <38> a vida. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão. A educação.

mas. Ninguém parece confiar mais no professor. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. São professores que sabem ler e escrever. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. Em vez disso. de que o Brasil tanto precisa. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais. tem-se um amontoado de leis e regulamentos. mas não usam esse conhecimento. não há escola. Muito se fala sobre o assunto. A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. não há educação de massa. Sem o professor. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante.obrigação diária de sala de aula. sem escola. e. O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. <39> DOIS MÉTODOS .

Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem. com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem. pode-se dizer que a educação. as escolas não precisariam existir. tem dois métodos apenas. quando. pois cada um aprenderia por iniciativa própria. às vezes com conseqüências sérias. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. entre outras. por iniciativa própria. caso contrário. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . sobretudo. Por outro lado. saber que aprendeu.A educação não pode viver só do ensino. o professor não pode ser o dono da educação. na medida adequada. aquele que tem tudo sob seu comando. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. Nos estudos pedagógicos. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. Por essas razões. A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. na sua essência. como também não pode viver só da aprendizagem. caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo.

o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. método mecanicista. no fundo. como. Há uma tipologia de métodos que. algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. baseiam-se em um dos dois métodos básicos. por exemplo. método global. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. método dedutivo. apresenta-se. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2). <40> método construtivista. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. Por essa razão. de certo modo. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. No entanto. Toda essa discussão pode. considerando os seus processos de argumentação. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. tem as características básicas apresentadas abaixo. a seguir.produzido uma vasta literatura a respeito. o método 1 e o 2 servem . podemos dizer que todos os métodos. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2. Talvez por isso mesmo. método indutivo. etc. Em primeiro lugar. São as variantes das duas vertentes principais. método fônico. no seu extremo.

dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é. DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. Por exemplo. qual é a concepção de linguagem subjacente. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição". uma importância fundamental. quem ensina e quem aprende. Na verdade. com o que faz. transmitido como ensino. tendo de decidir entre o . que usos tem. na prática. devem seguir um modelo prévio. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos. nos métodos que a escola usa. pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. nesse momento. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. como funciona. Não conheço. O aluno procura sempre responder. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. na alfabetização.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem. A linguagem exerce. Inversamente. Por isso. em nenhuma cartilha. tudo gira em torno dela. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino.

Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia. Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função . não têm esse tipo de preocupação: elas. simplesmente. <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. ainda. aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". quando falamos. passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor.certo e o errado. e muito. o problema da ortografia. Ora. que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia". porque. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. a não ser na escola. o que é falso. pensam e falam o que quiserem. na vida real. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. ou por influência da educação escolar. trata-se de regras lingüísticas diferentes. Há. mas que irá atrapalhar. Nenhum falante acha que fala errado. do jeito que acharem mais conveniente. quando as pessoas usam a linguagem. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido".

mais importante da linguagem. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário. que essas verdades logo se revelam. mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem. Ora. . Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar". esta não se reduz apenas a comunicar. Atrás de notícias encontram-se censuras. A linguagem também serve para comunicar. Quanto de enganação. quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte.. Basta refletir um pouco. nem talvez a mais usada.. porém. O MÉTODO 1.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo. ocorrem tomadas de posição. senão a única. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida. transmite-se uma cosmovisão. a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação. Nesse caso. A comunicação é uma função importante da linguagem. é a comunicação.

Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. porque os alfabetizadores já aprenderam. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor. dando chances iguais para todos. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. essa é a regra geral. em todos os seus níveis. Nas séries mais adiantadas da escola. Nesse quadro. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização. o professor programa o que vai ensinar. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um. No começo do ano. é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos. A técnica A técnica do método 1. que não podem ser tão cegos assim. na prática. mas é má pedagogia. na alfabetização. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. que alunos vão ter. de todas as formas possíveis. sem sequer conhecer seus alunos. isso é muito conveniente para quem ensina. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. Obviamente. dizem. uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. O método 1 considera que a melhor .<42> o marco zero de uma caminhada. Os alunos que se virem.

Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. Por exemplo. Com esses pedaços. pode-se formar as palavras "Tatá". TA. Por exemplo. Nesse caso. diferentes das palavras-chave.maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. formando "palavras . mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. Assim. parte-se sempre de um modelo exemplar. uma palavrachave. TA. o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. extraídos das palavraschave. Feito isso. por exemplo. escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. e que sabem juntar os pedaços de palavras. Depois. tem-se BA. desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). Com alguns pedaços de palavras. Em seguida. no primeiro exemplo. segundo o professor. desmontando BATATA. "bata" e "taba". Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. pode-se descobrir que é possível formar palavras novas. a palavra é remontada. ou montando coisas novas a partir de pedaços. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons).

Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita. Na linguagem oral. não ele. A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda. alguns professores. Aprendem o jogo da escola. que sabe tudo.). se aconteceu. porque o método não ensina isso. no segundo caso. porque seguem apenas as regras do jogo. isto é. as crianças ligam os pedacinhos. Ele apenas faz a lição. foi mais por culpa do professor do que dele. apenas uma estratégia de ensino escolar. que a criança nunca tinha ouvido. forma-se uma palavra nova. E. saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa". vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. que diz que. mas não sabem de seus limites e usos reais. diante de fatos como esse. Por mais estranho que pareça..novas". juntando dois pedaços de palavras. achando que o professor. liga os pedacinhos de letras para formar palavras. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. . porque além de tudo aquilo que não entendeu. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias.. como sabia antes o que significava "taba". quem deve saber essas coisas é o professor.

não porque falamos desse modo. fazendo pausas apenas em alguns lugares. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças. separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. Dominado ou aprendido algo. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. de fato.falamos tudo junto. Na escrita. uma após a outra. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons. Ora. para que os alunos aprendam a ler. Por outro lado. que deve ser aprendido. A base desse . as quais o aprendiz precisa dominar. passa-se ao conteúdo seguinte. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. ou seja. A base: o já dominado Com o método 1. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos. Aprender é dominar. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. Não falamos fazendo pausa após cada palavra.

decorar é fundamental. Conseqüentemente. Portanto. Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos. produzindo escritas absurdas. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. Por exemplo. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. acabam revelando sua ignorância. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. Esses professores mostram que usam o método 1. enquanto não provar que já o faz. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. embora garanta. fazem sem erros os . nunca se questiona o ensino. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. Na alfabetização.método é. Para isso. e. sim. repetindo-a corretamente. O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. pois. mas tãosomente o comportamento do aprendiz. dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem. o conhecimento já dominado. Nesses casos.

não chegam <45> a se alfabetizar. No processo de . logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho). como acontece no método 1. o já dominado apenas revela um modelo repetido. para o aluno. nas atividades escolares. conseqüentemente. Neste. como se decifra algo escrito para ler e. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". mas. principalmente. A memorização é fundamental no processo de aprendizagem.ditados das palavras já dominadas. quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. O uso da memória O uso da memória. Esses alunos foram ensinados pelo método 1. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. ou não fazem nada. mas não pode ser um truque. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado. e o resultado é uma enorme decepção para ele e.

convencem-se. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. como se esperaria de alguém que tem bom senso. palestras ou lêem em livros. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. São duas realidades muito diferentes.aprendizagem. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente. disposto numa ordem necessária. Memorizar é fundamental. querendo fugir desse esquema. alguns professores. como acontece com a prática pedagógica do método 1. o . São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido. a memorização faz parte do processo de reflexão. Obviamente. Por essa razão. e de que aprender é entender e não decorar. Outras vezes. de que a memória não tem vez na aprendizagem. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. Às vezes. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável. isto é. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada. trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas.

que não se aplicam ao que se quis dizer acima. No entanto. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade. até certo ponto. No entanto.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. Será que as coisas são mesmo assim. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. Isso acontece porque partem do pressuposto que . a organização hierarquizada é uma atitude esperada. E difícil. mesmo em sua forma sistematizada. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. tais afirmações são tão gerais. por exemplo. é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. para o processo de ensino. e talvez seja mesmo impossível. utilizada pela educação nos currículos escolares. É claro que alguém precisa aprender a ler.

"bardi". achamos difícil escrever. O aluno que fala "drentu". porque erramos menos a ortografia com elas. Para quem duvidar disso. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles. Na verdade. Para ele. A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática. aconselho estudar árabe. não há nenhuma palavra fácil. qualquer palavra é igualmente difícil. Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza". mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. "andando") tem uma dificuldade . A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza. Ledo engano. "balde". Para uma criança que não sabe ler nem escrever. Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. tudo é difícil.escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. por exemplo. "andano" ("dentro". Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. e não ao processo de alfabetização. "estender" ou "extensão". qualquer palavra. no começo. <47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores.

Além do som de S. seria o de Z. o que é um absurdo. Por exemplo. É preciso. Por outro lado. suprimimos o I: "rapaz". O que há de diferente é o uso das letras na escrita. dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. pois. Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. de CH ("lixo") e de Z ("exame"). separar fatos da fala dos da escrita ortográfica. poderíamos escrever "esterno". mas. se escrevêssemos "prósimo". Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. mas que deve ser escrito: "toda amiga".muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. Dizemos "rapais" ou "rapaich". uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo". um aluno fala "fizeru". "acharu". De acordo com as regras de nossa ortografia. o som da letra S. e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). em palavras como "caixa". a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. na hora de escrever. mas. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram". nesse caso. "acharam". é comum não se pronunciar o I . por estar entre duas vogais.

do mais fácil para o mais difícil. mas não de fato. Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. quanto para quem aprende. cobrando a mais rigorosa e constante avaliação. Fáceis e difíceis "aparentemente". desenvolvendo-se passo a passo. Esses casos. porque A é mais fácil do que X. é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe. mas precisaram ir além. Como o ensino é completamente hierarquizado. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados. estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. E a lista é longa. que realmente são armadilhas para os alunos. Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito. tanto para quem ensina. o resto não faz sentido. jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X.que vem junto com o A. mas não se pode deixar de escrevê-lo. Na verdade. em todos os ramos do saber. .

ganha nota cinco. o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. no final do ano. A avaliação.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. só porque cometeu dez errinhos. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. até demonstrar que já dominou. Isso é tão ridículo. o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas. Se não houver uma avaliação rigorosa e constante. aqui. de repetir o ano todo. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta. para que o ensino possa dar um passo adiante. E as outras coisas que . sobretudo para as crianças na alfabetização. o que conta são os erros e não os acertos. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. voltando àquele zero inicial. O aluno escreve urna história de dez linhas e. não o que ele aprende. Na avaliação. prevista pelo método 1. mesmo que tenha. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar.

naquele momento. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente.escreveu certo. o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. fazendo aparecerem erros. passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. O ditado. e o resto que fez e fez bem. que os ditados. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação. na verdade. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo. na alfabetização. visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. e em nada contribui para a aprendizagem. como se escreve uma palavra. que já dominou um certo conteúdo programático. tem de voltar atrás e repetir a lição. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. Não é pensando que ele vai descobrir. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na . O aluno não aprende fazendo ditados.

a solução que adota é ignorá-lo. a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. Há. Repetir e repetir é o que manda o método 1. discutir o erro. Simplesmente ensina-se o certo. Mais raramente. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações. em geral. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence. tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo.mente do aprendiz. como naquele momento da avaliação. o erro é um problema que o método não sabe resolver. Nesse caso. Fora isso. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir. Por isso. Por que as crianças fixariam . na tradição pedagógica de nossas escolas. O que fazer com o erro No método 1. Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. sobretudo nas classes de alfabetização.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos. sabemos como operar com certos conhecimentos. o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas. E ninguém fica perdido no meio do caminho. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor.chegassem. Isso também é saber. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. caso contrário. Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. não pelos efeitos. Quando uma pessoa entende algo. Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender. seguindo um processo de reflexão. não precisa "fixar". a vida toda. portanto. revelando as decisões que os alunos tomaram. como acontece com o método 1. no método 2. ela automaticamente sabe e. A fixação da aprendizagem. Nesse caso. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. e existe outra memorização que é . é o outro lado da moeda da reflexão. e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. Em muitos casos. não sabe.

No início. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. para a habilidade de . de produzir textos orais. mesmo que. essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. mas sacrifica-se a produção de textos reais. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. Nessa fase. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. Porém. para isso. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. o uso real da linguagem. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir.simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. No caso do método 2. o aluno aprende primeiro a ler. escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia. Salva-se a ortografia nos cadernos.

salva-se o uso real da linguagem. como se pode notar pelas observações anteriores. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. O aluno. o processo educativo depende do . Tem-se a impressão. no início. quer na sua forma oral. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. Com a produção de textos desde o início da alfabetização. com a ajuda dos dicionários e. ficará perplexo e não saberá. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação. será uma simples transferência do oral para o escrito. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. Aos poucos. e este. quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever. Todavia. de imediato. Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. por sua vez. de muita leitura. A culpa será atribuída ao professor de português. principalmente. no entanto. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. No começo. Porém. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem. quer na sua manifestação escrita.produtor de textos escritos. o que há de errado.

Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. O método 2 exige experiência e competência do professor. acostumados com essa prática. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção. paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. <60> 3 Avaliação. Isso parece óbvio e natural para muitos professores. embora aparentemente adequada. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. promoção. mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável. ou seja.método adotado. Os dois métodos podem alfabetizar. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . No entanto.

NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. Na verdade.que o professor faz para ensinar. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. CAGLIARI. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. portanto. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. a questão central não é essa. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. Na verdade. 1996e. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte. entre outras razões. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. Este último argumento é o mais comum para . porque se poderia contra-argumentar. Certamente esse argumento é um contra-senso. Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno. facilitando.

Como a escola educa para a sociedade.justificar o uso de notas e conceitos. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. com o tempo. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho. Como o objetivo é muito claro. Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. de acordo com qualquer parâmetro. faz o gol da vitória. como um jogo social. Os professores dizem que. mas não sem razão. Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. mas um nocaute basta para qualquer . ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. se no último minuto o adversário. Curiosamente. No boxe. A necessidade de dar e receber nota tomou-se. sem as notas. a exemplo da tradução do título de um filme. que jogava mal. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis. os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. abrangendo todas as atividades. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". contam-se pontos.

porém. funcionam bem quando se trata de classificação e. Nos concursos de seleção. simplesmente. estão participando de uma competição. dos estudos? <63> . ou seja. sobretudo. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica. Neste último caso. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva. Nesse sentido. da escola. as notas estão por toda a parte. é outro: será que os alunos. refletindo um julgamento de valor. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. quando estudam. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. da série. Como se vê. as notas servem também para indicar o campeão da turma. da educação. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. Em algumas escolas. o melhor de todos. As notas. Nosso problema. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação.lutador vencer.

com mais arte e perfeição do que outras. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar. Nas escolas da . Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima. O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. é comum haver competição. fazendo determinadas tarefas. Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar. logo fica evidente que algumas fazem melhor. a partir da capacidade de cada um. pela própria natureza das atividades da escola. Na vida. Quando se reúnem muitas pessoas. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar.Na prática.

A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. principalmente no que se refere à ortografia. as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. deixando de lado as opiniões individuais. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. Ou seja. testes e exames. É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. do jeito que era ensinado. Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. Basta fazer uma análise de provas. . a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho. para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo".Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre.

a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. a não ser em casos muito excepcionais. Assim. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola. o que significa que. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. no fundo. Certamente. depende da avaliação. Aliás. como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. a pelo menos metade das aulas. No caso. . seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. julgadas inaptas para o trabalho escolar. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição. Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas. por exemplo.

Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. Nesse caso. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. embora haja muito mais a ser dito. O aluno estuda não porque é importante para a vida. Em primeiro lugar. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação. mas para livrar-se de mais uma competição intelectual. no sentido pleno da palavra. Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. expresso por notas ou conceitos. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria. num plano secundário e mesmo dispensável. deixando a idéia de formação. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova . não é razão suficiente para reprovar alguém. faz menos sentido ainda falar em reprovação.

Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. Por outro lado. como aprimoramento pessoal e profissional. queimar livros e tratar de esquecer a escola. O tempo da avaliação é irreversível. Num país como o Brasil. quantos alunos chegam mesmo a dizer. dizer isso é uma piada. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos. E preciso educar para a vida. como irremediável é a nota. De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua.como se resolve uma questão? Mas. A avaliação não volta atrás. entre outras coisas. mas ao longo da vida. já não há mais tempo. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. porque a nota já garantiu a promoção e. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. A educação precisa modificar sua visão de si própria. uma vez que piorar o ensino é impossível. então. depois de terminada uma prova. que fazem questão de se esquecer de tudo. não para a nota. talvez. Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. A qualidade do ensino se . até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa.

consegue com um trabalho <66> competente. quer na ação do professor como educador. . Pelo menos com medo das provas. uma outra perspectiva de trabalho escolar. fica sem controle. eles estudam um pouco. alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade. quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. que gosta de matar o tempo. passa a ser avaliado como alguém irresponsável. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles. se não houver provas exigentes e notas baixas. os alunos não estudam. Os alunos são vítimas desse processo. desde cedo. Se o professor nunca passar uma prova. não culpados. E nada disso tem a ver com notas. Ainda nessa linha de raciocínio. Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola. Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. Professor que não faz isso. Outro argumento. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno.

O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem.encontraria. os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. Por fim. Em troca. o professor se volta de novo contra os alunos. se sentirem humilhados e castigados. Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes. Com o aumento das irregularidades de comportamento. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias. usando sua arma terrível que é a nota. nas provas e notas. três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para .

uma perda de tempo. a não se deixarem enganar pelas aparências.. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação. mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras. não obstante. Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. aluno por aluno.responder direito e de maneira completa. mas o próprio fato de dar . Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. Gostaria. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. e a mais honesta. Acreditam que.. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. estão ensinando seus alunos a estudarem direito. dessa forma. e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. Como vimos. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina. duas questões de resposta fácil. por fim.

constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido. Na verdade. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano. a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros. uma das mais problemáticas do texto. o que dá uma porcentagem de 3 1. dizendo que havia apenas uma palavra certa. o professor achava que estava tudo errado.43% de acertos nesta frase. a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros. (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos. ou "piçoa" em vez de "pessoa". porém. O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho".notas.) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho"). mas da qualidade dos erros. Analisando. Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos.57% de erros contra 68.

Não é porque o professor ensinou algo. O professor também deve se auto-avaliar. Na escola. sobretudo nas primeiras séries.alunos acertam. em que o professor manda e os alunos obedecem. Assim como a promoção não precisa de notas. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro. uniformizante. cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. O importante é que todos cresçam. O erro é sempre muito chocante. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe. Somente aquele tipo de ensino massilicante. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. começariam a ver as notas com outros olhos. A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. é desconhecer a realidade de cada aluno. que todos os alunos . AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. porque cada um é diferente dos demais. também a avaliação não precisa delas. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. A avaliação é uma atividade importante.

enfim as notas. para quem quiser ver. No final do ano letivo. uma reprodução do modelo apresentado. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida. na forma de provas ou chamadas. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. fica muito fácil para o professor provar. A escola precisa trocar as provas. aplicado à solução de algum problema. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos.aprendem do mesmo jeito. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. os testes. o . não para passar de ano. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. depois de uns tantos meses de aula. como um aluno começou sem saber muito e. o próprio aluno poderia ver. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. Não é porque o professor ensinou. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. outros por iniciativa própria sob a supervisão dele. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes. por trabalhos que os alunos irão fazer. em primeiro lugar. e se esses trabalhos forem guardados. alguns sob orientação direta do professor. Em vez de boletim de notas. Nesse clima pedagógico. nesse arquivo.

durante o ano escolar. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias. Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor. paralelo a tudo o que se faz.professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho. quando <70> realizam suas tarefas. porém. além de ajudá-lo. como também para julgar . Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. Com isso. Esse tipo de avaliação. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer.

que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. mas também os demais. O aluno na série seguinte Se todos os professores. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte. Mesmo hoje. que o aluno errou o sujeito da oração. apesar das provas e das notas. não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou. o professor do ano seguinte. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano.o que os outros e o que elas próprias fazem. em vez de reclamar do colega. Quais serão esses erros. quando um aluno é promovido. no começo do ano. Portanto. tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. partirem da realidade de seus alunos. . Analisando friamente. por exemplo. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. incluindo não só os da alfabetização.

mesmo. Por causa de um predicativo do objeto direto. os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo. muitos alunos já foram reprovados. 1993c. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho . Na alfabetização. Como avaliar essa avaliação. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz. além de causar danos emocionais nos alunos. Tal reprovação. um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. não soube resolver um binômio de segundo grau.

O processo de aprendizagem não funciona assim. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. pode ficar condenado a não aprender nada. a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais .do processo de aprendizagem. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. Por isso. Agir assim requer uma mudança de atitude. Ora. mas somente para promover ou não o aluno. E se o aluno vai mal na prova. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo. Muitas vezes. Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras.

Ninguém pode reclamar disso. ele pode até agir assim. sem mencionar a tradicional queixa dos pais. não pode dar outra nota senão 10 ou A. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. dentro de suas possibilidades. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. fazendo todo tipo de atividade escolar. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus). que muita gente passou a ter. pesquisando. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. e não através de provas e testes padronizados.profundas do educador. e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o . mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos.

esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. os alunos aprendem. considerando uma tarefa do professor. uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. 1998a. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. se um aluno não aprendeu a ler. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria. é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. Infelizmente. mas alguma coisa eles aprendem. sem . Na alfabetização. É algo sério. e isso basta. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. Estudar é outra coisa. como deve estar. Quando o professor ensina com competência e seriedade. < CAGLIARI. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias. que precisa ser feito com responsabilidade. isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa.processo escolar. Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. Todos eles aprendem alguma coisa. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende.

O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários.. Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente.ligar para o que acontece com seus alunos.. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. de vez em quando. especialmente se for na primeira série. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau). Por causa da variação lingüística. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. levando em conta as principais áreas da lingüística moderna. Então. sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o . no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas. recomenda <73> uma mudança para a classe especial. a única solução que visualiza é a evasão escolar.) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico. Para os piores. Para os repetentes incorrigíveis. As escolas costumam fazer seu planejamento.

Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser.certo da norma culta e o errado das variações dialetais. num primeiro momento. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem. por exemplo. para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua. no seu dialeto. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. cada um do seu jeito. Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria. Entretanto. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. 74 CAGLIARI. Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria. chama-se epilingüismo. usam a linguagem. o seguinte: . usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. como têm demonstrado os lingüistas modernos. 1991a.

Introdução de noções básica de fonética e de fonologia. Produção de narrativa orais e escritas . 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização. Produção de textos de natureza diferente. História da escrita. sobretudo a ortografia. Produção de textos orais e escritos. treinar o aluno na produção de textos espontâneos.1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita. Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. Autocorreção da ortografia. explicar como funcionam os sistemas de escrita. etc. Primeiras noções de variação lingüística. Leitura de lazer e de pesquisa. . Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão. como cartas notícias. 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística. Visão geral da aquisição da linguagem oral.

Leitura de lazer e de pesquisa. Produção de textos oriundos de pesquisas. sobretudo poesia. Leitura literária orientada. regência e concordância. Cuidado especial na produção de textos orais. Produção de textos mais sofisticados. Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. ou seja. Leitura de lazer e de pesquisa. Leitura de romances. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos. 6º ano Estudo de sintaxe. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. dos usos da linguagem oral e escrita. 5º ano Estudo de morfologia. Apresentação das línguas indígenas brasileiras. 4° ano Estudo mais sistemático de fonologia.Exploração de textos literários. lJabaibo com contos e pequenos romances. Noções básicas de sociolingüística. Produção de textos orais e escritos. por exemplo). Introdução à teoria da literatura. Introdução à . ou seja.

No ensino médio (segundo grau). História da literatura. interpretadas agora segundo uma teoria e . Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. Leitura de textos científicos. interação lingüística. artísticos e de autores famosos da literatura universal. 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau.análise literária. Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. Como verá coisas diferentes a cada ano. História da ortografia. Estudo da história da língua portuguesa. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional. num trabalho metalingüístico. o que deverá aprender no primeiro ano. tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. linguagem e pensamento). podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas. a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. Diante de um quadro como esse. Produção de textos literários e científicos.

formando uma gramática moderna descritiva da língua. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia. No terceiro grau (graduação). O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. • Produzir textos espontâneos. desde o primeiro ano. Em termos mais específicos. não importando os erros de ortografia. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores. com vistas a um estudo crítico de teorias. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística. . a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições. Depois. através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. deve ensinar o aluno. Na pós-graduação. a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado.

• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo). Como se vê. Basta fazer um trabalho sério. a escola não pode fugir à sua missão. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. A escola precisa saber lidar com as diferenças. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante. testes. que não precisará de provas. com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras. • Preparar e ler um texto no dialeto padrão. de modo a eliminar os erros de ortografia. competente e constante. notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos. Por outro lado. • Participar das atividades escolares. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas.

se não fizer isso em casa. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis. mas normalmente farão outras coisas.fraca e ruim. A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar. lugar para brincar e lugar para estudar. Em casa. principalmente nas primeiras séries. fará na escola. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente. depois de um dia de trabalho. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa. sobretudo brincar e se divertir. Isso é um absurdo. Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar. Nas escolas públicas. Criança precisa se divertir e. Lugar de estudar é na escola. que infelizmente proliferam em nossas escolas. . elas tornam-se um absurdo. onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. onde os alunos pobres estudam. em geral. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. não há livros. e seus pais.

nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar. para que isso aconteça. . como achará tempo para estudar. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições. geografia. sobretudo para provas e exames. Por outro lado. E. o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. Isso é tarefa exclusiva da escola. do que gastar muito tempo de vez em quando. mais importante. Mas. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. diminuindo. já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa. ensinando aos seus filhos matemática. A medida que vão crescendo. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. o professor não pode passar tarefas todos os dias.Mesmo em séries avançadas. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições.

estudando e trabalhando fora da escola. sem professor. depois tornou-se uma tabela de letras. pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . aluno. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. sem diploma. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. não para dar satisfação ao professor. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário. Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. mas para estudar o que ele. o aluno poderá fazer o mesmo em casa. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos.Pelo contrário. sem prova. numa ordem crescente de dificuldades. escolheu para si. sem nota.

Muitos professores fizeram sua própria cartilha. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho. Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação). ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas. todos os anos. os quais. compram. Alguns chegaram até a publicar esse material. dedicada ao período preparatório. alguns professores deixam de usar as cartilhas. atendendo a pedidos de professores. fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. compram. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos .desmontar e montar palavras. não querendo adotar uma cartilha. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. em substituição. Tempos depois. Os próprios órgãos encarregados da educação. por alguma razão. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha. livrinhos de histórias. que. Mesmo quando. baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos.

o que pretendem e. a habilidade e o bom senso de alguns professores. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. como propõem. A opção por um trabalho alternativo. que se conheça como elas são. sem cartilhas. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. o que deixam de fazer. exige. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. Por essa razão. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. ou seja. <80> principalmente. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. o que propõem. agora de maneira muito mais confusa e difícil. . antes de tudo. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. Como as letras representam consoantes e vogais. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. Como é constituído de letras.

É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. escritas com elementos já dominados. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. a cartilha acaba num texto. apresenta-se um resumo. do mais fácil ao mais difícil. ilustrada com um desenho. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. Depois. em que se emprega o princípio acrofônico. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Em seguida. aparecem os exercícios estruturais em que . segundo algum critério escolhido pelo autor. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. em que o alfabeto pode estar ou não presente. No fim.nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. e destacam a sílaba geradora. Vêm abaixo algumas palavras novas. mais elementos novos introduzidos na lição. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. No entanto. Geralmente. Na verdade. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra.

a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. . O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. Como as letras representam consoantes e vogais. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. Como é constituído de letras. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. Na verdade. o que deixam de fazer. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras.palavras <81> principalmente. Por essa razão. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. a habilidade e o bom senso de alguns professores. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. ou seja. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. em que se emprega o princípio acrofônico. No entanto. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização.

a cartilha acaba num texto. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. ilustrada com um desenho. mais elementos novos introduzidos na lição. cópia e ditado. Depois. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. escritas com elementos já dominados. em que o alfabeto pode estar ou não presente. Há. No fim. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. Em seguida. Geralmente. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. então. e que pode servir também . e destacam a sílaba geradora. Vêm abaixo algumas palavras novas. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. apresenta-se um resumo. segundo algum critério escolhido pelo autor. ainda. um pequeno "texto" para leitura. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo".essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. do mais fácil ao mais difícil. Ou.

elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu. além das tradicionais cópias. uma sílaba. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados. Como se disse antes. essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra. de letras. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases.para exercícios de interpretação de texto. até propostas de representações teatrais pelos alunos. tudo muito bem ligado. uma quantidade enorme de atividades. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". a linguagem tem esses aspectos. As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. Nas lições mais adiantadas. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem. Recheando esse esqueleto. que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. representados pelas . Ora. Em geral. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida.

como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". que apresentam semelhanças e diferenças. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. a escrita e a leitura. que não usam a norma culta da língua. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização. No fundo. diferenças que representam a fala de pessoas pobres. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. e que são. Ora. pois. Com relação às diferenças. interpretadas de maneira preconceituosa pela . a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. Analisando esses três pontos. ficando apenas com o que há de mais superficial. porém. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. portanto.sílabas e unidades geradoras. pois são aceitas socialmente. para elas. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. algumas não causam estranheza. Há. A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala.

usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. Como não domina a norma culta. etc. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. Exemplos: "drento". "dobrar". acompanhadas ou não da zombaria dos colegas. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula. "drobar". recebendo dos professores inúmeras correções. A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. Ou seja.sociedade como um modo errado de falar. percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual. em vez de "dentro". desde o começo. fala seguindo seu próprio dialeto. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. esse . de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. O aluno vai seguir as lições da cartilha usando. quase sempre lidando com questões muito fáceis. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. Obviamente.

Do mesmo modo. etc. "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). seguem alguns exemplos. a ideal. Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu". levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. Para ilustrar o que ficou dito acima. como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo. "alto" em vez de "autu". etc. pronunciando "balde" em vez de "baudi". Um professor. sem vida na sociedade. pronuncia todas as letras L com o som de L. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto). Quando o professor se esquece de que está passando matéria. exige que o aluno . "póte" e não "pótchi". mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". <83> Por ser um dialeto artificial. incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é.modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula. para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. de fato.

O método das cartilhas não leva em conta. que a maior dificuldade dos alunos. XAVIER & MATEUS. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. O aluno. 1990. no entanto. não sabe como se escrevem as palavras e. falar palavras como "casa". "uzómitrabaia". conseqüentemente. é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra. farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa. Para esses alunos. porém. Esquecemse. "pranta". procedendo assim. "drobar". Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). "batata".leia "tudo" e não "tudu". mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. etc. sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. etc. por sua vez. Esses professores acham que. . Ortografia se aprende de outra maneira.

aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. bem-articulada). A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida. sobretudo.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados. e. porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. com conseqüências como pedantismo e preciosismo. a escola destrói essa habilidade já conquistada. é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. Porém. justamente porque. Tudo gira em torno da silabação. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. de quem fala assim. como falantes nativos. Ao fazer isso. para ler. descaracterizando a fala natural.

grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão. É muito importante passar da . E uma pena. Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. a não ser através da escrita ortográfica. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. Elas observam demais a própria fala. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. como única referência de conhecimento já adquirido. a própria fala. ignora esse fato e. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. as crianças têm. Depois de certo tempo. 1989b. <CAGLIARI. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. A cartilha. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. aos poucos. nesse momento. porém.

porque confundem fatos da fala com fatos da escrita. Eles acham que os alunos têm problemas . Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata". a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. na verdade. eles representam um único som. Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X. Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. em particular com relação à fonética. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando. Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada.habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto. como aquelas relativas às famosas trocas de letras. observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). como se pode comprovar.

que não são capazes de memorizar diferenças elementares. Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que. E isso. "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). Z por 5. Se podemos ter um . os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem. B por P. etc. A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. como as pronúncias de "vaca" e "faca". Acontece.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização). como. exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. de quem eles tanto reclamam. que não sabem observar corretamente as letras. Não sabem se existe ou não um I depois do X. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos. Em primeiro lugar. <86> trocam V por F. estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. exatamente como fazem seus alunos. é verdade. apesar de todos esses problemas. por exemplo. que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. é necessário admitir. porém.

os . no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. 94-117. como antigamente).ensino decente. Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua. 1984b. Tudo na cartilha gira em torno da escrita. Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. é oral. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola. A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura. na sua essência. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990. p.

uma linguagem cheia de erros e falhas. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. A escrita requer decifração para ser entendida. portador do pensamento lógico e literário. A escrita. deselegante. Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura. constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. perfeito.estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. passou a ser considerada algo nobre. na sua essência mais profunda. A palavra . pior ainda. sem passar pela organização da linguagem humana. gire em torno dela. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita. <87> a qual. então. no processo de alfabetização.

Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela. fica tão marcada na formação dos alunos. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. porém o que vale não é o texto em si.Sem dúvida alguma. a palavra. a palavra é o centro das atenções da cartilha. Podese até ter uma frase ou um pequeno texto. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida. no entanto. como unidade lingüística. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. o que é falso. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita. Do significado de cada palavra. Desse modo. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. tirase o significado total do texto. mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. a qual. seguindo os padrões da escrita. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. Na verdade. junto com as lições. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana. A cartilha foi além: não só assumiu isso. Todavia. . como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras.

Como resquício do princípio acrofônico. e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes. cada família recebe uma palavra-chave. As cartilhas apresentam os piores textos. etc. pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. como nas palavras an-jo. elaborados por "razões pedagógicas". para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. é claro. como a família do chá-ché-chichó-chu. serão organizados em famílias. Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu. que servirá de recurso mnemônico. Esses pedacinhos. Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem. do prá-pré-pri-pró-pru. Finalmente. estudam-se primeiro as famílias mais simples. cam-po. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. <88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. Assim. compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. etc. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber .

> Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. o essencial. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados. como ABCÇDEFG. Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e. que é o fato de existirem alfabetos diferentes.. e abcçdefg.imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. com os pronomes substituindo nomes. etc. nesses casos. Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho . e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes.. Certamente. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). <MASSINI-CAGLIARI. No entanto. o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. nem com a coerência discursiva. 1997a. às vezes.. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz.. um compromisso com a verdade do texto. advérbios. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". passa despercebido.

Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva. porque não é o tamanho que conta. ou seja. nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. mas isso pode ser um processo longo e difícil.menor do que uma letra minúscula. é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. pessoas já alfabetizadas. Também é verdade. Para quem está aprendendo. porém. mas a forma gráfica. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes. Os alunos acabam constatando por si. a letra de . depois de certo tempo. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. E a cartilha não explica isso. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros.

se os alunos começarem a . Alguns professores acham que. que. por outro lado. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores). a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. facilitando uma escrita rápida. uma vez que. A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras. A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno. dificulta o trabalho de leitura. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais. sendo mais difícil de elaborar.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica. Apesar disso. a escrita deixou de ser feita à mão. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva.

na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I". fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. redondinha. ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s". P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva.escrever com letras de fôrma. É por isso que um aluno pode pensar que. ainda. O aluno pode até constatar que há uma diferença na . distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. seguida dos de uma letra — A. "v". — etc. que a letra "A" é formada de um "C" e "e". Como ela deforma certas letras quando agrupadas. igual para todos.). Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. Ou. em palavras como TV e TIA. e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. não vão aprender a escrever com letras cursivas.

. Quando diz isso ao aluno. o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares. esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. o professor está pensando na ordem das letras nas palavras. em início de palavras. Afinal. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral. de caso para caso. etc. um caso sério para a medicina resolver. esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. que também varia. Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente. Por exemplo. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. Escrita sem sistema . Porém. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada.altura da "perninha". por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. C.

então. cheia de rabiscos. O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. Esse mesmo professor. a função e os usos dos sistemas de escrita. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu.Como a cartilha não apresenta nem discute. É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. nesse meio tempo. em momento algum. sobretudo porque. até que o aluno passe por todas as lições. podendo. que concluiu que seu aluno era "doido". escrevem — fazendo rabiscos. vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. o trabalho prossegue. pelo contrário. orgulhase de ter uma assinatura exótica. O aluno. ao ser indagado. em geral becos sem saída para si e para o professor. toda aventura . horas depois vai ao banco. a natureza. O professor pensa que ele está "doido". ganhar seu famoso diploma de alfabetização. Pelo contrário.

deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização. ninguém pode escrever nada. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O.individual pode levar ao erro. e o erro pode ser irremediável. os primeiros textos. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. Antes de chegar a este ponto. <92> . finalmente. a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. Somente depois de terminada a cartilha. Por isso. mais adiante. a decifração. os primeiros textos. a não ser o que já tenha estudado com o professor. por essa razão. A cartilha pensa que ensina a ler. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. copiam as primeiras frases e. A cartilha jamais discute a leitura em si. como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. da mesma maneira. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. depois. no mesmo momento. por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras. e os cinco sons do X. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa.

os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade. conferindo. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. conseqüentemente.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. Em particular. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. assim. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. na alfabetização. pelas cartilhas. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . feita com pictogramas ou com caracteres convencionais. Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. mesmo que sumariamente. As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. Seria interessante apresentar ainda.

parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . para corrigir os textos que produzem. primeiro. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. de perguntar. Para isso. sem medo de ter dúvidas. porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. que sempre escrevemos. como funciona. para tirar dúvidas. ela precisa ensinar os alunos. a escrever de acordo com as regras ortográficas. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum. a aprender a escrever e. o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. depois. familiar. Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. o que são letras.com as letras do alfabeto. como se decifra uma escrita com letras. Às vezes. não se escandalizaria diante dessas dúvidas. A escola precisa explicar o que é ortografia.

a leitura também fica prejudicada. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum. Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita. te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". E é só o que os livros apresentam. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. Quando chega o momento da leitura. não adianta pensar. E quando não se sabe como se escreve uma palavra. mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . por exemplo. dizendo. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras. especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. mais adiante. A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto. Mas esse ponto terá um tratamento especial. de acordo com o nível de escolaridade. pois depende crucialmente da escrita.palavras. refletir. "le-a-la.

Todavia. não raramente ocorre que. As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas. Para um aprendiz ler em voz alta. o que. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. com o tempo.). decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. na alfabetização.letra por letra. . Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. em que o aluno gaguejou. como deveria ser a leitura. sem cobranças. a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas).. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição. parou para pensar. mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. não são capazes de lembrar o que leram. quando acabam de ler um texto. nos primeiros meses de alfabetização. se já dominou um determinado conteúdo ou não. pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência. composto só de palavras já estudadas.. é quase impossível que um aluno. uma depois da outra. ele precisa decifrar a escrita com facilidade. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação. não está ao alcance da maioria dos alunos.

Alguns professores." Ora. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade. se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó". que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos". ainda. Essa atividade é a interpretação de textos. reduzindo suas aulas a essa atividade. não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido. A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos. a cartilha meteu as mãos pelos pés. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial. Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. já que o aluno mal sabe .A cartilha usa. Por exemplo. Mais uma vez. Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. bons leito res. a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta.. achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a..

porém.ler. ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem. Como tudo vem rigidamente em seu lugar. acabam se esquecendo de coisas já vistas. deve voltar atrás e repetir a lição. Alguns deles merecerão aqui um destaque. quando o aluno erra. Acontece. estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem. O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno. e isso gera . Por outro lado. baseado na idéia dos elementos já dominados. escrita e leitura. uma vez que o resto "já foi dominado". esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. que à medida que os alunos avançam. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda.

julgando-se incapaz nos estudos. <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia". O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. conhecem perfeitamente. Esses exercícios tratam. ainda. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre. de número e de graus das palavras. Para alguns alunos. Resumindo. como ainda induzem os alunos a errar. exercícios de identificação de categorias gramaticais. parece mais natural que o .uma enorme confusão na aplicação do método. apenas exercícios como "faça segundo o modelo". esses exercícios não só não ensinam nada. nesses exercícios. Para muitos alunos. onde começarão tudo de novo. de gênero. Como não há explicações sérias. nota-se que muitos alunos erram. de "tio". escreve "tioa". Assim. esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. Há. sobretudo. a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. coisas que. um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". como falantes nativos da língua. de fato. A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais.

precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. indireta. Para elas. cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica. deve haver uma história e. evitando um tratamento sério. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. uma musiquinha para cantar. . porém. quando vão para a escola. sabem que não estão indo a uma festa. Para tudo. com muito colorido e enfeites. "macacão" é um tipo de roupa. Por se tratar de crianças. Então. as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. objetivo. Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. definitivamente. Tudo precisa vir acompanhado de gravuras. mas a um lugar sério. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). mas não "macacão". preciso e direto das verdades que se devem ensinar. figuras. se possível. sílaba virou "pedacinho".

até acertar. e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. às vezes torna-as levianas e comodistas. O excesso de histórias. os alunos dizem "a letra do chifre". O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. com os remanejamentos de alunos para classes especiais. Elas têm essa consciência da seriedade. As letras não têm nomes: em vez de U. favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. apresentadas apenas como pretexto pedagógico. a letra o é "a letra da boca". Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos. As diferenças individuais não são . acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. úteis para a vida e. e o que saiu errado precisa ser refeito.onde se aprendem coisas sérias. avaliação com promoção. importantes. A escola. não obstante. Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. na maioria das vezes sem nenhuma graça. partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. portanto. O diferente é combatido e não pode existir na escola. porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U.

não encontramos nas cartilhas. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida . nem nos manuais de professores. por experiência própria. bons para adestramento. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. nenhum erro será objeto de estudo. segundo manda o figurino. Na cartilha. para condicionamento. A uniformização é um imperativo. por isso. para a criatividade. para uma livre iniciativa. Os professores sabem. para continuar com as características próprias. mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. Por essa razão. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma. iguais para todos. tudo vem pronto para o aluno. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. que é difícil ensinar a ler e a escrever. formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho.

da mesma maneira. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível.mostra claramente que o método não funcionou. com métodos excelentes de alfabetização. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem. E se não se corrigirem. um grande livro didático. que tem feito das cartilhas . A única saída é repetir tudo de novo. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. comprovados desta e daquela maneira. < CAGLIAR!. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. a saída da escola é a solução para o problema. <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. Há ainda o interesse econômico. de fato. de preferência. 1985b e 1986b. escolhendo. Por falta de espírito crítico. muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas. os chamados "alunos carentes". se possível. seguindo o próprio livro didático.

o governo insiste em distribuir cartilhas. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. na escola.um negócio muito lucrativo. Para um bom trabalho de alfabetização. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. Em primeiro lugar. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e. se a cartilha é tão ruim assim. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa. <99> . esquecendo-se do lápis e do papel. Aprender a ler. analisando a história e os métodos de alfabetização. sobretudo nas es colas públicas. sobretudo. Apesar de tudo. Mas. Em algumas escolas. significa aprender a decifrar a escrita. sem o método das cartilhas? Qual é a saída. aqui. ou melhor. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas.

é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral. quais os seus usos e. com . constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. principalmente. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. Apesar desse quadro pouco animador.Para saber decifrar a escrita. Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos. ainda. por falta de infra-estrutura. aos poucos. por sua vez. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos. são tão despreparados quanto os malformados professores. pela incompetência de alguns professores. pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. Alguns autores de livros didáticos. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. Infelizmente.

de ir direto ao assunto. . acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. Afinal de contas. o próprio professor verá. o professor sabe ler e escrever.mestra da vida . O professor também aprende ensinando. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. refazendo desde o início sua formação. A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. sem precisar gastar muito tempo. 1997c. num processo de aprendizagem verdadeiro. na pesquisa. ele é capaz de realizar um excelente trabalho. que ele também está aprendendo. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante. como deveria existir sempre nas escolas. Mais do que isso.dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. A própria prática . no trabalho compartilhado. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho.ajuda muito. para sua surpresa. O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério.

que ele usa como modelo. que não irá durar muito. Por trás de toda aquela aparente ordem. mas da incapacidade do aluno. nem do método. quando apenas falava. esconde-se muita coisa mal compreendida. a responsabilidade não é dele. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. Se o aluno errar alguma coisa. Se o aluno não aprender. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. o professor apaga e coloca o certo. no mesmo tempo. os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. como fazia antes.Apesar de todos esses problemas. do mesmo modo. em ordem. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. Para o professor. Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas. O método da . que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita. do mais fácil para o mais difícil. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. Ledo engano. em que tudo está perfeito.

já não aparecem mais cartilhas. Como a matemática não tem dessas coisas. Alguns professores. mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. cometerão toda sorte de erros. as aulas de português é a produção de textos. deve-se rebater. em séries posteriores. Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. Depois. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente. porque os alunos só reproduzem o já dominado. convém ressaltar que. a leitura e a literatura. O que salva. no entanto. e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo. são tão obcecados por elas. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. que muita gente fez isso e aprendeu bem. sem erros. .cartilha produz cadernos belos. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. inocentando os professores e os livros de sua incompetência. Finalmente. em parte.

Na verdade. do começo ao fim. Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. em vez de escolher livros mais interessantes. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. porque são mais "práticas". preferem as cartilhas. para que servem os exercícios de matemática. que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. em geral. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. será um fato surpreendente. sem propor nada de diferente. Os livros didáticos são feitos. Afinal. por professores. só que. e como eles não têm outra visão do processo de . da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares.

repetem sempre o velho esquema. O círculo vicioso se fecha quando. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica. Em primeiro lugar. os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem. o próprio método das cartilhas. Por exemplo.alfabetização. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. todo o período preparatório veio como uma . Os esforços devem estar voltados para isso. é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização. mas o principal deles é alfabetizar as crianças. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos.

Brincar. a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. desenhar. e não pulando corda e fazendo . Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever. lendo e escrevendo. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. Conhecendo a rotina nas escolas. cantar. A alfabetização passou a se resumir. em grande parte. etc. recortar. Aprende-se a ler e a escrever. o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. em seguida. Portanto. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. colar. ou seja. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. então. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. contar histórias. sem dúvida são atividades escolares. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. Como já dissemos. enquanto o mais importante era deixado de lado. Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler.

Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos. Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. São todos falantes nativos do português. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar. OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. tecnicamente falando. Vendo essa questão por outro ângulo. sílabas ou outros . Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive. e deve começar desde a alfabetização. essa deverá ser uma atividade secundária. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. Porém.festa. percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. Brincar é imprescindível.

Variações de pronúncia (do R. às exigências do momento. marcando um uso informal e outro formal da língua. 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . Quando alguém estuda uma língua estrangeira. Na sociedade. Aprende-se uma língua. das fricativas CH e TCH. do lugar e das pessoas com quem se fala. Uma coisa não é condição para a outra. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola. não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão. Do mesmo modo. etc. Numa sociedade tão heterogênea como a nossa. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade.). não precisa se desvencilhar daquele que conhece.elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. não deixa de ser falante de português. inglês ou francês. por exemplo. MASSINI-CAGLIARI. a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. de regência (por exemplo. de concordância (por exemplo. sem esquecer a outra. variações como "déis" ou "dés".

e os problemas sérios continuam sem solução. do mundo e até da . Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada. no Brasil. interesses políticos e econômicos. pais. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula.Por razões ideológicas. Muda-se a Constituição do país. Dos cinco aos sete anos. a préescola é importante como escola e não como creche. Com quatorze anos. avós. aliás. começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos. ficou estabelecido que a alfabetização. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. Além disso. começando a alfabetização aos cinco anos. mas não se muda a mentalidade dos governantes. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. Nessa idade. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. etc. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. muitos jovens já são arrimo de família. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como.

dentro desse contexto. Por isso. já testou sua participação na sociedade. ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização.história. Dependendo do modo de vida. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. Estar na escola é um fato que cria expectativas. é algo simples e banal. seu relacionamento com pessoas diferentes. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. no início do ano. <106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. converse com seus alunos para . Para elas. As vezes. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. é necessário que o professor. Essas considerações mostram que. Aprender a ler e a escrever. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos. ganhar dinheiro é o que realmente conta. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. isso não significa que ela queira ser alfabetizada.

Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. O que eles . Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. Mas é imprescindível. provenientes de classes pobres. É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever. o que se faz com esses conhecimentos. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. Não é raro haver alunos. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola. fora da escola. A escrita e a leitura têm muitos usos.saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização.

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse . o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. na embalagem de um produto. revistas. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. no mundo. nas placas comerciais há coisas escritas. jornais. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita. Fora de casa.A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. Por exemplo. Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras. a escrita está em toda a parte. As crianças que vivem em casas onde há livros. Por outro lado. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. de modo geral. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. Mas. não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. Por exemplo.

Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. de maneira típica. Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. um rótulo onde aparece escrito. se o professor não perceber. Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico. uma por uma. Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica. urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. mais especificamente.produto ou uma propaganda ou. o nome da marca. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. nesse caso) é de fato uma leitura. mas a <116> . Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. Porém.

apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. mas também.identificação de uma ou mais palavras. raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. Por exemplo. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita. dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. que a escrita vem associada a sílabas. ou seja. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. antes de estar associada a palavras. Ora. No início. . algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. como se estivesse interpretando uma transcrição fonética. Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. respondendo à pergunta mencionada acima. que exige uma explicação particular e detalhada. Na sociedade. Essa é uma idéia muito elaborada. E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. Ao fazer isso.

e acento agudo no E: LÉSCAUX. C de cebola. S de sapo. Aquele procedimento de decifração. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. típico do método das cartilhas. E de escola. A de árvore. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. sem uma explicação muito detalhada e convincente. Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. U de urubu e X de xarope. <117> Diante disso. não é transparente para o analfabeto. Nesse caso. comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. Só mostra as relações entre letras e sons para .Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. isto é. Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. antes de descobrir o que ela representa.

Algumas classes. o que já exige um enorme esforço de análise. Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. No mais. T de Tomás. "a — de árvore". Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico. R de Regina. têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. Por isso. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito.quem conhece as regras do jogo. etc. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. como em "u de urubu". terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio. conversando a respeito do que já sabem. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete. em geral. No máximo. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. . querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino. Depois.

uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. Por outro lado. começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. Com esses alunos. <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. ainda. Em outras palavras. Se esses alunos não receberem uma boa explicação.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. o professor deverá tomar cuidados especiais. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou. da leitura e da fala. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa .

O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e. é o segredo do processo de alfabetização. vamos encontrar uma série de normas.nessa tarefa. A questão. se elas não existissem. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. que.. a decifração é algo mecânico. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. posso ficar tentando descobrir o que está escrito. e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. mesmo porque. mas jamais . por isso. por sua vez. 1.. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar. se eu não souber chinês. com efeito. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. Para quem já sabe ler. Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. mas a ler "com naturalidade". é muito complexa.

ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. 2. 3. O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra. A linguagem oral. A história das decifrações tem mostrado isso. O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto . conhecendo uma língua. isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto.conseguirei ler. Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. representa o mundo. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). Por outro lado. por sua vez. portanto. e não outra. Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler. Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. pode ser apenas um desenho ou uma escrita. Uma mesma forma gráfica.

através do uso de um princípio acrofônico. tendo cada letra um nome. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva). a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças. As variações gráficas seguem padrões estéticos. Variam na forma gráfica e no valor funcional. É composto de letras. 5. gerando diferentes alfabetos. não. Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas. Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo. Contar um pouco da história do alfabeto é. Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras. 4. talvez.latino e segue um conjunto de normas atuais. É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. formando um conjunto. que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua. como podemos ver na história dos sistemas . Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm.

reconhecer a letra cê. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. Ou seja. ou seja. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras. vendo um rabisco. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). 2ª letra: letra a. 3ª letra: letra esse. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e.de escrita. principalmente. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. 4ª letra: letra a. de acordo com a ortografia da língua portuguesa. quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). Assim. pela ortografia das . Apesar da diferença gráfica entre essas formas. é preciso saber a categorização das letras. novamente. 6. no caso da palavra CASA. as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. a. esse e a. <121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema.

Portanto. escrever CASA com as letras APXP (onde A C. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra. a palavra pronunciada "casa". e. em princípio. nos servimos dos conhecimentos . Se as letras não tivessem esses valores. desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais. ou mesmo MRIT. X = S). por exemplo. para tanto. poderíamos. P = A. Além disso.palavras.

pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta. quem não consegue. . fica tentando em vão outras maneiras de aprender. No início da alfabetização. Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. portanto. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras. porque ela controla a categorização gráfica e funcional.ortográficos da palavra CASA. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. <122> 7. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita. Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. para o estudo desses dois aspectos. muito mais do que o princípio alfabético.

permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. através do estudo dos sons e dos significados. assim. Além disso. neutralizadas na escrita pela ortografia. A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. Por outro lado. o usuário está livre para dizer o que está escrito. que chamamos de palavras.CAGLIARI. entender o que está escrito. 1986b e 1994b. a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura. estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). Conhecer a natureza. estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles. usando seu dialeto ou outro qualquer. Uma vez identificada a palavra. atribuindo . ou seja. Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita.

no nome "bê". da letra B. O nome das letras traz. Assim. Ou ainda. dependem muitas noções básicas. temos o quadro completo das relações entre letras e sons. como vimos. contudo. E isso acontece com praticamente todas as letras. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura. é mais fácil decifrar e ler do que escrever. Em outras palavras. quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. em seu início. O importante. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia. encontramos o som "b".valores fonéticos às letras. que é o som mais comum que essa letra assume. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. Desse conhecimento. Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. 8.

erre. Na verdade. Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. cê-cedilha. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . pê. jota. esse. nem no nome da letra Y. são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. efe. i. agá. Num primeiro momento. Nesse momento. é. bê. no nome da letra W não aparece o som correspondente. ene. quê. dê. Depois. 9. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler. dáblio. que fazia os alunos aprenderem. zê. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. cê. xis. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. tê. cá. vê. ô. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. u. ele. ípsilon. gê. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita.usamos para decifrar os valores sonoros das letras. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua). Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. eme.

Por outro lado. mas para outros tem apenas o som de "tê". As considerações acima mostram que existem regras que . em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". Em inglês o nome significa "duplo u". a letra H é exceção. etc. para esses. U tem o som de "ka" e não de "cê". fê. Em Portugal. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem. para alguns falantes. e isso facilita o trabalho. Por exemplo. mê. Eles dizem. do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. como K. C diante de A.não está mais presente em todas as letras. é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). a letra T tem os sons de "tche" e "tê". por exemplo. Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. a letra D não tem som. rê. W e Y. 10. lê. Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso.por exemplo. Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto . para facilitar o uso do princípio acrofônico. O. nesses contextos verbais. Alguns dialetos (por exemplo. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. nê. S entre duas vogais tem o som de "zê".

se alguém quisesse escrever "kaza". Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente. porque de acordo com as normas da nossa língua . aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". Por exemplo. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto. o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. Ao ler a palavra XA. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua. teria diante de si muitas alternativas. o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. 11. a partir da análise dos dados. mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. dará à letra X o som de CH. e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto.

uma vez que esse som pode ser representado também por CH. Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. Por outro lado. a "drentu". o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ. Mas. significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita.em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. vai da esquerda para a direita . 12. Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque". Algumas crianças. saber que X no início de palavras representa o som de CH. o caminho é outro. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada. por exemplo. XEQUE/CHA. quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. no caminho inverso. CHEQUE. Não basta. indo dos sons para as letras. ou seja. muito preocupadas com o traçado das letras. nesse modo de escrever. é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. uma vez que o movimento <126> da mão. Quando se diz "andano" e "drentu".

o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. 13. As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas. pontos) da escrita. Quando falamos. corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala. Depois. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação. ritmo.e. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. duração e ainda a nasalidade. Mas. etc. O importante é permitir uma leitura clara. velocidade. fazemos algumas separações. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases. na escrita. indicada pelo espaço em branco. a qualidade de voz. Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. o acento. na forma correta. Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. volume. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e .) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. A segmentação de palavras na escrita.

Cabe ao leitor. De acordo com as normas ortográficas. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente. 14. deve ater-se apenas à escrita. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras. No esforço para ler. 15. O critério semântico ajuda muito. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura. Para chegar lá. mas não resolve todas as dúvidas. Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra.que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. como conhecedor da língua. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. Nem tudo o que se escreve são letras . Para tal. mas é fácil na escrita.

mas nem sempre necessária. exclamação. nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. representam também elementos prosódicos. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. a escrita usa sinais de pontuação. reticências. acentos e outras marcas.Além de letras. Porém. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. 16. A letra A com um til representa um som diferente. O ponto final representa uma pausa longa possível. embora façam isso de maneira muito precária. sobretudo relacionados com a entoação. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia. Outras marcas como ponto de interrogação. etc. às vezes. um A nasalizado. para indicar pausas ou elementos parentéticos. o que bloqueia o processo de decifração. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. ou seja. mostrando se são abertas ou fechadas. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita. que é preciso conhecer. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. As vírgulas servem.

e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. comparada com a fala. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. na alfabetização basta o professor falar. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita. essa é uma questão complexa. saberão concatenar as palavras devidamente. precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores.vai ou não encontrar na escrita. Dado que nossos leitores são falantes do português. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. por exemplo. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. . an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. Essas unidades formadas da soma de palavras. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. aaaan tiiii-gooo. isto é. No sistema alfabético. Na prática. como o grupo tonal por exemplo. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. as letras representam apenas os segmentos fonéticos. Como vimos. No fundo.

17. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — . e não a partir das possibilidades articulatórias do homem. 1992c. Por outro lado. mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia. Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar. > Se deixarmos de lado a ortografia.

com a qual os alunos começam a escrever. A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. é preciso ter. por exemplo.há melhores sistemas para isso. os conhecimentos . Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. Dessa forma. as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. Para tanto. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente. Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. como também no processo de aprendiza gem da leitura. Não obstante. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita. Pode-se transcrever. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. em primeiro lugar.

porém. Sabe o que o espera pela frente. o professor precisa ter uma formação geral. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio. é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. Como educador. e esses conhe cimentos são básicos. 1992c e 1 99 6h. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas. <130> Um professor bem-preparado. Se acontecer algum imprevisto. com competência técnica. é uma questão não tão óbvia. e menos fácil e comum ainda entre os professores. Os < CAGLIARJ. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos. saberá como se comportar. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. metodológicos e psicológicos. cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como . precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos. Como professor alfabetizador. Para ensinar alguém a ler e a escrever. é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. Para ensinar língua portuguesa. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho.

Com apenas esses conhecimentos. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve. ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros. vendo as questões não do ponto de vista metodológico. a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. O professor precisa libertar- . Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino. Nessas circunstâncias. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". E se quiser escrever a mesma palavra. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. mas da sua competência. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. basta observar que sons a palavra tem. muitas informações. um aluno precisará descobrir. Ele não precisa de "pacotes" educacionais. O conhecimento de como a escrita.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. no entanto.

essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. para que esta autonomia possa se sustentar. sociolingüística. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. Mas. etc. como ensinar os grupos consonantais. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar. etc. semântica. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. No entanto. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho. Aos poucos.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. para isso. que pode e deve ser aproveitada. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área. como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba.

<132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. Se o professor sabe ler. refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. escrita e leitura e quais os seus usos. porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. que serão passadas oportunamente para os alunos.trazem. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. precisa saber . Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las. Deve. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo. aprender a ler é o segredo da alfabetização. Deve procurar explicitar. o que faz quando ouve. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. fala e escreve. através de pequenas regras. sobretudo. isto é. Para alguém conseguir ler algo. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões.

e em marcas. como os acentos e o til. "E" representa o mesmo valor de "e". o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização. e. Antes disso. Quando se lê. Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras. porém. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. que pode ter inúmeras formas gráficas. logo adiante. Por essa razão. A escrita representa sons da fala. é possível escrever a mesma palavra. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. de acordo com as normas ortográficas. indo da análise de letra por letra e . o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. De acor do com o sistema de escrita.decifrar a escrita. variando esses caracteres: "SELO" e "selo". embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes. a título de sugestão. como os sinais de pontuação. Ler não é o mesmo que escrever. apresenta-se. Por exemplo. Cada letra representa um valor abstrato. o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. 1. em alguns diacríticos.

É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. até compor o resultado final. ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece. perguntando ou procurando no dicionário. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). ou seja. que o aluno pode checar. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral. então. como falante nativo. Quando se trata da palavra isolada. o procedimento é diferente quando se escreve. escreve com facilidade. Feita a decifração. Entretanto. o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. . é preciso verificar as alternativas possíveis. Depois. consultar um dicionário. Em seguida. É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. Qualquer falante. Precisará. leva-se em conta a ortografia. deverá resolvê-las antes. Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. Finalmente.de combinações de letras. Em primeiro lugar.

Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. O professor precisa explicar cada uma dessas noções. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. Ao escrever. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. Como. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. E é assim que os alunos devem aprender. mas essa não é uma leitura produtiva. seja ela familiar ou não. como se fossem glifos. sem rodeios. Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma. ou seja. o sistema também é fonográfico e usa letras. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. 2. É preciso ir direto ao assunto. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. precisará esclarecê-lo.de qualquer dialeto. caracteres ideográficos. procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve. Explicar o que é uma letra . Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. porém.

Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. <135> em linhas. como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. Aliás. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo. no alfabeto de letras de fôrma. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. apoiadas na linha-base horizontal. linha por linha. da esquerda para a direita. que serve para distinguir um caractere de outro. e a seqüência é da esquerda para a direita. As letras são escritas separadamente. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita. tal qual aparece no alfabeto. É . Toda letra tem uma forma básica. elas têm uma direção fixada por esse espaço. e não letras em tamanho grande ou pequeno. mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas. através do reconhecimento do que é letra e do que não é. da direita para a esquerda. mas são interligadas na escrita cursiva. e que uma letra sucede a outra. Com relação aos usos da escrita. Corno as letras são dispostas no espaço.

tudo o mais fica comprometido. as que utilizam sinais e marcas. Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. As vezes. e onde terminar. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. ainda.necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. tais como numérica. juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra. o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética. de outras formas de escrita. Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração. É preciso. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). o que são palavras isoladas e o que é um texto. para "enriquecer" a escrita com mais idéias. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito. ele não saberá ler e . antes de se ensinar as relações entre letras e sons. simb&lica. Enfim. composta de letras e seguindo uma ortografia.

não poderá ser considerado alfabetizado. 3. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão". é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. há duas estratégias importantes: a primeira. quem não sabe tem de perguntar. Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras. Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco. "assistir ao filme". mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. quem sabe sabe. E. "ver televisão" "consertar televisão". etc. a segunda. que deverão escrever. ou reproduzir graficamente o traçado de palavras. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. Por exemplo. embora represente uma idéia só. observando a linguagem oral. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão". é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. A palavra final será sempre dada pela ortografia. sem muitas dificuldades. Para saber como segmentar uma <136> palavra. o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". nesse caso. a segmentação é possível.

televisão". no caso de "macarrão". Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado. se houver segmentação. mesmo antes de entrar na escola. Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons. pode-se ter "maca". .. mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". porque esse é um procedimento encontrado em livros. Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha. Em geral.. Porém. através de exercícios de memória. a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto. começará pelo nome das letras. pelo menos as letras iniciais do próprio nome. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão". porque as crianças costumam ir aprendendo. Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. 4. para que os alunos possam consultar sempre que desejarem. mas não na escrita comum do dia-a-dia. mas o professor não irá exigir isso. Decorar os nomes das letras é importante.

Nessa atividade. <137> Poderá. Por outro lado. Entretanto. pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm. O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. ASA. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações . pode-se ler a palavra corretamente. dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta). pode-se ter palavras diferentes. tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. se quiser.nos quais os alunos recitam o alfabeto. proceder a uma análise geral da palavra. como AMOR e ROMA. o professor pode programar aulas e material.). Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. etc. o famoso bá-bé-bi-bó-bu. Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança. deixando de lado o método das cartilhas. mas se a leitura for feita da direita para a esquerda. ou até mesmo a mesma palavra.

Levando em consideração esse estudo em anexo. JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. sentem-se embaraçados e confusos. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo. Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. Desse modo. isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. As cartilhas jamais pensaram nessas coisas. Como resumo e conclusão das reflexões. deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria.entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. em vez de uma série de regras . É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. de tanto escrever palavras com "pedacinhos". ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. como a variação dialetal e a ortografia. porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita.

Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. Somente quem conhece o . As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas. não uma ordem pedagógica. para letras diferentes. A própria natureza das letras. é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita).parecidas. Essa é uma ordem de análise científica. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. Uma incursão por esse território será feita a seguir. na decifração ou na escrita. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil". e vice-versa. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. mas pode ser muito complicado quando. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. Para um aluno principiante. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. Em primeiro lugar. escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. ele tem de decidir como escrever. mesmo quando estão pensando na leitura. observando esse fato na fala.

OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. Entretanto. é mais fácil ou não. Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. Quando se fala em decifração. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. tudo é igualmente muito difícil. O. U) das demais que representam consoantes. nessas circunstâncias.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. Para o principiante. Sempre que se . é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras. sabendo das dificuldades futuras. I. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). E. No início. subentende-se leitura. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos. para si.

ser lida com o som de "i". BELEZA. DELA. juntamente com o M. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u". Veja os exemplos: FERE. Em seguida. ou o NH. a letra E pode. A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. pode gerar a formação de ditongos. é comum a letra . BELO. Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). BANHA. como em ACHARAM. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). quando nasalizada. ainda. Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas. semelhantemente à letra E). o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. como em: CAMADA. EMPRESTADO. e somente em palavras derivadas. A letra A. BANANA. TINTA. tratemos da vogal oral A. "imprêstadu". BANHA. como CAFEZINHO. Em sílabas átonas. Exemplos: JUNTO. As vogais mais difíceis são o E e o O. "féri". Em sílabas átonas. Exemplos: DELE. ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste).

. LEME. PÕEM. TUMBA. PENA. VINHO. UNHA. LIMPO. Em final de palavra. CINEMA. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. por sua vez. Confira os seguintes exemplos: FOCA. e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala. e a consoante nasal pode ser uma velar. Por outro lado. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. quando seguidas de M. OMBRO. etc. UMA. BOM. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O. Porém. COMIDA. SONHA. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. Assim. VIME. toda vogal com til representa um som nasalizado. quando seguidas de M. a qual. ONDA. VINDA. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO. MÃE. que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. U e A. as vogais O. ACHARAM. como nos seguintes exemplos: VEM. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. CANA. FOGO.O ter o som de "u". embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. ENTRE. ZONA. em final de palavra. JUNTO. as vogais E e I. como em: LÃ. UNA. CIDADÃOS. ALGUM. EMBORA. NH). ocorre diante de outra vogal. LEÕES. podem ditongar-se com "i". LENHA. COMA. COZINHA. VIM. BANHA. podem ditongar-se com "u". CANTO. Finalmente. N.

a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). HERÓI. OBJETO. T. Nesse contexto. Exemplos: CHINA. podem-se ter três grupos. F e V. e a letra Z. VENHA. DADO. PALHA. Em final de sílaba. LIVRO. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). AJUDAR. Exemplos: HORA. a letra L tem o som de "u". modifica o som da letra que a precede. e a letra Z tem sempre o som de "zê". BROTAR. "lhê" e "nhê"). Exemplos: MAÇÃ. POÇO. As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. A letra Ç tem sempre o som de "çê". VACA. No terceiro grupo. são pronunciadas com um "i" optativo. TRABALHO. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". e a letra J tem sempre o som de jê". Com relação ao primeiro grupo. D. FACA. etc. BOLA. de "çê". NH. Terceiro grupo: L e Z. HINO. ADVOGADO. a letra L tem sempre o som de "lê". Segundo grupo: P B. A . FRANGO.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. RITMO. HÁBITO. Em final de sílaba. Exemplos: POTE. Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. LH. estão as letras L e Z em início de sílaba. JOVEM. TATU. Como parte de um dígrafo. mais Ç e J.

S. CIDADE. COR. TÉCNICA. O. NASCIMENTO. A letra S não representa som nos dígrafos SC. CRISE. CLARO. segundo grupo: S. Exemplo: MESA. tem o som de "zê". Nos demais casos. EXCEÇÃO. CABANA. Com relação ao primeiro grupo. U ou de outra consoante). terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. depois de consoante e no dígrafo SS. SELVA. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura).<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. XC. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R. a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. em . SÇ ou XC. como no caso dos dígrafos SC. Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. Z e M. PSICOLOGIA. como em SAPO. Quanto ao segundo grupo. SÇ e na forma de plural de certas palavras. I ou de outra consoante. NASÇA. na mesma sílaba. tem o som de "kê" (diante de A. entre uma consoante e uma vogal. ou seja. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos. PASSO Entre duas vogais. Exemplos: CEBOLA.

SATANÁS. GRAÇA. No entanto. em alguns dialetos (cf. Confira os exemplos: BESTA. em outros. a letra S. Não há regras. Nesse caso. tem o som de "çê". GUIMARÃES. GIRAFA. AQUI. mas. QUENTE. IGNORAR. GARRAFA. COSTA. a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. GULOSO. GOTA. a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. em algumas palavras. ou seja: "zê" e "jê". se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. uma vez que o U é pronunciado. LÍQÜIDO. <142> dígrafos: GUERRA. O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . diante de outras letras. SAGÜI.certos contextos. MESMO. O e U. tem o som de "chê". DESDE. Com relação ao terceiro grupo. no meio da palavra. Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. "as casas amarelas foram vendidas"). GLÓRIA. tem outro tipo de som ("guê"). FREQÜENTE. Exemplos: GENTE. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. AQUELE. não-dígrafos: AGÜENTAR. TOMÁS. Em alguns dialetos. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. ANIQUILAR. em final de sílaba.

Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. É preciso levar em conta. MAR. RIO. FERIR. . POBRE. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra. separamos as palavras com um espaço em branco. além disso. soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. RUA. Z e M. Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. não é isso o que acontece. RATO.diferentes dialetos). costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. CARRO. S. BRASIL. O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. CERTO. Em português. MURO. Nos outros contextos. mas. ainda. CRAVO. Em todos os casos. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. ora desvozeada (surda). PORTA. Exemplos: CARO. PLANTAR. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. a variação é menos problemática (final de sílaba. por exemplo). sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora). MURRO. quando falamos. pelo contrário. Quando escrevemos.

No exemplo 1. tem-se uma sílaba átona . houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. Porém. No exemplo 3. seguida de uma sílaba átona inicial. No exemplo 2.Vamos ver uma série de exemplos. ocorre uma sílaba tônica final. quando se juntam dois "as". nos exemplos 3 e 4. Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos. têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial. o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. um deles cai. mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo.

mais uma vez. no contexto de juntura. Considerando apenas o exemplo 1. nos demais casos. O que acontece. No exemplo 4. A dificuldade mais . O exemplo 2 é de difícil análise. e se for. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9. Essa regra inclui todos os exemplos estudados. além disso. átona. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. como mostram esses exemplos. como no exemplo 3. nos exemplos 3 e 4. não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade. com a formação dos ditongos. ocorrem duas sílabas tônicas. E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). Porém. Nota-se que. uma vez que as sílabas se fundem. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. seguida de uma sílaba tônica inicial.final. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. Do ponto de vista da decifração e da escrita. porém. como refletir sobre as relações entre fala e escrita.

a presença do artigo não é obrigatória. mais raramente. Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. em que caem dois "as" na fala. como já se viu antes). a consoante final junta-se à vogal inicial. é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". é saber se devem ou não escrever o artigo "a". o trabalho de segmentação da fala. mas não na escrita. em final de palavra. no segundo caso. uma vogal. no início da palavra seguinte. Nesses casos. Por exemplo. a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando. mas muda levemente o significado da frase. apenas enumera fatos. o falante quer marcar uma oposição. encarando o problema por outro ângulo. formando uma sílaba única e dificultando. assim. No primeiro caso. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia". há uma consoante e. . Por exemplo. Com relação à decifração. Em alguns casos. Porém. subseqüente). "toda a amizade". em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. Confere. uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. ainda.comum que os alunos enfrentam.

Em final de palavra. etc. Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. Porém. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. depara-se com outro. POR ALI. DEZ AMIGAS. O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. em juntura. independentemente do dialeto. nesses casos. troca-se o som de RR por R. A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. RAPAZ INFELIZ. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte. Veja os exemplos: CASAS AMARELAS. ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê"). Concluindo. VIR AQUI. As letras S ou Z. TRÊS AMIGOS. o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). se a nasal for precedida por I ou E. CARÁTER AGRESSIVO. descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". ocorre uma consoante nasal velar. . quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. encontra um tipo de som. pronunciando a palavra isoladamente. a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. no início. se o M for precedido por outra vogal. Quando o aluno analisa sua fala contínua. de outro. depois que a segmenta. etc. têm sempre o som de "zê". Nesse caso. mas.quando se encontra em juntura intervocabular.

Veja os exemplos: VEM AQUI. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). de acordo com a forma de cada palavra. Mesmo que o aluno . A falta de explicação. RUM AMARGO. VIERAM AQUI. "bõu-a-mi-gu". no entanto. pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. HOMEM AMARELO. pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). contudo. BOM AMIGO. poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez. "ir-mã-i-fe-liç". é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita. essa regra. Assim. em juntura intervocabular. Isso significa que. permanecendo apenas sílabas diferentes. em vez da consoante nasal indicada para a fala. o Z é opcional. Uma simples explicação. diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. etc. PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). "vi-é-rãua-ki". etc. os exemplos acima. "põi-a-ki". mesmo não havendo a letra M na escrita. VIM AQUI. não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações. A mesma regra aplica-se quando. Como se disse. etc.

o aluno procurará uma e acabará confuso. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". etc. Sem nenhuma explicação. a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". PROXIMO. Quando ocorre em final de sílaba. FIXO. julgando-se incapaz de aprender. como nos seguintes exemplos: VEXAME. que ele aprenderá mais tarde. PIREX. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ. o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil. Para chegar à conclusão final. "eichçeçãu"). que consiste . quando o leitor se encontra diante de casos assim. etc. Em final de palavra. EXAME. tem o som de "kç" ou "kch". pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê".não as aprenda. Porém. nesse contexto. dependendo do dialeto: TÓRAX. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR). EXPLICAR. saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. no meio da palavra. Aqui. A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. Como temos dito várias vezes. etc. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. dependendo do dialeto: EXTRA. o que torna sua leitura fácil. LATEX. deverá lançar mão de outro expediente.

Se não produz. . sobretudo quando ele está lendo sozinho. confrontando com o contexto. a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. Deverá procurar então uma outra alternativa.<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç". uma leitura possível seria "ficha". Nesse caso. o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali. alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno". Por exemplo. ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. na realidade individual de cada aluno. Porém. ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. as diferenças entre escrita e fala aumentam. deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula. Portanto. Finalmente. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". Porém. Se produz. dependendo da variedade lingüística em uso.

em geral. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. em princípio. pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. Para o professor e para o aluno. na fala. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. <147> De modo geral. ou de a forma lexical de uma palavra. T/D. ou seja. Essa afirmação . ser diferente da forma escrita. por causa da variedade lingüística do aluno. Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). F/V É curioso. F em vez de V e T em vez de D.OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. Alguns casos são de fácil decifração. A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. quando os alunos escrevem P em vez de B.

Por exemplo. os imigrantes poloneses). em outras situações. assim como as laterais. Será mais dificil quando não houver um par mínimo. sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. assim como as fricativas. Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. porque analisando tudo o que as crianças fazem. Nesses casos.. Em seguida.não faz sentido. Assim. a única solução é o aluno decorar a ortografia. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia.). produzir uma fala sem sons sonoros. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. sempre que achar que precisa escrever F. o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra. Então. Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V.. se o aluno for escrever "livro". . assim. como a troca de V por F não muda o significado. se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra. as vibrantes podem ser sonoras ou surdas. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras". começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. Nesse caso.

esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. CLARO. BANHO. pode ser fácil se. Porém. CORUJA. GLÓRIA. Quando faz parte de grupos consonantais. Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. CANA. . o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos. ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. NATA. JUNIOR.Passando a outros casos. em início de sílaba: MAPA. O ou U: JACA. na fala do aluno. HAJA. porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. O mesmo vale para os sons "mê". que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. CORRIJO. Pode. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. como em: PLANTA. LIVRO. então. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. etc. etc. JOVEM. etc. CAMA. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. LADO. Em outras palavras. Por isso. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. "nê" e "nhê". ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). TENHO.

nunca dois: RATO. pode-se ensinar aos alunos que. etc. Há outros modos de ver o problema. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i".). NHOQUE. GARRAFA. etc. Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE. Por outro lado. etc. Nenhuma palavra começa com Ç.VIAJA. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. como em: QUATRO. GULA. etc. (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). FREQÜENTE. QUINTO. etc. etc. INÍQUO. etc. como por exemplo. não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. etc. COLAR. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. HR. O ou U (não seguido de outra vogal): CADA. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. GUIMARÃES. há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. Por exemplo. Do mesmo modo. RIO. no início de palavra. numa mesma sílaba. NHEENGATU. o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. só se escreve um R. TH. etc.

"ó". com . É relativamente fácil mostrar aos alunos que. INFELIZ. Exemplos: FIZERAM.s são escritas com -ESA. a ortografia obriga o uso da letra M. ACHARÃO. As que terminam em . e os finais oxítonos. CANTO. entre a vogal nasalizada e a consoante. ESTAVAM. Com relação às vogais. no meio de palavra. SÃO. BOMBA. Exemplos: BELEZA (de belo). Exemplos: CAMPO. Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA. Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR). etc. etc. ENLATADO. INGLESA (de inglês). porém: ESTÃO.terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR). UTILIZAR (de útil).ÃO. ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante. etc. é mais fácil escrever os sons "é". a ortografia obriga o uso da letra N. ENVIAR. BANCO. IAM. INTEIREZA (de inteiro). ONÇA. se essa consoante for P ou B (M é muito raro). passam a . como: FERTILIZAR (de fértil). FARÃO. entre a vogal e a consoante. porém: MARQUESA (de marquês). os quais. "é". Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B). "ô". Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM. quando identificados na fala.

ISTMO. ESPADA. Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. são menos interessantes na alfabetização. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites. ao encontrarem o som de "à" em final de palavra. etc. ISLAMITA. IRMÃ. Em geral. etc.. ALEMÃO. Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til). "palavras primitivas .corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). ÓRGÃO. em alguns dialetos). porém nas sílabas átonas é muito difícil.. quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante". "adjetivo". ESQUADRA. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. TALISMÃ. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. ISLANDÊS. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. ele será escrito sempre com til: LÃ. ISCA. por essa razão. também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. houver exceções às suas regras. ÍMÃ. Nesse campo. etc. é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. por acaso. Por exemplo. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL. Como exceção temos ISQUEIRO. O professor não deve se preocupar se. usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO.

Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos. Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. o sistema alfabético nos leva a crer). . deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. Às vezes. Entretanto. às vezes. OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como.<150> e derivadas". cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta. da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. o conhecimento do funcionamento da escrita. Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos. Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. "sílabas tônicas e átonas". "paroxítonas e oxítonas". Dentro desse quadro de preocupações. etc.

alguns casos. As vezes. etc. como em CASAS. DESDE. a seguir. justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. em certos dialetos. EXTRA. e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. esse "u" é escrito com L e. "çóu" — SOL. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado. Em alguns casos. "méu" — MEL. é escrito com U. Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. etc. como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. e não da escrita. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. . "mêu" — MEU. representando o som de "u". será representado por S. O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. como em ALTO e AUTO. Vejam-se. como parte final de alguns ditongos. às vezes. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. "çôu" — SOU. porém: "çaudadi" — SAUDADE. mas esses casos são raros e ajudam pouco. RAPAZ. quando se consideram os fatos a partir da fala. Z ou X (X somente no meio da palavra). Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba.

Nesses casos. por oposição a R. Só se usa RR. Um caso mais simples é o do som "zê". não trazem dificuldades para a escrita. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande. A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras. C (somente diante de I e E). na verdade. que pode ser escrito com S. quando o som estiver entre duas vogais. só se emprega a letra Z. "djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". Z (somente em final de sílaba) e X.Mais um caso dificil é o som de "çê". em alguns dialetos. O ou U. Porém. quando pode ser representado por C ou por QU. A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. Ç. Notar que algumas diferenças de fala. S ou X. que pode ser escrito com Z. o aluno escreverá sempre um R só. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. será usado apenas o J. Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. Nos demais casos. Nos demais casos. Diante dos SONS "j" ou "e". só se escreve QU. nunca C. em início de palavras. mas esse . Por exemplo. há pessoas que falam "tchia".

FICAR. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". a escrita será provavelmente com X. Q Aqui.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). como COLOCAR. etc. Apesar do que foi dito acima. Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita. <152> Com relação às vogais. U ou E. Como se disse anteriormente. cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba. não há regras para facilitar o aprendizado. a única saída é recorrer à ortografia. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. Portanto. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. SOCAR. nos demais casos. o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas. Porém. mesmo sem eliminar sua pronúncia original. o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . Por exemplo.

ESCOLHER. FORMOSO. SIMÕES. Conferir: PÃO. por exemplo. etc. e se souber como se escreve esse sufixo. . etc. Outros exemplos. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. ALEGREMENTE. HORRIVEL. PREGUIÇOSAMENTE. FARÃO. BONDOSO. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. ou PÕE. etc. ou melhor ainda. POTÁVEL. LIMÕES.palavra". Por exemplo. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). ESCORREGADOR. Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. PÕEM. vendo as seguintes palavras. DANOSO. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. INCRÍVEL. FERRÕES. e não de outra forma: ESCADA. SIMÃO. -OSA. dependendo do dialeto. Já se falou antes. MELÃO. TERRÍVEL. Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. ESPÍRITO. como HORROROSO. TÃO. que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk". poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. são escritas com ESC. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. etc. ESPADA. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). TRISTEMENTE. "prefixos". LEÕES.

ao aprender o sufixo do gerúndio. apenas nasalizam a vogal precedente. usando a terminação -NO e não -NDO. Isso acelera o domínio da ortografia. Escrever M. Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO. porque. em seus dialetos. CORRENO. sobretudo . Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. Porém. escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. Portanto. FAZENO. se possível. FAZENDO. etc. em vez de escrever: ANDANO. CORRENDO. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. N e NH em início de sílaba é fácil. FUGINDO. FUGINO. FALANDO. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular.Alguns alunos falam o gerúndio. o aluno. aprenderá a escrever também ANDANDO. Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. até mesmo a extensão dessas considerações. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. FALANO. eles não pronunciam essas consoantes nasais.

numa fala mais rápida. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações. Com relação ao problema da nasalidade. em primeiro lugar. a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. para esclarecer. Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. menos formal. <154> . escolhendo exemplos apropriados. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado. anotando em colunas. seguindo o exemplo da palavra MUITO. propostos pelo professor e pelos alunos. a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade.

A regra de identificação semântica (uma idéia. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. As inversões de letras representam os casos mais comuns. Na verdade. quem tiver dúvidas. Em último caso. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. ou mesmo TAMA em vez de MATA. E o caso de quem escreve ON em vez de NO. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. Portanto. uma palavra) não ajuda muito nesse momento. inclusive de como a escrita funciona. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. Nesse caso. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. não adianta ficar . Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis.Logo no início.

Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler. Muitas . ainda. são necessários conhecimentos complementares. são necessários alguns conhecimentos e. de escrita. como faz tradicionalmente o método das cartilhas. Isso mostra. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento. se misturar as duas coisas. A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. alguns complexos. para escrever.pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. para ler. mas. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. além dos relacionados à leitura. as relações entre letras e sons são muito complexas. Resumindo. acabará com sérios problemas de leitura e. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. pode ir tentando escrever. do que a escrever. pior ainda.

Nessa situação. a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto. para o professor. Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda. Um aluno aprende umas poucas palavras-chave.). que fazem coisas certas. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram. não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. para a escola. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. é incompleta e. encontramos alunos que. enquanto eles fazem tudo errado. fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI.. Então. e acabam sem saída. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria. a .vezes. para o governo e para os pais. senão aprende errado. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si. por essa razão. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. umas poucas famílias de sílabas geradoras. Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler..

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

fazer o desenho de um caminho. linguagem escrita. Escrevendo desse modo. ou de alguém andando. as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. não constituindo. . escrevendo palavras. e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. mais o desenho da casa. posso representar uma frase como: "Vou para casa". As figuras transformam-se em escrita. O professor pode explorar esse tipo de atividade. pequenas mensagens e até pequenas histórias. frases. nessa seqüência. Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa". Porém. o processo de decifração e de interpretação da escrita. Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. Podem testar a leitura. portanto. isto é. "Ele vai para casa". pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. etc.Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. Nesse momento. "Irei para casa". Cada figura ou foto está representando coisas do mundo.

ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. Depois. pessoas. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. além de desenhos que representam figuras de objetos. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos. as bandeiras.Recortando material de jornais e revistas. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. as grifes. Podem. com desenhos) é usada na vida real. Para isso. Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. etc. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. podem tentar escrever usando . como os logotipos. e colocá-las em colunas. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. os escudos. Pode exemplificar como. por exemplo. recortar figuras de objetos. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. animais.

enfim. Exceto quem inventou o símbolo. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade. Em seguida. motiva-os a progredir. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . uma vez estabelecido. Com isso. essa tarefa será resolvida apenas em parte. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. onde vivem milhões de pessoas. há muito tempo. de certo modo. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. como também já conseguiram ler e escrever. Além disso. pois eles começam a ver que.o sistema de escrita que inventaram. vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. sem mostrar as figuras a que eles se referem. todos se comunicariam apenas através dele. Essa imitação do que aconteceu historicamente. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura. usando apenas os símbolos inventados. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. ou seja. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa.

As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. Pode-se escrever a palavra . Isso irá facilitar. como se explica com o exemplo a seguir. futuramente. Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso.secretos. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. como os de um código secreto. bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras. e outro constituído de caracteres arbitrários. mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. através do uso de rébus. dependendo da forma como o sistema se apresenta. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras. nesse momento. e não apenas de letras.

será preciso reinventar as letras. D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. assim."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. a questão é muito mais complexa. Através dessa estratégia de escrita. pode-se também escrever essa mesma palavra. um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". Vão ser necessárias três etapas: primeiro. o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem . Por outro lado. Temos. Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão". fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão. Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão".

aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. segmento por segmento. Esse pode ser um longo caminho. Desse modo. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. a vogal "a". pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som. ou seja. como as fricativas). a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa". passo a passo. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. terceiro. achar as letras correspondentes. segundo. Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. . escrever a palavra. na ordem correspondente e. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala. com as letras convencionadas.às nossas letras. Por exemplo. aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala. duas estratégias de observação. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta"). mas basta percorrê-lo uma vez. destacamos um som na primeira sílaba. há duas maneiras principais. Agora. então. particular e distintivo no sistema. Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas.

mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). Seguindo esse procedimento de análise. analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente. Por outro lado. na segunda. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral. ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. "aaa". o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. e outro diferente na segunda. acompanhado dos devidos comentários. Uma delas. a consoante inicial das sílabas. Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". de uso muito comum. as rimas são dadas não por sílabas completas. repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas.que é o "ééé". Na primeira abordagem. A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. é fazer levantamento das rimas. ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. na segunda sílaba da palavra FES-TA.

etc.CORAÇÃO. Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. IRMÃO. SINAL. DISTRIBUIR. etc. de preferência apenas um som. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. pode começar escrevendo a palavra "camelo". Além disso. SITIO. Por exemplo. <168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. o som inicial do nome do desenho. Por exemplo. Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. etc. DESMONTAR. CIGARRO. DISTINTO. CINEMA. associar o desenho à fala. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição. mas apenas um pedaço. através do princípio da acrofonia. Procedendo assim para cada som da palavra . SINO. DEDÃO. DESCARREGAR. Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. DESCASCAR. Nesse segundo modo de escrita. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo). ACHARÃO. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. um desenho não representa mais uma palavra inteira. DISPUTAR.

Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. representando o som "u" no final da palavra "camelo". Como se vê. mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar. um cabide ("e"). o mar ("m"). A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. uma lata ("L") e um ovo ("o")."camelo". O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. e o aluno. acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. está perfeito. Por exemplo. Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão. a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". como um dos resultados possíveis. Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras. um elefante ("e"). um avião ("a"). por ordem. razão pela qual ele optou pelo som de "o". basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . E é assim que deve ser. pelo som de "u". um assunto puxa outro. Se um aluno preferir usar um cacho de uva.

Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . "cá estou eu". como telhado. na escrita. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. isoladamente. chão. "aqui". mas "za" não significa nada (talvez um apelido. Portanto. paredes. A escrita revelou uma idéia. janela.. perde-se o significado original. Por exemplo. temos "ka-za". "ka" significa. com os sons "kaza". a língua que falam.. Assim. Ao fazermos isso. são apenas ruídos. Ao fazer isso. podendo ou não resultar outro significado. descobrimos que essas idéias formam novas palavras. Porém. porta. Por outro lado. que fazem parte da idéia mais geral. etc. considerando cada pedaço (sílaba) em separado. As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. gerando novas idéias (significados). No todo. existe um significado. descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos. E sons sem significado não formam palavras. em português. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. quando segmentamos os sons da palavra "casa".representavam. vendo a foto de uma casa. as palavras sempre se compõem de idéias e sons. podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando.). Assim.

mas também para terem um . Porém. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. Sempre se descobre algo novo. Para isso. Apresentado o alfabeto. ensina-se o nome das letras. passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. que pudesse ficar bem visível. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. dos grifos para as letras e. não só para que os alunos o aprendam. chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos.idéia ou não é muito complicado e.. assim. na prática.. O alfabeto Aos poucos. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil. seguindo a ordem alfabética. Quando se chega às letras. é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. talvez acima da lousa (ou quadro-negro).

referencial dos sons que as letras têm. ou seja. sem grandes dificuldades. O professor pode. O que vale sempre é o resultado final. apresentar uma palavra na forma escrita. esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. Para ilustrar o que foi dito. e pedir aos alunos para decifrá-la. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). suponhamos que o professor . Portanto. mas isso não acontece na alfabetização ou. será algo extremamente raro. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. se acontecer. mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura. sem dizer do que se trata. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. cujo significado é evidente. pode-se decifrar a escrita de uma palavra. que o aluno deverá reconhecer facilmente. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. Então. por exemplo. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. como falante nativo. Portanto. a palavra. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). se o resultado final é uma palavra desconhecida. e não apenas sons. sabendo o nome das letras. Descobre-se que a tentativa não deu certo.

os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. a. Com essa técnica. identificar cada letra com seu respectivo nome. Não é tudo. Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. como também ensina-os a ler palavras simples. é "kaza". Está descoberta uma palavra conhecida. fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. E sempre preferível dar uma . Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. esse. mas já é um grande avanço. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. a. <171> dizer que palavra está escrita. agora. O resultado. Com os nomes das letras. o professor pode escolher palavras.escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c.

a escrita e a . mesmo que complicada.boa explicação. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. o modo como a fala. metafórica. incompleta e meio deturpada. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita. os alunos terão outras chances de aprender. a aquisição da linguagem oral e da escrita. Ao iniciar a decifração da escrita. não faz mal. disfarçar. Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil. Se os alunos não entenderem direito (ou nada). é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. Portanto. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. as noções básicas de fonética e fonologia. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. a ter de camuflar o problema.

é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos. muito usado pelos lingüistas. o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala. Somente em séries mais adiantadas. São os pares mínimos. há um tipo de exercício. numa ordem predeterminada. <172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados . como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. como analisar e interpretar os erros. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. Em geral.leitura funcionam e quais os seus usos. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. o que é decifrar uma escrita e como fazer. quando os alunos já tiverem certas noções básicas.

que se opõe a M no início das palavras do par). Do ponto de vista da fala. com o par mínimo escrito. por exemplo. "mar/mas". formariam uma espécie de "par mínimo".diferentes. porque representam palavras de significados diferentes. Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico. já se tem uma dica de que som ela representa.se as letras diferentes que representam um mesmo som. explicando que no próprio nome da letra. destacam. "casa/caça". Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. quando já se sabe o som. Feito isso. Com o par mínimo falado. mas do ponto de vista da escrita. O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. observando a fala. que significa uma fruta e uma parte de roupa). relacionados entre si ou não. "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga". ou de que letra terá de ser usada para escrever. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som. basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. etc. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de .

Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. "coração". usando apenas as letras de fôrma maiúsculas. há uma letra. Como usamos muitos alfabetos. fazendo colunas. etc. o mesmo valor alfabético. ditadas pelos alunos. em colunas. Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. como. de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes. "irmão". Primeiras leituras de textos . em "ão": "avião". para que os alunos percebam que.rimas: palavras terminadas em sons semelhantes. O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas. "ão"). para cada lugar de escrita na palavra. e que as letras. nas colunas verticais. "habitação". <173> por exemplo. portanto. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). e têm.

<174> Com o tempo. Aqui. O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque.. no início. 1998a. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito. poderá. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante. há alguns pontos importantes a serem considerados. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. então. Aqui. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. < MASSINI-CAGLIARI.). Assim. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. o professor estimulará seus alunos a lerem em particular.Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas.. dizer o que foi que leu. mais fiel ao texto. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto. deixando sempre os alunos lerem . é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler. Portanto. para isso. Em primeiro lugar. Feito isso. para si. será cobrada mais adiante. Uma leitura mais rigorosa. Porém. o professor os levará a ler pequenos textos.

uma vez que os textos são. silabando. etc. incluindo as expressas pelo autor do texto. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. sem ritmo. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas.). mostrando como ela deve ser feita. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura. o que vale é a discussão das idéias pessoais. Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. Portanto. em geral. e mesmo ridículo. Nesse tipo de atividade. Se algum aluno quiser ler para os colegas. servindo-se da leitura de textos.individualmente. sem a correta entoação. Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. pois é claro que estão entendendo. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. histórias de fácil compreensão. será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência. Interpretar textos com perguntas e .

a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. notícias. de montagem ou de conserto. Por exemplo. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado.respostas é uma idiotice. receitas culinárias. ler de tudo. da vida de pessoas famosas. O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. reportagens que falem de assuntos científicos. É preciso ler histórias (muitas). técnicos. enfim. incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas. E ler nunca é demais. instruções de uso de equipamento. etc. devem ler propagandas ou outro material semelhante. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. quer com relação à forma gráfica. porque um processo necessariamente . curiosos. <175> revistas. É preciso ler jornal. quer com relação aos variados tipos de textos. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. Usos especiais em propagandas também são interessantes.

do ponto de vista gráfico e funcional. as noções básicas de um sistema de escrita. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais. As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. em decifrar o sistema de escrita que temos. isto . Por essa razão. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato. dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Depois. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura.implica outro. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra. ou seja. Em outras palavras. os alunos podem colecionar letras. Tal qual foi feito em seções anteriores.

etc. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. podendo chegar a escrever textos relativamente longos. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. sinais de trânsito. Por exemplo. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. Podem. que é recortado. grifes. e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas. Até para o professor. pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas.é. E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. logomarcas. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis. colecionar pictogramas. como histórias e cartas. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. símbolos. Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira. Esse material já impresso. logotipos. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. Brincar de escrever. inventando sistemas de escrita. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. ainda.

É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras. etc. lembrando o dilúvio. sempre que possível. escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se. Assim..). para a criança. escreve-se a partir . aliada ao processo de leitura. andar um passo atrás e não à frente dos alunos.. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita.da paz com o ramo de oliveira. cartas enigmáticas. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras. sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar). mas deve. pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar. natação. Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. No primeiro caso.). o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico... pictogramas que representam palavras (banheiro masculino. algo familiar e banal.. A exploração desse material. frágil...). sem que eles percebam. O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante.. Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer.

que depois deverá compor os sons da palavra.do significado. AVÓ). É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade. através de rébus. a cada letra será associado um som. A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. <177> No segundo caso. Para ler. sílabas. estamos diante de uma escrita ideográfica. o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. é necessário associar a cada letra um som. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra. somar os . usando-se o sistema fonográfico. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. Tratando-se da escrita alfabética. com exceção da letra h. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. que se traduz numa palavra. procurando encontrar depois os sons que esses significados têm. o fonográfico. Existem estratégias diferentes para ler e para escrever.

por exemplo. Nota Português Inglês Francês. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. privilegiando as letras e os números. uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. sua evolução. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. tem sons diferentes. As vezes. Explorar esse assunto ao máximo. A. dos livros. até que o significado apareça. a história dos estilos de letras. Os recursos visuais aqui são úteis. Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. Contar a história do alfabeto. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . da caligrafia. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita. Se não der certo.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo.

Com relação à parte gráfica. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm. em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos. um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas). dizendo. ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. pode ser através do uso de gabaritos. um gabarito de três linhas é o suficiente. por exemplo. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos. como fazem os letristas. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra. o traçado é feito sempre de cima para baixo e .). que nas de fôrma maiúsculas. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional. Para as letras de fôrma maiúsculas.

descendo. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. segurando o lápis displicentemente. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio.da esquerda para a direita. Por outro lado. a escola . o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente. na parte mais alta. Todavia. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. usando o bom senso. sem hastes. O professor deve avaliar. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. etc. quando houver mais de um traço. sobretudo as de fôrma maiúsculas. em geral. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou. As letras. quando houver só curvas. são traçadas da direita para a esquerda. Letras que apresentam apenas curvas. e de cima para baixo. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. e vão para a direita. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. As crianças podem inventar alguns traços. <179> Explicações como essa são de grande ajuda. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. ou da direita para a esquerda.

exemplificando com moedas e medalhas. a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. a do círculo externo. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo. Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. isto é. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra. Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo. Nesse caso. ora para baixo ou para os lados. há várias formas de dispor as letras em curvas. estando ora com uma parte voltada para cima. Isso também tem de ser discutido com os alunos. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. podemos escrever na vertical. que o leitor verá sempre numa única posição. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas .tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. Nesse caso. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada. O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo.

há uma notável distinção gráfica entre D. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. em contrapartida. o q em b e o p em d. Para ensinar isso. q e p é apenas a sua localização espacial. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. menos ainda. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. Além disso. para se saber o valor das letras. deve dizer que.elas bem distintas graficamente. com a escrita cursiva. com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. e. dependendo do modo como se observam as letras. b. Por exemplo. o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. o bem q. eles podem se confundir. passar exercícios de "prontidão". Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. B. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. o que se consegue. Pelo contrário. analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a .

como a letra A. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar. Copiar para aprender Fazer cópias. essa atividade pode não só não ajudar o aluno. caso das cartilhas. Porém. pensam naquilo que as letras representam. Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. . Enquanto os alunos copiam. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos. Faz muito bem a eles. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não).direita (ou vice-versa). é algo que os alunos apreciam.

o que está escrito nesses carros oficiais. e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. Quando o professor diz isso. pelo retrovisor. muitos alunos estão. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada. Lembrando das orientações do professor. supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. Carros de bombeiros. compõem todas as demais no mesmo padrão. O . Porém. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual. o S e o C de forma espelhada. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras. Seguindo essa direção.Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. nesse momento. mais preocupados em como se traçam as letras. por exemplo.

como funciona e quais os seus usos. porque a ortografia naquela época permitia. visando sempre à redação de um texto. Quando isso começar a acontecer. inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. que a escola costuma chamar de troca de letras. ilustrada com exemplos do passado.professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. Então. . Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas. está na hora de explicar o que é ortografia. seja ele curto ou longo. Mas hoje é diferente. "çinquo" (cinco). escrever "onrras" (honras). Como exemplo. Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. "deru" (deram).

chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia. admitem mais de uma maneira de grafá-las como. os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e."homes" (homens). em função das normas ortográficas. procurarão escrever cada vez mais corretamente. "vaquas" (vacas). "dici" (disse). já mais familiarizados com o ato de escrever. "aluguel" e "aluguer". "louro" e "loiro". . "caminhão" e "camião". Com essas explicações. À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. etc. Ficarão mais consolados ainda quando. "milhor" (melhor. ao explicar a ortografia. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. em alguns casos. serão levados a reconsiderar o que fizeram. "assobiar" e "assoviar". Como atividade de escrita. por exemplo. de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. portanto. "filia" (filhas). "doçe" (doce). etc. Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. "flecha" e "frecha". mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. Somente depois.

o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. tem-se o interlocutor diante de si e. Quando se fala. quando se escreve. embora o gênio. todavia. como se diz. por essa razão. é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. etc. o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e. perguntando o que não entendeu. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. A escola. Escrever. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente. já nasça com a arte <183> no sangue. desde a alfabetização. não espera que todos os alunos . porque isso faz parte da nossa cultura. como qualquer arte.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente. podem-se fazer gestos. pedindo explicações. Fazer isso requer prática. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido. Portanto.

Nos primeiros textos. corrigir. como se autocorrigir. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos. passar a limpo. Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. é preciso ensinar a pescar.sejam grandes escritores. leva anos para atingir um nível satisfatório. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. Como diz um velho ditado chinês. que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. não basta dar um peixe a quem tem fome. No começo. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. depois. vale o que o aluno faz. melhorar e. Não basta dizer ao aluno que ele errou. A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. sem dúvida. do jeito que . Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. sem precisar do professor. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem.

o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. como também levando em conta a ortografia e.ele fez. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão. e serão feitos em pelo menos duas versões. uma prática pedagógica muito importante. ininteligível com relação às idéias e à grafia. mal planejado. Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. nem é preciso. Com o tempo. a estruturação do conteúdo do discurso. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. que irão formar livrinhos. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. pedagogicamente. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. . produzindo textos espontâneos. mal organizado. um bilhete ou um trabalho mal escrito. a que a escola precisa dedicar-se. portanto. <184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças. os quais deverão atender às exigências da escola. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. que serão lidos por outras pessoas. sujo. não só no aspecto visual-gráfico. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. acima de tudo. e outros. A partir daí.

ao mesmo tempo. além da caligrafia bonita. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos.Diacríticos. No início. desde a alfabetização. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. como o ponto final. os acentos e os sinais de pontuação. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. o ponto de interrogação. Tradicionalmente. a vírgula. ou seja. A arte de escrever prevê uma programação gráfica. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e. juntamente com o alfabeto. por causa do método das cartilhas. uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel. um layout. Esses temas serão tratados a seguir. Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes. enfeitadas. marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos.

. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos. Quando os alunos estiverem na terceira série. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem. com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer. O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra . ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. Por essa razão. ou forem mais adiantados. script.. Em geral.(manuscrita. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento. De acordo com sua natureza. <185> deformando características gráficas das letras (isoladas). Porém. Além das formas pessoais de amalgamar letras. O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas.). os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica.

Parece. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca. no entanto. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas. Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso. sofisticada. quando necessário. Caligrafia é uma arte típica da escola. complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. por razões estranhas. Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . não tem tido a menor chance nas salas de aula. Caligrafia é simplesmente escrever bonito. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. que muitos professores. É uma pena. charmosa.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. abandonaram o ensino da caligrafia. No Brasil. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. pode ser ensinado em séries mais adiantadas. sem saber escrever de uma maneira elegante. essa manifestação de arte. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. à semelhança de outras. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). elegante.

cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. cartazes. No mundo em que vivemos. enquanto se preocupam com os enfeites. Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. o professor pode mostrar catálogos de letras. títulos. etc. Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito. desse modo. classificá-las do ponto de vista das . letras sugerindo fogo. quando se escreve a linha ascendente. Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. vento. etc. como também a escrever segundo uma cultura. e. alegria. tristeza. é uma forma de ensinar não só a escrever.espessura dos traços. suaviza-se. força-se o traçado com a caneta. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. As crianças divertem-se com essa atividade e. Na alfabetização. essas formas escritas são muito comuns. quando se escreve a linha descendente. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. e a escola não pode deixá-las de lado.

Essas idéias básicas constituem os parágrafos. a marca do travessão e escreve-se a fala. mas. é fácil mostrar o emprego da vírgula. o professor precisará explicar como se cuida do layout. porém. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas. Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno. Um texto fala de um assunto. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. pode introduzir algumas idéias gerais. Quando alguém disser alguma coisa. além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. Quando estes estiverem escrevendo textos. em certos casos. O professor. como nas enumerações. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). A classe pode fazer um álbum coletivo. as letras . no mundo em que vivemos.características gráficas e organizar álbuns. por exemplo. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. A vírgula traz algumas dificuldades. quando souberem. coloca-se ponto final. usa-se o espaço de parágrafo. seguindo algumas idéias básicas. como dividir um texto em parágrafos. em seguida. também merece a atenção de professores e alunos. com as contribuições dos alunos.

por razões estéticas. da clareza e da beleza gráfica das letras. e se acharem que não vai caber. No começo. mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. (Existem regras para isso. mesmo na escrita à mão. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras. quando isso é necessário. quando as pessoas escrevem à mão. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas.. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia. quando os alunos estiverem escrevendo histórias. Porém. mas não é preciso fazer margem . as palavras são cortadas no final de linhas. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda.. Embora as explicações não sejam rigorosas. vão ter de tomar alguns cuidados especiais.) Porém. Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida.minúsculas do alfabeto adotado. dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. Nos livros. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha. simplesmente a escrevem na outra linha. os alunos escrevem palavras isoladas. não é costume cortar palavras.

Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. provavelmente. O acabamento correto do texto. quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. No primeiro semestre de aulas. esses aspectos precisam ser esclarecidos. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens). o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. Porém. No entanto. mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. O professor pode deixá-las fazer isso. quanto à sua apresentação gráfica. deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. Nessa hora. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . no segundo semestre.direita. as crianças gostam de copiar.

cada uma relativa a algo que vê nas figuras. fazer pequenas cópias de versos. Quando o aluno faz o texto primeiro. então. Nesse momento. quer colando recortes. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. provérbios. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. O professor ficará atento a todos os detalhes. quer desenhando o que quiserem. e não o contrário. A cópia ajuda. Isso desarticula o texto. pequenos textos. não. a aliviar um pouco a tensão. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa.virando: alguns alunos copiarão direitinho. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. outros. Como sempre. frases. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício. etc. expressões. Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. nomes. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos.

os alunos vão escrever o que quiserem. porque. dia sim. O professor não corrige .texto mais bem planejado. se for o caso. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. Portanto. Ao iniciar esse tipo de atividade. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor. assim. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. do jeito que quiserem. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. Algumas até se arriscam a fazer poesias. o professor pode deixar os alunos redigirem. dia não. ou. por sugestão do professor. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. Os alunos farão o texto e o ilustrarão. por exemplo. Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita.

o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito. desde textos curtos e simples. mais e melhor aprenderão. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem. em grupos ou individualmente. mas cada um a sua tarefa. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização.nada que for entregue pelos alunos. e quanto mais os alunos escreverem. todos escrevendo. trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização. escrevendo. até textos longos e pequenos livros. . ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. realizadas por diferentes alunos. No próximo capítulo. O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. e não que os alunos façam segundo um modelo. Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. Aprende-se a escrever.

Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito. se a pessoa não conhece a língua. Isso. aprendem não só a falar. quando eles forem ler. a tarefa é praticamente impossível. Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. ouvi-los e. podese conversar com eles. Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. Como todos os alunos são falantes de português. decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. é um grande alívio. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística . Quando as pessoas adquirem a linguagem. como também a entender o que as outras pessoas dizem. discutir. na verdade. porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala.<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos.

estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. Porém. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem. conversam entre si e. como a língua portuguesa. firmando-se assim os dialetos. como um todo. O problema escolar coloca-se quando se pretende . o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto). comunicam-se. todo falante é falante de um dialeto. apresenta variedades. depois de certo tempo e costume. Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira. como ouvinte. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. quando ouve. Para entender o que ouve. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. Mais ainda. é falada em muitos lugares. Na verdade. os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. <191> Como se vê. relativos aos dialetos. Em resumo. de todos os dialetos.

por parte do professor. quando necessário. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira. o falante entende. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. para explicar adequadamente o que deve ser feito e. é uma tarefa árdua.que uma pessoa. porque. que não é falante de um determinado dialeto. para saber o que a escola espera dele. Como o objetivo da escrita é a leitura. Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. embora não fale. Nesse caso. que requer tempo e muita prática. Falar uma outra língua ou um outro dialeto. O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos. por mais semelhante que seja do próprio. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente. por parte do aluno. No começo. Na verdade. passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões. uma pessoa pode ler um . Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. no caso do dialeto. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. dentro de uma mesma língua.

um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". Para escrever. Entendem que o aluno precisa. "dia". etc. há menos problemas ainda. Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. "djia". "miiu". "drentu". somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. Do mesmo modo. "dentro". Na escola. que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. muito entrosamento . muita festa. Assim como alguém vê escrito "pote". seguindo seu dialeto. outra pessoa pode ler "pótchi". embora usemos um alfabeto. sobretudo. sempre. "pranta". aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. a escrita e a leitura funcionam. e ler. A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. é preciso que haja muito recreio. e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. "milho". a escrever. "dia" e pode ler "póti". que automaticamente se entende "dentro" e "milho". A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. porque. e assim por diante. Basta conferir "pote" e "dia".texto em seu próprio dialeto sem problema algum.

na escola. Certamente. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos. é preciso que o professor. nos momentos oportunos. a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . só o dialeto padrão. 1997a. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão.entre alunos e professores. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. As zombarias dos colegas. Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem. Mas às vezes isso requer muito tempo. Na sala de aula. CAGLIARI. Nessas ocasiões de interação social. muitas vezes.

Ninguém consegue . os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. o português do Brasil. O vocabulário. em qualquer lugar do mundo. e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. as crianças entendem frases na voz passiva. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. aprende uma gramática. Por exemplo. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. Nesse <193> espaço de tempo. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral.de conversar sobre a fala dos alunos. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida. pelo resto da vida. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. porém não costumam usar essa construção quando falam. Qualquer um. Na fala. principalmente. Como já dissemos antes. aproximadamente. por outro lado. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. Nessa ocasião.

sem seguir regras muito precisas. a gramática tem regras diferentes. esse tipo de "erro". por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". Em razão disso. etc. "cavalo" é "árvore". A linguagem não é feita só de palavras isoladas. os falantes nativos não cometem. Se alguém diz que "mesa" é "copo". mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. um mesmo pensamento. algumas palavras precisam concordar. não há falta de regras ou de lógica. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. mais especificamente. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. Já num outro dialeto. num dialeto. dito no dialeto padrão de uma . com regras de combinação muito específicas. Deve-se dizer. não está seguindo as regras da língua portuguesa. ficando todas no singular ou no plural. No segundo caso. e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim". conforme o caso. Por exemplo. Todas as línguas do mundo — ou.falar. cada uma específica de um dialeto. Porém. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo.. seja que dialeto for. mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes.

encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância. O exemplo acima. para ele. são as diferenças que permitem que as línguas existam. Falar diferente.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . Aí. diferente das apresentadas pelos dialetos do português. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". tem o mesmo valor semântico. seria deixar de ser falante de seu dialeto. se vertido para o inglês. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". Traduzida literalmente para o português. pelo contrário. Isso pode acontecer até com línguas diferentes. Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. sobretudo para uma criança. seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. o que nem sempre é uma idéia muito atraente. Ser diferente não é um problema lingüístico. Para ele.

ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. então. da manifestação dos preconceitos. ilógica e sem . Na prática. destruindo. A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e. Por essas razões. rodeado de preconceitos. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. como pode. Desse modo.representa a expressão do pensamento lógico. formam-se as classes sociais. 1985. GNERRE. levar vantagem. bem-estruturado. ocorre o contrário. basta o usuário se dispor a isso. por isso mesmo. desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. Na verdade. Como. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. um dialeto próprio. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. na nossa sociedade. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. depois de muito tempo. As diferenças lingüísticas passam. seus concorrentes. conseqüentemente.

O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. não para justificar os preconceitos associados a ele. mas. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. explicando o que significam. A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam.elegância. Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita. sobretudo eliminar a idéia de que o professor . Todos os dialetos representam bens culturais. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. desde a alfabetização. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. Aprender o dialeto padrão é indispensável. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos. <195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro.

Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. nem tão complicado. Somente em circunstâncias especiais. quanto as pesquisas lingüísticas modernas. da escrita e da fala. as pessoas não pronunciam palavras isoladas. Na verdade. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura. as pessoas dizem palavras isoladas. num contexto específico. e isso acontece através de um texto. Além disso. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. ao longo de anos de observação. mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de . tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. Quando alguém se põe a falar. <196> 9. sua intenção é dar uma informação completa.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade.

Por isso. que motivou a resposta. se alguém grita por socorro. tendo em vista a necessidade do momento.ações ocorridas. Nesse momento. dizer apenas uma palavra é o que basta. o texto continua na resposta do interlocutor. quando as pessoas usam a linguagem oral. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. seus preconceitos e suas manias. quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. As pessoas falam o que acham que precisam falar. do que em falar certo ou errado. Na vida real. Normalmente. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar. Em outro contexto. Houve apenas mudança de falante. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. dada a situação. ou dá uma ordem. Assim. se alguém fizer uma pergunta. esquece-se de que é falante . o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. O tamanho do texto varia. sobretudo. Na verdade.

principalmente. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. como as carreadas pela entoação e o ritmo. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa. frases. de certo modo. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. às vezes. do professor. No entanto. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado. como os elementos prosódicos se modificam. A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. até informações gramaticais importantes. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. porque em certas situações o significado depende do contexto. modificações do texto. Todo corte implica. e até mesmo para as letras.nativo e de que é senhor da sua língua. palavra por palavra. As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. O professor desmonta e monta textos. ora apenas para os sons da linguagem. os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . Mesmo quando se procura explicar um texto. Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. da escola e.

A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. na sua essência. em primeiro lugar. Depois que alguém passa a . Quando as pessoas pensam e falam. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz. Com o uso dos sistemas de escrita. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. a maneira como esse significado é dito. Caso contrário. No entanto. isso se torna ainda mais corriqueiro. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. é o significado e. guiam-se quase exclusivamente pelo significado. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade. e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. o que vale. em segundo lugar. tudo vem normalmente.segmentação da fala.

ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento. Quando entram na escola. analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum. a todo instante. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. Mas esses são casos especiais e raros. Para falar. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia. para escrever. Quando se interrompe a fala ou a escrita. as crianças lidam com a linguagem como . é preciso traçar as letras. Essas atividades são feitas automaticamente. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. é preciso articular os sons de maneira precisa e. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica.escrever com velocidade e fluência. começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. guiando-se apenas pelo significado. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever.

a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. criar situações em sala de aula em que predominem o texto. Por essa razão. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. os quais. por sua vez. o professor deve tentar. um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. do bá-bé-bi-bó-bu. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. Isso tudo mostra que. ou seja. Sempre que possível. Por outro lado. mas também para analisar a linguagem oral. pertencem à família dos "bês".qualquer falante nativo. principalmente no começo. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . sílabas ou outros segmentos. Obviamente. para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. sobretudo no início. Para elas.

TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). mais o contexto em que é dito. Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam. É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. concluindo que nem toda produção oral é um texto. forma um discurso ou texto. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito. os textos têm estilos diferentes. tudo o que se diz. Resumindo. No fundo. trata-se de algo fantástico. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. mas somente aquelas que revelam traços literários. uma carta é escrita com outro estilo. Um texto literário precisa ter um toque de arte. Para os alunos. algumas pessoas se confundem.linguagem. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos . Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso.

textos orais e nossos textos escritos. ao contrário. eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena. Precisa. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). a fala é diferente da escrita. dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. e nisso não há nada de novo nem de ruim. por isso. Para tanto. no seu sentido mais amplo. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e. Pior ainda. . essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. especialmente os da linguagem escrita. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos. Como se disse. e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos. Em outras palavras. científicos ou mesmo de uso escolar mais comum. discutir o assunto com os alunos. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança.

Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado.O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura. Porém. Essas regras não estão em palavras isoladas. se em vez de fazer isso. O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. acabam destruindo o texto na sua essência. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto. Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. como os exercícios de monta/desmonta a linguagem. O excesso de metáforas pode levar o ensino ao . mas nas pontes que ligam as palavras num texto.

e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. quer falando.caos. de estilos diferentes. Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. objetiva. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. Além disso. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia. comparar sua fala com outros tipos de texto. Apesar do que ouve e faz na escola. precisa. que . pode aprender como a linguagem funciona. Há momentos em que a escola tem de ser clara. quer escrevendo. A partir deles. pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior".

Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar. ser isoladas. geradora de uma análise em sílabas. mas escrevemos palavras e não apenas letras. letras e sons. às vezes. Fora desse âmbito. O professor acha. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita. Temos o alfabeto com letras. cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido. que está facilitando o trabalho do aluno. em que elas encontram <203> vida própria. As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. Para aprender a falar. uma depois da outra. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível. a ponto de impedir a aprendizagem. e um uso de palavras num outro contexto. as regras perdem seu poder explicativo. quando na verdade o está complicando. formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis.precisam. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. quer do ponto de . O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. às vezes. Há muita diferença entre uma palavra-chave.

material escolar. Obviamente. . Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. sobretudo a escrita. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. etiquetando cabides. etc. entretanto. sem levar em conta o uso de palavras isoladas. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". o professor não vai ficar fazendo só isso. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito. Na vida real.vista lingüístico. Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico. quer do ponto de vista da motivação do ensino. Esse uso da linguagem é típico da escola. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. uma indicação. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. no qual o próprio sentido literal soa estranho. o rótulo de um produto. carteiras. As duas coisas são indispensáveis.

O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais. mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento. Nesse caso. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. para tanto. através de regras que consideram uma questão por vez. Mas. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. Em segundo lugar. Sempre que possível. essa abordagem é mais evidente. Aqueles que recebem esse . e não apenas palavras isoladas. Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta. o professor precisa dar explicações. mas precisam ser explicitados aos alunos. Em primeiro lugar. é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. é melhor usar textos do que palavras soltas. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. Com relação à escrita. Desse modo. de maneira isolada.

Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem . irão enriquecê-las. Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. mas também as formas de argumentar. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. mesmo nunca tendo ido à escola. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. pedaços de palavras. esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. Num texto. Porém. pelo contrário.tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois.

isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. que escreve para crianças. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . caso contrário. como atividade escolar de produção de textos. Essa é uma <205> visão equivocada. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. Depois. esses escritores não seriam famosos. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. Ouvir. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. Primeiro. Se é difícil escrever um texto desse tipo. porque o texto de um escritor famoso. Para facilitar e se adequar aos métodos usados. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos. segundo as expectativas do método. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los. muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. de fato envolve os leitores.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

dão roteiros. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas. Para tanto. o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. que não seja apenas o de ganhar uma nota. A própria cartilha dá exemplos de textos assim. <214> Além disso. meio e fim. alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo. juntando-as do jeito que acharem melhor. Não precisam se preocupar com começo. empregando as palavras já dominadas. meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. menos ainda textos espontâneos e livres. seguindo o mesmo caminho. Quando falam. quem. Os alunos só escrevem frases. quando. em geral. onde. como. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. De acordo com o método das cartilhas. Após a indicação do título. O texto sai espontaneamente.. vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. de acordo com as idéias que têm na . não propõe a produção de textos. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros..outro contexto. por quê. não se esquecendo de que o texto deve ter começo.

depois. que serão severamente criticados. guiando-se por esquemas como os mencionados acima. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. pela própria escola. Aqui. cobra deles justamente o contrário. depois. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. como em outras ocasiões. Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos). a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. O professor. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. com criatividade e arte. devem agir do mesmo modo. e se seu estilo agradar a uma comunidade. noutra com verbos e assim por diante. mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . eles acabarão produzindo textos estereotipados. nas séries mais adiantadas. Quando elas forem escrever seus textos. no entanto. torna-se um texto literário. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem. noutra com adjetivos.cabeça.

o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. água. alto. No final. Tenho diante de mim o livro da 2ª série. 1950. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras.. Para se ter uma idéia mais . intitulado Composições escolares. O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. Por exemplo. de Antônio Pedro Wolff. terão cinco frases. destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos. Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. 7ª ed.contextos. seguindo o velho esquema de responder a perguntas. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos.

— Passar quadrinhos para prosa. esquecendo-se dos que não aprenderam. Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. — Reprodução de contos sem questionário. perguntas. Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado. — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. — Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. — Redação de cartões de visita. — Redação de bilhetes. questionário. perguntas. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. . — Redação de envelopes. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas.completa. — Formação de sentenças exclamativas.

a conseguir melhores resultados. Pensavam que seus alunos. E isso. como já vimos.<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. Surpreenderam-se com os resultados. porém. não seriam capazes de escrever belas . por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio. O excesso dessas atividades. Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. em geral. é desastroso. pelas evidências encontradas no próprio trabalho. como ensina o método das cartilhas. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. muitos professores acabaram se convencendo. com a segurança de que será um bom trabalho. A verdade não é bem essa.

Com muito bom senso e um pouco de coragem. não fixassem o erro. encontra-se . conseqüentemente. É preciso tomar certos cuidados. uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares.históri as. já que os alunos. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. Um outro tipo de comentário comum. quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos. sentem-se inibidos. a fazer. acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. por exemplo. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais. O tempo como sempre é um fator importante. para que eles não errassem e. Lamentam. certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. textos espontâneos. pelo que aprenderam até então). dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. Entretanto. e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais. no início. o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. nesses casos. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos.

mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos. gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar. Em primeiro lugar.. Em outras palavras.. com todos os problemas que já tinham antes.. tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim". querendo dizer que. não é bem assim. não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas.na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. tal qual sugerida por nós. de fato. Portanto. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". Um comentário diferente. se algum aluno não aprendia. tanto faz agir . porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. o professor quer dizer que. usando o método das cartilhas. eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade.. mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos.

ele erra ao escrever espontaneamente. dos ditados. e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. Conseqüentemente. Por outro lado. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. como faz para escrever. não é bem assim. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva. o que denuncia que o ditado não é uma boa . A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. que tipo de solução dá para suas dúvidas. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba. apesar de o aluno acertar tudo no ditado.bé-bi-bó-bu. Na verdade. E isso faz muita diferença.de um jeito ou de outro. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. pelo menos em parte e em certas ocasiões. certos erros vão evidenciar que. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais.

da leitura e da fala. que aprendeu na cartilha.forma de avaliação (e pior ainda de ensino). em busca de uma explicação. O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. escreveu frases soltas para completar o texto. Depois. de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto. a seguir. uma série de textos dos mais variados tipos e origens. Para ilustrar os comentários expostos acima. estudadas e copiadas. depois. será apresentada. eram apenas . até dominar a produção de textos escritos. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar. Será feito um comentário geral sobre cada texto e. os erros serão analisados. EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. errando cada vez menos no futuro. Como se vê. Essas frases não pretendiam formar um texto.

Lourenço Filho. cópia e ditado. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. Devemos seguir os bons exemplos. não só com a leitura que as letras têm. LOURENÇO FILHO. A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons. Zezé não zela de suas coisas. 5. 2. O rapaz estudou a lição do exame. 4. 33ª lição — A zebra 1. <219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente. de Manuel B. 1951. 6. o sapo coaxa. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. ou seja. o burro zurra.exemplos para leitura. mas também com as relações entre sons e letras. O besouro zumbe. 3. Os textos vinham ao final da cartilha. quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). Ponha o vidro de xarope debaixo da luz. Por .

. Todos os brasileiros precisam saber ler. O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. escritos com outras letras. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. 9. Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. 7.isso. 10. 4. Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. Já sei ler! 2. Da lição 37 em diante. 3. "A nossa bandeira". 6. Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. "A galinha esperta" (fábula). Posso conhecer minha terra. Como é bom saber ler! 8. aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". como o X e o S. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. Para o autor. Já sei ler nos livros. uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. nas cartas e nos jornais. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". O primeiro texto é este: 1. como em outras cartilhas. "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. porém. 5.

Como falantes nativos de uma língua. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. por bom senso. nessa altura. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. uma vez que ele supõe que o aluno. o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra. Até mesmo a disposição das frases. nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. com números e paragrafação. Como o texto vem ao final da cartilha. seja capaz de ler qualquer coisa. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. escrever um texto "fácil". dificultando ou impossibilitando a leitura. denota isso. de Cecília Meireles. Depois que eles decifraram a escrita. mas não redigiu um texto.Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. Na verdade. Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico . achou conveniente. nem com as noções já dominadas. Apesar disso.

a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e. cientificamente falando. Não é possível. O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. não precisou escrever números .especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). pode escrever para a Rua das Casas. Um burrinho manso. apresentado acima. das montanhas. das flores — de tudo o que aparecer. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim.) Intencionalmente. mas que saiba conversar. ao Menino Azul que não [sabe ler. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. assim. Número das Portas. dizer se o texto da cartilha. (Quem souber de um [ burrinho desses. que não corra nem pule. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear.

como ocorre com outros poemas do livro. de maneira típica. torna corada a menina. vendo aquela cor do colar de Carolina. E o sol. põe coroas de coral nas colunas da colina. mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo. bem diferente dos exemplos da cartilha. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967. A casa tem copa. O calor de Carolina cobre o colo de cal. É uma casa bonita.antes das frases. . A casa é de Lalá. p. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. 10. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. como se pode ver. Por exemplo. ao ensino de determinada letra ou som. Esse poema é um <221> dos que não se prendem. Carolina corre por entre as colunas da colina.

para as finalidades da escola. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. ou esse conjunto de frases. até que encontre um professor que chame sua atenção. rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão. o aluno passa a entender que. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. é assim que se faz um texto. é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma . E assim continuará fazendo. o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. e juntando palavras para formar frases. Como se vê. como o método está organizado de modo hierárquico.A copa tem caco. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa.

de Vicente Peixoto. Fábio foi cedo à cidade. 2. extraídos da cartilha Coração infantil.) PEIXOTO. PEIXOTO. produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu.p. O boi bebe. O boi de Fábio fugiu. 1950. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas. > Texto 2 — 4ª Lição 1. cartilha de alfabetização rápida. O boi bebe e baba. O boi baba. O boi bebeu e babou. 4.p. 1950. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. ele acaba entendendo que. começaremos apresentando alguns outros textos típicos. 8.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita. . 14. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo. > Texto 1 — 1ª Lição 1. 3. 2. além de se alfabetizar. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola.

É a blusa de Carlos. PEIXOTO. A rua é de subida. O sapo sobe a rua. 4. 1950. A blusa de Carlos é de seda. 1950. 30. 2. Oh! que bonita blusa! 2. Xerxes estuda dia e noite. Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. A blusa de Carlos não é de brim. 46. 70. > Texto 3 — 1ºª Lição 1. O sapo pula na rua. 4. 2. 5. PEIXOTO.3. <223> . 6. 3. Como cai bem no ombro! 7. 4. 3. Fábio fugiu da geada. Os exames estão próximos. p. É de seda branca. A geada "caiu" cedo. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. 1950. Romeu ri do sapo. p. > Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. p.

uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. Aqui. Quando se analisam esses textos. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência). QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno. Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente. No último exame fez provas exatas. 4. 5. mas procurou uma ligação semântica entre elas. No texto 4. na verdade. escrever frases. seria mais inofensivo. Ele fixa a atenção nas lições. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é.3. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. na verdade. discorrendo sobre um certo tema e. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. apenas frases para treinar os alunos. por isso. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. e não simplesmente de frases soltas. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto. a frase 7. percebe-se logo que o autor quis. . Por isso explica bem o que estuda. só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas. como no método do bá-bé-bi-bó-bu.

É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride. outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade. Dentro das preocupações subjacentes do autor. e se a geada caiu cedo. Entretanto. lendo esses textos. frase 6. ainda. no texto 2. Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente. uma vez que a geada não cai. mas se forma com a umidade. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. Quem lê o texto sem saber dessas informações. por exemplo. a expressão "pé de mesa"). ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA. e não lógica (veja. logo abaixo. Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica. foge de geada. porque ninguém. por exemplo. Esse texto tem. do ponto de vista semântico. logicamente. percebe-se logo o mau gosto . sem colocar aspas. e com referência ao qual tudo é construído. como a neve.

são no mínimo razoáveis. menos ainda. do ponto de vista do valor.literário. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . idiotas. até certo ponto. a chatice com que é tratado qualquer tema. quando apresentados por um livro didático ou por um professor. apresentados a seguir. Os meus dio nadaro debecireta. São textos sem graça. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. e. os textos têm um certo sabor interessante e. a falta de originalidade. Apesar disso. TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. Texto 6—Alvaro L. E estálio = história. Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. a respeito da ortografia das palavras. mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita. insípidos e.

Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história. Depois de uma discussão sobre o assunto. o rerudo = orelhudo. ela resolveu experimentar. as crianças fizeram textos e não frases . O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade.

Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. . Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce. ele não dominava o que era ensinado. ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos. segundo a expectativa da escola. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. Em outras palavras.desconectadas. mas passaram a se interessar muito por leitura. não fazendo direito as lições da cartilha. percebeu que o aluno era pior ainda. ele confundia todas as coisas. no tempo em que os demais apenas completavam a lição. o aluno escrevia páginas. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases). Quando a professora começou a passar textos espontâneos. No final do ano. Apesar do esforço da professora. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. inventando um modo estranho de grafar as palavras. Segundo a professora. ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. daí para a frente. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita.

Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. Seguindo a cartilha. Com a produção dos textos espontâneos. Todavia. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. seguindo o modelo. Ortografia não era questão de sorte. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo. e que essa forma deve ser usada por todos.embora escrevesse histórias interessantes. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita. como uma loteria. ou seja. professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia.

(d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha.princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. esta noiva. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor.

duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. Epa a policea vemvino. Texto 12— Dirceu L. O texto 10 é também de uma aluna repetente. Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta. Enquanto os colegas . ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7.mamãe e papai ficarão triste. Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta.

fizeram apenas um texto. ela fez quatro. Além disso. Assim. Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. em vez de dizer . <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14. Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. GOSTA DE NADAR fica "gota de nada". ao invés de BONITA escreve "baoneta". Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas. PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata. numa tentativa de compor frases soltas. o resultado foi um amontoado de palavras.

mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. essa aluna tem grandes chances de errar. observando a fala. a seu modo: "A macaca é a tata". então. Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente. qualquer forma de escrita. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras. (?) Amanha é dia pascua. escreve. . O giigante gebrevu daliom. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra. arriscando. mesmo com todo o esforço das cartilhas. produto do método do bá-bé-bi-bó-bu. Como se vê. Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. Pior de tudo é a estrutura do texto. A dona da casa e o pai e a mãe. do professor e do aluno.que A MACACA SE CHAMA TATA. Os outros alunos. sendo apenas um jogo de palavras.

Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. O dia comeu nublado. fim Altor Samuel J. (c) O aniversario. O feio e o leão (?) A menina e a jogadora. <229> (b) O chapeu. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho. O bone e da menina. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente. O pelo da duensa nas criansas. M. — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre. .

quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. Texto 16— Graziela P S. FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu. Então ela foi ate o medico. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te. A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens. Ninguem lembrou que era o aniversario da titia. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens.

Ali está o cachorro. O primeiro aluno (texto 15 — a. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. mas aos poucos foi aprendendo. nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. de maneira integral.<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. o texto que produz. Por outro lado. Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d). Vou aproveitar que ele saiu. e. b. d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. O esconderijo é ali. no segundo semestre. Apesar das dificuldades ortográficas. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano.

<231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. escreve qualquer história. Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito.em detalhes. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. mas que aparecem na escrita. qualquer palavra que deseja. justamente por essas razões. interessam-se muito pela leitura. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras. porque não tem de se preocupar com o já dominado. nesse caso. Note que o aluno. geralmente mais longos. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). Além disso. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. como uma forma sofisticada de uso da linguagem. já estudado. É por isso que um aluno acaba . Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. sem medo. o aluno passa a escrever com naturalidade. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar.

prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. exceto o último "eu". Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU.transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". ao ler. Os pronomes ELE e EU. JÁ PEGUEI. Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. BOM. O mocinho matou o bandido. vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano". a saber: "O menino foi no cinema. O menino assistiu um belo filme. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. nesses casos. É preciso dizer. mais do que orais. um elemento semântico que precisa ser realçado. isto é. JÁ ESTOU CHEGANDO. Na fala.Reinaldo C. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. O filme era de mocinho. ainda. Extraído de Relatos de Experiências . Texto 17. que a aluna já percebeu. O bandido roubou o banco". A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos. TENHO UM PRANO. e está tentando empregar na redação. AGORA VOU LASSAR. como também se vê no mesmo texto).

as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos.PG. 32. como . MEC. MEC. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. às vezes. Responder: O que é melhor. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E. p. mas certos tipos de erros. II Concurso.E. 45. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. S. Como se pode observar. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S. II Concurso. Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. O que choca. Professora Aurea de Godoi. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. p.premiados 1989.

os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. etc. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. mais adiante. em detalhe. Quando escrevem textos espontâneos. Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . Veja. organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. por exemplo. EU SINTO EM MIM. p.analisaremos. mas que se escreve de outro. As pessoas falam "eu num fui". 108-9. "eu sinto ni mim". II Concurso. MEC. mas têm de escrever EU NÃO FUI. extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito.

As crianças se saem bastante bem. c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola. que estão começando a aprender a ler e a escrever. b.POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que . <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham.

Mais para a frente. neste caso. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). a única saída. Por outro lado. Nesse primeiro momento. (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas. Um balão de São João. é usar as letras QU. Texto 20— Fábio E G. ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor. se eu cair. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. COECE é uma excelente transcrição fonética. sem a marca da nasalidade. freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê". Para se obter o som de "kê". Veja no texto 19c. Agora. não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" .resulta. levando-se em conta o contexto de escrita.

os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos. Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer.Já está de manhã. Então ela ficou na cama. desde a 1ª série. Note como os textos amadureceram. jamais . sobretudo. Os textos 20 e 21 são da 2ª série. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. <234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. E lá mais adiante ela encontrou as formigas. Então ela foi para casa e comeu. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como.

Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para . resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida. Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. que. Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio. Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa. Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão.terão problemas de redação. certamente.

Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937. Além disso. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. agora. No texto b. a ortografia adotada pela escola era diferente. acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA. Escreve TUDO em lugar de TODOS. ensinado pelo professor. escreve textos seguindo o modelo. que segue um modelo. como traçar corretamente a letra "g". O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época.se lavar no tanque. Certamente. apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). ou seja. sua nota foi maior. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. o professor achou . distinguindo-a do "q". tem de fazer um texto do tipo padrão. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. Começou com palavras. O aluno não produz um texto espontâneo. Naquela época. O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado.

como produzem textos mais interessantes. ou seja. do ponto de vista literário. APANHAR. BIXINHOS. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. no texto a. TORRA-O. HOUVER. não descreveu exatamente o cão. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). Como se vê. Na 4ª série. TODO. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO.que o aluno. ele achou que a descrição era melhor. ou seja ARRUMANDO. ou seja. TORA O. O que interessa. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. ou seja. APANHA. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS). TODOS. ARRUUMANDO.. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. NESSESARIOS. fazendo textos menos criativos. ou seja. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. pois a maioria estudava até a 2ª série. nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. . OVER. NECESSÁRIOS. PREPARANDO. na verdade. mas falou de seus hábitos. etc. Há de se notar. No texto b. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. ainda. ou seja.. BICHINHOS. ou seja. as coisas não eram bem assim. Já no texto b. ou seja. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM.

Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. deve ser eliminado o mais rápido possível. Por essas razões. A meta a ser atingida era outra. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. Se ocorrer. Certamente. Hoje. QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu. . Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda). indo do mais fácil para o mais difícil.Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia. Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. para que o aluno aprenda em ordem. reproduzindo o modelo do já dominado. tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia. O que está errado deve ser evitado. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia.

como esse tipo de argumentação é freqüente. com o tempo. que perturba demais certos professores. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. o que é comum. mas o tipo de erro cometido. Para eles. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. são claramente reveladores. depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. <237> Uma outra questão. principalmente no início da alfabetização. mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas. é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z .esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. Produção de textos livres será feita como última atividade. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando). é bom lembrar aqui. especialmente para comparar o que significa. mas. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia. através de exemplos. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto. Porém. desde a primeira série. inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos.

É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância. EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12). aumento. ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. dizendo que são justos. progresso. JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades.. apoiando-se naquilo que já aprendeu. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem. Por outro lado. e não um processo de construção. e nunca pelos acertos. Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. derrubando.(CAZA). porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles. É a avaliação punitiva. etc.. Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d). consideram o certo e o errado .). EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c). não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8). destruindo coisas que o aluno faz (o errado). ou LIXO com CH (LICHO).

Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. portanto. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. o aluno tem índice baixo de acerto. porém. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. porque o aluno não tem condições. mas numa certa desconfiança imprecisa. o que ele representa em termos de erros e acertos. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8).. precisando. eles dizem que não. Em resumo. acertou muito menos do que os 70% esperados. foi bem na escola e merece ser aprovado. que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?). . Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante.). acham por exemplo.objetivamente. ou seja.. ser reprovado. Quando. sendo essa mais uma razão para a reprovação. Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco.

a. c. o (5). a (4). t. e errou: m (falta em COM. na verdade um "i": MUITA) (I).Contaremos. os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos. e. que ele escreveu CO) (I). Procedendo assim. ã. o aluno acertou as letras 0. o m (de MUMTA. o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2. n. u. n. na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA. Portanto. a. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. d. o (2).07 21.93 . em primeiro lugar. m.1. Por exemplo. o (7). na primeira linha. d.

o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2. Vamos transcrever o texto.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras. si/nos = sauva/você = 2 2 8. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual. numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. coando = voce = tive = 3 — 9. dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5. um professor que tivesse como critério de .

A produção de textos espontâneos pelos alunos. professor. desde o início da prática de escrita. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos. Essa constatação é um bom argumento para convencer . e que. O texto 8. apresenta muitos problemas. por outro lado. mas. Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. pelo lado positivo. quando os professores vêem somente o texto. a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. são muito mais certos do que errados.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. Mostra. conseqüentemente. no fundo. que escreve tudo errado. o preconceito contra certos erros de ortografia. considera gravíssimos. ainda. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. constata-se que. comparado com outros. o que significa. que muita coisa já foi aprendida. ambos poderiam ver. não tem condições mínimas de ir adiante. Porém. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas. que ele. analisados com mais cuidado. deveria aprovar Ronaldo. acham que o aluno não aprendeu quase nada. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos.

<240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. ou ainda ficar sem fazer nada. mesmo quando comete barbaridades. Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. o homem é um animal racional. simplesmente deixaria de ser homem. em nenhum momento. em outras palavras. Nisso. caso contrário. fruto de uma reflexão. O homem é escravo de sua racionalidade. sempre e em todas as circunstâncias. a humanidade sabe que o homem é um animal especial.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. como uso da faculdade da racionalidade. Nem toda . sem que isso seja o resultado de uma decisão. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. Desde os mais antigos filósofos. sob nenhum pretexto. O homem não pode se ver livre da racionalidade. Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. não há nenhuma novidade. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade.

. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. caso contrário. ou seja. usando sua estratégia de ataque ou defesa. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente. Quando andamos. um instinto. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. mas o andar requer uma tomada de decisão.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. por exemplo. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. que antes eram inconscientes. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. mal sabemos como fazemos isso. pode agir sob influência de fatores externos. mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas. nos animais. É evidente que a estrutura de nosso corpo. A reflexão e a decisão sobre como andar. Se em vez de andar alternando os pés. pelas suas características físicas. etc. por exemplo. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. não andaríamos. A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida.

e isso já é refletir. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. Ao interpretar a realidade. sem ter o outro. através da linguagem e da cultura. A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. ou linguagem e pensamento. Além disso. quando uma criança entra para a escola. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . Por isso. como fruto de uma necessidade essencial. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. para muitos filósofos. da vida e do mundo. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. portanto. já percorreu um longo caminho de exploração do homem. É por essa razão que. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. um animal racional. senão não seria gente.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. linguagem e racionalidade.

ou a faculdade da linguagem. ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. aprende a falar português deste jeito ou daquele. ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana. toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente. Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. a gramática da língua. Por essas razões. vive interpretando a realidade. é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade. aprende chinês de um jeito ou de outro. as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. diria Aristóteles. Durante vários anos — em geral 7 —. a escrita.5 a 3 anos). Portanto. a leitura. Através da interação social. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem. os usos da linguagem. a fala. <243> que é a marca de sua personalidade. Esse . em outras palavras. acumulando uma bagagem de pensamento. Nessa aventura humana pela vida. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. é inata. Nesse âmbito.perspectivas.

Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. os livros didáticos e os professores pensam. assim. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos.acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. . por exemplo. por outro lado. E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. Para aprender. as novidades tornam-se cada vez mais raras. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. a escola. É por essa razão que as ciências. os livros didáticos ou os professores transmitem. mas em todos os dias. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. caso contrário. da escrita e da fala. se desenvolvem. em todas as séries. alunos e escola não entrarão num acordo. Ao longo da vida. razão pela qual se começa a buscar sutilezas. elas precisam descobrir o que a escola. Nessa bagagem. Para ensinar. Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. novos conhecimentos.

Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . em particular. da superstição. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização. e. do aprender. Há muitas idéias em comum e. 6) da linguagem e. da vida e do mundo. 5) da ciência. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. do ensino. 2) do professor. da promoção. na prática. da vida escolar.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças. da avaliação. das noções de certo e errado. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. da fé. de suas idéias e atitudes. nessa lista. em suma. Ao longo do ano escolar. de tal modo que. essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria. do real e do imaginário. sobretudo. 4) da sociedade e da cultura. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer. da leitura. As idéias estranhas. 3) da realidade: do homem. da ilusão.

e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. <245> . prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que .detalhe. há a possibilidade de explicações alternativas. trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. principalmente de leitura e escrita. isto é. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras. há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. Outras vezes. Em resumo. Por outro lado. a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. Nesses casos. Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente. Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização.PATTO. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros. 1997. escrita e leitura. Porém. as causas mais evidentes serão as escolhidas. que serão mencionadas oportunamente.

Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. caso contrário. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. preguiçoso. Os erros escolares são sempre muito . afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. Problemas de outra natureza (físico. de fato. Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo). acabam aparecendo interpretações equivocadas.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. Também dizer que o aluno é burro. Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. etc. como distúrbios da fala. por exemplo. como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade. São coisas diferentes. lento. não esclarece. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. emocional). como problema emocional do aluno ou de sua família. Interpretar erros de ortografia. a razão do erro do aluno. como aquelas que sugeriram o período preparatório. quando de fato ocorrem. é enganar ao aluno e a si. relaxado. incapaz. apenas isso. mas toda a vida da pessoa.

Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. 60 0. acrescentando um zero ao resulta do). multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400. somado ao resultado anterior (1 440). 800. mas também quando eles acertam (às vezes). que por sua vez. esse aluno não copiou o . Sem dúvida alguma. 1 440. acrescentando um zero ao resultado). Em seguida. escrevendo 40. um aluno pode multiplicar 420 por 32. o que dá 12 000.localizados e circunstanciais. são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. o que dá 600.O = 13 440. resultando em 840. ou seja. 840. Por exemplo. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). O aluno chegou ao resultado certo. Por isso. depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20. que é a resposta. Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. 1 200 . Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). 40 + 800. Ocorrem em determinados contextos. seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. dá o total de 13 440.

de uma reflexão.resultado e muito menos colou. tudo o que faz é fruto de um pensamento. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos. Por isso. apesar dos baixos salários. achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega. graças à racionalidade. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. é preciso. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. Talvez seja esse o motivo pelo qual. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno. causar uma repetição de ano. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. Todo ser humano. mais rico ou pobre que seja. de uma decisão pensada. ainda. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. Conseqüentemente. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. eventualmente. toda pessoa precisa estar constantemente . estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. em todas as circunstâncias. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. é escravo da própria racionalidade. por mais simples.

. Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes. Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam. todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro. tentando interpretar fatos iguais. segundo as características da sua personalidade. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. resultante de uma reflexão. . Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. Em <247> outras palavras.lendo o mundo e procurando entendê-lo.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal.

Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. p. acaba escrevendo errado. segundo um dialeto que não respeita a norma culta. NAVA em vez de . o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade. curiosamente. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala. fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. como em CRAVÃO. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. no Manual explicativo < CASTILHO. quem troca -NHO por NIO. L por R. Nessas circunstâncias. quem inverte a ordem de letras em palavras. aluno que mistura letras. foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. ou TIVE por ESTIVE.Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. de Francisco Alves da Silva Castilho. Por exemplo. 45-7. como ARMA por ALMA. do método de leitura denominado escola brasileira. 1859. Já em métodos antigos de alfabetização. CARDO por CALDO.

nem seu direito de refletir. os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. Por . É por isso que. tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método. O PROFESSOR. sempre. alguns alunos cometem erros. XUA em vez de SUA. O aluno não deixa de lado sua racionalidade. O MÉTODO. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. Quando o método é muito rigoroso. interpretando até mesmo o que o método ensina. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo. apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. acabam. porque está sendo submetido a um método ou a outro. aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. Nenhum método de alfabetização controla tudo. quase sempre. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais). porém.LAVA.

para tudo o que fazem. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. isto é. seja em que método for. um professor que não for capaz disso. não é porque o professor ensina de um determinado modo. os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas. Um professor que conhece profundamente como a escrita. Por outro lado. é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. etc. que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. O importante é o fato de que. sendo dispensável na escrita. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. escreve no ditado LT para LATA. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . quando eles vão ler ou escrever. volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende. CP para CAPA.exemplo. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante. No fundo. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados.

Às vezes. é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. Mas. Se. apesar disso. a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar.bem-adquirida. seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo. para isso. Nem sempre o bom senso funciona. reprovado. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola. submetido a processos de recuperação. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. Quando um aluno começa a errar sistematicamente. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. o aluno é remanejado. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz.

sem medir as conseqüências. < MASSINI CAGLIARI. são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. de inteligência. O ERRADO E O DIFERENTE . sejam eles quais forem. com seus déficits. a fatores socioeconômicos. A escola usa de rótulos já prontos. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. fonoaudiológicos. criando a falsa aparência de que. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola. tudo está em ordem. 1996i <250> O CERTO. eliminando os erros a qualquer preço. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. sem saber se são verdadeiros ou não. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. médicos. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. de desnutrição. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. etc. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros.deficiências dos alunos. porque tem medo de enfrentá-las.

apesar de essas pessoas usarem a mesma língua. o errado e o diferente. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. Como a linguagem oral é um fato social. falam . as pessoas falam o japonês. Para estudar essas línguas. na Coréia falam coreano. o método das cartilhas não gostam de erros. A nota é o castigo do erro. os livros didáticos e. Ao fazer isso. no Japão. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. sobretudo. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever. Uma língua vive em função de seus falantes. Tradicionalmente. jamais nos seus próprios. De modo geral. conseqüentemente. se não forem sanados. na França falam francês. descobre que. no Brasil falam português. o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. Em se tratando de linguagem. é preciso distinguir o certo. Por exemplo. não se alfabetiza. a escola. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz. Alguns erros são tão sérios que. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. o aluno acaba não aprendendo a ler e. Obviamente. O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. A partir da correta análise desses erros.

nosso sistema de escrita. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. Para organizar a gramática de uma língua. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. por outro. trouxe uma grande vantagem no uso. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. por ter um uso social muito abrangente. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral. . errado e diferente em cada um dos casos. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala. obviamente. Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. as diferenças. as igualdades e. sendo um só para todos. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. Isso. <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem.com diferenças regionais e até pessoais. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico. por um lado. podemos voltar à discussão do que é certo. está acima dessas diferenças entre os dialetos. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. Porém. É preciso acabar com esse equívoco. o lingüista precisa descrever.

Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. e não apenas uma manifestação de estilo individual. Porém. como em propaganda. exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural.Do ponto de vista da escrita. estamos diante de diferenças dialetais. Não são erros propriamente ditos. Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro. Passemos agora à linguagem falada. escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. ou gagueja. outro não. outro menos. está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita. na sintaxe ou na semântica. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. São diferenças aceitáveis. Assim. uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra. escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". por exemplo). Outro de forma mais confusa. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . um escreve de forma mais clara. A escrita também tem um estilo próprio. um escreve mais elegantemente. Por exemplo. O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. e não de erros. ou se atrapalha na pronúncia. Às vezes. mas acidentes lingüísticos.

. Assim. estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada. de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da". Isso seria um erro. e o contrário também. Assim. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. trata-se de diferenças dialetais e não de erros. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. Está tudo certo nos seus devidos lugares. Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística. quando há diferenças entre elas. sem misturas de regras. a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias. como foi mencionado anteriormente. a não ser por acidente.pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". Portanto. Os falantes nativos não cometem erros. Cada dialeto tem seu modo de ser. Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". ou viceversa. ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá". Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha".

conseqüentemente. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e. por exemplo. Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos. neurológica. <253> Na prática. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física. na pronúncia das palavras. sobretudo na escola. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. em grande parte diferente do uso comum das pessoas. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. uma pessoa que faz tudo normalmente. Não é raro. Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. Uma educação especial poderá ajudá-las. mas .PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. enquanto perdurar a patologia.

Por aí. Na prática. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. diferenças dialetais. causadas por lesão dos órgãos da fala. Esses termos já são complicados por si. Para erros semelhantes de ortografia. brinca discutindo o que acontece e. Se a pessoa é deficiente auditiva. As patologias físicas são perenes. a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". não é um afásico. e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência. idiossincrasias. escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual. e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. Se a pessoa tem problemas de lateralidade. equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. mas simplesmente porque interpretou errado a escrita. depois. Se uma pessoa fala com os colegas. e sempre. Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras. inventaram um termo chamado . não apresenta um caso patológico. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. mas com os sons em geral. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". escrita de forma cursiva pelo professor.apenas "fala errado".

Entender parece. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar. modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo. Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte.. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral.. Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral. na aquisição da linguagem. ser o ponto principal na aquisição da linguagem."disortografismo". pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. algumas crianças acabam falando de modo estranho.). A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. Por exemplo. Por outro lado. concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia". Somos falantes de um dialeto. Resumindo. É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos. criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e . Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto. então. mas somos ouvintes de todos os dialetos.

por causa da pressão social. "faka?' (VACA). Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo. típico da fala do adulto. quando a pressão familiar é muito forte. Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?). Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. as famílias deveriam . com medo de aprender algo diferente e com outros erros. mas não outros segmentos fonéticos. A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. que continuam sonoros. essas crianças deixam de falar assim.fricativas. É o caso típico de pessoas gagas. que desaparece normalmente. "katu" (GATO). Com o tempo. "póla" (130. sob pressão psicológica muito forte. se a família entra neste jogo. a criança pode cristalizar a gagueira. Em todos esses casos. em vez de eliminá-la. Por outro lado. "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?).LA). continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam. Mas. com muito tato. Essas crianças se fazem entender e. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA).

esses modos de falar estranhos. principalmente para as primeiras séries. precisará agir com muito cuidado. receber críticas e até zombarias. Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso.forçar as crianças a imitar os adultos. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física. no convívio. a partir da observação de como usam a fala e a escrita. Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. o melhor é expô-la à comunidade. Os problemas da escola. que estão . como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). assim. deveríamos considerar muitos adultos. não se deve criar um problema maior do que existe. evitando. É por isso que as atividades sociais na escola. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia. ela própria deveria resolver. O tempo ajuda mais do que os conselhos. deixá-la interagir com outras crianças. Todavia. Por isso. são tão importantes. sabendo que o melhor remédio é a pressão social. em vez de esconder a criança. como os recreios e as festas. porque. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo.

Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. como deficientes. porque falam tudo errado. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo. somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações. Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral. Pelo contrário. com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. Então. etc. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . e assim por diante.aprendendo línguas estrangeiras. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado. Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. principalmente se não for falante da norma culta. e o que precisa ser deixado de lado. a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. por ser um erro. não conseguem aprender direito.

contudo. O professor não deve falar apenas dos erros. Quanto menos informações tiver o indivíduo. Em casos de dúvida. mas também do processo de aprendizagem. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. ela chega a uma das alternativas. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. que . Assim. para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. que nem tudo sairá correto. mais dificuldades terá para acertar. sabendo. ao tomar uma decisão. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. considerada a mais adequada. A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada. as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro.aprendendo a ler e a escrever. uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades. Através de um processo de reflexão.

Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura. assim. juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e. No segundo caso. analisando o que o aluno pensou. Confere-se com o original. . através da produção de escrita espontânea pelas crianças. se o aluno errou. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação. Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. No caso da cartilha. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização. e logo se vê se houve acerto ou erro. Talvez acerte. ter melhores chances de tomar as decisões corretas.

acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga. Então. Algumas pessoas. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. . e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. principalmente as crianças. na forma escrita. depois. Medir volume por outros meios não parece ser fácil. alguns psicólogos fizeram testes. Para a criança. Usando a idéia do realismo nominal. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. mais água contém a jarra. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água. mostrando as palavras FORMIGA e BOI. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. segundo Emilia Ferreiro. oriunda de experimentos como o mencionado acima.

Se. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. de fato. pedíssemos para a criança analisar sua fala. nada provam. <258> do ponto de vista semântico. porque. o animal representado é maior. Concluíram. inclusive as crianças. quando falam. em vez de mostrar as palavras escritas. Portanto. sabem distinguir . as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. leva mais tempo para falar. Provavelmente. Aliás. ou seja. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. então. na verdade. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. para então dizer em que caso a palavra é maior. no primeiro caso. guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. certamente a resposta seria diferente. a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. as pessoas. Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação.

As crianças. com relação à linguagem. É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. 2. com a semântica. diz-se o que está escrito. O pesquisador está preocupado com a escrita. o . Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior". neste caso. mostram-se as letras. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. e a criança. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e. se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. porque não tem desenho.quantidades ou sabem responder corretamente. Depois. respondem corretamente. Ela diz que é impossível ler. é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. Por exemplo. Portanto. apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA. A criança corre com o dedo o texto escrito. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. confundindo fala com escrita. oriundo do trabalho de psicólogos. Daí. nesse caso.

Aliás. referem-se a essas figuras. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto. está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. Nem por isso. porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça. usada comumente pelos especialistas em decifração. e desenho não é letra. Isto é. <259> Curiosamente. caso contrário. escreve-se justamente para que alguém possa ler. os pesquisadores . a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. interpretando as figuras e os desenhos. Como ela não sabe ler o texto. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos.psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. É uma saída inteligente. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. Como se trata de uma criança que não sabe ler. a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. quando acompanhados de fotos ou desenhos.

responde qualquer coisa.acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. a palavra EMPRESTOU). A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . indique onde está escrita a palavra TRATOR. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. para ver sua reação. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. mostra-se uma foto. A escrita maia é outro exemplo. que não sabe ler. de um trator com dois homens conversando. Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. Obviamente. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). A criança tem. usando. O teste consiste em fazer com que uma criança. embora reconhecessem que isso poderia ajudar. um texto em chinês ou mesmo em árabe. 3. porém. A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo. A criança é constrangida pela obrigação de responder e. duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso. e uma legenda: "João emprestou o trator a José". para se ver livre do pesquisador. em geral. por exemplo.

porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. <260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita. 4. Se ela não faz isso quando fala. portanto. por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e. 1957 e MELLA 1981. Ela tem consciência de que não sabe ler. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. Por outro lado. baseandose em analogias com o mundo real. confundindo seu próprio raciocínio. como tamanho e forma de palavras. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor. então. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura. Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . Depois disso. algumas delas começam a dar retorno.errada. não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. ela continua mostrando outras palavras.

crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. uma enorme repetição da mesma letra. <261> . a idéia principal. às vezes. e não COMPROU. e ler letras iguais não tem graça. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —. que não podiam ser iguais. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. sem dúvida alguma. Por Outro lado. as crianças vão procurar as palavras FESTA. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. por exemplo. BOLO. apontando onde elas ocorrem na escrita. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU. O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico. MARIA. 5. quando tentam identificar palavras ouvidas. mas lingüístico.

Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado. Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. nas primeiras tentativas de leitura. isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando. não uma análise gramatical. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo.aquilo do que se fala. a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. a escolha é um substantivo e não um verbo. Nesses casos. Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE. Pelo contrário. que mais interessa ao interlocutor. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. Quando lemos . As modificações representam sua interpretação do texto original. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem. A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. 6.

a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. quando falam ou ouvem.um romance. "Cachorro começa com FU" Com muita razão.. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. não aprenderiam a falar. guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. <262> as pessoas. Assim. inventando mil coisas paralelas ao texto escrito. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. porém. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente. por exemplo. Na escola. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia. Segundo os lingüistas. . ao lermos em voz alta.. sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. ou uma poesia. Como fomos educados pela escola. Se não soubessem disso.

O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras. GARFO (sic!). certa vez. para ela. Todos riram e a professora a mandou sentar. ouve o que não quer". estava pensando no animal cachorro. e não literalmente. Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. de todos os níveis escolares. por exemplo. mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. a palavra MIAU. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU".Uma professora me contou. são reprovados não porque não saibam. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?". Muitos alunos. era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. A forma de perguntar é muito importante. . em suas partes e. como resposta. nas idéias que o enunciado transmite. a professora não disse. Porém. A professora está pensando na forma escrita das palavras. sem nenhuma explicação. e o aluno.

deixando a criança exposta a atividades de escrita. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças. ao aprender a ler e a escrever. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. com perguntas capciosas. nos casos discutidos anteriormente. É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU. Em vez <263> de aplicar testes idiotas. por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que. .

tentando desenhar letras. que escrevam qualquer coisa. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura. nesse tipo de atividade. Não se pretende discutir aqui a classificação científica.Para jsso. Não existe um caminho certo e único para aprender. Mas é verdade que. etc. imitando a escrita cursiva. não só com relação à classe como um todo. Quando um professor pede aos alunos. quando não têm um modelo para copiar. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. que não sabem ler. mas também para um mesmo indivíduo. como os nomes dos colegas. ao longo do tempo. orienta o professor. mas os fatos. os alunos estão pensando e. Por exemplo. Mesmo agindo assim. apóiam-se em conhecimentos que . alguns põem-se a copiar o que vêem escrito. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). Copiam fazendo rabiscos. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. aparece de tudo um pouco. Na prática. Os alunos escrevem como quiserem. silábico e alfabético. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. por exemplo. tem-se constatado que. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando.

as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. como a escrita egípcia e a cuneiforme. E esta é. ainda hoje. fica mais fácil. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua. uma boa maneira de alfabetizar alguém. A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. sem dúvida. <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. Além de copiar. torna-se praticamente impossível. Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram. Sabendo a língua. A razão disso é que. do contrário. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. A partir de umas poucas idéias de como . Quando o sistema de escrita é conhecido. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. É o que o professor deveria fazer em sala de aula. poderá facilmente entender as regras de decifração. foram decifradas com certa facilidade. Aliás. Como o aluno conhece a língua. É preciso muito mais.

têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas. faz seus rabiscos. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. Mina!. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente. poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si. Portanto.funcionam as relações entre letras e sons. Logo. se não tiver algumas explicações iniciais. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. Como é que as formas . então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. Por isso. cuja aceitação ainda não foi confirmada. Nota Recentemente. Assim. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. que pode ser feita de inúmeras maneiras. não faz sentido. A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. Porém. representando a fala. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida.

a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras. descobrir como as letras representam os sons. Com isso. Então. Então. pelo menos. A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas.. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica. acaba procurando as letras.gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever. ela já as viu de muitas formas. como ninguém a ensina a ler e a escrever.. A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez. "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". Então. portanto. porque tem consciência de que não sabe ler. porque sabe da sua existência. Resta. O resultado é bem mais semelhante ao modelo. nada mais natural do que acrescentar mais uma.. agora. mas não sabe. a produção gráfica da escrita é mais fácil.. e assim por . Isso parece algo muito interessante. pensa o aluno. surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora.

segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. e escreve: B L. e não por simples e espontânea reflexão. quer escrever BOLO. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. de . o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. agora. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. E preciso descobrir as letras.diante. como U de URUBU. Por exemplo. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. B de BOLO. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. Como fazer? Falar é fácil. Ora. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO. Por outro lado. em vez de dar uma informação tão reduzida. dizendo: B0000-LUUUU. A explicação é a que foi dada acima. Então. o aluno começa a analisar sua fala. Descoberta a técnica. analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. por que. mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala. ao tentar escrever uma palavra. Eles escrevem letras corretas.

Por exemplo.acordo com a ortografia. e escreve C M U. em que. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. corresponde uma letra na escrita. mas pode-se encontrar uma mistura. fenícia. Essa hipótese. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. árabe clássico. numa tentativa de escrever o que foi identificado. Falam "u" e escrevem O. dessa forma. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. ou seja. porém. o M ("mê"). pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e. na verdade. mas não conhece o L (o "lê" de LU). mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. não é de que uma letra represente uma sílaba. <266> Em geral. para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal. A hipótese dele. Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. conhece o U do LU. existe uma letra . a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável. Ele conhece o C ("kê").. por exemplo).. de um modo ou de outro. Por exemplo. Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica. é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia. Porém.

9.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. lendo. E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. usando apenas as letras C V L ou A A O. na escola. O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. Concluindo. prefere usar. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. como referência principal para sua argumentação. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. quando vai ler. juntando as sílabas . lê analisando as letras em famílias de sílabas. tê-a-tá. la-ta: a lata". por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO. explicita em voz alta essa técnica. Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. finalmente. outro é o da decisão pessoal. Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa.

Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas". o esse do sá-sé si-só-su.-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). diz que está escrito "Brasil". O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil". O professor insiste em que está errado. Assim. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). Agora. que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal. mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. no método do bá-bé-bi-bó-bu.e formando a palavra. . as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. O professor perde a paciência. Nesse caso. e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?). o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu. Quando o professor diz que está errado. Isso acontece porque. o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga. Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. do bá-bé-bi bó-bu. Ao ler uma palavra como APTO. rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru. A. é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. juntando: bê rê-a-çê. ao tentar ler uma palavra como BRASIL. precisa descobrir que idéias ele usa para ler. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu".

Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora". em voz alta.Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método. os quais devem ser processados na cabeça. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. é preciso usar os conhecimentos de decifração. Depois de descoberto o que está escrito. Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. Para um aluno ler segundo o modelo. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. corrigindo-o sem explicar. tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. como: brá-bré-bri-bró--bru. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais. em silêncio. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . Às vezes. Quando se lê. <268> respeitando o princípio da literalidade. Isso. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba. procede-se à leitura. O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. por outro lado.

que acabam desistindo de ler. alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". em geral. Em vez de ajudar o aluno. na alfabetização. o que os faz desanimar. Diante de casos como esses. É impressionante como os professores de alfabetização. não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência.para alguns alunos. Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa". mas faz isso com . porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. Se o professor corrige dizendo "beôleá". dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). quando não para psicólogos. Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. é pior ainda. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura.

ou que só entendem o que lêem em silêncio. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. ler em grupos. quer com relação à assimilação dos conteúdos. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. por outro lado. A leitura de improviso. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. O professor pode mostrar como se lê. que têm de ler em voz alta <269> para entender. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. é sempre problemática e deve ser evitada. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. Acabará sendo um leitor lento. com os quais o professor deve se preocupar. Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente. quer com relação à quantidade de material que lê. Depois de muitas repetições.certa rapidez. 10. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. Por outro lado. 11. Como alguns falam mais depressa do que .

No primeiro caso.outros. a criança usa de sua reflexão. porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente. errado. baseada em seus conhecimentos. para tomar as decisões que julgar melhor. já no outro dia. Conseqüentemente. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. mas saborear a arte dessas obras. Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). errado. é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. típico do método das cartilhas. depois voltam a escrever certo e mais uma vez. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. tendendo-se para uma leitura mais literal. existe uma certa variação. Quanto mais se acelera a leitura. pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança. Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. Por isso. a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se .

misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. Apresentam-se. Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. indicando a saída. porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. de maneira cada vez mais sólida. 1. o processo de aprendizagem. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. cometendo erros. para não errar e levar adiante. o professor pode mostrar e discutir isso com ele. No segundo caso. Conhecendo essas razões. Finalmente. alguns casos de erros de escrita. através da produção de escrita espontânea. Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. . a seguir. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. Depois. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita).<270> mantêm integralmente dentro do modelo. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados. ou o passo seguinte.

são capazes de ler. permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. Os alunos podem . Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. Na vida. Isso pode trazer uma certa frustração. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura. estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. o professor deveria brincar de fazer assinaturas. e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. ou seja. mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. Enquanto estão conscientes do que fizeram. além de ser uma marca individual. Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. Ao fazerem isso. 2. pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante.

Diante de tal explicação. o aluno está seguindo a explicação do professor. fazendo rabiscos. ainda. Dessa maneira. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. . Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome.. 3.). as pessoas nem precisam saber ler e escrever. diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social). escrevendo com letras. etc. um professor pode convencê-lo a escrever com letras.entender que. Isso quer dizer. para assinar documentos e cheques. Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra.:' Para resolver isso. ou seja. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos. Diante disso. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. o professor constata o que o aluno fez. um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO.

Como o método concentra-se na escrita. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba. o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . com as letras B e b (que estranhamente. quando o professor escreve com letras cursivas. deixando a decifração da leitura de lado. aparecem traçadas de formas diferentes). de fato. Por exemplo. porque o aluno vê escrito ( e pensa que.4. para ele. Agora. a coisa piora. ocorrem na grafia das palavras. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão. nessa forma de escrita. A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. as letras são: <272> O + i + v + a.

O professor ensina que se deve . Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. Um bom exercício. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza. Um deles é o da escrita espelhada. é fazer transliteração. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. 5. ou seja. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro. para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE. como letras cursivas e de fôrma. pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra. Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. nesses casos. Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. podem cometer vários enganos.

Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. como a escrita exige. Com isso. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. o resto acompanha. como entoação e ritmo. No início.escrever da esquerda para a direita. Por essa razão. levando em conta essa regrinha. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. quando um aluno vai escrever a letra S. Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las. é como segmentar o fluxo da fala em palavras. 6. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. resultando na palavra espelhada. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. Então. . Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. como C e S e outras letras como Z e N.

como no caso de VISITA. ainda. segmentando erroneamente palavras. Aos poucos. encontra-se o som básico que a letra . "çe-ru-mã-nu". ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio. separam A BACAXI. os alunos vão descobrindo os itens lexicais. no próprio nome das letras. a partir da análise semântica. conjunções e expressões adverbiais. Às vezes. A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. pensando que é algo semelhante a A CASA. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver). Quando encontram a palavra ABACAXI. como preposições.surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais. os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. 7. A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. os alunos se apegam a algum elemento semântico. colocando uma parte em cada palavra. Na prática. Veja.

APARECU em vez de APARECEU. É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. acaba salientando e escrevendo as vogais. O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. etc. O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. LFATE em vez de ELEFANTE. etc. Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. TAPTE em vez de TAPETE. de acordo com a maneira como analisa a fala. como em AAO ou CVL para CAVALO. Ao aplicar isso. LC em vez de HELICE. Se repete as sílabas. como em "caaaa-vaaaa-loooo". . o que é representado na escrita pelas consoantes. Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. CAMLO em vez de CAMELO. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. como em "cacacacavavavava-lolololo".representa (princípio acrofônico). como se conhecessem a ortografia das palavras. Se prolonga as sílabas. PTC ou EEA para PETECA. 8.

Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente. Se BAR RIGA tem o "bê". demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. registra OPAFNOLA. encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras. observando a palavra LATA. que é o lá-lé-li ló-lu. Em outras palavras. la-le-li lo-lu.Obviamente. Mais raramente. ta. LATA tem o "lê". Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. Então. ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence. ta-te-ti-to-tu. MCC para MACACO. então. e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. Por exemplo: la-ta.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. não estão produzindo uma escrita silábica para as letras. que são interpretadas a partir da observação da fala. lembrou-se da . querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. LT para LATA. Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave).

basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. algumas crianças . apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e.lição da laranja e chegou à letra L. DRENTO em vez de DENTRO. além das dificuldades para encontrar. Para ser objetivo. Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. dessa forma. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever. 10. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras. etc. introduz-se o estudo da família de letras. 11. escreve LT. a forma escrita das palavras. Resultados pela metade Ao escreverem. quando o aluno. no ditado. Portanto. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. PRANTA em vez de PLANTA. que era o objeto de estudo dessa lição. a partir de seu dialeto. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO.

passo a passo. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos. principalmente no início. o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA. têm de fazer isso aos pedaços. PIONHO em vez de PIOLHO. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . Isso se torna ainda mais complicado quando. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. do começo ao fim. quer as que ele costuma escrever. L 12. ou seja. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. CAGLIARI.defrontam-se. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. 1985b. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente. com uma análise detalhada. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. analisando a própria fala. Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. PISICRE em vez de BICICLETA.

Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante. Aos poucos. até que. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética. Como uma letra pode representar muitos sons. valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. o professor chama a atenção dos alunos. 13. sem insistir muito. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. . Acertará algumas e errará outras. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras. e um som pode ser representado por letras diferentes.

Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra. o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. A sua dificuldade é maior no início.comece a grafar as palavras corretamente. para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam. às vezes. usando-a para contextos não permitidos. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. 14. Por exemplo. Esses fatos são menos comuns. Então. o que se fala com "i" será escrito com E. mas existem. Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns. Outro exemplo: o aluno . Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais.

Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. o aluno pode. em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". ainda. Nesse caso. pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. a escrita é FACA. . na sua fala (sussurrada). o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. GORILA. e quando está pensando na ferramenta. na escrita. BATATA. 15. Como escreve sussurrando as palavras. CORILA em vez de VACA. a escrita é VACA. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. mas se escrevia O). Se o aluno fala certo. como no exemplo de "faka". PATATA. utensílio. mas escreve errado. além da explicação acima. BOLA. Assim. do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. POLA.quer escrever TATU mas registra TATO. escrevem FACA. Se o aluno fala como escreve. percebe que.

Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. mas apenas variantes. Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português. porém. Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda. e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. Lembrar. e não falha de discriminação auditiva. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. as nasais. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. eles ficam perplexos porque nunca souberam que . como as vogais. A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. as laterais.

numa palavra como BARRIGA. o aluno. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros. no meio de palavras. O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez. Por exemplo. um pouco. serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". o professor explica que a letra H é um coringa que. e numa palavra como RATO. se consideram portadores de deficiências auditivas.) 16. L e N. Mas.podia haver RR surdos e sonoros. Assim C com H dá "chê". encontramos RR sonoro. nem por isso. Na alfabetização. N com H dá "nhê". dando uma determinada informação técnica. mas pode levá-lo a cometer erros. passa a escrever com H depois do D: IDHO. que já tinha errado. L com H dá "lhê". Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. Então. Por um lapso. encontramos RR surdo. por se tratar de crianças. Isso ajuda o aluno a progredir... o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. ou dizer por partes. é muito comum o professor "enfeitar" o que diz. (Na pronúncia comum de muitas pessoas. seguindo a última regra dada pelo professor. escrevendo ÍNDIO com IGO. <279> .

Com a identificação de mais alguns sons. Se vocês não ficarem quietos.. Vamos lá. Assim. . seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha. etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro. fique quieto no seu lugar! Pap. produzindo às vezes resultados surpreendentes.. escreve AAI. Assim. não por causa do erro. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. vão errar. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente.. Em seguida. Papai. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. Joãozinho. Pa.17. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido.. Pa-paaaiii. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA.. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores. o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar.. Paaa-iii. minha gente! Mais rápido! Papai. Por exemplo. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez. Mistura de informações Nos primeiros ditados. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos. após o último esforço.

resultando algo como i Outro exemplo. Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. etc. 19. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram.18. Por exemplo. Assim. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. por SOCORRO. notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). acabam escrevendo tudo corretamente. faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR. DONAIMEA por DONA ESMERALDA. tendo feito o "d". Então. ao escrever IDADE. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. SATUX por SANDUÍCHE. ele emenda tudo sem . nem sempre sabem solucionar dúvidas e. resultando daí uma grafia estranha. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa.

tomado por um pânico muito grande. "apachonada". acabam escrevendo: "cachorro". Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. erros de supressão ou de acréscimo de letras. que depois leria corretamente para o professor. seus erros têm pouca lógica. começa a escrever coisas muito estranhas. explicando que se tratava de uma aranha preta. Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula. até adultos cometem. . Por distração. 21. resultando: CATSELO. etc. e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva. Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO.correção. 20. Medo de escrever Mais raramente algum aluno. nesses casos. de repente. às vezes. que sabe escrever umas poucas palavras. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo. Inversões desse tipo são muito comuns.

Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. . e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. Sinais de pontuação Além das letras. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. o professor não deve enfoca-los. No começo. a escrita tem marcas e sinais de pontuação. ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. 23. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos.22. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita.

"Maria achou nós". incluem-se três tipos de erros mais comuns. Nesse caso. É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. Na alfabetização. e erros oriundos da má formação de concordância. Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. Assim: "eu vi ele". 2. Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. etc. . na fala de muitos alunos. "uzómíveiu". costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries.Por isso. "çértu" (com R retroflexo). etc. o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos. como: "drentu". os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita. "pobrema". "ela viu eu". "arriba". De modo geral. como: "bardji". "askazakaiu". como: "nóis vai". "fumu". Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto.

Por exemplo. Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. De vez em quando. especialmente de falantes de dialetos estigmatizados.. O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. como por exemplo "que". esse tipo de construção precisa ser evitado. convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. fazendo ver que na linguagem escrita. "em que". "Ele falou uma piada . sujeito da oração. "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". 3. entretanto. sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções. etc. é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo. Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime".Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas. para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos. de modo especial. como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos".

é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente. Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor. Por tanto. Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. O professor . Por exemplo.:'. por isso mesmo. no sentido de ajudar seus alunos. a melhorarem seus textos. o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". marcando todas as pausas que fazem. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. como "ééé. "aí".onde o papagaio morreu afogado". ele deixará de se preocupar tanto com isso. O professor alfabetizador deve mostrar o certo. Mais uma vez. onde eu deduzo que havia muita corrupção". "depois". esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. "Tudo estava perdido. mas não insistir. desde cedo.. há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos. Todavia. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. 4. o professor não precisará se preocupar muito com eles.

que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração. Por outro lado. O mecânico chama-se Toninho. evitando a repetição dessas palavras. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada. A repetição pode também ser desnecessária e. costuma colocar nessa palavra o foco semântico. e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida. deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão. variando a estratégia de construção das frases. sobretudo de séries mais adiantadas. A repetição. ou seja. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. representado pelo acento frasal. cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos. Note que quem usa "ele". Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". Ele viu o carro. o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. . O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. em frases como essa. O carro assim não pega. <283> Alguns professores.. nesses casos. um texto como: "O mecânico chegou em casa. às vezes.

O texto acima só aparece como exercício na escola. Esse tipo de texto precisa ser evitado. como quem monta um quebra-cabeça. no qual o aluno foi alfabetizado. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. completando o que foi dito antes. ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases. ou seja. cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. Xaxá é a vovó. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. O pato nada no lago. Desse modo. não na vida real.5. e reflete um modelo muito típico de cartilha. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". O pato é belo. No exemplo acima.

a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. não requer explicações mais detalhadas. PEDRO FICOU FELIZ.daquele jeito. Por exemplo. levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos. agora. às vezes. Não tem propósito aparente. confusão com os elementos anafóricos. 6. Se o professor adotar outra estratégia. Porém. Alguns alunos fazem. por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO. esse tipo de problema quase não aparece e. o elemento anafórico ELE. . desestruturando o texto. tem um antecedente claro e bem-definido no texto. Veja o exemplo. ELE FICOU FELIZ. quando vem.

assim. todos os verbos. 7. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia. quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. por exemplo. É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. como JOGOU e FOI MOSTRAR. a forma de apresentação estética. o sujeito de FOI é o PADEIRO. <285> Todavia. embora fale sobre eles com os alunos.Na segunda linha. esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas. Caligrafia Finalmente. Na maioria das vezes. Depois. Esse é um típico problema de coesão. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. no início do segundo semestre. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início. o professor não irá questionar esses aspectos. O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro. o layout. cujos sujeitos estão ocultos. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . Portanto.

No início do processo de alfabetização. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento. O ditado. Textos que vão ser expostos. enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação. é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais. Tudo .trabalho. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI. Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. 1990. na verdade. O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram.

especialmente perceptivo-auditivas. a prática do ditado é intensa. O professor fala como quem dita aos alunos. Nessa prática. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. até à moda da escola. Na escola. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. às vezes. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. por exemplo.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio. certas aulas expositivas são espécies de ditado. Quando se quer guardar uma informação. Em algumas profissões. no final do ano. . do conteúdo da matéria de todas as aulas. Ditado e cópia são atividades interdependentes. como nos escritórios. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. Quando se tomam notas numa conversa de telefone. controlando o que escrevem. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. ditamos o que ela precisa escrever. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. escreve-se. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. fazendo confusões fonéticas e semânticas. antes de escrever. obviamente. Nessas circunstâncias. ou até mesmo entender o que foi dito.

Embora pouco recomendado. vê-se que o ditado é uma . esse sentimento é. avaliar o desempenho. A mãe ou o adulto dita palavras. como as anotações feitas numa aula. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. Nesse último sentido. realizados apenas no plano da oralidade. obrigando-os a estudar. gerando ansiedade. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. como as informações passadas por telefone. além de ser uma prática que constrange os alunos. expressões ou frases para a criança repetir. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem.Pela experiência de cada um. Esse quadro geral. outros reproduzem apenas as idéias principais. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. testar as dificuldades de realização de escrita. largamente manipulado pela escola. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. de fato. certamente. Portanto.

em geral. se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. Muitas vezes. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e. Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. Do ponto de vista da maneira como são feitos. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização. . LOTA. TELA. os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. ditando-lhe as palavras já vistas. Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico. Para esse método. enquadra-se nesse caso. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. etc. depois. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. LUTO. TOLO.prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta.

as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). Os próprios erros são outros. quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito. . Entretanto. ao passo que.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). neurológicas ou fonoaudiológicas. nos textos livres. é porque não se concentra. Se o aluno erra. não aprende ou. Nos ditados. percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. não presta <289> atenção no que o professor diz. não estuda. porque tem dificuldades mentais. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). até mesmo. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças.

esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar.. Acham que além de avaliar. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U. Tais ditados são realizados foneticamente. o aluno não escreveria da maneira correta. Curiosamente. quando deveria pronunciar U. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA. o professor fala e o aluno escreve. para não fixar o erro (sic!). Ora. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. como vimos. Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. pode variar. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. Mas. O modo como o professor fala. Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos .Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras.. onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar. nesse caso. servem de reforço para a aprendizagem. ou seja. se o objetivo do professor é esse. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever.

Por exemplo. embora quase silabando as palavras. Depois.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. dita pronunciando as sílabas isoladas. E CASINHA. O aluno escreve CASI e pára. porque fica pensando: CASA se escreve com S. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. e o aluno escreve o NHA junto com o CA.. CA. Começa falando-a normalmente. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. o professor já está repetindo sílabas: CA. FLORZINHA se escreve com Z. . NHA. o professor quer ditar a palavra CASINHA. como o ditado ocorre com bases fonéticas. O resultado é: CASIZICANHA. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente.. Porém. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos. na hora do ditado. Finalmente. Em alguns casos. e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. Quando presta atenção de novo no professor. este já está silabando NHA. é com S ou Z? Nesse momento. Quando os alunos estão escrevendo. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA. serve-se dessas regras para ditar. o professor passa para a palavra seguinte.

Assim: DEODORO com D de DADO. DEODÓ. nota-se hoje que. Na cultura inglesa. REORU. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. sem dúvida. Ó. <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização. que se supõe de conhecimento fácil. como: DEODORO com DEEDÊ. a primeira letra da palavra-chave. aplicando-se. vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. Resumindo. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. com DÊ. é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. isso é muito comum. e não TEODORO com T de TATU. dizendo o nome das letras das palavras. Esse procedimento. próprio das cartilhas. Assim. No Brasil. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . soletrando. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata. quando eles os ajudam. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. Outros procedimentos podem ser observados. é raro as pessoas soletrarem. nesses casos.

Poder-se já. com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. podem ocorrer erros de interpretação das figuras. uma laranja. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. da maneira como as escolas fazem ditados. sobretudo. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. desenha-se um pato. essa atividade não é um ditado. uma galinha. Por exemplo. etc. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos). e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. talvez. e o aluno escreve BOLA. Na verdade. chamar esses ditados de ditados semânticos. O professor desenhou uma laranja.de alfabetização e. Além dos tradicionais erros de ortografia. Anotações . O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente.

por exemplo. uns copiam só questões secundárias. A escola deixa que cada um se vire como pode. o que é mais importante. outros de menos. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. Seria interessante que o professor. e é o que os alunos acabam fazendo. O professor pode passar sua experiência aos alunos.Finalmente. Feito isso. discutindo com eles como se fazem essas anotações. numa aula ou numa palestra. passa-se a discutir o que cada um anotou. desde a alfabetização. O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. etc. A escola precisa cuidar não só do conteúdo. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o . o que é secundário. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. fosse ensinando como fazer anotações. como da maneira como se estuda. o que está a mais ou está faltando. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa.

Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão. mas não é uma garantia disso. mas PORTA não pode ser dita "póuta". A partir daí. Assim. Como se viu anteriormente. .que acontece nas salas de aula. uma vez que se escreve com L. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R. quando o aluno escreve certo. Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. e o que encontram aí. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. esse tipo de asserção é um equivoco. não é um bom exemplo. A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. algumas vezes.

Todavia. porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve. ou se está certo ou errado. ou tiver dúvidas. Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. Servem. para aplicação das normas dos alfabetos . Não há o que discutir. ainda. Esses ditados são. Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. de fato. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra. Em questão de ortografia.. será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. Ora. como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. formas de ensinar a fazer transcrição fonética.. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras. escrevendo do jeito que acham mais provável. A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto).

o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. todo som de "i" seria representado por i e somente por i. Feito esse tipo de exercício. do modo como fossem pronunciados. que ele pode .fonéticos de transcrição de pronúncias. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. as dificuldades geralmente crescem. Seriam escritos somente os sons realmente falados. usando diferentes dialetos. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras. Não envolvem nada de ortografia. sem qualquer preocupação com a ortografia. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício. Nesse caso. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar.

Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. são feitos ditados apenas para controlar a disciplina. mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu. Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários.observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. Como a escola não consegue se livrar da nota. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala. É sempre um item indispensável nas provas e testes. por mais cuidadosa que seja. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima. tampouco consegue se livrar dos ditados. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- . para saber ortografia. a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. Ditado e avaliação Na escola. fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. que o professor não sabe como aproveitar. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. os ditados são usados para dar notas. Na alfabetização. algumas vezes. Na verdade.

pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada.versa. Entretanto. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. nem avaliar a lição anterior. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula. Pode-se até fazer um campeonato. Nesses casos. ou dar uma nota num teste. para saber quem escreve mais palavras corretamente. como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . o significado da atividade também muda. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente. Pelas razões expostas. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização. brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante. o objetivo não é ensinar ortografia. Nesse caso. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. como o enfoque muda. inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. Não só não fazem falta. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los.

CAPA. "lata" se decompõe em LA + TA.inadequados perante a linguagem. . se um aluno escreve LT. Por exemplo. CPA. que é analisada em seus componentes (sílabas). E escreve LT Mas. MACACO. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. é composta de famílias de letras. MACC. guiando-se pela palavrachave. Na prática. cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. diante desses casos. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. saber se um aluno aprendeu ou não. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele. alguns professores acham que conseguem. se está progredindo ou não. e achase a letra correspondente. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. Essa questão é tão óbvia que o professor. não sabe como tirar o aluno do impasse. direitinho. e o aluno volta a fazer tudo de novo. LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. E agora. o B de BARRIGA ou BEBÊ). através dos ditados. Pega-se uma palavra. Assim. em vez de LATA. do mesmo jeito. Volta a explicar tudo de novo. Ora. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras.

como vimos. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos. já viu que. existem as vogais.. através de exercícios de montar e desmontar palavras.. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas.então. vai arriscando escrever também as vogais. de fato. Conseqüências dos ditados na alfabetização . Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. Por outro lado. aos poucos. além das consoantes. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro. Para o método das cartilhas. Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. Quando o fazem. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. porém raramente sabem interpretá-los. para se autocorrigir. Nesses casos. e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. o ditado não faz sentido. o induz a isso. principalmente o A.

os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes. como das conseqüências da avaliação. fazer remanejamentos. não só do ponto de vista do que se faz na escola. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis.Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. e classificados como deficientes mentais. . porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. etc. auditivos e articulatórios. na prática. Isso mostra que. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas. neurológicos. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola. mais levianos. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. Entretanto. punir com cópias alunos indisciplinados. De todas as atividades da escola na alfabetização. Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem. mas também para reprovalos. mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola. psicológicos.

quer com indivíduos. O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão. então. quer com equipes de alunos. . a fala silabada. É claro que seria possível fazer ditados de textos. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. etc. apenas copiam do quadro-negro. A linguagem vive nos textos. nesse caso. Os alunos. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. os ditados. a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras. pedagogicamente falando. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas. Mesmo assim. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas. a destruição da semântica das palavras. induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. eles mesmos as escrevem na lousa.Além dos aspectos negativos já apontados.

Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. Na alfabetização. à análise com comentários sobre cada caso. Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. a melhor solução é a simples cópia. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. depois. Além das finalidades. Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . invertem-se os papéis. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados. Os alunos acabam errando demais. como no ato de fazer anotações ou cópia de informações. Feita a atividade. procede-se a uma discussão geral e. as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis. Depois. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. Nesses casos.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável. essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia.

no Museu Britânico e em outros. No Museu do Louvre. nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. na Antiguidade. de certo modo. repetir o que se disse de maneira mais lenta. a . as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. Em suma. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. Para esclarecer como se escreve uma palavra. Inúmeros documentos mostram que. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. além de aprender como o sistema de escrita funcionava.se deve fazer. quer na Mesopotâmia. encontram-se trabalhos de cópia. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem. um procedimento que ofende a quem escreve. se for uma simples falta de compreensão. Assim. CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma.

portanto. para guardar . desenvolvia a habilidade da leitura. o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. aprendia como decifrar o que copiava e. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. por exemplo. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. Na Antiguidade. objetivo principal da tarefa de cópia. não se copiava. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. finalmente. <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. Como falante de grego. comparar o que fez com o original. quer pelo contexto.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. nesses casos. que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons. ou seja. Ele tinha diante de si. Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras. mas não é a única nem a principal. numa tábua. o alfabeto grego. Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário.

faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. Embora a criança. livros. Ao proceder assim. Alguns professores consideram que a cópia é um simples . Isso é importante. o simples ato de se copiar um rótulo.um documento. a juntar informações. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. não consiga decifrar o sistema de escrita. Esse tipo de atividade. a criança toma iniciativas. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. copia e avalia o resultado obtido. traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. a deduzir. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo. pelo contexto. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. Portanto. etc. paredes. uma palavra que encontrou escrita em objetos. usada logo no início. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. por si só.

. Escrever uma palavra ou frases. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. Por isso. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente.exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que. com que letra começa a palavra. ou seja. vão procurar descobrir que letras copiaram. na tarefa de copiar. Isso é verdade e pode acontecer. etc. se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. vão precisar saber o que está escrito. que letra vem depois. ocasiona esse tipo de problema. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. poderá ter como reação um ato mecânico. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo. a cópia é uma ótima estratégia de ensino. que som tem determinada letra naquela palavra..

Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula. separando assim desenhos de letras. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. irão colocar apenas material escrito. letras e até palavras. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita. copiando ou não. fazem o que chamamos de rabiscos. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. Seria bom que essas crianças recebessem. e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. como também de copiar material escrito. Numa folha de papel. Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. Ao fazer isso. apesar de suas limitações para usar o lápis. para sentir um pouco o que é escrever e ler. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). fazendo comentários orais. brincam não só de imitar os adultos que escrevem.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. . Em geral. desde então.

O professor irá solicitar que usem. por exemplo. etc. que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel. uma espécie de cópia. No mundo da escrita em que vivemos. eles podem confeccionar um álbum de letras. animais e objetos. sendo. juntamente com os desenhos. usados. que são escolhidas e montadas em lugares próprios.Ainda bem no início. pois. como também através de letras soltas. acompanhadas <301> da colagem de figuras. Copiar. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. os alunos podem copiar.. por exemplo. sinais. Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes. útil e mesmo necessário no início da alfabetização. recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante. nomes de colegas. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). Cada página pode ter um título: . além de letras. marcas. há muitos pictogramas. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa.

seguindo o padrão gráfico das letras já feitas. O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. porque elas não aparecem no texto consultado. quando estiverem mais adiantados. letra florida. minúsculas. podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. usando a imaginação: letra do jornal X. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. letras cursivas. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos. etc. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. letra da propaganda Y. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. Cada . o professor pode propor o dicionário da classe. listrada. mais tarde.letras de fôrma maiúsculas. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. Os títulos podem ser obtidos de outro modo. Em vez de copiar graficamente. por sua vez. Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. Às vezes. baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. como se fossem figurinhas. os quais. Nesse caso.

se o professor estiver estudando a letra C. em outra coluna. o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares . propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. ao mesmo tempo.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. numa coluna. Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada. e. O ou U. etc. o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. Ligado às atividades de ensino. seguindo as instruções do professor quanto a layout. ilustração. e acompanhada de A. na qual irá escrever uma palavra. Por exemplo. As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas.

Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. dando a impressão de que as aprendeu. na hora do ditado. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa. então. pode esconder o fato de não saber ler. pode servir como reforço da aprendizagem. porém. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. quando todos estão sentados. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel. . Atividades como essa. uma vez realizada. Nesse caso.próprios de cada um na sala de aula. Esse aluno. Cópia não é um reforço da aprendizagem. e que. como faz o método das cartilhas. memorizar informações sobre o que fez e. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente. Melhor seria. que misturam escrita com desenho (quadradinhos).

na verdade. apenas decora o que lhe apresentam. quando. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem. Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. sem entender verdadeiramente. No entanto. Por outro lado. não está nas atividades em si. é essencial. e ele não saberá o que fazer. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. desse modo. O problema apresentado aqui.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. transformando-a em leitura. mas no método das cartilhas. na verdade. Já dizia Dante . Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos. esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e.

mas é muito usada por artistas. depois. Citar um autor ipsis litteris. Infelizmente. esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. escrevendo. até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória. a escola usa uma estratégia de maneira . Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. um texto em prosa. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e. Como acontece com muitos fatos escolares. procura-se reproduzir o que se quer decorar. Desde a alfabetização. incluindo não apenas obras literárias. um diálogo. <304> de cabeça. mas também científicas. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto. Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários. a escola deveria cultivar a memorização. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. Faz. faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. desde as primeiras séries.se isso em círculos cada vez maiores.

não o faz. Por essa razão. eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. depois. ou algo específico de uma lição. Copiar informações. por ser seu contexto correto. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. fazer cópia pode ser uma boa atividade . passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro. às vezes. concluindo que não serve aos seus propósitos.inadequada num determinado momento e. quando deveria empregá-la. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. se o problema for de indisciplina. de livros. A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo. utilizase dela. etc. por isso. de apontamentos. textos. para punir alunos indisciplinados. prejudicando-se muito nos estudos. se o aluno não presta atenção às explicações do professor. Na escola.

Assim. é importante que peçam cópias. passando da letra cursiva para a de fôrma. quando a criança. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa. seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável. <305> Outra atividade importante na alfabetização. um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M.versa. Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. minúsculas. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. ligada à cópia. que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura. o traçado das letras maiúsculas. Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início. das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. passando-o para outro tipo de alfabeto. é a transliteração. além de copiar. por ter somente "dois morrinhos". Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras.de iniciação ao mundo da leitura e escrita. . o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. corresponde à letra n cursiva. Por exemplo.

analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. etc. revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno. nesses exemplos. fornecido pelo próprio professor. deverão passar da . etc. um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. o nh. o sc. Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita. Para isso. Como eles não sabem que palavras estão escritas. composta de i + v.). Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema.Erros de cópia. Por outro lado. Quando aparecem erros como os apontados acima. mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever. Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas).

ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional. escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. ao encontrar material que exemplifique. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para .escrita cursiva para a escrita de fôrma. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma. interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu. Depois. as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. por exemplo. Os franceses e os americanos. De acordo com a tradição educacional de cada país.

exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. andando junto com o autor na elaboração de um texto. para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original. O objetivo aqui é experimentar. Por isso mesmo. passa-se ao aluno um exemplo menos interessante. sua organização e desenvolvimento. <307> . Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. O aluno troca palavras.analisar os erros e as dificuldades encontradas. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos. caso contrário. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. em vez de ensinar o melhor. usa outra construção sintática. A escola precisa aproveitar mais o que faz. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos.

Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos. ou substituindo progressivamente todas as palavras. de fïsica). Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. Éo que se chama de exegese de um texto. dando ao aluno uma frase para ele copiar. substituindo uma ou mais palavras que ele queira. Através do exercício de exegese. conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa. etc. as várias etapas que o . Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto. enigmas. como problemas (de matemática. mas a semântica é outra.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. às vezes. praticada em atividades de interpretação de texto. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma. Em geral. textos de reflexão filosófica. religiosa. agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele.

Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. uma idéia de um livro. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. até mesmo. por razões sentimentais. com o uso comum de computadores. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. Isso se aprende também na escola. Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. Copia-se o que se ouve do professor. Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. Às vezes. A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. Hoje. inclusive a ligação de uma parte com outra. um pensamento.problema exige vão se apresentando mais claramente. um conteúdo qualquer. aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante. um texto e. uma piada ou um simples nome.

flores. . desde formas gráficas de letras e alfabetos. As crianças adoram colecionar. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. pode colecionar informações sobre passarinhos.informação em arquivos. esse banco de dados vai se enriquecendo. desenhos. mantendo um arquivo com recortes. crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente. A medida que o tempo passa. Assim como um aluno coleciona selos. dependendo menos da escola. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. etc. fichas com anotações. até poesias. e se a escola souber aproveitar isso. em primeiro lugar. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. sempre ensina mais e melhor do que a teoria. fotos. nesses casos. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula. Através de cópias. também. A prática. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. O professor deve. além de colecionar objetos. árvores.

<309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. além do conteúdo das matérias. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. envolvendo isso tudo. Como se viu neste capítulo. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. porque associam essa tarefa à de cópia punitiva.Classificar. corrigir e melhorar e. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. há muito trabalho de cópia e. executar uma versão preliminar num rascunho. finalmente. rotular. A organização material é prova da organização mental. folhas. por trás da atividade de estudar. também merece cuidado especial. Como se vê. Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social. das coleções e dos álbuns. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição. caixas. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. A distribuição espacial do material nas fichas. <310> . A educação não germina em meio à desorganização mental e material. etc. passar a limpo. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever.

a decifrar a escrita. . O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária. Na prática escolar. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. Os próprios textos escritos são. então. Na alfabetização. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura. ensinar alguém a ler. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. ou seja. na maioria das vezes. da leitura para conhecer um texto escrito. e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. vista sob esses dois aspectos. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. na sua essência. ou seja. Alfabetizar é. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. por isso o termo "leitura" adquire outro sentido. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. sabe decifrar a escrita com facilidade. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. Trata-se. e não o inverso.

que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. entre outras coisas. Além da decifração Quando lê. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras. a diferença entre desenho e escrita. e não de outra maneira. uma pessoa precisa. em primeiro lugar. apesar disso. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento. Sem . é preciso adquirir certos conhecimentos. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir. parece muito fácil e natural. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. a passagem pela estrutura lingüística é essencial. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras. Para quem já sabe ler.Ao longo deste livro. o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. função e usos da ortografia. Entretanto. Em ambos os casos. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. para chegar a esse ponto. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza.

Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. Quando uma pessoa fala espontaneamente. por exemplo. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. porém. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto. Este último caso acontece. As vezes. não existe linguagem e. não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. A decifração. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua. portanto. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo.isso. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para . Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. segundo as regras dessa língua. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. e de forma coesa e coerente. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. pode ser feita por etapas.

processar a compreensão da linguagem. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. obviamente. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. toda pessoa. Assim. No entanto. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. <313> Perdurando essa prática. acontece apenas como um processo de feedback. pronunciá-los em forma de palavras. uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. mas também de si próprio. como a linguagem tem todos esses aspectos. elabora . do controle sobre aquilo que se diz. além de falante. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. Contudo. Isso.pronunciar as palavras. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. a partir dessa audição. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e. e acaba sendo um mau leitor. se apropria das idéias que descobriu no texto. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler. Portanto. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. ou seja.

pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo. Além disso. numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. o leitor pode conhecer todas as palavras. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia. Por outro lado. saber como pronunciá-las e não entender o texto. talvez não. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . Dependendo do texto e do leitor. seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. X). Nas explicações dadas acima. mais fácil torna-se ler novos textos. e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. Talvez isso seja irrelevante. terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita. Quanto mais se lê.todos esses conhecimentos como se fossem seus e. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. nota-se como se pode ler de várias maneiras. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. Se se deparar com uma palavra desconhecida. passa a dizer o que leu. dependendo do que se encontra pela frente. Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere.

Em ambos os casos. Certamente. quando a leitura se realiza em voz alta. Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto. as leituras . quando lêem para si próprias. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto. A única diferença entre elas acontece no momento em que. que varia de falante para falante. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade.de saída. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. o planejamento lingüístico deve ser completo. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala.

Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. Isso se dá ao ler. através da leitura. mas a base dos . futuramente. ao aprender a ler. pois. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente. mesmo em silêncio. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. pode-se ler em outros dialetos. Por outro lado. o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. do mesmo modo.feitas em silêncio são assim. Assim. acaba tendo. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos. mas todo um processo de produção de fala. se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada. recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar.

A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. Leio no dialeto que desejo. Assim. dependendo de como o professor lida com eles. na sua essência. reproduzindo fielmente os sons representados. é oral. Ao contrário. mas deve chegar o mais próximo possível disso. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético. na língua e no dialeto retratado. <315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. ler não é falar. Assim sendo. no meu dialeto. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. Castro Alves ou Érico Veríssimo. baiana ou gaúcha ao texto. E os portugueses lerão meus textos com sotaque português. Quando leio Vinicius de Moraes. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. não me esforço para dar uma pronúncia carioca.dois é a língua. que. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz. quanto menos . Esses são dois pontos de suma importância na escola e.

Por outro lado. A leitura.alguém se preocupar com a parte fonética. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. perdem o fio do raciocínio. a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. ipsis litteris. Como vimos acima. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. A fala deve ser monitorada pela semântica. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser. entender o que se lê. dessa forma. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. ao decifrar o texto. também. mas o leitor fica divagando. truncada e. Quando se lê uma poesia ou um romance. Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu. mas também a semântica. . mais fácil fica acompanhar a parte semântica e. muitas vezes. voando nas asas da imaginação e da fantasia. Afinal de contas. O leitor interfere no literal do texto Na leitura.

o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas. Na nossa cultura. No início da alfabetização. por essa razão. conforme . as crianças ainda não sabem disso e. ao lerem os primeiros textos. Por exemplo. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando". sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. Esse tipo de interpretação está equivocado. Diante de tais fatos. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve. Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso". todavia.<316> A leitura em voz alta. A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. existe a lei da fidelidade ao literal do texto. implica algumas restrições. como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito. O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. dizendo tudo em palavras e em voz alta.

alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. Assim. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. mas no dialeto padrão. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado. A lei da . É preciso que o professor alfabetizador. ela em geral pune esse tipo de leitor. O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. Porém. naquelas circunstâncias. sem se preocupar com os outros aspectos da leitura. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. obrigando-o a ler apenas o literal. desde o início. diante de um público. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia. para quem um texto tem de ser lido literalmente. Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo).exigência da nossa cultura. Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto.

para quem escreve e quem lê. pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. Porém. O falante diz um enunciado a seu modo. mas também com a sua própria interpretação. tornando-se por sua vez uma realização literal. a linguagem se perderia num mundo de fantasias. da mesma forma. Contudo. Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. Sem o princípio da literalidade. esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através .

para um melhor desempenho. desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. . se a leitura estiver sendo feita individualmente. através de uma leitura especial em voz alta. como por exemplo locutores de rádio e de televisão. Na nossa cultura. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. Algumas vezes. mais propriamente. Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. Os professores devem incentivá-la o mais possível. Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. mas não em outras situações. porque. O professor não deve se preocupar com isso. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se.da fala do leitor (leitura em voz alta). de leitura para um público ouvinte. a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. Na vida real. A escola deveria seguir esse procedimento.

Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita. Da mesma forma que o ditado e as notas. mesmo na alfabetização. Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados.. Nesses casos. alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso. e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. por exemplo. simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito. através do desempenho dos alunos. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que. Por outro lado. esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola.. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. . como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta.

para não criar uma pronúncia artificial. Já que eles sabem o texto de cor. Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso". Nesse caso. Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto. Alguns professores <319> antigos recomendavam que. depois. Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos. lê-lo em voz alta. durante a leitura de um texto. como em qualquer atividade de leitura em voz alta.letras de música ou poesias. basta estudar um pouco e. depois decorá-lo e.. o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura.. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. ela repete sem dificuldade. somente então. ler acompanhando as palavras (não as letras). Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito.

ao chegar nesse ponto. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior. A medida que os estudos avançam. Simplesmente precisa rá praticá-la e. A escola. num primeiro momento. Tipos de leitura No fundo. embora. Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. porém. com o tempo. se não estiverem lendo de maneira correta. Mas. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. tudo estará em ordem. não apresenta problemas de leitura. assumam características diferentes em . e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. dominando inclusive certa fluência na leitura. procedendo daquela forma. todos os tipos de leitura são da mesma natureza. o aluno deverá preparar a sua leitura. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. o professor permitirá que ele leia para a classe. Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. em vez de decorar o texto. Isso requer um certo estudo prévio. externamente.público.

Como vivemos num mundo caótico de escrita. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . uma leitura interpretativa. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões. Temos. Um estudo mais aprofundado levaria. a leitura pode ser informativa. Um terceiro tipo de leitura. ainda. Neste último caso. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. ou seja. etc. estudado. pois. Com relação à natureza dos textos. a outros tipos de leitura. Quando se lê num sistema fonográfico. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem. parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado. que também já foi apresentado anteriormente. como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. representado. para divertir. Quando se lê num sistema ideográfico.diversas circunstâncias. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. segundo o modo como cada um o interpreta. etc. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros.

não raramente. refletindo-se sobre um . Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. com freqüência. ao sistema ideográfico. até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia. Para muita gente. Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. somente para o aspecto literal do texto. ao sistema fonográfico. Infelizmente. o uso de rébus. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. ao sistema fonográfico. as grifes. Os símbolos. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento. as letras. a escrita apresenta-se de muitas formas. os sinais. a ortografia. No mundo fora da sala de aula. os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro. as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e.muitas maneiras.

por essa razão. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa. no entanto. Assim. saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante. estudá-lo fisicamente. e não de um processo de leitura. tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. um dia. não precisa pegar um pote. Isso tudo é um uso da linguagem. fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". a linguagem representa o mundo no pensamento e. "ler as mãos". apalpá-lo. etc. "ler as estrelas". no sentido técnico. Alguém. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora. a não ser no Quênia e em outros países africanos. Assim. Em decorrência de idéias como essa. por exemplo. Esse uso metafórico da leitura. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para . Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. a palavra POTE. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua.determinado objeto.. Para um aluno ler o que está escrito.. um professor não poderia usar a palavra ZEBRA.

não basta detectar apenas os significados literais das palavras. tanto quanto as frases. Porém. Basta alguém explicar o que significa. a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). geralmente. os pressupostos. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras. como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem. mais tipicamente. as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim.aprender a palavra "elefante". Num texto. as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo. O testemunho é algo de importância essencial na vida humana. ou. Por isso. A literatura. a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita.

não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. ao ver a palavra CASA. Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha. seria nas entrelinhas da própria fala. e não apenas da escrita). ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. O professor deve. desse modo. de concatenação ou de compreensão. . portanto. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar.um texto escrito (na verdade. como não sabem exatamente o que estão fazendo.. põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala. outra palavra. não sabendo decifrar a escrita. o aluno diz "kaça" ou "çeaça".. quando são solicitados a ler. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. Por exemplo. Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que. mas. quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que.

por exemplo. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . como logotipos ou marcas de produtos.Esse caso é semelhante à leitura incidental. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu. la-ta Esse aluno sabe ler. o que resulta. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. do contrário eles se acomodam. mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. no seguinte: "lêa-lá. Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. tê-a-tá. Porém. às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler. de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto. linhas de ônibus. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades. não sendo um conhecimento produtivo. Assim como atribuímos palavras às coisas. etc. como ela não sabe decifrar a escrita.

porque sua leitura não lhe traz significados. mesmo curtos. tal aluno não aproveita o que lê. Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. apenas sons da fala. um simples decodificador fonético da escrita. de . O professor. então. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. O leitor é. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. Alunos que apresentam problemas de naturalidade. o que impressiona bem o professor. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada.descobriu. Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. nesses casos. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. porém.

Ler textos com muita. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. ou seja. de concatenação. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura.fluência. não é uma boa estratégia. como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . podem ajudá-la. Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. em alguns trechos. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos. sendo que. enfim. de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. vários leitores em coro. pelo contrário. Alguns professores gostam de promover leituras coletivas. Essa prática é muito interessante. a leitura de um texto por várias pessoas. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura. Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade. Criança gosta de ler textos com ilustrações. Porém. há apenas um leitor e. especialmente quando a classe não gosta de ler. em outros. Pode-se fazer isso de vez em quando. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si.

reviver sentimentos .Recife". Há vários pontos importantes que é preciso considerar. inclusive uma revisão histórica. para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. sem entrar em considerações específicas. a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. meditar. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar. "Sinos de Belém". e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto. Assim como o ditado e a cópia. Ideografia e leitura Pela própria natureza.

por exemplo. Logo se vê que. Portanto. nesse caso. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". Uma leitura literal. Por exemplo. persiste até hoje. as pessoas cultas discutem o significado das palavras. uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar. coisas ou fatos que a fotografia evoca. lembram que. portanto. em "televisão" e "telefone". Portanto. a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. "chuva" se dizia pluvia e. embora. tem o significado de "som longe". a revelação etimológica . procurando recuperar formas e significados antigos. que significa "som" -. que inclui outra palavra grega . Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). dos mais antigos. podem compreender melhor o uso das palavras na sua época. "Telefone". "televisão" significa "algo que se vê longe". etc. Assim. em latim. no caso da palavra "pluviométrico". falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. para explicar a palavra "pluviométrico". a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra.fone. que significa "longe".fortes de patriotismo. <325> Esse tipo de escrita. Desde os tempos mais antigos.

para estudar o uso atual das palavras na língua. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. dificilmente se faria entender. por um lapso de memória. Porém. Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe". Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos. fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e. parece realmente ridículo. mesmo quando faz pouco sentido. muitas vezes.ensina mais grego do que português. Fora do mundo escolar. esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. dizendo a origem das palavras que as compõem. esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. nem é conveniente. Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". como no caso de "televisão" e "telefone". e dissesse apenas "algo que se vê longe". Se alguém. mas não ajuda muito.

O português tem vínculos com essas línguas. Qualquer texto . portanto. A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese. Pelo contrário. mas existe de maneira própria. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. No primeiro caso. dentro do contexto legal em que se inserem. mas no segundo sim. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). não mais com textos necessariamente antigos. menos ainda grego. mas devem ser entendidos corretamente. Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. não há crime. ou seja. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. mas não culposo. são muito importantes. que passou a ser feita. posteriormente. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. Essas palavras devem ser entendidas. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua.

. a sociologia e a psicologia.passou a servir para um trabalho de análise exegética. os comentários (exegese) abrangem. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. sobretudo a filosofia. por vezes. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita. Porém. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época. ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. envolvendo textos literários. não só a especificação de palavras. Aqui já não há mais exegese. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos). No caso das obras literárias. pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. Posteriormente. uma espécie de reescritura (sem a arte do autor). a interpretação de texto enriquece-se. encontram-se. que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu. mesmo na interpretação literária moderna.

bem como história e português. Porém. física. A interpretação de texto deve ser. Naquela época. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. mas. sempre. podiam até vir dadas de antemão no . houve de fato uma interpretação. necessariamente criativa e individualizada. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários. No primeiro caso. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro. portanto. necessariamente. por exemplo. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. química.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. geografia. no segundo caso. cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. As respostas. Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. Nota-se.

Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. Obviamente. fruto de pesquisas sérias ou não.Manual do Professor. Nada de interpretação. Certas análises do discurso. ideológico. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita.. por exemplo. nada de opinião pessoal. Análise do discurso Há. como reflexões filosóficas. mas uma análise do conteúdo lingüístico. ainda. e. . que são explicitadas pelo leitor que interpreta. psicológicas. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. nada de pesquisa individual sobre o assunto. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. em todas as matérias. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta. filosófico. ideológicas. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. psicológico. principalmente. nos livros didáticos e nas aulas de português. etc. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola.

). É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. morfologia. ideológicas. Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação.psicanalítico.). etc. etc. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto. etc. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras.. além de estar inserido num contexto (pragmática. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. debates. etc. não as noções filosóficas. A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão. sociolingüística. Lingüisticamente. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto. psicológicas. que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. . conversas. como acontece nos diálogos. fonologia. Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas. etc. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto.

Os pretextos da interpretação de texto Pode-se. ideológicas. pois. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave. quando uma delas predomina. extrapolações de natureza filosófica.. frases. Por exemplo. . ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem. etc. comentários pessoais dos mais diversos tipos. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. etc. Por outro lado. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. lingüística textual e análise da conversação. temas ou assuntos tratados. desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem. estudos etimológicos. ideológica. análise do discurso de base ideológica. Porém. Em resumo. uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas. análise exegética. psicológica. argumentativa ou simplesmente estrutural. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras.

Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto. No mundo todo. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos. Por essa razão. portanto. Se. da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos. dos lingüistas. para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). fácil e óbvio <330> . é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere. por um lado. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes. Em outras palavras. formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. por outro lado. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. em última análise é tarefa da lingüística. tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem.

Isso traz uma nova dimensão ao assunto. se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo.como andar e comer. toda descoberta feita pelo homem nas ciências. Na Bíblia. supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente. Aliás. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes. essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. e essa é uma atividade tipicamente lingüística. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos. Sem esse pressuposto. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. Caso contrário.. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto.. É preciso interpretar um texto? . por exemplo. nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez. Somente quando surge uma dúvida específica. isto é. não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. colocar as idéias em palavras. Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição. Na verdade.

seria uma forma de negar a racionalidade do homem. certo tipo de pergunta. ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. ou visitando um museu. ou mesmo uma quantidade grande delas. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa. conduzindo um assunto. agindo assim. quando alguém está assistindo a um filme. ou pensa que está entendendo errado. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. denota que está acontecendo algo de errado. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. a um programa de televisão. miserável e . Em outras situações da vida. como. Nesse último caso. Porém. Quando o interlocutor não entende algo. no caso anterior. No fundo. não. Por mais pobre. por exemplo. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não.Ao observar os usos da linguagem. notamos que uma pessoa conversa com outra e. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis.

sem dúvida. Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. Mudando um pouco o contexto. Por isso. assim. as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder. uma ofensa. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. e. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. e nenhuma informação nova é solicitada. isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. menosprezar e humilhar seu semelhante. que pede para ela dizer quem comeu o bolo. se movimentar. perguntar às vezes pode ofender. depois dos exercícios.estúpido que alguém seja. que tipo de bolo ela comeu. se o texto for oral ou escrito? . É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. ou ainda. nesse caso. desprezar. Entender o texto no seu contexto Chegamos. isso pode até ser respondido. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. parar.

come tem enganos com a linguagem. Portanto. No entanto. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. sem saber explicitar as regras que a regem. que entendem errado o que ouvem. Vimos também que. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . Na verdade. seu ouvinte. cada um entende um texto. apesar disso. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário". alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). agindo assim. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem. e assim por diante. entende o que foi dito. um falante de português como ele. inserida no mundo. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. seja ele oral ou escrito. vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido.Pelas considerações feitas acima.

no sentido literal do que dizem ou ouvem. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham. como alguns gostariam que fosse. . entenda-se o uso comum que se faz das palavras. falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. a palavra "pé". tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. Um desses limites é a interpretação literal.interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. inequívoca e completa. porque isso também faz parte das funções da linguagem. Em outras palavras. para que esta seja um instrumento útil aos homens. Portanto. todavia. A linguagem não é apenas lógica. Os usos sociais da linguagem. aqui. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações. o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto. Por interpretação literal. encarregam-se de estabelecer certos limites. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou".

mesmo. depois. Para entender o que se lê. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. nesse caso.Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou. significa o que está dito. cada um usa a linguagem segundo . mas em contexto muito diferente. o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. referencial. uma vez que ela possui esse significa do. quer com relação aos usos da linguagem. Em outras palavras. do mundo em que o texto se insere. <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. Pensar em parte do corpo. mas simplesmente associado à palavra "pé". portanto. do jeito que está dito. de coesão. de solução duvidosa. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. Literal. Quando o contexto lingüístico não é favorável. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si. ou seja. coerência e. nem pensado. é levar em conta algo que não foi dito. sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. no máximo. o que se ouve ou.

é preciso entendê-la corretamente. Porém. Ora. para checar se os alunos entendem o que lêem. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. entre outras coisas. Do jeito que ela se apresenta. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. sem dúvida alguma. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. geografia. é algo fascinante. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. Não só faz sentido.seu próprio metabolismo intelectual. Isso inclui. Porém. avaliar a aprendizagem. história. quando se trata de textos científicos. como é necessário que o professor faça interpretação de texto. desafiador e maravilhoso. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. Essa avaliação. etc. Se fosse diferente. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. como os de matemática. se isso é assim. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. faz parte das preocupações da escola.

Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. quando muito.de interpretação de texto. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente. mas deve. Em outras palavras. principalmente. ela precisa cuidar muito . as características geográficas. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido. Se errar. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. ensinar como estudar esse conteúdo. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. um passatempo. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro. um trabalho leve a outro e assim por diante. mais uma vez. Por trás dessa discussão. Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. a cronologia histórica. é simplesmente um exercício idiota ou. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. e um texto puxe outro.

Isso faz parte dos usos da linguagem. no fundo geralmente descabidas. se passar de ano pensando que aprendeu. Quando se fala e se ouve. Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. <335> . pior ainda. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los. Por isso. Nesse tipo de atividade. há sempre a possibilidade de enganos. Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. Esse é o jogo da linguagem. porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. não necessita fazer uma lista de perguntas. de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. outras pessoas irão achar que eles são imbecis.atentamente do modo como os alunos estudam. bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. conseqüentemente. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. a partir de coisas velhas que aprende. falta a reflexão criadora do aluno. falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas.

O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo. Portanto. é imperativo que outros conhecimentos. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes. como vimos. Além disso. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. quer para aprender sua natureza lingüística. O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias. Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. Nesse caso. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . além dos detectados no texto. a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto.

os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila. A formulação de problemas de matemática tem características próprias. Textos científicos. esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. Pior ainda. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios. Ora. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. como a poesia. o conto. etc. Mais uma vez.presumivelmente). Resumindo. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. a piada. deve se dizer que esses . que eu saiba. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos. esse tipo de texto é o menos recomendável. resolver seus problemas escolares. uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias.

conseqüentemente. Por essa razão. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. não pode tomar a iniciativa antes deles. Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. é natural que pergunte. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. E uma prática . procurando no dicionário ou de outras formas. Então.professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando.

Em lugar disso. pois.saudável que deve acompanhar toda leitura. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. etc. o texto representa apenas uma . o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. estudo técnico sobre o assunto. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. Obviamente. Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. Determinados assuntos podem ser analisados. como cartas. é o debate. O professor pode estudar a estrutura de uma piada. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. Assim. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos. que a escola deve cultivar com carinho. notícias de jornal. Estamos. um texto literário pode servir para discutir literatura. <337> e não com todo texto que se lê. Nesse caso. um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia.

elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam. dessa forma. o que causa freqüentemente confusões. Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. instruções. como também. apoiar ou rejeitar o que o autor disse. para estudar. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. mas irão. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo. pelo contrário. Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram. levando em conta o que ouvem e. e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto. para se . Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação.das idéias em discussão. estranhas conceituações e conclusões falsas.

Em lugar disso. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. portanto. e não só dos de português e de alfabetização. Aqui também. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. Esses esquemas devem ser personalizados. descansar. depois. pensamentos. colecionando <338> esses excertos. Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. o professor promove a atividade. Uma prática muito usada por alguns professores. e. cada um faz de seu modo. etc.distrair. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. é partir de um texto para fazer outro. se divertir. escreve com as próprias . versos. seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. seja recontando uma história. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias. e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. etc. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. em cadernos de anotações pessoais.

a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos. Na alfabetização. se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. Um professor alfabetizador não precisa. especialmente na alfabetização. Alguns escolhem os textos semelhantes . o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico. o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. Os textos da interpretação de texto Finalmente. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem. pois ensina as características dos textos. como atividade individual. Ou então. na verdade.palavras o que se lembrar do que leu. Se os textos forem os de leitura comum. Esse tipo de trabalho é muito recomendável. Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. De modo geral.

Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. histórias para boi dormir. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. mesmo as crianças. quando muito. como se costuma dizer.aos <339> encontrados nas cartilhas. a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios. Além desse tipo de livros. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro. que são os piores textos já produzidos por alguém. Destes. As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. Todo o mundo. . vive no mundo da fantasia. tem senso da realidade. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça. mesmo os adultos. Todo o mundo. que tratem de coisas sérias. à moda dos contos de fada modernos. ridículas ou.

hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal. Felizmente. A salvação não é fazer interpretação de textos. já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores. sobretudo nas primeiras séries. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. Para a escola. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. Apesar dessas facilidades atuais.A partir de 1964. os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. Com isso. porém. mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. Nos últimos anos. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA .

A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. firmando-se inicialmente como dialeto e. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. na Espanha. Durante essa época. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. nos livros e nos documentos religiosos. Havia também o galego. O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. hoje território espanhol. como língua. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. ao norte de Portugal. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. O latim foi se fixando nessa colônia. uma ou mais línguas iberas. O povo. depois. o latim era usado nos documentos oficiais. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . Logo depois da expulsão dos árabes. antes da chegada dos romanos. além do basco. no final da Idade Média. Em Portugal. entre as pessoas cultas. sempre pobre e ignorante. falado na Galícia. Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. no dia-a-dia. certamente era falada alguma língua celta e. Em Portugal. nas escolas. implantando a cultura latina entre os povos da região. adquirindo seu sotaque próprio.

A ortografia. Naquela época. que antes era o latim clássico. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos.do latim clássico. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. o espanhol. Esse é um método não muito seguro. uma espécie <342> de latim estropiado. por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. deixando o latim para algumas obras . dando a impressão de que a fala não mudou muito. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. resiste mais às variações dialetais. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. Por outro lado. que se tornava notório na escrita. se o latim podia ser escrito. as pessoas sabiam que. mas que permite um começo de pesquisa. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas. lá falava-se o romanesco. como sempre.

fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. Somente a ortografia iria. No princípio. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. No nosso caso. passaram a usar esse sistema para escrever. na França e sobretudo na Espanha. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. misturada com representações ortográficas próprias do latim. definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. como o português não era latim. sobretudo nas relações entre letras e sons. tem dito que o documento mais antigo em língua . onde havia centros culturais de grande importância na época. Esbarrando na variação dialetal. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino. a adaptação das línguas apresentou muitas variações. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. revelando uma espécie de transcrição fonética. depois. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis. José Lei te de Vasconcellos.científicas.

.portuguesa. Gonsaluus Diaz testes. que é bem curto. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. misturada com o latim da época. Trata-se de um título de venda.. Vermúú Ordoniz testes. AMEN. A ortografia que se vê no texto pode . e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil. Menendus Sanchiz testes. contando o descobrimento do Brasil. Nesse documento. Sancho Diaz testes. data de 1161. Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE. Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila". Stephanus Suariz testes. Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit. ÁMEN. (a letra u é igual à letra V).

mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber. "coussa" escrita com SS. Observe. e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro. "bramcos". como "os beiços" e "obeiço". A questão da carta . os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas. Compare "demtes" com "dentro". "grosura" e ' escritas com apenas um S... Há ainda fatos de segmentação. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador. entre outras coisas. Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". amdam nuus sem nhuua cubertura.ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta". a palavra "cubertura" escrita com U. nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas.

no final do século passado. veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. na história da língua portuguesa. Gonçalves Viana. Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. é gente interessada em mudar a ortografia. percebia-se logo que piorava. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. Quanto mais se fazia nesse sentido. Certamente. até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras. A comissão . Ainda hoje. com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas. mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. Carolina de Michaelis. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado.não se refere apenas à ortografia em uso na época.

recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque. A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras. como escrever FICSO (fixo). ou ainda: TAM (tão). sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras". Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. etc. ÇAPATO (sapato). sob a presidência de Machado de Assis. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. ELEJER (eleger). — contraproducente. A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. a recém-criada Academia Brasileira de Letras.encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. Mas ele propunha coisas mais audaciosas. julgando-a. como tenho demonstrado. EMQUANTO (enquanto). PAJINA (página). declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. . PROSSIMO (próximo).

anti-patriotaa. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931. mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão. a reforma acabou aprovada com emendas. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo . e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911.selvagem. O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. descriteriosa. antiphilosophica. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. inoportuna. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas. Em 1919. Em 1929. apesar de tudo estabelecido. chegando-se a um acordo em 30/04. Curiosamente. com a participação das duas Academias. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. por iniciativa do acadêmico Estrada. Silva Ramos. da Academia Brasileira de Letras. As reformas da reforma ortográfica Em 1915.

também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940. O . introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica.projeto de reforma ortográfica. que. porém. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. Aprovadas as Instruções (bases ou regras). Em 29/01 de 1942. recomeçaram as discussões nos dois países. elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa. mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. ar quivado. curiosamente. de 23/02. entregue em 21/12/1937. reunid em Lisboa. que foi. Dada a nova situação. fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. Em 1938. Em 29 de dezembro de 1943. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa. no entanto. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência.

Desse modo. revogando o decreto-lei 8 285. A briga continuava forte fora das Academias. O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. com o de 1943. mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. Por isso. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso. Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário. em 1955. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das .decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo). Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. modificando o uso mais comum no Brasil. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal. modificando bastante o de Portugal.

Dessa forma. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. pelo menos do jeito como aconteceu. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. ou seja. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória. APTO. Depois de tantas reformas. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. E quem escreve errado. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. num país como o Brasil. que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. mesmo dos políticos. mas como. as "consoantes mudas". ACTO. escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas. RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. <347> Como vimos. Deveria ser objeto da educação. como em FACTO.ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. Na prática. Em Portugal.

Todavia. Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. não deveriam ser usadas. de tal modo que na prática nada muda. Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". . haveria outras regras semelhantes. as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. Y e que. Nomes próprios de lugares. também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia.decidiram (ou que o cartório registrou). etc. nesses casos. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. Assim. cidades. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. aparecem as letras K. de acordo com as normas vigentes. por exemplo. Do mesmo modo. Na verdade. em muitos nomes. são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. Uma vez feita uma mudança. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos.

Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". por exemplo. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural. não há . 'bs bororó' ' tupinambá' etc. dependendo do contexto. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. mostrando que. Na verdade. se tiver de escrever CASAS FEIAS.. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. as coisas seriam diferentes. em vez de se escrever apenas CASAS. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. agora. Ora. Porém. as coisas são diferentes. não um problema geral da língua. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual.. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS. dizendo. Se fosse um carioca. Porém. para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. Se for para seguir a pronúncia. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas. <348> Voltando à regra anterior.Indo contra a tradição da língua portuguesa. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ.

a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. mas em escrever QAXA. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. a ortografia tem sempre um papel muito importante. como alguns fazem. Para quem não sabe. etc. o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia. QUAZA. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. > Nas aulas de português. em geral. e as formas de escrever as palavras. ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara.vantagens nas modificações. seguindo ou não a ortografia. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia. 1994b.

vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu . Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. mas infelizmente existe em muitas escolas. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado. de fato. uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. Os colegas zombam. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. Em situação pior estão os próprios alunos. Às vezes. Obviamente. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão.um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. São erros insuportáveis. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. que denotam um analfabeto (sic!).

se souber essas duas coisas. o que deveria acontecer sempre. As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado. mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário. sobretudo nas provas. o dicionário até parece um livro proibido.PEÇOA ou BRICPZA. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. em todas as aulas. Porém. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . Na verdade. quando tivessem urna dúvida ortográfica. inclusive para resolver dúvidas ortográficas. pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu.

respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. Depois. era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. A ortografia seria aprendida depois. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia. como parte do desenvolvimento escolar. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de . Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. Nesses casos. com as novas idéias pedagógicas. ou melhor. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava. sem nenhuma explicação e. Certamente. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. sobretudo. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro. desde que escrevesse. não saía da primeira série. Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta.

está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. de onde saiu e aonde vai chegar.cuidar da ortografia. Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. criou uma situação de frustração para muitos alunos. sabendo o que e como está aprendendo. sintáticos. Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito. que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido. Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. No inicio. Assim. semânticos e textuais. Tendo ouvido todas essas explicações. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno). um aluno pode apren . o objetivo é apenas escrever. Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. Então. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos.

no primeiro ano escolar. o aprendizado da leitura.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. e o professor não precisa se preocupar. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia. Às vezes. que é decisiva. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. é fácil ver como. e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. O que fazer. Por outro lado. Procedendo assim. o aluno não só aprende a escrever livremente. O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. mas também não se pode abandoná-la. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos. ou seja. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. Superada a primeira fase. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e. porém. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. Ele precisa saber como se virar.

Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. a respeito do processo de aquisição da linguagem. como se mencionou acima. da variação lingüística. em particular do nosso. exigindo um trabalho preliminar de . função e usos dos sistemas de escrita. o professor <352> deverá falar. se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia. Entre outras coisas. é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. cometendo erros intoleráveis. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. da natureza. para fazer transcrição fonética). os professores das demais séries têm a mesma obrigação. Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras. Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. Portanto.

IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . 38. por exemplo. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor. em que série da escola isso estiver acontecendo. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. No caso de alunos preguiçosos. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. Como é óbvio em educação. em qualquer momento da escolarização. Finalmente. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia.revisão do aluno. o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. Quando um aluno não sabe alguma coisa. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. Por exemplo. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia. seja o que for. para descobrir quais estão com a grafia errada. Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. podem ter sobrado três erros.

percebe-se logo que. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes. Feito isso. <353> Desde os primeiros contatos com a escrita. Para neutralizar a variação dialetal. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. dizendo-a de acordo com seu dialeto. que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. mas não é tudo. as palavras terão . o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. a escrita inventou a ortografia. Nosso sistema usa letras. Portanto. cada um lê conforme fala.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. e representá-los na escrita por letras. Portanto. Fazendo o caminho inverso. se cada um escrevesse do jeito que fala. seria o caos. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. às quais são atribuídos valores fonéticos. Assim. o aluno precisa aprender que. podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura. Por essa razão. as vogais e consoantes. A partir da ortografia. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. Esse é o primeiro passo.

muitas das explicações que são dadas aos alunos. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. Depois de certo tempo. as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. ele já não se . POBREZA) e as que formam um plural feminino. com S (FRANCESA. PORTUGUESA). é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia. desde a alfabetização. Como se vê. é possível elaborar algumas regrinhas. é outra. caso das primeiras atividades de escrita das crianças. Às vezes. Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos. A verdade. O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever. não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia.pronúncias diferentes. independentemente da maneira como pronunciam as palavras. <354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. Depois. porém.

passar a limpo. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro.preocupa com a ortografia. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. mas de todas as palavras. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. Para que essa prática desse certo. seja em que matéria for. decorando a grafia das palavras. A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura. Esse tipo de cópia serve apenas para castigar. Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. não só nas redações escolares da aula de português. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem. quando necessário. porque o professor corrige mesmo. O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. . Então.

Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm. > Um ponto importante que os professores. em geral. BALSA e BALÇA. formas ortográficas paralelas de algumas palavras. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. criando. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. principalmente de alfabetização. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. desse modo. Por exemplo. uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER. etc. analisando seu dicionário. SOLUÇO e SALUÇO. Além disso. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal). 1963. .A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica. ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico). FLECHA e FRECHA.

À medida que uma palavra se torna mais familiar. A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. PRINCESA ou PRINCEZA. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA. escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. diante de uma palavra comum. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. Aliás. menos dúvida causará. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA.Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário. Para um aluno nas primeiras séries. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. sendo praticamente inexistente em outros. Às vezes. Para um professor alfabetizador. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. a partir da . EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. Assim. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. às vezes ajuda a decidir. mas não para um aluno já alfabetizado. Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que.

causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. "brabuleta" (borboleta).memória visual. as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em . "psicreta" (bicicleta). Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema. É por essa razão que a letra X vem por último. Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. "nóis fumo dispois" (nós fomos depois). o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. a questão da variação dialetal e. O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. <356> Para muitos alunos. antes de tudo. nem sempre é difícil ler a letra X. no seu caso. é preciso ter bem clara. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X. como funcionam. pois. Entretanto. Para ele. sobretudo. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. Para um aluno que fala "bardji" (balde). A ortografia.

quando tivessem de escrever.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa. vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas. mas também bons hábitos nos estudos. não dando maior importância do que esse assunto merece e. Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. principalmente. Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. checar a forma ortográfica das palavras. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum. como se . Como já se disse. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos. E antes de passar a limpo. Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. entre outras coisas. que deve começar desde a alfabetização. Por essa razão. o aluno deveria.

tem enfatizado ao longo deste livro. sempre que . através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras). explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. ou seja. As considerações a seguir estão organizadas. <357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras. por exemplo. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos. Por outro lado. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras.

. dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. que se verão a seguir Portanto. na maioria das vezes. no início e no meio: ASSADO. são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. Talvez. A seguir. E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. O professor poderá escrever algumas palavras na lousa. não precisa seguir essa ordem. pode ter outros sons. Como qualquer letra. Nos quadros aparecem o nome das letras. esse som será escrito com a letra A. com a letra A. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. entretanto.possível. Em seguida. Depois. quando urna palavra tiver o som de "a". segundo a ordem do abecedário. portanto. identificando-a com o som "a" na fala. ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. Como exemplo. mostrando como levantar dados e formular regras. O professor. pode escrever AMIGA. ela representa o som de "a". terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala.

na fala. etc. PÉS ("péis"). TOMÁS. a letra A tem um som . pela vogal. Por exemplo. Exemplos: RAPAZ. final. HINO. "ô" e "ó"). HOJE. em sílaba final de palavra oxítona. E e O (com os sons de "ê". o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). HELICE. São os casos particulares. tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. etc. ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich"). Outro caso particular da letra A ocorre quando. • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. PAZ. de acordo com o dialeto). tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". outros casos). A mesma regra vale para as vogais U. dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto).O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). início-e-final. VEZ ("vêis"). ou seja. Neste caso. uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). na fala. além do som básico. Quase todas as letras têm outros sons. "é". ATRÁS. a letra A. e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. HUMILDE.

etc. LAURA. ALTO e AUTO. o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla". Veja. Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. que se torna "kaziskizita". TODO O MUNDO ("todumúndu"). Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente. Às vezes. por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). etc. ficando com uma qualidade . ou ainda MURO AMARELO. A vogal A pode ser nasalizada. que é dito "muramarélu". Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". etc. podemos ver outros exemplos. ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). MAL. BALDE."posterior" (de "garganta"). às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. Por razões semelhantes. Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. CALDO. se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. Se não houver a formação de ditongo. Outros exemplos: SAL. variando a vogal: CASA ESQUISITA. Para testar e conferir qual a vogal que cai. RAUI SAUL. BAÚ. a letra A possui o som básico de "a".

ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). a pronúncia é "rãu". embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". caso dos verbos. como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). Na verdade. sabe-se que deverá ser escrito com a letra A. Quando uma palavra termina em -RAM. tem sempre um som nasalizado. CAMADA. quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. Som nasalizado: ANA. CANAVIAL. mas. CANTIGA. AMA.vocálica diferente. Se for átona. AMADEU. AMOR. a letra A pode ter o som nasalizado ou não. Portanto. a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). e a vogal é tônica. Quando a letra A vem antes de NH. cujo som do primeiro A é oral. CAMA. . a letra A será sempre nasalizada. por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). no dialeto padrão. como mostram os seguintes exemplos. CAMPO. ou numa fala bem informal. em muitos dialetos. caso da palavra ANA — compare com ASA. TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". CÂNFORA. CANA. a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. etc. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). Som nasalizado ou não: ANÃO. Na leitura. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". como em: ANTÔNIO. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante.

estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. e. Os exemplos apresentados anteriormente revelam.derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras. uma vez aprendidos. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). no segundo caso. tem de saber a ortografia de palavra por palavra. LIMÃO. pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). um aluno que fale um tipo de variação . Além disso. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. Note que. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. Compare: ACHARAM e ACHARÃO. VIRAM e VIRÃO. No primeiro caso. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. nesses casos. Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). em grande parte. Porém. Esses casos podem ser explicados e.trabalho de decifração. nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação. na escrita. ou. Por exemplo. IRMÃO. os valores fonéticos letra A. etc. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. ainda. são de grande utilidade no . Geralmente. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar. SABÃO.

chegando-se às mesmas regras. como em: BÊBEDO e BÊBADO. Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala. Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o . No próprio dicionário. terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico. Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. ao buscar as formas ortográficas. Para esses casos. e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia.único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. SEJE (seja). Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual. . encontramos registro desse tipo de dificuldade. mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE.CANFUSO (confuso).lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). quando se trata de variação dialetal. etc. ADESPOIS (depois). Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. ILUMINAR e ALUMIAR. não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons. fica tudo mais fácil.

é preciso analisar as palavras isoladamente. Exemplos: "batata" BATATA. cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. é preciso fazer uma averiguação para saber se. pronunciando as palavras isoladamente.que se escreve com a letra i. na escrita haverá o artigo. Assim: em "minhamiga". não haverá . numa faia pausada. em exemplos como: "élalavôtodakaza". há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. a primeira palavra é "minha" e termina em "a". então. Para representar o som de "a" ou de "ã". Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". Às vezes. Nesses casos. intercalando outra palavra entre essas duas. fazendo as seguintes afirmações: 1. Se o significado for "lavou casas que existem". recebe til. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. 3. sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. Para saber como escrever. por exemplo. o significado é "lavou a casa inteira". o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". esse é um problema para quem escreve em português. "ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. deve-se escrever a letra A. Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. é possível que a seguinte também comece por "a". "kãneta" = CANETA. 2.

não são escritas com AI. a qual. deve-se escrever AI e não apenas A. "k". "kê". etc. porém. Assim "çê". etc. apenas "ç". Há raras exceções. Palavras como "machu" (MA CHO). mas não em todas. "kachu" (CACHO). escreve-se apenas A. 5. Em algumas palavras. a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA. mas. "a". sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". Se essa frase não se referisse às crianças em geral. Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. como: "istuçérvipratodacriãça". neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. Com já foi dito.artigo. introduzida na língua portuguesa). Nas outras palavras. quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê". O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . de fato. <361> 4. etc. para saber isso. como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira. são. Num outro caso. a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante. zê". mas a uma criança em particular (cada criança). "çê" Note que no caso de consoante. porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A. é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X.

9. Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". Diante do som de "u". ALEMÃES. Em palavras como "mãinh "alemãinhs". escreve-se apenas a letra A. Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos. Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita. Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. etc. BÃÜ. etc. Nas formas verbais do tempo passado. ou com ÃO. ADISPOIS. Estudando essas variações. SÃO). sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. "fizérú" e "fizéru". CORAÇÃO. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO.em casos de diminutivos. como CÃOZINHO. nos demais casos. 6. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). Portanto. CHEGUEMO) e .). 7. 8. mas apenas ZERO. "zéru" não vai ser escrito ZERAM. etc. podese saber que na escrita teremos -RAM. MECADTO. Encontrando a escrita NH. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. Em qualquer dos dois casos. LATÃO. mas representadas apenas pela letra A.

Mostra. A análise acima mostra como a letra A. CHEGAMOS). estão defrontando todas essas dificuldades. Nesses casos. DEPOIS. somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas. Às vezes. que o preço pago por essa medida traz. Os alunos. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. como conseqüência. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. e o professor precisa saber disso. Esse tipo de análise revela. . O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. no início da alfabetização. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos. Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. mas nem sempre. envolve várias dificuldades.outra. Pior ainda é o fato de as crianças. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não. MERCADJNHO. quando estão aprendendo. em outros dialetos (BORBOLETA. ainda. ainda. BOM.

na fala comum e informal. ADVOGADO ("adivo gadu"). um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. ponto por ponto. Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T. Na verdade. para achar a letra correspondente à escrita. ela é pronunciada "bi". M. Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. D. SUBMARINO ("çubimarinu"). decifrar a escrita e analisar a fala.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. IGNORAR ("iguinorar") . ele não irá ensinar tudo isso. como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei"). ele pode ensinar a seus alunos como ler. RITMO ("ritimu"). G. AFTA ("áfita"). CABELO. Exemplos: BOLA. O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade. etc. F. TÉCNICA ("tékinica"). Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. C. etc. ABSOLUTO ("abiçolutu"). BARCO. e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. como em: OBJETO ("obijétu"). Certamente. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê.

e o aluno precisa aprender palavra por palavra. Só se sabe quando colocar B ou não. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. etc. Exercícios com pares mínimos (tais como. Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem. F/\ S/Z. BULA/PULA. T/D. podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. "pçicréta". Por essa razão. ADIVINHAR e não ADVINHAR. têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. Nos dicionários. o aluno é levado a escrever POLA (bola). MENINO e não MNINO. PATATA (batata). C/G. fala-se "trabeçêru". FACA! VACA). Em certos dialetos. CH/J). pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes). escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. etc. quando se aprende a ortografia dessas palavras. Nesses casos. mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA. CAPELO (cabelo). . Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas. como vimos antes.MNEMÔNICO ("minemônicu"). Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial. Por exemplo.

<363> dados pelos próprios alunos. bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito. etc. como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. que admite 'pineu" ou "peneu". e isso o ajuda em muito a aprender. discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. de fato. o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos. O que vale é a bagagem de informação que se . formulando as regras com os alunos. "vaca".)."faca" e não "batata". No primeiro caso. é preciso estudar como se decifra a letra B. No segundo. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU. com base em sugestões orientadas por ele. quando precede I ou E. e por "g" nos demais casos. Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". com o tempo. mas deve escrever de outro.

Quando o professor ensina uma coisa. dependendo da vogal que vier depois. . Assim. O e U. COLAR e CUIDADO. a letra C tem o som de "kê". que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. QUILO. observando o que acontece no início de palavra. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. Resumindo. etc. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I. como em CEBOLA. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal. O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. Exemplos: QUERO. Diante das outras três vogais. Portanto. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A. caso de CARA.revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. O e U. o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. A. um aluno pode estar pensando em outra. o professor explicará que usamos as letras QU. pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". Para explicar o que são vogais e consoantes. CÉLEBRE e CIDADE. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. AQUELE.

A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. Essa letra. . A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. uma vez que. no entanto. tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. Como uma coisa puxa outra. quando em início de palavras. é fácil ler essas letras. SOBRADO e SUBIDA. terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). como SAPO. "ço" e "çu". Se alguém. partindo da escrita. O ou U. que aparece diante de qualquer vogal. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça".

A seguir. Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som . apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto.tem sempre o som de "çê" (mais vogal).

a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê". chegamos às seguintes regras: .C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. Analisando detalhadamente os dados apresentados acima. "kê". "kê" + "i" ou "chê".

3. independentemente da letra que vier antes. A leitura de NAS. se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer". A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. passa a ter o som de "chê". "ki". Em alguns dialetos. além de influenciar na leitura da vogal anterior. ou seja. Com a nova pronúncia. que se tornou um ditongo ("ai". 2. Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. Quando a letra C tem o som de "kê". No caso de C. A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. O ou U. "naiç" ou "naich". os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —. A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. pode também ter o som de "kê" + "i". 5. O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). pode ser "naç". no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". quando não seguida por vogal na escrita. em final de enunciado diante de pausa. O SC tinha apenas o som de "çê". em vez de "a"). A letra C tem o som de "kê" quando diante de A. desde que a consoante não seja R ou L. de uma outra consoante ou no final de palavra. Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. com ou sem a .1. 4. No último caso. em outros.

deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos. Isso pode gerar confusões. palavras como CEBOLA e CIDADE. A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. "çopa". Por essa razão. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C. obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida. Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C. Desse modo. Portanto. não pode ser escrita com a letra C. em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE. além da letra C. no entanto. O ou U). apresenta dificuldades. Na verdade. "çubir". "eich-çeçãu". porque a letra S também pode ser .ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". desde que venha antes das letras E ou I. Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. de <365> "çê". que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. a letra S também representa o som. palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. Uma palavra como "çapu".' o sistema manda usar a letra 5. A questão da escrita. Nesses casos. principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C. "eç-çe-çãu".

a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. O critério semântico. Esse é um procedimento comum. 2. em casos semelhantes. como em SINO e SELO. Em NASÇA. Assim. XC. SÇ e XÇ. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a". Ç. Se escrevemos PRÓXIMO com X. "na-ça" NASÇA. Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. "pró-çi mu" PRÓXIMO. "pa-çu" PASSO ou PAÇO. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. X. Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. NASCIMENTO também será com SC.usada diante da vogal I e E. se NASCER é com SC. Se existe a grafia EXCEÇÃO. pode ajudar a . Às vezes temos uma palavra homófona. em início ou final de sílaba. mas que tem ortografias diferentes para cada significado. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). SS. Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. Somente conhecendo ortografia. I o caso de "paçu". e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO). iremos escrever PROXIMIDADE também com X.

3. só o conhecimento da ortografia pode dizer se . Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. podendo ocorrer também em final de palavras. como nos exemplos: "kis" QUIS. como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). "atraiç" ATRÁS. "çekuéla" SEQÜELA. Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. quando vem antes de A. Como vimos antes. para escrever os sons de "ki". em qualquer caso. A letra Q tem o som de "kê" sempre. etc. "biç-pu" BISPO. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. quando se pronuncia o U. "kuçtumi" COSTUME. em final de palavra. "rrapaiç" RAPAZ. ou seja. Aqui também. 4. a única saída é o Q. Como a letra C também pode ter o som de "kê". "kê" e "ké". "tauveiç" TALVEZ. Porém. como nas palavras: "kuidado" CUIDADO. vamos estudar esse caso agora. "kuéka" CUECA. como não se pode usar a letra C. diante de vogais que não sejam 1 nem E. Essa letra U não é pronunciada. O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. Nesses exemplos.encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. O ou U. "fiç" FIZ. Exemplos: "kãma" CAMA. o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. "koiza" COISA. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. "kê" QUE e "kéru" QUERO.

só se pode escre ver a letra C. O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". Nas histórias em quadrinhos. completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). Nesse caso. dependendo do artista. etc. nunca a letra Q. ela é escrita com trema (Ü). há uma vogal em seguida. É o caso de tic-tac e tique-taque. "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. Nesses exemplos. Ver CAGLIARI. algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial.ocorre uma letra ou outra. 1993ª. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). Nas formas QUE e QUI. "krônika" CRÔNICA. 5. Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita. <366> . como em: "tik-tak" ou "tiki-taki". e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i". Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. etc. caso em que pode haver uma variação. como em: "akni" ou "akini" ACNE. quando a letra U deve ser pronunciada. Exemplos: "klareza" CLAREZA. 6.

como à letra X. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. diante de pausa ou silêncio. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C.7. ficando com o valor fonético de "zê". Como vimos no estudo da letra A. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê". junto com outra palavra que começa com o som de vogal. sobretudo se não for nome próprio. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. servindo apenas para os nomes próprios. Essa letra não tem outro som a não ser esse. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. De modo geral. 9. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO). 8. aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. Porém.

como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka"). CERIDO (QUERIDO). Aparecem. Como esta última é mais comum na fala. Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. que serão indicados por S na escrita.enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. então. Outra dificuldade é a troca de QU por C. sendo seguido de "i". CI (QUE). O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". a letra C não tem o som de "kê". Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia. por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). estas grafias: ACELI (AQUELE). o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. etc. vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta. como. QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. observando a própria fala. quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. quando se parte da observa ç cia fala. Mas não há apenas problemas de concordância. mas podem formar uma sílaba própria. e a outra é mais própria da leitura. Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). do que quem fala "kualidadji" 11. .

isso é para quem já tem muita fluência na escrita. quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E.kçi" ou "fi-ki-çi". se a escrita mantivesse a letra C. a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". COLOCO. Todavia. FICAR. etc. embora pouco usuais. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. em palavras derivadas. TOCO. QUOTA e COTA. Mas. em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. "fi-. mas COLOQUEMOS. mas FIQUEM. Por isso. FIQUEÇO em vez de FIXO. Para manter o som de "kê". no caso da primeira. Veja os seguintes exemplos: VACA. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO). VAQUEIRO. TAQUE-SE. 12. "çin-ta-kçi" . TORAX.ki-çi". mas um pouco diferente. FIXE. escreve-se com X: TAXI. Uma questão relacionada com os últimos exemplos. A partir da observação da fala. Nesses casos. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. Nesses dois exemplos. mas TOQUINHO. Nesses casos. o que não é o caso na alfabetização. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê". etc. COLOCA. COLOQUEM. etc.como QUATORZE e CATORZE. o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê". no caso da segunda palavra. 13. é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita.

Sempre que o som representar o plural de uma palavra. a questão é bem complicada. revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". não poderá ocorrer a escrita da letra Z. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. com Ç..(SINTAXE). como em BASTA. Em final de palavras. quando a palavra não for oxítona. pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante. etc. Além disso. basta ver que vogal vem depois. "çin-ta-çi". com a letra S (seguida de qualquer vogal). MÊS. EXTRA. nesses casos. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A. RAPAZ. quando se trata de passar da fala para a escrita. com S. Quem decide se vai ser C ou 5. O e U. Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. então. em início de palavras. No meio de palavra. como em MOÇA. é a ortografia. nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. Mas. em vez de "pró-çi mu". com X. Portanto. O som de "çê". como atestam os seguintes exemplos: CASAS. como em PRÓXIMO. como em PASSO. em vez de outras alternativas. a dificuldade real fica . <367> Resumindo os principais pontos. Não adianta ficar observando a fala. FEZ. a escrita será com 5 e não Z. etc..

a escrita usará as letras QU (que. ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. Nos demais casos. qui). Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". escrevem CE em vez de QUE. "ó". A confusão é esperada e. como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). quando na fala ocorrer o som de "kê". Quando aparecer. na escrita. QU seguido de A ou O. seguido do som "u" e depois o som "a". a letra U se pronuncia (nesses casos. Com relação ao som de "kê" da letra C. em meio de palavras. o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka". A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. co. a criança vai assimilando a ortografia. "ko" e "ku". E vice-versa. É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. não tem trema). temse na escrita a letra C (ca. com o tempo.restrita às palavras oxítonas e singulares. É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. a escrita será sempre com S. "ô". Alguns alunos. a escrita quase sempre será feita com QU. A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. e ocorre diante do grupo . LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". cu). no início.

NASCIMENTO e NASÇO. nunca no início ou no fim. na língua portuguesa. depois das vogais "u". a ortografia recorreu à letra Ç. "õ" e 'à". <368> ESTUDO DA LETRA D . ainda. AÇUCAR. song. Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. king. CALÇADA. AÇO. são escritas com essa letra. "lãn" (LÃ). Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. Portanto. etc. como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê". A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. o seguinte exemplo: FAZER. MAÇÃ. "oünça" (ONÇA). as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. etc. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. ACONTE CE e ACONTEÇA. FAÇO. AÇUDE. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. PEÇO. O ou U. FAÇO. CAÇA. mas algumas delas têm uso muito freqüente. ou em final de sílabas. etc. Poucas palavras. POÇO. sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). O e U e nunca diante de E e I.das vogais A. Observe. MOÇO. ONÇA. FAZEMOS. Nesse caso. Por exemplo. FAÇA.

continuando com o som de "tê". POTE ("pótchi"). DOCE ("dôçi"). Diante de outras vogais. DOCE. PODE ("pódji"). DEDO. POÇO ("pôçu"). etc. a letra D permanece com o som de "dê". sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). PODE ( "pódi").A letra D tem o nome de dê. DIJVIDA ("dúvida"). DÚZIA. DEDO ( "dêdu"). Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji". sempre que se encontrar a letra D. Confira os exemplos: DIA ("djia"). num tipo de dialeto. — e. e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. . e não causa problemas aos alunos. DIZER. POTE ("póti"). etc. DOCE ( "dôci") e assim por diante. Em outros dialetos. em alguns dialetos. RITMO ("ritchimu"). que. Portanto. o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). nos demais casos — TIA ("tchia"). representa o som de "tchi". etc. Fato semelhante ocorre com a letra T. em outro tipo. mas DEDO ("dêdu"). Para ler o D. mas PATO ("patu"). etc. há uma regrinha que diz que diante do som de "i". Exemplos: DATA. PATO ("patu") POÇO ("pôçu"). a letra D passa a ter o som de "dj". esse caso na verdade é muito simples. Apesar da aparência complicada. Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). quando ocorre antes da vogal "i". POTE ("pótchi").

se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. quando se dizem os nomes das vogais. Quando se decifra uma palavra. PERTO ("pértu"). descobre-se aos poucos sua pronúncia. uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua. Exemplos: DELE ("dêli"). é preciso conhecer a palavra. tem o nome de ê e. A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem. E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio". . Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra. ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. que pronunciava "idjo". Assim. como falante nativo. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". "ê" e "é". DELA ("dela"). MESA ("mesa"). no alfabeto. mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. tem o nome de é. a letra "djê". Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". Como falante nativo. e não achava.tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj".

Nesses casos. etc. Às vezes. precisará saber quando colocar os acentos.portanto. Ao escrever. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa. a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra. Por exemplo: VÊ. Às vezes. a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . INTRÉPIDO ("ê"). o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. não se sabe se é "êrru" ou "érru". Por exemplo. Na verdade. O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. porém. EU ERRO NOS ACENTOS ("érru"). No primeiro semestre. ATÉ. tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. o professor pode ignorar o assunto. Explicará o que for necessário. se algum aluno perguntar. quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente. dentro de uma frase. Quando se escreve. ACADÊMICO ("ê"). para facilitar a leitura. é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. Mas.

no baiano). aparecem as vogais orais "i". etc. Porém. "u" e "a". Em sílabas átonas. encontram-se apenas as vogais orais "i".se "êrói" e não "irói" para HERÓI. fechada ("ê". por exemplo. em posição pós-tônica. "a". há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. "ô") ou reduzida ("i". em geral.marca de acento na escrita. Eles dizem. também em sílabas átonas. Para a . é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". De modo geral. "méninu" (MENINO). "ó"). que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. na fala. Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é". ao passo que. Nas sílabas átonas. diz. Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). "u"). Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua. "ô" e "u". ENFEITE ("ifeiti"). as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura. encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). a pronúncia é "mêninu". em outros dialetos. exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. Em posição pré-tônica. Hoje. a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. em alguns dialetos (por exemplo. Todavia. "ê".

O aluno não está aprendendo errado. etc. Em seguida.leitura. para a escrita. ela adquire um som nasalizado. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). TEM. às vezes. E isso ele fez muito bem. O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. um aluno escreve DICI e o professor explica que. EMBORA. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM. mas. escreve MÉDECO em vez de MÉDICO. O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. ENTRADA. mas deve escrever E: DISSE. etc. que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. Nesses casos. o aluno. Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos. Conforme as . Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis"). que aprendeu a lição (até aí). Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. o problema é sério. HÍFEN. ENCONTRO. TENHO. a gente fala "i". essa questão traz pouca dificuldade. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante. por exemplo. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. Por exemplo. ENTRA.

Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra"). Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". etc. algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê.regras vistas anteriormente. A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. pode ser pronunciada sem o I. seguida de I. quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). CONFIAR. 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome. Exemplos: FACA. a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). Tal qual a letra A.). PENTE ("pêinti"). o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes. às . usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». como em ITEM ("itêi"). Encontrando-se esse som na fala. mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e. Em certos dialetos. DESDÉM ("dezdêi"). ou mesmo em distingui-lo do "vê". EMBORA ("êimbóra"). PEIXE ("peichi" ou "pêchi"). nê. Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). quando seguida de I. FUMAÇA. FEITO. FOCA. também a letra E. mesmo nasalizada. FIQUE. etc.

em vez de falar em voz alta. FEIO = VEIO. VIFELA = FIVELA. A letra G. contudo.zes. O e U. tem o som de "guê".quando diante do grupo de vogais A. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. mas dialetal e ortográfica. Essas confusões se corrigem com a prática. "vê". o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. Quando sussurram. A letra G.no latim). MARIA COMPROU UMA VIFELA. A questão não é fonética. (FACA = VACA. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta. que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". FAFELA = FAVELA). ANDRE MORA NA FAFELA.tem o som de "jê" e. tem também outro som muito comum. como se constata nos seguintes exemplos: . quando diante do grupo de vogais E e I. ELE FEIO AQUI.

e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. FOGUEIRA. Porém. Exemplos: GUERRA. M e X em alguns casos em meio de palavra). etc. como em SAGÜI ("sagui"). pronuncia-se também oU. A letra U. tem-se uma sílaba a mais na palavra. Note que há casos em que ocorre G + U. nesses casos. Quando não se pronuncia o "i". R. o caso acima é semelhante ao da letra Q. GOTA. como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. ou no final de palavra (exceto com S. Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver. Ela simplesmente modifica o valor da letra G. AGUA. quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. GUIAR. Para escrever o som de "guê". Z. que. o . se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. visto no estudo da letra C. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar"). (todos com som de "guê" ou de "gui"). GIRASSOL ("jiraçóu").GENTE ('jênti"). seguidos das vogais E ou I. AGÜENTAR ("aguéntar"). seguido de E ou de I. Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". EXÍGUO. não é pronunciada. GULA (com som de "guê"). Quando se pronuncia o "i". veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). No caso da letra G. CONTIGUO. mas. GATO. ÁGUIA. basta acrescentar um U entre o G e a vogal.

Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). "Como é que se escreve tal palavra. QUI). ora se tem G. para manter o valor fonético original da palavra ("guê").som "g" fica no final da sílaba que o precede. HOJE. JILÓ. GUI (ou QUE. mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). Mais raramente. FOGO/FOGUEIRA. ora GU. JANELA. JOVEM. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA. 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita. mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. Se não aparecer trema nas escritas GUE. JUIZ. o U não será pronunciado. 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. cometem esses enganos . não por dificuldades auditivas. como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO. GIRAR. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem. AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita.

Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). Por exemplo.por dificuldades de reconhecimento fonético. Na língua portuguesa. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. HORA No entanto. como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. CHAVE. HERA. A letra H. essa letra serve para formar dígrafos. há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá. como também o que não se pode fazer. Quase sempre. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. funciona como uma espécie de curinga. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. servindo para modificar o valor fonético da . UNHA. ILHA. Nesses casos. a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. como em AMICO em vez de AMIGO. no nosso sistema de escrita. e acabam escrevendo. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. Exemplos: HOMEM. MANGA e MANGUEIRA.

NH e LH. FICA/FICHA. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. Esse emprego do curinga H. HELENA. como CH. não forma dígrafos e não apresenta. são usadas para modificar o valor do som anterior. Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal. Em conseqüência. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. através de pares mínimos: MALA/MALHA. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. HUMILDE. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. a letra H pode vir precedida por C. etc. A letra H. 372 Em palavras de origem estrangeira. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). formando dígrafos. Na escrita da língua portuguesa. etc. HINO. som algum. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. a solução encontrada foi criar dígrafos. sem alterar o alfabeto. pois. e mais raramente a letra X. sobretudo em nomes . SONO/SONHO. como uma estratégia para não inventar letras novas. a leitura começará na letra imediatamente seguinte.letra que a precede. N e L. como se vê em: HABITAÇÃO. HORA. comparando-os com os das letras simples. Quando a letra H vem no início de palavras.

dependendo do significado da palavra. encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia . Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. dá até para saber se haverá H ou não. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". como ocorre em HORA e ORA. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda"). mas temos de escrever HISPÂNICO. Alguns alunos. etc. irão fixando a grafia das palavras mais comuns. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). escrevemos ERVA e HERBICIDA. Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer. é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. HLÏA (GALINHA). que escrevemos ESPANHA.próprios. fazem coisas como: HRA (AGORA). etc. Note. ou. Em alguns poucos casos. pensam que a letra H funciona como as demais e. ainda. HAJA e AJA. Para ilustrar esse fato. quando vão escrever (e mais raramente ler). por exemplo. YAMAHA ("iamarra"). Com o tempo. etc. Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. mas deve explicá-las aos alunos.

As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal. Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". O professor deverá. e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos. o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. na qual a ortografia se baseia. ter paciência com os erros dos alunos. . O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. existe uma dificuldade extra na escrita. partindo da fala. mas controlada pela ortografia. Com relação ao CH. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. e pedir a eles que corrijam o material que escreverem.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. etc. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". ainda. Há. FAMÍLIA ("família" ou "familha"). Portanto. Nesses casos. pois.

na verdade. por causa do medo de errar. A letra I não apresenta dificuldades para leitura. etc. representa pouco para os alunos. "pichta" (PISTA). escrevendo T e não TX ou TCH. Essa variação pode. mas o mesmo não acontece com a escrita. ser escrito com a letra E. "rrapaich" (RAPAZ). VIM. que ora se escrevem com E.Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i". Como acontece com as demais vogais. ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. VINHO. fica difícil saber a ortografia. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. CINEMA. Esse problema. Não há como . da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". CINTO. às vezes. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. Veja os exemplos: VI. ora com I. atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura. por exemplo. podendo. CIDADE. Eles o resolvem facilmente. quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. "ifiar" ENFIAR. o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA).

"obijétu" OBJETO. em vez de escrever PÊRA. etc. uma com um ditongo (M. quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). nenhum problema. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. DOURADO e DOIRADO. o aluno escreve PEIRA. "bãinha" BANHA. pode existir uma vogal "i" na fala. BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. em palavras como "opitei" OPTEI.ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las.. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. E). COISA e COUSA. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção. etc. O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. como LOIRO e LOURO. Como já foi visto. etc. • El) e outra sem o ditongo (A. portanto. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. porém não na escrita. Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU. Além da dificuldade específica dessas palavras. . como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). Por exemplo.

BODE ("bódji"). dependendo da ortografia. Diante dos sons de "ê". O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê". Essa letra caiu em desuso já no latim. como em DIA ("djia"). ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê".ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. Como algumas línguas usam essa letra. na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. "é" e "i". deve rá ser escrito com a letra D apenas. JOGADOR. mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal. JUVENTUDE. ajuda muito o aluno na hora de escrever. pode-se ter a letra J ou G. Sempre que a letra J aparecei. Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais. etc. formando o "djê". podem ser escritas com . o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS. JIBÓIA. "ô" e "u". "ó". JEITO. o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. para escrever o som de "jê" seguido de "a". Portanto. aparentemente simples. etc. sobretudo nomes próprios. Saber isso. Esse fato. palavras de origem estrangeira.

e c) em final de sílaba. PIANO ("plãnu"). No primeiro caso. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). MAL. Alguns exemplos: Kwait. G (com o som de "guê"). D. GLORIA. Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. Veja os exemplos: PLANTA. CLASSE ("klaçi"). PROBLEMA. CLARO. 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas. Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. LETRA ("letra"). por exemplo: LATA ("lata"). No segundo caso.ela. O ensino. B. kg. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba.Nesses casos. tem também o som de "u' Exemplos: LATA. CLARO. LOGO ("lógu"). como. C (com o som de "kê"). do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios. LIGA ("liga"). tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza").F e V . sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra. a letra L tem o som básico de "lê». ATLÂNTICO. SOL. sempre antes de vogal. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal. A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. LIVRO. T. km. . FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L.

Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. VÉU. FUNIL ("funiu"). pois. Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas. TERRÍVEL. as palavras emergem automaticamente. SUL ("çuu"). SAL. MEL. encontramos um problema sério para os alunos. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. CAUSA. como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente. VLADIMIR e pouquíssimas outras). Compare as seguintes palavras: CALDA. "çal" (SAL ). SAUDADE. CHAPÉU. como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). a formação de ditongo. mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra. Nesses dialetos. POLPA."funil" (FUNIL) "mél" (MEL).porém. tem o som de "u". não ocorrendo. usando L ou U São palavras homófonas. SAL ("çau"). A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. é fácil ler. a não ser DLIN-DLON. não existem palavras com essas ocorrências. CÉU. PAPEL. MEL ("méu"). POUPA. o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. e assim o aluno consegue dizer o que está escrito. e como. também com o som de "u". No terceiro caso. como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . Em alguns dialetos do Sul do Brasil. pode ocorrer a letra U. no mesmo contexto do L. as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). Partindo da fala para a escrita.

podem ir escrevendo do mesmo modo. ao lado de palavras como "prato" (PRATO).próprio'). "barcu" (BARCO). reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. "bardji" (BALDE). "pobrema" (PROBLEMA). estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. fazendo. Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. "pobri" (POBRE) e assim por diante. como em outros casos.. sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . uma formada por ALTO e outra. aliás. por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L. etc. Os alunos. na alfabetização. É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras. Ao escrever. O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever. o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala. Por exemplo. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA).

como dizem alguns professo. res. entre "e" e "i". representa o som básico da letra. MURO. Veja os exemplos. depois da vogal nasalizada "ii". por exemplo. a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh"). O som que aparece no meio. MORAR. ou um som consonantal velar ("13 »)8. o princípio acrofônico fica mais evidente. BOM ("bõu" ou "bõuij"). em: MAR. quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. No primeiro caso. depois da vogal nasalizada "i". uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). observe o fenômeno de juntura intervocabular. etc. a letra M tem o som básico de "mê". EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra"). como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . a letra M representa a nasalização da vogal precedente. e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). Além disso. 1 A letra M tem duas funções distintas. ALGUM ("augú" ou "augürJ").375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. como. No segundo caso. COMIDA. CAMELO. uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. Nos dialetos em que o nome da letra é mê.

CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. CORAÇÕES. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades.("véi-nha-qui"). com ou sem a sobreposição da nasalização). em fmal de sílaba. quando ocorre o som do "mê". PÓLEN. como HÍFEN. Nos verbos. as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. ÓRFÃ. diante de consoante no início da sílaba seguinte. como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. etc. . Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. Raras palavras serão escritas com N em vez de M. sem a ocorrência da con soante nasal M. etc. SÊMEN. haverá sempre a mudança de qualidade. TEMPO ("témpu" ou "têpu"). Nesse caso. Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A. Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu"). Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). além dos casos contemplados acima. etc. as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. Às vezes. diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. ANÕES. a letra M pode ter o som de "mê". LIMPO ("limpu" ou "lipu").

antes de consoante. o aluno a decidir sobre a escrita. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba.Estudar a estrutura de contextos. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. BOMBA. é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. 8 o som Fiji. ou seja. INFELIZ. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente. ENVELOPE. CONSUMIR. etc. Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. Quando aparecer o som de "mê". Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra. Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções. CANTO. o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal. Exemplos: CAMPO. no meio de palavras. usase a letra M. Essa . ver explicaçáo na página 368. e N diante das demais consoantes. seguido ou não do S do plural. em muitos casos. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B.

N. ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. PÕEM. MÃE. O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. etc. Deve ficar claro para o aluno que. como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. sempre que houver uma vogal nasalizada. as grafias de MÃE. deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. BALÃO. é escrita sem consoante nasal ou til. CIDADÃOS. Note. Seu som básico é o que está intercalado. Por fim. no seu nome. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente. lembre que a palavra "muitu". NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização. CIDADÃO. Exem plos: IRMÃ. PÕE. IRMÃS. ANÕES. que é o til. etc. . mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. "tãmbëinh" (TAMBÉM). Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). entre o "é" e o "i". não para todas. porque assim foi fixada sua grafia. MAES. apesar da nasalização do ditongo "ui". Nos dialetos em que o nome da letra é nê. PÕES. Veja. por exemplo. porém.pronúncia é muito evidente. "sõurj" (SOM).. BALÕES. A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. que essa regra serve apenas para algumas palavras.

G (com o som de "guê") ou QU. MANGA ("mãrjga"). Quando se parte da fala para a escrita. V S. ONÇA ("õuça" ou "ourJça"). pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". vale a regra segundo a qual. no interior de palavra. a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. Ç.Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. ENQUADRAR ("irjkuadrar"). JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). sem a presença da consoante nasal. no interior de palavra. sempre que for detectado o som de "nê". etc. por exemplo. não tendo outro som. a letra N pode representar. A letra N será raramente . em: BANCO ("bãrjku"). Diante de outras consoantes. Em falas muito enfáticas. na fala. "õ" e "á ". etc. pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". NADA. L. R. e depois de "ã". NOTA. Diante das consoantes oclusivas velares. no final de sílaba. ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar"). SINTO. ANDO. só ocorre a nasalização da vogal precedente. como nos seguintes exemplos: CANTO. Z. Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). NETO. em final de sílaba. depois de "i" ou de "e" nasalizados. como mostram os últimos exemplos. NUCA. como em: NIVEL. como F. REDONDO. uma consoante nasal velar (rj) como. Lembre que. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. será usada a letra N.

I. G. F. o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. E. exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. No meio de palavra. ENZIMA. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). ENXADA. a letra M só será escrita diante das letras P e B. CONFIAR. e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante). em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. Q. a decisão é fácil. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). Exemplos: SANTO. FRANGO. ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. TRANÇA. CONQUISTA.usada em final de palavra. ENVIAR. 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. R. quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). diante de T. C. D. U . Z. INDO. ou seja. X. ENLAMEAR. Ç. \' 5. CINCO. Como já foi visto. Tal som não ocorre em início de palavra. HON RA. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. TRANSPORTAR. L. O.

mas PORCOS ("pórkuç). CÓLICA. Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". saber se se trata de um som ou de outro. nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos. SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . Entretanto. AVÓ. PORCA ("pórka"). Em alguns casos particulares. PORTO ("pôrtu"). Veja ainda. Exemplos: AVÔ.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala. e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. Às vezes. como falante nativo. Quando eles não estão marcados. PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. para. ANTÔNIO. pode mostrar a ele como se pronuncia. etc. como em: PORCO ("pôrku"). Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. BOLA ("bóla"). se for a sílaba tônica da palavra. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular. PORTA ("pórta"). depois. como exemplos. Por exemplo. a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. pode ocorrer o som "ó" ou "ô". Como se disse acima. pode-se saber um pouco mais. Às vezes. como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar').

COMBATE ("kõmbati"). a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). por exemplo.("kõfôrtu" e "kõfórtu"). como COMPRIDO. Algumas vezes. Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. tende a ser pronunciada "u". Porém. Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). MUNDO ("múndu"). cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U. quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. ou COLOCAR. Exemplos: TODO ("todu"). a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. Entretanto. como em COMIDA ("kumida"). sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). é preciso conhecer a ortografia da palavra. em sílaba átona. se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba). Quando se parte da observação da fala para a escrita. para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. A letra O. que praticamente é homófono de CUMPRIDO. CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. TOU RO .

("tôru" ou "tôuru"). ou seja. Confira. a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso. "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO). . etc. ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. OPÇÃO ("opição"). A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. Somente observando a fala. revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons. Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. ADAP TAR ("adapitar"). A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. ou apenas de "p". No segundo caso. RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). pode ter o som de "pi". de 'poupar'). Ocaso não é tão simples. Exemplos: APTO ("ápitu"). por exemplo. porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. é impossível saber quando escrever P com ou sem 1. POUCO ("pôku" ou "pôuku"). diante de outra consoante que não seja R nem L.

PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba. Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura. como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. porém o Unem sempre é pronunciado. ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita. A ortografia tem vários modos de escrever. "piçina" ou "pçina" PISCINA. FICO/FIQUEI. QUERO ("kéru"). "é" ou "i". O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender. porque eles se resolvem com o tempo. como em: QUERIDA ("kerida"). . para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. Em palavras derivadas. pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. TOCARJTOQUE. Como foi dito nos comentários à letra C. QUINTAL ("kintau"). PISI. Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê".

basta o aluno identificar QU com o som de "kê". Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). CUECA. Quando a letra A vem depois das letras QU. etc. O mesmo. "kuê". e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI. a . CUE. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). Quanto à leitura. sem insistir muito. Essa dificuldade atrapalha a escrita. QUE ou CUI. Esse tipo de problema. etc. Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). Quando não é pronunciada. porém. não acontece com os exemplos anteriores. A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não. TAQUARA ("takuara"). porém. Observe. todavia. têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. FREQÜENTE ("frekuénti"). AQUARELA ("akuaréla"). "kué".BARCO/BARQUINHO. RECUE. é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. CUIDAR. o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos.

QUOTISTA/COTISTA. KASA. Pelo contrário. CAXA. KAZA. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia. embora descartadas pela ortografia atual. quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. como VACA escrito VAQUA. QUOTIDIANO/COTIDIANO. etc.). etc. poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA. Quando os alunos cometem esses erros. revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. QUIDADO (cuidado). CASA. QUASA. QUAXA. Entretanto.ortografia admite a forma com a letra C. a for ma ortográfica atual é apenas CASA. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). QUAZA. em princípio. não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. mas nem por isso estranhas. CINCO escrito CINQUO. Por exemplo. em vez do dígrafo QU. ESTUDO DA LETRA R . QUAXA (casa). mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras. uma palavra como "casa". Dadas as dificuldades de escrita. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. Um bom exercício para o professor fazer no início.

uma "aspiração").).A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. MAR. A vibrante múltipla "rr". etc. a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. por sua vez. mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons. porém. formando um dígrafo. CERTO (no dialeto carioca). representando dois sons diferentes. FERA/FERRA. O sistema de escrita. pode representar vários valores fonéticos. entre duas vogais. . pode ocorrer apenas um R ou dois RR. SERA. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR. dependendo do dialeto. a vibrante simples representa um tepe'. Em alguns dialetos do Sul do país. Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. MURO/MURRO. basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO. CERTO. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA. TIRO. a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). distingue o uso de um R do uso de dois RR. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. FURO. No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste. como em CARRO. Dessa maneira. como ocorre tipicamente em CARRO. ROUPA. Portanto. em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes.

dentro de sílabas. TERRA. Nos chamados dialetos "caipiras".como em CARRO. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. Dependendo da palavra. ARARA. ROUPA. O mesmo som "r" (vibrante simples). que aparece em CARO. MAR. produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira. BR. às vezes. ERRO. o falante usa a vibrante surda. Exemplos: ROÇA. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). etc. MURRO. os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas. TIRO. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. outras vezes usa a vibrante sonora. RETA. CERTO. Em alguns casos. com uma vibrante surda. 380 Por exemplo. BRASIL. mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. como em RITA. VIR. TR. MAR. MURO. Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. FERA. RODA. TORRADA. quer a vibrante simples. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. ora sonoras. PORTEIRA. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. .

ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla. O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). como em RATO. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba. CR. com a sílaba seguinte começando por consoante. como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". Em início de palavra. como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). FRACO. FR. Porém. VR. Se. BRASIL. quando na fala corrente. uma palavra terminada por R junta-se a outra. FINGIR ("fijir" ou "fijirr").DR. por exemplo: PRATO. CRIANÇA. a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". GR. É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . RITA. VIR AQUI ("vi-ra-ki"). houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N). ISRAEL ("izrraéu"). PADRE. LIVRO. RUA. porém. ROLO. RODA. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. forma o início da sílaba da palavra seguinte. que começa por vogal. Além disso. CARPA ("karpa" ou "karrpa"). GRATIDÃO. CARRO). TRABALHO. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO.

Em início de palavras. Algumas idéias. Como vimos. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto. Sabe-se. tem-se um som diferente. porém. Essa dificuldade não é do falante. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. Nos demais contextos. ainda. com segurança. que se o R vier depois de uma consoante N ou S. mas depende de como o professor irá tratar a questão. dependendo do dialeto. terá o som de uma vibrante múltipla. obviamente. no meio de palavra. mesmo quando não são muito elaboradas. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples. No contexto intervocálico. no meio de sílaba. Em final de sílaba. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . dependendo do dialeto. A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. ajudam bastante. a escrita usa apenas um R e nunca dois. e o som será sempre de uma vibrante múltipla. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro. conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo.lembrando todas as regras associadas a essa letra.

mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. igual à vogal precedente.muito as variações de pronúncia. os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos. No começo. como ainda não chegaram a essa conclusão. um som único. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita. a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. Por isso. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. são todos escritos com R ou RR. ou seja. 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: . isto é. como uma vogal "longa". vindos de diferentes dialetos. mas devem usar apenas a letra R.

que o aluno . já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. Como em muitos outros casos. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez. Nesse caso. Depois. AGARADECE (AGRADECE). de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem. o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. PR. etc. etc. como ensinam os foneticistas. Em outras palavras. Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita. em que há mais de um som consonantal numa única sílaba.. ou ainda ATALAS (ATLAS).MECADIO ("mercadinho"). quando encontra grupos consonantais como BR. o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante. esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). CADENO ("caderno"). POTA ("porta"). Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte. GR.

Exemplos: BASTA ("basta"). Exemplos: BASTA ("bachta"). Nos demais dialetos. a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". ou ainda os exemplos: USO. a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. NÓS ("nóis").automaticamente aprende. como em SACOLA. POSA/POSSA. E também é verdade que não é porque não se explicou. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. ocorre o som de "çê". Em final de sílaba. Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. VASO. Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura . No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê". que o aluno não irá aprender. ISSO. ATRÁS ("atrais"). SOCO. dependendo do dialeto. SUCO. NÓS ("nóich"). OSSO. SINO. MESA. ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. ROSA. nos demais casos. há uma letra 5 e um dígrafo SS. as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". ATRÁS ("atraich"). Assim como existe uma letra R e um dígrafo. POSSÍVEL. a letra 5. Do mesmo modo que as letras R e RR. INGLESA/ESSA. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. o RR. Em início de palavra. etc. SEMANA.

OS HOMENS ("u-zó-mêis"). saber que há várias . ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi"). 382 No meio de palavra. tem o som de "zê". como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). DESLIGAR ("dizligar"). Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. G. Diante de consoante surda. há nesses casos uma concordância. D. R).intervocabular. Algumas letras. Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. Apesar disso. etc. tem o som de "çê". Quando a letra 5 vem depois de consoante. com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade. Isso vale para todos os dialetos. M. como S e R. no meio de palavra. Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). correspondem a muitos sons diferentes na fala. tem o valor fonético de "çê". MESMO ("mezmu"). CASPA ("kaçpa"). a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte. ISRAEL ("izrraéu"). L. DESDE ("dezdi"). ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu"). DESGRAÇA ("dizgraça"). CASCO ("kaçku"). como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas"). Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B. Então.

RAPAZ ("rrapaich"). SÇ. Somando esses dois tipos de informação. Por outro lado. O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. X. J e G. CHUVA ("chuva"). mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. Confira os seguintes exemplos: SAPO. XC. EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). DESDE ("dejdji"). parece fácil e simples. o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever. fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. SC. AÇO.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. SC. ASSO. Z. SÇ. PROXIMO. como "zê" e "chê". ATRÁS. Para quem sabe como se grafa essas palavras. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. XC. os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. RAPAZ. para confundir mais as coisas. Ç. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas. o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". NASCER ("naiççêr"). CRESÇO. TRAZ. como vimos. XÇ. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . HOJE ("ôji"). XÇ. ou ainda em certos dialetos. etc. X. SS. temos: S. CH.

a . ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. Como dissemos. Em muitos dialetos. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige. e o som inicial de seu nome. através da ortografia. representa o valor fonético básico da letra. Então. seguindo o princípio acrofôníco. Na maioria das vezes. Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma).para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. diante da vogal "i" (na fala). A letra T é semelhante à letra D. mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato. o melhor conselho é mostrar que. esses problemas se resolverão com relativa facilidade. .só que uma é surda (1) e outra é sonora (D). AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA). as explicações impressionam os alunos. Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê.

em: CHUVA ("tchuva"). mesmo diante de "i": TIA ("tia"). ocorre o som de "tchê". o som "i" não aparece na escrita. XAROPE ("tcharópi"). Em alguns dialetos do Nordeste. permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. RITMO ("rritchimu"). Na grafia das palavras. mas depois dessa vogal. mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. FERIDO ("feridju"). como. porém: TIA ("tia POTE ("póti"). nunca se fala "tchê". TERRÍVEL ("terríveu"). Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). Em alguns dialetos. JOVEM ("djóvêi"). não antes de "i". etc. mas apenas "tê". Por exemplo: TIA ("tchia"). sobretudo do Sul do país. POTE ("póti"). 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. Como se disse em relação à letra D. TESTA ("téchta" ou "téçta"). apesar das variações . Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê".letra T temo som de "tchê". por exemplo. como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). Às vezes. LEITE ("leitchi"). Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). porém: TATU ("tatu"). ÓTIMO ("ótchimu"). etc. POTE ("pótchi"). FECHAR ("fetchar"). o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. MITO ("mitchu").

1. Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. nem para a escrita. ELE POTEÍ (ELE PODE IR). na escrita. U). ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U. como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). Quando ocorre diante da letra M ou N que. e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. CHUMBO ("chúbu"). UM ("iirj").encontradas. É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO). a letra T também não causa grandes dificuldades. Fazendo isso. Escrevem T em vez de D. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. ocorre imediatamente antes de uma consoante. FUNÇÃO . A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever. e em seu nome está o som básico que a letra representa. SUJO ("çuju"). a letra U representa uma vogal nasalizada "u". Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). por sua vez. CÉU ("çéu"). alguns alunos fazem confusão entre o T e o D. nem para decifração na leitura. E. O. Às vezes. preocupados com a ortografia. etc. todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. a sonoridade do D perde-se. Como acontece com todas as letras que representam vogais.

como em: UNHA ("ünha". etc. "flinha" ou "uinha"). como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa"). se a letra U estiver diante de NH. o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever.("f€íçãu"). podendo ficar apenas com a grafia de O. POUCO ("pouku" ou "pôku"). 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. VOU ("vô"). etc. "unha". CHOURO (CHORO). em um número muito grande de palavras. como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). SOURO (SORO). pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). Porém. há muita variação entre "ô" e "ou". não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA. a letra U pode ter um som nasalizado ou não.. PUNHO ("p "punhu". "püinhu" ou "puinhu"). etc. Na verdade. UNIDO ("tinidu" ou "unidu"). BOUA. etc. Entretanto. Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. na fala atual. como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). nem todo som de "ô" será escrito com OU. PROFESSORA ("profeçôra"). Veja os . quando se parte da fala. pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". Quando ocorre OU na escrita.

"uutchimu" ULTIMO. Quando se escreve partindo da observação da fala. etc. "autu" ALTO ou AUTO. no começo. com certeza mais do que parecia. "méu" MEL. sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). O aluno precisa. porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. "chapéu" CHAPÉU. QUILO ("kilu"). "papéu" PAPEL. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. EQÜINO ("ekuinu"). "çéu" CEU. "çaudadji" SAUDA DE. LIQUIDO ("likido"). somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. e assim por diante. há outra dificuldade grande. No final do ano. Aqui. nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. Quando os processos .casos: QUERO ("kéru"). Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam. "çau" SAL. É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO.

de leitura e escrita se aceleram. sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. Alguns alunos. VIZINHO ("viztnhu"). dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala. pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka"). muitos erros desaparecem. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. A letra V não apresenta dificuldades de decifração. esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. porém. uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru". ou da vogal que ocorre depois do L ou do R. Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . Por exemplo. o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível. Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. VELHO ("vélhu"). Nesse momento. AVULSO ("avuuçu").

também tem o valor fonético de "chê". Mais uma vez. como em: XAROPE ("charópi'). etc. etc. ENXAME ("ichãmi"). dependendo da palavra em que ocorre. depois de N. como em ENXADA ("ichada"). XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. etc. FERDE (VERDE). WC ('dabliu-çê'). Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . Esse é o valor da letra X em início de palavra. ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". XUCRO ("chukru"). WILMA ("viuma"). observando a própria fala. FELHO (VELHO). Em Portugal. produzindo formas gráficas como FELA (VELA). essa letra tem o nome de duplo vê. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade.anteriormente. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. ENXERGAR ("ichergar"). Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. pode levá-los a trocar a escrita de V por F. Nesse caso.

como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). a não ser quando se tem o sufixo -EX. Em alguns dialetos (por exemplo. XS). . SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). XÇ. tem o som de "çê" ou "zê". a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. "zê". ficando apenas uma ocorrência do som "ç". "kch" e "kich"). "kç" (ou "kiç". Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). maiS informal. AUXÍLIO ("auçíliu"). Quando a letra X aparece no fmal de palavra.consoante no início da sílaba seguinte. EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). que ocorre nesse contexto. "chê". o som correspondente. tem o som de "ks" ou "kis". SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. o carioca). EXSURGIR ("eçurjir"). Na posição intervocálica. NASÇA ("naça"). dependendo de a consoante ser surda ou sonora. Em alguns diale tos. ocorre uma assimilação. Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). podendo ter os seguintes sons: "çê". LIXO ("lichu"). EXCELENTE ("eçelêfiti"). etc. como no carioca. Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). XEROX ("cherókç" ou "cherókiç").

palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. etc. SEXTA/CESTA. RIQUEZA. só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). 386 Note que. EXAME ("izámi"). quando o som de "zê" ocorre em início de palavra. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ.rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. ESTUDO DA LETRA Z H. ZOMBARIA ("zõubaria?'). ZANGADO ("zãgadu"). O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. etc. "néchta" NESTA. FIXO ("fikçu"). Quando se parte da fala para a escrita. Note que há diferença entre . a escrita será com Z e não 5. BELEZA. Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). EXIGIR ("izijir"). TÁXI ("tákçi") e assim por diante.BAIXO ("baichu"). terá o som de "zê". Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA. É por isso que se escreve INFERNIZAR. ZERO ("zéru"). ZUMBIDO ("zümbidu").

Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). ocorre o fenômeno da juntura intervocabular.letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". MARQUÊS/MARQUESA. como mostram os XC exemplos: BELEZA. e palavras que terminam com o som de "êza". FREGUÊS/FREGUESA. tem o som de "çê" (ou "chê".Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização. Se a palavra que termina com a letra Z. ASA. que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. como INGLES/INGLESA. na fala contínua.. Regrinhas como essas. FEZ ("feiç" ou "feich"). Veja. RICO/RIQUEZA. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). mas receberam apenas um A do feminino. RAPAZ. INGLESA. X di. os dialetos. Isso acontece em todos itexto. em início de palavra. a dificuldade da . EX. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich").EZA. etc. caso de BELO/BELEZA. etc. EXAME. ocor . XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. Porém.StCO o sufixo . mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra. vier antes de outra que 1I começa com vogal. conforme o dialeto). AZAR.

kg. Além disso. abreviaturas. KARINA. embora tenham um uso muito reduzido.onsta rerá somente a letra Z. e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). em siglas. a não ser quando . como já se disse acima.EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. Senao WILSON. YVONE. ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. também fazem parte do nosso alfabeto. porém. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. WILMA. etc. Elas estão nos dicionários e. orren Lórakç" is diale Jdch"). em nomes pró. só ocorre r) etc. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba. Como. WC. ainda no meio de palavra. km. YARA. YAMAHA. uirtes portanto. elas aparecem em alguns casos. o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. AS LETRAS K. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras. kHz. VISGO ("vizgu"). . etc. DESDE ("dezdi").

em outros casos. HOBBY. ficando portanto: LUIS. DORACY. DORACI. NETO. New York ficou NOVA IORQUE. a letra H passou a ter tam bidu"). KARMEN. THEREZA. JOACHIN. o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . abat-jour ficou ABAJUR.usados como um apelativo comum. Por exemplo. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos. Fora disso. ainda. NErFO. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ. MANUEL. mas pode rá escrever. surgindo novas relações entre letras e sons. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos. Assim. conforme consta do cartório. VICTOR. 387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. MANOEL. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI). Veja. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento. VÍTOR. etc. Por exemplo. YAMAHA. JOAQUIM. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. bém o som de RR em nomes como HONDA. assim como club ficou CLUBE.escrita. CARMEM. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. TERESA. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum.

mas não tinha nenhum exemplo. O conjunto de letras TCH forma um trígrafo. A. 13 ed. e reflexão de alguns annos de ensino. 388 BIBUOGRAFIA Referências A. acompanhando o nome de um país que se escreve REPÚBLICA TCHECA. e menos en fado dos dlscipulos: descoberto pela experiencia. em início de palavra não ocorrem os sons "lhê" e "nhê" (exceto na palavra LHE e na forma abreviada de senhor: NHÔ). seja estranho o som "tçê". Outras vezes.. Grammaticaphilosophica da linguaportugueza. Ou tro exemplo desse fenômeno pode ser visto no nome VLADIMIR. que é possível no sistema da língua portuguesa.pronúncia italiana "pítça". e mais estranho ainda atribuir esse som ao dígrafo ZZ. surgem palavras com sons em certos contextos em que normalmente não ocorrem. 5. . S. Methodofacillimo para aprender a ler perfeitamente em pouco tempo com mais allivio dos mestres. Por exemplo. como LHAMA e NHOQUE (que alguns escrevem INHOQUE ou ENHOQUE). J. Outra palavra italiana de uso muito co mum foi aportuguesada: TCHAU (do italiano ciao). BARBOSA. Lisboa: na nova impressão da Viúva Neves & Filhos. 1817. embora. em que aparece a seqüência de V + L. em português.J. que aparecem em palavras de origem estrangeira.

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40. • Alfabetização e lingüística. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. 1996c. Análisefonológica: introdução à teoria e à prática com especial des taque para o modelo fonêmico. 47.8l-98. Jornal da Alfabetizadora. realizado na Unitau.l 9-20. 46. p. 40. O príncipe que virou sapo: Considerações a respeito da dificul dade de aprendizagem das crianças na alfabetização. Letras. 1 e 2.da no XLIV encontro do Grupo de Estudos Lingüísticos do Esta do de São Paulo. 14-6.l77-83. Ciencia Hoy. 15. São Paulo: Scipione. n. Como não fazer uma reforma ortográfica: o acordo de unifica ção das ortografias da língua portuguesa.25-31. Campinas: Ins tituto de Letras. In: PATTO. 1996f. Maria Helena Souza (Org. 16-8. 1997a. Jornal da Alfabetizadora. 1996b. p. ano VlII. v. • A origem da escrita dos números. ano VII. v. Buenos Aires: Asociación Ciencia Hoy. 40. ano VII. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. • Breve história da pontuação. 1997b. 10 cd. n. La comprensión de lo escrito: las letras y sus estilos.lO-2. p. n. 1 996d. 1996e. DLA. p. Campinas: Editora da Unicamp. em maio de 1996a (ms). 199 O alienígena que queria aprender a ler. Por to Alegre: Kuarup/PUC-RS. n. p. Campinas: Edição do Autor. 7. n. n. PUCCamp. • A origem das letras do alfabeto. ano VIII.Jornal da Alfabetizadora.). 1996h. p. Introdução . • Avaliação e promoção Jornal da Alfabetizadora. Anais do VI Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. p.

n. Roxane (Org. rev.193-224. Jornal da Alfabetizadora. 31.à psicologia escolar. Gladis. atual. 1997c. São Paulo: Casa do Psicólogo. Iii: ROJO. p. p23.). 1998. ano VI.. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 . 3 cd. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. 1994. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo. História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1. Campinas: Mercado de Letras. Continuando o debate sobre construtivismo. • & MASSINI-CAGLIARI..

Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3.

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5. Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .

Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11. Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de . Conhecer a ortografia 123 8. Conhecer os nomes das letras 125 10.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer as letras 121 5. Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer o alfabeto 121 4.

Explicar o que é uma letra 135 3. Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2. Reconhecer uma palavra 128 15. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 . Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. Nem tudo o que se escreve são letras 128 16.escrita) 126 12.

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 .

interpretação semântica da palavra 258 . As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método.O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10. o aluno e a escola 248 O certo. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. o professor.

identificação de palavras 261 6. a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7.2. a forma gráfica das letras 272 5. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. cachorro começa com FU 262 8. assinatura e escrita 271 3. escrita espelhada 273 6. segmentação 274 7. letras em vez de rabiscos 272 4. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. explicitação da decifração na leitura 267 10. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1. adivinhando palavras na leitura 260 4. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. quantas letras formam uma palavra? 261 5.

mistura de informações 280 18. erros não corrigidos 280 20. formas morfológicas diferentes 276 11. repetição 283 5. surdas ou sonoras? 278 16. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. letras maiúsculas 281 22.398 10. caligrafia 285 . sinais de pontuação 281 23. uso de pronomes 282 3. sintaxe 283 4. resultados pela metade 276 12. só o esforço não adianta <399> 19. escrevendo foneticamente 277 13. troca de letras 277 14. coesão 285 7. um pouco por vez 279 17. hipercorreção 278 15. variação lingüística 282 2. medo de escrever 281 21. frases soltas — coerência 284 6.

11. Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 . princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13.É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O.

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

Estudo da letra Z 386 As letras K. W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .

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