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ALFABETIZANDO SEM O BÁ Be

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ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo. Quando esse elo se rompe. deixaram de fazê-lo. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. tão antiga quanto os sistemas de escrita. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas. por abandono ou porque é trocado por outro modelo.. Nesses casos. por alguma razão estranha e desconhecida. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que. ou seja. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. quando Micenas foi destruída. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente.C. Os . De certo modo. a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas. pois.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização. A alfabetização é. Na história da escrita. só com muito estudo.

pelo contrário. ~. esses dois tipos de escrita. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas. No vale do rio Indo. ou seja. sempre foram simples e práticos. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. Curiosamente.C. com a escrita brãmane. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. tiveram um uso muito popular. usando o alfabeto semítico. Por essa razão. ao que tudo parece. 1996b. percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos. O primeiro .C. < CAGLIARI. A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde. no século III a. a escrita só ressurgiria muito tempo depois. 106-24. Naquela região. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita.. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si.p.

Os fatos históricos também mostram o contrário. Ao ler o que ele . O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade. não pensa. fundador do Império Babilônico. Essa é uma idéia errada e estranha.representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte. os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado.. que não faz sentido algum. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social.c. É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. certamente. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a. A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI.

objetos e cenas do cotidiano. assim como. médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno.mandou escrever. <13> animais. um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. às vezes. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. o texto tem como interlocutor o próprio povo. hoje em dia. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. súdito do monarca. numa caverna. ficamos sabendo que. ficou pensando no que tinha . Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. Depois. Na Mesopotâmia. à noite. um livro de religião por um teólogo e assim por diante. um livro de medicina por um médico. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. representando ~. O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade. pessoas. Isso não significa que somente engenheiros. Naquele momento. Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade.

era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. A humanidade descobria assim que. por sua vez. mas. Nessa época de escrita primitiva. passa a ser uma forma de escrita. além de representar objetos da vida real. mas revela algo importante. além dos números. os desenhos. a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. quando representa uma palavra. De acordo com fatos comprovados historicamente. Ou seja. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. criar um sistema de formas gráficas. Provavelmente. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais. é apenas um desenho. ser alfabetizado significava . numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. podiam servir também para representar palavras que. e usado provavelmente para contar o gado. porque pertence ao reino do pensamento. era um passo fácil de ser dado. A partir dessa descoberta.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito. se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. figurativas ou não. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. quando uma forma gráfica representa o mundo. Para isso.

Os maias da América Central . fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade. por volta de 3300 a. em média.C. na Suméria.C.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los. como. por volta de 3000 a. esse processo autônomo tenha se repetido. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente. ou seja. o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido. a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente. por volta de 1500 a. as sílabas. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto.. Com a expansão do sistema de escrita. pelo que se sabe hoje. por exemplo. repetindo um modelo mais ou menos padronizado. É muito provável que no Egito. <14> por língua.C. e na China. começou de maneira autônoma e independente.. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala. A escrita.

A curiosidade.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. Na Antiguidade. devia ser o procedimento comum. de uma maneira ou de outra. escrevendo para a sociedade e a cultura da época. ou seja. que talvez se situe por volta do início da era cristã. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. nesses casos. Aqui. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . contato com algum sistema de escrita. dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. num tempo indeterminado ainda pela ciência. certamente. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios. Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. Aprender a decifrar a escrita. a ler. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. passavam a escrever seus próprios textos. Finalmente. A alfabetização. já que não pretendiam tornar-se escribas. que eram estudados exaustivamente. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos.

da escrita cuneiforme. Para representá-las graficamente. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal. sem dúvida alguma. Dessa maneira. que significava "boi". ou seja. Por exemplo. Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. que era oclusiva glotal. os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais. escrever é algo que vem como conseqüência. Além disso. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado. Para quem sabe ler. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef. a primeira palavra da lista era 'alef.ler. o processo de alfabetização. a lista ficou apenas com consoantes. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. por exemplo. de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. <15> Ao formar seu sistema de escrita. esse nome passou . E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes.

por exemplo. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. . ou seja. Uma vez identificada a letra pelo nome. o significado vinha automaticamente. bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. já se tinha um som para ela. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. tirada também de um hieróglifo egípcio. dava o resultado final de sua pronúncia. tinha a forma gráfica da figura de uma porta.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. pronunciando. que significava "porta" e representava o som de D. feitos os devidos ajustes. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. A terceira letra era o Daieth. era usada para o som de B e significava "casa". O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. e assim por diante. e. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa.

ou seja. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras. bastava identificar as consoantes DVD. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. mas também as vogais. na lista de letras. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada. resolveram escrever não apenas as consoantes. uma vez que. Para escrever David. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. em grego. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas. agora denominada alfa. a letra 'alef passou a representar a vogal A.usando o princípio acrofônico. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. por exemplo. mantendo o mesmo princípio acrofônico. por exemplo. Assim. para escreverem alfabeticamente. como vimos. 'alef. a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. Para eles. . Como sempre. aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes. mas também as vogais. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. Já os gregos. como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. procurar. Apesar de manter o princípio acrofônico. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi.

dê. épsilon. cê.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. delta. Na verdade. etc. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. A alfabetização. etc. gama. serviam ~. <17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. Os semitas. na ordem tradicional dos alfabetos. ou mesmo quando fossem escrever. por assim dizer. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. transformaram-se em a. bê. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . Práticos como sempre. inclusive o alfabeto. beta. Dessa forma. e. De fato. na Idade Média. Tais documentos foram. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. Foi assim que alfa. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto.

a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. a qual se completava quando. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir. como as crianças já não iam mais à escola.c. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. descobria-se que palavra estava escrita. como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga. . as que podiam eram educadas em casa pelos pais. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando.ensinava a quem não sabia. Nessa época. somando-se os valores das letras. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar. mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. Vê-se. facilitadoras do processo de decifração. Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. Ainda hoje. a leitura correta. que é a chave de sua decifração. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. pois. entre as várias possibilidades. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa.

<18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. Agora. "CASA' equivale a "casa". Não bastava saber o alfabeto. o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. que passaram a chamar-se maiúsculas. agora. seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso. saber fazer a categorização correta das formas gráficas. Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). em geral. Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. as quais. Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. ainda. o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. que podia ser representado por muitas formas gráficas. reconhecendo a que . Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). portanto.outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar.

ao analisar o todo. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. esse princípio é posto em prática a todo instante. inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra. considerado um dos maiores inventores do milênio. Freqüentou a escola por apenas três meses. uma esprofessora. . Este último aspecto pode ser observado ainda hoje. Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. quais letras devem compor aquela palavra. do ponto de vista fonético. Notas Thomas Alva Edison (1931). passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. Patenteou 1093 inventos.categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. era americano de Milan Obio. sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". Nesse caso. Como sabemos. ainda através da ortografia. Na escrita cursiva.

na ordem do alfabeto. juntamente com este trabalho. a preocupação com os leitores aumentou. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual. <19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. Nessa época. Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e. cada qual iniciando com uma letra diferente. com o uso da imprensa na Europa. uma vez que agora se faziam livros para um público maior. apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. Em 1525. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas". Por isso. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada . deixando de lado cada vez mais o latim.O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. Essa obra era voltada para a alfabetização do povo. sobretudo.

publicada em 1658. em 1702. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. que continha o alfabeto. a letra S com o desenho de uma cobra. cada uma tendo três partes.Bokeschen vor leven ond kind. Valentim Ickelsamer incluiu. Em 1527. outra aos médios e a terceira aos avançados. chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). os dez mandamentos. etc. fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). O ensino era dividido em "lições". O educador tcheco Jan Amos Komensky. por exemplo. listas de sílabas simples. a . inclusive as de alfabetização. Com essa obra. um regulamento para as escolas que fundara. orações e os algarismos. a letra A com a figura de uma escada. uma destinada aos alunos principiantes. São João Batista de la Salle escreveu. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. Somente no século XVIII. numa obra semelhante. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". publicado em 1720. apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. mais conhecido como Comênius (15921670).

coisas úteis para a vida. aparece uma distinção clara entre ler e escrever. a terceira. Para ensinar ortografia. surgiu o Ensino Mútuo. para o trabalho na <20> sociedade. a quarta. O pedagogo alemão José Hamel. a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. a "tábua das sílabas". etc. O ensino é nitidamente coletivo. para aprender a soletrar e a silabar. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. Nesse modelo de ensino. Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. em sua obra Ensino Mútuo. os alunos aprendiam a ler com pausas. a escrita. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. ao mesmo tempo.segunda. Após a Revolução Francesa. descreve o método de alfabetização em detalhes. o silabário. o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um . No terceiro livro. estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. o segundo livro.

Diante dessa nova realidade. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização. os alunos que freqüentavam essas . membros da burguesia. Com a escolarização. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. O ensino silábico passou a dominar o alfabético. ou seja. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. na Escócia.tipo de escola para as crianças. Com poucas modificações superficiais. as escolas infantis. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. introduzindo a alfabetização como matéria escolar. o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. cada uma enfatizando um fato. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. O estudo foi dividido em lições.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. jardins de infância ou escola maternal. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. passaram a ser mais desenvolvidas. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças. A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo.

os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano. até as primeiras décadas deste século. A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. Muitos professores queixavam-se dos baixos salários. CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga. que eram as da imprensa da época). O povo simples e pobre continuava fora da escola. no sentido de esquema. que é um outro diminutivo de "carta". ao lado de "cartilha". mapa de orientação. Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização. publicou a Cartinha. depois. Naquela época. O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta". .escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. publicada em 1540. razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. No Brasil. junto com a gramática.

que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de . as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. <22> A cartilha do ABC. tesoira. próprio do alfabeto. etc. Por último.). Para se alfabetizar. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. e depois punha-se a escrever e a ler. uma vez que a escola naquela época não alfabetizava. havia uma lista de palavras. O livro servia igualmente para adultos e crianças. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. a pessoa decorava o alfabeto. Notem que a ortografia não tinha vez. para pôr em prática o princípio acrofônico. decorava as palavras-chave.vinham as "taboas" ou "tabelas". com todas as combinações de letras. vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. interpretando. nas "taboas" (ou tabuadas). Em seguida. A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa. tendo o nome das letras como guia para sua decifração.

Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. publicada em 1850. Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras.trem e rodoviárias. chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. Essa obra merece um estudo detalhado. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. A segunda edição. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. dessa forma. até hoje aparecem nas cartilhas modernas. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever. intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. <23> Além do método de Castilho. desenhando-as com hachuras. segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros. de 1853. outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896). Muitas pessoas que não podem ir à escola. o aprendiz . já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade. fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. manuscrito.

organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. encontra-se. apareceram inúmeras outras. passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. depois individual e. Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. de João de Deus. o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura. então. sem dúvida.se concentrava no que de novo era apresentado. O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Essa cartilha foi. seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". <24> No Brasil. Entre . depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). no título da obra. Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. Pedro II. publicada no Rio de Janeiro em 1859. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. vêm os exercícios de escrita. Entre os livros que pertenceram a D. embora. haja um destaque à leitura.

Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). Joviano. Com a Cartilha maternal. é um tipo de cartilha. desde a letra até o texto. que vai assumir importância maior na década de 30. O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. do mesmo autor. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos.elas há quatro tipos bem marcantes. Um livro como Primeira leitura para crianças. o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. Na introdução. A cartilha Caminho suave (1948). é um bom exemplo. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades. de Branca Alves de Lima. têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático. com o período preparatório. de A. e o famoso Teste ABC (1934). apareceram mais obras que seguiam o método misto. . começa o método analitico. ou seja. No final dos anos 90. de Lourenço Filho. cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico. Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação. Com o passar do tempo.

de A. Copiava-se muito. a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia). seguindo a ortografia da época. ou seja. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras.Nota Primeira leitura para crianças. trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. autores famosos da literatura. voltado para o padrão social. Como acontecia com as gramáticas. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. e os modelos eram sempre os bons autores. . Achavam importante ensinar o abecedário. por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons.

agora. mas não era. apareceram as palavras-chave. quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. E a escola percebeu . o aluno começava seu livro de leitura. que empregavam dialetos diferentes da fala culta.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis. Em lugar do alfabeto. era aprender a escrever palavras. O importante. A cartilha parecia um caminho suave. mas não foi bem assim. por uma modificação radical. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. já na década de 50. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. em seguida. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. Parecia que ia dar certo. até recentemente. Completadas todas as letras.

Diante de um quadro desolador e perturbador. não conseguindo superar essa barreira inicial. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. Apesar de todos os esforços para superar essa situação. pais e professores. ou seja. conseguiam concluir a última série do ginásio (na época. cerca de dez por cento.logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização. <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. o correspondente à oitava série do primeiro grau. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. muitos alunos abandonavam a escola. outros desistiam logo depois. A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento. A primeira coisa que saltava aos olhos era . Diante dessa realidade. do ciclo II do ensino fundamental). a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar. e apenas uns poucos. Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos.

subsídios mais práticos para uso em sala de aula. a dificuldade deveria residir nas crianças. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente. então. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula. o que podia dificultar a sua aplicação. em seguida. dizendo o que o professor e o aluno devem . Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. o índice de repetência continuou assustador. Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor. Mesmo assim.o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. partem ~. uma orientação mais pormenorizada. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. comprometendo assim o processo educativo. pois. Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. com raríssimas exceções. Era necessário. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação. e vão. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. dar uma ajuda especial aos professores. como a Cartilha Sodré. As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor.

a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores. obviamente. Carentes de alimentação na infância. senão a lição não funciona. Nenhum diálogo. para ver se o aluno aprende. aplicando teorias que. sem formação lingüística.fazer. carentes de estímulos ambientais. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. necessários para que . porém. sendo determinada a fala de cada um. a escola foi buscar socorro nas universidades. uma estultícia. Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. muitas vezes. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. passo a passo. Sem formação pedagógica. O período preparatório A partir dos anos 50. nem eles próprios tinham entendido muito bem. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. Se o aluno responder diferente. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos. Muitos alunos pesquisavam para teses. o que é.

completar figuras. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. 1997c. fazer bolinhas. 193224. no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. p. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". A . localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. não podiam aprender. então. Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola.pudessem desenvolver o conhecimento. fazer o ~. Os psicólogos inventaram. <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". carentes de praticamente tudo. CAGLIARI. etc. Além da cartilha e do manual do professor. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. Para resolver o problema. enfim. o chamado período preparatório. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. Assim. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. como alguns chamam. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo". uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá.

que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem. do que as crianças ricas.discussão é longa. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. com mil teorias acadêmicas. baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. sobretudo da noção de variação lingüística. por causa da história de vida . Em meio a tantos equívocos. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto. Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. envolvendo questões de linguagem. mas que era um grande equívoco. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. Por trás de tudo. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. ao entrar na escola. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. mas as conclusões são muito evidentes. Mais antigamente.

ou seja lá o que for. ninguém aprende a escrever nem a ler. Aliás. justamente por causa dos exercícios de prontidão. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. Perguntar a uma criança se uma . no entanto. segundo a opinião desses acadêmicos. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade. Para não escrever espelhado. na verdade. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto. psicológica. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. simplesmente porque falavam ou escreviam errado. Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. excepcionais e carentes. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. perceptiva. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. motora. Fazendo curvinhas. Isso.de cada uma e da natureza das nossas escolas. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos. e vice-versa.

Por coisas como essas (e tantas outras. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão. são sempre muito dóceis e condescendentes.. o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado. de fato. Está tudo tão errado... que contribuam de fato para o processo de .caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa. que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças. simplesmente exemplifica. não é uma resposta à pergunta que fez à criança. quando responde. que a melhor solução é abandona-lo por completo. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante. Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque. o que. não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de". Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico. a criança fazer o que lhe foi dito. porque o próprio professor não sabe responder e. sem dúvida alguma.. Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto. você pode pegar que é todo seu" e deixar.

demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997). ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. Quando o professor diz que não adota a . Algumas idéias. mesmo plenamente justificáveis. A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida. cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação. Uma delas. Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). de valor inestimável. é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres. 1 996e).alfabetização. 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI. Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental.

número. continua usando o método da cartilha. estão voltando a ter importância na alfabetização. grau. gênero. as relações entre letras e sons. etc. Por outro lado. como o estudo de categorias gramaticais.cartilha. Velhas idéias. Contudo. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. a ortografia. até chegar ao amadurecimento esperado pela escola. tem sido removido. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. como ensinar o alfabeto. porém básicas. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. o "entulho" que se acumulou com o tempo. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. que é a linguagem. procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos. . fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos.

A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho. a educação. alguns ~. a sexta. a quarta e a quinta série. mas a formação. uma vez que agora a promoção era automática. com grandes vantagens para a educação como um todo.Num esforço de muitas pessoas. um incorporando a terceira. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. e outro. a sétima e a oitava série. juntando a primeira e a segunda série. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". enfim. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. Desse modo. só foi posto em prática o cicio básico. a começar pelo estado de São Paulo. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. Além disso. Apesar disso tudo. Infelizmente. a instrução. o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo.

A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. como em outros campos. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade. uma melhor interação entre professor e aluno. Porém. Aqui. as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. nas primeiras séries. Por outro lado. métodos e livros. tornou-se um pesadelo na escola. infelizmente. que tinham todo o processo preparado de antemão. mas. proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados".A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. vemos como a escola veio para complicar tudo. . já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres.

psicopedagógico. analítico. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". lingüístico. vítimas da própria incompetência. o que é verdade e o que é engodo. freinet. <32> as normas pedagógicas. de acordo com os modismos da época. Os professores. achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia. atormentados com tantas mudanças. todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. não conseguem dar a formação necessária para os professores. que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. global. desse modo. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. lúdico. ditando ~. é o método sintético. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo. quer ditando as regras da burocracia. etc. sobretudo. quer. semiótico. foram experimentando todos os "pacotes". o que é certo e o que é duvidoso. fônico. Se sua competência já era muito . construtivista. Como as escolas de formação de professores para o magistério. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo.Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho.

limitada. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor. CAGLIARI. Estudar pedagogia. ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam. quer se trate de um "pacote educacional. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. é um professor malpreparado. O fundamental é saber . Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. dando as razões de sua conclusão. incompetente. que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. diante de tantas "experiências educacionais". e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos. agora além de tudo ficou confusa. metodologia psicologia é importante. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. Alguns. MAGNANI. 1992c. Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. 1993.

fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro. Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico. mal alfabetizadas.como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores. como também não . Hoje. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia. na alfabetização. Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. aliados aos de pedagogia e psicologia. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas. O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica. a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive.. teríamos. Esses conhecimentos. isso só se obtém com a competência do professor. em especial. como também pessoas que foram. não só existem milhões de pessoas analfabetas.. neste país. de fato. Resumindo. em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo.). nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética).

além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização. apenas . O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países. <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos. Nada substitui a competência do professor e. enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores.alfabetiza somente com lingüística. A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire. Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem.

aprendizagem e métodos. é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. Existe. Daí o descrédito de alguns professores na educação. apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. rever a história. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. é preciso voltar às origens. os quais. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. aos princípios básicos. e sobre ele já existe considerável literatura. ou mesmo contraditórias.uma ferramenta. retomando uma visão correta do fenômeno. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. já não sabem mais no que acreditar. às coisas mais simples e claras. bem como conhecer as limitações de cada um. em meio a tantas posições diferentes. Às vezes. Como o assunto é muito vasto e complexo. . acaba confundindo seus leitores. Para isso. no mercado. fruto da indignação metodológica. Por isso.

pode não parecer tão importante para quem aprende. como fruto inevitável do ensino. raramente. Muitos aceitariam a diferença sem problemas. . A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. de acordo com sua história de vida e. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. CAGLIARI. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. na teoria.Por incrível que pareça. para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir. 1990. O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. 1990. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente. PATTO. O que é importante para quem ensina. acompanha passo a passo a ordem do ensino. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência. etc. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. o que é um erro grosseiro.

Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. em detrimento do processo de aprendizagem. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. Ela vai aparecer somente quando a pessoa. Por isso. que um aluno automaticamente aprende. de seu metabolismo . gostam de manter classes homogêneas. sempre que oportuno e possível. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. mesmo quando o fazer significa dizer. mas criar algo semelhante. de seus interesses. Não é porque o professor ensina.No ensino. o que se faz. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. mas cada aluno deverá aprender por si. ao contrário do ensino. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos. Aprender depende muito da história de cada aprendiz. para facilitar o processo de ensino. na aprendizagem. seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. fazendo remanejamentos. Quando simplesmente se repete um modelo. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. não ocorre exatamente uma aprendizagem. a partir da iniciativa individual de quem aprende. por ação própria. entre outros fatores pedagógicos. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. é muito importante o que se diz.

por iniciativa própria. As atividades de sala de aula estão voltadas para o que . Sem uma visão clara e correta da atividade escolar. Afinal. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. antes da escola. aliás. Por outro lado.intelectual. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". não é porque um professor não ensina algo. corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como. uma classe. É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. que se aprenda com os pais. o que cada um espera do outro. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". O fato de se ter um professor. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. todavia. o que compete a cada um. com um colega. Nada impede.

Há muitos professores e profissionais da educação. pensar. tentar fazer. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. Um aluno pode ensinar ao outro.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. A insensibilidade dos professores. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. refazer. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. Infelizmente. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. Falta o professor educador que em . etc. Na maioria das vezes. os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. refletir. nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade. mas poucos educadores.

A educação. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira. é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. aquilo que os educa. depois de formados. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação. de maneira clara.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. para <38> a vida. honesta e adequada. pararam seus estudos. Infelizmente. professores que. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. no Brasil. não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. sem respeitar a individualidade de cada um. seu modo de ser e de trabalhar. Está na hora de devolver a educação aos educadores. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior. de fato. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. ou seja. Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua .

<39> DOIS MÉTODOS . O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. mas. Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais. sem escola. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. Em vez disso. de que o Brasil tanto precisa. não há escola.obrigação diária de sala de aula. e. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. Ninguém parece confiar mais no professor. São professores que sabem ler e escrever. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. Sem o professor. A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. não há educação de massa. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. Muito se fala sobre o assunto. tem-se um amontoado de leis e regulamentos. mas não usam esse conhecimento.

caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. na medida adequada. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem. Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. às vezes com conseqüências sérias. quando. saber que aprendeu. na sua essência. sobretudo. por iniciativa própria. pois cada um aprenderia por iniciativa própria. caso contrário. Nos estudos pedagógicos. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. pode-se dizer que a educação. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo. como também não pode viver só da aprendizagem. aquele que tem tudo sob seu comando. o professor não pode ser o dono da educação. Por outro lado. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. Por essas razões. A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem. tem dois métodos apenas. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . entre outras. as escolas não precisariam existir.A educação não pode viver só do ensino.

por exemplo. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. etc. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. método indutivo. Talvez por isso mesmo. método global. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. Há uma tipologia de métodos que. No entanto. no seu extremo. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2). método fônico. Em primeiro lugar. método mecanicista. apresenta-se. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. método dedutivo. no fundo. algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2. considerando os seus processos de argumentação.produzido uma vasta literatura a respeito. Por essa razão. tem as características básicas apresentadas abaixo. <40> método construtivista. como. a seguir. Toda essa discussão pode. de certo modo. São as variantes das duas vertentes principais. baseiam-se em um dos dois métodos básicos. podemos dizer que todos os métodos. o método 1 e o 2 servem .

Por exemplo. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. Na verdade. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. qual é a concepção de linguagem subjacente. com o que faz. nesse momento. em nenhuma cartilha. Não conheço. pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. que usos tem. como funciona. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino. nos métodos que a escola usa. O aluno procura sempre responder. A linguagem exerce. tendo de decidir entre o . quem ensina e quem aprende. Inversamente. tudo gira em torno dela.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem. Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos. DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. Por isso. transmitido como ensino. uma importância fundamental. na alfabetização. devem seguir um modelo prévio. esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. na prática. dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição".

Há. do jeito que acharem mais conveniente. Nenhum falante acha que fala errado. trata-se de regras lingüísticas diferentes. mas que irá atrapalhar. <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. simplesmente. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". quando as pessoas usam a linguagem.certo e o errado. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. pensam e falam o que quiserem. porque. quando falamos. o que é falso. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido". na vida real. o problema da ortografia. Ora. ainda. ou por influência da educação escolar. Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". e muito. que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia". aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. não têm esse tipo de preocupação: elas. a não ser na escola. passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor. Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia. nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função .

Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar". Nesse caso. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo.mais importante da linguagem. A linguagem também serve para comunicar. Basta refletir um pouco. ocorrem tomadas de posição. porém. é a comunicação. Quanto de enganação.. A comunicação é uma função importante da linguagem.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida. que essas verdades logo se revelam. Ora. . transmite-se uma cosmovisão. mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário. esta não se reduz apenas a comunicar. O MÉTODO 1. nem talvez a mais usada. a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação.. senão a única. Atrás de notícias encontram-se censuras. quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte.

de todas as formas possíveis. em todos os seus níveis. O método 1 considera que a melhor . dando chances iguais para todos. isso é muito conveniente para quem ensina. porque os alfabetizadores já aprenderam. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização.<42> o marco zero de uma caminhada. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. Obviamente. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor. na alfabetização. essa é a regra geral. Nas séries mais adiantadas da escola. na prática. Nesse quadro. o professor programa o que vai ensinar. é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos. mas é má pedagogia. sem sequer conhecer seus alunos. No começo do ano. dizem. A técnica A técnica do método 1. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. Os alunos que se virem. Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. que alunos vão ter. que não podem ser tão cegos assim. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um.

tem-se BA. Por exemplo. a palavra é remontada. TA.maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. Com esses pedaços. e que sabem juntar os pedaços de palavras. Com alguns pedaços de palavras. parte-se sempre de um modelo exemplar. pode-se descobrir que é possível formar palavras novas. ou montando coisas novas a partir de pedaços. Depois. Em seguida. Nesse caso. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons). formando "palavras . "bata" e "taba". Assim. extraídos das palavraschave. no primeiro exemplo. Por exemplo. Feito isso. pode-se formar as palavras "Tatá". TA. uma palavrachave. As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. segundo o professor. escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". desmontando BATATA. mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. por exemplo. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). diferentes das palavras-chave.

quem deve saber essas coisas é o professor. alguns professores. A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda. liga os pedacinhos de letras para formar palavras. mas não sabem de seus limites e usos reais.novas". no segundo caso.). achando que o professor. porque além de tudo aquilo que não entendeu. Aprendem o jogo da escola. que sabe tudo.. não ele. apenas uma estratégia de ensino escolar. E. Por mais estranho que pareça. vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. diante de fatos como esse. porque seguem apenas as regras do jogo.. as crianças ligam os pedacinhos. foi mais por culpa do professor do que dele. Ele apenas faz a lição. forma-se uma palavra nova. que diz que. saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa". . Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita. Na linguagem oral. o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. porque o método não ensina isso. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias. se aconteceu. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. juntando dois pedaços de palavras. que a criança nunca tinha ouvido. isto é. como sabia antes o que significava "taba".

para que os alunos aprendam a ler. não porque falamos desse modo. Dominado ou aprendido algo. que deve ser aprendido. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. Na escrita. ou seja. fazendo pausas apenas em alguns lugares. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças. de fato. Aprender é dominar. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. A base desse . Por outro lado. Ora. separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. uma após a outra. passa-se ao conteúdo seguinte. Não falamos fazendo pausa após cada palavra. A base: o já dominado Com o método 1. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. as quais o aprendiz precisa dominar. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos.falamos tudo junto.

O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. e. Esses professores mostram que usam o método 1. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. Nesses casos. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. acabam revelando sua ignorância. Para isso. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. embora garanta. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. sim. produzindo escritas absurdas. Portanto.método é. o conhecimento já dominado. Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. enquanto não provar que já o faz. Conseqüentemente. pois. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. Por exemplo. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. mas tãosomente o comportamento do aprendiz. repetindo-a corretamente. decorar é fundamental. Na alfabetização. nunca se questiona o ensino. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado. fazem sem erros os . dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem.

para o aluno. No processo de . Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado. não chegam <45> a se alfabetizar. como se decifra algo escrito para ler e. como acontece no método 1. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. principalmente. Esses alunos foram ensinados pelo método 1. mas não pode ser um truque. o já dominado apenas revela um modelo repetido. mas. quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. e o resultado é uma enorme decepção para ele e. Neste.ditados das palavras já dominadas. O uso da memória O uso da memória. conseqüentemente. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. A memorização é fundamental no processo de aprendizagem. ou não fazem nada. nas atividades escolares. logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho).

e de que aprender é entender e não decorar. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. isto é. convencem-se. palestras ou lêem em livros. de que a memória não tem vez na aprendizagem. a memorização faz parte do processo de reflexão. como se esperaria de alguém que tem bom senso. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável.aprendizagem. como acontece com a prática pedagógica do método 1. São duas realidades muito diferentes. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. Memorizar é fundamental. alguns professores. Por essa razão. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas. Outras vezes. querendo fugir desse esquema. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. o . disposto numa ordem necessária. Às vezes. São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido. Obviamente. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente.

No entanto. É claro que alguém precisa aprender a ler. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. E difícil. No entanto. utilizada pela educação nos currículos escolares. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. por exemplo. tais afirmações são tão gerais. Isso acontece porque partem do pressuposto que . é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente. mesmo em sua forma sistematizada. Será que as coisas são mesmo assim. que não se aplicam ao que se quis dizer acima. para o processo de ensino. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros. a organização hierarquizada é uma atitude esperada. até certo ponto. e talvez seja mesmo impossível.

<47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores. A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza. não há nenhuma palavra fácil. "balde". tudo é difícil. e não ao processo de alfabetização. Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza".escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. aconselho estudar árabe. "estender" ou "extensão". O aluno que fala "drentu". mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. "andano" ("dentro". Para quem duvidar disso. Ledo engano. achamos difícil escrever. porque erramos menos a ortografia com elas. Na verdade. A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática. Para ele. Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. qualquer palavra. qualquer palavra é igualmente difícil. "andando") tem uma dificuldade . por exemplo. Para uma criança que não sabe ler nem escrever. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. "bardi". no começo. esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles.

muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. mas. suprimimos o I: "rapaz". "acharam". mas que deve ser escrito: "toda amiga". a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. seria o de Z. "acharu". e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. por estar entre duas vogais. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram". de CH ("lixo") e de Z ("exame"). em palavras como "caixa". na hora de escrever. Por outro lado. mas. separar fatos da fala dos da escrita ortográfica. Dizemos "rapais" ou "rapaich". poderíamos escrever "esterno". pois. é comum não se pronunciar o I . o som da letra S. um aluno fala "fizeru". Além do som de S. O que há de diferente é o uso das letras na escrita. se escrevêssemos "prósimo". Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. De acordo com as regras de nossa ortografia. o que é um absurdo. uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo". nesse caso. Por exemplo. É preciso.

jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X. mas não de fato. mas precisaram ir além. quanto para quem aprende. tanto para quem ensina. Como o ensino é completamente hierarquizado. cobrando a mais rigorosa e constante avaliação. porque A é mais fácil do que X. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados. estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. do mais fácil para o mais difícil. é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe. o resto não faz sentido. Na verdade. E a lista é longa. . desenvolvendo-se passo a passo. Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. que realmente são armadilhas para os alunos. em todos os ramos do saber. Esses casos. mas não se pode deixar de escrevê-lo. Fáceis e difíceis "aparentemente". Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito.que vem junto com o A.

àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. não o que ele aprende. o que conta são os erros e não os acertos. ganha nota cinco. Isso é tão ridículo. aqui. Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. Na avaliação. E as outras coisas que . sobretudo para as crianças na alfabetização. O aluno escreve urna história de dez linhas e. mesmo que tenha. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas. o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. prevista pelo método 1. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. voltando àquele zero inicial. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. A avaliação. de repetir o ano todo. até demonstrar que já dominou. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. no final do ano. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. para que o ensino possa dar um passo adiante. só porque cometeu dez errinhos. Se não houver uma avaliação rigorosa e constante.

visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. tem de voltar atrás e repetir a lição. naquele momento. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. como se escreve uma palavra. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação. passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. na alfabetização. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. na verdade. O aluno não aprende fazendo ditados. Não é pensando que ele vai descobrir. e em nada contribui para a aprendizagem. A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. que os ditados. fazendo aparecerem erros. o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. e o resto que fez e fez bem. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente. O ditado. que já dominou um certo conteúdo programático. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada.escreveu certo. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na .

a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações. em geral. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. sobretudo nas classes de alfabetização. Mais raramente. Fora isso. na tradição pedagógica de nossas escolas. Simplesmente ensina-se o certo.mente do aprendiz. a solução que adota é ignorá-lo. Nesse caso. tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo. O que fazer com o erro No método 1. o erro é um problema que o método não sabe resolver. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. Por isso. Há. Por que as crianças fixariam . discutir o erro. como naquele momento da avaliação. Repetir e repetir é o que manda o método 1. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. ela automaticamente sabe e. e existe outra memorização que é . A fixação da aprendizagem. não pelos efeitos. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. seguindo um processo de reflexão. o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos. Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender. Em muitos casos. no método 2. não precisa "fixar". a vida toda. e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. não sabe. revelando as decisões que os alunos tomaram. como acontece com o método 1. Nesse caso. E ninguém fica perdido no meio do caminho. o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas.chegassem. Quando uma pessoa entende algo. sabemos como operar com certos conhecimentos. caso contrário. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor. portanto. é o outro lado da moeda da reflexão. Isso também é saber.

escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia. para isso. No caso do método 2. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. No início. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. mesmo que. mas sacrifica-se a produção de textos reais. Salva-se a ortografia nos cadernos. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. Nessa fase. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. Porém. para a habilidade de . o aluno aprende primeiro a ler. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar.simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. o uso real da linguagem. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. de produzir textos orais. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas.

Aos poucos. quer na sua manifestação escrita. salva-se o uso real da linguagem. como se pode notar pelas observações anteriores. de muita leitura. O aluno. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. No começo. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. Todavia. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação. ficará perplexo e não saberá. com a ajuda dos dicionários e. o processo educativo depende do . de imediato.produtor de textos escritos. quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever. A culpa será atribuída ao professor de português. no início. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. Com a produção de textos desde o início da alfabetização. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. o que há de errado. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. principalmente. no entanto. Porém. Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. será uma simples transferência do oral para o escrito. quer na sua forma oral. Tem-se a impressão. e este. por sua vez.

Isso parece óbvio e natural para muitos professores. paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. Os dois métodos podem alfabetizar. O método 2 exige experiência e competência do professor. acostumados com essa prática.método adotado. Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. No entanto. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. <60> 3 Avaliação. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. embora aparentemente adequada. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. ou seja. promoção. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção.

porque se poderia contra-argumentar. CAGLIARI. a questão central não é essa. para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. entre outras razões. portanto. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. facilitando. Este último argumento é o mais comum para . Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. 1996e. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. Certamente esse argumento é um contra-senso. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte.que o professor faz para ensinar. Na verdade. Na verdade.

compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis. que jogava mal. como um jogo social. se no último minuto o adversário. mas não sem razão. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. Os professores dizem que. sem as notas. mas um nocaute basta para qualquer . Curiosamente. de acordo com qualquer parâmetro. ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. contam-se pontos. faz o gol da vitória. abrangendo todas as atividades. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho. Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. No boxe.justificar o uso de notas e conceitos. Como a escola educa para a sociedade. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". A necessidade de dar e receber nota tomou-se. com o tempo. a exemplo da tradução do título de um filme. Como o objetivo é muito claro.

dos estudos? <63> . da escola. é outro: será que os alunos. quando estudam. estão participando de uma competição. ou seja. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. funcionam bem quando se trata de classificação e. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. porém. da série. simplesmente. Em algumas escolas. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação. refletindo um julgamento de valor. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. Nosso problema. sobretudo. da educação. as notas servem também para indicar o campeão da turma. Como se vê. Neste último caso. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. As notas. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. Nos concursos de seleção. as notas estão por toda a parte.lutador vencer. o melhor de todos. Nesse sentido. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva.

E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. Nas escolas da . Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar. a partir da capacidade de cada um. é comum haver competição. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar.Na prática. com mais arte e perfeição do que outras. fazendo determinadas tarefas. O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima. logo fica evidente que algumas fazem melhor. Na vida. pela própria natureza das atividades da escola. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar. o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. Quando se reúnem muitas pessoas.

É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual.Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre. Ou seja. principalmente no que se refere à ortografia. Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar. do jeito que era ensinado. . testes e exames. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo". as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. deixando de lado as opiniões individuais. Basta fazer uma análise de provas. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho.

servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação. No caso. o que significa que.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas. julgadas inaptas para o trabalho escolar. a não ser em casos muito excepcionais. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. por exemplo. Certamente. Assim. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. depende da avaliação. seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola. a pelo menos metade das aulas. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição. . Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. Aliás. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. no fundo.

faz menos sentido ainda falar em reprovação. O aluno estuda não porque é importante para a vida. Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto. expresso por notas ou conceitos. mas para livrar-se de mais uma competição intelectual. Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. não é razão suficiente para reprovar alguém. num plano secundário e mesmo dispensável. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. Nesse caso. Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. no sentido pleno da palavra. deixando a idéia de formação. a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu. Em primeiro lugar. embora haja muito mais a ser dito. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova .

queimar livros e tratar de esquecer a escola. que fazem questão de se esquecer de tudo. então. A educação precisa modificar sua visão de si própria. Num país como o Brasil. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos. talvez. Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. A avaliação não volta atrás. como aprimoramento pessoal e profissional. porque a nota já garantiu a promoção e. até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa. O tempo da avaliação é irreversível. A qualidade do ensino se . De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua.como se resolve uma questão? Mas. não para a nota. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. depois de terminada uma prova. quantos alunos chegam mesmo a dizer. já não há mais tempo. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. Por outro lado. mas ao longo da vida. dizer isso é uma piada. como irremediável é a nota. E preciso educar para a vida. uma vez que piorar o ensino é impossível. entre outras coisas.

alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade. eles estudam um pouco. . desde cedo.consegue com um trabalho <66> competente. Outro argumento. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno. Ainda nessa linha de raciocínio. passa a ser avaliado como alguém irresponsável. quer na ação do professor como educador. que gosta de matar o tempo. se não houver provas exigentes e notas baixas. não culpados. uma outra perspectiva de trabalho escolar. E nada disso tem a ver com notas. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles. fica sem controle. Professor que não faz isso. Se o professor nunca passar uma prova. os alunos não estudam. Os alunos são vítimas desse processo. quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa. Pelo menos com medo das provas.

Em troca. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para . um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias. Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. Por fim. O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. Com o aumento das irregularidades de comportamento. se sentirem humilhados e castigados. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas. os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem.encontraria. três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. o professor se volta de novo contra os alunos. nas provas e notas. usando sua arma terrível que é a nota. Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar.

mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras.responder direito e de maneira completa. duas questões de resposta fácil. estão ensinando seus alunos a estudarem direito. Como vimos. Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota.. aluno por aluno.. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação. Acreditam que. por fim. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não. Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. não obstante. e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. uma perda de tempo. a não se deixarem enganar pelas aparências. dessa forma. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. mas o próprio fato de dar . Gostaria. e a mais honesta.

o professor achava que estava tudo errado. ou "piçoa" em vez de "pessoa". O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho". o que dá uma porcentagem de 3 1. dizendo que havia apenas uma palavra certa. Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho"). a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros. (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos.57% de erros contra 68. constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido. Na verdade. Analisando. mas da qualidade dos erros.notas. porém. Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos.43% de acertos nesta frase. uma das mais problemáticas do texto. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano.) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros.

trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe. A avaliação é uma atividade importante. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro. também a avaliação não precisa delas. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. Não é porque o professor ensinou algo.alunos acertam. O importante é que todos cresçam. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. uniformizante. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. começariam a ver as notas com outros olhos. O erro é sempre muito chocante. Somente aquele tipo de ensino massilicante. AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. sobretudo nas primeiras séries. é desconhecer a realidade de cada aluno. O professor também deve se auto-avaliar. porque cada um é diferente dos demais. que todos os alunos . Na escola. Assim como a promoção não precisa de notas. cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. em que o professor manda e os alunos obedecem.

Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. não para passar de ano. alguns sob orientação direta do professor. A escola precisa trocar as provas. aplicado à solução de algum problema. Em vez de boletim de notas. uma reprodução do modelo apresentado. Não é porque o professor ensinou. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida. por trabalhos que os alunos irão fazer. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. depois de uns tantos meses de aula. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes. fica muito fácil para o professor provar. No final do ano letivo. outros por iniciativa própria sob a supervisão dele.aprendem do mesmo jeito. para quem quiser ver. na forma de provas ou chamadas. como um aluno começou sem saber muito e. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. e se esses trabalhos forem guardados. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. Nesse clima pedagógico. enfim as notas. o . nesse arquivo. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. os testes. o próprio aluno poderia ver. em primeiro lugar.

servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor.professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. Com isso. durante o ano escolar. além de ajudá-lo. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer. como também para julgar . levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias. porém. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. Esse tipo de avaliação. quando <70> realizam suas tarefas. Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho. paralelo a tudo o que se faz.

tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber.o que os outros e o que elas próprias fazem. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas. quando um aluno é promovido. O aluno na série seguinte Se todos os professores. Quais serão esses erros. mas também os demais. . não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. que o aluno errou o sujeito da oração. partirem da realidade de seus alunos. em vez de reclamar do colega. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano. no começo do ano. Portanto. Mesmo hoje. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. por exemplo. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou. o professor do ano seguinte. que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. incluindo não só os da alfabetização. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. Analisando friamente. apesar das provas e das notas.

Tal reprovação. Por causa de um predicativo do objeto direto. 1993c. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho . além de causar danos emocionais nos alunos. Como avaliar essa avaliação. os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. muitos alunos já foram reprovados. um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. Na alfabetização. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. não soube resolver um binômio de segundo grau.mesmo.

Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras. O processo de aprendizagem não funciona assim. Muitas vezes. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais . E se o aluno vai mal na prova. Ora. pode ficar condenado a não aprender nada.do processo de aprendizagem. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo. Por isso. mas somente para promover ou não o aluno. Agir assim requer uma mudança de atitude. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos.

que muita gente passou a ter. de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. Ninguém pode reclamar disso. pesquisando. e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o . Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. dentro de suas possibilidades. não pode dar outra nota senão 10 ou A. fazendo todo tipo de atividade escolar. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. sem mencionar a tradicional queixa dos pais. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. ele pode até agir assim. mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos. e não através de provas e testes padronizados.profundas do educador. Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus).

como deve estar. mas alguma coisa eles aprendem. É algo sério. < CAGLIARI. os alunos aprendem. Na alfabetização. isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. sem . e isso basta. uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende. Infelizmente. esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. considerando uma tarefa do professor. 1998a. que precisa ser feito com responsabilidade. é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. Quando o professor ensina com competência e seriedade. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria. Todos eles aprendem alguma coisa. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. Estudar é outra coisa. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa. se um aluno não aprendeu a ler. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias.processo escolar.

Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. de vez em quando. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. Por causa da variação lingüística. Para os piores. As escolas costumam fazer seu planejamento. recomenda <73> uma mudança para a classe especial.ligar para o que acontece com seus alunos.) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico... sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o . no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas. Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários. Para os repetentes incorrigíveis. especialmente se for na primeira série. levando em conta as principais áreas da lingüística moderna. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau). a única solução que visualiza é a evasão escolar. O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. Então.

num primeiro momento. cada um do seu jeito. usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. o seguinte: . Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser. no seu dialeto.certo da norma culta e o errado das variações dialetais. 74 CAGLIARI. para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. Entretanto. chama-se epilingüismo. Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. usam a linguagem. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem. Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria. 1991a. como têm demonstrado os lingüistas modernos. por exemplo.

1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. . 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística. treinar o aluno na produção de textos espontâneos. explicar como funcionam os sistemas de escrita. Visão geral da aquisição da linguagem oral. Produção de textos de natureza diferente. como cartas notícias. etc. Produção de textos orais e escritos. Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão. Leitura de lazer e de pesquisa. sobretudo a ortografia. Produção de narrativa orais e escritas . Primeiras noções de variação lingüística. História da escrita. Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. Introdução de noções básica de fonética e de fonologia. Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão. Autocorreção da ortografia. 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização.

Leitura de romances. Leitura de lazer e de pesquisa. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos. lJabaibo com contos e pequenos romances. Cuidado especial na produção de textos orais. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. por exemplo). dos usos da linguagem oral e escrita. Noções básicas de sociolingüística. Apresentação das línguas indígenas brasileiras.Exploração de textos literários. Introdução à teoria da literatura. 5º ano Estudo de morfologia. sobretudo poesia. ou seja. Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. 6º ano Estudo de sintaxe. 4° ano Estudo mais sistemático de fonologia. Leitura literária orientada. Leitura de lazer e de pesquisa. ou seja. Produção de textos mais sofisticados. Introdução à . regência e concordância. Produção de textos oriundos de pesquisas. Produção de textos orais e escritos.

a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual. interpretadas agora segundo uma teoria e . Diante de um quadro como esse. tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. Produção de textos literários e científicos. podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas.análise literária. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau. o que deverá aprender no primeiro ano. Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. artísticos e de autores famosos da literatura universal. Estudo da história da língua portuguesa. linguagem e pensamento). percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. História da literatura. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional. Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. História da ortografia. Leitura de textos científicos. interação lingüística. No ensino médio (segundo grau). Como verá coisas diferentes a cada ano. num trabalho metalingüístico.

O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. No terceiro grau (graduação).formando uma gramática moderna descritiva da língua. . haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. com vistas a um estudo crítico de teorias. através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores. tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. não importando os erros de ortografia. a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado. deve ensinar o aluno. a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia. Depois. Em termos mais específicos. Na pós-graduação. desde o primeiro ano. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística. • Produzir textos espontâneos.

Basta fazer um trabalho sério. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo). Por outro lado. Como se vê. A escola precisa saber lidar com as diferenças. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante.• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. • Participar das atividades escolares. que não precisará de provas. • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas. a escola não pode fugir à sua missão. notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras. testes. • Preparar e ler um texto no dialeto padrão. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos. de modo a eliminar os erros de ortografia. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. competente e constante.

Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. principalmente nas primeiras séries. mas normalmente farão outras coisas. podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. que infelizmente proliferam em nossas escolas. Lugar de estudar é na escola. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. Isso é um absurdo. as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. Em casa. se não fizer isso em casa. e seus pais. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa. em geral. sobretudo brincar e se divertir.fraca e ruim. A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. depois de um dia de trabalho. lugar para brincar e lugar para estudar. . Criança precisa se divertir e. elas tornam-se um absurdo. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente. não há livros. Nas escolas públicas. fará na escola. onde os alunos pobres estudam. Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar.

o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. geografia. o professor não pode passar tarefas todos os dias. A medida que vão crescendo. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. Isso é tarefa exclusiva da escola.Mesmo em séries avançadas. sobretudo para provas e exames. é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições. ensinando aos seus filhos matemática. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições. E. como achará tempo para estudar. mais importante. . Por outro lado. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa. do que gastar muito tempo de vez em quando. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. Mas. para que isso aconteça. nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar. já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. diminuindo.

sem nota. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. sem diploma. sem prova. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . sem professor. aluno. estudando e trabalhando fora da escola. mas para estudar o que ele.Pelo contrário. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. não para dar satisfação ao professor. depois tornou-se uma tabela de letras. escolheu para si. pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal. o aluno poderá fazer o mesmo em casa. Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. numa ordem crescente de dificuldades. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário.

Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação). Alguns chegaram até a publicar esse material. livrinhos de histórias. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. Tempos depois. compram. não querendo adotar uma cartilha. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho. uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas. baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos. os quais. dedicada ao período preparatório. atendendo a pedidos de professores. fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. Mesmo quando. Os próprios órgãos encarregados da educação. compram. que. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. em substituição. todos os anos. ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. Muitos professores fizeram sua própria cartilha.desmontar e montar palavras. recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. por alguma razão. alguns professores deixam de usar as cartilhas. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos .

Por essa razão. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. Como é constituído de letras. agora de maneira muito mais confusa e difícil. <80> principalmente. Como as letras representam consoantes e vogais. o que pretendem e. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. sem cartilhas. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. o que propõem. . A opção por um trabalho alternativo.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. exige. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. como propõem. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. a habilidade e o bom senso de alguns professores. que se conheça como elas são. ou seja. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. o que deixam de fazer. antes de tudo. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização.

nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. apresenta-se um resumo. ilustrada com um desenho. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. No entanto. escritas com elementos já dominados. Em seguida. Depois. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. segundo algum critério escolhido pelo autor. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. e destacam a sílaba geradora. Geralmente. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. No fim. em que o alfabeto pode estar ou não presente. do mais fácil ao mais difícil. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. em que se emprega o princípio acrofônico. a cartilha acaba num texto. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. aparecem os exercícios estruturais em que . que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. Vêm abaixo algumas palavras novas. Na verdade. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. mais elementos novos introduzidos na lição. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu.

esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. Na verdade. . que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. a habilidade e o bom senso de alguns professores. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. ou seja. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. o que deixam de fazer. nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. No entanto. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. Como as letras representam consoantes e vogais. em que se emprega o princípio acrofônico. Como é constituído de letras.palavras <81> principalmente. Por essa razão. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu.

Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. em que o alfabeto pode estar ou não presente. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. do mais fácil ao mais difícil. apresenta-se um resumo. um pequeno "texto" para leitura. Há. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. e destacam a sílaba geradora. Geralmente. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. Vêm abaixo algumas palavras novas. a cartilha acaba num texto. aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. Em seguida.essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. segundo algum critério escolhido pelo autor. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. No fim. Ou. escritas com elementos já dominados. cópia e ditado. Depois. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo". então. e que pode servir também . mais elementos novos introduzidos na lição. ainda. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. ilustrada com um desenho.

As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. Ora. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida. de letras.para exercícios de interpretação de texto. além das tradicionais cópias. a linguagem tem esses aspectos. uma quantidade enorme de atividades. Em geral. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. tudo muito bem ligado. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases. representados pelas . até propostas de representações teatrais pelos alunos. que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. Como se disse antes. Nas lições mais adiantadas. uma sílaba. Recheando esse esqueleto. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem. elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra.

Com relação às diferenças. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. portanto. No fundo. Analisando esses três pontos. algumas não causam estranheza. pois. pois são aceitas socialmente.sílabas e unidades geradoras. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos. a escrita e a leitura. a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. interpretadas de maneira preconceituosa pela . que não usam a norma culta da língua. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. para elas. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização. porém. que apresentam semelhanças e diferenças. como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". Ora. e que são. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. ficando apenas com o que há de mais superficial. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. diferenças que representam a fala de pessoas pobres. A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala. Há.

fala seguindo seu próprio dialeto. de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. "dobrar". percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. "drobar".sociedade como um modo errado de falar. em vez de "dentro". Ou seja. desde o começo. O aluno vai seguir as lições da cartilha usando. Obviamente. etc. recebendo dos professores inúmeras correções. usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. Exemplos: "drento". acompanhadas ou não da zombaria dos colegas. esse . Como não domina a norma culta. quase sempre lidando com questões muito fáceis. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual.

mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu". nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto). etc. Quando o professor se esquece de que está passando matéria. Um professor. seguem alguns exemplos. <83> Por ser um dialeto artificial. para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. "póte" e não "pótchi". "alto" em vez de "autu". fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula. exige que o aluno . Para ilustrar o que ficou dito acima. "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). sem vida na sociedade. etc. pronunciando "balde" em vez de "baudi". pronuncia todas as letras L com o som de L. que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. de fato.modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é. a ideal. Do mesmo modo.

"uzómitrabaia". "batata". Esquecemse. "pranta". etc. farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. "drobar". falar palavras como "casa". por sua vez. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". Esses professores acham que. no entanto. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. procedendo assim. não sabe como se escrevem as palavras e. mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. . Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. 1990. não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa. Ortografia se aprende de outra maneira. conseqüentemente. Para esses alunos. que a maior dificuldade dos alunos. porém.leia "tudo" e não "tudu". XAVIER & MATEUS. etc. de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra. é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. O método das cartilhas não leva em conta. O aluno.

Porém. porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . para ler. Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante. sobretudo. Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada. aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. com conseqüências como pedantismo e preciosismo. como falantes nativos. A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida. a escola destrói essa habilidade já conquistada. Tudo gira em torno da silabação. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. de quem fala assim. e. bem-articulada). justamente porque. descaracterizando a fala natural. Ao fazer isso.

porém. E uma pena. ignora esse fato e. <CAGLIARI.grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. A cartilha. É muito importante passar da . a não ser através da escrita ortográfica. Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. aos poucos. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. Depois de certo tempo. 1989b. nesse momento. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. Elas observam demais a própria fala. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. as crianças têm. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. a própria fala. como única referência de conhecimento já adquirido. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem.

habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto. Eles acham que os alunos têm problemas . muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. eles representam um único som. a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. na verdade. Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata". como se pode comprovar. porque confundem fatos da fala com fatos da escrita. Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. em particular com relação à fonética. observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). como aquelas relativas às famosas trocas de letras. Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando. Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada. Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X.

apesar de todos esses problemas. de quem eles tanto reclamam. Se podemos ter um . Acontece. A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). exatamente como fazem seus alunos. que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. Não sabem se existe ou não um I depois do X. como. que não são capazes de memorizar diferenças elementares. B por P. os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem. etc. E isso. <86> trocam V por F. por exemplo.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização). que não sabem observar corretamente as letras. é verdade. Z por 5. Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que. é necessário admitir. exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. como as pronúncias de "vaca" e "faca". porém. Em primeiro lugar. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos.

1984b. 94-117. como antigamente). Tudo na cartilha gira em torno da escrita. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990. na sua essência. Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura. é oral. os . por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua.ensino decente. p. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola.

constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. sem passar pela organização da linguagem humana. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. portador do pensamento lógico e literário. ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. perfeito. então. <87> a qual. na sua essência mais profunda. A palavra .estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. uma linguagem cheia de erros e falhas. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. gire em torno dela. pior ainda. A escrita requer decifração para ser entendida. passou a ser considerada algo nobre. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo. A escrita. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. no processo de alfabetização. deselegante.

tirase o significado total do texto. a qual. fica tão marcada na formação dos alunos. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela. no entanto. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. porém o que vale não é o texto em si. junto com as lições. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras. a palavra é o centro das atenções da cartilha. Do significado de cada palavra. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana. mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. a palavra. Na verdade. Todavia. . escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. Desse modo. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. como unidade lingüística. A cartilha foi além: não só assumiu isso. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida. seguindo os padrões da escrita. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita. o que é falso. Podese até ter uma frase ou um pequeno texto.Sem dúvida alguma.

etc. como nas palavras an-jo. Finalmente. cam-po. Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber . Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. Assim. <88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. elaborados por "razões pedagógicas". para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. Como resquício do princípio acrofônico. cada família recebe uma palavra-chave. constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. do prá-pré-pri-pró-pru. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). etc. e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem. como a família do chá-ché-chichó-chu. que servirá de recurso mnemônico. é claro. serão organizados em famílias. As cartilhas apresentam os piores textos. pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. Esses pedacinhos. estudam-se primeiro as famílias mais simples. Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu.

. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). etc. e abcçdefg. que é o fato de existirem alfabetos diferentes. um compromisso com a verdade do texto. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados.imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. <MASSINI-CAGLIARI.. 1997a. nesses casos. Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e. como ABCÇDEFG. nem com a coerência discursiva. o essencial. o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes... passa despercebido. > Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". com os pronomes substituindo nomes. às vezes. No entanto. advérbios. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz. Certamente. Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho .

menor do que uma letra minúscula. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. a letra de . A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva. porém. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. Para quem está aprendendo. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes. é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros. depois de certo tempo. pessoas já alfabetizadas. E a cartilha não explica isso. nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. porque não é o tamanho que conta. mas isso pode ser um processo longo e difícil. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. ou seja. Também é verdade. Os alunos acabam constatando por si. Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. mas a forma gráfica.

A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas. facilitando uma escrita rápida. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores). uma vez que. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva. se os alunos começarem a . A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. a escrita deixou de ser feita à mão. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. dificulta o trabalho de leitura. Apesar disso. sendo mais difícil de elaborar. Alguns professores acham que. freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais. por outro lado. que. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras.

O aluno pode até constatar que há uma diferença na . Como ela deforma certas letras quando agrupadas. "v". <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva. em palavras como TV e TIA. e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s". seguida dos de uma letra — A. que a letra "A" é formada de um "C" e "e". Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. igual para todos. — etc.escrever com letras de fôrma. na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I". Ou. não vão aprender a escrever com letras cursivas. distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". É por isso que um aluno pode pensar que. redondinha. fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. ainda.).

Escrita sem sistema . Por exemplo. etc. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada. o professor está pensando na ordem das letras nas palavras. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. Afinal. Quando diz isso ao aluno. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. que também varia. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral. Porém. um caso sério para a medicina resolver. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa. Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente.altura da "perninha". esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. em início de palavras. esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita. por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares.. de caso para caso. C.

horas depois vai ao banco. O professor pensa que ele está "doido". escrevem — fazendo rabiscos. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. que concluiu que seu aluno era "doido". até que o aluno passe por todas as lições. orgulhase de ter uma assinatura exótica. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. Esse mesmo professor. pelo contrário. vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. podendo. em geral becos sem saída para si e para o professor. a natureza. toda aventura . o trabalho prossegue. em momento algum. ao ser indagado. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu. cheia de rabiscos. O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. Pelo contrário. nesse meio tempo. sobretudo porque. ganhar seu famoso diploma de alfabetização.Como a cartilha não apresenta nem discute. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. O aluno. É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. então. a função e os usos dos sistemas de escrita.

a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. a não ser o que já tenha estudado com o professor. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa. mais adiante. no mesmo momento. da mesma maneira. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O. como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. a decifração. <92> . A cartilha pensa que ensina a ler. por essa razão. Somente depois de terminada a cartilha. depois. copiam as primeiras frases e. os primeiros textos. e o erro pode ser irremediável.individual pode levar ao erro. finalmente. Antes de chegar a este ponto. os primeiros textos. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. e os cinco sons do X. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. A cartilha jamais discute a leitura em si. Por isso. ninguém pode escrever nada. deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização. por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras.

Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos. os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. feita com pictogramas ou com caracteres convencionais. para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade. conferindo.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. Seria interessante apresentar ainda. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . mesmo que sumariamente. pelas cartilhas. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa. Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. conseqüentemente. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. assim. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. Em particular. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. na alfabetização.

como funciona. como se decifra uma escrita com letras. depois. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. não se escandalizaria diante dessas dúvidas. parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . sem medo de ter dúvidas. Às vezes. o que são letras. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. para corrigir os textos que produzem. que sempre escrevemos. familiar. porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. para tirar dúvidas. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. de perguntar. ela precisa ensinar os alunos. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. a aprender a escrever e. a escrever de acordo com as regras ortográficas. o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. Para isso. primeiro. A escola precisa explicar o que é ortografia. A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum.com as letras do alfabeto.

Mas esse ponto terá um tratamento especial. de acordo com o nível de escolaridade. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum. Quando chega o momento da leitura. dizendo. "le-a-la. mais adiante. especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. refletir. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras. a leitura também fica prejudicada. mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita.palavras. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. E é só o que os livros apresentam. alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . E quando não se sabe como se escreve uma palavra. pois depende crucialmente da escrita. não adianta pensar. Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita. por exemplo. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto.

Todavia.). . com o tempo. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas). mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. uma depois da outra. na alfabetização. como deveria ser a leitura. em que o aluno gaguejou. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição. composto só de palavras já estudadas. pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência. quando acabam de ler um texto. sem cobranças. não raramente ocorre que. decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo.. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. ele precisa decifrar a escrita com facilidade. a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. não são capazes de lembrar o que leram. o que. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas. nos primeiros meses de alfabetização. Para um aprendiz ler em voz alta. parou para pensar. se já dominou um determinado conteúdo ou não. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação.letra por letra. não está ao alcance da maioria dos alunos. Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro.. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. é quase impossível que um aluno.

Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta. não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido. Alguns professores. Por exemplo.A cartilha usa. Mais uma vez." Ora. a cartilha meteu as mãos pelos pés. reduzindo suas aulas a essa atividade. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade. bons leito res. passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos. Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a. A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. já que o aluno mal sabe . se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó"... Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. Essa atividade é a interpretação de textos. que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos". achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial. ainda.

acabam se esquecendo de coisas já vistas. O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda. quando o aluno erra. ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos. Por outro lado. estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem. esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. Como tudo vem rigidamente em seu lugar. deve voltar atrás e repetir a lição. porém. Alguns deles merecerão aqui um destaque. escrita e leitura. Acontece. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. e isso gera . uma vez que o resto "já foi dominado". baseado na idéia dos elementos já dominados. que à medida que os alunos avançam.ler. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem.

de fato. de número e de graus das palavras. nesses exercícios. sobretudo. apenas exercícios como "faça segundo o modelo". exercícios de identificação de categorias gramaticais. como ainda induzem os alunos a errar. como falantes nativos da língua. de "tio". coisas que.uma enorme confusão na aplicação do método. escreve "tioa". a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. Esses exercícios tratam. O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. conhecem perfeitamente. esses exercícios não só não ensinam nada. Como não há explicações sérias. ainda. julgando-se incapaz nos estudos. Para muitos alunos. Assim. A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais. parece mais natural que o . Para alguns alunos. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre. Há. onde começarão tudo de novo. de gênero. nota-se que muitos alunos erram. esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. Resumindo. um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia".

Para tudo. Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. deve haver uma história e. Para elas. porém. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica. . "macacão" é um tipo de roupa. quando vão para a escola.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). Por se tratar de crianças. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. figuras. Então. se possível. mas a um lugar sério. definitivamente. evitando um tratamento sério. indireta. precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia. mas não "macacão". sabem que não estão indo a uma festa. Tudo precisa vir acompanhado de gravuras. as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. sílaba virou "pedacinho". cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. uma musiquinha para cantar. com muito colorido e enfeites. preciso e direto das verdades que se devem ensinar. objetivo.

avaliação com promoção. favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. úteis para a vida e. partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. portanto. os alunos dizem "a letra do chifre". e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. às vezes torna-as levianas e comodistas. apresentadas apenas como pretexto pedagógico. na maioria das vezes sem nenhuma graça. porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U. O excesso de histórias. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. As letras não têm nomes: em vez de U. e o que saiu errado precisa ser refeito. Elas têm essa consciência da seriedade. com os remanejamentos de alunos para classes especiais.onde se aprendem coisas sérias. importantes. a letra o é "a letra da boca". Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. até acertar. O diferente é combatido e não pode existir na escola. O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos. não obstante. A escola. As diferenças individuais não são .

que é difícil ensinar a ler e a escrever. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. A uniformização é um imperativo. bons para adestramento. por isso. mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento. segundo manda o figurino. para uma livre iniciativa. formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho. Os professores sabem. por experiência própria.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. para a criatividade. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. para condicionamento. iguais para todos. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. Na cartilha. para continuar com as características próprias. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. tudo vem pronto para o aluno. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida . nem nos manuais de professores. Por essa razão. nenhum erro será objeto de estudo. não encontramos nas cartilhas. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma.

Por falta de espírito crítico. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. seguindo o próprio livro didático. um grande livro didático. < CAGLIAR!. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. Há ainda o interesse econômico. A única saída é repetir tudo de novo. 1985b e 1986b. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. de fato.mostra claramente que o método não funcionou. que tem feito das cartilhas . de preferência. com métodos excelentes de alfabetização. da mesma maneira. a saída da escola é a solução para o problema. <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. os chamados "alunos carentes". se possível. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível. comprovados desta e daquela maneira. escolhendo. E se não se corrigirem. remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem. muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas.

Para um bom trabalho de alfabetização. sobretudo. analisando a história e os métodos de alfabetização. sobretudo nas es colas públicas. SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro. Em primeiro lugar. esquecendo-se do lápis e do papel. <99> . na escola. significa aprender a decifrar a escrita. aqui. o governo insiste em distribuir cartilhas. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa.um negócio muito lucrativo. Em algumas escolas. ou melhor. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. Aprender a ler. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. Apesar de tudo. Mas. sem o método das cartilhas? Qual é a saída. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas. se a cartilha é tão ruim assim. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e.

pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. pela incompetência de alguns professores. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna. constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. Infelizmente. Alguns autores de livros didáticos. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos.Para saber decifrar a escrita. Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos. são tão despreparados quanto os malformados professores. por falta de infra-estrutura. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. principalmente. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. aos poucos. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo. por sua vez. ainda. Apesar desse quadro pouco animador. com . quais os seus usos e.

mestra da vida . acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. que ele também está aprendendo. A própria prática . para sua surpresa. 1997c. na pesquisa. Afinal de contas. O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério. no trabalho compartilhado. o professor sabe ler e escrever.dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. . O professor também aprende ensinando. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. num processo de aprendizagem verdadeiro. sem precisar gastar muito tempo. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. refazendo desde o início sua formação. A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. ele é capaz de realizar um excelente trabalho. como deveria existir sempre nas escolas. o próprio professor verá.ajuda muito. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. Mais do que isso. de ir direto ao assunto.

no mesmo tempo. como fazia antes. Se o aluno não aprender. nem do método. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. que ele usa como modelo. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. Para o professor. O método da . Ledo engano. em ordem. mas da incapacidade do aluno. Por trás de toda aquela aparente ordem. o professor apaga e coloca o certo. os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos. fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. Se o aluno errar alguma coisa. que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. quando apenas falava. a responsabilidade não é dele. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural. em que tudo está perfeito. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita. do mesmo modo. que não irá durar muito. esconde-se muita coisa mal compreendida. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. do mais fácil para o mais difícil. Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas.Apesar de todos esses problemas.

mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não.cartilha produz cadernos belos. Finalmente. Depois. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo. as aulas de português é a produção de textos. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. que muita gente fez isso e aprendeu bem. cometerão toda sorte de erros. Alguns professores. convém ressaltar que. inocentando os professores e os livros de sua incompetência. são tão obcecados por elas. sem erros. já não aparecem mais cartilhas. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente. O que salva. a leitura e a literatura. em séries posteriores. deve-se rebater. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. no entanto. Como a matemática não tem dessas coisas. porque os alunos só reproduzem o já dominado. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. . Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. em parte.

em geral. sem propor nada de diferente. porque são mais "práticas". Os livros didáticos são feitos. só que. preferem as cartilhas. e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real. por professores. do começo ao fim. da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. em vez de escolher livros mais interessantes. Afinal. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. para que servem os exercícios de matemática. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares. e como eles não têm outra visão do processo de . que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. será um fato surpreendente.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. Na verdade.

os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem. é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos. Os esforços devem estar voltados para isso. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição. Em primeiro lugar. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica. todo o período preparatório veio como uma .alfabetização. mas o principal deles é alfabetizar as crianças. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. repetem sempre o velho esquema. Por exemplo. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. o próprio método das cartilhas. O círculo vicioso se fecha quando. é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais.

Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever. Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler. então. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. recortar. Portanto. e não pulando corda e fazendo . enquanto o mais importante era deixado de lado. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas. em grande parte.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. em seguida. ou seja. cantar. etc. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. contar histórias. Brincar. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e. colar. lendo e escrevendo. a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. Aprende-se a ler e a escrever. sem dúvida são atividades escolares. Conhecendo a rotina nas escolas. A alfabetização passou a se resumir. desenhar. Como já dissemos. a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos.

percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. tecnicamente falando. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto. essa deverá ser uma atividade secundária. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive. Vendo essa questão por outro ângulo. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. São todos falantes nativos do português. Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos. Porém. sílabas ou outros . Brincar é imprescindível.festa. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar. e deve começar desde a alfabetização.

MASSINI-CAGLIARI. variações como "déis" ou "dés". Variações de pronúncia (do R. Do mesmo modo. Numa sociedade tão heterogênea como a nossa. do lugar e das pessoas com quem se fala. marcando um uso informal e outro formal da língua. sem esquecer a outra. Aprende-se uma língua. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade. por exemplo. 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . de concordância (por exemplo. "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. Na sociedade.elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. inglês ou francês. às exigências do momento. etc. não precisa se desvencilhar daquele que conhece. Quando alguém estuda uma língua estrangeira. a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. de regência (por exemplo. não deixa de ser falante de português.). das fricativas CH e TCH. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). Uma coisa não é condição para a outra.

mas não se muda a mentalidade dos governantes. pais. avós. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. ficou estabelecido que a alfabetização. começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos. Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada. Além disso. no Brasil. começando a alfabetização aos cinco anos. interesses políticos e econômicos. etc. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. aliás. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. Com quatorze anos.Por razões ideológicas. a préescola é importante como escola e não como creche. muitos jovens já são arrimo de família. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida. do mundo e até da . Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. Dos cinco aos sete anos. e os problemas sérios continuam sem solução. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula. Nessa idade. Muda-se a Constituição do país.

Dependendo do modo de vida. Estar na escola é um fato que cria expectativas. As vezes. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. Essas considerações mostram que. converse com seus alunos para . ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. já testou sua participação na sociedade. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização. é necessário que o professor. seu relacionamento com pessoas diferentes. Aprender a ler e a escrever. ganhar dinheiro é o que realmente conta. dentro desse contexto. Por isso. isso não significa que ela queira ser alfabetizada.história. é algo simples e banal. <106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada. Para elas. no início do ano. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos.

É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever. A escrita e a leitura têm muitos usos. essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização. A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. O que eles . provenientes de classes pobres. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. Mas é imprescindível. fora da escola. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida. Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. Não é raro haver alunos.saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). o que se faz com esses conhecimentos.

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

Fora de casa. Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. na embalagem de um produto. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. Por exemplo. Por outro lado. jornais. uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse . a escrita está em toda a parte. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita. revistas. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. Por exemplo. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. Mas.A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. no mundo. de modo geral. nas placas comerciais há coisas escritas. As crianças que vivem em casas onde há livros.

se o professor não perceber. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona. Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons. Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo.produto ou uma propaganda ou. Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. mas a <116> . urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e. uma por uma. de maneira típica. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico. mais especificamente. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. Porém. nesse caso) é de fato uma leitura. um rótulo onde aparece escrito. o nome da marca.

Por exemplo. E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. Na sociedade. que a escrita vem associada a sílabas. Ora. antes de estar associada a palavras. algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. No início. . não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. Ao fazer isso. Essa é uma idéia muito elaborada. ou seja. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. como se estivesse interpretando uma transcrição fonética.identificação de uma ou mais palavras. respondendo à pergunta mencionada acima. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. que exige uma explicação particular e detalhada. Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. mas também. é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita.

C de cebola. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. não é transparente para o analfabeto. Só mostra as relações entre letras e sons para . e acento agudo no E: LÉSCAUX. S de sapo. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser. Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. Aquele procedimento de decifração.Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. isto é. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. típico do método das cartilhas. A de árvore. sem uma explicação muito detalhada e convincente. <117> Diante disso. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. E de escola. antes de descobrir o que ela representa. Nesse caso. U de urubu e X de xarope. Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome.

o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino. Por isso. No máximo. têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. R de Regina. etc. querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete. Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. No mais. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. o que já exige um enorme esforço de análise. . como em "u de urubu". Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico.quem conhece as regras do jogo. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito. terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. Depois. T de Tomás. "a — de árvore". em geral. conversando a respeito do que já sabem. Algumas classes.

por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa . <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. Com esses alunos. Por outro lado. uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças. começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. Em outras palavras.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. ainda. o professor deverá tomar cuidados especiais. Se esses alunos não receberem uma boa explicação. da leitura e da fala.

. A questão. se elas não existissem. mesmo porque. por sua vez. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. que. 1.nessa tarefa. por isso. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. Para quem já sabe ler. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar.. posso ficar tentando descobrir o que está escrito. é o segredo do processo de alfabetização. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e. O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita. mas jamais . Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita. vamos encontrar uma série de normas. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. é muito complexa. mas a ler "com naturalidade". a decifração é algo mecânico. com efeito. se eu não souber chinês.

Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler. O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra.conseguirei ler. e não outra. A história das decifrações tem mostrado isso. ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. conhecendo uma língua. O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto. Uma mesma forma gráfica. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). pode ser apenas um desenho ou uma escrita. A linguagem oral. 2. Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. portanto. representa o mundo. Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto . 3. Por outro lado. por sua vez.

que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua. Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras. 4. tendo cada letra um nome. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva). É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. gerando diferentes alfabetos. É composto de letras. não. mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm. Variam na forma gráfica e no valor funcional. formando um conjunto. Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas.latino e segue um conjunto de normas atuais. Contar um pouco da história do alfabeto é. como podemos ver na história dos sistemas . 5. talvez. através do uso de um princípio acrofônico. Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo. As variações gráficas seguem padrões estéticos. a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças.

ou seja. a. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. vendo um rabisco. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). é preciso saber a categorização das letras.de escrita. 3ª letra: letra esse. Assim. quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). <121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema. de acordo com a ortografia da língua portuguesa. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. Ou seja. novamente. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. pela ortografia das . 6. esse e a. as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras. no caso da palavra CASA. 2ª letra: letra a. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. principalmente. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. 4ª letra: letra a. Apesar da diferença gráfica entre essas formas. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e. reconhecer a letra cê.

Portanto. Além disso. por exemplo. poderíamos. nos servimos dos conhecimentos . ou mesmo MRIT. desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. para tanto. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra. P = A. X = S).palavras. Se as letras não tivessem esses valores. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. e. escrever CASA com as letras APXP (onde A C. em princípio. a palavra pronunciada "casa".

quem não consegue. Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. para o estudo desses dois aspectos. <122> 7. muito mais do que o princípio alfabético.ortográficos da palavra CASA. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. . No início da alfabetização. fica tentando em vão outras maneiras de aprender. portanto. Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. porque ela controla a categorização gráfica e funcional.

Conhecer a natureza. Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. o usuário está livre para dizer o que está escrito.CAGLIARI. estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. Além disso. Uma vez identificada a palavra. Por outro lado. A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. assim. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem. ou seja. entender o que está escrito. permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita. a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. neutralizadas na escrita pela ortografia. que chamamos de palavras. atribuindo . de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles. 1986b e 1994b. usando seu dialeto ou outro qualquer. através do estudo dos sons e dos significados.

Desse conhecimento. 8. como vimos. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura. Assim. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia. Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. O importante. que é o som mais comum que essa letra assume. encontramos o som "b". quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. Em outras palavras. no nome "bê". dependem muitas noções básicas. Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. temos o quadro completo das relações entre letras e sons. necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. em seu início. contudo. Ou ainda.valores fonéticos às letras. O nome das letras traz. é mais fácil decifrar e ler do que escrever. E isso acontece com praticamente todas as letras. da letra B. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras.

no nome da letra W não aparece o som correspondente. quê. ípsilon. Nesse momento. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. eme. pê. é. cê-cedilha. esse. que fazia os alunos aprenderem. gê. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . 9. Na verdade. Depois. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. Num primeiro momento. i. cê. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua).usamos para decifrar os valores sonoros das letras. dáblio. ene. u. ele. Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. erre. cá. vê. xis. ô. dê. jota. efe. tê. agá. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. bê. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. zê. nem no nome da letra Y. são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler.

como K. a letra T tem os sons de "tche" e "tê".por exemplo. lê. Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso. Alguns dialetos (por exemplo. fê. para alguns falantes. a letra D não tem som. As considerações acima mostram que existem regras que . em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". Eles dizem. para facilitar o uso do princípio acrofônico. S entre duas vogais tem o som de "zê". nê. Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. mê. C diante de A. Por exemplo. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem. nesses contextos verbais. por exemplo. O. Por outro lado. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. mas para outros tem apenas o som de "tê". rê. etc. Em inglês o nome significa "duplo u". Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. 10. W e Y. a letra H é exceção. é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto .não está mais presente em todas as letras. do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. e isso facilita o trabalho. Em Portugal. para esses. U tem o som de "ka" e não de "cê".

aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto. 11.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos. Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente. porque de acordo com as normas da nossa língua . Ao ler a palavra XA. mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. se alguém quisesse escrever "kaza". um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. a partir da análise dos dados. teria diante de si muitas alternativas. o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. dará à letra X o som de CH. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. Por exemplo. e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto.

quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. CHEQUE. nesse modo de escrever. Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque". saber que X no início de palavras representa o som de CH. uma vez que o movimento <126> da mão. a "drentu". no caminho inverso. Quando se diz "andano" e "drentu". 12. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. Algumas crianças. o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ. o caminho é outro. Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler.em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. Mas. muito preocupadas com o traçado das letras. por exemplo. uma vez que esse som pode ser representado também por CH. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita. indo dos sons para as letras. é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. XEQUE/CHA. Por outro lado. Não basta. vai da esquerda para a direita . ou seja. significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem.

corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala. Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. indicada pelo espaço em branco. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e . velocidade. Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. duração e ainda a nasalidade. na forma correta. Mas. o acento. Depois. fazemos algumas separações. ritmo. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. A segmentação de palavras na escrita. As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas. na escrita. 13.) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. volume. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação.e. pontos) da escrita. a qualidade de voz. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. O importante é permitir uma leitura clara. Quando falamos. etc.

Nem tudo o que se escreve são letras . deve ater-se apenas à escrita. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras. 15. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil. Para tal. mas é fácil na escrita. 14. como conhecedor da língua. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra. Cabe ao leitor. Para chegar lá. O critério semântico ajuda muito. De acordo com as normas ortográficas.que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura. mas não resolve todas as dúvidas. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal. todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. No esforço para ler. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente.

Além de letras. 16. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. O ponto final representa uma pausa longa possível. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita. embora façam isso de maneira muito precária. representam também elementos prosódicos. etc. Outras marcas como ponto de interrogação. mas nem sempre necessária. um A nasalizado. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia. ou seja. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. A letra A com um til representa um som diferente. acentos e outras marcas. reticências. As vírgulas servem. a escrita usa sinais de pontuação. que é preciso conhecer. A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. mostrando se são abertas ou fechadas. para indicar pausas ou elementos parentéticos. sobretudo relacionados com a entoação. o que bloqueia o processo de decifração. Porém. às vezes. exclamação.

essa é uma questão complexa.vai ou não encontrar na escrita. Na prática. precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. saberão concatenar as palavras devidamente. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. Essas unidades formadas da soma de palavras. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores. por exemplo. No sistema alfabético. como o grupo tonal por exemplo. No fundo. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. aaaan tiiii-gooo. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita. e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. na alfabetização basta o professor falar. Dado que nossos leitores são falantes do português. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. . Como vimos. comparada com a fala. isto é. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. as letras representam apenas os segmentos fonéticos.

Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. 17. 1992c. Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — . O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. > Se deixarmos de lado a ortografia. e não a partir das possibilidades articulatórias do homem. revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar. Por outro lado.

Para tanto. como também no processo de aprendiza gem da leitura. as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. com a qual os alunos começam a escrever. é preciso ter. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita. por exemplo. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente. em primeiro lugar. Dessa forma. A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. Não obstante. os conhecimentos .há melhores sistemas para isso. Pode-se transcrever. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente.

saberá como se comportar. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos. Para ensinar língua portuguesa. e esses conhe cimentos são básicos. metodológicos e psicológicos. <130> Um professor bem-preparado. Os < CAGLIARJ. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como . é uma questão não tão óbvia. precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos. 1992c e 1 99 6h. com competência técnica. o professor precisa ter uma formação geral. Se acontecer algum imprevisto. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. Sabe o que o espera pela frente. é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. Para ensinar alguém a ler e a escrever. e menos fácil e comum ainda entre os professores. cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola. porém. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. Como professor alfabetizador. Como educador.

basta observar que sons a palavra tem. no entanto. O professor precisa libertar- . E se quiser escrever a mesma palavra. Ele não precisa de "pacotes" educacionais. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". um aluno precisará descobrir. Nessas circunstâncias. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve. ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. Com apenas esses conhecimentos. O conhecimento de como a escrita. capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. muitas informações. a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. mas da sua competência. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. vendo as questões não do ponto de vista metodológico.

Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. etc. para isso. para que esta autonomia possa se sustentar. No entanto. como ensinar os grupos consonantais. Mas. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho. o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. Aos poucos. essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . que pode e deve ser aproveitada.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado. etc. semântica. sociolingüística. como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar.

Se o professor sabe ler. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo. isto é. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões. o que faz quando ouve. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. precisa saber . através de pequenas regras. refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. Para alguém conseguir ler algo. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas. Deve procurar explicitar. sobretudo.trazem. escrita e leitura e quais os seus usos. Deve. aprender a ler é o segredo da alfabetização. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. <132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las. que serão passadas oportunamente para os alunos. fala e escreve.

que pode ter inúmeras formas gráficas. o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização. indo da análise de letra por letra e . variando esses caracteres: "SELO" e "selo". a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. porém. embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. é possível escrever a mesma palavra. Antes disso. em alguns diacríticos. 1. o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. e. Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. a título de sugestão. Por essa razão. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). e em marcas. Cada letra representa um valor abstrato. apresenta-se. "E" representa o mesmo valor de "e".decifrar a escrita. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. A escrita representa sons da fala. Quando se lê. como os acentos e o til. logo adiante. de acordo com as normas ortográficas. Por exemplo. Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. Ler não é o mesmo que escrever. como os sinais de pontuação. De acor do com o sistema de escrita.

Quando se trata da palavra isolada. ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece. consultar um dicionário. como falante nativo. até compor o resultado final. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. Depois. é preciso verificar as alternativas possíveis. perguntando ou procurando no dicionário. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. Entretanto. ou seja. que o aluno pode checar. É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. Feita a decifração. Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra. escreve com facilidade. leva-se em conta a ortografia. o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. Em primeiro lugar. Em seguida.de combinações de letras. Precisará. Finalmente. É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular. então. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). . deverá resolvê-las antes. Qualquer falante. o procedimento é diferente quando se escreve.

Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. Explicar o que é uma letra . Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. precisará esclarecê-lo. como se fossem glifos. É preciso ir direto ao assunto. seja ela familiar ou não. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. o sistema também é fonográfico e usa letras. O professor precisa explicar cada uma dessas noções. 2. ou seja. mas essa não é uma leitura produtiva. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. Ao escrever. Como. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve. sem rodeios. Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. porém. caracteres ideográficos. E é assim que os alunos devem aprender. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma.de qualquer dialeto.

como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. linha por linha. e que uma letra sucede a outra. É . As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos. <135> em linhas. da esquerda para a direita. Aliás. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. através do reconhecimento do que é letra e do que não é. apoiadas na linha-base horizontal. tal qual aparece no alfabeto. Corno as letras são dispostas no espaço. mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo. As letras são escritas separadamente. elas têm uma direção fixada por esse espaço. no alfabeto de letras de fôrma. e não letras em tamanho grande ou pequeno. mas são interligadas na escrita cursiva. A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. da direita para a esquerda. Com relação aos usos da escrita. Toda letra tem uma forma básica. que serve para distinguir um caractere de outro. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita. Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). e a seqüência é da esquerda para a direita.

É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. tais como numérica. para "enriquecer" a escrita com mais idéias.necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra. simb&lica. As vezes. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. Enfim. Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração. as que utilizam sinais e marcas. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. composta de letras e seguindo uma ortografia. o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. de outras formas de escrita. o que são palavras isoladas e o que é um texto. tudo o mais fica comprometido. ainda. É preciso. e onde terminar. em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear. ele não saberá ler e . antes de se ensinar as relações entre letras e sons.

Por exemplo. Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras.não poderá ser considerado alfabetizado. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão". sem muitas dificuldades. "assistir ao filme". A palavra final será sempre dada pela ortografia. "ver televisão" "consertar televisão". quem não sabe tem de perguntar. o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. quem sabe sabe. observando a linguagem oral. embora represente uma idéia só. é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. que deverão escrever. 3. há duas estratégias importantes: a primeira. nesse caso. Para saber como segmentar uma <136> palavra. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão". E. ou reproduzir graficamente o traçado de palavras. a segunda. a segmentação é possível. Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco. etc.

. Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons. Porém. para que os alunos possam consultar sempre que desejarem. . pelo menos as letras iniciais do próprio nome. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão". Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado. mesmo antes de entrar na escola.televisão". começará pelo nome das letras. Em geral. Decorar os nomes das letras é importante. mas não na escrita comum do dia-a-dia. no caso de "macarrão". mas o professor não irá exigir isso. pode-se ter "maca".. porque as crianças costumam ir aprendendo. se houver segmentação. 4. mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes. através de exercícios de memória. a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto. porque esse é um procedimento encontrado em livros. Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha.

Entretanto. o professor pode programar aulas e material. tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança. mas se a leitura for feita da direita para a esquerda.). Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm. deixando de lado o método das cartilhas. ou até mesmo a mesma palavra. se quiser. pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta). dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações . como AMOR e ROMA. O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. ASA. Por outro lado. <137> Poderá. pode-se ler a palavra corretamente. etc. pode-se ter palavras diferentes. proceder a uma análise geral da palavra.nos quais os alunos recitam o alfabeto. o famoso bá-bé-bi-bó-bu. Nessa atividade.

como a variação dialetal e a ortografia. deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria. sentem-se embaraçados e confusos. Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo. Desse modo. de tanto escrever palavras com "pedacinhos". isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. Como resumo e conclusão das reflexões.entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. Levando em consideração esse estudo em anexo. ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. As cartilhas jamais pensaram nessas coisas. Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita. É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. em vez de uma série de regras .

é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita). Uma incursão por esse território será feita a seguir. pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas. mas pode ser muito complicado quando. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. não uma ordem pedagógica. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil". e vice-versa. Somente quem conhece o . escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. na decifração ou na escrita. ele tem de decidir como escrever. A própria natureza das letras. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. observando esse fato na fala. Em primeiro lugar. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. para letras diferentes. Para um aluno principiante. mesmo quando estão pensando na leitura.parecidas. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. Essa é uma ordem de análise científica. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler.

nessas circunstâncias. é mais fácil ou não. I. No início. U) das demais que representam consoantes. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras. E. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. sabendo das dificuldades futuras. subentende-se leitura. Para o principiante. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos. para si. tudo é igualmente muito difícil. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. Sempre que se . Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. Entretanto. OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. O.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. Quando se fala em decifração.

ou o NH. TINTA. como em: CAMADA. BANANA. "féri". BANHA. DELA.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u". As vogais mais difíceis são o E e o O. pode gerar a formação de ditongos. Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas. "imprêstadu". o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. A letra A. Exemplos: DELE. EMPRESTADO. ainda. é comum a letra . ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste). Em sílabas átonas. como em ACHARAM. BELEZA. tratemos da vogal oral A. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas. Em sílabas átonas. Em seguida. Exemplos: JUNTO. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. como CAFEZINHO. BELO. ser lida com o som de "i". semelhantemente à letra E). A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. BANHA. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). a letra E pode. Veja os exemplos: FERE. Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). quando nasalizada. e somente em palavras derivadas. juntamente com o M.

Em final de palavra. Porém. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. como em: LÃ. ONDA. Assim. VINHO. por sua vez. ACHARAM. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. as vogais O. as vogais E e I. LIMPO. podem ditongar-se com "u". CIDADÃOS. quando seguidas de M. COMIDA. . podem ditongar-se com "i". LENHA. COMA. a qual. Confira os seguintes exemplos: FOCA. CANTO. e a consoante nasal pode ser uma velar. que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. UNHA. BOM. FOGO. COZINHA. CINEMA. como nos seguintes exemplos: VEM. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. BANHA. ALGUM. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO.O ter o som de "u". TUMBA. ENTRE. toda vogal com til representa um som nasalizado. LEÕES. SONHA. U e A. UMA. ocorre diante de outra vogal. PENA. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. UNA. JUNTO. N. embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. VINDA. quando seguidas de M. LEME. OMBRO. Finalmente. Por outro lado. em final de palavra. EMBORA. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. ZONA. etc. e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala. MÃE. VIM. PÕEM. NH). CANA. VIME.

Segundo grupo: P B. T. VENHA. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". podem-se ter três grupos. HERÓI. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). BROTAR. D. Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. FRANGO. Exemplos: CHINA.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. a letra L tem sempre o som de "lê". Em final de sílaba. HÁBITO. mais Ç e J. Em final de sílaba. POÇO. "lhê" e "nhê"). a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). a letra L tem o som de "u". No terceiro grupo. de "çê". estão as letras L e Z em início de sílaba. Terceiro grupo: L e Z. Como parte de um dígrafo. DADO. modifica o som da letra que a precede. TATU. F e V. LH. Exemplos: MAÇÃ. A letra Ç tem sempre o som de "çê". BOLA. TRABALHO. e a letra Z. Nesse contexto. ADVOGADO. LIVRO. AJUDAR. e a letra J tem sempre o som de jê". As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. HINO. A . Exemplos: HORA. são pronunciadas com um "i" optativo. FACA. Com relação ao primeiro grupo. JOVEM. OBJETO. e a letra Z tem sempre o som de "zê". PALHA. VACA. NH. etc. RITMO. Exemplos: POTE.

COR. Z e M. NASÇA. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R.<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. PSICOLOGIA. tem o som de "kê" (diante de A. CIDADE. Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. depois de consoante e no dígrafo SS. Com relação ao primeiro grupo. A letra S não representa som nos dígrafos SC. XC. TÉCNICA. O. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos. a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. em . PASSO Entre duas vogais. terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. EXCEÇÃO. SÇ e na forma de plural de certas palavras. S. CABANA. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura). como em SAPO. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. na mesma sílaba. entre uma consoante e uma vogal. ou seja. NASCIMENTO. Exemplos: CEBOLA. Quanto ao segundo grupo. I ou de outra consoante. U ou de outra consoante). tem o som de "zê". CRISE. CLARO. segundo grupo: S. Nos demais casos. SÇ ou XC. como no caso dos dígrafos SC. SELVA. Exemplo: MESA.

MESMO. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. IGNORAR. SATANÁS. GUIMARÃES. FREQÜENTE. tem o som de "çê". TOMÁS. diante de outras letras.certos contextos. O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . Exemplos: GENTE. AQUI. a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. O e U. Nesse caso. Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. em alguns dialetos (cf. SAGÜI. GIRAFA. em algumas palavras. em final de sílaba. GLÓRIA. em outros. Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. DESDE. "as casas amarelas foram vendidas"). ANIQUILAR. tem outro tipo de som ("guê"). mas. uma vez que o U é pronunciado. AQUELE. a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. tem o som de "chê". GARRAFA. <142> dígrafos: GUERRA. GRAÇA. LÍQÜIDO. no meio da palavra. COSTA. não-dígrafos: AGÜENTAR. Com relação ao terceiro grupo. GULOSO. Em alguns dialetos. se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. Confira os exemplos: BESTA. QUENTE. No entanto. GOTA. Não há regras. a letra S. ou seja: "zê" e "jê".

Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. mas. o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. a variação é menos problemática (final de sílaba. CRAVO. Quando escrevemos. sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora). Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. MAR. ora desvozeada (surda). não é isso o que acontece. PLANTAR. É preciso levar em conta. CARRO. S. . BRASIL. pelo contrário. Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. FERIR. quando falamos. por exemplo). Z e M. soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos.diferentes dialetos). CERTO. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. RATO. ainda. RUA. MURRO. Exemplos: CARO. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). PORTA. costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. Em todos os casos. MURO. Em português. Nos outros contextos. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra. RIO. além disso. POBRE. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. separamos as palavras com um espaço em branco.

Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos. mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo. quando se juntam dois "as". tem-se uma sílaba átona . um deles cai. o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. No exemplo 3. nos exemplos 3 e 4. ocorre uma sílaba tônica final. seguida de uma sílaba átona inicial. têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial. Porém.Vamos ver uma série de exemplos. No exemplo 2. houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. No exemplo 1.

Porém. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). Essa regra inclui todos os exemplos estudados. com a formação dos ditongos. A dificuldade mais . a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade. como mostram esses exemplos. Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. No exemplo 4. nos exemplos 3 e 4. Considerando apenas o exemplo 1. Nota-se que. mais uma vez. seguida de uma sílaba tônica inicial. E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam. O exemplo 2 é de difícil análise. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. O que acontece. não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. uma vez que as sílabas se fundem. Do ponto de vista da decifração e da escrita. ocorrem duas sílabas tônicas. porém. como no exemplo 3. como refletir sobre as relações entre fala e escrita. átona. no contexto de juntura. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. além disso. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9.final. nos demais casos. e se for.

no início da palavra seguinte. em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. Confere. Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. Com relação à decifração. no segundo caso. a consoante final junta-se à vogal inicial. a presença do artigo não é obrigatória. em que caem dois "as" na fala. formando uma sílaba única e dificultando. encarando o problema por outro ângulo. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia". é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". ainda. mas não na escrita. é saber se devem ou não escrever o artigo "a". em final de palavra. assim. mais raramente. apenas enumera fatos. mas muda levemente o significado da frase. Por exemplo. uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. o trabalho de segmentação da fala. "toda a amizade". No primeiro caso. Em alguns casos. há uma consoante e. uma vogal. a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando.comum que os alunos enfrentam. o falante quer marcar uma oposição. Nesses casos. . Porém. subseqüente). como já se viu antes). Por exemplo.

DEZ AMIGAS. a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte. etc. encontra um tipo de som. As letras S ou Z. no início.quando se encontra em juntura intervocabular. se a nasal for precedida por I ou E. Nesse caso. VIR AQUI. depois que a segmenta. pronunciando a palavra isoladamente. em juntura. o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. Em final de palavra. POR ALI. quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. independentemente do dialeto. têm sempre o som de "zê". nesses casos. se o M for precedido por outra vogal. ocorre uma consoante nasal velar. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. CARÁTER AGRESSIVO. Veja os exemplos: CASAS AMARELAS. TRÊS AMIGOS. Porém. . A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. Concluindo. Quando o aluno analisa sua fala contínua. depara-se com outro. etc. mas. descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê"). RAPAZ INFELIZ. quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. troca-se o som de RR por R. de outro.

HOMEM AMARELO. pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. "vi-é-rãua-ki". sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez.Veja os exemplos: VEM AQUI. RUM AMARGO. pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações. em juntura intervocabular. "ir-mã-i-fe-liç". no entanto. etc. A mesma regra aplica-se quando. contudo. BOM AMIGO. os exemplos acima. PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). Mesmo que o aluno . Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. Assim. VIM AQUI. A falta de explicação. Uma simples explicação. o Z é opcional. Como se disse. "bõu-a-mi-gu". mesmo não havendo a letra M na escrita. permanecendo apenas sílabas diferentes. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. essa regra. "põi-a-ki". diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). em vez da consoante nasal indicada para a fala. poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). etc. de acordo com a forma de cada palavra. VIERAM AQUI. etc. Isso significa que. é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita.

Para chegar à conclusão final. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. EXPLICAR. deverá lançar mão de outro expediente. que consiste . A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. no meio da palavra. Como temos dito várias vezes. a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil. Quando ocorre em final de sílaba. Aqui. etc. como nos seguintes exemplos: VEXAME. julgando-se incapaz de aprender. pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê". o aluno procurará uma e acabará confuso. dependendo do dialeto: TÓRAX. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR). Sem nenhuma explicação. PIREX. dependendo do dialeto: EXTRA. O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ.não as aprenda. PROXIMO. saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. tem o som de "kç" ou "kch". Em final de palavra. nesse contexto. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". etc. Porém. quando o leitor se encontra diante de casos assim. EXAME. FIXO. etc. "eichçeçãu"). que ele aprenderá mais tarde. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". LATEX. o que torna sua leitura fácil.

confrontando com o contexto. Se produz. . Finalmente. as diferenças entre escrita e fala aumentam. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". Deverá procurar então uma outra alternativa. Nesse caso. ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç". deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula. alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno".<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. Porém. Portanto. a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. sobretudo quando ele está lendo sozinho. Porém. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto. uma leitura possível seria "ficha". Se não produz. podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali. dependendo da variedade lingüística em uso. ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. Por exemplo. na realidade individual de cada aluno.

ser diferente da forma escrita. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). Alguns casos são de fácil decifração. quando os alunos escrevem P em vez de B. em geral. ou seja. em princípio. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. F em vez de V e T em vez de D. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. <147> De modo geral. pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B. F/V É curioso. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. ou de a forma lexical de uma palavra. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. na fala.OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. Essa afirmação . por causa da variedade lingüística do aluno. Para o professor e para o aluno. A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. T/D.

os imigrantes poloneses). como a troca de V por F não muda o significado. Será mais dificil quando não houver um par mínimo. assim como as laterais. começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. sempre que achar que precisa escrever F.). . A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia. Assim. sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. porque analisando tudo o que as crianças fazem. em outras situações. Nesses casos. se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra.não faz sentido. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras". produzir uma fala sem sons sonoros.. Nesse caso. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra. as vibrantes podem ser sonoras ou surdas.. Em seguida. a única solução é o aluno decorar a ortografia. logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. se o aluno for escrever "livro". Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. assim. deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V. assim como as fricativas. Então. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. Por exemplo.

o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. CLARO. . JUNIOR. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. Pode. GLÓRIA. como em: PLANTA. etc. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. LIVRO. etc. em início de sílaba: MAPA. esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. então. Quando faz parte de grupos consonantais. que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. CORRIJO. TENHO. HAJA. LADO. porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. CANA. etc. ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. Porém. O mesmo vale para os sons "mê". O ou U: JACA. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos. pode ser fácil se. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. CAMA. ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). Em outras palavras. "nê" e "nhê". NATA. JOVEM. Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. na fala do aluno.Passando a outros casos. BANHO. CORUJA. Por isso.

Por exemplo. GUIMARÃES. GARRAFA. RIO. etc.). FREQÜENTE. NHOQUE. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. O ou U (não seguido de outra vogal): CADA. etc. Há outros modos de ver o problema. O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE. Por outro lado. como em: QUATRO. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i". etc.VIAJA. Do mesmo modo. etc. etc. HR. Nenhuma palavra começa com Ç. no início de palavra. INÍQUO. etc. QUINTO. o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. TH. só se escreve um R. nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. etc. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. como por exemplo. etc. COLAR. NHEENGATU. numa mesma sílaba. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. etc. GULA. pode-se ensinar aos alunos que. Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. nunca dois: RATO.

terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR). INTEIREZA (de inteiro). Com relação às vogais. Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR). CANTO. porém: ESTÃO. Exemplos: FIZERAM. ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante. INFELIZ. ENLATADO. etc. IAM. UTILIZAR (de útil). ACHARÃO. ONÇA. etc. As que terminam em . é mais fácil escrever os sons "é". "ó". a ortografia obriga o uso da letra M. "ô". e os finais oxítonos. entre a vogal e a consoante. etc. Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA. como: FERTILIZAR (de fértil). quando identificados na fala. FARÃO. Exemplos: BELEZA (de belo). BOMBA. ESTAVAM. no meio de palavra. passam a . Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM. É relativamente fácil mostrar aos alunos que. com . entre a vogal nasalizada e a consoante. a ortografia obriga o uso da letra N.ÃO. Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B). ENVIAR. SÃO. os quais. BANCO. Exemplos: CAMPO. "é".s são escritas com -ESA. porém: MARQUESA (de marquês). se essa consoante for P ou B (M é muito raro). INGLESA (de inglês).

porém nas sílabas átonas é muito difícil. IRMÃ. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. ÍMÃ. usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO. etc. ISLANDÊS. são menos interessantes na alfabetização. por acaso. Nesse campo.. Em geral. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites. ALEMÃO. Por exemplo. ISCA. "adjetivo". também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. TALISMÃ. ESPADA. é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. Como exceção temos ISQUEIRO. houver exceções às suas regras. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". por essa razão. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante". ÓRGÃO. ele será escrito sempre com til: LÃ.corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). O professor não deve se preocupar se. ESQUADRA. Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til). etc. Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. etc. Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. "palavras primitivas .. Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. ISTMO. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL. em alguns dialetos). ISLAMITA. ao encontrarem o som de "à" em final de palavra.

o conhecimento do funcionamento da escrita. Entretanto. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. às vezes. Às vezes. etc. "sílabas tônicas e átonas". deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como.<150> e derivadas". da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos. Dentro desse quadro de preocupações. . "paroxítonas e oxítonas". Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. o sistema alfabético nos leva a crer). cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos.

mas esses casos são raros e ajudam pouco. "çóu" — SOL. representando o som de "u". Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. como em ALTO e AUTO. DESDE. porém: "çaudadi" — SAUDADE. EXTRA. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado. As vezes. como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. às vezes. Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba. Vejam-se. é escrito com U. alguns casos. a seguir. RAPAZ. e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. "çôu" — SOU. etc.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. "mêu" — MEU. será representado por S. e não da escrita. Em alguns casos. etc. . "méu" — MEL. esse "u" é escrito com L e. como em CASAS. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L. como parte final de alguns ditongos. quando se consideram os fatos a partir da fala. justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. Z ou X (X somente no meio da palavra). em certos dialetos.

A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras.Mais um caso dificil é o som de "çê". C (somente diante de I e E). Nos demais casos. S ou X. O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. há pessoas que falam "tchia". o aluno escreverá sempre um R só. Por exemplo. será usado apenas o J. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande. O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. Nos demais casos. Ç. quando o som estiver entre duas vogais. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. O ou U. Só se usa RR. mas esse . A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. em alguns dialetos. Notar que algumas diferenças de fala. Um caso mais simples é o do som "zê". na verdade. que pode ser escrito com S. quando pode ser representado por C ou por QU. Porém. em início de palavras. só se escreve QU. Diante dos SONS "j" ou "e". por oposição a R. só se emprega a letra Z. Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. Z (somente em final de sílaba) e X. não trazem dificuldades para a escrita. nunca C. que pode ser escrito com Z. "djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". Nesses casos.

Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . mesmo sem eliminar sua pronúncia original.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). nos demais casos. etc. Portanto. Q Aqui. <152> Com relação às vogais. Porém. a única saída é recorrer à ortografia. Por exemplo. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. SOCAR. Como se disse anteriormente. não há regras para facilitar o aprendizado. U ou E. Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita. cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba. FICAR. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. a escrita será provavelmente com X. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. Apesar do que foi dito acima. Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I. como COLOCAR.

e não de outra forma: ESCADA. ou PÕE. como HORROROSO. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). Por exemplo. são escritas com ESC. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). MELÃO. poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita. etc. vendo as seguintes palavras. PREGUIÇOSAMENTE. ALEGREMENTE. ou melhor ainda. SIMÃO. FARÃO. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. Conferir: PÃO. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. ESCOLHER. -OSA. PÕEM. . BONDOSO. constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. etc. DANOSO. e se souber como se escreve esse sufixo. etc. dependendo do dialeto. LEÕES. POTÁVEL. SIMÕES. FORMOSO. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. TERRÍVEL. INCRÍVEL. por exemplo. ESPÍRITO. Outros exemplos. ESPADA. Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". Já se falou antes. LIMÕES. "prefixos".palavra". HORRIVEL. ESCORREGADOR. TRISTEMENTE. FERRÕES. Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. TÃO. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk". etc.

Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. FAZENO. Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. FALANO. ao aprender o sufixo do gerúndio. eles não pronunciam essas consoantes nasais. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. FUGINDO. etc. usando a terminação -NO e não -NDO. até mesmo a extensão dessas considerações. em vez de escrever: ANDANO. CORRENO. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. aprenderá a escrever também ANDANDO. FALANDO.Alguns alunos falam o gerúndio. Portanto. Escrever M. em seus dialetos. Isso acelera o domínio da ortografia. FAZENDO. o aluno. CORRENDO. apenas nasalizam a vogal precedente. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO. porque. sobretudo . N e NH em início de sílaba é fácil. Porém. escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular. se possível. FUGINO.

escolhendo exemplos apropriados. palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações. anotando em colunas. propostos pelo professor e pelos alunos. seguindo o exemplo da palavra MUITO. Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. menos formal. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade. <154> . a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. Com relação ao problema da nasalidade.numa fala mais rápida. para esclarecer. em primeiro lugar. a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado.

As inversões de letras representam os casos mais comuns. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer. Em último caso. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. inclusive de como a escrita funciona.Logo no início. quem tiver dúvidas. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. ou mesmo TAMA em vez de MATA. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. Nesse caso. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. Portanto. Na verdade. E o caso de quem escreve ON em vez de NO. uma palavra) não ajuda muito nesse momento. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. A regra de identificação semântica (uma idéia. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. não adianta ficar .

além dos relacionados à leitura. Muitas . do que a escrever. são necessários conhecimentos complementares. para escrever. acabará com sérios problemas de leitura e. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler. pode ir tentando escrever. pior ainda. de escrita. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento.pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. se misturar as duas coisas. A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. são necessários alguns conhecimentos e. mas. ainda. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. alguns complexos. Resumindo. como faz tradicionalmente o método das cartilhas. Isso mostra. para ler. Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. as relações entre letras e sons são muito complexas.

). Nessa situação. a .vezes. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever. Um aluno aprende umas poucas palavras-chave. para a escola. fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. enquanto eles fazem tudo errado. Então. e acabam sem saída. que fazem coisas certas. Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram.. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. para o governo e para os pais. senão aprende errado. para o professor. encontramos alunos que. por essa razão. a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto. não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. umas poucas famílias de sílabas geradoras.. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria. é incompleta e. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda.

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). linguagem escrita. juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. . pequenas mensagens e até pequenas histórias. Nesse momento. Porém. Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam. Escrevendo desse modo. as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. "Irei para casa". Cada figura ou foto está representando coisas do mundo. "Ele vai para casa". As figuras transformam-se em escrita. E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. O professor pode explorar esse tipo de atividade. Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. portanto. Podem testar a leitura. frases. etc. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa".Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. posso representar uma frase como: "Vou para casa". não constituindo. escrevendo palavras. Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. ou de alguém andando. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). nessa seqüência. fazer o desenho de um caminho. pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. o processo de decifração e de interpretação da escrita. isto é. mais o desenho da casa.

além de desenhos que representam figuras de objetos. animais. por exemplo. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. com desenhos) é usada na vida real. as bandeiras. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos. como os logotipos. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. podem tentar escrever usando . Para isso. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. os escudos. Podem. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras. pessoas. as grifes.Recortando material de jornais e revistas. Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. Pode exemplificar como. etc. e colocá-las em colunas. Depois. recortar figuras de objetos.

Em seguida. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. de certo modo. usando apenas os símbolos inventados. Essa imitação do que aconteceu historicamente. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura. como também já conseguiram ler e escrever. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . sem mostrar as figuras a que eles se referem. vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita. ou seja. pois eles começam a ver que. Exceto quem inventou o símbolo. os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. uma vez estabelecido. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa. motiva-os a progredir. todos se comunicariam apenas através dele. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. há muito tempo.o sistema de escrita que inventaram. onde vivem milhões de pessoas. Além disso. Com isso. enfim. essa tarefa será resolvida apenas em parte. Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade.

e não apenas de letras. nesse momento. Isso irá facilitar. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. e outro constituído de caracteres arbitrários. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso. Pode-se escrever a palavra . mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. dependendo da forma como o sistema se apresenta. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje. Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. como se explica com o exemplo a seguir. como os de um código secreto. através do uso de rébus. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras.secretos. futuramente. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras.

D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão". assim. Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. Por outro lado. o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem . Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão". pode-se também escrever essa mesma palavra. fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão. um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. será preciso reinventar as letras."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. a questão é muito mais complexa. Através dessa estratégia de escrita. consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". Temos. Vão ser necessárias três etapas: primeiro.

mas basta percorrê-lo uma vez. como as fricativas). segmento por segmento. achar as letras correspondentes. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. particular e distintivo no sistema. então. aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. Desse modo. duas estratégias de observação. segundo. . Por exemplo. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. passo a passo. ou seja. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala. a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa". há duas maneiras principais.às nossas letras. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta"). a vogal "a". escrever a palavra. aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala. pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som. Agora. terceiro. Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). na ordem correspondente e. destacamos um som na primeira sílaba. Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas. Esse pode ser um longo caminho. com as letras convencionadas.

e outro diferente na segunda. ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. Na primeira abordagem. mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). acompanhado dos devidos comentários. "aaa".que é o "ééé". repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas. as rimas são dadas não por sílabas completas. analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente. Por outro lado. Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". na segunda. é fazer levantamento das rimas. de uso muito comum. o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. Seguindo esse procedimento de análise. o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. Uma delas. na segunda sílaba da palavra FES-TA. a consoante inicial das sílabas. Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral.

Por exemplo. mas apenas um pedaço. associar o desenho à fala. <168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo). CINEMA. DISTRIBUIR. IRMÃO. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição. ACHARÃO. Além disso. pode começar escrevendo a palavra "camelo". Nesse segundo modo de escrita. o som inicial do nome do desenho. CIGARRO. etc. Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. DESCARREGAR.CORAÇÃO. etc. etc. Procedendo assim para cada som da palavra . Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. DISPUTAR. DEDÃO. DESMONTAR. SINAL. DESCASCAR. SINO. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. SITIO. um desenho não representa mais uma palavra inteira. Por exemplo. DISTINTO. de preferência apenas um som. através do princípio da acrofonia.

uma lata ("L") e um ovo ("o"). um assunto puxa outro. pelo som de "u". e o aluno. A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. um avião ("a"). Por exemplo. Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão. O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". um cabide ("e"). acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. razão pela qual ele optou pelo som de "o". Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras. E é assim que deve ser. representando o som "u" no final da palavra "camelo". mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar. um elefante ("e"). a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. Se um aluno preferir usar um cacho de uva. basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . como um dos resultados possíveis. Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. por ordem. está perfeito."camelo". Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. Como se vê. o mar ("m").

Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. E sons sem significado não formam palavras. etc. na escrita.. Assim. podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. Ao fazermos isso. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. a língua que falam. Porém. "ka" significa. descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos.. com os sons "kaza". No todo. Ao fazer isso. porta. considerando cada pedaço (sílaba) em separado. como telhado. perde-se o significado original. temos "ka-za".). janela. em português. A escrita revelou uma idéia. isoladamente. "cá estou eu". existe um significado. as palavras sempre se compõem de idéias e sons. paredes. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. Por outro lado. Assim. gerando novas idéias (significados). Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . são apenas ruídos. quando segmentamos os sons da palavra "casa". As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. Por exemplo. vendo a foto de uma casa. Portanto. chão. que fazem parte da idéia mais geral. descobrimos que essas idéias formam novas palavras. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando. "aqui".representavam. mas "za" não significa nada (talvez um apelido. podendo ou não resultar outro significado.

Porém.. na prática. O alfabeto Aos poucos. mas também para terem um . chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. dos grifos para as letras e. assim. que pudesse ficar bem visível. não só para que os alunos o aprendam. Apresentado o alfabeto. é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. Quando se chega às letras. do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. Sempre se descobre algo novo. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z. seguindo a ordem alfabética.. ensina-se o nome das letras. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos. Para isso. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil.idéia ou não é muito complicado e. passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. talvez acima da lousa (ou quadro-negro).

e pedir aos alunos para decifrá-la. Para ilustrar o que foi dito. sem dizer do que se trata. suponhamos que o professor . mas isso não acontece na alfabetização ou. pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). que o aluno deverá reconhecer facilmente. esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. apresentar uma palavra na forma escrita. Portanto. a palavra. pode-se decifrar a escrita de uma palavra.referencial dos sons que as letras têm. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura. cujo significado é evidente. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. se o resultado final é uma palavra desconhecida. O que vale sempre é o resultado final. Descobre-se que a tentativa não deu certo. por exemplo. e não apenas sons. Portanto. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. será algo extremamente raro. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. Então. sabendo o nome das letras. como falante nativo. O professor pode. se acontecer. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. sem grandes dificuldades. ou seja.

analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. a. <171> dizer que palavra está escrita. E sempre preferível dar uma . mas já é um grande avanço. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". Está descoberta uma palavra conhecida. como também ensina-os a ler palavras simples. identificar cada letra com seu respectivo nome. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". a. Não é tudo. esse. logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. é "kaza". Com os nomes das letras. fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas. os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. O resultado. Com essa técnica. Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. agora. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas. o professor pode escolher palavras.escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c.

Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. incompleta e meio deturpada. Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil. a aquisição da linguagem oral e da escrita. o modo como a fala. as noções básicas de fonética e fonologia. mesmo que complicada. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. os alunos terão outras chances de aprender.boa explicação. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões. Se os alunos não entenderem direito (ou nada). poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. a escrita e a . Ao iniciar a decifração da escrita. metafórica. Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. disfarçar. a ter de camuflar o problema. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. Portanto. é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. não faz mal.

é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião.leitura funcionam e quais os seus usos. o que é decifrar uma escrita e como fazer. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados . o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. São os pares mínimos. há um tipo de exercício. numa ordem predeterminada. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala. Em geral. como analisar e interpretar os erros. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. <172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler. muito usado pelos lingüistas. como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. Somente em séries mais adiantadas. quando os alunos já tiverem certas noções básicas.

"mar/mas". relacionados entre si ou não. quando já se sabe o som. destacam. Feito isso. formariam uma espécie de "par mínimo". ou de que letra terá de ser usada para escrever. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som. que significa uma fruta e uma parte de roupa). com o par mínimo escrito. porque representam palavras de significados diferentes. Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga". Do ponto de vista da fala. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de .diferentes. explicando que no próprio nome da letra. que se opõe a M no início das palavras do par). por exemplo. já se tem uma dica de que som ela representa. observando a fala. Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico. destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. "casa/caça". Com o par mínimo falado.se as letras diferentes que representam um mesmo som. etc. basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. mas do ponto de vista da escrita.

"habitação". em "ão": "avião". Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. usando apenas as letras de fôrma maiúsculas. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). como. "irmão". o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes. O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas. portanto. há uma letra. e que as letras. ditadas pelos alunos. Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. fazendo colunas. em colunas. para cada lugar de escrita na palavra. é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. etc. o mesmo valor alfabético. para que os alunos percebam que. Como usamos muitos alfabetos. de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. nas colunas verticais. "ão"). e têm. <173> por exemplo. "coração". Primeiras leituras de textos .rimas: palavras terminadas em sons semelhantes.

mais fiel ao texto. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. Em primeiro lugar. Porém. poderá. Uma leitura mais rigorosa. dizer o que foi que leu. no início. será cobrada mais adiante. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. Assim. 1998a. < MASSINI-CAGLIARI. então. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito. Aqui. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases.). deixando sempre os alunos lerem ..Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas. o professor estimulará seus alunos a lerem em particular. O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque.. o professor os levará a ler pequenos textos. Aqui. <174> Com o tempo. Feito isso. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto. para si. Portanto. para isso. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante. há alguns pontos importantes a serem considerados. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler.

Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância.individualmente. Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. incluindo as expressas pelo autor do texto. em geral. etc. Portanto. e mesmo ridículo. histórias de fácil compreensão. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries. Nesse tipo de atividade. sem a correta entoação. pois é claro que estão entendendo. Se algum aluno quiser ler para os colegas. será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência. Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. mostrando como ela deve ser feita. uma vez que os textos são. silabando. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. sem ritmo. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas.). Interpretar textos com perguntas e . servindo-se da leitura de textos. o que vale é a discussão das idéias pessoais. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura.

a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado. reportagens que falem de assuntos científicos. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. notícias. E ler nunca é demais. ler de tudo. quer com relação à forma gráfica. É preciso ler histórias (muitas). enfim. Usos especiais em propagandas também são interessantes. É preciso ler jornal. Por exemplo. de montagem ou de conserto. incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. devem ler propagandas ou outro material semelhante. técnicos. etc. instruções de uso de equipamento. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura.respostas é uma idiotice. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. quer com relação aos variados tipos de textos. <175> revistas. receitas culinárias. curiosos. porque um processo necessariamente . O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. da vida de pessoas famosas. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas.

Tal qual foi feito em seções anteriores. Depois. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais. As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. isto . as noções básicas de um sistema de escrita. em decifrar o sistema de escrita que temos. dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Por essa razão. do ponto de vista gráfico e funcional. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. os alunos podem colecionar letras. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. ou seja. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. Em outras palavras. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato.implica outro.

como histórias e cartas. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis. inventando sistemas de escrita. Podem. logotipos. Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. Esse material já impresso.é. colecionar pictogramas. símbolos. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares. ainda. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. grifes. pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas. Brincar de escrever. Até para o professor. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. etc. podendo chegar a escrever textos relativamente longos. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . que é recortado. sinais de trânsito. logomarcas. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. Por exemplo. e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas.

escreve-se a partir . A exploração desse material.). aliada ao processo de leitura. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita. andar um passo atrás e não à frente dos alunos. natação. sem que eles percebam.... frágil. sempre que possível. mas deve. algo familiar e banal.. etc.).). pictogramas que representam palavras (banheiro masculino. lembrando o dilúvio. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer. para a criança. escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se. O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras... sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar). Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares.. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante. Assim. cartas enigmáticas. pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar. É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras.. No primeiro caso.da paz com o ramo de oliveira. o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico.

que depois deverá compor os sons da palavra. <177> No segundo caso. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. estamos diante de uma escrita ideográfica. somar os . que se traduz numa palavra. sílabas. procurando encontrar depois os sons que esses significados têm. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. usando-se o sistema fonográfico. a cada letra será associado um som. A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. através de rébus. é necessário associar a cada letra um som. com exceção da letra h. o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. o fonográfico. Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. Tratando-se da escrita alfabética.do significado. ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade. Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra. Existem estratégias diferentes para ler e para escrever. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. AVÓ). Para ler.

Se não der certo. Os recursos visuais aqui são úteis. Contar a história do alfabeto. até que o significado apareça. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. a história dos estilos de letras. por exemplo. sua evolução. A. privilegiando as letras e os números. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita. Explorar esse assunto ao máximo. Nota Português Inglês Francês. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. dos livros.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo. da caligrafia. As vezes. tem sons diferentes.

que nas de fôrma maiúsculas. ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas). como fazem os letristas. o traçado é feito sempre de cima para baixo e . pode ser através do uso de gabaritos. Com relação à parte gráfica. Para as letras de fôrma maiúsculas. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra.). em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever. por exemplo. dizendo. um gabarito de três linhas é o suficiente. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional.

As letras. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. etc. sobretudo as de fôrma maiúsculas. sem hastes. usando o bom senso. ou da direita para a esquerda. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. Todavia. o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. Por outro lado. quando houver mais de um traço. descendo.da esquerda para a direita. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou. segurando o lápis displicentemente. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. e vão para a direita. Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente. O professor deve avaliar. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. a escola . quando houver só curvas. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio. em geral. Letras que apresentam apenas curvas. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. <179> Explicações como essa são de grande ajuda. e de cima para baixo. As crianças podem inventar alguns traços. na parte mais alta. são traçadas da direita para a esquerda.

estando ora com uma parte voltada para cima. exemplificando com moedas e medalhas. a do círculo externo. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada.tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. Nesse caso. isto é. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. há várias formas de dispor as letras em curvas. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas . O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo. ora para baixo ou para os lados. a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. Nesse caso. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo. que o leitor verá sempre numa única posição. Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. Isso também tem de ser discutido com os alunos. podemos escrever na vertical.

Para ensinar isso. o bem q. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. deve dizer que. há uma notável distinção gráfica entre D. Pelo contrário. Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). em contrapartida. B.elas bem distintas graficamente. passar exercícios de "prontidão". o q em b e o p em d. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. menos ainda. analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a . Por exemplo. o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. eles podem se confundir. e. b. para se saber o valor das letras. com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. com a escrita cursiva. o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. Além disso. dependendo do modo como se observam as letras. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. o que se consegue. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. q e p é apenas a sua localização espacial.

Copiar para aprender Fazer cópias. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar.direita (ou vice-versa). Faz muito bem a eles. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não). Porém. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. é algo que os alunos apreciam. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. . como a letra A. como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar. essa atividade pode não só não ajudar o aluno. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos. Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. Enquanto os alunos copiam. pensam naquilo que as letras representam. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. caso das cartilhas. Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar.

Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. O . supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. muitos alunos estão. pelo retrovisor. nesse momento. o que está escrito nesses carros oficiais. por exemplo. mais preocupados em como se traçam as letras. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada. Carros de bombeiros. compõem todas as demais no mesmo padrão. eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. Seguindo essa direção. e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. o S e o C de forma espelhada. Lembrando das orientações do professor. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. Porém. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual. Quando o professor diz isso. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras.

Então. . Quando isso começar a acontecer. porque a ortografia naquela época permitia. seja ele curto ou longo. está na hora de explicar o que é ortografia. Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. Como exemplo. inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. como funciona e quais os seus usos. que a escola costuma chamar de troca de letras. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. escrever "onrras" (honras). Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente. "deru" (deram). ilustrada com exemplos do passado. Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas.professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. "çinquo" (cinco). visando sempre à redação de um texto. Mas hoje é diferente.

mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. "dici" (disse). ao explicar a ortografia. serão levados a reconsiderar o que fizeram. chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia. não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e. Somente depois. "vaquas" (vacas). "caminhão" e "camião". "milhor" (melhor. procurarão escrever cada vez mais corretamente. em alguns casos. "louro" e "loiro". Ficarão mais consolados ainda quando. "aluguel" e "aluguer". . portanto."homes" (homens). por exemplo. Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. já mais familiarizados com o ato de escrever. Com essas explicações. Como atividade de escrita. "filia" (filhas). etc. "flecha" e "frecha". "doçe" (doce). "assobiar" e "assoviar". etc. em função das normas ortográficas. é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. admitem mais de uma maneira de grafá-las como.

é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. Escrever. pedindo explicações. não espera que todos os alunos . já nasça com a arte <183> no sangue. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e. A escola. Quando se fala. embora o gênio. podem-se fazer gestos. Portanto. o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. perguntando o que não entendeu. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido. tem-se o interlocutor diante de si e. porque isso faz parte da nossa cultura. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. como qualquer arte. como se diz. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. por essa razão. desde a alfabetização. etc. quando se escreve. o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente. Fazer isso requer prática. todavia.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente.

vale o que o aluno faz. leva anos para atingir um nível satisfatório. depois. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. como se autocorrigir. sem dúvida. No começo. passar a limpo.sejam grandes escritores. é preciso ensinar a pescar. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. Não basta dizer ao aluno que ele errou. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. Nos primeiros textos. A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. melhorar e. não basta dar um peixe a quem tem fome. Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem. Como diz um velho ditado chinês. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. do jeito que . corrigir. que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante. sem precisar do professor.

portanto. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. sujo. o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. mal organizado. Com o tempo. produzindo textos espontâneos. <184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. que irão formar livrinhos. os quais deverão atender às exigências da escola. uma prática pedagógica muito importante. acima de tudo. pedagogicamente. um bilhete ou um trabalho mal escrito. e serão feitos em pelo menos duas versões. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. e outros. como também levando em conta a ortografia e. . que serão lidos por outras pessoas. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. mal planejado. a que a escola precisa dedicar-se. nem é preciso. ininteligível com relação às idéias e à grafia. A partir daí.ele fez. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. não só no aspecto visual-gráfico. a estruturação do conteúdo do discurso. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão.

marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. o ponto de interrogação. por causa do método das cartilhas. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes. como o ponto final. ou seja. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . A arte de escrever prevê uma programação gráfica. além da caligrafia bonita. desde a alfabetização. juntamente com o alfabeto. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. os acentos e os sinais de pontuação. uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel.Diacríticos. Esses temas serão tratados a seguir. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos. um layout. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos. No início. a vírgula. Tradicionalmente. enfeitadas. ao mesmo tempo.

ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem. Em geral. ou forem mais adiantados. script.. <185> deformando características gráficas das letras (isoladas). De acordo com sua natureza. O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica. Quando os alunos estiverem na terceira série.). Por essa razão. com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer.(manuscrita. Porém. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento. O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra . Além das formas pessoais de amalgamar letras. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos..

Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso. quando necessário. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . no entanto. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas. Caligrafia é uma arte típica da escola. não tem tido a menor chance nas salas de aula. complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. É uma pena. à semelhança de outras. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. por razões estranhas. abandonaram o ensino da caligrafia. Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. sofisticada. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. que muitos professores. Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). essa manifestação de arte. elegante. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca. charmosa. pode ser ensinado em séries mais adiantadas. Caligrafia é simplesmente escrever bonito. sem saber escrever de uma maneira elegante. Parece.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. No Brasil.

Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. vento. letras sugerindo fogo. força-se o traçado com a caneta. etc.espessura dos traços. cartazes. quando se escreve a linha descendente. enquanto se preocupam com os enfeites. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. suaviza-se. As crianças divertem-se com essa atividade e. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. alegria. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra. e. essas formas escritas são muito comuns. classificá-las do ponto de vista das . No mundo em que vivemos. o professor pode mostrar catálogos de letras. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. Na alfabetização. tristeza. é uma forma de ensinar não só a escrever. quando se escreve a linha ascendente. cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. etc. Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. e a escola não pode deixá-las de lado. Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito. como também a escrever segundo uma cultura. desse modo. títulos.

quando souberem.características gráficas e organizar álbuns. seguindo algumas idéias básicas. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. Quando alguém disser alguma coisa. O professor. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. as letras . Essas idéias básicas constituem os parágrafos. coloca-se ponto final. em certos casos. por exemplo. com as contribuições dos alunos. Quando estes estiverem escrevendo textos. o professor precisará explicar como se cuida do layout. em seguida. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas. mas. Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). A classe pode fazer um álbum coletivo. Um texto fala de um assunto. no mundo em que vivemos. como dividir um texto em parágrafos. como nas enumerações. usa-se o espaço de parágrafo. também merece a atenção de professores e alunos. é fácil mostrar o emprego da vírgula. porém. A vírgula traz algumas dificuldades. a marca do travessão e escreve-se a fala. além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. pode introduzir algumas idéias gerais.

mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. Nos livros. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia. quando as pessoas escrevem à mão.) Porém. dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. as palavras são cortadas no final de linhas. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda.. vão ter de tomar alguns cuidados especiais. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas. Porém. (Existem regras para isso. simplesmente a escrevem na outra linha. da clareza e da beleza gráfica das letras. No começo. por razões estéticas. os alunos escrevem palavras isoladas. quando isso é necessário. não é costume cortar palavras. mas não é preciso fazer margem . e se acharem que não vai caber. quando os alunos estiverem escrevendo histórias..minúsculas do alfabeto adotado. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida. mesmo na escrita à mão. Embora as explicações não sejam rigorosas.

as crianças gostam de copiar. o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. No primeiro semestre de aulas.direita. O acabamento correto do texto. quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. Porém. Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens). mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. quanto à sua apresentação gráfica. deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. esses aspectos precisam ser esclarecidos. provavelmente. no segundo semestre. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . Nessa hora. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. O professor pode deixá-las fazer isso. No entanto.

cada uma relativa a algo que vê nas figuras. nomes. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. outros. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . fazer pequenas cópias de versos. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. quer colando recortes. e não o contrário. então. O professor ficará atento a todos os detalhes. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos. frases. a aliviar um pouco a tensão. Quando o aluno faz o texto primeiro. Como sempre. não. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito. provérbios. Isso desarticula o texto. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa. expressões.virando: alguns alunos copiarão direitinho. pequenos textos. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. quer desenhando o que quiserem. A cópia ajuda. etc. Nesse momento. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício.

Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. Portanto. dia sim. os alunos vão escrever o que quiserem. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor.texto mais bem planejado. ou. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. Ao iniciar esse tipo de atividade. Algumas até se arriscam a fazer poesias. por sugestão do professor. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas. O professor não corrige . É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. Os alunos farão o texto e o ilustrarão. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. porque. dia não. por exemplo. do jeito que quiserem. assim. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. se for o caso. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas. o professor pode deixar os alunos redigirem.

nada que for entregue pelos alunos. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras. trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização. mais e melhor aprenderão. mas cada um a sua tarefa. desde textos curtos e simples. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem. escrevendo. e não que os alunos façam segundo um modelo. todos escrevendo. No próximo capítulo. O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização. e quanto mais os alunos escreverem. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. realizadas por diferentes alunos. em grupos ou individualmente. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito. . Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. até textos longos e pequenos livros. Aprende-se a escrever. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu.

decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. Como todos os alunos são falantes de português. na verdade.<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos. é um grande alívio. a tarefa é praticamente impossível. porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala. aprendem não só a falar. Isso. quando eles forem ler. ouvi-los e. Quando as pessoas adquirem a linguagem. discutir. se a pessoa não conhece a língua. Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística . como também a entender o que as outras pessoas dizem. Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. podese conversar com eles.

Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. todo falante é falante de um dialeto. comunicam-se. Mais ainda. Para entender o que ouve. <191> Como se vê. apresenta variedades. conversam entre si e. Em resumo. depois de certo tempo e costume. firmando-se assim os dialetos. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira.estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. de todos os dialetos. Porém. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto). é falada em muitos lugares. relativos aos dialetos. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem. como um todo. como a língua portuguesa. quando ouve. como ouvinte. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. Na verdade. O problema escolar coloca-se quando se pretende . os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa.

passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões. Como o objetivo da escrita é a leitura. porque. que não é falante de um determinado dialeto. Falar uma outra língua ou um outro dialeto. para explicar adequadamente o que deve ser feito e.que uma pessoa. que requer tempo e muita prática. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. embora não fale. no caso do dialeto. No começo. o falante entende. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira. uma pessoa pode ler um . por parte do professor. Nesse caso. Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. por parte do aluno. Na verdade. por mais semelhante que seja do próprio. Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. para saber o que a escola espera dele. O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. dentro de uma mesma língua. quando necessário. é uma tarefa árdua. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente.

A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. a escrever. "djia". "dia".texto em seu próprio dialeto sem problema algum. sempre. A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. "dentro". Assim como alguém vê escrito "pote". outra pessoa pode ler "pótchi". embora usemos um alfabeto. sobretudo. Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. muita festa. Entendem que o aluno precisa. "dia" e pode ler "póti". que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. "drentu". "miiu". muito entrosamento . porque. Basta conferir "pote" e "dia". Na escola. que automaticamente se entende "dentro" e "milho". e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. "milho". e ler. Para escrever. a escrita e a leitura funcionam. e assim por diante. etc. Do mesmo modo. "pranta". há menos problemas ainda. é preciso que haja muito recreio. um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". seguindo seu dialeto.

1997a. na escola. é preciso que o professor. só o dialeto padrão. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. CAGLIARI. o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. muitas vezes. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. nos momentos oportunos. quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. Certamente. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura. As zombarias dos colegas. Nessas ocasiões de interação social.entre alunos e professores. a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. Na sala de aula. Mas às vezes isso requer muito tempo. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão.

e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. em qualquer lugar do mundo. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. por outro lado. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. aprende uma gramática. Ninguém consegue . O vocabulário.de conversar sobre a fala dos alunos. aproximadamente. pelo resto da vida. Na fala. Qualquer um. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral. Nessa ocasião. as crianças entendem frases na voz passiva. o português do Brasil. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida. Nesse <193> espaço de tempo. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. porém não costumam usar essa construção quando falam. principalmente. os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. Como já dissemos antes. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. Por exemplo.

um mesmo pensamento. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. Se alguém diz que "mesa" é "copo". mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. não está seguindo as regras da língua portuguesa. Por exemplo. Todas as línguas do mundo — ou.falar. os falantes nativos não cometem. por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". dito no dialeto padrão de uma . As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo. Já num outro dialeto. esse tipo de "erro". ficando todas no singular ou no plural. conforme o caso. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. sem seguir regras muito precisas. cada uma específica de um dialeto. num dialeto. Em razão disso. Porém. No segundo caso. algumas palavras precisam concordar. a gramática tem regras diferentes. e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim". com regras de combinação muito específicas.. Deve-se dizer. não há falta de regras ou de lógica. mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes. etc. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. "cavalo" é "árvore". seja que dialeto for. mais especificamente. A linguagem não é feita só de palavras isoladas.

seria deixar de ser falante de seu dialeto. O exemplo acima. o que nem sempre é uma idéia muito atraente. Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . diferente das apresentadas pelos dialetos do português. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. Para ele. Isso pode acontecer até com línguas diferentes. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado. sobretudo para uma criança. Falar diferente.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. pelo contrário. tem o mesmo valor semântico. para ele. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". são as diferenças que permitem que as línguas existam. Traduzida literalmente para o português. se vertido para o inglês. Ser diferente não é um problema lingüístico. Aí. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância.

desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. destruindo.representa a expressão do pensamento lógico. um dialeto próprio. A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e. rodeado de preconceitos. levar vantagem. Na verdade. depois de muito tempo. da manifestação dos preconceitos. Por essas razões. a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. Como. Na prática. na nossa sociedade. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. como pode. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. ilógica e sem . passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. As diferenças lingüísticas passam. então. basta o usuário se dispor a isso. ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. conseqüentemente. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. por isso mesmo. Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. bem-estruturado. seus concorrentes. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. Desse modo. GNERRE. ocorre o contrário. 1985. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. formam-se as classes sociais.

mas. explicando o que significam. Todos os dialetos representam bens culturais.elegância. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. <195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. sobretudo eliminar a idéia de que o professor . A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita. O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. desde a alfabetização. não para justificar os preconceitos associados a ele. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos. Aprender o dialeto padrão é indispensável. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam.

as pessoas dizem palavras isoladas. e isso acontece através de um texto. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho. <196> 9. Além disso. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura. nem tão complicado. mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de . as pessoas não pronunciam palavras isoladas. Quando alguém se põe a falar. num contexto específico. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. ao longo de anos de observação. Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. quanto as pesquisas lingüísticas modernas. tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. da escrita e da fala. sua intenção é dar uma informação completa. Na verdade. Somente em circunstâncias especiais.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade.

o texto continua na resposta do interlocutor. tendo em vista a necessidade do momento. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". que motivou a resposta. se alguém fizer uma pergunta. quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. quando as pessoas usam a linguagem oral. Na verdade. O tamanho do texto varia. Assim. As pessoas falam o que acham que precisam falar. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar.ações ocorridas. o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar. dizer apenas uma palavra é o que basta. Por isso. esquece-se de que é falante . Houve apenas mudança de falante. se alguém grita por socorro. Na vida real. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. do que em falar certo ou errado. sobretudo. Normalmente. dada a situação. seus preconceitos e suas manias. ou dá uma ordem. estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela. Nesse momento. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. Em outro contexto.

As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa. e até mesmo para as letras. palavra por palavra. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado. Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. No entanto. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. Mesmo quando se procura explicar um texto. do professor. frases. como as carreadas pela entoação e o ritmo. A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. até informações gramaticais importantes. Todo corte implica. como os elementos prosódicos se modificam. porque em certas situações o significado depende do contexto. de certo modo. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . às vezes. principalmente. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. O professor desmonta e monta textos.nativo e de que é senhor da sua língua. da escola e. modificações do texto. ora apenas para os sons da linguagem.

No entanto. Quando as pessoas pensam e falam. a maneira como esse significado é dito. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade. e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. tudo vem normalmente. guiam-se quase exclusivamente pelo significado. Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. Com o uso dos sistemas de escrita. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz.segmentação da fala. Depois que alguém passa a . o que vale. isso se torna ainda mais corriqueiro. Caso contrário. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. é o significado e. em primeiro lugar. na sua essência. em segundo lugar.

Quando se interrompe a fala ou a escrita. é preciso articular os sons de maneira precisa e. Mas esses são casos especiais e raros. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento. Essas atividades são feitas automaticamente. ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados. é preciso traçar as letras. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. para escrever. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia.escrever com velocidade e fluência. a todo instante. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. Quando entram na escola. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. guiando-se apenas pelo significado. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever. as crianças lidam com a linguagem como . começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. Para falar.

o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. sílabas ou outros segmentos. para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. Sempre que possível. o professor deve tentar. os quais. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . principalmente no começo. Por essa razão. por sua vez. Para elas. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. mas também para analisar a linguagem oral. Obviamente.qualquer falante nativo. criar situações em sala de aula em que predominem o texto. sobretudo no início. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas. Por outro lado. pertencem à família dos "bês". ou seja. Isso tudo mostra que. o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. do bá-bé-bi-bó-bu.

tudo o que se diz. Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. mais o contexto em que é dito. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso. uma carta é escrita com outro estilo. Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. algumas pessoas se confundem. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos . É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. os textos têm estilos diferentes. Para os alunos. No fundo.linguagem. TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. trata-se de algo fantástico. forma um discurso ou texto. Resumindo. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito. mas somente aquelas que revelam traços literários. concluindo que nem toda produção oral é um texto. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam. Um texto literário precisa ter um toque de arte.

Pior ainda. discutir o assunto com os alunos. Para tanto. essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos.textos orais e nossos textos escritos. Como se disse. no seu sentido mais amplo. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza. e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos. a fala é diferente da escrita. por isso. e nisso não há nada de novo nem de ruim. Precisa. ao contrário. Em outras palavras. esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena. especialmente os da linguagem escrita. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança. . eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. científicos ou mesmo de uso escolar mais comum.

O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura. O excesso de metáforas pode levar o ensino ao . Porém. acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). se em vez de fazer isso. como os exercícios de monta/desmonta a linguagem. Essas regras não estão em palavras isoladas. Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. mas nas pontes que ligam as palavras num texto. O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras. acabam destruindo o texto na sua essência. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto.

Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. de estilos diferentes. e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. quer escrevendo. objetiva. precisa. quer falando. Apesar do que ouve e faz na escola. pode aprender como a linguagem funciona. Além disso. A partir deles. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. Há momentos em que a escola tem de ser clara. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia.caos. que . pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior". comparar sua fala com outros tipos de texto.

geradora de uma análise em sílabas. As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. mas escrevemos palavras e não apenas letras. Temos o alfabeto com letras. Para aprender a falar. uma depois da outra. Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar. Há muita diferença entre uma palavra-chave. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível. quer do ponto de . formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis. ser isoladas. cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido. letras e sons. O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. que está facilitando o trabalho do aluno. as regras perdem seu poder explicativo. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. O professor acha. a ponto de impedir a aprendizagem. e um uso de palavras num outro contexto. quando na verdade o está complicando. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita.precisam. Fora desse âmbito. às vezes. às vezes. em que elas encontram <203> vida própria.

Na vida real. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. sobretudo a escrita. o professor não vai ficar fazendo só isso. sem levar em conta o uso de palavras isoladas. Obviamente. etc. material escolar. Esse uso da linguagem é típico da escola. o rótulo de um produto. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico.vista lingüístico. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. carteiras. no qual o próprio sentido literal soa estranho. etiquetando cabides. entretanto. Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". quer do ponto de vista da motivação do ensino. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. . uma indicação. As duas coisas são indispensáveis. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito.

de maneira isolada. Sempre que possível. é melhor usar textos do que palavras soltas. o professor precisa dar explicações. Desse modo. Com relação à escrita. Em primeiro lugar. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. Em segundo lugar. para tanto. mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento. Nesse caso. através de regras que consideram uma questão por vez. mas precisam ser explicitados aos alunos.O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. Aqueles que recebem esse . e não apenas palavras isoladas. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais. Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. Mas. essa abordagem é mais evidente. é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta.

esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. mas também as formas de argumentar. Num texto. porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. pelo contrário. mesmo nunca tendo ido à escola. pedaços de palavras. de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem.tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. irão enriquecê-las. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases. Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem . Porém.

os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. Ouvir. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças. Essa é uma <205> visão equivocada. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. Se é difícil escrever um texto desse tipo. que escreve para crianças. esses escritores não seriam famosos. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição. Primeiro. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. de fato envolve os leitores. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . Depois. como atividade escolar de produção de textos. isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. porque o texto de um escritor famoso. caso contrário. Para facilitar e se adequar aos métodos usados. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. segundo as expectativas do método.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

dão roteiros. seguindo o mesmo caminho. fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo. Após a indicação do título. por quê. que não seja apenas o de ganhar uma nota. como. empregando as palavras já dominadas. onde. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros. não propõe a produção de textos. vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. quem. alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. Os alunos só escrevem frases. quando. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas. De acordo com o método das cartilhas. O texto sai espontaneamente. Para tanto. juntando-as do jeito que acharem melhor. em geral.. menos ainda textos espontâneos e livres.outro contexto. Não precisam se preocupar com começo. Quando falam. meio e fim. não se esquecendo de que o texto deve ter começo. <214> Além disso. de acordo com as idéias que têm na .. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. A própria cartilha dá exemplos de textos assim.

guiando-se por esquemas como os mencionados acima. nas séries mais adiantadas. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. Quando elas forem escrever seus textos. que serão severamente criticados. devem agir do mesmo modo. no entanto. cobra deles justamente o contrário. Aqui. Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. depois. com criatividade e arte.cabeça. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos). mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . eles acabarão produzindo textos estereotipados. e se seu estilo agradar a uma comunidade. depois. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. pela própria escola. noutra com adjetivos. como em outras ocasiões. noutra com verbos e assim por diante. torna-se um texto literário. O professor. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem.

intitulado Composições escolares. Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. de Antônio Pedro Wolff. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso.. seguindo o velho esquema de responder a perguntas. Tenho diante de mim o livro da 2ª série. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. Para se ter uma idéia mais .contextos. Por exemplo. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos. O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. No final. água. o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira. destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos. 1950. alto. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. terão cinco frases. 7ª ed.

Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. . perguntas. perguntas.completa. — Redação de envelopes. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades. — Reprodução de contos sem questionário. — Passar quadrinhos para prosa. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. — Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas. — Formação de sentenças exclamativas. esquecendo-se dos que não aprenderam. questionário. — Redação de bilhetes. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas. — Redação de cartões de visita. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado.

<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. como já vimos. não seriam capazes de escrever belas . como ensina o método das cartilhas. Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. E isso. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio. por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. é desastroso. pelas evidências encontradas no próprio trabalho. a conseguir melhores resultados. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. Surpreenderam-se com os resultados. Pensavam que seus alunos. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. O excesso dessas atividades. em geral. porém. com a segurança de que será um bom trabalho. A verdade não é bem essa. muitos professores acabaram se convencendo.

no início. já que os alunos. não fixassem o erro. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos. Entretanto. acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. sentem-se inibidos. Com muito bom senso e um pouco de coragem. uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. textos espontâneos. É preciso tomar certos cuidados. nesses casos. dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. conseqüentemente. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares. por exemplo. O tempo como sempre é um fator importante. Lamentam. Um outro tipo de comentário comum. para que eles não errassem e. e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais.históri as. quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos. pelo que aprenderam até então). a fazer. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. encontra-se . certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais.

gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo. com todos os problemas que já tinham antes. de fato.. querendo dizer que. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar. tanto faz agir . tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim". eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas.. não é bem assim. Um comentário diferente. Portanto. Em outras palavras. se algum aluno não aprendia. Em primeiro lugar. porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". usando o método das cartilhas. mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos. o professor quer dizer que.na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos.. tal qual sugerida por nós.. mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos.

A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. pelo menos em parte e em certas ocasiões. Na verdade. Por outro lado. como faz para escrever. ele erra ao escrever espontaneamente. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. o que denuncia que o ditado não é uma boa . apesar de o aluno acertar tudo no ditado. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto. Conseqüentemente. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva. não é bem assim. certos erros vão evidenciar que.bé-bi-bó-bu. que tipo de solução dá para suas dúvidas. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba.de um jeito ou de outro. E isso faz muita diferença. dos ditados.

forma de avaliação (e pior ainda de ensino). Será feito um comentário geral sobre cada texto e. estudadas e copiadas. Essas frases não pretendiam formar um texto. será apresentada. Depois. uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. escreveu frases soltas para completar o texto. EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. Como se vê. depois. Para ilustrar os comentários expostos acima. que aprendeu na cartilha. a seguir. errando cada vez menos no futuro. em busca de uma explicação. os erros serão analisados. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar. da leitura e da fala. até dominar a produção de textos escritos. eram apenas . uma série de textos dos mais variados tipos e origens. de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita.

<219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. Ponha o vidro de xarope debaixo da luz. o sapo coaxa. não só com a leitura que as letras têm. Os textos vinham ao final da cartilha. 1951. LOURENÇO FILHO. A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons. 6. mas também com as relações entre sons e letras. 5. Lourenço Filho. de Manuel B. O besouro zumbe. Por . Devemos seguir os bons exemplos. 3. Zezé não zela de suas coisas. ou seja.exemplos para leitura. O rapaz estudou a lição do exame. quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). 4. 33ª lição — A zebra 1. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. 2. cópia e ditado. o burro zurra.

Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. 9. "A galinha esperta" (fábula). 3. em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". Posso conhecer minha terra. 5. como o X e o S. O primeiro texto é este: 1. uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. Já sei ler nos livros. 6. escritos com outras letras. Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. "A nossa bandeira". porém. O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. como em outras cartilhas. Já sei ler! 2.isso. Da lição 37 em diante. Para o autor. Como é bom saber ler! 8. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". . 7. 10. Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. Todos os brasileiros precisam saber ler. nas cartas e nos jornais. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. 4.

denota isso. uma vez que ele supõe que o aluno. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. com números e paragrafação. Apesar disso. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. escrever um texto "fácil". mas não redigiu um texto. dificultando ou impossibilitando a leitura. Na verdade. Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico . Como o texto vem ao final da cartilha. Até mesmo a disposição das frases. nem com as noções já dominadas. por bom senso. Como falantes nativos de uma língua. seja capaz de ler qualquer coisa. achou conveniente. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. Depois que eles decifraram a escrita.Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. nessa altura. o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra. de Cecília Meireles.

) Intencionalmente. das flores — de tudo o que aparecer. que não corra nem pule. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim. Um burrinho manso. (Quem souber de um [ burrinho desses. a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e. mas que saiba conversar.especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). pode escrever para a Rua das Casas. Não é possível. cientificamente falando. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear. das montanhas. ao Menino Azul que não [sabe ler. O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. não precisou escrever números . dizer se o texto da cartilha. assim. apresentado acima. Número das Portas.

vendo aquela cor do colar de Carolina. põe coroas de coral nas colunas da colina. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. . Carolina corre por entre as colunas da colina. É uma casa bonita. O calor de Carolina cobre o colo de cal. Por exemplo. como se pode ver. de maneira típica. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. torna corada a menina. bem diferente dos exemplos da cartilha. A casa é de Lalá.antes das frases. como ocorre com outros poemas do livro. Esse poema é um <221> dos que não se prendem. ao ensino de determinada letra ou som. 10. p. A casa tem copa. mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo. E o sol.

É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e. e juntando palavras para formar frases. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. o aluno passa a entender que. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma .A copa tem caco. como o método está organizado de modo hierárquico. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa. até que encontre um professor que chame sua atenção. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. ou esse conjunto de frases. o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. E assim continuará fazendo. acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases. rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão. para as finalidades da escola. é assim que se faz um texto. Como se vê.

1950. O boi bebeu e babou. O boi de Fábio fugiu. O boi bebe e baba. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo. . começaremos apresentando alguns outros textos típicos. 3. 8. 4. O boi bebe. de Vicente Peixoto. PEIXOTO. O boi baba. produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita.p. ele acaba entendendo que.p. > Texto 1 — 1ª Lição 1. 1950. 14. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola. > Texto 2 — 4ª Lição 1. Fábio foi cedo à cidade. além de se alfabetizar. 2.) PEIXOTO. 2. extraídos da cartilha Coração infantil. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. cartilha de alfabetização rápida. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas.

A blusa de Carlos não é de brim. Fábio fugiu da geada. p. 5.3. O sapo pula na rua. Oh! que bonita blusa! 2. 2. É a blusa de Carlos. 70. 1950. 4. É de seda branca. A rua é de subida. 6. 3. 3. <223> . p. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. Os exames estão próximos. > Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. PEIXOTO. p. 46. 2. A geada "caiu" cedo. Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. 4. 1950. > Texto 3 — 1ºª Lição 1. Como cai bem no ombro! 7. O sapo sobe a rua. 4. Romeu ri do sapo. Xerxes estuda dia e noite. 1950. 30. A blusa de Carlos é de seda. PEIXOTO.

na verdade. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. como no método do bá-bé-bi-bó-bu. Quando se analisam esses textos. 5. . Aqui. a frase 7. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. No texto 4. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. discorrendo sobre um certo tema e. Por isso explica bem o que estuda. escrever frases. seria mais inofensivo. só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas. mas procurou uma ligação semântica entre elas. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto. na verdade. percebe-se logo que o autor quis. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. No último exame fez provas exatas. Ele fixa a atenção nas lições. apenas frases para treinar os alunos. por isso. e não simplesmente de frases soltas. Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é.3. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência). uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. 4.

outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade. e com referência ao qual tudo é construído. por exemplo. e se a geada caiu cedo. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. como a neve. no texto 2. Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica. por exemplo. foge de geada. do ponto de vista semântico. É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. Quem lê o texto sem saber dessas informações. e não lógica (veja. ainda. percebe-se logo o mau gosto . logo abaixo. uma vez que a geada não cai. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias. mas se forma com a umidade. lendo esses textos. Esse texto tem. Dentro das preocupações subjacentes do autor. logicamente. Entretanto. devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente. porque ninguém. a expressão "pé de mesa"). frase 6. sem colocar aspas.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride.

Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó. quando apresentados por um livro didático ou por um professor. mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita. São textos sem graça. Apesar disso. a respeito da ortografia das palavras. menos ainda. idiotas. TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. do ponto de vista do valor. Os meus dio nadaro debecireta. a chatice com que é tratado qualquer tema. Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. E estálio = história. insípidos e. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). até certo ponto. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . são no mínimo razoáveis. os textos têm um certo sabor interessante e. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. Texto 6—Alvaro L.literário. apresentados a seguir. a falta de originalidade. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. e.

Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade. O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história. o rerudo = orelhudo. Depois de uma discussão sobre o assunto. as crianças fizeram textos e não frases . ela resolveu experimentar.

ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. o aluno escrevia páginas. mas passaram a se interessar muito por leitura. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita. não fazendo direito as lições da cartilha. segundo a expectativa da escola. ele não dominava o que era ensinado. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases). No final do ano.desconectadas. Apesar do esforço da professora. inventando um modo estranho de grafar as palavras. Segundo a professora. daí para a frente. Em outras palavras. no tempo em que os demais apenas completavam a lição. Quando a professora começou a passar textos espontâneos. ele confundia todas as coisas. Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce. percebeu que o aluno era pior ainda. .

Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita. e que essa forma deve ser usada por todos. Ortografia não era questão de sorte.embora escrevesse histórias interessantes. nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. Com a produção dos textos espontâneos. seguindo o modelo. Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . Todavia. Seguindo a cartilha. como uma loteria. professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo. ou seja.

Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . esta noiva.princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. (d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor. a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova.

Epa a policea vemvino. Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta. Texto 12— Dirceu L.mamãe e papai ficarão triste. Enquanto os colegas . O texto 10 é também de uma aluna repetente. duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7. Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta.

Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. em vez de dizer . Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas. ela fez quatro. Além disso. Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. o resultado foi um amontoado de palavras. numa tentativa de compor frases soltas. GOSTA DE NADAR fica "gota de nada".fizeram apenas um texto. Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata. Assim. ao invés de BONITA escreve "baoneta". PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14.

mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. essa aluna tem grandes chances de errar. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra. mesmo com todo o esforço das cartilhas. A dona da casa e o pai e a mãe. observando a fala. O giigante gebrevu daliom. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras.que A MACACA SE CHAMA TATA. sendo apenas um jogo de palavras. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. Como se vê. Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta. Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. arriscando. qualquer forma de escrita. do professor e do aluno. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua. a seu modo: "A macaca é a tata". produto do método do bá-bé-bi-bó-bu. escreve. (?) Amanha é dia pascua. . então. Pior de tudo é a estrutura do texto. Os outros alunos.

logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho. O bone e da menina. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. O pelo da duensa nas criansas. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. M. <229> (b) O chapeu. O dia comeu nublado. . O feio e o leão (?) A menina e a jogadora. fim Altor Samuel J. — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre.Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente. (c) O aniversario.

quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens. Ninguem lembrou que era o aniversario da titia. Texto 16— Graziela P S. a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu. Então ela foi ate o medico.

Vou aproveitar que ele saiu. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. O primeiro aluno (texto 15 — a. Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . O esconderijo é ali. Ali está o cachorro. de maneira integral. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita.<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. no segundo semestre. b. e. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d). d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. mas aos poucos foi aprendendo. Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. Apesar das dificuldades ortográficas. o texto que produz. Por outro lado.

nesse caso. os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. Além disso. sem medo. sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). o aluno passa a escrever com naturalidade. Note que o aluno. geralmente mais longos. mas que aparecem na escrita. porque não tem de se preocupar com o já dominado. escreve qualquer história. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras. interessam-se muito pela leitura. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar. Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. já estudado. <231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. como uma forma sofisticada de uso da linguagem. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. justamente por essas razões. qualquer palavra que deseja.em detalhes. Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. É por isso que um aluno acaba .

O mocinho matou o bandido. Extraído de Relatos de Experiências . mais do que orais. O filme era de mocinho. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. exceto o último "eu". os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. que a aluna já percebeu. um elemento semântico que precisa ser realçado. TENHO UM PRANO. ainda. vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano". JÁ PEGUEI. BOM. nesses casos. A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos. Os pronomes ELE e EU. AGORA VOU LASSAR. O menino assistiu um belo filme. isto é. É preciso dizer. Na fala.transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. Texto 17. como também se vê no mesmo texto). JÁ ESTOU CHEGANDO. Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU.Reinaldo C. O bandido roubou o banco". a saber: "O menino foi no cinema. prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. e está tentando empregar na redação. ao ler.

as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam.premiados 1989. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. mas certos tipos de erros. 45.E. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S. O que choca. II Concurso. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. Professora Aurea de Godoi. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. p. 32. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos. às vezes.PG. p. MEC. como . Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. Responder: O que é melhor. S. MEC. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E. Como se pode observar. II Concurso.

por exemplo. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio. organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. EU SINTO EM MIM. Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . "eu sinto ni mim". As pessoas falam "eu num fui". mas que se escreve de outro. etc. extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. em detalhe. mas têm de escrever EU NÃO FUI. II Concurso. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. 108-9. MEC. mais adiante. os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. Quando escrevem textos espontâneos.analisaremos. Veja. p.

b. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que . que estão começando a aprender a ler e a escrever. <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham.POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola. As crianças se saem bastante bem.

ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" . E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor. Mais para a frente. Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê". Para se obter o som de "kê". Nesse primeiro momento. COECE é uma excelente transcrição fonética. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). neste caso. é usar as letras QU. levando-se em conta o contexto de escrita.resulta. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. se eu cair. Veja no texto 19c. Texto 20— Fábio E G. Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas. freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. Por outro lado. (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. sem a marca da nasalidade. Um balão de São João. Agora. a única saída.

Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer. jamais . Os textos 20 e 21 são da 2ª série.Já está de manhã. <234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. Então ela foi para casa e comeu. os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. Note como os textos amadureceram. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. E lá mais adiante ela encontrou as formigas. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos. sobretudo. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. Então ela ficou na cama. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. desde a 1ª série.

certamente. resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida. Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão. Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para .terão problemas de redação. que. Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa. Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio.

Escreve TUDO em lugar de TODOS. acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA.se lavar no tanque. distinguindo-a do "q". ensinado pelo professor. Além disso. como traçar corretamente a letra "g". sua nota foi maior. Certamente. o professor achou . Começou com palavras. escreve textos seguindo o modelo. Naquela época. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937. que segue um modelo. tem de fazer um texto do tipo padrão. No texto b. O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado. O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época. O aluno não produz um texto espontâneo. agora. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa. apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). a ortografia adotada pela escola era diferente. ou seja.

ou seja ARRUMANDO. O que interessa. HOUVER. PREPARANDO. ele achou que a descrição era melhor. TODOS. como produzem textos mais interessantes. ou seja.que o aluno. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. na verdade. nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. APANHA. TORRA-O. ou seja. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM. ou seja. fazendo textos menos criativos. pois a maioria estudava até a 2ª série. ainda. . mas falou de seus hábitos. não descreveu exatamente o cão. BICHINHOS. Já no texto b. no texto a. NECESSÁRIOS. Na 4ª série.. BIXINHOS. APANHAR. Há de se notar. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). ARRUUMANDO. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. do ponto de vista literário. TORA O. No texto b. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. TODO. Como se vê. ou seja. ou seja. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. etc. NESSESARIOS. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS).. ou seja. ou seja. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. OVER. as coisas não eram bem assim.

Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. para que o aluno aprenda em ordem. deve ser eliminado o mais rápido possível. A meta a ser atingida era outra. para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. indo do mais fácil para o mais difícil. Certamente. segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia.Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. O que está errado deve ser evitado. Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. reproduzindo o modelo do já dominado. Se ocorrer. A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia. Por essas razões. Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda). QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu. . Hoje.

com o tempo. são claramente reveladores. desde a primeira série. inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. Porém. mas o tipo de erro cometido. é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z . como esse tipo de argumentação é freqüente. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto.esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado. Produção de textos livres será feita como última atividade. através de exemplos. depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. Para eles. <237> Uma outra questão. especialmente para comparar o que significa. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. é bom lembrar aqui. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. mas. que perturba demais certos professores. mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando). principalmente no início da alfabetização. o que é comum. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia.

destruindo coisas que o aluno faz (o errado). e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades. Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. consideram o certo e o errado . aumento.). e nunca pelos acertos.. A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d). progresso. É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância. Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. ou LIXO com CH (LICHO). apoiando-se naquilo que já aprendeu. e não um processo de construção.(CAZA). que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem. dizendo que são justos. etc. derrubando. JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). Por outro lado. É a avaliação punitiva. EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12). porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c).. não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8).

). portanto. Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. Em resumo. precisando. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. . o que ele representa em termos de erros e acertos. sendo essa mais uma razão para a reprovação. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. acham por exemplo. porque o aluno não tem condições.objetivamente. porém. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco. eles dizem que não. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes. foi bem na escola e merece ser aprovado. ser reprovado. mas numa certa desconfiança imprecisa. o aluno tem índice baixo de acerto. Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?). acertou muito menos do que os 70% esperados. Quando.. E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante. ou seja.. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8).

u.1. em primeiro lugar. o aluno acertou as letras 0. n. n. na primeira linha. t. o m (de MUMTA. o (2). d. c. a (4). Por exemplo.07 21. o (7). o (5). d. e. a. a. Procedendo assim. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2. Portanto. que ele escreveu CO) (I).Contaremos. na verdade um "i": MUITA) (I). os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos. ã. e errou: m (falta em COM. na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA.93 . m.

o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2. si/nos = sauva/você = 2 2 8.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras. numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. Vamos transcrever o texto. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. um professor que tivesse como critério de . dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual. coando = voce = tive = 3 — 9.

Porém. que muita coisa já foi aprendida. não tem condições mínimas de ir adiante. por outro lado. A produção de textos espontâneos pelos alunos. quando os professores vêem somente o texto. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos. acham que o aluno não aprendeu quase nada. comparado com outros. que escreve tudo errado. pelo lado positivo. conseqüentemente. são muito mais certos do que errados. O texto 8. ambos poderiam ver. que ele. Mostra. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos. o que significa. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas. ainda. e que. apresenta muitos problemas. o preconceito contra certos erros de ortografia. Essa constatação é um bom argumento para convencer . desde o início da prática de escrita. deveria aprovar Ronaldo. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. no fundo. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. considera gravíssimos.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. mas. Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. analisados com mais cuidado. a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. professor. constata-se que.

fruto de uma reflexão. a humanidade sabe que o homem é um animal especial. o homem é um animal racional. como uso da faculdade da racionalidade. Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. em outras palavras. mesmo quando comete barbaridades. Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. sem que isso seja o resultado de uma decisão. ou ainda ficar sem fazer nada. não há nenhuma novidade. simplesmente deixaria de ser homem. O homem é escravo de sua racionalidade. <240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade. caso contrário. O homem não pode se ver livre da racionalidade.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. em nenhum momento. sempre e em todas as circunstâncias. sob nenhum pretexto. Nisso. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. Nem toda . Desde os mais antigos filósofos.

pelas suas características físicas. É evidente que a estrutura de nosso corpo. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas. um instinto. mas o andar requer uma tomada de decisão. ou seja. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. Quando andamos. mal sabemos como fazemos isso. que antes eram inconscientes. . nos animais. caso contrário. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente. não andaríamos. A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. Se em vez de andar alternando os pés. por exemplo. A reflexão e a decisão sobre como andar.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. usando sua estratégia de ataque ou defesa. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos. pode agir sob influência de fatores externos. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. por exemplo. etc.

Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. como fruto de uma necessidade essencial. um animal racional. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. ou linguagem e pensamento. A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. É por essa razão que.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. da vida e do mundo. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. sem ter o outro. e isso já é refletir. quando uma criança entra para a escola. através da linguagem e da cultura. senão não seria gente. Ao interpretar a realidade. a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . Além disso. linguagem e racionalidade. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. portanto. já percorreu um longo caminho de exploração do homem. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário. Por isso. para muitos filósofos.

ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. acumulando uma bagagem de pensamento. a leitura. ou a faculdade da linguagem. Esse . aprende chinês de um jeito ou de outro.5 a 3 anos). as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. <243> que é a marca de sua personalidade. os usos da linguagem. é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. Nesse âmbito. Portanto. diria Aristóteles. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade. a gramática da língua. Durante vários anos — em geral 7 —. a fala. vive interpretando a realidade. Nessa aventura humana pela vida. é inata. aprende a falar português deste jeito ou daquele. Através da interação social. Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. em outras palavras.perspectivas. a escrita. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem. Por essas razões. ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana. toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente.

Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola. Nessa bagagem. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. razão pela qual se começa a buscar sutilezas. Para ensinar. E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. alunos e escola não entrarão num acordo. caso contrário. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. .acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. elas precisam descobrir o que a escola. assim. a escola. os livros didáticos e os professores pensam. Ao longo da vida. novos conhecimentos. em todas as séries. da escrita e da fala. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos. por exemplo. os livros didáticos ou os professores transmitem. É por essa razão que as ciências. mas em todos os dias. se desenvolvem. por outro lado. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. as novidades tornam-se cada vez mais raras. Para aprender.

6) da linguagem e. Há muitas idéias em comum e. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. da avaliação. estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria. Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . da promoção. 4) da sociedade e da cultura. da ilusão. 5) da ciência. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. 3) da realidade: do homem. das noções de certo e errado. e. da vida e do mundo. da leitura. da superstição. nessa lista. As idéias estranhas. em particular. 2) do professor. do real e do imaginário. na prática. em suma. sobretudo. essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. da vida escolar. de tal modo que. do ensino. de suas idéias e atitudes. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. Ao longo do ano escolar. da fé. do aprender.

as causas mais evidentes serão as escolhidas. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras. Porém. escrita e leitura. trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. Por outro lado. há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente. e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele. principalmente de leitura e escrita. 1997.detalhe. Outras vezes. <245> . há a possibilidade de explicações alternativas. Em resumo. que serão mencionadas oportunamente. Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização. prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem. Nesses casos. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação.PATTO. isto é. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que . a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros.

não esclarece. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. de fato. incapaz. como problema emocional do aluno ou de sua família. Interpretar erros de ortografia. quando de fato ocorrem. emocional). apenas isso. Os erros escolares são sempre muito . afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. como distúrbios da fala.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. etc. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade. Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. a razão do erro do aluno. por exemplo. São coisas diferentes. preguiçoso. é enganar ao aluno e a si. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. relaxado. Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo). como aquelas que sugeriram o período preparatório. Também dizer que o aluno é burro. caso contrário. lento. mas toda a vida da pessoa. Problemas de outra natureza (físico. Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. acabam aparecendo interpretações equivocadas.

ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. o que dá 12 000. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. acrescentando um zero ao resulta do). depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20. Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). 60 0. 1 440. acrescentando um zero ao resultado). multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400.localizados e circunstanciais. Ocorrem em determinados contextos. Por isso. seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. o que dá 600. 840.O = 13 440. ou seja. O aluno chegou ao resultado certo. esse aluno não copiou o . dá o total de 13 440. Sem dúvida alguma. que é a resposta. escrevendo 40. e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). 800. somado ao resultado anterior (1 440). resultando em 840. mas também quando eles acertam (às vezes). 40 + 800. que por sua vez. um aluno pode multiplicar 420 por 32. Por exemplo. Em seguida. 1 200 .

apesar dos baixos salários. graças à racionalidade. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. Por isso. é escravo da própria racionalidade. mais rico ou pobre que seja. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. de uma decisão pensada. ainda. tudo o que faz é fruto de um pensamento. causar uma repetição de ano. achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega. em todas as circunstâncias. de uma reflexão. é preciso.resultado e muito menos colou. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. Conseqüentemente. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos. por mais simples. eventualmente. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. Talvez seja esse o motivo pelo qual. Todo ser humano. toda pessoa precisa estar constantemente .

segundo as características da sua personalidade. Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes. todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro. Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal. Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam. .lendo o mundo e procurando entendê-lo. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. . Em <247> outras palavras.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas. resultante de uma reflexão. tentando interpretar fatos iguais.

fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. ou TIVE por ESTIVE. L por R. Por exemplo. Nessas circunstâncias. Já em métodos antigos de alfabetização. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. acaba escrevendo errado. como ARMA por ALMA. quem inverte a ordem de letras em palavras. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. 45-7. Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala. de Francisco Alves da Silva Castilho. NAVA em vez de . Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. p. 1859. do método de leitura denominado escola brasileira. quem troca -NHO por NIO. aluno que mistura letras. o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade.Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. como em CRAVÃO. foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. CARDO por CALDO. curiosamente. no Manual explicativo < CASTILHO. segundo um dialeto que não respeita a norma culta.

Nenhum método de alfabetização controla tudo. O PROFESSOR. apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. O MÉTODO. sempre.LAVA. É por isso que. Quando o método é muito rigoroso. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. quase sempre. aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais). acabam. Por . os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. porém. interpretando até mesmo o que o método ensina. o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. XUA em vez de SUA. O aluno não deixa de lado sua racionalidade. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). nem seu direito de refletir. alguns alunos cometem erros. tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo. porque está sendo submetido a um método ou a outro.

Um professor que conhece profundamente como a escrita. o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. não é porque o professor ensina de um determinado modo. sendo dispensável na escrita. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende. O importante é o fato de que. seja em que método for. é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. Por outro lado. os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas.exemplo. quando eles vão ler ou escrever. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. para tudo o que fazem. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados. um professor que não for capaz disso. isto é. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. CP para CAPA. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. No fundo. escreve no ditado LT para LATA. etc. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante.

É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. Às vezes. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. o aluno é remanejado. seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. apesar disso. Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita. para isso. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos.bem-adquirida. é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam. Se. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. reprovado. Mas. Quando um aluno começa a errar sistematicamente. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz. Nem sempre o bom senso funciona. submetido a processos de recuperação. Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola.

tudo está em ordem. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. de inteligência. a fatores socioeconômicos. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. etc.deficiências dos alunos. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. eliminando os erros a qualquer preço. O ERRADO E O DIFERENTE . sejam eles quais forem. < MASSINI CAGLIARI. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. de desnutrição. fonoaudiológicos. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros. são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. porque tem medo de enfrentá-las. com seus déficits. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola. sem medir as conseqüências. 1996i <250> O CERTO. A escola usa de rótulos já prontos. criando a falsa aparência de que. sem saber se são verdadeiros ou não. médicos.

O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro. Tradicionalmente. Para estudar essas línguas. se não forem sanados. falam . na Coréia falam coreano. Alguns erros são tão sérios que. Por exemplo. Uma língua vive em função de seus falantes. Ao fazer isso. os livros didáticos e. a escola. A partir da correta análise desses erros. no Brasil falam português. o errado e o diferente. Como a linguagem oral é um fato social. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. descobre que. Obviamente. no Japão. o método das cartilhas não gostam de erros. A nota é o castigo do erro. sobretudo. jamais nos seus próprios. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz. não se alfabetiza. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. De modo geral. conseqüentemente. Em se tratando de linguagem. apesar de essas pessoas usarem a mesma língua.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos. as pessoas falam o japonês. o aluno acaba não aprendendo a ler e. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. é preciso distinguir o certo. na França falam francês.

podemos voltar à discussão do que é certo. por outro. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico.com diferenças regionais e até pessoais. obviamente. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. as diferenças. sendo um só para todos. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem. por ter um uso social muito abrangente. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. o lingüista precisa descrever. trouxe uma grande vantagem no uso. Isso. Para organizar a gramática de uma língua. Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. . Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. por um lado. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. está acima dessas diferenças entre os dialetos. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala. Porém. É preciso acabar com esse equívoco. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral. nosso sistema de escrita. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. errado e diferente em cada um dos casos. as igualdades e.

ou se atrapalha na pronúncia. por exemplo). exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural. mas acidentes lingüísticos. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. ou gagueja. Não são erros propriamente ditos. como em propaganda. Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. estamos diante de diferenças dialetais. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . A escrita também tem um estilo próprio. uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra. escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. um escreve de forma mais clara. um escreve mais elegantemente. Passemos agora à linguagem falada. na sintaxe ou na semântica. escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. Outro de forma mais confusa. Às vezes. e não apenas uma manifestação de estilo individual. Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro. outro não. Porém. São diferenças aceitáveis. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. Por exemplo.Do ponto de vista da escrita. e não de erros. outro menos. O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". Assim. está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita.

como foi mencionado anteriormente. de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. ou viceversa. Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". . e o contrário também. Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha". a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias.pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística. a não ser por acidente. Assim. Os falantes nativos não cometem erros. Cada dialeto tem seu modo de ser. sem misturas de regras. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. Assim. Portanto. estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. Isso seria um erro. Está tudo certo nos seus devidos lugares. ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá". quando há diferenças entre elas. trata-se de diferenças dialetais e não de erros. nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da".

Não é raro. em grande parte diferente do uso comum das pessoas. sobretudo na escola. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. conseqüentemente. neurológica. Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos. na pronúncia das palavras. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. <253> Na prática.PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e. Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. uma pessoa que faz tudo normalmente. mas . enquanto perdurar a patologia. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. Uma educação especial poderá ajudá-las. por exemplo. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física.

mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. diferenças dialetais. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. Se a pessoa é deficiente auditiva. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras. a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. escrita de forma cursiva pelo professor. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". Se uma pessoa fala com os colegas. equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. Esses termos já são complicados por si. não é um afásico. Se a pessoa tem problemas de lateralidade. mas com os sons em geral. idiossincrasias. Por aí. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". Para erros semelhantes de ortografia. escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual. causadas por lesão dos órgãos da fala.apenas "fala errado". mas simplesmente porque interpretou errado a escrita. não apresenta um caso patológico. inventaram um termo chamado . e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência. brinca discutindo o que acontece e. e sempre. e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. Na prática. depois. Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. As patologias físicas são perenes.

Entender parece. A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar. ser o ponto principal na aquisição da linguagem. pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto. É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos.). mas somos ouvintes de todos os dialetos. Resumindo.. Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral. modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo. Por outro lado.. criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e . concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia". na aquisição da linguagem. Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. então."disortografismo". Somos falantes de um dialeto. algumas crianças acabam falando de modo estranho. Por exemplo.

que desaparece normalmente. A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam. com medo de aprender algo diferente e com outros erros. Mas. a criança pode cristalizar a gagueira. se a família entra neste jogo. "faka?' (VACA). É o caso típico de pessoas gagas. por causa da pressão social. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA). "katu" (GATO). Com o tempo.fricativas. típico da fala do adulto. que continuam sonoros. com muito tato. mas não outros segmentos fonéticos. Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo. algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?). Em todos esses casos. essas crianças deixam de falar assim. Por outro lado. "póla" (130. em vez de eliminá-la. Essas crianças se fazem entender e. as famílias deveriam . "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?). Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. quando a pressão familiar é muito forte.LA). sob pressão psicológica muito forte.

a partir da observação de como usam a fala e a escrita. O tempo ajuda mais do que os conselhos. como os recreios e as festas. receber críticas e até zombarias. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo. esses modos de falar estranhos. como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). É por isso que as atividades sociais na escola. sabendo que o melhor remédio é a pressão social. Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso. precisará agir com muito cuidado.forçar as crianças a imitar os adultos. Os problemas da escola. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia. Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. principalmente para as primeiras séries. deveríamos considerar muitos adultos. Por isso. são tão importantes. o melhor é expô-la à comunidade. porque. que estão . não se deve criar um problema maior do que existe. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal. assim. Todavia. no convívio. ela própria deveria resolver. evitando. em vez de esconder a criança. deixá-la interagir com outras crianças.

com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral. Pelo contrário. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame. como deficientes. e o que precisa ser deixado de lado. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . etc. por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo. por ser um erro. somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações.aprendendo línguas estrangeiras. principalmente se não for falante da norma culta. Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. não conseguem aprender direito. a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. Então. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado. e assim por diante. Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. porque falam tudo errado.

para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. mais dificuldades terá para acertar. mas também do processo de aprendizagem. Através de um processo de reflexão. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades. A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes.aprendendo a ler e a escrever. Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. ao tomar uma decisão. Em casos de dúvida. O professor não deve falar apenas dos erros. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro. sabendo. Quanto menos informações tiver o indivíduo. que . que nem tudo sairá correto. Assim. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. contudo. ela chega a uma das alternativas. como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. considerada a mais adequada.

e logo se vê se houve acerto ou erro. assim. No caso da cartilha. No segundo caso. Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização. Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. analisando o que o aluno pensou. ter melhores chances de tomar as decisões corretas. O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. através da produção de escrita espontânea pelas crianças.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. Talvez acerte. pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e. juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si. se o aluno errou. Confere-se com o original. .

principalmente as crianças.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. . alguns psicólogos fizeram testes. e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA. mais água contém a jarra. Algumas pessoas. Medir volume por outros meios não parece ser fácil. oriunda de experimentos como o mencionado acima. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. na forma escrita. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. depois. Então. acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga. mostrando as palavras FORMIGA e BOI. Usando a idéia do realismo nominal. segundo Emilia Ferreiro. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. Para a criança. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água.

em vez de mostrar as palavras escritas. então. Provavelmente. pedíssemos para a criança analisar sua fala. Concluíram. na verdade. Portanto. o animal representado é maior. certamente a resposta seria diferente. para então dizer em que caso a palavra é maior. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado. guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. Se. <258> do ponto de vista semântico. sabem distinguir . Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. quando falam. porque. as pessoas. de fato. ou seja. nada provam. leva mais tempo para falar. inclusive as crianças.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. Aliás. no primeiro caso. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação.

é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. com a semântica. o . diz-se o que está escrito. confundindo fala com escrita. Por exemplo. Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior". mostram-se as letras. É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. neste caso. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e.quantidades ou sabem responder corretamente. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. Daí. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento. O pesquisador está preocupado com a escrita. com relação à linguagem. 2. Depois. respondem corretamente. nesse caso. As crianças. Ela diz que é impossível ler. oriundo do trabalho de psicólogos. e a criança. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA. porque não tem desenho. se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. Portanto. A criança corre com o dedo o texto escrito.

caso contrário. porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. Aliás. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça. e desenho não é letra. Como ela não sabe ler o texto. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. Nem por isso. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos. Como se trata de uma criança que não sabe ler. usada comumente pelos especialistas em decifração. É uma saída inteligente. sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. quando acompanhados de fotos ou desenhos. escreve-se justamente para que alguém possa ler. os pesquisadores . a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. interpretando as figuras e os desenhos. <259> Curiosamente. Isto é.psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. referem-se a essas figuras. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto.

Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso. um texto em chinês ou mesmo em árabe. para se ver livre do pesquisador. para ver sua reação. mostra-se uma foto. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). porém. Obviamente. A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . O teste consiste em fazer com que uma criança. A criança tem. de um trator com dois homens conversando. embora reconhecessem que isso poderia ajudar.acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. a palavra EMPRESTOU). A criança é constrangida pela obrigação de responder e. usando. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. em geral. 3. A escrita maia é outro exemplo. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. por exemplo. e uma legenda: "João emprestou o trator a José". que não sabe ler. indique onde está escrita a palavra TRATOR. responde qualquer coisa. A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo.

por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e. 1957 e MELLA 1981. porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. então. confundindo seu próprio raciocínio. portanto. ela continua mostrando outras palavras. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura.errada. Se ela não faz isso quando fala. como tamanho e forma de palavras. Depois disso. 4. Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . baseandose em analogias com o mundo real. Por outro lado. Ela tem consciência de que não sabe ler. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. algumas delas começam a dar retorno. <260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita.

5.crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. e não COMPROU. Por Outro lado. Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. <261> . Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. a idéia principal. quando tentam identificar palavras ouvidas. que não podiam ser iguais. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU. as crianças vão procurar as palavras FESTA. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. apontando onde elas ocorrem na escrita. MARIA. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —. por exemplo. mas lingüístico. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. sem dúvida alguma. e ler letras iguais não tem graça. uma enorme repetição da mesma letra. às vezes. BOLO. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico.

isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando.aquilo do que se fala. Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. Quando lemos . Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE. tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. nas primeiras tentativas de leitura. A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. que mais interessa ao interlocutor. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado. Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. 6. não uma análise gramatical. Pelo contrário. Nesses casos. As modificações representam sua interpretação do texto original. a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". a escolha é um substantivo e não um verbo.

por exemplo. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia. . Como fomos educados pela escola.. <262> as pessoas. "Cachorro começa com FU" Com muita razão. porém. ou uma poesia. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente. a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. Assim. inventando mil coisas paralelas ao texto escrito. quando falam ou ouvem.. porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. Na escola. Se não soubessem disso. guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais.um romance. não aprenderiam a falar. sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. Segundo os lingüistas. ao lermos em voz alta.

Uma professora me contou. e não literalmente. estava pensando no animal cachorro. a professora não disse. Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. ouve o que não quer". para ela. em suas partes e. mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. por exemplo. Muitos alunos. a palavra MIAU. A forma de perguntar é muito importante. nas idéias que o enunciado transmite. . certa vez. mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?". Porém. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. como resposta. GARFO (sic!). sem nenhuma explicação. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU". Todos riram e a professora a mandou sentar. e o aluno. de todos os níveis escolares. A professora está pensando na forma escrita das palavras. era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. são reprovados não porque não saibam.

É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU. Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que. ao aprender a ler e a escrever. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. com perguntas capciosas. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita. nos casos discutidos anteriormente. deixando a criança exposta a atividades de escrita.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8. Em vez <263> de aplicar testes idiotas. .

apóiam-se em conhecimentos que . mas os fatos. Por exemplo. alguns põem-se a copiar o que vêem escrito. não só com relação à classe como um todo. orienta o professor. tentando desenhar letras. aparece de tudo um pouco. nesse tipo de atividade. Mas é verdade que. por exemplo. Quando um professor pede aos alunos. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. Os alunos escrevem como quiserem.Para jsso. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). Não se pretende discutir aqui a classificação científica. imitando a escrita cursiva. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura. Copiam fazendo rabiscos. os alunos estão pensando e. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. tem-se constatado que. quando não têm um modelo para copiar. ao longo do tempo. como os nomes dos colegas. que escrevam qualquer coisa. silábico e alfabético. Na prática. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando. Mesmo agindo assim. que não sabem ler. etc. Não existe um caminho certo e único para aprender. mas também para um mesmo indivíduo.

sem dúvida. A razão disso é que. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. poderá facilmente entender as regras de decifração. como a escrita egípcia e a cuneiforme. <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. torna-se praticamente impossível. É o que o professor deveria fazer em sala de aula.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram. A partir de umas poucas idéias de como . do contrário. uma boa maneira de alfabetizar alguém. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua. E esta é. Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois. A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. Além de copiar. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. Aliás. É preciso muito mais. ainda hoje. Quando o sistema de escrita é conhecido. foram decifradas com certa facilidade. Sabendo a língua. fica mais fácil. Como o aluno conhece a língua.

não faz sentido. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. que pode ser feita de inúmeras maneiras. Logo. faz seus rabiscos. pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. Portanto. Porém. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida. cuja aceitação ainda não foi confirmada. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. Assim. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. se não tiver algumas explicações iniciais. Nota Recentemente. Por isso. poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si. representando a fala. têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. Como é que as formas . a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas. Mina!. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente.funcionam as relações entre letras e sons.

a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras. porque sabe da sua existência. Então... Resta. e assim por . portanto. Então. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. agora. Com isso. porque tem consciência de que não sabe ler. pensa o aluno. descobrir como as letras representam os sons. pelo menos. acaba procurando as letras. nada mais natural do que acrescentar mais uma. Então. a produção gráfica da escrita é mais fácil. como ninguém a ensina a ler e a escrever.. Isso parece algo muito interessante. surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". ela já as viu de muitas formas. mas não sabe. O resultado é bem mais semelhante ao modelo. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica..gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora. A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas. A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever. A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez.

por que. Como fazer? Falar é fácil. analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. Eles escrevem letras corretas. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. Ora. o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. de . Descoberta a técnica. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. agora. e não por simples e espontânea reflexão. em vez de dar uma informação tão reduzida. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala. quer escrever BOLO. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. como U de URUBU. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. B de BOLO.diante. Por outro lado. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. Por exemplo. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. E preciso descobrir as letras. Então. A explicação é a que foi dada acima. ao tentar escrever uma palavra. e escreve: B L. o aluno começa a analisar sua fala. dizendo: B0000-LUUUU.

Por exemplo. não é de que uma letra represente uma sílaba. A hipótese dele. mas não conhece o L (o "lê" de LU). para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal. e escreve C M U. existe uma letra .acordo com a ortografia. em que. Falam "u" e escrevem O. Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica. dessa forma. numa tentativa de escrever o que foi identificado. hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. <266> Em geral. Essa hipótese. é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia. árabe clássico. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. mas pode-se encontrar uma mistura. pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e. porém. por exemplo). Ele conhece o C ("kê"). Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. fenícia. de um modo ou de outro. na verdade. mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. Por exemplo. Porém. a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável. o M ("mê"). conhece o U do LU.. corresponde uma letra na escrita. ou seja.. mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões.

explicita em voz alta essa técnica. finalmente. Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa. Concluindo. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. la-ta: a lata". quando vai ler. Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. 9. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. outro é o da decisão pessoal. usando apenas as letras C V L ou A A O.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. lê analisando as letras em famílias de sílabas. lendo. como referência principal para sua argumentação. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO. juntando as sílabas . na escola. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. tê-a-tá. O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. prefere usar.

Nesse caso. ao tentar ler uma palavra como BRASIL. Quando o professor diz que está errado. A. juntando: bê rê-a-çê. no método do bá-bé-bi-bó-bu. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu". Agora. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil". Isso acontece porque. O professor insiste em que está errado.e formando a palavra. Ao ler uma palavra como APTO. . Assim. o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga. O professor perde a paciência. as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal. o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu.-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. diz que está escrito "Brasil". o esse do sá-sé si-só-su. do bá-bé-bi bó-bu. precisa descobrir que idéias ele usa para ler. é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?). Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas". rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru.

os quais devem ser processados na cabeça. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba. é preciso usar os conhecimentos de decifração. Quando se lê. Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. Às vezes. Depois de descoberto o que está escrito. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. em voz alta. Isso. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais. Para um aluno ler segundo o modelo. <268> respeitando o princípio da literalidade.Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método. em silêncio. por outro lado. como: brá-bré-bri-bró--bru. procede-se à leitura. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. corrigindo-o sem explicar. está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora".

que acabam desistindo de ler. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura. dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. É impressionante como os professores de alfabetização. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". mas faz isso com . alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. é pior ainda. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. em geral. Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa". o que os faz desanimar. O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. Diante de casos como esses. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. na alfabetização.para alguns alunos. quando não para psicólogos. Se o professor corrige dizendo "beôleá". Em vez de ajudar o aluno.

Depois de muitas repetições. A leitura de improviso.certa rapidez. ou que só entendem o que lêem em silêncio. Acabará sendo um leitor lento. quer com relação à quantidade de material que lê. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. 11. é sempre problemática e deve ser evitada. com os quais o professor deve se preocupar. O professor pode mostrar como se lê. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. Como alguns falam mais depressa do que . Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente. por outro lado. que têm de ler em voz alta <269> para entender. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. ler em grupos. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. 10. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. Por outro lado. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. quer com relação à assimilação dos conteúdos.

a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. No primeiro caso. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se . porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. já no outro dia. pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança. errado. errado. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. baseada em seus conhecimentos. mas saborear a arte dessas obras. é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). depois voltam a escrever certo e mais uma vez. Conseqüentemente. Quanto mais se acelera a leitura. existe uma certa variação. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. a criança usa de sua reflexão.outros. tendendo-se para uma leitura mais literal. típico do método das cartilhas. para tomar as decisões que julgar melhor. Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. Por isso.

Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. cometendo erros. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita).<270> mantêm integralmente dentro do modelo. Finalmente. através da produção de escrita espontânea. o processo de aprendizagem. No segundo caso. Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. ou o passo seguinte. o professor pode mostrar e discutir isso com ele. a seguir. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados. 1. Depois. para não errar e levar adiante. misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. alguns casos de erros de escrita. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. Conhecendo essas razões. porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. de maneira cada vez mais sólida. Apresentam-se. . indicando a saída.

permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante. 2. Os alunos podem . Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. são capazes de ler. Ao fazerem isso. Isso pode trazer uma certa frustração. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura. Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes. o professor deveria brincar de fazer assinaturas. Enquanto estão conscientes do que fizeram. além de ser uma marca individual. mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque. estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. Na vida. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. ou seja.

o professor constata o que o aluno fez.entender que. um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO. um professor pode convencê-lo a escrever com letras. o aluno está seguindo a explicação do professor. ainda. as pessoas nem precisam saber ler e escrever. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos. Diante disso. Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome.. diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social). etc.:' Para resolver isso. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função. A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. 3. . Diante de tal explicação. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. fazendo rabiscos. Dessa maneira. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. ou seja. para assinar documentos e cheques. escrevendo com letras.). Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra. Isso quer dizer.

4. nessa forma de escrita. as letras são: <272> O + i + v + a. porque o aluno vê escrito ( e pensa que. Como o método concentra-se na escrita. Por exemplo. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba. A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. deixando a decifração da leitura de lado. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão. Agora. alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. para ele. com as letras B e b (que estranhamente. quando o professor escreve com letras cursivas. aparecem traçadas de formas diferentes). a coisa piora. o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . de fato. ocorrem na grafia das palavras.

Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. ou seja. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade. nesses casos. 5. Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. Um deles é o da escrita espelhada. Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra. é fazer transliteração. Um bom exercício.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. O professor ensina que se deve . podem cometer vários enganos. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza. para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. como letras cursivas e de fôrma. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE.

assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. como C e S e outras letras como Z e N. e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. como entoação e ritmo. levando em conta essa regrinha. . Por essa razão. Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. é como segmentar o fluxo da fala em palavras. Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. como a escrita exige. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las. Com isso. Então. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. 6. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. quando um aluno vai escrever a letra S. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. No início. resultando na palavra espelhada.escrever da esquerda para a direita. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. o resto acompanha.

surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. conjunções e expressões adverbiais. pensando que é algo semelhante a A CASA. como no caso de VISITA. como preposições. os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. Quando encontram a palavra ABACAXI. no próprio nome das letras. colocando uma parte em cada palavra. sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais. segmentando erroneamente palavras. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver). Às vezes. Veja. encontra-se o som básico que a letra . A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. 7. os alunos vão descobrindo os itens lexicais. os alunos se apegam a algum elemento semântico. "çe-ru-mã-nu". o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. Na prática. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio. ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO. Aos poucos. ainda. a partir da análise semântica. A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. separam A BACAXI.

Se prolonga as sílabas. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. . o que é representado na escrita pelas consoantes. 8. Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. PTC ou EEA para PETECA. como em "cacacacavavavava-lolololo". como se conhecessem a ortografia das palavras. Se repete as sílabas. O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. acaba salientando e escrevendo as vogais. É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. LFATE em vez de ELEFANTE. de acordo com a maneira como analisa a fala. TAPTE em vez de TAPETE. LC em vez de HELICE. etc.representa (princípio acrofônico). etc. CAMLO em vez de CAMELO. como em AAO ou CVL para CAVALO. como em "caaaa-vaaaa-loooo". O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. APARECU em vez de APARECEU. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. Ao aplicar isso. basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever.

O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. LT para LATA. Então. querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. então. ta. demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. ta-te-ti-to-tu. que é o lá-lé-li ló-lu. Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave). não estão produzindo uma escrita silábica para as letras. lembrou-se da . que são interpretadas a partir da observação da fala.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. observando a palavra LATA. registra OPAFNOLA.Obviamente. Se BAR RIGA tem o "bê". Mais raramente. Por exemplo: la-ta. ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence. LATA tem o "lê". Em outras palavras. MCC para MACACO. e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente. la-le-li lo-lu. encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras.

basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever. dessa forma. no ditado. escreve LT. 10. etc. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras. Para ser objetivo. apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e. que era o objeto de estudo dessa lição. 11.lição da laranja e chegou à letra L. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. PRANTA em vez de PLANTA. a forma escrita das palavras. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. algumas crianças . Resultados pela metade Ao escreverem. Portanto. a partir de seu dialeto. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. além das dificuldades para encontrar. introduz-se o estudo da família de letras. Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO. quando o aluno. Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. DRENTO em vez de DENTRO.

o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA. PISICRE em vez de BICICLETA. L 12. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. têm de fazer isso aos pedaços. com uma análise detalhada. analisando a própria fala. Isso se torna ainda mais complicado quando. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. PIONHO em vez de PIOLHO.defrontam-se. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . principalmente no início. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos. passo a passo. 1985b. do começo ao fim. Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. quer as que ele costuma escrever. CAGLIARI. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente. ou seja.

13. o professor chama a atenção dos alunos. e um som pode ser representado por letras diferentes. sem insistir muito. Como uma letra pode representar muitos sons. Acertará algumas e errará outras. até que. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras. isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante. . valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética. confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. Aos poucos.

para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam. o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais. Outro exemplo: o aluno . Esses fatos são menos comuns. A sua dificuldade é maior no início. Por exemplo. mas existem.comece a grafar as palavras corretamente. às vezes. usando-a para contextos não permitidos. 14. o que se fala com "i" será escrito com E. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns. Então. Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra.

GORILA. utensílio. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. Se o aluno fala certo. Se o aluno fala como escreve. CORILA em vez de VACA. o aluno pode. a escrita é FACA. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. PATATA. escrevem FACA. POLA. Assim.quer escrever TATU mas registra TATO. pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. e quando está pensando na ferramenta. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. na sua fala (sussurrada). a escrita é VACA. Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. mas se escrevia O). além da explicação acima. guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. Nesse caso. percebe que. ainda. 15. como no exemplo de "faka". BATATA. Como escreve sussurrando as palavras. . do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. BOLA. em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". mas escreve errado. na escrita.

Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. as nasais. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. porém. Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala. e não falha de discriminação auditiva. como as vogais. Lembrar. Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português. as laterais. eles ficam perplexos porque nunca souberam que . Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. mas apenas variantes.

podia haver RR surdos e sonoros. (Na pronúncia comum de muitas pessoas. encontramos RR sonoro. se consideram portadores de deficiências auditivas. passa a escrever com H depois do D: IDHO. ou dizer por partes. <279> . um pouco. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". nem por isso. Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. por se tratar de crianças. L com H dá "lhê". O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez. Então. no meio de palavras. Por exemplo. escrevendo ÍNDIO com IGO. numa palavra como BARRIGA. Por um lapso. N com H dá "nhê". Na alfabetização. seguindo a última regra dada pelo professor.. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros. que já tinha errado. o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. Mas. serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes. o aluno. Isso ajuda o aluno a progredir. o professor explica que a letra H é um coringa que.) 16. encontramos RR surdo. Assim C com H dá "chê". L e N. mas pode levá-lo a cometer erros. e numa palavra como RATO. dando uma determinada informação técnica.. é muito comum o professor "enfeitar" o que diz.

.. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. minha gente! Mais rápido! Papai. . Em seguida. Com a identificação de mais alguns sons. após o último esforço. Por exemplo. fique quieto no seu lugar! Pap. Assim. Se vocês não ficarem quietos. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha. vão errar.. Paaa-iii.. Vamos lá. Pa-paaaiii. etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro. produzindo às vezes resultados surpreendentes. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez. Papai. escreve AAI. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. Pa..17. Assim. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos. não por causa do erro. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. Joãozinho. depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA. o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar. Mistura de informações Nos primeiros ditados. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores.. seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e.

por SOCORRO. 19. ele emenda tudo sem .18. Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. Por exemplo. Assim. DONAIMEA por DONA ESMERALDA. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram. nem sempre sabem solucionar dúvidas e. resultando algo como i Outro exemplo. tendo feito o "d". faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. Então. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). etc. acabam escrevendo tudo corretamente. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. ao escrever IDADE. o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). resultando daí uma grafia estranha. Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. SATUX por SANDUÍCHE. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa.

20. "apachonada". que depois leria corretamente para o professor. começa a escrever coisas muito estranhas. Inversões desse tipo são muito comuns.correção. de repente. seus erros têm pouca lógica. Por distração. Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula. erros de supressão ou de acréscimo de letras. tomado por um pânico muito grande. Medo de escrever Mais raramente algum aluno. às vezes. explicando que se tratava de uma aranha preta. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. acabam escrevendo: "cachorro". O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo. resultando: CATSELO. Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO. Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. até adultos cometem. nesses casos. . que sabe escrever umas poucas palavras. e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva. 21. etc.

. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita. 23. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1. Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. Sinais de pontuação Além das letras. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos. No começo. a escrita tem marcas e sinais de pontuação.22. o professor não deve enfoca-los. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras. e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos.

na fala de muitos alunos. o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos. É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. incluem-se três tipos de erros mais comuns. "Maria achou nós". A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. como: "drentu". obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries. "uzómíveiu". "ela viu eu". "pobrema". Nesse caso. 2. "çértu" (com R retroflexo). . Assim: "eu vi ele". Na alfabetização. "fumu". "askazakaiu". etc. "arriba". costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. De modo geral. como: "bardji". e erros oriundos da má formação de concordância. como: "nóis vai". Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita.Por isso. etc. Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto.

convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. "Ele falou uma piada . 3. esse tipo de construção precisa ser evitado. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime". O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. de modo especial. especialmente de falantes de dialetos estigmatizados. há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. entretanto. como por exemplo "que". para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos. De vez em quando. Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções.Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas.. "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo. sujeito da oração. como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos". "em que". fazendo ver que na linguagem escrita. Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". Por exemplo. etc.

onde eu deduzo que havia muita corrupção". o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". Por exemplo. "depois". o professor não precisará se preocupar muito com eles. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente. Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. no sentido de ajudar seus alunos. O professor alfabetizador deve mostrar o certo. desde cedo. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. por isso mesmo. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. ele deixará de se preocupar tanto com isso. mas não insistir. 4. "Tudo estava perdido. esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos. O professor . é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e. Por tanto. a melhorarem seus textos.:'.. "aí". Todavia. como "ééé.onde o papagaio morreu afogado". marcando todas as pausas que fazem. Mais uma vez. Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor.

A repetição pode também ser desnecessária e. cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos. Ele viu o carro. ou seja. às vezes.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão. Note que quem usa "ele". o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. Por outro lado. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina. um texto como: "O mecânico chegou em casa. nesses casos. <283> Alguns professores. O mecânico chama-se Toninho. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. . representado pelo acento frasal. sobretudo de séries mais adiantadas. O carro assim não pega. e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida. em frases como essa. evitando a repetição dessas palavras. A repetição. costuma colocar nessa palavra o foco semântico.. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada. Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração. variando a estratégia de construção das frases.

ou seja. O pato nada no lago. Desse modo. como quem monta um quebra-cabeça. completando o que foi dito antes. acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas. ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases.5. e reflete um modelo muito típico de cartilha. não na vida real. Esse tipo de texto precisa ser evitado. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. Xaxá é a vovó. pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . O pato é belo. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. no qual o aluno foi alfabetizado. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. O texto acima só aparece como exercício na escola. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". No exemplo acima.

agora. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. quando vem. o elemento anafórico ELE. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. esse tipo de problema quase não aparece e. 6.daquele jeito. Por exemplo. por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO. Alguns alunos fazem. Veja o exemplo. PEDRO FICOU FELIZ. Porém. Não tem propósito aparente. desestruturando o texto. às vezes. levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. confusão com os elementos anafóricos. ELE FICOU FELIZ. não requer explicações mais detalhadas. a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. . Se o professor adotar outra estratégia. tem um antecedente claro e bem-definido no texto.

no início do segundo semestre. <285> Todavia. cujos sujeitos estão ocultos. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início.Na segunda linha. assim. Depois. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . o professor não irá questionar esses aspectos. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. o sujeito de FOI é o PADEIRO. Esse é um típico problema de coesão. Portanto. por exemplo. Caligrafia Finalmente. como JOGOU e FOI MOSTRAR. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. a forma de apresentação estética. 7. o layout. O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro. embora fale sobre eles com os alunos. todos os verbos. podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. Na maioria das vezes. quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor.

O ditado. 1990. é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais. enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI. razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram.trabalho. No início do processo de alfabetização. as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. na verdade. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento. Tudo . Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". Textos que vão ser expostos.

Quando se quer guardar uma informação. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. Na escola. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio. obviamente. a prática do ditado é intensa. O professor fala como quem dita aos alunos. escreve-se. fazendo confusões fonéticas e semânticas. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. do conteúdo da matéria de todas as aulas. ou até mesmo entender o que foi dito. antes de escrever. controlando o que escrevem. . Nessas circunstâncias.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. às vezes. ditamos o que ela precisa escrever. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. Ditado e cópia são atividades interdependentes. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. Quando se tomam notas numa conversa de telefone. até à moda da escola. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. especialmente perceptivo-auditivas. Em algumas profissões. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. no final do ano. por exemplo. certas aulas expositivas são espécies de ditado. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. como nos escritórios. Nessa prática.

testar as dificuldades de realização de escrita. A mãe ou o adulto dita palavras. Portanto. esse sentimento é. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. Embora pouco recomendado.Pela experiência de cada um. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor. certamente. obrigando-os a estudar. como as anotações feitas numa aula. outros reproduzem apenas as idéias principais. largamente manipulado pela escola. avaliar o desempenho. de fato. vê-se que o ditado é uma . como as informações passadas por telefone. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal. gerando ansiedade. Esse quadro geral. Nesse último sentido. expressões ou frases para a criança repetir. realizados apenas no plano da oralidade. além de ser uma prática que constrange os alunos. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia.

prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. TOLO. LOTA. Do ponto de vista da maneira como são feitos. Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu. se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico. LUTO. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e. depois. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização. Para esse método. em geral. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. Muitas vezes. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. etc. algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. enquadra-se nesse caso. ditando-lhe as palavras já vistas. . os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. TELA.

porque tem dificuldades mentais. Entretanto. Nos ditados. nos textos livres. é porque não se concentra. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças. percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. não estuda. não aprende ou. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). até mesmo. Os próprios erros são outros. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. neurológicas ou fonoaudiológicas. as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). . quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito. Se o aluno erra.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). ao passo que. não presta <289> atenção no que o professor diz.

Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos . Tais ditados são realizados foneticamente. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. se o objetivo do professor é esse. Acham que além de avaliar. nesse caso. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U. como vimos.Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. servem de reforço para a aprendizagem. o professor fala e o aluno escreve. pode variar. Mas. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever. esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar. O modo como o professor fala.. quando deveria pronunciar U. para não fixar o erro (sic!). Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. Ora. Curiosamente.. o aluno não escreveria da maneira correta. ou seja.

e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. Depois. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente. o professor já está repetindo sílabas: CA. Por exemplo. O resultado é: CASIZICANHA. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. NHA. Finalmente. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar. dita pronunciando as sílabas isoladas. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA. na hora do ditado. FLORZINHA se escreve com Z. este já está silabando NHA. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos. embora quase silabando as palavras. Porém. E CASINHA. Começa falando-a normalmente. Em alguns casos. o professor quer ditar a palavra CASINHA. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. Quando presta atenção de novo no professor... O aluno escreve CASI e pára. serve-se dessas regras para ditar. . CA. o professor passa para a palavra seguinte.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. como o ditado ocorre com bases fonéticas. Quando os alunos estão escrevendo. porque fica pensando: CASA se escreve com S. e o aluno escreve o NHA junto com o CA. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. é com S ou Z? Nesse momento.

Resumindo. vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. com DÊ. é raro as pessoas soletrarem. isso é muito comum. sem dúvida. e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata. Ó. Assim. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . REORU. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. DEODÓ. Na cultura inglesa. é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. próprio das cartilhas. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. nota-se hoje que. aplicando-se. No Brasil. Assim: DEODORO com D de DADO. nesses casos. <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. Outros procedimentos podem ser observados. como: DEODORO com DEEDÊ. que se supõe de conhecimento fácil. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). soletrando. dizendo o nome das letras das palavras. Esse procedimento. quando eles os ajudam. a primeira letra da palavra-chave. e não TEODORO com T de TATU.

chamar esses ditados de ditados semânticos. e o aluno escreve BOLA. talvez. O professor desenhou uma laranja. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. uma laranja.de alfabetização e. etc. Além dos tradicionais erros de ortografia. Por exemplo. essa atividade não é um ditado. O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente. podem ocorrer erros de interpretação das figuras. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. uma galinha. Anotações . desenha-se um pato. da maneira como as escolas fazem ditados. Poder-se já. Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. Na verdade. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos). sobretudo.

das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa. numa aula ou numa palestra. o que é mais importante.Finalmente. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. por exemplo. Seria interessante que o professor. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. O professor pode passar sua experiência aos alunos. etc. Feito isso. outros de menos. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando. como da maneira como se estuda. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. uns copiam só questões secundárias. o que está a mais ou está faltando. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. e é o que os alunos acabam fazendo. A escola deixa que cada um se vire como pode. discutindo com eles como se fazem essas anotações. O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. desde a alfabetização. o que é secundário. passa-se a discutir o que cada um anotou. fosse ensinando como fazer anotações. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o . A escola precisa cuidar não só do conteúdo.

A partir daí. esse tipo de asserção é um equivoco. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. . Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. e o que encontram aí. não é um bom exemplo. quando o aluno escreve certo.que acontece nas salas de aula. uma vez que se escreve com L. Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". Como se viu anteriormente. algumas vezes. A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R. Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão. mas não é uma garantia disso. mas PORTA não pode ser dita "póuta". Assim.

para aplicação das normas dos alfabetos . ou se está certo ou errado. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras. Em questão de ortografia. ou tiver dúvidas. será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto). A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. Todavia. ainda. Esses ditados são. Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve.. Não há o que discutir. de fato. como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. Ora. Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. escrevendo do jeito que acham mais provável.. formas de ensinar a fazer transcrição fonética. Servem.

Não envolvem nada de ortografia. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar. todo som de "i" seria representado por i e somente por i. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício. Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. Seriam escritos somente os sons realmente falados. o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. que ele pode . Nesse caso. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola. as dificuldades geralmente crescem. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. sem qualquer preocupação com a ortografia. Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. do modo como fossem pronunciados.fonéticos de transcrição de pronúncias. Feito esse tipo de exercício. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. usando diferentes dialetos.

a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. algumas vezes. tampouco consegue se livrar dos ditados. É sempre um item indispensável nas provas e testes. por mais cuidadosa que seja. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima. mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu. Como a escola não consegue se livrar da nota. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- .observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários. Ditado e avaliação Na escola. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. os ditados são usados para dar notas. Na verdade. para saber ortografia. que o professor não sabe como aproveitar. Na alfabetização. Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. são feitos ditados apenas para controlar a disciplina. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala.

nem avaliar a lição anterior. Entretanto. pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada. o significado da atividade também muda. brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante. Nesses casos.versa. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los. como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . como o enfoque muda. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. Não só não fazem falta. ou dar uma nota num teste. para saber quem escreve mais palavras corretamente. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização. Pelas razões expostas. inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula. Nesse caso. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. o objetivo não é ensinar ortografia. Pode-se até fazer um campeonato. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente.

"lata" se decompõe em LA + TA. Na prática. E agora. Por exemplo. se está progredindo ou não. alguns professores acham que conseguem. guiando-se pela palavrachave. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele. Assim. O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. MACACO. e o aluno volta a fazer tudo de novo. Volta a explicar tudo de novo. que é analisada em seus componentes (sílabas). através dos ditados. E escreve LT Mas. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. MACC. LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras. cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. saber se um aluno aprendeu ou não. do mesmo jeito. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). é composta de famílias de letras. CPA. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. Pega-se uma palavra. e achase a letra correspondente. não sabe como tirar o aluno do impasse. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. direitinho. o B de BARRIGA ou BEBÊ). em vez de LATA. .inadequados perante a linguagem. Essa questão é tão óbvia que o professor. CAPA. diante desses casos. Ora. se um aluno escreve LT.

Nesses casos.. além das consoantes. Para o método das cartilhas. Por outro lado.. vai arriscando escrever também as vogais. Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. existem as vogais. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos. porém raramente sabem interpretá-los. como vimos. o induz a isso. de fato. Quando o fazem. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas. e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades. para se autocorrigir. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu.então. Conseqüências dos ditados na alfabetização . principalmente o A. aos poucos. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro. o ditado não faz sentido. Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. já viu que. através de exercícios de montar e desmontar palavras.

Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis. Isso mostra que. auditivos e articulatórios. De todas as atividades da escola na alfabetização. neurológicos. porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes. não só do ponto de vista do que se faz na escola. e classificados como deficientes mentais. na prática. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola. como das conseqüências da avaliação. mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola.Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. Entretanto. fazer remanejamentos. os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. mais levianos. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. etc. psicológicos. . punir com cópias alunos indisciplinados. mas também para reprovalos. Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem.

É claro que seria possível fazer ditados de textos. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. então. Mesmo assim. A linguagem vive nos textos. etc. a destruição da semântica das palavras. nesse caso. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. eles mesmos as escrevem na lousa. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. apenas copiam do quadro-negro. . O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão. quer com equipes de alunos. quer com indivíduos.Além dos aspectos negativos já apontados. juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas. pedagogicamente falando. induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. Os alunos. os ditados. a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. a fala silabada. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas.

Além das finalidades. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. Depois. Na alfabetização. depois. Feita a atividade. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados. a melhor solução é a simples cópia. essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia. as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis. à análise com comentários sobre cada caso. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. invertem-se os papéis. Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. Os alunos acabam errando demais. como no ato de fazer anotações ou cópia de informações. Nesses casos. Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . procede-se a uma discussão geral e.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável.

se deve fazer. Para esclarecer como se escreve uma palavra. repetir o que se disse de maneira mais lenta. encontram-se trabalhos de cópia. se for uma simples falta de compreensão. além de aprender como o sistema de escrita funcionava. de certo modo. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. quer na Mesopotâmia. nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. a . CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas. Em suma. Assim. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. Inúmeros documentos mostram que. um procedimento que ofende a quem escreve. na Antiguidade. No Museu do Louvre. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma. o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou. com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. no Museu Britânico e em outros.

Como falante de grego. portanto. precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras. Na Antiguidade. mas não é a única nem a principal. desenvolvia a habilidade da leitura. quer pelo contexto. para guardar . o alfabeto grego. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário. não se copiava.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. por exemplo. Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons. <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. nesses casos. Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. aprendia como decifrar o que copiava e. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. comparar o que fez com o original. finalmente. numa tábua. objetivo principal da tarefa de cópia. ou seja. Ele tinha diante de si.

Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove. Esse tipo de atividade. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. Portanto. Alguns professores consideram que a cópia é um simples . traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. etc.um documento. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. a deduzir. a juntar informações. Embora a criança. uma palavra que encontrou escrita em objetos. Isso é importante. pelo contexto. usada logo no início. paredes. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. o simples ato de se copiar um rótulo. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. a criança toma iniciativas. faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. Ao proceder assim. por si só. copia e avalia o resultado obtido. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. livros. não consiga decifrar o sistema de escrita.

ou seja. Isso é verdade e pode acontecer. vão procurar descobrir que letras copiaram. O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. Por isso. ocasiona esse tipo de problema.. Escrever uma palavra ou frases. . se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente. etc. que som tem determinada letra naquela palavra. que letra vem depois. vão precisar saber o que está escrito.exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. a cópia é uma ótima estratégia de ensino. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. na tarefa de copiar. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. com que letra começa a palavra. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. poderá ter como reação um ato mecânico.

letras e até palavras. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. copiando ou não. brincam não só de imitar os adultos que escrevem. para sentir um pouco o que é escrever e ler. Seria bom que essas crianças recebessem. Numa folha de papel. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. fazem o que chamamos de rabiscos. como também de copiar material escrito. . desde então. Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). Em geral. Ao fazer isso. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita. irão colocar apenas material escrito. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. separando assim desenhos de letras. fazendo comentários orais. apesar de suas limitações para usar o lápis.

recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante. Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes. como também através de letras soltas. O professor irá solicitar que usem. marcas. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. No mundo da escrita em que vivemos. por exemplo. usados. que são escolhidas e montadas em lugares próprios. há muitos pictogramas. útil e mesmo necessário no início da alfabetização. além de letras. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). por exemplo. Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel.. Cada página pode ter um título: . acompanhadas <301> da colagem de figuras.Ainda bem no início. sendo. que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. etc. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa. nomes de colegas. pois. animais e objetos. Copiar. os alunos podem copiar. juntamente com os desenhos. uma espécie de cópia. sinais. eles podem confeccionar um álbum de letras.

O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. Em vez de copiar graficamente. letras cursivas. listrada. seguindo o padrão gráfico das letras já feitas. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. porque elas não aparecem no texto consultado. o professor pode propor o dicionário da classe. quando estiverem mais adiantados. letra da propaganda Y. como se fossem figurinhas. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. Cada . baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. Às vezes. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. os quais. minúsculas. letra florida. usando a imaginação: letra do jornal X. podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. por sua vez.letras de fôrma maiúsculas. Nesse caso. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. mais tarde. Os títulos podem ser obtidos de outro modo. etc. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores.

o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. O ou U. propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. na qual irá escrever uma palavra. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. seguindo as instruções do professor quanto a layout. se o professor estiver estudando a letra C. e acompanhada de A. e.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha. ao mesmo tempo. Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada. ilustração. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas. o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. em outra coluna. As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas. etc. numa coluna. Por exemplo. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons. Ligado às atividades de ensino. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares .

memorizar informações sobre o que fez e. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa. e que. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. . Cópia não é um reforço da aprendizagem. então. Melhor seria. o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. como faz o método das cartilhas. uma vez realizada. na hora do ditado. pode servir como reforço da aprendizagem. Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. Nesse caso. dando a impressão de que as aprendeu. quando todos estão sentados. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. Esse aluno. pode esconder o fato de não saber ler. que misturam escrita com desenho (quadradinhos). porém. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. Atividades como essa. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel.próprios de cada um na sala de aula. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente.

esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. quando. Já dizia Dante . O problema apresentado aqui. Por outro lado. é essencial. não está nas atividades em si. desse modo. sem entender verdadeiramente. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. No entanto. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. e ele não saberá o que fazer. Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. mas no método das cartilhas. na verdade. na verdade. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos. transformando-a em leitura. apenas decora o que lhe apresentam. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado.

Faz. Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários. a escola usa uma estratégia de maneira . Desde a alfabetização. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. depois. Como acontece com muitos fatos escolares. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto. um diálogo. <304> de cabeça. desde as primeiras séries. a escola deveria cultivar a memorização.se isso em círculos cada vez maiores.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e. um texto em prosa. Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. procura-se reproduzir o que se quer decorar. Infelizmente. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos. escrevendo. mas é muito usada por artistas. mas também científicas. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. Citar um autor ipsis litteris. faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. incluindo não apenas obras literárias. até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória.

eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. por ser seu contexto correto. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. para punir alunos indisciplinados. Por essa razão. utilizase dela. depois. às vezes. ou algo específico de uma lição. textos. por isso. passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. não o faz. Na escola. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. fazer cópia pode ser uma boa atividade . concluindo que não serve aos seus propósitos.inadequada num determinado momento e. se o aluno não presta atenção às explicações do professor. A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima. Copiar informações. se o problema for de indisciplina. de apontamentos. etc. de livros. prejudicando-se muito nos estudos. quando deveria empregá-la. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro.

põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura.versa. Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras. por ter somente "dois morrinhos". é a transliteração. Assim. das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. passando da letra cursiva para a de fôrma. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa. além de copiar. que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M. o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. Por exemplo. passando-o para outro tipo de alfabeto. <305> Outra atividade importante na alfabetização. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável. corresponde à letra n cursiva. Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início.de iniciação ao mundo da leitura e escrita. é importante que peçam cópias. ligada à cópia. . seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas. o traçado das letras maiúsculas. minúsculas. Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. quando a criança.

revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno. etc. Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas). Para isso. Quando aparecem erros como os apontados acima. fornecido pelo próprio professor.Erros de cópia. um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. Como eles não sabem que palavras estão escritas. isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever. etc.). composta de i + v. o nh. Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema. deverão passar da . não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los. Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. nesses exemplos. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. Por outro lado. o sc.

escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. De acordo com a tradição educacional de cada país. para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma. as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional.escrita cursiva para a escrita de fôrma. por exemplo. Depois. Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. Os franceses e os americanos. ao encontrar material que exemplifique. Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para . interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico.

andando junto com o autor na elaboração de um texto. Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. O aluno troca palavras. em vez de ensinar o melhor. A escola precisa aproveitar mais o que faz. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos. usa outra construção sintática. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos. exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar. Por isso mesmo. <307> . passa-se ao aluno um exemplo menos interessante. sua organização e desenvolvimento.analisar os erros e as dificuldades encontradas. caso contrário. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. O objetivo aqui é experimentar.

textos de reflexão filosófica. as várias etapas que o . Em geral. às vezes. ou substituindo progressivamente todas as palavras. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto. agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele. substituindo uma ou mais palavras que ele queira. de fïsica). conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma. dando ao aluno uma frase para ele copiar.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. Éo que se chama de exegese de um texto. enigmas. Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. Através do exercício de exegese. Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa. etc. praticada em atividades de interpretação de texto. mas a semântica é outra. como problemas (de matemática. religiosa. Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos.

A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. Hoje. um texto e. um pensamento. Às vezes. uma piada ou um simples nome. inclusive a ligação de uma parte com outra. Isso se aprende também na escola. com o uso comum de computadores. Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . até mesmo. uma idéia de um livro. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. Copia-se o que se ouve do professor. por razões sentimentais. aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante.problema exige vão se apresentando mais claramente. A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. um conteúdo qualquer.

etc. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. As crianças adoram colecionar. sempre ensina mais e melhor do que a teoria. em primeiro lugar. fotos. flores. fichas com anotações. desenhos. Assim como um aluno coleciona selos. até poesias. esse banco de dados vai se enriquecendo. crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. dependendo menos da escola. além de colecionar objetos. O professor deve. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito. pode colecionar informações sobre passarinhos. e se a escola souber aproveitar isso. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. nesses casos. Através de cópias. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. mantendo um arquivo com recortes. A medida que o tempo passa. . também. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula. desde formas gráficas de letras e alfabetos. árvores. A prática. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente.informação em arquivos.

<310> . Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social. executar uma versão preliminar num rascunho. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. há muito trabalho de cópia e. A educação não germina em meio à desorganização mental e material. das coleções e dos álbuns. rotular. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição. corrigir e melhorar e. passar a limpo. porque associam essa tarefa à de cópia punitiva. por trás da atividade de estudar. além do conteúdo das matérias. Como se viu neste capítulo. finalmente. envolvendo isso tudo.Classificar. A organização material é prova da organização mental. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. Como se vê. caixas. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. etc. também merece cuidado especial. A distribuição espacial do material nas fichas. <309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever. folhas.

sabe decifrar a escrita com facilidade. vista sob esses dois aspectos. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura. por isso o termo "leitura" adquire outro sentido. ou seja. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. Na prática escolar. Os próprios textos escritos são. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. da leitura para conhecer um texto escrito. e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. Trata-se. . Na alfabetização. e não o inverso. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. a decifrar a escrita. Alfabetizar é. ou seja. então. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. na maioria das vezes. ensinar alguém a ler. Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. na sua essência.

a passagem pela estrutura lingüística é essencial. apesar disso. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras.Ao longo deste livro. em primeiro lugar. a diferença entre desenho e escrita. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir. função e usos da ortografia. é preciso adquirir certos conhecimentos. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento. o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. Além da decifração Quando lê. parece muito fácil e natural. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. uma pessoa precisa. Sem . que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. Entretanto. entre outras coisas. e não de outra maneira. Para quem já sabe ler. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. para chegar a esse ponto. Em ambos os casos.

isso. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para . não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. por exemplo. não existe linguagem e. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. portanto. Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. e de forma coesa e coerente. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. porém. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. Este último caso acontece. A decifração. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua. segundo as regras dessa língua. pode ser feita por etapas. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo. Quando uma pessoa fala espontaneamente. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto. As vezes.

toda pessoa. e acaba sendo um mau leitor. pronunciá-los em forma de palavras. além de falante. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. elabora . Assim. como a linguagem tem todos esses aspectos.pronunciar as palavras. No entanto. Isso. Portanto. <313> Perdurando essa prática. se apropria das idéias que descobriu no texto. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. do controle sobre aquilo que se diz. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler. mas também de si próprio. acontece apenas como um processo de feedback. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. a partir dessa audição. ou seja. obviamente. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. Contudo. uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. processar a compreensão da linguagem.

e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. X). passa a dizer o que leu.todos esses conhecimentos como se fossem seus e. Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere. saber como pronunciá-las e não entender o texto. seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. Além disso. nota-se como se pode ler de várias maneiras. pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo. terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita. Dependendo do texto e do leitor. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . Por outro lado. Quanto mais se lê. dependendo do que se encontra pela frente. mais fácil torna-se ler novos textos. Nas explicações dadas acima. o leitor pode conhecer todas as palavras. Talvez isso seja irrelevante. Se se deparar com uma palavra desconhecida. numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. talvez não. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia.

inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito. Certamente. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. quando lêem para si próprias. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto. o planejamento lingüístico deve ser completo. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto. A única diferença entre elas acontece no momento em que. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala. as leituras . que varia de falante para falante. Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia.de saída. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. quando a leitura se realiza em voz alta. Em ambos os casos.

se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos.feitas em silêncio são assim. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente. futuramente. acaba tendo. Isso se dá ao ler. mas a base dos . recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar. o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. mas todo um processo de produção de fala. ao aprender a ler. Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. Assim. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica. mesmo em silêncio. através da leitura. Por outro lado. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. pode-se ler em outros dialetos. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa. do mesmo modo. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. pois.

dependendo de como o professor lida com eles. Esses são dois pontos de suma importância na escola e. Assim sendo. mas deve chegar o mais próximo possível disso. Assim. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. que. A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. não me esforço para dar uma pronúncia carioca. ler não é falar. quanto menos . E os portugueses lerão meus textos com sotaque português. na sua essência. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. Castro Alves ou Érico Veríssimo. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. na língua e no dialeto retratado. Ao contrário. baiana ou gaúcha ao texto. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. Leio no dialeto que desejo. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. no meu dialeto. <315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. é oral. reproduzindo fielmente os sons representados.dois é a língua. Quando leio Vinicius de Moraes. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético.

ipsis litteris. mais fácil fica acompanhar a parte semântica e. Por outro lado. muitas vezes. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. entender o que se lê. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. mas também a semântica. A fala deve ser monitorada pela semântica. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. . A leitura. O leitor interfere no literal do texto Na leitura. Afinal de contas. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. Como vimos acima. dessa forma. mas o leitor fica divagando. perdem o fio do raciocínio. também. voando nas asas da imaginação e da fantasia. Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu.alguém se preocupar com a parte fonética. truncada e. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. ao decifrar o texto. Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. Quando se lê uma poesia ou um romance. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto.

O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. Esse tipo de interpretação está equivocado. o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". existe a lei da fidelidade ao literal do texto. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve. como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. conforme . ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito.<316> A leitura em voz alta. A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo. dizendo tudo em palavras e em voz alta. ao lerem os primeiros textos. que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando". Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso". por essa razão. sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. todavia. Na nossa cultura. implica algumas restrições. Por exemplo. Diante de tais fatos. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. as crianças ainda não sabem disso e. No início da alfabetização.

Porém. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado. alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. diante de um público. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. naquelas circunstâncias. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. para quem um texto tem de ser lido literalmente. Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. obrigando-o a ler apenas o literal. A lei da . sem se preocupar com os outros aspectos da leitura.exigência da nossa cultura. Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo). É preciso que o professor alfabetizador. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. mas no dialeto padrão. Assim. ela em geral pune esse tipo de leitor. Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. desde o início.

Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. Porém. Sem o princípio da literalidade. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve. esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. O falante diz um enunciado a seu modo. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através . Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. tornando-se por sua vez uma realização literal. da mesma forma. para quem escreve e quem lê. mas também com a sua própria interpretação. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. a linguagem se perderia num mundo de fantasias. Contudo.

se a leitura estiver sendo feita individualmente. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. . como por exemplo locutores de rádio e de televisão. Na vida real. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. através de uma leitura especial em voz alta. para um melhor desempenho. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se. Na nossa cultura. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. Os professores devem incentivá-la o mais possível. Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. O professor não deve se preocupar com isso. esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. de leitura para um público ouvinte.da fala do leitor (leitura em voz alta). a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. mas não em outras situações. A escola deveria seguir esse procedimento. Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. mais propriamente. Algumas vezes. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. porque.

alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que. mesmo na alfabetização. podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita. através do desempenho dos alunos. . como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta. Da mesma forma que o ditado e as notas. e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. Nesses casos.. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam.. simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. por exemplo. Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados. Por outro lado.

Alguns professores <319> antigos recomendavam que. Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso". Já que eles sabem o texto de cor. o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando. Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. ler acompanhando as palavras (não as letras). depois decorá-lo e. Nesse caso. depois. Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. lê-lo em voz alta. Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto. Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos. basta estudar um pouco e. ela repete sem dificuldade.letras de música ou poesias. somente então. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . durante a leitura de um texto.. como em qualquer atividade de leitura em voz alta. para não criar uma pronúncia artificial. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura..

o aluno deverá preparar a sua leitura. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior. com o tempo. se não estiverem lendo de maneira correta. Isso requer um certo estudo prévio. todos os tipos de leitura são da mesma natureza. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. tudo estará em ordem. não apresenta problemas de leitura. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e. assumam características diferentes em . Tipos de leitura No fundo. porém. Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades. o professor permitirá que ele leia para a classe. Mas. procedendo daquela forma. externamente. Simplesmente precisa rá praticá-la e. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. dominando inclusive certa fluência na leitura. e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. em vez de decorar o texto. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. num primeiro momento.público. ao chegar nesse ponto. A escola. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. A medida que os estudos avançam. embora.

pois. como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. representado. estudado. Um estudo mais aprofundado levaria. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros. ou seja. Com relação à natureza dos textos. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado. Neste último caso. ainda.diversas circunstâncias. Temos. a outros tipos de leitura. Quando se lê num sistema fonográfico. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. segundo o modo como cada um o interpreta. Quando se lê num sistema ideográfico. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. a leitura pode ser informativa. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem. etc. Um terceiro tipo de leitura. etc. para divertir. uma leitura interpretativa. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . Como vivemos num mundo caótico de escrita. que também já foi apresentado anteriormente.

muitas maneiras. Para muita gente. a ortografia. ao sistema fonográfico. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. o uso de rébus. a escrita apresenta-se de muitas formas. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e. Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. ao sistema ideográfico. as grifes. os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro. Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. No mundo fora da sala de aula. não raramente. com freqüência. Infelizmente. Os símbolos. refletindo-se sobre um . somente para o aspecto literal do texto. os sinais. as letras. ao sistema fonográfico. até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia.

um professor não poderia usar a palavra ZEBRA. a palavra POTE. Alguém. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa. saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante. etc. a não ser no Quênia e em outros países africanos. por essa razão. fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. Para um aluno ler o que está escrito. Esse uso metafórico da leitura. Isso tudo é um uso da linguagem. "ler as mãos". tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. um dia. a linguagem representa o mundo no pensamento e. estudá-lo fisicamente. Assim. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa. "ler as estrelas". e não de um processo de leitura.determinado objeto. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora.. apalpá-lo. Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa. não precisa pegar um pote.. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para . Em decorrência de idéias como essa. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". no entanto. no sentido técnico. Assim. por exemplo.

Num texto. tanto quanto as frases. as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. O testemunho é algo de importância essencial na vida humana. A literatura. a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. geralmente. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita. não basta detectar apenas os significados literais das palavras. A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). os pressupostos. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim. Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto.aprender a palavra "elefante". Porém. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras. Basta alguém explicar o que significa. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. ou. Por isso. mais tipicamente.

outra palavra. não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. e não apenas da escrita). O professor deve. quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. . Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. mas. o aluno diz "kaça" ou "çeaça". O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que. ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar. Por exemplo. como não sabem exatamente o que estão fazendo. põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala. desse modo. seria nas entrelinhas da própria fala.. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. ao ver a palavra CASA. Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto. de concatenação ou de compreensão. não sabendo decifrar a escrita. portanto. Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que.. quando são solicitados a ler.um texto escrito (na verdade. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha.

linhas de ônibus. às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu. não sendo um conhecimento produtivo. como logotipos ou marcas de produtos. Porém. la-ta Esse aluno sabe ler. do contrário eles se acomodam. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas.Esse caso é semelhante à leitura incidental. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto. etc. tê-a-tá. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. por exemplo. Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. como ela não sabe decifrar a escrita. mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto. no seguinte: "lêa-lá. o que resulta. Assim como atribuímos palavras às coisas.

O leitor é. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada. o que impressiona bem o professor. O professor. então. Alunos que apresentam problemas de naturalidade. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. nesses casos. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira. um simples decodificador fonético da escrita. Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas.descobriu. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. tal aluno não aproveita o que lê. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. porque sua leitura não lhe traz significados. Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. porém. de . mesmo curtos. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. apenas sons da fala.

de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. Ler textos com muita.fluência. vários leitores em coro. especialmente quando a classe não gosta de ler. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura. enfim. Pode-se fazer isso de vez em quando. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura. Criança gosta de ler textos com ilustrações. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. sendo que. como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . podem ajudá-la. a leitura de um texto por várias pessoas. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si. em alguns trechos. Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade. não é uma boa estratégia. em outros. de concatenação. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. há apenas um leitor e. Porém. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos. pelo contrário. Essa prática é muito interessante. Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. ou seja. Alguns professores gostam de promover leituras coletivas.

"Sinos de Belém". a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. inclusive uma revisão histórica. meditar. Há vários pontos importantes que é preciso considerar. Assim como o ditado e a cópia. Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. reviver sentimentos .Recife". A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto. e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. Ideografia e leitura Pela própria natureza. para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. sem entrar em considerações específicas. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar.

<325> Esse tipo de escrita. Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). a revelação etimológica . Desde os tempos mais antigos. nesse caso. em latim. que significa "som" -. Uma leitura literal. Portanto. lembram que. por exemplo. Logo se vê que. "Telefone". que significa "longe". as pessoas cultas discutem o significado das palavras. coisas ou fatos que a fotografia evoca. dos mais antigos. a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra. "chuva" se dizia pluvia e. Portanto. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". portanto. para explicar a palavra "pluviométrico". tem o significado de "som longe". falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica. no caso da palavra "pluviométrico". uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar. podem compreender melhor o uso das palavras na sua época. procurando recuperar formas e significados antigos. que inclui outra palavra grega . em "televisão" e "telefone".fone. "televisão" significa "algo que se vê longe". Por exemplo. persiste até hoje. Assim. Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. embora.fortes de patriotismo. a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. etc.

e dissesse apenas "algo que se vê longe". dizendo a origem das palavras que as compõem. Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". Fora do mundo escolar. Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . muitas vezes.ensina mais grego do que português. mas não ajuda muito. Porém. esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. mesmo quando faz pouco sentido. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe". estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos. Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. dificilmente se faria entender. para estudar o uso atual das palavras na língua. parece realmente ridículo. como no caso de "televisão" e "telefone". esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. nem é conveniente. por um lapso de memória. Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. Se alguém. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e. fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico.

menos ainda grego. posteriormente. Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. mas devem ser entendidos corretamente. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). não mais com textos necessariamente antigos. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. não há crime. No primeiro caso. Qualquer texto . O português tem vínculos com essas línguas. Pelo contrário. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. são muito importantes. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso. que passou a ser feita. ou seja. portanto. Essas palavras devem ser entendidas. mas não culposo. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. mas no segundo sim. mas existe de maneira própria. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua. dentro do contexto legal em que se inserem.

ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos). os comentários (exegese) abrangem. Porém. encontram-se. Aqui já não há mais exegese. mesmo na interpretação literária moderna. Posteriormente. a sociologia e a psicologia.passou a servir para um trabalho de análise exegética. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita. . pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. uma espécie de reescritura (sem a arte do autor). que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. envolvendo textos literários. a interpretação de texto enriquece-se. sobretudo a filosofia. por vezes. No caso das obras literárias. não só a especificação de palavras. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época.

cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. no segundo caso. necessariamente criativa e individualizada. física. Nota-se. houve de fato uma interpretação. podiam até vir dadas de antemão no . Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. No primeiro caso. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. Naquela época. geografia. Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. A interpretação de texto deve ser. mas. sempre. química. por exemplo. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro. As respostas. portanto. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. necessariamente.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. Porém. bem como história e português.

nada de opinião pessoal.Manual do Professor. Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. Certas análises do discurso. mas uma análise do conteúdo lingüístico. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. etc. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola. filosófico. Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. ideológicas. Obviamente. nada de pesquisa individual sobre o assunto.. psicológicas. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. que são explicitadas pelo leitor que interpreta. principalmente. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita. por exemplo. ideológico. Nada de interpretação. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. e. nos livros didáticos e nas aulas de português. em todas as matérias. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta. ainda. Análise do discurso Há. fruto de pesquisas sérias ou não. psicológico. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. como reflexões filosóficas. .

Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas.). A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão. não as noções filosóficas.). debates. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. como acontece nos diálogos. morfologia. além de estar inserido num contexto (pragmática.psicanalítico. etc. Lingüisticamente. Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação. sociolingüística. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto. É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. etc. conversas. etc. etc. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto. que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. . fonologia. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras. ideológicas.. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto. psicológicas. etc.

uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas. comentários pessoais dos mais diversos tipos. desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem. análise do discurso de base ideológica. etc. quando uma delas predomina. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. etc. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. Por outro lado. ideológica. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave. Em resumo. psicológica. Por exemplo. mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem.. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras. Porém. pois. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. frases. ideológicas.Os pretextos da interpretação de texto Pode-se. temas ou assuntos tratados. ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. extrapolações de natureza filosófica. estudos etimológicos. análise exegética. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. . lingüística textual e análise da conversação. argumentativa ou simplesmente estrutural.

para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). fácil e óbvio <330> . formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. por outro lado. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. Por essa razão. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. dos lingüistas. por um lado. é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos. Se. Em outras palavras. em última análise é tarefa da lingüística. No mundo todo. tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem. da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. portanto. Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes.

supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. toda descoberta feita pelo homem nas ciências. essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos. Na Bíblia. Na verdade. Aliás. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto.. se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo. É preciso interpretar um texto? . Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição. sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. isto é. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto. Caso contrário. Isso traz uma nova dimensão ao assunto.como andar e comer. nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez. colocar as idéias em palavras. Sem esse pressuposto. Somente quando surge uma dúvida específica. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. e essa é uma atividade tipicamente lingüística. por exemplo..

ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. não. como.Ao observar os usos da linguagem. ou visitando um museu. certo tipo de pergunta. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. Porém. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. a um programa de televisão. denota que está acontecendo algo de errado. notamos que uma pessoa conversa com outra e. Por mais pobre. no caso anterior. Quando o interlocutor não entende algo. ou pensa que está entendendo errado. seria uma forma de negar a racionalidade do homem. Em outras situações da vida. Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis. quando alguém está assistindo a um filme. miserável e . agindo assim. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa. ou mesmo uma quantidade grande delas. No fundo. Nesse último caso. por exemplo. conduzindo um assunto.

estúpido que alguém seja. isso pode até ser respondido. parar. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. nesse caso. que pede para ela dizer quem comeu o bolo. Por isso. se o texto for oral ou escrito? . Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. Mudando um pouco o contexto. e. desprezar. as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder. uma ofensa. depois dos exercícios. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. se movimentar. ou ainda. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. que tipo de bolo ela comeu. sem dúvida. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. menosprezar e humilhar seu semelhante. isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. perguntar às vezes pode ofender. e nenhuma informação nova é solicitada. assim. Entender o texto no seu contexto Chegamos.

sem saber explicitar as regras que a regem. Portanto. seja ele oral ou escrito. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. um falante de português como ele. No entanto. entende o que foi dito. come tem enganos com a linguagem. seu ouvinte. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido. as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário". e assim por diante.Pelas considerações feitas acima. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. Na verdade. Vimos também que. alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). que entendem errado o que ouvem. mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta. apesar disso. vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. inserida no mundo. cada um entende um texto. agindo assim.

Por interpretação literal. porque isso também faz parte das funções da linguagem. Um desses limites é a interpretação literal. o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto. inequívoca e completa. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou". encarregam-se de estabelecer certos limites. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. todavia. Os usos sociais da linguagem. falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. a palavra "pé".interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. aqui. como alguns gostariam que fosse. Em outras palavras. Portanto. tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações. entenda-se o uso comum que se faz das palavras. A linguagem não é apenas lógica. . para que esta seja um instrumento útil aos homens. no sentido literal do que dizem ou ouvem.

uma vez que ela possui esse significa do. <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. Quando o contexto lingüístico não é favorável. referencial. mas simplesmente associado à palavra "pé". coerência e. do mundo em que o texto se insere. cada um usa a linguagem segundo . mas em contexto muito diferente. quer com relação aos usos da linguagem. portanto. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. ou seja. é levar em conta algo que não foi dito. nesse caso. Para entender o que se lê. Literal. significa o que está dito. nem pensado. o que se ouve ou. Em outras palavras. de solução duvidosa. depois.Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". no máximo. sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. do jeito que está dito. mesmo. de coesão. Pensar em parte do corpo. para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou.

Ora. Não só faz sentido. desafiador e maravilhoso. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. Se fosse diferente. quando se trata de textos científicos. Isso inclui. é algo fascinante. entre outras coisas. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. como os de matemática. faz parte das preocupações da escola. geografia. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. Porém. sem dúvida alguma. Do jeito que ela se apresenta. como é necessário que o professor faça interpretação de texto. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . Porém. avaliar a aprendizagem. Essa avaliação. para checar se os alunos entendem o que lêem. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. história. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. se isso é assim. é preciso entendê-la corretamente.seu próprio metabolismo intelectual. etc.

Por trás dessa discussão. quando muito. é simplesmente um exercício idiota ou. as características geográficas. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. mais uma vez. um passatempo. ela precisa cuidar muito . ensinar como estudar esse conteúdo. mas deve. Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. um trabalho leve a outro e assim por diante. e um texto puxe outro. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro. Em outras palavras. a cronologia histórica. Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. Se errar. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. principalmente.de interpretação de texto. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente.

bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido. de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. Quando se fala e se ouve. no fundo geralmente descabidas. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los.atentamente do modo como os alunos estudam. Esse é o jogo da linguagem. se passar de ano pensando que aprendeu. há sempre a possibilidade de enganos. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. não necessita fazer uma lista de perguntas. a partir de coisas velhas que aprende. falta a reflexão criadora do aluno. Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. Nesse tipo de atividade. conseqüentemente. outras pessoas irão achar que eles são imbecis. pior ainda. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas. <335> . Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e. Por isso. Isso faz parte dos usos da linguagem. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura.

como vimos. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . quer para aprender sua natureza lingüística. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. Portanto. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes.O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas. além dos detectados no texto. Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. é imperativo que outros conhecimentos. Nesse caso. Além disso.

Resumindo. que eu saiba. esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. o conto. Mais uma vez. esse tipo de texto é o menos recomendável. etc. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. como a poesia. Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias. a piada. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos. A formulação de problemas de matemática tem características próprias. os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila. Pior ainda. deve se dizer que esses . Textos científicos.presumivelmente). resolver seus problemas escolares. Ora.

Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. é natural que pergunte. Então. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando.professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. conseqüentemente. Por essa razão. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação. procurando no dicionário ou de outras formas. O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido. E uma prática . Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. não pode tomar a iniciativa antes deles.

um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia. é o debate. <337> e não com todo texto que se lê. O professor pode estudar a estrutura de uma piada.saudável que deve acompanhar toda leitura. como cartas. Assim. o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. um texto literário pode servir para discutir literatura. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. etc. estudo técnico sobre o assunto. Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. Estamos. que a escola deve cultivar com carinho. Nesse caso. notícias de jornal. pois. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. Em lugar disso. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. Determinados assuntos podem ser analisados. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. o texto representa apenas uma . Obviamente. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos. diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto.

apoiar ou rejeitar o que o autor disse. elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam. como também. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. dessa forma. estranhas conceituações e conclusões falsas. para estudar. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação. levando em conta o que ouvem e. e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola.das idéias em discussão. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. pelo contrário. Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. o que causa freqüentemente confusões. para se . Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram. mas irão. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto. instruções.

Uma prática muito usada por alguns professores. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário. cada um faz de seu modo. etc. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias.distrair. descansar. em cadernos de anotações pessoais. se divertir. o professor promove a atividade. Em lugar disso. Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. pensamentos. depois. e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. seja recontando uma história. Aqui também. seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. escreve com as próprias . colecionando <338> esses excertos. e. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. e não só dos de português e de alfabetização. portanto. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. é partir de um texto para fazer outro. etc. Esses esquemas devem ser personalizados. versos.

o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. na verdade. Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. pois ensina as características dos textos. se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler.palavras o que se lembrar do que leu. porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. De modo geral. Um professor alfabetizador não precisa. Se os textos forem os de leitura comum. como atividade individual. a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos. especialmente na alfabetização. Os textos da interpretação de texto Finalmente. Alguns escolhem os textos semelhantes . Esse tipo de trabalho é muito recomendável. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. Na alfabetização. Ou então. o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem.

aos <339> encontrados nas cartilhas. como se costuma dizer. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. Destes. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro. que tratem de coisas sérias. a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios. mesmo as crianças. Todo o mundo. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso. Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. à moda dos contos de fada modernos. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. Além desse tipo de livros. mesmo os adultos. Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. ridículas ou. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. quando muito. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. . que são os piores textos já produzidos por alguém. histórias para boi dormir. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. vive no mundo da fantasia. tem senso da realidade. Todo o mundo. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça.

Nos últimos anos. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. Para a escola. Apesar dessas facilidades atuais. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. Com isso. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem. Felizmente. os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores. porém. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA . mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores. porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. A salvação não é fazer interpretação de textos. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional.A partir de 1964. sobretudo nas primeiras séries. hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal.

Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. ao norte de Portugal. falado na Galícia. O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português. como língua. adquirindo seu sotaque próprio. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. Havia também o galego. antes da chegada dos romanos. O povo. além do basco. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. implantando a cultura latina entre os povos da região. Durante essa época. Logo depois da expulsão dos árabes. depois. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . firmando-se inicialmente como dialeto e. nas escolas. Em Portugal. certamente era falada alguma língua celta e. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. hoje território espanhol. Em Portugal. uma ou mais línguas iberas. O latim foi se fixando nessa colônia.A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. o latim era usado nos documentos oficiais. entre as pessoas cultas. sempre pobre e ignorante. nos livros e nos documentos religiosos. no final da Idade Média. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. no dia-a-dia. na Espanha.

Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. A ortografia. resiste mais às variações dialetais. dando a impressão de que a fala não mudou muito. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. Por outro lado. tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas. deixando o latim para algumas obras . o espanhol. Esse é um método não muito seguro. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos. as pessoas sabiam que.do latim clássico. mas que permite um começo de pesquisa. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. como sempre. que se tornava notório na escrita. Naquela época. lá falava-se o romanesco. uma espécie <342> de latim estropiado. que antes era o latim clássico. se o latim podia ser escrito. por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português.

onde havia centros culturais de grande importância na época. fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. misturada com representações ortográficas próprias do latim. No nosso caso. No princípio. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. Esbarrando na variação dialetal. definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. a adaptação das línguas apresentou muitas variações. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. sobretudo nas relações entre letras e sons. na França e sobretudo na Espanha. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. revelando uma espécie de transcrição fonética. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino. José Lei te de Vasconcellos. depois. como o português não era latim. tem dito que o documento mais antigo em língua . passaram a usar esse sistema para escrever.científicas. Somente a ortografia iria. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis.

Trata-se de um título de venda. A ortografia que se vê no texto pode . contando o descobrimento do Brasil. Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit. e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil.. Nesse documento. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE. (a letra u é igual à letra V). que é bem curto. Stephanus Suariz testes.. Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. AMEN. misturada com o latim da época. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. ÁMEN.portuguesa. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila". Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. Menendus Sanchiz testes. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. Vermúú Ordoniz testes. data de 1161. Sancho Diaz testes. Gonsaluus Diaz testes.

Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta".ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. Há ainda fatos de segmentação.. Compare "demtes" com "dentro". Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". "grosura" e ' escritas com apenas um S. os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas. entre outras coisas. como "os beiços" e "obeiço". "coussa" escrita com SS. e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro. amdam nuus sem nhuua cubertura. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador. mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber.. nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. a palavra "cubertura" escrita com U. "bramcos". Observe. A questão da carta .

é gente interessada em mudar a ortografia. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado. Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas. mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal. Carolina de Michaelis. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. Certamente. na história da língua portuguesa. Quanto mais se fazia nesse sentido. percebia-se logo que piorava. até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. no final do século passado. Gonçalves Viana. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho.não se refere apenas à ortografia em uso na época. A comissão . Ainda hoje.

como escrever FICSO (fixo). ou ainda: TAM (tão). A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. etc. EMQUANTO (enquanto). — contraproducente. A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras". sob a presidência de Machado de Assis. Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. Mas ele propunha coisas mais audaciosas. Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. a recém-criada Academia Brasileira de Letras. PAJINA (página). ELEJER (eleger). aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. PROSSIMO (próximo). como tenho demonstrado. recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque. ÇAPATO (sapato). declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. . O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras.encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. julgando-a.

descriteriosa. da Academia Brasileira de Letras. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. Em 1929. As reformas da reforma ortográfica Em 1915. a reforma acabou aprovada com emendas. Curiosamente.selvagem. inoportuna. antiphilosophica. apesar de tudo estabelecido. com a participação das duas Academias. Silva Ramos. por iniciativa do acadêmico Estrada. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911. A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. anti-patriotaa. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo . O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas. Em 1919. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. chegando-se a um acordo em 30/04. mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão.

entregue em 21/12/1937. de 23/02. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência. introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937. Aprovadas as Instruções (bases ou regras). elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. Em 29/01 de 1942. ar quivado. Em 1938. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa. recomeçaram as discussões nos dois países. porém. que foi. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. curiosamente. Dada a nova situação.projeto de reforma ortográfica. no entanto. reunid em Lisboa. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica. que. mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias. Em 29 de dezembro de 1943. O . fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940.

publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. modificando bastante o de Portugal.decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. Por isso. mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário. modificando o uso mais comum no Brasil. em 1955. revogando o decreto-lei 8 285. com o de 1943. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo). No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. Desse modo. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das . em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. A briga continuava forte fora das Academias. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal.

que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. Dessa forma. Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. ACTO. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. APTO. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. Deveria ser objeto da educação. as "consoantes mudas". mas como. escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas.ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. Na prática. pelo menos do jeito como aconteceu. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. ou seja. mesmo dos políticos. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . num país como o Brasil. <347> Como vimos. Depois de tantas reformas. como em FACTO. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. E quem escreve errado. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. Em Portugal.

Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". aparecem as letras K. não deveriam ser usadas. REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. em muitos nomes. . haveria outras regras semelhantes. Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. de tal modo que na prática nada muda. Assim. Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. Uma vez feita uma mudança. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos. por exemplo.decidiram (ou que o cartório registrou). Todavia. etc. Do mesmo modo. Nomes próprios de lugares. Y e que. nesses casos. Na verdade. de acordo com as normas vigentes. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia. as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. cidades.

em vez de se escrever apenas CASAS. mostrando que. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). não há . <348> Voltando à regra anterior. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. 'bs bororó' ' tupinambá' etc.. agora.Indo contra a tradição da língua portuguesa. Porém. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. dizendo. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. Se for para seguir a pronúncia. as coisas são diferentes. dependendo do contexto. para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS. Se fosse um carioca.. não um problema geral da língua. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ. Na verdade. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". se tiver de escrever CASAS FEIAS. Ora. por exemplo. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual. Porém. as coisas seriam diferentes. os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas. Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z.

a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. em geral. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara. como alguns fazem. a ortografia tem sempre um papel muito importante. QUAZA. etc. ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. > Nas aulas de português. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente.vantagens nas modificações. mas em escrever QAXA. Para quem não sabe. seguindo ou não a ortografia. 1994b. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. e as formas de escrever as palavras. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia.

Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. de fato. Obviamente.um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. Os colegas zombam. mas infelizmente existe em muitas escolas. Às vezes. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Em situação pior estão os próprios alunos. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão. São erros insuportáveis. vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu . o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas. que denotam um analfabeto (sic!).

quando tivessem urna dúvida ortográfica. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor. em todas as aulas. sobretudo nas provas. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns. o dicionário até parece um livro proibido. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. inclusive para resolver dúvidas ortográficas. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário. pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia.PEÇOA ou BRICPZA. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado. se souber essas duas coisas. Porém. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso. o que deveria acontecer sempre. Na verdade. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e.

Certamente. era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. sobretudo. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de . Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava. que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. com as novas idéias pedagógicas. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro. desde que escrevesse. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. não saía da primeira série.respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. ou melhor. Depois. Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. sem nenhuma explicação e. Nesses casos. como parte do desenvolvimento escolar. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta. A ortografia seria aprendida depois.

Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. Tendo ouvido todas essas explicações. Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. o objetivo é apenas escrever. No inicio. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. semânticos e textuais. Então. sabendo o que e como está aprendendo. Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. de onde saiu e aonde vai chegar. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. um aluno pode apren . sintáticos. Assim. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno). Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização.cuidar da ortografia. criou uma situação de frustração para muitos alunos. tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito. que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido.

ou seja. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e. é fácil ver como. e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. o aprendizado da leitura. mas também não se pode abandoná-la. aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos. Procedendo assim. no primeiro ano escolar. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . Por outro lado. O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. Ele precisa saber como se virar. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. porém. o aluno não só aprende a escrever livremente. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia. Superada a primeira fase. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. Às vezes. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. O que fazer. que é decisiva. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. e o professor não precisa se preocupar.

se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. em particular do nosso. os professores das demais séries têm a mesma obrigação. como se mencionou acima. a respeito do processo de aquisição da linguagem. da variação lingüística. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las. Portanto. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. cometendo erros intoleráveis. Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras. Entre outras coisas. da natureza. exigindo um trabalho preliminar de . é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. o professor <352> deverá falar. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. função e usos dos sistemas de escrita. Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. para fazer transcrição fonética).

IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . No caso de alunos preguiçosos. em qualquer momento da escolarização. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor. Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. 38. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia. Quando um aluno não sabe alguma coisa. em que série da escola isso estiver acontecendo. seja o que for. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. Como é óbvio em educação. por exemplo.revisão do aluno. podem ter sobrado três erros. Por exemplo. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. Finalmente. o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. para descobrir quais estão com a grafia errada.

que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. percebe-se logo que. a escrita inventou a ortografia. A partir da ortografia. Por essa razão. e representá-los na escrita por letras. Nosso sistema usa letras. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes. cada um lê conforme fala. Portanto. dizendo-a de acordo com seu dialeto. se cada um escrevesse do jeito que fala. Para neutralizar a variação dialetal. <353> Desde os primeiros contatos com a escrita. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. Esse é o primeiro passo. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. Assim. o aluno precisa aprender que.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. mas não é tudo. Feito isso. o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. seria o caos. as palavras terão . Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. as vogais e consoantes. podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura. Fazendo o caminho inverso. Portanto. às quais são atribuídos valores fonéticos.

<354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. muitas das explicações que são dadas aos alunos. ele já não se . Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. independentemente da maneira como pronunciam as palavras.pronúncias diferentes. com S (FRANCESA. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos. POBREZA) e as que formam um plural feminino. Como se vê. Depois de certo tempo. é possível elaborar algumas regrinhas. porém. PORTUGUESA). O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever. as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia. caso das primeiras atividades de escrita das crianças. Às vezes. Depois. desde a alfabetização. é outra. A verdade. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia.

O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. porque o professor corrige mesmo. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. Então.preocupa com a ortografia. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro. mas de todas as palavras. seja em que matéria for. . Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. quando necessário. decorando a grafia das palavras. não só nas redações escolares da aula de português. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade. passar a limpo. Para que essa prática desse certo. Esse tipo de cópia serve apenas para castigar.

Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las. criando. Além disso. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. BALSA e BALÇA. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). formas ortográficas paralelas de algumas palavras. . SOLUÇO e SALUÇO. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. etc. precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica. ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. 1963. uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER. analisando seu dicionário. FLECHA e FRECHA. Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm.A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal). principalmente de alfabetização. desse modo. em geral. Por exemplo. > Um ponto importante que os professores. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico).

às vezes ajuda a decidir. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras. Para um aluno nas primeiras séries. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. mas não para um aluno já alfabetizado. sendo praticamente inexistente em outros. escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA. EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que. Para um professor alfabetizador. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário. PRINCESA ou PRINCEZA. menos dúvida causará. Aliás. À medida que uma palavra se torna mais familiar.Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. Às vezes. a partir da . A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. diante de uma palavra comum. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. Assim. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA.

as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. sobretudo. a questão da variação dialetal e. O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. pois. Entretanto. como funcionam. <356> Para muitos alunos. Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. antes de tudo. causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. A ortografia. É por essa razão que a letra X vem por último. Para um aluno que fala "bardji" (balde). o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema. nem sempre é difícil ler a letra X. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X. tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. no seu caso. Para ele. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. "nóis fumo dispois" (nós fomos depois). "brabuleta" (borboleta). "psicreta" (bicicleta). é preciso ter bem clara.memória visual. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em .

Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. como se . Como já se disse. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. mas também bons hábitos nos estudos. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos. quando tivessem de escrever. Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos. checar a forma ortográfica das palavras. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. entre outras coisas. E antes de passar a limpo. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. o aluno deveria.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. que deve começar desde a alfabetização. vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas. não dando maior importância do que esse assunto merece e. Por essa razão. principalmente. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum. A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos.

tem enfatizado ao longo deste livro. Por outro lado. sempre que . bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos. por exemplo. ou seja. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita. através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras). explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras. Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras. <357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. As considerações a seguir estão organizadas.

são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala. portanto. E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. ela representa o som de "a". não precisa seguir essa ordem. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. com a letra A. identificando-a com o som "a" na fala. esse som será escrito com a letra A. mostrando como levantar dados e formular regras. O professor poderá escrever algumas palavras na lousa. Como exemplo.possível. ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". quando urna palavra tiver o som de "a". Em seguida. Como qualquer letra. A seguir. terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. no início e no meio: ASSADO. Depois. Nos quadros aparecem o nome das letras. que se verão a seguir Portanto. entretanto. O professor. . dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. pode escrever AMIGA. um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. na maioria das vezes. Talvez. segundo a ordem do abecedário. pode ter outros sons.

na fala. de acordo com o dialeto). HELICE. outros casos). como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich"). o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). a letra A tem um som .O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". na fala. além do som básico. ou seja. ATRÁS. etc. uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). final. TOMÁS. "é". a letra A. Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. em sílaba final de palavra oxítona. Quase todas as letras têm outros sons. São os casos particulares. • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. HINO. PAZ. e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. Por exemplo. Outro caso particular da letra A ocorre quando. início-e-final. Neste caso. HUMILDE. tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. E e O (com os sons de "ê". PÉS ("péis"). A mesma regra vale para as vogais U. tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. VEZ ("vêis"). ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). HOJE. etc. pela vogal. Exemplos: RAPAZ. "ô" e "ó"). dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto).

Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. podemos ver outros exemplos. LAURA. que é dito "muramarélu"."posterior" (de "garganta"). RAUI SAUL. ALTO e AUTO. BAÚ. Se não houver a formação de ditongo. MAL. A vogal A pode ser nasalizada. TODO O MUNDO ("todumúndu"). Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla". Para testar e conferir qual a vogal que cai. variando a vogal: CASA ESQUISITA. é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). Veja. etc. É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente. se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). a letra A possui o som básico de "a". Outros exemplos: SAL. Por razões semelhantes. ficando com uma qualidade . BALDE. Às vezes. que se torna "kaziskizita". por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. CALDO. ou ainda MURO AMARELO. etc. etc.

a pronúncia é "rãu". TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". Portanto. Quando uma palavra termina em -RAM. mas. ou numa fala bem informal. Se for átona. caso dos verbos. ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). CAMA. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante. no dialeto padrão. em muitos dialetos. etc. AMADEU. AMA. Quando a letra A vem antes de NH. quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". sabe-se que deverá ser escrito com a letra A. como mostram os seguintes exemplos. CAMADA. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). cujo som do primeiro A é oral. AMOR. a letra A será sempre nasalizada. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". CANAVIAL. CÂNFORA. a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). CANA. Na leitura.vocálica diferente. e a vogal é tônica. como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). a letra A pode ter o som nasalizado ou não. Som nasalizado: ANA. a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. Na verdade. caso da palavra ANA — compare com ASA. CANTIGA. . por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). CAMPO. Som nasalizado ou não: ANÃO. tem sempre um som nasalizado. como em: ANTÔNIO.

derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras. um aluno que fale um tipo de variação . nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação. ou. Os exemplos apresentados anteriormente revelam. Esses casos podem ser explicados e. Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). os valores fonéticos letra A. pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. SABÃO. uma vez aprendidos. Porém. Compare: ACHARAM e ACHARÃO. no segundo caso. VIRAM e VIRÃO.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). No primeiro caso. são de grande utilidade no . Note que. Além disso. em grande parte. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. LIMÃO.trabalho de decifração. a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). na escrita. IRMÃO. nesses casos. Geralmente. tem de saber a ortografia de palavra por palavra. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . etc. Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta. estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. ainda. Por exemplo. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. e. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar.

chegando-se às mesmas regras. mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. Para esses casos. foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. SEJE (seja).único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. encontramos registro desse tipo de dificuldade. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE. como em: BÊBEDO e BÊBADO. No próprio dicionário. Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala. ao buscar as formas ortográficas. quando se trata de variação dialetal. fica tudo mais fácil. ADESPOIS (depois). terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico. etc. ILUMINAR e ALUMIAR.lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o . Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual. Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. . e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia.CANFUSO (confuso). não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons.

numa faia pausada. 3. não haverá . Exemplos: "batata" BATATA. Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". deve-se escrever a letra A. Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. 2. na escrita haverá o artigo. é preciso analisar as palavras isoladamente. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". Assim: em "minhamiga". recebe til. Para representar o som de "a" ou de "ã". pronunciando as palavras isoladamente. "ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. intercalando outra palavra entre essas duas. a primeira palavra é "minha" e termina em "a". por exemplo. há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. esse é um problema para quem escreve em português. Para saber como escrever. em exemplos como: "élalavôtodakaza". o significado é "lavou a casa inteira". sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. Às vezes. fazendo as seguintes afirmações: 1. "kãneta" = CANETA. Se o significado for "lavou casas que existem".que se escreve com a letra i. é possível que a seguinte também comece por "a". cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. é preciso fazer uma averiguação para saber se. Nesses casos. então.

<361> 4. para saber isso. mas a uma criança em particular (cada criança). etc. O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . mas não em todas. a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA. "a". Com já foi dito. a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. "kê". porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A. sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". Assim "çê". neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. "çê" Note que no caso de consoante. de fato. deve-se escrever AI e não apenas A. Nas outras palavras. mas. "k". escreve-se apenas A. zê". não são escritas com AI. apenas "ç". 5. Num outro caso. Palavras como "machu" (MA CHO). etc. como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira. precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante. é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X.artigo. "kachu" (CACHO). Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. porém. como: "istuçérvipratodacriãça". Há raras exceções. Se essa frase não se referisse às crianças em geral. são. etc. introduzida na língua portuguesa). a qual. Em algumas palavras. quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê".

CHEGUEMO) e . CORAÇÃO. Nas formas verbais do tempo passado. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA. LATÃO. etc. MECADTO. SÃO). sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. 9. 6. ou com ÃO. ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos.). mas apenas ZERO. Em qualquer dos dois casos. Portanto. Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. 7. Estudando essas variações. escreve-se apenas a letra A. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". "fizérú" e "fizéru". ADISPOIS. Em palavras como "mãinh "alemãinhs". Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". ALEMÃES.em casos de diminutivos. mas representadas apenas pela letra A. como CÃOZINHO. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. Diante do som de "u". etc. 8. Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). "zéru" não vai ser escrito ZERAM. Encontrando a escrita NH. como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO. nos demais casos. podese saber que na escrita teremos -RAM. etc. BÃÜ.

somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas. envolve várias dificuldades. em outros dialetos (BORBOLETA. Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos. mas nem sempre. ainda. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não. que o preço pago por essa medida traz. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. e o professor precisa saber disso. BOM. Às vezes.outra. Os alunos. CHEGAMOS). como conseqüência. Pior ainda é o fato de as crianças. Esse tipo de análise revela. Nesses casos. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. estão defrontando todas essas dificuldades. no início da alfabetização. DEPOIS. . ainda. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. Mostra. quando estão aprendendo. MERCADJNHO. A análise acima mostra como a letra A.

e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. na fala comum e informal. ABSOLUTO ("abiçolutu"). um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. como em: OBJETO ("obijétu"). G. ela é pronunciada "bi". etc. D. AFTA ("áfita"). BARCO. decifrar a escrita e analisar a fala. RITMO ("ritimu"). como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei"). ele pode ensinar a seus alunos como ler. IGNORAR ("iguinorar") . Exemplos: BOLA. Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. Na verdade. Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. SUBMARINO ("çubimarinu"). O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade. para achar a letra correspondente à escrita. <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê. ADVOGADO ("adivo gadu"). M. CABELO. Certamente. C. ponto por ponto. F. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. etc. TÉCNICA ("tékinica"). ele não irá ensinar tudo isso.

CAPELO (cabelo). Exercícios com pares mínimos (tais como. Nos dicionários. quando se aprende a ortografia dessas palavras. Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem. Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas.MNEMÔNICO ("minemônicu"). BULA/PULA. e o aluno precisa aprender palavra por palavra. FACA! VACA). F/\ S/Z. o aluno é levado a escrever POLA (bola). ADIVINHAR e não ADVINHAR. como vimos antes. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes). CH/J). Só se sabe quando colocar B ou não. Por essa razão. Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. PATATA (batata). MENINO e não MNINO. Em certos dialetos. mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA. Nesses casos. C/G. etc. etc. têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". T/D. o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. Por exemplo. podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial. "pçicréta". fala-se "trabeçêru". .

como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. <363> dados pelos próprios alunos. discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. O que vale é a bagagem de informação que se . e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons. 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". e isso o ajuda em muito a aprender. com base em sugestões orientadas por ele. No primeiro caso. que admite 'pineu" ou "peneu". O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. mas deve escrever de outro. Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito. No segundo."faca" e não "batata". o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos. é preciso estudar como se decifra a letra B. quando precede I ou E. formulando as regras com os alunos. etc. ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU.). com o tempo. de fato. e por "g" nos demais casos. "vaca".

O e U. o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. como em CEBOLA. Diante das outras três vogais. Resumindo. etc. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I. caso de CARA. Para explicar o que são vogais e consoantes. COLAR e CUIDADO. O e U. QUILO. Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal. AQUELE. a letra C tem o som de "kê". pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". o professor explicará que usamos as letras QU. . um aluno pode estar pensando em outra. observando o que acontece no início de palavra.revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. Portanto. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. dependendo da vogal que vier depois. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". CÉLEBRE e CIDADE. A. Exemplos: QUERO. Quando o professor ensina uma coisa. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A. O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. Assim.

SOBRADO e SUBIDA. Se alguém. como SAPO. partindo da escrita. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça".A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. quando em início de palavras. no entanto. tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. O ou U. A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. uma vez que. terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). Como uma coisa puxa outra. . Essa letra. "ço" e "çu". que aparece diante de qualquer vogal. é fácil ler essas letras.

tem sempre o som de "çê" (mais vogal). apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto. A seguir. Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som .

"kê". a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê".C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. "kê" + "i" ou "chê". Analisando detalhadamente os dados apresentados acima. chegamos às seguintes regras: .

pode também ter o som de "kê" + "i". A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. com ou sem a . Em alguns dialetos. o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —. No último caso. "naiç" ou "naich". Quando a letra C tem o som de "kê". 2. O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). "ki".1. A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. pode ser "naç". que se tornou um ditongo ("ai". O SC tinha apenas o som de "çê". No caso de C. no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". A letra C tem o som de "kê" quando diante de A. em outros. 5. os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". em vez de "a"). passa a ter o som de "chê". independentemente da letra que vier antes. ou seja. só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". quando não seguida por vogal na escrita. além de influenciar na leitura da vogal anterior. A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. 3. de uma outra consoante ou no final de palavra. Com a nova pronúncia. desde que a consoante não seja R ou L. A leitura de NAS. Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. O ou U. 4. em final de enunciado diante de pausa. se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer".

"çubir". apresenta dificuldades. Desse modo. principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C. porque a letra S também pode ser . que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. no entanto. "eich-çeçãu". Por essa razão. Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. Na verdade. Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C. obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida. de <365> "çê". desde que venha antes das letras E ou I. além da letra C. Nesses casos. O ou U). em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE.' o sistema manda usar a letra 5. Isso pode gerar confusões. A questão da escrita. "eç-çe-çãu". Uma palavra como "çapu". não pode ser escrita com a letra C. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C. palavras como CEBOLA e CIDADE. palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. "çopa". a letra S também representa o som. A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. Portanto.ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos.

Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. SS. SÇ e XÇ. Se escrevemos PRÓXIMO com X. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). "na-ça" NASÇA. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. como em SINO e SELO. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. Somente conhecendo ortografia. uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). Assim. NASCIMENTO também será com SC. em casos semelhantes. Ç. iremos escrever PROXIMIDADE também com X. Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. Às vezes temos uma palavra homófona. Em NASÇA. em início ou final de sílaba. XC. O critério semântico. "pró-çi mu" PRÓXIMO. Se existe a grafia EXCEÇÃO. I o caso de "paçu". Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. Esse é um procedimento comum. como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a". se NASCER é com SC. e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO).usada diante da vogal I e E. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras. X. 2. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. pode ajudar a . "pa-çu" PASSO ou PAÇO. mas que tem ortografias diferentes para cada significado.

Aqui também. ou seja. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q. "çekuéla" SEQÜELA. Exemplos: "kãma" CAMA. em final de palavra. O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. Essa letra U não é pronunciada. "rrapaiç" RAPAZ. "kê" e "ké". como não se pode usar a letra C. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. "atraiç" ATRÁS. quando vem antes de A. podendo ocorrer também em final de palavras. como nas palavras: "kuidado" CUIDADO. Nesses exemplos. "kê" QUE e "kéru" QUERO. "biç-pu" BISPO. para escrever os sons de "ki". como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. etc. Como a letra C também pode ter o som de "kê". só o conhecimento da ortografia pode dizer se .encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. "kuéka" CUECA. a única saída é o Q. diante de vogais que não sejam 1 nem E. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). Porém. "tauveiç" TALVEZ. 3. quando se pronuncia o U. Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. O ou U. Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. Como vimos antes. vamos estudar esse caso agora. "fiç" FIZ. A letra Q tem o som de "kê" sempre. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. "koiza" COISA. em qualquer caso. 4. "kuçtumi" COSTUME. como nos exemplos: "kis" QUIS.

caso em que pode haver uma variação. <366> . dependendo do artista. há uma vogal em seguida. Nas formas QUE e QUI. completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). nunca a letra Q. "krônika" CRÔNICA. Nas histórias em quadrinhos. 1993ª. ela é escrita com trema (Ü). algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial. É o caso de tic-tac e tique-taque. como em: "tik-tak" ou "tiki-taki". Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. quando a letra U deve ser pronunciada. Nesses exemplos. Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. como em: "akni" ou "akini" ACNE. O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i". Nesse caso. 6.ocorre uma letra ou outra. "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. Ver CAGLIARI. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). etc. só se pode escre ver a letra C. 5. Exemplos: "klareza" CLAREZA. etc. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita.

quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê". em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO). 8. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. 9. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C. Porém. sobretudo se não for nome próprio. esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. como à letra X. aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. Essa letra não tem outro som a não ser esse. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10. junto com outra palavra que começa com o som de vogal. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. diante de pausa ou silêncio. servindo apenas para os nomes próprios. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. ficando com o valor fonético de "zê".7. Como vimos no estudo da letra A. De modo geral.

etc. então. estas grafias: ACELI (AQUELE). CI (QUE). como. Como esta última é mais comum na fala. para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". e a outra é mais própria da leitura. CERIDO (QUERIDO). como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka"). observando a própria fala. vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta. por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. Aparecem. sendo seguido de "i". COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). Mas não há apenas problemas de concordância. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. a letra C não tem o som de "kê". mas podem formar uma sílaba própria. que serão indicados por S na escrita. . QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. quando se parte da observa ç cia fala.enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. do que quem fala "kualidadji" 11. Outra dificuldade é a troca de QU por C. Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba. Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia.

Nesses casos. TORAX. COLOCA. embora pouco usuais. mas COLOQUEMOS. "fi-. TAQUE-SE. etc. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê". em palavras derivadas. FICAR. mas um pouco diferente. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". etc. se a escrita mantivesse a letra C. TOCO. FIXE. Uma questão relacionada com os últimos exemplos.kçi" ou "fi-ki-çi". isso é para quem já tem muita fluência na escrita. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê". em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. o que não é o caso na alfabetização.como QUATORZE e CATORZE. 13. Nesses casos. é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita. a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. 12. o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra. QUOTA e COTA. Por isso. Mas. no caso da segunda palavra. Para manter o som de "kê". no caso da primeira. Todavia. Veja os seguintes exemplos: VACA. "çin-ta-kçi" . mas TOQUINHO. quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. VAQUEIRO. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO). COLOQUEM. FIQUEÇO em vez de FIXO. COLOCO.ki-çi". mas FIQUEM. escreve-se com X: TAXI. A partir da observação da fala. etc. Nesses dois exemplos.

quando se trata de passar da fala para a escrita. etc. No meio de palavra. nesses casos.(SINTAXE). Mas. é a ortografia. em vez de outras alternativas. quando a palavra não for oxítona. RAPAZ.. então. Portanto. Não adianta ficar observando a fala.. não poderá ocorrer a escrita da letra Z. O som de "çê". EXTRA. basta ver que vogal vem depois. a escrita será com 5 e não Z. com a letra S (seguida de qualquer vogal). como atestam os seguintes exemplos: CASAS. com S. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A. Além disso. com Ç. como em BASTA. Sempre que o som representar o plural de uma palavra. revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. a questão é bem complicada. MÊS. em início de palavras. Em final de palavras. com X. O e U. "çin-ta-çi". Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. Quem decide se vai ser C ou 5. <367> Resumindo os principais pontos. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. como em PASSO. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante. etc. em vez de "pró-çi mu". pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. como em PRÓXIMO. o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z. a dificuldade real fica . como em MOÇA. FEZ.

"ô". Alguns alunos. escrevem CE em vez de QUE. Quando aparecer. É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. a letra U se pronuncia (nesses casos. Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. E vice-versa. qui). na escrita. Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". co. a escrita será sempre com S. em meio de palavras. A confusão é esperada e. QU seguido de A ou O.restrita às palavras oxítonas e singulares. a escrita quase sempre será feita com QU. cu). A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. quando na fala ocorrer o som de "kê". o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka". a criança vai assimilando a ortografia. LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. não tem trema). como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). "ko" e "ku". a escrita usará as letras QU (que. Com relação ao som de "kê" da letra C. no início. temse na escrita a letra C (ca. É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. "ó". e ocorre diante do grupo . com o tempo. Nos demais casos. seguido do som "u" e depois o som "a".

etc. Portanto. FAÇO. sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). MOÇO. song. "lãn" (LÃ). o seguinte exemplo: FAZER. Nesse caso. nunca no início ou no fim.das vogais A. FAÇA. Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. POÇO. FAÇO. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. Observe. O ou U. CALÇADA. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. NASCIMENTO e NASÇO. <368> ESTUDO DA LETRA D . "õ" e 'à". são escritas com essa letra. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. ACONTE CE e ACONTEÇA. AÇO. MAÇÃ. AÇUDE. ou em final de sílabas. ONÇA. etc. a ortografia recorreu à letra Ç. Poucas palavras. Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. CAÇA. king. AÇUCAR. ainda. PEÇO. A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê". etc. FAZEMOS. as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. mas algumas delas têm uso muito freqüente. na língua portuguesa. Por exemplo. O e U e nunca diante de E e I. "oünça" (ONÇA). depois das vogais "u".

que. . etc. PATO ("patu") POÇO ("pôçu"). POÇO ("pôçu"). Fato semelhante ocorre com a letra T. Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). Em outros dialetos. etc. DIJVIDA ("dúvida"). há uma regrinha que diz que diante do som de "i". DEDO ( "dêdu"). DOCE ( "dôci") e assim por diante. PODE ("pódji"). mas PATO ("patu"). DOCE ("dôçi"). etc. e não causa problemas aos alunos. POTE ("pótchi"). Exemplos: DATA. Portanto. continuando com o som de "tê". — e. DÚZIA. POTE ("pótchi"). PODE ( "pódi"). em outro tipo. a letra D passa a ter o som de "dj". Apesar da aparência complicada. num tipo de dialeto. Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji".A letra D tem o nome de dê. o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). DIZER. etc. RITMO ("ritchimu"). sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). DEDO. e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. Confira os exemplos: DIA ("djia"). esse caso na verdade é muito simples. mas DEDO ("dêdu"). DOCE. a letra D permanece com o som de "dê". POTE ("póti"). Diante de outras vogais. representa o som de "tchi". em alguns dialetos. nos demais casos — TIA ("tchia"). sempre que se encontrar a letra D. Para ler o D. quando ocorre antes da vogal "i".

mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. Quando se decifra uma palavra. e não achava. porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. descobre-se aos poucos sua pronúncia. . Como falante nativo. Exemplos: DELE ("dêli"). tem o nome de é. uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. que pronunciava "idjo". E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio". Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem. como falante nativo. "ê" e "é". no alfabeto. Assim. quando se dizem os nomes das vogais. a letra "djê". se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". tem o nome de ê e. ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. é preciso conhecer a palavra. e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua. MESA ("mesa").tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj". PERTO ("pértu"). DELA ("dela"). Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra.

INTRÉPIDO ("ê"). ACADÊMICO ("ê"). não se sabe se é "êrru" ou "érru". O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. Por exemplo. porém. Na verdade. Às vezes. Por exemplo: VÊ. ATÉ. dentro de uma frase. quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa. EU ERRO NOS ACENTOS ("érru"). é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). Quando se escreve. Explicará o que for necessário. ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. Mas. Ao escrever. No primeiro semestre. se algum aluno perguntar. o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. o professor pode ignorar o assunto. Nesses casos. a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra. para facilitar a leitura. a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . Às vezes. etc.portanto. o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. precisará saber quando colocar os acentos.

"méninu" (MENINO). também em sílabas átonas. por exemplo. Todavia. Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é". em geral. aparecem as vogais orais "i". a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. ao passo que. exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". em alguns dialetos (por exemplo. ENFEITE ("ifeiti"). Em posição pré-tônica. em outros dialetos. "a". Em sílabas átonas. "u" e "a".se "êrói" e não "irói" para HERÓI. Nas sílabas átonas. Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). a pronúncia é "mêninu". encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). em posição pós-tônica. Porém. Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua. "ó"). "ê". na fala. A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. encontram-se apenas as vogais orais "i". no baiano). é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". "u"). que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. "ô") ou reduzida ("i".marca de acento na escrita. Eles dizem. as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura. há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. De modo geral. fechada ("ê". Para a . Hoje. diz. "ô" e "u". etc.

escreve MÉDECO em vez de MÉDICO.leitura. Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). essa questão traz pouca dificuldade. que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. ENTRA. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. TEM. que aprendeu a lição (até aí). etc. O aluno não está aprendendo errado. TENHO. Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos. Por exemplo. o problema é sério. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. mas. por exemplo. ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante. O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. E isso ele fez muito bem. Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. HÍFEN. para a escrita. o aluno. mas deve escrever E: DISSE. Em seguida. Conforme as . ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis"). às vezes. ela adquire um som nasalizado. ENTRADA. Nesses casos. um aluno escreve DICI e o professor explica que. a gente fala "i". EMBORA. ENCONTRO. etc. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM.

ou mesmo em distingui-lo do "vê". EMBORA ("êimbóra"). às . FIQUE. FOCA. Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra"). Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). seguida de I. Exemplos: FACA. o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes.regras vistas anteriormente. FEITO. PEIXE ("peichi" ou "pêchi"). A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). como em ITEM ("itêi"). PENTE ("pêinti"). Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". pode ser pronunciada sem o I.). Encontrando-se esse som na fala. DESDÉM ("dezdêi"). mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e. Tal qual a letra A. CONFIAR. FUMAÇA. nê. 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome. mesmo nasalizada. Em certos dialetos. quando seguida de I. etc. a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). também a letra E. usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê. etc.

O e U. Quando sussurram. (FACA = VACA. que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. A questão não é fonética. em vez de falar em voz alta.quando diante do grupo de vogais A. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa. MARIA COMPROU UMA VIFELA. mas dialetal e ortográfica. VIFELA = FIVELA.no latim). ANDRE MORA NA FAFELA. Essas confusões se corrigem com a prática. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta. ELE FEIO AQUI. FEIO = VEIO. tem também outro som muito comum.tem o som de "jê" e.zes. A letra G. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. FAFELA = FAVELA). contudo. A letra G. tem o som de "guê". quando diante do grupo de vogais E e I. "vê". como se constata nos seguintes exemplos: .

etc. GIRASSOL ("jiraçóu"). FOGUEIRA. Quando se pronuncia o "i". AGÜENTAR ("aguéntar"). AGUA. Quando não se pronuncia o "i". Para escrever o som de "guê". GATO. Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. Z. como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. seguido de E ou de I. GULA (com som de "guê"). tem-se uma sílaba a mais na palavra. Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver. ou no final de palavra (exceto com S. como em SAGÜI ("sagui"). não é pronunciada. Note que há casos em que ocorre G + U. nesses casos. Porém. GUIAR. pronuncia-se também oU. ÁGUIA. se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. M e X em alguns casos em meio de palavra). (todos com som de "guê" ou de "gui"). visto no estudo da letra C. o . Ela simplesmente modifica o valor da letra G. mas. No caso da letra G. o caso acima é semelhante ao da letra Q. e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). GOTA. a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". basta acrescentar um U entre o G e a vogal. R. Exemplos: GUERRA. EXÍGUO. A letra U. CONTIGUO. que. quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. seguidos das vogais E ou I. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar").GENTE ('jênti").

JOVEM. QUI). mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. cometem esses enganos . AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. Se não aparecer trema nas escritas GUE. 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita.som "g" fica no final da sílaba que o precede. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita. ora se tem G. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. JILÓ. "Como é que se escreve tal palavra. JANELA. HOJE. GUI (ou QUE. FOGO/FOGUEIRA. mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA. Mais raramente. descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). ora GU. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. não por dificuldades auditivas. o U não será pronunciado. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem. para manter o valor fonético original da palavra ("guê"). GIRAR. 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). JUIZ. como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO.

Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. Na língua portuguesa. há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. e acabam escrevendo. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. UNHA. Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. HERA. servindo para modificar o valor fonético da . Por exemplo. HORA No entanto. funciona como uma espécie de curinga. a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. ILHA. como em AMICO em vez de AMIGO. no nosso sistema de escrita. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. como também o que não se pode fazer. A letra H. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. Quase sempre.por dificuldades de reconhecimento fonético. essa letra serve para formar dígrafos. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. Exemplos: HOMEM. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá. MANGA e MANGUEIRA. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. Nesses casos. CHAVE.

Em conseqüência. sem alterar o alfabeto. etc. são usadas para modificar o valor do som anterior. som algum. etc. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. comparando-os com os das letras simples. A letra H. pois. Na escrita da língua portuguesa. HINO. como CH. e mais raramente a letra X. como se vê em: HABITAÇÃO. HUMILDE. formando dígrafos. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. 372 Em palavras de origem estrangeira. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. Quando a letra H vem no início de palavras. através de pares mínimos: MALA/MALHA. NH e LH. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). SONO/SONHO.letra que a precede. como uma estratégia para não inventar letras novas. a letra H pode vir precedida por C. HELENA. a leitura começará na letra imediatamente seguinte. sobretudo em nomes . FICA/FICHA. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. não forma dígrafos e não apresenta. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. Esse emprego do curinga H. a solução encontrada foi criar dígrafos. Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal. N e L. HORA.

dá até para saber se haverá H ou não. Em alguns poucos casos. HAJA e AJA. dependendo do significado da palavra. Alguns alunos. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda"). como ocorre em HORA e ORA. mas deve explicá-las aos alunos.próprios. quando vão escrever (e mais raramente ler). etc. Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. etc. Com o tempo. irão fixando a grafia das palavras mais comuns. Note. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. Para ilustrar esse fato. ou. que escrevemos ESPANHA. escrevemos ERVA e HERBICIDA. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. etc. Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). HLÏA (GALINHA). fazem coisas como: HRA (AGORA). YAMAHA ("iamarra"). ainda. por exemplo. pensam que a letra H funciona como as demais e. mas temos de escrever HISPÂNICO. encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia . Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer.

partindo da fala. FAMÍLIA ("família" ou "familha"). Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos. na qual a ortografia se baseia. e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). Há. Portanto. ainda. Nesses casos. Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. pois. o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal. existe uma dificuldade extra na escrita. criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos. O professor deverá. mas controlada pela ortografia. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. Com relação ao CH.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. etc. Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. ter paciência com os erros dos alunos. . e pedir a eles que corrijam o material que escreverem.

A letra I não apresenta dificuldades para leitura. às vezes. CINEMA. escrevendo T e não TX ou TCH. "ifiar" ENFIAR. mas o mesmo não acontece com a escrita. VIM. por exemplo. na verdade.Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. podendo. da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". CINTO. CIDADE. quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. Esse problema. o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA). atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura. Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i". "rrapaich" (RAPAZ). por causa do medo de errar. Não há como . VINHO. fica difícil saber a ortografia. ser escrito com a letra E. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. Veja os exemplos: VI. representa pouco para os alunos. ora com I. Eles o resolvem facilmente. que ora se escrevem com E. etc. ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. "pichta" (PISTA). Como acontece com as demais vogais. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. Essa variação pode.

"bãinha" BANHA. porém não na escrita. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção. em palavras como "opitei" OPTEI. O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. uma com um ditongo (M. • El) e outra sem o ditongo (A. etc. E). nenhum problema. em vez de escrever PÊRA. COISA e COUSA. como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). portanto. etc. "obijétu" OBJETO. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. DOURADO e DOIRADO. como LOIRO e LOURO. Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. o aluno escreve PEIRA. quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). Como já foi visto. Além da dificuldade específica dessas palavras.. .ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las. Por exemplo. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). etc. Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU. pode existir uma vogal "i" na fala.

mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. para escrever o som de "jê" seguido de "a". BODE ("bódji"). JEITO. deve rá ser escrito com a letra D apenas. "ô" e "u". palavras de origem estrangeira. Esse fato. aparentemente simples. Como algumas línguas usam essa letra. ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê". "ó". JUVENTUDE. A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal. Portanto. Essa letra caiu em desuso já no latim. na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais. etc. ajuda muito o aluno na hora de escrever. sobretudo nomes próprios. Sempre que a letra J aparecei. como em DIA ("djia"). podem ser escritas com . o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS. pode-se ter a letra J ou G.ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. "é" e "i". dependendo da ortografia. JOGADOR. etc. Diante dos sons de "ê". O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê". JIBÓIA. Saber isso. formando o "djê".

A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. tem também o som de "u' Exemplos: LATA. do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios. ATLÂNTICO. sempre antes de vogal. 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas.Nesses casos. C (com o som de "kê").ela. FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). km. Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. Veja os exemplos: PLANTA. PIANO ("plãnu"). O ensino.F e V . D. CLARO. PROBLEMA. GLORIA. G (com o som de "guê"). LIVRO. sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra. LETRA ("letra"). T. Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. . como. LIGA ("liga"). kg. No segundo caso. a letra L tem o som básico de "lê». CLASSE ("klaçi"). por exemplo: LATA ("lata"). CLARO. MAL. B. No primeiro caso. tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza"). Alguns exemplos: Kwait. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba. SOL. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal. seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. LOGO ("lógu"). e c) em final de sílaba.

e como. Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente. Nesses dialetos. SUL ("çuu"). Partindo da fala para a escrita. tem o som de "u". VLADIMIR e pouquíssimas outras). SAL. MEL ("méu"). SAUDADE. PAPEL. a não ser DLIN-DLON. Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. CAUSA. e assim o aluno consegue dizer o que está escrito. pode ocorrer a letra U. pois. FUNIL ("funiu"). o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. CHAPÉU. é fácil ler. a formação de ditongo. as palavras emergem automaticamente. CÉU. "çal" (SAL ). mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra. como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). também com o som de "u". Compare as seguintes palavras: CALDA. POUPA.porém. usando L ou U São palavras homófonas. encontramos um problema sério para os alunos."funil" (FUNIL) "mél" (MEL). no mesmo contexto do L. TERRÍVEL. SAL ("çau"). VÉU. como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). não existem palavras com essas ocorrências. POLPA. A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. No terceiro caso. Em alguns dialetos do Sul do Brasil. não ocorrendo. MEL.

"barcu" (BARCO). "pobrema" (PROBLEMA). fazendo. o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. podem ir escrevendo do mesmo modo. estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. uma formada por ALTO e outra. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. Por exemplo. aliás. O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala.próprio'). O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever. como em outros casos. Os alunos. Ao escrever. ao lado de palavras como "prato" (PRATO). sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L. É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras.. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA). na alfabetização. "bardji" (BALDE). "pobri" (POBRE) e assim por diante. etc. Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema.

em: MAR. Veja os exemplos. ALGUM ("augú" ou "augürJ"). por exemplo. CAMELO. uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). como. ou um som consonantal velar ("13 »)8. e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). etc. entre "e" e "i". depois da vogal nasalizada "i". representa o som básico da letra. 1 A letra M tem duas funções distintas. a letra M representa a nasalização da vogal precedente. a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh"). depois da vogal nasalizada "ii". como dizem alguns professo. Além disso. MORAR. uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. Nos dialetos em que o nome da letra é mê. como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . observe o fenômeno de juntura intervocabular. No segundo caso. MURO. a letra M tem o som básico de "mê". quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. O som que aparece no meio. o princípio acrofônico fica mais evidente. COMIDA. em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. BOM ("bõu" ou "bõuij").375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. res. No primeiro caso. EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra").

As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. Nesse caso. etc. ANÕES. CORAÇÕES. etc. etc. Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. além dos casos contemplados acima. . Raras palavras serão escritas com N em vez de M. a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A. como HÍFEN. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. PÓLEN. as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. a letra M pode ter o som de "mê". Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu"). ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). SÊMEN. haverá sempre a mudança de qualidade. Nos verbos.("véi-nha-qui"). TEMPO ("témpu" ou "têpu"). com ou sem a sobreposição da nasalização). Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. em fmal de sílaba. diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades. as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. ÓRFÃ. Às vezes. sem a ocorrência da con soante nasal M. CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. diante de consoante no início da sílaba seguinte. LIMPO ("limpu" ou "lipu"). quando ocorre o som do "mê".

o aluno a decidir sobre a escrita. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. ou seja. ver explicaçáo na página 368.Estudar a estrutura de contextos. BOMBA. em muitos casos. Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções. Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal. Quando aparecer o som de "mê". antes de consoante. é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. 8 o som Fiji. seguido ou não do S do plural. CANTO. Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. etc. ENVELOPE. e N diante das demais consoantes. Essa . a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". usase a letra M. toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). INFELIZ. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B. no meio de palavras. Exemplos: CAMPO. CONSUMIR.

O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). por exemplo. Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. IRMÃS. . "tãmbëinh" (TAMBÉM). Deve ficar claro para o aluno que. mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. etc. lembre que a palavra "muitu". entre o "é" e o "i". "sõurj" (SOM). no seu nome. N. porque assim foi fixada sua grafia. etc. as grafias de MÃE.. BALÃO. MÃE. PÕES. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. PÕE. que essa regra serve apenas para algumas palavras. ANÕES. sempre que houver uma vogal nasalizada. apesar da nasalização do ditongo "ui". deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. Nos dialetos em que o nome da letra é nê. A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. é escrita sem consoante nasal ou til. não para todas. BALÕES. CIDADÃO.pronúncia é muito evidente. Exem plos: IRMÃ. CIDADÃOS. MAES. que é o til. Por fim. Veja. PÕEM. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente. Note. porém. Seu som básico é o que está intercalado. NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização.

vale a regra segundo a qual. a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". como nos seguintes exemplos: CANTO. SINTO. NETO. MANGA ("mãrjga"). e depois de "ã". ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar"). pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". NADA. "õ" e "á ". no interior de palavra. etc. como F.Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. no interior de palavra. ONÇA ("õuça" ou "ourJça"). será usada a letra N. L. Diante de outras consoantes. NUCA. REDONDO. Quando se parte da fala para a escrita. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). no final de sílaba. na fala. por exemplo. R. como mostram os últimos exemplos. NOTA. uma consoante nasal velar (rj) como. ANDO. depois de "i" ou de "e" nasalizados. em final de sílaba. Diante das consoantes oclusivas velares. não tendo outro som. a letra N pode representar. JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). Em falas muito enfáticas. só ocorre a nasalização da vogal precedente. Z. em: BANCO ("bãrjku"). Lembre que. ENQUADRAR ("irjkuadrar"). sempre que for detectado o som de "nê". sem a presença da consoante nasal. etc. como em: NIVEL. V S. A letra N será raramente . Ç. G (com o som de "guê") ou QU.

exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). ENLAMEAR. TRANSPORTAR. em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. O. ENXADA. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). INDO. e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante). TRANÇA. para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. CINCO. o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. X. a decisão é fácil. Z. CONFIAR. FRANGO. ENVIAR. R.usada em final de palavra. L. F. Tal som não ocorre em início de palavra. ENZIMA. E. Exemplos: SANTO. ou seja. diante de T. D. No meio de palavra. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). G. a letra M só será escrita diante das letras P e B. C. Q. \' 5. CONQUISTA. HON RA. quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. I. U . Como já foi visto. Ç.

CÓLICA. PORCA ("pórka"). Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). mas PORCOS ("pórkuç). Por exemplo. SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . Exemplos: AVÔ. depois. Entretanto. Às vezes. a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular. pode-se saber um pouco mais. ANTÔNIO.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala. PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. BOLA ("bóla"). se for a sílaba tônica da palavra. Quando eles não estão marcados. como em: PORCO ("pôrku"). Veja ainda. nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos. etc. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". AVÓ. como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar'). para. Como se disse acima. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". Às vezes. trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. saber se se trata de um som ou de outro. Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. como exemplos. PORTO ("pôrtu"). e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. pode ocorrer o som "ó" ou "ô". pode mostrar a ele como se pronuncia. como falante nativo. Em alguns casos particulares. PORTA ("pórta").

Porém. TOU RO . Algumas vezes. COMBATE ("kõmbati"). por exemplo. a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. Quando se parte da observação da fala para a escrita. ou COLOCAR. Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. tende a ser pronunciada "u". a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. A letra O. Entretanto. é preciso conhecer a ortografia da palavra. ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). como em COMIDA ("kumida"). sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. em sílaba átona. que praticamente é homófono de CUMPRIDO. Exemplos: TODO ("todu"). o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U. como COMPRIDO. CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). MUNDO ("múndu").("kõfôrtu" e "kõfórtu"). se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba).

pode ter o som de "pi". OPÇÃO ("opição"). ou apenas de "p". é impossível saber quando escrever P com ou sem 1. diante de outra consoante que não seja R nem L. revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons. Somente observando a fala. ou seja. ADAP TAR ("adapitar"). Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso. Exemplos: APTO ("ápitu"). No segundo caso. etc. de 'poupar').("tôru" ou "tôuru"). RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO). por exemplo. POUCO ("pôku" ou "pôuku"). A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. . Confira. ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. Ocaso não é tão simples.

A ortografia tem vários modos de escrever. PISI. Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. QUINTAL ("kintau"). TOCARJTOQUE. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender. como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade. Em palavras derivadas. como em: QUERIDA ("kerida"). ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita. QUERO ("kéru"). Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5. "piçina" ou "pçina" PISCINA. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê". porque eles se resolvem com o tempo. . porém o Unem sempre é pronunciado. Como foi dito nos comentários à letra C. para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. FICO/FIQUEI. pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba. "é" ou "i".

TAQUARA ("takuara"). RECUE. AQUARELA ("akuaréla"). basta o aluno identificar QU com o som de "kê". FREQÜENTE ("frekuénti"). Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). CUIDAR.BARCO/BARQUINHO. QUE ou CUI. Quando não é pronunciada. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. CUECA. "kuê". têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. CUE. porém. Quando a letra A vem depois das letras QU. "kué". Essa dificuldade atrapalha a escrita. para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo. sem insistir muito. é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. Quanto à leitura. o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos. etc. etc. A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não. todavia. Observe. Esse tipo de problema. não acontece com os exemplos anteriores. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". porém. SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). O mesmo. e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI. a .

em princípio. KASA. mas nem por isso estranhas. Por exemplo. Quando os alunos cometem esses erros. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia.). revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. QUAXA. CASA. uma palavra como "casa".ortografia admite a forma com a letra C. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. QUASA. embora descartadas pela ortografia atual. QUIDADO (cuidado). Entretanto. Um bom exercício para o professor fazer no início. ESTUDO DA LETRA R . Pelo contrário. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. a for ma ortográfica atual é apenas CASA. Dadas as dificuldades de escrita. QUAXA (casa). etc. QUOTISTA/COTISTA. CINCO escrito CINQUO. como VACA escrito VAQUA. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA. QUOTIDIANO/COTIDIANO. em vez do dígrafo QU. mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras. quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. KAZA. QUAZA. CAXA. etc.

SERA. Portanto. . a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR.). Dessa maneira. MURO/MURRO. dependendo do dialeto. como ocorre tipicamente em CARRO. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste. etc. pode representar vários valores fonéticos. O sistema de escrita. como em CARRO. ROUPA. CERTO. TIRO. Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. representando dois sons diferentes. mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons. MAR. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA. Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. CERTO (no dialeto carioca). basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO. a vibrante simples representa um tepe'. entre duas vogais. em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes. FERA/FERRA.A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. distingue o uso de um R do uso de dois RR. A vibrante múltipla "rr". a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). uma "aspiração"). formando um dígrafo. pode ocorrer apenas um R ou dois RR. FURO. porém. Em alguns dialetos do Sul do país. por sua vez.

às vezes. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. outras vezes usa a vibrante sonora.como em CARRO. MURO. o falante usa a vibrante surda. ERRO. . TIRO. ARARA. os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas. produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira. com uma vibrante surda. PORTEIRA. MAR. TERRA. dentro de sílabas. CERTO. Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. FERA. Exemplos: ROÇA. RODA. MURRO. BR. VIR. ora sonoras. BRASIL. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. TORRADA. que aparece em CARO. 380 Por exemplo. Dependendo da palavra. TR. como em RITA. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. Em alguns casos. RETA. ROUPA. O mesmo som "r" (vibrante simples). MAR. quer a vibrante simples. etc. Nos chamados dialetos "caipiras".

quando na fala corrente. BRASIL. CARPA ("karpa" ou "karrpa"). como em RATO. como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). FR. forma o início da sílaba da palavra seguinte. PADRE. FRACO. a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO. a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". Se. a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". FINGIR ("fijir" ou "fijirr"). que começa por vogal. uma palavra terminada por R junta-se a outra. GRATIDÃO. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. ROLO. ISRAEL ("izrraéu"). CRIANÇA. CR. LIVRO. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba. GR. houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N). por exemplo: PRATO. O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). RUA. TRABALHO. porém. ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla.DR. como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). CARRO). VR. VIR AQUI ("vi-ra-ki"). RODA. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). com a sílaba seguinte começando por consoante. É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . RITA. Além disso. Porém. Em início de palavra.

Essa dificuldade não é do falante. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . terá o som de uma vibrante múltipla. que se o R vier depois de uma consoante N ou S. Nos demais contextos. No contexto intervocálico. ajudam bastante. a escrita usa apenas um R e nunca dois. no meio de palavra. tem-se um som diferente. dependendo do dialeto. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. com segurança. Em final de sílaba. mas depende de como o professor irá tratar a questão. obviamente. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples. Como vimos. e o som será sempre de uma vibrante múltipla. Em início de palavras. dependendo do dialeto. Sabe-se. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto. conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras. porém. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. ainda. A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. mesmo quando não são muito elaboradas. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo. Algumas idéias.lembrando todas as regras associadas a essa letra. no meio de sílaba. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro.

um som único. igual à vogal precedente. vindos de diferentes dialetos. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. Por isso. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita. ou seja. É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: . são todos escritos com R ou RR. como ainda não chegaram a essa conclusão. a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. mas devem usar apenas a letra R. Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. No começo. isto é. como uma vogal "longa". 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos.muito as variações de pronúncia.

o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita.. Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". em que há mais de um som consonantal numa única sílaba. Nesse caso. ou ainda ATALAS (ATLAS). GR. Depois. Em outras palavras. AGARADECE (AGRADECE). etc. PR. PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante. Como em muitos outros casos. CADENO ("caderno"). já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. quando encontra grupos consonantais como BR. que o aluno . mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez. esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". POTA ("porta"). de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem. o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte. como ensinam os foneticistas. etc.MECADIO ("mercadinho").

NÓS ("nóich"). VASO. ou ainda os exemplos: USO. Do mesmo modo que as letras R e RR. OSSO.automaticamente aprende. etc. as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê". como em SACOLA. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. Nos demais dialetos. SINO. INGLESA/ESSA. ocorre o som de "çê". SUCO. Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. a letra 5. ROSA. dependendo do dialeto. ISSO. ATRÁS ("atraich"). NÓS ("nóis"). MESA. há uma letra 5 e um dígrafo SS. E também é verdade que não é porque não se explicou. ATRÁS ("atrais"). a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". o RR. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. SEMANA. nos demais casos. Exemplos: BASTA ("basta"). a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. Em final de sílaba. POSA/POSSA. SOCO. Em início de palavra. que o aluno não irá aprender. POSSÍVEL. Exemplos: BASTA ("bachta"). Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura . Assim como existe uma letra R e um dígrafo.

L. CASPA ("kaçpa"). DESLIGAR ("dizligar"). Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. como S e R. Então. no meio de palavra. D. há nesses casos uma concordância. Apesar disso. Algumas letras. DESGRAÇA ("dizgraça"). Quando a letra 5 vem depois de consoante. 382 No meio de palavra. Diante de consoante surda. tem o som de "zê". MESMO ("mezmu"). ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi").intervocabular. como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). tem o valor fonético de "çê". R). como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas"). ISRAEL ("izrraéu"). Isso vale para todos os dialetos. tem o som de "çê". etc. Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte. OS HOMENS ("u-zó-mêis"). Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. CASCO ("kaçku"). M. G. ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu"). quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B. Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. DESDE ("dezdi"). correspondem a muitos sons diferentes na fala. saber que há várias . com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade.

CH. DESDE ("dejdji"). SC. SC. o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever. CRESÇO. XC. parece fácil e simples. X. como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). como vimos. CHUVA ("chuva"). NASCER ("naiççêr"). J e G. TRAZ. HOJE ("ôji"). para confundir mais as coisas. X. Ç. como "zê" e "chê". etc. mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas. Para quem sabe como se grafa essas palavras. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. Somando esses dois tipos de informação. RAPAZ. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. Por outro lado. PROXIMO. ATRÁS. EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. temos: S. os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. XC. Z. SÇ. Confira os seguintes exemplos: SAPO. AÇO.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. SS. SÇ. RAPAZ ("rrapaich"). o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". ASSO. XÇ. XÇ. ou ainda em certos dialetos.

a . Na maioria das vezes. representa o valor fonético básico da letra. ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê. diante da vogal "i" (na fala). A letra T é semelhante à letra D. esses problemas se resolverão com relativa facilidade. e o som inicial de seu nome. ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. .só que uma é surda (1) e outra é sonora (D). Como dissemos. através da ortografia. nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. Então. Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma).para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). seguindo o princípio acrofôníco. Em muitos dialetos. mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato. o melhor conselho é mostrar que. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige. Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. as explicações impressionam os alunos. AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA).

Às vezes. XAROPE ("tcharópi"). POTE ("pótchi"). sobretudo do Sul do país. apesar das variações .letra T temo som de "tchê". mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. mas apenas "tê". como. em: CHUVA ("tchuva"). não antes de "i". LEITE ("leitchi"). Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê". FECHAR ("fetchar"). TERRÍVEL ("terríveu"). ocorre o som de "tchê". o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. RITMO ("rritchimu"). por exemplo. etc. Em alguns dialetos do Nordeste. permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. Como se disse em relação à letra D. como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). mas depois dessa vogal. ÓTIMO ("ótchimu"). JOVEM ("djóvêi"). nunca se fala "tchê". Por exemplo: TIA ("tchia"). Na grafia das palavras. porém: TIA ("tia POTE ("póti"). POTE ("póti"). Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). porém: TATU ("tatu"). FERIDO ("feridju"). TESTA ("téchta" ou "téçta"). o som "i" não aparece na escrita. mesmo diante de "i": TIA ("tia"). etc. Em alguns dialetos. Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). MITO ("mitchu").

Como acontece com todas as letras que representam vogais. preocupados com a ortografia. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. na escrita. Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. e em seu nome está o som básico que a letra representa. Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO). ocorre imediatamente antes de uma consoante. como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). a sonoridade do D perde-se. nem para decifração na leitura. CÉU ("çéu"). O. ELE POTEÍ (ELE PODE IR). e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. 1. U). a letra T também não causa grandes dificuldades. FUNÇÃO . Às vezes. Quando ocorre diante da letra M ou N que. Fazendo isso. CHUMBO ("chúbu"). nem para a escrita. Escrevem T em vez de D. SUJO ("çuju"). por sua vez. A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever.encontradas. a letra U representa uma vogal nasalizada "u". ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U. E. todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. UM ("iirj"). etc. alguns alunos fazem confusão entre o T e o D.

VOU ("vô"). o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever. Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. Entretanto. não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA. Porém.("f€íçãu"). a letra U pode ter um som nasalizado ou não. "flinha" ou "uinha"). como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). podendo ficar apenas com a grafia de O. há muita variação entre "ô" e "ou". BOUA. UNIDO ("tinidu" ou "unidu"). "unha". POUCO ("pouku" ou "pôku"). Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). etc. em um número muito grande de palavras. "püinhu" ou "puinhu"). PUNHO ("p "punhu". pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". quando se parte da fala. como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). nem todo som de "ô" será escrito com OU. como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa"). etc. etc. Na verdade.. PROFESSORA ("profeçôra"). pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". etc. na fala atual. se a letra U estiver diante de NH. Veja os . 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. como em: UNHA ("ünha". SOURO (SORO). Quando ocorre OU na escrita. CHOURO (CHORO).

com certeza mais do que parecia. etc. "çau" SAL. Aqui. QUILO ("kilu"). o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. No final do ano.casos: QUERO ("kéru"). É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO. "uutchimu" ULTIMO. Quando os processos . "çéu" CEU. O aluno precisa. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam. LIQUIDO ("likido"). "papéu" PAPEL. "chapéu" CHAPÉU. "méu" MEL. Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. Quando se escreve partindo da observação da fala. somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. EQÜINO ("ekuinu"). porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. há outra dificuldade grande. com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. e assim por diante. "autu" ALTO ou AUTO. "çaudadji" SAUDA DE. no começo.

Por exemplo. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. VIZINHO ("viztnhu"). porém. muitos erros desaparecem. o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível.de leitura e escrita se aceleram. dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. A letra V não apresenta dificuldades de decifração. Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . ou da vogal que ocorre depois do L ou do R. uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru". percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala. Alguns alunos. sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R. esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". Nesse momento. VELHO ("vélhu"). como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. AVULSO ("avuuçu"). pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka").

essa letra tem o nome de duplo vê. FERDE (VERDE). observando a própria fala. Esse é o valor da letra X em início de palavra. também tem o valor fonético de "chê". depois de N. ENXERGAR ("ichergar"). pode levá-los a trocar a escrita de V por F. A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. WC ('dabliu-çê'). como em: XAROPE ("charópi'). XUCRO ("chukru"). XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. etc. a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. WILMA ("viuma").anteriormente. como em ENXADA ("ichada"). etc. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade. Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). FELHO (VELHO). ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". dependendo da palavra em que ocorre. ENXAME ("ichãmi"). Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . Em Portugal. Mais uma vez. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. etc. Nesse caso. produzindo formas gráficas como FELA (VELA).

"kç" (ou "kiç". LIXO ("lichu"). etc.consoante no início da sílaba seguinte. maiS informal. Quando a letra X aparece no fmal de palavra. XS). é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). que ocorre nesse contexto. Em alguns dialetos (por exemplo. XÇ. Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). ficando apenas uma ocorrência do som "ç". Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). "chê". . dependendo de a consoante ser surda ou sonora. Em alguns diale tos. EXCELENTE ("eçelêfiti"). Na posição intervocálica. o carioca). EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). podendo ter os seguintes sons: "çê". Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). "zê". "kch" e "kich"). como no carioca. tem o som de "çê" ou "zê". ocorre uma assimilação. o som correspondente. AUXÍLIO ("auçíliu"). a não ser quando se tem o sufixo -EX. SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. tem o som de "ks" ou "kis". como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). XEROX ("cherókç" ou "cherókiç"). EXSURGIR ("eçurjir"). NASÇA ("naça").

quando o som de "zê" ocorre em início de palavra. ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. terá o som de "zê". etc. a escrita será com Z e não 5. SEXTA/CESTA.rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. EXIGIR ("izijir"). "néchta" NESTA. RIQUEZA. ZANGADO ("zãgadu"). EXAME ("izámi"). Note que há diferença entre . ZOMBARIA ("zõubaria?'). ZERO ("zéru"). Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. etc. É por isso que se escreve INFERNIZAR. TÁXI ("tákçi") e assim por diante. Quando se parte da fala para a escrita.BAIXO ("baichu"). O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ. ZUMBIDO ("zümbidu"). Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). ESTUDO DA LETRA Z H. FIXO ("fikçu"). só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). 386 Note que. palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA. BELEZA.

em início de palavra. MARQUÊS/MARQUESA. os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização.EZA. Regrinhas como essas. na fala contínua. tem o som de "çê" (ou "chê". como INGLES/INGLESA. RICO/RIQUEZA. INGLESA. os dialetos. XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. a dificuldade da . RAPAZ. EXAME. ASA. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). etc. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich"). etc. que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. Se a palavra que termina com a letra Z. mas receberam apenas um A do feminino. X di. e palavras que terminam com o som de "êza". EX. FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). FEZ ("feiç" ou "feich"). Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). ocor . como mostram os XC exemplos: BELEZA. ocorre o fenômeno da juntura intervocabular. AZAR. conforme o dialeto). FREGUÊS/FREGUESA. caso de BELO/BELEZA.StCO o sufixo .letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". Isso acontece em todos itexto. Porém. mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra..Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. vier antes de outra que 1I começa com vogal. Veja.

uirtes portanto. WILMA. . As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. orren Lórakç" is diale Jdch"). YARA. e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). ainda no meio de palavra. KARINA. ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. etc. etc.onsta rerá somente a letra Z. WC. em siglas. YAMAHA. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras. elas aparecem em alguns casos. abreviaturas. Além disso. km. porém. AS LETRAS K. embora tenham um uso muito reduzido. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba. a não ser quando . como já se disse acima. Senao WILSON. kg. VISGO ("vizgu"). o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. DESDE ("dezdi"). Elas estão nos dicionários e. Como. em nomes pró. kHz. também fazem parte do nosso alfabeto. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. só ocorre r) etc.EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. YVONE.

CARMEM. VICTOR. MANUEL. Fora disso. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento. TERESA. Por exemplo. Por exemplo. abat-jour ficou ABAJUR. NErFO. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. VÍTOR. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum. o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . ainda. Assim. ficando portanto: LUIS. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos. HOBBY. assim como club ficou CLUBE. mas pode rá escrever.escrita. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos.usados como um apelativo comum. THEREZA. em outros casos. 387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. conforme consta do cartório. DORACI. bém o som de RR em nomes como HONDA. DORACY. etc. JOAQUIM. KARMEN. surgindo novas relações entre letras e sons. Veja. New York ficou NOVA IORQUE. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI). JOACHIN. MANOEL. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ. NETO. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. YAMAHA. a letra H passou a ter tam bidu").

Por exemplo.pronúncia italiana "pítça". 13 ed. embora. O conjunto de letras TCH forma um trígrafo. S. surgem palavras com sons em certos contextos em que normalmente não ocorrem. Methodofacillimo para aprender a ler perfeitamente em pouco tempo com mais allivio dos mestres. e mais estranho ainda atribuir esse som ao dígrafo ZZ. 5. acompanhando o nome de um país que se escreve REPÚBLICA TCHECA. em que aparece a seqüência de V + L. BARBOSA. seja estranho o som "tçê". como LHAMA e NHOQUE (que alguns escrevem INHOQUE ou ENHOQUE). Ou tro exemplo desse fenômeno pode ser visto no nome VLADIMIR. e menos en fado dos dlscipulos: descoberto pela experiencia. Outras vezes. Lisboa: na nova impressão da Viúva Neves & Filhos. A. que aparecem em palavras de origem estrangeira. e reflexão de alguns annos de ensino.. que é possível no sistema da língua portuguesa. mas não tinha nenhum exemplo. . J. Grammaticaphilosophica da linguaportugueza. 1817. Outra palavra italiana de uso muito co mum foi aportuguesada: TCHAU (do italiano ciao). 388 BIBUOGRAFIA Referências A. em português.J. em início de palavra não ocorrem os sons "lhê" e "nhê" (exceto na palavra LHE e na forma abreviada de senhor: NHÔ).

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. • & MASSINI-CAGLIARI.). São Paulo: Casa do Psicólogo. Campinas: Mercado de Letras. História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar. 3 cd. rev. Roxane (Org. Gladis. ano VI. n. 1998. 1997c. 31. p23. Continuando o debate sobre construtivismo.à psicologia escolar. p. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 . Jornal da Alfabetizadora. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1.193-224.. Iii: ROJO. 1994. atual. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo.

O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3. Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5. Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .

Conhecer o alfabeto 121 4. Conhecer as letras 121 5.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer a ortografia 123 8. Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11. Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de . Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer os nomes das letras 125 10. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2.

Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1. Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Nem tudo o que se escreve são letras 128 16. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 . Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. Reconhecer uma palavra 128 15. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Explicar o que é uma letra 135 3.escrita) 126 12.

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 .

o professor. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. interpretação semântica da palavra 258 . o aluno e a escola 248 O certo.O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10. As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método.

a forma gráfica das letras 272 5. escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. quantas letras formam uma palavra? 261 5.2. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7. identificação de palavras 261 6. explicitação da decifração na leitura 267 10. segmentação 274 7. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . letras em vez de rabiscos 272 4. escrita espelhada 273 6. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. adivinhando palavras na leitura 260 4. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. assinatura e escrita 271 3. velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1. cachorro começa com FU 262 8.

troca de letras 277 14. escrevendo foneticamente 277 13.398 10. formas morfológicas diferentes 276 11. erros não corrigidos 280 20. caligrafia 285 . uso de pronomes 282 3. surdas ou sonoras? 278 16. frases soltas — coerência 284 6. variação lingüística 282 2. sintaxe 283 4. repetição 283 5. sinais de pontuação 281 23. um pouco por vez 279 17. coesão 285 7. só o esforço não adianta <399> 19. letras maiúsculas 281 22. medo de escrever 281 21. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. hipercorreção 278 15. mistura de informações 280 18. resultados pela metade 276 12.

Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .11.

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O. Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 . princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13.

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

Estudo da letra Z 386 As letras K. W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .

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