ALFABETIZANDO SEM O BÁ-BÉ-BI-BÓ-BU

SUMÁRIO Prefácio 4 Introdução 8

1. História da alfabetização 11 2. O ensino e a aprendizagem: os dois métodos.. 35 3. Avaliação, promoção, planejamento 61 4. O método das cartilhas 79 5. Panorama do processo de alfabetização 103 6. A decifração da escrita 119 7. Procedimentos para o estudo das letras 133 8. Sugestões de atividades na alfabetização 163 9. A produção de textos espontâneos 197 10. As hipóteses por trás dos erros 241 11. Ditado e cópia 287 12. Leitura e interpretação de texto 311 13. Ortografia da língua portuguesa 341

Apêndice — A categorização gráfica das letras 359 Bibliografia 389 Índice de tópicos por capítulo 397

PREFÁCIO Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é, sem dúvida, um livro pioneiro. O próprio título já evidencia o seu pioneirismo: uma nova proposta de metodologia da alfabetização, totalmente liberta do método silábico, cartilhesco ou não. Ao contrário do que se pode imaginar, não é apenas quando nos utilizamos da cartilha que o método silábico do bá-bé-bi-bóbu se encontra subjacente à prática de ensinar a ler e escrever. Como bem mostra o autor, mesmo em práticas consideradas inovadoras e bem distantes da cartilha, a única tábua de salvação, para muitos professores, é voltar ao antigo bê-a-bá. Outra grande inovação (diríamos até "evolução") trazida por este livro é colocar no centro da discussão da aquisição da leitura e da escrita a noção de ortografia, ausente de qualquer outra abordagem do assunto já conhecida. Não nos referimos à ortografia apenas como uma meta a ser atingida no final do processo, mas como a noção fundamental que sustenta o nosso sistema de escrita. O autor nos mostra que, ao contrário do que comumente se pensa, nosso sistema de escrita não é apenas alfabético (o que o tornaria uma mera transcrição fonética), mas ortográfico (servindo a ortografia, entre outras coisas, para anular a variação lingüística no nível da palavra). Assim, a partir de considerações a respeito da própria natureza do nosso sistema de escrita, e de como isto interfere no processo de

alfabetização, vemos como a ortografia deve ser considerada desde o início do processo e não como objetivo final — como o fazem tanto os métodos tradicionais baseados no bábé-bi-bó-bu, como também os ditos construtivistas, que dividem a aquisição da linguagem escrita em níveis (pré-silábico, silábico e alfabético), os quais não encontram correspondência exata em qualquer sistema de escrita conhecido, menos ainda em um sistema de escrita ortográfico como o nosso. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu é uma obra voltada para a formação do professor alfabetizador. Discute a teoria da aquisição da linguagem escrita e fornece subsídios ao professor que tiver coragem, vontade, ou simplesmente necessidade, imposta pelo seu cotidiano de alfabetizador, de mudar. É o resultado de quase vinte anos de dedicação do autor à causa da alfabetização e de seus mais de trinta anos como lingüista. ~, <4> Representa, pois, a visão de um lingüista sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita e a sua contribuição, como professor, para a educação do país, de um modo mais geral. O autor afirma que um professor que tenha os conhecimentos apresentados neste livro consegue conduzir com calma e segurança o processo de alfabetização e tem chances de alfabetizar uma criança a partir dos cinco anos ou um adulto em dois ou três meses — o que significa uma enorme conquista,

dados os alarmantes níveis de analfabetismo no Brasil. Isso porque os conhecimentos apresentados independem do tempo histórico e do espaço geográfico, já que dizem respeito diretamente à natureza, função e usos da linguagem oral e escrita e não estão subordinados a métodos pedagógicos. As estratégias de ensino podem variar de professor para professor, mas o conhecimento da linguagem oral e escrita é uma aquisição da ciência e, desse modo, depende única e exclusivamente do progresso da ciência. E nesse sentido, a ciência Lingüística já tem um conjunto considerável de conhecimentos solidamente estabelecidos, dos quais uma parte é colocada aqui à disposição para uma aplicação à educação. Na sua carreira acadêmica, Luiz Carlos Cagliari tem trabalhado com três linhas de pesquisa: fonética e fonologia, sistemas de escrita e alfabetização. Nas três áreas, além de ter produzido muitas pesquisas, que resultaram em várias publicações, seu percurso como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp inclui cursos na graduação em Letras e Lingüística e na pós-graduação em Lingüística, além de comunicações em reuniões científicas importantes, dentro e fora do país. No entanto, este livro não pode ser considerado apenas o resultado de uma pesquisa desenvolvida do lado de dentro dos portões da universidade, desvinculada da realidade de sala de aula dos professores alfabetizadores do país. O contato e trabalho

conjunto do autor com os professores alfabetizadores vêm já de longa data. O ano de 1980 é uma data-chave para a compreensão do seu envolvimento com os estudos de alfabetização. Nessa ocasião, uma equipe da CENP o convidou para ministrar um curso de fonética acústica para professores alfabetizadores, uma vez que, segundo os especialistas, os erros de troca de letras cometidos pelos alunos eram devidos ao fato de os professores não conhecerem o assunto, não tendo, portanto condições de resolverem o problema quando ele se manifestava. ~, <5> Analisando a questão, ele concluiu que os problemas não se restringiam à fonética acústica, mas envolviam falhas sérias no processo de alfabetização, devido à falta de conhecimento lingüístico. Esse curso, realizado com a colaboração de uma de suas colegas de departamento na Unicamp, a Drª Maria Bernadete Abaurre, e do Dr. Márcio Silva, foi o início de um longo caminho de pesquisa e de cooperação com órgãos públicos, faculdades e, sobretudo, com professores alfabetizadores, que forneciam ao autor material produzido pelos alunos. Começou a organizar assim um enorme arquivo de produções infantis. No ano seguinte, a convite da equipe pedagógica da Secretaria de Educação de Alagoas, juntamente com Maria Bernadete, Luiz Carlos Cagliari ministrou um curso para

professores alfabetizadores. Na ocasião, foi possível pôr em prática as novas orientações propostas no curso da CENP, sobretudo, convencendo os professores a deixar seus alunos produzirem textos espontâneos. O que parecia a eles uma loucura logo se revelou uma grata surpresa. A evidência dos fatos mostrou a dimensão da capacidade dos alunos e que seus erros, mais do que "falhas", revelavam hipóteses que os levavam a fazer opções diante da escrita. No ano de 1983, destaca-se sua participação no I Seminário Multidisciplinar: Alfabetização, realizado na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Nessa ocasião, apresentou um trabalho intitulado A formação do professor alfabetizador, em que já aparece um esboço de suas principais idéias sobre o processo de alfabetizar. Neste mesmo ano, outra colega sua do departamento de Lingüística da Unicamp, a Drª Cláudia Lemos, organizou um encontro sobre Linguagem, Aprendizagem e Interação. Ela já conhecia o trabalho do autor na área de alfabetização e achava que correspondia em grande parte ao que faziam os construtivistas, sobretudo uma psicóloga que tinha encontrado na Europa, chamada Emília Ferreiro. Nesse encontro foram apresentadas as idéias do construtivismo, que, a partir daí, invadiram os programas de alfabetização. Para esse evento, o autor levou os textos espontâneos dos alfabetizandos de Alagoas

e de Campinas com os quais ele havia trabalhado, expondo-os em dois varais que acompanhavam toda a extensão do corredor do pavilhão dos professores. Todos ficaram impressionados, e os textos forneceram material para muita discussão.~, <6> Em 1984, o autor já, havia juntado grande quantidade de trabalhos sobre os mais variados tópicos da alfabetização relacionados com a fala, a escrita e a leitura. Esse material iria formar, mais tarde, o livro Alfabetização e lingüística, publicado pela Scipione em 1989. Um dos trabalhos que não entrou naquele livro foi o "Roteiro de sugestões para professores alfabetizadores", que serviu de embrião para esta obra que ora prefaciamos, cuja versão preliminar foi escrita nos dois primeiros meses de seu estágio de pós-doutoramento em Londres, em 1987, e depois foi intensamente discutida e levada à sala de aula por professores alfabetizadores de várias regiões do país. Já em 1985, Luiz Carlos Cagliari participou do Projeto Ipê, coordenado pela CENP Nessa ocasião, publicou o artigo "Caminhos e descaminhos da fala, da leitura e da escrita na escola", que teve enorme repercussão. Com o material desse artigo, foi feito o roteiro para um programa da TV Cultura relacionado com o Projeto Ipê. Paralelamente a isso, começaram a ser publicados no Brasil artigos de Emília Ferreiro e suas idéias

apareceram também no Projeto Ipê. A pesquisadora Telma Weisz, discípula de Ferreiro passou a liderar a divulgação do construtivismo no estado de São Paulo, com o apoio da CENP e, sobretudo depois, com a FDE. Nessa época, já era notória a discordância do autor (ver o artigo "O príncipe que queria ser sapo") e de outros lingüistas com relação às interpretações de Emília Ferreiro a respeito do processo de letramento. A opção pelo construtivismo e, de certo modo, sua imposição às atividades da rede pública deixaram em um plano secundário as críticas e outras formas de pensar e de fazer o processo de alfabetização. Apesar disso, Luiz Carlos Cagliari continuou pesquisando com empenho e profundamente, até a formação de um conjunto de idéias sólidas, bem fundamentadas, que explicam não só como alguém se alfabetiza, mas também como tirar alguém do "mau caminho" e fazer com que supere seus obstáculos e consiga se alfabetizar. São estas as idéias apresentadas no presente livro. Atualmente, seus olhos voltam-se para um novo horizonte: a alfabetização de adultos. Continua sua luta incansável contra o analfabetismo e por rumos melhores para a alfabetização dos que efetivamente conseguem chegar até a escola. Gladis Massini-Cagliari. ~, <7>

INTRODUÇÃO Em 1981, baseando-me na experiência de alfabetização de meu filho Daniel na Escócia (1976), disse para muitos professores (em cursos e palestras) que as crianças podiam escrever textos já no início da alfabetização, passando da capacidade de produzir textos orais para a representação escrita, mesmo sem saber bem a grafia das palavras. Fui então considerado um maluco, que nunca tinha alfabetizado alguém. Bastou a coragem de alguns professores, já no ano seguinte, para que todos descobrissem que isso era possível. Com o trabalho de colegas como Maria Bernadete Abaurre e João Wanderley Geraldi e com a divulgação das idéias de Emília Ferreiro, o que era medo de ensinar tornou-se procedimento comum com relação à produção de textos espontâneos na alfabetização e de livrinhos de classe em todas as séries iniciais. Neste livro, há um outro desafio: ensinar a ler a partir da reflexão sobre o processo de alfabetização, tornando conscientes para o professor e o aluno as regras de decifração da escrita. As crianças gostam de aprender coisas sérias, ensinadas com seriedade — e é isto o que mais falta hoje na escola. Esse desafio é fruto de extenso estudo sobre o processo de alfabetização, ponderando as implicações dos estudos da linguagem no modo como as crianças usam a fala, a escrita e a leitura. Além disso,

leva-se em consideração uma investigação profunda da história da escrita, da natureza e usos dos sistemas de escrita. Sem esse suporte lingüístico e esse conhecimento dos sistemas de escrita, grande parte da problemática do processo de letramento fica distorcida, não raramente levando os estudiosos por caminhos sem saída. A simples aplicação de um método ou de uma teoria conduz facilmente o processo pedagógico a reproduzir um modelo. Nesse contexto, os alunos precisam se virar com os recursos do modelo. E se não der certo, se o aluno, apesar das repetições a que é submetido, não conseguir se alfabetizar? Essa preocupação sempre foi a central de todos os meus estudos. A única saída para impasses como esse — e, por que não, para conduzir tranqüilamente um processo de letramento — é o conhecimento sofisticado e correto das questões lingüísticas relacionadas à alfabetização, bem como do funcionamento dos sistemas de escrita. Idéias simples, porém, fundamentais, como a variação lingüística e o fato de a ortografia ter modificado ~, <8> profundamente o sistema alfabético, quando ausentes ou mal interpretadas na escola, podem criar grandes embaraços para a aprendizagem do aluno e um quebra-cabeça extremamente complicado para a ação do professor. Tenho certeza (pois também já constatei na prática) de que os

professores irão descobrir nos procedimentos sugeridos neste livro uma forma nova e segura de alfabetizar. Não basta deixar de lado o livro das cartilhas; é preciso deixar de lado o método das cartilhas, o ensino centrado na noção de sílaba como unidade privilegiada da escrita e da leitura. Ensinar as crianças a tornar conscientes os procedimentos de decifração da escrita é uma estratégia que as agrada mais do que ficarem repetindo coisas aparentemente sem sentido, ou ser largadas à própria sorte, esperando que saiam de dentro de si os conhecimentos que a escola exige para ler e escrever. A proposta deste livro é ensinar de maneira clara e com precisão como se faz para aprender a ler e a escrever — o que corresponde exatamente às expectativas das crianças. O fato de ser este livro volumoso, abrangendo um assunto complicado, não deve ser motivo de receio para os professores, que sentirão seu trabalho facilitado e valorizado com a adoção de uma nova postura em sala de aula. As crianças vão se sentir valorizadas também em suas descobertas, ganhando maior segurança ao observarem seu próprio progresso. Para o professor, no começo, talvez esta apresentação do processo de alfabetização possa parecer muito técnica e fora da realidade pedagógica e psicológica das crianças. Lembro que o mesmo me diziam quando afirmava que as crianças eram capazes de produzir textos espontâneos, passando dos conhecimentos que

tinham da linguagem oral para a forma escrita. Hoje, todos concordam que produzir textos é algo que as crianças fazem com facilidade, criatividade e prazer. Com o tempo, mesmo problemas altamente complexos passam a ser vistos como desafios comuns quando se familiariza com eles e com as soluções necessárias. Um bom exemplo disso no mundo moderno é a maneira como as crianças lidam com os jogos de vídeo games. Depois de certa prática, aprendendo uma quantidade enorme de regras, jogam com facilidade, para espanto de quem não é capaz. Outro exemplo mais próximo de nosso assunto está no próprio fato de as pessoas que aprenderam a ler e a escrever (e isso se constata já nas primeiras séries) tiveram de passar por todas essas regras e por todos os ~, <9> conhecimentos "técnicos" que constituem o objetivo deste livro. Na verdade, não há outra saída. O que existe são os caminhos diferentes para se obter um resultado. Como costumo dizer, alguém pode ir de São Paulo ao Piauí andando a pé, a cavalo ou de avião. Há muitas escolhas, mas nem todas têm o mesmo valor. Para juntar conhecimentos teóricos com metodologias ou estratégias de ação, foi preciso me alongar no assunto, dado o volume de informação e a necessidade de clareza na exposição.

O livro está dividido em treze capítulos e um apêndice. Para auxiliar na pesquisa do professor que está em busca dos conhecimentos básicos há uma breve história da alfabetização, uma sucinta apresentação da história da ortografia da língua portuguesa e o apêndice, no qual as letras são estudadas individualmente, mostrando as facilidades e dificuldades de seu ensino e aprendizagem. O método das cartilhas mereceu um estudo à parte, para contrastar com o que se propõe: deixar de lado o bá-bé-bi-bó-bu e partir para um trabalho de pesquisa envolvendo professor e alunos. Algumas questões pedagógicas, como a avaliação, a promoção e o planejamento escolar, tiveram de ser abordadas em vista de suas conseqüências para a ação do professor e do aluno. O que se propõe é que a escola ensine os alunos a estudar, a trabalhar com os conhecimentos, e não com o objetivo menor de ganhar nota e passar de ano. A parte principal do livro concentra-se nos procedimentos para o estudo das letras, com sugestões de atividades e destaque especial para a produção de textos espontâneos. Os problemas que o aluno e o professor encontrarão são analisados e discutidos em detalhes, mostrando, por um lado, o que é preciso saber para decifrar a escrita e, conseqüentemente, ler e escrever, e, por outro, quais as hipóteses que os alunos apresentam quando erram e como não cair em impasses que impedem o progresso desses alunos. Outras atividades importantes foram também consideradas,

como o ditado, a cópia e a interpretação de textos. Este livro pretende ser uma contribuição a mais (há tantas coisas interessantes e importantes que têm sido apresentadas aos professores alfabetizadores nas duas últimas décadas...) para que se entenda melhor o processo de alfabetização. O objetivo não foi fazer um livro teórico nem um manual do professor, mas apresentar, discutir e sugerir idéias que o autor pesquisou, que foram amplamente discutidas com pesquisadores e, sobretudo, com professores alfabetizadores. ~, <10> Gladis Massini-Cagliari é professora assistente doutora de língua portuguesa do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp-Araraquara. É mestre e doutora em lingüística pelo Departamento de Lingüística da Unicamp e autora de trabalhos publicados na área de alfabetização, fonologia, lingüística histórica e lingüística textual. Interlocutora privilegiada do autor por ser sua mulher e tê-lo conhecido como professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, vem acompanhando seu percurso como lingüista e, a partir de 1991, passou a colaborar ativamente em seus trabalhos na área de alfabetização.

1 História da alfabetização

a escrita antiga passa a ser um sistema sem decifração. tão antiga quanto os sistemas de escrita. ficando por um longo tempo sem utilizar qualquer sistema. A alfabetização é. Os . por alguma razão estranha e desconhecida. e também com um pouco de sorte da parte dos decifradores dessas escritas abandonadas. as regras que envolvem tais sistemas voltam a ser conhecidas. Nesses casos. ou seja. Para que os sistemas de escrita continuem a ser usados.. quando Micenas foi destruída. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito entender como o sistema de escrita funciona e saber como usá-lo apropriadamente. Quando esse elo se rompe. permitindo assim que os textos antigos sejam lidos e que a escrita possa ser novamente utilizada. Isso aconteceu com os gregos e com os indianos. A escrita cretense minóica (Linear B) foi usada pela cultura grega micênica até 1250 a. deixaram de fazê-lo.Quem inventou a escrita inventou ao mesmo tempo as regras da alfabetização. é preciso ensinar às novas gerações como fazê-lo. pois. De certo modo.C. registram-se apenas dois casos de povos que empregavam um sistema de escrita e que. só com muito estudo. Na história da escrita. é a atividade escolar mais antiga da humanidade. por abandono ou porque é trocado por outro modelo.

Naquela região. Curiosamente. percebe-se que quem os inventou sempre teve a preocupação de fornecer a chave da decifração juntamente com o próprio sistema. 106-24. O primeiro . ~. pelo contrário. tiveram um uso muito popular. sempre foram simples e práticos. <12> Estudando atentamente os sistemas de escrita. A antiga civilização da ilha de Creta usou dois sistemas de escrita que os estudiosos chamaram de Linear A e B. < CAGLIARI. não ficaram restritos a atividades religiosas ou científicas.. houve um sistema de escrita ainda não decifrado que só foi empregado por volta de 2500 a. ao que tudo parece. ou seja. esses dois tipos de escrita. No vale do rio Indo. a escrita só ressurgiria muito tempo depois. Por essa razão.p.gregos voltaram a escrever somente 500 anos mais tarde. razão pela qual esses dois casos são considerados hoje misteriosos.C. ensinar as novas gerações a usar o sistema de escrita sempre foi uma tarefa fácil e de certa forma banal. Mesmo guerras muito violentas nunca interromperam o conhecimento da escrita. 1996b. usando o alfabeto semítico. Os sistemas de escrita nunca tiveram nada de muito estranho ou misterioso em si.C. com a escrita brãmane. no século III a.

É falsa a idéia de que na Antiguidade somente os sacerdotes. Os sistemas de escrita estabelecidos na história dos povos nunca foram privilégio de ninguém. Essa é uma idéia errada e estranha. certamente. é uma convenção que não consegue sobreviver à custa de um punhado de pessoas. que não faz sentido algum. bastando lembrar como argumento que a escrita é um fato social. O segundo representava a língua grega arcaica e foi decifrado.representara uma língua desconhecida e foi decifrado somente em parte. não pensa. os reis ou pessoas de grande poder dominassem a escrita e a usassem como um segredo de Estado. Seu código é o mais extenso conjunto de leis conhecido da Antiguidade.c. fundador do Império Babilônico. da Babilônia entre os anos de 1792 e 1750 a. Ao ler o que ele . A LEITURA E A ESCRITA NA ANTIGUIDADE HAMURABI. Os fatos históricos também mostram o contrário. Quando um faraó enche todas as paredes e até colunas com escrita e exibe isso publicamente.. que essa seja a melhor maneira de guardar um segredo de Estado.

ficamos sabendo que. Queriam saber o que representavam aquelas figuras e por que ele as tinha pintado nas paredes. à noite. Isso não significa que somente engenheiros. representando ~. o texto tem como interlocutor o próprio povo. Certamente essas obras foram feitas por especialistas. Hamurabi mandou publicar em praça pública um código de leis para que o povo soubesse sob quais leis vivia e como deveria se portar em sociedade. <13> animais. um livro de engenharia é escrito por um engenheiro. assim como. Na Mesopotâmia. às vezes. um livro de medicina por um médico. hoje em dia. Costumo dizer que quem inventou a escrita foi a leitura: um dia. Certo dia recebeu a visita de alguns amigos que moravam próximo e foi interrogado a respeito dos desenhos. numa caverna. ficou pensando no que tinha . O que tem perturbado aqueles que acreditam ser a escrita um privilégio das pessoas poderosas é o fato de terem chegado até nós grandes obras da Antiguidade.mandou escrever. Naquele momento. Depois. objetos e cenas do cotidiano. súdito do monarca. pessoas. o artista começou a explicar os nomes das figuras e a relatar os fatos que os desenhos representavam. médicos e teólogos conheçam a escrita no mundo moderno. o homem começou a desenhar e encheu as paredes com figuras. um livro de religião por um teólogo e assim por diante.

mas. numa época em que o homem já possuía rebanhos e domesticava os animais. criar um sistema de formas gráficas. por sua vez. representando a quantidade de animais ou de produtos negociados. para representar palavras ou frases ou mesmo histórias. mas revela algo importante. porque pertence ao reino do pensamento. Para isso. a escrita surgiu do sistema de contagem feito com marcas em cajados ou ossos. Ou seja. A partir dessa descoberta. se referiam a esses mesmos objetos e fatos na linguagem oral. Esses registros passaram a ser usados nas trocas e vendas. era preciso inventar símbolos para os produtos e para os nomes dos proprietários. Nessa época de escrita primitiva. podiam servir também para representar palavras que. figurativas ou não. a necessidade de um sistema de escrita veio de situações vividas. além de representar objetos da vida real. quando uma forma gráfica representa o mundo. passa a ser uma forma de escrita. era um passo fácil de ser dado. os desenhos. Provavelmente. ser alfabetizado significava . e usado provavelmente para contar o gado. A humanidade descobria assim que. é apenas um desenho. além dos números. quando representa uma palavra. que não pode ser captado pelos documentos materiais da história. De acordo com fatos comprovados historicamente. A história contada acima é obviamente fantasiosa e não corresponde aos fatos reais.acontecido e acabou descobrindo que podia "ler" os desenhos que tinha feito.

. e na China.C. esse processo autônomo tenha se repetido. o sistema de símbolos necessários para representar as palavras através das sílabas ficou muito reduzido. É muito provável que no Egito.. Os maias da América Central . A escrita. por volta de 1500 a. a quantidade de informações necessárias para que alguém soubesse ler e escrever aumentou consideravelmente. fácil de ser memorizado e conveniente para a difusão da escrita na sociedade.C. por volta de 3000 a. como. por volta de 3300 a.C.saber ler o que aqueles símbolos significavam e ser capaz de escrevê-los. pelo que se sabe hoje. Com a expansão do sistema de escrita. repetindo um modelo mais ou menos padronizado. na Suméria. <14> por língua. começou de maneira autônoma e independente. Como há cerca de 60 tipos de sílabas diferentes ~. em média. por exemplo. O longo processo de invenção da escrita também incluiu a invenção de regras de alfabetização. as sílabas. o que obrigou as pessoas a abandonar o sistema de símbolos para representar coisas e a usar cada vez mais símbolos que representassem sons da fala. mesmo porque o que se escrevia era apenas um tipo de documento ou texto. ou seja. as regras que permitem ao leitor decifrar o que está escrito e saber como o sistema de escrita funciona para usá-lo apropriadamente.

escrevendo para a sociedade e a cultura da época. A alfabetização. ou seja. a ler. devia ser o procedimento comum. levava muita gente a aprender a ler para lidar com negócios. comércio e até mesmo para ler obras religiosas ou obter informações culturais da época. de uma maneira ou de outra. num tempo indeterminado ainda pela ciência. que eram estudados exaustivamente. relacionando os caracteres às palavras da linguagem oral. certamente. que talvez se situe por volta do início da era cristã. A curiosidade. O trabalho de leitura e cópia era o segredo da alfabetização. nesses casos. Aprender a decifrar a escrita.também inventaram um sistema de escrita independentemente de um conhecimento prévio de outro sistema de escrita. dava-se com a transmissão de conhecimentos relativos à escrita de quem os possuía para quem queria aprender. os alunos alfabetizavam-se aprendendo a ler algo já escrito e depois copiando. passavam a escrever seus próprios textos. Começavam com palavras e depois passavam para textos famosos. Todos os demais sistemas de escrita foram inventados por pessoas que tiveram. já que não pretendiam tornar-se escribas. Muitas pessoas aprendiam a ler sem ir para a escola. contato com algum sistema de escrita. não era preciso fazer cópias nem escrever: bastava saber . Note que essa atividade está diretamente ligada ao trabalho futuro que esses alunos irão desempenhar. Finalmente. Aqui. Na Antiguidade.

foi proposital para facilitar o uso do sistema de escrita e sobretudo o seu aprendizado. Para representá-las graficamente. a lista ficou apenas com consoantes.ler. de cerca de 60 elementos para apenas 21 consoantes. que era oclusiva glotal. Essa escolha foi urna decisão muito importante porque reduziu os modelos de silabários da época. da escrita cuneiforme. a primeira palavra da lista era 'alef. por exemplo. E assim com as demais palavras e suas respectivas consoantes. os semitas escolheram um conjunto de palavras cujo primeiro som fosse diferente dos demais. escrever é algo que vem como conseqüência. <15> Ao formar seu sistema de escrita. esse nome passou . Além disso. Com a escrita semítica aconteceu algo muito curioso e que. Para quem sabe ler. a figura da cabeça do boi passou a representar o som inicial da palavra 'alef. e o hieróglifo escolhido foi o que representava a cabeça de um boi. foram escolhidos hieróglifos egípcios cujo aspecto figurativo lembrava o significado das palavras daquela lista. que significava "boi". Por exemplo. o processo de alfabetização. Dessa maneira. Uma outra novidade decorreu desse fato: as palavras da lista passaram a ser os nomes das letras que representavam a consoante inicial dessas palavras. sem dúvida alguma. ou seja. Como nenhuma palavra naquelas línguas começasse por vogal.

tinha a forma gráfica da figura de uma porta. e. porque o nome dessa letra é 'alef A segunda letra era Beth. A escolha de uma lista de palavras como essa constitui o que se chama de princípio acrofônico. ou seja. pronunciando. A terceira letra era o Daieth. era usada para o som de B e significava "casa". feitos os devidos ajustes. o som inicial do nome das letras é o som que a letra representa: o desenho da cabeça de boi representa o som da oclusiva glotal. observar a ocorrência de consoantes nas palavras e transcrever esses sons consonantais. e assim por diante. trazia de forma óbvia como se devia proceder para ler e escrever. tinha-se a pronúncia de uma dada palavra — o que. por exemplo. Uma vez identificada a letra pelo nome. já se tinha um som para ela. que significava "porta" e representava o som de D. Para se alfabetizar nesse sistema de escrita. . bastava a pessoa decorar a lista dos nomes das letras. O princípio acrofônico foi uma das melhores idéias que apareceram nos sistemas de escrita: além de permitir uma grande simplificação no número de letras. Juntando os sons das letras das palavras em seqüência. tirada também de um hieróglifo egípcio.a ser a chave para se saber que som a letra representava: aief representava a oclusiva glotal. o significado vinha automaticamente. representada por um hieróglifo que retratava a figura de uma casa. dava o resultado final de sua pronúncia.

ou seja. com a única diferença de que os gregos tinham de detectar na fala não apenas as consoantes. para escreverem alfabeticamente. Para eles. por exemplo. Já os gregos. aquelas que começam com sons de D e V e escrevê-las. mas também as vogais. como precisassem fazer alguns ajustes nas próprias consoantes. a letra egípcia que representava pictograficamente a cabeça de um boi foi usada. em grego. para evitar que falantes de dialetos diferentes escrevessem as mesmas palavras de maneiras diferentes. . procurar. agora denominada alfa. resolveram escrever não apenas as consoantes. Como em grego não houvesse consoante oclusiva glotal. a letra 'alef passou a representar a vogal A. a ortografia fixou a forma de escrita das palavras. e a letra recebeu o nome da palavra que significava boi. Como sempre. por exemplo. 'alef. pelos semitas para representar uma consoante oclusiva glotal. mantendo o mesmo princípio acrofônico. mas também as vogais. bastava identificar as consoantes DVD. Assim. como vimos. os gregos adaptaram os nomes das letras semíticas para a sua língua. na lista de letras. seguindo apenas a observação da própria fala e o valor fonético das letras. a alfabetização acontecia de maneira semelhante à dos semitas. uma vez que. o conjunto de consoantes era diferente daquele das línguas semíticas. Apesar de manter o princípio acrofônico.usando o princípio acrofônico. Para escrever David.

gama. Dessa forma. bê. beta. acharam interessante o princípio acrofônico do alfabeto grego. inclusive o alfabeto. os gregos e os romanos nos deixaram alguns "alfabetos": tabuinhas ou pequenas pedras ou chapas de metal onde se encontravam todas as letras. De fato. e. em geral ocorria menos nas escolas do que na vida privada das pessoas: quem sabia ler . transformaram-se em a. na Idade Média. serviam ~. delta. Os semitas. Na verdade. dê. pode-se mesmo dizer que na Grécia antiga havia as escolas do alfabeto.Quando os gregos passaram a usar o alfabeto. etc. ou mesmo quando fossem escrever. épsilon. <17> de guia para as pessoas aprenderem a ler e a escrever. cê. Tais documentos foram. as mais antigas "cartilhas" da humanidade: uma cartilha que continha apenas o inventário das letras do alfabeto. Os romanos assimilaram tudo o que puderam da cultura grega. aprender a ler e a escrever tomou-se urna tarefa de grande alcance popular. por assim dizer. Foi assim que alfa. A alfabetização. mantinha-se o princípio acrofônico e ficava ainda mais fácil usar o alfabeto e se alfabetizar. Práticos como sempre. mas perceberam que não precisavam ter nomes especiais para as letras: era mais simples ter como nome da letra apenas o próprio som dela. etc. na ordem tradicional dos alfabetos.

somando-se os valores das letras. a leitura correta. as que podiam eram educadas em casa pelos pais.ensinava a quem não sabia. como na Suméria ou mesmo na Grécia antiga.c. . Como o alfabeto tinha no nome das letras o princípio acrofônico. que é a chave de sua decifração. bastava o aprendiz decorar o nome das letras para ter condições de iniciar a decifração da escrita. Isso era altamente facilitado pelo fato de os aprendizes serem falantes da língua que estavam decifrando. Vê-se. facilitadoras do processo de decifração. Ainda hoje. muitas pessoas aprendem a ler em casa: algumas porque decidiram não esperar a escola chegar. Nessa época. que a alfabetização pode perfeitamente acontecer fora da escola e do processo escolar. pois. como as crianças já não iam mais à escola. o que ajuda em muito as tentativas para descobrir. descobria-se que palavra estava escrita. O contexto lingüístico e as ilustrações sempre ajudaram com informações complementares. entre as várias possibilidades. mostrando o valor fonético das letras do alfabeto em determinada língua. podendo ser feita em casa se a isso as pessoas se dedicarem. a forma ortográfica das palavras e a interpretação da forma gráfica das letras e suas variações. Isso se estende desde a época clássica latina até o século XVI d. por alguém da família ou até mesmo por um preceptor contratado para essa tarefa. Aprender a ler e a escrever não era uma atividade escolar. a qual se completava quando.

que podia ser representado por muitas formas gráficas. que passaram a chamar-se maiúsculas. Isso trouxe um problema novo e complicado para a alfabetização e para os leitores. em geral. o usuário do sistema de escrita tinha de conhecer. seu princípio acrofônico e a ortografia: era preciso. Agora. reconhecendo a que . <18> A primeira manifestação desse fato aconteceu quando das letras capitais (as maiúsculas — que eram as únicas do sistema de escrita latina) surgiram as letras minúsculas com forma gráfica diferente das antigas. Isso fez com que uma letra passasse a ser apenas um valor abstrato do alfabeto. o usuário da escrita precisava saber que 'A" e "a" são a mesma letra e. Não bastava saber o alfabeto. portanto. ainda. Isso aconteceu sem que as letras perdessem seu valor fonético e sem que a ortografia das palavras mudasse. Com o uso cada vez maior da escrita na sociedade e com a produção crescente de livros escritos à mão (e depois impressos). as quais.outras porque foram expulsas da escola e resolveram aprender fora da tradição escolar. "CASA' equivale a "casa". saber fazer a categorização correta das formas gráficas. o alfabeto passou a ter um problema a mais: foram surgindo formas variantes de representação gráfica das letras (sem modificar o inventário do alfabeto). Um exemplo famoso desse último caso é Thomas Edison. agora.

ao analisar o todo. considerado um dos maiores inventores do milênio. Na escrita cursiva. Este último aspecto pode ser observado ainda hoje.categoria pertence cada letra encontrada nas diferentes manifestações gráficas da escrita. sendo dispensado por ser "confuso de cabeça e não conseguir aprender". esse princípio é posto em prática a todo instante. Notas Thomas Alva Edison (1931). era americano de Milan Obio. ainda através da ortografia. do ponto de vista fonético. Como sabemos. uma esprofessora. acabamos nos convencendo de que determinada forma gráfica está representando uma letra e não outra. Patenteou 1093 inventos. Nunca mais voltou para a escola tornando-se um autodidata com a ajuda da mãe. inclusive a lâmpada elétrica o gravador o microfone e o projetor de cinema. passou a ser o guia interpretativo do valor da variação gráfica das próprias letras. quando descobrimos (ou desconfiamos) que letra está escrita. . quais letras devem compor aquela palavra. Freqüentou a escola por apenas três meses. a ortografia mostrou uma vantagem a mais: além de servir para neutralizar a variação lingüística na escrita. Nesse caso.

a preocupação com os leitores aumentou. Essa obra era voltada para a alfabetização do povo. juntamente com este trabalho. surgem as primeiras gramáticas das línguas neolatinas. Por isso. cada qual iniciando com uma letra diferente. uma vez que agora se faziam livros para um público maior. e esse foi outro motivo que levou os gramáticos a se dedicarem também à alfabetização: era preciso estabelecer uma ortografia e ensinar o povo a escrever nas línguas vernáculas. <19> A seguir apresentamos um breve apanhado das primeiras obras de alfabetização que surgiram na Europa entre os séculos XV e XVIII. Em 1525. Jan Hus (1374-14 15) propôs uma ortografia padrão para a língua tcheca e. com o uso da imprensa na Europa. Nessa época. na ordem do alfabeto. a preocupação com a alfabetização passou a ter uma importância muito grande. foi publicada na cidade de Wittenberg uma cartilha do ABC intitulada .O APARECIMENTO DAS CARTILHAS Com o Renascimento (séculos XV e XVI) e. deixando de lado cada vez mais o latim. apresentou o ABC de Hus: um conjunto de frases de cunho religioso. A primeira conseqüência disso foi o aparecimento das primeiras "cartilhas". sobretudo. e a leitura de obras famosas deixou de ser coletiva para se tornar cada vez mais individual.

O educador tcheco Jan Amos Komensky. A primeira lição era a "tábua do alfabeto". que continha o alfabeto. um regulamento para as escolas que fundara. outra aos médios e a terceira aos avançados. cada uma tendo três partes. Em 1527. Somente no século XVIII. Com essa obra. em 1702. a letra A com a figura de uma escada. Esse tipo de obra permanece com esquema semelhante até o século XVII. pode-se ter uma idéia bem detalhada de como eram as aulas naquela época. por exemplo. os dez mandamentos. um livro de alfabetização em que as lições vinham acompanhadas de gravuras para ajudar e motivar as crianças para os estudos. a . numa obra semelhante. etc. inclusive as de alfabetização. publicado em 1720. uma destinada aos alunos principiantes.Bokeschen vor leven ond kind. fez de sua obra Orbis sensualispictus ("O mundo sensível em gravuras"). listas de sílabas simples. publicada em 1658. O ensino era dividido em "lições". São João Batista de la Salle escreveu. a letra S com o desenho de uma cobra. chamado "Conduite des é coles chrétiennes" ("Conduta das escolas cristãs"). Valentim Ickelsamer incluiu. apareceram as primeiras gravuras das letras iniciais. mais conhecido como Comênius (15921670). orações e os algarismos.

a quinta (ainda no segundo livro) cuidava da leitura para quem já sabia silabar perfeitamente. Esse modelo de escola partiu da França e teve grande repercussão nas escolas dirigidas por religiosos em outros países. o segundo livro. o silabário. Nesse modelo de ensino. aparece uma distinção clara entre ler e escrever. O pedagogo alemão José Hamel. surgiu o Ensino Mútuo. a quarta. O ensino é nitidamente coletivo. os alunos aprendiam a ler com pausas. para o trabalho na <20> sociedade. em sua obra Ensino Mútuo. Os alunos aprendem em aulas de 15 minutos. a terceira. Após a Revolução Francesa. etc.segunda. a escrita. No terceiro livro. a "tábua das sílabas". estudando exercícios fáceis e em coro ao redor de lousas colocadas nas paredes da sala. para aprender a soletrar e a silabar. o professor mandava os alunos copiarem cartasmodelo e documentos comerciais para aprenderem. coisas úteis para a vida. que se espalhou sobretudo entre povos anglogermânicos. descreve o método de alfabetização em detalhes. ao mesmo tempo. sendo dado para classes e não mais com atenção individual. A leitura era dirigida para as coisas religiosas. Para ensinar ortografia. O ensino com muitos alunos numa classe acabou criando um .

introduzindo a alfabetização como matéria escolar. as antigas cartilhas sofreram uma modificação notável. O estudo foi dividido em lições. Diante dessa nova realidade. O pedagogo alemão Friedrich Froebel (1782. os alunos que freqüentavam essas . passaram a ser mais desenvolvidas. A Revolução Francesa trouxe grandes novidades para a escola: uma delas foi a responsabilidade com a educação das crianças. esse tipo de cartilha iria ser o modelo dos livros de alfabetização. Alfabetização popular nessa época significava a educação dos ricos que não tinham ligação com a nobreza. Com poucas modificações superficiais. O método do bá-bé-bi-bó-bu começava a aparecer.tipo de escola para as crianças.185 2) fundou o primeiro jardim de infância (Kindergarten) em 1837. cada uma enfatizando um fato. jardins de infância ou escola maternal. membros da burguesia. O ensino silábico passou a dominar o alfabético. iniciadas por Robert Owen (17711858) em 1816 para os filhos dos operários de sua fábrica têxtil de New Lanark. o processo educativo da alfabetização tinha de acompanhar o calendário escolar. Com a escolarização. Apesar de a escola se encarregar da alfabetização. ou seja. A moda das escolas que ensinavam as crianças a ler e a escrever espalhou-se pelo mundo. Como as antigas cartilhas fossem simples esquemas. na Escócia. Essas escolas logo se espalharam e passaram a cuidar da alfabetização das crianças. as escolas infantis.

Naquela época. que é um outro diminutivo de "carta". No Brasil. até as primeiras décadas deste século. publicou a Cartinha. junto com a gramática. a escolarização da maioria das <21> pessoas que iam à escola pública não passava do segundo ou do terceiro ano. que eram as da imprensa da época). Muitos professores queixavam-se dos baixos salários. O povo simples e pobre continuava fora da escola. A Cartinha de João de Barros trazia o alfabeto (em letras góticas. . Alguns documentos do final do Império mostram que as Escolas Normais não tinham alunos e o governo era obrigado a dar vantagens extras àquelas pessoas que trabalhavam com alfabetização. depois. O nome "cartinha" ou "cartilha" tem a ver com "carta".escolas pertenciam a famílias com certo status na sociedade. razão pela qual as poucas escolas públicas lutavam para conseguir quem desse aulas. os professores das escolas públicas eram em geral eleitos pela comunidade e tinham um mandato determinado. mapa de orientação. publicada em 1540. ao lado de "cartilha". CARTILHAS DA LÍNGUA PORTUGUESA João de Barros (1496-1571) escreveu a gramática portuguesa mais antiga. no sentido de esquema.

e depois punha-se a escrever e a ler. havia uma lista de palavras. etc.). decorava as palavras-chave. próprio do alfabeto. tendo o nome das letras como guia para sua decifração. O método estava mais voltado para a decifração da escrita do que escrever corretamente. cada uma começando com urna letra diferente do alfabeto e ilustrada com desenhos (como: nau. vinham os mandamentos de Deus e da Igreja e algumas orações. nas "taboas" (ou tabuadas). <22> A cartilha do ABC. Por último. que eram usadas para escrever todas as sílabas das palavras da língua portuguesa. interpretando. A Cartinha de João de Barros não era um livro para ser usado na escola. uma vez que a escola naquela época não alfabetizava. O livro servia igualmente para adultos e crianças. a pessoa decorava o alfabeto. Notem que a ortografia não tinha vez. para pôr em prática o princípio acrofônico. João de Barros incluiu também um gráfico que permitia fazer todas as combinações de letras das "taboas". tesoira.vinham as "taboas" ou "tabelas". com todas as combinações de letras. Em seguida. Para se alfabetizar. as sílabas da fala com a correspondente forma de escrita. que há poucos anos se podia comprar até em alguns supermercados ou em certas lojas de estações de .

intitula-se Método Castilho para o ensino rápido e aprazível do ler impresso. A segunda edição. Muitas pessoas que não podem ir à escola. Utilizava um modo de escrever letras com destaque dentro das palavras. Uma de suas características mais importantes é o emprego dos chamados "alfabetos picturais ou icônicos". ou que saíram dela porque foram consideradas "burras" demais para aprender. acabam aprendendo a ler através de livrinhos como esse. até hoje aparecem nas cartilhas modernas. Essa obra merece um estudo detalhado. Uma cartilha famosa foi a de Antonio Feliciano de Castilho. e numeração e do escrever Obra tão própria para as escolas como para uso das famílias. de 1853. segue o mesmo esquema da cartinha de João de Barros.trem e rodoviárias. manuscrito. dessa forma. outra cartilha portuguesa que ficou muito famosa inclusive no Brasil foi a de João de Deus (1830-1896). o aprendiz . chamada Cartilha maternal ou arte de leitura. fazendo urna lição para cada uma delas e para os dígrafos. publicada em 1850. <23> Além do método de Castilho. Castilho apresentava também "textos narrativos" para ensinar o uso das letras. chamada Método portuguez para o ensino do ler e do escrever. desenhando-as com hachuras. já usados na Grécia antiga e muito em voga durante o Renascimento — na verdade.

vêm os exercícios de escrita. Entre . no título da obra. A cartilha de João de Deus apresentava já uma forte tendência para o privilégio da escrita sobre a leitura. então. uma cartilha intitulada: Manual explicativo do método de leitura denominado escola brasileira. passando depois a se dedicar à alfabetização de adultos. na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. apareceram inúmeras outras. encontra-se. organizada por Francisco Alves da Silva Castilho (e dedicada à classe dos professores de primeiras letras). sem dúvida. haja um destaque à leitura. Seu método começa sempre com urna leitura coletiva. de João de Deus. O autor foi professor em Campo Grande e alfabetizava as crianças pobres. embora. publicada no Rio de Janeiro em 1859. Já pelo título pode-se notar que essa cartilha opõe o método do Castilho brasileiro ao do Castilho português. Pedro II.se concentrava no que de novo era apresentado. seguindo o método que ele denomina "sintético/analítico". Ele chama a atenção para o fato de que se devem ler palavras inteiras e não letras ou sílabas. depois individual e. Entre os livros que pertenceram a D. o modelo para muitas outras que vieram depois e que chegaram até os nossos dias. depois da grande influência da Cartilha maternal (1870). <24> No Brasil. Essa cartilha foi.

Um exemplo típico desse caso é a Cartilha do povo (1928). No final dos anos 90. Com o passar do tempo. o autor traz muitas considerações a respeito da forma de alfabetizar. seguindo uma ordem hierárquica crescente de dificuldades.elas há quatro tipos bem marcantes. e o famoso Teste ABC (1934). desde a letra até o texto. Com a Cartilha maternal. de A. é um bom exemplo. Joviano. de Lourenço Filho. que vai assumir importância maior na década de 30. O mais antigo (até a Cartilha maternal) foi chamado de método sintético. começa o método analitico. Na introdução. com o período preparatório. A cartilha Caminho suave (1948). têm surgido obras que se classificam como construtivistas e que se propõem a aplicar os ensinamentos da psicogênese da língua escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky ao processo de alfabetização programada através de livro didático. quando a psicologia passa a fazer testes de maturidade psicológica e a condicionar o processo a resultados obtidos nesses estudos. cartilhas que misturavam estratégias do método sintético e do analítico. . do mesmo autor. com métodos e estratégias diferentes de conduzir o processo de alfabetização. é um tipo de cartilha. apareceram mais obras que seguiam o método misto. ou seja. de Branca Alves de Lima. Um livro como Primeira leitura para crianças. Partia-se do alfabeto para a soletração e silabação.

autores famosos da literatura. e os modelos eram sempre os bons autores. Como acontecia com as gramáticas.Nota Primeira leitura para crianças. de A. Joviano João de barro leva no bico uma bola de barro para fazer o ninho João leva uma bola de barro leva uma bola para seu ninho uma bola vai no seu bico fazer bola de barro com o bico vai uma bola no bico de João de barro Leva João. trazido para a escola a partir de textos de autores famosos. ou seja. Havia um cuidado com a fala (e sobretudo com a pronúncia). a norma de bem escrever era a imitação dos bons escritores. por meio dos quais os alunos aprendiam as relações entre letras e sons. o barro para fazer bola! <25> AS CARTILHAS E A ALFABETIZAÇÃO As primeiras cartilhas escolares até cerca de 1950 ainda davam ênfase à leitura. seguindo a ortografia da época. Achavam importante ensinar o abecedário. voltado para o padrão social. Copiava-se muito. A leitura era feita através de exercícios de decifração e de identificação de palavras. .

em seguida. apareceram as palavras-chave. as sílabas geradoras e os textos elaborados apenas com as palavras já estudadas. caracterizando a alfabetização pelo estudo da escrita e usando como técnica o monta-e-desmonta do método do bá-bé-bi-bó-bu. O importante. mas não era. mas não foi bem assim. era aprender a escrever palavras. A cartilha parecia um caminho suave. agora também programado de maneira a ter dificuldades crescentes. A ênfase passou a ser dada à produção escrita pelo aluno e não mais à leitura. agora. até recentemente. que empregavam dialetos diferentes da fala culta. A atividade escolar deixou de privilegiar a aprendizagem e passou a cuidar quase que exclusivamente do ensino — aquilo que o professor deveria fazer em sala de aula. libertando aos poucos o aluno da cartilha e levandoo a ler autores de textos infantis. Completadas todas as letras. o aluno começava seu livro de leitura.A cartilha dá ênfase à escrita A cartilha baseada na leitura passou. Essa cartilha já trazia em si o esquema de todas as outras cartilhas que apareceram depois. quando a escola começou a se dedicar à alfabetização dos alunos pobres. Em lugar do alfabeto. por uma modificação radical. já na década de 50. As famílias de letras passaram a ser estudadas numa ordem crescente de dificuldade. carentes de recursos materiais e culturais na vida familiar. Parecia que ia dar certo. E a escola percebeu .

Diante dessa realidade. A repetência e a evasão escolar foram sempre um monstruoso fantasma para as crianças. Os dados estatísticos mostram que a escola não consegue alfabetizar mais de cinqüenta por cento de seus alunos. outros desistiam logo depois. O manual do professor Pode-se dizer que a experiência escolar da alfabetização com cartilhas foi desastrosa. e apenas uns poucos. cerca de dez por cento. <26> Até o advento do ciclo básico na década de 80. não conseguindo superar essa barreira inicial. A primeira coisa que saltava aos olhos era .logo de início que muitos alunos tinham dificuldade em seguir o processo escolar de alfabetização. a média de reprovação na primeira série era de cerca de cinqüenta por cento. Diante de um quadro desolador e perturbador. a escola começou a investigar mais uma vez o que estava errado com a alfabetização escolar. a média de reprovação sempre se manteve por volta de cinqüenta por cento. ou seja. do ciclo II do ensino fundamental). Apesar de todos os esforços para superar essa situação. E as reprovações na primeira série tornaram-se freqüentes. muitos alunos abandonavam a escola. pais e professores. o correspondente à oitava série do primeiro grau. conseguiam concluir a última série do ginásio (na época.

em seguida. Mesmo assim. então. a dificuldade deveria residir nas crianças. subsídios mais práticos para uso em sala de aula. Onde será que residia o segredo de tanta reprovação na primeira série? A cartilha era "logicamente" perfeita. Foi assim que a cartilha ganhou um companheiro: o manual do professor. com raríssimas exceções. dizendo o que o professor e o aluno devem . comprometendo assim o processo educativo. o professor tinha todos os subsídios necessários e prontos para aplicar o método das cartilhas. como a Cartilha Sodré. o índice de repetência continuou assustador. <27> de considerações muito vagas a respeito do valor da educação. o que podia dificultar a sua aplicação.o fato de as cartilhas serem livros esquemáticos demais. Os manuais do professor apostam na ignorância deste e por isso não passam de verdadeiros scrzpts para serem representados nas salas de aula. Em vez de ensinar os conteúdos básicos do trabalho do professor. Alguns professores podiam não saber exatamente como usar aquele tipo de livro. partem ~. pois. Era necessário. dar uma ajuda especial aos professores. uma orientação mais pormenorizada. e vão. As cartilhas que sobreviveram passaram a ter seu manual do professor. Devia haver "algo" em certos alunos que não permitia que aprendessem adequadamente.

muitas vezes. E a escola tornou-se um bom laboratório para esses pesquisadores. o professor precisa ensiná-lo a responder o que está no manual. Sem formação pedagógica. sendo determinada a fala de cada um. O período preparatório A partir dos anos 50. Muitos alunos pesquisavam para teses. necessários para que .fazer. o que é. os psicólogos começaram a aplicar uma variedade de testes e chegaram à conclusão de que a grande dificuldade de aprendizagem das crianças na alfabetização devia-se ao fato de essas crianças repetentes serem pessoas carentes. uma estultícia. ensina o que o professor deve fazer se não der certo. Num certo manual encontra-se até um diálogo que o professor deve promover com seus alunos. nem eles próprios tinham entendido muito bem. A única saída que se pode imaginar é repetir tudo de novo. a psicologia começou a fazer um enorme sucesso nas universidades do Brasil. Como o manual do professor não resolveu o problema da repetência e a evasão de grande parte dos alunos. a escola foi buscar socorro nas universidades. aplicando teorias que. sem formação lingüística. porém. para ver se o aluno aprende. Carentes de alimentação na infância. Se o aluno responder diferente. obviamente. passo a passo. Nenhum diálogo. carentes de estímulos ambientais. senão a lição não funciona.

Sem "prontidão" não se podia realizar um processo de alfabetização eficiente. etc. p. Os psicólogos inventaram. carentes de praticamente tudo. não podiam aprender. "a síndrome da dificuldade de aprendizagem". no qual as crianças seriam treinadas nas habilidades básicas até ficarem "prontas" para se alfabetizarem. Para resolver o problema. como alguns chamam. enfim.pudessem desenvolver o conhecimento. o chamado período preparatório. 193224. <28> coelhinho ir da esquerda para a direita numa linha curva até chegar à toca. localizar o gatinho à direita e à esquerda da menina numa figura cm que ela aparece de frente e de costas. foi inventado um período que precedesse a alfabetização. carentes de emoções que as motivassem para aquisição de cultura. já que não era conveniente deixar essas crianças fora da escola. CAGLIARI. > Num artigo intitulado "O príncipe que virou sapo". fazer bolinhas. 1997c. Assim. Além da cartilha e do manual do professor. dizer se uma caixa de sapato é maior do que uma caixa de fósforos ou não. surgiu agora o livro de "exercícios de prontidão". completar figuras. fazer o ~. A . então. discuti alguns aspectos mais importantes da teoria do "déficit" das crianças ou. uma série de coisas estranhas para as crianças fazerem antes da alfabetização: fazer curvinhas para cá e para lá.

baseados na teoria da carência sociocultural e na teoria da superioridade racial. sem levar em conta o conhecimento dos conceitos lingüísticos envolvidos. O que aqueles psicólogos pensavam da linguagem era algo muito diferente do que os lingüistas dizem a respeito da linguagem. Por trás de tudo. o que se nota é um grande preconceito contra a pobreza e as crianças menos favorecidas. com mil teorias acadêmicas. Em meio a tantos equívocos. os resultados só podiam ser igualmente equivocados. A universidade foi responsável pelo mal que causou à educação com o período preparatório e os exercícios de prontidão. Mais antigamente. As crianças pobres têm mais coisas para aprender. as mulheres tinham sido discriminadas de maneira semelhante. ao entrar na escola. mas que era um grande equívoco. convencendo os professores de algo que a academia achava cientificamente correto. mas as conclusões são muito evidentes. Os testes aplicados às crianças foram mal elaborados. Os assim chamados "pré-requisitos lógico-formais" da teoria da prontidão são semelhantes aos argumentos de preconceito racial. por causa da história de vida . sobretudo da noção de variação lingüística. do que as crianças ricas. envolvendo questões de linguagem. que pretendiam provar que a mulher era um ser inferior porque tinha um volume de massa cerebral menor do que o homem.discussão é longa.

Ao analisar com os devidos cuidados lingüísticos os fatos de linguagem que a escola diz que atrapalham o progresso dos alunos na alfabetização. Perguntar a uma criança se uma . perceptiva. de nada adianta ficar fazendo exercício sobre coordenação motora direita e esquerda. algumas pessoas se confundiram com relação a isso. falantes de variedades lingüísticas estigmatizadas pela sociedade. psicológica.de cada uma e da natureza das nossas escolas. uma vez que nunca sabiam se direita e esquerda era para ser respondido em função de quem vê ou do objeto visto: a direita de quem vê é a esquerda do objeto visto. segundo a opinião desses acadêmicos. Fazendo curvinhas. motora. ninguém aprende a escrever nem a ler. justamente por causa dos exercícios de prontidão. Isso. Aliás. não deve ser confundido com falta de capacidade mental. A questão central desse problema é essencialmente lingüística. no entanto. ou seja lá o que for. As crianças pobres passaram a ser tachadas de deficientes. simplesmente porque falavam ou escreviam errado. e vice-versa. excepcionais e carentes. <29> Como a escola não aceita isso e não pode dizer que tem preconceito contra a pobreza. na verdade. logo se verifica que esses alunos "incapazes" são. Para não escrever espelhado. começou a achar razões mais sutis para disfarçar seus preconceitos.

simplesmente exemplifica.) é que o período preparatório não passa de um grande equívoco pedagógico e psicológico.. porque o próprio professor não sabe responder e.. As crianças respondem a perguntas dessa natureza porque. quando responde. Perguntar a uma criança: "O que é dentro?" é uma maldade. sem dúvida alguma. a criança fazer o que lhe foi dito. Por coisas como essas (e tantas outras. você pode pegar que é todo seu" e deixar. Em vez do período preparatório e dos tradicionais exercícios de prontidão.caixa de sapato é maior ou menor do que uma caixa de fósforos é uma ofensa. apesar de acharem a brincadeira de mau gosto. o que. Aquela imensa parafernália não servia para resolver o mais importante.. que contribuam de fato para o processo de . que a melhor solução é abandona-lo por completo. são sempre muito dóceis e condescendentes. não há criança que não saiba o que quer dizer "dentro de". não é uma resposta à pergunta que fez à criança. o índice de cinqüenta por cento de reprovação na primeira série manteve-se mais ou menos inalterado. Se um professor disser a uma criança: "Dentro da cozinha que fica dentro da escola tem uma geladeira e dentro do congelador tem um sorvete dentro de uma caixa amarela.. Está tudo tão errado. Apesar do enorme esforço em aperfeiçoar a "prontidão" nos mínimos detalhes. de fato. o professor pode fazer inúmeras outras atividades mais inteligentes. que era a aprendizagem da leitura e da escrita pelas crianças.

a prática escolar mais comum em nossas escolas ainda se apóia na cartilha tradicional (a cada ano com nova roupa e maquiagem). Uma delas. cabe aos estados decidir pela forma de promoção dos alunos: com ou sem reprovação. No Brasil é evidente a confusão que se costuma fazer entre avaliação (necessária sempre) e promoção (que deveria ser automática). Veja a respeito as entrevistas A escola não deve reprovar ninguém" (CAGLIARI. por causa muitas vezes de uma discussão mal conduzida. Algumas idéias. de valor inestimável. Quando o professor diz que não adota a . mesmo plenamente justificáveis. demoram a ser absorvidas pelos órgãos oficiais. <30> Nota De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação (1997).alfabetização. ALFABETIZAÇÃO HOJE Apesar de todas as interferências recentes no processo de alfabetização. 1988b) e Avaliação e promoção" (CAGLIARI. 1 996e). Os estados de Minas Gerais e São Paulo pretendem abolir a reprovação e introduzir a promoção automática no ensino fundamental. A sofisticação e a riqueza dessa atividade são tantas que por si só valem tudo o que se pensava alcançar com o tradicional período preparatório. é propor aos alunos que façam muitos desenhos livres.

fazendo ele próprio o que antes vinha nos livros didáticos. até chegar ao amadurecimento esperado pela escola. número. apostando na capacidade de todos os alunos para aprender a ler e a escrever no primeiro ano escolar e desejando que essa habilidade se desenvolva nas séries seguintes. que é a linguagem. como ensinar o alfabeto. procurando equilibrar o processo de ensino com o de aprendizagem. estão voltando a ter importância na alfabetização. enchendo a alfabetização de ridículos exercícios de prontidão e coisas semelhantes. Contudo. Cada vez mais professores estão se dedicando seriamente ao próprio objeto de estudo e ensino. os diferentes sistemas de escrita que temos no mundo em que vivemos. etc. gênero. Mesmo o "entulho gramatical" que se cristalizou na primeira série. há cada vez mais um número crescente de professores que estão conduzindo um processo de alfabetização diferente do método das cartilhas. como o estudo de categorias gramaticais. o "entulho" que se acumulou com o tempo. Por outro lado. a ortografia. continua usando o método da cartilha.cartilha. está sendo eliminado aos poucos da prática escolar. as relações entre letras e sons. porém básicas. Velhas idéias. tem sido removido. grau. trazendo para o trabalho de alfabetização um esforço concentrado na aprendizagem da escrita e da leitura como decifração da escrita e do mundo através da linguagem. .

e outro. A idéia inicial era ter mais dois ciclos posteriores. o aluno seria submetido a uma avaliação de promoção ao final de cada ciclo. a educação. a sétima e a oitava série. a instrução. a sexta. ALFABETIZAÇÃO E ESCOLA . mas a formação.Num esforço de muitas pessoas. juntando a primeira e a segunda série. enfim. a quarta e a quinta série. Desse modo. Muitos outros equívocos apareceram juntamente com o ciclo básico. o que deu a entender a muita gente que o objetivo era apenas mudar as estatísticas de reprovação dos alunos da primeira série. Apesar disso tudo. com grandes vantagens para a educação como um todo. conseguiu-se introduzir na escola o "ciclo básico". alguns ~. com ele foi possível realizar uma grande discussão sobre a situação da alfabetização em nossas escolas e introduzir novos estudos e novos modos de trabalho. Infelizmente. um incorporando a terceira. a começar pelo estado de São Paulo. só foi posto em prática o cicio básico. foi possível tratar a alfabetização sem o medo da reprovação. levar adiante um trabalho de ensino e de aprendizagem que não tinha mais a nota como objetivo a ser alcançado. uma vez que agora a promoção era automática. Além disso. <31 > motivados pelos próprios órgãos oficiais da educação.

proporcionando condições mais saudáveis para que o processo de alfabetização se realizasse. Enquanto a alfabetização escolar ficou presa à autoridade de mestres. vemos como a escola veio para complicar tudo. tornou-se um pesadelo na escola. Por outro lado. Porém. A individualidade ainda é uma marca forte da personalidade das crianças. nas primeiras séries. A razão principal é a atitude autoritária da instituição escolar. constatou-se que muitos alunos que não trabalhavam segundo as expectativas dos mestres. A alfabetização que poderia (e deveria) ser um processo de construção de conhecimentos que se faz com certa facilidade.A história da alfabetização e das cartilhas fala por si. como em outros campos. já não se pode dizer o mesmo dos alunos das últimas séries e sobretudo de níveis mais altos de escolaridade. as crianças resistem mais porque ainda não aprenderam a se submeter a tudo o que ouvem e vêem. as propostas de alfabetização que começaram a valorizar a criança e seu trabalho criaram um clima mais calmo e tranqüilo em sala de aula. A autoridade escolar funciona melhor depois que os alunos estão "domados". métodos e livros. Aqui. mas. que tinham todo o processo preparado de antemão. métodos e livros eram considerados incapazes e acabavam de fato não conseguindo se alfabetizar. . infelizmente. uma melhor interação entre professor e aluno.

achando que tudo está bem e correto quando a burocracia está em dia. foram experimentando todos os "pacotes". Este é o país onde tudo é feito por meio de leis e decretos e. o que é verdade e o que é engodo. desse modo. vítimas da própria incompetência. lingüístico. atormentados com tantas mudanças. global. sobretudo. quer ditando as regras da burocracia. quer. Os professores. lúdico. Se sua competência já era muito .Os órgãos da administração pública encarregados da educação interferiram muito no trabalho escolar. Essa loucura serviu mais para criar nos professores uma aversão a tudo o que é novo. construtivista. Houve tantos "pacotes" e tantas decepções em tão curto prazo. mesmo que traga contribuições realmente importantes para seu trabalho. os órgãos públicos encarregados da educação passaram a dar periodicamente "pacotes educacionais". freinet. não conseguem dar a formação necessária para os professores. que hoje muitos professores já não sabem mais distinguir o que vale e o que não vale. de acordo com os modismos da época. etc. fônico. guiadas por estranhas idéias oriundas das faculdades de educação. todo o mundo tem uma escusa para o próprio fracasso. analítico. é o método sintético. <32> as normas pedagógicas. o que é certo e o que é duvidoso. psicopedagógico. Como as escolas de formação de professores para o magistério. semiótico. ditando ~.

Essa competência está ligada ao conhecimento de muitos aspectos da sua atuação como educador e como professor alfabetizador. novatos no trabalho ou ingênuos por natureza. e O que de fato está por trás de toda essa história é a presença de um grande número de professores alfabetizadores que nem sequer são capazes de avaliar o que vêem diante de seus olhos. Mas ninguém se forma um bom alfabetizador só com essas disciplinas. diante de tantas "experiências educacionais". dando as razões de sua conclusão. A culpa em grande parte vem das escolas de formação e dos "pacotes" educacionais mas em parte vem também da atitude comodista do próprio professor. que não se interessou pessoalmente em estudar o que não lhe foi ensinado. agora além de tudo ficou confusa. 1993. CAGLIARI. ainda acham que a última moda é a panacéia para todos os males do passado e a esperança do futuro. incompetente. Um professor que não sabe avaliar com precisão se um método é bom ou não. 1992c.limitada. quer se trate de um aluno que não aprende o que eles ensinam. Alguns. Estudar pedagogia. é um professor malpreparado. metodologia psicologia é importante. O fundamental é saber . quer se trate de um "pacote educacional. MAGNANI.

. neste país.). O Brasil precisa de uma modificação profunda na educação e. na alfabetização. Se formássemos de maneira correta nossos professores alfabetizadores. Resumindo. mal alfabetizadas. como também não . Hoje. metodológicas e psicológicas e não ensinam o que devem a respeito da linguagem. nem sequer têm cursos de lingüística (ou de aritmética). Nenhum método educacional garante bons resultados sempre e em qualquer lugar. se ele nunca estudou lingüística? Ninguém alfabetiza só com metodologia e psicologia. em especial. Para isso necessita de professores com melhor formação técnica. fazem dele um profissional que sabe exatamente o que faz e por que faz de um jeito e não de outro. Como um professor pode lidar corretamente com o fenômeno lingüístico. de fato. teríamos. Esses conhecimentos..como a linguagem oral e escrita são e <33> os usos que têm. isso só se obtém com a competência do professor. aliados aos de pedagogia e psicologia. a competência técnica do professor alfabetizador se apóia em sólidos e profundos conhecimentos de lingüística e dos sistemas de escrita (de matemática e de ciências inclusive. não só existem milhões de pessoas analfabetas. como também pessoas que foram. em pouco tempo uma outra realidade em termos de analfabetismo. As escolas de formação dedicam muito tempo às matérias pedagógicas.

apenas . Nada substitui a competência do professor e. O chamado Método Paulo Freire dirigido sobretudo para a alfabetização de adultos — foi aplicado em larga escala em outros países. a alfabetização e o processo escolar como um todo continuarão seriamente comprometidos. Paulo Freire trabalhou mais com a intuição o bom senso e menos com rigor científico ao tratar de fatos da linguagem. Sua obra mais importante está voltada principalmente para questões ligadas à política educacional e à pedagogia em geral. enquanto nossas escolas continuarem a formar mal nossos professores.alfabetiza somente com lingüística. <34> 2 O ensino e a aprendizagem: os dois métodos A questão metodológica não é a essência da educação. Nota Não se pode encerrar mesmo um sucinto relato da história da alfabetização sem mencionar a importância da figura de Paulo Freire. além do Brasil como outros grandes educadores que se dedicaram à alfabetização. A escola precisa saber dosar todos esses conhecimentos para poder atuar de maneira correta.

rever a história. é preciso rever alguns pontos gerais a respeito de ensino. Daí o descrédito de alguns professores na educação. É fundamental saber tirar todas as vantagens dos métodos. aos princípios básicos. às coisas mais simples e claras. retomando uma visão correta do fenômeno. e sobre ele já existe considerável literatura. bem como conhecer as limitações de cada um. fruto da indignação metodológica. no mercado. ou mesmo contraditórias. . Por isso. é preciso voltar às origens. já não sabem mais no que acreditar. Às vezes. aprendizagem e métodos. uma quantidade enorme de livros e publicações a respeito de métodos de ensino (raramente de métodos de aprendizagem) que. apresentaremos apenas um esboço geral dos pontos mais importantes para a discussão que faremos em seguida. Para isso. Como o assunto é muito vasto e complexo. oriunda dos pacotes educacionais e das contradições metodológicas a que são submetidos. Existe. num esforço para defender ou atacar certos procedimentos adotados pelas escolas. é preciso ter idéias claras a respeito do que significa assumir um ou outro comportamento metodológico no processo escolar. em meio a tantas posições diferentes. acaba confundindo seus leitores.uma ferramenta. os quais.

acompanha passo a passo a ordem do ensino. 1990. A aprendizagem não se processa paralelamente ao ensino. existe uma confusão muito grande entre ensino e aprendizagem em meio às pessoas que lidam com educação.Por incrível que pareça. PATTO 1997 O QUE É ENSINAR. O QUE É APRENDER Ensinar é um ato coletivo: pode-se ensinar a um grande número de pessoas presentes numa aula ou numa conferência. como fruto inevitável do ensino. A ordem da aprendizagem é criada pelo indivíduo. 1990. etc. O mais comum é se levar em consideração apenas o ensino. . Muitos aceitariam a diferença sem problemas. CAGLIARI. Quem ensina procura transmitir informações que julga relevantes. para que seus ouvintes aprendam algo que deseja transmitir. O que é importante para quem ensina. na teoria. PATTO. raramente. supondo que a aprendizagem ocorre automaticamente. <36> Aprender é um ato individual: cada um aprende segundo seu próprio metabolismo intelectual. o que é um erro grosseiro. organizadas do modo que lhe parece mais razoável. mas a prática mostra que a confusão é visível e está presente a cada passo. de acordo com sua história de vida e. pode não parecer tão importante para quem aprende.

mas criar algo semelhante. para facilitar o processo de ensino. a partir da iniciativa individual de quem aprende. de seu metabolismo . mesmo quando o fazer significa dizer. que costuma ser tipicamente muito homogêneo. seguindo seu próprio caminho e chegando onde sua individualidade o levar. não ocorre exatamente uma aprendizagem. Aprender depende muito da história de cada aprendiz. por ação própria. Ela vai aparecer somente quando a pessoa. fazendo remanejamentos. em detrimento do processo de aprendizagem. de seus interesses. desconsiderando totalmente a natureza do processo de aprendizagem. A aprendizagem é sempre um processo construtivo na mente e nas ações do indivíduo. mas cada aluno deverá aprender por si. ao contrário do ensino.No ensino. Quando simplesmente se repete um modelo. conseguir realizar algo de acordo com as expectativas alheias. é muito importante o que se diz. o que se faz. que um aluno automaticamente aprende. entre outros fatores pedagógicos. a aprendizagem será sempre um processo heterogêneo. na aprendizagem. gostam de manter classes homogêneas. Não é porque o professor ensina. Por isso. sempre que oportuno e possível. Aprender não é repetir algo que foi ensinado. Escolas que se apegam demais ao processo de ensino. O ensino não constrói nada: nenhum professor pode aprender por seus alunos.

uma classe. Afinal. A aprendizagem precisa partir de uma opção individual. com um colega. É essencial saber o que faz o professor e o que fazem os alunos. Nada impede. que um aluno necessariamente não aprende tal ponto. antes da escola. O fato de se ter um professor. as pessoas aprendiam como? Nossa cultura ocidental atual criou urna dependência exagerada das instituições escolares e seus métodos. uma turma de alunos não significa que se tem uma escola. o que cada um espera do outro. Há muitas maneiras de aprender: ir à escola é uma forma prática e organizada (pelo menos deveria ser) de aprender "as coisas da escola". A maneira como aquilo que é ensinado passa a ser algo aprendido é do foro íntimo de cada indivíduo. que se aprenda com os pais. todavia. Sem uma visão clara e correta da atividade escolar. vem acontecendo muito freqüentemente neste país. Obrigá-lo a agir diferentemente é uma violência contra sua liberdade e racionalidade. Por outro lado. As atividades de sala de aula estão voltadas para o que . Obrigar alguém a aprender alguma coisa é "lavagem cerebral". aliás. corre-se o risco <37> de se colocar em prática um processo de educação totalmente equivocado como.intelectual. olhando os livros ou mesmo refletindo sobre o mundo. não é porque um professor não ensina algo. o que compete a cada um. por iniciativa própria.

refazer.o professor faz ou deixa de fazer e deixam pouco espaço para que os alunos aprendam de outra maneira que não por intermédio do professor. mas poucos educadores. O PROFESSOR COMO EDUCADOR Alguns professores têm muita dificuldade em olhar para seus alunos e enxergar o que se passa com eles. refletir. Infelizmente. sem levar em conta se aquele é o momento adequado para o que pretendem fazer e se aqueles alunos se enquadram ou não no caso que querem aplicar. sabem apenas aplicar o que aprenderam nas escolas de formação ou em livros. etc. São coisas que os alunos são capazes de fazer por iniciativa própria. Na maioria das vezes. Um aluno pode ensinar ao outro. Falta o professor educador que em . pensar. tentar fazer. se a escola criar condições de estudo que facilitem esse tipo de atividade. da escola e dos órgãos públicos com relação ao processo de aprendizagem é patente e geralmente catastrófica para o ensino. Há muitos professores e profissionais da educação. O que mais falta na educação deste país é a figura do educador. A insensibilidade dos professores. nossas escolas reduziram-se cada vez mais à sala de aula e ao processo de ensino dirigido pelo professor. os alunos podem usar sua criatividade para procurar explicações e soluções para os problemas escolares.

A educação. professores que. como se toda ordem que vem de cima fosse sempre perfeita e inquestionável. Infelizmente. está na hora de exigir daquelas pessoas que lidam com educação uma competência maior. Não compram mais nenhum livro e raramente escrevem algo que não seja sua . pararam seus estudos. aquilo que os educa. depois de formados. não é raro encontrar nas nossas escolas professores analfabetos por opção. ou seja. mas isso não significa que se deva fazer com os professores o que alguns professores fazem com seus alunos: dizem e nem querem saber o que o outro pensa. de maneira clara. seu modo de ser e de trabalhar. Exigir competência e honestidade profissional dos professores é algo de que nunca se vai abrir mão.primeiro lugar se preocupa em conhecer seus alunos e só depois diz a eles. O que falta não é dinheiro: falta competência em todos os níveis para melhorar a educação. no Brasil. de fato. é tão ineficaz que nem consegue gerenciar adequadamente a si própria. para <38> a vida. honesta e adequada. sem respeitar a individualidade de cada um. Está na hora de devolver a educação aos educadores. A educação não se conhece a si mesma: quantas vezes se vê um órgão público tomar decisões obrigando todos os professores a agir de determinada maneira.

obrigação diária de sala de aula. Há muitos professores que passam anos e anos lendo e escrevendo as mesmas coisas. Ninguém parece confiar mais no professor. e. <39> DOIS MÉTODOS . A evidência maior da incompetência da educação neste país encontra-se na falta de um projeto de educação. Ele precisa ter liberdade de ação para que se possa exigir dele competência e desempenho profissional à altura dos ideais da verdadeira educação. de que o Brasil tanto precisa. O grande trabalho educativo deve voltar às mãos do professor. a não ser para repetir todos os anos as mesmas práticas educativas. Muito se fala sobre o assunto. mas não usam esse conhecimento. em vez de um projeto de educação estruturado e de valor. porque acham que aprenderam assim e assim devem ensinar. juntamente com pacotes metodológicos que alguém ou um grupo de pessoas decide impor a todos os demais. Sem o professor. São professores que sabem ler e escrever. não há escola. sem escola. não há educação de massa. dever-se-ia dar mais liberdade e exigir mais responsabilidade. tem-se um amontoado de leis e regulamentos. mas. Todo mundo quer dizer o que um professor deve ou não fazer. Em vez disso. A educação vive mergulhada numa burocracia sufocante.

com muitas variantes: um baseado no ensino e outro na aprendizagem. pois cada um aprenderia por iniciativa própria. as escolas não precisariam existir. a metodologia do ensino ocupa um lugar muito importante e em conseqüência disso tem-se . às vezes com conseqüências sérias. pode-se dizer que a educação. Nos estudos pedagógicos. sobretudo. deixando os alunos descobrirem tudo por si mesmos e livres para fazer o que bem entenderem. na medida adequada. na sua essência. caso contrário. A exclusão pura e simples de um ou de outro torna o processo falho. tem dois métodos apenas. caso em que o professor vem para a sala de aula e despeja em seus alunos um longo discurso a respeito de um determinado ponto. aquele que tem tudo sob seu comando. conseguir utilizar adequadamente os conhecimentos que são objeto do seu processo de aprendizagem. saber que aprendeu.A educação não pode viver só do ensino. A verdadeira prática educativa serve-se de ambos. entre outras. como também não pode viver só da aprendizagem. o professor não pode ser o dono da educação. O aluno só pode ter certeza de que de fato aprendeu algo. porque afinal de contas é ele quem precisa aprender e mostrar que aprendeu e. Por outro lado. quando. Por essas razões. por iniciativa própria. É preciso que haja também uma grande participação do aprendiz. Deve haver um equilíbrio entre os dois tipos de atividade: o professor deve ensinar.

etc. ser derivada das características daquilo que chamamos aqui de método 1 e método 2. São as variantes das duas vertentes principais. <40> método construtivista. Há uma tipologia de métodos que. Como o enfoque neste livro é a alfabetização. Por essa razão. um esboço geral e muito simplificado do que vem a ser um método de ensino. baseiam-se em um dos dois métodos básicos. método mecanicista. no fundo. a seguir. o que se dirá a respeito desses dois métodos estará voltado para o processo escolar de alfabetização. como. no seu extremo. Em primeiro lugar. podemos dizer que todos os métodos. O objetivo aqui vai além da sala de aula e pretende mostrar que toda atividade de ensino e de aprendizagem. método fônico. o método 1 e o 2 servem .produzido uma vasta literatura a respeito. algumas pessoas tenham certa dificuldade de perceber o essencial em meio à complexidade dos detalhes. Toda essa discussão pode. por exemplo. método indutivo. Talvez por isso mesmo. tem as características básicas apresentadas abaixo. costuma classifica-los de uma maneira ou de outra. apresenta-se. de certo modo. considerando os seus processos de argumentação. método global. método dedutivo. No entanto. que vou chamar de método de ensino (método 1) e método de aprendizagem (método 2).

A linguagem exerce. nos métodos que a escola usa. um espaço real dedicado ao processo de aprendizagem. Na verdade. em nenhuma cartilha. pode-se ter um determinado comportamento pedagógico e métodos diferentes na prática escolar. de acordo com as expectativas do autor da cartilha ou do professor "que passa a lição". que usos tem. DUAS CONCEPÇÕES DE UNGUAGEM É importante levar em conta ainda o fato de que. devem seguir um modelo prévio. O aluno procura sempre responder. tendo de decidir entre o . transmitido como ensino. Por isso. quem ensina e quem aprende. tudo gira em torno dela. na prática. Não conheço. pode-se ver com clareza na prática em sala de aula. Por exemplo. esses métodos dependem muito da concepção de linguagem que as pessoas têm: professor e aluno. Inversamente. Essa atitude revela uma concepção de linguagem na qual o falante se vê diante de um impasse. como funciona. Mesmo atividades que devem ser feitas pelos alunos. nesse momento. na alfabetização. qual é a concepção de linguagem subjacente. com o que faz. dependendo da maneira como uma pessoa interpreta o que a linguagem é.para qualquer atividade de ensino e de aprendizagem. toda cartilha (independentemente do método que lhe seja atribuído pelo autor ou pelos entendidos) baseia-se exclusivamente no método do ensino. uma importância fundamental.

Há. que não atrapalha quem fala "tchia" e tem de escrever "tia".certo e o errado. Outra concepção de linguagem muito facilmente detectada através da prática escolar é aquela que considera que a função . mas que irá atrapalhar. nos preocupamos mais com as idéias que queremos transmitir do que com os sons das palavras que irão revelar nossos pensamentos. trata-se de regras lingüísticas diferentes. passa a usar o sistema alfabético de escrita de maneira melhor. simplesmente. Ora. a não ser na escola. na vida real. Nenhum falante acha que fala errado. A linguagem apresenta-se como algo "que precisa ser corrigido". Quem fala "tchia" em vez de "tia" e aprende a escrever "tia". quando as pessoas usam a linguagem. ou por influência da educação escolar. ainda. não têm esse tipo de preocupação: elas. aprendendo a reconhecer e a analisar os sons da fala. do jeito que acharem mais conveniente. porque. e muito. pensam e falam o que quiserem. o que é falso. quem fala "drento" e tem de escrever "dentro". quando falamos. <41> Outro exemplo: o método fônico considera que uma criança. o problema da ortografia. continua falando "tchia" e nem se dá conta da diferença. Essa idéia revela uma concepção de linguagem segundo a qual uma pessoa "fala melhor" quando monitoriza os sons que pronuncia.

quando não um pretexto para a manipulação das idéias do ouvinte. de mentira e de outras coisas pouco louváveis existe numa simples enunciação ou numas poucas palavras escritas que encontramos pelo mundo e pela vida. O MÉTODO 1. nem talvez a mais usada. que essas verdades logo se revelam. Atrás de notícias encontram-se censuras. porém. . A linguagem também serve para comunicar. Nesse caso. Ora. Quanto de enganação.. A comunicação é uma função importante da linguagem. Juntar idéias e sons — formando a linguagem — não é a mesma coisa que "comunicar". a escola não pode ser ingênua e pensar que a linguagem é essencialmente comunicação. a situação inicial do aprendiz é interpretada como um começo absoluto de tudo. mas os lingüistas estão cada vez mais convencidos de que a comunicação não é a função mais importante da linguagem.. além de outros pressupostos e de conotações que tornam o literal da comunicação algo secundário. é a comunicação. senão a única. Basta refletir um pouco. transmite-se uma cosmovisão. esta não se reduz apenas a comunicar. ocorrem tomadas de posição.VOLTADO PARA O ENSINO A situação inicial O método 1 volta-se exclusivamente para o processo de ensino.mais importante da linguagem.

o professor programa o que vai ensinar. em todos os seus níveis. sem sequer conhecer seus alunos. Alguns professores acham mesmo que a atitude mais adequada é "nem querer saber" o que os espera. uma página em branco onde se vai começar a escrever sua vida escolar. Obviamente. No começo do ano. consiste na atividade do desmonta-e-monta da linguagem. Nas séries mais adiantadas da escola. isso é muito conveniente para quem ensina. O método 1 considera que a melhor . é um ponto de partida considerado ideal para todos os alunos. porque ele começou do começo e de maneira igual para todos. que alunos vão ter. os envolvidos acham que ninguém pode reclamar do professor. que não podem ser tão cegos assim. A técnica A técnica do método 1. independentemente da maneira de ser e de saber de cada um. Essa atitude é até mais comum nas outras séries do que na alfabetização. na prática. porque os alfabetizadores já aprenderam. mas é má pedagogia. dizem. na alfabetização. dando chances iguais para todos. de todas as formas possíveis.<42> o marco zero de uma caminhada. Os alunos que se virem. Nesse quadro. porque o que vai ensinar é um começo absoluto que não precisa de pré-requisito. essa é a regra geral.

a palavra é remontada. Outros pensam que pegaram o "espírito da coisa" e passam a inventar formas <43> estranhas de escrever. desmontando BATATA. segundo o professor. diferentes das palavras-chave. escrevem "cavalolalelilolu" ou "tapabapa". ou montando coisas novas a partir de pedaços. TA. Alguns alunos vão seguindo as pegadas do professor e acabam fazendo tudo direitinho. Assim. Com esses pedaços. no primeiro exemplo. Nesse caso. extraídos das palavraschave. tem-se BA. As sílabas geradoras (o bá-bé-bi-bó-bu) nada mais são do que a organização dos pedaços das palavras. por exemplo. Por exemplo. Em seguida. para os alunos construírem palavras conhecidas e palavras novas. Depois. Por exemplo. desmonta-se a palavra em "pedaços" (ou sílabas). "bata" e "taba". parte-se sempre de um modelo exemplar. o professor espera que o aluno aprenda como funciona a escrita e que relações tem com a linguagem oral. uma palavrachave. pode-se descobrir que é possível formar palavras novas. desmontam-se as sílabas em letras (ou sons). pode-se formar as palavras "Tatá". TA. Feito isso. mostrando que aprenderam as sílabas geradoras. Com alguns pedaços de palavras.maneira de ensinar alguém é desmontando e remontando. formando "palavras . e que sabem juntar os pedaços de palavras.

. isto é. que sabe tudo. E. se aconteceu. o professor ainda quer que ele se sinta culpado por um erro que ele não sabe onde está nem por que aconteceu. como sabia antes o que significava "taba". . porque além de tudo aquilo que não entendeu. as crianças ligam os pedacinhos. forma-se uma palavra nova.). não ele. liga os pedacinhos de letras para formar palavras. saberá qual o significado de uma palavra como "tapabapa". juntando dois pedaços de palavras. porque seguem apenas as regras do jogo. achando que o professor.novas". Aprendem o jogo da escola. diante de fatos como esse. que a criança nunca tinha ouvido. vão direto ao aluno e perguntam "O que significa tapabapa?" O aluno fica assustado com a pergunta: afinal de contas. Por mais estranho que pareça. no segundo caso. apenas uma estratégia de ensino escolar. Alguns alunos unem palavras aparentemente sem sentido. porque o método não ensina isso. quem deve saber essas coisas é o professor. Desmontar e montar as palavras da língua não é um uso natural nem da linguagem oral nem da linguagem escrita. foi mais por culpa do professor do que dele. Como não conhecem todas as palavras da língua (todos nós aprendemos palavras novas todos os dias. Na linguagem oral. mas não sabem de seus limites e usos reais. Ele apenas faz a lição.. A pergunta do professor faz com que o aluno sinta-se mais perplexo ainda. alguns professores. que diz que.

de fato. parte-se do zero e vão-se acrescentando informações. fazendo pausas apenas em alguns lugares. Aprender é dominar. Na verdade o método pretende associar os pedacinhos das palavras aos sons.falamos tudo junto. uma após a outra. Dominado ou aprendido algo. Por outro lado. Na escrita. devolver a quem ensinou o conteúdo ensinado. Não falamos fazendo pausa após cada palavra. que deve ser aprendido. as quais o aprendiz precisa dominar. A base: o já dominado Com o método 1. como a ortografia esconde todas as variações dialetais. passa-se ao conteúdo seguinte. mas que é preciso ir além e checar se a palavra que foi <44> formada existe. Ninguém pode esperar das crianças (na verdade de nenhum falante) que saibam se o que estão remontando com o bá-bé-bi-bó-bu forma uma palavra aceitável ou não na língua. ou seja. não porque falamos desse modo. para que os alunos aprendam a ler. A base desse . separamos as palavras com um espaço em branco por razões ortográficas. muito raramente um professor abre o jogo com os alunos e diz que não basta ligar os pedacinhos. Ora. na língua e se sua forma de escrita está de acordo com as normas ortográficas. logo se percebe que essa técnica causará confusão na cabeça das crianças.

Na alfabetização. sim. mas saber aplicar um conhecimento para realizar uma tarefa. Por exemplo. embora garanta. alguns alunos copiam corretamente o que lhes é solicitado. O método 1 não é capaz de aceitar que o mais importante não é dominar. produzindo escritas absurdas. alguns alunos são exímios repetidores de lições que dominam sem saber o que significam. o conhecimento já dominado. Para isso. Nem sempre reproduzir um modelo garante a aprendizagem. enquanto não provar que já o faz. A repetição é a prática mais comum para se dominar qualquer conhecimento. acabam revelando sua ignorância. o aprendiz é levado a repetir a lição até dominá-la. dizendo que sempre ensina as mesmas coisas e os alunos não aprendem. nunca se questiona o ensino. mas tãosomente o comportamento do aprendiz. uma réplica de algo que o aprendiz pode fazer sem saber exatamente o que está acontecendo. Portanto. Esses professores mostram que usam o método 1. quando precisam aplicar o conhecimento de maneira criativa e individual. e. irá fazer tantas tentativas quantas forem necessárias. pois. fazem sem erros os . decorar é fundamental. repetindo-a corretamente. sobretudo decorar de modo a repetir um modelo dado e que será cobrado como expectativa de resposta. Conseqüentemente. Não é raro encontrar professor que vive se queixando dos alunos.método é. Nesses casos.

e o resultado é uma enorme decepção para ele e. é muito importante e não deve ser confundido com a prática de promover o ensino baseando-se no já dominado. logo chega o dia em que o professor se esquece disso e leva os alunos a aplicarem o que ele achava que tinha ensinado e que o aluno tinha aprendido (fazia tudo tão direitinho). principalmente. escrevem pequenas frases em que só aparecem palavras "já dominadas". o já dominado apenas revela um modelo repetido. ou não fazem nada. conseqüentemente. como acontece no método 1. ou escrevem simplesmente amontoados de letras ou de sílabas geradoras. para o aluno. nas atividades escolares. não chegam <45> a se alfabetizar. A memorização é fundamental no processo de aprendizagem. Alunos que fazem isso raramente chegam a descobrir como o sistema de escrita funciona. Neste. No processo de .ditados das palavras já dominadas. como se decifra algo escrito para ler e. mas não pode ser um truque. O uso da memória O uso da memória. quando se vêem diante de palavras cuja escrita lhes é desconhecida. Esses alunos foram ensinados pelo método 1. mas. Como a escola não pode viver só do que é considerado dominado.

trazendo para a prática do aprendiz todos aqueles conhecimentos necessários para que ele tome as decisões corretas. palestras ou lêem em livros. A hierarquia: do fácil ao difícil O método 1 tem uma concepção de ensino/aprendizagem segundo a qual tudo deve ser hierarquizado. convencem-se. de que a memória não tem vez na aprendizagem. para que o ensino e a aprendizagem caminhem suavemente. o . São duas realidades muito diferentes. disposto numa ordem necessária. querendo fugir desse esquema. São frases feitas de grande efeito e de pouco sentido. repetir padrões do já dominado não é uma prática escolar saudável. É preciso não confundir o memorizar que vem da reflexão de um simples repetir que vem de um exercício vazio de repetição controlada.aprendizagem. alguns professores. Outras vezes. Memorizar é fundamental. e de que aprender é entender e não decorar. como se esperaria de alguém que tem bom senso. graças a argumentos falaciosos que ouvem em congressos. Obviamente. acabam desterrando a memorização do processo pedagógico escolar. a memorização faz parte do processo de reflexão. Às vezes. essa hierarquia precisa ir dos elementos mais fáceis para os mais difíceis. como acontece com a prática pedagógica do método 1. Por essa razão. isto é.

para o processo de ensino. quando se trata do processo de ensino e de aprendizagem? Na verdade.método 1 gosta de atribuir valores às diferentes tarefas que a escola realiza: o professor precisa saber o que deve ensinar <46> primeiro. mesmo em sua forma sistematizada. A questão verdadeira reside no fato de a maioria dos professores e a totalidade das cartilhas considerarem. No entanto. por exemplo. que a letra X é intrinsecamente mais difícil do que a letra A. caso contrário poderá pôr a carroça na frente dos burros. utilizada pela educação nos currículos escolares. essa ordem depende muito mais do jeito de cada professor trabalhar do que da verdade das coisas que ensina. estabelecer uma hierarquia dos elementos que constituem um saber. para poder ler um livro ou escrever uma carta sem a ajuda de outra pessoa. tais afirmações são tão gerais. E difícil. É claro que alguém precisa aprender a ler. até certo ponto. Será que as coisas são mesmo assim. Isso acontece porque partem do pressuposto que . No entanto. que não se aplicam ao que se quis dizer acima. e caberá ao professor seguir uma certa ordem quando for ensinar. a organização hierarquizada é uma atitude esperada. e talvez seja mesmo impossível. é claro que alguém precisa aprender aritmética para poder fazer cálculos corretamente.

O aluno que fala "drentu". achamos difícil escrever. e não ao processo de alfabetização. "estender" ou "extensão". qualquer palavra. Ledo engano. Do mesmo modo vamos achar mais fácil escrever certas letras do que outras. "balde". não há nenhuma palavra fácil. Como a escrita dessa língua é muito diferente da nossa. esses professores estão levando para a prática pedagógica algo que é muito peculiar a eles. Para uma criança que não sabe ler nem escrever. aconselho estudar árabe. no começo. A letra X só é difícil para quem já sabe escrever e tem uma certa prática.escrever palavras em que ocorre a letra X é mais difícil do que escrever palavras em que ocorre a letra A. mas ainda se confunde com a grafia de certas palavras. <47> As dificuldades dos alunos vão mais longe do que em geral imaginam os professores. Escrever "casa" é tão difícil quanto para o adulto alfabetizado escrever "ojeriza". Na verdade. tudo é difícil. Para quem duvidar disso. por exemplo. qualquer palavra é igualmente difícil. "bardi". "andando") tem uma dificuldade . Para ele. porque erramos menos a ortografia com elas. "andano" ("dentro". Somente depois que aprendemos algumas tantas coisas é que vamos descobrir que certas palavras (por serem mais familiares a nós) são mais fáceis de escrever do que outras. A dificuldade do alfabetizando é de outra natureza.

Por exemplo. Além do som de S. e essa dificuldade jamais é suspeitada pelos autores de cartilhas e pelos professores. De acordo com as regras de nossa ortografia. mas. poderíamos escrever "esterno". É preciso. suprimimos o I: "rapaz". de CH ("lixo") e de Z ("exame"). o que é um absurdo. pois. "acharu". por estar entre duas vogais. o som da letra S. e esse som de U precisará ser escrito com as letras A e M: "fizeram".muito séria para acertar a forma ortográfica dessas palavras. nesse caso. Alguns professores acham que a letra X é mais difícil porque pode referir-se a vários sons. a letra X pode ter ainda os sons de KS ("táxi"). uma vez que há o mesmo som S em palavras como "externo" e "próximo". O que há de diferente é o uso das letras na escrita. dependendo do dialeto e de outros fatores lingüísticos. Dizemos "rapais" ou "rapaich". "acharam". se escrevêssemos "prósimo". Por outro lado. em palavras como "caixa". como o som de S ("externo") e o de SS ("próximo"). separar fatos da fala dos da escrita ortográfica. Falamos "todamiga" e temos de saber que há um A que não foi pronunciado. é comum não se pronunciar o I . mas. um aluno fala "fizeru". na hora de escrever. Essas mesmas pessoas que reclamam das dificuldades do X esquecem-se de que uma letra como A pode apresentar muito mais casos de sons diferentes do que a letra X. seria o de Z. mas que deve ser escrito: "toda amiga".

cobrando a mais rigorosa e constante avaliação. estudar coisas que aparentemente são consideradas complexas para aprenderem coisas aparentemente <48> mais simples e mais fáceis. Como o ensino é completamente hierarquizado. tanto para quem ensina. em todos os ramos do saber. desenvolvendo-se passo a passo. o resto não faz sentido. Fáceis e difíceis "aparentemente". quanto para quem aprende. que realmente são armadilhas para os alunos. mas precisaram ir além.que vem junto com o A. mas não de fato. E a lista é longa. porque A é mais fácil do que X. Esses casos. Isso não quer dizer que fossem maus alunos antes. . mas não se pode deixar de escrevê-lo. Na verdade. jamais entram nas considerações daqueles que acham que precisam ensinar primeiro A e bem depois X. do mais fácil para o mais difícil. Muitas pessoas contam que descobriram como realmente funcionavam noções básicas de geometria e de álgebra somente quando aprenderam a fazer cálculos avançados. Controle rígido e avaliação O método 1 necessita de um controle rígido e absoluto sobre tudo o que é feito. é praticamente impossível dizer o que é mais fácil ou mais difícil: é fácil aquilo que se sabe e é difícil o que não se sabe.

A avaliação. contempla apenas o que foi ensinado e constitui-se do que o aluno precisa dominar e repetir. sobretudo para as crianças na alfabetização. Como o acerto é considerado previsível dentro da perspectiva do já dominado. aqui. são os erros que irão mostrar que o aluno precisa parar e recuperar o que ainda não dominou. o que conta são os erros e não os acertos. de repetir o ano todo. Se o aluno revelar que não dominou algum ponto. ganha nota cinco. o método 1 manda que se volte atrás e obrigue o aluno a repetir tudo de novo. E as outras coisas que . o aluno pode revelar dificuldade mais adiante. é preciso verificar a todo instante se realmente o aprendiz dominou o que deveria dominar. não o que ele aprende. só porque cometeu dez errinhos. O problema desse método de ensino é o erro do aluno. que elas não conseguem entender como a escola pode ser tão injusta. àquele ponto de partida em que o aluno é encarado como uma folha de papel em branco. prevista pelo método 1. Se não houver uma avaliação rigorosa e constante.e exigindo que o aprendiz progrida dominando o que foi ensinado. para que o ensino possa dar um passo adiante. no final do ano. voltando àquele zero inicial. Isso é tão ridículo. O aluno escreve urna história de dez linhas e. Na avaliação. até demonstrar que já dominou. mesmo que tenha. atrapalhando a programação do professor e a ordem natural das coisas.

o método 1 manda que se faça imediatamente a fixação da aprendizagem. e em nada contribui para a aprendizagem. fazendo aparecerem erros. como se escreve uma palavra. na alfabetização. Ditado só serve mesmo para avaliar o processo de ensino. naquele momento. precisa fazer cópias para dominar a lição estudada. A fixação da aprendizagem Uma vez constatado que o aluno sabe algo.escreveu certo. É pela importância exagerada e equivocada dada a esse tipo de avaliação. O ditado. visa a detectar apenas se o aluno já dominou ou não o que se pede nas lições. desconsiderando-se todas as demais ocorrências de J e de G que o aluno escreveu corretamente? O método 1 é implacável com a avaliação: errou. que os ditados. Não é pensando que ele vai descobrir. e o resto que fez e fez bem. não conta? Já que errou uma palavra com J ou G. que já dominou um certo conteúdo programático. A fixação da aprendizagem é um reforço na atividade de ensino. tem de voltar atrás e repetir a lição. passaram a ser uma das <49> atividades mais importantes e freqüentes. O aluno não aprende fazendo ditados. as outras trezentas e oitenta letras que foram escritas corretamente. cujo objetivo é fazer com que o já dominado fique sempre consciente na . na verdade.

tendo maiores dificuldades futuras para fixar o certo. Mais raramente. a solução que adota é ignorá-lo. a cópia é a maneira mais comum com que o método 1 trabalha a fixação da aprendizagem. Há. em geral. discutir o erro. acontece uma revisão geral para que o conteúdo novo seja avaliado e fixado dentro do conjunto geral de conhecimentos a que pertence. porque assim ele fixa o erro e depois não consegue mais corrigir.mente do aprendiz. a estranhíssima idéia de que não se pode mostrar o erro ao aluno. o erro é um problema que o método não sabe resolver. Fora isso. Não deixa de ser curioso ouvir uma afirmação muitíssimo comum segundo a qual a professora não pode deixar o aluno diante de uma escrita errada. O que fazer com o erro No método 1. Nesse caso. dando-se preferência àquele tipo de cópia repetitiva e longa. Por isso. Por que as crianças fixariam . Não se discute e muito menos se analisa o que está errado na tarefa do aluno. como naquele momento da avaliação. porque isso levaria o aluno a aprender o errado. Simplesmente ensina-se o certo. sobretudo nas classes de alfabetização. na tradição pedagógica de nossas escolas. Repetir e repetir é o que manda o método 1. o erro serve para indicar que o aluno não dominou algum conhecimento nas avaliações.

apenas o que está errado, não fazendo o mesmo com o que está certo? Não há aí uma certa discriminação? Alguns professores apagam o que os alunos escrevem errado e colocam o certo, <50> na santa e ingênua crença de que escondendo o erro e mostrando apenas o certo, seus alunos aprenderão melhor.

Aprender pelos efeitos O método 1 faz com que o aluno aprenda pelos efeitos, não pelas causas. Se o aprendiz precisa reproduzir o modelo e corresponder às expectativas do professor que ensina, não precisa saber por que acertou ou errou: basta acertar e está tudo em ordem. O método garante a certeza ao aluno de que seguindo as instruções, passo a passo, irá chegar ao resultado esperado. Se acontecer qualquer imprevisto, o aluno não contará com nenhuma ajuda específica que o faça sair do impasse, porque o método não prevê nada fora daquilo que foi efetivamente ensinado e copiado pelo aprendiz. O aluno não pensa no que faz, simplesmente se deixa guiar por um processo de tentativa-eerro. Obviamente, a escola não tem sido tão rígida assim, na prática, mas infelizmente também não tem estado muito longe dessa realidade.

Um bom método de adestramento

Como se pôde observar no quadro descrito anteriormente com tintas um pouco carregadas, o método 1 é fortemente mecanicista, dando tudo pronto para o aluno, esperando que ele siga sempre o modelo proposto. Se tentar inovar, corre o risco de errar e não saber mais retomar o caminho suave e tranqüilo das coisas já dominadas. O método 1 é, na verdade, um excelente meio de adestramento e em geral funciona bem com animais que precisam dominar certas habilidades para desempenhar certas tarefas, agindo sempre de um único e mesmo modo. Porém, as crianças são racionais, e pensam o tempo todo, mesmo quando a escola se esquece de que são seres humanos e, portanto, escravos da própria racionalidade. Tudo o que o ser humano faz precisa de um comando de seu pensamento: isso é sublime e, ao mesmo tempo, terrível. O método 1 não é bom para os seres humanos porque somos dotados da racionalidade e refletimos a todo instante. Quando fazemos isso, temos toda a liberdade do mundo de acharmos o que quisermos, seja lá a respeito do que for, com que idade for, na rua, na sala de aula, na igreja ou em qualquer lugar. <51> Refletir pode desviar o esperado pelo método 1, conduzindo os alunos por outros caminhos não previstos e atrapalhando a vida do professor e da escola. Os alunos que usam mais de sua própria reflexão se dão pior quando são submetidos a um

processo de ensino baseado no método 1. Eles se dão melhor com o método 2, que será comentado logo a seguir.

O MÉTODO 2— VOLTADO PARA A APRENDIZAGEM A base: a reflexão na aprendizagem O método 2 é o oposto do método 1 em tudo e caracteriza-se por estar voltado para o processo de aprendizagem. Leva em conta o fato essencial de que o aprendiz como um ser racional, vai juntando conhecimentos adquiridos pela vida toda, a partir do momento em que nasce. Para isso, usa sua capacidade de refletir sobre todas as coisas. O método 2 é, portanto, centrado na reflexão, oposto ao método de condicionamento. O método 2 concebe a linguagem como expressão do pensamento; o falante a usa de maneira intencional para interagir com os outros. Assim a comunicação é apenas um aspecto desse processo.

A situação inicial Num método baseado na aprendizagem e na reflexão, a situação inicial de cada aprendiz é diferente, porque cada um tem a sua própria história de vida e de conhecimentos. Como diz uma velha recomendação da metodologia, deve-se partir sempre da realidade da criança. Mas o que significa, na prática, partir da

realidade da criança? A escola, nesse aspecto, tem trilhado caminhos muito estranhos, não raramente achando que a realidade dos alunos é a "tábula rasa". Conhecer a realidade e a história do aluno é fundamental para uma prática educativa que respeite o aprendiz como um ser humano em sua plenitude. As classes de alfabetização formam-se necessariamente com um conjunto de alunos com histórias de vida diferentes, sendo, pelas contingências práticas, classes heterogêneas. Uns sabem algumas coisas, outros sabem outras; alguns já aprenderam algumas coisas <52> próprias da escola, outros não. Algumas crianças tiveram préescola e aprenderam os rudimentos da leitura e da escrita, outras nunca estudaram nada. Algumas crianças aprendem coisas em casa, têm lápis, papel, livros, outros nunca tiveram nada disso. Cada aluno tem urna história, e o método 2 vai levar isso em consideração. Como ficar sabendo qual é a realidade de cada um? Em vez de fazer avaliações coletivas — ditado, prova, etc. —, o professor precisará interagir com seus alunos, conversar com eles, deixar que cada um expresse o que sabe, à sua maneira, ou que se cale, porque ficar quieto também é um comportamento revelador. O professor precisará conversar sobre todos os assuntos, inclusive a respeito dos conhecimentos que a escola se propõe a ensinar

aos alunos, para que a aprendizagem e o ensino sejam tarefas compartilhadas entre professor e alunos, através dos mais variados modos de interação. Entre outras coisas, o alfabetizador conversará com os alunos, logo no início, a respeito da história de cada um, da comunidade onde vivem, dos ideais de vida, da escola, da família e até a respeito do que os alunos acham que a escrita e a leitura são nas suas mais variadas formas. Ouvir os alunos é necessário para conhecer a realidade de cada indivíduo, ponto de partida do processo de aprendizagem de cada um. O professor pode ainda pedir para os alunos fazerem desenhos ou rabiscos numa folha de papel para ver como usam o lápis e o papel. Se alguém quiser, poderá escrever. Se alguém quiser copiar algo, também poderá fazê-lo, mostrando suas habilidades. Em suma, desde o começo do ano, o professor precisa incentivar os alunos a falar e trabalhar com lápis e papel. Isso permitirá a ele fazer uma análise dos conhecimentos e habilidades dos alunos, de seu comportamento lingüístico oral e escrito, porque essa é a melhor maneira de ficar logo conhecendo a realidade de cada um. O processo de ensino, segundo o método 2, levará em conta o fato de que cada aluno é diferente do outro, e que, portanto, o ensino não poderá ser somente coletivo, mas deverá em grande parte estar voltado para as peculiaridades de cada aluno ou de grupos de alunos que necessitem do mesmo tipo de assistência

por parte do professor. Isso não significa que haverá somente aulas particulares. A aula é coletiva, mas numa sala de aula podem acontecer concomitantemente coisas <53> diferentes, sobretudo em relação às atividades realizadas pelos alunos. O professor deverá dizer coisas de interesse comum, voltando-se para toda a classe, e outras de interesse particular, nos momentos adequados, ensinando uma questão ou outra a um ou mais alunos, de maneira especial.

Nota Tábula rasa: expressão de origem latina que era usada para significar que deixar limpa a tábula revestida de cera em que se escreviam mensagens breves que não deveriam permanecer escritas durante muito tempo. Hoje, a expressão refere-se à falta absoluta de conhecimento sobre determinado assunto.

A técnica: explicações adequadas Como a base do método 2 é a reflexão, a técnica a ser usada se apóia nas explicações adequadas, transmitidas ao aprendiz nos momentos oportunos. A aprendizagem depende crucialmente de entender o que se quer saber, e quanto melhor e mais abrangente for esse entendimento, maior e melhor será o processo de aprendizagem.

Entender é ter um conjunto de informações que expliquem a natureza, a função e os usos do conhecimento. Isso não se adquire linear nem automaticamente, pelo simples fato de se ter ouvido alguém falar dessas coisas, mesmo que as palavras sejam familiares e o texto, claro e correto. Cada um reage de uma maneira individual à construção do conhecimento, cada um tem um caminho próprio, cada um atribui valores próprios, muito individuais, aos elementos do conhecimento que constrói no processo de aprendizagem. Tudo isso precisa ser levado em conta, porque faz parte intrínseca da natureza humana e, portanto, de cada indivíduo. Dar explicações adequadas requer do professor um trabalho preliminar de descobrir a necessidade de esclarecimento de cada aluno e da classe como um todo. Para isso, o professor precisa ter um preparo profissional de alta qualidade: competência para analisar todas as situações de trabalho escolar que enfrenta na sala de aula, e para tomar decisões corretas como educador e como professor, dizendo aos alunos o que é necessário, da maneira adequada. Infelizmente, muitos professores são, na realidade, mal formados e, conseqüentemente, incompetentes, a ponto de preferirem usar o método 1, que vem com toda a programação curricular já pronta nos livros didáticos. No método 1, a competência do professor pode ficar camuflada pela aplicação da

lição, retirada de um manual qualquer. No método 2, a competência do professor é posta em xeque a cada momento. Dependendo de sua atitude, fica logo muito claro a todos (inclusive às crianças) o fato de um professor ser um profissional <54> competente ou não. O professor tem de procurar saber a razão de tudo o que seus alunos fazem ou deixam de fazer, caso contrário não saberá o que dizer. O professor não pode ter medo de dizer a verdade aos seus alunos. As crianças também gostam de saber as coisas como elas são, também gostam de ser tratadas seriamente. E fazer isso não é tratá-las como adulto; porém, o respeito sem preconceitos é fundamental. Alguns professores, por razões muito equivocadas, acham que precisam explicar tudo metaforicamente para os alunos. Essa é uma atitude preconceituosa para com a capacidade mental das crianças.

O professor como mediador Costuma-se dizer que o professor é um mediador entre o saber e o aluno. Ser um mediador, aqui, é ajudar o aprendiz a construir seu conhecimento, passando a ele as informações adequadas, explicando o que tem de ser explicado. Essas explicações não devem referir-se apenas ao conteúdo

programático organizado pelo professor, de acordo com um currículo, o que na prática representa a atividade de ensino. Devem, sobretudo, estar voltadas para os trabalhos que os alunos realizam por iniciativa própria, como atividade específica de aprendizagem. É dessa maneira que o processo de ensino, através da mediação do professor, interfere no processo de aprendizagem levado adiante pelo aluno. Quando o aluno erra alguma coisa, ou não sabe realizar uma tarefa, precisa ouvir do professor uma análise do caso e receber uma explicação adequada para entender o que fez ou deixou de fazer, a fim de agir corretamente nesses casos e fazer progredirem seus conhecimentos.

O que fazer com o erro No método 1, quando um aluno erra, o professor volta atrás e repete tudo de novo. No método 2, quando uma explicação não serviu para levar um aluno a corrigir um erro ou a fazer determinada tarefa, o professor precisa procurar uma outra maneira de explicar. Não há burrice maior do que a daqueles professores que dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos não aprendem. Procurar explicações adequadas requer saber abordar um problema de muitas maneiras, de ângulos diferentes, seguir caminhos alternativos. Se, apesar de todo

<55> o esforço e competência do professor, ele ainda constatar que determinado ponto não está sendo devidamente entendido por um aluno (ou por uma classe), o que ele deve fazer é passar para o ponto seguinte, sem remorso, sem sentimento de culpa, sem preconceito contra a capacidade de aprendizagem dos alunos. Muitas vezes, para se entender algo aparentemente simples é necessário ter informações complementares, que o professor obviamente tem, mas o aluno não. Freqüentemente, é preciso ter conhecimentos pressupostos ou até mesmo saber relacionar coisas já conhecidas de uma forma determinada para que o novo conhecimento possa ser assimilado e aplicado. Se o professor marcar passo diante das dificuldades, o impasse pode se estabelecer, com sérias conseqüências para o processo escolar. Nessas circunstâncias, o melhor que ele tem a fazer é partir para outra, porque um dia, com ou sem as explicações do professor, os alunos acabarão aprendendo aquela questão deixada incompleta ou mal entendida. Quando os adultos discutem coisas sérias, é muito comum que fatos semelhantes aconteçam: tem-se a nítida impressão de que o interlocutor entendeu tudo errado, e, no debate, a questão é tratada de todas as maneiras possíveis; o resultado acaba sendo o mesmo: cada um sai pensando exatamente o que pensava antes, mesmo diante da evidência estrondosa de uma bela

argumentação. Sem dúvida alguma, as pessoas não se convencem apenas graças a uma bela argumentação. Por que, na escola, as coisas deveriam ser diferentes?

A concepção de aprendizagem A concepção de aprendizagem do método 2 baseia-se nas decisões que o aprendiz toma, levando em conta as explicações adequadas que recebeu. Isso faz com que ele se aventure no mundo do saber e procure a maneira correta de dar o passo seguinte, como conseqüência de tudo o que aprendeu até o momento. Aqui está o grande segredo da aprendizagem: o aprendiz não só aprende o ponto, mas aprende a aprender. A verdadeira aprendizagem proporciona ao aluno generalizar o processo de tal maneira que a intermediação do professor vai, aos poucos, cedendo lugar à sua própria independência e competência para buscar as explicações adequadas por si mesmo e a construir seu <56> próprio saber. Quanto mais cedo o aprendiz chegar a essa autonomia, melhor será para ele: aprenderá melhor, mais rapidamente, mais dados. O método 1 fixa o aprendiz à lição sob estudo, ao currículo, ao programa, ao que o professor manda fazer. Isso segura o ritmo de muitos alunos os quais, apesar de submetidos ao método 1, na prática agem por conta própria,

seguindo o método 2. Para que o aprendiz possa tomar suas decisões, é preciso que a escola tenha um espaço especial em sua programação destinado a esse tipo de atividade. Na alfabetização, é fundamental que os alunos produzam trabalhos espontâneos, façam atividades a partir de sua iniciativa, do jeito que acharem melhor. Mesmo um trabalho com objetivos definidos, como fazer um cartaz ou escrever uma carta reclamando da destruição das florestas ou da poluição das cidades, pode ser realizado de maneira a permitir que a expressão individual de cada aluno encontre liberdade de realização. Avaliação: tudo serve No método 2, qualquer coisa que o aprendiz faça ou deixe de fazer serve como material para avaliação da aprendizagem. Avaliação, aqui, não significa dar nota ou conceito, como no método 1, mas realizar um estudo interpretativo daquilo que foi feito, para verificar o que está correto e o que está errado e por que está certo e por que está errado. A avaliação no método 2 tem como objetivo analisar as decisões tomadas pelo aluno ao fazer o que fez, do jeito que fez, para que o professor possa dar as explicações adequadas e para que o aluno corrija seus erros, melhore e dê um passo adiante na formação de seus conhecimentos. No método 1, a avaliação é sempre circunstancial, localizada, e pondera fato por fato

isoladamente. No método 2, a avaliação leva em conta o processo de aprendizagem, a história de cada um dentro desse processo; é sempre cumulativa, exigindo uma comparação com o que já foi realizado. No método 1, basta constatar o erro, quantificar, dar a nota ou conceito e ponto final. No método 2, é preciso fazer um dossiê com os trabalhos dos alunos para estudar o caminho que o aluno está seguindo ao construir seus conhecimentos e saber que tipo de hipóteses ele faz a respeito das questões que está estudando. Não basta <57> constatar os erros e deficiências, é preciso interpreta-los e discutir o assunto com o aluno. Nenhuma tarefa é um trabalho isolado: faz parte de um conjunto de outros trabalhos que o aluno vem fazendo, e a avaliação precisa estudar cada caso dentro deste contexto maior. A nota é algo que não faz sentido no método 2. Em vez de nota, o método 2 responde com explicações. Esse tipo de avaliação do processo de aprendizagem em andamento, associado à intermediação do professor, incentiva o aluno a dar o passo seguinte, tentando generalizar os conhecimentos que já tem ou fazendo novas hipóteses sobre a nova questão com que se defronta.

Caos e caminhos tortos Um método que privilegie a aprendizagem sobre o ensino

nunca será um caminho linear, bem-definido, será antes um modo de progredir circular. Muitas questões serão tratadas em diferentes ocasiões, dependendo da maneira como o aluno reage e trabalha. O professor não precisa preocupar-se em levar um programa à frente, item por item. No final, se o processo de ensino e aprendizagem for bem equilibrado, os alunos acabarão aprendendo tudo aquilo que constitui a expectativa da escola para determinada fase do processo educativo. Na alfabetização, os alunos acabarão aprendendo a ler, a escrever, enfim, a fazer tudo certo e bonito. Esse resultado, no entanto, só começará a aparecer depois de certo tempo. No método 1, como tudo fica sob o controle do ensino, desde o início os alunos apresentam cadernos muito bonitos, com tudo certinho e no devido lugar, dando a impressão de que estão aprendendo às mil maravilhas. Depois de certo tempo, começam a aparecer os problemas, e o caos instaura-se na cabeça de alguns alunos, para desespero do professor, da escola e dos pais. No método 2, tem-se a impressão, no início, de que se está em meio a um caos, por causa do tipo de trabalho que os alunos fazem. Porém, à medida que o tempo passa, a rotina de trabalho leva os alunos a se organizarem melhor, a classe torna-se mais homogênea e, no final do ano, o que parecia um caos acaba revelando ao professor que valeu a pena. Por caminhos diversos, os alunos acabaram chegando aonde o professor queria que eles

a vida toda. Nesse caso. A fixação da aprendizagem. caso contrário. Isso não quer dizer que tudo o que entendemos (e sabemos) permanece ao nível da consciência o tempo todo. Mas quem sabe verdadeiramente sabe de cor. sabemos como operar com certos conhecimentos. não sabe. <58> Como fixar a aprendizagem Como ficou claro pelo exposto acima. Isso também é saber. e existe outra memorização que é . Existe uma memorização que é intrínseca ao próprio ato de entender e aprender. não precisa "fixar". no método 2. Quando uma pessoa entende algo. E ninguém fica perdido no meio do caminho. o método 2 faz com que o aluno aprenda pelas causas. mas precisamos de auxílio externo para realizar determinadas tarefas. revelando as decisões que os alunos tomaram. e o fato de memorizar todas as etapas intermediárias e procedimentos operacionais é simplesmente um exercício de tornar consciente fatos já entendidos e memorizados. seguindo um processo de reflexão. como acontece com o método 1. ela automaticamente sabe e. não pelos efeitos. o que vale são as hipóteses levantadas nos trabalhos.chegassem. Em muitos casos. portanto. é o outro lado da moeda da reflexão.

simplesmente um ato de tornar consciente uma série de fatos do conhecimento. Os dois tipos de memorização são importantes no processo escolar. Salva-se a ortografia nos cadernos. O que não faz sentido é a memorização como repetição de algo. o aluno aprende primeiro a ler. depois a escrever e somente então passa a se preocupar com a ortografia. para a habilidade de . No início. os cadernos dos alunos mostram que eles logo aprendem a escrever usando apenas as formas já dominadas. costumam <59> aparecer as formas mais estranhas de escrita quando comparadas com a forma ortográfica estabelecida. para isso. Nessa fase. essa prática permite que o aluno passe da habilidade que tem como falante nativo. Porém. OS DOIS MÉTODOS NA ALFABETIZAÇÃO No caso do método 1. mas sacrifica-se a produção de textos reais. escreve a partir das hipóteses que tem sobre a ortografia. o uso real da linguagem. mesmo que. sem conhecimento nem entendimento do que está sendo feito a não ser do próprio ato de repetir. As caricaturas de textos desse método tornam-se pretextos para o uso das palavras já dominadas. No caso do método 2. tenham de abrir mão da habilidade que têm para produzir textos. de produzir textos orais.

Todavia. A culpa será atribuída ao professor de português. no entanto. salva-se o uso real da linguagem. ficará perplexo e não saberá.produtor de textos escritos. no início. Porém. Tem-se a impressão. Com a produção de textos desde o início da alfabetização. No começo. o processo educativo depende do . de muita leitura. de que o aluno nunca aprenderá ortografia. Escrever assim é um erro que a própria escola mais tarde não irá perdoar. Uma boa nota nas avaliações nem sempre garante uma boa educação. as regras do estilo escrito também começam a marcar presença. Aos poucos. Não demorará muito para esse aluno encontrar um professor que diga que ele escreve mal e não sabe organizar um texto de forma correta. como se pode notar pelas observações anteriores. O aluno. continuará dizendo que o aluno não foi bem alfabetizado. A ortografia é algo que se recupera facilmente com o tempo. que acreditava que bastava não errar a ortografia para obter um texto bem escrito. de imediato. por sua vez. será uma simples transferência do oral para o escrito. com a ajuda dos dicionários e. Um método não é uma panacéia que resolve todos os problemas educacionais. quer na sua manifestação escrita. o que há de errado. e este. quer na sua forma oral. isso significa que ele está muito enganado com relação ao significado real da linguagem. principalmente. quando um aluno entende que fazer um texto é simplesmente utilizar as palavras que sabe escrever.

paciência dos pais e uma escola preparada para ser uma oficina de trabalho. embora aparentemente adequada. planejamento A avaliação e a promoção são duas atividades pedagógicas sem as quais a escola não sobrevive. O método 2 exige experiência e competência do professor. Isso parece óbvio e natural para muitos professores. não apenas uma sala de aula onde o professor ensina e o aluno tem de se virar para aprender. mas nem por isso as pratica de maneira exemplar. acostumados com essa prática. mas o método 1 o fará de uma maneira indesejável. é muito importante que essas duas atividades sejam feitas independentemente. Nas nossas escolas a avaliação tem como única meta a promoção. promoção. ou seja.método adotado. os alunos recebem notas pelos trabalhos que fazem para passar ou não de ano. <60> 3 Avaliação. A avaliação deve contemplar um julgamento sobre o que os alunos fazem para aprender e sobre o . No entanto. O primeiro ponto a ser levantado é a confusão que se estabeleceu nas nossas escolas (e em muitas outras no mundo moderno) entre avaliação e promoção. Os dois métodos podem alfabetizar.

Na verdade. facilitando. Nem a avaliação nem a promoção precisam de notas ou conceitos. a questão central não é essa. CAGLIARI. 1996e. NOTAS E CONCEITOS A prática de dar notas ou conceitos é o centro da confusão entre avaliação e promoção. portanto. que as notas de O a 10 permitem avaliar com mais justiça do que o uso de apenas 5 conceitos. um julgamento mais amplo e com menos risco de erros. Algumas pessoas apresentam mil argumentos para dizer que conceitos são melhores do que notas. mas o próprio fato de atribuir notas ou conceitos. para que o ensino e a aprendizagem aconteçam da melhor maneira possível. O surgimento de notas e especialmente dos conceitos deveuse não só ao fato de se avaliar o certo e o errado no trabalho do aluno.que o professor faz para ensinar. como também ao fato de se premiar com um elogio o aluno aplicado aos estudos e castigar expondo ao vexame o aluno preguiçoso. porque se poderia contra-argumentar. entre outras razões. esse hábito desvirtuou até mesmo o modo de avaliar. uma vez que os conceitos englobam menos categorias. Este último argumento é o mais comum para . Na verdade. Certamente esse argumento é um contra-senso. A promoção julga da conveniência ou não de um aluno passar para as atividades escolares do ano seguinte.

os alunos não estudam e não existe uma <62> competição que os estimule. Curiosamente. ganha quem consegue atingir tal meta: não adianta o time de futebol ter um excelente desempenho. Os professores dizem que. No boxe. sem as notas. abrangendo todas as atividades. Mesmo atividades que não precisam de julgamento de valor passam a ganhar notas. vemos que nossa sociedade passou a ter a mesma obsessão. que jogava mal. Uma bela mulher passa a ser conhecida como "mulher nota dez". Tudo pode ser traduzido em valores de O a 10. Como a escola educa para a sociedade. a exemplo da tradução do título de um filme. Como o objetivo é muito claro. Por ocasião da última Assembléia Constituinte. as notas são menos encontradas justamente nos esportes e jogos. até os deputados e senadores passaram a ganhar notas de acordo com o seu desempenho. compulsória nas atividades escolares e estendeu-se por todos os níveis. contam-se pontos. Alguns acham que as notas são essenciais até para manter a disciplina. Ainda existem professores que reprovam por indisciplina. como um jogo social. se no último minuto o adversário. mas não sem razão. A necessidade de dar e receber nota tomou-se. de acordo com qualquer parâmetro.justificar o uso de notas e conceitos. mas um nocaute basta para qualquer . com o tempo. faz o gol da vitória.

Nos concursos de seleção. dos estudos? <63> . Isso é muito útil num concurso ou numa competição esportiva. Neste último caso. porém. Em algumas escolas. estão participando de uma competição. vê-se claramente a relação entre notas e competitividade. da série. Como se vê. Na patinação sobre o gelo e em muitas formas de ginástica olímpica. simplesmente. quem é o campeão? Será esse o objetivo da escola. é outro: será que os alunos. as notas servem também para indicar o campeão da turma. da educação. as notas servem para classificar e indicam o nível do desempenho de cada um na competição. ou seja. quando se pretende fazer uma seleção a partir dessa classificação. uma vez que o objetivo dessa atividade é apontar o campeão. sobretudo.lutador vencer. As notas. de uma seleção para ver quem fica e quem é excluído ou. o melhor de todos. Nosso problema. quando estudam. o júri dá notas baseado na realização de determinadas tarefas e na perfeição com que elas são realizadas. a situação é semelhante: é preciso classificar para admitir um certo número de pessoas e excluir as demais. Nesse sentido. funcionam bem quando se trata de classificação e. da escola. as notas estão por toda a parte. refletindo um julgamento de valor.

Nas escolas da . Será que estudar é uma competição em que é preciso ganhar. O fato de que alguém é melhor em determinada tarefa não significa que é preciso desprezar todas as demais pessoas que não sabem fazer com a mesma perfeição. a partir da capacidade de cada um. é comum haver competição. cada um se especializa naquilo que se julga melhor. fazendo determinadas tarefas. Uma análise das ocupações de trabalho em sociedade ilustra bem o que se disse acima. o uso de notas nas atividades escolares parece deixar bem claro que a escola optou por esses objetivos. Cada um cumpre o seu dever da melhor maneira possível e a existência de diferenças é uma característica da própria sociedade. pela própria natureza das atividades da escola. senão se acabam as chances de continuar? Será que não se pode estudar por ideais mais nobres? Será que a escola não pode ter objetivos voltados mais para a formação e menos para a competição? Em qualquer ambiente escolar. com mais arte e perfeição do que outras. Quando se reúnem muitas pessoas. logo fica evidente que algumas fazem melhor. E a comparação mostra quem é melhor e quem é pior nisso ou naquilo. Pode haver promoção escolar sem competição através de notas? A promoção depende de como se faz a programação escolar e dos objetivos que se pretende alcançar.Na prática. Na vida.

a nota é fruto do que o professor ensinou e que acha que o aluno precisa reproduzir em seu trabalho. Essa prática de aplicar provas determinou o sentido que a avaliação e a promoção passaram a ter na escola. A nota só entrou na escola quando a prática pedagógica tirou a aprendizagem como alvo e colocou o ensino em seu lugar. Ou seja. É por essa razão que as notas não avaliam o processo de aprendizagem do aluno ou sua esperteza intelectual. mas simplesmente sua capacidade de reproduzir ou aplicar um modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. à concordância e a uma <64> certa lógica no desenvolvimento do argumento. testes e exames. deixando de lado as opiniões individuais. Mesmo quando um aluno faz uma redação livre. Basta fazer uma análise de provas. Essas formas de avaliação exigem que os alunos repitam para o professor o que este lhes disse. as notas surgiram quando os alunos começaram a ter de reproduzir o que o mestre ensinava. principalmente no que se refere à ortografia.Antiguidade não fazia sentido reprovar alguém: as pessoas iam para discutir idéias e muitas vezes cada um defendia seu ponto de vista contra o do mestre. . para descobrir que essas avaliações nada mais são do que um exercício de "faça segundo o modelo". do jeito que era ensinado.

como a própria escola encarrega-se de marginalizar grande parte das crianças de 7 a 14 anos. Não só não há escolas para abrigar toda a população necessitada. Assim. o que significa que. é um desrespeito não só à criança como também à Constituição. No caso. por exemplo. Certamente. a promoção não deveria sequer ser objeto de preocupação da escola. servindo apenas para mostrar para os demais países que o Brasil também se preocupa com a educação. julgadas inaptas para o trabalho escolar. . Aliás. a não ser em casos muito excepcionais. talvez por motivo de saúde ou de trabalho. Uma pedagogia sadia e lúcida recomenda que a promoção seja automática. no fundo. depende da avaliação. Intui-se que uma lei como essa existe para não ser cumprida. seria candidato à repetição de ano o aluno que não tivesse assistido. a pelo menos metade das aulas. É muito confortável saber que o artigo da Constituição brasileira que diz que toda criança dos 7 aos 14 anos tem direito à escolarização não faz nenhuma menção a notas nem avaliações. também não se pensou que uma pessoa pudesse ficar durante 7 anos na primeira série simplesmente porque tem o direito de escolarização garantido pela Constituição.PROMOÇÃO AUTOMÁTICA A promoção é feita a partir dos resultados das notas. desde que não tivesse compensado essa falta com conhecimentos escolares adquiridos fora da escola.

mas para livrar-se de mais uma competição intelectual. Uma análise honesta do que de fato acontece com o atual sistema de avaliação mostra que um aluno pode ter nota. deixando a idéia de formação. num plano secundário e mesmo dispensável. O aluno estuda não porque é importante para a vida. Nesse caso. Algumas considerações bastam para esclarecer esse ponto. no sentido pleno da palavra. Quantas vezes um aluno lembra logo depois da prova . Pessoas que apresentam patologias deveriam ter uma escola especial para receberem uma formação adequada. faz menos sentido ainda falar em reprovação. assim como errar nem sempre significa que ele não estudou ou não aprendeu. <65> Alguns professores ficam chocados quando ouvem dizer que o rendimento escolar. não é razão suficiente para reprovar alguém. a nota serve para que o interesse em passar de ano (ganhar diploma) se torne o objetivo maior da educação.AVALIAÇÃO E RENDIMENTO ESCOLAR O rendimento escolar não é razão suficiente para reprovar ninguém. embora haja muito mais a ser dito. Em primeiro lugar. Acertar nas provas nem sempre significa que o aluno aprendeu. expresso por notas ou conceitos. passar de ano com louvor e não saber o conteúdo da matéria.

Num país como o Brasil. dizer isso é uma piada. Por outro lado. mas ao longo da vida. que esses alunos estudam apenas para ganhar nota e passar de ano. talvez. que fazem questão de se esquecer de tudo. entre outras coisas. até o diploma? Essa atitude é um alarme para a educação e significa. uma vez que piorar o ensino é impossível. Esse será o típico cidadão que jamais se interessará pelos estudos depois de diplomado. como aprimoramento pessoal e profissional. De nada adianta o aluno dizer para o professor no dia seguinte que ele sabe a lição na ponta da língua. então. depois de terminada uma prova. porque a nota já garantiu a promoção e.como se resolve uma questão? Mas. Estudar não é uma atividade que se faça apenas na escola. O tempo da avaliação é irreversível. porque agora já conseguiram nota necessária para serem aprovados? Quantos estudantes esperam as férias para rasgar os apontamentos. Qualidade de ensino e motivação A falta de nota não é responsável pela baixa qualidade do ensino. A avaliação não volta atrás. não para a nota. como irremediável é a nota. quantos alunos chegam mesmo a dizer. A educação precisa modificar sua visão de si própria. queimar livros e tratar de esquecer a escola. A qualidade do ensino se . já não há mais tempo. E preciso educar para a vida.

Professor que não faz isso. também inconcebível do ponto de vista pedagógico. Os alunos são vítimas desse processo. alguns professores pensam que seu trabalho (ou o do colega) perde a seriedade. quer na ação do professor como educador. fica sem controle. E nada disso tem a ver com notas. Alguns diretores até consideram que professor bom é aquele que passa muita prova e dá muita nota baixa.consegue com um trabalho <66> competente. . Como pode ser diretor de escola urna pessoa com essa mentalidade? Avaliação e castigo escolar Se alguém quisesse fazer um livro sobre a vida na escola. Se o professor nunca passar uma prova. os alunos não estudam. uma outra perspectiva de trabalho escolar. Pelo menos com medo das provas. Os alunos acabam tendo esse comportamento porque a escola não deu a eles. desde cedo. não culpados. se não houver provas exigentes e notas baixas. é dizer que as notas servem de motivação para o aluno. que gosta de matar o tempo. eles estudam um pouco. passa a ser avaliado como alguém irresponsável. quer com relação ao conteúdo técnico das matérias. Ainda nessa linha de raciocínio. Outro argumento.

Já ocorreram até casos de suicídio devido a notas e reprovação escolar. comprometendo traiçoeiramente a promoção de alguns alunos e instalando um ambiente de guerra. Em troca. Por fim. Surpreende-os com provas relâmpagos para complicar ainda mais a relação entre ensino e aprendizagem. um tesouro em comportamentos patológicos e um sem-número de casos trágicos daí decorrentes. embora seja ela a principal causadora dessas tragédias. nas provas e notas. os alunos revidam com uma enorme bagunça nas aulas e nas dependências da escola. três questões são tão longas que exigem dos alunos um tempo que eles não vão ter para . três questões são mal formuladas para enganar de certo modo e confundir <67> o aluno menos esperto. Com o aumento das irregularidades de comportamento. O drama que pais e filhos passam a ter nas famílias por causa das notas é algo de que a escola nunca quis tomar conhecimento. usando sua arma terrível que é a nota. Alguns professores elaboram provas já sabendo quais os resultados que irão obter: duas questões são escolhidas a dedo para que ninguém acerte. o professor se volta de novo contra os alunos. se sentirem humilhados e castigados. cria-se na escola aquele famoso clima de vingança mútua: professor faz prova para os alunos ganharem notas baixas.encontraria.

e equivale a discutir se existe uma avaliação justa. a não se deixarem enganar pelas aparências.responder direito e de maneira completa.. Uma prática semelhante realmente dispensa qualquer tipo de prova e nota. Este acompanhamento é a melhor forma de avaliação. mas com pequenas armadilhas na escolha das palavras. Um professor que acompanha de perto o trabalho de seus alunos na sala de aula acaba percebendo o que eles sabem e o que não sabem. Acreditam que. A convivência mostra ao professor quem são de fato seus alunos. Filosofar sobre a justiça ou não das notas e conceitos é uma discussão bizantina. Gostaria. uma perda de tempo. duas questões de resposta fácil. estão ensinando seus alunos a estudarem direito.. aluno por aluno. por fim. mas o próprio fato de dar . Como vimos. existem muito mais coisas por trás dos testes e critérios utilizados na avaliação. não obstante. de dizer que o problema não está em haver ou não um teste objetivo ou um critério bem-definido para se atribuir uma nota justa. Essas informações são cruciais para o professor planejar adequadamente suas aulas e dirigir os trabalhos do aluno para que ele progrida. Esses professores se gabam quando seus alunos erram ao responder as coisas mais banais da matéria. e a mais honesta. dessa forma. cujo envolvimento com as notas mostra que não é a maneira como a nota é dada que faz justiça ou não.

o que dá uma porcentagem de 3 1.notas. a reprovação não vinha do cálculo de acertos e erros. Na verdade.57% de erros contra 68.43% de acertos nesta frase. uma das mais problemáticas do texto. O professor dizia que não podia aprovar o aluno que tinha escrito "mecadio" em vez de "mercadinho". a produção de crianças que tinham sido reprovadas e contando minuciosamente os acertos e os erros. ou "piçoa" em vez de "pessoa". o professor achava que estava tudo errado. Numa frase como: "Ze piriri fio uomino <68> mecadio" ("Zé Piriri viu um homem no mercadinho"). (Uma contagem mais rigorosa mostraria que há 12 erros e 26 acertos. O valor dos cálculos na avaliação Algumas vezes ouvi professores alfabetizadores dizerem que um aluno que acertasse mais de 70% da ortografia das palavras teria condições de passar de ano.) Se os professores tivessem olhos para ver também o que os . constatei que quase sempre os alunos tinham um índice de acerto maior do que o mínimo exigido. mas da qualidade dos erros. Obrigado a contar os erros de ortografia pelas letras — o que é mais justo — achou 8 erros e 18 acertos. porém. dizendo que havia apenas uma palavra certa. Analisando.

cada um tem uma história de vida diferente e apresenta uma realidade escolar peculiar. que deve estar sempre presente na escola e na vida em geral. Passar a mesma prova para todos os alunos de uma classe. O erro é sempre muito chocante. A avaliação é sempre uma atividade voltada para cada indivíduo de maneira específica. Assim como a promoção não precisa de notas. a avaliação deve ser uma análise e interpretação do progresso do aluno. O importante é que todos cresçam. AVALIAÇÃO SEM NOTA Tirar as notas da escola não significa acabar com o processo de avaliação. em que o professor manda e os alunos obedecem. porque cada um é diferente dos demais. Somente aquele tipo de ensino massilicante. trabalhando e fazendo o que tem de ser feito. leva um professor a aplicar a mesma prova para toda a classe. também a avaliação não precisa delas. começariam a ver as notas com outros olhos. Na escola. O progresso de um aluno não precisa ser igual ao de outro.alunos acertam. O professor também deve se auto-avaliar. A avaliação é uma atividade importante. é desconhecer a realidade de cada aluno. que todos os alunos . sobretudo nas primeiras séries. mas os acertos não costumam despertar entusiasmo nos professores. Não é porque o professor ensinou algo. uniformizante.

outros por iniciativa própria sob a supervisão dele. para quem quiser ver. aplicado à solução de algum problema. A escola precisa trocar as provas. enfim as notas. aprendeu e fez inúmeras coisas interessantes. não para passar de ano. alguns sob orientação direta do professor. <69> O trabalho substitui a nota Uma escola sem nota precisa. Se a escola incentivar os alunos a produzir trabalhos. na forma de provas ou chamadas. Através de uma prática intensa de realização de trabalhos. Não é porque o professor ensinou. uma reprodução do modelo apresentado. a história da sua educação naquela série e constatar o quanto progrediu. que já tem o direito de cobrar de seus alunos. os testes. em primeiro lugar. como um aluno começou sem saber muito e. Em vez de boletim de notas. OS professores deveriam ter arquivos para guardar os trabalhos que os alunos realizaram ao longo do ano. No final do ano letivo. Nesse clima pedagógico. o . depois de uns tantos meses de aula. fica muito fácil para o professor provar.aprendem do mesmo jeito. o próprio aluno poderia ver. e se esses trabalhos forem guardados. por trabalhos que os alunos irão fazer. mudar seus objetivos e adotar um processo de educação para a vida. o que conta é o trabalho sério do professor e do aluno. como conteúdo específico ou como conhecimento derivado. nesse arquivo.

professor tem condições de estudar o processo de aprendizagem de cada um de seus alunos e orientá-los melhor. levando em conta tudo o que o aluno fez ou deixou de fazer. e o treina a se autoavaliar e a refletir criticamente sobre o próprio trabalho. além de ajudá-lo. Somente quem possui um conhecimento técnico sofisticado é capaz de conduzir um processo de avaliação contínuo durante o ano todo. Alguns alunos nem sequer chegam a desconfiar de que podem errar por falta de um trabalho de avaliação acompanhada pelo professor. quando <70> realizam suas tarefas. porém. o professor ensina ao aluno que avaliação é um ato contínuo. A escola deve formar pessoas competentes não só para dizer e fazer. paralelo a tudo o que se faz. Com isso. servirá para o professor organizar melhor suas aulas futuras e adaptar seu programa de trabalho à realidade do dia-a-dia. Esse tipo de avaliação. como também para julgar . Auto-avaliação e autocorreção Uma avaliação que acompanha o processo de alfabetização de cada aluno. exige que o professor conheça profundamente o assunto que ensina para poder analisar e interpretar os resultados encontrados nos trabalhos e propor soluções e melhorias. durante o ano escolar.

o professor do ano seguinte.o que os outros e o que elas próprias fazem. apesar das provas e das notas. confundiu o predicativo do objeto direto com outra função sintática ou. em vez de reclamar do colega. Analisando friamente. não se tem garantias de que ele aprendeu de fato o que estudou no ano anterior. . que o aluno errou o sujeito da oração. Mesmo hoje. Se um aluno não aprendeu direito um ponto num ano. tem de assumir seu papel e ensinar a esse aluno o que ele precisa saber. constata-se que alguns alunos foram reprovados porque cometeram certos erros em suas provas. mas também os demais. Portanto. a promoção automática não precisa se preocupar com a hipótese de um aluno não conseguir acompanhar a matéria no ano seguinte. incluindo não só os da alfabetização. para ensinar o que acham que deve ser ensinado. por exemplo. partirem da realidade de seus alunos. no começo do ano. que conhecimentos tão importantes eles envolvem para que um aluno repita de ano? Encontramos. O aluno na série seguinte Se todos os professores. Uma programação geral deve distribuir conteúdos básicos para serem ensinados ao longo dos oito anos do primeiro grau. quando um aluno é promovido. tem-se um argumento a mais para a promoção automática na escola. Quais serão esses erros.

1993c. ou qualquer dessas coisas que se tomam objeto de perguntas fatídicas nas provas e testes. além de causar danos emocionais nos alunos. senão dizendo que é fruto de uma ingenuidade e uma ignorância que só poderia vir de uma escola tão desorientada como a nossa? < CAGLIARI. muitos alunos já foram reprovados. Tal reprovação. Na alfabetização. não soube resolver um binômio de segundo grau. ocasiona danos financeiros às famílias e ao governo. Como avaliar essa avaliação. Por causa de um predicativo do objeto direto. os erros de ortografia prevalecem como causas de reprovação. um erro de ortografia ou o binômio de segundo grau mal resolvido numa prova. A escola não sabe dimensionar esses fatos nem mede as conseqüências do que faz.mesmo. > Será que vale a pena criar tantos problemas por tão pouco? O mundo não vai cair se o aluno não aprendeu o que é predicativo do objeto direto ou como resolver um problema de álgebra. <71> O círculo vicioso de quem não aprende A avaliação por meio de testes e provas muito freqüentemente cria um problema sério para os professores: eles acabam acreditando que aquela forma de avaliação é de fato um espelho .

a escola não sabe avaliar para corrigir e ensinar. A formação de arquivos com os trabalhos realizados pelos alunos é o material de que o professor precisa para poder avaliar o progresso dos alunos. o professor pensa que ele não aprendeu e repete tudo de novo. Não acontece simplesmente porque alguém decretou uma lei ou uma norma. alguns professores dizem que ensinam sempre as mesmas coisas e os alunos nunca aprendem: isso mostra que esses mestres não são muito espertos. Agir assim requer uma mudança de atitude. pode ficar condenado a não aprender nada. Por isso. esperando que um dia o aluno devolva o que foi ensinado do mesmo jeito como foi passado. UMA NOVA VISÃO DA AVAHAÇÃO E DA PROMOÇÃO Como vimos. O processo de aprendizagem não funciona assim.do processo de aprendizagem. Deve fazer parte das convicções pedagógicas mais . E se o aluno vai mal na prova. Muitas vezes. Ora. se o aluno fica marcando passo em algumas idéias e não tem a chance de ver outras. para aprender adequadamente um ponto é preciso avançar bastante na matéria. mas somente para promover ou não o aluno. Por que não ensinar algo diferente? Talvez assim os alunos aprendam.

de que haveria apenas o aumento do período de alfabetização de um ano para dois. Muitos professores gostariam de mudar radicalmente sua prática pedagógica. A idéia mais elaborada contemplaria a promoção automática para todo o ensino fundamental e médio (primeiro e segundo graus). Se o patrão exige que o professor dê notas a seus alunos. e não através de provas e testes padronizados. A implantação do ciclo básico teve mais a pretensão de começar uma discussão sobre o estado da educação do que estabelecer a idéia. mas encontram obstáculos nas normas e até mesmo no comportamento de diretores <72> supervisores e orientadores pedagógicos. e isso é altamente educativo e uma excelente maneira de o aluno e o professor conduzirem o . ele pode até agir assim. dentro de suas possibilidades. Ninguém pode reclamar disso. que muita gente passou a ter.profundas do educador. não pode dar outra nota senão 10 ou A. porque afinal de contas essa nota é mais do que justa: cada um fez o que devia. pesquisando. Um professor que incentiva seus alunos a trabalhar nas aulas. mas certamente isso será feito com base numa avaliação do progresso de cada aluno e de seus trabalhos. sem mencionar a tradicional queixa dos pais. fazendo todo tipo de atividade escolar.

É algo sério. em vez de fazer uma análise das dificuldades do aluno e orientá-lo de maneira específica. considerando uma tarefa do professor. que precisa ser feito com responsabilidade. Infelizmente.processo escolar. é porque o professor fracassou: não é possível que um ser humano não aprenda a ler durante um ano de escola. esse é um ponto muito grave: se o aluno não aprendeu a ler. isso acontece porque os professores não sabem lidar com esses casos: ficam repetindo sempre as mesmas coisas. sem . uma obrigação profissional sem conseqüências educacionais. Talvez não saibam reproduzir o modelo de maneira exata e completa. Todos eles aprendem alguma coisa. e isso basta. Estudar é outra coisa. se um aluno não aprendeu a ler. o que vai fazer depois? Em primeiro lugar. > Fazer recuperação é uma tarefa desnecessária se na atividade do professor a recuperação estiver presente todos os dias. como uma forma de respeito que cada pessoa precisa ter consigo própria. Na alfabetização. < CAGLIARI. A necessidade de um período de recuperação surge somente quando o professor ensina seguindo seu programa. Outra questão que perturba muitos professores é o que fazer com quem não aprende. os alunos aprendem. como deve estar. Os alunos podem ter notas sem ligar para isso. Quando o professor ensina com competência e seriedade. 1998a. mas alguma coisa eles aprendem.

. Então. no qual as questões básicas da linguagem fossem tratadas através de um processo de reflexão sobre elas.) deveria abandonar completamente a gramática normativa e desenvolver um trabalho epilingüístico. Para os repetentes incorrigíveis.. faz uma prova e recomenda uma recuperação para aqueles que tiraram nota baixa. a única solução que visualiza é a evasão escolar. Apresentamos adiante uma sugestão de como o ensino deve ser abrangente. de vez em quando. principalmente no ensino fundamental (primeiro grau). levando em conta as principais áreas da lingüística moderna. Por causa da variação lingüística. Para os piores. e os professores deveriam aproveitar essa ocasião para deixar bem claro o caminho que a instituição espera oferecer aos seus alunos nos anos de sua escolaridade. O PLANEJAMENTO ESCOLAR A questão das notas e da promoção exige uma visão além da série em que o professor atua. As escolas costumam fazer seu planejamento. especialmente se for na primeira série. sabemos que uma língua não dispõe de normas (gramática normativa) que controlam o .ligar para o que acontece com seus alunos. recomenda <73> uma mudança para a classe especial. Um planejamento do ensino de português (deixando de lado os estudos literários.

usando apenas a intuição do sujeito falante e conhecimentos básicos sobre a linguagem. Ao processo de reflexão sobre os fatos da linguagem sem "compromissos" preestabelecidos por determinada teoria. deduzindo explicações e regras a partir de conhecimentos que vão sendo adquiridos na escola e da intuição que qualquer falante nativo tem de sua língua. como têm demonstrado os lingüistas modernos. cada um do seu jeito. Uma gramática descritiva apóia-se em teorias específicas. chama-se epilingüismo. usam a linguagem.certo da norma culta e o errado das variações dialetais. e sim regras (gramática descritiva) que mostram como todos os falantes. num primeiro momento. o seguinte: . Depois o resultado dessa reflexão tornar-se-á uma interpretação exata dentro dos domínios de uma teoria. 74 CAGLIARI. Um planejamento mais detalhado para o ensino fundamental poderia ser. por exemplo. para se chegar a essas teorias e a uma descrição adequada dos fenômenos lingüísticos é preciso refletir sobre a língua. no seu dialeto. 1991a. Entretanto. As aulas de português deveriam ensinar os alunos a refletir sobre a linguagem.

. Treino de leitura em voz alta com pronúncia no dialeto padrão. Leitura de lazer e de pesquisa. Desenvolver o gosto pela leitura individual e a participação em atividades que envolvam o uso da fala no dialeto padrão. Autocorreção da ortografia. Produção de narrativa orais e escritas . Introdução de noções básica de fonética e de fonologia. treinar o aluno na produção de textos espontâneos. 3° ano Estudo mais sistemático de fonética e da variação lingüística. explicar como funcionam os sistemas de escrita. como cartas notícias. Estudo das relações entre linguagem oral e linguagem escrita.Atividades de pesquisa envolvendo leitura individual. História da escrita. Primeiras noções de variação lingüística. Produção de textos de natureza diferente.1º ano Alfabetização: ensinar a criança a lei. etc. sobretudo a ortografia. Visão geral da aquisição da linguagem oral. 2º ano Continuação do trabalho de alfabetização. Produção de textos orais e escritos.

4° ano Estudo mais sistemático de fonologia. por exemplo). Produção de textos orais e escritos. Apresentação das línguas indígenas brasileiras. Introdução à . ou seja. Introdução à teoria da literatura. dos usos da linguagem oral e escrita. Leitura de lazer e de pesquisa. Leitura literária orientada. Estudo das funções básicas da linguagem e da pragmática. Leitura de lazer e de pesquisa. regência e concordância. 7° ano Estudo de semântica lexical e argumentativa. Cuidado especial na produção de textos orais. dos vínculos entre os usos da linguagem e a realidade socioeconômica e cultural das pessoas (dialetos. Produção de textos oriundos de pesquisas. Noções básicas de sociolingüística. 5º ano Estudo de morfologia.Exploração de textos literários. Produção de textos mais sofisticados. 6º ano Estudo de sintaxe. sobretudo poesia. lJabaibo com contos e pequenos romances. Leitura de romances. ou seja.

No ensino médio (segundo grau). tipos de texto e de fenômenos como coerência e coesão) e de psicolingüística (aquisição da linguagem. interpretadas agora segundo uma teoria e . Relatos de pesquisas desenvolvidas pelo aluno. História da literatura. interação lingüística. o que deverá aprender no primeiro ano. a única exigência para sua promoção é saber ler e escrever. linguagem e pensamento). Produção de textos de pesquisa e de obras de modelo literário. percebe-se logo que um aluno precisa apenas participar das atividades escolares normais para ter o direito de passar de ano. Como verá coisas diferentes a cada ano. Diante de um quadro como esse. artísticos e de autores famosos da literatura universal. Leitura de textos científicos. podem-se introduzir teorias lingüísticas adaptadas. História da ortografia. estudando a formalização das regras descobertas <75> no primeiro grau.análise literária. Estudo da história da língua portuguesa. 8º ano Estudo de lingüística textual (estudo da estrutura textual. Produção de textos literários e científicos. Leitura de obras importantes da literatura nacional e internacional. num trabalho metalingüístico.

tampouco saber de cor a forma ortográfica de todas as palavras. haveria um aprofundamento no estudo da linguagem. os alunos deveriam tornar-se pesquisadores. Também não significa que o aluno possa escrever sem se preocupar com a ortografia.formando uma gramática moderna descritiva da língua. AVALIAÇÃO NA ALFABETIZAÇÃO Aprender a ler e a escrever no primeiro ano não significa saber tudo sobre a produção da leitura e da escrita. • Produzir textos espontâneos. desde o primeiro ano. O professor deve deixar o aluno começar escrevendo como ele acha que as palavras são. No terceiro grau (graduação). Na pós-graduação. com vistas a um estudo crítico de teorias. Depois. Em termos mais específicos. deve ensinar o aluno. . não importando os erros de ortografia. através da reflexão epilingüística e da formalização metalingüística. a corrigir a ortografia e a passar a limpo as suas lições. além do aprofundamento de conteúdos teóricos e da especialização de conhecimentos em determinada área da lingüística. a expectativa dos professores alfabetizadores com relação a seus alunos no final do primeiro ano poderia ser a seguinte: • Saber ler algo novo que lhe é apresentado.

Como se vê. A escola precisa saber lidar com as diferenças. É justamente nas diferenças individuais que a sociedade se enriquece e a vida se torna mais interessante. • Escrever com letras de fôrma e com letras cursivas. • Preparar e ler um texto no dialeto padrão. A LIÇÃO DE CASA Uma última observação a respeito de atividades escolares relacionadas à avaliação diz respeito às lições de casa. testes. com o auxílio de um dicionário ou fichário de palavras. Alguns pais pensam que uma escola que não pede lição todos os dias é . notas nem terá dúvida de que assim todos os alunos serão legítimos merecedores de aprovação final. Por outro lado. que não precisará de provas. de modo a eliminar os erros de ortografia. a escola não pode fugir à sua missão. Basta fazer um trabalho sério. • Participar das atividades escolares. • Reproduzir oralmente textos que lê (com total liberdade para fazê-lo a seu modo). competente e constante.• Ser capaz de corrigir individualmente um texto. isso <76> não significa que todos os alunos terminarão o ano iguaizinhos.

podem eventualmente fazer uma tarefa ou outra. se não fizer isso em casa. elas tornam-se um absurdo. pouco sabem para ensinar (alguns são até analfabetos) e quase nunca têm tempo para essa tarefa. Um bom planejamento escolar deve necessariamente abrir um espaço durante o período de aulas para os alunos fazerem as tarefas que o professor acha que eles devem fazer. depois de um dia de trabalho. Isso é um absurdo. onde os alunos pobres estudam. principalmente nas primeiras séries. não há livros. em geral. Essa carga de lição de casa já seria uma aberração em escolas particulares. Esses alunos não têm condições de estudar em casa: não há lugar. sobretudo brincar e se divertir. fará na escola. Lugar de estudar é na escola. onde os alunos encontram os professores e os materiais à disposição. obrigando-os a fazer longas e difíceis tarefas. . A criança precisa aprender desde cedo que há hora de brincar e hora de estudar.fraca e ruim. as crianças acabarão passando a infância e a adolescência mal vividas e com raiva justa e imperdoável desses professores irresponsáveis. mas normalmente farão outras coisas. Se a escola não deixar os alunos brincarem em casa. Nas escolas públicas. que infelizmente proliferam em nossas escolas. e seus pais. Em casa. em que estudam as crianças mais favorecidas social e economicamente. lugar para brincar e lugar para estudar. Criança precisa se divertir e.

gastando nessa atividade uma pequena parcela de tempo. e em pretender que os pais ajudem seus filhos a fazer suas tarefas escolares e a estudar as lições. mais importante. Por outro lado. Isso é tarefa exclusiva da escola. geografia. nem que absorvam grande parcela do tempo que o aluno dispõe fora do período escolar. <77> Muitos pedagogos equivocadamente insistem em querer que a família seja uma extensão da escola. como achará tempo para estudar. é inconcebível que um pai ou uma mãe tenha de colaborar com a escola. . do que gastar muito tempo de vez em quando. É mais importante a constância na atividade de estudo individual em casa. Mas. já desde as primeiras séries a escola deve incentivar os alunos a criar o hábito de estudar em casa por iniciativa própria. para ler? O hábito de estudar em casa não deve prever somente assuntos escolares do momento. ensinando aos seus filhos matemática. E. para que isso aconteça.Mesmo em séries avançadas. A medida que vão crescendo. é preciso mostrar ao aluno que ele deve estudar sem envolver seus familiares. o tempo dedicado aos estudos em casa deve ir aumentando e o tempo da brincadeira e do lazer. diminuindo. o professor não pode passar tarefas todos os dias. história ou coisas como predicativo do objeto ou sujeito oculto. Se a criança tem de fazer enormes e complicadas lições. sobretudo para provas e exames.

sem prova. aluno. <78> 4 O método das cartilhas A CARTILHA NA ESCOLA E NA VIDA Já comentamos que a cartilha era antigamente apenas um abecedário. reestruturando-se em seguida em palavras-chave e sílabas geradoras. sem professor. deixando assim de ser apenas um livro para ensinar a ler e tornando-se um livro para fazer exercícios de escrita. deveria satisfazer uma certa curiosidade científica e artística do gosto pessoal. que representava as escritas dos padrões silábicos da fala. escolheu para si. depois tornou-se uma tabela de letras.Pelo contrário. e foram incorporados exercícios gramaticais e estruturais para o aluno . mas para estudar o que ele. sem nota. sem diploma. numa ordem crescente de dificuldades. pelo gosto da pesquisa e da arte e para realização pessoal. A escola que conseguir formar alunos assim é a verdadeira escola. o aluno poderá fazer o mesmo em casa. Então começou a apresentar textos com palavras já estudadas pelos alunos. não para dar satisfação ao professor. Muitos cientistas e artistas famosos desenvolveram grandes trabalhos por iniciativa própria. estudando e trabalhando fora da escola. Quando se ensina a pesquisar e a trabalhar em sala de aula.

dedicada ao período preparatório. As tabelas de letras sumiram e até o alfabeto não fazia mais parte da cartilha. atendendo a pedidos de professores. Muitos professores fizeram sua própria cartilha. Alguns chegaram até a publicar esse material. fazendo ver aos demais colegas como conseguiram uma boa receita para a alfabetização. compram. com material de preparação de aulas elaborado em anos de trabalho. que. Mesmo quando. além de reduzir o trabalho de alfabetização a interpretações subjetivas dos textos . baseada em conhecimentos adquiridos em treinamentos. uma quantidade enorme de cartilhas para uso nas escolas públicas. constata-se que o método das cartilhas tem resistido muito mais às críticas e encontra-se em praticamente todas as salas de aula de nossas escolas. Os próprios órgãos encarregados da educação. em substituição. livrinhos de histórias. os quais. todos os anos. alguns professores deixam de usar as cartilhas. cuidando da prontidão dos alunos para a alfabetização. Tempos depois. recebeu a companhia do manual do professor e uma seção especial. ou através de simples acompanhamento dos modismos da educação. Adota-se esse tipo de livro didático até hoje amplamente. não querendo adotar uma cartilha. compram. Há ainda aqueles professores (e Secretarias de Educação).desmontar e montar palavras. por alguma razão.

nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. o que deixam de fazer.e transformar a sala de aula em palco de fantasia sem fim. ainda são usados por alguns professores para extrair o que antes eles faziam com as cartilhas. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. a habilidade e o bom senso de alguns professores. Como as letras representam consoantes e vogais. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência. sem cartilhas. antes de tudo. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. Como é constituído de letras. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. agora de maneira muito mais confusa e difícil. Por essa razão. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. . exige. A opção por um trabalho alternativo. o que propõem. que se conheça como elas são. como propõem. <80> principalmente. ou seja. o que pretendem e.

Em seguida. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria. do mais fácil ao mais difícil. ilustrada com um desenho. Depois. No entanto. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. No fim. Vêm abaixo algumas palavras novas. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. em que se emprega o princípio acrofônico. aparecem os exercícios estruturais em que . Na verdade.nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. mais elementos novos introduzidos na lição. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. apresenta-se um resumo. essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. escritas com elementos já dominados. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. segundo algum critério escolhido pelo autor. a cartilha acaba num texto. É por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra. e destacam a sílaba geradora. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. em que o alfabeto pode estar ou não presente. Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. Geralmente.

Como é constituído de letras. a não ser com o bá-bé-bibó-bu. Na verdade. . nosso sistema de escrita tem como chave de decifração o princípio acrofônico associado aos nomes das próprias letras. Partir daí para palavras-chave é um pequeno pulo. A única coisa que varia é a maneira como esse "produto" vem apresentado. Foi assim que surgiu o interesse pelo bá-bébi-bó-bu. o que deixam de fazer. O que muitas vezes salva o trabalho escolar nesses casos é a competência.palavras <81> principalmente. que conseguem obter resultados surpreendentes mesmo usando uma ferramenta muito ruim. em que se emprega o princípio acrofônico. apresentaremos a seguir alguns comentários para explicar melhor o que representam as cartilhas no processo de alfabetização. aplicando o bá-bé-bi-bó-bu. E por isso que muitos professores não vêem outra saída para ensinar a ler e a escrever. Uma análise mais cuidadosa mostra que esses livros têm em comum o fato de alfabetizarem através de palavras-chave e de sílabas geradoras. nada mais natural do que estudar o processo de alfabetização através das sílabas. a habilidade e o bom senso de alguns professores. Como as letras representam consoantes e vogais. esse é o aspecto mais interessante das cartilhas. No entanto. ou seja. Por essa razão.

aparecem os exercícios estruturais em que palavras <81> são desmontadas e remontadas com elementos feitos de sílabas geradoras ou de pedaços de palavras. e destacam a sílaba geradora. Depois. a cartilha acaba num texto. aparecem os exercícios de "faça segundo o modelo". em que o alfabeto pode estar ou não presente. ainda. Cada lição trata apenas de uma unidade silábica. mais elementos novos introduzidos na lição. ilustrada com um desenho. Vêm abaixo algumas palavras novas. que é o uso de textos que o aluno deverá saber escrever e ler por conta própria.essa vantagem é prejudicada pela maneira como essas idéias são organizadas em lições e passadas para os alunos. No fim. considerado teste final de leitura e modelo de escrita para introduzir o aluno na etapa seguinte. então. escritas com elementos já dominados. e que pode servir também . Os conteúdos das lições são organizados de forma hierárquica. Geralmente. Ou. Todas as lições têm a mesma estrutura: partem de uma palavra-chave. do mais fácil ao mais difícil. apresenta-se um resumo. um pequeno "texto" para leitura. apresenta-se a família silábica daquela sílaba destacada. Em seguida. cópia e ditado. Um exemplo típico de cartilha é apresentado a seguir. segundo algum critério escolhido pelo autor. Há. que é quase sempre a primeira sílaba da palavra.

uma quantidade enorme de atividades. representados pelas .para exercícios de interpretação de texto. Como se disse antes. Isso está evidente nas atividades de "desmonte" das palavras e reagrupamento das unidades geradoras. uma sílaba. elas são diferentes apenas na maneira como aplicam o bá-bé-bi-bó-bu. aparecem os exercícios de escrita: "minhas primeiras frases" e "minhas primeiras histórias". que vão desde a colagem de letras e palavras recortadas de jornais e revistas. As cartilhas partem de uma concepção de linguagem segundo a qual uma palavra é feita de sílabas. de letras. uma frase é um conjunto de palavras e um texto é um conjunto de frases. essas atividades dão a falsa impressão de que uma cartilha é diferente da outra. mas ficar apenas nisso produz uma imagem distorcida. a linguagem tem esses aspectos. Recheando esse esqueleto. Ora. uma vez que passa a idéia de que a linguagem é uma "soma de tijolinhos". Nas lições mais adiantadas. até propostas de representações teatrais pelos alunos. tudo muito bem ligado. Em geral. A maneira como as cartilhas lidam com a fala e a escrita confunde as crianças. além das tradicionais cópias. A linguagem é basicamente a união de sons e de significados. através das diferentes estruturas gramaticais que exercem funções próprias e que têm usos específicos nos diferentes contextos em que ocorrem.

Com relação às diferenças.sílabas e unidades geradoras. tem-se uma compreensão melhor de como são as cartilhas ou qualquer outro método de alfabetização. Há. A alfabetização gira em torno de três aspectos importantes da linguagem: a fala. Analisando esses três pontos. As semelhanças constituem a base comum que permite agrupar os dialetos em torno de uma mesma língua. porém. que apresentam semelhanças e diferenças. diferenças que representam a fala de pessoas pobres. as crianças aprenderam a falar de outra maneira e. como o fato de algumas pessoas falarem "tia" e outras "tchia". pois são aceitas socialmente. <82> A CARTILHA E A FALA A variação lingüística A variação lingüística mostra como uma língua é composta de inúmeros dialetos. ficando apenas com o que há de mais superficial. para elas. interpretadas de maneira preconceituosa pela . Ora. algumas não causam estranheza. No fundo. e que são. as cartilhas deixam de lado toda a trama da linguagem. pois. Isso faz com que os alunos passem a fazer apenas um uso superficial da fala e da escrita nas suas atividades escolares futuras. a linguagem apresenta-se como um todo organizado de maneira muito diversa daquela que a escola lhes mostra. a escrita e a leitura. portanto. que não usam a norma culta da língua.

Como a cartilha é um livro que se propõe a tratar dos assuntos de maneira gradual. desde o começo. em vez de "dentro". usa-se como modelo de fala uma maneira especial de pronunciar certas letras. Como não domina a norma culta. mesmo que em casa sejam falantes de dialetos que apresentam enormes diferenças com relação ao dialeto da escola. Ou seja. de modo a facilitar a compreensão pelo aluno das relações entre letras e sons em função das formas ortográficas das palavras. pressupõe-se que os alunos acompanhem sem dificuldade o uso da fala padrão. esse . Obviamente. A cartilha simplesmente ignora tal realidade lingüística da sociedade. "dobrar". etc. recebendo dos professores inúmeras correções. percebese que o que se entende por dialeto padrão é na verdade um idioleto do professor. quase sempre lidando com questões muito fáceis. Exemplos: "drento". O aluno vai seguir as lições da cartilha usando.sociedade como um modo errado de falar. uma fala espelhada no modelo apresentado pelo professor. fala seguindo seu próprio dialeto. A dificuldade do aluno surge quando ele se vê obrigado a responder a perguntas formuladas pelo professor. "drobar". acompanhadas ou não da zombaria dos colegas. O idioleto do professor Através da prática dos professores em sala de aula.

"alto" em vez de "autu". como nos ditados ou nas explicações básicas da introdução de uma lição nova. Outro exemplo: o professor faia "ta-té-tchitó-tu". Para ilustrar o que ficou dito acima. "póte" e não "pótchi".modo de falar inventado pelo professor é usado de modo especial em certas atividades do processo de alfabetização. a ideal. de fato. nenhum professor conseguirá manter esse modo de falar o tempo todo. que acabam tornando-se pessoas pedantes fora da escola. pronuncia todas as letras L com o som de L. <83> Por ser um dialeto artificial. etc. etc. sem vida na sociedade. fala como se estivesse usando seu modo de falar coloquial de fora da sala de aula. incluindo aquelas que já passaram a ter o som de U (mesmo na norma culta. Do mesmo modo. Alguns professores convencem-se de tal maneira que aquela fala que inventaram para ensinar os sons das letras é. porque ele também é um falante nativo de uma variedade lingüística (dialeto). "da-dé-dji-dó-du" (sem perceber que palataliza os "tis" e "dis"). pronunciando "balde" em vez de "baudi". Um professor. Quando o professor se esquece de que está passando matéria. levando para o dia-a-dia uma pronúncia estranha de professor de alfabetização. mas ensina que se deve dizer "balde" e não "baudji". exige que o aluno . para explicar aos seus alunos a diferença entre a escrita de L e U. seguem alguns exemplos.

procedendo assim. é aprender que nem tudo o que eles falam fora da escola está de acordo com a norma culta. . mas pressupor tal conhecimento como estratégia para aprender ortografia é algo descabido. não sabe como se escrevem as palavras e. porém. tem o mesmo valor de palavras como "drentu". no entanto. sobretudo daqueles que não são falantes da norma culta em uso na sociedade. de que eles mesmos dizem "balde" porque conhecem a forma escrita da palavra. conseqüentemente. XAVIER & MATEUS. "drobar". etc. Ortografia se aprende de outra maneira. por sua vez. Nota Idioleto: variedade lingüística típica de um indivíduo: não pertence a um dialeto (variedade lingüística comum a muitas pessoas). O método das cartilhas não leva em conta. que a maior dificuldade dos alunos. E verdade que esses alunos terão mais facilidade para escrever corretamente as palavras depois que aprenderem a norma culta. Esses professores acham que.leia "tudo" e não "tudu". 1990. "batata". etc. "uzómitrabaia". Para esses alunos. "pranta". farão com que os alunos errem menos quando forem escrever. Esquecemse. falar palavras como "casa". O aluno. não pode saber quando se usa L ou U: é "falta" ou "fauta"? é "flauta" ou é "flalta"? Somente quem sabe escrever saberá responder corretamente a perguntas como essa.

porque acha que falando naturalmente os alunos não irão aprender a . é preciso silabar (silabar para decifrar a escrita e silabar para ter uma pronúncia bonita. Poderiam aprender a ler usando esse mesmo comportamento fonético. como falantes nativos. Isso faz com que o aluno passe a pensar que. a escola destrói essa habilidade já conquistada.<84> A silabação Outro problema sério que o método das cartilhas (o bá-bé-bibó-bu) traz é o uso da silabação a todo instante. e. Porém. com dificuldades de expressão do falante e de compreensão geral dos textos. aprenderam a agir assim e nisso são perfeitas. para ler. A cartilha ensina os alunos a silabarem e depois quer que eles leiam com fluência: isso é contraditório! As crianças aprendem a falar e dizem tudo de maneira adequada nas mais diferentes circunstâncias da vida. Ao fazer isso. descaracterizando a fala natural. o ritmo e a entoação (para não falar de outros elementos prosódicos da fala) ficam totalmente modificados. justamente porque. de quem fala assim. sobretudo. Tudo gira em torno da silabação. com conseqüências como pedantismo e preciosismo. bem-articulada). Alguns levam até para a própria fala essa pronúncia silabada.

nesse momento. porém. mas saberá que a fala funciona diferentemente da ortografia. ignora esse fato e. a própria fala.grafar corretamente as palavras nem a ler no dialeto padrão. > A escola deveria aproveitar essa habilidade de percepção da fala que as crianças têm para explorar a linguagem oral cada vez mais e fazer com que essas análises se tornem conhecimentos solidamente estabelecidos. a não ser através da escrita ortográfica. como única referência de conhecimento já adquirido. A cartilha. Elas observam demais a própria fala. <CAGLIARI. Observando a fala para escrever Quando vão aprender a ler e a escrever. os alunos já não conseguem sequer analisar a própria fala ou a de outras pessoas. falando possíveis pronúncias de professores alfabetizadores. E uma pena. tendo como modelo a forma escrita das palavras e não a realidade fonética. porque o aluno não ficará mais tentando achar a forma ortográfica. Há um equívoco educacional nessa atitude escolar. Isso é importante e servirá como um recurso significativo para se entender muitos outros aspectos da natureza da linguagem. Até para aprender ortografia é uma excelente estratégia. aos poucos. Depois de certo tempo. as crianças têm. induz os alunos a interpretarem os fenômenos fonéticos da fala. 1989b. É muito importante passar da .

observando a pronúncia de palavras como "próximo" e "extra" (para os que falam "éstra" e não "échtra"). Como a cartilha está completamente equivocada a respeito do funcionamento da fala e como a maioria dos professores não recebe uma formação lingüística adequada. muitas explicações relacionadas a certos erros da fala ou da escrita que alguns alunos cometem na alfabetização chegam às raias do ridículo. como aquelas relativas às famosas trocas de letras. como se pode comprovar. Outro fato notório é que a cartilha considera a mesma coisa o BA de "banho" e o de "batata". a cartilha precisa mudar radicalmente sua postura diante da linguagem oral. eles representam um único som. em particular com relação à fonética. porque confundem fatos da fala com fatos da escrita. em que se distinguem o que alguns professores chamam os sons S e SS quando. Confusão entre fala e escrita As cartilhas apresentam praticamente a cada passo erros grosseiros de fonética. Eles acham que os alunos têm problemas . Um exemplo clássico encontra-se na interpretação dos valores fonéticos da letra X. Dificilmente se encontra um professor que faça uma análise correta desses erros. na verdade.habilidade de falar naturalmente uma língua para a de ler textos com fluência: para tanto.

etc. eles não são capazes de ouvir direito e têm dificuldade em memorizar. que não sabem observar corretamente as letras. Acontece. por exemplo. os professores alfabetizam e os alunos aprendem (pelo menos alguns). exigindo que o enunciado seja repetido inúmeras vezes. "vixrrabzó" (com a letra X representando o som de CH). é verdade. Em primeiro lugar. Não sabem se existe ou não um I depois do X. que a escola não pode adotar essa postura: ela não faz sentido. E isso. como as pronúncias de "vaca" e "faca". Haverá sempre aquelas pessoas que acabam concluindo que. que os alunos falam errado porque vivem constantemente distraídos. que não são capazes de memorizar diferenças elementares. de quem eles tanto reclamam. <86> trocam V por F. Z por 5. porém. B por P. exatamente como fazem seus alunos. é necessário admitir. apesar de todos esses problemas. estranham se lhes é perguntado se o RR é surdo ou sonoro. Se podemos ter um . A incompetência desses professores fica evidente quando se pede para que analisem (ou escrevam) palavras inventadas (sem ortografia definida). como.auditivos (há sempre uma deficiência qualquer quando aparece um erro na alfabetização). O pior de tudo é que esses professores nem sequer são capazes de entender os erros que eles próprios cometem.

A CARTILHA E A ESCRITA A cartilha moderna apresenta um método de alfabetização baseado na aprendizagem da escrita (e não da leitura.ensino decente. Até a fala dos professores que seguem a cartilha imita a escrita e não a linguagem oral dos falantes nativos da língua. na sua essência. como antigamente). p. os . Tudo na cartilha gira em torno da escrita. Essa visão centrada na escrita será levada pelos alunos até o dia em que puderem estudar seriamente lingüística e aprenderem que a escrita é apenas uma forma de representação gráfica de alguns elementos fonéticos da linguagem e esta. 94-117. 1984b. por que nos contentarmos com um ensino indecente? < CAGLIARI. no qual se relata uma pesquisa realizada a partir de um ditado especial feito para professores alfabetizadores e os resultados obtidos. A escrita prevalece sobre a fala Depois que a cartilha passou a fazer parte da escola. é oral. > Veja "Ditados e ditadores" (CAGLIARL 1990.

sem passar pela organização da linguagem humana. É uma ilusão pensar que se pode passar diretamente da decifração da escrita para o pensamento puro. perfeito. A palavra . Infelizmente esses são grandes preconceitos de nossa cultura. nada mais é do que a união de significados com sons da fala. ao passo que a fala começou a ser considerada algo vulgar. gire em torno dela. constata-se que ela não sabe quase nada a respeito dos sistemas de escrita e. deselegante. uma linguagem cheia de erros e falhas. e decifrar é devolver o texto escrito à forma oral de realização da linguagem. As pessoas esquecem-se de que sem a linguagem oral sequer poderia haver linguagem escrita.estudos sobre a oralidade ficaram praticamente excluídos: tudo é feito por escrito. Embora a cartilha tenha em tão alta estima a escrita e faça com que tudo. A escrita requer decifração para ser entendida. <87> a qual. portador do pensamento lógico e literário. A escrita. no processo de alfabetização. pior ainda. divulga muitas idéias estranhas e erradas a respeito desse assunto. incapaz de traduzir o pensamento mais sofisticado da cultura. passou a ser considerada algo nobre. na sua essência mais profunda. então.

Todavia. Podese até ter uma frase ou um pequeno texto. tirase o significado total do texto. é algo muito confuso e de difícil definição e manipulação. escrevem sempre coisas estranhíssimas nos seus textos e têm enorme dificuldade para entender as sutilezas (e às vezes até as coisas mais óbvias) da linguagem. seguindo os padrões da escrita. a linguagem como expressão do pensamento e como ação sobre o mundo fica destruída. A cartilha foi além: não só assumiu isso. mas o fato de ele conter apenas palavras já estudadas. que eles podem continuar com essa idéia pelo resto da vida. porém o que vale não é o texto em si. como unidade lingüística. Na verdade. a palavra é o centro das atenções da cartilha. . fica tão marcada na formação dos alunos. a palavra é a unidade principal de todos os sistemas de escrita. a palavra. Uma frase é pura e simplesmente uma seqüência de palavras. no entanto. o que é falso. observandose a dificuldade que os alunos têm no começo para segmentar a própria fala em palavras. A grande prova disso pode ser encontrada na própria alfabetização. Desse modo. junto com as lições. Do significado de cada palavra. Essa é uma visão muito reducionista da linguagem humana.Sem dúvida alguma. a qual. como passou a trabalhar como se a palavra escrita fosse a unidade mais importante da linguagem. Essa é uma das razões pelas quais muitos alunos têm dificuldades em lidar com a linguagem na escola e fora dela.

serão organizados em famílias. etc. Basta comparar os textos das cartilhas com os textos espontâneos das crianças para perceber . elaborados por "razões pedagógicas". Assim. cam-po. é claro. etc. não os fonemas que cada letra apresenta na fala). Por exemplo: BARRIGA será a palavra-chave para a família do bá-bé-bi-bó-bu. Finalmente. a família do B é constituída de ba-bé-bi-bo-bu. Como um dos objetivos do monta-e-desmonta é associar letras às sílabas da linguagem oral. são estudados os casos em que ocorre uma consoante no final de sílaba. compostas de uma consoante mais uma das cinco vogais da escrita. e depois as famílias em que aparecem grupos de consoantes.O que a cartilha faz diante da palavra escrita que ela considera a essência da linguagem? Começa um jogo de desmonte e remontagem. que servirá de recurso mnemônico. Como resquício do princípio acrofônico. <88> tradicionalmente ligado ao alfabeto. para gerar as unidades das lições com os elementos já dominados. constituídas de uma consoante mais uma vogal (usando apenas as letras disponíveis na escrita. cada família recebe uma palavra-chave. As cartilhas apresentam os piores textos. Esses pedacinhos. estudam-se primeiro as famílias mais simples. do prá-pré-pri-pró-pru. pressupondo-se agora que as palavras são feitas de pedacinhos que se juntam. como nas palavras an-jo. como a família do chá-ché-chichó-chu.

passa despercebido. Nenhuma cartilha explica a seus usuários que usamos "diferentes alfabetos". advérbios... Uma letra maiúscula pode ser escrita em tamanho . etc. Certamente. nem com a coerência discursiva. nesses casos. Muitos alfabetos Mas há outros aspectos da escrita a serem considerados. A coerência discursiva refere-se ao fato de se manter uma lógica nas afirmações que o texto traz. que é o fato de existirem alfabetos diferentes. Os textos das cartilhas não lidam adequadamente com os elementos coesivos e. e ao fato de se passar de um assunto a outro mantendo uma relação harmônica entre as partes. <MASSINI-CAGLIARI. e abcçdefg. No entanto. o professor dirá que temos letras maiúsculas e minúsculas (além das letras de fôrma ou imprensa e das letras cursivas ou manuscritas). o que faz deles péssimos exemplos para os alunos. um compromisso com a verdade do texto. o essencial.. 1997a.imediatamente como os primeiros são ridículos e idiotas. como ABCÇDEFG. com os pronomes substituindo nomes.. > Elementos coesivos dizem respeito àquelas palavras que fazem referência a outras mencionadas antes num texto. às vezes.

é preciso analisar o que acontece nas salas de aula e nos cadernos dos alunos — e não apenas nas cartilhas. pessoas já alfabetizadas. A escrita cursiva O método das cartilhas tem uma preferência declarada pela escrita cursiva. Ninguém nega que a escrita cursiva seja importante. que a letra cursiva representa essas vantagens apenas para as pessoas que já estão muito familiarizadas com a escrita e com a leitura. a letra de . Para quem está aprendendo. nos quais se utiliza <89> também a letra de imprensa. depois de certo tempo. Para se ter uma idéia da importância da escrita cursiva na alfabetização. que é mais fácil escrever rapidamente na forma cursiva do que usando letras de fôrma. E a cartilha não explica isso. Também é verdade. mas a forma gráfica. Alguns alunos têm grandes dificuldades para perceber que letra é um valor abstrato ao qual podemos associar uma variedade de alfabetos diferentes. Essa atitude de valorizar a escrita cursiva revela um preconceito da escola e um equívoco sério. Os alunos acabam constatando por si. ou seja.menor do que uma letra minúscula. porém. porque não é o tamanho que conta. mas isso pode ser um processo longo e difícil. embora isso não fique evidente ao analisarmos os próprios livros.

A escrita cursiva é uma maneira de adaptar o grafismo das letras aos maneirismos pessoais: por isso. a escrita deixou de ser feita à mão.fôrma — especialmente a maiúscula — proporciona um material gráfico melhor para a leitura e até para as primeiras escritas. Apesar disso. A escrita cursiva apresenta um traçado de letras ligadas. ficando essa atividade restrita a pequenas notas pessoais. Isso fez a escrita cursiva perder um pouco da sua importância no mundo moderno. permite avaliar melhor se um aluno está aprendendo ou não a traçar as letras. que. uma vez que. por outro lado. o método das cartilhas e a escola continuam insistindo na escrita cursiva. freqüentemente se constata que é difícil ler a letra do outro. se os alunos começarem a . A escrita cursiva tem um uso quase exclusivamente pessoal. a escrita cursiva torna-se mais difícil para quem não tem prática. dificulta o trabalho de leitura. sendo mais difícil de elaborar. Como exige uma ação mais complexa do usuário pela sua natureza gráfica. mesmo estando habituadas a ver as duas formas de escrita no seu cotidiano. Os alfabetizadores gostam dela também por essa razão. facilitando uma escrita rápida. Tanto isso é verdade que as crianças quando estão passando dos rabiscos para as primeiras formas gráficas utilizam espontaneamente a letra de fôrma. Alguns professores acham que. Com o grande desenvolvimento tecnológico das máquinas de escrever (chegando até os computadores).

escrever com letras de fôrma.). igual para todos. "v". É por isso que um aluno pode pensar que. em palavras como TV e TIA. — etc. seguida dos de uma letra — A. e no processo de alfabetização o alvo a ser atingido é a bela escrita cursiva. ainda. redondinha. Ou. Padronizar a escrita cursiva desse modo é ir contra a sua própria natureza. P — O que a letra "a" e a letra "d" são a mesma coisa. distinguindo-se apenas pelo som que têm nas palavras (assim como o "t" e o "tch". cuja característica fundamental é ser uma expressão gráfica individualizada. fica difícil saber exatamente onde começam e onde terminam algumas letras e até mesmo quais os elementos gráficos que as constituem. <90> Equívocos a partir da escrita cursiva Um certo número de erros encontrados nas tarefas escolares dos alunos deve-se a confusões causadas pelo uso da escrita cursiva. não vão aprender a escrever com letras cursivas. que a letra "A" é formada de um "C" e "e". O aluno pode até constatar que há uma diferença na . ou que a letra "h" é uma combinação de "I" e "s". na escrita cursiva a letra "b" é formada por traços que se assemelham às formas da letra "I". Como ela deforma certas letras quando agrupadas.

Quando diz isso ao aluno. Porém.altura da "perninha". o aluno pode pensar de outra maneira seguindo a instrução recebida e entendida dentro do quadro de suas dificuldades particulares. em início de palavras. Afinal. os quais se contentam em apagar o erro do aluno e mostrar a forma certa. Há outros problemas da escrita com os quais a cartilha não lida adequadamente. esclarecendo à criança que se escreve da esquerda para a direita. há uma série de exercícios e orientações que vem desde o período preparatório. Por exemplo. Escrita sem sistema . C. Uma letra puxa outra e de repente o aluno está escrevendo a palavra e até a frase inteira de forma espelhada. esse tipo de variação acontece a todo instante e nunca foi considerado relevante. o professor está pensando na ordem das letras nas palavras. um caso sério para a medicina resolver. E o professor (mal-informado) pode achar que essa criança tem problema de lateralidade cerebral. etc. alguns alunos acabam escrevendo de forma espelhada letras esquerda como S. que também varia. por que seria então no caso de "a" e "d"? Dificuldades como essas em geral passam despercebidas pela maioria dos professores. de caso para caso..

O professor pensa que ele está "doido". O aluno provavelmente levou para a sala de aula algo que constatara na vida: as pessoas assinam o próprio nome — isto é. o aluno mostra que sabe ler o que escreveu.Como a cartilha não apresenta nem discute. É o caso daquele aluno que faz <91> uns rabiscos e diz que escreveu seu próprio nome. o trabalho prossegue. cheia de rabiscos. alguns alunos acabam enveredando por caminhos complicados. então. orgulhase de ter uma assinatura exótica. toda aventura . a natureza. sobretudo porque. podendo. Esse mesmo professor. a função e os usos dos sistemas de escrita. nesse meio tempo. ganhar seu famoso diploma de alfabetização. O aluno. pelo contrário. em geral becos sem saída para si e para o professor. horas depois vai ao banco. que concluiu que seu aluno era "doido". vai desmontando e remontando palavras para ver o que acontece: não tem liberdade nem lhe é facultado ter qualquer iniciativa para escrever o que gostaria. Cópias e ditados Através de cópias e ditados. escrevem — fazendo rabiscos. Pelo contrário. até que o aluno passe por todas as lições. assina um cheque fazendo exatamente o que fez seu discípulo e não acha nada estranho. em momento algum. ao ser indagado.

Antes de chegar a este ponto. depois. <92> . como deixa de tratar de muitos aspectos da escrita que são interessantes e importantes e que. copiam as primeiras frases e. por meio de cópias e ditados e desmontando e montando as palavras em famílias de letras. no mesmo momento. e o erro pode ser irremediável. a decifração. Por isso. ninguém pode escrever nada. mais adiante. da mesma maneira. Somente em dois momentos (e de maneira equivocada) trata das relações entre letras e sons: quando apresenta os dois sons do E e do O. O que falta no estudo da escrita Infelizmente. A cartilha jamais discute a leitura em si. Os alunos copiam palavras muitas vezes para fixar sua forma ortográfica. podem começar a escrever frases por iniciativa própria e. a não ser o que já tenha estudado com o professor.individual pode levar ao erro. os primeiros textos. A cartilha pensa que ensina a ler. tudo é feito de maneira coletiva: todos realizam a mesma tarefa. a cartilha não apenas trata a escrita de maneira inacreditavelmente equivocada. deveriam começar a ser estudados desde a alfabetização. Somente depois de terminada a cartilha. e os cinco sons do X. finalmente. por essa razão. os primeiros textos.

mesmo que sumariamente. O mundo em que vivemos está cheio de escrita ideográfica. na alfabetização. Uma atividade como essa permite ao aluno ler e escrever logo no primeiro dia de aula. conferindo. para mostrar aos alunos de um modo muito interessante como a ortografia funciona numa sociedade. assim. Em particular. Os alunos podem inventar sistemas de escrita seguindo modelos conhecidos. o que pedagogicamente é motivo de grande alegria e de entusiasmo para os alunos e grande motivação para continuarem explorando novas formas de escrita até chegar à escrita . As crianças adoram ouvir histórias e a da escrita é verdadeira e fascinante. deverse-ia contar a história das letras do alfabeto. Seria interessante apresentar ainda. pelas cartilhas. Podem experimentar escrever o que quiserem com eles e testar se as demais pessoas conseguem ler ou não. um relato sobre a ortografia da língua portuguesa.A história da escrita deveria fazer parte das preocupações da escola e dos livros didáticos desde a alfabetização. conseqüentemente. os limites e a importância da convencionalidade na escrita. os diferentes tipos de letras (ou estilos) que o alfabeto latino produziu ao longo da história do Ocidente. Esse é um aspecto interessantíssimo para ser explorado pela escola e. feita com pictogramas ou com caracteres convencionais.

familiar. para corrigir os textos que produzem. A escola precisa explicar como funciona o sistema de escrita. temos uma imensa dúvida ortográfica com uma palavra que parecia conhecida. A escola precisa explicar o que é ortografia. sem medo de ter dúvidas. o que são letras.com as letras do alfabeto. de buscar informações nos dicionários ou com as pessoas que sabem. Se a sociedade <93> fosse melhor preparada pela escola. parece burrice não ter certeza sobre a ortografia das . a aprender a escrever e. como se decifra uma escrita com letras. Às vezes. ela precisa ensinar os alunos. como funciona. A escola precisa não incutir nas pessoas o medo de escrever errado alguma palavra de conhecimento comum. Para isso. como os alunos fazem para escrever respeitando a ortografia. depois. porque ninguém passa pela vida sem ter dúvidas de ortografia. primeiro. a escrever de acordo com as regras ortográficas. para tirar dúvidas. o que é escrever à moda de uma transcrição fonética — com a qual os lingüistas registram os sons da fala de acordo com a pronúncia de cada um — e comparar esses modos de escrever com a escrita ortográfica. Mas do jeito que a cartilha trata o assunto. de perguntar. que sempre escrevemos. não se escandalizaria diante dessas dúvidas.

especular: é preciso perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. refletir. não adianta pensar. "le-a-la. mais adiante. É óbvio que a escola vai cobrar dos alunos que memorizem a ortografia das palavras de uso comum.palavras. Alguns alunos chegam mesmo a explicitar o processo de decifração que aprenderam. E é só o que os livros apresentam. que a cartilha pensa ensinar aos alunos quando mostra as famílias de letras e propõe exercícios de desmonte e remontagem de palavras. A pior conseqüência da maneira como a cartilha trata a escrita na alfabetização decorre inegavelmente da sua concepção de texto. E quando não se sabe como se escreve uma palavra. pois depende crucialmente da escrita. Quando chega o momento da leitura. mas poderia ser muito mais benevolente com os erros. dizendo. a leitura também fica prejudicada. A CARTILHA E A LEITURA Como a cartilha ensina a ler Existe uma leitura que é a decifração da escrita. te-a-ta" ao tentar ler "la-ta". alguns professores obrigam seus alunos a acompanhar com os olhos . por exemplo. de acordo com o nível de escolaridade. Como a cartilha tem uma maneira equivocada de tratar a escrita. Mas esse ponto terá um tratamento especial.

como deveria ser a leitura. uma depois da outra. pode até adquirir velocidade suficiente para dar a impressão de fluência. a não ser uma ou outra palavra (geralmente aquelas que apresentaram dificuldade de leitura. ou de palavras com sílabas das famílias de letras já dominadas). Para um aprendiz ler em voz alta. Todavia.). ele precisa decifrar a escrita com facilidade.. Os alunos são solicitados freqüentemente a ler de surpresa um texto novo (é claro. com o tempo. quando acabam de ler um texto. em que o aluno gaguejou. não está ao alcance da maioria dos alunos. A leitura de improviso é mais uma atividade para testar se o aluno aprendeu ou não a lição. decifran do-as individualmente e falando o que estão lendo. As cartilhas preferem leituras coletivas às silenciosas. Do modo como a cartilha trata a escrita e a fala. . nos primeiros meses de alfabetização. o que. se já dominou um determinado conteúdo ou não. Preparar uma leitura com antecedência vai contra os costumes das cartilhas. leia <94> com o devido ritmo e a desejada entoação. na alfabetização. não são capazes de lembrar o que leram.. mesmo esses alunos fluentes e rápidos na leitura. não raramente ocorre que. parou para pensar. composto só de palavras já estudadas.letra por letra. Os mais espertos acabam realizando uma leitura silabada que. sem cobranças. é quase impossível que um aluno.

Alguns professores. passaram a dar importância exagerada à interpretação de textos. reduzindo suas aulas a essa atividade. ainda. em um momento inoportuno para esse tipo de atividade. bons leito res. Fazer interpretação de texto passou a ser preencher os vazios de perguntas feitas com trechos do texto. a leitura como forma de ensinar e fixar a pronúncia da norma culta.. que preferiram trocar os textos das cartilhas por "livros paradidáticos". Nesses casos o professor costuma propor um longo exercício de perguntas e respostas. Essa atividade é a interpretação de textos. já que o aluno mal sabe . pergunta-se: "Quem foi visitar a vovó?" "Maria foi fazer o que na casa da vovó?" "Maria foi visitar a. a cartilha meteu as mãos pelos pés." Ora. Por exemplo.. achar que um falante nativo de português não é capaz de ouvir (ou ler) uma frase banal como essa e não a entender é um insulto à racionalidade da pessoa. Mais uma vez.A cartilha usa. freqüentemente exigindo dos alunos uma leitura com uma pronúncia artificial. A interpretação de textos segundo a cartilha O método das cartilhas introduziu uma nova atividade quando percebeu que alguns alunos. Qualquer texto passou a ser um pretexto para colocar em prática aquela atividade. não eram capazes de dizer com as próprias palavras o que tinham lido. se o texto diz: "Maria foi visitar a vovó".

deve voltar atrás e repetir a lição. escrita e leitura. que à medida que os alunos avançam. para ler por si e escrever suas historinhas como bem quisessem. Como tudo vem rigidamente em seu lugar. acabam se esquecendo de coisas já vistas. quando o aluno erra. baseado na idéia dos elementos já dominados. amarra de tal forma o processo de alfabetização que os alunos passam a fazer apenas o que o professor manda. esse princípio serve de base para a avaliação que permite ao professor passar para a lição seguinte ou não. O que os alunos gostariam mesmo de fazer era aprender a ler e a escrever. ordenando as dificuldades progressivamente com cronogramas minuciosos. e isso gera . Acontece. estabelecendo o que vem antes e o que vem depois no ensino e na aprendizagem. porém. <95> OUTROS PROBLEMAS DAS CARTILHAS O método das cartilhas tem outros problemas que não são menos graves do que aqueles relativos à fala. Alguns deles merecerão aqui um destaque. O princípio da progressão controlada pressupõe que apenas o elemento novo introduzido na lição constitui dificuldade para o aluno.ler. Por outro lado. Aprender em ordem O princípio da progressão controlada. uma vez que o resto "já foi dominado".

a não ser fazendo exercícios gramaticais como esse. parece mais natural que o . O entulho gramatical As cartilhas costumam trazer exercícios de gramática que são verdadeiros entulhos jogados nas lições para preencher o tempo dos alunos com atividades de linguagem. exercícios de identificação de categorias gramaticais. ainda. esse processo irá se repetir até que ele abandone a escola. Há. Assim. Esses exercícios tratam. como ainda induzem os alunos a errar. <96> Nenhum falante confunde "pai" com "mãe" ou "tio" com "tia". conhecem perfeitamente. esses exercícios não só não ensinam nada. escreve "tioa". A única saída para esses casos é separar os alunos atrasados em classes especiais. Resumindo. de gênero. julgando-se incapaz nos estudos. de fato. Como não há explicações sérias. coisas que. onde começarão tudo de novo. apenas exercícios como "faça segundo o modelo". Para muitos alunos. como falantes nativos da língua. Para alguns alunos. um aluno ao ser perguntado sobre o feminino de "o pai" escreve "o paioa". nesses exercícios. de "tio".uma enorme confusão na aplicação do método. Querer ensinar essas coisas na alfabetização é um desastre. sobretudo. nota-se que muitos alunos erram. de número e de graus das palavras.

objetivo. sílaba virou "pedacinho". sabem que não estão indo a uma festa. mas não "macacão". quando vão para a escola. as palavras-chave precisam ser apresentadas através de uma história fantasiosa e representar uma idéia importante no texto básico da lição. deve haver uma história e. cuja letra repita inúmeras vezes os elementos da lição. precisando sempre aprender através de subterfúgios pedagógicos. alguns professores falam com seus alunos como se todos vivessem num mundo de fantasia. Metáfora e fantasia Faz parte da praxe das cartilhas conduzir um processo de ensino em que se diz quase tudo de maneira metafórica. definitivamente. Tudo precisa vir acompanhado de gravuras. Por se tratar de crianças. porém. Para tudo. preciso e direto das verdades que se devem ensinar. se possível. indireta. Para elas. com muito colorido e enfeites. mas a um lugar sério. evitando um tratamento sério. Ninguém contesta o fato de que as crianças gostam de histórias e se divertem em meio a esse clima de sala preparada para festa de aniversário. Então.aumentativo de "macaco" seja "grande macaco" ou "gorila" ou talvez até "cigecougue" (King-kong). Supõem que as crianças não conseguem acompanhar uma explicação correta e objetiva. uma musiquinha para cantar. . figuras. "macacão" é um tipo de roupa.

O método das cartilhas procura uma homogeneização que destrói a iniciativa individual. Elas têm essa consciência da seriedade. O diferente é combatido e não pode existir na escola. O excesso de histórias. Evita-se a todo custo falar de como as coisas são na realidade. A escola. As diferenças individuais não são . apresentadas apenas como pretexto pedagógico.onde se aprendem coisas sérias. às vezes torna-as levianas e comodistas. até acertar. importantes. com os remanejamentos de alunos para classes especiais. e o que saiu errado precisa ser refeito. acaba levando a um ensino absurdamente metafórico. úteis para a vida e. na maioria das vezes sem nenhuma graça. Tudo precisa ser avaliado e receber uma nota. partindo do princípio de que educar é fazer com que todo o mundo saia da escola exatamente com a mesma cara. não obstante. avaliação com promoção. a letra o é "a letra da boca". portanto. e com o desenho de uma boca aberta que aprenderam a letra Q <97> Remanejamento para evitar problemas A cartilha equivocadamente confunde ensino com aprendizagem. Na prática tradicional das cartilhas não se podem usar termos técnicos. favorecendo uma atitude de segregação dentro da escola e da própria sala de aula. As letras não têm nomes: em vez de U. os alunos dizem "a letra do chifre". porque foi com o desenho dos chifres do boi que aprenderam a escrever a letra U.

para condicionamento. As cartilhas representam a prática de métodos mecanicistas. As cartilhas são implacáveis com relação a quem não entra no esquema e. por isso. mas quem analisa uma cartilha fica com a impressão de que tudo é tão simples e perfeito. tudo vem pronto para o aluno.permitidas porque não podem ser avaliadas através de testes coletivos. A uniformização é um imperativo. segundo manda o figurino. não encontramos nas cartilhas. basta digerir: não há lugar para uma reflexão autônoma. por experiência própria. formas de proceder quando um aluno não aprende algo que o professor explicou direitinho. Na cartilha. para continuar com as características próprias. nem nos manuais de professores. iguais para todos. O erro não tem vez Como as cartilhas não sabem lidar com as diferenças no processo de aprendizagem e como prevêem somente o certo. que é difícil ensinar a ler e a escrever. para a criatividade. bons para adestramento. Os professores sabem. que ninguém nunca erra nem tem dúvidas. mas muito ruins para quem quiser usar a reflexão para construir o conhecimento. nenhum erro será objeto de estudo. Por essa razão. para uma livre iniciativa. não têm nenhuma sugestão para o professor aproveitar quando a evidência dos fatos da vida .

< CAGLIAR!. seguindo o próprio livro didático. aquelas que vêm com toda a parafernália didática preparada para o ano letivo. Ouviram dizer que tal colega usa tal cartilha e seus alunos são alfabetizados da melhor maneira possível. A única saída é repetir tudo de novo. os chamados "alunos carentes". <98> O fascínio pelo já pronto A maioria dos professores que usam o método das cartilhas foi informada de que essa ou aquela cartilha é. Outros (poucos?) preferem as cartilhas pela comodidade de aplicar em sala de aula um método já pronto. se possível. de fato. da mesma maneira. escolhendo. a saída da escola é a solução para o problema. por falta de competência necessária para discutir a questão a fundo e seriamente. um grande livro didático. 1985b e 1986b. E se não se corrigirem. de preferência. Por falta de espírito crítico. com métodos excelentes de alfabetização. Há ainda o interesse econômico. comprovados desta e daquela maneira.mostra claramente que o método não funcionou. que tem feito das cartilhas . remanejar a criança para uma classe de alunos com dificuldades de aprendizagem. muitos professores continuam achando que a melhor maneira de alfabetizar é pelo método das cartilhas.

Para um bom trabalho de alfabetização. na escola. sobretudo junto aos órgãos públicos encarregados da educação. SUBSTITUTOS DAS CARTILHAS As considerações acima mostram como é problemático o uso do método das cartilhas na alfabetização. é mais importante ter lápis e papel do que cartilhas. Mas. Apesar de tudo. analisando a história e os métodos de alfabetização. se a cartilha é tão ruim assim. o que fazer para alfabetizar sem a cartilha e. Em primeiro lugar. sobretudo nas es colas públicas. aqui. o governo insiste em distribuir cartilhas. ou melhor. sobretudo. quais são as alternativas? Depois desse longo caminho. os alunos recebem um belo livro e fazem as lições com tocos de lápis e sucata de papel de escritório. Aprender a ler. significa aprender a decifrar a escrita. Em algumas escolas. sem o método das cartilhas? Qual é a saída.um negócio muito lucrativo. esquecendo-se do lápis e do papel. a fim de conduzir um processo de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita de maneira mais correta e proveitosa. podem-se tirar algumas conclusões interessantes que nos levarão a entender por que proceder de um jeito e não de outro. é preciso entender que o segredo da alfabetização está na aprendizagem da leitura. <99> .

Como a escrita é uma forma gráfica de representação da linguagem oral. pela presença constante e sufocadora de uma máquina burocrática anacrônica e. os professores interessados podem ir deixando de lado a velha prática de alfabetização e iniciar um trabalho novo. com . constata-se que não basta jogar o livro fora ou dizer que não se quer mais seguir o método do bá-bé-bi-bó-bu. que tornam qualquer iniciativa de boa vontade fadada ao fracasso. para levar adiante um bom trabalho de alfabetização. preconceitos e barbaridades que depois levam para a sala de aula. principalmente. ainda. por falta de infra-estrutura. são tão despreparados quanto os malformados professores. Acrescente-se a isso a exigência ridícula de pais e avós que fazem questão de que seus filhos sejam educados exatamente da maneira como eles o foram. Infelizmente. aos poucos. pela incompetência de alguns professores. Estes recebem das escolas de formação todos os equívocos. quais os seus usos e. Apesar desse quadro pouco animador. é necessário estudar os mecanismos da produção da linguagem oral.Para saber decifrar a escrita. como a linguagem oral se relaciona com a forma escrita que a representa. Alguns autores de livros didáticos. por sua vez. Há coisas erradas demais no sistema educacional do Brasil. num contexto culturalmente específico da sociedade moderna. é preciso saber corno os sistemas de escrita funcionam e quais os seus usos.

O professor não pode ter medo de levar seus alunos a sério. refazendo desde o início sua formação. Com um pouco de reflexão mais cientificamente controlada. para sua surpresa. sem precisar gastar muito tempo. de ir direto ao assunto. ele começará a deixar de lado a idéia de que seu trabalho é maçante. A própria prática . o professor sabe ler e escrever. Se seus alunos forem instigados a construir um processo de alfabetização baseado na reflexão. acabando por descobrir o mundo fascinante da construção do conhecimento pelos alunos. .ajuda muito. 1997c. A CARTILHA E OS PROFESSORES CAGLIARI. O professor também aprende ensinando. como uma mãe deslumbrada <100> diante do crescimento de seu filho. que ele também está aprendendo. no trabalho compartilhado. o próprio professor verá. num processo de aprendizagem verdadeiro. na pesquisa. Afinal de contas. Mais do que isso.mestra da vida .dedicação ao estudo para suprir as lacunas e deficiências e muito bom senso. como deveria existir sempre nas escolas. conduzindo um processo equilibrado de ensino e aprendizagem. ele é capaz de realizar um excelente trabalho.

os professores conseguem fazer com que seus alunos apresentem cadernos muito bonitos. Se o aluno errar alguma coisa. No esforço para salvar a ortografia e a aparência correta da escrita. Para o professor. que não irá durar muito.Apesar de todos esses problemas. isso dá uma falsa aparência de ordem e organização. fica fácil avaliar quem está acompanhando e quem está ficando para trás. quando apenas falava. Todos os alunos devem fazer a mesma coisa. mas da incapacidade do aluno. em que tudo está perfeito. sendo muitas vezes uma cópia exata do próprio caderno do professor. como fazia antes. Ledo engano. esconde-se muita coisa mal compreendida. Os pais e diretores olham os cadernos desses alunos e acham que tudo vai às mil maravilhas. Como o método considera que todos os alunos partem do zero e vão estudando ponto por ponto. nem do método. que irá produzir péssimos frutos nas séries posteriores. que ele usa como modelo. Por trás de toda aquela aparente ordem. no mesmo tempo. Como o trabalho é igual para todos e avança aos poucos em complexidade. o professor apaga e coloca o certo. o método das cartilhas é considerado em geral muito conveniente pelos professores. a responsabilidade não é dele. do mesmo modo. Se o aluno não aprender. em ordem. do mais fácil para o mais difícil. o método da cartilha destrói a habilidade do aluno de lidar com a linguagem na sua forma plena e natural. O método da .

e o professor só permite que ali fique registrado o que está certo. ou para investigar por que alguns alunos aprendem e outros não. Livros de matemática tendem fortemente a seguir o método de ensino das cartilhas. que continuam aplicando esse método nas séries posteriores. em parte. mostrando uma "desaprendizagem" perigosa. ou ainda para ponderar a que preço seus alunos aprendem. porque os alunos só reproduzem o já dominado. inocentando os professores e os livros de sua incompetência. Aos professores que dizem que também se aprende pela cartilha. Depois. sem erros. quando os alunos tiverem de escrever espontaneamente. a leitura e a literatura. convém ressaltar que. as aulas de português é a produção de textos. . são tão obcecados por elas. lembrando todos aqueles que não aprenderam e que tiveram de abandonar a escola por causa de um método que privilegia um planejamento <101> escolar rigoroso e detalhado. Os professores que adotam as cartilhas nem sequer param para analisar cuidadosamente o que fazem. em séries posteriores. deve-se rebater. Como a matemática não tem dessas coisas.cartilha produz cadernos belos. já não aparecem mais cartilhas. Alguns professores. que muita gente fez isso e aprendeu bem. cometerão toda sorte de erros. no entanto. O que salva. Finalmente.

para que servem os exercícios de matemática. O uso do método das cartilhas (com livro ou sem livro) é largamente difundido entre os professores alfabetizadores porque é um programa de trabalho já pronto. porque são mais "práticas". Um fato semelhante acontece com certos professores de português que passam um ano inteiro fazendo exercícios de análise sintática. Na verdade. e o aluno faz a tarefa para ver se acerta e não tem a sensação de estar aprendendo algo que poderá ser útil e aplicável na vida real. Se um professor achar no mercado editorial atual uma obra que ensine a alfabetizar sem o bá-bé-bi-bó-bu. que se escolhe no início do ano e que será aplicado ao longo dos dias escolares. Algumas pessoas partilham da opinião de que não se pode estudar sem um livro didático. em vez de escolher livros mais interessantes. só que. será um fato surpreendente. preferem as cartilhas. sem propor nada de diferente. da maneira como aparecem em certos livros? A atividade parece que se esgota em si mesma. Afinal. do começo ao fim. em geral.o ensino torna-se insuportável para grande parte dos alunos. Os livros didáticos são feitos. há uma longa tradição escolar que tem produzido cartilha atrás de cartilha. por professores. que se vêm obrigados a ter um estudo cujo único objetivo é o de reproduzir um modelo. e como eles não têm outra visão do processo de .

Os esforços devem estar voltados para isso. todo o período preparatório veio como uma . Em primeiro lugar. é necessário saber exatamente o que se quer fazer e o que se entende por alfabetização.alfabetização. Para realizar um trabalho de ensino e de aprendizagem da leitura e da escrita sem o método do bá-bé-bi-bó-bu. Muitos problemas surgiram na história da alfabetização realizada na escola porque os objetivos a serem alcançados não eram muito claros. o próprio método das cartilhas. por falta de material adequado e de uma sólida formação lingüística crítica. Por exemplo. os professores justificam a própria incompetência apegando-se à única tábua da salvação que conhecem. é preciso ter em mente alguns pontos fundamentais. mas o principal deles é alfabetizar as crianças. embora a escola não deva se esquecer dos outros objetivos que tem como instituição. A alfabetização é uma das coisas mais importantes que as pessoas fazem na escola e na vida. <102> 5 Panorama do processo de alfabetização VALORIZAR O QUE É PRIORITÁRIO O trabalho escolar de primeira série tem vários objetivos. repetem sempre o velho esquema. O círculo vicioso se fecha quando.

em seguida. a exercícios que preparavam o aluno para o estudo. Brincar. desenhar. o conteúdo específico que torna uma pessoa alfabetizada. mas apenas a rabiscar e a fazer joguinhos. então. recortar. a aplicar esse conhecimento para produzir sua própria escrita. A alfabetização passou a se resumir. Aprende-se a ler e a escrever.concepção de alfabetização baseada numa teoria discriminatória contra a capacidade intelectual das crianças. Mas isso não é ensinar a ler nem a escrever. lendo e escrevendo. Não é raro ouvir histórias de crianças que não queriam mais ir à escola porque não aprendiam a ler nem a escrever. a primeira coisa a ser feita é uma faxina: jogar fora uma série de atividades que nada têm a ver com os objetivos. Alfabetizar é ensinar a ler e a escrever. e não pulando corda e fazendo . sem dúvida são atividades escolares. Portanto. Como já dissemos. cantar. etc. tornando o trabalho mais simples e mais tranqüilo tanto para o professor como para o aluno. o segredo da alfabetização é a leitura (decifração). Escrever é uma decorrência do conhecimento que se tem para ler. em grande parte. criando nelas uma auto-avaliação de incapacidade para aprender os conhecimentos que se adquirem nas escolas. contar histórias. Conhecendo a rotina nas escolas. colar. enquanto o mais importante era deixado de lado. ou seja. o ponto principal do trabalho é ensinar o aluno a decifrar a escrita e.

Juntar essas duas coisas o tempo todo é uma loucura pedagógica: tira a seriedade da formação escolar e introduz uma leviandade nos trabalhos.festa. na alfabetização não é preciso ensinar ninguém a falar: nossos alunos já aprenderam isso quando tinham de um a três anos. cada qual usufruindo o dialeto da região em que nasceu e viveu e que é partilhado pelas pessoas com quem convive. mas deve ter seu valor claramente estabelecido para todos. tecnicamente falando. Não é necessário que os alunos aprendam a pronunciar bem as palavras. Brincar é imprescindível. Ensinar a norma culta também vai ser uma preocupação da escola. Porém. Qualquer aluno pode alfabetizar-se perfeitamente sem precisar mudar o modo de falar de seu dialeto. OS ALUNOS SÃO FALANTES NATIVOS Rigorosamente falando. com relação à aprendizagem da leitura e da escrita. percebe-se claramente que o professor não precisa preocupar-se com o fato de seus alunos falarem errado no início. essa deverá ser uma atividade secundária. sílabas ou outros . e deve começar desde a alfabetização. Vendo essa questão por outro ângulo. São todos falantes nativos do português. <104> Tem hora para aprender a ler e escrever e tem hora para brincar.

sem esquecer a outra. inglês ou francês. quando alguém está aprendendo um dialeto diferente. de regência (por exemplo. etc. Tampouco quando um aluno é falante de um dialeto não aceito como norma culta pela escola. <105> "chegou os homens" em vez de "chegaram os homens"). por exemplo. das fricativas CH e TCH. 1997b A IDADE PARA SE ALFABETIZAR . marcando um uso informal e outro formal da língua. Quando alguém estuda uma língua estrangeira.).elementos fonéticos para aprenderem a escrever as palavras. Na sociedade. não precisa abandonar seu dialeto para aprender a norma padrão. às exigências do momento. variações como "déis" ou "dés". Do mesmo modo. não deixa de ser falante de português. Uma coisa não é condição para a outra. "eu preciso dinheiro" em vez de "eu preciso de dinheiro") fazem parte da vida dos falantes em geral. Numa sociedade tão heterogênea como a nossa. as pessoas acabam falando mais de um dialeto: um em casa e outro na vida formal em sociedade. de concordância (por exemplo. MASSINI-CAGLIARI. a variedade lingüística deve adaptar-se ao contexto. do lugar e das pessoas com quem se fala. não precisa se desvencilhar daquele que conhece. Aprende-se uma língua. Variações de pronúncia (do R.

muitos jovens já são arrimo de família. Aos cinco anos uma criança está mais do que pronta para ser alfabetizada. e os problemas sérios continuam sem solução. começaria aos sete anos e que o primeiro grau (atual ensino fundamental) se encerraria aos quatorze anos. somados a uma postura tradicionalista de pessoas que trabalham nos órgãos públicos da educação. aliás. começando a alfabetização aos cinco anos. do mundo e até da . mas não se muda a mentalidade dos governantes. Com quatorze anos. a préescola é importante como escola e não como creche. Muda-se a Constituição do país. Dos cinco aos sete anos. têm de trabalhar duro para sobreviver e sustentar irmãos. Durante muitos anos venho fazendo uma campanha pessoal para convencer as pessoas de que seria muito melhor que a alfabetização começasse aos cinco anos (como. acontece na grande maioria dos países do mundo) e que o primeiro grau se estendesse até os doze anos. avós. ela já conheceu e aprendeu muita coisa da vida.Por razões ideológicas. no Brasil. corroborada por alguns psicólogos e outros que se acham entendidos no assunto. ficou estabelecido que a alfabetização. etc. basta o professor desenvolver um trabalho correto de ensino e de aprendizagem na sala de aula. interesses políticos e econômicos. pais. todas as crianças passariam a gozar de um beneficio que hoje está restrito àqueles que freqüentam a pré-escola. Nessa idade. Além disso.

já testou sua participação na sociedade. Para elas. algumas pessoas não acham que a alfabetização seja algo de muita importância. Essas considerações mostram que. Dependendo do modo de vida.história. Aprender a ler e a escrever. é algo simples e banal. <106> QUERER SER ALFABETIZADO Se com cinco anos uma criança pode ser alfabetizada. ganhar dinheiro é o que realmente conta. As vezes. é necessário que o professor. Duvidar da capacidade de aprender das crianças de cinco anos é um grande equívoco. considerando-se a capacidade e a experiência de vida de qualquer criança com cinco anos. isso não significa que ela queira ser alfabetizada. Por isso. mesmo quando anunciado em teses e livros publicados por intelectuais com muitos títulos acadêmicos. ler e escrever não é algo tão fundamental como nós comumente achamos que seja. mais importante do que a idade é a vontade do aluno de se alfabetizar. Estar na escola é um fato que cria expectativas. no início do ano. Mas alguns alunos podem ter uma visão muito restrita do que os espera. Algumas pessoas chegam à idade adulta sem se interessar pela alfabetização. seu relacionamento com pessoas diferentes. dentro desse contexto. converse com seus alunos para .

essas crianças acham que aprender a ler e a escrever é simplesmente fazer a lição da escola. Não é raro haver alunos. fora da escola. A escola sempre parte do princípio de que o professor é quem decide o que é bom e o que deve ser excluído do processo educacional. quais as previsões de uso desses conhecimentos pelo resto da vida. A questão exposta acima está relacionada com o próprio conteúdo que vai ser ensinado. e uma boa conversa deve acontecer antes mesmo do início das atividades de ensino e aprendizagem. O que eles .saber de suas expectativas com relação ao trabalho escolar de alfabetização que terão pela frente. que precisam ser discutidos ao longo do processo de alfabetização. em que sentido a vida das pessoas se modifica depois que aprendem a ler e a escrever. A escrita e a leitura têm muitos usos. Como em casa ninguém lê nem escreve e não há livros (nem caneta ou papel). Mas é bom também perguntar aos alunos quais são seus anseios. Os autores das cartilhas nunca pensam que esse tipo de troca de informações entre o professor e o aluno e dos alunos entre si seja algo importante. o que se faz com esses conhecimentos. provenientes de classes pobres. É preciso conversar a respeito do que significa aprender a ler e a escrever. Mas é imprescindível. que achem que vão aprender a ler e a escrever como uma espécie de obrigação da escola.

pretendem ler? O que eles pretendem escrever? O que pretendem fazer no começo da alfabetização? O que pretendem fazer depois, quando já souberem ler e escrever fluentemente? O que pretendem fazer depois, quando saírem da escola já formados? <107> Muitos professores ficam surpresos com as exigências dos alunos. É muito comum, por outro lado, a escola subestimar a vontade das crianças. Às vezes, elas estão ansiosas para copiar coisas que lhes interessam, mas um professor que ouviu dizer que cópia é algo que deve ser abolido da escola causa grande frustração nos alunos. É melhor, na maioria das vezes, deixar os alunos fazerem coisas por iniciativa própria, mesmo que seja uma missão quase impossível, do que obriga-los a fazer somente aquilo que o professor decide que deve ser feito. Quando as crianças fazem trabalhos por decisão própria, o processo de aprendizagem voa, mesmo quando os resultados aparentemente não são tão organizados e muito bem apresentados quanto os feitos sob o controle direto do professor. Para muitos alunos, o professor deverá explicar o que significa aprender a ler e a escrever, segundo as expectativas da escola e da sociedade. Deve fazer ver a

todos os alunos a importância do trabalho escolar que irão começar.

UM MÉTODO SEM MÉTODOS O melhor método de trabalho para um professor deve vir de sua experiência, baseada em conhecimentos sólidos e profundos da matéria que leciona. O fato de não ter um método preestabelecido não significa que o ensino seguirá navegando à deriva, O professor terá sempre as rédeas nas mãos, porque, afinal de contas, ele é um educador e não um simples observador. O fato de não se ter um método rígido para alfabetizar não significa, tampouco, que o trabalho escolar será feito sem método algum. Quando o professor é um bom conhecedor da matéria que leciona, ele tem um jeito particular de ensinar, assim como os alunos têm seus jeitos de aprender. Essa heterogeneidade, em vez de atrapalhar, é fundamental em todo processo educativo. Alguns órgãos públicos que respondem pela educação partem do princípio de que todos os professores de determinado nível e matéria precisam fazer as mesmas coisas, do mesmo modo, porque senão — dizem eles — como se poderá transferir alunos de uma escola para outra? O que essas

pessoas não percebem é que, <108> em nome de uma burocracia idiota, preferem comprometer o mais importante, que é o trabalho verdadeiro que deve ser feito pelos professores nas salas de aula. Se um aluno sai de uma escola onde aprendeu alguma coisa e vai para outra escola onde se está estudando outra coisa, deverá adaptar-se à nova realidade e, com o tempo, isso acontecerá inevitavelmente, assim como quem muda de país vai ter que adaptar sua vida à do novo ambiente. O bonito da verdadeira educação é ser um caleidoscópio: a diferença a todo instante é seu charme e beleza; cada momento revela algo novo e surpreendente. A educação deve formar pessoas diferentes, não clones, réplicas intelectuais. O professor que domina a matéria não precisa preocupar-se com métodos: ele saberá entender e resolver tudo o que encontrar pela frente na sala de aula. Além do mais, dentro do processo de ensino, ele organizará suas atividades de um modo geral: o que vai passar para os alunos, quando e como. Associado ao modo de trabalhar de cada professor, isso acaba se traduzindo, na prática escolar, num método de trabalho. Depois de terminado o ano, o caminho percorrido mostra que nada aconteceu por acaso, mas que houve uma intenção de realização, houve decisões importantes, houve opções de escolha, enfim,

houve, na prática, um método de trabalho. Entretanto, o que aconteceu num ano não precisa ser repetido no ano seguinte, mesmo porque os alunos serão diferentes e surgirão fatos novos. Quando se adota um modelo de trabalho escolar como método para ser aplicado ano após ano, incorre-se no erro de supor que o que conduz o ensino e a aprendizagem é a estrutura programática de um método, e não a interação entre o processo de ensino e de aprendizagem, mediado pelo professor, levando em conta a realidade de seus alunos, a cada dia de aula.

EM QUANTO TEMPO SE ALFABETIZA? Outra questão que precisa ser comentada é o tempo necessário para alguém se alfabetizar. Se a escola eliminar o entulho do período preparatório, se for clara e objetiva, priorizando a decifração da escrita como segredo da alfabetização e dedicando uma hora por dia <109> às atividades específicas, todos os alunos aprenderão a ler (com mais ou menos dificuldade) em dois ou três meses de trabalho. Esse é o tempo suficiente para que os alunos aprendam a decifrar o que está escrito. Quem sabe fazer isso está, tecnicamente falando, alfabetizado, O resto é o desenvolvimento dessa habilidade e a complementação com conhecimentos que serão aprendidos depois.

Ao longo dos últimos anos, o processo de alfabetização foi confundido com tantas coisas estranhas e ficou amarrado a tantas atividades inúteis, que o tempo necessário para um aluno aprender a ler (e a escrever) se espichou demais. O que podia ser feito num semestre passou a ser feito em um ano. Com o ciclo básico, alguns professores passaram a entender que agora o aluno tem dois anos para se alfabetizar, o que é falso. Em alguns casos, contando com a pré-escola e o segundo ano, o aluno leva três anos para se alfabetizar, o que é um absurdo. O professor precisa ter idéias bem claras a respeito do que espera de seus alunos em todos os períodos escolares. A falta de uma perspectiva como essa desorienta o professor e confunde os alunos. Em todo o processo educacional, há coisas importantes que receberão uma atenção especial, e coisas secundárias, que são em geral irrelevantes. Por exemplo, é de importância fundamental que o aluno tenha em mãos a chave da decifração da escrita — o segredo da alfabetização. Sem isso, tudo o mais fica prejudicado. Uma vez adquirida a chave da decifração da escrita, o aluno tem condições de desenvolver, até por si só, o resto do processo de alfabetização, explorando a extensão e a profundidade da matéria. O professor que sabe disso trabalha mais satisfeito, porque consegue acompanhar o progresso de seus alunos, valorizando o que cada um faz, inclusive o seu próprio trabalho.

Por outro lado, alguns professores vivem em meio a muitas frustrações porque exigem demais do processo de alfabetização e têm pressa de resolver todos os problemas de fala, leitura e escrita dos alunos em apenas um ano. É preciso aliviar um pouco essas tensões na escola, acalmar a ansiedade e ter perspectivas mais realistas, O tempo é o melhor remédio, e a paciência, uma virtude do educador. O importante é o professor e os alunos trabalharem séria e constantemente, com perseverança e calma, porque a aprendizagem não tem dia marcado para acontecer. < CAGLIARI 1992a. <110> QUEM COMANDA É O PROFESSOR O professor deve assumir o comando de seu trabalho e não abrir mão disso. Não é o Ministério da Educação, nem a Secretaria Estadual ou Municipal de Educação, nem o diretor da escola, nem a coordenadora, nem a monitora de alfabetização, nem a associação de pais e mestres, nem a comunidade, nem os pais, nem os avós ou os tios, nem as teorias acadêmicas, nem as cartilhas ou os livros que devem impor ao professor o que fazer. Antes de mais nada, é preciso salvar o direito sagrado de cátedra. Na educação se propõe, e não se impõe. Quando a autoridade — seja de quem for — se impõe à razão do professor, significa que a educação perdeu seu Sentido e tornou-se uma máquina de produzir resultados intelectuais. A educação vive da

criatividade de todos. A tarefa escolar de sala de aula precisa ser devolvida aos professores. Eles precisam ter liberdade para poder se responsabilizar pelo que fazem. Se todo o mundo dá palpite, a educação vai de mal a pior, e ninguém se responsabiliza pela situação. Discutir é uma coisa, impor um comportamento profissional ao professor é outra, muito diferente e intolerável. De um professor deve-se cobrar competência e responsabilidade e não métodos ou adesão aos modismos acadêmicos. Algumas pessoas acham que atualizar-se significa falar de acordo com a última palestra que ouviu ou livro que leu. A busca de conhecimentos novos é tão importante para a sobrevivência do sistema quanto a alimentação para os seres vivos. Mas tais conhecimentos precisam ser digeridos, ponderados, avaliados, para depois entrarem na corrente sanguínea do sistema educacional.

REMANEJAMENTOS SÃO AVILTANTES O professor que realiza um trabalho sério em sala de aula não pode permitir que ocorra remanejamento de alunos. As classes formam turmas de amigos, que é preciso respeitar. A discriminação é sempre aviltante. Não é raro casos de professores incompetentes que adoram remanejamentos, porque, assim, podem ficar sempre com os

melhores alunos. Isso alivia o trabalho e esconde sua incompetência. O trabalho duro acaba sobrando para uns poucos professores que têm de aceitar <111> qualquer coisa, uma vez que nem sequer são considerados professores de uma escola, mas apenas tapa- buracos do sistema.

CONDIÇÕES MATERIAIS Um bom trabalho de alfabetização não pode ser desenvolvido sem as condições materiais adequadas. Criança odeia ficar sentada, mas a maioria das salas de aula reservadas aos alfabetizandos é exatamente igual às das demais séries. Criança gosta de escrever em pé, às vezes até deitada. As salas de alfabetização precisam ser mais espaçosas para permitir maior trânsito de alunos. É impossível desenvolver um trabalho adequado com uma classe que tem um número exagerado de alunos. Mais de vinte alunos por professor cria dificuldades muito sérias para um bom trabalho. Infelizmente, por causa de uma noção errada de humanidade e dó, alguns educadores acabaram engolindo dos governantes classes superlotadas. Preferiram optar pela má educação a decepcionar as promessas eleitoreiras dos governantes, que prometem um lugar na escola para todas as

crianças, sem saber o que isso representa em termos de educação nas situações atuais. Cuidar das escolas é algo que eles não querem. Escolas em condições precárias de funcionamento, superlotadas e com pessoal mal pago fazem o perfil da educação neste país. Depois de algumas semanas de aula, professores e alunos passam a viver num clima de guerra, numa irritação geral, causada por esses fatores. Para consertar a alfabetização não basta abolir a cartilha e o bá-bé-bí-bó-bu; é preciso muito mais. Tudo o que foi exposto aqui deixa claro que cada professor terá de traçar seu caminho de trabalho e não deverá esperar soluções prontas. Assim como a aprendizagem, o ensino também é um processo que deve ser construído pelo professor à medida que acontece e, a cada vez que ocorre, terá um jeito próprio de ser. Isso, porém, não impede que se ilustre um trabalho de alfabetização sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu sem, contudo, fazer, desse exemplo, o modelo ideal que deva ser seguido por todos e sempre. Exemplos são exemplos: são elucidativos, mas não impositivos. E claro que uma boa idéia sempre acha um seguidor, e adota-la não significa necessariamente escravizar-se a ela. <112> É dentro desse espírito que propomos seguir idéias, sugestões e

apresentamos exemplos. E sempre bom discutir certos assuntos na teoria e constatar que de fato funcionam na prática. LEITURA E ESCRITA Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive professores de alfabetização, para alguém ser alfabetizado, não precisa aprender a escrever, mas sim aprender a ler. Ou seja, no processo de alfabetização, o professor poderia prescindir do ensino da escrita, mas não da leitura. Em outras palavras, a alfabetização realiza-se quando o aprendiz descobre como o sistema de escrita funciona, isto é, quando aprende a ler, a decifrar a escrita. De posse desses conhecimentos, escrever nada mais é do que colocar no papel esses conhecimentos fornecidos pela leitura. Quem escreve deve guiar-se necessariamente pelos conhecimentos da decifração da escrita. Deve escrever pensando em como seu leitor fará para descobrir (decifrar) o que escreveu. Se cometer erros, poderá deixar seu leitor confuso ou mesmo impossibilitado de entender o que foi escrito. Se fizer tudo de acordo com as convenções e as regras do sistema de escrita, seu leitor poderá decifrar com facilidade. Portanto, o segredo da alfabetização, como se disse várias vezes, é a leitura, ou seja, a decifração da escrita. Em sentido mais amplo, a alfabetização tem outros objetivos, além de ensinar a decifrar a escrita, sobretudo na escola. Saber escrever corretamente é um deles. A escrita não deve ser vista

apenas como uma tarefa escolar ou um ato individual, mas precisará estar engajada nos usos sociais que envolve, principalmente como forma especial de expressão de uma cultura. Sem dúvida alguma, um bom professor terá sempre essa preocupação em mente, em todos os momentos da vida escolar. Porém, como essa questão está mais ligada aos usos especiais que se faz da escrita do que à aquisição propriamente dita da habilidade de escrever, o alfabetizador dará mais atenção a esse último item do que ao anterior. Em séries mais adiantadas, quando os alunos já souberem escrever com facilidade e tiverem um estilo próprio, a perfeição do texto será objeto de trabalho específico. <113> A reprodução de modelos O método das cartilhas — o bá-bé-bi-bó-bu — ensina o aluno a escrever reproduzindo um modelo. Em seguida, o aluno aprende a ler o que escreveu. Esse método vai no sentido oposto ao sugerido neste livro. Para a cartilha, o importante é aprender a escrever juntando pedacinhos (as sílabas geradoras), sempre supondo que esses pedacinhos, por serem conhecidos, permitirão a leitura. Essa abordagem envolve muitos equívocos e erros, como ficou claro no capítulo anterior. A progressão, no método do bá-bé-bi-bó-bu, é rigorosa, e o aluno só faz algo segundo um modelo preestabelecido, até

dominar o exercício, passando então à lição seguinte. Se o aluno cometer algum engano, o erro é logo apagado e substituído pela forma correta. Isso faz com que os alunos apresentem lindos cadernos. Um fato comum na história de alguns alunos é que eles foram excelentes estudantes nas duas primeiras séries, mas apresentaram seriíssimas dificuldades na terceira. Na alfabetização, o aluno escrevia tudo muito bonito, sem erros de ortografia, como mostram seus cadernos. Na terceira série, apareceram dificuldades insuperáveis porque a tarefa não consiste mais em reproduzir o modelo dado pelo professor, mas exige que o aluno tome a iniciativa de fazer um texto, uma redação ou o que for preciso nas diversas atividades escolares. Até sua letra piorou. Não é mais capaz de escrever sem cometer inúmeros e estranhíssimos erros de ortografia. O aluno tinha aprendido a escrever tão bem... Por que, agora, não sabe mais? A explicação para esses casos é simples e, ao mesmo tempo, trágica. O aluno não aprendeu, de fato, como o sistema de escrita funciona, como se lida com o texto oral e o escrito, como funciona a ortografia e como se resolvem dúvidas. Simplesmente fazia o que o professor mandava, seguindo o modelo das coisas já dominadas. Na terceira série, não existe mais modelo (semelhante àquele a que estava acostumado) e não faz mais sentido escrever somente palavras já dominadas. Nesse

momento, começa a refletir sobre seu trabalho, sobre como funciona a escrita, como funciona a cabeça de quem vai ler o que ele escreve, achando, talvez, que vai encontrar em todos os leitores que achar pela frente uma espécie de professor que apaga o errado e coloca o certo quando necessário. Em vez disso, encontra a constatação do seu fracasso, do erro incorrigível, levando-o ao desespero. E, junto com ele, desesperam-se professores, pais, amigos, etc. <114> Esse aluno deveria ter tido a oportunidade de errar antes. Deveria ter tido antes a oportunidade de refletir sobre o sistema de escrita. Não deveria ter ficado repetindo um modelo e construindo a escrita apenas com elementos já dominados. A terceira série foi a primeira viagem fora da cartilha. Somente então foi solicitado a refletir sobre como funciona o sistema de escrita e a elaborar suas próprias hipóteses a respeito dela. Só na terceira série, esse aluno começou a produzir escrita como se fosse um iniciante no processo de alfabetização, e o resultado do que faz se assemelha muito aos resultados obtidos pelas crianças quando começam a escrever errado no início da alfabetização. Conseqüentemente, as pessoas passam a considerá-lo um aluno mal-alfabetizado. Se essa criança tivesse sido alfabetizada de outra maneira, se tivesse tido a chance de mostrar ao professor o que pensava a

respeito da fala, da escrita e da leitura, apresentando um trabalho de escrita feito por iniciativa própria e não apenas seguindo um modelo de coisas já dominadas, teria resolvido seus problemas logo no início. O professor deve ter em mente que nem sempre um aluno que escreve corretamente está sabendo o que está fazendo e como funciona a escrita. Por outro lado, não é porque um aluno erra, ao tentar escrever uma palavra, que ele não esteja aprendendo a escrever. É preciso distinguir bem o ato de escrever do resultado que uma escrita produz. O método das cartilhas preocupa-se apenas com o gesto, com o ato de escrever em si, uma vez que o resultado é controlado rigidamente pelo professor e passa a ser então totalmente previsível. Por outro lado, um aluno que tem seu espaço de aprendizagem aberto pelo professor para construir seu conhecimento, sabe que o ato de escrever é uma tentativa que pode levar a um resultado correto ou não. Sabedor disso, deverá fazer um juízo de valor sobre sua ação e verificar se, de fato, obteve êxito. Nesse caso, o professor sabe perfeitamente bem que, primeiro, precisa deixar o aluno aprender a escrever, para depois cobrar dele o resultado esperado, em termos de correção ortográfica e perfeição gráfica.

A descoberta do mundo da escrita

de modo geral. na embalagem de um produto. nas placas comerciais há coisas escritas. Mas. as pessoas sabem que desenhos figurativos não constituem escrita. Sabem que a escrita pode ser feita de inúmeras maneiras. onde as <115> pessoas lêem e escrevem. Por outro lado. no mundo. Fora de casa.A descoberta do mundo da escrita é mais fácil para alguns alunos do que para outros. não é fácil distinguir rabiscos de escrita cursiva. As crianças que vivem em casas onde há livros. crianças que vivem em casas onde não se lê e não se escreve crescem tendo um outro tipo de comportamento e de conhecimentos a respeito da escrita e da leitura. Por exemplo. Ao contrário do que algumas pessoas pensam uma leitura incidental não representa um reconhecimento de uma escrita como desenho. a escrita está em toda a parte. Por exemplo. começam logo cedo a se interessar por essas atividades e a saber coisas a respeito da escrita e seu funcionamento. jornais. Isso não quer dizer que todos sejam capazes de distinguir qualquer material de escrita do que não é escrita. revistas. o que torna muito difícil ter uma idéia clara sobre ela. e tanto ricos como pobres sabem que ela existe e podem até dizer que num jornal. uma criança pode reconhecer que se trata de Coca-Cola porque está vendo uma garrafa desse .

produto ou uma propaganda ou. de maneira típica. Parece que a primeira tentativa que as crianças fazem para penetrar no mundo da escrita tem como estratégia considerar toda escrita como sendo ideográfica. Embora não seja a maneira mais comum e própria de se ler e escrever. O reconhecimento do rótulo (leitura incidental. mais especificamente. mas a <116> . Muitas crianças abordam a escrita dessa maneira quando ainda são muito novas e estão explorando o mundo. um rótulo onde aparece escrito. Porém. uma por uma. nesse caso) é de fato uma leitura. se o professor não perceber. Essa idéia é reforçada muitas vezes quando uma criança (ou um analfabeto) pergunta a um adulto (ou a quem sabe ler) o que está escrito. não pode identificar como o sistema de escrita funciona de maneira específica. nosso sistema de escrita não se presta a ser lido e escrito apenas através das relações entre letras e sons. e escrevê-las e lê-las como se estivesse diante de um sistema ideográfico de escrita. Como a criança não conhece as relações entre letras e sons. o nome da marca. durante um certo tempo elas tratarão a escrita escolar como se fosse um puro sistema ideográfico. A resposta não é uma explicação de como a escrita funciona. urna pessoa poderia em princípio tratar todas as palavras escritas como se fossem ideogramas. Mas algumas chegam a levar essas idéias para a sala de aula e.

como se estivesse interpretando uma transcrição fonética. aquele esforço de decifração transmite a quem não sabe ler a idéia de que se lê por sílabas. dizendo que em tal lugar está escrita tal palavra. apesar de todas as tentativas: falta alguém para dizer como se relacionam os caracteres com a linguagem oral. existem pessoas que lêem ou interpretam a escrita. e muito dificilmente deixa claro que existem unidades menores do que a sílaba. Por exemplo. Isso a leva a imaginar que um conjunto de sinais gráficos (misteriosamente elaborados) refere-se a uma palavra. que a escrita vem associada a sílabas. não é raro as pessoas virarem decifradores tentando ler. Ora. Essa é uma idéia muito elaborada. raramente acha que existe um sinal para cada som da fala. antes de estar associada a palavras. respondendo à pergunta mencionada acima.identificação de uma ou mais palavras. ou seja. Ao fazer isso. E por isso que ainda hoje há sistemas de escrita que não foram decifrados. que exige uma explicação particular e detalhada. No início. algumas características do sistema começam a emergir e podem servir de informações a quem não sabe ler. Ninguém chega a ela sem a ajuda de alguém que já conhece como nosso sistema de escrita funciona. Seria muito estranho alguém que pronunciasse apenas segmentos fonéticos. mas também. Na sociedade. . é comum alguém soletrar ou fazer sua tentativa de decifração pronunciando possíveis sílabas.

Outro fato comum ocorre quando alguém vai escrever e tem dúvidas sobre a ortografia de uma palavra. sem uma explicação muito detalhada e convincente. e a palavra "letra" significa apenas "escrita" e não unidade de um sistema. U de urubu e X de xarope. Aquele procedimento de decifração. uma pessoa analfabeta poderá fazer uma idéia de que a escrita é algo surrealista e um jogo no qual cada um diz o que bem quiser. a resposta vem da seguinte forma: L de lata. S de sapo. pode perguntar diretamente por uma letra: "teste" se escreve com X ou com S? Diante disso. isto é. essas palavras não têm um significado para o ouvinte analfabeto ou significam apenas nome de letra. comportando-se na vida real como um professor alfabetizador. não é transparente para o analfabeto. C de cebola. Quando alguém está tendo dificuldades para escrever um nome. A de árvore. e acento agudo no E: LÉSCAUX. típico do método das cartilhas. Só mostra as relações entre letras e sons para . <117> Diante disso. uma pessoa analfabeta intui que a escrita tem um conjunto de nomes especiais para analisar as palavras. antes de descobrir o que ela representa. Mas o que fazer com esses nomes? O que significa "xis" ou "esse"? Num primeiro momento. E de escola. Outro procedimento é responder às dúvidas ortográficas de alguém usando o princípio acrofônico. Nesse caso.

Por isso. conversando a respeito do que já sabem. Se ele fizer com que elas explicitem essas informações. em geral. T de Tomás. Depois. o que já exige um enorme esforço de análise. terá um bom motivo e um caminho interessante para ensinar a ler e a escrever. com crianças que já passaram por escolas maternais ou pré-escolas. "a — de árvore". No mais. R de Regina. . como em "u de urubu". etc. No máximo. Quando o professor começar a falar de escrita para as crianças. Aqui também funciona o princípio acrofônico: A de Antônio.quem conhece as regras do jogo. um analfabeto pode perceber que um certo padrão frasal se repete. querem saber como se escreve o próprio nome e acabam decorando que determinada letra é a letra do seu nome. Algumas crianças interessam-se pela escrita logo cedo e começam a reconhecer certas palavras que vêem freqüentemente. as relações entre letras e sons não são nem um pouco transparentes. Algumas classes. o professor deve fazer esse levantamento antes de organizar o trabalho de ensino. têm alunos que sabem muito mais a respeito da escrita. Esse tipo de explicação é muito precioso para a criança porque ensina duas coisas importantes: o nome das letras e seu valor fonético através do princípio acrofônico. precisa lembrar-se de que a maioria delas já tem informações a respeito.

Em outras palavras. uma vez que elas constatam que já sabem muita coisa. Se esses alunos não receberem uma boa explicação. ainda. <118> 6 A decifração da escrita REGRAS PARA A DECIFRAÇÃO DA ESCRITA Neste capítulo. que escrevemos com letras representando os sons das palavras. dificilmente acompanharão explicações mais específicas a respeito do funcionamento da escrita. mas que não foram sequer percebidas por algumas crianças. Com esses alunos. da leitura e da fala.Reconhecer e respeitar esses conhecimentos das crianças motiva-as a aprender mais rápido. o professor deverá tomar cuidados especiais. vamos ver quais são as regras que guiam uma pessoa . começaremos a analisar que conhecimentos uma pessoa precisa ter para decifrar e ler algo escrito no nosso sistema de escrita. devendo ensinar noções que parecem óbvias a todo o mundo. esse estudo prévio é crucial no caso daqueles alunos que sabem muito pouco ou quase nada a respeito do sistema de escrita. Por outro lado. por exemplo a respeito da distinção entre desenho e escrita ou.

posso ficar tentando descobrir o que está escrito. que. A questão. é muito complexa. recusam-se a adotar o estudo da decifração como matéria em suas aulas. mesmo porque. a decifração é algo mecânico. é o segredo do processo de alfabetização. se elas não existissem. mas jamais . com efeito. Para quem já sabe ler. e os livros não costumam tratar desse assunto correta e seriamente. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras Diante de uma escrita chinesa. se eu não souber chinês. vamos encontrar uma série de normas. O conhecimento dessas regras constitui o segredo da decifração da escrita.nessa tarefa.. Mas se quisermos explicitar esses conhecimentos. mas a ler "com naturalidade". Há uma tradição equivocada segundo a qual não se deve ensinar os alunos a decifrar a escrita.. Como alguém consegue ler um texto se não sabe decifrá-lo? Constata-se em geral que os professores não sabem dizer quais são os conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber ler e. assim como o controle fonético dá-se naturalmente para quem já aprendeu a falar. por sua vez. por isso. Apresentaremos a seguir os principais pontos que urna pessoa precisa conhecer para saber ler. não haveria a convenção social que torna a escrita algo compartilhado pelos usuários. 1.

Conhecer o sistema de escrita É preciso saber distinguir um desenho (figurativo ou abstrato) de uma manifestação de escrita. pode ser apenas um desenho ou uma escrita. Se dissermos a uma criança que a palavra está escrita numa língua que ela <120> não conhece. 2. O desenho representa algo do mundo (ou relativo a ele). conhecendo uma língua. e a escrita representa a linguagem oral (uma palavra). O fato de uma criança saber que está escrito uma determinada palavra. por sua vez. Por outro lado. representa o mundo. ajuda muito a refletir sobre seus conhecimentos da escrita e da leitura e a ousar um processo de decifração. A linguagem oral. portanto. A história das decifrações tem mostrado isso. Uma mesma forma gráfica. 3. e não outra.conseguirei ler. posso usar esse conhecimento para tentar "ler" algo escrito em outra língua. Conhecer o alfabeto O alfabeto que usamos é uma das possíveis formas do alfabeto . isso certamente não irá animá-la a usar seus conhecimentos para ler o texto. Conhecer a língua é o primeiro requisito para se ler.

formando um conjunto. É importante aprender a distinguir as letras entre si e com relação a outros sinais e marcas da escrita. mas são também controladas pelo valor funcional que as letras têm. letras de fôrma) do que com outros (escrita cursiva). Saber dizer que letras aparecem em seqüência numa palavra é mais fácil com alguns tipos de letras (por exemplo. 4. As variações gráficas seguem padrões estéticos. Variam na forma gráfica e no valor funcional. Contar um pouco da história do alfabeto é. Saber os nomes das letras é importante para poder conversar a respeito de quais rabiscos são letras e quais. não. Conhecer a categorização gráfica das letras As letras podem ter muitas formas gráficas. gerando diferentes alfabetos. tendo cada letra um nome. a melhor maneira de apresentá-lo para as crianças. 5.latino e segue um conjunto de normas atuais. É composto de letras. como podemos ver na história dos sistemas . através do uso de um princípio acrofônico. que lhe foi dado para indicar um dos sons possíveis que a letra apresenta na língua. talvez. Conhecer as letras As letras são unidades do alfabeto que representam os sons vocálicos ou consonantais que constituem as palavras.

<121> As letras são categorias abstratas que desempenham uma determinada função no sistema. 2ª letra: letra a. as letras — como unidades abstratas do alfabeto — têm valores funcionais fixados pela história das letras. é usada exatamente da maneira exigida pela ortografia das palavras. que é preencher um determinado lugar na escrita das palavras. 6. 4ª letra: letra a. pela ortografia das . principalmente. Conhecer a categorização funcional das letras Apesar de variarem graficamente. no caso da palavra CASA. é preciso saber a categorização das letras. uma mesma letra permanece a mesma porque exerce a mesma função no sistema de escrita. a. novamente. pelo processo de adaptação a uma determinada língua e. 3ª letra: letra esse. ou seja. Ou seja. esse e a. quer no seu aspecto funcional (quais letras devem ser usadas para escrever determinada palavra e em que ordem). Assim. vendo um rabisco. A forma gráfica pode variar até os limites das convenções que permitem ao leitor. é escrita com as seguintes letras: 1ª letra: letra cê. quer no seu aspecto gráfico (equivalência das letras nos diferentes alfabetos). Apesar da diferença gráfica entre essas formas.de escrita. reconhecer a letra cê. de acordo com a ortografia da língua portuguesa.

em princípio. desde que houvesse uma convenção que permitisse isso. Portanto. não se pode escrever qualquer letra em qualquer posição numa palavra. P = A. nos servimos dos conhecimentos . e. por exemplo. seguindo as possibilidades geradas pela ortografia. X = S). Além disso.palavras. para tanto. poderíamos. ou mesmo MRIT. poderia ser escrita das seguintes formas (apesar de apenas a primeira forma ter sido escolhida pela ortografia): CAZA QAZA KAZA CASA QASA KASA CAG CAXA QAXA KAXA Nota O desenho das letras está muito diferente dos modelos tradicionais. mas podemos lê-la porque distinguimos "letras" nesse rabisco. a palavra pronunciada "casa". Se as letras não tivessem esses valores. escrever CASA com as letras APXP (onde A C.

. Aí se localiza um divisor de águas: quem consegue entender isso. No início da alfabetização. uma criança tem tantas dificuldades em reconhecer as letras em uma escrita cursiva quanto um adulto experiente em ler "a letra do outro" como no nome do remetente de uma carta. fica tentando em vão outras maneiras de aprender. portanto. muito mais do que o princípio alfabético. <122> 7.ortográficos da palavra CASA. para o estudo desses dois aspectos. Grande parte do trabalho de alfabetização deverá voltar-se. A dificuldade de ler começa com o problema da identificação das letras. porque ela controla a categorização gráfica e funcional. Conhecer a ortografia A ortografia é mais importante do que a simples idéia de um alfabeto no nosso sistema de escrita. A alfabetização depende crucialmente do conhecimento da categorização gráfica e funcional. pula a barreira do analfabetismo e aprende a ler. quem não consegue. ajudados pelo contexto em que aparece essa escrita.

1986b e 1994b. Dentro desse quadro constatamos que é mais fácil partir da escrita ortográfica para a decifração da linguagem.CAGLIARI. Por outro lado. através do estudo dos sons e dos significados. permitir que os usuários de diferentes dialetos pudessem <123> reconhecer uma determinada palavra e. que chamamos de palavras. a função e os usos da ortografia é importante ainda para entender as relações entre letras e sons e entre fala e escrita. estabelece como a linguagem oral deve ser segmentada para formar as unidades da escrita. porque as marcas dialetais ficaram neutralizadas pela ortografia na escrita. ou seja. de acordo com a linguagem oral (dialetos de todos os usuários). a ortografia fez com que a escrita tivesse como função permitir a leitura. o usuário está livre para dizer o que está escrito. atribuindo . entender o que está escrito. assim. neutralizadas na escrita pela ortografia. usando seu dialeto ou outro qualquer. Uma vez identificada a palavra. estabelecendo a ordem dos caracteres nas palavras e o valor fonético de cada um deles. Saber que a ortografia congelou o modo de escrever as palavras ajuda muito os alunos a não tentar fazer do alfabeto um sistema de transcrição fonética e a perceber que a fala segue as variações dialetais. Conhecer a natureza. A ortografia comanda a função das letras no sistema de escrita. Além disso.

está em compreender bem como é a ortografia e como ela atua na linguagem escrita e na leitura. em seu início. as relações entre letras e sons são mais simples e fáceis do que as entre sons e letras. O nome das letras traz. dependem muitas noções básicas. Tem sido dada pouca importância ao estudo da ortografia. temos o quadro completo das relações entre letras e sons. Ou ainda. o som mais característico que a letra representa no sistema de escrita. Em outras palavras. A única coisa que alguns professores sabem fazer é corrigir erros de grafia. do que analisar a fala e chegar à forma ortográfica que a palavra tem. Juntando os segmentos da fala de todos os dialetos e as letras. segundo o estabelecido pela ortografia das palavras. O princípio acrofônico na verdade é um conjunto de regras que . encontramos o som "b". necessárias e indispensáveis para que uma pessoa possa ler. que é o som mais comum que essa letra assume. contudo. 8. E isso acontece com praticamente todas as letras. no nome "bê". da letra B. é mais fácil decifrar e ler do que escrever. Desse conhecimento. quer nos sistemas de escrita quer nas atividades escolares. Assim. Conhecer o princípio acrofônico O princípio acrofônico existe desde a formação do primeiro alfabeto. como vimos. O importante.valores fonéticos às letras.

bê. o nome da letra K é com C (porque não se escrevem palavras comuns com K na nossa língua). que fazia os alunos aprenderem. pê. efe. 9. nem no nome da letra Y. esse. Isso mostra que no nosso sistema o princípio acrofônico . Conhecer os nomes das letras Os nomes das letras são: a. vê. cá. Esse algo especial encontrava-se na <124> prática escolar que aplicava o princípio acrofônico de uma forma ou de outra para ensinar as crianças a ler. Num primeiro momento.usamos para decifrar os valores sonoros das letras. ele. erre. agá. somamos os sons para descobrir que palavra está escrita. gê. da ortografia e do dialeto que o leitor conhece. dê. o princípio acrofônico é uma das ferramentas mais importantes que o leitor tem para realizar sua tarefa de decifração e leitura. Na verdade. jota. u. ô. dáblio. i. ípsilon. Nesse momento. Notar que o nome da letra H não se escreve com H. quê. xis. cê. cê-cedilha. atribuímos a cada letra o som que é dado pelo seu nome. eme. ene. zê. é. são feitos os arranjos necessários a respeito dos valores sonoros das letras em função da história das palavras. Depois. no nome da letra W não aparece o som correspondente. Alguns professores acreditavam que as cartilhas tinham algo de especial e inexplicável. tê.

Em Portugal. por exemplo. C diante de A. a letra D não tem som. Mas isso acontece principalmente com letras de pouco uso. Por exemplo. U tem o som de "ka" e não de "cê". para esses. As considerações acima mostram que existem regras que . nesses contextos verbais. e isso facilita o trabalho. do Nordeste) têm outros nomes para algumas letras. em vez de "dáblio" diz-se "duplo vê". etc. a letra T tem os sons de "tche" e "tê". O. para alguns falantes.por exemplo. mê. rê.não está mais presente em todas as letras. Conhecer as relações entre letras e sons (princípios de leitura) Para saber que som uma letra tem. é preciso levar em conta o dialeto do leitor. S entre duas vogais tem o som de "zê". Por outro lado. é preciso relacioná-la com seu nome (som básico) e em seguida estudar o contexto em que ocorre (letras que vêm antes e depois). como K. Alguns falantes dizem "catano" em vez de "catando" e. para facilitar o uso do princípio acrofônico. Eles dizem. lê. Muitos professores de alfabetização adotam os dois nomes para as letras. fê. W e Y. nê. Em inglês o nome significa "duplo u". para saber se existe alguma regra especial que modifica o som básico em função do contexto . 10. Alguns dialetos (por exemplo. a letra H é exceção. mas para outros tem apenas o som de "tê".

e depois adaptar o resultado final à pronúncia do seu dialeto. Os alunos adoram <125> descobrir as regras a partir de um conjunto de dados que lhes é apresentado. a partir da análise dos dados. Ao ler a palavra XA. mas deveria acabar escolhendo apenas a forma estabelecida pela ortografia. o caminho partindo das letras para chegar aos sons é relativamente fácil. porque de acordo com as normas da nossa língua . Conhecer as relações entre sons e letras (princípios de escrita) Como vimos anteriormente. 11. Conhecer essas relações é indispensável para decifrar e ler. o conhecimento de como o sistema de escrita funciona e como se faz para ler. um desafio ou jogo — e deixar que eles construam. dará à letra X o som de CH. se alguém quisesse escrever "kaza". aplicando seus conhecimentos básicos das relações entre letras e sons. teria diante de si muitas alternativas. Essas regras podem transformar-se em exercícios em sala de aula. o aluno pode ver escrito DENTRO e ler "drentu". Por exemplo. Para quem toma por base a ortografia para chegar à fala de acordo com a norma culta ou com a pronúncia de seu dialeto. Os professores devem aproveitar esse interesse — para os alunos.controlam os valores fonéticos que as letras podem ter numa língua.

Quando se diz "andano" e "drentu". 12. dificilmente se descobre a forma ortográfica dessas palavras: ANDANDO e DENTRO. vai da esquerda para a direita . o aluno deverá decidir se essas pronúncias serão representadas por X ou por CH: XÁ. por exemplo. muito preocupadas com o traçado das letras. partindo da fala (que é sempre dialetal) para a escrita. Mas. o caminho é outro. Por outro lado. Algumas crianças. a "drentu". uma vez que o movimento <126> da mão. uma vez que esse som pode ser representado também por CH.em início de palavra todo X apresenta apenas o som de CH. Quando dizemos que escrevemos da esquerda para a direita. Ao ouvir e tentar escrever "chá" ou "cheque". significa que a seqüência das letras nas palavras obedece a essa ordem. é preciso ainda saber em que direção a escrita vai. Não basta. quando se conhece a norma padrão é mais fácil deduzir que a forma ANDANDO é equivalente a "andano" e DENTRO. CHEQUE. ou seja. nesse modo de escrever. XEQUE/CHA. indo dos sons para as letras. no caminho inverso. saber que X no início de palavras representa o som de CH. Conhecer a ordem das letras na escrita Para ler. interpretam mal essa afirmação sobre a direção da escrita e acabam escrevendo (sobretudo as letras arredondadas) de forma espelhada.

Escrevemos uma vogal e depois a modificamos colocando um til ou um acento. embora se deva modular a frase de maneira apropriada desde o início. A segmentação de palavras na escrita. na forma correta. Quando falamos. da direita para a esquerda: Podemos escrever seguindo outras direções. pronunciamos os elementos segmentais (vogais e consoantes) e os elementos prosódicos (entoação. volume.) todos ao mesmo tempo e variando a cada momento. a qualidade de voz. fazemos algumas separações. pontos) da escrita.e. na escrita. ritmo. duração e ainda a nasalidade. colocamos alguns sinais de pontuação no final das frases. etc. corresponde menos ainda a pausas ou segmentações na fala. Depois. o acento. indicada pelo espaço em branco. Mas. As pausas da fala nem sempre têm correspondência fixa com as pausas ou sinais de pausa vírgulas. Conhecer a linearidade da fala e da escrita A questão anterior está ligada à característica linear da fala e da escrita. Representamos as vogais e as consoantes sem outras especificações. Isso tudo mostra que a fala e a escrita têm muitas diferenças e . o que se obtém através da identificação da linha de base sobre a qual as letras das palavras se apóiam. 13. velocidade. O importante é permitir uma leitura clara.

mas é fácil na escrita. todo conjunto de letras separado por um espaço em branco constitui uma palavra. Nem tudo o que se escreve são letras . Reconhecer uma palavra Definir uma palavra na linguagem oral é uma tarefa difícil. a decifração começa a fazer sentido no momento em que o leitor descobre uma palavra. como conhecedor da língua. O critério semântico ajuda muito.que não há uma correspondência direta entre o que se escreve e o que a escrita representa da fala. De acordo com as normas ortográficas. deve ater-se apenas à escrita. 14. Para chegar lá. o fato de a escrita separar as palavras por espaços em branco ajuda enormemente. Cabe ao leitor. tirar do texto as informações necessárias para <127> reconstruir a linguagem oral na leitura. 15. mas não resolve todas as dúvidas. A escrita simplesmente dá indicações que permitem a leitura. No esforço para ler. Para tal. como se o que ele fosse ler fosse o que ele estivesse dizendo por iniciativa pessoal. O professor deve mostrar ao aluno que uma primeira tarefa é começar a identificar as segmentações das palavras.

mostrando se são abertas ou fechadas. A escrita usa de acentos para marcar variações da qualidade das vogais. etc. que é preciso conhecer. As vírgulas servem. mas também como um falante que pode refletir sobre sua <128> fala. um A nasalizado. a escrita usa sinais de pontuação. representam também elementos prosódicos. reticências.Além de letras. acentos e outras marcas. ou seja. é preciso controlar as expectativas com relação ao que se . Porém. nem todo A nasalizado será escrito com A mais til. para indicar pausas ou elementos parentéticos. embora façam isso de maneira muito precária. O desconhecimento dessas marcas às vezes confunde o leitor iniciante. exclamação. sobretudo relacionados com a entoação. às vezes. A letra A com um til representa um som diferente. o que bloqueia o processo de decifração. Nem tudo que aparece na fala tem representação gráfica na escrita Como o leitor raciocina não só como alguém que está tentando desvendar os segredos da escrita. O ponto final representa uma pausa longa possível. que julga tratar-se de uma letra que ele desconhece. 16. mas nem sempre necessária. Outras marcas como ponto de interrogação. Os sinais de pontuação são diacríticos que servem para orientar a entoação e a prosódia.

que são definidas como unidades constitutivas das sílabas das palavras. Na prática. No sistema alfabético. elementos prosódicos também têm pouca ou nenhuma representação na escrita. comparada com a fala.vai ou não encontrar na escrita. Esses elementos ficaram de fora porque o sistema de escrita segmentou a fala em palavras sem levar em conta unidades maiores. na alfabetização basta o professor falar. Apesar dessa limitação do sistema de escrita. que o aluno precisa ler com ritmo e entoação e explicar o que isso significa. aquelas unidades chamadas vogais e consoantes. essa é uma questão complexa. aaaan tiiii-gooo. as letras representam apenas os segmentos fonéticos. . Dado que nossos leitores são falantes do português. Como vimos. precisam ser recuperadas através dos conhecimentos que o leitor tem da língua. como o grupo tonal por exemplo. saberão concatenar as palavras devidamente. No fundo. por exemplo. como se o texto fosse falado por iniciativa pessoal. as vogais são mais facilmente reconhecíveis através do prolongamento das sílabas: caaaavaaaa-loooo. Nem todas as características sonoras da linguagem oral têm representação gráfica no sistema de escrita. Essas unidades formadas da soma de palavras. an-an-an-an ti-ti-ti-ti go-go-go-go. e as consoantes pela observação dos movimentos articulatórios da boca: ca-ca-ca-ca va-va-va-va lo lo-lo-lo. isto é.

revelando um pouco da sensação que o aluno tem ao se alfabetizar. e não a partir das possibilidades articulatórias do homem. Por outro lado. > Se deixarmos de lado a ortografia. mostra ao professor como a escrita parece estranha quando se sai da ortografia. Como os valores das letras foram estabelecidos em função da ortografia da língua e da fala dos dialetos. usando apenas os conhecimentos do alfabeto e uma boa observação de como as pessoas falam. podemos usar nossos conhecimentos do sistema de escrita alfabético para fazer transcrições fonéticas. 1992c.Nota Neste livro optamos pelo uso das letras do alfabeto com seu valor sonoro baseado no princípio aerofônico e não na forma de transcrição fonética usual dos lingüistas (alfabeto próprio e escrita entre colchetes) Assim o som da fricativa alveolar surda será representado aqui por "çê" e não por (s). Essa opção foi feita para mostrar ao professor que ele também pode fazer boas transcrições fonéticas. 17. o uso do alfabeto para se fazer transcrição fonética é precário — . O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas CAGLIARI. tendo em vista todas as línguas e dialetos do mundo.

pode-se transcrever foneticamente a variação lingüística que encontramos nos dialetos. e isso causa algumas dificuldades não só na escrita. como também no processo de aprendiza gem da leitura. Ele deverá fazer muitas coisas como professor e principalmente como educador. A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO PROFESSOR Saber decifrar a escrita é o segredo da alfabetização. esse uso especial do alfabeto apresenta uma certa eficiência que pode ser aproveitada pela escola. os conhecimentos .há melhores sistemas para isso. Não obstante. Alguns alunos acabam pensando que o alfabeto serve apenas para escrever os sons à moda das transcrições fonéticas. Esse tipo de prática ajuda <129> da enormemente a contrastar a escrita que respeita a ortografia com a transcrição fonética da fala. em primeiro lugar. Mas ensinar a ler é sua tarefa principal. as maneiras diferentes que as crianças têm de pronunciar as palavras e registrá-las sob a forma escrita. E muito importante que o professor tenha isso sempre em mente. Dessa forma. Para tanto. Pode-se transcrever. com a qual os alunos começam a escrever. é preciso ter. Mostrar as duas possibilidades de uso do alfabeto é indispensável para os alunos poderem trabalhar tranqüilamente. por exemplo.

saberá como se comportar. com competência técnica. Os < CAGLIARJ. Se se perguntar a um professor alfabetizador tradicional como . 1992c e 1 99 6h. e menos fácil e comum ainda entre os professores. Esse tipo de discurso encontra-se em qualquer livro de pedagogia: é o óbvio. dando muitas vezes um valor indevido aos aspectos pedagógicos.necessários para que alguém possa ler o que vê diante de si. porém. é uma questão não tão óbvia. Para ensinar língua portuguesa. <130> Um professor bem-preparado. Se acontecer algum imprevisto. é preciso conhecer profundamente o funcionamento da escrita e da decifração e corno a escrita e a fala se relacionam. quais os problemas que costuma enfrentar e como resolvê-los. e esses conhe cimentos são básicos. Sabe o que o espera pela frente. é preciso saber o mais possível sobre a linguagem em geral e sobre a língua portuguesa em particular. metodológicos e psicológicos. sabe exatamente o que fazer em qualquer situação de seu trabalho. Como educador. cursos de formação de professor têm se preocupado muito com outros aspectos da escola. Para ensinar alguém a ler e a escrever. o professor precisa ter uma formação geral. Como professor alfabetizador. precisa ter conhecimentos técnicos sólidos e completos. A aplicação dessas palavras à vida das pessoas.

Os métodos e técnicas não passam de ferramentas que ajudam em alguns casos e atrapalham em outros. Ele não precisa de "pacotes" educacionais. no entanto. ninguém é capaz de ensinar uma pessoa a ler e a escrever como se deve.ele faz para ler uma simples palavra como POTE. capaz de refletir sobre o funciona mento de sua fala e da fala alheia e de decifrar a escrita —. A AUTONOMIA DO PROFESSOR A explanação acima é oportuna para que o professor reflita sobre seu trabalho. Nessas circunstâncias. por conta própria — porque é falante da língua portuguesa. muitas informações. E como alguém sabe quais são os sons das letras? A sua resposta será que se aprende isso com o bá-bé-bibó bu. O professor precisa libertar- . a leitura e a fala funcionam está restrito a essas noções. um aluno precisará descobrir. E se quiser escrever a mesma palavra. ele responde que a gente verifica quais são os sons das letras e diz "pote". O conhecimento de como a escrita. mas da sua competência. Um professor competente saberá avaliar quais livros didáticos são úteis e interessantes e se trazem erros e omissões de questões importantes ao ensino. sem as quais não poderá tornar-se um leitor. vendo as questões não do ponto de vista metodológico. Com apenas esses conhecimentos. ver as letras correspondentes a esses sons e escrever: POTE. basta observar que sons a palavra tem.

que pode e deve ser aproveitada. sociolingüística.) e verificando onde esses conhecimentos entram na sua prática de sala de aula e quais as conseqüências que eles . essa talvez seja a maneira mais usual e eficiente de corrigir os defeitos de um sistema educacional falho. No entanto. mostra quão despreparado está para o desempenho de seu trabalho. etc. Mas. como ele pode explicar ao aluno o emprego das consoantes nasais em final de sílaba. de que forma seus alunos poderão saber? Por outro lado. para isso. o professor pode ir lendo livros de lingüística geral ou de áreas particulares (fonologia. Como um professor como esse pode alfabetizar alguém? Se nem ele sabe resolver essas questões. semântica. como ensinar os grupos consonantais. Existe uma idéia muito preconceituosa em nossa sociedade com relação aos autodidatas. para tirar daí o que a escola de formação não lhe deu. deverá ser realmente compe tente e um especialista em sua área.se das pessoas que apresentam soluções miraculosas num livro ou método. <131> Um professor que pergunta numa palestra o que ele deve fazer para ensinar a um aluno como ler sem soletrar. um professor que passou vários anos em sala de aula tem uma experiência de vida muito rica. Aos poucos. para que esta autonomia possa se sustentar. etc.

refletir como usuário da língua portuguesa a respeito dos mecanismos da fala. Simplesmente não estamos acostumados a refletir sobre elas e menos ainda a explicitá-las na forma de um estudo. já que na vida profissional lidamos com todas essas questões. pode refletir sobre todos os conhecimentos necessários para realizar essa tarefa e traduzir essa reflexão em regras. escrita e leitura e quais os seus usos. Deve. Se o professor sabe ler. precisa saber como esse sistema de escrita funciona. Muitas das coisas que se ensina neste livro poderiam perfeitamente sair de um trabalho pessoal de qualquer professor alfabetizador. Deve estudar os sistemas de escrita e decidir como levar esses conhecimentos para suas aulas. <132> Procedimentos para o estudo das letras Como já dissemos várias vezes. o que faz quando ouve. que serão passadas oportunamente para os alunos. precisa saber . Deve procurar explicitar. aprender a ler é o segredo da alfabetização. através de pequenas regras. porque assim saberá voltar-se às dificuldades particulares dos alunos e procurar urna solução para elas.trazem. Deve refletir sobre as próprias dificuldades e tentar descobrir formas de superá-las. isto é. sobretudo. fala e escreve. Mas é justamente essa explicitação que traz à consciência do professor sua competência. Para alguém conseguir ler algo.

como os acentos e o til. é possível escrever a mesma palavra. Quando se lê.decifrar a escrita. indo da análise de letra por letra e . Por essa razão. embora graficamente esses dois caracteres sejam muito diferentes. De acor do com o sistema de escrita. Ler não é o mesmo que escrever. como os sinais de pontuação. que pode ter inúmeras formas gráficas. "E" representa o mesmo valor de "e". Antes disso. Cada letra representa um valor abstrato. a questão mais importante é saber quais sons estão associados a quais letras. a título de sugestão. A escrita representa sons da fala. o processo de decifração ocorre de uma determinada maneira. e em marcas. o modo como um professor pode trabalhar esse aspecto na alfabetização. o que vale é a decifração que conduz ao reconhecimento da palavra. variando esses caracteres: "SELO" e "selo". Fornecer as explicações básicas ao aluno Do ponto de vista funcional. é bom lembrar alguns fatos que servem de guia para que o processo de alfabetização seja mais eficiente. logo adiante. O próprio nome das letras traz em si um dos sons (em geral o principal) que a letra representa. em alguns diacríticos. Para decifrar uma escrita feita com letras de um alfabeto. e. Por exemplo. 1. apresenta-se. de acordo com as normas ortográficas. a escrita escolar que usamos baseia-se num alfabeto de 26 letras (incluindo o "ç"). porém. Esse valor é dado pela expectativa de ocorrência em palavras.

Se o aluno já souber como é a forma ortográfica da palavra. Feita a decifração. Qualquer falante. algo falado (quando se vai escrever) ou algo que se pode falar (quando se vai ler). o contexto em que aparece escrita a palavra em geral é suficiente para mostrar para o aluno que ele está no caminho certo. Entretanto. o procedimento é diferente quando se escreve. Precisará. levando em conta os conhecimentos que tem da linguagem oral. é preciso verificar as alternativas possíveis. faz-se uma hipótese a respeito de quais letras podem ser usadas para transcrever os sons detectados. Finalmente. . ou seja. Depois. Em primeiro lugar. deverá resolvê-las antes. então. até compor o resultado final. escreve com facilidade. Se não <134> souber ou tiver dúvidas. Em seguida. como falante nativo. perguntando ou procurando no dicionário. É sempre bom lembrar que não é preciso ter uma ilustração para se escrever ou ler: um texto basta. consultar um dicionário. observam-se os sons que a palavra apresenta na linguagem oral. leva-se em conta a ortografia. É interessante recordar também que a escrita não representa a fala de um dialeto em particular.de combinações de letras. Quando se trata da palavra isolada. ele vai aprender que pode encontrar escrita uma palavra que não conhece. que o aluno pode checar.

Isso simplifica enormemente a tarefa de escrever uma palavra. pode ler decifrando as letras e compondo as palavras segundo a fala de seu dialeto. Essas noções básicas devem ser discutidas com os alunos desde o início dos trabalhos e sempre que o professor tiver oportunidade. pensa nos sons das palavras em seu dialeto. o sistema também é fonográfico e usa letras. ou seja. mas essa não é uma leitura produtiva. Ao escrever. O professor precisa explicar cada uma dessas noções. Se perceber que algum aluno está fazendo confusão com alguma dessas idéias. É preciso estar atento para o fato de que se pode fazer "leitura incidental" e até escrever palavras com letras. 2. Quem sabe combinar os valores fonéticos das letras para deci frar as palavras escritas tem muito mais vantagens e facilidades para ler. seja ela familiar ou não. precisará esclarecê-lo. porém. procura a forma padroniza da pela ortografia e escreve. E é assim que os alunos devem aprender. É preciso ir direto ao assunto. Como. Explicar o que é uma letra . caracteres ideográficos. o segredo da escrita das palavras é a combinação de letras. e não ficar camuflando com histórias ou exercícios que indiretamente propiciem o aluno a chegar às conclusões desejadas.de qualquer dialeto. como se fossem glifos. sem rodeios. O mesmo vale para a leitura: pode-se ler uma palavra como se fosse um ideograma.

que serve para distinguir um caractere de outro. como as serifas das letras de fôrma maiúsculas. elas têm uma direção fixada por esse espaço. mas pode variar e ter "enfeites" sem interferir nas suas características distintivas. o aluno deve saber onde se pode encontrar exemplos de escrita. Aliás. e a seqüência é da esquerda para a direita. e que uma letra sucede a outra. As letras têm tamanhos e formas definidas nos alfabetos. e não letras em tamanho grande ou pequeno. tal qual aparece no alfabeto. <135> em linhas. Letras maiúscula e minúscula indicam alfabetos diferentes (conjuntos diferentes de caracteres). através do reconhecimento do que é letra e do que não é. As letras são escritas separadamente. Toda letra tem uma forma básica. É . da direita para a esquerda. no alfabeto de letras de fôrma.O aluno deve saber ainda que as letras são dispostas em linhas (em geral horizontais e mais raramente de cima para baixo). Letras podem vir acompanhadas de figuras ou rabiscos: é preciso saber distinguir um de outro. de tal modo que não se pode virá-la de cabeça para baixo. A letra deverá estar disposta na escrita das palavras. linha por linha. Com relação aos usos da escrita. a disposição das letras no próprio alfabeto já mostra esse fato. mas são interligadas na escrita cursiva. Corno as letras são dispostas no espaço. apoiadas na linha-base horizontal. da esquerda para a direita.

tais como numérica. É preciso distinguir um uso lingüístico da escrita de outros usos possíveis. É preciso. Alguns alunos se perdem em detalhes (segundo o professor). Como vivemos num mundo onde coexistem muitos sistemas de escrita. As vezes. ele não saberá ler e . Aprender a ler significa aprender todas essas coisas. o que são palavras isoladas e o que é um texto. Reconhecer o material da escrita e suas características básicas é im prescindível para começar um trabalho de decifração. o aluno precisa saber isolar a escrita alfabética. e onde terminar. de outras formas de escrita. composta de letras e seguindo uma ortografia. E se o aluno não for capaz de decifrar uma palavra. Enfim. em que as letras são simples pretexto para urna escrita do tipo ideográfica e nãolinear.necessário saber por onde começar a ler ou a escrever. ainda. descobrindo quais sons as letras apresentam em deter minada palavra. simb&lica. tudo o mais fica comprometido. as que utilizam sinais e marcas. mas sem superar essas "pequenas" dificuldades. para "enriquecer" a escrita com mais idéias. o aluno deve saber o que é uma letra e corno reconhecê-la quando a encontrar pela frente. o autor tira proveito artístico ou qual quer outro efeito. distinguir uma escrita linear de certas formas "abrevia das" ou "compostas". antes de se ensinar as relações entre letras e sons. juntamente com o aspecto gráfico e funcional de urna letra.

Por exemplo. é separar por significado — cada significado corresponde a uma palavra possível. Para saber como segmentar uma <136> palavra. embora represente uma idéia só. "assistir ao filme". E. a segmentação é possível. sem muitas dificuldades. que deverão escrever. o que nos permite variar parte da expressão: "assistir ao jogo". há duas estratégias importantes: a primeira. A palavra final será sempre dada pela ortografia. quem não sabe tem de perguntar. observando a linguagem oral. etc. a segunda. Tudo isso é muito mais complicado na prática do que esse comentário revela. "ver televisão" "consertar televisão". quem sabe sabe. é possível separar em palavras escritas a expressão "assistir à televisão". mesmo que consiga dizer coisas que vê escritas. nesse caso. porque podemos reconhecer um significado em "assistir" e outro em "televisão". ou reproduzir graficamente o traçado de palavras.não poderá ser considerado alfabetizado. é tentar colocar outra palavra no local que se quer segmentar — se isso for viável. Mas essas idéias representam um primeiro passo para os alunos poderem segmentar a fala oral em palavras. Pode-se colocar uma palavra intercalada entre uma e outra: "assistir sempre à . 3. Explicar como segmentar a fala em palavras Uma palavra separa-se de outra na escrita por um espaço em branco.

no caso de "macarrão". Nota E aconselhável pendurar uma faixa sobre a lousa em que apareçam primeiro as letras de fôrma maiúsculas e depois as letras de fôrma minúsculas e minúsculas lado a lado. Decorar os nomes das letras é importante. 4. tampouco pode-se intercalar algo entre uma palavra e outra: "maca-gostoso-rrão". mesmo antes de entrar na escola. mas o que sobrou fica sem sentido: "-rrão". Em geral. Porém. se houver segmentação. mas não na escrita comum do dia-a-dia. mas o professor não irá exigir isso. . Compare as formas "casa pequena" e "casinha" e faça os testes... Os alunos não devem se preocupar em cortar palavras no final de linha. pode-se ter "maca". para que os alunos possam consultar sempre que desejarem.televisão". através de exercícios de memória. pelo menos as letras iniciais do próprio nome. Explicar como descobrir as regras de decifração Deve haver um cartaz bem grande (ou uma faixa) com as letras do alfabeto em sala de aula. porque as crianças costumam ir aprendendo. começará pelo nome das letras. porque esse é um procedimento encontrado em livros. Quando o professor for ensinar as relações entre letras e sons. a classe como um todo conhece todas as letras do alfabeto.

etc. como AMOR e ROMA. Nessa atividade. pode fazer um levantamento das letras que são usadas para representar um mesmo som. o professor pode programar aulas e material. Por outro lado. <137> Poderá.nos quais os alunos recitam o alfabeto. ou até mesmo a mesma palavra. Descobrir regras de decifração (relação letra/som) e de escrita (relação som/letra) é uma estratégia para se alfabetizar com rapidez e segurança. O professor poderá pedir para os alunos ditarem palavras para verem como são escritas e para proceder à análise de uma ou de outra letra do interesse deles. Seguindo a ordem da esquerda para a direita (ordem correta). tem-se um amontoado de sons sem sentido (raramente dá certo ler da direita para a esquerda. Os exemplos das listas servirão para uma discussão reflexiva sobre as relações . mas se a leitura for feita da direita para a esquerda. proceder a uma análise geral da palavra. ASA. dizendo o nome de cada uma das letras que a compõem. pode-se ter palavras diferentes.). o famoso bá-bé-bi-bó-bu. fazendo o levantamento dos sons que as letras têm. pode-se ler a palavra corretamente. Entretanto. Isso se aprende e se decora com o próprio estudo das letras. Escrever listas de palavras para mostrar as funções das letras será um procedimento cotidiano. se quiser. deixando de lado o método das cartilhas.

As cartilhas jamais pensaram nessas coisas.entre letras e sons e demais fatos lingüísticos. Como algumas letras têm um comportamento muito semelhante entre si (paralelismo). Levando em consideração esse estudo em anexo. ou se comportam de uma maneira semelhante sempre que se encontram em determinadas circunstâncias. deixando que o aluno descobrisse isso por conta própria. como a variação dialetal e a ortografia. o professor ajudará os alunos a formularem regras que expliquem os fatos considerados. Como resumo e conclusão das reflexões. quando se pede a eles para organizar um material nesse sentido. pode-se ver a questão das relações entre letras e sons por outro ângulo. de tanto escrever palavras com "pedacinhos". JUNTANDO E GENERALIZANDO Um estudo detalhado de letra por letra é apresentado no Apêndice no final deste livro. em vez de uma série de regras . Recomenda-se que o professor consulte-o sempre que necessário. sentem-se embaraçados e confusos. Desse modo. isso permite <138> juntar o que for igual e generalizar os casos comuns a mais de uma letra. É incrível que alguns professores alfabetizadores nunca tenham pensado nesses fatos e. porque nunca se preocuparam em ensinar como decifrar a escrita.

Para um aluno principiante. mesmo quando estão pensando na leitura. Somente quem conhece o . na decifração ou na escrita. partindo da complexidade que as letras têm nas suas relações com os sons da fala. Esse é um ponto que as cartilhas nunca levaram em conta porque tratam apenas da escrita. Além de distinguir fatos da leitura de fatos da escrita. ele tem de decidir como escrever. escrever ou ler qualquer coisa é sempre muito difícil. Refletir sobre tais questões é uma maneira um pouco mais sofisticada de conduzir a análise dos conhecimentos necessários para que alguém consiga ler e escrever. mas pode ser muito complicado quando. As facilidades e as dificuldades de ler não são as mesmas quando se trata de escrever. observando esse fato na fala. e vice-versa. suas funções e empregos serão a medida usada para definir se uma letra é mais difícil ou mais fácil do que outra. não uma ordem pedagógica. pode-se ter a mesma regra para todos os casos que se enquadram dentro das regras propostas. para letras diferentes. Em primeiro lugar. é preciso distinguir fatos de leitura (decifração) de fatos de escrita (produção de escrita). Uma incursão por esse território será feita a seguir. procuraremos avaliar o que é mais "fácil" e o que é mais "difícil".parecidas. A própria natureza das letras. Um fato pode ser fácil para o aluno quando ele tem de decifrar e ler. Essa é uma ordem de análise científica.

Para o principiante.funcionamento de todo o sistema pode hierarquizar o que. U) das demais que representam consoantes. nessas circunstâncias. Essas dificuldades aparecem cada vez mais à medida que o aluno progride nos estudos. ler ou escrever CASA ou EXTRA pode apresentar o mesmo grau de dificuldade e. Vamos separar os comentários a respeito das letras que representam vogais (A. O. Trata-se de uma dificuldade <139> medida de acordo com a complexidade dos fatos de nossos sistemas de escrita (decifração e ortografia) e de fala (variação lingüística). I. OQUE É MAIS FÁCIL DE DECIFRAR Antes de mais nada. o professor poderá entender melhor o percurso que os alunos farão. Entretanto. O mito de que a letra x é a mais difícil deve-se ao fato de as pessoas já alfabetizadas encontrarem dificuldades ortográficas quando estão diante dessa letra. No início. E. Sempre que se . para si. Quando se fala em decifração. subentende-se leitura. sabendo das dificuldades futuras. tudo é igualmente muito difícil. é difícil hierarquizar qualquer tópico com segurança. é mais fácil ou não. As vogais mais fáceis de decifrar são o I e o U. é bom relembrar o que se disse acima a respeito das noções de "fácil" e "difícil" aplicadas ao estudo das letras.

ou o NH. A letra E pode ser lida como "é" ou como "é" em sílabas tônicas (o valor fonético "é" ocorre raramente em sílabas átonas. ser lida com o som de "i". Essa vogal muda de qualidade vocálica quando se junta a ela a nasalização (note a diferença entre LÁ e LÃ). ainda. "imprêstadu". BELO. EMPRESTADO. como em: CAMADA. DELA. Ambas apresentam regras semelhantes (mudando apenas os valores fonéticos em jogo). como CAFEZINHO. A letra O pode ter o som de "ô" ou de "ó" quando ocorre em sílaba tônica (em sílaba átona. Pode ainda ser nasalizada ou não quando ocorrer um M ou N ou NH no início da sílaba seguinte. como em ACHARAM. Em sílabas átonas. juntamente com o M. TINTA. pode gerar a formação de ditongos. BELEZA. o som de "ó" ocorre somente em palavras derivadas e na pronúncia de certos dialetos. As vogais mais difíceis são o E e o O. A letra A. Igualmente fáceis são essas mesmas vogais quando são ou podem ser nasalizadas. é comum a letra . BANHA. tratemos da vogal oral A. a letra E pode. semelhantemente à letra E). quando nasalizada. Exemplos: JUNTO. Em seguida. BANANA. "féri". Em sílabas átonas. ou na pronúncia especial de certos dialetos do Norte e do Nordeste). BANHA. e somente em palavras derivadas. Veja os exemplos: FERE. Exemplos: DELE.encontrar uma delas lê-se "i" ou "u".

ocorre diante de outra vogal. podem ditongar-se com "i". CANTO. na escrita o til só pode ocorrer sobre A e O. BOM. CINEMA. Porém. COMIDA. como nos seguintes exemplos: VEM. COZINHA. FOGO. podem ditongar-se com "u". as vogais E e I.O ter o som de "u". SONHA. LEÕES. ACHARAM. Assim. CIDADÃOS. <140> a vogal precisa ser nasalizada: CAMPO. as vogais O. OMBRO. LENHA. Quando a vogal vem diante de uma consoante nasal (M. MÃE. VINDA. TUMBA. BANHA. e a consoante nasal pode ser um "nh" na fala. quando uma vogal se encontra diante de um M ou de um N. COMA. ONDA. ALGUM. embora somente a vogal A mude sua qualidade vocálica básica ao se nasalizar. Finalmente. JUNTO. Em final de palavra. como em: LÃ. VIM. CANA. que por sua vez ocorre diante de outra comsoante. quando seguidas de M. PÕEM. Confira os seguintes exemplos: FOCA. NH). UNHA. VINHO. a vogal precedente pode nasalizar-se ou não. N. LIMPO. Todas as vogais juntas apresentam regras semelhantes quanto à nasalização. Se ocorrer diante de NH pode ditongar-se ou não: CAMA. ZONA. por sua vez. UNA. Por outro lado. toda vogal com til representa um som nasalizado. VIME. e a consoante nasal pode ser uma velar. quando seguidas de M. em final de palavra. PENA. LEME. etc. a qual. . ENTRE. U e A. EMBORA. UMA.

a letra L tem o som de "u". POÇO. e a letra Z. F e V. PALHA. BROTAR.Com relação às consoantes que são mais fáceis de decifrar. Exemplos: HORA. HINO. Segundo grupo: P B. Exemplos: MAÇÃ. ADVOGADO. Com relação ao primeiro grupo. Em final de sílaba. Exemplos: POTE. DADO. de "çê". A letra Ç tem sempre o som de "çê". LH. FACA. mais Ç e J. NH. Primeiro grupo: H e os dígrafos CH. As letras do segundo grupo representam valores fonéticos fáceis quando ocorrem em início de sílaba. mas resulta num valor fonético de fácil controle pelo falante ("chê". TATU. etc. Em final de sílaba. HERÓI. HÁBITO. TRABALHO. a letra L tem sempre o som de "lê". LIVRO. podem-se ter três grupos. FRANGO. BOLA. Como parte de um dígrafo. JOVEM. AJUDAR. Exemplos: CHINA. "lhê" e "nhê"). são pronunciadas com um "i" optativo. Nesse contexto. No terceiro grupo. VENHA. T. e a letra J tem sempre o som de jê". estão as letras L e Z em início de sílaba. D. Apresentam maior dificuldade quando são a primeira letra de grupos consonantais terminados em R ou L (ou mais raramente S). VACA. modifica o som da letra que a precede. RITMO. Terceiro grupo: L e Z. A . OBJETO. a letra H só ocorre em início de palavra e aí não tem som algum (é preciso começar a decifração pela vogal que vem logo depois). e a letra Z tem sempre o som de "zê".

como no caso dos dígrafos SC. a letra S tem o som de "çê" no início de palavra. Nos demais casos. NASÇA. ou seja. na mesma sílaba. I ou de outra consoante. Quanto ao segundo grupo. depois de consoante e no dígrafo SS. SÇ e na forma de plural de certas palavras. PSICOLOGIA. EXCEÇÃO. SELVA. NASCIMENTO. S. terceiro grupo: G e os dígrafos GU e QU. U ou de outra consoante). CABANA. Primeiro grupo: letra C e grupos consonantais SC. A letra S não representa som nos dígrafos SC. segundo grupo: S. e sexto grupo: X e os dígrafos XC e XÇ. CRISE. como em SAPO. tem o som de "kê" (diante de A. Z e M. O QUE É MAIS DIFÍCIL DE DECIFRAR Podemos agrupar as maiores dificuldades de decifração das consoantes em seis grupos.<141> letra L apresenta certa dificuldade quando ocorre formando grupos consonantais. quinto grupo: os casos de juntura intervocabular envolvendo R. CIDADE. quarto grupo: R (o dígrafo RR é de fácil leitura). a letra C tem o valor fonético de "çê" diante de E. SÇ ou XC. O. entre uma consoante e uma vogal. XC. Exemplo: MESA. TÉCNICA. COR. em . Com relação ao primeiro grupo. CLARO. Exemplos: CEBOLA. tem o som de "zê". PASSO Entre duas vogais.

O quarto grupo é o formado pela letra R (o RR é de fácil decifração — tem como única dificuldade a variedade de sons em . não-dígrafos: AGÜENTAR. Com relação ao terceiro grupo. em alguns dialetos (cf. GARRAFA. os grupos GIJ e QU não são dígrafos. <142> dígrafos: GUERRA. TOMÁS. diante de outras letras. IGNORAR. em final de sílaba. Não há regras.certos contextos. O e U. mas. GOTA. GULOSO. em algumas palavras. FREQÜENTE. em outros. tem o som de "çê". COSTA. SATANÁS. Os grupos de letras GU e QU podem ser dígrafos ou não. no meio da palavra. No entanto. Nesse caso. GUIMARÃES. uma vez que o U é pronunciado. AQUELE. tem o som de "chê". GLÓRIA. GRAÇA. Confira os exemplos: BESTA. MESMO. Exemplos: GENTE. ou seja: "zê" e "jê". Só são dígrafos diante de E e de 1 e nunca diante de outra vogal (A. Em alguns dialetos. SAGÜI. a letra S. a letra S pode ter os valores sonoros correspondentes nos dialetos mencionados acima. Somente o falante nativo sabe se o u é pronunciado ou não numa determinada palavra. se houver uma consoante sonora no início da sílaba seguinte. ANIQUILAR. LÍQÜIDO. a letra G é semelhante à letra C: diante de E e de I tem um tipo de som ("jê") e. QUENTE. AQUI. GIRAFA. tem outro tipo de som ("guê"). "as casas amarelas foram vendidas"). DESDE.

RIO. É preciso levar em conta. RUA. Juntura significa ligar uma palavra com outra na fala. O R representa o som do tepe (vibrante simples) quando está entre duas vogais. MURRO.diferentes dialetos). Quando escrevemos. CARRO. e representa o som da fricativa velar (ou da vibrante múltipla) quando está em início de palavra. PLANTAR. FERIR. POBRE. ora desvozeada (surda). Não há uma pequena pausa entre uma palavra e outra. o fato de o R em final de verbos não ser pronunciado em certos dialetos ou em certos registros de fala (fala informal). além disso. quando falamos. MAR. motivo da confusão que alguns alunos fazem com as duas formas de escrita. separamos as palavras com um espaço em branco. ainda. MURO. pelo contrário. soma-se ainda a grande variedade de sons foneticamente possíveis nos vários dialetos. S. . o que ocorre mais freqüentemente é a ligação de uma palavra com outra como se ambas fossem uma coisa só. BRASIL. PORTA. não é isso o que acontece. mas. sem contar a ocorrência ora de uma pronúncia vozeada (sonora). costumam ocorrer algumas modificações quando certas palavras se juntam. Acontece que esse segundo valor fonético é típico do RR em posição intervocálica. por exemplo). a variação é menos problemática (final de sílaba. Exemplos: CARO. Z e M. Em todos os casos. Nos outros contextos. CRAVO. CERTO. O quinto grupo refere-se aos casos de juntura intervocabular envolvendo R. RATO. Em português.

o mesmo acontecendo com o exemplo número dois. quando se juntam dois "as". nos exemplos 3 e 4. houve o encontro de dois "as" mas nenhum deles caiu. mostrando qual a pronúncia quando duas palavras se juntam: Palavras isoladas Palavras concatenadas casa amarela (1) casamarela está aqui (2) estáqui fala alto (3) falaálto está alto (4) estáalto parte azul (5) parteazul carro azul (6) carroazul todo ódio (7) todoódio está infeliz (8) estáinfeliz compre ovo (9) compreôvo <143> No primeiro exemplo. Porém. ocorre uma sílaba tônica final. têm-se uma sílaba átona final e uma sílaba átona inicial. No exemplo 3. tem-se uma sílaba átona . No exemplo 2. No exemplo 1.Vamos ver uma série de exemplos. seguida de uma sílaba átona inicial. um deles cai. Será que existe alguma regrinha para esses casos? Vamos ver que tipo de sílaba ocorre nesses contextos.

seguida de uma sílaba tônica inicial. mais uma vez. e se for. Considerando apenas o exemplo 1. nos exemplos 3 e 4. como mostram esses exemplos. porém. átona. a segunda vogal cai se for idêntica à primeira em sua qualidade.final. No exemplo 4. a dificuldade dos alunos é maior no caso da juntura que provoca a queda de alguma vogal. Podemos formular agora uma regra: em juntura intervocabular. Fez-se uma análise mais completa do fenômeno para evidenciar. E isso ocorre independentemente da qualidade das vogais e da tonicidade que elas apresentam. formam-se ditongos crescentes (o final do ditongo é mais saliente do que o inicio). não se sabe qual vogal deixou de ser pronunciada. Nota-se que. como refletir sobre as relações entre fala e escrita. nota-se que a vogal tônica permanece sempre. como no exemplo 3. quando se juntam duas vogais de qualidades diferentes? Vejamos os exemplos de 5 a 9. no contexto de juntura. com a formação dos ditongos. Do ponto de vista da decifração e da escrita. uma vez que as sílabas se fundem. A dificuldade mais . O que acontece. Essa regra inclui todos os exemplos estudados. e que a vogal átona mantém-se apenas quando é final da palavra e a seguinte começa com vogal tônica. nos demais casos. O exemplo 2 é de difícil análise. Envolve também algumas dificuldades com a segmentação. além disso. Porém. ocorrem duas sílabas tônicas.

"toda a amizade". Por exemplo. No primeiro caso. . a maior dificuldade dos fenômenos de juntura intervocabular acontece quando. Porém. Pior ainda é o fato de haver mudanças muito significativas na qualidade fônica dos elementos envolvidos. é saber se devem ou não escrever o artigo "a". no segundo caso. uma vogal. mais raramente. uma letra R em final de palavra tem o som de RR (cujo valor fonético varia de dialeto para dialeto. o trabalho de segmentação da fala. como já se viu antes). Confere. no início da palavra seguinte. em final de palavra. subseqüente). há uma consoante e. o falante quer marcar uma oposição. como em: "comprava a cebola por quilo e a banana a dúzia" em confronto com "comprava cebola por quilo <144> e banana a dúzia". ainda. a presença do artigo não é obrigatória. formando uma sílaba única e dificultando. em que caem dois "as" na fala. é comum alguns alunos omitirem o artigo em expressões como "toda a família". assim. mas muda levemente o significado da frase. a consoante final junta-se à vogal inicial. em contextos de juntura com outra vogal precedente (ou. Em alguns casos. apenas enumera fatos. Nesses casos. mas não na escrita. Com relação à decifração.comum que os alunos enfrentam. encarando o problema por outro ângulo. Por exemplo.

troca-se o som de RR por R. o R tem o som da vibrante simples (tepe) e não da vibrante múltipla (RR). encontra um tipo de som. se a nasal for precedida por I ou E. etc. . têm sempre o som de "zê". independentemente do dialeto. Em final de palavra. VIR AQUI. como se pode ver nos exemplos a seguir: MAR ALTO. DEZ AMIGAS. Fato semelhante é o caso do S ou Z em final de palavra e vogal no início da palavra seguinte. ocorre uma consoante nasal palatal ("nhê"). mas. nesses casos. POR ALI. descobre que o som mudou de "zê" para "çê" ou "chê". Veja os exemplos: CASAS AMARELAS.quando se encontra em juntura intervocabular. pronunciando a palavra isoladamente. CARÁTER AGRESSIVO. Concluindo. depara-se com outro. quando o aluno segmenta e vai analisar a palavra isoladamente. As letras S ou Z. O professor precisa explicar ao aluno que a fala funciona de um jeito e a escrita. Nesse caso. Quando o aluno analisa sua fala contínua. a nasal pode formar a sílaba independente com a vogal seguinte. Porém. quando ocorre M e a palavra seguinte começa por vogal. TRÊS AMIGOS. A escrita funciona como se as palavras ocorressem sempre isoladas. no início. Isso costuma causar dificuldades sérias para alguns alunos. de outro. etc. ocorre uma consoante nasal velar. se o M for precedido por outra vogal. em juntura. RAPAZ INFELIZ. depois que a segmenta.

PÕE AQUI ("põi-nha-ki"). IRMÃ INFELIZ ("irmã-rji-fe-liç"). de acordo com a forma de cada palavra. HOMEM AMARELO. ocorre uma vogal nasal no final de palavra. Uma simples explicação. A falta de explicação. Isso significa que. pode não ocorrer nenhuma consoante nasal. etc. o Z é opcional. no entanto. em juntura intervocabular. VIM AQUI. RUM AMARGO. etc. "ir-mã-i-fe-liç". é quase sempre suficiente para que o aluno perceba como deve agir perante a fala e a escrita. VIERAM AQUI.Veja os exemplos: VEM AQUI. essa regra. Assim. etc. Como se disse. diferentemente da regra estabelecida para o R e o S. "bõu-a-mi-gu". permanecendo apenas sílabas diferentes. "põi-a-ki". os exemplos acima. "vi-é-rãua-ki". Mesmo que o aluno . pode deixar algumas crianças num impasse ou em sérias dificuldades. poderiam ser ditos da seguinte maneira: "véi-aki". mesmo não havendo a letra M na escrita. sobretudo quando ele se depara com esses fatos pela primeira vez. contudo. Observe os seguintes <145> exemplos: MÃE INFELIZ ("mãi-nhi-fe-liç"). em vez da consoante nasal indicada para a fala. Aqui também a variação entre escrita e fala traz dificuldades para o aprendiz. BOM AMIGO. não entendendo por que as palavras variam tanto e quais são as regras que regem as variações. A mesma regra aplica-se quando.

no meio da palavra. não ocorre uma pronúncia como "echçeçãu". etc. a letra X tem o som dc "çê" ou de "chê". Quando ocorre em final de sílaba. PIREX. Aqui. FIXO. como cm: "eichplicarr" (EXPLICAR).não as aprenda. nesse contexto. etc. LATEX. que consiste . A maior dificuldade com a decifração da letra X ocorre quando ela representa uma consoante em início de sílaba e ocorre em contexto intervocálico. o que torna sua leitura fácil. que ele aprenderá mais tarde. "eichçeçãu"). dependendo do dialeto: EXTRA. pode haver uma ditongação da vogal anterior quando se trata do som de "ê". EXPLICAR. etc. O mesmo acontece com os dígrafos XC e XÇ: EXCEÇÃO ("eçeçãu". dependendo do dialeto: TÓRAX. tem o som de "kç" ou "kch". Sem nenhuma explicação. o aluno procurará uma e acabará confuso. EXAME. O último grupo de dificuldades de decifração da escrita proposto anteriormente é aquele que se refere ao X e aos dígrafos XC e XÇ. Para chegar à conclusão final. A letra X tem o som de "chê" no início de palavra. Como temos dito várias vezes. como nos seguintes exemplos: VEXAME. PROXIMO. Porém. quando o leitor se encontra diante de casos assim. o simples fato de ouvir uma explicação significa para ele que se trata de uma questão difícil. Em final de palavra. saber as relações entre letras e sons resolve o problema da decifração só em parte. julgando-se incapaz de aprender. deverá lançar mão de outro expediente.

na realidade individual de cada aluno. o aluno percebe que a palavra que ele descobriu não faz sentido ali. a passagem da escrita para a leitura o conduz de maneira natural à fala do seu dialeto. deve-se destacar que as dificuldades de decifração apresentadas acima levam em consideração o fato de se usar a leitura como uma forma de aprendizagem e o emprego da norma culta em sala de aula. ainda assim é preciso checar o contexto em que a palavra se insere para saber se ela está correta. as diferenças entre escrita e fala aumentam. dependendo da variedade lingüística em uso. Deverá procurar então uma outra alternativa. Porém. Por exemplo. Como o X entre vogais pode ter o som de "chê". confrontando com o contexto. Portanto. Porém. Finalmente. . alguém vai tentar ler a palavra FIXA na frase "a etiqueta estava fixa no caderno". Se produz. Se não produz. sobretudo quando ele está lendo sozinho. a leitura é "fikça" e o texto adquire seu sentido correto. uma leitura possível seria "ficha". Sabe-se que entre vogais a letra X pode ter ainda o som de "kç".<146> em decifrar o que for possível e checar se o resultado obtido produz uma palavra da língua portuguesa. podendo trazer dificuldades sérias para alguns alunos. ocorreu algum equívoco nas relações entre letras e sons. Nesse caso.

ou seja. em princípio. já que essa também é uma maneira de ensiná-lo a decifrar a escrita e a escrever sem o bá-bé-bi-bóbu. <147> De modo geral. mas apresentam dificuldades sérias na escrita. é fácil escrever quando ocorrem os casos de: P/B.OQUE É MAIS FÁCIL DE ESCREVER Existe uma diferença notável entre a decifração da escrita e a produção de escrita com relação ao que é mais fácil ou difícil. na fala. As dificuldades referem-se ao fato de haver mais de uma possibilidade de escrita. F em vez de V e T em vez de D. T/D. em geral. Esse é um estudo das relações entre sons e letras (da fala para a escrita) e não entre letras e sons (da escrita para a fala). ou de a forma lexical de uma palavra. Alguns casos são de fácil decifração. ser diferente da forma escrita. por causa da variedade lingüística do aluno. quando os alunos escrevem P em vez de B. Vamos começar fazendo um levantamento do que é mais fácil de escrever. F/V É curioso. Essa afirmação . pois os professores dizem que é justamente nesses casos que ocorrem as famosas trocas de letras. A explicação mais comum é que as crianças cometem essas trocas de letras porque têm dificuldades auditivas para distinguir sons sonoros de surdos. é interessante e útil fazer um levantamento desses casos. Para o professor e para o aluno.

as vibrantes podem ser sonoras ou surdas.. Assim. como a troca de V por F não muda o significado.. assim como as laterais. assim. logo se percebe que elas usam sons surdos e sonoros. Nesse caso. Por exemplo. o aluno precisa se guiar pelo significado para escrever uma letra ou outra.).não faz sentido. assim como as fricativas. deve comparar as duas formas: FACA e VACA. começa a aprender que a escrita com F refere-se à ferramenta e a escrita com V refere-se ao animal. sem a menor dificuldade (lembrar que as vogais são sonoras. a única solução é o aluno decorar a ortografia. Mais complicado é o caso de pessoas que não fazem essa distinção na fala (por exemplo. produzir uma fala sem sons sonoros. se o aluno for escrever "livro". Será mais dificil quando não houver um par mínimo. se ele pretende escrever "vaca" e pensa em F para a primeira letra. . porque analisando tudo o que as crianças fazem. em outras situações. sempre que achar que precisa escrever F. os imigrantes poloneses). Um aluno pode trocar letras pelo simples fato de sussurrar os sons das palavras que escreve e. Em seguida. A decisão final será tomada em função do significado e da ortografia. razão pela qual acaba concluindo que precisa escrever as letras "surdas" e não as "sonoras". deverá levantar a hipótese de ter de escrever também V. irá comparar as duas possibilidades: LIFRO e LIVRO. Então. Nesses casos.

Porém. O ou U: JACA. CLARO. etc. BANHO. CANA. CORUJA. então. O som de "jê" só pode ser escrito com J quando a vogal seguinte for A. Em outras palavras. CAMA. É claro que o aluno principiante está pensando em geral nas relações entre letras e sons fora dos contextos. pode ser fácil se. constata-se que é mais fácil escrever o som de "zê" no início de palavra. como em: PLANTA. que o som de "zê" em início de palavra só pode ser escrito com a letra Z. TENHO. o aluno vai aprender algumas regrinhas: neste caso. CORRIJO. NATA. em início de sílaba: MAPA. Quando faz parte de grupos consonantais. ocorrer a consoante lateral e não a vibrante. HAJA. chegar à conclusão de que ZEBRA é escrita como <148> XEBRA ou SEBRA. O mesmo vale para os sons "mê". Outros casos: o som de "lê" em início de sílaba é fácil de transpor para a escrita: LATA. Essa regra então resolve uma dificuldade e ajuda o aluno. GLÓRIA. LIVRO.Passando a outros casos. . porque a única letra que representa este som nesse contexto é o Z. ele pode achar que o som de "zê" também pode ser escrito com X (EXAME) ou com S (CASA). esse exercício complementa as informações de que ele precisa para aprender. Pode. JUNIOR. na fala do aluno. etc. LADO. ao estudar a distribuição dos sons e das letras no contexto da palavra. JOVEM. "nê" e "nhê". Por isso. etc.

etc. etc. nem com NH ou LH (exceto LHE e algumas palavras estrangeiras como LHAMA. nunca dois: RATO. Se for preciso escrever o som de "guê" seguido das vogais "ê" ou "i". O som de "kê" seguido de E ou de I só pode ser escrito com QU: QUENTE. GULA. Do mesmo modo. Por outro lado. etc. FREQÜENTE. etc.). O ou U (não seguido de outra vogal): CADA. RIO. COLAR. etc. NHEENGATU. o aluno deverá escrever a letra U entre o G e a vogal E ou I: GUERRA. INÍQUO. pode-se ensinar aos alunos que. O som de "kê" é um pouquinho mais difícil. há uma tendência para escrevê-lo com QU quando o som de "kê" vem seguido do som de "u" e do som de outra vogal. GUIMARÃES. Há outros modos de ver o problema. O som de "guê" só pode ser escrito com a letra G quando a vogal seguinte for A. (a não ser em palavras estrangeiras ou grafadas com ortografia antiga). TH. QUINTO. GARRAFA. etc. Nenhuma palavra começa com Ç. etc. O ou U (não seguida de outra vogal): GOLA. etc. HR. numa mesma sílaba. não se escrevem palavras com certas seqüências de letras. no início de palavra.VIAJA. só se escreve um R. etc. Por exemplo. como por exemplo. Outro tipo de regra que se pode ensinar é a seguinte: as . NHOQUE. como em: QUATRO. Há uma tendência para escrevê-lo com C quando o som "kê" vem antes de A.

ÃO. SÃO. FARÃO. Com relação às vogais. ENVIAR. Porém: ALISAR (de liso — se fosse "alisizar" seria com IZAR). As que terminam em . Exemplos: CAMPO. ONÇA. BOMBA. passam a . é mais fácil escrever os sons "é". entre a vogal nasalizada e a consoante. porém: ESTÃO. IAM. os quais. INGLESA (de inglês). entre a vogal e a consoante. etc.s são escritas com -ESA. ACHARÃO. ESTAVAM. quando identificados na fala.terminações verbais de verbos derivados escrevem-se com -IZAR (e não com -ISAR). como: FERTILIZAR (de fértil). "é". ao encontrarem uma vogal nasalizada seguida de uma consoante. Nos demais casos (consoantes diferentes de P e B). porém: MARQUESA (de marquês). a ortografia obriga o uso da letra N. Mais uma regra: os finais paroxítonos dos verbos que terminam com o ditongo nasal "ãu" são escritos com -AM. UTILIZAR (de útil). no meio de palavra. e os finais oxítonos. ENLATADO. "ô". etc. Exemplos: FIZERAM. INTEIREZA (de inteiro). etc. a ortografia obriga o uso da letra M. É relativamente fácil mostrar aos alunos que. se essa consoante for P ou B (M é muito raro). BANCO. Exemplos: BELEZA (de belo). "ó". Outra regra: palavras derivadas que não terminam em S no singular <149> que recebem a terminação com o som de "eza" são escritas com -EZA. com . CANTO. INFELIZ.

corresponder às letras E ou O (desconsiderando a acentuação gráfica). Os sons de "a" e de "â" serão escritos com a letra A (desconsiderando o til). ISLAMITA. TALISMÃ. e alguns nomes de origem estrangeira: ISRAEL. por acaso. ele será escrito sempre com til: LÃ. Fatos novos ajudam a melhorar as regras ou a indicar seus limites. etc. Nesse campo. Por exemplo. por essa razão. IRMÃ.. a palavra escrita começa com a vogal E: ESCOLA. Como exceção temos ISQUEIRO. são menos interessantes na alfabetização. ÓRGÃO. Em geral. etc. Algumas regras requerem conhecimentos gramaticais mais sofisticados e. também é possível estabelecer certas regrinhas úteis. ÍMÃ. em alguns dialetos). ESPADA. ESQUADRA. E o caso de regras que envolvem conceitos como "verbo". "adjetivo".. "palavras primitivas . ao encontrarem o som de "à" em final de palavra. quando se tem os sons de "is + consoante" (ou "ich + consoante". houver exceções às suas regras. é muito raro encontrar palavras em português que se escrevem com I + s + consoante. Se tiverem de escrever o ditongo "ãu" em palavras que não são verbos. Por exemplo: pode-se dizer aos alunos que. Também é fácil escrever os sons de "i" e "ii" quando ocorrem em sílabas tônicas. ALEMÃO. ISLANDÊS. porém nas sílabas átonas é muito difícil. etc. O professor não deve se preocupar se. usarão as letras -ÃO (e não -AM): IRMÃO. ISCA. ISTMO.

da fala e da leitura pode ajudar muito a se obter um bom resultado com esses alunos. Entretanto. o sistema alfabético nos leva a crer). Às vezes. usada como referência mais próxima da escrita que respeita a ortografia. Poderá se surpreender com o interesse de alguns alunos. etc. OQUE É MAIS DIFÍCIL DE ESCREVER A grande dificuldade que os alunos têm para passar da observação da fala para a escrita reside no fato de esta não ser uma espécie de transcrição fonética (como. Essas dificuldades somente se resolvem com o tempo. deve-se lembrar que uma discussão a respeito da variação lingüística (dialetos) e que papel a ortografia desempenha no nosso sistema de escrita é imprescindível e deve ser freqüentemente recordada pelo professor. uma pequena explicação a respeito desses conceitos pode ajudar. Não custa o professor tentar uma vez para ver a reação da classe. Igualmente complicado é o fato de alguns alunos falarem dialetos.<150> e derivadas". "paroxítonas e oxítonas". o conhecimento do funcionamento da escrita. . às vezes. "sílabas tônicas e átonas". Dentro desse quadro de preocupações. cujas palavras têm uma forma muito diferente da forma das palavras da norma culta.

. será representado por S. Vejam-se. como em ALTO e AUTO. como em CASAS. "çôu" — SOU. mas esses casos são raros e ajudam pouco. representando o som de "u". é escrito com U. como parte final de alguns ditongos. Z ou X (X somente no meio da palavra). O som de "chê" pode ser escrito com CH ou com X. como se pode ver nos <151> exemplos: "baudi" BALDE. "mêu" — MEU. esse "u" é escrito com L e. em certos dialetos. às vezes. Outro exemplo tradicional é o caso da escrita da letra L. alguns casos. "çóu" — SOL. RAPAZ. Os professores costumam dizer que essa é uma dificuldade inerente à letra X. EXTRA. "méu" — MEL. DESDE. é possível distinguir a forma ortográfica pelo significado. mas na verdade é inerente ao X e ao CH. porém: "çaudadi" — SAUDADE. justamente pelo fato de o aluno ter de optar por uma única forma entre várias possibilidades. a seguir. quando se consideram os fatos a partir da fala. e só a ortografia pode dizer onde vai uma letra e onde vai outra. etc. etc. e não da escrita. As vezes. Notar que o som de "chê" (ou "jê") que ocorre no final de sílaba.A passagem da fala para a escrita apresenta algumas dificuldades especiais no caso de algumas letras. Em alguns casos.

O som de "kê" apresenta dificuldade apenas diante de A. A dificuldade maior que o professor encontra comumente se relaciona com a variação lingüística e com a forma lexical de algumas palavras. na verdade. Um caso mais simples é o do som "zê". só se emprega a letra Z. por oposição a R. O ou U.Mais um caso dificil é o som de "çê". A letra S tem o som de "zê" apenas entre vogais ou diante de uma consoante sonora. há pessoas que falam "tchia". "djia" e há pessoas que falam "tia" e "dia". nunca C. A dificuldade de escrever R ou RR não é grande. será usado apenas o J. mas esse . Nesses casos. Nos demais casos. S ou X. o aluno escreverá sempre um R só. Aqui também dizer que apenas a letra x é complicada significa ver o problema apenas pela ótica de uma letra. C (somente diante de I e E). em início de palavras. não trazem dificuldades para a escrita. Nos demais casos. O som de 'jê" se confunde na escrita apenas quando está diante de I ou de E — quando pode ser escrito com G ou com J. só se escreve QU. em alguns dialetos. Porém. que pode ser escrito com Z. Por exemplo. Diante dos SONS "j" ou "e". quando pode ser representado por C ou por QU. Só se usa RR. que pode ser escrito com S. a distinção se faz pelos valores fonéticos diferentes. quando o som estiver entre duas vogais. Z (somente em final de sílaba) e X. Notar que algumas diferenças de fala. Ç.

cujo infinitivo apresenta o som de na última sílaba. SOCAR. Isso significa que uma pessoa que fala "drentu". o professor poderá mostrar a seus alunos que em certos casos é muito mais comum o uso das letras E e O do que I e U Considerações a respeito de "inícios de . U ou E. nos demais casos. aqui também é possível fazer algumas regrinhas que mostram que certas dificuldades são mais aparentes do que reais. a escrita será provavelmente com X. Porém. a única saída é recorrer à ortografia. o som de "ksi" pode ser escrito com X ou com -QUE-SE. Apesar do que foi dito acima. como COLOCAR. Como se disse anteriormente. etc. mesmo sem eliminar sua pronúncia original.tipo de variação não atrapalha a escrita (casos de distribuição complementar de sons no sistema fonológico). Por exemplo. a grande dificuldade está na escrita dos sons "i" e "u" átonos e de alguns casos de vogais nasalizadas. não há regras para facilitar o aprendizado. Portanto. Q Aqui. <152> Com relação às vogais. "ãdãnu" pode aprender facilmente a escrever DENTRO e ANDANDO. FICAR. Deixar de lado a dúvida e imediatamente procurar ver com que letras determinada palavra é escrita. só serão escritos com -QUE-SE se forem verbos. Os sons de "i" e "u" átonos podem ser escritos com as letras I.

etc. -OSA. Conferir: PÃO. podem ajudar o aluno a escrever o sufixo -OSO. Outro sufixo comum é -MENTE: INFELIZMENTE. Outros exemplos. ou melhor ainda. TÃO.palavra". MELÃO. . que palavras que se iniciam com o som de "chk" ou "çk". são escritas com ESC. PREGUIÇOSAMENTE. FARÃO. BONDOSO. POTÁVEL. FORMOSO. poderá generalizar a regra e ter menos dificuldades na escrita. SIMÃO. TRISTEMENTE. ESPÍRITO. HORRIVEL. ESCOLHER. etc. Do mesmo modo o ditongo nasal que tem o som de "õi" se escreve com ÕE e não com ÕI. SIMÕES. INCRÍVEL. FERRÕES. LEÕES. PÕEM. vendo as seguintes palavras. É fácil explicar aos alunos que a terminação -ÃO (tônico). ESCORREGADOR. TERRÍVEL. por exemplo. Exemplos semelhantes ensinam os alunos a escrever o sufixo VEL. "prefixos". como HORROROSO. ou PÕE. ESPADA. Já se falou antes. DANOSO. etc. o ditongo nasal que tem o som de "ãu" tônico se escreve com O e não com U. e se souber como se escreve esse sufixo. Por exemplo. etc. "finais de palavra" e "sufixos" podem revelar tais tendências. dependendo do dialeto. Se o aluno conseguir perceber que certas palavras têm um "mesmo sufixo". constata-se que todas acabam com os mesmos sons (porque têm o mesmo sufixo): AMAVEL. CURIOSO (e as respectivas formas do feminino). ALEGREMENTE. e não de outra forma: ESCADA. LIMÕES.

se possível. etc. FAZENDO. O professor pode aproveitar a oportunidade e explicar que a norma culta admite que se fale "-ndu" e se escreva -NDO.Alguns alunos falam o gerúndio. FAZENO. <153 > Fazer um levantamento de sufixos e de rimas pode ser uma boa estratégia para o professor ensinar a escrever certos pedaços de palavras. FALANDO. até mesmo a extensão dessas considerações. Isso acelera o domínio da ortografia. Esse procedimento tem a vantagem de ensinar não só a escrever. escrever M e N em final de sílaba traz muitas dificuldades para certos alunos. usando a terminação -NO e não -NDO. FALANO. mas também a refletir sobre a linguagem em geral e a escrita em particular. eles não pronunciam essas consoantes nasais. é freqüente ouvir pessoas que não as falam. CORRENO. FUGINDO. Porém. Outra dificuldade séria que os alunos encontram é quanto à escrita da nasalidade vocálica. apenas nasalizam a vogal precedente. aprenderá a escrever também ANDANDO. CORRENDO. porque. N e NH em início de sílaba é fácil. Escrever M. em vez de escrever: ANDANO. FUGINO. ao aprender o sufixo do gerúndio. Mesmo nos dialetos (em geral do Sul do país) em que se falam comumente essas consoantes nasais. o aluno. O professor deve mostrar o que há de igual e o que há de diferente e. sobretudo . Portanto. em seus dialetos.

Como a norma culta não exige que essas consoantes nasais sejam pronunciadas. palavras como: CAMA CAMPO PENTE ONÇA CANA BOMBA CANTA ENLUARADA BANHA LIMPO VINDA ENVIAR CATA BOBA VIDA JUTA CANTA BOMBA VINDA JUNTA OUÇA MATA A IDA CEDO ONÇA MANTA AINDA SENDO O uso de pares mínimos é sempre uma boa maneira de mostrar os contrastes e de ajudar o aluno a passar da fala para a escrita com mais informações. a melhor estratégia é fazer uma análise da fala. a diferença entre ocorrências orais e nasalizadas de vogais e ditongos. <154> . menos formal. A tendência geral dos alunos é escrever as palavras sem nenhuma marca de nasalidade. escolhendo exemplos apropriados. para esclarecer. Com relação ao problema da nasalidade.numa fala mais rápida. que não leva til nem tem consoante nasal entre o I e o T Mas o ditongo Ul é um ditongo nasalizado. fica mais difícil para o professor ensinar ao aluno quando se deve escrevê-las. seguindo o exemplo da palavra MUITO. em primeiro lugar. propostos pelo professor e pelos alunos. anotando em colunas.

não adianta ficar . ou mesmo TAMA em vez de MATA. Na verdade. O fato de os alunos virem palavras escritas separadas por espaços em branco é a melhor indicação de que dispõem. Algumas expressões levam mais tempo para os alunos segmentarem corretamente. Se o professor perceber que alguns alunos estão demorando muito para segmentar expressões mais fáceis. ou ainda CESUSU em vez de SUCESSO. Em último caso. essa regra pressupõe muitos outros conhecimentos. A regra de identificação semântica (uma idéia.Logo no início. Aqui também a melhor estratégia é deixar que eles escrevam como pensam e esperar que descubram por si mesmos como fazer. dizer sempre que se deve escrever junto ou separado isso ou aquilo porque é assim que a ortografia estabeleceu. quem tiver dúvidas. basta usar exemplos dos próprios alunos e analisá-los com eles. O professor não precisa preocupar-se com esse fato. poderá organizar algumas aulas com o objetivo de ensinar a segmentação. Nesse caso. E o caso de quem escreve ON em vez de NO. alguns alunos apresentam alguns problemas na ordem das letras de algumas palavras. Portanto. Trata-se apenas de uma dificuldade inicial que os alunos resolvem por si mesmos. inclusive de como a escrita funciona. Mais complicado do que a ordem é a dificuldade que os alunos têm para segmentar. As inversões de letras representam os casos mais comuns. uma palavra) não ajuda muito nesse momento.

ainda. alguns complexos. acabará com sérios problemas de leitura e. Ficou claro também que as relações entre letras e sons não são exatamente as mesmas das relações entre sons e letras. de escrita. Uma decorrência das reflexões acima expostas é a consciência que o professor deve ter de que para ler e para escrever são necessários inúmeros conhecimentos. para ler. pior ainda. são necessários alguns conhecimentos e. como faz tradicionalmente o método das cartilhas. que é melhor <155> começar o processo de alfabetização ensinando o aluno a decifrar a escrita e a ler. Muitas .pensando sozinho: é preciso perguntar a quem sabe ou procurar no dicionário. além dos relacionados à leitura. pode ir tentando escrever. mas. Isso explica por que decifrar e escrever o nosso sistema de escrita é uma tarefa que exige muito conhecimento. as relações entre letras e sons são muito complexas. são necessários conhecimentos complementares. A DIFÍCIL ARTE DE LER E DE ESCREVER Como se pôde ver nos estudos das letras. se misturar as duas coisas. Depois que o aluno aprendeu um pouco a ler. do que a escrever. Resumindo. para escrever. Isso mostra.

enquanto eles fazem tudo errado. Alguns alunos resolvem suas dificuldades por conta própria. a cartilha e o professor ensinam muito pouco ao aluno e cobram dele um resultado injusto.). fazem o seguinte: ao tentar escrever uma palavra simples como PAI. seguindo a cartilha e a regra de observar a própria fala a fim de escrever. Esses alunos acabam entrando em pânico e causando muitos problemas para si. e procurando as informações complementares que nem a cartilha nem o professor forneceram.vezes... é incompleta e. vêem seus colegas que já encontraram uma saída. não levando muito a sério algumas coisas que ouvem na sala de aula. Outros tentam aplicar ao pé da letra e à risca as regras que são apresentadas. pode não ser suficiente para dar os subsídios necessários para os alunos resolverem seus problemas. umas poucas famílias de sílabas geradoras. e acabam sem saída. e a regra insistente de que ele deve observar a própria fala (ou a do professor) para escrever. Um aluno aprende umas poucas palavras-chave. Nessa situação. Então. e mais nada (porque o aluno só faz o que o professor manda. para o governo e para os pais. que fazem coisas certas. senão aprende errado. para a escola. Além de essa ser uma forma muito complicada de ensinar a ler e a escrever. a . para o professor. Soma-se a isso a expectativa de que aprendendo a escrever aprenderá automaticamente a ler. encontramos alunos que. por essa razão.

primeira coisa que fazem é falar e observar. Dizem "pai-paaaaa" e escrevem o A porque detectaram o som de "a". Depois, falam: "paiaaaa-iiii" e reconhecem o ditongo e escrevem AI. Voltando à fala, repetem: "pa-pa-pa-ii" e escrevem PA, que é da família do pá-pé-pi-pó-pu, e sempre se deve escrever essas coisas, como se aprende com as palavras-chave. O resultado final é: AAIPA. <156> CAGLIARI, 1997c. > Muitas pessoas, vendo as crianças escreverem coisas assim, em vez de estudar por que isso acontece, analisam a questão apenas superficialmente, dizendo que elas não sabem escrever, que escrevem de qualquer jeito, que não têm direção certa para colocar as letras e não aprendem porque escreveram "aaipa" e dizem que escreveram "pai", numa clara evidência de que têm problemas de aprendizagem, certamente de fundo psicológico ou neurológico. A incompetência desses profissionais é um crime contra as crianças. A criança simplesmente fez o que o professor mandou. Ela simplesmente ainda não dispunha das informações necessárias para escrever de outro modo. Para o professor, parecia claro e evidente que "pai" se diz "pai" e se escreve PAI, porque ele, professor, já sabe muito mais do que a simples regrinha de "escreva observando a fala". O pior disso tudo é a preocupação do professor com o aluno que escreve AAIPA. Para

que um aluno que escreve assim possa superar sua dificuldade, tem de deixar de lado algumas das explicações mais comuns e enfáticas que o professor dá. Nem todos os alunos conseguem superar essa barreira, porque acreditam demais nos professores. Mas tudo tem limite. Depois de um certo tempo sem obter resultados, alguns alunos começam a duvidar de si, do professor, da escola e transformam a própria vida num dilema. Muito freqüentemente, antes que isso aconteça, o aluno já deve ter passado por outra experiência traumatizante, ao ser colocado numa classe especial, com colegas que também não conseguem aprender. Essas classes são portas fáceis para os alunos abandonarem a escola e os estudos, principalmente numa escola pública.

A AÇÃO DO PROFESSOR O professor deverá explicitar aos seus alunos como se faz para ler e, ao realizar essa tarefa, deverá tratar das relações entre letras e sons na leitura e na escrita. O professor não deverá explicar tudo o que consta no estudo das relações entre letras e sons (Apêndice). Para o aluno começar a ler e a escrever, alguns conhecimentos são prioritários e outros vão ser adquiridos com o tempo. A respeito das relações entre letras e sons, é mais importante ensinar ao aluno como aprender,

<157> do que ficar analisando detalhadamente letra por letra, caso por caso. Ao estudar uma determinada letra, por exemplo A ou G, o professor irá abordar alguns aspectos, deixando outros para depois. Ele voltará muitas vezes a falar no assunto, e algumas observações serão feitas somente quando houver razão para isso, ou porque um aluno perguntou ou porque se tornou necessário para corrigir um erro, ou até mesmo por curiosidade. Mantendo uma prática regular de análise do processo de decifração com os alunos, os conhecimentos vão se sofisticando à medida que os alunos aprendem mais a respeito da leitura e da escrita. E importante deixar os alunos tomarem a iniciativa de refletir sobre os fenômenos que estudam, porque sozinhos também chegam a resultados interessantes e até surpreendentes. Os conhecimentos passados já adquiridos servem de apoio para o desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim funciona o processo de aprendizagem. O ensino nada mais é do que a criação das condições adequadas para que a aprendizagem aconteça. Em geral, não vale a pena o professor ficar explicando questões que são muito complexas. Essas explicações servem para uma análise lingüística, mas já não são tão interessantes para a alfabetização. As crianças acabam aprendendo a decifrar e a escrever muito mais tranqüilamente através de umas poucas

regrinhas e praticando a leitura e a escrita, do que através de explicações muito complicadas. O professor precisa ter bom senso para avaliar a situação. Se os alunos quiserem saber algo que exige uma explicação técnica muito sofisticada, o professor pode dar uma explicação mais elaborada, mesmo que os alunos não compreendam bem o alcance e a profundidade do que ele diz. É melhor ouvir uma explicação correta, mesmo que difícil, do que uma mentira, um erro ou uma explicação que deverá ser abandonada logo adiante. Um roteiro de idéias gerais para começar uma discussão pode levar em conta os tópicos:

Quando se vai ler. 1. Usamos o nome das letras para saber que som a letra tem: a letra A tem o nome de a e o som de "a". A letra C tem o nome de cê e o som de "çê". 2. Uma letra pode ter mais de um som, representando sons diferentes. A classe vai aprender isso aos poucos. Por enquanto, é só não estranhar se isso acontecer. <158> 3. A letra A também tem o som de "ã". 4. A letra C tem o som de "çê" somente quando vier antes das letras I e E. Nos demais casos (diante de A, O, U, R, L ou de qualquer outra consoante), terá o som de "kê".

Quando se vai escrever: 1. Em primeiro lugar, é preciso descobrir a palavra, isolando-a da frase. 2. Depois, é preciso saber a ordem das sílabas na palavra. 3. É preciso descobrir as vogais e consoantes que formam as sílabas e em que ordem. 4. Para cada segmento (vogal/consoante), é necessário escrever uma letra, partindo dos conhecimentos adquiridos, no caso da leitura. 5. Ficar atento aos problemas causados pela variação lingüística: quem é falante do dialeto padrão tem um tipo de dificuldade e quem é falante de outros dialetos tem outro tipo de dificuldade. 6. Checar o que se escreveu com a forma gráfica das palavras de acordo com o estabelecido pela ortografia, ou seja, aprender a ter dúvidas ortográficas inteligentes. 7. Resolver as dúvidas ortográficas, perguntando a quem sabe ou olhando no dicionário.

Com esse conjunto de informações específicas sobre as relações entre letras e sons, mais o estudo de uma meia dúzia de outras letras e noções básicas sobre a escrita, vistas anteriormente, o professor terá um aluno que já sabe bastante e

que até pode se arriscar a escrever algumas palavras e pequenas frases. Este é o segredo da alfabetização. Um trabalho como esse não leva mais de dois meses e, após esse tempo, o professor constata que seus alunos já sabem ler e escrever, certamente com muita dificuldade, mas já sabem o que devem fazer para progredir, porque o segredo já foi aprendido. A perfeição virá com o tempo e com muito trabalho tanto por parte do professor como do aluno. Existe uma grande diferença na prática de ensino que distingue a competência do professor do conteúdo da matéria que ele ensina. Todos esses conhecimentos detalhados e explícitos a respeito da fala, escrita e leitura fazem parte da competência técnica do professor. Será daí que ele irá tirar os conteúdos daquelas <159> matérias que ensina, O que ele vai tirar, como vai apresentar e quando ensinar são coisas que ele deve julgar e resolver, levando em conta as circunstâncias. É por isso que se disse que, quando o professor é de fato competente, ele sabe o que ensinar, como ensinar e quando ensinar. Se ele não tem essa competência técnica, a única saída é usar um método preestabelecido como o bá-bé-bi-bó-bu, ou um livro guia como a cartilha, levando para sua prática, juntamente com os problemas que esses métodos têm, sua incompetência de modo velado ou

aberto.

APRENDENDO A ESTUDAR O esforço dispendido na análise das letras do alfabeto é um bom exercício de reflexão sobre o funcionamento do nosso sistema de escrita com relação ao seu aspecto alfabético, ortográfico e sobre as características fonéticas mais importantes que essas letras representam. Somente de posse desses elementos uma pessoa pode decifrar algo escrito e ler um texto. Todos nós, como usuários familiarizados com o sistema de escrita, sabemos como proceder para decifrar a escrita, mas comumente lemos e escrevemos sem explicitar, a cada instante, as regras que permitem que façamos isso. Agimos automaticamente, guiando-nos, como convém, pelo fluir do texto, acompanhando as idéias que queremos expressar ou que vamos descobrindo à medida que a leitura prossegue. Ou seja, acontece com as atividades de leitura e de escrita algo semelhante ao que acontece quando falamos: precisamos de toda a gramática, de todo o vocabulário disponível, de todos os mecanismos articulatórios de produção de fala, mas não ficamos pensando nessas coisas. Quando falamos, simplesmente usamos esses conhecimentos interiorizados para guiar a expressão lingüística do pensamento. Assim como um lingüista precisa saber explicitar as regras da

linguagem para poder entendê-la, analisá-la e formar a ciência da linguagem, assim também o professor de alfabetização precisa saber explicitar todos os conhecimentos necessários para que alguém possa ler e escrever e se alfabetizar. O grande problema dos nossos professores, acostumados com a cartilha, está < CAGLÍAR1, 1996h. <160>

em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéria que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver

a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem, O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará a tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos

apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> em confiarem demais nos métodos e em seus procedimentos. Desse modo, acabaram deixando de lado a própria reflexão sobre a matéría que lecionam. É fundamental e imprescindível que o professor alfabetizador saiba analisar qualquer fato que aconteça no processo de aprendizagem da leitura ou da escrita e saiba interpretar o valor correto dos acertos e erros. Assim, saberá também conduzir com tranqüilidade e competência o processo de ensino (que depende do professor) e o processo de aprendizagem (que depende do aluno, mas que necessita do professor como mediador e guia). O esforço de pensar e explicitar as regras necessárias para alguém ler em nosso sistema de escrita é um exercício que não se esgota no estudo das letras feito neste capítulo e no Apêndice. Uma tarefa como essa tem como objetivo apenas ensinar o professor a refletir sobre essa matéria e a desenvolver a sua argumentação diante dos fatos observados, chegando a regrinhas que possam orientar o aluno. Se o professor desenvolver esse hábito, com tudo aquilo que encontra pela frente no seu trabalho (e nos seus estudos), após pouco tempo terá uma poderosa ferramenta de trabalho: sua competência técnica. Quanto mais se imbuir disso, menos

precisará de conselhos, recomendações, subsídios, métodos e livros didáticos do tipo cartilhas ou similares. Ele começará seu trabalho e aconteça o que acontecer em termos de leitura e de escrita, será um bom motivo para discutir com seus alunos, leválos a descobertas, motivá-los a tentar produzir leitura e escrita, enfim, a se alfabetizarem. O tempo, o programa predeterminado, o tipo de aluno (a escola, o diretor, a coordenadora pedagógica...), tudo isso torna-se irrelevante: o que conta é seu trabalho. Com a competência técnica de que dispõe, o professor irá pouco a pouco realizando um trabalho sério, cujos frutos estarão no fato de ele ensinar a todos os alunos a ler e a escrever. Esse esforço de reflexão do professor pode aprofundar-se e expandir-se e, quanto mais longe for, melhores condições trará à tarefa de educar e alfabetizar. Quando o professor incentiva os alunos a analisar fatos, a refletir, a tirar conclusões, a formular regras, a melhorar as regras já existentes, tornando-as mais detalhadas e abrangentes, não estará ensinando aos seus alunos apenas o conteúdo da matéria. Mais do que isso e principalmente, estará ensinando-lhes os bons hábitos de <161> estudar, de investigar. Os resultados deverão ser considerados muito importantes (e imprescindíveis). Para o educador, durante a formação de seus alunos, mais importante do que os

resultados é a formação de bons hábitos de estudo. A cartilha tira a iniciativa do aluno de pensar, refletir, pesquisar e chegar a conclusões. Se o professor, abandonando o método do bá-bé-bibó-bu, conduzir um processo de ensino e de aprendizagem, refletindo junto com seus alunos, depois de certo tempo, seu trabalho de mediador torna-se muito reduzido, uma vez que seus alunos saberão como estudar o que não sabem. Muitas vezes, os professores preocupam- se tanto com notas, com resultados positivos em testes e provas, que acabam se esquecendo de que é muito mais importante saber como estudar do que dominar o conteúdo de uma determinada matéria. Infelizmente, alguns professores jamais pensam nisso. Passam anos ditando pontos, lendo livros didáticos, resolvendo exercícios, aplicando provas, passando testes, atribuindo notas, e a educação fica reduzida a esse ritual de reproduzir um modelo, fazer segundo o que foi visto, etc. Tudo gira em torno do ensino do professor, e o aluno não tem nenhum espaço para desenvolver seu processo de aprendizagem. Ele não aprende de fato, apenas repete o modelo segundo as expectativas do professor. O problema de nossas escolas não está somente na alfabetização, no ensino da leitura e da escrita; talvez o problema mais grave seja não ensinar a estudar. <162>

8 Sugestões de atividades na alfabetização O TRABALHO COM A LEITURA Como se tem insistido tanto até aqui, o segredo da alfabetização é a leitura, é ensinar ao aluno como decifrar a escrita. Outras interpretações sobre a leitura só fazem sentido depois que o leitor tiver acesso à decifração. Por outro lado, outras práticas escolares não se comparam em importância à decifração da escrita. Há muitas maneiras de se chegar ao conhecimento que permita ler um texto, algumas muito confusas e demoradas, como a prática que proporciona o aluno a descobrir por si — tendo o professor como simples espectador —; outras estão mais voltadas para um trabalho conjunto de ensino e aprendizagem, envolvendo professor e aluno numa mesma tarefa. Além de uma atitude sadia diante do processo de alfabetização, há muitas coisas práticas que ajudam pouco ou mesmo atrapalham o trabalho em sala de aula. A seguir, serão feitos alguns comentários a respeito disso. Primeiras leituras Em vez de começar o trabalho com letras e palavras

escritas ortograficamente, pode-se mostrar aos alunos que eles conseguem ler outros sistemas de escrita, por exemplo, os pictogramas usados de modo geral na sociedade moderna, como as indicações de toalete masculino e feminino, os logotipos de marcas famosas, etiquetas, símbolos, etc., explicando que a essas formas gráficas se pode associar uma palavra, e que isso é ler, no sentido mais técnico do termo. Aqui há um mundo inteiro a ser explorado. O professor pode mostrar para os alunos que se ele fizer um tracinho, pode representar o número 1; se for acrescentando outros tracinhos, pode representar os demais números, estabelecendo uma contagem. Isso é urna estratégia aritmética: para saber que número representa um conjunto de tracinhos, basta contar. Esse é um processo de decifração de um sistema de escrita. Depois, com as letras faz-se a mesma coisa, só que, em vez de contar, será preciso descobrir que som a letra tem e ir somando esses sons até descobrir a palavra, como se descobre um número. Um número é a soma de unidades aritméticas e uma palavra é a soma de unidades sonoras na fala e de letras na escrita. <164> MASSINJ-cAGLIAR1, 1993c. >

Escrevendo desse modo. "Ele vai para casa".Pode-se mostrar a diferença entre desenho e escrita. fazer o desenho de um caminho. linguagem escrita. Essa demonstração deixa claro para os alunos que eles podem usar figuras para representar as palavras que querem escrever. juntando a foto do professor com o desenho de um caminho ou de alguém andando. isto é. pequenas mensagens e até pequenas histórias. etc. As figuras transformam-se em escrita. frases. pode-se ter leituras variadas: "Fui para casa". Ler o que está escrito significa saber que palavras as figuras representam. escrevendo palavras. nessa seqüência. portanto. E uma escrita quando é usada para representar uma palavra da linguagem oral. Uma figura é um desenho quando é usada para representar um objeto do mundo. posso representar uma frase como: "Vou para casa". Nesse momento. e fazer o desenho de uma pessoa (ou uma foto de si próprio). Cada figura ou foto está representando coisas do mundo. Podem testar a leitura. mais o desenho da casa. "Irei para casa". o processo de decifração e de interpretação da escrita. O professor pode fazer o desenho de uma casa (ou mostrar uma foto). não constituindo. pedindo aos colegas que leiam o que escreveram. Porém. O professor pode explorar esse tipo de atividade. . as figuras deixam de ser apenas desenhos e passam a representar palavras. ou de alguém andando.

podem tentar escrever usando . os escudos. tendo o cuidado de permitir que as outras pessoas possam interpretar o código e ler. as grifes. e colocá-las em colunas. Inventando um código Os alunos podem inventar seus sistemas de escrita servindose de pictogramas. <165> Os alunos podem inventar desenhos convencionados por eles para representar palavras. Para isso. esse tipo de escrita inventa desenhos para representar palavras. além de desenhos que representam figuras de objetos. Pode exemplificar como. coisas diferentes precisam de formas diferentes ou de marcas diferenciadoras. Podem tentar escrever histórias e fazer bilhetes. fazendo ao lado os símbolos ou desenhos que representarão as palavras que essas fotos mostram. como os logotipos. por exemplo. recortar figuras de objetos. etc. pessoas. ou se usa uma figura evidente num pictograma ou se ensina aos possíveis leitores como interpretar e ler os caracteres. animais.Recortando material de jornais e revistas. com desenhos) é usada na vida real. O professor deve acompanhar o trabalho dos alunos. Podem. o professor pode mostrar aos alunos como esse tipo de escrita (pictográfica. mostrando-lhes como o sistema que estão inventando funciona: coisas iguais são escritas da mesma maneira. as bandeiras. Depois.

os outros terão muita dificuldade para ler o que foi escrito. Como fica muito difícil guardar na memória todos os símbolos e seus significados inventados na sala de aula. Em seguida. usando apenas os símbolos inventados. não só já entraram no mundo da escrita e da leitura. há muito tempo. motiva-os a progredir.o sistema de escrita que inventaram. Exceto quem inventou o símbolo. pois eles começam a ver que. Irá pedir para que escrevam sem a chave da decifração. como também já conseguiram ler e escrever. Com isso. essa tarefa será resolvida apenas em parte. É sempre possível escrever coisas enigmáticas ou códigos . Isso seria muito mais útil e fácil de ser usado na sociedade. ajuda os alunos a desenvolverem conhecimentos a respeito do funcionamento da natureza da escrita. vai ensinar os demais a lerem seu sistema de escrita. de certo modo. ou seja. O professor irá discutir as vantagens e as desvantagens da tarefa. uma vez estabelecido. o professor mostra aos alunos que seria bom todos usarem apenas um sistema de escrita porque. onde vivem milhões de pessoas. enfim. Um aluno vai mostrar e explicar aos outros o que fez. Essa imitação do que aconteceu historicamente. sem mostrar as figuras a que eles se referem. Além disso. o aluno pedirá para os colegas descobrirem o que ele escreveu. todos se comunicariam apenas através dele.

através do uso de rébus. como os de um código secreto. Isso irá facilitar. neste momento inicial de descoberta da escrita? Podem fazer dicionários em que apareçam dois sistemas de escrita: um pictográfico de fácil reconhecimento. A criptografia é algo que fascina as crianças: por que não deixá-las usar isso. mostrando seu caráter pictográfico antigo e a época em que havia pouca variação na forma gráfica das letras. Unidades de fala menores do que a palavra podem ser tratadas. Esses jogos de escrita e leitura servem para mostrar à criança que escrever e ler é algo fácil ou difícil. futuramente. E isso pode servir de motivo para se introduzir um pouco da história da escrita e das letras do alfabeto. <166> A palavra como unidade de escrita A história da escrita servirá também para mostrar aos alunos que ela gira em torno de palavras. e outro constituído de caracteres arbitrários. As letras já foram um sistema de escrita muito mais fácil do que são hoje. a tarefa que os alunos terão pela frente de segmentar a fala para escrever palavras. nesse momento.secretos. Pode-se escrever a palavra . bem como a de lidar com letras isoladas em sílabas e em palavras. e não apenas de letras. como se explica com o exemplo a seguir. dependendo da forma como o sistema se apresenta.

um sistema ideográfico e um sistema fonográfico. Nota IR MÃO O rébus é um jogo mental muito antigo e comum. Esse modo de escrever tem o nome técnico de rébus. assim. Vão ser necessárias três etapas: primeiro. é fácil mostrar aos alunos que se pode escrever baseando-se no significado das palavras ou nos sons que elas têm. pode-se também escrever essa mesma palavra. Temos. será preciso reinventar as letras. o que consistiria num pictograma e não num rébus para a palavra "irmão". o que se pode fazer a partir dos próprios pictogramas que deram origem . D+ = "demais" Letras e sons Para chegar aos segmentos fônicos que correspondem às letras. a questão é muito mais complexa. fazendo o desenho das pernas de uma pessoa andando ("ir") ao lado do desenho de uma mão. consiste em exprimir palavras ou frases através de desenhos ou de sinais cuja leitura e interpretação oferecem uma analogia com o que se quer fazer entender Exemplos: 20V — "vim te ver". Por outro lado. Os dois desenhos representam agora uma única palavra "irmão"."irmão" desenhando um menino ao lado de outro. Através dessa estratégia de escrita.

aplicar o princípio acrofônico para atribuir a cada letra um som especial. Para o professor mostrar aos alunos como observar os sons da fala. na ordem correspondente e. Agora. passo a passo. Note que existe uma parte diferente ("ba') e duas iguais ("ta-ta"). Note ainda que o som de "a" é o mais longo nas três sílabas.às nossas letras. ou seja. mas basta percorrê-lo uma vez. escrever a palavra. como as fricativas). segmento por segmento. Outro exemplo: FESTA: "féééés-taaaa" (ou "fééééchtaaaa"). a vogal "a". . aprender a analisar os sons que a palavra que se quer escrever tem na fala. terceiro. há duas maneiras principais. Isso não significa que com essa atividade os alunos já aprenderam a escrever facilmente palavras com letras. O que se pretende nesse momento é simplesmente mostrar ao aluno como diferentes sistemas de escrita funcionam e o que os espera pela frente. destacamos um som na primeira sílaba. achar as letras correspondentes. particular e distintivo no sistema. prolongando o som das vogais (mais raramente de algumas consoantes. duas estratégias de observação. Esse pode ser um longo caminho. pode-se perceber a recorrência prolongada de um mesmo som. Desse modo. então. Por exemplo. com as letras convencionadas. segundo. A primeira consiste em <167> silabar uma palavra. a palavra BATATA: "baaaa-taaaataaaa".

Por outro lado. a consoante inicial das sílabas. Uma delas. Há outras maneiras de mostrar como analisar a fala. O professor pode fazer vários exercícios desse tipo. é fazer levantamento das rimas.que é o "ééé". na segunda. de uso muito comum. A outra estratégia para analisar os sons da fala consiste em silabar as palavras. ou FESTA: "fésfésfésfés-tatatata". mas somente pelas vogais das sílabas finais das palavras). Por exemplo: BATATA: "babababa-tatatatatatatata". analisando com os alunos o que há de igual e o que há de diferente. Toma-se uma palavra e procuram-se outras que terminem nos mesmos sons (em geral. e outro diferente na segunda. o professor ajuda os alunos a destacar as vogais das sílabas e. tem-se o mesmo som observado na palavra BA-TA-TA. na segunda sílaba da palavra FES-TA. Por exemplo: encontrar palavras que rimem com AVIÃO: . repetindo as articulações das consoantes nos inícios das sílabas. o professor pode mostrar aos alunos como observar os sons da fala de uma maneira muito interessante para a alfabetização. as rimas são dadas não por sílabas completas. Seguindo esse procedimento de análise. ou CADERNO: kakakakaderderderdernunununu". "aaa". acompanhado dos devidos comentários. Na primeira abordagem.

IRMÃO. CINEMA. através do princípio da acrofonia. DESMONTAR. etc. DISPUTAR. Outro exemplo são palavras que comecem com o som de "dis": DESCOBERTA. Por exemplo. SITIO. etc. DISTRIBUIR. Essa representação pode ser feita com desenhos de objetos cujos nomes permitam. o professor pode inventar mil situações para explicar fatos importantes da escrita e da leitura. um desenho não representa mais uma palavra inteira. palavras que comecem com o som de "çi": CIDADE. SINO. Nesse segundo modo de escrita.CORAÇÃO. associar o desenho à fala. CIGARRO. DISTINTO. SINAL. o som inicial do nome do desenho. Outra maneira é identificar palavras que comecem com os mesmos sons (aqui é preciso levar em conta a sílaba como um todo). DESCARREGAR. O professor irá fazer todos esses exercícios sem escrever nenhuma palavra: todos acompanharão a análise somente através da fala e da audição. Além disso. Por exemplo. etc. ACHARÃO. DESCASCAR. pode começar escrevendo a palavra "camelo". mas apenas um pedaço. Procedendo assim para cada som da palavra . <168> recortando uma foto ou um desenho de camelo e mostrando a associação entre a palavra "camelo" e sua representação. Pode decompor a palavra através da análise dos sons e atribuir a cada segmento uma forma de representação gráfica. de preferência apenas um som. DEDÃO.

está perfeito. Ensinar o truque para ler essa escrita é ensinar o aluno a ler letras. um cabide ("e"). como um dos resultados possíveis. e o professor pode mostrar aos alunos que podemos falar "camelu" ou "camelo". pelo som de "u". uma lata ("L") e um ovo ("o"). um assunto puxa outro. mas quase nunca sabe de antemão onde vai parar. acaba-se tendo um tipo de escrita com letras figurativas. Se um aluno preferir usar um cacho de uva. um elefante ("e"). Os alunos aprendiam a ler com a cartilha por essa razão. O professor sabe de onde vai partir quando começa seu trabalho de ensino. por ordem. Se há algo de bom e eficiente nas cartilhas é a aplicação do princípio acrofônico através do bá-bébi-bó-bu. A solução encontrada pelo aluno pode criar uma boa oportunidade para o professor falar um pouco sobre ortografia e variação lingüística. representando o som "u" no final da palavra "camelo". basearam-se no significado das palavras: as fotos e os desenhos correspondiam às idéias que as palavras <169> . Como se vê. um avião ("a"). Quando os alunos inventaram um sistema de escrita. Por exemplo. E é assim que deve ser."camelo". a palavra "camelo" poderia ser escrita com "letras" na forma de desenhos (pictogramas) representando. o mar ("m"). e o aluno. razão pela qual ele optou pelo som de "o".

Assim. quando segmentamos os sons da palavra "casa". podemos dividir a idéia de "casa" nos componentes que constituem uma casa. As idéias não conseguem sobreviver sem os sons das palavras. No todo..). janela. com os sons "kaza". que fazem parte da idéia mais geral. porta.representavam. na escrita. em português. descobrimos também os sons dessa palavra que representa a idéia que falamos. "aqui". descobrimos que essas idéias formam novas palavras. mas "za" não significa nada (talvez um apelido.. atribuímos a ela a palavra que tem esse significado e que se pronuncia. A escrita revelou uma idéia. Porém. Os sons vinham depois de identificados os significados e produziam palavras da língua portuguesa porque os alunos estavam representando. Podemos dividir o significado de uma palavra em partes. Assim. Por exemplo. etc. chão. são apenas ruídos. vendo a foto de uma casa. existe um significado. Por outro lado. Portanto. podendo ou não resultar outro significado. E sons sem significado não formam palavras. "cá estou eu". considerando cada pedaço (sílaba) em separado. as palavras sempre se compõem de idéias e sons. Ao fazermos isso. através da atribuição de uma palavra aos sinais gráficos. temos "ka-za". a língua que falam. como telhado. isoladamente. Ao fazer isso. perde-se o significado original. gerando novas idéias (significados). paredes. Mexer com o significado para saber o que faz parte de uma . "ka" significa.

. Essas letras serão usadas por um bom tempo e com elas os alunos aprenderão a decifrar nossa escrita tradicional e a escrever seus primeiros textos. O alfabeto Aos poucos.. para que os alunos tenham esse modelo constantemente <170> diante dos olhos. é uma tarefa impossível de ser feita até o fim. Para isso. seria bom que houvesse na sala uma faixa com o alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. dos grifos para as letras e. Quando se chega às letras. na prática. ensina-se o nome das letras.idéia ou não é muito complicado e. chega-se ao alfabeto das letras de fôrma maiúsculas. seguindo a ordem alfabética. Porém. com os sons das palavras tudo é bem mais simples e fácil. Esse alfabeto deve conter todas as letras do dicionário. mas também para terem um . Apresentado o alfabeto. talvez acima da lousa (ou quadro-negro). do aspecto figurativo dos caracteres para o convencional. o melhor é falar logo do alfabeto e apresentar todas as letras de uma vez. que pudesse ficar bem visível. ou seja: A B C Ç D E F G H IJ K L M N O P Q R S T U V W X Y Z. não só para que os alunos o aprendam. assim. passa-se da escrita ideográfica para a fonográfica. Sempre se descobre algo novo.

esclarecendo que um dos sons possíveis que as letras têm pode ser encontrado no próprio nome das letras. quando não se chega a nenhuma palavra (conhecida). se acontecer. Para ilustrar o que foi dito. O professor pode. Então. pode-se decifrar a escrita de uma palavra. É sempre muito importante estar atento para o fato de o resultado da decifração ter de revelar uma palavra conhecida. que o aluno deverá reconhecer facilmente. É claro que a questão na verdade é bem mais complicada. e não apenas sons. o aluno deve desconfiar que a decifração apresentou alguma interpretação errada dos valores fonéticos de uma ou mais letras. suponhamos que o professor .referencial dos sons que as letras têm. por exemplo. mas isso não acontece na alfabetização ou. mas nesse momento basta o professor alertar para a dificuldade futura. sem dizer do que se trata. a palavra. Portanto. Desconfiar e tentar são tarefas comuns nesse momento. pode-se deixar de lado algumas letras e tentar recuperar a palavra (descobrir seu significado). O que vale sempre é o resultado final. e pedir aos alunos para decifrá-la. será algo extremamente raro. sabendo o nome das letras. Portanto. cujo significado é evidente. ou seja. como falante nativo. Na vida às vezes nos deparamos com palavras desconhecidas. se o resultado final é uma palavra desconhecida. Descobre-se que a tentativa não deu certo. sem grandes dificuldades. apresentar uma palavra na forma escrita.

E sempre preferível dar uma . como também ensina-os a ler palavras simples. Um aluno pode dizer que está escrito "saça". logo começam a aparecer problemas que deverão ser tratados cuidadosamente. Primeiros problemas com a decifração Com o progresso obtido. a. esse. Está descoberta uma palavra conhecida. mas já é um grande avanço. identificar cada letra com seu respectivo nome. Com os nomes das letras. A letra C pode ter o som de "kê" e a letra S pode ter o som de "zê". Isso não só ensina os alunos a identificarem as letras. Não é tudo. a. é "kaza". O resultado.escreveu CASA e pediu para os alunos identificarem primeiro os nomes das letras: c. <171> dizer que palavra está escrita. os alunos tentam juntar os sons relevantes e descobrir de que palavra se trata. Com essa técnica. fazer com os alunos o reconhecimento das letras escritas. analisar os sons e fazer a correspondência das letras com os sons. para verificar naquela palavra que sons as letras têm. o professor pode escolher palavras. Alguns deles exigem explicações um tanto complicadas. Então o professor o faz ver que não existe a palavra SAÇA (não se conhece um significado para essa seqüência de sons) e voltase atrás e se procura um som diferente e possível para as letras. agora.

não faz mal. disfarçar. a escrita e a . Se os alunos não entenderem direito (ou nada). a ter de camuflar o problema. mesmo que complicada. usar de subterfúgios com explicações metafóricas. Quando o professor prefere uma explicação aparentemente fácil.boa explicação. Portanto. incompleta e meio deturpada. é preciso reconhecer a falta de informações preliminares e procurar resolver isso à medida que for conveniente e importante. os alunos terão outras chances de aprender. O professor não pode ensinar tudo de uma vez. corre o risco de ter de se desculpar mais tarde. Mas começar tentando decifrar a escrita é a melhor prática para discutir e aprender. as noções básicas de fonética e fonologia. Entre esses problemas estão os seguintes: a variação lingüística. metafórica. os alunos irão encontrar algumas dificuldades causadas pela falta de informação a respeito de alguns aspectos da linguagem oral e escrita. Somente depois que os alunos tiverem ouvido explicações a respeito de muitos fatos básicos da linguagem oral e escrita. poderão entender verdadeiramente os mecanismos da decifração. Ao iniciar a decifração da escrita. mas como os problemas voltarão a aparecer em outras ocasiões. Algumas explicações precisam ser dadas por causa das circunstâncias. Alguns alunos se sentirão enganados quando descobrirem que a verdade tem outra cara. a aquisição da linguagem oral e da escrita. o modo como a fala.

<172> O professor não poderá tratar cada um desses assuntos de maneira isolada e completa. São os pares mínimos. muito usado pelos lingüistas. será o momento oportuno de fazer um estudo mais detalhado e organizado desses pontos.leitura funcionam e quais os seus usos. é preciso abordar vários aspectos de muitos tópicos numa única ocasião. Em geral. para relacioná-los depois às letras do alfabeto. como avaliar a importância de atividades pedagógicas relacionadas com os conteúdos programáticos e outros menos importantes. o que é decifrar uma escrita e como fazer. quando os alunos já tiverem certas noções básicas. numa ordem predeterminada. como é um texto na linguagem oral e como é um texto na linguagem escrita. Pares mínimos Voltando ao trabalho específico de decifração da escrita e de técnicas para aprender a ler. que ajuda a explicar aos alunos como detectar os segmentos fonéticos da fala. como analisar e interpretar os erros. o que é a ortografia e como resolver dúvidas ortográficas. As explicações devem acontecer quando for o momento e de maneira dosada às necessidades. há um tipo de exercício. Obtém-se um par mínimo quando se juntam duas palavras de significados . Somente em séries mais adiantadas.

etc. que se opõe a M no início das palavras do par). destacam-se os sons que distinguem uma palavra de outra. Rimas Outra atividade muito útil para ensinar o reconhecimento de segmentos fonéticos de palavras é o uso de . com o par mínimo escrito. Com o par mínimo falado. O professor pode explorar essas duas possibilidades: pares mínimos considerando a fala ou a escrita. explicando que no próprio nome da letra.diferentes. "casa/caça". relacionados entre si ou não. "mar/mas". Do ponto de vista da fala. "concerto" e "conserto" são palavras ambíguas (como "manga". observando a fala. Por exemplo: "bato/mato" (a única diferença fonética é B. cuja forma fonética varia apenas com relação a um som. formariam uma espécie de "par mínimo". Perceber diferenças em meio a igualdades é um requisito muito importante em todo trabalho lingüístico.se as letras diferentes que representam um mesmo som. mas do ponto de vista da escrita. que significa uma fruta e uma parte de roupa). Feito isso. destacam. basta mostrar quais letras serão usadas para representar os sons distintivos. ou de que letra terá de ser usada para escrever. porque representam palavras de significados diferentes. quando já se sabe o som. já se tem uma dica de que som ela representa. por exemplo.

o mesmo valor alfabético. O professor pode escrever na lousa as palavras rimadas.rimas: palavras terminadas em sons semelhantes. fazendo colunas. em "ão": "avião". nas colunas verticais. Como usamos muitos alfabetos. Primeiras leituras de textos . "irmão". "coração". de tal modo que se perceba na escrita que todas essas palavras terminam com um mesmo conjunto de letras e sons (no caso. pertencem a alfabetos diferentes (colunas horizontais). é preciso saber que uma mesma letra pode ser escrita com formas gráficas diferentes. portanto. há uma letra. Fazer exercícios que levem o aluno a aprender a relacionar as letras com os sons das palavras é fundamental. para que os alunos percebam que. o professor pode apresentar escritas de palavras com alfabetos diferentes. "habitação". como. etc. Categorização gráfica das letras Outro aspecto importante dos sistemas de escrita é a categorização das letras do alfabeto. Depois que os alunos já avançaram bem no trabalho de decifração. e têm. para cada lugar de escrita na palavra. usando apenas as letras de fôrma maiúsculas. em colunas. <173> por exemplo. ditadas pelos alunos. "ão"). e que as letras.

Porém. O que conta é o fato de o aluno descobrir o que está escrito porque. então. há alguns pontos importantes a serem considerados. ele precisará ter decifrado pelo menos as palavras mais importantes para a compreensão do texto. Aqui. no início. Aqui.. será cobrada mais adiante.). para si. Assim. Uma leitura mais rigorosa. o professor deixará que cada aluno descubra o que está escrito. exige um grande esforço de decifração (são muitas letras. dizer o que foi que leu. o fato de reproduzir literal e exatamente o que está escrito não é importante. deixando sempre os alunos lerem . o professor estimulará seus alunos a lerem em particular. Portanto.. Feito isso. sem grandes dificuldades Ler textos de uma ou duas frases. poderá. Em primeiro lugar. até que adquiram habilidade e velocidade de leitura para ler em voz alta para a classe. o professor os levará a ler pequenos textos. <174> Com o tempo. é preciso que o professor convença-se de que é mais importante que o aluno leia e não que exiba para ele ou para a classe que já sabe ler. < MASSINI-CAGLIARI.Depois que os alunos conseguirem decifrar por si palavras isoladas. mais fiel ao texto. esses textos oferecem a vantagem de poderem ser facilmente decorados. 1998a. vai-se passando de textos curtos para textos cada vez mais longos. para isso.

etc. o que vale é a discussão das idéias pessoais. pois é claro que estão entendendo.). Discussões podem ser feitas mesmo sem o pretexto de um texto. Trabalhar as sutilezas dos textos é de menor importância na alfabetização. servindo-se da leitura de textos. O que não faz sentido é querer discutir o texto como fato lingüístico ou literário. Análise literária ou análise de discurso de textos deverão ser feitas em séries avançadas. querer fazer interpretação de texto nas primeiras séries. sem a correta entoação. uma vez que os textos são. Isso não quer dizer que o professor não possa discutir certos assuntos com seus alunos. em geral. Se o professor perceber que o aluno está lendo mal (gaguejando. histórias de fácil compreensão. sem ritmo. o professor não deverá ficar preocupado se seus alunos estão entendendo ou não o que estão lendo. e mesmo ridículo. será preciso que prepare muito bem sua leitura com antecedência. Interpretar ou discutir o que leu Convém relembrar que é desnecessário. deverá solicitar do aluno que prepare melhor sua leitura. Nesse tipo de atividade. Portanto. Fazer discussões em sala de aula é uma atividade de grande importância. Se algum aluno quiser ler para os colegas. silabando. Interpretar textos com perguntas e . mostrando como ela deve ser feita. incluindo as expressas pelo autor do texto.individualmente.

porque um processo necessariamente . É preciso ler jornal. incluíram-se muitos fatos relativos à escrita. curiosos. Usos artísticos da escrita merecem um destaque. O que ler Os alunos precisam ser incentivados a ler todo tipo de material. de montagem ou de conserto. a palavra "incêndio" escrita com letras pegando fogo. <175> revistas. quer com relação à forma gráfica. É preciso ler histórias (muitas). devem ler propagandas ou outro material semelhante. receitas culinárias. enfim. quer com relação aos variados tipos de textos. E ler nunca é demais. etc. instruções de uso de equipamento. O professor precisa mostrar aos alunos material escrito com os mais variados tipos de letras. Usos especiais em propagandas também são interessantes. O TRABALHO COM A ESCRITA Quando se falou da leitura.respostas é uma idiotice. da vida de pessoas famosas. como palavras decoradas com desenhos que ilustram seu significado. reportagens que falem de assuntos científicos. técnicos. Devem ler coisas impressas e coisas manuscritas. Por exemplo. notícias. ler de tudo.

isto . dispõem-se as folhas em ordem alfabética e temse um pequeno dicionário de letras. Em outras palavras. ou seja.implica outro. insistimos no fato de que o segredo da alfabetização está em saber ler. são aprendidas no processo de aprendizagem da leitura. Tal qual foi feito em seções anteriores. as noções básicas de um sistema de escrita. Por essa razão. Primeiras descobertas sobre a escrita No começo. os alunos podem colecionar letras. serão apresentadas sugestões numa ordem que não precisa ser necessariamente aquela que vai ser transmitida. Os alunos conseguem fazer leituras incidentais. fazendo álbuns de recortes: uma folha para cada letra. Depois. As considerações que seguem estão voltadas para os conhecimentos dos sistemas de escrita que os alunos adquirem ao lidar com a leitura. O próprio sistema de escrita revela-se com a descoberta da decifração. Interessa mais a produção de material escrito pelas crianças do que teorizar a respeito desse fato. do ponto de vista gráfico e funcional. em decifrar o sistema de escrita que temos. Aos poucos a escrita vai tornando-se familiar quando se estuda como se deve ler.

logomarcas. e as crianças gostam muito de enfrentar essas aventuras educativas. grifes. reconhecem que certas coisas estão escritas em certos lugares. podendo chegar a escrever textos relativamente longos.é. E interessante que eles colecionem rótulos de produtos para terem consigo esses materiais que sabem ler. <176> Paralelamente ao estudo da leitura. inventando sistemas de escrita. sinais de trânsito. Esse material já impresso. etc. bolarem suas propagandas ou fazerem cartazes. ainda. Brincar de escrever. o professor irá orientando-os a relacionar os símbolos com os textos (a pomba . Descobrindo que a escrita representa a fala À medida que os alunos forem trabalhando. o trabalho toma-se mais atraente e menos pesado. Podem. colecionar pictogramas. Por exemplo. pode servir para os alunos montarem suas mensagens escritas. os alunos irão produzir textos escrevendo com os pictogramas que inventarem. Explorar caminhos novos é sempre um desafio. como histórias e cartas. é altamente instrutivo e auxilia muito na alfabetização. logotipos. que é recortado. Essa já é uma maneira de escrever sem precisar usar o lápis. Até para o professor. símbolos. sabem que numa garrafa de Coca-Cola está escrito Coca-Cola com o design feito de uma determinada maneira.

etc.. natação. Sistema ideográfico e fonográfico Depois de muito fazer.). o professor pode ensinar aos alunos que os sistemas de escrita são basicamente dois: ideográfico ou fonográfico. permite que os alunos já realizem muitas atividades de escrita. pictogramas que representam palavras (banheiro masculino. aliada ao processo de leitura. escrever logo deixa de ser um mistério e torna-se.. para a criança. sempre que possível. sem que eles percebam.. Assim. algo familiar e banal.da paz com o ramo de oliveira. pictogramas com suas mensagens (é proibido fumar. sinais de trânsito com frases (é proibido estacionar). O professor deve ajudar os alunos a percorrerem esses caminhos todos... lembrando o dilúvio. A exploração desse material.. frágil. andar um passo atrás e não à frente dos alunos. cartas enigmáticas. mesmo não sabendo quase nada sobre a escrita. Eles vão se sentindo cada vez mais confiantes no processo de aprendizagem e no desempenho das tarefas escolares. formas de rébus que indicam sílabas ou pedaços de palavras. No primeiro caso. mas deve..).. E fundamental deixar que eles escrevam o que acharem importante. É importante que esse caminho desemboque sempre nas letras e na representação de sons da fala associados às letras.). escreve-se a partir .

através de rébus. é necessário associar a cada letra um som. ou quando escrevemos um número e sabemos que aquele caractere representa uma certa quantidade.do significado. a cada letra será associado um som. Tratando-se da escrita alfabética. estamos diante de uma escrita ideográfica. que se traduz numa palavra. o fonográfico. o til indicativo da nasalidade — LÃ —. que depois deverá compor os sons da palavra. AVÓ). A relação entre letras e sons pode ser estabelecida de várias formas. Existem estratégias diferentes para ler e para escrever. Para escrever é preciso relacionar cada som da fala a uma letra. escreve-se a partir dos sons que as palavras têm na linguagem oral. o acento indicativo de tonicidade ou de mudança de qualidade vocálica — AVÔ. com exceção da letra h. somar os . <177> No segundo caso. vogais e consoantes e até de outras propriedades fonéticas (por exemplo. sílabas. procurando encontrar depois os sons que esses significados têm. seguir uma ordem de escrita e verificar a ortografia. Quando fazemos um pictograma figurativo e depois dizemos a palavra que aquela escrita representa. Para ler. É importante saber relacionar os elementos da fala com os da escrita. usando-se o sistema fonográfico.

Explorar esse assunto ao máximo. a história dos estilos de letras. sua evolução. Contar a história do alfabeto. até que o significado apareça. por exemplo.sons na ordem e descobrir que palavra está escrita. Se não der certo. será preciso rever o processo e usar outras alternativas. A. As vezes. da caligrafia. privilegiando as letras e os números. Outro tipo de material interessante é encontrado na maneira como as línguas adaptaram o alfabeto latino para escrever as mais diferentes línguas do mundo. Contar a história da escrita O professor deverá contar para os alunos a história da escrita. Nota Português Inglês Francês. uns poucos exemplos são suficientes para mostrar coisas curiosas e altamente pertinentes para o processo de alfabetização. banho "bãnhu" table "teibl" (mesa) nouveau "nuvô" (novo) caixa "kacha" cat "két" (gato) maitre "métr" . Uma lista de palavras de línguas diferentes pode esclarecer como uma letra. tem sons diferentes. como recurso para ensinar fatos importantes a respeito da leitura e da escrita. Os recursos visuais aqui são úteis. dos livros.

Para as letras de fôrma maiúsculas. dizendo. <178> Traçar as letras com gabaritos Quando os alunos já estiverem sabendo os nomes das letras e os principais sons que elas têm. está na hora de começar a usar esses conhecimentos para escrever.(professor) rapaz "rrapaiç" battle "btl" (batalha) mâle "mal" (macho) é símbolo da IPA — International Phonetical Association (Associação Fonética Internacional.). como fazem os letristas. por quatro fileiras horizontais de dois quadradinhos. um modo interessante de ensinar os alunos a traçarem correta e facilmente as letras (no começo apenas as letras de fôrma maiúsculas). ABCDEMPQRX ABCDMPQR O professor deverá ainda dar instruções precisas sobre como fazer o traçado das letras. pode ser através do uso de gabaritos. o traçado é feito sempre de cima para baixo e . Com relação à parte gráfica. em duas fileiras verticais de quatro quadradinhos. um gabarito de três linhas é o suficiente. Um gabarito mais completo tem oito quadradinhos para cada letra. por exemplo. que nas de fôrma maiúsculas.

Elas ajudam os alunos a escrever uniforme e caligraficamente. As curvas presas a hastes verticais começam nas hastes. ou da direita para a esquerda. Todavia. o que está acontecendo e intervir quando julgar necessário. Traços horizontais vão da esquerda para a direita e são feitos depois dos traços verticais (que são os primeiros) e das curvas. descendo. são traçadas da direita para a esquerda. etc. quando houver só curvas. Essas técnicas também devem ser ensinadas pelo professor. Por outro lado. sobretudo as de fôrma maiúsculas. O professor deve avaliar. são escritas iniciando-se o traçado na linha de cima e riscando para baixo. sem hastes. é bom não deixar que escrevam de qualquer jeito. mas o professor não deve exigir que os alunos façam somente como ele indicou. Cada tipo de alfabeto exige um traçado gráfico próprio. a escola . na parte mais alta. em geral. <179> Explicações como essa são de grande ajuda. usando o bom senso.da esquerda para a direita. e vão para a direita. Letras que apresentam apenas curvas. é bom lembrar que escrever tem uma tradição gráfica no feitio e no resultado que é conveniente preservar. e de cima para baixo. As letras. Ajudam também a reconhecer os traços distintivos que compõem as letras graficamente. quando houver mais de um traço. segurando o lápis displicentemente. As crianças podem inventar alguns traços.

O professor pode ir além e mostrar como se escreve formando um círculo. a seqüência das letras de uma palavra deve respeitar a ordem que vai de cima para baixo e nunca de baixo para cima. ora para baixo ou para os lados. a linha de base fica sendo a do círculo interno e a linha de cima. Isso também tem de ser discutido com os alunos. podemos escrever na vertical. Nesse caso. Localização da escrita no espaço Olhando fotografias de casas comerciais nas ruas das cidades. O alfabeto das letras de fôrma maiúsculas apresenta todas . que o leitor verá sempre numa única posição. exemplificando com moedas e medalhas. Esse princípio aplica-se também quando se quer escrever fazendo curvas para cima e para baixo.tem o dever de zelar para que essa tradição não desapareça. estando ora com uma parte voltada para cima. Quando a escrita em círculo se atém a um material fixo. Nesse caso. Uma investigação desses fatos no mundo real revela as regras para dispor as letras em curvas. isto é. Pode-se até escrever como se fosse uma reta que foi cortada ao meio e dobrada: metade para cima e metade para baixo. logo percebemos que também é possível escrever uma letra debaixo de outra. há várias formas de dispor as letras em curvas. a do círculo externo. Aplica-se ainda quando se considera que o material sobre o qual se escreve será usado de maneira variada.

há uma notável distinção gráfica entre D. menos ainda. Por exemplo. Se a folha estiver de cabeça para baixo (posição que ocorre freqüentemente). o que se consegue. passar exercícios de "prontidão". e.elas bem distintas graficamente. analisando em que sentido estão dispostas as letras: se da esquerda para a . B. Uma pessoa só sabe se se trata de uma letra ou de outra. com a escrita cursiva. deve mostrar ao aluno o que acontece quando vemos as letras de um lado ou de outro. Q e l porém o que distingue as letras minúsculas correspondentes d. é preciso estabelecer primeiro o lado certo do papel. o bem q. b. deve dizer que. com o papel certo ou virado de cabeça para baixo. q e p é apenas a sua localização espacial. em contrapartida. o q em b e o p em d. eles podem se confundir. se souber qual é o lado de cima e o lado de baixo. Além disso. Se o professor não tiver uma boa conversa com seus alunos a respeito da localização das letras no espaço. o que não acontece com as letras de fôrma minúsculas e. o valor <180> dessas letras altera-se: o d transforma-se em p. o professor não precisa disfarçar que existe uma dificuldade de interpretação. Pelo contrário. dependendo do modo como se observam as letras. Para ensinar isso. para se saber o valor das letras.

é algo que os alunos apreciam. deve-se mostrar a ele a importância da relação espacial que as letras apresentam com relação ao leitor. Copiar para aprender Fazer cópias. principalmente de alguns exemplos que o professor explica na lousa. . como lhe passar a idéia de que escrever é apenas copiar. como a letra A. Daí a importância da cópia de textos significativos para o aluno. pensam naquilo que as letras representam. Porém. caso das cartilhas. Um dos segredos da alfabetização tradicional é a cópia. se há letras facilmente reconhecíveis como estando de cabeça para baixo (ou não). Faz muito bem a eles. Quando algum aluno apresenta dificuldades nesse sentido. É mais difícil escrever as letras sem confundir sua localização espacial do que reconhecê-las. Copiar para aprender sempre foi uma prática muito usada e eficaz de estudar e se alfabetizar.direita (ou vice-versa). Cartazes com diferentes alfabetos ajudam os alunos a entender melhor o que se pretende ensinar. Enquanto os alunos copiam. se o aluno encarar a cópia como uma simples reprodução. essa atividade pode não só não ajudar o aluno. como aquilo que o professor explica e escreve na lousa ou outros textos sugeridos pelos próprios alunos. e outras pistas que o aluno pode encontrar para se orientar.

o que está escrito nesses carros oficiais. por exemplo. Porém. Carros de bombeiros.Escrita espelhada O professor não pode simplesmente dizer para os alunos escreverem da esquerda para a direita. pelo retrovisor. nesse momento. O . eles tentam escrever as letras indo com o lápis da esquerda para a direita e acabam fazendo. Lembrando das orientações do professor. está pensando na seqüência <181> de letras na palavra: que letra antecede qual. o S e o C de forma espelhada. compõem todas as demais no mesmo padrão. Quando o professor diz isso. muitos alunos estão. de polícia e ambulâncias apresentam palavras escritas de forma espelhada na dianteira. O professor pode apresentar palavras escritas em vidros ou plásticos transparentes para mostrar como vemos as letras do lado certo e na forma espelhada. e a palavra inteira muitas vezes apresenta-se da forma espelhada. supondo que assim eles não irão escrever de forma espelhada. Isso acontece para que o motorista do carro que estiver à frente possa ler direito. Portas de casas comerciais costumam mostrar a escrita dessas duas maneiras. Seguindo essa direção. mais preocupados em como se traçam as letras.

escrever "onrras" (honras). Essa também é uma forma de analisar com alunos como a escrita funciona. Então.professor pode arrumar um espelho grande e mostrar como as letras ficam invertidas (espelhadas) quando refletidas no espelho. como funciona e quais os seus usos. visando sempre à redação de um texto. Quando isso começar a acontecer. porque a ortografia naquela época permitia. inevitavelmente vão aparecer os famosos e inúmeros problemas de ortografia. que a escola costuma chamar de troca de letras. Explicar o que é ortografia Muito mais importante do que a cópia é incentivar os alunos a produzirem escritas espontâneas. está na hora de explicar o que é ortografia. "çinquo" (cinco). ilustrada com exemplos do passado. A explicação ficará mais atraente e será mais bem assimilada nos seus pontos principais se vier associada à história da ortografia da língua portuguesa. . seja ele curto ou longo. Muitos alunos vão se sentir menos frustrados quando souberem que antigamente havia pessoas que escreviam (em documentos e em livros) palavras como eles fazem atualmente. Mas hoje é diferente. "deru" (deram). Como exemplo.

"doçe" (doce). "filia" (filhas). "aluguel" e "aluguer". "vaquas" (vacas). portanto. admitem mais de uma maneira de grafá-las como. Somente depois. "caminhão" e "camião". Com essas explicações. Ficarão mais consolados ainda quando."homes" (homens). Não são só os alfabetizandos que têm dúvidas ortográficas. o professor mostrar que os próprios dicionaristas. de seus usos e de como tirar dúvidas ortográficas. em função das normas ortográficas. etc. "assobiar" e "assoviar". mesmo na primeira versão dos textos que escreverem. ao explicar a ortografia. procurarão escrever cada vez mais corretamente. "flecha" e "frecha". Como atividade de escrita. serão levados a reconsiderar o que fizeram. chegando em pouco tempo a ter poucos erros de grafia. À medida que os alunos forem escrevendo e forem sendo instruídos a respeito da ortografia. em alguns casos. "dici" (disse). "milhor" (melhor. etc. os alunos sentir-se-ão mais confiantes na aventura de escrever os seus textos e o professor receberá com mais tranqüilidade o resultado obtido pelas crianças. é essencial que os alunos aprendam (e pratiquem) primeiro a escrita e ponham-se a escrever como eles acham que deve ser. "louro" e "loiro". por exemplo. . não sabem qual é a forma <182> ortográfica preferida das palavras e. já mais familiarizados com o ato de escrever.

o professor precisa ir ensinando aos alunos que os textos escritos têm peculiaridades próprias e que os escritores precisam respeitá-las. embora o gênio. quando se escreve. não espera que todos os alunos . como se diz. todavia. é algo que também se aprende com o estudo das técnicas. por essa razão. já nasça com a arte <183> no sangue.Texto não é só ortografia Juntamente com a habilidade de escrever graficamente. Fazer isso requer prática. etc. Quando se fala. pedindo explicações. revelando através de palavras todas as informações contextuais necessárias para que seu texto tenha a eficácia esperada. tem-se o interlocutor diante de si e. o interlocutor não está vendo o autor nem interagindo com ele. porque isso faz parte da nossa cultura. Portanto. A escola. perguntando o que não entendeu. desde a alfabetização. Escrever. A escrita é muito pobre em recursos dessa natureza e. como qualquer arte. Adquire-se essa habilidade através de um trabalho escolar bem desenvolvido. podem-se fazer gestos. o autor do texto escrito precisa de certo modo adivinhar as possíveis dificuldades de seu interlocutor (o leitor) e facilitar a compreensão do texto. usar recursos não-lingüísticos para tornar o texto oral eficaz e ser entendido plenamente.

Espera apenas que todos aprendam a escrever o que for necessário. depois. No começo. passar a limpo. do jeito que .sejam grandes escritores. como se autocorrigir. sem precisar do professor. Não basta dizer ao aluno que ele errou. é preciso ensinar a pescar. vale o que o aluno faz. Nos primeiros textos. leva anos para atingir um nível satisfatório. como o objetivo é simplesmente fazer com que o aluno passe da habilidade que tem de produzir textos orais para a habilidade de traduzi-los para textos escritos. melhorar e. O importante é a correção que o próprio aluno faz dos seus trabalhos. não basta dar um peixe a quem tem fome. A correção da escrita Tão importante quanto aprender a escrever é aprender a corrigir o que se escreve. de acordo com a tradição da cultura da sociedade em que vivem. corrigir. que precisa fazer primeiro um rascunho ou versão preliminar. Mas é preciso que comece a se desenvolver desde as primeiras manifestações de escrita. sem dúvida. o professor não deve nem sequer mencionar o fato de que o aluno precisa corrigir o que escreveu. A correção feita pelo professor deve ser sempre acidental e ocasional. Essa é uma tarefa que vai sendo aprimorada aos poucos e. Como diz um velho ditado chinês. É preciso ensinar a ele como resolver essas dificuldades. que seu texto está todo desarticulado ou coisa semelhante.

<184> Esses cuidados significam formas de respeito ao leitor e. não só no aspecto visual-gráfico. acima de tudo. mal organizado. quando os alunos já estiverem mais à vontade com a escrita e a leitura. Nenhum professor tem condições nem tempo para corrigir todos os erros dos alunos no começo da alfabetização e. que serão lidos por outras pessoas. o professor começa a explicar-lhes que é preciso melhorar os textos. . mal planejado. os alunos farão dois tipos de texto: aqueles para uso pessoal. permitindo a correção e o aprimoramento da versão inicial. como também levando em conta a ortografia e. produzindo textos espontâneos. a que a escola precisa dedicar-se. um bilhete ou um trabalho mal escrito. a estruturação do conteúdo do discurso. Fazem parte da boa educação esses cuidados com a escrita. pedagogicamente. sujo. e outros. que não precisam ser corrigidos e têm apenas uma única versão. uma prática pedagógica muito importante. ininteligível com relação às idéias e à grafia. Não há nada mais desagradável do que receber uma carta. portanto. Esse é o momento das explicações técnicas adequadas e das cobranças.ele fez. A partir daí. e serão feitos em pelo menos duas versões. que irão formar livrinhos. Com o tempo. os quais deverão atender às exigências da escola. nem é preciso.

No início. a escola passou a exigir dos alunos um certo tipo de letra cursiva . Essas sutilezas da cultura também precisam ser cultivadas na escola. o ponto de interrogação. Há uma série de marcas e diacríticos que fazem parte do sistema de escrita como um todo e que precisam ser estudados com os alunos. por causa do método das cartilhas. marcas e arte na escrita A escrita não é feita só de letras. A arte de escrever prevê uma programação gráfica. um layout. a vírgula. Os alunos se entusiasmam com essas atividades e. vão aprendendo e produzindo novos materiais escritos. os dois-pontos e o travessão são os diacríticos mais importantes. Letras cursivas As letras cursivas representam modos individuais de traçar as letras. os acentos e os sinais de pontuação. uma maneira elegante de distribuir o material gráfico sobre a folha de papel. além da caligrafia bonita. ou seja. ao mesmo tempo. As crianças gostam de escrever palavras com letras artísticas. juntamente com o alfabeto.Diacríticos. enfeitadas. Esses temas serão tratados a seguir. Esse é um bom motivo para fazer cartazes sobre os mais variados assuntos. desde a alfabetização. Tradicionalmente. como o ponto final.

com ou sem as adaptações que os professores poderiam fazer. a escrita cursiva é dada no início do segundo semestre.(manuscrita. O professor precisa explicar esses usos da escrita cursiva para que seus alunos compreendam que podem escrever com a letra . os usuários costumam abreviar palavras e usar outros tipos de anotação ideográfica. script. O ensino à prática da escrita cursiva começa quando os alunos já aprenderam a ler (decifrar) e já escreveram os primeiros textos com as letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. Além das formas pessoais de amalgamar letras.). Em geral. De acordo com sua natureza. como as pessoas se acostumaram a escreverem textos com letra cursiva também para que outras pessoas lessem. ela contempla todas as idiossincrasias dos usuários. Quando os alunos estiverem na terceira série. a escrita cursiva serve para escrever com rapidez ou para fazer anotações pessoais. é preciso que se escreva de maneira clara e elegante. seria bom que o professor analisasse com eles como funciona a escrita cursiva que eles apresentam naquele momento. ou forem mais adiantados.. Por essa razão.. É por essa razão que muitos professores ensinam um certo tipo de letra cursiva e exigem-no de seus alunos. Porém. <185> deformando características gráficas das letras (isoladas).

Parece. sem saber escrever de uma maneira elegante. nem com o tipo de traçado atribuído tradicionalmente a Petrarca. complementando os estudos sobre a escrita iniciados na alfabetização. pode ser ensinado em séries mais adiantadas. quando necessário. no entanto. Caligrafia é simplesmente escrever bonito.que quiserem quando fizerem anotações pessoais. Caligrafia A caligrafia sempre foi uma arte. não tem tido a menor chance nas salas de aula. No Brasil. essa manifestação de arte. usado tradicionalmente nos cursos de caligrafia. É uma pena. Cada um pode desenvolver a sua caligrafia desde que obtenha uma escrita bonita. por razões estranhas. Os próprios computadores modernos não se esqueceram disso. O segredo desse tipo de escrita consiste em usar uma caneta que permita a variação da . charmosa. Caligrafia é uma arte típica da escola. abandonaram o ensino da caligrafia. que muitos professores. porém deverão usar uma letra clara e bonita quando forem escrever para outras pessoas. O traçado caligráfico atribuído a Petrarca. Caligrafia não deve ser confundida com aquele tipo de letra que em geral as cartilhas exigem dos alunos (letra cursiva). elegante. Os alunos passam anos na escola e escrevem cada vez mais garranchos. sofisticada. à semelhança de outras.

etc. o professor pode mostrar catálogos de letras. Os alunos também podem recortar de jornais e revistas tipos diferentes de letra.espessura dos traços. desse modo. é uma forma de ensinar não só a escrever. As crianças divertem-se com essa atividade e. etc. classificá-las do ponto de vista das . Usar letras desse tipo para enfeitar trabalhos. títulos. letras sugerindo fogo. no qual os alunos poderão encontrar uma variedade enorme de estilos. Encontrarão letras enfeitadas para fazerem cartazes. como também a escrever segundo uma cultura. vento. essas formas escritas são muito comuns. quando se escreve a linha descendente. cujas peculiaridades divergem da forma original de letras de fôrma maiúsculas e minúsculas. Os professores deveriam dispor de uma coleção de material de escrita diversificado para ilustrar o que vem a ser escrever bonito. Há inúmeras maneiras de fazer caligrafia e enfeitar um texto escrito. alegria. Na alfabetização. suaviza-se. e a escola não pode deixá-las de lado. vão aperfeiçoando os conhecimentos sobre a escrita e a leitura. e. No mundo em que vivemos. Apresentar esse material aos alunos é altamente educativo e incentivá-los a fazer uso desse aspecto artístico também é uma obrigação da escola. força-se o traçado com a caneta. enquanto se preocupam com os enfeites. quando se escreve a linha ascendente. tristeza. cartazes.

as letras . Um texto fala de um assunto. também merece a atenção de professores e alunos. A classe pode fazer um álbum coletivo. Esse tipo de atividade educa o bom gosto e o senso crítico do aluno.características gráficas e organizar álbuns. seguindo algumas idéias básicas. o professor precisará explicar como se cuida do layout. a marca do travessão e escreve-se a fala. Essas idéias básicas constituem os parágrafos. pode introduzir algumas idéias gerais. Muitas informações a respeito desse aspecto só serão acessíveis aos alunos em séries mais adiantadas. além de contribuir para que avance em seus conhecimentos a respeito da natureza e usos da escrita. Layout e pontuação O layout ou o modo como se distribui o material escrito sobre o papel. por exemplo. quando souberem. O professor. Quando alguém disser alguma coisa. porém. Quando estes estiverem escrevendo textos. Quando se acaba <187> de falar sobre uma idéia (período). mas. A vírgula traz algumas dificuldades. No início de períodos usam-se letras maiúsculas e. com as contribuições dos alunos. no mundo em que vivemos. como dividir um texto em parágrafos. em seguida. como nas enumerações. é fácil mostrar o emprego da vírgula. usa-se o espaço de parágrafo. em certos casos. coloca-se ponto final.

os alunos escrevem palavras isoladas. mas também da maneira como as palavras são colocadas no papel. No começo. O professor de alfabetização deveria mostrar aos alunos que eles deveriam calcular se uma palavra vai caber ou não no final da linha. simplesmente a escrevem na outra linha. Muitas pessoas fazem isso porque aprenderam assim na escola e levam esse costume escolar para a vida. Porém.. Nos livros. e o professor não precisa se preocupar com o lugar onde essas palavras estão escritas. dos sinais de pontuação e das demais marcas da escrita. os alunos vão aprendendo que precisam cuidar não só da ortografia.. porque não há necessidade de manter o padrão estético dos livros. e se acharem que não vai caber. quando os alunos estiverem escrevendo histórias. vão ter de tomar alguns cuidados especiais. por razões estéticas. da clareza e da beleza gráfica das letras. Deve haver uma preocupação com a margem esquerda. Embora as explicações não sejam rigorosas. não é costume cortar palavras. quando isso é necessário.minúsculas do alfabeto adotado.) Porém. mas não é preciso fazer margem . as palavras são cortadas no final de linhas. quando as pessoas escrevem à mão. Poesias têm um modo especial de dispor as palavras. mesmo na escrita à mão. (Existem regras para isso.

O acabamento correto do texto. faz parte da boa estética da arte de escrever deixar sempre um espaço em branco em toda a volta do texto (nas quatro margens). quando forem passadas as informações básicas sobre como traçar as letras. as crianças gostam de copiar. deve escrever palavras no quadro-negro para exemplificar os fatos que comenta. o professor só tocará nesse assunto se algum aluno perguntar algo a respeito ou para dar alguma instrução muito especial e particular. quanto à sua apresentação gráfica. Essas escritas que as crianças procuram copiar do quadronegro servem para o professor perceber como elas estão se . também faz parte daquele conjunto de elementos culturais associados ao uso da escrita na nossa sociedade que a escola precisa cultivar. mas deve chamar a atenção para o fato de que elas vão aprender a escrever um pouco mais adiante. <188> As primeiras escritas da criança Quando o professor começar a ensinar as relações entre letras e sons. no segundo semestre. provavelmente. Os alunos devem aprender isso desde o começo da alfabetização. No primeiro semestre de aulas. O professor pode deixá-las fazer isso. No entanto. esses aspectos precisam ser esclarecidos. Nessa hora. Porém.direita.

fazer pequenas cópias de versos. não. cada uma relativa a algo que vê nas figuras. Nesse momento. e não o contrário. frases. O professor ficará atento a todos os detalhes. quer colando recortes. É sempre uma boa estratégia pedir para o aluno escrever primeiro e ilustrar depois. o conhecimento da linguagem o guia a compor um . a aliviar um pouco a tensão.virando: alguns alunos copiarão direitinho. Os alunos têm um certo medo de escrever errado quando são solicitados a escrever uma palavra a partir dos conhecimentos que têm. outros. Isso desarticula o texto. Depois de treinado o traçado das letras com os gabaritos. o professor procurará dar como cópia algum material interessante e não qualquer coisa. o aluno pode ir simplesmente ajuntando palavras e frases. nomes. mas se sentem mais tranqüilos ao copiar algo já escrito. provérbios. porque essas informações o ajudarão a saber quais conhecimentos os alunos têm a respeito dos aspectos da escrita. etc. o professor irá sugerir aos alunos que escrevam o que quiserem: palavras isoladas. Como sempre. quer desenhando o que quiserem. pequenos textos. Quando parte de um desenho ou de uma figura colada. A cópia ajuda. Um bom texto dispensa qualquer motivação para a escrita. Quando o aluno faz o texto primeiro. então. letra de música ou coisa semelhante é um bom exercício. O material escrito pode ser ilustrado pelos alunos. expressões.

dizer que se deve escrever como a criança achar melhor. Como alguns alunos (inseguros) gostam de perguntar tudo para o professor. quando o aluno já tiver escrito e feito cópias com letras de fôrma maiúsculas. Ao iniciar esse tipo de atividade. depois que os alunos souberem os rudimentos da escrita. assim. o professor saberá como ensiná-la se houver algum erro. Produzir textos <189> deve ser a principal atividade de escrita. Isso não significa que esse tipo de texto pode ser sugerido já na metade do primeiro semestre. Os alunos farão o texto e o ilustrarão.texto mais bem planejado. dia não. os alunos vão escrever o que quiserem. Esses textos devem ser feitos com total liberdade. se for o caso. Os textos espontâneos podem começar quando a criança se interessar por escrever. a não ser que alguém pergunte alguma coisa. O professor não deve interferir de modo algum no trabalho dos alunos. porque. Algumas até se arriscam a fazer poesias. do jeito que quiserem. este deve perceber qual é a intenção do aluno e. É muito importante que os alunos produzam textos espontâneos. por exemplo. Portanto. por sugestão do professor. As crianças gostam de contar histórias verdadeiras ou inventadas. dia sim. o professor pode deixar os alunos redigirem. O professor não corrige . ou.

ensinando aqueles pontos que descobrir que os alunos erram mais. em grupos ou individualmente. como pretendem a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. O professor simplesmente orienta para facilitar os trabalhos ou dar condições reais de realização. Aprender fazendo Como se pôde observar nos comentários a respeito da produção da escrita na alfabetização. e quanto mais os alunos escreverem. o mais importante é os alunos produzirem os mais variados tipos de material escrito. e não que os alunos façam segundo um modelo. mais e melhor aprenderão. Essa produção de trabalho é a atividade pedagógica que se espera. Isso mostra que o mais comum numa sala de aula de alfabetização é a ocorrência de atividades diferentes. todos escrevendo. ou com relação aos quais cometem erros mais graves. No próximo capítulo. realizadas por diferentes alunos.nada que for entregue pelos alunos. . trataremos de modo detalhado da produção de textos na alfabetização. escrevendo. Simplesmente analisa o que eles fizeram e faz suas anotações para poder preparar melhor suas aulas futuras. mas cada um a sua tarefa. Aprende-se a escrever. até textos longos e pequenos livros. desde textos curtos e simples. O professor não precisa ter a lição preparada: o ideal é que as crianças decidam o que querem escrever e como realizar o que pretendem.

Compreender bem esse fato é fundamental para lingüistas e professores. quando eles forem ler. porque todos são falantes nativos e ninguém mais do que o falante nativo é dono da língua que fala. podese conversar com eles. Como todos os alunos são falantes de português. Isso. Uma das condições básicas para aprender a ler é saber a língua em que o texto foi escrito. ouvi-los e. a tarefa é praticamente impossível. como também a entender o que as outras pessoas dizem. A variação lingüística Todo falante nativo fala de acordo com a variedade lingüística .<190> ENTENDENDO COMO SE FALA Os alunos são falantes nativos O professor de alfabetização não precisa se preocupar em ensinar português aos seus alunos. é um grande alívio. se a pessoa não conhece a língua. decodificarão as mensagens da escrita de maneira semelhante à que usam para entender uma conversa ou alguém falando. Quando se trata de decifrar um sistema de escrita. Quando as pessoas adquirem a linguagem. discutir. na verdade. aprendem não só a falar.

conversam entre si e. mas usa todos os demais sistemas que integram a língua. quando ouve. apresenta variedades. de todos os dialetos. os falantes de dialetos diferentes ouvem uns aos outros. Porém. como ouvinte. <191> Como se vê. mas é ouvinte poliglota de todos os dialetos de sua língua: participa. relativos aos dialetos. todo falante é falante de um dialeto. depois de certo tempo e costume.estabelecida na comunidade em que cresceu e viveu. um falante nativo é geralmente monolíngüe de um dialeto: fala de determinada maneira. O resultado dessa situação torna o falante nativo ouvinte e entendedor de muitos dialetos. comunicam-se. Na verdade. é preciso que esse falante nativo tenha interiorizado todas as gramáticas de todos os dialetos da língua. Mais ainda. como a língua portuguesa. Para entender o que ouve. as diferenças dialetais passam quase despercebidas ou são simplesmente consideradas irrelevantes. é falada em muitos lugares. O problema escolar coloca-se quando se pretende . Em resumo. como um todo. Uma vez que as pessoas compartilham uma vida social e política no âmbito da nação. o problema da escola não é ensinar a falar ou a entender português: isso todos os falantes nativos sabem fazer e muito bem. firmando-se assim os dialetos. o falante nativo usa um sistema lingüístico específico quando fala (a gramática do seu dialeto).

Na verdade. o falante entende. Apenas exige uma compreensão correta do fenômeno. que não é falante de um determinado dialeto. o mesmo não acontecendo no caso de uma língua estrangeira.que uma pessoa. no caso do dialeto. por mais semelhante que seja do próprio. para explicar adequadamente o que deve ser feito e. falar um dialeto diferente do próprio exige um esforço semelhante àquele necessário para aprender uma língua estrangeira. o professor não deve se preocupar muito com os diferentes dialetos. No começo. O dialeto padrão na escola As crianças que entram na escola já falando o dialeto padrão ou norma culta têm uma enorme vantagem sobre aquelas que são falantes de outros dialetos. por parte do aluno. porque. quando necessário. por parte do professor. dentro de uma mesma língua. aprender uma língua estrangeira é mais difícil do que aprender a falar um dialeto diferente. uma pessoa pode ler um . Falar uma outra língua ou um outro dialeto. embora não fale. Como o objetivo da escrita é a leitura. para saber o que a escola espera dele. Nesse caso. Esse fato em si não atrapalha o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita. que requer tempo e muita prática. é uma tarefa árdua. passe a falá-lo ou adquira a habilidade de substituir seu dialeto por outro em certas ocasiões.

há menos problemas ainda. e não fazendo transcrições fonéticas da pronúncia que cada pessoa usa. Basta conferir "pote" e "dia". muita festa. Para escrever. "dentro". Do mesmo modo. sobretudo. "djia". é preciso que haja muito recreio. Entendem que o aluno precisa. A aquisição do dialeto padrão ou norma culta é uma tarefa que deve ser realizada não só na sala de aula e não só através de lições planejadas. etc. que automaticamente se entende "dentro" e "milho". Os professores que trabalham com as cartilhas têm uma visão tão errada de como a fala. a escrita e a leitura funcionam. e ler. um falante do dialeto caipira pode ver escrito "planta". Na escola.texto em seu próprio dialeto sem problema algum. que acabam ficando desesperados quando <192> encontram um aluno que é falante de um dialeto muito diferente do dialeto padrão. "dia". "milho". A melhor e mais segura maneira de aprender uma língua (ou um dialeto) é usando-a na vida real. sempre. somos obrigados a escrever seguindo uma ortografia preestabelecida. "pranta". "dia" e pode ler "póti". porque. aprender a falar primeiro para então aprender a ler e. muito entrosamento . e assim por diante. "drentu". embora usemos um alfabeto. outra pessoa pode ler "pótchi". a escrever. seguindo seu dialeto. Assim como alguém vê escrito "pote". "miiu".

muitas vezes. nos momentos oportunos. Na sala de aula. converse com eles a respeito dos vários problemas de fala. Certamente. Nessas ocasiões de interação social. As zombarias dos colegas. quando perceberem que terão de aprender a falar um dialeto diferente do habitual. o professor irá orientando aos poucos seus alunos para empregar. é preciso que o professor. chamando a atenção a todo instante para seu modo diferente de falar. são um argumento decisivo para os medrosos ou acomodados. 1997a. só o dialeto padrão. Algumas dessas questões serão comentadas brevemente neste capítulo e mais detalhadamente em outra parte do livro. na escola. Mas às vezes isso requer muito tempo.entre alunos e professores. Mas não se deve ficar cobrando dos alunos. Falar sobre como se fala Para que os alunos não se desesperem. CAGLIARI. explicando-lhes como a fala funciona e quais os seus usos. para que os alunos se sintam pressionados a usar o dialeto padrão. c Para que o professor desempenhe adequadamente esse papel . a criança vai passando da habilidade de ouvir e entender o dialeto padrão para a habilidade de expressar-se nele. a maneira mais eficaz de os alunos aprenderem a falar o dialeto padrão está na aprendizagem da escrita e principalmente na prática da leitura.

aprende uma gramática. O vocabulário. Como já dissemos antes. aprende a falar entre o primeiro e o terceiro ano de vida. um vocabulário e uma série de regras que permitem usar a linguagem nas mais diferentes circunstâncias. Nesse <193> espaço de tempo. em qualquer lugar do mundo. porém não costumam usar essa construção quando falam. Nessa ocasião. é uma lista aberta de palavras que irá se enriquecendo à medida que a pessoa for vivendo Aprender a falar significa seguir regras. Qualquer um. A aquisição da linguagem oral É sempre importante contar para os alunos como uma pessoa adquire a linguagem oral.de conversar sobre a fala dos alunos. os conhecimentos gramaticais são adquiridos na sua quase totalidade. Na fala. pelo resto da vida. as pessoas usam mais esses conhecimentos para entender o que ouvem do que para falar. aproximadamente. o português do Brasil. e a pessoa aprenderá poucas novidades nessa área. as crianças entendem frases na voz passiva. Há muitos trabalhos de lingüistas que o podem ajudar. ele precisa conhecer bem fonética e fonologia geral e. Ninguém consegue . principalmente. empregam uma parte menor desse conhecimento geral. por outro lado. Por exemplo.

dito no dialeto padrão de uma . "cavalo" é "árvore". por exemplo: "As meninas loiras brincam nos jardins". um mesmo pensamento. No segundo caso. não está seguindo as regras da língua portuguesa. Em razão disso. Note que o resultado semântico é igual nos dois dialetos. Já num outro dialeto. seja que dialeto for.falar. e o falante dirá: "as menina loira brinca nos jardim". Todas as línguas do mundo — ou. conforme o caso. A linguagem não é feita só de palavras isoladas. todos os dialetos de todas as línguas — precisam de regras. num dialeto. não há falta de regras ou de lógica. sem seguir regras muito precisas. mas cometendo um verdadeiro "erro" do ponto de vista lingüístico. Porém. ela é fundamentalmente um conjunto de palavras organizadas num discurso ou texto. ficando todas no singular ou no plural. os falantes nativos não cometem. Se alguém diz que "mesa" é "copo". etc. esse tipo de "erro". Por exemplo.. com regras de combinação muito específicas. mas a aplicação de regras de gramáticas diferentes. a gramática tem regras diferentes. algumas palavras precisam concordar. Deve-se dizer. As línguas nada mais são do que um conjunto de regras de um determinado tipo. mais especificamente. cada uma específica de um dialeto.

Linguagem e lógica Não existe verdade na afirmação de que o dialeto padrão . são as diferenças que permitem que as línguas existam. se vertido para o inglês. pelo contrário.língua ou num dialeto estigmatizado pela sociedade. a frase inglesa corresponde ao seguinte esquema sintático: "A loira meninas <194> brinca no jardins". sobretudo para uma criança. Para ele. A linguagem exige tão-somente que as regras sejam observadas. seria deixar de ser falante de seu dialeto. Essa é a razão profunda pela qual um falante nativo comumente se recusa a modificar sua fala. Essa concepção de linguagem era encontrada comumente em gramáticas do século passado. tem o mesmo valor semântico. para ele. O exemplo acima. apresenta outras regras gramaticais: "The blond girls play in the gardens". o que nem sempre é uma idéia muito atraente. Traduzida literalmente para o português. seu jeito de falar é a maneira exigida pela gramática do seu dialeto. Falar diferente. diferente das apresentadas pelos dialetos do português. Ser diferente não é um problema lingüístico. Isso pode acontecer até com línguas diferentes. Aí. encontra-se um terceiro tipo de regra de concordância.

A discriminação pela linguagem O homem vive em sociedade e. passa-se a crer que a fala dos pobres é errada. bem-estruturado. ao passo que os dialetos populares revelam mentes desorganizadas. conseqüentemente. Por essas razões. por isso mesmo. As diferenças lingüísticas passam. um dialeto próprio. Na prática. Sempre alguém quer prevalecer sobre os demais. 1985. alguém pode ter a impressão de que é a gramática do dialeto padrão que controla o pensamento. depois de muito tempo. da manifestação dos preconceitos. Desse modo. GNERRE. Na verdade. os bens culturais são escritos no dialeto padrão e não em outro. levar vantagem. então. a fazer parte daqueles elementos marcadores das diferenças sociais e. Esses grupos passam a ter um modo de vida diferente e. a linguagem acaba sendo apenas uma maneira conveniente de a sociedade disfarçar sua intolerância para com os menos favorecidos econômica e culturalmente. basta o usuário se dispor a isso. desarticuladas e sem capacidade para exprimir idéias mais sofisticadas. Como. como pode. na nossa sociedade. formam-se as classes sociais. destruindo. seus concorrentes. rodeado de preconceitos. ilógica e sem .representa a expressão do pensamento lógico. Todo dialeto serve para exprimir qualquer idéia. ocorre o contrário.

sobretudo eliminar a idéia de que o professor . explicando o que significam.elegância. SOBRE O TRABALHO ALTERNATWO As considerações apresentadas neste capítulo mostram como é possível desenvolver um trabalho de alfabetização sem usar a cartilha e o método do bá-bé-bi-bó-bu. Essa é uma questão que deve abrir muitos debates na escola. O aluno pode aprender o dialeto padrão sem precisar esquecer o dialeto com que adquiriu a linguagem oral. A escola deve respeitar todos os dialetos e inculcar nos alunos o respeito ao indivíduo. Todos os dialetos representam bens culturais. mas. e não ser uma mera reprodutora desses preconceitos. mas como forma de garantir uma vida melhor aos que estudam. <195> Respeitar um dialeto não significa não dar chance ao aluno de aprender outro. desde a alfabetização. não para justificar os preconceitos associados a ele. A proposta deste capítulo não é apenas tirar a cartilha como livro didático. Aprender o dialeto padrão é indispensável. A proposta é simples e não tem um caminho predeterminado. A escola precisa analisar esses fatos com os alunos. Existe uma sugestão de trabalho direta e muito produtiva em tarefas específicas de leitura e de escrita.

ao longo de anos de observação. e isso acontece através de um texto. nem tão complicado. <196> 9. tem o segredo pedagógico para desenvolver um trabalho correto. sua intenção é dar uma informação completa. Além disso. quanto as pesquisas lingüísticas modernas. ele não precisa ser um grande lingüista: o conteúdo necessário para fazer um bom trabalho não é tão grande. Nem tudo o que a lingüística estuda e descobre serve para a atividade de alfabetização. Se ele souber tudo o que necessita a respeito da leitura. muita coisa o professor já aprendeu na sua prática de trabalho. Quando alguém se põe a falar. as pessoas dizem palavras isoladas. Na verdade. Somente em circunstâncias especiais. da escrita e da fala. A produção de textos espontâneos UM TEXTO NÃO É UM AMONTOADO DE PALAVRAS Na vida real. as pessoas não pronunciam palavras isoladas.precisa de uma receita que o oriente passo a passo na sua atividade. num contexto específico. mas sempre elas estão inseridas num texto maior ou são esperadas como resultado de .

se alguém grita por socorro. Esse tipo de resposta faz parte de um texto maior. dada a situação. Essa preocupação só surge quando as circunstâncias sociais de uso da linguagem trazem à consciência do falante o peso que a sociedade atribui ao falar.ações ocorridas. o que acontece é um uso da linguagem que obriga o locutor e o ouvinte a produzirem um texto e não palavras isoladas. Por isso. o aluno fala sem se preocupar com juízos dessa natureza quando está no seu ambiente familiar. que motivou a resposta. O tamanho do texto varia. seus preconceitos e suas manias. Na verdade. As pessoas falam o que acham que precisam falar. mas começa a se apavorar quando entra na escola e. sobretudo. Assim. Na vida real. dizer apenas uma palavra é o que basta. esquece-se de que é falante . ou dá uma ordem. Houve apenas mudança de falante. Normalmente. Nesse momento. Em outro contexto. estão mais preocupadas com o que vão fazer com ela. se alguém fizer uma pergunta. posso responder dizendo apenas "Sim" ou "Não". quando o professor lhe dirige a palavra pessoalmente. como vão despertar idéias e reações no seu interlocutor. do que em falar certo ou errado. quando as pessoas usam a linguagem oral. o texto continua na resposta do interlocutor. organizando o conteúdo e o estilo do texto de acordo com sua vontade. tendo em vista a necessidade do momento.

Depois de muitos anos de estudo sobre a linguagem. uma vez que a fala como um todo é sempre extremamente complexa. A escola (mais especificamente nas aulas de linguagem) é o único lugar onde se ouve e também se fala de outra maneira. palavra por palavra. as pessoas acham muito fácil e familiar fazer todos os tipos de . os comentários semânticos perdem de vista as atitudes do falante e. da escola e.nativo e de que é senhor da sua língua. Desse processo resultam <198> segmentos que remetem ora para o significado. como as carreadas pela entoação e o ritmo. até informações gramaticais importantes. como os elementos prosódicos se modificam. e até mesmo para as letras. As segmentações da fala feitas nas aulas de linguagem pretendem justamente isolar partes para melhor analisá-las. e passa-se a ser um escravo daquilo que pensa que representam as expectativas culturais da sociedade. nem tudo num texto pode ser segmentado para análise. de certo modo. ora apenas para os sons da linguagem. do professor. O professor desmonta e monta textos. frases. modificações do texto. porque em certas situações o significado depende do contexto. No entanto. principalmente. palavras e até sílabas para explicar os mecanismos da linguagem. Mesmo quando se procura explicar um texto. Todo corte implica. às vezes.

A escrita segmenta a fala em palavras e em letras. tudo vem normalmente. em primeiro lugar. Essa maneira de conduzir a fala e usar a linguagem também pode ser claramente constatada pelas pessoas que usam a escrita com muita facilidade.segmentação da fala. Quando as pessoas pensam e falam. permanecendo no nível do inconsciente todos os conhecimentos requeridos para um completo e necessário controle da linguagem. As pessoas que não conhecem o sistema de escrita são levadas a ver a linguagem oral como unidades de outro tipo: para elas. o que vale. a maneira como esse significado é dito. Somente quando acontece algo estranho com o significado ou com os sons é que os usuários de uma língua começam a transpor do subconsciente para o consciente as regras que regem o uso da linguagem. Depois que alguém passa a . Caso contrário. e a gramática é o que menos interessa numa conversa. isso se torna ainda mais corriqueiro. Com o uso dos sistemas de escrita. a linguagem é uma realidade oral falada e existe como a soma de inúmeros parâmetros que controlam o significado e os sons do que se diz. em segundo lugar. guiam-se quase exclusivamente pelo significado. No entanto. A gramática de uma língua nada mais é do que a explicitação desses conhecimentos. é o significado e. e isso parece ser a essência da linguagem para as pessoas que estudaram. na sua essência.

Mas esses são casos especiais e raros. analisar e comparar é uma atividade escolar típica e não um uso comum. As palavras são escritas tão naturalmente quanto são ditas numa conversa. guiando-se apenas pelo significado.escrever com velocidade e fluência. A dificuldade reside mais em juntar as idéias do que em falar ou escrever o que se gostaria de dizer. TEXTOS OU PALAVRAS ISOLADAS? As considerações anteriores mostram que usar a linguagem como um material que se pode dissecar. para escrever. é preciso articular os sons de maneira precisa e. a todo instante. ficaríamos perdidos e confusos em meio a uma enorme complexidade de dados. Quando entram na escola. começa a deixar para o domínio do subconsciente as regras que regem o sistema de escrita que usa. passando <199> a escrever (quase) automaticamente. ou ter dúvidas quanto à pronúncia ou à ortografia. é preciso traçar as letras. as crianças lidam com a linguagem como . Para falar. Se tivéssemos de relembrar todas as regras para falar ou escrever. Essas atividades são feitas automaticamente. Quando se interrompe a fala ou a escrita. procura-se em geral uma forma melhor de expressar o pensamento. É claro que alguém pode não se lembrar de uma palavra específica.

a linguagem é um texto que se diz ou que se ouve. mas também para analisar a linguagem oral. Obviamente. é muito mais natural e fácil lidar com textos do que com palavras isoladas.qualquer falante nativo. do bá-bé-bi-bó-bu. o professor deve tentar. será necessário segmentar a fala não só para ensinar a escrever. Por essa razão. Engana-se redondamente o professor que pensa <200> que é banal e fácil dizer que a palavra-chave BEBE tem dois pedacinhos "bê" + "bê". o professor deve tomar cuidado quando exemplifica com pedaços de fala. pertencem à família dos "bês". Para elas. Por outro lado. Sempre que possível. os quais. Isso parece óbvio para o professor que está mais do que acostumado a lidar com a . principalmente no começo. sobretudo no início. Pensar a linguagem como sendo composta de unidades bem-delimitadas e com valores bem-definidos é algo que se consegue somente depois de muitos anos de estudo. Isso tudo mostra que. sílabas ou outros segmentos. o professor precisa estar atento para as prováveis dificuldades oriundas dessa atividade. para uma criança que entra na escola para se alfabetizar. O mundo da linguagem é o mundo dos textos. por sua vez. criar situações em sala de aula em que predominem o texto. um texto dito por uma pessoa ou elaborado com a participação de várias pessoas. ou seja.

uma carta é escrita com outro estilo. Para os alunos. algumas pessoas se confundem. TEXTOS ORAIS E ESCRITOS Quando se fala em texto (ou discurso como dizem os lingüistas). tudo o que se diz. Resumindo. No fundo. Essa atitude nega uma das realidades lingüísticas mais notáveis. trata-se de algo fantástico. uma vez que as línguas só existem porque as pessoas produzem textos quando falam. Outra coisa é o modo como esse discurso ou texto é apresentado e a finalidade para a qual ele é feito. A literatura nada mais é do que um dos possíveis usos da linguagem ou uma das possíveis finalidades para esse uso. os textos têm estilos diferentes. Eles jamais pensaram a linguagem oral dessa maneira. É surpreendente que se possa falar sobre a linguagem fazendo as palavras perderem seu significado próprio e ficando sujeitas a novas regras e valores semânticos. mais o contexto em que é dito. Há diferenças notáveis entre o modo como produzimos nossos .linguagem. um texto científico precisa ter uma apresentação especial. Um texto literário precisa ter um toque de arte. mas somente aquelas que revelam traços literários. concluindo que nem toda produção oral é um texto. restando sobretudo valores semânticos que só existem quando fazemos esse exercício de análise da linguagem. forma um discurso ou texto.

e não <201> com o fato de as crianças saberem ou não produzir textos. e nisso não há nada de novo nem de ruim. discutir o assunto com os alunos. a fala é diferente da escrita. eles dão em sala de aula apenas palavras e frases isoladas. Alguns professores consideram que as crianças que iniciam sua alfabetização não conseguem lidar bem com textos e. Acham que as crianças não são capazes de produzir textos literários. Como se disse. ao contrário. essas pessoas estão preocupadas com os estilos culturalmente exigidos pela escola. especialmente os da linguagem escrita. . Pior ainda. a escola não precisa destruir o que o aluno já sabe nem negar o valor dos conhecimentos da criança.textos orais e nossos textos escritos. Precisa. científicos ou mesmo de uso escolar mais comum. Para tanto. A criança vem para a escola sabendo lidar bem com os estilos de sua linguagem oral e espera que lhe ensinem os demais estilos. desprezam em geral os textos dos alunos quando estes não apresentam traços culturais bem marcantes (ou estereótipos baseados numa expectativa literária que têm). esses professores supõem que na fala comum não existe um texto ou um estilo que valha a pena. dentro das exigências escolares ou em determinadas circunstâncias culturais. Em outras palavras. no seu sentido mais amplo. por isso. Por causa de idéias preconceituosas dessa natureza.

O TEXTO NA VIDA E NA ESCOLA Uma criança deve levar a sua habilidade de produzir textos orais para a sala de alfabetização e usar isso como ponte para aprender a produzir os textos escritos nos estilos esperados pela escola e pela cultura. porque não se trata simplesmente de uma fileira de palavras. Porém. mas nas pontes que ligam as palavras num texto. Essas relações ou pontes jamais aparecerão num bá-bé-bibó-bu. se em vez de fazer isso. Falar a linguagem da criança não significa ser confuso e ensinar errado. acabará passando ao aluno a idéia de que o texto que ele fala (a língua que conhece) não tem nada a ver com o texto que a escola exige dele (um uso um tanto misterioso de sua própria língua). acabam destruindo o texto na sua essência. O excesso de metáforas pode levar o ensino ao . Há regras muito rígidas de coerência e coesão que estabelecem relações entre as palavras. como o uso dos "tijolinhos" das famílias de sílabas para construir o "muro" chamado texto. Essas regras não estão em palavras isoladas. a escola começar negando essa habilidade e substituindo-a por atividades pedagógicas equivocadas. O emprego de atividades que atomizam demais a linguagem. como os exercícios de monta/desmonta a linguagem.

A partir deles. Há momentos em que a escola tem de ser clara. a criança continua usando a linguagem oral normalmente no seu dia-a-dia. comparar sua fala com outros tipos de texto. o que <202> acaba insinuando a alguns alunos que a linguagem nada mais é do que um jogo de azar. pode aprender como a linguagem funciona. de estilos diferentes. quer escrevendo. Além disso. pode lidar com conceitos e regras que se utilizam de segmentos da fala sem perder de vista "o contexto maior".caos. Apesar do que ouve e faz na escola. precisa. Trazer para a sala de aula essa atuação é muito importante para que o aluno perceba que está lidando com o mesmo objeto e não com coisas muito diferentes. objetiva. que . Uma criança pode lidar bem com seus textos orais na alfabetização. Algumas atividades são apresentadas como uma espécie de jogo de adivinhação. quando na verdade esse uso da linguagem sem um contexto maior torna muito mais difícil o próprio estudo de unidades menores. O método do bá-bé-bi-bó-bu procura tirar da mira do aluno todas as palavras não estudadas para não confundi-lo. e ir aprendendo a produção de textos orais e escritos dentro das expectativas da escola. mesmo que alguns alunos não compreendam bem o que se diz num primeiro momento. quer falando.

Para aprender a falar. quer do ponto de . O professor acha. cria um contexto no qual a linguagem não faz mais sentido. O método que propicia o aluno a aprender letra por letra ou sílaba por sílaba. às vezes. uma depois da outra. As palavras-chave ocorrem de maneira arbitrária e são pretextos com fundamento equivocado. geradora de uma análise em sílabas. que está facilitando o trabalho do aluno. Fora desse âmbito. Temos o alfabeto com letras. formando seqüências que começam por padrões mais simples e vão até os mais difíceis. Esse procedimento de lidar com a linguagem é sem dúvida uma das grandes causas da dificuldade que algumas crianças apresentam para se alfabetizar.precisam. as regras perdem seu poder explicativo. As crianças aprendem a falar usando a linguagem no seu contexto natural e na sua forma mais plena e abrangente possível. Há muita diferença entre uma palavra-chave. quando na verdade o está complicando. letras e sons. mas escrevemos palavras e não apenas letras. em que elas encontram <203> vida própria. as crianças não precisam estudar os sons da fala isoladamente e depois agrupá-los. a ponto de impedir a aprendizagem. ser isoladas. às vezes. e um uso de palavras num outro contexto. O mesmo pode-se aplicar à aprendizagem da escrita.

Alguns professores inicialmente trabalham com os nomes dos alunos. Trabalhar só com palavras isoladas é tão errado quanto trabalhar somente com textos. Quando alguém escreve o nome de um estabelecimento comercial. . sem levar em conta o uso de palavras isoladas. Obviamente. como é o caso do professor que diz "bebê" ou mesmo "cachorro". o rótulo de um produto. Os métodos aconselham a narrativa de uma história em que a palavra-chave representa o personagem central. A escolha da palavra-chave gera um esvaziamento semântico. quer do ponto de vista da motivação do ensino. Na vida real. uma indicação. material escolar. etc. etiquetando cabides. algumas palavras isoladas podem ter um uso perfeito. entretanto. no qual o próprio sentido literal soa estranho. Esse uso da linguagem é típico da escola. sobretudo a escrita. podem-se encontrar palavras isoladas e usadas com propriedade. Muitos professores já descobriram isso e fazem seus alunos pesquisarem o mundo da escrita nas situações cotidianas. carteiras. o professor não vai ficar fazendo só isso. As duas coisas são indispensáveis.vista lingüístico. Não há muito jeito de explicar os mecanismos da linguagem. Essas histórias em geral não têm graça e soam ridículas.

Em primeiro lugar. dizendo o que está fazendo e o que pretende fazer e mostrando o funcionamento da linguagem basicamente através de discursos orais. essa abordagem é mais evidente. é necessário fazer uns cortes e pensar a linguagem de outro jeito. de maneira isolada. Mas. Com relação à escrita. o professor precisa dar explicações. e não apenas palavras isoladas. Sempre que possível. Para isso deverão usar a capacidade de refletir e examinar o que conhecem da linguagem através da simples introspecção da própria fala. Esses conhecimentos estão implícitos na cabeça do professor. Aqueles que recebem esse . é melhor usar textos do que palavras soltas. Em segundo lugar. o aluno fica sabendo que o estudo gramatical faz um uso especial da linguagem. a segmentação da fala em partes arbitrárias ou motiva das mais por regras sintáticas do que pela semântica é o que eles precisam levar em conta. Nesse caso. mas precisam ser explicitados aos alunos. deve incentivar seus alunos a ler e escrever textos. Desse modo. mas que não estão acostumados a refletir sobre seu funciona mento.O PROFESSOR E O TEXTO DO ALUNO O professor precisa tomar alguns cuidados. através de regras que consideram uma questão por vez. <204> O professor deverá mostrar ainda que seus alunos conhecem muitas coisas sobre a linguagem. para tanto.

se a escola reduzir a linguagem a conjuntos de palavras isoladas. esses elementos são tão importantes quanto as palavras e os sons da fala. Num texto. e o aluno começa a produzir textos que não passam de amontoados de palavras e frases. Uma discussão entre os tais chamados "meninos de rua" mostra como conseguem manipular a linguagem muito bem. mesmo nunca tendo ido à escola. esses elementos básicos do discurso lingüístico desaparecem. Quando aprendem a falar e a ouvir a linguagem diante de textos. Uma metodologia inadequada pode fazer alguns alunos desmontarem . de construção da coerência e da coesão dos textos e o uso literal e metafórico da linguagem. pedaços de palavras. Isso tudo é adquirido com a aquisição da linguagem oral. porque nesses textos faltam justamente os elementos que foram negligenciados. pelo contrário. as crianças passam a dominar não só os sons da fala e os significados literais das palavras. irá fazer com que os alunos não percam essas habilidades orais quando forem aprender a ler e a escrever. irão enriquecê-las. Se a escola encarar o ensino da alfabetização dessa forma. Porém. mas também as formas de argumentar.tipo de explicação antes das atividades lidam melhor com os estudos depois. A escola destrói algo que os alunos já tinham e depois irá cobrar caro pela incapacidade de certos alunos de produzirem textos aceitáveis.

caso contrário. que escreve para crianças. porque o método das cartilhas é um grande equívoco em todos os sentidos. Ouvir. isso não significa que seja igualmente difícil lê-lo ou ouvi-lo. esses escritores não seriam famosos. Primeiro. porque o texto de um escritor famoso. de fato envolve os leitores. Para facilitar e se adequar aos métodos usados.a linguagem e não saberem remontá-la corretamente. Se é difícil escrever um texto desse tipo. Mas os bons autores representam o que há de melhor também para as crianças. ler e entender esses textos é bem diferente de produzi-los. Depois. os autores das cartilhas e muitos professores inventam textos que representam o pior exemplo que os alunos podiam ter do que vem a ser um texto. Escrever textos como esses é muito difícil e poucos conseguem tal proeza. Os escritores famosos conseguem envolver seus leitores de tal modo que eles nem se dão conta da forma do texto. Um ensino baseado em palavras-chave e no bá-bé-bi bó-bu exige uma repetição excessiva de elementos semelhantes para a . como atividade escolar de produção de textos. Fazem isso por que pensam que os textos dos escritores famosos são muito difíceis ou inapropriados para os objetivos da lição. muitas vezes deixando-se levar apenas pela mensagem transmitida. segundo as expectativas do método. Essa é uma <205> visão equivocada.

fixação da aprendizagem, ou simples mente para chamar a atenção para uma determinada estrutura. Porém, um ensino que está profundamente comprometido com a reflexão e com a construção do conhecimento pela criança encontra nos textos de escritores famosos o que há de melhor.

O PLANEJAMENTO DOS TEXTOS Há muitas coisas que se podem dizer a respeito de textos. Os estudos literários têm uma tradição milenar. A filosofia e, mais recentemente, a lingüística moderna têm contribuído enormemente para esse tipo de estudo. Tudo é muito importante e muito interessante. As considerações que estamos fazendo, no entanto, estão selecionando alguns aspectos tendo em vista o trabalho de alfabetização nas primeiras séries escolares. Dentro dessa perspectiva, um texto tem dois aspectos: um interno e outro externo. O aspecto interno é o planejamento textual, ou seja, juntar o que se quer dizer com o modo com que isso vai ser dito, seguindo uma determinada ordem. Todo texto pronto revela essas noções. O aluno que vai escrever um texto precisa aprender a fazer o planejamento textual. A idéia em si não é novidade. Porém, a maneira como muitos livros e professores tratam desse assunto revela problemas sérios. <206>

Quando uma pessoa conversa, organiza o que diz em função das idéias que tem e da reação das pessoas a seu redor, à medida que vai falando. Quando escreve, não conta com a reação de pessoas presentes como interlocutores. Por isso, é preciso prever as reações possíveis dos leitores que são os interlocutores ausentes na hora da produção do texto, mas que entrarão na história desse texto mais tarde. Os textos não têm apenas palavras e personagens da história; contêm também os personagens da produção e da leitura do mesmo. Além disso, quando se fala, não se volta atrás, a não ser em continuação do que já foi dito. Quando se escreve, porém, podese apagar e fazer tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Assim, ao escrever, é possível fazer um planejamento melhor daquilo que vai ser dito. Esse planejamento realiza-se em duas etapas. Na primeira, o escritor pensa e anota algumas idéias a respeito das quais vai dissertar. Na segunda, o escritor faz seus comentários sobre o que tinha assinalado, completando seu discurso. Terminada uma versão, procede-se a uma correção e revisão, para melhorar o que for possível. Cada texto acaba saindo de uma determinada forma, dentre as inúmeras possibilidades de realização. A prática tradicional de montar um roteiro para os alunos escreverem textos ou simplesmente mandarem fazer, por exemplo, cinco frases usando uma determinada palavra ou idéia

é uma concepção errada de planejamento de texto. Quando as pessoas falam, não precisam disso e, quando vão escrever, também não. A reflexão do indivíduo é que deve guiar o texto. Na produção dos primeiros textos pelas crianças, não vale a pena ficar tratando de planejamento de texto. Basta o professor dizer para os alunos escreverem o que quiserem, do jeito que quiserem, sobre o que quiserem ou sobre um determinado assunto. O planejamento do texto deve ser ensinado depois que os alunos já estiverem produzindo textos com certa facilidade e estiverem familiarizados com textos que eles próprios leiam. Quando for a hora, o professor deve cuidar para que os alunos aprendam a escrever textos como um arquiteto que planeja a casa que vai construir, acostumando-os a ter na mente uma visão de qual vai ser o resultado final. Alunos que escrevem sem planejamento freqüentemente fazem textos que são difíceis de corrigir, tendo como única saída refazer tudo. <207> Faz parte da bagagem de conhecimentos educativos relativos à linguagem, o treinamento para planejar o que se pretende escrever. Além disso, a escrita, dependendo de quem é o destinatário, exige do escritor a tomada de certas providências, por exemplo, com relação à escolha do vocabulário, da organização das idéias, do modo de argumentar ou conduzir as idéias, e até mesmo do capricho e elegância da apresentação

gráfica. A cultura e a sociedade em que vivemos têm exigências com relação aos textos que as pessoas escrevem, e a escola tem a obrigação de discutir essa questão e mostrar aos alunos como proceder, de maneira muito semelhante à discussão a respeito da variação lingüística e da norma culta. Os aspectos externos à estrutura dos textos referem-se à forma de apresentação, quer do ponto de vista do modo como o discurso é estruturado, quer do ponto de vista do modo como esse discurso é transmitido. Podemos ver essa arquitetura do texto de outro jeito. Quanto à forma, um texto pode ser uma poesia, uma prosa, um esquema, etc. Do ponto de vista do estilo, pode ter uma linguagem formal ou informal, mais arcaica ou mais cheia de gíria, mais típica de uma região ou de outra, de uma categoria social ou de outra, etc. Sob outra ótica, pode ser do tipo dissertativo, narrativo, como pode ser uma carta, uma descrição, uma propaganda, um informativo com instruções, etc. Outro aspecto externo aos textos é a forma como são transmitidos. Um texto oral pode ser apresentado em diferentes dialetos e com interpretações mais teatrais ou mais próximas de uma fala comum. Um texto escrito tem características próprias de organização espacial sobre o papel ou o material sobre o qual se escreve, além das letras empregadas. Aprender a apresentar trabalhos acabados com a sofisticação necessária também deve ser uma preocupação da escola, desde as atividades de

alfabetização. Desde cedo, os alunos precisam aprender os bons hábitos, e os professores das séries posteriores também deveriam continuar exigindo uma boa apresentação para os textos produzidos pelos alunos. Essa não é uma tarefa exclusiva da alfabetização. É muito importante que o professor peça aos seus alunos para tomarem a iniciativa e escolherem por si o que desejam fazer, o que acham que podem fazer, produzindo textos livres ou espontâneos. O professor deve também apresentar textos de tipos diferentes, compara-los, <208> mostrar o que caracteriza um tipo e o que o diferencia dos demais, e incentivar seus alunos a produzirem todos os tipos de texto.

A PRODUÇÃO DE TEXTOS NA ALFABETIZAÇÃO MÁSSINI-CAGLIARI, 1996a. e 1997a; CAGLIARI, 1985b. Se o professor alfabetizador deve trabalhar, sempre que possível, com textos, os alunos também devem estar sempre envolvidos com a problemática da linguagem, analisando-a dentro de um contexto real de uso, ou dentro da própria linguagem, como é o caso do estudo das relações entre letras e sons. Isso faz com que os alunos passem da habilidade de produzir textos orais para a habilidade de produzir textos

escritos; da habilidade de produzir textos no estilo da fala do dia-a-dia para a habilidade de produzir textos segundo as exigências escolares e culturais. Essa liberdade de usar uma língua que o aluno já domina para estudar permite que ele escreva sem medo de dizer o que pensa e sem medo de errar. O que os alunos fazem produzindo textos serve, ainda, para mostrar para o professor o que eles já sabem e o que precisam aprender no processo de aquisição da leitura e da escrita. Desse modo, acompanhando o desenvolvimento de cada um e da classe nas suas necessidades gerais, o professor pode programar melhor suas aulas e conduzir adequadamente o processo de ensino e de aprendizagem. Para um bom professor deve ser tão importante o que o aluno acerta quanto o que ele erra. Se o ensino for muito dirigido, se o aluno só fizer segundo o modelo, só trabalhar com os elementos já dominados, o professor recebe apenas a reprodução de algo que ele passou para os alunos. O que de fato eles pensam não tem chance de aparecer. Os textos livres feitos espontaneamente pelos alunos revelam o que realmente sabem e como operam com esses conhecimentos. Analisando o que os alunos elaboram, o professor acaba descobrindo, como os lingüistas, quais as hipóteses que regem o comportamento lingüístico das crianças e quais as regras que utilizaram na sua produção. O erro é mais revelador do que o acerto. O acerto pode ser fruto do

acaso, mas o erro sempre é fruto de uma reflexão, de um uso indevido de algum conhecimento. <209> Dentro dessa visão da produção de textos na alfabetização, logo se vê que os alunos farão apenas pequenos textos no começo, com uma ou duas frases. Depois, irão tentando escrever mais, à medida que ficarem mais fluentes na escrita. Certamente, os primeiros textos vêm sobrecarregados de erros de todos os tipos, O que vale é o trabalho, não o resultado em si. Por isso, o professor não irá corrigir esses primeiros textos. Irá simplesmente analisá-los, discuti-los com os alunos, mostrando algumas coisas interessantes e guarda-los no dossiê de material de cada aluno. Algumas anotações serão feitas tendo em vista a programação de aulas futuras.

A CORREÇÃO DE TEXTOS Depois que os alunos começarem a ficar mais hábeis e a produzir textos mais longos e com mais facilidade, o professor começará a exigir o planejamento textual e, sobretudo a autocorreção. Essa autocorreção pode ser feita em duplas, individualmente ou até mesmo coletivamente. Nem todo texto precisa ser corrigido, alguns são feitos simplesmente para que o aluno desenvolva mais fluência ao escrever. De modo geral, todo texto que deverá ser lido por outra pessoa e quando for

divulgado, precisará ter passado por rigorosa correção. Feito o texto, o professor pede para os alunos corrigirem e melhorarem tudo o que quiserem. Em seguida, discutem o texto em duplas e chegam a uma versão definitiva. Finalmente, o texto será revisado pelo professor. Somente então, o aluno o passa a limpo, produzindo o texto definitivo. O professor precisa ensinar aos alunos como fazer a autocorreção. Problemas de coesão, coerência ou uso de determinadas estruturas sintáticas precisam ser tratados diretamente com o professor. Na alfabetização, o mais importante é cuidar da ortografia. O professor precisa ensinar os alunos a terem dúvidas, a desconfiar se algo está certo ou errado. Aprender a ter dúvidas ortográficas é tão importante quanto aprender a escrever, O aluno deve saber, a partir de uma análise pessoal de seus conhecimentos, se, ao escrever uma palavra, todas as letras estão corretas ou não. <210> Um aluno pode não apresentar nenhuma dúvida ortográfica ao escrever a palavra PATO. Ele a escreve e vai adiante. A próxima palavra pode ser GIRAFA. Aqui, se não tiver certeza absoluta de que GIRAFA se escreve com G, ele precisará olhar no dicionário ou perguntar a quem sabe. Depois, poderá escrever a palavra GENTE e não ter dúvida ortográfica, embora o caso seja

semelhante ao da GIRAFA. O professor deveria reservar algumas aulas, de vez em quando, para ensinar os alunos o que pode suscitar uma dúvida ortográfica e o que não. Não adianta pedir para os alunos fazerem autocorreção, se eles não souberem o que corrigir. Do ponto de vista do aluno, não existe professor mais desagradável do que aquele que não sabe ler o texto de um aluno, principalmente quando o texto apresenta dificuldades. Não basta o professor dizer que o texto está ruim. É preciso fazer uma análise e mostrar por que está ruim e, especialmente, o que fazer para que o texto fique bom. Alguns professores lêem os textos de seus alunos (ou simplesmente o que os alunos escrevem em ditados, cópias, etc.), como se a escrita fosse uma transcrição fonética da fala. Essa é uma forma desrespeitosa de tratar o trabalho da criança. O professor não faz isso com os textos dos livros. O professor pode escrever TIA e falar "tchia", pode escrever BALDE e falar "baudji", mas se o aluno pensa que se escreve PRANTA, o professor não lê "planta", achando que a única forma possível de leitura, nesse caso, é "pranta". Quando erra na grafia, o aluno não está querendo escrever conforme a sua própria pronúncia. Isso acontece porque ele ainda não domina o sistema de escrita e, sobretudo, a ortografia das palavras. O professor pode perfeitamente ler um texto de um aluno em que aparecem muitos erros, em conformidade com a

norma culta. Ao fazer isso, nota-se quase sempre que os textos espontâneos são muito mais interessantes do que parecem, muitas vezes, a alguns professores. Resultado semelhante surge quando o professor pede para o aluno ler o que escreveu, e ele faz uma leitura fluente. O texto, então, torna-se outro, mais interessante. Um professor jamais pode dizer para o aluno que ele leu errado, porque escreveu uma coisa e leu outra. Afinal, a escrita existe para representar a fala e usamos um sistema ortográfico para neutralizar a variação dialetal. O que o aluno escreveu representa a sua fala e, se leu daquele jeito, é porque ele quer que seja lido daquele jeito. Seus erros são de ortografia e não de transcrição <211> fonética. Se quisermos que o aluno respeite o que ensinamos, precisamos respeitar o que o aluno sabe, o que aprende e, sobretudo, seu esforço para melhorar. Um bom professor também está atento ao que acontece com seus alunos nas diferentes atividades que eles realizam, observando o que os ajuda e o que os atrapalha. Por exemplo, é muito evidente que os alunos que fazem um desenho antes (ou colam uma ilustração) e depois escrevem um texto são mais inclinados a produzir textos menos interessantes, em que predominam descrições de personagens e ações, resultando quase sempre num conjunto de frases soltas. O ideal é pedir

para o aluno fazer o texto e depois ilustrá-lo. Nesse caso, há menos problemas de coesão, e os textos são em geral mais bem estruturados e desenvolvidos. Alguns alunos gostam de sugestões, outros não. Alguns temas trazem mais motivação para os alunos, outros menos ou, até mesmo, são do desagrado de certas crianças. É necessário habilidade para lidar com cada caso.

TEXTOS SIGNIFICATIVOS PARA OS ALUNOS A prática de produção de textos, que é uma das atividades mais importantes das aulas de português, não deve restringir-se ao trabalho do aluno, unicamente porque o professor assim ordenou, sob pena de baixar a nota. Na alfabetização, a prática da produção de textos tem como objetivo ensinar os alunos a passar seus conhecimentos sobre a linguagem oral para a forma escrita. Numa segunda etapa, se cuidará para que o aluno aprenda a produzir textos de todos os tipos, conforme as exigências culturais e escolares. Há ainda outro aspecto importante. Ninguém fala para si próprio e, por razão semelhante, ninguém escreve apenas para si. A fala e a escrita precisam de interlocutores ou de leitores. É lamentável o que fazem alguns professores que passam redações simplesmente para ocupar o tempo de seus alunos ou dar notas. O aluno acaba tendo como interlocutor apenas o

professor, que corrige o que ele faz, ou apenas a nota que recebe. <212> Desde a alfabetização, o professor deve desenvolver atividades de produção de textos dentro de um contexto no qual o aluno tenha um interlocutor e um leitor,real para o que produz, além do professor que corrige. No início da alfabetização, os alunos irão compor textos com o objetivo de aprender a escrever. Esses textos são mais um pretexto para a escrita do que uma produção para ser lida pelos outros. Muitas vezes, os alunos irão escrever anotações em sala de aula. Esses textos são pessoais e não precisam interessar a outras pessoas. As atividades de produção de texto propriamente ditas devem ser feitas sempre com possíveis leitores em mente. Isso se consegue redigindo textos para finalidades específicas. Desde a alfabetização, os alunos podem fazer textos que irão ser reunidos num livrinho de histórias, de poesias, de pesquisas da classe, etc. A redação de cada aluno irá seguir instruções no que se refere aos aspectos externos do texto. Os alunos sabem que esses livrinhos vão ser reproduzidos em xérox, por exemplo, e cada qual terá um exemplar para poder mostrar em casa aos pais, parentes e amigos. Antes disso, os colegas da classe já terão lido os textos. Nesse tipo de atividade, já aparecem alguns leitores em potencial, além do professor. Isso dá uma nova

dimensão ao trabalho do aluno. Ele passa a se interessar mais pela atividade e se esforça cada vez mais para apresentar um bom trabalho. Os trabalhos que não forem aproveitados para formar o livrinho da classe serão usados para formar livrinhos individuais de cada aluno, no final de cada semestre. Além dos livrinhos, os alunos podem fazer textos para um jornal da classe. Alguns professores gostam mesmo que ele seja semelhante a um jornal de verdade que se compra em bancas de revista. Pega-se uma folha de papel grande e divide-se o espaço em partes, como nos jornais comuns. Cada espaço será reservado para um tipo de texto e de ilustração. Cada aluno ou grupo de alunos ficará encarregado de um espaço. Completada a tarefa, cola-se cada trabalho no respectivo espaço e tem-se uma folha de jornal. Os assuntos podem ser notícias internacionais, do país, da cidade, da escola, bem como esportes, moda, ocorrências policiais, cultura, televisão, fofocas, etc. Os alunos podem fazer também revistas à moda dos jornais, imitando algum modelo. Podem ser revistas em quadrinhos, propaganda para televisão, noticiários que <213> depois serão lidos em aula, etc. Uma outra idéia é escrever pequenas peças de teatro para serem encenadas ou quadros do tipo que se vê na televisão. Podem fazer documentários que serão apresentados ou até mesmo pequenas novelas.

Concluindo, a escola deve imitar a vida, e o professor lança mão de inúmeras manifestações que requerem a produção de textos, as quais propiciam uma prática mais significativa e interessante para os alunos. Certa ocasião, fui a uma escola que não sabia o que ensinar aos alunos nas aulas de Problemas Brasileiros de segunda série. Sugeri, como atividade, que os alunos fizessem pesquisas sobre determinados assuntos e escrevessem um livrinho com suas anotações, O tema escolhido, então, foi o trânsito. Cada aluno entrevistou motoristas e pessoas para saber o que elas achavam do trânsito, o que havia de ruim, o que podia ser melhorado. Eles próprios deram sua opinião. De repente, todos passaram a se interessar pela atividade até a conclusão do livrinho. Atividades de produção de texto podem estar ligadas a muitas matérias e a uma infinidade de conteúdos, não só na alfabetização. Se os alunos de matemática, em vez de ficarem só fazendo problemas de matemática, pesquisassem, por exemplo, a história da matemática e elaborassem livrinhos relatando suas descobertas, a matéria passaria a ter um gosto especial para muitos alunos, e o ensino se tornaria muito mais fácil e eficiente. Há professores que desenvolvem um belo trabalho de produção de poesias ou de letras de músicas com seus alunos. O que não se pode fazer na escola é simplesmente mandar o aluno fazer uma redação. Essa atividade precisa ser feita dentro de um

fazendo com que todos os alunos façam suas tarefas do mesmo modo. quem. que não seja apenas o de ganhar uma nota. como. vem uma série de perguntas a que o aluno deverá responder: o quê. meio e um fim com uma lição de moral para qualquer tipo de história. A CARTILHA E A PRODUÇÃO DE TEXTOS O método das cartilhas. A própria cartilha dá exemplos de textos assim. juntando-as do jeito que acharem melhor. quando.outro contexto. por quê.. em geral. menos ainda textos espontâneos e livres. não se esquecendo de que o texto deve ter começo. Não precisam se preocupar com começo. Após a indicação do título. Quando falam. O texto sai espontaneamente. <214> Além disso. alguns professores usam uma estratégia indesejável para induzir os alunos a produzir o que eles chamam de "texto". onde. seguindo o mesmo caminho.. de acordo com as idéias que têm na . Para tanto. empregando as palavras já dominadas. meio e fim. o método das cartilhas gosta muito de controlar tudo o que os alunos produzem. as crianças não precisam desses esquemas ou roteiros. As respostas a esse esquema produzem o texto esperado. De acordo com o método das cartilhas. não propõe a produção de textos. dão roteiros. Os alunos só escrevem frases.

como em outras ocasiões. que serão severamente criticados. guiando-se por esquemas como os mencionados acima. cuidará para que os alunos não pensem que eles estão produzindo textos. com criatividade e arte. pela própria escola. de tal modo que numa lição o aluno completava as frases com nomes (substantivos).cabeça. depois. O professor. O método das cartilhas quer que os alunos escrevam textos seguindo uma forma inadequada e depois a escola vai exigir que eles escrevam bem. Tais exercícios podem ser feitos esporadicamente. cobra deles justamente o contrário. Outra forma de uso de uma camisa-de-força para a produção de textos são os exercícios com lacunas para completar. no entanto. Alguns livros antigos faziam esse tipo de exercício. devem agir do mesmo modo. Aqui. depois. nas séries mais adiantadas. noutra com adjetivos. Quando elas forem escrever seus textos. a escola ensina os alunos a fazerem suas tarefas de um jeito e. mas que estão apenas fazendo os exercícios de busca de palavras apropriadas para certos . e se seu estilo agradar a uma comunidade. torna-se um texto literário. noutra com verbos e assim por diante. eles acabarão produzindo textos estereotipados. Se a escola insiste em fazer com que os alunos escrevam. A marca da individualidade faz de um simples texto um trabalho original.

água. <215> Outra atividade que não pode ser confundida com a produção de textos é a formação de frases a partir de uma palavra dada. A atividade de produção de textos Será feita de outra maneira e não se confundirá com isso. de Antônio Pedro Wolff. o professor escreve no quadro-negro uma lista de palavras: pedreira. 1950. Tenho diante de mim o livro da 2ª série. destruindo sua criatividade e inibindo sua capacidade de produção de textos. intitulado Composições escolares. alcançada juntamente com a aquisição da linguagem oral quando ainda era bem pequeno. terão cinco frases. Para se ter uma idéia mais . No final. seguindo o velho esquema de responder a perguntas.contextos. Por exemplo. alto. Esse livro traz as atividades com que o professor ensinava a prestar atenção à elaboração de frases e textos. Essas atividades sem a produção concomitante de textos espontâneos (e distinguindo-se uma coisa de outra) podem induzir o aluno a uma dependência nefasta dos famosos esquemas de produção de frases. O professor deverá estar atento para distinguir esse tipo de trabalho — que serve apenas para mostrar aos alunos que se podem inventar inúmeras frases a partir de uma mesma palavra — da produção d textos. mexer — e os alunos deverão formar frases usando essas palavras.. 7ª ed.

— Descrição de objetos por meio de — Formação de sentenças interrogativas. — Formação de sentenças exclamativas. Essa argumentação leva em conta apenas os alunos que aprenderam. seguem os títulos dos capítulos: — completar sentenças. — Redação de cartões de visita. — Reprodução de contos sem questionário. Esse programa mostra como os alunos aprendiam a redigir antigamente. . Ainda hoje se ouve com freqüência professores dizerem que antigamente as pessoas aprendiam muito bem com as cartilhas.completa. perguntas. — Redação de bilhetes. aprenderam mal e tiveram de interromper os estudos. — Passar quadrinhos para prosa. — Redação de envelopes. questionário. Esse tipo de argumento saudosista é uma forma de justificar o mal do presente com uma utopia do passado. O objetivo de trazê-lo aqui não foi matar as saudades. — Reprodução de contos com — Descrição de gravuras sem questiona questionários. esquecendo-se dos que não aprenderam. — Responder a questionários referentes a — Descrição de gravuras com assuntos de outras disciplinas. perguntas. — Descrição de animais por meio de — Responder a perguntas.

com a segurança de que será um bom trabalho. muitos professores acabaram se convencendo. em geral. mas a expectativa dos alunos de que assim farão um bom trabalho ajuda. como ensina o método das cartilhas. não seriam capazes de escrever belas . O excesso dessas atividades. porém. Contar com as próprias palavras uma história que o professor leu para a classe ou que eles leram em algum livro às vezes ajuda a escrever com mais tranqüilidade. como já vimos. pelas evidências encontradas no próprio trabalho. a conseguir melhores resultados. pode criar preguiça intelectual e favorecer a idéia de que se pode fazer um texto desde que haja um modelo prévio.<216> Outra prática consiste em pedir para os alunos escreverem uma história depois de ouvirem um texto várias vezes. A verdade não é bem essa. Surpreenderam-se com os resultados. por serem pobres e oriundos de famílias problemáticas e carentes. A OPÇÃO PELOS TEXTOS ESPONTÂNEOS Recentemente. Pensavam que seus alunos. de que vale a pena fazer com que os alunos produzam textos espontâneos variados. Esse tipo de atividade facilmente descamba na idéia de que a produção do aluno depende de um modelo. E isso. é desastroso.

no início. e o professor não deve desanimar com as dificuldades iniciais. Entretanto. não fixassem o erro. para que eles não errassem e. a fazer. sentem-se inibidos. talvez começando como atividade paralela às demais atividades tradicionais. pelo que aprenderam até então). acostumados a trabalhar sob um rígido controle por parte do professor e do método. textos espontâneos. o professor pode propor a redação de textos espontâneos a título de experiência para checar os resultados. quando se discutem questões como a produção de textos espontâneos. nesses casos. uma vez que sempre trabalharam sob rígido controle das atividades produzidas pelos alunos. Com muito bom senso e um pouco de coragem. conseqüentemente. O tempo como sempre é um fator importante. Lamentam. É preciso tomar certos cuidados. encontra-se .históri as. Um outro tipo de comentário comum. mostrar suas vantagens e deixar que os alunos encontrem aos poucos um novo caminho para produzir seus textos. como os alunos bem-nutridos e bem-vestidos das ricas escolas particulares. certos professores têm medo de entrar nesse mundo porque o acham muito caótico. por exemplo. O professor deve conversar sobre esse tipo de atividade. dizendo que assim não dá para fazer <247> nada (e com razão. já que os alunos.

mesmo deixando seus alunos produzirem textos espontâneos. o professor quer dizer que.. se algum aluno não aprendia. Portanto. Em primeiro lugar. com todos os problemas que já tinham antes. de fato..na seguinte afirmação: "Eu sempre fiz assim e não deu certo. eles acabam reproduzindo os erros e tendo dificuldades semelhantes às que ele encontra com aqueles alunos com os quais não costuma aplicar esse tipo de atividade. tanto faz agir .. gostaria de dizer a esses professores que é muito estranho o comportamento relatado: se eles chegavam sempre à conclusão de que não adiantava ensinar desse modo. Um comentário diferente. vem daquele professor que declara que pediu para seus alunos produzirem textos espontâneos e eles escreveram textos à moda das cartilhas.. os bons alunos aprendem de qualquer jeito e os maus alunos não aprendem nunca". mas que ainda demonstra certa relutância em levar para a prática escolar da alfabetização a produção de textos espontâneos. não seguiam o método do bá-bé-bi-bó-bu e sempre trabalharam com a produção de textos. porque repetiam sempre as mesmas estratégias? Em segundo lugar. querendo dizer que. não é bem assim. Em outras palavras. por que o professor não foi estudar as razões mais profundas e verdadeiras do fracasso? Em terceiro lugar. tenho sérias dúvidas com relação à afirmação de que eles "faziam sempre assim". usando o método das cartilhas. tal qual sugerida por nós.

certos erros vão evidenciar que. ele erra ao escrever espontaneamente. Na verdade. O fato de redigir textos espontâneos é uma janela para um mundo novo. Por outro lado. Um aluno que produz textos espontâneos dentro do contexto de ensino das cartilhas não escapará dos malefícios do ba. A produção de textos espontâneos variados aparece aqui dentro de um contexto. apesar de o aluno acertar tudo no ditado. mas o acesso a ele ainda depende de cortar certas amarras. dos ditados. permite ao professor conhecer melhor seus alunos e ensinar o que for preciso de maneira objetiva.bé-bi-bó-bu. o que denuncia que o ditado não é uma boa . não é bem assim. no qual os alunos são alfabetizados sem o método do bá-bé-bi-bóbu. Conseqüentemente. pelo menos em parte e em certas ocasiões. que tipo de solução dá para suas dúvidas.de um jeito ou de outro. e comparar com o que fazem nos textos espontâneos vai começar também a ver as diferenças entre esses dois tipos de abordagem do ensino da escrita. Se o professor analisar o <218> que seus alunos fazem seguindo as instruções dos exercícios estruturais. E isso faz muita diferença. A grande incidência de erros nos textos espontâneos mostra mais claramente como o aluno pensa. como faz para escrever.

da leitura e da fala. Será feito um comentário geral sobre cada texto e. Depois. que aprendeu na cartilha. Essas frases não pretendiam formar um texto. escreveu frases soltas para completar o texto. uma série de textos dos mais variados tipos e origens. Haverá também sugestões de como ensinar o aluno a melhorar. Para ilustrar os comentários expostos acima. eram apenas . a seguir. uma simples abertura no método das cartilhas já é muito interessante para fazer uma crítica dessa prática educativa e possibilitar uma melhor compreensão do processo de aprendizagem do aluno. errando cada vez menos no futuro.forma de avaliação (e pior ainda de ensino). O professor pode constatar que o aluno levou para o texto espontâneo frases ou expressões estereotipadas. de como ele está construindo os conhecimentos a respeito da escrita. será apresentada. em busca de uma explicação. Como se vê. EXEMPLOS DE TEXTOS DE CARTILHAS E OUTROS As cartilhas antigas em geral dispunham abaixo da lição das letras algumas frases para serem lidas. depois. os erros serão analisados. estudadas e copiadas. Começou escrevendo um texto interessante e foi até certo ponto. até dominar a produção de textos escritos.

3. O besouro zumbe. Tio Xerxes comprou uma caixa de charutos. Zezé não zela de suas coisas. Ponha o vidro de xarope debaixo da luz. Por . Devemos seguir os bons exemplos. 6. 33ª lição — A zebra 1. A-le-xan-dre A-ta-xer-xes Zu-lei-ca Nota-se que o autor está preocupado não só com as relações entre letras e sons.exemplos para leitura. o burro zurra. O rapaz estudou a lição do exame. não só com a leitura que as letras têm. LOURENÇO FILHO. cópia e ditado. ou seja. mas com o trabalho que a criança tem de passar da fala para a escrita. 2. mas também com as relações entre sons e letras. Os textos vinham ao final da cartilha. de Manuel B. quando o aluno já sabia ler e podia fazê-lo sem se apegar apenas às palavras já dominadas de cada lição (todas de uma só vez). 1951. Lourenço Filho. o sapo coaxa. 5. 4. <219> Vejamos o que acompanha o estudo de uma letra e um texto da Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente.

uma ou duas ocorrências de um fato sob estudo numa frase bastam. como em outras cartilhas. "A galinha esperta" (fábula). em que se encontram exemplos como "Ivo viu a uva". 5. Todos os brasileiros precisam saber ler. O brasileiro que não sabe ler não é bom brasileiro. Da lição 37 em diante. "Minha Terra" (com os nomes dos estados) e a letra do Hino Nacional. nas cartas e nos jornais. Posso saber o que outros homens fizeram e pensaram há muito tempo. aparecem cinco textos no final da cartilha: "Já sei ler". . Não há excesso de palavras que têm o mesmo som. o meu querido Brasil lendo histórias de viagens. aparecem exemplos de palavras com a letra Z e exemplos em que há o som de "zê". como o X e o S. O primeiro texto é este: 1. Já sei ler nos livros. 10. 6. porém. 3. Como é bom saber ler! 8. Que bom! Posso agora aprender lindas histórias. Devemos ensinar a ler aos que não sabem. "A nossa bandeira". Posso escrever cartas aos meus amigos e parentes. Para o autor. Já sei ler! 2. Posso conhecer minha terra. 7. 9. 4.isso. escritos com outras letras.

Como falantes nativos de uma língua. uma vez que ele supõe que o aluno. Apesar disso. o autor tomou a liberdade de escrever sem se preocupar com o ensino de determinada letra. nada prova que esse tipo de texto seja "mais fácil" do que uma poesia do livro Ou isso ou aquilo. nem com as noções já dominadas. A restrição com relação à escrita reside apenas nos casos em que os alunos não sabem decifrar determinadas letras ou conjuntos de letras. o texto pode ser qualquer um desde que a criança tenha condições de entender. Depois que eles decifraram a escrita. os alunos são capazes de enfrentar uma variedade enorme de textos. dificultando ou impossibilitando a leitura. denota isso. Na verdade. mas não redigiu um texto. seja capaz de ler qualquer coisa. Como o texto vem ao final da cartilha. Ou se tem um texto incompreensível para a criança (como um texto científico .Como é bom saber ler! O grande problema desses textos dados como exemplos nas cartilhas é que o aluno acaba concluindo que é desse modo que se produz um bom texto. escrever um texto "fácil". Até mesmo a disposição das frases. com números e paragrafação. de Cecília Meireles. nessa altura. por bom senso. <220> Nota-se que o autor escreveu algumas frases a res peito de um assunto. achou conveniente.

a poetisa faz versos de poucas palavras para facilitar a leitura e.) Intencionalmente. que não corra nem pule. das montanhas. assim. O menino quer um [burrinho] que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. mas que saiba conversar.especializado) ou se tem um texto que elas podem entender (como qualquer texto destinado às crianças). Número das Portas. é mais fácil ou mais difícil do que o poema de Cecília Meireles citado a seguir: O Menino azul O menino quer um [burrinho] para passear. não precisou escrever números . pode escrever para a Rua das Casas. apresentado acima. das flores — de tudo o que aparecer. ao Menino Azul que não [sabe ler. O menino quer um [burrinho] que saiba dizer o nome dos rios. Não é possível. Um burrinho manso. cientificamente falando. (Quem souber de um [ burrinho desses. dizer se o texto da cartilha. E os dois irão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largoe talvez mais comprido e que não tenha fim.

vendo aquela cor do colar de Carolina. ao ensino de determinada letra ou som. E o sol. . bem diferente dos exemplos da cartilha. põe coroas de coral nas colunas da colina. A casa tem copa. mas sua arte acaba produzindo um texto bem-acabado e sugestivo. O poema de Cecília Meireles assemelha-se à idéia das cartilhas de ficar repetindo um determinado som ou letra. como ocorre com outros poemas do livro. p. Esse poema é um <221> dos que não se prendem. como se pode ver. O calor de Carolina cobre o colo de cal. É uma casa bonita. Carolina corre por entre as colunas da colina. comparando o texto anterior com este outro: < BRAZ 1967.antes das frases. torna corada a menina. 10. de maneira típica. o poema a seguir salienta o uso da letra C com o som de "kê": Colar de Carolina Com seu colar de coral. A casa é de Lalá. Por exemplo.

o autor intui que fazendo textos apenas juntando sílabas geradoras para formar palavras. É óbvio que o autor da cartilha sabe que seu objetivo é apenas ensinar o aluno a usar os conhecimentos já estudados para ler e escrever e. é desastroso apresentar esse tipo de material aos alunos. dizendo que ele não pode escrever desse modo ou simplesmente <222> dando-lhe uma nota baixa. O texto acima é típico das cartilhas modernas: o autor escreve frases soltas. é assim que se faz um texto. para as finalidades da escola. Atividades iguais a essa significam a transmissão de uma . rigorosamente estabelecido e controlado na sua progressão. e juntando palavras para formar frases. justamente quando eles estão querendo saber como a escola lida com a linguagem oral e escrita. ou esse conjunto de frases. até que encontre um professor que chame sua atenção. Como se vê. utilizando-se apenas de palavras já estudadas ou formadas com sílabas geradoras já dominadas. acabará tendo uma "espécie" de texto ao escrever algumas frases. o aluno passa a entender que. Diante desse material apresentado pelas cartilhas e ouvindo o professor propor atividades de escrita com essa história. como o método está organizado de modo hierárquico.A copa tem caco. E assim continuará fazendo.

1950. Como o método obriga o aluno a não sair do esquema e a repetir o modelo. 8. além de se alfabetizar. produzidos dentro do método do bá-bé-bi-bó-bu. 14.concepção errônea do que seja um texto e até mesmo do que seja a linguagem oral e escrita. O boi de Fábio fugiu. ele acaba entendendo que. O boi bebeu e babou. de Vicente Peixoto. (Passamos a numerar os textos para facilitar os comentários. 1950. O boi baba. 3. PEIXOTO.p. 2. > Texto 2 — 4ª Lição 1. Para poder comparar os textos dos alunos com os textos das cartilhas. começaremos apresentando alguns outros textos típicos. > Texto 1 — 1ª Lição 1. O boi bebe e baba. . 4. cartilha de alfabetização rápida.) PEIXOTO. extraídos da cartilha Coração infantil. O boi bebe. precisa produzir textos como os da cartilha e lidar com a linguagem à semelhança dos exercícios a que está habituado a fazer dentro da escola. 2. Fábio foi cedo à cidade.p.

> Texto 5— 14ª Lição da Segunda Parte (última lição) 1. 46.3. PEIXOTO. A rua é de subida. Como cai bem no ombro! 7. > Texto 3 — 1ºª Lição 1. 1950. PEIXOTO. <223> . Que bom alfaiate é o pai de Joel! PEIXOTO. 2. 2. > Texto 4— 4ª Lição da Segunda Parte 1. A blusa de Carlos é de seda. p. O sapo sobe a rua. p. 1950. 5. 3. Fábio fugiu da geada. 4. É a blusa de Carlos. Xerxes estuda dia e noite. 30. 1950. A blusa de Carlos não é de brim. 4. Oh! que bonita blusa! 2. Os exames estão próximos. A geada "caiu" cedo. 3. Romeu ri do sapo. 4. O sapo pula na rua. 6. 70. É de seda branca. p.

uma vez que se falava da blusa e acabou-se tirando uma conclusão a respeito do pai de joel. mesmo que de maneira desconexa (falta de coerência). Por isso explica bem o que estuda. na verdade. mas procurou uma ligação semântica entre elas. apenas frases para treinar os alunos. Esse é um mau exemplo que o livro didático dá ao aluno. 4. 5. Ele fixa a atenção nas lições. escrever frases. percebe-se logo que o autor quis. como no método do bá-bé-bi-bó-bu. o aluno acaba entendendo que se trata de um texto. é interpretada como algo que não faz sentido no texto. No texto 4. Se as frases fossem totalmente desligadas semanticamente. por isso. a frase 7. O autor pressupõe que o aluno esteja a todo instante remetendo suas idéias a tudo o que já foi visto antes. Quando se analisam esses textos. na verdade. Esse conjunto de informações das coisas já vistas é. Aqui. discorrendo sobre um certo tema e. Não adianta alguém dizer que o autor não queria fazer textos. Para quem lê esse texto sem ter lido os anteriores. QUE BOM ALFAIATE E O PAI DE JOEL!. o autor usa uma informação dada anteriormente — de que o pai de Joel é alfaiate — para tirar a conclusão do texto. seria mais inofensivo. No último exame fez provas exatas. e não simplesmente de frases soltas.3. . só se trabalha com coisas já vistas e já dominadas.

lendo esses textos. por exemplo. e se a geada caiu cedo. Esse texto tem. uma vez que a geada não cai. devendo todo significado ser entendido a partir desse quadro semântico e discursivo compartilhado pelo livro e pelos alunos. foge de geada. frase 6. a linguagem é freqüentemente usada de maneira metafórica. É por essa razão que o autor usa aspas na palavra CAIU. mas se forma com a umidade. logicamente. outro problema de lógica: se Fá bio foi cedo à cidade.um contexto lingüístico que cresce à medida que o estudo progride. Entretanto. porque ninguém. sem colocar aspas. como foi possível Fábio fugir da geada? No texto 4. e não lógica (veja. percebe-se logo o mau gosto . logo abaixo. Dentro das preocupações subjacentes do autor. no texto 2. ainda. a expressão "pé de mesa"). Alguns autores têm uma preocupação excessiva em usar a linguagem escrita de maneira lógica. por exemplo. Quem lê o texto sem saber dessas informações. e com referência ao qual tudo é construído. o <224> autor usa o verbo cair na expressão "cai bem". do ponto de vista semântico. fica surpreso com a falta de coerência entre as idéias. ele também deveria colocar entre aspas a expressão FUGIR DA GEADA. como a neve. Por que num caso foi preciso o uso das aspas e no outro não? Finalmente.

e. Texto 6—Alvaro L. idiotas. Os meus dio nadaro debecireta. Compare os textos da cartilha com alguns textos espontâneos produzidos por alunos de primeira série. a chatice com que é tratado qualquer tema. a falta de originalidade. nota-se que escrevem com uma grafia muito idiossincrática (individual). São textos sem graça. Estálio umdia Eu fui nacazada minha Vovó. insípidos e.literário. são no mínimo razoáveis. menos ainda. TEXTOS ESPONTÂNEOS DE CRIANÇAS Quando as crianças se põem a redigir textos espontâneos. os textos têm um certo sabor interessante e. Eu imeoto dio su Bimo eicima da arvore . Apesar disso. quando apresentados por um livro didático ou por um professor. e a falta de imaginação para lidar com as palavras. a respeito da ortografia das palavras. de quem o aluno esperaria coisa bem melhor. apresentados a seguir. E estálio = história. do ponto de vista do valor. até certo ponto. mesmo que não saibam quase nada sobre o funcionamento do sistema da escrita.

O resultado foi surpreendente: embora escrevendo com dificuldade. O coelho resebeu o brite na abelha O coelho é o rerudo O coelho foe no boque O coelho é bonida (c) O cavalo coremotobe O cavalo moreo O cavalo coria O cavalo e tavacofomi <225> Os textos 6 e 7 são de alunos de uma professora que costumava alfabetizar pela cartilha e nunca tinha pedido para seus alunos tentarem escrever uma história.Texto 7—José Roberto (a) Eu fui no cinema Oca chorro mimodeu a celina Eu edeucaeixada no caxorro Eu viu aminina no são (b) O coelho e do juão brite = presente da. o rerudo = orelhudo. as crianças fizeram textos e não frases . ela resolveu experimentar. Depois de uma discussão sobre o assunto.

ele não escrevia de acordo com a ortografia das palavras. Quando a professora começou a passar textos espontâneos. inventando um modo estranho de grafar as palavras. seus alunos não só estavam escrevendo com facilidade. o aluno escrevia páginas. o que veio a ajudar no domínio das formas ortográficas na escrita. daí para a frente. No final do ano. no tempo em que os demais apenas completavam a lição. Em outras palavras. Apesar do esforço da professora. ela não parou mais de trabalhar com textos espontâneos.desconectadas. mas passaram a se interessar muito por leitura. percebeu que o aluno era pior ainda. . Segundo a professora. Quando a professora passava um trabalho de cópia ou de produção de frases (minhas primeiras frases). Esse resultado abriu os olhos da professora para esse tipo de abordagem de ensino e. segundo a expectativa da escola. Texto 8 — Ronaldo Oleão andando comumta presa derepete eli caiu numa almadilia e pasou dois coelio naalmadilia e falaro asin nãovamo s sauva o leao pogue sinos sauvavoce. ele não dominava o que era ensinado. coando voce tivé a aiinsima voce vai comenois O texto 8 é de um aluno que tinha sido reprovado duas vezes na 1ª série. ele confundia todas as coisas. não fazendo direito as lições da cartilha.

ou seja. Era preciso tomar consciência de que todas as palavras têm apenas uma forma de escrita. Ortografia não era questão de sorte. como uma loteria. Ele queria <226> escrever com liberdade e não entendia por que nunca dava certo.embora escrevesse histórias interessantes. e que essa forma deve ser usada por todos. Seguindo a cartilha. a causa de sua reprovação na 1ª série (numa época antes do GB) era o fato de ele não saber como lidar com a ortografia. nem podia ser obtida com a simples observação da fala para escrever. este aluno não seguia as regras da cartilha de fazer somente o já dominado. a professora supunha que o aluno tinha um caminho seguro para escrever corretamente as palavras. Quem não souber ou tiver dúvidas precisa perguntar a quem sabe ou olhar no dicionário. Foi aí que a professora percebeu que o problema do aluno. Texto 9— Elizângela Era uma vez uma bela adormecida tava ormindo na calçada é o . professora e aluno puderam perceber claramente que era preciso ensinar como lidar com a ortografia. Com a produção dos textos espontâneos. Todavia. que a ortografia não vinha automaticamente com as lições já dominadas da cartilha. seguindo o modelo.

princepe chegou e deu um beijo na boca e ela acordou. (d) Era uma vez minha professora tia é boa e ela chega atrasada e a jente escomde im baixo da cartera e o menino fala que a gente não feio Texto 11 — Edilson Era num dia Lulú esta bricano comdo 2 minino desconensido aparesero (desenho) chamaro o Lulú e levou o Lulú para longe. a macaca escutou e foi la na onde ele caiu e falou: meu querido voce esta vendo voce voi fica de molho na basia até tirar estê fedo teu (b) O menino que chama carlos ele estava na rua ele tava bricando de bola ai apareu a menina que ele queria (c) Era uma vez a galinha estava na Rua e falou para o galo oi qui vida margurada o galo falou é memo eu já to velho e voce ta nova. esta noiva. <227> Ai condo deu um dia Eles alsaltaro banco deu no radio mamãe e papai (desenho) ficarão sabeno que Lulú estava preso . Lulú des confiou que Ele érão trãobadinha aí Lulú dis cubriu que estava virano trãobadinha. Texto 10— Gislaine (a) Era uma vez um macaco caiu no lago e gritou para a macaca socorro macaca meu amor.

Eu gosto de niais Dedeus e domeu Papai e da minha mãe e doquisto e da nosasinhora e de santo daminhavída mamai e de mais comer coiza de mais Ede a leguia dema daconta.mamãe e papai ficarão triste. Epa a policea vemvino. O texto 10 é também de uma aluna repetente. duca o trãobadinha vemos elboraduca o chefe falou vemos afalta um banco vemos foram alsantar Entrarão no banco pegemo grana e ia saino na porte e a bulicia parou e viu a grana E predemo o duca e Lulú e dodu. Enquanto os colegas . Texto 12— Dirceu L. ai Ela falou tiabo Otro dia Ela falou inferno Ela ficou falano espalavão ai Ela encrotou uma valinha na arvores e Ela falou purque aciora está xorrado vocé não xamou o capeta e inferno e tiabo fim O texto 9 enquadra-se no mesmo caso dos textos 6 e 7. Condo eu fico alegui eu fico alegui tamen demais daconta Texto 13— Zilda Estória Um dia uma mulher falava capeta.

ao invés de BONITA escreve "baoneta". Assim. ela fez quatro. em vez de dizer .fizeram apenas um texto. numa tentativa de compor frases soltas. Comete erros causados pelo não-domínio de certas palavras que viu na lição da cartilha e que ainda não conseguiu fixar. A aluna escreve sobre a casa e a macaca ao estilo dos textos das cartilhas. GOSTA DE NADAR fica "gota de nada". Além disso. PINTA E LIMPA são escritos sem a nasal: "pita" e "lipa". Texto 14 — Regiane texto espontâeo A casa é da macaca A macaca é a tata. Ao solicitar que a aluna fizesse um texto espontâneo. Os textos de 11 a 13 pertencem ao mesmo caso dos textos 6 e 7. <228> A macaca é baoneta A macaca pita a casa A macaca gota de nada A macaca gota da casa A macaca upa a casa Uma forte influência das cartilhas aparece no texto 14. o resultado foi um amontoado de palavras.

Os outros alunos. Como se vê. mesmo com todo o esforço das cartilhas. escreve. observando a fala. O menino é de bagunsa drento da casa A menina e de rua. produzir textos com esse método nem sequer ajuda a não errar a grafia das palavras. então. produto do método do bá-bé-bi-bó-bu. sendo apenas um jogo de palavras. .que A MACACA SE CHAMA TATA. qualquer forma de escrita. A dona da casa e o pai e a mãe. a seu modo: "A macaca é a tata". (?) Amanha é dia pascua. Pior de tudo é a estrutura do texto. arriscando. Mas o texto 14 é algo que uma criança jamais diria para outra. Basta o aluno ter alguma dúvida ortográfica para perceber que não sabe como resolver a sua dúvida. do professor e do aluno. pelo menos tentaram passar para a escrita um texto que qualquer falante nativo poderia dizer normalmente. mas o esforço para descobrir como se escrevem as palavras apenas pensando. Texto 15— Samuel (a) A cachorra é o dono da casa. O giigante gebrevu daliom. essa aluna tem grandes chances de errar. Como seu referencial não é a busca da forma ortográfica através da consulta.

. Era uma vez uma titia que ia vazer anivesario Ninguem lebrou que hoje ia ser o anivesario da titia. logo apos que Eu chegar do cerviso meu filho. fim Altor Samuel J. O pelo da duensa nas criansas. — É como Eu vou sair de casa sem minha mae assim eles viveram feliz para sempre. Então Ela foi para o médico Chegando no medico a dor passou e foi para casa. M.Vôvo foi na cidade compra um gato A menina que um cachorro de pele. O dia comeu nublado. Mas a titia não estava legal por que estava com dor [ de dente. O bone e da menina. <229> (b) O chapeu. O feio e o leão (?) A menina e a jogadora. Era uma vez um chapeu que nao pode sair de casa [porque Ele que chamar casa que Eu não poso brincar de pegapega — É bom isso e brincadeira de criansa. (c) O aniversario.

Texto 16— Graziela P S. A visinha fez o bolo e a titia ficou muito contente. quando ela acordou ela foi chamar sua amiga pa ra fazer o bolo. A titia chamou a sua visinha para fazer o bolo. E a titia foi chamar suas amigas e sua sobrinha chegou e todos cantaram parabens. Chegando aõ medico a dor passou e foi para sua casa e falou: — "Acho que vou dormir!" E dormiu. Então ela foi ate o medico. Mas a titia não estava legal por que ela estava com dor de dente. Uma menina estava chorando a mulher maravilha falou: . Ninguem lembrou que era o aniversario da titia. Um dia a mulher maravilha foi ver se tinha algum [vigiante. quando a titia ia chamar suas visinhas a subrinha veio e cantaram parabens.E disse: — Eu acho que vou dormir? e Ela dormiu. a amiga fez o bolo e a titia ficou muito contem te. FIM (d) Reelaborasão da Estoria O aniversario Era uma vez uma titia que ia fazer aniversario.

<230> porque você está chorando? porque um ladrão pegou o meu cachorro. Apesar das dificuldades ortográficas. Vou aproveitar que ele saiu. Como ele se chama Buberman eu prometo que eu vou encontralo. chegando ao ponto de fazer autocorreção ou reelaboração de um de seus textos (texto d). O esconderijo é ali. sabe que as dificuldades vão ser resolvidas na atividade de reelaboração. Ali está o cachorro. d) demonstra dificuldade inicial para acertar a ortografia. e. Os textos 15 e 16 são de alunos que foram alfabetizados sem a cartilha e sem o bá-bé-bi-bó-bu. Bom já estou chegando pronto menina o seu cachorro obrigada Mulher maravilha ali está ele tenho um prano. o texto que produz. Por outro lado. o que lhe dá tranqüilidade para passar da oralidade para a escrita. de maneira integral. O primeiro aluno (texto 15 — a. Agora vou lassar meu laço mágico proto já peguei. no segundo semestre. nota-se claramente que o aluno já tem uma preocupação séria com a ortografia e busca acertar. mas aos poucos foi aprendendo. Convém ainda notar que os textos de alunos que são alfabetizados dessa maneira são mais ricos . b.

sem medo. os alunos vão aprendendo a distinguir o estilo falado do estilo escrito. interessam-se muito pela leitura.em detalhes. geralmente mais longos. <231> Eles observam nos livros que às vezes apare cem construções sintáticas ou certas palavras que eles não ouvem nas conversas do dia-a-dia. É por isso que um aluno acaba . como uma forma sofisticada de uso da linguagem. nesse caso. Tem consciência de que deve resolver todas as suas dúvidas ortográficas e não ficar simplesmente tentando acertar. escreve qualquer história. Ele sabe como buscar a informação correta em caso de dúvida. O texto 16 mostra como um aluno pode escrever certo (ou quase tudo certo). justamente por essas razões. qualquer palavra que deseja. o aluno passa a escrever com naturalidade. já estudado. porque não tem de se preocupar com o já dominado. Em pouco tempo e beneficiado pela leitura assídua. mas que aparecem na escrita. com precisão mesmo com relação à ortografia das palavras. Note que o aluno. Quando os alunos aprendem a ler primeiro e a escrever como uma decorrência disso. sem precisar passar pelo processo de aprendizagem das cartilhas. mais semelhantes à espontaneidade com que os falantes dizem o que querem dizer e. Esse interesse ajuda enormemente a resolver os problemas de escrita. Além disso.

Reinaldo C. Extraído de Relatos de Experiências . A elisão do sujeito da oração é outra característica do estilo de textos escritos. O menino assistiu um belo filme. O bandido roubou o banco". ao ler. exceto o último "eu". Na fala. um elemento semântico que precisa ser realçado. Já aparecem frases como VOU APROVEITAR QUE ELE SAIU. que num enunciado como COMO ELE SE CHAMA BUBERMAN EU PROMETO QUE EU VOU ENCONTRALO. Outra coisa que se nota no texto 16 é o fato de a aluna não ficar repetindo o mesmo tipo de frase nem certas palavras. que a aluna já percebeu. prosodicamente marcam a sílaba tônica saliente do grupo tonal e sinalizam um foco. Texto 17. É preciso dizer. mais do que orais.transportando para seus textos expressões como "eu vou encontra-lo". O mocinho matou o bandido. a saber: "O menino foi no cinema. JÁ PEGUEI. Os pronomes ELE e EU. como também se vê no mesmo texto). vide texto 16 (repare que essa aluna é daquelas que falam "prano" em vez de "plano". BOM. O filme era de mocinho. AGORA VOU LASSAR. os outros pronomes sujeitos são usados para dar uma ênfase exigida pelo contexto semântico do texto. ainda. e está tentando empregar na redação. TENHO UM PRANO. JÁ ESTOU CHEGANDO. nesses casos. raramente usamos um mesmo esquema de frase repetidas vezes. isto é.

II Concurso. Professora Aurea de Godoi. p. mas certos tipos de erros. às vezes.E. Responder: O que é melhor. Como se pode observar. Extraído de Relatos de Experiências Premiados 1989. MEC. 32. 45. a samanta e o escube quando eu venho pra escola meu cachorro está souto ele vem comigo ele fica olhando pra ela ela olha pra ele não sei quiqui vai dar isso Texto 18 — Wagner S.premiados 1989. O adulto não tem paciência comigo porque eu sou arteiro e maligno. indicando um tema para que cada aluno escreva o que quiser a respeito. p. ser criança ou ser adulto?) Eu não gosto de ser criança porque a criança não trabalha para ajudar em casa mas posso estudar na escola E. não é a quantidade de erros que as crianças cometem. O que choca. II Concurso. MEC. como . as dificuldades ortográficas dos alunos são muito menores do que alguns professores imaginam. Fim <232> Os textos 17 e 18 são exemplos de como uma professora trabalha com seus alunos a produção de textos espontâneos. S.PG.

os alfabetizandos são peritos em descobrir essas coisas. no texto 17: NAO SEI QUIQUI VAI DAR ISSO: onde foi que o aluno descobriu uma palavra como QUIQUI em português? Essa é uma das tantas "palavras" que se diz na linguagem oral de um jeito. organizando um levantamento de casos semelhantes e explicando por que isso ocorre. por exemplo. mas têm de escrever EU NÃO FUI. 108-9. em detalhe. Quando escrevem textos espontâneos. Veja. As pessoas falam "eu num fui". EU SINTO EM MIM. etc. Um professor esperto aproveita a oportunidade e faz uma discussão com seus alunos. mais adiante. II Concurso. Cartas escritas pelas crianças na atividade de correio. "eu sinto ni mim".analisaremos. p. Texto 19 (a) VOCE E O MEU MELHOR AMIGO MUITO OBRIGADO . extraídas de Relatos de Experiências Premiados 1989. mas que se escreve de outro. Há muitas outras palavras com as quais acontece a mesma coisa. MEC.

POR ISSO AMIGÃO (b)OI AMIGUINHO ATÉ QUE VOSE É BONITINHO QUÉ UM BEIJO (c) oi marila eu ciria coece a sua caza FIM Os textos a. c do número 19 são cartas escritas por crianças da pré-escola. perguntam ou mesmo tentam escrever por si para ver o que . que estão começando a aprender a ler e a escrever. b. <233> procurando descobrir como escrever o que querem: olham. As crianças se saem bastante bem.

não me solte mais! Texto 21 — Marina E E (2ª série) "A BORBOLETA" . (2ª série) "Balão" Eu sou um balão. como o aluno escreveu QUERIA (ciria) e CONHECER (coece). é usar as letras QU. levando-se em conta o contexto de escrita. Agora. ocorrem mais erros de ortografia propriamente ditos. COECE é uma excelente transcrição fonética. Ele ainda não aprendeu que a letra C diante de I e de E tem o som de "çê" e nunca de "kê".resulta. se eu cair. Veja no texto 19c. E vim dizer para você: Eu fui feito pra subir pelo céu e me perder. Por outro lado. Para se obter o som de "kê". Muitas pessoas ainda me soltam Isso me entristece tanto! Vou pedir um favor: por favor. Um balão de São João. Texto 20— Fábio E G. Note que os erros ortográficos que ocorrem nessa fase São diferentes dos que ocorrem em fases mais adiantadas. Mais para a frente. veja o que faço: Incêndios provocar e pessoas machucar. sem a marca da nasalidade. neste caso. freqüentemente ocorrem erros que demonstram um desconhecimento do uso das letras nas suas relações com a fala. Nesse primeiro momento. a única saída.

<234> Só que ela comeu muita comida e não pode sair. Então ela pôde falar — bom dia! Mas ela ficou pensando: — Cada trabalho difícil que elas têm! Só que estava na hora de comer. se eu fosse você eu não conseguiria fazer tudo isso. sobretudo. Note como os textos amadureceram.Já está de manhã. Só que elas estão andando e a borboleta estava voando. Então ela foi para casa e comeu. E o galo diz có-có-ri-có! E a borboleta se levanta e sai para passear Lá no meio do caminho ela encontra a abelha e diz: — Dona abelha. Os textos 20 e 21 são da 2ª série. jamais . os alunos passaram a produzir textos com certo estilo literário. E lá mais adiante ela encontrou as formigas. Então ela ficou na cama. de uma classe que trabalha muito com textos espontâneos. Não só sumiram quase todos os erros de ortografia como. Se esses alunos continuarem a produzir textos espontâneos nas demais séries e se continuarem lendo assiduamente. desde a 1ª série.

que. Quando o patrão perde alquoma cousa elle fica hai até que não vem buscar elle não sahi dahi (b) Descrição — A colheita de café Aproxima-se o mez de maio.terão problemas de redação. Podem se ver diante de qualquer desafio de escrita. Quando o patrão bate nele elle sai e depois vem outra vez perto do patrão. Texto 22 —Jurandyr V (a) Descrição do cão O cão e um animal inteligente O cão sempre persegue o patrão quando ve alguem homem que não é da casa ele começa a latir Quando e noite que tudo estão dormindo ele esta guardando a casa. resolverão muito bem todos os seus problemas de redação pelo resto da vida. Todos estão se preparão para a colheita de cafe Arruumando todo os objectos nessesarios para apanha e depois de colher O cafe esta pronto para . certamente.

Naquela época. tem de fazer um texto do tipo padrão. O aluno não produz um texto espontâneo. No texto b. que segue um modelo.se lavar no tanque. o professor achou . agora. Começou com palavras. Escreve sem segmentar OUTRAVEZ. Vê-se que o aluno tinha algumas dificuldades. mas induzido pelo método de ensino usado na escola e nos livros didáticos. distinguindo-a do "q". sua nota foi maior. apesar de ter cometido mais erros de ortografia (e mais graves). O texto tenta reproduzir aquelas histórias de cunho moral típicas dos livros didáticos da época. <235> Os textos 22a e b são de um aluno da 4ª série de 1937. acrescenta um "o" (sem corrigir) ao escrever ALQUOMA. ou seja. Além disso. Certamente. ensinado pelo professor. a ortografia adotada pela escola era diferente. O uso dos sinais de pontuação é praticamente ignorado. como traçar corretamente a letra "g". Escreve TUDO em lugar de TODOS. escreve textos seguindo o modelo. Depois de lavado vae para enxugar se no terreiro Se over broca antes de ir para o tanque vae para a estufa depois para matar os bixinhos vae ao benficio Quando esta limpo tora-o bem e com o pó obtem-se uma bebida deliciosa.

mas falou de seus hábitos. OVER. Ambos mostram que o estilo da linguagem escrita é tido como modelo e ideal. como produzem textos mais interessantes.. ainda. ou seja ARRUMANDO. ou seja.que o aluno. Há de se notar. é constatar que o professor dava menos importância à ortografia. HOUVER. . TORA O. na verdade. a construção: QUANDO ESTÁ LIMPO TORA-O BEM. percebemos que os alunos da 2ª série não só lidam melhor com a ortografia. ocorrem os seguintes erros de ortografia: PREPARÃO. do ponto de vista literário. TODO. nos quais a marca da individualidade era de certo modo negada. PREPARANDO. no texto a. Como se vê. as coisas não eram bem assim. Ao comparar esses textos da 4ª série (de 1937) com os da 2ª série (de 1989). No texto b. ou seja. etc. ou seja. NESSESARIOS. não descreveu exatamente o cão. havia aluno escrevendo OVER (HOUVER BIXINHOS (BICHINHOS). TODOS. TORRA-O. pois a maioria estudava até a 2ª série. ou seja. BIXINHOS. APANHA. NECESSÁRIOS. Muitas pessoas costumam dizer que antigamente OS alunos aprendiam melhor. O que interessa. Na 4ª série. ou seja. APANHAR.. BICHINHOS. Já no texto b. ele achou que a descrição era melhor. Convém lembrar que um aluno que chegava à 4ª série em 1937 era um privilegiado em termos de chance de estudo. ou seja. fazendo textos menos criativos. mas antigamente os alunos estavam muito mais presos a modelos. ARRUUMANDO. ou seja.

reproduzindo o modelo do já dominado. Não só mudaram as cartilhas como mudou também a atitude dos professores ao longo dos anos. o professor daquela época valorizava mais <236> o esforço do aluno em obter um texto mais bem redigido do que sem erros de grafia. Essa crença relaciona-se a uma outra (mais equivocada ainda). segundo a qual o aluno só deve visualizar o que é certo. O que está errado deve ser evitado. Por essas razões. Hoje.Apesar de seguir a cartilha (era uma cartilha diferente das atuais). A meta a ser atingida era outra. Consideram que tudo deve ser feito sob seu absoluto controle. para que o aluno aprenda em ordem. indo do mais fácil para o mais difícil. as notas das duas redações de 1937 estariam invertidas para esses professores de hoje. muitos professores só sabem avaliar em função dos erros de grafia. tem-se notado que eles ficam muito chocados com os erros de ortografia. para que o aluno não fixe o erro e depois não consiga mais se livrar dele. Se ocorrer. A escola tornou-se muito mais rígida e até mesmo intransigente com relação à ortografia. Certamente. . deve ser eliminado o mais rápido possível. QUESTÕES PERTURBADORAS Ao discutir a produção de textos espontâneos com professores que usam o método do bá-bé-bi-bó-bu.

depois que o aluno aprendeu a ler e a escrever com perfeição. Para eles. ao passo que os alunos que produzem textos espontâneos. mas. principalmente no início da alfabetização. inclusive para impedir que as crianças façam textos espontâneos. através de exemplos. escrever segundo o modelo das cartilhas e o que representa escrever produzindo textos espontâneos. especialmente para comparar o que significa. <237> Uma outra questão. é até aceitável que um aluno escreva CASA com Z . mas o tipo de erro cometido. são claramente reveladores. como esse tipo de argumentação é freqüente. Porém. irão saber como resolver suas dificuldades pelo resto da vida. com o tempo. Os resultados imediatos são mascarados pela metodologia. é bom lembrar aqui. mostrando que o aluno que nunca fez textos espontâneos irá encontrar dificuldades enormes (e muitas vezes insuperáveis) nas séries mais adiantadas. não é tanto o erro ortográfico (eles acham até natural que os alunos errem de vez em quando).esses professores acham que não devem deixar seus alunos escreverem errado. o que é comum. Os efeitos nefastos dessa atitude já foram comentados anteriormente e não é preciso voltar a falar do mesmo assunto. que perturba demais certos professores. desde a primeira série. Produção de textos livres será feita como última atividade.

consideram o certo e o errado .. destruindo coisas que o aluno faz (o errado).. que também terá seus momentos de revisão e de reorganização dos conhecimentos que o aluno possui. A JENTE ESCOMDE IM BAIXO DA CARTERA (A GENTE SE ESCONDE EMBAIXO DA CARTEIRA — texto 10 d).). Por outro lado. aumento. que leva o professor a julgar seus alunos apenas pelos erros que cometem. porque essas dificuldades não têm solução (segundo eles. e nunca pelos acertos. e não a incentivá-lo a superar suas dificuldades. EU CIRIA COECE A SUA CAZA (EU QUE RIA CONHECER A SUA CASA texto 19 c). Alguns professores se esquivam desse tipo de argumento. NAALMADILIA (NA ARMADILHA — texto 8). não aceitam que um aluno escreva COMUMTA (COM MUITA — texto 8).(CAZA). derrubando. etc. apoiando-se naquilo que já aprendeu. progresso. EDE A LEGUIA DEMA DACONTA (E DE ALEGRIA DEMAIS DA CONTA — texto 12). ou LIXO com CH (LICHO). ALSANTAR (ASSALTAR texto 11). É a avaliação punitiva. Parece que o processo escolar tornou-se algo que vai cortando. e não um processo de construção. dizendo que são justos. JULGAR PELOS ERROS E PELOS ACERTOS Essas concepções estão ligadas a uma outra. É a correção que visa a amedrontar o aluno diante do erro e da ignorância.

acertou muito menos do que os 70% esperados. acham por exemplo. Jamais chegam a fazer os cálculos realmente. sendo essa mais uma razão para a reprovação. ou seja. Vamos analisar com mais cuidado o texto número 8 e ver nos seus detalhes. já que <238> não aprendeu o mínimo necessário. porque a maioria das palavras são muito fáceis (ou seja. pergunta-se a esses professores se aprovariam um aluno como o Ronaldo (texto 8). o que ele representa em termos de erros e acertos.objetivamente. foi bem na escola e merece ser aprovado. porém. precisando. Até hoje não encontrei nenhum professor que aceitasse apenas 50%: eles acham que 50% é muito pouco.. porque o aluno não tem condições. Em resumo. eles dizem que não. que um aluno que acertou 70% das palavras ou das dificuldades ortográficas (o que é isso?). E acabam simplesmente guiando-se pela qualidade do erro: se o erro ortográfico é chocante.). Quando. mas numa certa desconfiança imprecisa. Então pergunto dos 70% de acertos e eles acham que o aluno errou muito mais. pertencem ao conjunto de palavras especiais já dominadas!?. ser reprovado. o aluno tem índice baixo de acerto. .. Esses professores têm uma noção de cálculo estatístico baseada não em números reais. portanto.

em primeiro lugar. Portanto. n. o aluno acertou 17 ocorrências de letras e errou apenas 2. Por exemplo. e errou: m (falta em COM.93 . d. c. o (2). Procedendo assim. t.07 21. o aluno acertou as letras 0. o m (de MUMTA. m.Contaremos. na primeira linha: O LEÃO ANDANDO COMUMTA. na primeira linha. d. u. a. que ele escreveu CO) (I). na verdade um "i": MUITA) (I). a.1. a (4). ã. o (5). e. o (7). n. temos o seguinte resultado: Acertos erros Linha 1 17 2 linha 2 19 5 linha 3 17 3 linha 4 19 3 linha 5 17 4 linha 6 13 5 linha 7 12 5 linha 8 12 7 linha 9 12 6 linha 10 7 4 total: 146 41 187 letras Porcentagem (%) 78. os erros de ortografia considerando uma letra errada ou uma letra a mais ou a menos.

coando = voce = tive = 3 — 9. um professor que tivesse como critério de . numa = almadilia = e = pasou = 4 — 4. dois = coelio = na/almadilia = 3 1 5. assinalando com uma barra inclinada — / — o lugar onde ocorreu erro de segmentação e com o sinal de igual. e = falaro = asm = não/vamo 3 1 6. Vamos transcrever o texto. presa = de/repete = eli = caiu =4 1 3. a/ai/in/sima voce = vai 3 3 10 come/nois 1 1 Total 31 11 42 Porcentagem (%) 7380 2620 100 Como se vê. o lugar onde o aluno acertou: <239> Testos acertos erros 1 O/leão = andando co/mumta =3 2 2.100 Outro item que poderia ser investigado é a segmentação correta das palavras. s=sauva=o=leao=pogue = 5 — 7. si/nos = sauva/você = 2 2 8.

que muita coisa já foi aprendida. mas. que escreve tudo errado. Essa constatação é um bom argumento para convencer . por outro lado. A produção de textos espontâneos pelos alunos. apresenta resultados aparentemente caóticos e estranhos. não tem condições mínimas de ir adiante. Se o professor fizesse um cálculo estatístico real. desde o início da prática de escrita. apresenta muitos problemas. comparado com outros. constata-se que. Porém. analisados com mais cuidado. e o que falta precisa ser dado através de atividades específicas.aprovação pelo menos 70% de ocorrências certas de letras e segmentação. o preconceito contra certos erros de ortografia. não percebendo que para o aluno alfabetizando as dificuldades ortográficas residem praticamente em cada letra das palavras. A análise feita acima atesta que alguns professores usam uma forma desonesta de fazer a avaliação do aluno. o que significa. a cada segmentação que faz ou deixa de fazer. que os outros textos têm um índice muito mais alto de acertos. ambos poderiam ver. que ele. considera gravíssimos. professor. e que. Mostra. são muito mais certos do que errados. deveria aprovar Ronaldo. no fundo. quando os professores vêem somente o texto. ainda. conseqüentemente. O texto 8. acham que o aluno não aprendeu quase nada. dizendo as regras de um jeito e agindo de outro. pelo lado positivo.

Nisso. a humanidade sabe que o homem é um animal especial. O homem não pode se ver livre da racionalidade. mesmo quando comete barbaridades. simplesmente deixaria de ser homem. Nem toda . em outras palavras. O homem é escravo de sua racionalidade. dotado de uma faculdade chamada racionalidade. <240> 10 AS hipóteses por trás dos erros O HOMEM É UM ANIMAL RACIONAL Uma criança usa sua capacidade de refletir sobre tudo o que faz. como uso da faculdade da racionalidade. fruto de uma reflexão. Tudo o que o ser humano faz é movido por um ato de reflexão qualquer. o homem é um animal racional. em nenhum momento. sem que isso seja o resultado de uma decisão.qualquer professor de que vale a pena incentivar os alunos a produzirem textos espontâneos. É por essa razão que todo ser humano tem suas ações comandadas pela racionalidade. não há nenhuma novidade. sob nenhum pretexto. sempre e em todas as circunstâncias. caso contrário. ou ainda ficar sem fazer nada. Nenhuma criança é capaz de fazer o menor gesto ou tomar a menor iniciativa. Desde os mais antigos filósofos.

pode agir sob influência de fatores externos. um instinto. A diferença entre o animal e o homem é justamente o fato de o animal nunca poder tomar uma decisão refletida. Os próprios animais fazem muitas das coisas que fazemos. Quando andamos. etc. por exemplo. Esse conhecimento sobre a vida é considerado. A participação da reflexão na vida das pessoas torna-se bastante evidente quando alguém se propõe a fazer algo diferente do habitual. nos animais. uma alfinetada num músculo pode fazêlo contrair-se automaticamente. logo perceberia que precisaria tornar consciente e constante a decisão de agir dessa maneira. Se em vez de andar alternando os pés. pelas suas características físicas. não andaríamos. É evidente que a estrutura de nosso corpo. A reflexão e a decisão sobre como andar. caso contrário. usando sua estratégia de ataque ou defesa. mas o andar requer uma tomada de decisão. a força da gravidade pode derrubar um corpo em desequilíbrio. mal sabemos como fazemos isso. alguém resolvesse andar dando um passo e um salto. que antes eram inconscientes.reflexão é consciente ou ponderada em todos os seus aspectos. precisaria acompanhar essa prática pensando a cada instante como realiza-la. . mesmo que ele tome uma decisão mais inteligente entre algumas alternativas. por exemplo. passam a ser conscientes para que a pessoa seja capaz de realizar corretamente o que quer. ou seja.

como fruto de uma necessidade essencial.<242> A interação dele com o mundo criou formas biológicas de agir mas não de refletir. uma pessoa interessada em interpretar a realidade e o imaginário. Ler o mundo é a sina de todos nós na vida e não há como escapar. da vida e do mundo. Isso significa que toda criança também é um explorador do mundo. Além disso. ou linguagem e pensamento. Ao interpretar a realidade. A CRIANÇA E A RACIONALIDADE Uma criança é um ser humano. são duas maneiras diferentes de falar da mesma realidade. São dois lados da mesma folha de papel: não se pode ter um lado. e isso já é refletir. já percorreu um longo caminho de exploração do homem. a criança (o homem) processa seu pensamento e tira suas conclusões sobre ela. sem ter o outro. senão não seria gente. Isso acontece em todos os níveis e em todas as circunstâncias. Por isso. um animal racional. para muitos filósofos. É por essa razão que. A reflexão só é possível com a presença da linguagem e viceversa. portanto. No homem o "instinto" é criado através de uma interpretação da interação com o mundo. linguagem e racionalidade. a criança pode refletir sobre sua reflexão e interpretar a realidade sob diferentes . quando uma criança entra para a escola. através da linguagem e da cultura.

a escrita. acumulando uma bagagem de pensamento. Esse . as formas de comunicação verbal e não-verbal e muito mais. Nessa aventura humana pela vida. é inata. uma pessoa adquire apenas a forma material da linguagem de outras pessoas que são falantes dentro de uma sociedade. os usos da linguagem. ou aprende qualquer variedade de qualquer outra língua. aprende chinês de um jeito ou de outro.5 a 3 anos). a leitura. é fácil concluir que as crianças não adquirem a capacidade de linguagem através da simples interação com pessoas falantes. a fala. em outras palavras. <243> que é a marca de sua personalidade. Durante vários anos — em geral 7 —. Por essas razões. vive interpretando a realidade. Através da interação social. toda criança que entra para a escola já pensou sobre várias questões e já acumulou informações em sua mente. Portanto. ou a faculdade da linguagem. ela já teve inúmeras oportunidades para interpretar o que seja a linguagem humana.perspectivas. Nesse âmbito. aprende a falar português deste jeito ou daquele. a gramática da língua. Já vimos antes que uma criança aprende a falar a língua do adulto numa idade muito tenra (de 1. porque a linguagem — entendida como racionalidade — é sua própria essência — sua diferença específica. alguns filósofos e lingüistas chegaram à conclusão de que a essência da linguagem. diria Aristóteles.

as novidades tornam-se cada vez mais raras. por outro lado. elas precisam descobrir o que a escola. os livros didáticos ou os professores transmitem. alunos e escola não entrarão num acordo. é fundamental que o professor saiba o que pensam seus alunos a respeito da leitura. a escola. em todas as séries. razão pela qual se começa a buscar sutilezas. mas em todos os dias. assim.acúmulo de informações é o referencial de que se serve para proceder a novas interpretações e construir. Nem sempre as crianças têm as mesmas idéias que a escola. caso contrário. Para ensinar. novos conhecimentos. Nessa bagagem. os livros didáticos e os professores precisam saber o que pensam os alunos. Nada é totalmente estranho para uma criança: sempre há algo de conhecido. É por essa razão que as ciências. por exemplo. os livros didáticos e os professores pensam. E isso deve acontecer não apenas no primeiro dia de aula. da escrita e da fala. . se desenvolvem. Ao longo da vida. há muitas idéias a respeito de fatos que serão tratados na escola. Conhecer a realidade da criança no processo educativo escolar significa entre outras coisas reconhecer que toda criança entra para a escola com uma bagagem intelectual que ajuntou ao longo de sua vida. CONHECER OS ALUNOS Na alfabetização. Para aprender.

e. essa deverá ser uma preocupação decorrente da atividade de avaliação por parte do professor. Como não é o caso de discutir aqui todos esses tópicos em . sobretudo. estão <244> sobretudo as idéias corretas a respeito da realidade. 2) do professor. 4) da sociedade e da cultura. da escrita e da fala em seus mais varia dos aspectos. das noções de certo e errado. 5) da ciência. da leitura. da ilusão. Seria útil que o professor fizesse um levantamento das interpretações mais comuns que os alunos novos e velhos têm a respeito: 1) da escola. do aprender. do ensino. da fé. de tudo o que o aluno faz ou deixa de fazer. A experiência tem mostrado que há algumas formas de interpretação recorrentes no processo de alfabetização. da vida e do mundo. nessa lista. 3) da realidade: do homem. da superstição. Há muitas idéias em comum e. da avaliação. 6) da linguagem e. em suma. do real e do imaginário. As idéias estranhas. de suas idéias e atitudes. em particular. da vida escolar. Ao longo do ano escolar. da promoção. erradas e incompletas também podem ser agrupadas em categorias e refletem características de grupos específicos de crianças.Essa é uma preocupação dos primeiros dias de aula. de tal modo que. na prática. ocasião em que o professor irá conversar com seus alunos. a tarefa do professor é muito mais simples do que poderia parecer na teoria.

a análise dos erros conduz logo a uma explicação clara e correta. <245> . Tudo o que um aluno faz ou deixa de fazer tem uma razão de ser para ele.PATTO. Porém. Em resumo. prossegue-se com o estudo minucioso das questões relativas à linguagem. escrita e leitura. há a possibilidade de explicações alternativas. não existe nada para o qual não seja sequer possível levantar uma hipótese de interpretação. há dificuldades mais ou menos sérias em saber exatamente as razões pelas quais um aluno fez tal coisa e não outra. que serão mencionadas oportunamente. 1997. Pesquisar o que os alunos pensam e as hipóteses que . as causas mais evidentes serão as escolhidas. trata-se de hipóteses das crianças a respeito de fatos da fala. comentários sobre o que pensam as crianças quando cometem certos erros. principalmente de leitura e escrita.detalhe. EXPLICAÇÕES PARA OS ERROS Freqüentemente. Outras vezes. e o professor precisa descobri-la para poder ensinar adequadamente. Nesses casos. isto é. Por outro lado. Apresenta-se a seguir uma série de fatos que demonstram formas de interpretar a realidade comuns a crianças antes e no início de se submeterem ao processo de alfabetização. Uma explicação não exclui a possibilidade de outras.

Todo erro de português suscita uma explicação gramatical (no sentido mais amplo). mas toda a vida da pessoa. apenas isso. caso contrário. preguiçoso. a razão do erro do aluno. como aquelas que sugeriram o período preparatório. São coisas diferentes. Erro de ortografia relaciona-se com as hipóteses que o aluno levanta sobre a escrita. e há alunos bem-comportados que apresentam sérias dificuldades de aprendizagem e vice-versa. Também dizer que o aluno é burro.levantam ao estudar requer um conhecimento profundo e especializado do assunto sob investigação. Nem sempre um comportamento errado está associado a uma interpretação errada da realidade. emocional). é enganar ao aluno e a si. quando de fato ocorrem. relaxado. baseadas numa noção errônea de "prontidão" no método das cartilhas. de fato. como problema neurológico ou como uma doença psicológica é fugir das verdadeiras causas. Todo erro de matemática pressupõe uma explicação matemática. incapaz. não esclarece. acabam aparecendo interpretações equivocadas. como distúrbios da fala. Os erros escolares são sempre muito . por exemplo. como problema emocional do aluno ou de sua família. Há alunos relaxados que acompanham muito bem o progresso escolar. lento. Interpretar erros de ortografia. afetam não apenas a resolução de problemas de matemática ou de ortografia. Problemas de outra natureza (físico. etc.

escrevendo 40. 800. O aluno chegou ao resultado certo. 1 440. 1 200 . dá o total de 13 440. 840.localizados e circunstanciais. e não em outros (ocasiões em que o aluno acerta). Um bom professor procura descobrir que raciocínio levou o aluno a escrever aqueles números estranhos e depois colocar o resultado certo. um aluno pode multiplicar 420 por 32. que por sua vez. Sem dúvida alguma. que é a resposta. 40 + 800. acrescentando um zero ao resultado). Por exemplo. Hipóteses estranhas (não esperadas pelo professor) ocorrem não só quando os alunos erram (sempre). mas também quando eles acertam (às vezes). seguindo um caminho diferente daquele que o professor ensinou para fazer as contas de multiplicação. são facilmente identificados e podem ser corretamente interpretados por um bom especialista. que somado aos 840 anteriores dá 1 440. somado ao resultado anterior (1 440). Será que ele colou? Copiou do colega? Ou será que o aluno fez de outro jeito? Vejamos: multiplicar 420 por 32 significa somar 32 vezes o número 420. depois somar ainda 30>< 20 (que o <246> aluno fez 3 X 20. ou somar o resultado de 2 X 20 + 2 X 400. acrescentando um zero ao resulta do). 60 0. multiplica-se 30 por 400 (que o aluno fez 3 X 400. o que dá 600.O = 13 440. Em seguida. Por isso. Ocorrem em determinados contextos. ou seja. resultando em 840. esse aluno não copiou o . o que dá 12 000.

achando que ele escreveu um monte de números aleatórios e depois colou o resultado do caderno de algum colega. graças à racionalidade. Fatos como esses aparecem freqüentemente na escola. é escravo da própria racionalidade. Descobrir as idéias dos alunos é entrar num mundo fascinante e surpreendente. Mas um professor despreparado pode não acreditar na versão do aluno. ainda. de uma decisão pensada. tudo o que faz é fruto de um pensamento. A REFLEXÃO DO ALUNO NA ESCOLA Para entender a realidade dos alunos.resultado e muito menos colou. A leitura do mundo é algo que todo ser humano faz a todo instante. Todo ser humano. causar uma repetição de ano. apesar dos baixos salários. muitas pessoas insistem em continuar sendo professores: é uma experiência intelectual e humana maravilhosa. em todas as circunstâncias. por mais simples. O final da história pode ser uma nota baixa que poderá. é preciso. eventualmente. mais rico ou pobre que seja. Por isso. estar convicto de que as crianças não vivem passivamente no mundo. Talvez seja esse o motivo pelo qual. toda pessoa precisa estar constantemente . de uma reflexão. mas estão a todo instante atentas para aprender tudo o que lhes interessa. Conseqüentemente.

Cada um faz isso segundo seu próprio modo de ser. segundo as características da sua personalidade. que tudo o que fazem reflete uma decisão pessoal. tentando interpretar fatos iguais. Em <247> outras palavras. Alguns educadores parecem ter descoberto só agora que as crianças pensam. . O que é importante para uma pessoa pode não ter valor para outra e vice-versa. Isso explica por que as pessoas chegam a conclusões diferentes. . todos os acertos e erros das crianças trazem por trás de si hipóteses que levaram a criança a tomar determinada decisão e fazer algo de um certo modo e não de outro.Ver debate sobre o assunto promovido por Maria Helena PATTO (1985) em vários números da revista Cadernos de Pesquisas. A nossa escola foi desviada desse caminho no momento em que alguns piagetianos brasileiros começaram a dizer que as crianças não aprendiam porque apresentavam uma síndrome da dificuldade de aprendizagem. resultando dai os trabalhos de prontidão e todas as atividades do período preparatório. resultante de uma reflexão.lendo o mundo e procurando entendê-lo.

1859. 45-7. Nessas circunstâncias. p. o autor faz um levantamento de alguns tipos de erro que os alunos cometiam nas suas aulas. Por exemplo: quem escreve ORDENCIA em lugar de PRUDÊNCIA. ou TIVE por ESTIVE. quem inverte a ordem de letras em palavras. fazendo um uso indevido de certas letras: FEIO ou FELO em vez de FERRO. Por exemplo. Já em métodos antigos de alfabetização. no Manual explicativo < CASTILHO. como em CRAVÃO. do método de leitura denominado escola brasileira. quem troca -NHO por NIO. curiosamente. NAVA em vez de . de Francisco Alves da Silva Castilho. aluno que mistura letras. foi uma piagetiana (Emília Ferreiro) quem chamou fortemente a atenção dos educadores deste país para essa realidade. L por R. encontramos um esforço dos autores para interpretar a razão pela qual um aluno chegou a uma conclusão errada. o trabalho de Emília Ferreiro apareceu com um certo tom de novidade. segundo um dialeto que não respeita a norma culta. Apontou os seguintes fatos: aluno que escreve como fala.Recuperar o aluno como ser pensante passou a ser algo imperativo para que a escola pudesse retomar seus trabalhos com decência e. CARDO por CALDO. acaba escrevendo errado. Trata-se de uma tentativa de descobrir quais as hipóteses que as crianças levantam quando cometem certos erros de escrita ou de leitura. como ARMA por ALMA.

porque está sendo submetido a um método ou a outro. quase sempre. acabam. Quando o método é muito rigoroso. tomando um caminho que não leva aos resultados esperados pelo método. É por isso que. interpretando até mesmo o que o método ensina. aqueles que começarem a questionar os resultados ou mesmo os procedimentos. os alunos que se submeterem mais facilmente e mais plenamente acabam acertando mais. AJA em vez de ASA (que no tempo do autor se escrevia AZA). aparentemente incompreensíveis (ou aceitos somente se associados a problemas mentais).LAVA. o que obriga o aluno a tomar algumas decisões por conta própria. O MÉTODO. O aluno não deixa de lado sua racionalidade. alguns alunos cometem erros. porém. nem seu direito de refletir. obrigando o aluno a seguir o modelo a todo instante. os alunos continuam sendo indivíduos com direito às suas próprias <248> idéias e interpretações. XUA em vez de SUA. sempre. apesar do esforço do professor e da exatidão da explicação do método das cartilhas. Por . Nenhum método de alfabetização controla tudo. O ALUNO E A ESCOLA Mesmo quando o ensino é impositivo. O PROFESSOR.

os alunos estão sempre pensando quando fazem suas tarefas. principalmente quando os alunos fazem coisas estranhas ou têm comportamentos inesperados. que o aluno se convence de que esse é o único modo de interpretar. a leitura e a fala funcionam e o que acontece durante o processo de alfabetização. CP para CAPA.exemplo. não é porque o professor ensina de um determinado modo. seja em que método for. não tem condições de lidar com certos fatos que encontra. Por outro lado. o aluno que aprendeu pelo bá-bé-bi-bó-bu. como também é verdade que não é por que o professor não ensina que o aluno não pode aprender. para tudo o que fazem. volta-se à velha distinção entre ensino e aprendizagem: não é porque o professor ensina que o aluno aprende. No fundo. um professor que não for capaz disso. quando eles vão ler ou escrever. etc. sendo dispensável na escrita. O importante é o fato de que. isto é. têm uma hipótese que representa a conclusão de um processo de argumentação. Um professor terá condições de analisar e entender seja lá o que for somente se se dispuser de uma competência técnica . é capaz de analisar qualquer coisa que aconteça ou deixe de acontecer com os alunos. escreve no ditado LT para LATA. Um professor que conhece profundamente como a escrita. que revela ao aluno que ele deve fazer algo de determinado modo e não de outro. Ele entendeu que a vogal já vem com a consoante.

apesar disso. Como as escolas de formação têm negligenciado sistematicamente esses aspectos. o aluno é remanejado. Essa situação extremamente constrangedora precisa ser abolida da escola. submetido a processos de recuperação. até que chegue à conclusão de que não serve para os estudos. É particularmente importante fazer um trabalho de reflexão. a fim de não ter apenas a visão do método e da cartilha na prática escolar. é preciso saber muito bem <249> como a linguagem oral e escrita funcionam.bem-adquirida. Se. até compreender o que ficou faltando ou o que foi entendido errado. As explicações mais tradicionais que os professores usam têm a ver com as . Isso demanda do professor alfabetizador conhecimentos sóli dos de lingüística e dos sistemas de escrita. Nem sempre o bom senso funciona. seguindo o método do bá-bé-bi-bó-bu. o professor precisa entender realmente o que significa o que o aluno faz. Mas. reprovado. Às vezes. os professores precisam sanar essa deficiência procurando estudar por conta. análise e interpretação de tudo o que acontece no dia-a-dia em sala de aula. para isso. a cartilha tem como única alternativa obrigar o aluno a rever as lições anteriores. Quando um aluno começa a errar sistematicamente. não superar suas dificuldades e continuar fazendo do mesmo modo.

são formas equivocadas de interpretação de fatos lingüísticos e que têm levado a educação por péssimos caminhos. eliminando os erros a qualquer preço. 1996i <250> O CERTO.deficiências dos alunos. porque tem medo de enfrentá-las. de inteligência. de desnutrição. Faz isso simplesmente para resolver dificuldades circunstanciais. do mesmo modo que opta por um método como o das cartilhas. tudo está em ordem. sem medir as conseqüências. fonoaudiológicos. < MASSINI CAGLIARI. sejam eles quais forem. a fatores socioeconômicos. Atribuir os erros das crianças à falta de capacidade de observação. Raramente se lembram de que o método também pode ser o culpado e quase nunca chegam à conclusão de que os erros. A escola precisa ser mais honesta e parar de ficar interpretando os erros das crianças de uma maneira preconceituosa. etc. Essas explicações foram levantadas para inocentar os métodos de sua incompetência. podem ser entendidos como hipóteses ou raciocínios lingüísticos dos alunos que não correspondem às expectativas da escola. criando a falsa aparência de que. considerando mais fácil ignorá-las ou afasta-las para outro lugar. O ERRADO E O DIFERENTE . com seus déficits. sem saber se são verdadeiros ou não. A escola usa de rótulos já prontos. médicos.

na Coréia falam coreano. a escola. os métodos e os professores só pensam nos erros dos alunos. jamais nos seus próprios. a escola detesta o erro no processo de aprendizagem. O método é feito de modo a prevenir o aluno de cometer qualquer erro.Há um interesse particular em estudar os erros que os alunos cometem quando estão aprendendo a ler e a escrever. vamos sempre encontrar um grupo de pessoas que usam a mesma linguagem oral. o aluno acaba não aprendendo a ler e. Por exemplo. descobre que. Alguns erros são tão sérios que. Uma língua vive em função de seus falantes. Como a linguagem oral é um fato social. no Brasil falam português. falam . Para estudar essas línguas. De modo geral. conseqüentemente. o errado e o diferente. apesar de essas pessoas usarem a mesma língua. é preciso distinguir o certo. no Japão. mesmo que ele não saiba muito bem o por quê das coisas que faz. A nota é o castigo do erro. se não forem sanados. na França falam francês. os livros didáticos e. as pessoas falam o japonês. Em se tratando de linguagem. não se alfabetiza. o método das cartilhas não gostam de erros. sobretudo. Ao fazer isso. Tradicionalmente. o lingüista vai pesquisar como as pessoas desses lugares falam. Obviamente. o professor poderá ajudar o aluno a se superar e a progredir na aprendizagem escolar. razão pela qual a nota goza de tão grande prestígio. A partir da correta análise desses erros.

Essa descrição é feita sobre fatos da linguagem oral. podemos voltar à discussão do que é certo. Isso. . o lingüista precisa descrever. as diferenças. A escrita nada mais é do que uma representação da linguagem oral. Nosso sistema de escrita ortográfico não está mais preocupado em saber como o usuário fala. errado e diferente em cada um dos casos. fica muito difícil entender os mecanismos da fala e quais os seus usos. Para organizar a gramática de uma língua. trouxe uma grande vantagem no uso. sendo um só para todos. <251> Essa visão de linguagem oral e de escrita tem muito a ver com o que comumente se chama erro de linguagem.com diferenças regionais e até pessoais. que é o conjunto de regras desse sistema lingüístico. Entendendo essa diferença entre linguagem oral e linguagem escrita. por um lado. por ter um uso social muito abrangente. mas também uma grande complicação na descrição das relações entre linguagem oral e escrita. Tudo o que foge ao padrão da escrita passa a ser considerado erro. É preciso acabar com esse equívoco. Este simplesmente deve seguir o que foi estabelecido para todos nas convenções da escrita. Como a escola tradicional trabalha com a linguagem somente do ponto de vista da escrita. por outro. Porém. as igualdades e. nosso sistema de escrita. obviamente. está acima dessas diferenças entre os dialetos.

A escrita também tem um estilo próprio. está errado tudo o que vai contra a ortografia e as normas gerais do nosso sistema de escrita. Por exemplo. outro não. Assim. outro menos. Esses erros ocasionais são logo percebidos pelos falantes e em geral corrigidos em seguida. Não são erros propriamente ditos. Às vezes.Do ponto de vista da escrita. escrever uma carta comercial em gíria é certamente um erro. um escreve mais elegantemente. e não apenas uma manifestação de estilo individual. exigido de acordo com as circunstâncias pela tradição cultural. Se algumas pessoas dizem "nózvãmuçtrabalhar" e outras . se alguém falar "borboleta" e as outras pessoas disserem "barbuleta". uma pessoa vai dizer uma coisa e troca de palavra. Outro de forma mais confusa. O diferente na fala aparece na comparação de um dialeto com outro. Escrever sem levar em conta certas exigências culturais também constitui erro. ou se atrapalha na pronúncia. um escreve de forma mais clara. As pessoas têm muita liberdade dentro dessas regras: um tem letra mais bonita. São diferenças aceitáveis. Passemos agora à linguagem falada. ou gagueja. escrever sem seguir a ortografia está errado (a não ser em casos muito especiais. e não de erros. na sintaxe ou na semântica. Essas diferenças não constituem erros lingüísticos. por exemplo). mas acidentes lingüísticos. como em propaganda. estamos diante de diferenças dialetais. Porém.

Se uma pessoa chama "biscoito" de "bolacha". Cada dialeto tem seu modo de ser. trata-se de diferenças dialetais e não de erros. Vemos claramente por esses exemplos o que é um erro lingüístico e o que constitui uma diferença lingüística.pessoas dizem "nóízvaitrabaiá". . Mas poderia dizer: "O cachorro está debaixo da mesa" ou "Debaixo da mesa está o cachorro" ou até "O cachorro debaixo da mesa está". como foi mencionado anteriormente. Isso ocorre porque cada um fala seu dialeto. a gramática de cada dialeto terá suas regras próprias. ou viceversa. Portanto. e o contrário também. Isso seria um erro. Os falantes nativos não cometem erros. quando há diferenças entre elas. Não se podem misturar as regras de <252> um dialeto (gramática ou sistema) com as regras de outro. ao dialeto que admite a forma "nózfomuçtrabalhar" não se aplicam as regras do dialeto que admite "nóizfumu trabaiá". Assim. Está tudo certo nos seus devidos lugares. Assim. a não ser por acidente. nenhum falante de qualquer dialeto do português diz que "mesa" é "cachorro" ou "Mesa o está de baixo cachorro da". de acordo com o uso que as pessoas fazem da linguagem oral. sem misturas de regras. estamos diante de dialetos com regras diferentes e não diante de uma fala certa e de outra errada.

Não é raro. em grande parte diferente do uso comum das pessoas. enquanto perdurar a patologia. <253> Na prática. Alguém com grande retardamento mental fará um uso especial da linguagem. mas exige cuidados ao dimensionar tal realidade. O traumatismo físico afeta o uso da linguagem de várias maneiras. Tais pessoas manifestam suas dificuldades constantemente. sobretudo na escola. Uma pessoa que sofre uma lesão cerebral pode tornar-se afásica. Uma pessoa com fissura palatina tem dificuldades no controle aerodinâmico da fala e.PATOLOGIAS DA FALA Há problemas lingüísticos oriundos de patologias? A resposta é sim. O inverso precisa ser analisado com todo cuidado. conseqüentemente. Uma pessoa que nasce surda terá enormes dificuldades para lidar com a linguagem oral. uma pessoa que faz tudo normalmente. Não existe uma patologia da linguagem sem uma patologia física. na pronúncia das palavras. neurológica. Não é porque uma pessoa fala de modo estranho que ela traz consigo uma patologia física. Uma educação especial poderá ajudá-las. por exemplo. mas . encontrar professores que confundem casos patológicos com outros em que simplesmente se usa a linguagem de uma maneira diferente. Esses são problemas sérios porque envolvem questões da integridade física dos indivíduos.

causadas por lesão dos órgãos da fala. mas com os sons em geral. equívocos de aprendizagem são facilmente classificados por algumas pessoas como casos de dislexia ou dislalia. Perturba muito a alguns professores (e pais) as crianças com dislexia ou dislalia. não irá ter dificuldades apenas com as consoantes sonoras. Na prática. Uma forma de defini-los é dizer que a dislexia refere-se a dificuldades mentais e patológicas de leitura. não irá simplesmente escrever em forma espelhada ou trocando letras. diferenças dialetais. As patologias físicas são perenes. escrevendo ISATO não faz isso porque tem problema de discriminação visual.apenas "fala errado". mas irá também esbarrar nas paredes e não conseguirá passar pelas portas. e dislalia refere-se a dificuldades de articulação. e sempre. não é um afásico. depois. escreve: "O cavalo é Edu vavevivovu". inventaram um termo chamado . mas simplesmente porque interpretou errado a escrita. brinca discutindo o que acontece e. e sua manifestação estará presente em todos os casos ligados à deficiência. idiossincrasias. Se uma pessoa fala com os colegas. a família e a escola já poderiam fazer um diagnóstico bastante confiável. Por aí. escrita de forma cursiva pelo professor. Se a pessoa é deficiente auditiva. Se a pessoa tem problemas de lateralidade. Para erros semelhantes de ortografia. não apresenta um caso patológico. Uma pessoa que copia da lousa a palavra "pato". Esses termos já são complicados por si.

Por outro lado. E curioso notar que as modificações são de cunho morfofonológico. concebemos a variação lingüística como sendo um fato marcante da linguagem: há pessoas que dizem "tchia" e há outras que dizem "tia".. Acabam produzindo regras muito consistentes e de aplicação geral.). A escola precisa parar de concluir que as crianças são deficientes por que falam ou escrevem errado. modificando alguns aspectos do dialeto que estão aprendendo. na aquisição da linguagem. algumas crianças acabam falando de modo estranho. que começam a testar usos diferentes <254> da linguagem para falar (não para entender. ser o ponto principal na aquisição da linguagem. Somos falantes de um dialeto. Essas idiossincrasias acontecem porque as pessoas tomam caminhos diferentes ao adquirir a linguagem oral. Entender parece. Por exemplo. então. agindo especialmente sobre o aspecto sonoro. aprendemos antes a ouvir e a entender do que a falar. mas somos ouvintes de todos os dialetos. pessoas que dizem "baudji" e outras que dizem "bardi". criam uma regra que ensurdece todas as consoantes oclusivas e . Resumindo. É uma forma de inserir os erros de ortografia nos casos patológicos.. Apesar de nascerem num ambiente onde se fala um determinado dialeto."disortografismo". Algumas crianças têm a marca da própria individualidade tão forte.

sob pressão psicológica muito forte. se a família entra neste jogo. Em todos esses casos. essas crianças deixam de falar assim. Essas crianças se fazem entender e. Com o tempo. Mas. Mas pode acontecer de alguma criança chegar até à escola falando desse modo. Essas crianças aca bam falando coisas como: "patata" (BATATA). "faka?' (VACA). "póla" (130. a criança pode cristalizar a gagueira. É o caso típico de pessoas gagas. por causa da pressão social.fricativas. mas não outros segmentos fonéticos. com muito tato. as famílias deveriam . Por outro lado. algumas crianças ficam tão preocupadas com a fala que acabam cristalizando esse modo de falar. quando a pressão familiar é muito forte. continuam falando desse jeito até saírem de casa e começarem a perceber que as outras pessoas as ridicularizam. que continuam sonoros. Os erros ocasionais produzem uma certa gagueira. "foçefaipuçkautiçku?" (VOCÊ VAI BUSCAR O DISCO?). A criança começa gaguejando para passar da fala silabada que usa no início para uma fala num ritmo acentual. típico da fala do adulto. com medo de aprender algo diferente e com outros erros.LA). que desaparece normalmente. em vez de eliminá-la. Outra criança substitui todas as fricativas e oclusivas sonoras pelas oclusivas surdas correspondentes: "totêtaitutátumatólataraminh?" VOCÊ VAI BUSCAR UMA BOLA PARA MIM?). "katu" (GATO).

Convém observar também que alguns dos "defeitos" de fala de <255> crianças não são encontrados em fala de adultos. como é o caso de quem fala somente com oclusivas: "totê tétitáti?" (VOCÊ QUER FICAR AQUI?). sabendo que o melhor remédio é a pressão social. ajudando as pessoas a melhorar o desempenho verbal. em vez de esconder a criança. Por isso. Se o professor tiver alunos que se encaixam nesse caso. deveríamos considerar muitos adultos. Os problemas da escola. principalmente para as primeiras séries. no convívio. o melhor é expô-la à comunidade. precisará agir com muito cuidado. esses modos de falar estranhos. deixá-la interagir com outras crianças. são tão importantes.forçar as crianças a imitar os adultos. evitando. receber críticas e até zombarias. É por isso que as atividades sociais na escola. a partir da observação de como usam a fala e a escrita. como os recreios e as festas. que estão . O tempo ajuda mais do que os conselhos. Todavia. Se fôssemos usar os mesmos critérios de certas pessoas para classificar algumas crianças como portadoras de patologia. não se deve criar um problema maior do que existe. esses problemas se resolvem melhor e muito mais cedo. ela própria deveria resolver. porque. assim. Os fonoaudiólogos deveriam se dedicar apenas aos casos em que há patologia física.

somos todos portadores de patologias? Se não nos consideramos deficientes nessas situações. Mas ele pode incorporar ao seu uso o de outros dialetos. e o que precisa ser deixado de lado. como deficientes. não conseguem aprender direito. o que precisa ser incorporado como conhecimento novo. a escola existe justamente para ensinálas o que ainda não sabem. Os erros que cometem são tão primários quanto os das crianças que estão aprendendo a ler e a escrever. e assim por diante. Numa aula de chinês para adultos falantes de português. com problemas de lateralidade ao traçar os caracteres. Pelo contrário. E inevitável que uma pessoa cometa erros quando está . Então. por que achar que as crianças em situações idênticas são deficientes? Não será um preconceito contra elas? Isso não significa que as crianças não tenham mais nada a aprender. porque falam tudo errado. ou não conseguem se virar direito em certos jogos de vídeogame. por ser um erro. O problema está em avaliar o que a criança sabe e que precisa ser melhorado.aprendendo línguas estrangeiras. etc. Sua fala não precisa ser melhorada porque o aluno já é falante de um dialeto do português. principalmente se não for falante da norma culta. iríamos encontrar inúmeros adultos disortográficos e até com dificuldades de controle mecânico fino. Estariam no mesmo caso adultos que não conseguem "entender direito" como lidar com computadores e com máquinas em geral.

A decisão tomada nem sempre corresponde a uma "verdade" esperada. salientando que os alunos podem se aventurar com os conhecimentos que têm. as pessoas começam a agir através de tentativa-e-erro. que nem tudo sairá correto. Daí a necessidade de educar as dúvidas a respeito do que se faz. Através de um processo de reflexão. fazendo o processo de reflexão funcionar mais efetivamente na avaliação dos resultados. ela chega a uma das alternativas. mas também do processo de aprendizagem. mais dificuldades terá para acertar.aprendendo a ler e a escrever. julgando a adequação através de comparações e tomando decisões mais eficientes. Quanto menos informações tiver o indivíduo. Em casos de dúvida. para checar constantemente se o resultado obtido está certo ou não. que . sabendo. <256> O ERRO E A REFLEXÃO DO ALUNO Os erros que as crianças cometem são fruto de uma decisão errada que tomaram. O professor não deve falar apenas dos erros. ao tomar uma decisão. contudo. Uma decisão é o resulta do prático de um processo de reflexão sobre um determinado assunto. Assim. como também é certo que esses erros precisam ser corrigidos com o tempo. considerada a mais adequada. uma pessoa tem de optar entre várias possibilidades.

O método das cartilhas costuma avaliar apenas por comparação. No segundo caso. juntamente com os comentários necessários para esclarecer as hipóteses que levaram os alunos a cometer esses erros. Confere-se com o original. e logo se vê se houve acerto ou erro. analisando o que o aluno pensou. Outro tipo de procedimento procura interpretar o processo de reflexão individual que levou a pessoa a tomar determinada decisão. se o aluno errou. pede-se a ele que faça uma nova tentativa. assim. PROBLEMAS DE APRENDIZAGEM DE LEITURA E ESCRITA Vamos fazer algumas observações a respeito de certos problemas de interpretação da escrita e da leitura que a escola enfrenta no processo de alfabetização. . Iremos estudar especialmente os problemas de aprendizagem de leitura e de escrita. No caso da cartilha. Deve ser assim até que o aluno saiba tomar as decisões corretas por si. Talvez acerte.levam a um resultado já sabidamente conhecido como correto. através da produção de escrita espontânea pelas crianças. pode-se fornecer a ele novas informações para completar as que já tem e. Apresentaremos uma série de casos que ilustram diferentes tipos de erro relativos à escrita e à leitura. ter melhores chances de tomar as decisões corretas.

Interpretação semântica da palavra Alguns psicólogos costumam fazer o seguinte teste: mostram um litro de um líquido e o despejam numa jarra estreita. . oriunda de experimentos como o mencionado acima. perguntam às pessoas se há a mesma quantidade de líquido na jarra estreita e na jarra larga. Para a criança. pegam um outro litro do mesmo líquido (ou o conteúdo da jarra estreita) e despejam numa jarra larga. Medir volume por outros meios não parece ser fácil. Usando a idéia do realismo nominal. principalmente as crianças. depois.<257> Quando a própria explicação das hipóteses das crianças não deixar claro o caminho a seguir. na forma escrita. partindo da idéia de que quanto mais alto o volume da água. segundo Emilia Ferreiro. mostrando as palavras FORMIGA e BOI. acham que há mais líquido na jarra estreita do que na jarra larga. e pedindo para que a criança indicasse qual delas era a palavra BOI e qual a palavra FORMIGA. serão apresentadas sugestões para o professor ensinar o aluno a não errar e a melhorar seu desempenho na alfabetização. a jarra que está mais cheia na vertical é a que contém mais líquido. Algumas pessoas. Então. alguns psicólogos fizeram testes. Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 1. mais água contém a jarra.

no primeiro caso. então.Verificaram que as crianças costumam indicar a palavra FORMIGA como sendo BOI e vice-versa. pedíssemos para a criança analisar sua fala. as crianças pensariam que o tamanho das palavras devesse ser proporcional ao tamanho dos objetos que elas representam. Concluíram. Se. pronunciando as palavras BOI e FORMIGA. sabem distinguir . a palavra BOI pode perfeitamente ser interpretada como sendo "maior" do que a palavra FORMIGA. leva mais tempo para falar. quando falam. Provavelmente. Quem faz uma pergunta como: "Que palavra é maior: BOI ou FORMIGA?" costuma pensar na forma escrita e se esquecer de que a palavra tem também um significado. Poderíamos fazer outras perguntas e descobrir que as crianças. Tenho minhas dúvidas a respeito dessa interpretação. que as crianças têm uma tendência a julgar pelas aparências e não pelo valor simbólico da representação lingüística. nada provam. de fato. certamente a resposta seria diferente. Os dois tipos de experimento são armadilhas para as crianças e. as pessoas. para então dizer em que caso a palavra é maior. Portanto. na verdade. Aliás. <258> do ponto de vista semântico. porque. inclusive as crianças. o animal representado é maior. guiam-se muito mais pela semântica do que pela fonética. ou seja. em vez de mostrar as palavras escritas.

Ela diz que é impossível ler. oriundo do trabalho de psicólogos. tem toda a razão de dizer que a palavra BOI é maior do que a palavra FORMIGA. Portanto. confundindo fala com escrita. com a semântica. 2. respondem corretamente. Por exemplo. e a criança. a criança julga pelo valor semântico que as palavras têm e. Se for perguntado apenas: "Qual é a palavra maior". Depois. consiste em pedir para uma criança não-alfabetizada ler um livrinho de história e mostrar com o dedo o que está lendo. mostram-se as letras. A figura como interpretador de texto escrito Outro experimento. O pesquisador está preocupado com a escrita. e pergunta-se qual é a palavra que está escrita com mais letras. é falso dizer que as crianças não-alfabetizadas fazem hipóteses erradas a respeito do tamanho das palavras. porque não tem desenho. Daí. As crianças. É o psicólogo quem faz uma interpretação equivocada do fenômeno. nesse caso. olha as figuras da página e vai contando a história a seu modo. o . diz-se o que está escrito. se o experimento fosse conduzido da seguinte maneira: pegam-se os dois cartões com as palavras BOI e BORBOLETA. A criança corre com o dedo o texto escrito. neste caso. apresentase à mesma criança um texto sem figura e pede-se para ela ler. com relação à linguagem.quantidades ou sabem responder corretamente.

sabe que ELA não pode ler porque é analfabeta. usada comumente pelos especialistas em decifração. a única alternativa é tentar dizer algo a respeito do texto. quando acompanhados de fotos ou desenhos. Como se trata de uma criança que não sabe ler. Aliás. <259> Curiosamente. que a figura é o interpretador de qualquer texto escrito. a prova de que a criança sabe muito bem que escrita é diferente de figura. e desenho não é letra. escreve-se justamente para que alguém possa ler. É uma saída inteligente. está justamente no fato de que ela confessa não ser capaz de ler um texto sem desenho. os pesquisadores . interpretando as figuras e os desenhos. a criança certamente iria concluir que é perfeitamente possível. Mas isso não impede que OUTRA PESSOA o faça. Como ela não sabe ler o texto. referem-se a essas figuras. Nem por isso.psicólogo seguidor das idéias de Emília Ferreiro conclui que a criança pensa que não se pode ler um texto sem figura. o que ela pode fazer numa situação como essa? Ela sabe que os textos escritos. e perguntasse à criança se é possível ALGUÉM ler um texto sem desenho. porque se imprimiriam tantos livros sem figuras? Na história da escrita há inúmeros casos de decifração de escrita antiga que foram interpretados a partir de desenhos que acompanhavam o texto. caso contrário. Isto é. Se o pesquisador tornasse o texto sem desenho e lesse.

A prova disso é que se o pesquisador disser que ela está . 3. essa é uma brincadeira de adivinhar de muito mau gosto: gostaria de fazer o mesmo com aquele pesquisador. Adivinhando palavras na leitura Num outro tipo de experimento para testar o que as crianças pensam da escrita e da leitura. um texto em chinês ou mesmo em árabe. embora reconhecessem que isso poderia ajudar.acreditavam que fosse preciso uma figura para ler o texto. responde qualquer coisa. para se ver livre do pesquisador. por exemplo. Champollion sabia que no obelisco de Cleópatra devia estar escrita a palavra Cleópatra. usando. que não sabe ler. sem dar nenhuma pista para a criança: ela deve descobrir por si e explicar a razão de sua escolha (sic!). A decifração das inscrições do rochedo de Behistun é um exemplo. e uma legenda: "João emprestou o trator a José". em geral. A criança tem. de um trator com dois homens conversando. porém. para ver sua reação. A criança é constrangida pela obrigação de responder e. a palavra EMPRESTOU). duas atitudes em casos dessa natureza: diz que TRATOR é a primeira palavra escrita ou aponta para a que tiver mais letras (nesse caso. Obviamente. indique onde está escrita a palavra TRATOR. mostra-se uma foto. O teste consiste em fazer com que uma criança. A escrita maia é outro exemplo.

<260> As crianças não-alfabetizadas não ficam procurando associar fatos da escrita. baseandose em analogias com o mundo real. até satisfazer a curiosidade do pesquisador. Por outro lado.errada. porque obrigá-la a fazer algo impossível? DOBLHOFFER. como tamanho e forma de palavras. esses equívocos experimentais propiciam atividades pedagógicas nocivas ao processo de aprendizagem. 4. Se ela não faz isso quando fala. 1957 e MELLA 1981. Depois disso. confundindo seu próprio raciocínio. induzindo a criança a pensar coisas estranhas a respeito do mundo da escrita e da leitura. portanto. Ela tem consciência de que não sabe ler. ela continua mostrando outras palavras. fazendo tudo segundo as expectativas do pesquisador ou do professor. algumas delas começam a dar retorno. Quantas letras formam uma palavra? Algumas pessoas elaboraram testes perguntando quantas letras seriam necessárias para se ler algo e descobriram que as . não serve de evidência para mostrar o que de fato uma criança que não sabe ler pensa a respeito da escrita e da leitura. então. por que deveria fazer com a escrita? Seu comportamento é induzido pelo pesquisador para produzir determinado tipo de resposta e.

uma enorme repetição da mesma letra. 5. e não COMPROU. Identificação de palavras Algumas pessoas têm mostrado que as crianças se apegam mais a nomes (substantivos e adjetivos) do que a verbos — e menos ainda a outras categorias da morfologia —. quando tentam identificar palavras ouvidas. Por Outro lado. apontando onde elas ocorrem na escrita. Se a frase é MARIA COMPROU UM BOLO PARA A FESTA DE ANIVERSÁRIO. mesmo porque na fala ninguém fica repetindo o mesmo som três vezes seguidas. MARIA. por exemplo. <261> . O que a criança faz nada mais é do que privilegiar o foco do enunciado. as crianças julgam mais importante achar primeiro a palavra TRATOR e não QUEBROU. que não podiam ser iguais. sem dúvida alguma. às vezes.crianças diziam que uma escrita deve ter no mínimo três letras. Essa escolha não depende de um comportamento psicológico. e ler letras iguais não tem graça. mas lingüístico. as crianças vão procurar as palavras FESTA. Essa afirmação contradiz o fato de haver muitas crianças que simulam espontaneamente a escrita de um texto e apresentam. parece muito razoável que as crianças pensem que ler apenas uma letra não faz sentido. Se a frase é: O TRATOR QUEBROU. BOLO. a idéia principal.

a criança conta uma história: "No aniversário da Maria tinha um bolo muito gostoso". que mais interessa ao interlocutor. tal leitura revela um leitor que já sabe ler e interpretar o que lê. isso mostraria que ele não sabe ler e está inventando. Quando lemos . Isso não significa que a criança ainda não seja capaz de juntar as palavras para ler corretamente a frase. As modificações representam sua interpretação do texto original. Atrás da resposta da criança há um uso pragmático da linguagem. Diante de um enunciado como MARIA COMPROU UM BOLO DE CHOCOLATE. Esse tipo de leitura é o que nós adultos fazemos. A criança colocou-o num contexto seu e disse o essencial dentro desse novo quadro. a escolha é um substantivo e não um verbo. O esforço de descoberta possibilitou a produção do texto enunciado pela criança. Pelo contrário.aquilo do que se fala. Se o aluno tivesse lido algo corno: ONTEM CHOVEU E INUNDOU A CIDADE. apropriando-se do texto e modificando-o de acordo com o próprio desejo. 6. nas primeiras tentativas de leitura. Nesses casos. não uma análise gramatical. Inventando palavras onde elas não existem Diferente do teste anterior é aquele em que as crianças inventam palavras para modificar o texto original apresentado.

inventando mil coisas paralelas ao texto escrito.um romance. Na escola. porque nossa cultura exige que respeitemos o princípio da literalidade na leitura. deixando dentro de nós toda e qualquer interpretação que não seja a reprodução do que a escrita representa literalmente. ao lermos em voz alta. a atividade de estudo da linguagem consiste basicamente em analisar os sons e as estruturas gramaticais. não aprenderiam a falar. <262> as pessoas. devemos pronunciar apenas as palavras escritas no texto. Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 7. Assim. ficamos vagando no nosso mundo de fantasia. deixando de lado por vezes o conteúdo semântico das palavras. as crianças pensam que as palavras têm sons e significados e que são usadas para se referirem ao mundo interpretando a realidade. ou uma poesia. Como fomos educados pela escola. Segundo os lingüistas. . sabemos que não podemos expressar nossos sentimentos nessas ocasiões. por exemplo.. "Cachorro começa com FU" Com muita razão.. guiam-se pelas idéias que a linguagem transmite e só secundariamente analisam os sons e as estruturas gramaticais. Se não soubessem disso. quando falam ou ouvem. porém.

estava pensando no animal cachorro. e o aluno. . mas porque não conseguem perceber que a pergunta do professor é capciosa e precisa ser respondida segundo as expectativas do professor. certa vez. GARFO (sic!). a professora não disse. para ela. ouve o que não quer". mas queria que os alunos entendessem a sua pergunta da seguinte forma: 'A palavra cachorro começa com que letra?" Se uma professora perguntar: "Quem sabe uma palavrinha que começa com o som de GATO?". Quando a aluna disse que CACHORRO começava com FU. são reprovados não porque não saibam. era natural que um cachorro começasse pelo FOCINHO. A forma de perguntar é muito importante. por exemplo. Todos riram e a professora a mandou sentar. em suas partes e. nas idéias que o enunciado transmite. como resposta. Como diz o ditado popular: "Quem pergunta o que quer. O professor diz que está errado (sic!) e corrige falando. de todos os níveis escolares. muito provavelmente vai ouvir de algum aluno. que na época em que estava sendo alfabetizada sua professora perguntou: "Cachorro começa com quê?" Ela prontamente respondeu: "Com FU".Uma professora me contou. A professora está pensando na forma escrita das palavras. e não literalmente. sem nenhuma explicação. Muitos alunos. a palavra MIAU. Porém. mesmo porque ainda não sabe ou não pensa com rapidez a forma escrita das palavras.

Aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? Alguns pesquisadores acreditam que. Esse anedotário constitui um excelente material para uma pesquisa interpretativa das hipóteses que as crianças levantam ao adquirir a linguagem escrita. nos casos discutidos anteriormente. criando embaraços sérios para continuar acompanhando o que o professor ensina e o que deve aprender. ao aprender a ler e a escrever. não consegue perceber sons semelhantes em início de palavras.Atividades conduzidas dessa maneira podem levar alguns alunos a não entenderem o que se faz na escola. elas vão por si mesmas fazendo uma mudança conceitual cada vez mais avançada. Em vez <263> de aplicar testes idiotas. Os professores alfabetizadores se deparam com uma quantidade enorme de fatos curiosos a respeito do comportamento das crianças. deixando a criança exposta a atividades de escrita. por que não interpretar diretamente o que acontece nas salas de aula durante o processo de alfabetização? 8. É um absurdo pensar que o aluno que respondeu FU ou MIAU. . com perguntas capciosas. passando por níveis cada vez mais sofisticados de interpretação da escrita.

imitando a escrita cursiva. que escrevam qualquer coisa. Os alunos escrevem como quiserem.Para jsso. o professor fica durante um certo tempo pedindo para os alunos escreverem nomes próprios ou dando ditados de palavras isoladas (ou até pequenas histórias). Não se pretende discutir aqui a classificação científica. Isso acaba produzindo alguns fatos semelhantes entre os alunos. Mesmo agindo assim. Não existe um caminho certo e único para aprender. Os alunos têm grande convicção de que se aprende copiando. quando não têm um modelo para copiar. Por exemplo. mas também para um mesmo indivíduo. alguns põem-se a copiar o que vêem escrito. Mas é verdade que. aparece de tudo um pouco. por exemplo. que não sabem ler. Quando um professor pede aos alunos. como os nomes dos colegas. ao longo do tempo. razão pela qual alguns pesquisadores começaram a atribuir a essas modificações uma classificação por níveis. Na prática. mas os fatos. os alunos estão pensando e. nesse tipo de atividade. apóiam-se em conhecimentos que . silábico e alfabético. etc. pode-se perceber muito bem como os alunos (apesar de estarem aparentemente livres e sozinhos) vão incorporando pequenas informações a respeito da escrita e da leitura. tem-se constatado que. orienta o professor. Emília Ferreiro e Ana Teberosky propõem níveis como: pré-silábico. Copiam fazendo rabiscos. não só com relação à classe como um todo. tentando desenhar letras.

as crianças esperam que alguém — o professor — explique o que precisam saber para que a cópia não se torne uma atividade puramente mecânica. ainda hoje. torna-se praticamente impossível. É o que o professor deveria fazer em sala de aula. Sabendo a língua. uma das tentativas mais antigas de decifração de escrita continua frustrada até hoje: a escrita maia. A partir de umas poucas idéias de como . E esta é. do contrário. como a escrita egípcia e a cuneiforme. uma boa maneira de alfabetizar alguém. Além de copiar. O que leva um sábio a decifrar uma escrita é a descoberta de como ela representa a fala de uma determinada língua. poderá facilmente entender as regras de decifração. foram decifradas com certa facilidade. Como o aluno conhece a língua. Outras escritas que despertaram o interesse muito tempo depois. Aliás. A decifração exige comparações e a formulação de regras com coerência e generalização. fica mais fácil. Nenhuma criança (ou pessoa) aprende como funciona o sistema de escrita simplesmente copiando ou imitando. isso pode ser feito em pouco tempo e com bons resultados. <264> há vários sistemas de escrita que ainda não foram decifrados. sem dúvida. A razão disso é que. Quando o sistema de escrita é conhecido. É preciso muito mais.podem extrair da realidade mais próxima ou simplesmente usam os conhecimentos prévios que já adquiriram.

a escola existe para ensinar e não como um lugar onde as crianças descobrem tudo sozinhas.funcionam as relações entre letras e sons. Por que uma criança passa do nível pré-silábico para o silábico? Essa é uma pergunta fundamental. então só lhe resta pressupor que a escrita é uma representação gráfica da fala. Por isso. Assim. Porém. apega-se à única idéia que tem: a escrita é uma forma gráfica de representação da fala. faz seus rabiscos. A criança começa a escrever rabiscando porque nem sequer lhe dão algo que possa copiar. Nota Recentemente. Ela não faz isso porque a natureza humana a leva de um nível a outro automaticamente. cuja aceitação ainda não foi confirmada. que pode ser feita de inúmeras maneiras. Logo. não faz sentido. representando a fala. Portanto. poderá generalizar o processo de entendimento e aprender por si. se não tiver algumas explicações iniciais. induzir os alunos a percorrer um caminho que passa pelos níveis de construção da escrita. deixar as crianças fazerem isso por si é perder tempo e paciência. Mina!. propostos pela psicogênese da língua escrita de Emilia Ferreiro. pelo simples fato de ter diante de si lápis e papel. ficará perdido durante um tempo longo demais para as exigências da escola e da vida. têm aparecido tentativas de decifração da escrita maia. Como é que as formas .

Isso parece algo muito interessante. descobrir como as letras representam os sons. portanto. surgem as famosas perguntas: "Que letra é esta? É a letra U de URUBU". mas não sabe. Com isso. Depois dessas tentativas de escrita aleatórias. e assim por . A criança sente-se tão frustrada quanto o adulto e sabe que escrever em todos os sentidos não pode ser o que ela fez. agora. Resta. porque sabe da sua existência. ela já as viu de muitas formas. nada mais natural do que acrescentar mais uma. a produção gráfica da escrita é mais fácil.. como ninguém a ensina a ler e a escrever.gráficas representam a fala é algo que sobretudo ela gostaria de saber. A criança tem consciência de que não sabe <265> escrever. "Que letra é esta? É a letra B de BOLO". porque tem consciência de que não sabe ler. passa a escrever grafando as letras que consegue descobrir em algum lugar: alguns tentam imitar a escrita cursiva e logo percebem que é uma forma muito complicada de produção gráfica... pensa o aluno. começam a usar letras de fôrma maiúsculas (às vezes misturadas com minúsculas) para escrever: agora.. a criança ouve alguém dizendo que as letras representam os sons das palavras. Então. acaba procurando as letras. pelo menos. Então. A segunda idéia é a do caos do mundo da escrita: escreve-se de muitas formas. Então. O resultado é bem mais semelhante ao modelo.

o aluno começa a analisar sua fala. Descoberta a técnica. se o aluno aprende pelas informações que vai incorporando. B de BOLO. e escreve: B L. A palavra BOLO pode ser analisada em partes. como U de URUBU. o valor fonético que representam e até a forma ortográfica das palavras. E chega à conclusão de que BOLO se escreve O U. Essas escritas não são fruto de uma interpretação por parte da criança. O curioso é que esses alunos já sabem a forma gráfica das letras. segundo a qual a escrita representa sílabas por letras. mas porque alguém lhe deu uma informação preciosa: as letras representam sons da fala. Então. Esse aluno não chegou a esses resultados por si. Como fazer? Falar é fácil. Por exemplo. E preciso descobrir as letras. agora. Eles escrevem letras corretas. e não por simples e espontânea reflexão. o professor já não vai ensinando de maneira mais inteligente? É incrível como algumas crianças com tão poucas informações acabam escrevendo coisas como: C V L ou AA O para CAVALO. o aluno põe-se a investigar os casos que se lhe apresentam. de . Por outro lado. observando-se a qualidade das vogais ou a articulação das consoantes. ao tentar escrever uma palavra.diante. quer escrever BOLO. Ora. analisa os movimentos articulatórios das consoantes: bobobobo lulululu. A explicação é a que foi dada acima. dizendo: B0000-LUUUU. B B LT ou O O EA para BORBOLETA. em vez de dar uma informação tão reduzida. por que.

Essa hipótese. porém. não é de que uma letra represente uma sílaba. é o caso do aluno que escreve: C M U para CAMELO. A hipótese dele. de um modo ou de outro. Por exemplo. escrevem apenas as vogais ou apenas as consoantes. É evidente que o procedimento de descoberta usado pelo aluno envolve uma relação entre letra e sílaba na fala. numa tentativa de escrever o que foi identificado. mas seus argumentos não convenceram os especialistas em sistemas de escrita. Por exemplo. Porém. hebraico clássico) representa apenas as consoantes e não as vogais. na verdade. <266> Em geral. As crianças fazem da mesma maneira e pelas mesmas razões. pela qualidade vocálica ou pela articulação consonantal e..acordo com a ortografia. Ele conhece o C ("kê"). é uma das razões pelas quais a escrita semítica (egípcia. em que. mas pode-se encontrar uma mistura. conhece o U do LU. mas não conhece o L (o "lê" de LU). Falam "u" e escrevem O. existe uma letra . Gelb tentou interpretar a escrita egípcia como sendo silábica. fenícia. ou seja. para cada grupo silábico composto de uma consoante mais uma vogal. mas de que basta representar a sílaba por uma vogal ou por uma consoante. o M ("mê"). a escrita tem uma chave de leitura bastante razoável.. por exemplo). árabe clássico. Uma escrita silábica típica é a japonesa (katakaná. corresponde uma letra na escrita. e escreve C M U. dessa forma.

quando vai ler. por <267> exemplo: 'A lê-a-lá. lê analisando as letras em famílias de sílabas.diferente para cada sílaba do tipo bá-bé-bi-bó-bu. outro é o da decisão pessoal. usando apenas as letras C V L ou A A O. na escola. juntando as sílabas . O primeiro tipo de hipótese predomina quando o aluno é alfabetizado pelo método das cartilhas. baseada nos conhecimentos que possuem e na argumentação para chegar ao resultado ou conclusão pessoal. Esse raciocínio não tem nada de semelhante com o funcionamento de uma escrita como a japonesa. prefere usar. la-ta: a lata". Embora ele venha observando os fatos de leitura e de escrita há muito tempo e tenha opiniões pessoais a respeito. os conhecimentos relacionados ao processo de ensino que recebe. 9. lendo. Explicitação da decifração na leitura As crianças constroem hipóteses baseadas em dois pontos de vista distintos: um é o do método a que são submetidas. Concluindo. depois compondo as partes da sílaba que descobriu e. tê-a-tá. finalmente. explicita em voz alta essa técnica. E o caso típico do aluno que aprende seguindo o bá-bé-bi-bó-bu e. o que as crianças fazem quando escrevem CAVALO. como referência principal para sua argumentação.

juntando: bê rê-a-çê. o aluno logo percebe que não juntou direito as letras e lê: "bê-rra-çi-lê" (sic!?). Quando o professor diz que está errado. O professor insiste em que está errado. o aluno percorre o seguinte caminho: bê de barriga. Isso acontece porque. Assim. no método do bá-bé-bi-bó-bu. Agora.-i-lê = "berreaçeilê" (sic!?). o 1 e o lê do lá-lé-ii-ló-lu. O aluno faz uma cara de derrotado e diz baixinho "Brasil". Ao ler uma palavra como APTO. Quem quiser entender por que um aluno lê desse jeito. . O professor perde a paciência.e formando a palavra. alguns alunos só conseguem dizer "apítu" e não "á-pi-tu" ou "ap-tu". diz que está escrito "Brasil". é evidente que o aluno segue o método do bá bé-bi-bó-bu. Nesse caso. o esse do sá-sé si-só-su. A. mas se atrapalha muito para descobrir como se lêem sílabas de outra natureza. e o aluno faz nova tentativa: "berraçil" (sic!?). rê de rato e do rá-ré--ri-ró-ru. que o ajuda a ler corretamente sílabas do tipo consoante mais vogal. as famílias de letras (sílabas) são sempre constituídas de uma consoante seguida de uma vogal. do bá-bé-bi bó-bu. Esse tipo de aluno encontrará enorme dificuldade em ler corretamente grupos de consoantes ou quando encontrar as chamadas "consoantes surdas". ao tentar ler uma palavra como BRASIL. precisa descobrir que idéias ele usa para ler.

<268> respeitando o princípio da literalidade. por outro lado. as cartilhas precisariam apresentar todas as combinações possíveis de letras que representam uma sílaba. tornaria a cartilha um livro extremamente longo e complicado para as finalidades a que se propõe. Esse procedimento muitas vezes cria impasses insuperáveis . os quais devem ser processados na cabeça. procede-se à leitura. as cartilhas passaram a apresentar também famílias com grupos consonantais. O que o aluno não está sabendo é que não se podem enunciar em voz alta os procedimentos usados para se chegar à leitura. Mas as cartilhas não apresentam "famílias" de letras com sílabas contendo consoantes mudas: ap-ep ip-op-up. corrigindo-o sem explicar. Criança que lê a palavra HORA dizendo "agora". Quando se lê. é preciso usar os conhecimentos de decifração. Essa lição pode ajudar o aluno a ler mais facilmente uma palavra como BRASIL. Isso. Às vezes. como: brá-bré-bri-bró--bru. de acordo com o método do bá-bé-bi-bó-bu. e o professor não percebe o porquê do erro do aluno. Depois de descoberto o que está escrito. as crianças dizem "kê" lendo palavras que começam com C + E ou I. em silêncio. em voz alta. Para um aluno ler segundo o modelo. está claramente revelando a interpretação da decifração do primeiro som pelo nome da letra: "agá + ora agora".Para resolver parte das dificuldades apresentadas pelo método.

porque interpretam errado as primeiras letras e chegam a uma palavra que não existe. A criança pensa: "çê-á esse-a çeaéça". É impressionante como os professores de alfabetização. Mesmo um aluno que lê corretamente e com certa fluência. a fim de indicar ao aluno o que ele deve fazer para mudar. mas faz isso com . na alfabetização. Ela quer e precisa de uma explicação técnica adequada. Diante de casos como esses. o que os faz desanimar. dizendo (injustamente) que estão cansados de ensinar e nem assim esses alunos aprendem (sic!). Em vez de ajudar o aluno. não sabem sequer perceber a real situação de alguns alunos que apresentam essas dificuldades de leitura. Não basta dizer o certo e mandar a criança repetir: isso não a ajuda em nada. que acabam desistindo de ler. alguns professores já mandam estas pobres crianças para classes especiais. é pior ainda. quando não para psicólogos.para alguns alunos. O aluno que lê bem também passa por um longo e tortuoso processo de decifração da escrita. Tentam ler uma palavra como CASA ou BOLA e não conseguem chegar a uma conclusão sobre o que está escrito. em geral. pode estar pensando do mesmo modo que o aluno do caso acima. o professor precisa analisar a conduta do aluno e descobrir quais são as hipó teses que ele está levantando para decifrar a leitura. Se o professor corrige dizendo "beôleá". Ou então: "bê-ô-lê-á beôlêa".

O professor pode mostrar como se lê. alunos que demoram demais para ler apresentam problemas de leitura. com os quais o professor deve se preocupar. ler em grupos. o aluno que se apegar demais ao processo de decifração nunca conseguirá a fluência necessária na leitura. ou que só entendem o que lêem em silêncio. reduzir o número de participantes desses grupos até chegar a um aluno. os alunos se sentem mais familiarizados com o texto e acabam lendo melhor. quer com relação à quantidade de material que lê. Leitura silenciosa acompanhada de articulações Alunos que ficam mimicando as articulações dos sons enquanto lêem em silêncio. Depois de muitas repetições.certa rapidez. é sempre problemática e deve ser evitada. Isso é fruto do método com que lhe ensinaram a ler. quer com relação à assimilação dos conteúdos. A leitura fluente pode também ser ensinada e treinada e não ficar somente a cargo dos alunos. que têm de ler em voz alta <269> para entender. Velocidade de leitura A velocidade ideal de leitura é a aquela com que as pessoas falam normalmente. por outro lado. Como alguns falam mais depressa do que . Por outro lado. A leitura de improviso. 11. Acabará sendo um leitor lento. 10.

Quanto mais se acelera a leitura. já no outro dia. pois as exigências do modelo são mais fortes do que a reflexão pessoal da criança. existe uma certa variação. é difícil saber exatamente as razões daquilo que as crianças fazem ou deixam de fazer. Conseqüentemente. mais difícil a reflexão sobre o que se está lendo. típico do método das cartilhas. mas saborear a arte dessas obras. baseada em seus conhecimentos. errado. PROBLEMAS DE ESCRITA ORIUNDOS DE DIFICULDADES COM AS LETRAS Quando repete um modelo. é costumeiro que os alunos variem muito: um dia escrevem certo uma palavra. Quando procura fazer uma atividade de leitura ou de escrita por iniciativa própria. Por isso. a criança usa de sua reflexão. errado.outros. para tomar as decisões que julgar melhor. a criança está testando sua capacidade de responder ao que lhe foi perguntado simplesmente imitando. porque o objetivo de uma obra literária não é apenas saber o que o autor diz literalmente. No primeiro caso. torna-se difícil para o método das cartilhas trabalhar com alunos que não se . Não faz sentido ler um romance ou um livro de poesia a todo vapor (as chamadas leituras dinâmicas). tendendo-se para uma leitura mais literal. depois voltam a escrever certo e mais uma vez.

a seguir. Apresentam-se. 1. indicando a saída. através da produção de escrita espontânea. No segundo caso. Finalmente. alguns casos de erros de escrita. misturam rabiscos com algumas letras ou tentativas mais próximas a traçados de letras. porque o método não considera as razões do erro da criança para poder corrigi-los. de maneira cada vez mais sólida. transformam os rabiscos caóticos em rabiscos senados (mostrando a linearidade da linguagem oral e escrita). Outras vão ter essa chance somente quando entrarem na escola. Conhecendo essas razões. . ou o passo seguinte.<270> mantêm integralmente dentro do modelo. para não errar e levar adiante. Crianças muito novas fazem rabiscos e dizem que escreveram uma história. é possível saber com bastante segurança as razões (hipóteses) que levaram o aluno a tomar as decisões acerca da sua escrita e leitura. Escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida Algumas crianças tentam escrever pela primeira vez quando ainda estão brincando em casa. o processo de aprendizagem. o professor pode mostrar e discutir isso com ele. com os comentários a respeito das hipóteses que levaram os alunos a esses resultados. Depois. cometendo erros.

mas em pouco tempo já não se lembram mais do que fizeram. Os alunos podem . e aquela forma de escrita já não permite mais a leitura. Na vida. Enquanto estão conscientes do que fizeram. é muito comum as pessoas assinarem o próprio nome fazendo rabiscos. Essa também é uma forma de escrita e funciona bem para o caso das assinaturas <271> porque. Esse tipo de atividade pode ser dada logo no início do ano. ou seja. o texto gráfico representa a linguagem oral que pode ser recuperada através da leitura. pode dificultar a decifração das letras do nome do assinante. estão reconhecendo que a finalidade da escrita é permitir a leitura. além de ser uma marca individual. que deve ser compensada com o ensino de que escrevemos de outra forma. 2. Isso pode trazer uma certa frustração. Ao fazerem isso. Assinatura e escrita Um caso um pouco diferente do anterior é o daquela criança que faz um rabisco parar escrever o próprio nome. Em vez de se assustar quando algum aluno faz coisas semelhantes.Essas crianças produzem esses textos e durante um certo tempo são capazes de ler. permitindo uma leitura permanente para quem souber como o sistema funciona. são capazes de ler. o professor deveria brincar de fazer assinaturas.

etc. um bom exercício é trabalhar com pares mínimos (exemplos: MATA/PATA/NATA/BATA/CATA/ LATA. que o sistema de escrita que a escola ensina tem outra função. 3. diz que o uso aleatório das letras não permite a leitura por outras pessoas (atentar para a convencionalidade da escrita e seu uso social). Alguns alunos não conseguem se livrar facilmente da idéia de que "escrever com letras significa escrever com qualquer letra.entender que. para assinar documentos e cheques. Letras em vez de rabiscos A partir de uma discussão a respeito do modo como o aluno escreveu seu nome. um professor pode convencê-lo a escrever com letras. Diante disso. as pessoas nem precisam saber ler e escrever. ou seja. Dessa maneira. ainda.:' Para resolver isso. um aluno pode escrever NEAPTASMLA em vez de ANTÔNIO. escrevemos com letras e não fazendo rabiscos.).. Isso quer dizer. escrevendo com letras. Diante de tal explicação. o professor constata o que o aluno fez. A explicação insiste no fato de o nosso sistema de escrita ser constituído de letras. uma vez que ainda não se deu conta de que estas são empregadas seguindo regras específicas e não aleatoriamente. o aluno está seguindo a explicação do professor. . fazendo rabiscos.

alguns alunos têm dificuldades em reconhecer na escrita cursiva as letras que. para ele. o que vai levá-lo a separar as sílabas da palavra da seguinte maneira: Oi-va. a coisa piora. ocorrem na grafia das palavras. de fato. com as letras B e b (que estranhamente.4. quando o professor escreve com letras cursivas. porque o aluno vê escrito ( e pensa que. aparecem traçadas de formas diferentes). as letras são: <272> O + i + v + a. Agora. Algumas letras se prestam mais do que outras a esse tipo de confusão. como se mostra a seguir: Modelo apresentado pelo professor: Pato Arca Objeto Interpretação do aluno: JSATO CERCA OGETO Letras problemáticas: Paj Como o aluno interpretou: . nessa forma de escrita. deixando a decifração da leitura de lado. A forma gráfica das letras Um problema comum encontrado especialmente entre alunos alfabetizados pelo método das cartilhas relaciona-se à interpretação da forma gráfica das letras cursivas. Por exemplo. Como o método concentra-se na escrita. o aluno pode até saber que a cartilha apresenta a palavra OBA e oba.

O professor ensina que se deve . para se familiarizarem com a categorização gráfica das letras. Escrita espelhada Alunos que se põem a escrever antes de aprender as noções básicas de leitura começam copiando. 5. podem cometer vários enganos.p=i+s A=C+e bj = G Esse tipo de engano é muito comum. Um bom exercício. Um deles é o da escrita espelhada. pode ser interpretada pelo aluno da seguinte forma: CENTIERRIUE. nesses casos. como letras cursivas e de fôrma. pedir ao aluno que escreva um mesmo texto ou palavra em diferentes tipos de letra. Como não entendem bem como a categorização gráfica e funcional operam no sistema de escrita. Algumas das coisas aparentemente sem sentido que alguns alunos escrevem devemse a esse tipo de dificuldade. Uma palavra como Antonio escrito em letra cursiva só com o "a" maiúsculo. é fazer transliteração. ou seja. a que já tivemos oportunidade de nos referir em outros capítulos deste livro. Uma das razões pelas quais se deve começar pela leitura e usar apenas as letras de fôrma maiúsculas é evitar que o aluno cometa enganos dessa natureza.

assim o aluno começa a copiar a palavra SAPO. . Algumas letras arredondadas prestam-se mais a esse tipo de erro. é como segmentar o fluxo da fala em palavras. lembra-se da regrinha e escreve o S da esquerda para a direita. e menos a partir de uma análise semântica dos itens lexicais. Porém nem todos os alunos estão atentos à seqüência das letras. quando um aluno vai escrever a letra S. parece haver uma tendência para as crianças segmentarem a fala principalmente a partir de uma análise dos elementos prosódicos. o resto acompanha. resultando na palavra espelhada. levando em conta essa regrinha. escrevendo primeiro a letra S e não a letra 0. Por essa razão. 6.escrever da esquerda para a direita. o professor pensa que deu uma boa regrinha para seus alunos. Então. como entoação e ritmo. como C e S e outras letras como Z e N. Uma das primeiras dificuldades que o aluno encontra. O professor precisa dar uma explicação mais detalhada sobre a direção da escrita e sua distribuição espacial. <273> mas ao modo com que se deve escrevê-las. Com isso. No início. Segmentação Outra regrinha muito comum que os professores dão para seus alunos é a de que observem a própria fala para escrever. como a escrita exige.

os alunos vão descobrindo os itens lexicais. como no caso de VISITA. "çe-ru-mã-nu". 7. A leitura individual e freqüente é uma boa solução para ajudar os alunos a segmentarem as palavras na escrita. colocando uma parte em cada palavra. como preposições. Na prática. ainda. Aos poucos. Quando encontram a palavra ABACAXI. sobretudo quando ocorrem palavras gramaticais. no próprio nome das letras. o exemplo: SER MANO em vez de SER HUMANO: como o R e o U formam uma sílaba só na fala. que o aluno escreveu VI SITA (verbo ver). ou NEI COM PARASÃO em vez de NEM COMPARAÇÃO. Veja. A letra representa o som de seu próprio nome Outra regrinha que os alunos costumam ouvir é que. encontra-se o som básico que a letra . conjunções e expressões adverbiais. segmentando erroneamente palavras.surgem escritas como: ERAUMAVEZ UMABELAPISESA CEMORAVA NUCAS TELO. os alunos se apegam a algum elemento semântico. os alunos têm dificuldades reais em situações em que são solicitados a separar ACASA em A CASA. a partir da análise semântica. separam A BACAXI. Mas ainda restam muitos casos que só se aprendem através da ortografia. Às vezes. pensando que é algo semelhante a A CASA. o aluno supôs que não podia dividir a sílaba ao meio.

Escrevendo só vogais ou consoantes Um caso um pouco diferente do anterior ocorre quando o aluno escreve apenas as vogais ou as consoantes das palavras. LFATE em vez de ELEFANTE.representa (princípio acrofônico). como em "caaaa-vaaaa-loooo". LC em vez de HELICE. O professor deverá chamar a atenção para o fato de as sílabas serem constituídas de consoantes e vogais. Aqui o aluno escreve apenas um dos elementos da sílaba. TAPTE em vez de TAPETE. CAMLO em vez de CAMELO. Se prolonga as sílabas. Ao aplicar isso. 8. basta achar a letra em cujo nome ocorre aquele som que se quer escrever. acaba salientando e escrevendo as vogais. identifica como mais notável os movimentos articulatórios. de acordo com a maneira como analisa a fala. etc. etc. Invertendo <274> os alunos formulam a regrinha: para escrever um som. como se conhecessem a ortografia das palavras. . como em AAO ou CVL para CAVALO. como em "cacacacavavavava-lolololo". Se repete as sílabas. acabam escrevendo o seguinte: HRA em vez de AGORA. o que é representado na escrita pelas consoantes. O princípio acrofônico refere-se apenas ao primeiro elemento da sílaba e não à sílaba toda. É muito curioso o fato de alguns alunos escreverem as letras certas. APARECU em vez de APARECEU. PTC ou EEA para PETECA.

e ao mesmo tempo escreverem no caderno as lições corretamente. la-le-li lo-lu. que é o lá-lé-li ló-lu. registra OPAFNOLA. encontram-se alunos que escrevem apenas a primeira letra ou a primeira sílaba das palavras. demonstra que eles escrevem seguindo as famílias de letras. LATA tem o "lê". Mais raramente. O aluno faz isso porque aprendeu o modelo do bá-bé-bi-bó-bu como forma de escrita das palavras-chave. MCC para MACACO. ta. LT para LATA. lembrou-se da . então. Se BAR RIGA tem o "bê". Ele se lembra da letra da palavra chave: lá-lé-li-ló-lu = letra L de LARANJA (palavrachave). Então. Simplesmente escrevem observando na própria fala o que é mais evidente.Obviamente. Por exemplo: la-ta. querendo dizer O PATO FOI NO LAGO 9. observando a palavra LATA. ta-te-ti-to-tu. Então acaba concluindo que basta escrever a letra <275> da lição referente à família de letras da sílaba que ele observou na fala. Em outras palavras. ele encontrou a primeira sílaba la e a família de letras a que essa sílaba pertence.0 bá-bé-bi-bó-bu nos ditados O fato de alguns alunos escreverem no ditado palavras como CP para CAPA. que são interpretadas a partir da observação da fala. não estão produzindo uma escrita silábica para as letras.

11. no ditado. BARBOLETA em vez de BORBOLETA. algumas crianças . a partir de seu dialeto. Aqui também a leitura individual e assídua irá ajudar mais do que qualquer explicação do professor. dessa forma. É o caso de alunos que escrevem TRABESSEIRO em vez de TRAVESSEIRO. a forma escrita das palavras. que era o objeto de estudo dessa lição. PRANTA em vez de PLANTA. que será usada para ensinar o aluno a decifrar a escrita para ler e montar palavras para escrever. está simplesmente seguindo o modelo que lhe foi ensinado. Portanto. 10. porque podem encontrar na própria fala formas morfológicas diferentes para algumas palavras. Resultados pela metade Ao escreverem. DRENTO em vez de DENTRO. quando o aluno. basta dizer ao aluno a forma ortográfica dessas palavras. além das dificuldades para encontrar. TONEAI em vez de ESTOU NEM AÍ. Formas morfológicas diferentes Os alunos que falam dialetos muito diferentes da norma culta lidam com dificuldades extras para acertar a grafia das palavras. apresentase uma letra que vem explicada através da palavra-chave e. Note que no método do bá-bé-bi-bó-bu. escreve LT. etc.lição da laranja e chegou à letra L. Para ser objetivo. introduz-se o estudo da família de letras.

têm de fazer isso aos pedaços. do começo ao fim. principalmente no início. Eles precisam fazer exercícios de comparação entre o que escrevem e o que deveriam escrever. analisando a própria fala. ou seja. Isso se torna ainda mais complicado quando. L 12. PISICRE em vez de BICICLETA. Aqui não basta que o aluno simplesmente leia o que está escrito. com a dificuldade de isolar e caracterizar foneticamente as palavras. quer as que ele costuma escrever. Outro exercício importante é analisar a decifração de leitura. com uma análise detalhada. o aluno deve <276> explicitar todos os mecanismos envolvidos no processo de decifração de palavras escritas. CAGLIARI.defrontam-se. PIONHO em vez de PIOLHO. Esse procedimento deveria abranger quer as palavras escritas corretamente. mas não sabem colocar em prática seus conhecimentos. Escrevendo foneticamente Talvez os erros mais comuns dos textos espontâneos dos . 1985b. Esses alunos sabem algumas coisas importantes a respeito da leitura e escrita. passo a passo. ele precisa ter claros os mecanismos envolvidos nessa tarefa. o que resulta em palavras como BRIZA em vez de PRINCESA.

confrontando o que fez com o estabelecido pela ortografia. o professor deverá voltar a explicar o que é ortografia e transcrição fonética. Como uma letra pode representar muitos sons. até que. Acertará algumas e errará outras. Aos poucos.alunos na alfabetização refiram-se ao uso da escrita como se fosse uma transcrição fonética. e um som pode ser representado por letras diferentes. sem insistir muito. isso obriga o aluno a fazer escolhas a todo instante. valendose dos recursos da escrita alfabética: PATIO PATINHO IGO = ÍNDIO RAPAIS = RAPAZ BARDJE = BALDE MECADIO MERCADINHO CIEASIORA = QUEM É A SENHORA JALICOTEI JÁ LHE CONTEI CAMANH COM A MÃE Esse tipo de erro corrige-se com o tempo e muita leitura. . o professor chama a atenção dos alunos. Os seguintes exemplos ilustram bem como os alunos são hábeis na transcrição fonética. 13. Se alguma forma errada tornar-se recorrente. Troca de letras Outro tipo de erro freqüente é o uso indevido de letras.

usando-a para contextos não permitidos. o que se fala com "i" será escrito com E. Hipercorreção Os casos de hipercorreção ocorrem quando o aluno exagera na aplicação de uma regra. 14. Então. Esses fatos são menos comuns. A sua dificuldade é maior no início. às vezes. o aluno escreve MEDECO em vez de MÉDICO. o professor diz para o aluno que escreveu DICI que. Outro exemplo: o aluno . Alguns exemplos: SEBOLA = CEBOLA CANORO = CACHORRO QAXA = CASA OGE = HOJE EXTENDER = ESTENDER ESTENÇÃO = EXTENSÃO DICI = DISSE LICHO LIXO <277> Um bom procedimento é fazer uma lista das palavras de uso comum que os alunos estão errando mais. mas existem.comece a grafar as palavras corretamente. para que eles decorem a ortografia ou consultem a lista enquanto não memorizam. Por exemplo. Com o tempo restam apenas aquelas dúvidas ortográficas mais comuns.

como no exemplo de "faka". Nesse caso. CORILA em vez de VACA. guiar-se pela semântica: quando está pensando no animal. . na sua fala (sussurrada). a escrita é VACA. utensílio. na escrita. a escrita é FACA. POLA. Se o aluno fala certo. do mesmo modo quem fala "póla" pode aprender a escrever BOLA. mas escreve errado. escrevem FACA. 15. Surdas ou sonoras? Um caso que perturba os professores é o de alunos que trocam consoantes oclusivas ou fricativas sonoras pelas correspondentes surdas. PATATA. e quando está pensando na ferramenta. o som que pretende escrever é surdo e não sonoro. Se o aluno fala como escreve. Em casos em que ocorrem ambigüidades na fala. percebe que. BATATA. o aluno pode. a saída mais imediata é ensinar que a escrita que respeita a ortografia não é uma transcrição fonética. ainda. BOLA. Assim como há pessoas que falam "tchia" e escrevem TIA. Assim. mas se escrevia O). pode ser um reflexo de estar agindo de acordo com a orientação do professor: escrever observando atentamente os sons da fala. Como escreve sussurrando as palavras. em analogia com BATO/"batu" (o professor havia explicado que se falava "u". além da explicação acima. GORILA.quer escrever TATU mas registra TATO.

Os RR podem ocorrer na fala de maneira sonora ou surda.o professor pode mostrar ao aluno que o que ele escreveu não corresponde ao que ele fala e que as variações fonéticas das palavras são neutralizadas pela ortografia. Tanto isso é verdade <278> que esses alunos não têm problemas de confusão entre sons surdos e sonoros por razões de déficit nem ensurdecem todos os sons das palavras que escrevem. porém. eles ficam perplexos porque nunca souberam que . como as vogais. Esses casos não revelam que o aluno tem deficiência auditiva nem de atenção: é uma questão de como ele lida com as informações lingüísticas. Essa oposição de sonoridade não cria pares mínimos. as laterais. Elas se prestam mais a esse tipo de erro porque dispõem de pares mínimos cujo traço distintivo é a sonoridade. Quando dou exemplos de palavras que se falam com RR surdos e sonoros em português. as nasais. A confusão que alguns alunos fazem envolve o sistema de escrita e sua forma de representação. e ninguém erra a escrita dos RR por causa da sonoridade. Lembrar. e não falha de discriminação auditiva. solicitando dos professores que identifiquem em quais delas ocorre RR sonoro ou surdo. A confusão se estabelece apenas com as consoantes oclusivas e fricativas. mas apenas variantes. que outros segmentos fonéticos são sonoros na fala.

encontramos RR sonoro. escrevendo ÍNDIO com IGO. passa a escrever com H depois do D: IDHO. encontramos RR surdo. <279> . um pouco. L com H dá "lhê". ou dizer por partes. O professor deve levar em conta o progresso do aluno e não se desesperar quando não escreve tudo correto da primeira vez.. Por um lapso. Na alfabetização. Por exemplo. se consideram portadores de deficiências auditivas. Mas.) 16. no meio de palavras. serve para modificar o valor fonético da letra que vem imediatamente antes.. porque não tinha encontrado no alfabeto a letra que representa o som "djê". mas pode levá-lo a cometer erros. Assim C com H dá "chê".podia haver RR surdos e sonoros. e numa palavra como RATO. o professor explica que a letra H é um coringa que. Então. que já tinha errado. L e N. N com H dá "nhê". o aluno. numa palavra como BARRIGA. o professor esqueceu-se de dizer que o H ocorre somente com as letras C. Isso ajuda o aluno a progredir. por se tratar de crianças. Um pouco por vez Os alunos costumam levar à risca o que o professor diz. seguindo a última regra dada pelo professor. nem por isso. dando uma determinada informação técnica. é muito comum o professor "enfeitar" o que diz. incapazes de discriminar sons surdos de sonoros. (Na pronúncia comum de muitas pessoas.

depois acrescenta mais um pedaço — AAIPA. não por causa do erro. Pa-paaaiii. Como o aluno não tem tempo de rever o que fez. Assim. Se vocês não ficarem quietos. o que ouvem e o que conseguem escrever no tempo devido. alguns alunos se perdem entre o que o professor fala. Pa.. seu texto fica: AAIPAIPAPA ACM e. minha gente! Mais rápido! Papai.. precisando escrever logo a palavra seguinte que o professor passou a ditar. escreve AAI.. temos o seguinte: AAIPAIPAPAI ACM. Joãozinho. o que sobra no seu trabalho é algo surpreendente. Vamos lá. Assim. Papai. etc:' Um aluno muito atento procura repetir o que o professor dita e tenta escrever o que lhe parece mais fácil primeiro.. Por exemplo. após o último esforço. fique quieto no seu lugar! Pap. Em seguida. o professor diz: "Todos quietos? Pronto? Vou ditar.17.. Tais erros são tão mal aceitos pelos professores.. Mistura de informações Nos primeiros ditados. produzindo às vezes resultados surpreendentes. . Com a identificação de mais alguns sons. mas em conseqüência do método sob o qual ele trabalha. Paaa-iii. que os alunos que os cometem sofrem discriminação e não raramente acabam em classes especiais ou em clínicas de fonoaudiólogos. para escrever a palavra ASSIM registra ACM. Volta à palavra anterior repetida pelo professor e acrescenta: AAIPAI ACM. vão errar.

notou que ficou parecido <280> com "a" (cursivo). faz um outro "d" com o traço vertical bem longo e continua escrevendo.18. Esses alunos escrevem o que conseguem no momento. Só o esforço não adianta Quando algumas crianças estão escrevendo. acabam escrevendo tudo corretamente. sem tirar o lápis do papel (porque é uma escrita cursiva). por SOCORRO. nem sempre sabem solucionar dúvidas e. encontramos produções de escrita como as que se seguem: SCOR. Erros não corrigidos Algumas crianças não corrigem uma letra escrita errada e escrevem logo em seguida a letra certa. ele emenda tudo sem . SATUX por SANDUÍCHE. o aluno quer escrever CASTELO e começa por CAT Em vez de apagar o T para escrever antes o S. resultando daí uma grafia estranha. tendo feito o "d". Assim. como não podem resolvê-las com o professor ou consultando livros ou outros recursos. Então. acabam escrevendo palavras somente com as letras que descobriram. Por exemplo. ao escrever IDADE. 19. Com o tempo e com um trabalho assíduo de escrita e de leitura. etc. resultando algo como i Outro exemplo. DONAIMEA por DONA ESMERALDA.

e têm dúvidas sobre como deve ser o traçado na forma minúscula ou cursiva.correção. explicando que se tratava de uma aranha preta. etc. resultando: CATSELO. Como têm certeza do traçado da letra na forma maiúscula. que sabe escrever umas poucas palavras. . Medo de escrever Mais raramente algum aluno. O medo de errar faz o aluno errar mais ainda e. "apachonada". acabam escrevendo: "cachorro". seus erros têm pouca lógica. às vezes. 20. erros de supressão ou de acréscimo de letras. começa a escrever coisas muito estranhas. Por distração. até adultos cometem. de repente. O que ele fez foi apenas preencher o espaço com letras para mostrar que escreveu algo. Exemplificando: A TIA DO FABIO FIO UM APTAPTAMAM P XJOQ E de estranhar que um aluno que escreva "A TIA DO FÁBIO" registre ARANHA CARANGUEJEIRA usando as letras APTAPTAMAM P XJOO. Inversões desse tipo são muito comuns. Letras maiúsculas O aparecimento de letras maiúsculas no meio de palavras às vezes tem a ver com o conhecimento da grafia das letras que os alunos têm. que depois leria corretamente para o professor. 21. nesses casos. tomado por um pânico muito grande.

e a escola precisa ver na letra feia também um erro a ser corrigido. estão acostumadas a ouvir pessoas falando dos mais variados modos. Letra feia Alunos que têm uma letra muito feia. mas quem lê (o professor) acaba concluindo que o aluno escreveu errado. Variação lingüística Como as pessoas usam a linguagem oral todos os dias. Sinais de pontuação Além das letras. podem até achar que escreveram <281> corretamente certas palavras. Cuidar da letra evita muitos aborrecimentos aos usuários da escrita.22. principalmente aqueles que traçam de maneira a tornar a decifração extremamente difícil. Erros dessa natureza não devem preocupar um professor alfabetizador. a escrita tem marcas e sinais de pontuação. 23. o professor não deve enfoca-los. chamando a atenção dos alunos somente depois que tiverem uma certa habilidade para ler e escrever e já estiverem produzindo textos espontâneos. . ERROS NA ESTRUTURAÇÃO DOS TEXTOS 1. No começo.

costuma ser mais evidente a presença de dialetos regionais e estigmatizados pela sociedade. Nesse caso. "pobrema". É sempre necessária uma boa explicação sobre a questão da variação lingüística e da norma culta. os professores são mais complacentes com a linguagem oral de seus alunos do que com a linguagem escrita. Erro causa do pela pronúncia estabelecida para certos elementos fonéticos. "uzómíveiu". "fumu".Por isso. incluem-se três tipos de erros mais comuns. e erros oriundos da má formação de concordância. Na alfabetização. como: "drentu". "askazakaiu". "Maria achou nós". "çértu" (com R retroflexo). Assim: "eu vi ele". como: "nóis vai". como: "bardji". A norma culta do português procura evitar esse tipo de construção. Erro causado pela forma lexical diferente que certas palavras têm nesses dialetos. na fala de muitos alunos. De modo geral. etc. Uso de pronomes Um tipo de erro que muitos professores corrigem é o uso dos pronomes retos em lugar dos oblíquos na função de objeto direto. etc. o que mais chama a atenção na fala desses alunos são exatamente as marcas estigmatizadas dos seus dialetos. 2. "ela viu eu". . obrigando o professor a tratar com mais atenção da linguagem oral do que professores de outras séries. "arriba".

Por exemplo. esse tipo de construção precisa ser evitado.Alguns escritores chegaram a usá-la em algumas circunstâncias muito específicas. "Ele falou uma piada . etc. Sintaxe Do ponto de vista da norma culta. O professor alfabetizador deve explicar o caso aos seus alunos e não se preocupar se eles continuarem com esse modo de falar. sujeito da oração. "em que". especialmente de falantes de dialetos estigmatizados. é freqüente o uso indevido do sujeito expresso por pronome pessoal em repetição ao indicado já por um pronome relativo. em frases como: 'A notícia onde apareceu o crime". sobretudo em lugar de pronomes e de conjunções. entretanto. de modo especial. para dar um tom coloquial à fala de personagens ou obter efeitos estilísticos. De vez em quando.. fazendo ver que na linguagem escrita. convém que o <282> professor volte a chamar a atenção dos alunos. como em: "Era uma vez um gato que ele saiu de casa e foi caçar ratos". há alguns erros de construção sintática muito comuns na fala de algumas crianças. "Eu fui na casa da minha vó que ela mora em Cascadura". Outra construção inadequada de acordo com a norma culta é o uso de "onde". como por exemplo "que". 3.

por isso mesmo. Alguns alunos dizem "né?!" ao final de cada enunciado ou apresentam cacoetes lingüísticos. Repetição Alguns problemas aparecem tipicamente em textos orais e escritos e devem ser objeto da atenção do professor. no sentido de ajudar seus alunos. há algumas repetições exageradas e desnecessárias que aparecem tanto nos textos orais quanto nos escritos.:'. "depois". Por tanto. ele deixará de se preocupar tanto com isso. Por exemplo. O professor alfabetizador deve mostrar o certo. desde cedo. "aí". Os alunos em geral não transportam esse tipo de problema para a escrita. como "ééé. "Tudo estava perdido. é preciso insistir em que alguns erros não serão corrigidos na alfabetização e.onde o papagaio morreu afogado". o aluno que escreve a todo instante palavras como: "daí". Todavia. Mas é bom ir sempre chamando a atenção do aluno quando o professor achar conveniente. Mais uma vez. o professor não precisará se preocupar muito com eles. esperando que os professores das séries mais adiantadas tratem do problema de maneira mais especifica. a melhorarem seus textos. Esse tipo de erro só se corrige depois de muita leitura de bons autores. O professor .. marcando todas as pausas que fazem. 4. mas não insistir. onde eu deduzo que havia muita corrupção".

. A repetição pode também ser desnecessária e. em frases como essa. O carro assim não pega. que o aluno deve começar sempre com o sujeito da oração. Ele falou: o carro está com a bomba quebrada. um texto como: "O mecânico chegou em casa. deixa o texto mais claro e de mais fácil compreensão.. nesses casos. O mecânico chama-se Toninho. O professor pode mostrar que há outros recursos para deixar o texto melhor. variando a estratégia de construção das frases. Por outro lado. costuma colocar nessa palavra o foco semântico. Ele viu o carro. sobretudo de séries mais adiantadas.pode pedir para o aluno melhorar seu texto. ou seja. mostra que o aluno faz seu texto preocupado demais com a boa formação da frase que a escola ensina. Num texto em que aparece: "O policial pegou o carro e ele saiu correndo na avenida". às vezes. A repetição. o uso do pronome "ele" pode trazer mais ênfase à narrativa. <283> Alguns professores. evitando a repetição dessas palavras. cabe ao professor analisar e discutir a questão com seus alunos. têm a mania de considerar errada toda repetição de palavras (geralmente substantivos ou pronomes pessoais) que ocorra proximamente. representado pelo acento frasal. Note que quem usa "ele". e sua supressão pode deixar o texto mais pasteurizado ou com menos vida.

no qual o aluno foi alfabetizado. pedindo-se para o aluno escrever histórias espontâneas. Veja este exemplo: O xale é de Xaxá. ou seja.5. No exemplo acima. não na vida real. Desse modo. e reflete um modelo muito típico de cartilha. cada assunto precisa ser tratado de maneira "lógica" e numa seqüência que acrescenta a cada instante uma informação a mais. Esse tipo de texto precisa ser evitado. O pato é belo. Os lingüistas dizem que um texto precisa ter "coerência". acabam produzindo textos semelhantes aos das cartilhas. Frases soltas — coerência Alunos que aprendem que um texto é um conjunto de frases. acabando por compor um texto mais próximo do seu modo de falar com as pessoas. Xaxá é a vovó. ele se vê preso à necessidade de seguir uma idéia através de várias frases. nem se sabe por que alguém diria aquele texto . O pato nada no lago. O texto acima só aparece como exercício na escola. completando o que foi dito antes. <284> no qual todas as peças vão se encaixando naturalmente. como quem monta um quebra-cabeça.

PEDRO FICOU FELIZ. se o texto fosse: PEDRO COMPROU UM CACHORRO. Não tem propósito aparente. às vezes. esse tipo de problema quase não aparece e. Por exemplo. quando vem. a seguir: O padeiro queria fazer um pão gigante e foi pedir ajuda ao João Pão Doce Ele pegou um saco de farinha e fermento que ele tinha e jogou água depois foi mostrar para o dono que a massa estava pronta para fazer o pão gigante. agora. Alguns alunos fazem. Se o professor adotar outra estratégia. tem um antecedente claro e bem-definido no texto. Elementos anafóricos são palavras que se referem a outras já mencionadas antes num texto. confusão com os elementos anafóricos. Veja o exemplo. que pode ser exemplificada pelo uso de elementos anafóricos e dêiticos. Porém.daquele jeito. levando seus alunos a produzirem textos espontâneos. Explicar por que esse tipo de texto não está correto requer um estudo maior da coerência textual. 6. ELE FICOU FELIZ. os pronomes servem para fazer uma referência a um nome dito antes. Coesão Outro problema típico de textos é a coesão. não requer explicações mais detalhadas. . por isso não se pode come çar um texto dizendo: ELE COMPROU UM CACHORRO. o elemento anafórico ELE. desestruturando o texto.

podendo se referir ao PADEIRO ou a JOÃO PÃO DOCE. a limpeza e o uso apropriado das letras maiúsculas e minúsculas. não se deve supervalorizar por se tratar de um texto de um principiante. Esse cuidado com os aspectos externos do texto devem ser apontados logo no início. causado em parte pela indefinição do ELE anterior e. tais problemas se resolvem quando o aluno passa a limpo seu . esses aspectos do texto deverão começar a ser exigidos pelo professor. o sujeito de FOI é o PADEIRO. Caligrafia Finalmente. Portanto. O pronome ELE na terceira linha fica sem antecedente claro. no início do segundo semestre. embora fale sobre eles com os alunos. quando os alunos já estiverem escrevendo com certa fluência. 7. o layout. cujos sujeitos estão ocultos. <285> Todavia. a forma de apresentação estética. Esse é um típico problema de coesão.Na segunda linha. É importante que o professor deixe os alunos produzirem seus primeiros textos sem essa preocupação. o professor não irá questionar esses aspectos. Na maioria das vezes. o professor deve avaliar nos textos dos alunos a caligrafia. como JOGOU e FOI MOSTRAR. todos os verbos. assim. por exemplo. O pronome ELE da linha 4 continua com o problema de indefinição. Depois.

na verdade. O professor deve ficar muito atento aos possíveis obstáculos à aprendizagem devidos ao fato de algumas crianças interpretarem erroneamente o que elas próprias escreveram. Textos que vão ser expostos. O ditado. é uma atividade lingüística muito comum em certas situações sociais. 1990. <286> 11 – Ditado e copia UMA ESTRATÉGIA LINGÜÍSTICA CHAMADA DITADO < CAGLIARI. enviados para alguém ler ou integrar livrinhos precisam necessariamente de um cuidado especial com a forma externa de apresentação. as crianças vão apresentar problemas de "clareza" na escrita por causa da dificuldade em escrever traçando bem as letras. Tudo . Tem-se notado que algumas crianças que não progridem apresentam um traçado das letras muito "desfigurado". razão talvez pela qual se tornou do agrado especial dos professores alfabetizadores. Treinar uma produção gráfica melhorando o traçado das letras é importante para que alguns desses alunos voltem a pensar corretamente a respeito do processo de letramento.trabalho. No início do processo de alfabetização.

por exemplo. do conteúdo da matéria de todas as aulas. e a cópia exige que o copista faça um ditado para si próprio. Quando se quer guardar uma informação. Quando se tomam notas numa conversa de telefone. em grande parte tratase de um ditado: alguém passa informações que são ditadas. antes de escrever. como nos escritórios. e as anotações que os alunos fazem são uma espécie de cópia. Em algumas profissões. O ditado leva quem escreve a fazer uma espécie de cópia do que ouve. Nessa prática. no final do ano. até à moda da escola.o que é ouvido é memorizado por certo tempo e depois esquecido. Nessas circunstâncias. Quando se quer que outra pessoa guarde uma informação nossa. ditamos o que ela precisa escrever. obviamente. Na escola. Ditado e cópia são atividades interdependentes. escreve-se. controlando o que escrevem. certas aulas expositivas são espécies de ditado. . ou até mesmo entender o que foi dito. a prática do ditado é intensa. e quem não faz anotações dificilmente se lembra. especialmente perceptivo-auditivas. constata-se também que é muito comum as pessoas se encontrarem em situações nas quais não sabem como escrever determinadas palavras. as pessoas checam seus conhecimentos e suas habilidades lingüísticas. às vezes. com a pessoa silabando o que diz ou usando referências acrofônicas. O professor fala como quem dita aos alunos. fazendo confusões fonéticas e semânticas.

avaliar o desempenho. como as anotações feitas numa aula. outros reproduzem apenas as idéias principais. esse sentimento é. expressões ou frases para a criança repetir. Os professores acreditam que o ditado serve para transmitir informações úteis. revelando os conhecimentos já dominados a respeito da escrita. e à medida que o resultado <288> se torna mais satisfatório. a mãe vai constatando que a criança está aprendendo a falar cada vez mais e melhor. largamente manipulado pela escola. certamente. vê-se que o ditado é uma . realizados apenas no plano da oralidade. Embora pouco recomendado. Nesse último sentido. Portanto. Esse quadro geral. A mãe ou o adulto dita palavras. de fato. A apresentação de modelos de fala e a reprodução desses modelos no processo de aquisição da linguagem também são estratégias lingüísticas à semelhança de ditado e cópia. gerando ansiedade. o ditado é uma prática que envolve mistério — não se sabe o que o professor vai ditar —. além de ser uma prática que constrange os alunos. obrigando-os a estudar. é o que tem levado muitos professores alfabetizadores a apostar no ditado como forma de aprendizagem. como as informações passadas por telefone. podemos ver que há vários tipos de ditado: alguns apegam-se mais ao literal. testar as dificuldades de realização de escrita.Pela experiência de cada um.

Quando o ditado envolve o conhecimento ortográfico. se a preocupação de quem dita é fazer com que seu interlocutor anote as letras das palavras ou simplesmente as idéias. enquadra-se nesse caso. Do ponto de vista da maneira como são feitos. . TOLO. Muitas vezes. Se o aluno já estudou o tá-té-ti-tó-tu e o lá-lé-li-ló-lu. certamente deverá saber escrever palavras como LATA. LOTA. em geral. os alunos simplesmente seguem o modelo apresentado. O professor ensina uma lição do bá-bé-bi-bó-bu. os ditados podem servir para avaliar o aluno ou para que seja cumprida uma tarefa de cópia de anotações ou de informações úteis. LUTO. na qual o aluno aprende a desmontar e a montar palavras e. etc. Tipos de ditado Quanto aos objetivos que se pretende alcançar.prática que possui todos os ingredientes de que a escola gosta. Esse método não leva em conta que o aluno pode ter outras estratégias para escrever e lidar com a ortografia. o professor vai testar se o aluno já dominou o que foi ensinado. algumas formas de ditado servem apenas para avaliar se o aluno sabe ou não escrever certas palavras. ditando-lhe as palavras já vistas. Esse é o tipo mais comum de ditado na alfabetização. os ditados podem ser fonéticos ou semânticos. TELA. Para esse método. depois.

não aprende ou. as crianças estão acostumadas a usar a linguagem priorizando a semântica das palavras e a usar palavras em frases e não a segmentar a fala em sílabas e a representar as palavras por letras (sem nenhum sentido lexical). neurológicas ou fonoaudiológicas. ao passo que. é porque não se concentra. Os próprios erros são outros. até mesmo.desmontando e montando palavras em sílabas (estudadas como famílias de letras). . quase todos os erros têm explicações muito convincentes relacionadas ao processo de reflexão que levou o aluno a escrever de determinado jeito. Entretanto. não é raro encontrar erros absurdos sem razão aparente. nos textos livres. porque tem dificuldades mentais. não estuda. Quando se comparam os resultados obtidos na escrita livre das crianças com os dos ditados tradicionais. Se o aluno erra. Nos ditados. percebem-se logo as diferentes atitudes que as crianças têm diante da linguagem nessas duas atividades. Essa é uma das razões pelas quais alguns alunos estranham enormemente a prática de ditados (e de ensino através do bábé-bi-bó-bu). não presta <289> atenção no que o professor diz. O fato de o professor avaliar justamente essas letrinhas das palavras incomoda ainda mais algumas crianças.

Curiosamente. servem de reforço para a aprendizagem. É o caso do professor que dita a palavra BALDE pronunciando o L como se fosse o som L de LATA. o aluno não escreveria da maneira correta. Tais ditados são realizados foneticamente. esses mesmos professores consideram que o aluno não deve escrever nada errado. Ora. o professor fala e o aluno escreve. mas precisam dar margem para o professor não dar sempre e para todos unicamente a nota máxima. pensando que se ele pronunciasse naturalmente o U. para não fixar o erro (sic!). quando deveria pronunciar U. seria melhor que ensinasse os nomes das letras e fizesse os ditados dizendo os nomes das letras. Para conciliar a avaliação com o ensino no ditado. Uns falam um dialeto <290> que a escola inventou para essa ocasião: o professor ensina aos . Mas. Acham que além de avaliar..Ditados para acertar a ortografia A maioria dos professores está muito convencida da eficácia dos ditados. esses professores desenvolveram técnicas especiais de ditar. onde ficariam a ansiedade e o mistério? Os alunos precisam acertar. nesse caso. pode variar. como vimos.. O modo como o professor fala. ou seja. de modo a dar todas as pistas fonéticas para o aluno saber que letra deve escrever. se o objetivo do professor é esse.

é com S ou Z? Nesse momento. o professor volta a ditar a palavra inteira CASINHA e o aluno constata que fez tudo errado e começa a apagar. . serve-se dessas regras para ditar. O aluno escreve CASI e pára. na hora do ditado. Quando presta atenção de novo no professor.. Em alguns casos. Depois. Porém. certos alunos se confundem e escrevem coisas absurdas. O resultado é: CASIZICANHA. porque fica pensando: CASA se escreve com S. dita pronunciando as sílabas isoladas. NHA. dado o esforço de concentração do aluno para analisar o que ouve e associar ao que já sabe. E CASINHA.alunos como associar certas letras a certas articulações e "mímicas fonéticas" e. o professor já está repetindo sílabas: CA.. CA. não é raro o professor ficar repetindo palavras ou mesmo pedaços de palavras. O aluno pensa que está atrasado e escreve de novo CA. Quando os alunos estão escrevendo. Finalmente. Outros professores procuram ditar as palavras falando mais naturalmente. este já está silabando NHA. e o aluno escreve o NHA junto com o CA. supondo que assim facilita o trabalho dos alunos. como o ditado ocorre com bases fonéticas. e o aluno já não sabe se corrige a palavra anterior ou se começa a escrever a palavra nova. FLORZINHA se escreve com Z. embora quase silabando as palavras. Começa falando-a normalmente. o professor passa para a palavra seguinte. Por exemplo. o professor quer ditar a palavra CASINHA.

com DÊ. vem do método do bá-bé-bi-bó-bu. Assim: DEODORO com D de DADO. próprio das cartilhas. nesses casos. Outro modo ainda vigente na sociedade é dizer as letras acompanhadas de palavras-chave. é comum as pessoas ditarem as palavras silabando. a primeira letra da palavra-chave. é raro as pessoas soletrarem. o princípio acrofônico (melhor seria dizer acrográfico). <291> provenientes de outras estratégias de alfabetização.Ditados no dia-a-dia A sociedade reflete em sua cultura procedimentos escolares. Ó. Todas essas estratégias para lidar com as palavras vêm dos métodos . quando eles os ajudam. é a letra que se pretende salientar na palavra em dúvida. DEODÓ. Assim. sem dúvida. REORU. Na cultura inglesa. e não TEODORO com T de TATU. e os falantes de inglês estranham que estrangeiros encontrem dificuldade em saber de que palavra se trata. aplicando-se. quando alguém fala algo que o interlocutor não entendeu. dizendo o nome das letras das palavras. Resumindo. Por exemplo: MARECHAL DE-O-DO-RO. isso é muito comum. No Brasil. Esse procedimento. como: DEODORO com DEEDÊ. que se supõe de conhecimento fácil. para que o interlocutor não confunda com TEODORO. nota-se hoje que. Outros procedimentos podem ser observados. soletrando.

essa atividade não é um ditado. Além dos tradicionais erros de ortografia. uma galinha. O professor desenha uma unha (com dedo cortado) e o aluno escreve MAXUQATO. e o aluno tem de escrever os respectivos nomes. e o aluno escreve BOLA. desenha-se um pato. O professor desenhou uma laranja. etc. com uma caligrafia que leva o professor a achar que ele escreve qualquer letra para qualquer palavra. sobretudo. O professor diz que é fruta e o aluno escreve MELÃO. da maneira como as escolas fazem ditados. Por exemplo. mas uma forma de induzir o aluno a escrever determinada palavra (daí a semelhança com os ditados fonéticos). uma vez que se apresenta ao aluno uma idéia para que ele encontre a palavra correspondente. podem ocorrer erros de interpretação das figuras. talvez. uma laranja. chamar esses ditados de ditados semânticos. Poder-se já. Anotações . Ditado mudo Alguns professores chamam de ditado mudo uma atividade que consiste em pedir para o aluno escrever o nome do que vê numa figura ou desenho. O tipo de erro que costuma ocorrer aqui também é diferente. Na verdade.de alfabetização e.

o que está a mais ou está faltando. existe toda uma arte na maneira de fazer anotações quando se ouve alguém falando. uns copiam só questões secundárias. Seria interessante que o professor. das coisas que os alunos precisam fazer para estudar na escola e sozinhos em casa. O professor pode fazer uma breve palestra que os alunos deverão acompanhar e anotar. por exemplo. passa-se a discutir o que cada um anotou. Alguns alunos têm como único modelo da tarefa de estudar o .Finalmente. numa aula ou numa palestra. Seria interessante que a escola orientasse os alunos nesse sentido também. etc. o que é mais importante. que são na verdade tipos de ditado sem o compromisso da cópia literal de tudo o que se ouve. Esses alunos ainda têm a coragem de dizer que o professor ditou a matéria errada. desde a alfabetização. discutindo com eles como se fazem essas anotações. outros de menos. Alguns alunos chegam à universidade e não sabem tomar notas: uns escrevem demais. A escola deixa que cada um se vire como pode. fosse ensinando como fazer anotações. o que é secundário. O professor pode passar sua experiência aos alunos. <292> outros anotam modificando o que ouvem e interpretando erroneamente o que foi dito. como da maneira como se estuda. Feito isso. e é o que os alunos acabam fazendo. A escola precisa cuidar não só do conteúdo.

não é um bom exemplo. quando o aluno escreve certo. uma vez que se escreve com L. o professor pensa que ele está dominando a norma culta e aprendendo corretamente as relações entre letras e sons. . Mas o que dizer de uma palavra como PORTA? O uso do R retroflexo aqui não é detectado pela ortografia. Como se viu anteriormente. A partir daí. Pode servir para o aluno desconfiar que sua pronúncia com R retroflexo em palavras como BALDE está longe da pronúncia da norma culta. Assim. ele não sabe mais quando escrever L e quando escrever R.que acontece nas salas de aula. e o que encontram aí. mas não é uma garantia disso. Escrever respeitando a ortografia pode ser uma maneira de o aluno ficar atento a formas típicas do dialeto padrão. A complexidade das relações entre letras e sons advém do fato de as palavras terem uma forma gráfica fixa e os falantes terem pronúncias diferentes nos diferentes dialetos. algumas vezes. A confusão aumenta quando o aluno percebe que BALDE fica "baudji". mas PORTA não pode ser dita "póuta". Ditado e ortografia Existe uma falsa idéia segundo a qual as letras das palavras representam uma transcrição fonética e que a ortografia estabelecida representa a pronúncia do dialeto padrão (ou norma culta). esse tipo de asserção é um equivoco.

ou se está certo ou errado.É muito difícil sustentar a afirmação de que os alunos aprendem a escrever fazendo ditados. formas de ensinar a fazer transcrição fonética. Esses ditados exigem que o aluno escreva corretamente as palavras. como irá resolver isso <293> num ditado? O aluno que tem dúvida se CASA se escreve com S ou com Z está num beco sem saída. de fato. Ditado e transcrição fonética Os foneticistas costumam fazer ditados para treinar as pessoas nas transcrições fonéticas. ainda. para aplicação das normas dos alfabetos . Ele pode tentar escrever e ver qual das formas lhe agrada mais. Esses ditados são. se o aluno não souber a ortografia de uma palavra. Ora. escrevendo do jeito que acham mais provável. Não há o que discutir. Em questão de ortografia.. Os ditados tradicionais fonéticos não ensinam nada e servem simplesmente como uma brincadeira (de mau gosto). será que essa é a melhor maneira de resolver uma dúvida ortográfica? Isso faz com que os alunos "chutem" a resposta. ou tiver dúvidas.. Servem. porque o aprendiz precisa pôr em prática o exercício de análise perceptual do que ouve. Todavia. A maneira correta de resolver é perguntando a quem sabe ou procurando num dicionário ou livro.

Os foneticistas gostam de trabalhar com palavras inventadas ou com palavras de línguas desconhecidas do aprendiz. sem qualquer preocupação com a ortografia. que ele pode . as dificuldades geralmente crescem. Os alunos poderiam estabelecer um valor fonético único para as letras (e dígrafos) e passariam a escrever ditados para registrar o mais fielmente possível a fala do professor ou a dos colegas escolhidos para ditar. Feito esse tipo de exercício. todo som de "çê" seria representado por Ç e somente por Ç — em vez de S ou SS. Nesse caso. Exercícios assim têm a vantagem de ensinar ao aluno que transcrição fonética não é ortografia. agora passando todas as palavras para suas formas ortográficas correspondentes. todo som de "i" seria representado por i e somente por i. Quando se faz esse tipo de exercício com dados da língua materna. porque os alunos estão acostumados a lidar somente com a ortografia tradicionalmente ensinada na escola. Seriam escritos somente os sons realmente falados. são formas predeterminadas para pronúncia e grafia das palavras. Uma utilidade interessante dos ditados fonéticos na escola seria ensinar a transcrição fonética. do modo como fossem pronunciados. Não envolvem nada de ortografia. para tirar toda influência da escrita (leia-se ortografia) sobre o exercício. o professor pode pedir para os alunos escreverem logo abaixo uma versão do ditado. usando diferentes dialetos.fonéticos de transcrição de pronúncias.

Na verdade. tampouco consegue se livrar dos ditados. são feitos ditados apenas para controlar a disciplina. para saber ortografia. a prática comum de ditados tem como finalidade real avaliar o desempenho dos alunos para constatar se já dominaram o que foi ensinado. Um professor mais bem-humorado pode usar os ditados como uma forma de jogo: os meninos ditam para as meninas e vice- . fica claro que o ditado não é uma boa forma de avaliação. Dados os problemas e as dificuldades apresentados acima. mesmo para alunos que são alfabetizados através do bá-bé-bi-b&bu. Como a escola não consegue se livrar da nota. Alguns professores contam os erros e calculam a nota ou o conceito. Ditado e avaliação Na escola. Na alfabetização.observar os sons da fala independentemente da forma ortográfica das palavras. os ditados são usados para dar notas. Tal atitude é tão absurda que nem merece comentários. É sempre um item indispensável nas provas e testes. por mais cuidadosa que seja. que o professor não sabe como aproveitar. algumas vezes. castigar a classe ou simplesmente ocupar um tempo ocioso. Essa consciência ajuda <294> o aluno a lidar melhor com as dúvidas ortográficas e mostra que não adianta a simples observação da fala.

inútil e deveria ser totalmente abolido da prática escolar. Pelas razões expostas. Não só não fazem falta. o significado da atividade também muda. mas despertar nos alunos o interesse pelas atividades da escola. Nesse caso. Nesses casos. para saber quem escreve mais palavras corretamente. Entretanto. Não é preciso lembrar aqui como acontece um ditado numa sala de alfabetização. O mínimo que se pode dizer é que se trata de uma cena patética e em grande parte ridícula. Pode-se até fazer um campeonato.versa. pelos estudos e tornar a aula mais alegre e animada. mas sem dúvida representa bem como funciona na prática o ensino do bá-bé-bibó-bu. ou dar uma nota num teste. o ditado não é necessariamente uma estratégia do método das cartilhas. nem avaliar a lição anterior. como isso ajudaria a eliminar vícios pedagógicos e comportamentos . como o enfoque muda. o objetivo não é ensinar ortografia. O ditado e o método das cartilhas Como vimos anteriormente. conclui-se que o <295> melhor a fazer com relação aos ditados fonéticos na alfabetização é aboli-los. Aquele ditado fonético que só serve para avaliar se o aluno já dominou a lição é lamentável. brincar de fazer ditado pode ser uma atividade interessante.

"lata" se decompõe em LA + TA. e o aluno volta a fazer tudo de novo. guiando-se pela palavrachave. se está progredindo ou não. Na prática. Essa questão é tão óbvia que o professor. CPA. o B de BARRIGA ou BEBÊ). MACACO. Ora. cujos chefes são as letras comandadas pela explicação da palavra-chave (ou seja. isso mostra que ele não aprendeu direito a lição. LA pertence ao lá-lé-li-ló-lu da família do L e TA pertence ao tá-té-ti-tó-tu da família do T. que não sabe desmontar e montar palavras com as famílias das letras. CAPA. Por exemplo. MACC. pode estar acontecendo justamente o contrário: o aluno entendeu do seu jeito o que o professor ensinou do jeito dele. E escreve LT Mas. diante desses casos. é composta de famílias de letras. E agora. em vez de LATA. saber se um aluno aprendeu ou não. do mesmo jeito. em vez de ter um alfabeto (que se esqueceram de lhe ensinar). Volta a explicar tudo de novo.inadequados perante a linguagem. Pega-se uma palavra. não sabe como tirar o aluno do impasse. . se um aluno escreve LT. O resultado do ditado demonstra o que o método produz: o aluno acha que a escrita. que é analisada em seus componentes (sílabas). através dos ditados. como se escreve "lata"? Conhecendo as famílias de letras. alguns professores acham que conseguem. Assim. o aluno pensa que está aí o contexto onde vai achar a letra para escrever. e achase a letra correspondente. direitinho.

então. principalmente o A. para se autocorrigir. Ele escreve as consoantes porque o método do bábé-bi-bó-bu. comumente atêm-se a receitas preestabelecidas. o ditado é uma das poucas ocasiões em que o aluno pode revelar seu erro.. porém raramente sabem interpretá-los. como vimos. sobretudo sílabas terminadas com a vogal A e. por que o aluno escreve MACC para MACACO e não apenas MCC? Isso mostra como o aluno. Para o método das cartilhas. aos poucos. além das consoantes. Conseqüências dos ditados na alfabetização . existem as vogais. e o acompanhamento do desenvolvimento do aluno é feito através de outras atividades. já viu que. não está interessado (não é uma hipótese guia) em escrever só pelas consoantes ou pelas vogais. Por outro lado.. Os professores acostumados com ditados detectam os erros dos alunos. Outros processos <296> de alfabetização deixam o aluno agir mais livremente e lidar mais conscientemente com o erro. Não são capazes de fazer um trabalho atento de análise de todos os fatores envolvidos. através de exercícios de montar e desmontar palavras. Nesses casos. o ditado não faz sentido. especialmente da produção de textos espontâneos e livres. vai arriscando escrever também as vogais. de fato. Quando o fazem. o induz a isso.

Alguns alunos se acostumam tanto com ditados que estranham quando o professor deixa de fazê-los em séries mais adiantadas. Outras formas de ditado acompanham a vida lingüística das pessoas. o ditado é a mais problemática e de conseqüências indesejáveis. não só do ponto de vista do que se faz na escola. recebendo a conseqüente reprovação no final do ano pelo acúmulo de notas baixas obtidas nos ditados. neurológicos. auditivos e articulatórios. porque realizada de maneira inadequada e inconveniente. psicológicos. mas também para reprovalos. como das conseqüências da avaliação. etc. porque pensam que ditado é sempre uma forma de puni-los. Alunos que erram nos ditados são considerados menos inteligentes. Outros não suportam de jeito nenhum que um professor dite alguma coisa para eles copiarem. o ditado tradicional é uma prática que deixa marcas dentro e fora da escola. fazer remanejamentos. . De todas as atividades da escola na alfabetização.Os ditados a que nos referimos anteriormente ocorrem como atividades quase exclusivas da alfabetização. na prática. mas infelizmente têm recebido pouca atenção da escola. mais levianos. punir com cópias alunos indisciplinados. os professores não lidam com os ditados apenas para avaliar se os alunos já dominaram ou não a lição em estudo. Entretanto. e classificados como deficientes mentais. Isso mostra que.

Os alunos. Vimos também que se pode fazer um campeonato com ditados. Alguns professores fazem ditados dizendo palavras que querem ver escritas e. a destruição da semântica das palavras. os ditados. O dialeto inventado pelo professor na esperança (vã) de tornar a ortografia um espelho do dialeto padrão. Quando e como fazer ditados Os comentários anteriores já provaram que de modo geral é preferível abolir os ditados da prática da alfabetização. a fala silabada. Mesmo assim. . induzem os alunos a concepções estranhas a respeito do funcionamento da linguagem oral e escrita. É claro que seria possível fazer ditados de textos. a redução da linguagem a listas de palavras desconexas. eles mesmos as escrevem na lousa. juntamente com outras atividades muito do gosto do método das cartilhas. etc. pedagogicamente falando. A linguagem vive nos textos. a maneira como o ditado lida com a linguagem reduz o texto a um amontoado de palavras. então. e os ditados vão justamente <297> contra essa noção básica da linguagem. nesse caso. são algumas das conseqüências indesejáveis dos ditados. quer com equipes de alunos.Além dos aspectos negativos já apontados. quer com indivíduos. apenas copiam do quadro-negro.

Modificar a pronúncia para ditar é justamente o que não . a melhor solução é a simples cópia. essa prática tem o inconveniente de apresentar muitas dificuldades com relação à ortografia. Os alunos acabam errando demais. Feita a atividade. Além das finalidades.Escrever o que se dita com a intenção de avaliar o desempenho dos alunos é sempre indesejável. Os ditados mudos e outras formas semelhantes de induzir os alunos a escreverem são aconselháveis. mas fazer ditados de textos interessantes para os alunos guardarem pode ser uma prática saudável. Nesses casos. o professor deve ficar atento à forma como devem ser realizados os ditados. Devem ser apenas ocasionais para não limitar a escrita a palavras ou frases extraídas de figuras apenas. à análise com comentários sobre cada caso. Uma prática que deve começar desde a alfabetização é o ensino de formas de anotar o que se ouve. Se o ditado se insere num contexto natural de uso da linguagem. Depois. procede-se a uma discussão geral e. e o professor e o aluno terão um trabalho a mais corrigindo. O professor pode brincar de jornalista: alguns alunos irão dar entrevistas e outros vão tomar nota. depois. como no ato de fazer anotações ou cópia de informações. Na alfabetização. as pessoas que falam e que escrevem devem usar a linguagem oral e escrita de maneira natural. invertem-se os papéis.

um procedimento que ofende a quem escreve. nem toda atividade de ditado é ruim: depende de como é feita. sobretudo das finalidades de sua realização e de um uso natural da linguagem. repetir o que se disse de maneira mais lenta. CÓPIA A cópia na Antiguidade A cópia é o método mais antigo de aprendizagem da escrita e da leitura. Ditar <298> silabando todas as palavras é ridículo e. No Museu do Louvre. quer no Egito ou mesmo na Grécia e em Roma. Assim. Essa prática permaneceu por muito tempo até que. na Antiguidade. além de aprender como o sistema de escrita funcionava. com o advento dos estudos de alfabetização nas escolas. as pessoas aprendiam a ler e a escrever fazendo cópias de textos de obras famosas.se deve fazer. se for uma simples falta de compreensão. Para esclarecer como se escreve uma palavra. no Museu Britânico e em outros. como exercícios típicos para aprendizes da atividade de escriba. o melhor é dizer quais as letras corretas que devem aparecer no contexto que gerou a dúvida ou. quer na Mesopotâmia. os aprendizes tomavam contato direto com os textos mais importantes. encontram-se trabalhos de cópia. Em suma. Inúmeros documentos mostram que. de certo modo. a .

aprendia como decifrar o que copiava e. Ele tinha diante de si. objetivo principal da tarefa de cópia. A cópia funciona como uma estratégia da aprendizagem da leitura e da escrita. Como falante de grego. ou simplesmente porque tinha memorizado a frase que lhe fora dada como exercício. quer pelo contexto. <299> À medida que ia fazendo mais e mais exercícios. o aprendiz recebia a tarefa de copiar uma frase de Homero. não se copiava. O ato mecânico de reprodução do texto do exercício era considerado secundário. que podia reconhecer quer a partir das relações entre letras e sons. ia copiando letra por letra e procurando os sons correspondentes até montar as palavras. mas não é a única nem a principal. numa tábua. O aprendiz que faz uma cópia precisa refletir sobre o texto escrito que ele reproduz. o alfabeto grego. ou seja. Na Antiguidade. A cópia é útil quando associada às demais explicações que o aprendiz precisa receber de quem conhece como o sistema de escrita funciona. nesses casos. por exemplo. para guardar . Sabia que as letras tinham nomes que permitiam decifrar a leitura. finalmente.aprendizagem da leitura e da escrita tomou novos rumos. precisa tomar algumas decisões sobre como vai proceder para copiar e. portanto. Já dizia um provérbio latino: "Quem escreve lê duas vezes". comparar o que fez com o original. desenvolvia a habilidade da leitura.

não consiga decifrar o sistema de escrita. Os resultados alcançados são evidências muito preciosas para indicar ao professor o que o aluno sabe e o que não sabe a respeito da leitura e escrita. e o professor deve aproveitar esse tipo de atividade como estratégia de ensino. por si só. Portanto. Embora a criança. faz perguntas para si própria e propõe soluções para seus problemas. pelo contexto. uma palavra que encontrou escrita em objetos. a juntar informações. o simples ato de se copiar um rótulo. muitos professores pensam que é um bom começo deixar as crianças copiarem as palavras que encontram nas situações cotidianas. induz o aluno a comparar coisas iguais e coisas diferentes. pode aprender a refletir sobre ele e certamente aprenderá coisas. etc. copia e avalia o resultado obtido. traz informações sobre o sistema de escrita e obriga a criança a refletir e a levantar hipóteses enquanto vê. livros. a deduzir. Cópia e aprendizagem do sistema de escrita Pelo envolvimento com a escrita que a cópia promove. porque ocorre uma letra assim ou de outro modo.um documento. usada logo no início. Alguns professores consideram que a cópia é um simples . Ao proceder assim. Esse tipo de atividade. paredes. como iria acontecer mais tarde com muita freqüência com os escribas. a criança toma iniciativas. Isso é importante.

que som tem determinada letra naquela palavra.exercício mecânico e que o aluno pode ficar copiando durante muito tempo sem se alfabetizar. ocasiona esse tipo de problema. poderá ter como reação um ato mecânico. Se o professor manda o aluno copiar algo como tarefa de escola para reproduzir um modelo. que não ajuda em nada no processo de alfabetização. a cópia é uma ótima estratégia de ensino. etc. Escrever uma palavra ou frases. Isso é verdade e pode acontecer. <300> Se o professor começar dando oportunidade para os seus alunos copiarem palavras que encontram nos ambientes onde vivem e perguntarem tudo o que quiserem saber sobre o que estão fazendo. vão procurar descobrir que letras copiaram. e mandar o aluno copiar pura e simplesmente. .. se o professor transformar a cópia numa tarefa que se realiza mecanicamente. O professor precisa conversar com os alunos e dizer a eles que. é preciso compreender bem a natureza da atividade de cópia e tomar cuidados especiais na sua realização. ou seja. com que letra começa a palavra. vão precisar saber o que está escrito. a cópia precisará despertar a curiosidade do aluno e predispô-lo a uma análise de como as letras são e de quais sons existem nas palavras copiadas. na tarefa de copiar. que letra vem depois. Por isso.

fazem o que chamamos de rabiscos. Algumas crianças vão mais longe e reproduzem com bastante semelhança formas gráficas da escrita. O professor irá falar sobre o mundo da escrita que existe no meio em que o aluno vive e irá pedir para que eles observem. . irão colocar apenas material escrito. separando assim desenhos de letras. para sentir um pouco o que é escrever e ler. copiando ou não. fazendo comentários orais. Em geral. Copiar a embalagem toda é outra atividade possível. e copiem algumas coisas para mostrar aos colegas. Numa folha de papel. Ao fazer isso. Uma das tarefas iniciais da alfabetização pode ser esta: pedir aos alunos que tentem escrever (mesmo sem saber). apesar de suas limitações para usar o lápis.A cópia e a descoberta do mundo da escrita Algumas crianças. desde então. letras e até palavras. e constatando como se dá a escrita acompanhada de figura e feita apenas de letras. muito antes de se encontrarem em situação de aprendizagem na sala de aula. algumas explicações básicas sobre o sistema de escrita. brincam não só de imitar os adultos que escrevem. explicitam as idéias que têm a respeito do mundo da escrita. O professor pode solicitar aos alunos que tragam para a aula embalagens pequenas nas quais apareçam coisas escritas. Seria bom que essas crianças recebessem. como também de copiar material escrito.

Essa atividade pode ser feita não só com lápis e papel. como também através de letras soltas. sinais. animais e objetos.Ainda bem no início. marcas. sendo. pois. útil e mesmo necessário no início da alfabetização. que são escolhidas e montadas em lugares próprios. há muitos pictogramas. uma folha para cada alfabeto (conjunto completo de letras de um determinado tipo). eles podem confeccionar um álbum de letras. O professor irá solicitar que usem. nomes de colegas. acompanhadas <301> da colagem de figuras. Cada página pode ter um título: . Copiar. além de letras. os alunos podem copiar. por exemplo. No mundo da escrita em que vivemos. para compor etiquetas e formas de identificação de pessoas e lugares na escola. por exemplo. uma espécie de cópia. recortar e colecionar esse tipo de material é um exercício interessante.. que constituem excelente material para os alunos refletirem sobre o sistema de escrita. usados. etc. Essa também é uma forma de identificação entre um modelo e o resultado de uma tarefa. juntamente com os desenhos. Colecionando letras e palavras Depois que os alunos já souberem que se escreve com letras e que o alfabeto é um conjunto limitado de caracteres que podem ter formas gráficas diferentes.

quando estiverem mais adiantados. etc. letra da propaganda Y. Os títulos podem ser obtidos de outro modo. o professor pode propor o dicionário da classe. seguindo o padrão gráfico das letras já feitas. para mostrar onde deverá ser colocada cada letra. letra florida. os quais. não se encontram todas as letras do alfabeto para copiar. de tal forma que os alunos passem a ter uma espécie de manual de letras ou álbum de alfabetos. Às vezes. o professor pode pedir para os alunos copiarem só o que acharem e. mais tarde. Esse tipo de atividade pode se estender para as séries posteriores. minúsculas. baseando-se nas características gráficas das inúmeras formas que as letras podem tomar. por sua vez. O professor pode desenhar um quadro na folha de papel para os alunos fazerem as letras nos respectivos quadradinhos. usando a imaginação: letra do jornal X. os alunos podem também recortar letras e colar nos respectivos quadradinhos do álbum. Em vez de copiar graficamente. O professor deve ficar atento para ajudar os alunos a não misturarem alfabetos diferentes. como se fossem figurinhas. Quando os alunos já estiverem lendo e escrevendo palavras isoladas. Nesse caso. letras cursivas. Cada . podem estar marcados sempre com letras de fôrma maiúsculas num dos cantos. listrada.letras de fôrma maiúsculas. porque elas não aparecem no texto consultado. voltarão a essa atividade e tentarão completar os alfabetos.

o professor pode pedir para os alunos copiarem em colunas cinco palavras que comecem ou acabem com determinadas letras. Por exemplo. colocando-os em quadradinhos que correspondam aos lugares . Às vezes é preciso dar uma orientação mais detalhada. em outra coluna. O ou U. e. seguindo as instruções do professor quanto a layout. Esse trabalho de cópia exige do aluno muita concentração. na qual irá escrever uma palavra. Podem-se fazer duas caixas: uma com fichas de palavras escritas pelos alunos e outra com fichas de palavras recortadas por eles. Essas palavras servirão para esclarecer aos alunos as relações entre letras e sons. ao mesmo tempo. numa coluna. ilustração. e acompanhada de A. etc. para deixar claro o valor fonético da letra C nesses dois contextos. o professor pode formar com os alunos conjuntos fechados de palavras. As crianças fazem uma lista com os nomes dos colegas. Além dessas coleções que podem ser sempre aumentadas. Ligado às atividades de ensino. propicia as primeiras reflexões sobre o funcionamento do sistema de escrita e de leitura. se o professor estiver estudando a letra C. certamente irá pedir para os alunos copiarem palavras que comecem com a letra C acompanhada de E ou de I.aluno irá enriquecer o dicionário <302> preparando uma ficha.

o aluno pode aparentemente apresentar um resultado correto na sua cópia. então. quando todos estão sentados.próprios de cada um na sala de aula. dizer que a cópia é uma técnica para decorar algo escrito. Cópia não é um reforço da aprendizagem. pode servir como reforço da aprendizagem. recuperá-las e escrever <303> palavras corretamente. Melhor seria. memorizar informações sobre o que fez e. que misturam escrita com desenho (quadradinhos). como faz o método das cartilhas. porém. que confecciona um pôster que os alunos copiarão depois em uma folha de papel. e que. dando a impressão de que as aprendeu. Esse tipo de trabalho pode ser feito de forma coletiva sob o comando do professor. Nesse caso. na hora do ditado. a não ser num processo de alfabetização no qual o aluno decora e repete um modelo. Esse aluno. Copiar não é apenas repetir um modelo Os professores que seguem o método das cartilhas usam a cópia como reforço da aprendizagem e como um exercício típico de tarefa para ser feita em casa. apresentam desafios e são excelentes para ensinar os alunos a se organizarem nos estudos. uma vez realizada. . Atividades como essa. pode esconder o fato de não saber ler.

Muitas pessoas acham equivocadamente que decorar é algo indesejável no processo de aprendizagem. Copiar para memorizar Copiar para decorar algo escrito pode ser uma armadilha para o aluno que não sabe decifrar a escrita. sendo ele obrigado a fazer tudo segundo o modelo apresentado pelo professor e. desse modo. transformando-a em leitura. esse tipo de cópia é útil para ensinar os alunos a decorarem textos. No entanto. principalmente se ele fizer muitas cópias como reforço da aprendizagem.Chegará o dia em que terá de ler ou escrever algo que não foi dominado. O problema apresentado aqui. Essa constatação tem levado vários professores a abandonar a cópia por considerar que ela não passa de um exercício mecânico. na verdade. Por outro lado. sem entender verdadeiramente. O método das cartilhas tira a chance de o aluno refletir. o ditado pode ser muito enganador como instrumento para verificar se o aluno aprendeu ou não. não está nas atividades em si. apenas decora o que lhe apresentam. e a manter o ditado como um exercício revelador dos conhecimentos adquiridos ou não pelos alunos. e ele não saberá o que fazer. mas no método das cartilhas. quando. Já dizia Dante . Simplesmente não se fixa a aprendizagem de algo que não se aprendeu. é essencial. na verdade.

um texto em prosa. depois. incluindo não apenas obras literárias. a escola deveria cultivar a memorização. a escola usa uma estratégia de maneira . Como acontece com muitos fatos escolares. faz parte de uma certa erudição que a escola deve cultivar em seus alunos. procura-se reproduzir o que se quer decorar. Decorar apenas com a repetição do texto é uma estratégia que exige mais tempo. até que um texto relativamente longo esteja sob domínio da memória. o que se consegue melhor fazendo cópias mecânicas. desde as primeiras séries. Essas pessoas estão acostumadas a ler somente textos literários. escrevendo. Faz. ou mesmo uma peça literária para um jogral ou um teatrinho. Algumas pessoas dizem que não são capazes de decorar uma poesia longa. <304> de cabeça.que depois de entender é preciso decorar para que haja conhecimento e ciência. Desde a alfabetização. Copia-se um pequeno trecho umas duas ou três vezes e. mas também científicas. um diálogo. esse é um aspecto muito mal compreendido por vários profissionais ligados à educação. mas é muito usada por artistas.se isso em círculos cada vez maiores. Infelizmente. Citar um autor ipsis litteris. o que acarreta sérias deficiências na formação dos alunos. Decorar é uma atividade diferente: exige outro tipo de análise do texto.

de livros. Copiar informações. eles demonstram relutância em executar esse tipo de tarefa. etc. por ser seu contexto correto. por isso. quando deveria empregá-la. não o faz. prejudicando-se muito nos estudos. se o aluno não presta atenção às explicações do professor. uma das atividades mais comuns de escrita consiste em copiar informações do quadro-negro. ou algo específico de uma lição. para punir alunos indisciplinados. A cópia interpretativa com transliteração Como vimos acima. se o problema for de indisciplina.inadequada num determinado momento e. de apontamentos. Um professor deve ser também um educador e há maneiras mais inteligentes e eficazes de educar uma criança que não punindo. às vezes. A própria escola tem muito pouco senso crítico para sair de sua incompetência e ver o mal que causa aos alunos com certos comportamentos punitivos. passar a limpo acaba parecendo para alguns alunos uma forma de punição e. concluindo que não serve aos seus propósitos. depois. A cópia como punição A escola tem consciência de que alguns exercícios de cópia não passam de pura repetição mecânica. fazer cópia pode ser uma boa atividade . Na escola. A punição consiste em copiar inúmeras vezes uma frase de cunho moral. textos. Por essa razão. utilizase dela.

é importante que peçam cópias. <305> Outra atividade importante na alfabetização. que consiste em copiar um texto escrito com um tipo de alfabeto. além de copiar.de iniciação ao mundo da leitura e escrita. passando-o para outro tipo de alfabeto. passando da letra cursiva para a de fôrma. põe em jogo uma análise do sistema de escrita e usa de sua reflexão para descobrir os mecanismos da escrita e leitura. o traçado das letras maiúsculas. Para os professores que obrigam os alunos a escreverem em letra cursiva desde o início. Assim. minúsculas. Há outros usos da cópia que ajudam os alunos a progredir nos estudos. . um aluno pode supor que a letra de fôrma maiúscula M. corresponde à letra n cursiva. das letras cursivas ou mesmo de letras enfeitadas. Por exemplo. ligada à cópia. o texto vem com letras de fôrma e o aluno o passa para letra cursiva ou vice. seguindo o exemplo dos desenhistas e artistas.versa. O uso de gabaritos ou grades para orientação do traçado das letras é sempre uma técnica aconselhável. por ter somente "dois morrinhos". quando a criança. Um aluno pode copiar para aprender a forma gráfica das letras. mostrando que alguns alunos podem interpretar a forma gráfica das letras de maneira curiosa. Esse tipo de exercício costuma revelar surpresas. é a transliteração.

isso mostra que o aluno está com sérias dificuldades de leitura e que não aprendeu corretamente a decifrar a escrita. o sc. Um exercício muito salutar para explicar aos alunos as dificuldades que a escrita cursiva oferece para a leitura é apresentar a eles um texto manuscrito em outra língua. nesses exemplos.). etc.Erros de cópia. como aconteceu com uma criança que sabia ler e escrever. composta de i + v. que a letra P minúscula tem traçado igual a j + s. fornecido pelo próprio professor. Por outro lado. não são apenas casos de distração: o aluno pode estar usando um raciocínio errado. Essa idéia estranha a respeito da letra só foi detectada quando o aluno fez cópia passando da cursiva para a escrita de fôrma. Para isso. é claro que o professor precisa estar atento ao que o aluno faz. o nh. Exercícios de cópia com transliteração ajudam a evidenciar esse tipo de problema. etc. Quando aparecem erros como os apontados acima. analisar cuidadosamente os erros e interpretar corretamente as razões que levaram esses alunos a cometê-los. mas que achava que a letra B cursiva minúscula era uma "letra dupla" (como o lh. deverão passar da . Como eles não sabem que palavras estão escritas. um aluno pode achar que a letra cursiva maiúscula A é formada de traços semelhantes aos das letras C + e. Se o erro for apenas circunstancial (um caso apenas). revela unicamente uma interpretação idiossincrática por parte daquele aluno.

ele deve guardar para enriquecer seu arquivo de material pedagógico e sua atividade profissional. De acordo com a tradição educacional de cada país. Os franceses e os americanos. Essas coisas não passam despercebidas a um bom professor e. para os alunos da primeira série passarem para a versão com letras de fôrma. por exemplo. Depender só de livros didáticos não é uma boa estratégia. podem comparar com o modelo feito pelo professor e ver que tipos de dificuldade encontraram. escrevem algumas letras ou juntam letras na escrita cursiva diferentemente dos brasileiros. interpretando apenas os aspectos gráficos das letras e os modismos de quem escreveu.escrita cursiva para a escrita de fôrma. Uma variação dessa atividade consiste em usar como material <306> texto manuscrito feito em português arcaico. Alguns professores vivem tão fechados dentro dos métodos que aprenderam nas escolas de formação e nos livros que usam que nem sequer se dão conta de outras questões. Outra maneira de realizar essa atividade é usar letras de alunos da segunda série (textos espontâneos) escritos cursivamente. O professor deve promover uma discussão com seus alunos para . ao encontrar material que exemplifique. as pessoas costumam usar diferentes formas gráficas para traçar as letras. Exercícios de transliteração não devem ser feitos e guardados. Depois.

para que o aluno não se torne apenas um simples imitador. A escola precisa aproveitar mais o que faz. usa outra construção sintática. sua organização e desenvolvimento. <307> . exercícios dessa natureza precisam ter como modelo um autor excelente e um texto exemplar. É claro que a escola vai tratar desse assunto delicado com cuidado. Por isso mesmo. O aluno troca palavras. em vez de ensinar o melhor. caso contrário.analisar os erros e as dificuldades encontradas. Esse tipo de cópia é muito bom para o aluno refletir sobre a maneira como o texto original foi feito. andando junto com o autor na elaboração de um texto. Reescrevendo com cópia Outro tipo de cópia interpretativa que ocorre mais adiante nos estudos é a que propicia ler um texto e escrevê-lo com suas palavras sem se afastar do modo como o autor fez seu texto. para discutir com seus alunos o processo de execução e os resultados obtidos. A reflexão coletiva motivada por essa atividade é tão importante quanto a realização da própria transliteração. O objetivo aqui é experimentar. mas seu texto permanece um reflexo próximo do texto original. Ajuda a observar estilos e formas culturalmente marcados de tratar certos textos ou assuntos. passa-se ao aluno um exemplo menos interessante.

agregando à interpretação todas as informações que o explicam e que são decorrentes dele. Éo que se chama de exegese de um texto. é mais difícil entender o problema em toda a sua extensão e complexidade do que saber fazer as contas para chegar ao resultado correto. às vezes. até ele constatar que a sintaxe de base é a mesma. dando ao aluno uma frase para ele copiar. ou substituindo progressivamente todas as palavras. Toma-se uma frase do texto e procura-se fazer o comentário mais apropriado para explicar em detalhes o que o trecho do texto original significa. as várias etapas que o . etc. conseguem que seus alunos lidem com mais naturalidade e competência com a solução dos casos apresentados. Através do exercício de exegese. Interpretação de texto através de cópia Uma forma sutil de cópia interpretativa é. praticada em atividades de interpretação de texto.Um exercício semelhante ao mencionado anteriormente pode ser feito no início da alfabetização. de fïsica). enigmas. religiosa. substituindo uma ou mais palavras que ele queira. mas a semântica é outra. textos de reflexão filosófica. Professores de matemática que ensinam seus alunos a fazerem uma "exegese" dos problemas. como problemas (de matemática. Em geral. Existe um tipo de interpretação de texto que é muito útil para analisar o conteúdo de certos textos.

Copia-se o que se ouve do professor. A organização da informação é essencial para que ela seja usada quando necessário. até mesmo. A cópia como forma de colecionar informações O tipo de cópia mais freqüente na vida escolar é a que serve para colecionar informações. aprender a organizar arquivos de informação é algo muito importante. um pensamento. com o uso comum de computadores.problema exige vão se apresentando mais claramente. Copiar grande quantidade de material exige uma atividade de catalogação e de organização de arquivos que a escola deve desenvolver nos alunos desde a <308> alfabetização. Copia-se a linguagem pelo conteúdo e pela forma gráfica. uma idéia de um livro. Essas atividades de cópia estão ligadas à organização da . Hoje. uma piada ou um simples nome. inclusive a ligação de uma parte com outra. copiar reproduzindo a forma gráfica original tem um poder mágico que a simples escrita não tem. um texto e. Isso se aprende também na escola. um conteúdo qualquer. por razões sentimentais. Só isso basta para mostrar que a cópia é uma atividade muito importante na escola e que não deve ser tratada de maneira equivocada pelos professores e pelos educadores em geral. Às vezes.

desenhos. dependendo menos da escola. também.informação em arquivos. as crianças colecionarão material útil aos seus estudos e até à vida profissional futura. fotos. Assim como um aluno coleciona selos. O professor deve. fichas com anotações. A escola deveria incentivar seus alunos a formar esses arquivos e a manter um banco de dados pessoal ao longo de seus estudos. sempre ensina mais e melhor do que a teoria. Através de cópias. . A medida que o tempo passa. nesses casos. árvores. e os alunos vão tendo melhores condições de estudo em casa. podem-se montar coleções de tudo o que existe de escrito. além de colecionar objetos. ensinar seus alunos a realizar essa tarefa de modo eficiente. pode colecionar informações sobre passarinhos. A prática. flores. aprender ele próprio a manter organizado seu arquivo de material e. etc. até poesias. esse banco de dados vai se enriquecendo. A escola muitas vezes não sabe ensinar os alunos a utilizar os conhecimentos escolares para fazerem coisas úteis para a vida. em primeiro lugar. crônicas e informações curiosas ou úteis a respeito de qualquer assunto. desde formas gráficas de letras e alfabetos. As crianças adoram colecionar. Há estudantes que infelizmente acham que tudo o que está relacionado à cultura é tarefa escolar e que não faz sentido além das quatro paredes da sala de aula. e se a escola souber aproveitar isso. mantendo um arquivo com recortes.

porque associam essa tarefa à de cópia punitiva. das coleções e dos álbuns. rotular. finalmente. envolvendo isso tudo. passar a limpo. há muito trabalho de cópia e. executar uma versão preliminar num rascunho. A educação não germina em meio à desorganização mental e material. etc. <309> Uma atividade especial de cópia é a tarefa de passar a limpo a lição. Como se viu neste capítulo. Depende do professor fazer um tipo de uso ou outro. dispor em espaço adequado são aspectos importantes da organização dos arquivos. por trás da atividade de estudar. Essa é uma atitude que ajuda os alunos a entenderem a disciplina como uma forma de organização social.Classificar. A escola deve cultuar o hábito de o aluno fazer um planejamento do trabalho que vai escrever. <310> . corrigir e melhorar e. A organização material é prova da organização mental. Como se vê. há um trabalho de organização que é essencial no processo educativo. Muitos alunos detestam passar a limpo uma lição. caixas. folhas. uma atividade como a cópia pode ser bem aproveitada na escola ou pode ser usada como uma forma equivocada de ensino ou mesmo de punição. A distribuição espacial do material nas fichas. além do conteúdo das matérias. também merece cuidado especial.

e a simples decifração deixa de ser uma preocupação constante nos estudos. Alfabetizar é. e não o inverso. Na alfabetização. a decifrar a escrita. ensinar alguém a ler. ou seja. O uso da leitura como forma de pesquisar adquire uma importância secundária. da leitura para conhecer um texto escrito. Trata-se. É preciso distinguir bem esses dois usos da leitura. na maioria das vezes.12 LEITURA E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO LEITURA Ler é decifrar e buscar informações Já se sabe que o segredo da alfabetização é a leitura. a leitura como decifração é o objetivo maior a ser atingido. Os próprios textos escritos são. pretexto para trabalhar a leitura como decifração. ou seja. então. Depois que o aluno se tornou fluente na leitura. vista sob esses dois aspectos. a partir da compreensão da própria natureza e funçãoda leitura. o uso da leitura como busca de informação torna-se o objetivo mais importante na escola. Escrever é uma decorrência desse conhecimento. parte-se sempre do pressuposto de que o aluno já sabe decifrar a escrita. na sua essência. sabe decifrar a escrita com facilidade. Na prática escolar. . por isso o termo "leitura" adquire outro sentido.

o que são letras e como as diferentes formas de letra dão origem aos diferentes alfabetos que usamos. Uma simples reflexão sobre isso nos leva a concluir. arranjar as idéias na mente para montar a estrutura lingüística do que vai dizer em voz alta ou simplesmente <312> passar para sua reflexão pessoal ou pensamento.Ao longo deste livro. Deve saber por que uma forma gráfica pode ser interpretada como a letra A. e não de outra maneira. apesar disso. Entretanto. Além da decifração Quando lê. muito se disse para mostrar o que uma pessoa precisa saber para ler a diversidade do nosso mundo de escrita. continuar reconhecendo nele a mesma letra — em poucas palavras. Para quem já sabe ler. uma pessoa precisa. Sem . a passagem pela estrutura lingüística é essencial. que essa pessoa precisa saber a língua portuguesa. entre outras coisas. é preciso adquirir certos conhecimentos. função e usos da ortografia. o que se consegue somente com o reconhecimento da natureza. em primeiro lugar. para chegar a esse ponto. a diferença entre desenho e escrita. e até que ponto pode variar a forma gráfica de um caractere e. Em ambos os casos. parece muito fácil e natural. ser capaz de identificar a categorização gráfica e funcional das letras.

não basta decifrar os sons da escrita nem é suficiente descobrir os significados individuais das palavras. a isto é preciso acrescentar conhecimentos mais amplos exigidos pelo próprio texto. Um texto vive das relações entre as palavras e as frases em todos os níveis lingüísticos. sem contudo revelar o significado do que está sendo dito. A decifração. Outros conhecimentos podem ajudá-lo a pronunciar as letras e talvez até as palavras. por exemplo. Os conhecimentos da escrita podem ser poucos. pode ser feita por etapas. Quando uma pessoa fala espontaneamente. não pode existir fala nem leitura de nenhum tipo. permitindo ao leitor descobrir inicialmente apenas os nomes dos caracteres. As vezes.isso. Este último caso acontece. Somente o conhecimento pleno da língua que a escrita representa é capaz de dar ao leitor condições adequadas para uma leitura que englobe a decifração e a compreensão. porém. portanto. não existe linguagem e. quando um lingüista lê a transcrição fonética de uma língua totalmente desconhecida para ele. segundo as regras dessa língua. Para que um leitor leia um texto e compreenda o que está escrito. Tudo isso é processado antes de o falante abrir a boca para . e de forma coesa e coerente. constrói o que vai dizer integrando todos esses elementos de tal modo que seu pensamento seja expresso numa determinada língua.

toda pessoa. Contudo. do controle sobre aquilo que se diz. pronunciá-los em forma de palavras. Assim. ou seja. acontece apenas como um processo de feedback. elabora . <313> Perdurando essa prática. Essa maneira de ler é freqüentemente encontrada nas aulas de alfabetização. uma depois da outra e chegar ao conhecimento do conteúdo semântico do texto escrito. No entanto. um leitor que acompanha o que se lê unicamente como ouvinte de si próprio. se apropria das idéias que descobriu no texto. processar a compreensão da linguagem. O correto é uma leitura na qual o leitor decifra o que está escrito. devido ao modo como os professores obrigam seus alunos a ler. uma pessoa pode falar e ouvir a si própria e.pronunciar as palavras. e acaba sendo um mau leitor. é também ouvinte — ouvinte não só das outras pessoas. Portanto. como a linguagem tem todos esses aspectos. além de falante. mas também de si próprio. Isso. a partir dessa audição. é possível uma pessoa decifrar os sons das letras. O processo de produção da fala tem sua origem muito antes de o falante dizer algo. obviamente. não basta a simples articulação de sons da fala para que uma pessoa entenda o que está sendo dito. o aluno acaba entendendo que é desse jeito que se deve ler.

passa a dizer o que leu. Talvez isso seja irrelevante. Além disso. algumas dessas dificuldades aparecem com maior ou menor freqüência. Nas explicações dadas acima. seguindo a lei da fidelidade ao literal do texto. o leitor pode conhecer todas as palavras. numa fala que traduz o texto e revela seu modo de interpretá-lo. Se encontrar uma palavra escrita numa grafia errada. pode enfrentar uma tarefa de decifração gráfica. saber como pronunciá-las e não entender o texto. tendo em vista a história dos conhecimentos que possui e o que o texto revela. porque é de certa forma hermético ou incompreensível para o leitor. Esse tipo de leitura todos nós fazemos no dia-a-dia. uma criança que está aprendendo a ler encontrará grandes dificuldades logo . Talvez ele descubra o significado ou o campo semântico dessa palavra em função do contexto em que essa palavra se insere. Dependendo do texto e do leitor. e lerá essa palavra sem detectar o seu significado. pode ter dúvidas sobre o valor fonético de alguma letra (por exemplo. talvez não. mais fácil torna-se ler novos textos. Quanto mais se lê. dependendo do que se encontra pela frente. Por outro lado. X).todos esses conhecimentos como se fossem seus e. nota-se como se pode ler de várias maneiras. terá de avaliar o que lê em função das possibilidades de escrita que a própria ortografia da língua gerou no sistema de escrita. Se o leitor encontrar uma letra escrita de forma não-usual. Se se deparar com uma palavra desconhecida.

Leitura e planejamento lingüístico A leitura em voz alta ou a leitura em silêncio tem de passar por todas as etapas descritas acima. Querer ler mais depressa ou mais devagar do que a velocidade com que se fala pode trazer dificuldades para a compreensão do que se diz e mesmo para a própria pronúncia. as leituras . A única diferença entre elas acontece no momento em que. Em ambos os casos. quando a leitura se realiza em voz alta. mesmo que seja uma variedade da língua estigmatizada pela sociedade. Certamente. quando lêem para si próprias. o leitor decide se irá dizer em voz alta o que leu ou simplesmente passar aquela estrutura lingüística para seu intelecto.de saída. o planejamento lingüístico deve ser completo. depois de processada a produção da fala com os elementos extraídos da decifração e complementados com o que a língua exige. É por essas razões que se pode afirmar que a melhor velocidade de leitura é a velocidade normal de fala. inclusive <314> com relação à escolha da variedade dialetal e à determinação fonológica e fonética do que está para ser dito. não estranham em nada o fato de dizerem o que lêem no próprio dialeto. a começar pelo simples reconhecimento das letras. Muitas pessoas nunca se deram conta de que. que varia de falante para falante.

acaba tendo. Um texto escrito não corresponde exatamente a um texto oral que queira dizer mais ou menos a mesma coisa. mesmo em silêncio. É por essa razão que se costuma dizer também que os alunos aprendem mais e melhor a norma culta à medida que se tornam leitores assíduos. mas a base dos . futuramente. pode-se ler em outros dialetos. mas todo um processo de produção de fala. o aluno tem de produzir uma fala que esteja plenamente de acordo com o processo que usa para falar espontaneamente. Uma pessoa que estuda uma língua estrangeira e que passa a ter certa fluência facilmente lê textos (em silêncio) nessa língua. pois.feitas em silêncio são assim. Assim como se diz que na alfabetização o professor deve ajudar os alunos a passarem da habilidade de produzir textos falados para a produção de textos escritos. ao aprender a ler. Por outro lado. não ocorre apenas uma decifração fonética e uma identificação semântica. recuperando uma pronúncia padrão cujo conhecimento lhe é familiar. dificuldades para falar a língua estrangeira corretamente. através da leitura. Isso se dá ao ler. essa pessoa acelera seus conhecimentos e aumenta sua habilidade de falar a língua estrangeira. Assim. do mesmo modo. se não dispõe de conhecimentos adequados da língua estrangeira e se põe a ler com forte sotaque ou de maneira errada.

<315> Foi dito acima que um leitor pode escolher o dialeto em que quiser ler. que. Somente as transcrições fonéticas obrigam os leitores a fazerem uma leitura. reproduzindo fielmente os sons representados. na língua e no dialeto retratado.dois é a língua. quanto menos . E os portugueses lerão meus textos com sotaque português. na sua essência. Castro Alves ou Érico Veríssimo. Nosso sistema de escrita permite que um texto qualquer em português possa ser igualmente lido por falantes de dialetos diferentes. ler não é falar. Assim sendo. tornando seu trabalho algo fascinante ou desastroso. Esses são dois pontos de suma importância na escola e. é oral. Ler num dialeto diferente do habitual requer prática e atenção especial. revela concepções diferentes de linguagem e de ensino. Quando leio Vinicius de Moraes. Quanto mais se distancia do controle semântico do texto em direção ao fonético. mas deve chegar o mais próximo possível disso. baiana ou gaúcha ao texto. A escrita tem como objetivo essencial permitir a leitura. Leio no dialeto que desejo. leio um texto escrito por um autor português como se tivesse sido escrito por mim. não me esforço para dar uma pronúncia carioca. Assim. Ao contrário. no meu dialeto. tanto mais difícil fica acompanhar na leitura a mensagem que o texto traz. dependendo de como o professor lida com eles.

ao decifrar o texto. A fala deve ser monitorada pela semântica. muitas vezes. mas também a semântica. Afinal de contas. entender o que se lê. mais fácil fica acompanhar a parte semântica e.alguém se preocupar com a parte fonética. O leitor interfere no literal do texto Na leitura. Continua sendo o texto de Vinicius de Moraes — como se diz. Como vimos acima. vimos que o leitor não interpreta apenas a parte fonética de um texto. Aqui também o leitor pode apropriar-se das idéias que descobriu. perdem o fio do raciocínio. voando nas asas da imaginação e da fantasia. a variação de pronúncia não afeta a estrutura do texto. Não é porque não leio um texto de Vinicius de Moraes com sotaque carioca que o texto perde sua razão de ser. como o leitor está diante de um texto pensado e produzido por outra pessoa. ipsis litteris. A leitura. Quando se lê uma poesia ou um romance. e acrescentar suas próprias idéias às do autor. também. . Esse fato encontra um paralelo na fala: as pessoas que se preocupam com a fonética acabam produzindo uma fala artificial. a literatura sobrevive por causa desse mundo imaginário que cria na cabeça das pessoas e no qual os leitores podem viver a aventura do fantástico. Por outro lado. dessa forma. truncada e. o pensamento não se atém apenas às idéias expressas pelo autor. é preciso respeitar os elementos básicos desse texto. mas o leitor fica divagando.

Na nossa cultura. ao lerem os primeiros textos. todavia. sabe se apropriar da mensagem do texto e acrescentar o seu mundo mental ao que o texto representa para ele. Esse tipo de interpretação está equivocado. ficam misturando o literal do texto com a interpretação que fazem dele. alguns professores pensam que esses alunos estão "chutando". Diante de tais fatos. Ela se chamava Maria e o bolo estava muito gostoso". que não sabem ler porque ficam inventando coisas que não estão escritas.<316> A leitura em voz alta. que consiste em exigir do leitor que diga todas e somente as palavras que o texto transcreve. No início da alfabetização. Outras idéias que o leitor tenha ao ler um texto devem ficar guardadas para si e não podem ser reveladas numa leitura em voz alta. por essa razão. implica algumas restrições. as crianças ainda não sabem disso e. o professor mostra uma frase como: "Maria comeu o bolo". dizendo tudo em palavras e em voz alta. conforme . existe a lei da fidelidade ao literal do texto. Por exemplo. O único problema desse aluno relaciona-se à lei da fidelidade ao literal do texto. A criança lê: "Era uma vez uma menina que fazia aniversário e queria comer um bolo. como se pode perceber pelos comentários feitos anteriormente. Um aluno que lê desse modo é um excelente leitor: sabe decifrar o que está escrito.

O aluno passa a incorporar esse tipo de concepção de leitura e torna-se um leitor literal. para quem um texto tem de ser lido literalmente. sem se preocupar com os outros aspectos da leitura. nossa cultura não aceita que um texto seja lido num dialeto estigmatizado. pelas mesmas razões segundo as quais a sociedade não aceitaria que alguém falasse daquele modo. mas no dialeto padrão. <317> Alguns alunos perdem-se nessa floresta e acabam tomando caminhos errados. Em vez de a escola explicar aos alunos o que fizeram e o que devem fazer. É preciso que o professor alfabetizador. a leitura em voz alta sofre das mesmas pressões sociais que a faia. Porém. diante de um público. Os alunos devem seguir a lei da fidelidade ao literal do texto sem deixar de lado a própria reflexão que corre em paralelo à mensagem do autor no texto. Foi mencionado acima que os leitores podem ler em qualquer dialeto. obrigando-o a ler apenas o literal. Sobretudo em casos de leitura silenciosa (para estudo). alguns alunos querem refletir tanto sobre o texto que lêem que acabam misturando a própria opinião com a do autor e atribuindo a ele idéias que não são dele. naquelas circunstâncias. trate de maneira muito cuidadosa da produção de leitura em silêncio e em voz alta. ela em geral pune esse tipo de leitor. desde o início. A lei da . Assim.exigência da nossa cultura.

pode-se usá-lo fora do sujeito que ouve ou lê. Sem o princípio da literalidade. Contudo. mas o ouvinte lida não apenas com o que ouve. a linguagem se perderia num mundo de fantasias. esse princípio não destrói nem impede a existência do mundo interpretativo do ouvinte ou do leitor. mas também com a sua própria interpretação. Esse problema é semelhante ao de quem ouve. deve ficar bem claro que o texto do falante precisa ser interpretado de acordo com o que o autor quis dizer e não pode ser misturado com fantasias e imaginações que todo ouvinte sempre acrescenta ao que ouve. O falante diz um enunciado a seu modo. Porém. Somente quando isso passa a ser verbalizado num contexto específico. Leitura silenciosa e em voz alta Como vimos a leitura pode ser feita sem que o leitor pronuncie o texto foneticamente (leitura silenciosa) ou através . tornando-se por sua vez uma realização literal.fidelidade ao literal do texto obriga também o aluno que lê em silêncio a distinguir o que faz parte do texto escrito e o que faz parte de sua interpretação. Simplesmente pede para que esse mundo fique guardado dentro das pessoas. A sociedade impõe restrições culturais para que quem fala e quem ouve consigam usar a linguagem adequadamente e. da mesma forma. para quem escreve e quem lê.

porque. se a leitura estiver sendo feita individualmente. Muitas crianças gostam de ler em voz alta e até de misturar leitura com fala. esta poderia até mesmo ser considerada um tipo de leitura silenciosa especial. Os professores devem incentivá-la o mais possível. para um melhor desempenho. mas não em outras situações.da fala do leitor (leitura em voz alta). desde os primeiros contatos das crianças com a escrita e a leitura. A escola deveria seguir esse procedimento. A leitura silenciosa tem um valor enorme na escola. através de uma leitura especial em voz alta. mas depois ensaiam como declamá-los ou representá-los foneticamente. muito raramente os leitores são obrigados a ler um texto em voz alta. mais propriamente. Ler em voz alta para um público é tarefa comum da escola. como por exemplo locutores de rádio e de televisão. Algumas vezes. O professor não deve se preocupar com isso. O objetivo é que ele participe do literal do texto como ouvinte da fala de um leitor. Na vida real. de leitura para um público ouvinte. Note que os atores costumam ler em silêncio os textos que apresentam. a leitura em voz alta está restrita a umas poucas profissões. Na nossa cultura. O que se costuma chamar de leitura em voz alta na verdade deveria chamar-se. <318> chegam mesmo a memorizar o texto ou partes dele. .

. simplesmente porque querem se exibir lendo de qualquer jeito. e nunca pararam para pensar nas reais vantagens e desvantagens dessas atividades. embora na verdade não haja motivo para se dar tanta importância a essa atividade nem mesmo com relação ao que os alunos precisam fazer na vida escolar em geral. através do desempenho dos alunos. por exemplo. Nesses casos.As leituras em voz alta têm sido uma grande preocupação da escola.. como podem passar perfeitamente sem ter de ler em voz alta. mesmo na alfabetização. Os alunos podem passar perfeitamente sem ditados.. Decorar antes de ler Um procedimento aconselhável logo no início é usar textos que os alunos já sabem de cor para que eles leiam. esse tipo de leitura é uma atividade muito solicitada pelos alunos que trazem para a sala de aula uma expectativa que a própria escola criou em gerações anteriores. Consideram importante saber através da leitura em voz alta se os alunos aprenderam a decifrar a escrita. Os professores gostam do ditado e da leitura em voz alta por que. podem avaliar melhor se eles já dominaram o que foi ensinado ou não. o professor precisa tomar cuidados especiais para que seus alunos não se tomem maus leitores. Da mesma forma que o ditado e as notas. Por outro lado. alguns professores gostam que os alunos leiam em voz alta porque a escola sempre fez isso.

somente então. Já que eles sabem o texto de cor. ela repete sem dificuldade. Isso ajuda a lidar melhor com os elementos supra-segmentais e prosódicos. Alguns professores <319> antigos recomendavam que. já não será mais possível que os alunos decorem todos os textos que irão ler em . para não criar uma pronúncia artificial.. Decorar um texto de poucas frases é uma atividade banal para qualquer criança. Se eu disser a uma criança "Maria fez uma festa muito bonita e todos comeram um bolo delicioso".. basta estudar um pouco e. Nesse caso. depois decorá-lo e. Preparar a leitura Com o desenvolvimento dos estudos. lê-lo em voz alta. como em qualquer atividade de leitura em voz alta.letras de música ou poesias. ler acompanhando as palavras (não as letras). o professor deverá insistir para que seus alunos leiam o texto como se estivessem falando. se percorresse com a vista algumas palavras à frente daquelas que a boca estava pronunciando. durante a leitura de um texto. O mesmo pode ser feito com relação à decifração de um texto escrito. depois. Os exercícios de leitura podem continuar aplicando a mesma estratégia: pede-se para o aluno decifrar um pequeno texto. o que era um bom exercício para quem já tinha certa fluência na leitura.

Depois que o aluno estiver seguro de que irá ler sem dificuldades.público. embora. Se o aluno não ler o texto pronunciando-o naturalmente. A escola. o aluno deverá preparar a sua leitura. A medida que os estudos avançam. assumam características diferentes em . Isso requer um certo estudo prévio. e somente depois que adquiriu certa fluência lê em voz alta. tudo estará em ordem. dominando inclusive certa fluência na leitura. se não estiverem lendo de maneira correta. não apresenta problemas de leitura. procedendo daquela forma. externamente. o professor permitirá que ele leia para a classe. em vez de decorar o texto. Um aluno que é solicitado a ler individualmente e em silêncio. Simplesmente precisa rá praticá-la e. com o tempo. Tipos de leitura No fundo. porém. ao chegar nesse ponto. o professor deverá solicitar que volte a preparar seu texto para uma leitura posterior. já adquiriram tudo o que precisam saber para se tornarem bons leitores. Mas. num primeiro momento. explicando que ler como se deve é também uma forma de respeitar os ouvintes. explicar-lhes o que fazer e treiná-los a se tornarem bons leitores. todos os tipos de leitura são da mesma natureza. o professor precisará analisar as dificuldades desses alunos. tem alunos que aprendem a ler de outras formas e.

ou seja. Já foram <320> mencionados dois tipos de leitura: a leitura em voz alta e a silenciosa. pois. refere-se ao fato de um texto provocar nos leitores diferentes reflexões. De interesse particular é o tipo de leitura que se tem. Como vivemos num mundo caótico de escrita. segundo o modo como cada um o interpreta. Temos. ainda. uma leitura literal e outra na qual ao literal vem associada a reflexão do leitor. como a natureza dos textos e a finalidade do próprio ato de ler. Um terceiro tipo de leitura. etc. a outros tipos de leitura. dependendo do tipo de sistema de escrita que se lê. Neste último caso. para divertir. representado. que também já foi apresentado anteriormente. a leitura pode ser informativa. Quando se lê num sistema fonográfico. estudado. Cada sistema de escrita tem um tipo próprio de leitura. onde esses dois sistemas básicos estão representados de . uma leitura interpretativa. Com relação à natureza dos textos. Quando se lê num sistema ideográfico. Um estudo mais aprofundado levaria. parte-se do significado e procuram-se depois os valores fonéticos associados. uma leitura pode ser do tipo a ser declamado.diversas circunstâncias. etc. A leitura pode ter uma tipologia ramificada a partir de outros parâmetros. parte-se da identificação dos sons das letras e procura-se a palavra associada a esses sons para se chegar ao significado.

as letras. a escola treina seus alunos apenas para lerem letras e. os sinais. No mundo fora da sala de aula. as marcas e até os sinais de trânsito e informações gerais que se encontram nas ruas mostram bem que as letras representam apenas um tipo de escrita e de leitura. refletindo-se sobre um . Ler apenas letras é uma tarefa típica da escola. Os símbolos. Os números e os pictogramas pertencem ao sistema ideográfico. Infelizmente. ao sistema ideográfico. até mesmo os números (os algarismos) são o tipo de escrita com o qual lidam mais no dia-a-dia. <321> A leitura e o mundo A palavra "leitura" tem sido usada para representar metaforicamente toda atividade que envolve produzir fala ou pensamento. as grifes. não raramente. com freqüência. ao sistema fonográfico. somente para o aspecto literal do texto. os leitores comumente passam de um tipo de leitura para outro.muitas maneiras. Um passar de olhos num jornal ou numa revista mostra logo como nosso mundo de escrita exige dos leitores habilidades muito diferentes a todo instante. Para muita gente. a ortografia. ao sistema fonográfico. É preciso abrir os horizontes e incorporar às atividades escolares todas as formas de leitura que o mundo moderno da escrita põe diante dos olhos de todos. o uso de rébus. a escrita apresenta-se de muitas formas.

"ler as estrelas". por essa razão. etc. a palavra POTE. Assim. Esse professor se pergunta: "Como pode uma criança entender a palavra ELEFANTE de maneira completa.determinado objeto. a linguagem representa o mundo no pensamento e. Isso tudo é um uso da linguagem. ouve-se que alguém precisa "ler o mundo". saber o que uma palavra significa não é uma abstração derivada do objeto no processo de aquisição da linguagem para cada falante. e não de um processo de leitura. um professor não poderia usar a palavra ZEBRA. apalpá-lo. a não ser no Quênia e em outros países africanos. não precisa pegar um pote. tem propiciado uma certa confusão com relação ao próprio processo de alfabetização. algumas pessoas pensam que não podem usar palavras que não são do mundo do alfabetizando. Esse uso metafórico da leitura. no entanto. Basta que ele conheça a palavra POTE e tenha os conhecimentos lingüísticos de um usuário da língua portuguesa.. por exemplo. Alguém. um dia. "ler as mãos". Em decorrência de idéias como essa. Assim. A partir da incorporação dessa nova palavra à língua. fez isto: viu um elefante e trocou a expressão "aquela coisa" por "elefante". no sentido técnico. Para um aluno ler o que está escrito.. para entender melhor o que a atividade lingüistica de ler representa. se ele nunca viu um elefante na vida?" Ora. estudá-lo fisicamente. os usuários dessa língua não precisam mais "daquela coisa para .

as conotações e tudo o mais que popularmente se costuma dizer que está nas entrelinhas de . Basta alguém explicar o que significa. a ficção e até a ciência vivem lingüisticamente assim. ou. geralmente. Num texto. tanto quanto as frases. Será preciso ir além e buscar as relações entre palavras. Por isso. mais tipicamente. as palavras estabelecem uma relação <322> umas com as outras. a leitura abrange um texto em que há muitas palavras e frases. frases e demais elementos envolvidos na produção daquele texto. Não é preciso ir ao Japão para acreditar e saber que tal país existe e vive de um determinado modo.aprender a palavra "elefante". O testemunho é algo de importância essencial na vida humana. Dissemos que o leitor precisa começar decifrando a escrita e descobrindo que palavras estão escritas (descoberta do significado literal). a questão da descoberta do significado tornase mais complicada. OS quais permitam ao leitor reconhecer os subentendidos. como a palavra geralmente está inserida num contexto de uso da linguagem. A leitura tem outros aspectos interessantes e importantes. Porém. os pressupostos. Isso se deve à própria natureza da linguagem e não da escrita. não basta detectar apenas os significados literais das palavras. A literatura.

Por exemplo. e não apenas da escrita). de concatenação ou de compreensão. deve procurar observar se alguma das letras não pode ter outro som e formar. Dificuldades na aprendizagem da leitura As dificuldades mais comuns que os alunos apresentam referem-se a problemas de decifração. põe-se a ler imitando os adultos e inventando uma fala. ao ver a palavra CASA. não con seguem ou lêem apenas as palavras já dominadas. . Uma boa estratégia é o professor dizer para o aluno que. O professor deve. O problema mais sério de decifração é o daquele aluno que... quando ele for ler e descobrir uma palavra que não conhece. Alguns alunos chegam mesmo a escrever várias palavras seguin do a cartilha. como não sabem exatamente o que estão fazendo. Uma dificuldade comum no princípio ocorre com os alunos que acabam lendo palavras que não existem ou que não se encaixam no contexto. desse modo. ensinar esses alunos a decifrarem a escrita. outra palavra.um texto escrito (na verdade. portanto. mas. quando são solicitados a ler. seria nas entrelinhas da própria fala. o aluno diz "kaça" ou "çeaça". Seu esforço para decifrar ainda não foi suficiente para reconhecer outros valores fonéticos das letras. não sabendo decifrar a escrita.

Um problema um pouco diferente é o caso dos alunos que no início da alfabetização têm dificuldade para decifrar. o que resulta. como ela não sabe decifrar a escrita. Isso é natural e o tempo necessário para cada <323> um resolver as suas dúvidas varia de aluno para aluno e de contexto para contexto. Ajudá-los é sempre uma boa estratégia. etc. a leitura incidental não vai além da identificação do próprio objeto. la-ta Esse aluno sabe ler. como logotipos ou marcas de produtos. Porém. do contrário eles se acomodam. Mesmo uma pessoa analfabeta pode fazer esse tipo de leitura. Assim como atribuímos palavras às coisas. mas precisa aprender que deve guardar para si os procedimentos de decifração. O professor deve ter paciência e dar todo o tempo necessário para que os alunos realizem a tarefa. linhas de ônibus. tê-a-tá. pronunciando em voz alta apenas o resultado final daquilo que . às vezes costumam enunciar em voz alta os mecanismos de decifração que usam para ler. de modo semelhante pode-se aprender a reconhecer certas palavras atra vés de formas gráficas específicas. no seguinte: "lêa-lá. por exemplo. não sendo um conhecimento produtivo. mas não se deve resolver todas as suas dificuldades. Alunos que aprendem a ler pelo bá-bé-bi-bó-bu.Esse caso é semelhante à leitura incidental.

Alunos que apresentam problemas de naturalidade. um simples decodificador fonético da escrita. porém. o que impressiona bem o professor. precisa discutir com esses alunos os mecanismos de produção da leitura e fazer com que leiam através da memorização de textos. Corrigir esses alunos já é uma tarefa mais complicada. Isso se faz sem problemas com as transcrições fonéticas de línguas desconhecidas. então. O leitor é. porque sua leitura não lhe traz significados. Antes de o aluno reconhecer pelo menos uma palavra inteira.descobriu. mesmo curtos. nesses casos. O professor. é possível passar da simples constatação do valor fonético das letras para uma emissão oral dos sons. porque incorporaram esse tipo de leitura como a forma correta escolar. de . Alguns alunos lêem desse jeito e chegam até a ter certa fluência. O mesmo pode acontecer para um falante nativo com sua própria língua. não pode sequer começar a dizer o que está lendo. tal aluno não aproveita o que lê. O ensino da leitura Alunos que foram incentivados a ler acompanhando com os olhos letra por letra e sem fluência têm enorme dificuldade para desvendar o conteúdo semântico do texto. Como no texto escrito já está evidente em grande parte uma estrutura lingüística definida. apenas sons da fala.

Algumas poesias se prestam bem a esse tipo de atividade. Porém. em alguns trechos. Os desenhos não atrapalham <324> a leitura. Alguns professores gostam de promover leituras coletivas. Outra atividade atraente de leitura é fazer jogral. a leitura de um texto por várias pessoas. enfim. especialmente quando a classe não gosta de ler. Isso ajuda a afastar o medo da leitura individual. de tal modo que o aluno possa ler as letras ou simplesmente adivinhar o que os desenhos representam. dificuldades com a realização fonética dos elementos prosódicos.fluência. ficar ensinando a criança somente com listas de palavras acompanhadas de desenhos. Pode-se fazer isso de vez em quando. não é uma boa estratégia. mas não se deve propor somente esse tipo de exercício de leitura. Essa prática é muito interessante. precisam de uma comparação entre o que seria uma leitura exemplar e o que eles fazem. Criança gosta de ler textos com ilustrações. sendo que. podem ajudá-la. pelo contrário. como certos poemas de Manuel Bandeira — "Evocação ao . de concatenação. há apenas um leitor e. ou seja. pouca ou nenhuma ilustração é irrelevante para a leitura. Ler textos com muita. em outros. vários leitores em coro. desde que os alunos saibam exatamente o que têm diante de si.

para entender a atividade de interpretação de texto como um exercício de alfabetização. a interpretação de texto tem sido uma das atividades mais tradicionais da alfabetização com cartilhas. Muitos professores pensam que se trata de uma atividade fundamental e imprescindível. Assim como o ditado e a cópia. INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Três práticas escolares tradicionais Ao lado do ditado e da cópia. inclusive uma revisão histórica. meditar. e os professores raramente param para refletir mais profundamente sobre sua natureza. A visão histórica apresentada a seguir tem como objetivo introduzir uma reflexão geral sobre o assunto. sem entrar em considerações específicas. "Sinos de Belém". Há vários pontos importantes que é preciso considerar. os sistemas de escrita ideográfica propiciam os leitores a refletir mais detalhadamente sobre os valores semânticos das mensagens escritas. reviver sentimentos .Recife". Ideografia e leitura Pela própria natureza. a interpretação de texto passou a ser feita de inúmeras formas. Isso é mais óbvio quando se levam em conta os símbolos religiosos e os usados para ajudar as pessoas a pensar.

"Telefone". portanto. "pluviométrico" tem a ver com "chuva". "chuva" se dizia pluvia e. Por exemplo. coisas ou fatos que a fotografia evoca. Outros exemplos: "televisão" e "telefone" contêm a palavra grega tele. que significa "som" -. Portanto. a revelação etimológica . a referência etimológica ajuda a entender o significado atual da palavra. falando ou simplesmente pensando a respeito de pessoas. Uma leitura literal. a leitura que se faz desse tipo de texto é basicamente interpretativa: quando. no caso da palavra "pluviométrico". por exemplo. em latim. as pessoas cultas discutem o significado das palavras. persiste até hoje. nesse caso. "televisão" significa "algo que se vê longe".fortes de patriotismo. para explicar a palavra "pluviométrico". Desde os tempos mais antigos. Poderse-ia dizer mesmo que sua finalidade é despertar a meditação e a emoção (religiosa ou não). Portanto. procurando recuperar formas e significados antigos.fone. em "televisão" e "telefone". lembram que. embora. podem compreender melhor o uso das palavras na sua época. <325> Esse tipo de escrita. etc. Logo se vê que. tem o significado de "som longe". que significa "longe". que inclui outra palavra grega . dos mais antigos. Assim. uma pessoa apanha uma fotografia e tenta se lembrar. seria algo fora de propósito ou pertinente apenas em caso de uma investigação científica.

esquecesse a palavra exata "televisão" <326> e tivesse de comprar uma por telefone. A própria ciência é vítima do fascínio das palavras e.ensina mais grego do que português. esse jogo interpretativo faz menos sentido ainda. dificilmente se faria entender. embora façam parte do significado total dessas palavras as idéias de "algo que se vê longe" e "som longe". Essa prática de querer explicar o significado das palavras pela origem histórica tem valor para pesquisas de lingüística histórica. muitas vezes. Explicar para uma pessoa sem vivência escolar o que é "televisão" ou "telefone". para estudar o uso atual das palavras na língua. nem é conveniente. Imaginar situações como essa é um bom exercício para testar o que hoje . parece realmente ridículo. fica divagando e sonhando nesse caminho etimológico. como no caso de "televisão" e "telefone". por um lapso de memória. dizendo a origem das palavras que as compõem. Se alguém. mesmo quando faz pouco sentido. Porém. porque "televisão" e "telefone" são coisas que não podem ser descritas apenas com o critério dos significados etimológicos. e dissesse apenas "algo que se vê longe". Fora do mundo escolar. Esse tipo de procedimento é extremamente comum nas escolas. mas não ajuda muito. estamos tão acostumados a isso que nem sequer questionamos o que fazemos.

mas existe de maneira própria. Obras antigas são estudadas através de minuciosas pesquisas para as quais a exegese é fundamental. Essas palavras devem ser entendidas. portanto. ou seja. posteriormente.definimos como "televisão" ou qualquer outra palavra da língua. No primeiro caso. são muito importantes. A exegese se faz com base em etimologia e numa tradição ou conjunto de normas (no caso das leis). que passou a ser feita. A exegese em textos literários Outra atividade ligada de certa forma ao que se disse antes é a exegese. menos ainda grego. Isso é assim porque a lei distingue "doloso" de "culposo". não mais com textos necessariamente antigos. mas no segundo sim. O que se disse acima não significa que os estudos de lingüística histórica não têm valor. não há crime. O trabalho de exegese dos textos antigos gerou a interpretação de texto. Pelo contrário. mas não culposo. O português tem vínculos com essas línguas. mas devem ser entendidos corretamente. comentários sobre o significado de palavras para esclarecer com precisão como devem ser interpretadas. mas não deve ser confundida com o que existia antes: português não é latim. A língua que falamos hoje é resultado de uma evolução histórica. dentro do contexto legal em que se inserem. Uma pessoa pode cometer um acidente de trânsito doloso. Qualquer texto .

encontram-se. que até algumas editoras fazem acompanhar os livros de literatura escolar de formulários e questionários para o aluno dizer com as próprias palavras o que o autor escreveu. Posteriormente. Essa atividade é tão comum nas aulas de português. algumas ciências orientaram a própria interpretação literária. <327> mas simplesmente uma reprodução individualizada de uma obra escrita.passou a servir para um trabalho de análise exegética. ou preencher as lacunas dizendo do que trata determinada obra literária. envolvendo textos literários. Quando a exegese contribui para esclarecer significados que já não são mais transparentes para o leitor numa dada época. pessoas que nada mais fazem do que dizer com as próprias palavras o que o autor disse com as palavras dele. não só a especificação de palavras. Porém. a sociologia e a psicologia. mesmo na interpretação literária moderna. Aqui já não há mais exegese. como também de formas de produção de diferentes textos literários (gêneros e estilos). a interpretação de texto enriquece-se. . uma espécie de reescritura (sem a arte do autor). os comentários (exegese) abrangem. sobretudo a filosofia. por vezes. No caso das obras literárias.

bem como história e português. geografia. por exemplo. dizendo com as próprias palavras o que o autor disse de mais importante e de interesse para o livro.Interpretação de base filosófica Os comentários oriundos de estudos filosóficos são muito diferentes porque envolvem não só um trabalho de exegese. Porém. necessariamente. no segundo caso. No primeiro caso. passaram a ter a partir da década de 60 um esquema diferente de tratamento de compreensão de texto. cujos objetivos eram reproduzir algo segundo as expectativas do professor ou do livro didático. sempre. física. Naquela época. mas. como também costumam vir acompanha dos de reflexões pessoais de quem faz os comentários. Questionário para interpretação de texto Matérias como matemática. As respostas. necessariamente criativa e individualizada. portanto. Um filósofo pode escrever um livro sobre as idéias de Aristóteles. escrever um comentário sobre Aristóteles é totalmente diferente. podiam até vir dadas de antemão no . houve de fato uma interpretação. Nota-se. A interpretação de texto deve ser. química. a comparação entre idéias de diferentes correntes filosóficas ou filósofos. Exige um longo e árduo trabalho de pesquisa e de estudo. dizemos que houve apenas uma reprodução das idéias de Aristóteles. a escola começou a pedir que os alunos respondessem a questionários.

fruto de pesquisas sérias ou não. e. ainda. e todos os alunos acertariam se conseguissem dar a mesma resposta. nada de pesquisa individual sobre o assunto. Obviamente. mas que não foram objeto de preocupação direta do escritor. Esse tipo de tratamento também passou a ser dado a obras literárias. Simplesmente reproduzir um modelo não é um procedimento pedagógico recomendável quando os alunos podem e devem usar da reflexão para aprenderem. um tipo de interpretação de texto com o qual as pessoas são levadas a deduzir do texto implicações de diversas ordens. filosófico. principalmente. nos livros didáticos e nas aulas de português. ideológico. psicológico. que são explicitadas pelo leitor que interpreta.. mas uma análise do conteúdo lingüístico. desenvolvem todo o seu trabalho nessa linha. .Manual do Professor. Certas análises do discurso. em todas as matérias. tal atividade deveria ser abolida <328> da escola. Bastava reproduzir o modelo dado pelo professor ou pelo livro didático. etc. como reflexões filosóficas. Análise do discurso Há. Nada de interpretação. ideológicas. Já não se pode dizer que esse tipo de trabalho seja uma interpretação de texto propriamente dita. psicológicas. nada de opinião pessoal. por exemplo.

etc. Um texto tem estruturas semânticas e gramaticais (sintaxe. A lingüística textual está mais preocupada com os mecanismos de coerência e coesão. não as noções filosóficas. estudar as estruturas que dão forma a um texto é a melhor maneira de fazer uma interpretação de texto. fonologia.). psicológicas.. . morfologia. etc. É por essa razão que os lingüistas chamam essa tarefa de análise do discurso. conversas. Mais semelhante ao estilo apresentado logo acima são os estudos de lingüística textual e de análise da conversação. Lingüisticamente. etc. etc. ideológicas. debates. como acontece nos diálogos. sociolingüística. Outro tipo de análise do discurso está voltado para o estudo dos mecanismos lingüísticos que possibilitam a um texto ter determinadas características e não outras.psicanalítico. inerente a alguns aspectos do conteúdo do próprio texto.). que fazem com que o texto seja uma unidade e tenha uma estrutura bem montada. além de estar inserido num contexto (pragmática. Aqui a base do estudo são as estruturas lingüísticas. etc. A análise da conversação preocupa-se especialmente com o estudo dos mecanismos lingüísticos que permitem que duas ou mais pessoas construam conjuntamente um texto.

psicológica. etc. uma pessoa que só sabe ver interpretações psicanalíticas. etc. análise exegética. comentários pessoais dos mais diversos tipos. quem estuda apenas o significado literal de palavras de um texto. revela uma concepção de linguagem muito ingênua. temas ou assuntos tratados. frases. Por outro lado. podemos juntar tudo nos seguintes tipos: análise <329> literal de palavras. lingüística textual e análise da conversação. extrapolações de natureza filosófica. ver que o que se chama interpretação de texto apresenta diversas formas e significados. mostra uma concepção de linguagem em que os elementos lingüísticos são apenas pretextos para considerações de outra ordem. Em resumo. quando uma delas predomina. . desconsiderando as complexas relações que as unidades lingüísticas estabelecem entre si e com o mundo em que se inserem. Essas diferentes abordagens de um texto são interessantes e têm seu valor. ideológicas. isso revela uma concepção de linguagem fortemente marcada. pois.Os pretextos da interpretação de texto Pode-se. ideológica. argumentativa ou simplesmente estrutural. envolvendo apenas os elementos lingüísticos determinados pela gramática. ou procura entendê-lo pela etimologia das palavras-chave. análise do discurso de base ideológica. Por exemplo. estudos etimológicos.. Porém.

por um lado. é difícil entender e descrever a linguagem na sua globalidade. a lingüística tem se mostrado uma ciência um tanto enigmática para quem estava acostumado apenas com a gramática normativa tradicional. portanto. No mundo todo. por outro lado. as pessoas falam e ouvem como se isso fosse algo tão familiar. dos lingüistas. tem envolvido tradicionalmente a própria maneira de ser da linguagem. Se. Esse estudo é tão complexo que leva os lingüistas a acharem que estão apenas no começo de uma compreensão da linguagem humana no seu todo. formando um contexto no qual o texto assume seu valor e significado pleno. para se ter uma compreensão ampla de um texto (oral ou escrito). em última análise é tarefa da lingüística. é preciso saber tudo sobre a linguagem e sobre o mundo a que essa linguagem se refere. Estudar essa questão e explicitar todos os fatos e fenômenos envolvidos. Mais difícil ainda é formular em palavras os resultados das pesquisas sobre a linguagem. Em outras palavras. Por essa razão. da gramática de uma determinada língua e de elementos nãolingüísticos.Lingüística e interpretação de texto Lidar com o texto. o uso da linguagem no dia-a-dia é algo muito familiar e até banal para os falantes. fácil e óbvio <330> .

toda descoberta feita pelo homem nas ciências.. Os ouvintes ouvem textos e os leitores lêem textos escritos e fazem isso com perfeição. essa é uma das funções da linguagem: achar que o interlocutor é capaz de entender o que ouve ou lê. Os falantes dizem seus textos ou escrevem-nos. Somente quando surge uma dúvida específica. isto é. O simples ato de pensar é falar consigo próprio. ou quando surge uma curiosidade a respeito dos conhecimentos relacionados com o texto..como andar e comer. Na Bíblia. não faz sentido sequer abrir a boca para falar ou se pôr a escrever. Isso traz uma nova dimensão ao assunto. e essa é uma atividade tipicamente lingüística. colocar as idéias em palavras. sem precisar enunciar explicitamente todas as regras de tudo o que está envolvido nessas atividades. Sem esse pressuposto. supondo que o indivíduo é capaz de entender o que ele formula lingüisticamente. com relação a uma palavra desconhecida ou usada de modo incomum. os usuários da língua necessitam de uma reflexão particular para ajuda-los a entender melhor um texto. os textos são assumidos e consumidos como auto-suficientes. Caso contrário. É preciso interpretar um texto? . se lê que o próprio Deus usou a palavra para criar o mundo. Aliás. nas artes e na tecnologia só passou a existir no momento em que foi possível pensar aquilo que se fez. por exemplo. Na verdade.

No fundo. como. certo tipo de pergunta. ou mesmo uma quantidade grande delas. miserável e . Seria interpretado como uma forma de aviltamento do espectador. um modo de dizer que ele não é capaz de entender as coisas e que sua capacidade intelectual precisa ser monitorada. Quando o interlocutor não entende algo. conduzindo um assunto. as perguntas têm uma função de construção do próprio texto que está sendo produzido. por exemplo. ele simplesmente faz perguntas para resolver suas dúvidas. Isso não se faz <331> nem com os programas infantis. Em outras situações da vida.Ao observar os usos da linguagem. no caso anterior. não precisa ficar fazendo perguntas de vez em quando para saber se seu interlocutor está entendendo ou não. denota que está acontecendo algo de errado. seria uma forma de negar a racionalidade do homem. Por mais pobre. agindo assim. notamos que uma pessoa conversa com outra e. a um programa de televisão. quando alguém está assistindo a um filme. Nesse último caso. ou pensa que está entendendo errado. Porém. ou visitando um museu. seria ridículo entregar aos telespectadores ou visitantes um questionário de interpretação de texto para saber se eles entenderam corretamente o que viram. não. Perguntas que procuram interpretar o texto são diferentes daquelas que aparecem naturalmente numa conversa.

perguntar às vezes pode ofender. que pede para ela dizer quem comeu o bolo. a um ponto importante: como se entende um texto e o que se entende dele? Há diferenças. que tipo de bolo ela comeu. se o texto for oral ou escrito? . É justamente porque o homem possui a racionalidade que ele pode ofender. as perguntas servem simplesmente para averiguar se o leitor é capaz de responder. isso pode até ser respondido. perguntar a eles se estiveram parados ou se movimentando. ainda assim é um ser dotado de racionalidade e infinitamente mais complexo do que qualquer outro animal ou máquina. se movimentar. Se alguém leu ou ouviu um texto em que está dito "Maria comeu bolo de aniversário" e encontra um exercício de interpretação de texto. Por isso. Mudando um pouco o contexto. Entender o texto no seu contexto Chegamos. se comeu o bolo inteiro ou apenas um pedaço. isso seria semelhante a um professor de ginástica que perguntasse aos seus alunos se eles sabem o que é andar. O objetivo de perguntar é a busca de uma informação nova. sem dúvida. desprezar. menosprezar e humilhar seu semelhante. depois dos exercícios. e. assim. mas o fato de se apresentar tais perguntas é. e nenhuma informação nova é solicitada. uma ofensa.estúpido que alguém seja. nesse caso. ou ainda. parar.

Portanto. e assim por diante. vimos que a resposta a essas perguntas implica um conhecimento global da linguagem e do mundo. No entanto. agindo assim. come tem enganos com a linguagem. <332> Questionar o processo de produção da fala ou de recepção da mesma é questionar a própria capacidade de quem fala ou de quem escuta. apesar disso. Vimos também que. que entendem errado o que ouvem. inserida no mundo. seja ele oral ou escrito. esse tipo de objeção nada tem a ver com o que foi dito acima. seu ouvinte. pelo simples fato de ser um usuário de uma determinada língua. a comunicação ocorre porque o falante sabe dizer dessa forma e sabe que. alguém pode observar que também se constata que há casos em que pessoas (até muito inteligentes). entende o que foi dito. um falante de português como ele. refere-se ao fato de a linguagem se prestar não só a comunicar de forma correta. Se alguém diz para um falante de português "Maria comeu bolo de aniversário". mas também a carrear informações que têm por objetivo induzir o . cada um entende um texto.Pelas considerações feitas acima. sem saber explicitar as regras que a regem. Na verdade. e esse conhecimento é da dimensão exata que os falantes atribuem ao que se disse e ao que foi ouvido. as pessoas utilizam perfeitamente a linguagem.

Um desses limites é a interpretação literal. entenda-se o uso comum que se faz das palavras. O princípio da literalidade Como a linguagem não é um exercício lógico e completo de informações. aqui. encarregam-se de estabelecer certos limites. a palavra "pé". tem como sentido literal "o pé da cadeira" e não o significado de uma parte do corpo humano. como alguns gostariam que fosse. inequívoca e completa. para que esta seja um instrumento útil aos homens. Por interpretação literal. A linguagem não é apenas lógica. o ponto de partida e a referência básica para toda e qualquer interpretação complementar que se queira atribuir ao texto. Seu emprego é um jogo que põe em desafio constante a natureza racional de seus usuários. Portanto. Os usos sociais da linguagem. no sentido literal do que dizem ou ouvem. Em outras palavras. O princípio da literalidade exige que todo falante e ouvinte tenham.interlocutor a erro ou desafiá-lo a escolher a interpretação necessária em meio a várias opções. a linguagem pode trazer consigo muitas armadilhas para quem fala e para quem ouve. porque isso também faz parte das funções da linguagem. todavia. se alguém disser: "O pé da cadeira quebrou". falantes e ouvintes têm sempre mil opções de dizer o que pretendem e de tirar de um texto toda sorte de interpretações. .

nesse caso. interpretar um texto pode ser uma tarefa inútil ou. do mundo em que o texto se insere. para produzir um texto que está sendo lido ou ouvido. Pensar em parte do corpo. mas em contexto muito diferente. portanto. depois. ou seja. mas simplesmente associado à palavra "pé". Para entender o que se lê. Em outras palavras. Somente as pessoas interessadas nos estudos etimológicos pensam nessas hipóteses. nem pensado. sem a possibilidade de se chegar a um resultado seguro. de coesão. quer com relação à interpretação de uma cosmovisão que cada um tem para si.Tanto assim é verdade que ninguém pensa em parte do corpo humano quando encontra a expressão "pé da cadeira". <333> Quando ocorrem interpretações diferentes sobre um mesmo fato ou enunciado é porque todo texto precisa ser entendido dentro de um contexto lingüístico. no máximo. significa o que está dito. o falante e o ouvinte/leitor utilizam-se de todos os conhecimentos já adquiridos. de solução duvidosa. referencial. quer com relação aos usos da linguagem. Literal. Quando o contexto lingüístico não é favorável. cada um usa a linguagem segundo . uma vez que ela possui esse significa do. o que se ouve ou. mesmo. é levar em conta algo que não foi dito. ou quando não se dispõem das informações referenciais adequadas. coerência e. do jeito que está dito.

quando se trata de textos científicos. etc. para checar se os alunos entendem o que lêem. geografia. como é necessário que o professor faça interpretação de texto. Interpretação de texto e estudo escolar Como a escola é um lugar onde as pessoas aprendem. Essa avaliação. Porém. é algo fascinante. Até mesmo uma interpretação literária pode e deve ser feita. Do jeito que ela se apresenta. faz parte das preocupações da escola. Essas atividades de produção e de compreensão da linguagem são totalmente individuais e cada um responde por si. história. se isso é assim.seu próprio metabolismo intelectual. é preciso entendê-la corretamente. Isso inclui. avaliar a aprendizagem. a linguagem seria algo inconcebível na sociedade. sem dúvida alguma. Ora. por que se preocupar com o que as pessoas dizem ou entendem? É por essa razão que a sociedade não faz roteiro para as pessoas falarem nem questionários de interpretação de texto após uma conversa qualquer. É por essa razão que os professores acham que precisam fazer interpretação de texto. como os de matemática. Podese e deve-se fazer análise lingüística dos textos. Se fosse diferente. Não só faz sentido. Porém. não é isso o que se encontra nos exercícios tradicionais . desafiador e maravilhoso. é natural que os professores se preocupem com o progresso dos alunos. entre outras coisas.

Uma delas é fazer com que uma leitura puxe outra. está a idéia de que a escola não deve ensinar apenas um determinado conteúdo aos seus alunos. as características geográficas. Em outras palavras. Se errar. ensinar como estudar esse conteúdo. principalmente. é simplesmente um exercício idiota ou. pode-se voltar ao texto e ver qual ponto não ficou claro. mas não são os exercícios de preencher lacunas que vão lhe dar as condições para isso: estudar envolve estratégias mais inteligentes. Por trás dessa discussão. ela precisa cuidar muito . a cronologia histórica. um passatempo. um trabalho leve a outro e assim por diante. mais uma vez. Um aluno que interpreta bem um texto deve ser capaz de aplicar o que estudou. mas deve. Perguntar qual é o tema de um romance não é fazer análise literária. razão pela qual o aluno não conseguiu fazer o que lhe foi pedido. e o fato de fazer corretamente algo relacionado com o conteúdo do texto é prova mais do que suficiente de que ele leu e entendeu corretamente. quando muito.de interpretação de texto. Mandar o aluno preencher as lacunas com palavras ou <334> citações de um texto não tem nada a ver com o tipo de interpretação de texto mencionada acima. Um aluno pode e deve memorizar os procedimentos científicos. e um texto puxe outro.

Quando se fala e se ouve. Muitos intelectuais ficam cheios de pruridos quando falam. ao ver que respondeu corretamente às perguntas que lhe foram feitas. Nesse tipo de atividade. Esse é o jogo da linguagem. no fundo geralmente descabidas. Fazer interpretação de texto pode ser uma catástrofe para a vida escolar do aluno se ele chegar à conclusão de que só pode aprender algo respondendo a perguntas ou. A mania de a escola querer controlar a vida intelectual das pessoas cria raízes na sociedade e dá frutos na nossa cultura. falta a iniciativa para construir a própria aprendizagem. e nenhum texto ou falante está imune a esse risco. Por isso. Isso faz parte dos usos da linguagem. outras pessoas irão achar que eles são imbecis. pior ainda. a partir de coisas velhas que aprende.atentamente do modo como os alunos estudam. conseqüentemente. falta a reflexão criadora do aluno. de acordo com o livro ou com a matéria que o professor passou na lousa. bem como discutir e rever o que foi dito ou entendido. não necessita fazer uma lista de perguntas. Isso tudo mostra que o professor que estimula seus alunos a trabalhar tem todas as condições de que precisa para avaliá-los. falta a imaginação dedutiva que o leva a propor para si coisas novas. há sempre a possibilidade de enganos. se passar de ano pensando que aprendeu. <335> . porque estão sempre supondo que serão mal entendidos e.

além dos detectados no texto. Nesse caso. Portanto. O que acontece se não fizer? A resposta a essas perguntas fica mais clara quando se leva em conta que uma verdadeira interpretação de texto tem mais a ver com as estruturas lingüísticas textuais do que com seu conteúdo. fazer interpretação de texto faz sentido quando se procede a uma análise científica do mesmo. Discutir o conteúdo de um texto é discutir as idéias do autor. Não faz sentido fazer interpretação de texto com o simples pretexto de ver se o aluno entendeu ou não o que leu. quer para aprender sua natureza lingüística.O tormento em que vivem certas pessoas tem sua origem nesse medo de serem mal entendidas quando usam a linguagem porque a escola sempre teve essa atitude com elas. através de perguntas de identificação de palavras ou de idéias. sejam evocados para que a discussão seja bem feita. é imperativo que outros conhecimentos. a escola precisa se questionar sobre os textos que ela usa para fazer interpretação de texto. Vale a pena fazer interpretação de texto? A escola precisa se perguntar se vale ou não a pena fazer interpretação de texto. como vimos. Os professores fazem interpretação somente de textos literários (ou . Além disso. quer para aprender conteúdos específicos das ciências e das artes.

como a poesia. Textos científicos. os textos usados nas primeiras séries são escritos de tal modo que permitem às crianças uma leitura tranqüila. Pior ainda. os professores acham que passando os tradicionais exercícios de <336> interpretação de texto. Resumindo. esses alunos irão aprender a fazer o que a escola espera deles ou seja. A formulação de problemas de matemática tem características próprias. etc. Ora. A outra afirmação clássica apresentada pelos professores para o uso das tradicionais interpretações de texto é o fato de alguns alunos virem de famílias pouco acostumadas com textos escritos e com o uso escolar desse material nos estudos.presumivelmente). resolver seus problemas escolares. esse tipo de texto é o menos recomendável. Mais uma vez. que eu saiba. Alguns professores estão profundamente convencidos disso uma vez que sempre fizeram assim e obtiveram resultados muito satisfatórios. Estudar as características estruturais que fazem com que esses textos sejam do jeito que são consiste num exercício de interpretação de texto que a escola precisaria fazer. a piada. não são usados para fazer interpretação de texto e são justamente os mais indicados para isso. uma vez que os exercícios de interpretação visam apenas a detectar a identificação de palavras e idéias. o conto. deve se dizer que esses .

O mesmo acontece quando o conteúdo do que está lendo não é compreendido.professores estão satisfeitos com esse tipo de trabalho e resultado por que não conhecem outro modo de trabalhar nem os resultados que poderiam ter. conseqüentemente. E uma prática . Esses professores devem ver as coisas também a longo prazo e levar em consideração o mal que os exercícios tradicionais de interpretação de texto trazem para os alunos. Por essa razão. é a leitura que propicia os bons resultados apontados pelos professores e não os exercícios de interpretação. As crianças pobres conseguem isso à medida que tomam cada vez mais contato com a leitura e se põem a ler mais e mais. Como o professor não pode saber de antemão quais são as dúvidas de seus alunos. não pode tomar a iniciativa antes deles. Quando uma pessoa está lendo um texto e encontra uma palavra cujo significado desconhece. Então. não adquirem a liberdade de ler um texto e refletir sobre ele com autonomia. Isso não tem nada a ver com interpretação de texto propriamente dita. o professor deve dizer para os alunos que busquem a solução para essas dúvidas perguntando. exercícios de interpretação de texto não dão a base cultural necessária para o que alegam. se optassem por um tipo de trabalho diferente Em segundo lugar. fazendo deles pessoas que não cortam o cordão umbilical da alfabetização e. é natural que pergunte. procurando no dicionário ou de outras formas.

saudável que deve acompanhar toda leitura. diante da seguinte situação: deixar de lado os exercícios tradicionais de interpretação de texto. Pode comparar um texto de jornal com um texto de livro e ver as diferenças. um professor não vai estudar o que é poesia após a leitura de cada poesia. etc. Em lugar disso. Interpretação de texto como essa se faz quando é necessário ou conveniente. O professor pode estudar a estrutura de uma piada. Interpretar um texto ou debater uma idéia? Uma atividade importante. é o debate. o professor irá promover estudos específicos sobre os mais variados textos. uma poesia pode servir para estudar o que é poesia. que procuram apenas a identificação de palavras ou de idéias. levando em consideração os diversos interesses suscitados pelos textos. estudo técnico sobre o assunto. Nesse caso. notícias de jornal. como cartas. que a escola deve cultivar com carinho. Estamos. pois. de um problema de matemática ou de qualquer tipo de texto. o texto representa apenas uma . observando-se como vêm expressos em tipos diferentes de textos. Determinados assuntos podem ser analisados. <337> e não com todo texto que se lê. um texto literário pode servir para discutir literatura. Obviamente. Assim.

levando em conta o que ouvem e. para estudar. Um grande problema das interpretações de texto é a falta de possibilidade de estender a exposição de uma idéia. tendo em vista os argumentos que entram na discussão que estão fazendo.das idéias em discussão. Os alunos não vão simplesmente responder a perguntas de identificação. Assuntos mais técnicos permitem discussões mais fáceis. A leitura deve servir para o aluno buscar informações. A grande vantagem do debate sobre a interpretação de texto é que permite que as pessoas possam responder. Atividades alternativas à interpretação de texto A atividade de leitura não deve implicar necessariamente a interpretação de texto. assuntos mais polêmicos suscitam opiniões diferentes. mas irão. pelo contrário. para se . o que causa freqüentemente confusões. Essa é uma das melhores maneiras de avaliar se os alunos aproveitaram muito ou pouco do que leram. elaborar por etapas um comentário mais completo a respeito do que pensam. instruções. estranhas conceituações e conclusões falsas. e histórias de fantasia permitem reelaborações críticas da história e de sua forma de apresentação que também representam atividades muito úteis na escola. dessa forma. apoiar ou rejeitar o que o autor disse. como também.

seja adaptando o conteúdo a outra forma de texto. a escola deve ensinar os alunos a tomarem notas de coisas bonitas e interessantes que leram. Em lugar disso. portanto. Um aluno lê uma história sobre o trânsito ou a vida de alguém famoso e. Esse tipo de trabalho com texto deveria ser a grande preocupação dos professores de todas as matérias. e. descansar. Seria ridículo obrigar uma classe a colecionar as mesmas coisas. É claro que cada um vai escolher a atividade que achar mais interessante. é partir de um texto para fazer outro. escreve com as próprias . seja recontando uma história. cada um faz de seu modo. Uma prática muito usada por alguns professores. etc. pensamentos. em cadernos de anotações pessoais. Aqui também. depois.distrair. A melhor maneira de perder um leitor é pedir para ele preencher uma ficha de avaliação ou de interpretação de texto. o professor promove a atividade. se divertir. versos. Fazer resumos de lições é uma boa prática escolar. e não só dos de português e de alfabetização. Esses esquemas devem ser personalizados. pode discutir o que cada um fez e ensinar o que for necessário. e que pode substituir com vantagens os exercícios tradicionais de interpretação de texto. etc. Essas fichas de leitura só servem para destruir o prazer de ler. colecionando <338> esses excertos.

palavras o que se lembrar do que leu. De modo geral. há ainda o inconveniente de despertar nos alunos aversão à leitura e aos estudos em geral. Outra questão vinculada à interpretação de texto é o ensino da gramática. a impressão que se tem é que a grande maioria dos professores usa os piores textos como exemplo para os alunos. o aluno lê uma poesia e transforma-a numa carta ou vice-versa. Ou então. Muito do que foi dito acima serve para a prática do professor em séries mais adiantadas. Esse tipo de trabalho é muito recomendável. Se os textos forem os de leitura comum. se preocupar em trabalhar os textos de maneira mais técnica: o melhor é produzi-los e ler. Os textos da interpretação de texto Finalmente. Reduzir o ensino de português à análise de textos é absurdo. Querer tirar todo o ensino gramatical de textos é catastrófico. Na alfabetização. como atividade individual. pois ensina as características dos textos. especialmente na alfabetização. porque acham que texto só serve como pretexto para o estudo da gramática. Um professor alfabetizador não precisa. na verdade. e preciso dizer alguma coisa a respeito dos textos que os professores dão para seus alunos lerem. Alguns escolhem os textos semelhantes . o mais importante é dar chance aos alunos de ler e escrever o máximo possível.

Além desse tipo de livros. ridículas ou. tem senso da realidade. que tratem de coisas sérias. mesmo as crianças. mesmo os adultos. Todo o mundo. vive no mundo da fantasia. . Todo o mundo. Alguns autores pensam que o conteúdo de livros infantis deve ser inverossímil. Outros adaptam letras a canções conhecidas para ensinar determinados conteúdos. Um excesso de leitura que navega em fantasias absurdas não pode ser uma boa prática escolar. Tudo o que se diz para um adulto pode ser dito para uma criança. histórias para boi dormir. e o resultado literário apresentado é simplesmente horroroso. como se costuma dizer. porque as crianças vivem no mundo da fantasia. quando muito. Destes. uns poucos livrinhos são bem-feitos e têm valor. Alunos que só lêem livros de histórias de fantasia dificilmente depois vão ler um livro de matemática ou de história diferente do livrotexto adotado pelo professor nas séries mais adiantadas. As escolas têm recebido um grande número de livros de história de fantasia. que são os piores textos já produzidos por alguém. a escola deve incentivar os alunos a lerem livros sérios.aos <339> encontrados nas cartilhas. Não é raro encontrar livrinhos com histórias sem pé nem cabeça. à moda dos contos de fada modernos. bastando escrever de maneira adequada para um ou para outro.

já seria muito se convencesse os alunos a se tornarem leitores.A partir de 1964. sobretudo nas primeiras séries. com a falsa alegação de proteger o mercado editorial nacional. Para a escola. simplesmente porque seus professores são preconceituosos com relação à capacidade de entender de seus alunos. Com isso. Os frutos que cada um vai colher irão depender do modo como cada um vai cultivar a própria vida como leitor. ainda raramente se vê um grande escritor entre os textos que os alunos lêem. mas dar aos alunos o que há de melhor: a leitura dos grandes escritores. ficam privados do que existe de melhor em termos de texto e de leitura. A salvação não é fazer interpretação de textos. essas obras voltaram às prateleiras das livrarias. Nos últimos anos. hoje é possível comprar muitas obras-primas da literatura universal até em bancas de jornal. porque os professores acham que seus alunos são incapazes de entender. os editores praticamente pararam de publicar traduções das grandes obras literárias estrangeiras. <340> 13 Ortografia da língua portuguesa BREVE HISTÓRIA DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA . Apesar dessas facilidades atuais. porém. Felizmente.

A influência do sistema latino A língua portuguesa veio do latim. Não se sabe quais línguas eram faladas ali. entre as pessoas cultas. O povo. como língua. implantando a cultura latina entre os povos da região. Em Portugal. Em Portugal. o latim era usado nos documentos oficiais. As pessoas que sabiam latim escreviam de acordo com as normas estabelecidas. hoje território espanhol. ao norte de Portugal. depois. embora se possa encontrar nessa época um latim bem diferente . na Espanha. uma ou mais línguas iberas. O latim foi se fixando nessa colônia. antes da chegada dos romanos. adquirindo seu sotaque próprio. No século X já se podia distinguir claramente o espanhol do português. firmando-se inicialmente como dialeto e. Os romanos estabeleceram colônias na península Ibérica. Havia também o galego. Logo depois da expulsão dos árabes. nas escolas. Portugal não passava de uma província dominada pela Espanha. O basco e o catalão sobreviveram como línguas de minorias no território espanhol. sempre pobre e ignorante. certamente era falada alguma língua celta e. nos livros e nos documentos religiosos. Os árabes vieram depois e dominaram a península do século V ao século IX. Portugal tornou-se um país independente da Espanha. além do basco. no dia-a-dia. falado na Galícia. no final da Idade Média. Durante essa época. compreendia cada vez menos o latim e usava quase exclusivamente o português.

como sempre. deixando o latim para algumas obras . que se tornava notório na escrita. Naquela época. que demonstrará depois se as hipóteses se sustentam ou se são mero fruto de erros de escrita. o francês? A primeira resistência à escrita veio do fato. Esse é um método não muito seguro. Com o surgimento das primeiras obras literárias nas línguas vernáculas. se o latim podia ser escrito. lá falava-se o romanesco. Por outro lado. Por volta do século X o latim era usado apenas em livros e em circunstâncias muito específicas e não mais no dia-a-dia. tornou-se imperativo que a literatura continuasse a ser escrita nessas línguas. o latim já não era mais a língua do povo nem mesmo em Roma. uma espécie <342> de latim estropiado. que antes era o latim clássico. o espanhol. dando a impressão de que a fala não mudou muito. mas que permite um começo de pesquisa.do latim clássico. A ortografia. Com o aumento do sentimento de nacionalismo e de independência desses povos. de que essas línguas ainda pareciam dialetos do latim. a língua vernácula passou a ocupar o lugar da norma culta. Erros de grafia têm sido usados por estudiosos para levantar hipóteses a respeito das variações da fala do latim em diferentes regiões. por que não usar o mesmo sistema com adaptações para escrever também o português. resiste mais às variações dialetais. as pessoas sabiam que.

como o português não era latim. algumas modificações no sistema de escrita eram inevitáveis. A escrita em Portugal também sofreu influência da escrita praticada na Itália. as palavras foram adquirindo uma forma padronizada pelo uso mais constante. fixando-se a ortografia que deveria valer para todos os usuários e ser um modelo para o ensino. No nosso caso. Documentos antigos Um grande estudioso da língua portuguesa. Como as pessoas estavam acostumadas com o alfabeto latino. revelando uma espécie de transcrição fonética. No princípio. sobretudo nas relações entre letras e sons. misturada com representações ortográficas próprias do latim.científicas. definir com precisão o valor das letras no sistema de escrita da nova língua. tem dito que o documento mais antigo em língua . Esbarrando na variação dialetal. A influência árabe deixaria sua marca com o uso dos acentos gráficos para marcar diferentes qualidades vocálicas. Somente a ortografia iria. na França e sobretudo na Espanha. passaram a usar esse sistema para escrever. José Lei te de Vasconcellos. depois. a adaptação das línguas apresentou muitas variações. onde havia centros culturais de grande importância na época.

. Stephanus Suariz testes. misturada com o latim da época. Ego Gonsaluus Petri presbyter notauit. que é bem curto. Gonsaluus Diaz testes. Eu Eluira Sanchiz offeyro o meu corpo áás virtudes de Sam Salvador do moensteyro de Vayram. Nesse documento. data de 1161. Menendus Sanchiz testes. lê-se: "deslo rriuolo ate no rego que uai por a uila". A ortografia que se vê no texto pode . Um documento interessante sob vários pontos de vista é a famosa carta de Pero Vaz de Caminha. Sancho Diaz testes. contando o descobrimento do Brasil. O segundo documento mais antigo data de 1193 e é o seguinte: IN NOMINE CHRISTI NOMINE. Vermúú Ordoniz testes. Trata-se de um título de venda.. (a letra u é igual à letra V).portuguesa. Fecta karta mense Septembri era MCCXXIX!. ÁMEN. assi us das sestas como todo u outro herdamento: que u aia u moensteyro de Vayram por en SAECULA SAECULORUM. e offeyro co' no meu <343> corpo todo o herdamento que eu ey en Centegãus e as três quartas do padroadigo d'essa eygleyga e todo hu herdamento de Crexemil. AMEN.

. traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuua maão travessa e de grosura dhuu fuso dalgodam e agudo na põta coma furador. Compare "demtes" com "dentro". nem estimam n huua coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. Observe. Há ainda fatos de segmentação. a palavra "cubertura" escrita com U.. mete nos pela parte de dentro do bei ço e oque lhe fica antre obeiço eos demtes he feito como rroque denxadrez e em tal maneira o trazem aly emcaxado que lhes nom da paixã nem lhes tor ua afala nem comer nem beber. e estam açerqua disso com tamta jnocençia como teem em mostrar orrostro. "grosura" e ' escritas com apenas um S. entre outras coisas.ser sentida no pequeno trecho abaixo: afeiçam deles he seerem pardos maneira dauerme lhados de boõs rrostros e boos narizes bem feitos. "bramcos". Perceba o uso do Ç em "açerqua" e "jnocemçia" e o uso de M em vez de N em muitas palavras como "tamta". A questão da carta . amdam nuus sem nhuua cubertura. Veja ainda o nãoregistro do ditongo AI em "emcaxado". como "os beiços" e "obeiço". os cabelos seus sam coredios e andauã trosqujados de trosquya alta mais que de sobre pemtem deboa gramdura e rrapados ataa per cima das orelhas. "coussa" escrita com SS.

mas é evidente que o autor variava bastante a forma de grafar por iniciativa própria. é gente interessada em mudar a ortografia. Quanto mais se fazia nesse sentido. Gonçalves Viana. A comissão . na história da língua portuguesa. Certamente. com o subtítulo: Simplificação e un sistemática das ortografias portuguesas. Ainda hoje. Leite de VasconceLlos e Adolfo Coelho.não se refere apenas à ortografia em uso na época. no final do século passado. nos quais podem ser vistas as mais diversas formas de grafar as palavras. é fácil entrar numa biblioteca e encontrar livros antigos. Carolina de Michaelis. Gonçalves Viana publicou sua famosa Ortografia Nacional em 1904. até que chegamos ao final do século passado com uma situação tão caótica que se tornava imperativo tomar uma providência drástica. veio agravar em muito a enorme quantidade de livros e de material impresso que começava a ser produzida. Uma comissão foi formada com a presença de Cândido de Figueiredo. percebia-se logo que piorava. um movimento de reforma ortográfica que passou a contar com o apoio da Academia das Ciências de Lisboa e do governo. <344> Tentativas de reforma e unificação O que não tem faltado. Primeira unificação das ortografias Começou em Portugal.

etc. recebeu em 25 de abril de 1907 um projeto de reforma ortográfica proposto pelo acadêmico Medeiros e Albuquerque. Primeira reforma ortográfica oficial no Brasil No Brasil. O projeto objetivava simplificar ao máximo a grafia das palavras. A discussão foi calorosa e mesmo naquela sessão já apareceu quem quisesse reformar a reforma. julgando-a. Sua proposta foi em grande parte incorporada à Ortografia que usamos hoje. como escrever FICSO (fixo).encontrou dificuldades para contentar a todos e o projeto de reforma foi se arrastando no tempo. — contraproducente. como tenho demonstrado. a recém-criada Academia Brasileira de Letras. . ÇAPATO (sapato). declarando em seu discurso: "Assim — vou concluir — sou infenso à miseranda reforma. PROSSIMO (próximo). aproximando-se do modelo de Gonçalves Viana e de Cândido de Figueiredo. Mas ele propunha coisas mais audaciosas. ELEJER (eleger). Carlos de Laet manifestou-se revoltado 345 contra a reforma. sob a presidência de Machado de Assis. sugerindo formas "mais simples" e "seguindo regras". A proposta de Gonçalves Viana procurava aproximar a ortografia da fonética no que fosse possível. ou ainda: TAM (tão). PAJINA (página). EMQUANTO (enquanto).

mal-fundamentada e ridícula:" Apesar da discussão. A proposta chegou até o Congresso Nacional e foi rejeitada. Em 1919. Em 1929. antiphilosophica. O governo brasileiro aprova o acordo com o decreto 20/08 de 05/06. no sentido de procurar uma unificação das ortografias oficiais. a reforma acabou aprovada com emendas. anti-patriotaa. e ficando como base (regras) o estabelecido na ortografia portuguesa de 1911. descriteriosa. O decreto 20 028 de 02/08 de Getúlio Vargas torna obrigatório o uso da ortografia oficial em documentos e nas escolas.selvagem. As reformas da reforma ortográfica Em 1915. apesar de tudo estabelecido. a Academia Brasileira de Letras rompe as negociações com a Academia das Ciências de Lisboa. por iniciativa do acadêmico Estrada. o ministro Gustavo Capanema solicitou de uma comissão especial um novo . com a participação das duas Academias. Silva Ramos. chegando-se a um acordo em 30/04. da Academia Brasileira de Letras. inoportuna. propôs ajustar o sistema ortográfico brasileiro ao português de 1911. a Academia Brasileira de Letras propõe um novo sistema ortográfico. Curiosamente. A regulamentação do disposto em 1907 aconteceu somente em 1912. Um novo esforço de unificação dá-se em 1931.

de 23/02. O ano de 1945 foi de muita luta pela reforma ortográfica. reunid em Lisboa. que. porém. soli citando da Academia Brasileira de Letras um novo Vocabulário ortográfico. Portugal lançou outro Vocabulário ortográfico em 1940. também foi adotado pelo governo brasileiro em 1940. Em 29 de dezembro de 1943. nada mais previsível do que fazer um novo acordo de unificação das ortografias oficiais. Aprovadas as Instruções (bases ou regras). mostrando que a situação não era tranqüila fora da comissão e das Academias. elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa.projeto de reforma ortográfica. introduzindo novas nor mas de acentuação extraídas do projeto de 1937. Dada a nova situação. a própria Aca demia Brasileira de Letras sugere o uso do Vocabulário ortográfico português. recomeçaram as discussões nos dois países. fez o Acordo <346> de Unificação das Ortografias. O . no entanto. que foi. Capanema faz aprovar o decreto-lei 292. Em 29/01 de 1942. ar quivado. Em 1938. O decreto 35228 de 08/12 do governo português ratificou as decisões da conferência. e forma uma comissão presidida por José de Sá Nunes. a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira. entregue em 21/12/1937. curiosamente. Uma nova Conferência Interacadêmica para a Unificação da Ortografia Luso-Brasileira reuniu-se em Lisboa.

mas o Brasil somente em 1947 O Acordo de 1943 tinha incorporado mais "o jeito de escrever" do Brasil. em 1955. Os portugueses publicaram logo seu Vocabulário.decreto-lei 8 286 do governo brasileiro aprovou a conferência e seus resultados. Por isso. modificando bastante o de Portugal. em comum acordo com a Academia Brasileira de Letras. O desentendimento entre Portugal e Brasil era evidente e intenso. Portugal também se propôs a fazer um novo Vocabulário ortográfico. revogando o decreto-lei 8 285. No Brasil tal modificação tornou-se oficial com a lei 5 765 de 18/12. Desse modo. a lei 2 623 de 21/10 restabeleceu para o Brasil o sistema ortográfico do Pequeno vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Em i986 começou uma nova tentativa de unificação das . publicado pela Academia Brasileira de Letras em 1943. O decreto 35 228 de 08/12 determinou um novo Vocabulário ortográfico. A briga continuava forte fora das Academias. com o de 1943. como a queda do acento diferencial (mêdo/medo). Portugal ficou com o sistema ortográfico de 1945 e o Brasil. A Conferência Interacadêmica voltou ao "jeito de escrever" mais típico de Portugal. Em 1971 um parecer conjunto das duas Academias introduziu pequenas modificações na ortografia de ambos os países. com muitos intelectuais brasileiros inconformados com as decisões tomadas. modificando o uso mais comum no Brasil.

como em FACTO. Deveria ser objeto da educação. cada pessoa recebe um nome com a grafia que os pais . ACTO. ou seja. a cultura e os assuntos culturais não têm vez e estão ausentes da vida das pessoas. A questão mais problemática continuou sendo aquela que caracteriza de modo mais significativo o 'jeito de escrever" de Portugal e do Brasil. mas como. como fica perante a lei? Comete uma contravenção? As regras referem-se também aos nomes das pessoas. Dessa forma. sobraram poucos detalhes para unificar as duas ortografias. RECEPÇÃO ou que são pronunciadas em outras palavras como CARÁCTER. a ortografia tornou-se oficial e obrigatória.ortografias vigentes por proposta do acadêmico Antonio Houaiss. a grafia dos vocábulos da língua portuguesa foi fixada através de regras estabelecidas no projeto de reforma ortográfica. a única saída que as pessoas têm para implantar a ortografia reformada é através das leis. não ocorrendo uma correspondência no Brasil. APTO. que recebeu aprovação do governo e acabou se transformando numa lei ou decreto. <347> Como vimos. Depois de tantas reformas. as "consoantes mudas". pelo menos do jeito como aconteceu. E quem escreve errado. Em Portugal. escrevem-se algumas consoantes que não são pronunciadas. mesmo dos políticos. Infelizmente esse assunto não deveria ser objeto de lei. Na prática. num país como o Brasil.

as reformas ortográficas atrapalham mais do que ajudam. Do mesmo modo. . Uma vez feita uma mudança. PIRASSUNUNGA ou PIRAÇUNUNGA? Quem decide. nesses casos. também têm problemas ortográficos: será MOGI ou MOJI. REFORMA ORTOGRÁFICA E ALFABETIZAÇÃO Alguns professores acham que uma reforma ortográfica iria facilitar a vida das crianças que estão se alfabetizando. Na verdade. Nomes próprios de lugares. em muitos nomes. de tal modo que na prática nada muda. Muitas pessoas na sociedade e até nas universidades pensam assim. Y e que.decidiram (ou que o cartório registrou). Elas acham que seria mais fácil escrever MEZA como BELEZA. Assim. cidades. as novas gerações aprenderão do mesmo jeito que as gerações anteriores aprenderam a velha ortografia. não deveriam ser usadas. Argumenta-se que seria bom que se escrevesse Z quando tivéssemos o som de "zê" e que o S fosse usado apenas para representar o som de "çê". são os decretos que atribuíram um nome a esses logradouros públicos. etc. Fazer reforma ortográfica não resolve problemas de alfabetização. os que já aprenderam de um jeito terão de mudar seus hábitos. aparecem as letras K. de acordo com as normas vigentes. Todavia. por exemplo. haveria outras regras semelhantes.

Indo contra a tradição da língua portuguesa. Na história das escritas (e sobretudo das ortografias). não há . Porém. os estudiosos das culturas indígenas brasileiras passaram a chamar os índios das diversas tribos sem acrescentar o s de plural. agora. a nova grafia ficaria: CAZAS FEIAS.. dependendo do contexto. os nomes oriundos de outras línguas sempre criaram grandes problemas. em vez de se escrever apenas CASAS. 'bs bororó' ' tupinambá' etc. Teríamos CAZAZ AMARELAIX e CAZAIX FEIAIX. Como deveria ser a grafia reformada? Se a regra fosse escrever Z onde se fala "zê". dizendo. quem quer mudar o S pelo Z expressa apenas uma dificuldade individual. Porém. analisemos o seguinte exemplo: CASAS AMARELAS. Se fosse um carioca. é muito mais vantajoso deixar tudo como está. não um problema geral da língua. para um paulista a nova grafia seria CAZAZ AMARELAS. teremos de escrever CAZAS ou CAZAZ. se tiver de escrever CASAS FEIAS. as coisas são diferentes.. Pequenas reformas poderiam ser feitas e de fato acontecem em espaços de tempo longos em todas as línguas. Na verdade. Ora. Os adeptos da reforma respondem dizendo que basta escrever CAZAS com Z. mostrando que. se for para mudar uma letra simplesmente sem mexer com a pronúncia. por exemplo. Se for para seguir a pronúncia. <348> Voltando à regra anterior. as coisas seriam diferentes.

> Nas aulas de português. Algumas pessoas acham que e na alfabetização que os alunos devem aprender a ortografia de todas as palavras Alias. mas em escrever QAXA. e as formas de escrever as palavras. etc. ORTOGRAFIA E ESCOLA CAGLIARI. o que equivale a dizer que a melhor atitude é sempre não alterar a ortografia. de tal modo que ele vá aprendendo as diferenças entre fala e escrita. O melhor é explicar todos esses problemas de maneira clara. em geral.vantagens nas modificações. a ortografia tem sempre um papel muito importante. 1994b. Como alguém pode sugerir uma reforma ortográfica se o aluno fala: "Nóis fumu dispoiz andá dj psicréta"? Ensinar a norma culta para o aluno acertar a ortografia é um equívoco muito grande. voltar a usar o alfabeto como um código para fazer transcrição fonética é destruir a essência da ortografia. Os professores que acreditam que reformas ortográficas ajudariam as crianças precisam analisar a questão mais profundamente. seguindo ou não a ortografia. QUAZA. a dificuldade não está em grafar CAZA ou CASA. Como ela foi inventada para neutralizar a variação lingüística. como alguns fazem. o critério mais comum de aprovação ou reprovação na alfabetização é estudiosos <349> . Para quem não sabe.

Às vezes. esse critério estatístico não faz sentido dentro de uma pedagogia saudável. Obviamente. mas infelizmente existe em muitas escolas. uma vez que não encontram nas séries avançadas o auxílio necessário para superar as dificuldades que têm com a grafia das palavras. Alguns professores e até diretores de escola chegam a reclamar dos professores alfabetizadores. que a culpa daquele erro foi descuido do professor alfabetizador. Os colegas zombam. por causa dos transtornos que esses alunos causam no desenvolvimento das atividades das séries mais avançadas. Se o aluno errar a grafia de uma palavra de uso mais comum. o professor se irrita e eles não sabem como sair da armadilha em que caíram. São erros insuportáveis. Se o aluno escrever PEÇOA (pessoa) ou BRICPZA (princesa) deverá ser reprovado sem mais discussão. vale a pena reprovar um aluno simplesmente porque escreveu . Alguns professores chegam mesmo a estabelecer uma porcentagem para essa decisão. A escola e as pessoas devem se perguntar um dia se. a decisão do professor baseia-se na aversão que tem a certos erros. que denotam um analfabeto (sic!). Em situação pior estão os próprios alunos. Essa questão tem muito a ver com o que dizem os professores das séries mais avançadas. de fato.um julgamento sobre o conhecimento que o aluno tem da ortografia das palavras. logo se ouve comentário de que foi mal alfabetizado.

o dicionário até parece um livro proibido. o que deveria acontecer sempre.PEÇOA ou BRICPZA. é mais do que certo que se um aluno souber escrever é porque sabe ler e. e é do gosto delas exigir dos alunos que mostrem que decoraram o que foi ensinado. sobretudo nas provas. a ortografia nunca deveria ser objeto de avaliação. Porém. Na verdade. em todas as aulas. quando tivessem urna dúvida ortográfica. mas isso se consegue muito mais facilmente quando eles têm a chance de consultar freqüentemente o dicionário. pode muito bem pesquisar num dicionário e corrigir o texto que escreveu. uma vez que é natural que mesmo pessoas acostumadas a escrever por vezes tenham dúvidas a . se souber essas duas coisas. Por que os alunos não podem fazer suas redações com um dicionário ao lado? Sem dúvida alguma é conveniente que os alunos decorem a ortografia da maioria das palavras mais comuns. Responder a essa pergunta de maneira negativa não significa diminuir a importância da ortografia. Seria mais lógico e natural que as pessoas tivessem sempre à mão um dicionário para <350> poderem escrever melhor. inclusive para resolver dúvidas ortográficas. As pessoas gostam de dar pontos para a ortografia porque é uma questão que exige memorização. A questão é outra: qual o peso das coisas na vida escolar? Além disso.

Certamente. é mais comum as pessoas estranharem uma grafia errada de uma palavra do que um texto mal-estruturado ou uma idéia malapresentada. Assim como a sociedade cultiva um desprezo preconceituoso contra quem fala uma variedade da língua muito diferente da norma culta. era preciso rever a maneira como a antiga escola encarava a ortografia na alfabetização. Essas atitudes da escola com relação à ortografia têm provocado nas pessoas uma reação muito negativa com relação a quem escreve errado. Mas abandonar os alunos à sua sorte futura. sobretudo. sem nenhuma explicação e. que o aluno podia escrever do jeito que quisesse. Depois. não saía da primeira série. desde que escrevesse. A situação de algumas escolas tem piorado recentemente por causa da ação de alguns professores e pedagogos que passaram de um extremo a outro.respeito de palavras que já escreveram antes sem titubear. passaram a entender que a ortografia não era mais tão importante assim. Antigamente exigiam a ortografia com todo o rigor: se o aluno não soubesse tudo o que a cartilha apresentava. A ortografia seria aprendida depois. ou melhor. com as novas idéias pedagógicas. como parte do desenvolvimento escolar. Nesses casos. do mesmo modo trata quem escreve sem seguir a ortografia. sem que os professores das séries avançadas assumissem a tarefa de .

está na hora de começar a preocupar-se com o segundo aspecto do nosso sistema de escrita. o professor não precisa preocupar-se com a ortografia (nem o aluno). Depois que o aluno conseguir escrever com certa fluência. que é a grafia das palavras de acordo com o modelo ortográfico estabelecido. de onde saiu e aonde vai chegar. mas sabendo também que nossa escrita se preocupa com a ortografia. um aluno pode desenvolver tranqüilamente seu processo de alfabetização. Sabe que está aprendendo a decifrar a escrita nos seus aspectos fonéticos. sintáticos. Então. Para aprender a escrever certo é preciso checar a grafia de cada palavra. Tendo ouvido todas essas explicações. o objetivo é apenas escrever. um aluno pode apren . tendo plena consciência de que essa escrita é uma tentativa de expressar a fala por escrito. No inicio. sabendo o que e como está aprendendo. Sabe que seus conhecimentos básicos de leitura já lhe permitem tentar escrever. que passaram a não entender mais o que a escola queria deles. semânticos e textuais.cuidar da ortografia. Assim. Explicar aos alunos o que é ortografia e como resolver dúvidas ortográficas é uma atividade imprescindível na alfabetização. de forma a permitir a leitura dentro do sistema alfabético <351> que usamos. criou uma situação de frustração para muitos alunos.

O que fazer. O aluno tem um tempo inicial para aprender a ler e a escrever. vai esquecer o que já sabia e irá precisar perguntar coisas banais e. no primeiro ano escolar. o aprendizado da leitura. Superada a primeira fase. mas também não se pode abandoná-la. imaginando se determinado aluno vai ou não aprender a escrever certo. se tiver respostas respeitosas para suas dúvidas. Às vezes. Ele precisa saber como se virar. aprender a ortografia vem como conseqüência do trabalho de autocorreção dos textos. Procedendo assim. porém. o aluno não só aprende a escrever livremente. que é decisiva. como também corrige a ortografia desses textos e começa a decorar a grafia das palavras mais comuns. com os alunos que infelizmente não tiveram a chance de se alfabetizar dessa forma? O que fazer com . e um tempo posterior para cuidar da ortografia e de outros aspectos da escrita. ou seja. e o professor não precisa se preocupar. Esse procedimento mostra que não é preciso começar com a ortografia.der a ler e a escrever tranqüilamente sem o tormento da ortografia. Por outro lado. Dominar a ortografia é algo que vem com o tempo. produzindo textos espontâneos dos mais variados tipos. acabará lidando muito bem com a ortografia no futuro. isso não significa que um aluno irá sair da primeira série dominando perfeitamente a ortografia de todas as palavras. é fácil ver como.

da natureza. é preciso relembrar que não é só o professor alfabetizador que deve partir da realidade de seus alunos para estabelecer um processo de ensino e de aprendizagem adequados. o professor <352> deverá falar. a respeito do processo de aquisição da linguagem. O professor deve apresentar uma lista de palavras escritas erroneamente e analisar as hipóteses que o aluno levantou para escreve-las. para fazer transcrição fonética). da variação lingüística. se um professor da quinta série percebe que um aluno tem dificuldades sérias com a ortografia.os alunos que não escrevem as palavras seguindo a ortografia nas séries mais avançadas? Em primeiro lugar. em particular do nosso. Precisa comparar a escrita ortográfica com outros usos da escrita alfabética (por exemplo. cometendo erros intoleráveis. Será preciso discutir a necessidade de escrever respeitando a ortografia e em que circunstâncias isso tem uma importância maior. função e usos dos sistemas de escrita. exigindo um trabalho preliminar de . Entre outras coisas. Precisa ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e como resolvê-las. sua obrigação é ensinar a esse aluno tudo aquilo que ele precisa saber. os professores das demais séries têm a mesma obrigação. como se mencionou acima. Portanto. Deve explicar detalhadamente o que é ortografia e quais as regras.

o professor pode analisar o texto e dizer a ele que apresenta determinado número de erros de grafia. O aluno corrige e o professor vê se sobraram erros. Esse tipo de atividade obriga os alunos a prestar mais atenção à ortografia. Como é óbvio em educação. em qualquer momento da escolarização. o professor precisa ensinar aos alunos (que ainda não aprenderam) todas aquelas informações que deveriam ter sido aprendidas antes. Finalmente. Quando um aluno não sabe alguma coisa. O aluno deverá procurar no dicionário todas as palavras de seu texto até que não haja mais erros de grafia. a obrigação dc) professor é ensiná-lo. No caso de alunos preguiçosos. podem ter sobrado três erros. pode-se pedir para o aluno procurar no dicionário todas as palavras de seus textos. seja o que for. para descobrir quais estão com a grafia errada. por exemplo. Lamentar o fato não resolve o problema do aluno nem deve tranqüilizar o professor. 38. IDÉIAS ERRADAS A RESPEITO DA ORTOGRAFIA Contribui muito para a dificuldade que alguns alunos têm . em que série da escola isso estiver acontecendo.revisão do aluno. Com o tempo vão achar mais fácil decorar a grafia das palavras mais comuns do que ficar consultando o dicionário a cada novo texto que escreverem. Por exemplo.

a escrita inventou a ortografia. se cada um escrevesse do jeito que fala. o aluno ouve o professor dizer que o nosso sistema de escrita é alfabético e que isso significa que escrevemos uma letra para cada som falado nas palavras. Assim. Feito isso. Nosso sistema usa letras.para escrever as palavras na forma ortográfica correta uma série de informações erradas que recebem desde a alfabetização a respeito da ortografia. o professor não pode dizer simplesmente para o aluno observar os sons da fala. percebe-se logo que. A partir da ortografia. perdeu-se em grande parte o caráter alfabético da escrita. o aluno precisa aprender que. as palavras terão . as vogais e consoantes. dado o fato de as pessoas falarem dialetos diferentes. Esse é o primeiro passo. <353> Desde os primeiros contatos com a escrita. Portanto. seria o caos. cada leitor irá decifrar uma palavra escrita na forma ortográfica. Por essa razão. mas não é tudo. podemos dizer que o objetivo funcional da escrita é a leitura. Para neutralizar a variação dialetal. Fazendo o caminho inverso. Mas o uso prático desse sistema não se reduz a uma transcrição fonética. e representá-los na escrita por letras. fazendo com que todas as palavras tenham apenas uma forma escrita. cada um lê conforme fala. que passou a ter um caráter ideográfico muito forte. Portanto. às quais são atribuídos valores fonéticos. dizendo-a de acordo com seu dialeto.

Isso se faz quando não se quer levar em conta a ortografia.pronúncias diferentes. Como a ortografia decidiu que apenas uma forma é a estabelecida. <354> A prática de muitos professores de apagar uma palavra escrita errada pelo aluno e de colocar o certo acaba gerando a famosa preguiça intelectual. Depois de certo tempo. as pessoas precisam saber qual foi a forma escolhida. Somente pensando ninguém pode ter certeza a respeito da ortografia de nenhuma palavra. ele já não se . não correspondem a essas idéias básicas a respeito da natureza da ortografia. Não é uma boa estratégia pedagógica mandar o aluno simplesmente pensar para escrever. é outra. Mas essas regrinhas são poucas e resolvem uma porcentagem muito pequena de casos. Como se vê. caso das primeiras atividades de escrita das crianças. muitas das explicações que são dadas aos alunos. é possível elaborar algumas regrinhas. é preciso ensinar o aluno a ter dúvidas ortográficas e a resolvê-las. A verdade. Depois. PORTUGUESA). POBREZA) e as que formam um plural feminino. como a que diz que as palavras abstratas terminadas em -EZA são escritas com Z (BELEZA. Às vezes. O uso de ditados passa aos alunos a idéia de que podem escrever corretamente as palavras desde que pensem para escrever. independentemente da maneira como pronunciam as palavras. porém. desde a alfabetização. com S (FRANCESA.

Esse tipo de cópia serve apenas para castigar. Então. passar a limpo. Esse contato com a escrita e com a leitura é que faz com que os alunos resolvam seus problemas de ortografia. O ideal seria desenvolver nos alunos o hábito de rever o que escrevem. fazendo uma autocorreção da ortografia dos seus textos. não só nas redações escolares da aula de português. O objetivo real é que o aluno aprenda a ortografia das palavras mais importantes e de uso mais freqüente e que tenha o hábito de resolver suas dúvidas ortográficas. A melhor estratégia para se conseguir que os alunos estejam sempre em dia com a ortografia é a prática constante da escrita (com dicionário) e muita leitura. Para que essa prática desse certo. Alguns professores costumam passar muitas e longas cópias para que certos alunos decorem a ortografia. decorando a grafia das palavras. Fazer cópias para decorar a ortografia auxilia pouco e não garante que o aluno não esqueça no futuro. porque o professor corrige mesmo. isso não deve ser um objetivo a ser alcançado. como eles irão aprender a ortografia de todas as palavras? Na verdade. o que tomaria todo o seu tempo de escola durante décadas. quando necessário. .preocupa com a ortografia. seria preciso que o aluno fizesse cópias não só de meia dúzia de palavras. seja em que matéria for. mas de todas as palavras.

analisando seu dicionário. BALSA e BALÇA. uma vez que é INTUMESCER e não ENTUMESCER. como manda a Academia Brasileira de Letras (Vocabulário ortográfico). SOLUÇO e SALUÇO. Aurélio Buarque de Holanda apresenta uma lista de palavras com relação às quais ele tem dúvidas a respeito de qual seria a melhor forma de grafá-las. principalmente de alfabetização. é ensinar como ter uma dúvida ortográfica e como resolvê-la. criando. ele acha que deveria ser DESINTUMESCER e não DESENTUMESCER. ENGOLIMOS e ENGULIMOS. etc. . Traz pares de palavras como CAMINHÃO e CAMIÃO. FLECHA e FRECHA. percebemos que algumas <355> vezes ele traz uma forma arcaica de escrita ou uma forma retratando regionalismo (pronúncia dialetal). Dúvidas ortográficas todas as pessoas têm. > Um ponto importante que os professores. Por exemplo. desse modo. 1963. formas ortográficas paralelas de algumas palavras. Na introdução do Pequeno dicionário da língua portuguesa. Além disso. Tão importante quanto ensinar o que é ortografia e quais os mecanismos de nosso sistema de escrita. em geral.A DÚVIDA ORTOGRÁFICA FERREIRA. SEMANA e SOMANA (forma arcaica). precisam tratar com seus alunos é a dúvida ortográfica.

Assim. Um levantamento desse tipo de dificuldades vai mostrar que. escrevem as formas alternadas para decidir depois qual a correta. sendo praticamente inexistente em outros. A dúvida ortográfica surge de maneira típica em alguns casos. mas não para um aluno já alfabetizado. quando uma letra representa vários sons ou um som é representado por várias letras. pode ser difícil saber se deverá escrever BELEZA ou BELESA.Qualquer usuário do nosso sistema de escrita tem dúvidas ortográficas ocasionais. diante de uma palavra comum. À medida que uma palavra se torna mais familiar. a dúvida ortográfica tem mais chance de se instalar e será sempre uma dificuldade para quem se alfabetiza. Para um professor alfabetizador. mostrando que algumas grafias são realmente estranhas e provavelmente inexistentes. Para um aluno nas primeiras séries. para uma criança que se alfabetiza é um problema difícil saber se deve escrever MESA ou MEZA. EXTENSÃO ou ESTENSÃO ou ainda EXTENÇÃO ou ESTENÇÃO? A memória visual adquirida através de muita leitura. muitas pessoas quando têm dúvidas ortográficas. Às vezes. PRINCESA ou PRINCEZA. Aliás. às vezes ajuda a decidir. TIGELA ou TIJELA? Quem aprendeu a lidar com esse tipo de problema não se envergonha de perguntar ou de consultar o dicionário. menos dúvida causará. surge a dúvida: é DANÇA ou DANSA. as dúvidas são de outro tipo: será CONSTITUI ou CONSTITUE? Será ESTENDER ou EXTENDER. a partir da .

sobretudo. no seu caso. Para ele. causa problemas diferentes para a leitura e para a escrita. tendo em vista as possíveis dúvidas ortográficas. Saber se uma palavra se escreve com a letra X ou não é que é o problema. A ortografia. <356> Para muitos alunos. as relações entre linguagem oral e linguagem escrita. O professor deve incentivar seus alunos a terem dúvidas ortográficas. Para um aluno que fala "bardji" (balde). "nóis fumo dispois" (nós fomos depois). É por essa razão que a letra X vem por último. a questão da variação dialetal e. como funcionam.memória visual. nem sempre é difícil ler a letra X. pois. antes de tudo. a grande dificuldade com a ortografia das palavras não está no uso do X ou se a palavra BELEZA se escreve com Z ou S. "brabuleta" (borboleta). "psicreta" (bicicleta). o uso da ortografia e apresenta com dificuldades muito maiores do que essas. explicando os vários tipos de dificuldade que nosso sistema de escrita apresenta com relação a isso e levando em . Entretanto. é preciso ter bem clara. As cartilhas costumam colocar as lições em graus de dificuldade crescente. Para quem é falante de dialetos muito diferentes da norma culta. ter uma dúvida ortográfica não é simplesmente uma questão de saber se uma palavra se escreve com S ou com Z ou ainda com X.

o aluno deveria. respeitando as dificuldades e dúvidas dos alunos. fazer um levantamento das dúvidas e resolver caso por caso. Consultar o dicionário é uma questão de hábito. o professor deve fazer ver aos seus alunos que vale mais a pena resolver direito essas dúvidas do que ficar imaginando como seria a forma ortográfica das palavras ou escrever de qualquer jeito. que deve começar desde a alfabetização. Por essa razão. Esse exemplo da escola deveria ser levado para a vida. A escola não deve apenas ensinar conteúdos programáticos. deixando sempre à disposição do aluno dicionários. checar a forma ortográfica das palavras. é preciso que o professor tenha uma atitude saudável. E antes de passar a limpo. ter dúvidas ortográficas é muito natural e comum. entre outras coisas. mas também bons hábitos nos estudos. não dando maior importância do que esse assunto merece e. Todo trabalho escrito deveria ser feito primeiro numa forma de rascunho e depois passado a limpo. Toda sala de aula deveria ter um dicionário e todos os alunos deveriam ter acesso a ele em todas as aulas. Para que o aluno aprenda a lidar direito com isso. Outra prática importante é a autocorreção dos trabalhos.conta também as dificuldades próprias de cada aluno. Todo aluno deveria ter um dicionário em casa. principalmente. Como já se disse. quando tivessem de escrever. como se . vocabulários ou outros meios para que o aluno possa resolver suas dúvidas ortográficas.

sempre que . explicando como o conhecimento necessário à leitura pode se fundamentar em regras. por exemplo. ou seja. sobre como o alfabeto e a ortografia comandam as relações entre letras e sons em nosso sistema de escrita. este material pode servir de subsídio para o professor organizar aulas específicas em que irá tratar de aspectos da categorização funcional das letras. Este estudo serve também para o professor refletir sobre a categorização funcional das letras.tem enfatizado ao longo deste livro. As considerações a seguir estão organizadas. Por outro lado. através da descoberta das relações entre letras e sons (ou das relações entre sons e letras). bem como das relações entre sons e letras — que fazem com que o aluno parta da observação de sua fala e chegue a escrever de acordo com a ortografia. <357> Apêndice A categorização gráfica das letras Apresenta-se neste apêndice um estudo detalhado das relações entre letras e sons — que permitem a decifração da escrita e a leitura —. Um exercício exaustivo nesse sentido revela também como o processo de alfabetização é complexo e exige uma quantidade considerável de conhecimentos.

ESTUDO DA LETRA A O nome da letra A é a e representa o som básico de "a". A seguir. são apresentados sucintamente os comentários mais relevantes sobre como ler e traçar a letra. um exemplo de palavra que começa com o som de "a" e que se escreve. na maioria das vezes. seu valor fonético no alfabeto (princípio acrofônico) e algumas explicações que serão desenvolvidas adiante. O professor. . Essa palavra começa e acaba com a letra A tanto na escrita como na fala. Em seguida. Depois. terá de se deixar levar pelas sugestões dos alunos e pelo desenvolvimento natural das aulas. uma palavra que só tem o som de "a" no final: MINHOCA. Como exemplo. O professor poderá escrever algumas palavras na lousa. pode escrever AMIGA. E vice-versa: se for encontrada a letra A na escrita. segundo a ordem do abecedário. identificando-a com o som "a" na fala. Nos quadros aparecem o nome das letras. portanto. não precisa seguir essa ordem. entretanto. mostrando como levantar dados e formular regras. com a letra A. pode ter outros sons. dizer o que está escrito e mostrar aos alunos onde ocorre a letra A. esse som será escrito com a letra A. no início e no meio: ASSADO. ela representa o som de "a". Talvez.possível. quando urna palavra tiver o som de "a". Como qualquer letra. que se verão a seguir Portanto.

tem-se uma fala mais "natural" e no segundo. VEZ ("vêis"). PAZ. final. A mesma regra vale para as vogais U. Outro caso particular da letra A ocorre quando. etc. na fala. o professor a escreve numa outra coluna e explica por que aquela palavra tem H (razões ortográficas). Quase todas as letras têm outros sons. HOJE. em sílaba final de palavra oxítona. uma fala mais "artificial" (dependendo sempre do dialeto). E e O (com os sons de "ê". ou seja. ela vem antes do som da vogal "u" (representada na escrita por U ou por L no final da sílaba). São os casos particulares. dependendo das letras que a antecedem ou a sucedem (contexto). HELICE. pela vogal. seguida de S ou Z (ou dos sons "s" ou "ch". como se pode ver em palavras como HABITAÇÃO. Se por acaso algum aluno ditar uma palavra que comece por H. • fazendo colunas de acordo com os casos apresentados (início. início-e-final. "é". etc. PÉS ("péis"). TOMÁS. e como se lê o H em início de palavras: começando pela letra seguinte. ATRÁS. HUMILDE. outros casos).O professor poderá pedir para os alunos irem ditando palavras para ele escrever na lousa. Por exemplo. HINO. ARROZ ("arrôis") e NÓS ( "nóis"). a letra A tem um som . tem o som de "ai" ou apenas "a": no primeiro caso. "ô" e "ó"). Exemplos: RAPAZ. além do som básico. como mostram os seguintes exemplos: LUZ ("lúis" ou "lúich"). a letra A. na fala. Neste caso. de acordo com o dialeto).

ou ainda MURO AMARELO. Veja. às vezes é necessário escrever A ou O que não ocorrem na fala ou "separar" palavras. BAÚ. variando a vogal: CASA ESQUISITA. Outros exemplos: SAL."posterior" (de "garganta"). TODO O MUNDO ("todumúndu"). etc. É O CASO DE ELE DIZER A VERDADE ("éukazudelidizeraverdadi"). ficando com uma qualidade . A vogal A pode ser nasalizada. que se torna "kaziskizita". Esses exemplos mostram que foi a vogal final da primeira palavra que deixou de ser pronunciada e não a vogal inicial da palavra seguinte. ALTO e AUTO. Por razões semelhantes. Compare o som da letra A nas palavras MAIS e MAUS e anote a diferença. podemos ver outros exemplos. é preciso escrever uma letra A que não aparece comumente na fala. etc. ELA FOI PARA A CIDADE ("élafoiprasidadi"). Às vezes. Note que o som do "a" precisa formar ditongo com o som do "u". a letra A possui o som básico de "a". MAL. Repare nos seguintes exemplos: CASA AMARELA — numa fala fluente. RAUI SAUL. Se não houver a formação de ditongo. Para testar e conferir qual a vogal que cai. por exemplo: TODA A FAMILIA ("todafamília"). que é dito "muramarélu". etc. CALDO. BALDE. o A final da palavra CASA não é pronunciado: "kazamaréla". como se pode observar em palavras como SAÚDE (compare com SAUDADE). se o A final de CASA ou o A inicial de AMARELA. LAURA.

Portanto. CANAVIAL. CANA. Na verdade. CAMADA. a pronúncia é "rãu". CAMA. sabe-se que deverá ser escrito com a letra A. cujo som do primeiro A é oral. como em: ANTÔNIO. Som nasalizado: ANA. Quando uma palavra termina em -RAM. quando se tiver de escrever o som nasalizado igual ao do início da palavra ANA. a letra A pode ter o som nasalizado ou não. AMA. Se for átona. em muitos dialetos.vocálica diferente. mas. por exemplo: UNHA ("ünha" ou "üinha"). e a vogal é tônica. Quando a letra A vem antes de NH. AMADEU. ACHARAM ("acharãu" ou "acham"). a letra A será sempre nasalizada. CANTIGA. Se depois das nasais M ou N houver uma outra consoante. CÂNFORA. Na leitura. SONHO ("sõnhu" ou "sõinhu"). a pronúncia pode ser "ru": FIZERAM ("fizérãu" ou "fizéru"). etc. CAMPO. caso da palavra ANA — compare com ASA. caso dos verbos. no dialeto padrão. TENHO ("tenhu" ou "teinhu") e até VINHO pode ser pronunciado "vinhu" ou "viinhu". . ou numa fala bem informal. Som nasalizado ou não: ANÃO. embora nesse caso possa variar com o ditongo nasalizado "ãi". como mostram os seguintes exemplos. a letra A tem o som de A nasalizado ("ã") quando ocorre antes das consoantes nasais M e N. como se vê em: BANHA ("bãnha" ou "bãinha"). tem sempre um som nasalizado. toda vogal que vier antes de NH pode variar com um ditongo nasalizado terminado em "i". AMOR.

um aluno que fale um tipo de variação . LIMÃO. nesses casos. ENCONTRARAM e ENCONTRARÃO. a sílaba final é átona (a palavra é paroxítona). tem de saber a ortografia de palavra por palavra.derminado pelo conhecimento da variação lingüística e da ortografia das palavras. Porém.VIERAM ("viérãu" ou "viéru"). no segundo caso. a sílaba final é tônica (a palavra é oxítona). Esses casos podem ser explicados e. em grande parte. na escrita. etc. Note que. estabelecendo relações novas e particulares entre as letras e os sons. No primeiro caso. Geralmente. Quando um aluno é falante de um dialeto muito diferente da norma culta. os valores fonéticos letra A. uma vez aprendidos. ainda. SABÃO. Por exemplo. Compare: ACHARAM e ACHARÃO. nos casos em que existe uma espécie de regrinha que orienta a interpretação. diz muitas palavras com uma pronúncia peculiar. ele fala de um jeito e precisa aprender que a escrita é bem diferente. ou. há uma distinção entre palavras que acabam em -RAM e palavras que acabam em -RÃO. Essas regras podem ser feitas porque os valores fonéticos da letra estão ligados a determinados contextos. VIRAM e VIRÃO. são de grande utilidade no . Os exemplos apresentados anteriormente revelam.trabalho de decifração. Além disso. há ocorrências em que o valor fonético da letra A só pode ser . pois não é possível estabelecer regras dependentes de contextos. e. IRMÃO.

etc. Quando o problema se resolve com uma regrinha contextual. fica tudo mais fácil. quando se trata de variação dialetal. Todos os exemplos anteriores podem ser estudados a partir da fala.único jeito é o aluno desconfiar e perguntar pelo certo a quem sabe ou consultar o dicionário. Para esses casos. Partindo da observação da fala das pessoas e tendo em mira o .CANFUSO (confuso). mas também como são formadas as palavras e como rege a ortografia. ADESPOIS (depois). No próprio dicionário. Saber que existe a dificuldade é introduzir uma dúvida ortográfica. Entre as considerações a respeito de como se lê a letra A. terá de fazer um uso mais ideográfico do que fonográfico. ou LEMBRAR-SE e ALEMBRAR-SE. ILUMINAR e ALUMIAR. e isso é muito importante para que o aluno escreva sempre "desconfiando" da grafia. ao buscar as formas ortográficas. . foram vistos também alguns casos de como partir da fala para escrever a letra A. encontramos registro desse tipo de dificuldade. SEJE (seja). não basta ensinar as regras que relacionam letras e sons. chegando-se às mesmas regras.lingüística que tenha palavras como: BARBOLETA (borboleta). como em: BÊBEDO e BÊBADO.

Assim: em "minhamiga". Para representar o som de "a" ou de "ã". Se o significado for "lavou casas que existem". Exemplos: "batata" BATATA. intercalando outra palavra entre essas duas. o significado é "lavou a casa inteira". Embora haja significa ':5 diferentes com ou sem o artigo. então.que se escreve com a letra i. por exemplo. deve-se escrever a letra A. na escrita haverá o artigo. não haverá . "kãneta" = CANETA. fazendo as seguintes afirmações: 1. Se a última sílaba de urna palavra terminar em "a". é preciso analisar as palavras isoladamente. é preciso fazer uma averiguação para saber se. Se ocorrer "ã" e a letra A não for seguida de M ou N. recebe til. há dificuldades em saber se deve ou não escrever o artigo definido A. 3. o que mos a que a segunda palavra também começa com "a". pronunciando as palavras isoladamente. Posso dizer também: "minhacõnténtiamiga". Para saber como escrever. é possível que a seguinte também comece por "a". podemos estabelecer relações entre sons e a letra A. esse é um problema para quem escreve em português. sei que devo escrever um A a mais: MINHA AMIGA. em exemplos como: "élalavôtodakaza". a primeira palavra é "minha" e termina em "a". 2. numa faia pausada. "ãmbulãçia"' = AMBULÂNCIA. cabe ou tão o artigo: ELA LAVOU TODA CASA ou ELA LAVOU TODA A CASA. Às vezes. Nesses casos.

Assim "çê". <361> 4. mas a uma criança em particular (cada criança). é preciso saber antes se o som de "chê" vai ser escrito com CH ou com X. introduzida na língua portuguesa). a forma escrita não registra o A (porque não ocorre o artigo): ISTO SERVE PARA TODA CRIANÇA. deve-se escrever AI e não apenas A. Em algumas palavras.artigo. neste livro o som (s) da fricativa alveodental surda vem transcrito com o cê-cedilha. "kê". "kachu" (CACHO). zê". para saber isso. de fato. como MAXIXE (que na verdade é palavra de origem estrangeira. "çê" Note que no caso de consoante. mas. etc. Palavras como "machu" (MA CHO). Há raras exceções. Se essa frase não se referisse às crianças em geral. "a". Nas outras palavras. são. porém. precisa ser ignora da na fala contínua em que aparece a consoante. O som "ãu" só ocorre na sílaba final de uma palavra (exceto . Num outro caso. porque nesse caso o "a" vai ser escrito com Ai e não apenas com A. mas não em todas. 5. quando se encontra o som de "a" diante do som de "chê". apenas "ç". Com já foi dito. sua representação oral aparece transcrita com a vogal "ê". "k". Facilita um pouco mais saber que o som de "chê" se escreve com X. etc. a qual. etc. escreve-se apenas A. como: "istuçérvipratodacriãça". não são escritas com AI. a frase teria artigo: ISTO SERVE PARA TODA A CRIANÇA.

7. 6. Nas formas verbais do tempo passado. BÃÜ. Estudando essas variações. escreve-se apenas a letra A. Algumas palavras têm uma pronúncia num determinado dialeto (BARBULETA.em casos de diminutivos. "fizérú" e "fizéru".). ou com ÃO. etc. sobretudo se a palavra não for verbo: ENTÃO. MECADTO. Encontrando a escrita NH. é preciso verificar se ocorre o som de "ã" ou de "ãi" imediatamente antes. CORAÇÃO. Há duas formas de escrever esse ditongo: com AM. podemos encontrar as seguintes pronúncias: "fizérãõ". CHEGUEMO) e . como CÃOZINHO. LATÃO. Diante do som de "u". ALEMÃES. mas representadas apenas pela letra A. Portanto. etc. Não confundir o díagrafo NH com o som de "nh". podese saber que na escrita teremos -RAM. Em palavras como "mãinh "alemãinhs". nos demais casos. como acontece em terminações verbais (exceto as do futuro do presente e algumas formas de verbos irregulares como ESTÃO. mas apenas ZERO. etc. porque não existe variação de pronúncia como "zérãu" e "zéru" (nasal). Essa regra aplica-se só a verbos e não a nomes. "zéru" não vai ser escrito ZERAM. SÃO). 9. Em qualquer dos dois casos. a escrita assinala o ditongo com A + E: MÃE. ADISPOIS. 8. Essas diferentes pronúncias (MAIS — MAUS) não são notadas na escrita. ocorre um "a" posterior e não anterior — como acontece nos demais casos.

estão defrontando todas essas dificuldades. Às vezes. Nesses casos. Pior ainda é o fato de as crianças. . CHEGAMOS). Exemplifica como o uso de uma escrita ortográfica neutraliza a variação lingüística na escrita. DEPOIS. como conseqüência. envolve várias dificuldades.outra. o conhecimento de que uma determinada forma pertence à norma culta pode ajudar na escrita. A análise acima mostra como a letra A. quando estão aprendendo. Esse tipo de análise revela. mas nem sempre. em outros dialetos (BORBOLETA. que as cartilhas e os professores em geral consideram fácil de aprender. uma enorme complexidade nas relações entre letras e sons e vice-versa. BOM. e o professor precisa saber disso. Mostra. quando se levam em conta seus usos nos diferentes contextos e dialetos. somente através da questão ortográfica os alunos podem desconfiar e resolver suas dúvidas. no início da alfabetização. Os alunos. MERCADJNHO. O que dissemos deixa claro que a questão das relações entre letras e sons — ou seja. ainda. parte dos conhecimentos que uma pessoa precisa ter para saber decifrar nossa escrita e escrever. ainda. a categorização funcional das letras — é muito mais complexa e difícil do que pode parecer numa análise superficial do fenômeno. que o preço pago por essa medida traz. ainda não terem condições de saber se uma forma pertence à norma culta ou não.

etc. um depois de outro e exigir que o aluno repita a lição de cor ou resolva questões em prova. O professor irá abordar essas questões à medida que for necessário e quando tiver oportunidade. BARCO. para achar a letra correspondente à escrita. IGNORAR ("iguinorar") . TÉCNICA ("tékinica"). Esse fenômeno acontece também com outras consoantes como P T. ela é pronunciada "bi". <362> ESTUDO DA LETRA B A letra B tem o nome de bê. ABSOLUTO ("abiçolutu"). como em: OBJETO ("obijétu"). AFTA ("áfita"). ADVOGADO ("adivo gadu"). F. Essa é uma maneira de alfabetizar sem precisar das cartilhas e sobretudo do método do bá-bé-bi-bó-bu. CABELO.Insistindo mais uma vez num ponto delicado. SUBMARINO ("çubimarinu"). Exemplos: BOLA. D. ele não irá ensinar tudo isso. na fala comum e informal. etc. e o primeiro som do "bê" é o som básico que a letra representa. RITMO ("ritimu"). ponto por ponto. é preciso esclarecer que o exposto sobre a letra A serve de guia para o professor. M. G. ele pode ensinar a seus alunos como ler. Quando a letra B vem escrita antes de uma letra que representa uma consoante que não seja nem R nem L. decifrar a escrita e analisar a fala. Na verdade. Certamente. C. como se vê nos seguintes exemplos: OPTEI ("opitei").

e o aluno precisa aprender palavra por palavra. Esse fato mostra como a leitura pode ser feita. o professor precisa descobrir se se trata de um problema de decifração (o aluno fala a palavra corretamente. ADIVINHAR e não ADVINHAR. Por essa razão. Escrever a partir da fala torna as coisas muito complicadas. CH/J). fala-se "trabeçêru". escreve-se RÁPIDO e não RAPDO. própria do dialeto do aluno (diz-se "patata". FACA! VACA). mas a forma ortográfica dessas palavras é: TRAVESSEIRO e BICICLETA.MNEMÔNICO ("minemônicu"). têm dificuldades em achar a letra certa na escrita quando se têm pares de consoantes que se distinguem pelo traço de sonoridade (P/B. C/G. etc. podem ser úteis para mostrar aos alunos essas distinções. MENINO e não MNINO. F/\ S/Z. Alguns alunos sussurram as palavras quando escrevem. o aluno é levado a escrever POLA (bola). "pçicréta". Quando um aluno lê a letra B pronunciando "p". PATATA (batata). . pronunciando somente sons surdos (vogais e consoantes). Por exemplo. mas lê errado) ou de uma pronúncia diferente. etc. quando se aprende a ortografia dessas palavras. Só se sabe quando colocar B ou não. CAPELO (cabelo). T/D. BULA/PULA. Nos dicionários. Nesses casos. como vimos antes. Exercícios com pares mínimos (tais como. Em certos dialetos. encontram-se exemplos — ASSOBIAR e ASSOVIAR — de variantes também na ortografia oficial.

etc. o professor pode partir de uma lista de palavras que ele escreve na lousa e estudar os casos. 3 O som da consoante oclusiva velar sonora [g] vem representado pelo dígrafo "gu". ESTUDO DA LETRA C O nome da letra C é cê. O aluno que ouve essas explicações freqüentemente. discutir a questão da variação lingüística dos dialetos e como a ortografia registra as palavras. ou pode partir de exemplos 2 exceção é a palavra PNEU. No primeiro caso."faca" e não "batata".). com o tempo. mas deve escrever de outro. e por "g" nos demais casos. Note que o aluno pode continuar falando segundo seu dialeto e não ter problemas para escrever. é preciso estudar como se decifra a letra B. "vaca". e isso o ajuda em muito a aprender. formulando as regras com os alunos. O que vale é a bagagem de informação que se . <363> dados pelos próprios alunos. quando precede I ou E. No segundo. bastando para isso que esteja bem-informado a respeito do assunto: ele fala de um jeito. acaba aprendendo ou pelo menos desconfiando. de fato. com base em sugestões orientadas por ele. que admite 'pineu" ou "peneu". como se verá a seguir No trabalho em sala de aula. e o seu som básico é "çê' Essa letra participa de um esquema complicado de relações entre letras e sons.

observando o que acontece no início de palavra. O professor pode começar dando algumas informações a respeito de como se lê a letra C. o professor poderá mostrar um cartaz do 1 alfabeto. O e U. etc. Para explicar o que são vogais e consoantes. que letra se usa para escrever o som de "kê" diante de E e de 1? Respondendo a essa pergunta. algum aluno poderá lembrar (dando exemplos) que na fala também existe o som de "kê' com vogais E e 1. A. a letra C tem o som de "kê". Portanto. como em CEBOLA. caso de CARA. um aluno pode estar pensando em outra. COLAR e CUIDADO. a letra C terá o som de "cê" ou "kê". Resumindo. AQUELE. pode-se formar uma coluna com todas as vogais e a respectiva escrita com o som de "kê". QUILO. CÉLEBRE e CIDADE. .revela através do raciocínio que a classe faz juntamente com o professor. Nota-se que a letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante das vogais E e I. Os procedimentos a seguir mostram essas duas maneiras de organizar o ensine a aprendizagem em sala de aula. Se a letra C só tem o som de "kê" diante de A. Exemplos: QUERO. Quando o professor ensina uma coisa. dependendo da vogal que vier depois. o professor explicará que usamos as letras QU. Assim. Diante das outras três vogais. O e U. com as letras dispostas de tal modo que a primeira delas em cada linha seja uma vogal.

que aparece diante de qualquer vogal. O ou U. Como uma coisa puxa outra. A resposta do professor irá introduzir a discussão da letra S. partindo da escrita. . como SAPO.A o U E I Som "kê" CASA COISA CUECA Escrita C QUE AQUI Escrita QU Ocasiões como essa são boas para que os alunos percebam que ler é mais fácil do que escrever. algum aluno poderá querer saber como se escrevem palavras que começam com os sons de "ça". tiver de escrever uma palavra que tem o som de "kê" mais uma vogal como A. "ço" e "çu". quando em início de palavras. uma vez que. Se alguém. SOBRADO e SUBIDA. Essa letra. terá duas opções: usar a letra C ou as letras QU (lembrando que QU nunca aparece diante de U). é fácil ler essas letras. no entanto.

A seguir. Ortografia CIDADE CEBOLA CABELO COLA CUECA NASCER MÁSCARA EXCEÇÃO EXCURSÃO Pronúncia "çidadi" "çebola" "kabelu" "kola" "kuéka" "naçer" "máskara" "eçeçau" "eçkurçãu" Letra/Som .tem sempre o som de "çê" (mais vogal). apresenta-se uma lista de palavras para orientar os comentários sobre o assunto.

"kê". "kê" + "i" ou "chê". a letra C tem basicamente os seguintes sons: "çê". Analisando detalhadamente os dados apresentados acima.C = "çê" C = "çê" C = "kê" C = "kê" C = "kê" SC = "çê" SC = "çê" + "kê" XC = "çê" XC = "çê" + "kê" 364 Ortografia Pronúncia Letra/Som COMPACT "kõumpaktu" ou C = "kê" "koumpakitu" C = "ke" + "i" ACNE "akni" ou C = "kê" "akini" C = "kê" + "i" CLARO "klaru" C = "kê" CRAVO "kravu" C = "kê" CHAVE "chavi" C = "chê" TOC-TOC "tók-tók" ou C "kê" "tóki-tóki" C = "kê" + "i" Como se pode notar. chegamos às seguintes regras: .

5. 2. Em alguns dialetos. o SC passou a ter dois sons fricativos "ch" + "ç" —.1. além de influenciar na leitura da vogal anterior. passa a ter o som de "chê". no inicio da sílaba seguinte: "na-çer". Isso acabou gerando uma nova pronúncia para palavras como NASCER. No caso de C. O mesmo tipo de fenômeno ocorre com seqüências com XC (ou XÇ). Com a nova pronúncia. só pode ocorrer o som de "kê" (sem o "ê") e nunca de "ki" (com o "i"): "cravo" e "claro". quando não seguida por vogal na escrita. com ou sem a . Esses grupos de letras representam apenas o som de "çê" em alguns dialetos e. A leitura de NAS. "ki". pode também ter o som de "kê" + "i". A letra C tem o som de "kê" quando diante de A. No último caso. independentemente da letra que vier antes. desde que a consoante não seja R ou L. que se tornou um ditongo ("ai". A letra C tem o som de "çê" quando ocorre diante de E ou de 1. em vez de "a"). A razão disso pode ter vindo do processo de alfabetização em que as pessoas ficam silabando para aprender a ler. O ou U. os sons de "çê+çê" ou "chê+çê". 4. de uma outra consoante ou no final de palavra. "naiç" ou "naich". se diz "naiç-çer" ou mesmo "naich-çer". 3. pode ser "naç". Quando a letra C tem o som de "kê". em outros. ou seja. em final de enunciado diante de pausa. A função da letra H no meio de palavras é modificar o som da letra anterior. O SC tinha apenas o som de "çê".

A questão da escrita. no entanto. em princípio também poderiam ser escritas com S: SEBOLA e SIDADE. deveremos mostrar as outras letras que geram confusão em contextos específicos. a letra S também representa o som. apresenta dificuldades. Por essa razão. Os sons da fala representados pela letra C O estudo acima demonstra que é relativamente simples ler a letra C. palavras como CEBOLA e CIDADE. além da letra C. palavras como "çebola" e "çidadi" se escrevem CEBOLA e CIDADE. A seguir as regras que podem ser estabelecidas sobre isso: 1. de <365> "çê". Uma palavra como "çapu". desde que venha antes das letras E ou I. podemos dizer que o som de "çê" pode ser escrito com C.' o sistema manda usar a letra 5. "eç-çe-çãu". não pode ser escrita com a letra C. porque a letra S também pode ser . que começa com o som de "çê" seguido da vogal "a "o" ou "u" (que serão escritas com as letras A. Portanto. O ou U). "eich-çeçãu". Nesses casos. Isso pode gerar confusões. Desse modo. Na verdade. Tendo em vista os conhecimentos sobre a leitura da letra C. principalmente porque há outras letras que têm os mesmos sons do C. "çopa".ditongação da vogal anterior: "e-çe çãu". "çubir". obrigando o escritor a procurar a forma ortográfica estabelecida.

X. Veja as seguintes palavras: "na-çer" NASCER. a opção foi usar a letra cê cedilha (Ç). como não pode ocorrer a letra C com som de "çê" diante de "a". pode ajudar a . 2. A única vantagem que ocorre aqui é saber que as palavras derivadas são escritas com as mesmas letras. Se escrevemos PRÓXIMO com X. "pa-çu" PASSO ou PAÇO. que se escreve com SS quando significa 'o movimento dos pés ao andar' (PASSO). como em SINO e SELO. I o caso de "paçu". "na-ça" NASÇA. NASCIMENTO também será com SC. Esse é um procedimento comum. mas que tem ortografias diferentes para cada significado. Às vezes temos uma palavra homófona. Ç. Se existe a grafia EXCEÇÃO. em casos semelhantes. e com Ç quando significa 'palácio' (PAÇO). em início ou final de sílaba. XC. Somente conhecendo ortografia. "pró-çi mu" PRÓXIMO. SS.usada diante da vogal I e E. SÇ e XÇ. O critério semântico. Assim. Saber quando usar uma letra e quando usar outra depende do conhecimento da ortografia. iremos escrever PROXIMIDADE também com X. "e-çe-çãu" EXCEÇÃO. Em NASÇA. uma pessoa pode saber que diante de 1 ou de E vamos ter a letra C ou S em início de palavras. pode-se desconfiar que EXCETO se escreve do mesmo jeito. Constatamos que o som de "çê" em início de sílaba não-inicial de palavra pode ser representado pelas seguintes letras: SC. Ocorre também o som de "çê" no meio da palavra. se NASCER é com SC.

"kuçtumi" COSTUME. "atraiç" ATRÁS. ou seja. para escrever os sons de "ki". diante de vogais que não sejam 1 nem E. podem-se ter duas formas de escrita: com C ou com Q.encontrar mais facilmente a grafia estabelecida. podendo ocorrer também em final de palavras. a única saída é o Q. como nas palavras: "kuidado" CUIDADO. A letra Q tem o som de "kê" sempre. "kê" e "ké". só o conhecimento da ortografia pode dizer se . em final de palavra. como se pode ver nos seguintes exemplos: "baç-ta" BASTA. como não se pode usar a letra C. Nesses exemplos. Outra letra que pode representar o som de "kê" é a letra Q. O som de "çê" ainda é encontrado em final de sílabas. "biç-pu" BISPO. Aqui também. Ela tem duas particularidades: vem sempre seguida da letra U e não ocorre QUU. Exemplos: "kãma" CAMA. 4. Porém. Essa letra U não é pronunciada. quando vem antes de A. "kê" QUE e "kéru" QUERO. "rrapaiç" RAPAZ. Nas seqüências de sons "kê" + "u" + "i" ("é" ou "ê"). "koiza" COISA. como nos exemplos: "kis" QUIS. O ou U. quando se pronuncia o U. etc. Como a letra C também pode ter o som de "kê". o som de "çê" aparece representado pelas letras 5 no meio de palavra e por 5 ou Z. vamos estudar esse caso agora. "tauveiç" TALVEZ. "kuéka" CUECA. Como vimos antes. o som de "kê" pode ser escrito com a letra C. "likuidifikador" LIQÜIDIFICADOR "çekuêçia" SEQÜÊN CIA. 3. "fiç" FIZ. "çekuéla" SEQÜELA. em qualquer caso.

Nesse caso. Exemplos: "klareza" CLAREZA. 5. há uma vogal em seguida. quando a letra U deve ser pronunciada. 1993ª. Nesses exemplos. algumas palavras que denotam ruído são representadas de forma especial. etc. como em: "tik-tak" ou "tiki-taki". só se pode escre ver a letra C. como em: "akni" ou "akini" ACNE. O som de "kê" ocorre também conjugado com o de "lê" ou de "rê". "krônika" CRÔNICA. Essas formas só podem ser escritas com a letra C e nunca com a letra Q. nunca a letra Q. <366> . 6. completando assim a estrutura silábica (que pode ter alguma consoante no final da sílaba). caso em que pode haver uma variação. É o caso de tic-tac e tique-taque. usando C sem a vogal e QU com a vogal E (que se pronuncia "i" ou "é"). ela é escrita com trema (Ü). "kõumpaktu" ou "kõumpakitu" COMPACTO. dependendo do artista. mesmo quando existe uma grafia já dicionarizada. etc. Nas formas QUE e QUI. Essa variação entre "k" (sem a vogal) e "ki" (com a vogal) pode ocorrer também em final de palavras. O som de "kê" ocorre também em final de sílaba. e no qual o "kê" forma uma sílaba nova com o acréscimo de "i".ocorre uma letra ou outra. que pode ser escrita TIQUE-TAQUE ou TIC-TAC Note as duas formas de escrita. Ver CAGLIARI. Nas histórias em quadrinhos.

como à letra X. aqui também os problemas de variação lingüística podem complicar . De modo geral. quando se tem a variação "ai» ou "a" antes do "chê". 8. algumas palavras de origem estrangeira e abreviaturas. "treiç i-ni-mi-gus" e "trei-zi-ni-mi-gus" (TRÊS INIMIGOS) 10. este último será escrito com X (exceto em alguns casos de uns poucos dialetos como o carioca. A decisão aqui vai depender de consulta ao dicionário. Uma pequena regra dentro dessa regra maior é aquela segundo a qual. O som de "chê" pode estar ligado tanto à letra C.7. Porém. não se deve pensar que uma palavra se escreve com K. sobretudo se não for nome próprio. diante de pausa ou silêncio. Essa letra não tem outro som a não ser esse. A letra K tem uso muito restrito na língua portuguesa. O som de "kê" pode ser representado pela letra K. Veja os exemplos: "ka-zaç a-ma-ré-las" e "ka-za-za-ma-ré-las" (CASAS AMARELAS). 9. esse som de "çê" desprende-se da sílaba anterior e passa a formar uma sílaba nova com a vogal do início da palavra seguinte. ficando com o valor fonético de "zê". em que se pode ouvir pronúncias como "kaichorru" ou "kachorru" para CACHORRO). Uma palavra pode ter o som de "çê" quando pronunciada isoladamente ou em final de enunciado. servindo apenas para os nomes próprios. junto com outra palavra que começa com o som de vogal. Como vimos no estudo da letra A.

QUOCISTA (CONQUISTA) e assim por diante. o aluno muitas vezes escolhe escrever com QU. Quem fala "kalidadji" tem menos chances de acertar a ortografia. CI (QUE). para depois descobrir onde devem ocorrer esses "çês". então. vai ter de aprender primeiro as regras de concordância da norma culta. Mas não há apenas problemas de concordância. CERIDO (QUERIDO). Quem não fala o "çê" do plural de algumas palavras. etc. do que quem fala "kualidadji" 11. Mais raras de encontrar são palavras que deveriam ser escritas com C e o aluno escreve com QU. como nos seguintes exemplos: TEQUINICA (em vez de TECNICA — "té-ki-ni-ka"). Outra dificuldade é a troca de QU por C. mas podem formar uma sílaba própria.enormemente a escolha das letras que deverão ser usadas na escrita. quando se parte da observa ç cia fala. sendo seguido de "i". observando a própria fala. por exemplo: QUOMANDANTI (COMANDANTE). Aparecem. COMPAQUITO (em vez de COMPACTO — "kõum-pa-ki-tu"). como. estas grafias: ACELI (AQUELE). que serão indicados por S na escrita. a letra C não tem o som de "kê". quando o aluno ainda não aprendeu que diante de E e de 1. . Uma das dificuldades do aluno antes de conhecer a forma ortográfica certa ocorrerá com palavras que têm o som de "kê" em final de sílaba. Como esta última é mais comum na fala. O próprio dicionário registra umas poucas formas variantes desse tipo. e a outra é mais própria da leitura.

"çin-ta-kçi" . é a ocorrência de formas alternadas de C e QU na escrita. Para manter o som de "kê". a única alternativa do sistema ortográfico é usar QU. embora pouco usuais. em palavras derivadas. Veja os seguintes exemplos: VACA. seria igualmente possível a forma FIQUE-SE e. no caso da segunda palavra. COLOQUEM. QUOTA e COTA. TORAX. muitos alunos são levados a escrever: TAQUESE em vez de TÁXI. Todavia. etc. em palavras como: "ta-kçi" ou "ta. mas um pouco diferente. COLOCA. escreve-se com X: TAXI. Pronúncias como "pró-kçi-mu" (PRÓXIMO). quando se acrescentam sufixos que começam por 1 ou E. mas FIQUEM. 13. etc. isso é para quem já tem muita fluência na escrita. VAQUEIRO. Nesses casos. TOCO. FIQUEÇO em vez de FIXO. a palavra perderia o som de "kê" e passaria a ter o som de "çê". Nesses dois exemplos. "tó-ra-kçi" ou "tó-ra-ki-çi". TAQUE-SE. Nesses casos. 12. mas COLOQUEMOS. FIXE.como QUATORZE e CATORZE.kçi" ou "fi-ki-çi". o usuário da escrita pode aprender a guiar-se pela semântica para distinguir uma forma de escrita de outra. Mas. no caso da primeira. COLOCO. Por isso. "fi-. se a escrita mantivesse a letra C. A partir da observação da fala. o que não é o caso na alfabetização. Uma questão relacionada com os últimos exemplos.ki-çi". mas TOQUINHO. FICAR. etc. ainda há uma dificuldade envolvendo a escrita do som "kê".

como em PRÓXIMO. em vez de outras alternativas. Quem decide se vai ser C ou 5. O e U. O som de "çê". revelam uma tendência escolar de ensinar a identificar a letra X com o som de "kçi". então. Sempre que o som representar o plural de uma palavra. MÊS. como em PASSO. como em MOÇA. o som "çê" pode ser escrito com as letras SS. FEZ. quando se trata de passar da fala para a escrita. No meio de palavra. Note que se usa SS somente quando as letras precedente e seguinte são vogais. a dificuldade real fica . pode ser escrito com a letra C (se em seguida vier a letra E ou 1) ou. "çin-ta-çi". Portanto. com S. e se usa S somente quando a letra precedente é uma vogal e a seguinte é uma consoante. nota-se que é relativamente fácil ler a letra C. em vez de "pró-çi mu". com X. se é do grupo do E e I ou se é do grupo do A. RAPAZ. Mas.(SINTAXE). Além disso. EXTRA. a escrita será com 5 e não Z. basta ver que vogal vem depois. a questão é bem complicada... como atestam os seguintes exemplos: CASAS. etc. com a letra S (seguida de qualquer vogal). Em final de palavras. o som "çê" (ou "chê" — dependendo do dialeto) pode ser escrito com 5 ou com Z. é a ortografia. quando a palavra não for oxítona. com Ç. nesses casos. etc. como em BASTA. Não adianta ficar observando a fala. não poderá ocorrer a escrita da letra Z. <367> Resumindo os principais pontos. em início de palavras.

LONGÍNQUO ("lõjirjkuo") etc. escrevem CE em vez de QUE. A confusão é esperada e. A letra Ç representa apenas o som de 'çê'. É a letra C com uma curvinha voltada para a esquerdae colocada embaixo da letra. a escrita será sempre com S. Com relação ao som de "kê" da letra C. com o tempo. Se na fala aparecerem os sons "ki" e "kê". qui). a escrita usará as letras QU (que. Vê-se que ler a letra C é muito mais simples do que perceber como será escrito o som ou mesmo "kê". Nos demais casos. "ô". na escrita. e ocorre diante do grupo . co.restrita às palavras oxítonas e singulares. no início. em meio de palavras. a criança vai assimilando a ortografia. Quando aparecer. E vice-versa. como se nota nos seguintes exem plos: QUATRO ( "cuatru"). ESTUDO DA LETRA Ç A letra Ç tem o nome de cê-cedilha. "ó". É preciso ter um pouco de paciência: não é possível aprender tudo num dia só. o caso é menos complicado: se na fala ocorrerem os sons "ka". não tem trema). QU seguido de A ou O. a escrita quase sempre será feita com QU. cu). A confusão mais comum ocorre em início de palavras com C e S (diante de E e I) ou com C e SS ou mais raramente com Ç. quando na fala ocorrer o som de "kê". Alguns alunos. a letra U se pronuncia (nesses casos. temse na escrita a letra C (ca. "ko" e "ku". seguido do som "u" e depois o som "a".

sobretudo em final de palavras: "bãnku" (BANCO). depois das vogais "u". FAÇO. Por exemplo. king. PEÇO. Portanto. NASCIMENTO e NASÇO. AÇUDE. FAZEMOS. mas algumas delas têm uso muito freqüente. ou em final de sílabas. FAÇO. O e U e nunca diante de E e I. o seguinte exemplo: FAZER. ainda. O ou U.das vogais A. etc. CALÇADA. como não se pode escrever C e manter o valor fonético de "çê". Poucas palavras. Isso mostra que a letra Ç é usada quando uma palavra com C + E ou C + I adquire a terminação A. etc. ONÇA. "lãn" (LÃ). Nesse caso. AÇUCAR. Corresponde à nasal da língua inglesa empregada no final de palavras tais como shopping. POÇO. ACONTE CE e ACONTEÇA. na língua portuguesa. MOÇO. nunca no início ou no fim. song. a ortografia recorreu à letra Ç. CAÇA. Em português aparece entre uma vogal nasalizada e uma oclusiva velar. etc. AÇO. Observe. A letra Ç ocorre somente no meio de palavras. MAÇÃ. as seguintes palavras se escrevem com Ç: MOÇA. Note a variação ortográfica em palavras como: NASCER. a melhor estratégia para aprender a empregar a letra ç é aprendendo caso por caso. 6 nasal velar vem representada pelo símbolo fonético Fiji. <368> ESTUDO DA LETRA D . "oünça" (ONÇA). "õ" e 'à". são escritas com essa letra. FAÇA.

RITMO ("ritchimu"). Confira os exemplos: DIA ("djia"). em outro tipo. POÇO ("pôçu"). sempre é dito como "tê" — TIA ("tia"). e o som básico que representa é o som inicial de seu nome. esse caso na verdade é muito simples. DIZER. o aluno lerá com o som de "dê": DIA ( "dia"). Os dialetos da língua portuguesa podem ser divididos em dois grupos: aqueles que dizem "ti" e "di" e aqueles que dizem "tchi" e "dji". Para ler o D. Exemplos: DATA. Em outros dialetos. Fato semelhante ocorre com a letra T.A letra D tem o nome de dê. DEDO ( "dêdu"). POTE ("pótchi"). . num tipo de dialeto. Diante de outras vogais. mas DEDO ("dêdu"). a letra D passa a ter o som de "dj". sempre que se encontrar a letra D. que. DOCE. continuando com o som de "tê". DOCE ("dôçi"). etc. nos demais casos — TIA ("tchia"). PATO ("patu") POÇO ("pôçu"). — e. PODE ("pódji"). há uma regrinha que diz que diante do som de "i". DOCE ( "dôci") e assim por diante. mas PATO ("patu"). PODE ( "pódi"). POTE ("pótchi"). DIJVIDA ("dúvida"). a letra D permanece com o som de "dê". POTE ("póti"). DEDO. representa o som de "tchi". quando ocorre antes da vogal "i". DÚZIA. Portanto. etc. etc. Note que o que vale é sempre a pronúncia e não a escrita: ADVOGADO ("adjivogadu"). etc. em alguns dialetos. Apesar da aparência complicada. e não causa problemas aos alunos.

no alfabeto. MESA ("mesa"). Assim. e não achava. Exemplos: DELE ("dêli"). A passagem da fala para a escrita também não costuma causar maiores embaraços do que aqueles típicos do comecinho da aprendizagem. ESTUDO DA LETRA E A letra E tem dois nomes: quando se dizem as letras do alfabeto. quando se dizem os nomes das vogais. é preciso conhecer a palavra. como falante nativo. Esses dois nomes mostram os dois sons básicos dessa letra. e o resultado final é dado pelos conhecimentos que a pessoa tem da língua. Para saber quando a letra E tem o som de "ê" ou "é". Pensou bastante qual seria a letra mais apropriada e acabou escrevendo IGO. Como falante nativo. porque essa variação dialetal não é estigmatizada pela sociedade. . E o caso daquele aluno que queria escrever a palavra "índio".tanto faz o aluno dizer "d" ou "dj". tem o nome de ê e. descobre-se aos poucos sua pronúncia. tem duas possibilidades: uma é ler "mêza" e outra é ler "méza". se o aluno estiver decifrando a palavra MESA. tem o nome de é. DELA ("dela"). "ê" e "é". a letra "djê". uma vez que a letra G era a que apresentava o som foneticamente mais próximo de "djê". PERTO ("pértu"). mas ele nunca ouviu falar em "méza" e. ele sabe que "mêza" existe e tem um determinado significado. Quando se decifra uma palavra. que pronunciava "idjo".

Às vezes. Explicará o que for necessário. etc. tanto o som de "ê" quanto o de "é" será registrado com a letra E. Por exemplo: VÊ. Mas. para facilitar a leitura. Quando se escreve. ou por alguma razão especial que surja durante o trabalho de leitura ou de escrita. Por exemplo. o aluno tem uma vantagem para decifrar o valor fonético da letra E. a língua portuguesa poderia não ter nenhuma . a ortografia coloca os acentos agudo e circunflexo para indicar uma <369> pronúncia ou outra. quando a palavra ERRO vem escrita isoladamente. ACADÊMICO ("ê"). No primeiro semestre. INTRÉPIDO ("ê"). EU ERRO NOS ACENTOS ("érru").portanto. Às vezes. não se sabe se é "êrru" ou "érru". porém. O professor deverá tratar desse assunto como fala dos assuntos gerais de ortografia: o aluno precisa aprender que algumas palavras têm acento e outras não. Nesses casos. ATÉ. é sempre fácil saber: O ERRO FOI CORRIGIDO ("êrru"). o problema requer um exame mais detalhado do contexto em que a palavra vem inserida. se algum aluno perguntar. Ao escrever. dentro de uma frase. precisará saber quando colocar os acentos. o professor pode ignorar o assunto. Na verdade. desconfia que essa palavra não existe na língua portuguesa.

fechada ("ê". em posição pós-tônica. "ô" e "u". Hoje. Pronúncias com os sons de "ê" e de "ô" representam variantes dialetais que tendem a ser excluídas da norma culta da língua. "ô") ou reduzida ("i". no baiano). Nas sílabas átonas. Veja os exemplos: SEGUINTES EXEMPLOS ("siguintizizêmplus"). Eles dizem. "u" e "a". na fala.marca de acento na escrita. Porém. as marcas de acento complicam a escrita e quase não trazem vantagens para a leitura. em outros dialetos. Como não há uma regra que defina em que ambiente de palavras ocorrerá uma vogal aberta ("é".se "êrói" e não "irói" para HERÓI. Em posição pré-tônica. Para a . é muito freqüente a distinção entre a vogal aberta "é" e a fechada "ê". em alguns dialetos (por exemplo. "ó"). que as coisas ficariam exatamente da mesma maneira. diz. a pronúncia é "mêninu". "méninu" (MENINO). "ê". há uma tendência para a letra E assumir o som de 1. a única saída é conhecer a palavra e as diferenças dialetais de pronúncia. em geral. Em sílabas átonas. etc. ao passo que. "a". exceto em alguns dialetos do Nordeste em que se encontram ainda os sons de "é" e de "ó". encontram-se apenas as vogais orais "i". Todavia. ENFEITE ("ifeiti"). "u"). encontramos "é" somente em palavras derivadas (por exemplo: PÉ — PEZINHO). por exemplo. aparecem as vogais orais "i". A distinção mais notável entre "ê" e "é" ocorre nas sílabas tônicas. também em sílabas átonas. De modo geral.

Em seguida. Conforme as . mas. um aluno escreve DICI e o professor explica que. para a escrita. O aluno não está aprendendo errado. ENTRA. ENFERRUJAR ("iferrujar") com INFELIZ ("ifelis"). escreve MÉDECO em vez de MÉDICO. a gente fala "i". E isso ele fez muito bem. Saber como proceder pode significar errar de vez em quando. Essa última questão torna-se mais clara quando constatamos.leitura. etc. EMBORA. ele simplesmente não tem condições de operar com todas as informações a todo instante. O professor não precisa ficar preocupado: é assim mesmo que se aprende. somente a ortografia pode dizer se a palavra se escreve com E ou I. Veja ain da PARÊNTESES ou PARÊNTESIS. etc. mas deve escrever E: DISSE. ENTRADA. HÍFEN. que o som de "i" (fora de ditongo) pode ser representado por I ou E. às vezes. TENHO. O importante é refletir sobre o funcionamento do sistema de escrita. como se pode constatar nos seguintes exemplos: VEM. Nesses casos. que aprendeu a lição (até aí). por exemplo. Por exemplo. ENCONTRO. o aluno. TEM. Quando a letra E antecede a consoante nasal M ou N (sobretudo se em seguida vier outra consoante ou o final da palavra). o problema é sério. ela adquire um som nasalizado. Compare EMPRESTAR ("imprêstar") com IMPOSTO ("impôstu"). essa questão traz pouca dificuldade.

PENTE ("pêinti"). Exemplo: EMBORA ("êmbóra" ou "imbóra"). FEITO. FOCA. nê. A ocorrência da forma com ditongo nasalizado é mais comum em final de palavras. EMBORA ("êimbóra"). seguida de I. mas em saber em que palavra escreve-se F ou V porque às vezes falam "fê" e. pode ser pronunciada sem o I. etc. Em certos dialetos. etc. como em ITEM ("itêi"). 370 ESTUDO DA LETRA F A letra F tem o nome de efe e representa o som que existe entre o "é" e o "i" de seu nome.). PEIXE ("peichi" ou "pêchi"). DESDÉM ("dezdêi"). algumas letras como o F têm o som básico da letra no início do nome (fê mê. a letra E terá o som de "e" ou de "i" (se estiver em sílaba átona). Exemplos: CADEIRA ("kadeira" ou "kadêra"). ou mesmo em distingui-lo do "vê". às . usa-se a letra E A dificuldade de alguns alunos não está em reconhecer o som "fé». Encontrando-se esse som na fala. quando essas letras estão diante de R ou de X (representando o som de "chê"). CONFIAR. Exemplos: FACA. quando seguida de I.regras vistas anteriormente. mesmo nasalizada. Tal qual a letra A. o que facilita a aplicação do princípio acrofônico visto antes. Poderá também ter o som de um ditongo nasalizado "êi". também a letra E. FUMAÇA. FIQUE.

zes. A questão não é fonética.no latim). como se constata nos seguintes exemplos: . FEIO = VEIO. MARIA COMPROU UMA VIFELA. A letra G. vaca: animal) e na ortografia e não com inúteis exercícios fonéticos de discriminação auditiva e intermináveis repetições da pronúncia certa.quando diante do grupo de vogais A. ESTUDO DA LETRA G O nome da letra G é gê e representa tipicamente o som inicial de seu nome. que é o de "guê" Existe um paralelismo entre a letra C e a letra G (a letra G foi derivada da letra C com um traço na parte final inferior para distinguir o som de "kê" do som de"guê". mas dialetal e ortográfica. "vê".tem o som de "jê" e. O e U. Quando sussurram. Essas confusões se corrigem com a prática. A letra G. contudo. tem o som de "guê". (FACA = VACA. quando diante do grupo de vogais E e I. ELE FEIO AQUI. FAFELA = FAVELA). em vez de falar em voz alta. o resultado fonético é um som do tipo fê e não vê Por isso ao escrever o aluno pode chegar aos seguintes resultados A FACA CHIFROU O CACHORRO. tem também outro som muito comum. prestando atenção no significado das palavras (faca: ferramenta. ANDRE MORA NA FAFELA. VIFELA = FIVELA.

como em SAGÜI ("sagui").GENTE ('jênti"). GIRASSOL ("jiraçóu"). GOTA. Exemplos: GUERRA. que. GULA (com som de "guê"). e a letra G tem o valor fonético de "guê" e o U também é pronunciado. IGNORAR ("iguinorar" ou "ignorar"). Porém. quando se têm duas consoantes diferentes em seqüência. o caso acima é semelhante ao da letra Q. GUIAR. Compare CONTÍGUO com CONTIGO Como se pode ver. Ela simplesmente modifica o valor da letra G. Note que há casos em que ocorre G + U. AGÜENTAR ("aguéntar"). não é pronunciada. GATO. pronuncia-se também oU. EXÍGUO. tem-se uma sílaba a mais na palavra. basta acrescentar um U entre o G e a vogal. No caso da letra G. visto no estudo da letra C. seguido de E ou de I. como se percebe nos seguintes exemplos: GUARANA. M e X em alguns casos em meio de palavra). a primeira consoante poderá ser pronunciada com um "i". seguidos das vogais E ou I. Quando se pronuncia o "i". A letra U. Também já foi mencionado antes numa regra mais abrangente. AGUA. ou no final de palavra (exceto com S. (todos com som de "guê" ou de "gui"). veja os seguintes exemplos: GNOMO ("guinomu" ou "gnomu"). Quando não se pronuncia o "i". CONTIGUO. FOGUEIRA. se depois do G + U ocorrerem as letras A ou O. o . ÁGUIA. nesses casos. Para escrever o som de "guê". Z. mas. R. etc.

JANELA. 7Ouso do trema na escrita facilita a leitura. mostrando ao aluno que o U deve ser pronunciado. GIRAR. Se não aparecer trema nas escritas GUE. Isso traz uma dificuldade ortográfica que só se resolve com a prática constante da escrita. ora GU. JUIZ. o U não será pronunciado. JILÓ. GUI (ou QUE. como pela letra J (diante de qualquer vogal): GELO. JOVEM. por causa das regras estabelecidas em palavras derivadas. Mais raramente. Uma dificuldade mais fácil de resolver (semelhante ao caso da letra C) acontece quando. para manter o valor fonético original da palavra ("guê"). descobrimos que o som de 'lê" tanto pode ser escrito com a letra G (somente seguido de E ou de I). 371 Quando se passa dos sons da fala para a escrita. AFOGO/AFOGUEI e assim por diante. Alguns alunos trocam GU por QU (ou vice-versa). HOJE. FOGO/FOGUEIRA. mas pela dificuldade gráfica que essas escritas apresentam. como nos exemplos a seguir: CEGO/CEGUEIRA. "Como é que se escreve tal palavra. não por dificuldades auditivas. cometem esses enganos .som "g" fica no final da sílaba que o precede. QUI). ora se tem G. com G ou com J?" é uma pergunta que os usuários da escrita do português freqüentemente fazem.

Exemplos: HOMEM. como em AMICO em vez de AMIGO. o professor deverá ensinar aos alunos não só o que se pode fazer. servindo para modificar o valor fonético da . há uma regrinha que diz que em palavras derivadas mantém-se a letra usada na grafia da palavra primitiva. funciona como uma espécie de curinga. essa letra serve para formar dígrafos. seu nome não tem serventia para a decifração da escrita. Quase sempre. ESTUDO DA LETRA H A letra H tem o nome de agá. Na língua portuguesa. Outro tipo de confusão muito comum é a troca de G por C. A letra H. HERA. AQÜENTAR em vez de AGÜENTAR. sobretudo em certos contextos (no meio de palavras). a letra H modifica o som da letra anterior Exemplos. Nesses casos. HORA No entanto. ou mesmo ANTIQUO em vez de ANTIGO. Por exemplo. UNHA. Esses são erros que se corrigem pela ortografia e não através de exercícios de contraste de sonoridade. MANGA e MANGUEIRA. ILHA. como mostram os exemplos: LARANJA e LARANJEIRA. já que desse modo os limites ficam mais bem determinados e os alunos aprendem melhor e mais rapidamente. por exemplo: FREGÜENTE em vez de FREQÜENTE. CHAVE.por dificuldades de reconhecimento fonético. essa letra não representa nenhum som particular Portanto. e acabam escrevendo. como também o que não se pode fazer. no nosso sistema de escrita.

A letra H. Como o português escolheu o alfabeto latino para sua escrita e como não podia inventar letras. como uma estratégia para não inventar letras novas. FICA/FICHA. comparando-os com os das letras simples. Quando a letra H vem no início de palavras. HELENA. e mais raramente a letra X. O alfabeto latino não tinha letras para representar esses sons palatais porque não havia esse tipo de som em latim. HINO. 372 Em palavras de origem estrangeira. alterou o princípio acrofônico de uma maneira inteligente. através de pares mínimos: MALA/MALHA. NH e LH. como CH. HUMILDE. não forma dígrafos e não apresenta. Na escrita da língua portuguesa. Esse emprego do curinga H. a leitura começará na letra imediatamente seguinte. etc. abrindo possibilidades de novos empregos para as letras. etc. sobretudo em nomes . Repare que a letra seguinte é sempre uma vogal.letra que a precede. Em conseqüência. a letra H pode vir precedida por C. SONO/SONHO. produzindo os dígrafos (duas letras com um único som). pois. HORA. O professor pode mostrar o valor dos dígrafos. som algum. a solução encontrada foi criar dígrafos. formando dígrafos. N e L. sem alterar o alfabeto. como se vê em: HABITAÇÃO. são usadas para modificar o valor do som anterior.

etc. é muito difícil saber se uma palavra começa com a letra H ou não. ou. Alguns alunos. etc. Para ilustrar esse fato. ainda. Em alguns poucos casos. que aprenderam a decifrar usando o nome das letras e o princípio acrofônico. dependendo do significado da palavra. HLÏA (GALINHA). por exemplo. como se observa nos nomes HONDA ("rõnda"). etc. dá até para saber se haverá H ou não. Esta é uma grande dificuldade para o usuário do sistema: por que HUMILDE se escreve com H e UMIDO não? O professor não deve se preocupar com essas dificuldades. a letra H tem o som de "R inicial de palavras". encontramos um aluno que fala por exemplo miu (MILHO) fia .próprios. como ocorre em HORA e ORA. mas deve explicá-las aos alunos. Como não é possível estabelecer regras para a ocorrência ou não da letra H (a não ser no caso dos dígrafos). HOTEL HILTON ("otéurriutõu"). YAMAHA ("iamarra"). Com o tempo. Outro tipo de dificuldade maior e mais comum vamos encontrar na forma lexical de certas palavras que apresentam pronúncias diferentes em alguns dialetos. Note. fazem coisas como: HRA (AGORA). pensam que a letra H funciona como as demais e. mas temos de escrever HISPÂNICO. Somente o conhecimento prévio da ortografia pode dizer. quando vão escrever (e mais raramente ler). escrevemos ERVA e HERBICIDA. que escrevemos ESPANHA. HAJA e AJA. irão fixando a grafia das palavras mais comuns.

As maiores encontram-se nos casos de variação dialetal.(FILHA) bãia (BANHA) e sim por diante. ter paciência com os erros dos alunos. e o professor não pode cobrar esse conhecimento muito cedo. . e pedir a eles que corrijam o material que escreverem. Pode e deve despertar a dúvida ortográfica nos seus alunos. como em BATALHA ("batalha" ou "batalia"). e a escolha de uma ou de outra não é facultativa. mas controlada pela ortografia. FAMÍLIA ("família" ou "familha"). o aluno terá duas formas de representar um mesmo som. partindo da fala. O professor deverá. Esse tipo de dificuldade os alunos superam à medida que forem praticando a leitura e produzindo textos. pois. aqueles falantes (mesmo da norma culta) que variam a pronúncia de "Ih" com a de "li". ainda. na qual a ortografia se baseia. criada pelo uso da letra X com o valor de "chê". Escrever o NH e o LH não apresenta grande dificuldade. saber escrever respeitando a ortografia exige uma longa aprendizagem. Portanto. mas saber ainda que na norma culta há uma forma lexical diferente. Nesses casos. Ler os dígrafos com H é tarefa fácil: o H está presente para alertar o leitor. Há. existe uma dificuldade extra na escrita. O aluno precisará aprender não só a reconhecer os sons da sua própria fala. Com relação ao CH. Trata-se de um conhecimento que não se adquire em pouco tempo. etc.

Como acontece com as demais vogais. Esse problema. como nas palavras: "iskóla" ESCOLA. Essa variação pode. "ifiar" ENFIAR. representa pouco para os alunos. ser escrito com a letra E. por exemplo. "rrapaich" (RAPAZ). da mesma maneira como resolvem as pronúncias de "ti" e "tchi". por causa do medo de errar. às vezes. quando a letra I vem diante de uma consoante nasal M ou I podera apresentar som nasalizado ou não. ora com I. mas o mesmo não acontece com a escrita. VIM. VINHO. escrevendo T e não TX ou TCH. Não há como . Como a língua portuguesa tem muitas palavras com o som de "i". o som de "chê" será escrito com S ou Z: "ichkóla" (ESCOLA). Veja os exemplos: VI. A letra I não apresenta dificuldades para leitura. atrapalhar o aluno e criar problemas sérios de escrita e até de leitura. 373 Nem todo som de "i" será escrito com a letra I. Eles o resolvem facilmente. ESTUDO DA LETRA I A letra 1 tem o nome dei e "i" é o som que ela representa. CIDADE. que ora se escrevem com E. etc. CINTO. CINEMA. podendo.Nos dialetos em que o S se palatiza em final de sílaba ou diante de outra consoante. na verdade. "pichta" (PISTA). fica difícil saber a ortografia. e os usuários têm comumente dúvidas ortográficas a respeito dessas grafias.

COISA e COUSA. como em: CAIXA ("kaicha" ou "kacha"). porém não na escrita. Essas diferenças de pronúncia costumam atrapalhar o aluno na hora de escrever. o fenômeno pode criar dificuldades com outras palavras que apresentem contextos semelhantes. em palavras como "opitei" OPTEI. Essa variação acontece tanto na fala quanto na escrita e não traz. "bãinha" BANHA. Algumas palavras apresentam uma variação entre 01 e OU.. pode existir uma vogal "i" na fala. o aluno escreve PEIRA. portanto. como LOIRO e LOURO. uma com um ditongo (M. etc. quando esses sons se encontram diante de R ou X (com o som de "chê"). BANDEIRA ("bãndeira" ou "bãndera"). em vez de escrever PÊRA. "obijétu" OBJETO. • El) e outra sem o ditongo (A. nenhum problema. O mesmo acontece em palavras como "üinha" UNHA. etc. E). Além da dificuldade específica dessas palavras. Vimos anteriormente que algumas palavras têm duas pronúncias. fazendo com que o aluno use uma forma com hipercorreção. procurando num dicionário ou perguntando a quem sabe. Por exemplo. DOURADO e DOIRADO. etc.ensinar a resolver esse problema a não ser criando o bom hábito de ter dúvidas ortográficas e de buscar resolvê-las. . Como já foi visto.

ajuda muito o aluno na hora de escrever. palavras de origem estrangeira. BODE ("bódji"). sobretudo nomes próprios. Portanto. o som correspondente na decifração será o Exemplos: JAMAIS. formando o "djê". "é" e "i". Esse fato. JOGADOR. Sempre que a letra J aparecei. deve rá ser escrito com a letra D apenas. como em DIA ("djia"). para escrever o som de "jê" seguido de "a". JUVENTUDE. Essa letra caiu em desuso já no latim. "ô" e "u". pode-se ter a letra J ou G. Note que o som de "jê" pode ocorrer diante de todas as vogais. JIBÓIA. JEITO. mas a letra G tem o som de "jê" apenas diante das vogais E e I. na verdade causa grandes confusões e é uma permanente fonte de dúvidas ortográficas. Diante dos sons de "ê". O aluno deve aprender ainda que o som de "jê" seguido do de "dê". aparentemente simples. "ó". etc. o único jeito permitido pelo sistema é o uso do J. Saber isso.ESTUDO DA LETRA J A letra J tem o nome de jota e seu som básico é o que aparece no início de seu próprio nome. dependendo da ortografia. ESTUDO DA LETRA K A letra K tem o nome de cá e representa o som inicial de seu nome: "kê". Como algumas línguas usam essa letra. podem ser escritas com . etc. A letra J pode ser usada diante de qualquer vogal.

MAL. No segundo caso. Alguns exemplos: Kwait. CLARO. sempre antes de vogal. G (com o som de "guê").Nesses casos. LIVRO. ATLÂNTICO. a letra L tem o som básico de "lê». LIGA ("liga"). . LOGO ("lógu").ela. A letra L (juntamente com a letra R) pode formar um grupo consonantal com P. ) entre uma consoante e uma vogal na sílaba. D. PROBLEMA. GLORIA. tem o mesmo tipo de articulação e o mesmo tipo de som como em BLUSA ("bluza"). sempre entre uma vogal e uma consoante ou em final de palavra.F e V . SOL. do K deve restringir-se à grafia de nomes próprios. FLECHA (na língua portuguesa poderiam ocorrer D e V seguidos de L. a letra L vem em segundo lugar e tem o som de "lê" (segundo o caso menciona do acima). kg. PIANO ("plãnu"). CLASSE ("klaçi"). seguindo o mesmo padrão das outras consoantes. Há três casos típicos de ocorrência da letra L: a) em início de sílaba. e c) em final de sílaba. O ensino. tem também o som de "u' Exemplos: LATA. por exemplo: LATA ("lata"). LETRA ("letra"). km. No primeiro caso. Veja os exemplos: PLANTA. A letra K mantém seu valor fonético diante de qualquer vogal. C (com o som de "kê"). Pode aparecer também em abreviaturas cientificas. T. CLARO. B. como. 374 ESTUDO DA LETRA L O nome da letra L é ele e o seu som básico é o que se encontra no meio do nome entre o som ' e o "i' Em final de sílabas.

POLPA. A ortografia distingue poucas palavras pelo significado e com grafias diferentes. CÉU. POUPA. no mesmo contexto do L. não ocorrendo. SAL ("çau"). a não ser DLIN-DLON. as palavras emergem automaticamente. VÉU. usando L ou U São palavras homófonas. PAPEL. "çul" (SUL) A letra L apresenta pouca dificuldade de leitura. SAUDADE. FUNIL ("funiu"). como parte final de um ditongo formado com a vogal precedente. Uma vez que o aluno identificou as letras e formou sílabas."funil" (FUNIL) "mél" (MEL). MEL ("méu"). o L em final de sílaba mantém o valor fonético que apresentanos outros contextos. como mostram os exemplos: SALTO ("çautu"). mas é difícil saber quando escrever uma ou outra letra. SUL ("çuu"). VLADIMIR e pouquíssimas outras). como ALTO (que diz respeito à altura) e AUTO (que significa 'por si . encontramos um problema sério para os alunos. pois. Em alguns dialetos do Sul do Brasil.porém. pode ocorrer a letra U. é fácil ler. Partindo da fala para a escrita. não existem palavras com essas ocorrências. CAUSA. TERRÍVEL. Compare as seguintes palavras: CALDA. as pronúncias são: "çaltu" (SALTO). também com o som de "u". CHAPÉU. Nesses dialetos. e como. No terceiro caso. SAL. a formação de ditongo. Pelo valor fonético de "u" que a letra L tem. tem o som de "u". "çal" (SAL ). e assim o aluno consegue dizer o que está escrito. MEL.

"barcu" (BARCO). É melhor ir pensando com quais letras se escrevem as palavras. o mesmo que fazem os usuários veteranos da escrita. na alfabetização. podem ir escrevendo do mesmo modo. Os alunos. alguns alunos falam: "prãnta" (PLANTA). por AUTO A dificuldade maior com relação ao uso correto da letra L. aliás. estes se guiam mais pelo significado do que por uma análise detalhada dos sons da fala. Só a ortografia pode resolver esse tipo de problema. como em outros casos. Por exemplo. sobretudo quando são falantes de dialetos que têm . fazendo. o que mostra que ela tem um poder enorme no nosso sistema de escrita. Ao escrever. reside no fato de alguns alunos falarem um dialeto em que as palavras têm pronúncias diferentes. "pobri" (POBRE) e assim por diante.próprio'). "bardji" (BALDE). acrescentando novos valores fonéticos à letra L e dificultando em muito o acerto da grafia das palavras a partir da observação da fala. "pobrema" (PROBLEMA). etc. O professor não deve incentivar esses alunos a observarem detalhadamente a própria fala para escrever.. O que permite saber que PLANALTO se escreve com L e não com U e AUTOMÓVEL se escreve com U e não com L é a composição dessas palavras. uma formada por ALTO e outra. ao lado de palavras como "prato" (PRATO).

O som que aparece no meio. representa o som básico da letra. a letra M tem o som básico de "mê". a letra M representa a nasalização da vogal precedente. depois da vogal nasalizada "i". por exemplo. CAMELO. res. entre "e" e "i". e pode ter ainda um som consonantal palatal ("nh"). No primeiro caso. ALGUM ("augú" ou "augürJ"). etc. 1 A letra M tem duas funções distintas. como dizem alguns professo. MURO. uma quando ocorre em início de sílaba e outra quando ocorre em final de sílaba (ou de palavra). MORAR.375 uma pronúncia muito diferente da pronúncia da norma culta ou. observe o fenômeno de juntura intervocabular. EMBORA ("ibóra" ou "ïnhbóra"). como se mostra nos seguintes exemplos: VEM AQUI . a seguir: VEM ("vêi" ou "vêinh"). ou um som consonantal velar ("13 »)8. Além disso. COMIDA. uma vez que passam de final de sílaba para início de sílaba. depois da vogal nasalizada "ii". quando "falam errado" ESTUDO DA LETRAM A letra M tem o nome de eme. em: MAR. No segundo caso. em que essas consoantes nasais ficam mais evidentes. BOM ("bõu" ou "bõuij"). Nos dialetos em que o nome da letra é mê. como. Veja os exemplos. o princípio acrofônico fica mais evidente.

com ou sem a sobreposição da nasalização). ÓRFÃ. além dos casos contemplados acima. As consoantes nasais apresentam dificuldades de leitura e de escrita. etc. LIMPO ("limpu" ou "lipu"). CORAÇÕES. em fmal de sílaba. Nesse caso. algumas considerações gerais ajudam a resolver pequenas dificuldades. PÓLEN. SÊMEN. diante de consoante no início da sílaba seguinte. Nos verbos. Exemplos: CAMPO ("kãmpu" ou "kãpu").("véi-nha-qui"). haverá sempre a mudança de qualidade. CONTAM — com exceção do futuro em -ÃO: ACHARÃO. Os aumentativos e os plurais também não têm consoante nasal: LIVRÃO. TEMPO ("témpu" ou "têpu"). Outra possibilidade é a pronúncia da vogal nasalizada. etc. a letra M pode ter o som de "mê". ALGUM AMIGO ("au-gü-rja-mi-gu"). sem a ocorrência da con soante nasal M. Às vezes. ANÕES. . as terminações nasalizadas são escritas com M: FIZERAM. diante das quais os alunos costumam se atrapalhar. etc. as terminações nasais costumam acabar em vogal com til e não em vogal com nasal: CORAÇÃO. VENDERÃO e de alguns verbos irregulares. quando ocorre o som do "mê". como SÃO e ESTÃQ Nos substantivos e adjetivos. a vogal precedente pode ser nasalizada ou não (se for a vogal A. Quando a nasal M ocorre no interior de palavras. Raras palavras serão escritas com N em vez de M. como HÍFEN.

etc. INFELIZ. antes de consoante. a vogal nasalizada pode ser pronunciada com um ditongo formado por 1" ou "ti". Isso é evidente no início de sílaba — mais ainda no início de palavra. Ler a letra M é muito mais fácil do que usá-la na escrita. como CÃIBRA e os aumentativos e diminutivos). seguido ou não do S do plural. 1 376 Quando a letra M (ou a letra N) indica a nasalização da vogal precedente. no meio de palavras. Exemplos: CAMPO. os sons ou letras que vêm antes e depois de uma determinada unidade fonética ou caractere. usase a letra M. BOMBA. em muitos casos. Quando aparecer o som de "mê". 8 o som Fiji. ver explicaçáo na página 368. CONSUMIR. Essa . é importante para ajudar o aluno a refletir sobre os segmentos. Como não se escreve til no meio de palavras (com raríssimas exceções. Um bom motivo para tratar desse assunto é ensinar quando se usa M ou N em final de sílaba. ENVELOPE. o que se sabe distinguindo se a sílaba acaba em som nasal.Estudar a estrutura de contextos. o aluno a decidir sobre a escrita. toda vogal com som nasalizado que ocorre diante de consoante seguirá essa regra. As regrinhas de decifração apresentadas acima também ajudam. e N diante das demais consoantes. ou seja. A regra é fácil: usa-se M diante de P e B. CANTO.

PÕE. Note. MAES. Exem plos: IRMÃ. Por fim. não para todas. ocorrendo um paralelismo entre as duas letras. que é o til. CIDADÃOS. BALÃO. que essa regra serve apenas para algumas palavras. aplica-se mais facilmente o princípio acrofônico. ESTUDO DA LETRA N A letra N tem o nome de ene. O til ocorre somente sobre a vogal A ("ã") ou sobre a vogal O ("õ"). A letra N tem uma distribuição na fala e na escrita semelhante à da letra M. ANÕES. Mostrar esse fato aos alunos com exemplos ajuda a esclarecer um tipo de dúvida ortográfica freqüente.pronúncia é muito evidente. N. . Veja. Seu som básico é o que está intercalado. "sõurj" (SOM). entre o "é" e o "i". porém. Nos dialetos em que o nome da letra é nê. como acontece com algumas letras no nosso alfabeto. etc. lembre que a palavra "muitu". IRMÃS. deverá ocorrer uma consoante nasal depois (M. sempre que houver uma vogal nasalizada. O segundo caso acontece somente nas terminações de plural ou no caso do verbo PÔR. Deve ficar claro para o aluno que. MÃE. apesar da nasalização do ditongo "ui". por exemplo. PÕES. NH) ou a vogal deverá vir com o diacrítico da nasalização.. "tãmbëinh" (TAMBÉM). PÕEM. é escrita sem consoante nasal ou til. etc. BALÕES. CIDADÃO. mas a escrita não registra a vogal 1 nem o U. Exemplos: "ómëinh" (HOMEM). porque assim foi fixada sua grafia. as grafias de MÃE. no seu nome.

Z. R. SINTO. em: BANCO ("bãrjku"). como em: NIVEL. em final de sílaba. Diante das consoantes oclusivas velares. ENFORCAR ("iforcar" ou "inhforcar").Sua ocorrência com o valor fonético básico encontra-se tipicamente em início de sílaba. depois de "i" ou de "e" nasalizados. Diante de outras consoantes. V S. a letra N pode representar apenas a nasalização da vogal precedente. A letra N será raramente . pode ocorrer uma consoante nasal palatal do tipo "nh". no interior de palavra. como mostram os últimos exemplos. sem a presença da consoante nasal. Em falas muito enfáticas. Lembre que. Exemplos: ENLATADO ("éilatadu" ou "êinhlatadu"). "õ" e "á ". REDONDO. e depois de "ã". uma consoante nasal velar (rj) como. NETO. por exemplo. NUCA. ONÇA ("õuça" ou "ourJça"). NADA. ENQUADRAR ("irjkuadrar"). a letra N pode representar. etc. no final de sílaba. Esse som básico pode ocorrer também diante da consoante oclusiva T ou D. Ç. sempre que for detectado o som de "nê". pode ocorrer uma consoante nasal velar do tipo "ij ". só ocorre a nasalização da vogal precedente. não tendo outro som. no interior de palavra. vale a regra segundo a qual. representadas pelas letras C (com o som de "kê"). NOTA. como F. JUNTA ("jüta" ou "j€írjta"). etc. na fala. Quando se parte da fala para a escrita. G (com o som de "guê") ou QU. será usada a letra N. como nos seguintes exemplos: CANTO. MANGA ("mãrjga"). L. ANDO.

quando ocorrerem vogais nasalizadas (monotongos ou ditongos). X. Ç. \' 5. Como já foi visto. e a letra N diante de qualquer outra letra (representando uma consoante).usada em final de palavra. FRANGO. uma forma abreviada antiga para SENHOR (SINHÔ). ENVIAR. E. TRANÇA. O. ENLAMEAR. ou seja. 377 A letra N será escrita na forma do dígrafo NH quando tiver esse som palatal em início de sílaba. CINCO. U . ESTUDO DA LETRA O A letra O tem dois nomes: chama-se ô quando está entre as demais letras do alfabeto. em nomes próprios oriundos de línguas indígenas (NHEENGATU) e na palavra NHÔ. CONQUISTA. ENZIMA. I. Z. R. o aluno vai ter de decidir entre o uso da letra M ou da letra N. para colocar no final da sílaba (em início de sílaba. C. e tem o nome de ó quando faz parte da série das vogais: A. No meio de palavra. D. Exemplos: SANTO. ENXADA. exceto em palavras estrangeiras (NHOQUE). TRANSPORTAR. G. Q. diante de T. Tal som não ocorre em início de palavra. a decisão é fácil. INDO. bastando observar se na fala ocorre o som de "mê" ou de "nê"). F. CONFIAR. HON RA. L. a letra M só será escrita diante das letras P e B.

Entretanto. etc. depois. Somente o conhecimento que o aluno tem da língua portuguesa. como em ROLA ("rôla" passarinho e "róla" do verbo 'rolar'). se for a sílaba tônica da palavra. algumas palavras têm o som "ô" no masculino singular. nem sempre a escrita faz uso desses diacríticos. PORTA ("pórta"). trata-se de um problema semelhante ao encontrado no estudo da letra E. mas no plural ou no feminino (singular ou plural) têm o som "ó". Veja ainda. como em: PORCO ("pôrku"). e o aluno precisará descobrir que palavra está escrita. Em alguns casos particulares. pode-se saber um pouco mais. Como se disse acima. PORCAS ("pórkaç") e assim por diante. BOLA ("bóla"). como falante nativo. saber se se trata de um som ou de outro. pode mostrar a ele como se pronuncia. Veja os seguintes exemplos: BOLO ("bôlu"). pode ocorrer o som "ó" ou "ô". mas PORCOS ("pórkuç). PORTO ("pôrtu"). para. Às vezes. Por exemplo. Exemplos: AVÔ. a escrita exige o acento circunflexo ou agudo para indicar se a qualidade fonética da letra O será fechada "ô" ou aberta "ó". SOCO ("çôku" e "çóku") e CONFORTO . a semântica ou a sintaxe (o significado ou a função das palavras na frase) podem ajudar a mostrar as diferenças. Quando eles não estão marcados. AVÓ. como exemplos. PORCA ("pórka"). Às vezes. ANTÔNIO. CÓLICA.Existe um paralelismo entre as funções da letra O e da letra E no sistema de escrita e na fala.

por exemplo. tende a ser pronunciada "u". para saber se deverá ser escrita com a letra O ou U. MUNDO ("múndu"). ficando a pronúncia do O fechado para uma fala mais formal ou própria de certos dialetos (do Sul do país e no dialeto caipira). Porém. Algumas vezes. Há sempre alguns casos que não se enquadram bem. se a nasalização da vogal for optativa (a nasal começa a sílaba). como em COMIDA ("kumida"). Quando a vogal é nasalizada (diante de M ou N seguidos de consoante). ou COLOCAR. Exemplos: TODO ("todu"). A letra O. Entretanto. sempre que se encontrar um "ô" ou um "ó". a tendência é mais para "õ" do que para "u" nasalizados: CONFIANÇA ("kõfiãça"). como COMPRIDO. COMBATE ("kõmbati"). a tendência é a vogal "u" ser nasalizada. Quando se parte da observação da fala para a escrita. cuja pronúncia com "u" na primeira sílaba não representa a fala comum da norma culta. CAPÍTULO ("kapítulu") e assim por diante. é preciso conhecer a ortografia da palavra. a letra a ser usada será o O (em alguns casos cõm a marca do acento agudo ou circun flexo). Isso ocorre com algumas palavras que podem ter a pronúncia com "ô" ou com "ou" como. TOU RO .("kõfôrtu" e "kõfórtu"). em sílaba átona. quando se encontrar o som de "u" em sílaba átona. que praticamente é homófono de CUMPRIDO. o som de "ô" precisa ser escrito com duàs letras: O e U.

POUCO ("pôku" ou "pôuku"). revelando a dificuldade de chegar à ortografia observando somente a fala e as relações possíveis entre letras e sons. ou apenas de "p". "rrápitu" (RAPTO) e "rrápidu" (RÁPIDO). ou PROFESSOURA em vez de PROFESSORA. diante de outra consoante que não seja R nem L.("tôru" ou "tôuru"). 378 ESTUDO DA LETRA P A letra P tem o nome de pê e seu som básico é o que se encontra no início de seu nome. Ocaso não é tão simples. pode ter o som de "pi". A variação é controlada apenas pela forma ortográfica e não pela pronúncia ou por alguma regra contextual da escrita. No segundo caso. a pronúncia é mais formal do que no primeiro caso. Quando a letra P vem escrita em final de sílaba. porque palavras como "poupa" e "çoudádu" serão escritas com L: POLPA e SOLDADO (confira ainda a palavra POUPA. por exemplo. Confira. Exemplos: APTO ("ápitu"). de 'poupar'). é impossível saber quando escrever P com ou sem 1. ou seja. A regra apresentada acima mostra por que alguns alunos decidem escrever BOUA em vez de BOA. OPÇÃO ("opição"). ADAP TAR ("adapitar"). . Somente observando a fala. RAPSÓDIA ("rrapiçódia"). etc.

como se pode constatar nos seguintes exemplos: "piçikolojia" ou "pçikolojia" PSI COLOGIA. ESTUDO DA LETRA Q A letra Q tem o nome de quê e seu som básico está logo no início do seu nome: 'kê' A letra Q vem sempre seguida da letra (4 na escrita. mas são terríveis na escrita para o aluno que está começando a aprender. Essas várias formas ortográficas não causam grandes embaraços na decifração e na leitura. PISI. "piçina" ou "pçina" PISCINA. pode ocorrer a troca de C pelo QU quando o sufixo começar pela vogal E ou 1. porém o Unem sempre é pronunciado. Por exemplo: VACA/VAQUEIRO. FICO/FIQUEI. QUERO ("kéru"). QUINTAL ("kintau"). porque eles se resolvem com o tempo. Como foi dito nos comentários à letra C. "é" ou "i". PIS mais consoante ou PICI) em início de sílaba. para preservar o som original de "kê" da letra C na palavra primitiva. Em palavras derivadas. o dígrafo QU substitui a letra C para representar o som de "kê" quando este precisa associar-se aos sons "ê". A ortografia tem vários modos de escrever.Uma dificuldade semelhante a essa acontece com os sons de "pç" (representado pelas letras P5. . TOCARJTOQUE. como em: QUERIDA ("kerida"). O professor não deve dar muita atenção a erros oriundos desse tipo de dificuldade.

Quanto à leitura. basta o aluno identificar QU com o som de "kê".BARCO/BARQUINHO. porém. todavia. Quando não é pronunciada. Essa dificuldade atrapalha a escrita. SEQÜÊNCIA ("çekuéçia"). para descobrir que palavra está escrita (identificação semântica) e assim recuperar a pronúncia completa e correta da palavra como um todo. AQUARELA ("akuaréla"). Observe. é preciso mostrar como se escrevem as palavras mais comuns para que o aluno se acostume com a ortografia correta. CUE. o professor resolve à medida que for aparecendo nos textos dos alunos. O mesmo. Quando a letra A vem depois das letras QU. A vogal U do digrafo pode ser pronunciada ou não. Como em português existem palavras que apresentam os sons "kui". a letra U do dígrafo tem o som de "ti": QUATRO ("kuatru"). QUE ou CUI. porém. a . "kué". TAQUARA ("takuara"). têm-se duas pronúncias e duas formas ortográficas. RECUE. etc. Esse tipo de problema. que há duas formas diferentes para o número 14: QUATORZE ("kuatôrzi") e CATORZE ("katôrzi"). FREQÜENTE ("frekuénti"). não acontece com os exemplos anteriores. 379 Quando as letras QU aparecem diante de O. CUIDAR. CUECA. sem insistir muito. etc. Observe os seguintes exemplos: LÍQUIDO ("líkuidu"). e a ortografia tem dois modos de escrever esses sons: QUI. "kuê".

poderia ser escrita das seguintes formas: CAZA. CINCO escrito CINQUO. CASA. Por exemplo. mas nem por isso estranhas. não revelam distração nem incapacidade para perceber e aprender. QUAXA (casa). CAXA. uma palavra como "casa". quando está explicando as relações entre letras e sons e a escrita ortográfica. QUAXA. QUOTISTA/COTISTA. QUAZA.ortografia admite a forma com a letra C. etc. é escolher palavras e tentar escreve-las de todas as maneiras possíveis e depois mostrar para os alunos qual é a forma escolhida pela ortografia. QUIDADO (cuidado). KASA. revelam usos que poderiam ser empregados pela ortografia (e no passado não é difícil encontrar exemplos disso. Um bom exercício para o professor fazer no início. Quando os alunos cometem esses erros. em vez do dígrafo QU. QUASA. Entretanto. QUOTIDIANO/COTIDIANO. Pelo contrário. KAZA. como mostram os seguintes exemplos: QUOTA/COTA. É somente por razões das regras da ortografia atual que não se pode escrever MAQUA (maca). ESTUDO DA LETRA R . etc. embora descartadas pela ortografia atual. Dadas as dificuldades de escrita. em princípio. como VACA escrito VAQUA.). a for ma ortográfica atual é apenas CASA. alguns alunos acabam fazendo opções ortográficas diferentes. mas estabelecem relações possíveis entre sons e letras.

FURO.). A vibrante múltipla "rr". como ocorre tipicamente em CARRO. TIRO. O sistema de escrita. ROUPA (dialeto paulista e carioca) e em MAR. em alguns casos é possível distinguir dois sons diferentes. Um dos mais comuns é um som fricativo velar surdo. . CERTO. CERTO (no dialeto carioca). Portanto. Dessa maneira. SERA. como em CARRO. dependendo do dialeto.A letra R tem o nome de erre e o som básico que a representa é o que ocorre entre "é" e "i" do seu nome. um chamado de R fraco e outro de R forte (ou vibrante simples e vibrante múltipla Foneticamente. No dialeto mineiro e em alguns dialetos do Nordeste. a vibrante múltipla tem o valor fonético de uma fricativa glotal surda (ou seja. a vibrante simples representa um tepe'. por sua vez. Em alguns dialetos do Sul do país. formando um dígrafo. FERA/FERRA. uma "aspiração"). Para ilustrar a diferença entre uma vibrante simples e uma múltipla. entre duas vogais. etc. basta observar os seguintes pares mínimos: CARO/CARRO. a vibrante múltipla pode ter o valor fonético de uma consoante vibrante (um tepe com vários movimentos rápidos da língua). MAR. pode ocorrer apenas um R ou dois RR. porém. pode representar vários valores fonéticos. A vibrante simples "r" tem apenas um valor fonético: o tepe (ARARA. ROUPA. distingue o uso de um R do uso de dois RR. representando dois sons diferentes. mas a vibrante múltipla pode representar uma variedade de sons. MURO/MURRO.

com uma vibrante surda. MURRO. que aparece em CARO. RODA. MURO. o falante usa a vibrante surda. quer a vibrante múltipla podem ter o valor fonético de uma consoante retroflexa (articulada com a ponta da língua levantada em direção do céu da boca). FERA.como em CARRO. TORRADA. MAR. ARARA. BRASIL. Em alguns casos. 9 Tepe:som alveolodental produzido com um toque rápido da ponta da língua contra os alvéolos dos dentes incisivos superiores. dentro de sílabas. BR. . TIRO. mas também é comum que digam as seguintes palavras com uma vibrante sonora: BARRIGA. ora sonoras. MAR. 380 Por exemplo. bastando observar o comportamento das cordas vocais na produção da fala. O mesmo som "r" (vibrante simples). Os grupos consonantais que se podem formar desse modo são: PR. outras vezes usa a vibrante sonora. é comum que as pessoas digam palavras como CARRO. VIR. ERRO. Exemplos: ROÇA. TERRA. etc. RETA. produzindo um dos sons mais típicos do dialeto caipira. às vezes. Dependendo da palavra. ROUPA. ocorre também quando a letra R vem escrita entre uma consoante e uma vogal. quer a vibrante simples. TR. como em RITA. CERTO. Nos chamados dialetos "caipiras". os falantes de todos os dialetos ora dizem as vibrantes surdas. PORTEIRA.

LIVRO. PADRE. A leitura da letra R apresenta dificuldades reais se o aluno perder de vista a palavra como um todo. BRASIL. FR. dependendo do dialeto: POR TA ("pórta" ou "pórrta"). CARPA ("karpa" ou "karrpa"). VIR AQUI ("vi-ra-ki"). Em início de palavra. como se constata nas palavras HONRA ("õurra?'). FRACO. forma o início da sílaba da palavra seguinte. VR. como em RATO. CR. RUA. TRABALHO. a letra R representa somente o som da vibrante múltipla "rr". a letra R só apresenta o som da vibrante simples "r". GR. com a sílaba seguinte começando por consoante. ela pode ter o som da vibrante simples ou múltipla. uma palavra terminada por R junta-se a outra. por exemplo: PRATO. O mesmo fenômeno ocorre com o R que aparece no final de palavras: MAR ("mar" ou "marr"). que começa por vogal. porém. É mais fácil decidir que som o R tem descobrindo que palavra está escrita do que ficar . como se pode ver nos exemplos a seguir: CALAR A BOCA ("ka-la-ra-bo-ka"). CARRO). Além disso. RITA. quando na fala corrente. CRIANÇA. Quando a letra R ocorre no final de uma sílaba.DR. a letra R terá o som da vibrante múltipla "rr" (igual ao que há em MURRO. ROLO. Porém. ISRAEL ("izrraéu"). houver uma divisão silábica entre o R e uma consoante anterior (que será S ou N). FINGIR ("fijir" ou "fijirr"). Se. RODA. GRATIDÃO.

conforme o modo como cada falante pronuncia certas palavras. Como vimos. Em final de sílaba.lembrando todas as regras associadas a essa letra. Algumas idéias. no meio de palavra. ajudam bastante. O melhor é estar atento às diferentes maneiras de falar dos alunos e ajudá-los a ir direto ao reconhecimento da palavra — falada ou escrita — sem discutir . que se o R vier depois de uma consoante N ou S. sabemos com segurança que haverá sempre uma vibrante simples se o R vier entre uma consoante e uma vogal. A maior dificuldade está na especificação do valor fonético de uma vibrante múltipla. obviamente. pode ter o som de uma vibrante múltipla ou simples. Em início de palavras. escrevendo um R no primeiro caso e dois RR no segundo. no meio de sílaba. mesmo quando não são muito elaboradas. dependendo do dialeto. O dígrafo só será usado para fazer a distinção exigida nesse contexto. sem contar a dificuldade de ser surdo ou sonoro. a escrita distingue a vibrante simples da múltipla. terá o som de uma vibrante múltipla. Nos demais contextos. e o som será sempre de uma vibrante múltipla. Sabe-se. porém. ainda. a escrita usa apenas um R e nunca dois. tem-se um som diferente. mas depende de como o professor irá tratar a questão. dependendo do dialeto. com segurança. Essa dificuldade não é do falante. No contexto intervocálico.

isto é. são todos escritos com R ou RR. igual à vogal precedente. É por essa razão que aparecem formas na escrita desses alunos coisas como: . vindos de diferentes dialetos. como uma vogal "longa". assim eles já irão desconfiar que aqueles vários sons fonéticos. ou seja. os alunos têm sérias dúvidas para escrever certas diferenças fonéticas que eles reconhecem na própria fala. Os professores não se dão conta de que os alunos falam de muitas maneiras diferentes. como ainda não chegaram a essa conclusão. mas devem usar apenas a letra R.muito as variações de pronúncia. 381 Para um aluno que fala uma fricativa glotal surda (como no dialeto mineiro) correspondente à vibrante múltipla (como no dialeto carioca). a ocorrência de R em final de sílaba pode soar como uma vogal sussurrada. A complexidade apontada acima explica por que alguns alunos têm tanta dificuldade com a letra R na escrita. um som único. Por isso. mas que não correspondem aos sons que o professor costuma ensinar como representados pela letra R. é bom discutir o assunto na sua amplitude com os alunos. No começo.

POTA ("porta"). Nesse caso. mas explicar o que for necessário e possível e indicar a ortografia como mestra para escrever corretamente as palavras. Muitas formas de escrita serão aprendidas depois de muita leitura e escrita. etc. CADENO ("caderno"). de pouco adiantando a precipitação na aprendizagem. Depois. quando encontra grupos consonantais como BR. é uma forma diferente de escrever "ê sonoro" + "ê surdo". como ensinam os foneticistas. já que o som aspirado é sempre uma vogal surda. o mais importante não é chamar a atenção para os erros e tentar corrigi-los a cada vez que aparecem. PR. o aluno escreve E sem R em MERCADINHO porque pronuncia "mehkadïu" e a seqüência "eh". Em outras palavras. ou ainda ATALAS (ATLAS). AGARADECE (AGRADECE). em que há mais de um som consonantal numa única sílaba. o aluno começa a identificar cada um através dos movimentos articulatórios e vai atribuindo a cada uma dessas articulações uma sílaba à parte. GR. esquece-se do todo e acaba escrevendo coisas como: PARATO (PRATO). Como em muitos outros casos.MECADIO ("mercadinho"). etc. PICICOLOGIA (PSICOLOGIA) e assim por diante.. Vale lembrar mais uma vez o que já se discutiu antes: não é porque se deu uma explicação uma vez. Outra dificuldade advém do próprio fato de a criança ter de soletrar às vezes para analisar os sons da fala e procurar as letras correspondentes para escrever. que o aluno .

OSSO. Ocorre também com a letra S o fenômeno da juntura . a letra S tem o som de "çê" ou de "chê". INGLESA/ESSA. Exemplos: BASTA ("basta"). MESA. como em SACOLA. como se pode observar nos seguintes pares mínimos: ASA/ASSA. Exemplos: BASTA ("bachta"). ocorre o som de "çê". ROSA. ISSO. há uma letra 5 e um dígrafo SS. ESTUDO DA LETRA S A letra S tem o nome de ESSE e o som básico representado por ela encontra-se entre o "é" e o "i" de seu nome. ou ainda os exemplos: USO. VASO. o RR. SEMANA. SINO. as letras 5 e SS são usadas no contexto intervocálico para distinguir sons diferentes: a letra S representa o som de "zê" e as letras SS representam o som de "çê". etc. Em final de sílaba. NÓS ("nóich"). Do mesmo modo que as letras R e RR. SOCO. Equilibrar o ensino e a aprendizagem é o que compete ao professor. Nos demais dialetos. ATRÁS ("atraich"). a letra 5 tem sempre o som de "çê" e pode ocorrer diante de qualquer vogal. dependendo do dialeto. E também é verdade que não é porque não se explicou.automaticamente aprende. a letra 5. Em início de palavra. POSA/POSSA. POSSÍVEL. NÓS ("nóis"). ATRÁS ("atrais"). nos demais casos. que o aluno não irá aprender. Assim como existe uma letra R e um dígrafo. O dígrafo SS só aparece entre duas vogais. SUCO. No dialeto carioca (e em alguns outros) ocorre o som de "chê".

CASCO ("kaçku"). Quando uma palavra termina em 5 e a que vem imediatamente depois começa com vogal. Apesar disso. Isso atrapalha o aluno na hora de escrever. Saber que há várias possibilidades de escrita não resolve suas dúvidas ortográficas. Algumas letras. tem o som de "çê". Veja os exemplos: ESBANJAR ("izbãjar"). ISRAEL ("izrraéu"). MESMO ("mezmu"). como S e R. DESGRAÇA ("dizgraça"). R). a letra 5 tem o som de "zê" e se desloca para o início da palavra seguinte. ou DESTE ("deçti" ou "dechtchi"). D. G. correspondem a muitos sons diferentes na fala. com relação à sonoridade — que os lingüistas chamam de assimilação do traço de sonoridade. etc. Então. no meio de palavra. OS HOMENS ("u-zó-mêis"). Quando a letra 5 vem depois de consoante.intervocabular. DESDE ("dezdi"). Isso vale para todos os dialetos. Diante de consoante surda. M. tem o som de "zê". como em PSICOLOGIA ("pçikolojia" ou "piçikolojia"). CASPA ("kaçpa"). saber que há várias . como se vê nos exemplos a seguir: CASAS AMARELAS ("ka-za-za-ma-rélas"). ABSOLUTO ("abçolutu" ou "abiçolutu"). há nesses casos uma concordância. 382 No meio de palavra. DESLIGAR ("dizligar"). tem o valor fonético de "çê". L. quando a letra S (em final de sílaba) antecede uma consoante sonora (B.

o que é fundamental para o desenvolvi mento da habilidade de escrever. os alunos têm diante de si um problema bastante complexo. o aluno depara-se com o fato de a letra 5 ter outros sons além de "çê". ou ainda em certos dialetos. CRESÇO. X. RAPAZ. como "zê" e "chê". PROXIMO. DESDE ("dejdji"). SC. SÇ. TRAZ. fica muito difícil saber qual será a ortografia da palavra e como se lêem essas letras. Juntando as letras que estão de um certo modo relacionadas. Ç. RAPAZ ("rrapaich"). CHUVA ("chuva"). SS.possibilidades de escolha de letras para esses sons ajuda o aluno a ter dúvidas ortográficas. NASCER ("naiççêr"). X. para confundir mais as coisas. como o carioca: CESTA ou SEXTA ("çêchta"). Por outro lado. etc. XC. SÇ. SC. Somando esses dois tipos de informação. O 5 pode ainda formar ditongo com uma vogal que venha imediatamente antes ou acrescentar um "i" diante de uma consoante que venha depois. XÇ. CH. ATRÁS. J e G. ASSO. Confira os seguintes exemplos: SAPO. XÇ. XC. O som de "çê" também pode ser representado pelas seguintes letras: Ç. Para quem sabe como se grafa essas palavras. mas se alguém tiver de observar a própria fala para estabelecer as relações possíveis entre sons e letras envolvendo os casos apresentados acima. EXCEÇÃO ("eiççeçãu"). AÇO. parece fácil e simples. temos: S. Mostrar a complexidade do problema aos alunos de verá servir para chamar a atenção . HOJE ("ôji"). Z. como vimos.

esses problemas se resolverão com relativa facilidade. seguindo o princípio acrofôníco.só que uma é surda (1) e outra é sonora (D).para o fato e alertá-los a ter dúvidas ortográficas e a resolve-las perguntando a quem sabe ou consultando um dicionário. Como dissemos. as explicações impressionam os alunos. representa o valor fonético básico da letra. e o som inicial de seu nome. o melhor conselho é mostrar que. A letra T é semelhante à letra D. AQUELAS MENINA NUM CHEGÔ AINDA (AQUE LAS MENINAS NÃO CHEGARAM AINDA). . Então. Esses falantes nem sequer têm na fala uma dica para poder escrever o S de plural que a ortografia exige. Na maioria das vezes. ir ensinando aos poucos e deixar os alunos aprenderem por si quando estiverem lendo e escrevendo bastante. diante da vogal "i" (na fala). a melhor atitude do professor diante de dificuldades tão grandes como essa é dar tempo ao tempo. Essa marca aparece apenas no artigo (ou na primeira palavra que aparecer no sintagma). Exemplos: OS HOMEM ALTO FICA AQUI (OS HOMENS ALTOS FICAM AQUI). Em muitos dialetos. através da ortografia. nem todos os elementos fazem a concordância nominal com a marca do plural. Na fala de muitos dialetos diferentes da norma culta. mas eles não conseguem operar com essas informações de imediato. a . ESTUDO DA LETRA T A letra T tem o nome de tê.

como. TERRÍVEL ("terríveu"). nunca se fala "tchê". o som "i" vem escrito com a letra 1 ou E. POTE ("pótchi"). por exemplo. JOVEM ("djóvêi"). ÓTIMO ("ótchimu"). Algo semelhante ocorre com D: DOIDO ("doidju"). RITMO ("rritchimu"). Às vezes. Em alguns dialetos do Nordeste. 383 O último caso ocorre sempre em sílaba átona. FECHAR ("fetchar"). mas ocorrem duas consoantes em fronteira interna de sílaba. MITO ("mitchu"). sobretudo do Sul do país. Por exemplo: TIA ("tchia"). mas apenas "tê". Como se disse em relação à letra D. LEITE ("leitchi"). Em alguns dialetos. etc. Na grafia das palavras.letra T temo som de "tchê". porém: TATU ("tatu"). ocorre o som de "tchê". em: CHUVA ("tchuva"). TESTA ("téchta" ou "téçta"). Aqui também ocorre algo semelhante com "jê": GELO ("djelu"). não antes de "i". POTE ("póti"). como se pode notar nos seguintes exemplos: MUITO ("míhtchu"). porém: TIA ("tia POTE ("póti"). FERIDO ("feridju"). etc. XAROPE ("tcharópi"). permanecendo com o som de "tê" nos demais casos. apesar das variações . mas depois dessa vogal. mesmo diante de "i": TIA ("tia"). Há dialetos do Brasil central que usam o som de "tchê" em contextos de palavras nos quais outros dialetos têm o som de "chê". o som "i" não aparece na escrita.

Escrevem T em vez de D. A causa mais comum desse erro está no fato de os alunos sussurrarem as palavras ao escrever. a sonoridade do D perde-se. Como acontece com todas as letras que representam vogais. a letra U representa uma vogal nasalizada "u". todos os sons vocálicos da fala deverão estar basicamente representados por essas cinco letras na escrita e vice-versa. alguns alunos fazem confusão entre o T e o D. e o resultado fonético é um som mais parecido com T do que com D. por sua vez. como o alfabeto dispõe apenas de cinco caracteres (A. U). preocupados com a ortografia. CHUMBO ("chúbu"). Esses erros corrigem-se à medida que os alunos forem fazendo mais e mais leitura e produzindo textos escritos. Quando ocorre diante da letra M ou N que. ocorre imediatamente antes de uma consoante. FUNÇÃO . E. nem para a escrita. CÉU ("çéu"). Às vezes. etc. na escrita. nem para decifração na leitura. Exemplos de palavras com a letra U representando o som de "u": TU ("tu"). a letra T também não causa grandes dificuldades. ELE POTEÍ (ELE PODE IR). UM ("iirj"). O.encontradas. como se pode observar em: JUNTO ( "jútu"). 1. SUJO ("çuju"). Fazendo isso. e em seu nome está o som básico que a letra representa. É o caso do aluno que escreve: TOTO MUNTO (TODO O MUNDO). ESTUDO DA LETRA U A letra U tem o nome de U.

PROFESSORA ("profeçôra"). pode-se ter o som oral ou nasalizado de "u" ou de "ui". em um número muito grande de palavras.("f€íçãu"). Veja os . "unha". a letra U pode ter um som nasalizado ou não. o que vem a confundir ainda mais na hora de escrever. BOUA. 384 Em muitas palavras (não em todas) a letra U que acompanha a letra Q não é pronunciada quando precede a letra E ou 1. Entretanto. "püinhu" ou "puinhu"). Porém. Se depois da letra M ou N ocorrer uma vogal. quando se parte da fala. etc. Como os alunos acabam inevitavelmente comparando com palavras como VASSOURA ("vaçôra"). etc. se a letra U estiver diante de NH. nem todo som de "ô" será escrito com OU. etc. CHOURO (CHORO). como nos seguintes exemplos: ÚMIDO ("timidu" ou "umidu"). UNIDO ("tinidu" ou "unidu"). como se vê nas seguintes palavras: BOA ("bôa"). POUCO ("pouku" ou "pôku"). pode-se ter uma pronúncia do ditongo "ou" ou uma pronúncia monotongada de apenas "ô". há muita variação entre "ô" e "ou". SOURO (SORO). como nos exemplos a seguir: TOURO ("touru" ou "tôru"). VOU ("vô"). Na verdade. como em: UNHA ("ünha". podendo ficar apenas com a grafia de O. não raramente acabam escrevendo também PROFESSOURA.. PUNHO ("p "punhu". Quando ocorre OU na escrita. etc. "flinha" ou "uinha"). na fala atual.

"uutchimu" ULTIMO. "méu" MEL. com uma enorme quantidade de erros que o professor faz questão de corrigir. "papéu" PAPEL. "çéu" CEU. etc. Enquanto o aluno não avançar um pouco nos estudos. LIQUIDO ("likido"). O aluno precisa. com certeza mais do que parecia. Trata-se de saber se o som de "u" será escrito com a letra U ou com a letra L. No final do ano. "autu" ALTO ou AUTO. Há ainda a dificuldade oriunda da maneira como algumas palavras são pronunciadas em certos dialetos. uma vez que a pura observação da fala não leva a nenhuma conclusão. "çau" SAL. sobretudo em dialetos estigmatizados pela sociedade (diferentes da norma culta). porém: FREQÜENTE ("frekuênti"). Aqui.casos: QUERO ("kéru"). "çaudadji" SAUDA DE. Compare os seguintes exemplos e veja a dificuldade que eles apresen tam: "çuu" SUL. há outra dificuldade grande. QUILO ("kilu"). nem vale a pena ficar insistindo na correção de erros como esse. o professor irá constatar que eles aprenderam bastante. "chapéu" CHAPÉU. ter a chance de escrever e ler com certa liber dade e tranqüilidade e não ficar apavorado desde o começo. somente a ortografia pode dizer qual letra deverá ser usada. Quando os processos . É o caso do aluno que fala "tudu miidu" e tem de escrever TODO O MUNDO. no começo. mesmo sem ter se preocupado muito com certos erros que os alunos cometiam. e assim por diante. EQÜINO ("ekuinu"). Quando se escreve partindo da observação da fala.

AVULSO ("avuuçu"). percebe-se claramente que algo como "li-vô-rô" é artificial e não ocorre na fala. A letra V não apresenta dificuldades de decifração. dizem "li-vê-rô" ou "li-vô-rô" para LIVRO Obviamente. muitos erros desaparecem. pelo menos) ele devera pronuncia la como se falasse espontaneamente. ou da vogal que ocorre depois do L ou do R. VELHO ("vélhu"). como se estivessem silabando o bábé-bi-bó-bu para ler. Alguns alunos. Tendem a intercalar o som de uma vogal "ê". Dentro das dificuldades já comentadas várias vezes . sentem dificuldade em decifrar grupos consonantais formados por uma consoante seguida de L ou R. Depois de reconhecer as letras e de atribuir a elas um valor fonético. esses procedimentos revelam bem o tipo de ensino a que são submetidos. porém.de leitura e escrita se aceleram. Nesse momento. É sempre importante lembrar aos alunos que decifrar letras é apenas o começo do trabalho de leitura. ESTUDO DA LETRA V A letra t tem o nome de vê e seu som basico e encontrado no inicio de seu nome Exemplos VACA ("vaka"). Por exemplo. VIZINHO ("viztnhu"). o aluno precisa necessariamente descobrir que palavra está escrita (juntando os sons até chegar ao significado) Uma vez descoberta uma palavra (possível. uma vez que a pronúncia comum dessa palavra é "livru".

etc. A letra X pode ocorrer também no meio de palavra. ENXAME ("ichãmi"). como em: XAROPE ("charópi'). ESTUDO DA LETRA W A letra W tem o nome de dáblio e representa o som "u" ou o som "vê". etc. essa letra tem o nome de duplo vê. XÍCARA ( XERETA ("cheréta'9. ENXERGAR ("ichergar"). Nesse caso. é preciso lembrar que essas "trocas de letras" serão corrigidas através da ortografia e não de exercícios de percepção de sonoridade. observando a própria fala.anteriormente. FERDE (VERDE). pode levá-los a trocar a escrita de V por F. dependendo da palavra em que ocorre. Esse é o valor da letra X em início de palavra. como em ENXADA ("ichada"). também tem o valor fonético de "chê". XUCRO ("chukru"). etc. WILMA ("viuma"). a confusão que alguns alunos podem fazer ao escrever. 385 ESTUDO DA LETRA X A letra X tem o nome de xis e o som inicial thê" de seu nome mostra o valor fonético básico dessa letra. Em Portugal. produzindo formas gráficas como FELA (VELA). depois de N. Exemplos: WILSON ("uiuçõu'i). WC ('dabliu-çê'). FELHO (VELHO). Quando a letra X está no final de uma sílaba e precede uma . Mais uma vez.

. etc.consoante no início da sílaba seguinte. EXDIRETOR ("eizdiretor" ou "eijdjiretorr"). Note que praticamente não há palavras com o X di ante de consoante sonora (exceto diante de N). Exemplos: TÓRAX ("tórakç" ou "tórakiç"). "zê". a não ser quando se tem o sufixo -EX. ocorre uma assimilação. como no carioca. o som correspondente. XEROX ("cherókç" ou "cherókiç"). Em alguns diale tos. EXCELENTE ("eçelêfiti"). "kch" e "kich"). maiS informal. NASÇA ("naça"). o carioca). "chê". tem o som de "çê" ou "zê". Na posição intervocálica. A primeira ocorrên cia é considerada mais formal e a segunda. Quando o X se encontra diante de uma consoante que representa o som de "çê" (como XC. Exemplos: PRÓXIMO ("próçimu"). Quando a letra X aparece no fmal de palavra. "kç" (ou "kiç". que ocorre nesse contexto. ficando apenas uma ocorrência do som "ç". Em alguns dialetos (por exemplo. SEXTA ("çeçta" ou "çechta"). XS). a letra X apresenta várias possibilidades de representação fonéti ca. em vez do som final "ç" ocorre o som "ch": TÓRAX ("tórakch" ou "tórakich"). tem o som de "ks" ou "kis". SÍLEX ("çilékç" ou "çilékiç"). LIXO ("lichu"). dependendo de a consoante ser surda ou sonora. AUXÍLIO ("auçíliu"). como se consta ta em: EXCETO ("eçétu"). XÇ. podendo ter os seguintes sons: "çê". é "chê" ou ' Veja os exemplos: EXTRA ("éçtra" ou "échtra"). EXSURGIR ("eçurjir").

BAIXO ("baichu"). É por isso que se escreve INFERNIZAR.rnmsse Sempre que a letra Z ocorrerem início de sílaba. Quando se parte da fala para a escrita. ZANGADO ("zãgadu"). só pode ser escrito com a letra Z (nunca com S). BELEZA. SEXTA/CESTA. ESTUDO DA LETRA Y A letra Y tem o nome de ípsiion e representa sempre o som de "i' Exemplos: YARA ("iara'9. ZOMBARIA ("zõubaria?'). terá o som de "zê". Note que há diferença entre . ZERO ("zéru"). Compare os seguintes exemplos: ENXAII)A/INCHADA. TÁXI ("tákçi") e assim por diante. FIXO ("fikçu"). Exemplos: ZEBRA ("ze bra"). etc. EXIGIR ("izijir"). a escrita será com Z e não 5. Quando uma palavra recebe um sufixo -IZAR ou -EZA. 386 Note que. se for falante de um dialeto no qual ocorre o som de "chê" que precisa ser escrito com S e não com X (ou C como acontece em palavras tais como: "rapaich" RAPAZ. etc. O aluno prncipiante tem ainda uma dificuldade a mais. ZUMBIDO ("zümbidu"). ESTUDO DA LETRA Z H. EXAME ("izámi"). "néchta" NESTA. RIQUEZA. palavras como as mostradas acima não permitem ao aluno saber se serão escritas com a letra X ou com outra letra possível. quando o som de "zê" ocorre em início de palavra.

em início de palavra. ocor . RICO/RIQUEZA. EXAME. como mostram os XC exemplos: BELEZA. INGLESA. RAPAZ. EX. etc. os alunos podem ir tem aprendendo desde a alfabetização. na fala contínua. mas receberam apenas um A do feminino.letra Z acontece em palavras que têm o som de "zê" ou de "chê". ASA. Regrinhas como essas. Veja os exemplos: LUZ AMARELA ("lu-zama-ré-la"). Se a palavra que termina com a letra Z. ocorre o fenômeno da juntura intervocabular. LUZ ("luiç" ou k sílaba "luich"). os dialetos.EZA. vier antes de outra que 1I começa com vogal. mas que poderiam ser escritas com S ou X intervocálicos ou com 5 em posição final de palavra. FEZ ("feiç" ou "feich"). tem o som de "çê" (ou "chê". FREGUÊS/FREGUESA. que se acrescenta a uma palavra para formar um substantivo abstrato a partir de um adjetivo. Porém. Veja. MARQUÊS/MARQUESA. X di. AZAR. conforme o dialeto). etc..Para quem parte da observação dos sons da fala para a escrita ortográfica. caso de BELO/BELEZA. XAME Quando a letra Z ocorre no final de palavra. por exemplo: PAZ ("paiç" ou "paich"). a dificuldade da . como INGLES/INGLESA. FEZ A LIÇÃO ("fei-za-li-çãu"). Isso acontece em todos itexto.StCO o sufixo . e palavras que terminam com o som de "êza".

ainda no meio de palavra. etc. W E Y fQnéti mplos: Essas letras só são usadas em palavras estrangeiras. YARA. porém. também fazem parte do nosso alfabeto. a letra S com o som de "zê" quando ele ocupa o final de sílaba. KARINA. como já se disse acima. Como.onsta rerá somente a letra Z. em siglas. km. YAMAHA. .EXAME prios e para representar cálculos lógicos e matemáticos. e a sílaba seguinte começa por consoante sonora como em: MESMO ("mezmu"). etc. Elas estão nos dicionários e. DESDE ("dezdi"). kg. kHz. WC. elas aparecem em alguns casos. só ocorre r) etc. em nomes pró. VISGO ("vizgu"). YVONE. ORTOGRAFIA DE NOMES PRÓPRIOS E DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS É bom lembrar que os nomes próprios não têm uma forma gráfica estabelecida pela orto grafia oficial. embora tenham um uso muito reduzido. abreviaturas. As palavras comuns da língua portu guesa não as empregam. Senao WILSON. o professor de alfabe em ao tização deve levá-las em consideração e ensiná-las aos alunos. ddade a Exemplos de palavras em que se encontram essas letras: KAREN. uirtes portanto. Além disso. WILMA. a não ser quando . orren Lórakç" is diale Jdch"). AS LETRAS K.

387 1 Em geral quando uma palavra estrangeira passa a integrar o sistema acaba recebendo uma forma de escrita à moda das palavras vernáculas. Assim. ficando portanto: LUIS. bém o som de RR em nomes como HONDA.usados como um apelativo comum. VÍTOR. New York ficou NOVA IORQUE. Veja. TERESA. em outros casos. Por exemplo. assim como club ficou CLUBE. Fora disso. ainda. Essa forma ortográfica deve ser usada em documentos. THEREZA. Por exemplo. NETO. DORACY. A ortografia dos nomes próprios das pessoas é dada pelo documento de registro de nascimento. HOBBY. KARMEN. o caso da palavra PIZZA que conti nua com sua . JOACHIN. CARMEM. O uso de nomes e até de palavras estrangeiras costuma trazer novidades para o sistema de («ze. seguindo a forma ortográfica geral dos apelativos. a palavra hobby ficaria com a forma ortográfica ROBE (ou talvez RÓBI). VICTOR. DORACI. MANUEL. etc. pode escrevê lo seguindo as normas ortográficas. conforme consta do cartório. NErFO. abat-jour ficou ABAJUR. mas pode rá escrever. JOAQUIM. MANOEL.escrita. a letra H passou a ter tam bidu"). YAMAHA. surgindo novas relações entre letras e sons. se a pessoa tem seu nome escrito de maneira diferente da fixada pela ortografia de uso comum. alguém assinará em documentos o próprio nome como: LUIZ.

J. e menos en fado dos dlscipulos: descoberto pela experiencia. acompanhando o nome de um país que se escreve REPÚBLICA TCHECA. Por exemplo. 1817. Outra palavra italiana de uso muito co mum foi aportuguesada: TCHAU (do italiano ciao). embora. seja estranho o som "tçê". em início de palavra não ocorrem os sons "lhê" e "nhê" (exceto na palavra LHE e na forma abreviada de senhor: NHÔ). Lisboa: na nova impressão da Viúva Neves & Filhos. mas não tinha nenhum exemplo. S. .pronúncia italiana "pítça".J. Grammaticaphilosophica da linguaportugueza. 388 BIBUOGRAFIA Referências A. como LHAMA e NHOQUE (que alguns escrevem INHOQUE ou ENHOQUE). Methodofacillimo para aprender a ler perfeitamente em pouco tempo com mais allivio dos mestres. Outras vezes. em português. 5. em que aparece a seqüência de V + L. Ou tro exemplo desse fenômeno pode ser visto no nome VLADIMIR. A. surgem palavras com sons em certos contextos em que normalmente não ocorrem. que é possível no sistema da língua portuguesa. e mais estranho ainda atribuir esse som ao dígrafo ZZ. e reflexão de alguns annos de ensino. O conjunto de letras TCH forma um trígrafo.. 13 ed. BARBOSA. que aparecem em palavras de origem estrangeira.

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1996f. • Alfabetização e lingüística. v. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. Letras. Análisefonológica: introdução à teoria e à prática com especial des taque para o modelo fonêmico. realizado na Unitau. • Avaliação e promoção Jornal da Alfabetizadora. Campinas: Editora da Unicamp. Buenos Aires: Asociación Ciencia Hoy. ano VII. 46. n. 7. Ciencia Hoy. 1 996d. 1996h. 10 cd. DLA. ano VII. 1 e 2. • A origem das letras do alfabeto. em maio de 1996a (ms).l77-83. p. v. 199 O alienígena que queria aprender a ler. 40. Por to Alegre: Kuarup/PUC-RS. In: PATTO. Como não fazer uma reforma ortográfica: o acordo de unifica ção das ortografias da língua portuguesa.lO-2. 1997b.Jornal da Alfabetizadora.l 9-20. Maria Helena Souza (Org. 1997a. 14-6. p. La comprensión de lo escrito: las letras y sus estilos. Campinas: Ins tituto de Letras. p. 47. • A origem da escrita dos números. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. n. 1996e. n. n. 40. Campinas: Edição do Autor.). p. n.da no XLIV encontro do Grupo de Estudos Lingüísticos do Esta do de São Paulo. 1996c. 16-8. Jornal da Alfabetizadora.8l-98. p. O príncipe que virou sapo: Considerações a respeito da dificul dade de aprendizagem das crianças na alfabetização. p. p. • Breve história da pontuação. ano VIII. Anais do VI Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada. n. ano VlII. 15. Introdução . São Paulo: Scipione. Jornal da Alfabetizadora. PUCCamp. Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. 1996b. 40.25-31.

Continuando o debate sobre construtivismo. 396 ÍNDICE DE TÓPICOS POR CAPÍTULO 1. • & MASSINI-CAGLIARI. n. atual. Iii: ROJO. p23. 3 cd. rev... 1994. História da alfabetizaçdo A leitura e a escrita na Antiguidade 13 O aparecimento das cartilhas 19 Cartilhas da língua portuguesa 22 As cartilhas e a alfabetização 26 A cartilha dá ênfase à escrita 26 O manual do professor 27 O período preparatório 28 Alfabetização hoje 31 Alfabetização e escola 32 2 O ensino e a aprendizagenL os dois métodos O que é ensinar. p. ano VI. 31. Campinas: Mercado de Letras. São Paulo: Casa do Psicólogo.). Porto Alegre: Kuarup/PUC-RS. Jornal da Alfabetizadora. • Alfabetização: O que fazer quando não der certo.à psicologia escolar. Gladis.193-224. o que é aprender 36 O professor como educador 38 Dois métodos 40 Duas concepções de linguagem 41 . 1997c. Roxane (Org. 1998.

O método 1 — voltado para o ensino 42 A situação inicial 42 A técnica 43 A base: o já dominado 45 O uso da memória 46 A hierarquia: do fácil ao dificil 46 Controle rígido e avaliação 49 A fixação da aprendizagem 50 O que fazer com o erro 50 Aprender pelos efeitos 51 Um bom método de adestramento 51 O método 2 — voltado para a aprendizagem 52 A base: a reflexão na aprendizagem 52 A situação inicial 52 A técnica: explicações adequadas 54 O professor como mediador 55 O que fazer com o erro 55 A concepção de aprendizagem 56 Avaliação: tudo serve 57 Caos e caminhos tortos 58 Como fixar a aprendizagem 59 Os dois métodos na alfabetização 59 3. Avaliaçâ promoç planejamento Notas e conceitos 62 .

Promoção automática 65 Avaliação e rendimento escolar 65 Qualidade de ensino e motivação 66 Avaliação e castigo escolar 67 O valor dos cálculos na avaliação 68 Avaliação sem nota 69 O trabalho substitui a nota 70 Auto-avaliação e autocorreção 70 O aluno na série seguinte 71 O círculo vicioso de quem não aprende 72 Uma nova visão da avaliação e da promoção 72 O planejamento escolar 74 Avaliação na alfabetização 76 A lição de casa 77 4 O método das cartilhas A cartilha na escola e na vida 80 A cartilha e a fala 83 A variação lingüística 83 O idioleto do professor 83 A silabação 85 Observando a fala para escrever 85 Confusão entre fala e escrita 86 A cartilha e a escrita 87 A escrita prevalece sobre a fala 87 .

A palavra 88 Muitos alfabetos 89 A escrita cursiva 89 Equívocos a partir da escrita cursiva 91 Escrita sem sistema 91 Cópias e ditados 92 O que falta no estudo da escrita 92 A cartilha e a leitura 94 Como a cartilha ensina a ler 94 A interpretação de textos segundo a cartilha 95 Outros problemas das cartilhas 96 Aprender em ordem 96 O entulho gramatical 96 Metáfora e fantasia 97 Remanejamento para evitar problemas 98 O erro não tem vez 98 O fascínio pelo já pronto 99 Substitutos das cartilhas 99 A cartilha e os professores 101 5. Panorama do processo de alfabetizaØro Valorizar o que é prioritário 104 Os alunos são falantes nativos 105 A idade para se alfabetizar 106 Querer ser alfabetizado 107 .

Conhecer o sistema de escrita 121 3. Conhecer as letras 121 5. Conhecer as relações entre letras e sons (prin cípios de leitura) 125 11. Conhecer a língua na qual foram escritas as palavras 120 2. Conhecer a ortografia 123 8. Conhecer o alfabeto 121 4. Conhecer o princípio acrofônico 124 9. Conhecer os nomes das letras 125 10.Um método sem métodos 108 Em quanto tempo se alfabetiza? 109 Quem comanda é o professor 111 Remanejamentos são aviltantes 111 Condições materiais 112 Leitura e escrita 113 A reprodução de modelos 114 A descoberta do mundo da escrita 115 6 A dec(fraçJo da escrita Regras para a decifração da escrita 120 1. Conhecer a categorização funcional das le tras 122 7. Conhecer a categorização gráfica das letras 121 6. Conhecer as relações entre sons e letras (prin cípios de .

Nem tudo o que se escreve são letras 128 16.escrita) 126 12. Fornecer as explicações básicas ao aluno 134 2. Conhecer a linearidade da fala e da escrita 127 397 14. Reconhecer uma palavra 128 15. Conhecer a ordem das letras na escrita 126 13. Explicar como descobrir as regras de decifra ção 137 Juntando e generalizando 138 O que é mais fácil de decifrar 139 O que é mais difícil de decifrar 142 O que é mais fácil de escrever 147 O que é mais difícil de escrever 151 A difícil arte de ler e de escrever 155 A ação do professor 157 . Explicar como segmentar a fala em palavras 136 4. O alfabeto não é usado para fazer transcrições fonéticas 129 A competência técnica do professor 130 A autonomia do professor 131 7 Procedimentos para o estudo das letras 1. Nem tudo que aparece na fala tem represen tação gráfica na escrita 128 17. Explicar o que é uma letra 135 3.

Aprendendo a estudar 160 & Sugestões de atividades na alfabetiza çdo O trabalho com a leitura 164 Primeiras leiturâs 164 Inventando um código 165 A palavra como unidade dc escrita 167 Letras e sons 167 O alfabeto 170 Primeiros problemas com a decifração 172 Pares mínimos 173 Rimas 173 Categorização gráfica das letras 174 Primeiras leituras de textos 174 Interpretar ou discutir o que leu 175 O que ler 175 O trabalho com a escrita 176 Primeiras descobertas sobre a escrita 176 Descobrindo que a escrita representa a fala 177 Sistema ideográfico e fonográfico 177 Contar a história da escrita 178 Traçar as letras com gabaritos 179 Localização da escrita no espaço 180 Copiar para aprender 181 Escrita espelhada 181 .

A produçdo de textos espontdneos Um texto não é um amontoado de palavras 198 Textos ou palavras isoladas? 200 Textos orais e escritos 201 O texto na vida e na escola 202 O professor e o texto do aluno 204 .Explicar o que é ortografia 182 Texto não é só ortografia 183 A correção da escrita 184 Diacríticos. marcas e arte na escrita 185 Letras cursivas 185 Caligrafia 186 Layout e pontuação 187 As primeiras escritas da criança 189 Aprender fazendo 190 Entendendo como se fala 191 Os alunos são falantes nativos 191 A variação lingüística 191 O dialeto padrão na escola 192 Falar sobre corno se fala 193 A aquisição da linguagem oral 193 Linguagem e lógica 195 A discriminação pela linguagem 195 Sobre o trabalho alternativo 196 9.

As hipóteses por trés dos erros O homem é um animal racional 242 A criança e a racionalidade 243 Conhecer os alunos 244 Explicações para os erros 245 A reflexão do aluno na escola 247 O método. o errado e o diferente 251 Patologiàs da fala 253 O erro e a reflexão do aluno 257 Problemas de aprendizagem de leitura e escrita 257 Os testes revelam o que as crianças pensam da escrita? 258 1. o aluno e a escola 248 O certo. o professor.O planejamento dos textos 206 A produção de textos na alfabetização 209 A correção de textos 210 Textos significativos para os alunos 212 A cartilha e a produção de textos 214 A opção pelos textos espontâneos 217 Exemplos de textos de cartilhas e Outros 219 Textos espontâneos de crianças 225 Questões perturbadoras 237 Julgar pelos erros e pelos acertos 238 10. interpretação semântica da palavra 258 .

a forma gráfica das letras 272 5. a figura como interpretador de texto es crito 259 3. quantas letras formam uma palavra? 261 5. velocidade de leitura 270 Problemas de escrita oriundos de dificuldades com as letras 270 1. letras em vez de rabiscos 272 4.2. inventando palavras onde elas não existem 262 Outras formas de descobrir o que as crianças acham da escrita 262 7. cachorro começa com FU 262 8. escrever é fazer uma forma gráfica para ser lida 271 2. o bá-bé-bi-bó-bu nos ditados 275 . identificação de palavras 261 6. a letra representa o som de seu próprio nome 274 8. aprendendo sozinho por níveis ou por incorporação de ensinamentos? 264 9. assinatura e escrita 271 3. leitura silenciosa acompanhada de articulações 269 11. escrita espelhada 273 6. segmentação 274 7. escrevendo só vogais ou consoantes 275 9. adivinhando palavras na leitura 260 4. explicitação da decifração na leitura 267 10.

hipercorreção 278 15. medo de escrever 281 21. mistura de informações 280 18. troca de letras 277 14. sintaxe 283 4. caligrafia 285 . variação lingüística 282 2. um pouco por vez 279 17. sinais de pontuação 281 23. letras maiúsculas 281 22. coesão 285 7. só o esforço não adianta <399> 19. letra feia 281 Erros na estruturação dos textos 282 1. resultados pela metade 276 12. surdas ou sonoras? 278 16. uso de pronomes 282 3. frases soltas — coerência 284 6.398 10. erros não corrigidos 280 20. repetição 283 5. escrevendo foneticamente 277 13. formas morfológicas diferentes 276 11.

11. Ditado e cópia Uma estratégia lingüística chamada ditado 288 Tipos de ditado 289 Ditados para acertar a ortografia 290 Ditados no dia-a-dia 291 Ditado mudo 292 Anotações 292 Ditado e ortografia 293 Ditado e transcrição fonética 294 Ditado e avaliação 295 O ditado e o método das cartilhas 295 Conseqüências dos ditados na alfabetização 297 Quando e como fazer ditados 298 Cópia 299 A cópia na Antiguidade 299 Cópia e aprendizagem do Sistema de escrita 300 A cópia e a descoberta do mundo da escrita 301 Colecionando letras e palavras 302 Copiar não é apenas repetir um modelo 303 Copiar para memorizar 304 A cópia como punição 305 A cópia interpretativa com transliteração 305 Reescrevendo com cópia 307 Interpretação de texto através de cópia 308 .

A cópia como forma de colecionar informações 308 12 Leitura e interpretação texto Leitura 312 Ler é decifrar e buscar informações 312 Além da decifração 312 Leitura e planejamento lingüístico 314 O leitor interfere no literal do texto 316 Leitura silenciosa e em voz alta 318 Decorar antes de ler 319 Preparar a leitura 320 Tipos de leitura 320 A leitura e o mundo 322 Dificuldades na aprendizagem da leitura 323 O ensino da leitura 324 Interpretação de texto 325 Três práticas escolares tradicionais 325 Ideografia e leitura 325 A exegese em textos literários 327 Interpretação de base filosófica 328 Questionário para interpretação de texto 328 Análise do discurso 329 Os pretextos da interpretação de texto 329 Lingüística e interpretação de texto 330 .

Ortografia da língua portuguesa Breve história da ortografia da língua portuguesa 342 A influência do sistema latino 342 Documentos antigos 343 Tentativas de reforma e unificação 345 Primeira unificação das ortografias 345 Primeira reforma ortográfica oficial no Bra sil 345 As reformas da reforma ortográfica 346 Reforma ortográfica e alfabetização 348 Ortografia e escola 349 Idéias erradas a respeito da ortografia 353 A dúvida ortográfica 355 Apêndice — A categorização gráfica das letras Estudo da letra A 359 Estudo da letra B 363 Estudo da letra C 363 .É preciso interpretar um texto? 331 Entender o texto no seu contexto 332 O. princípio da literalidade 333 Interpretação de texto e estudo escolar 334 Vaie a pena fazer interpretação de texto? 336 Interpretar um texto ou debater uma idéia? 338 Atividades alternativas à interpretação de texto 338 Os textos da interpretação de texto 339 13.

Os sons da fala representados pela letra C 365 Estudo da letra Ç 368 Estudo da letra D 369 Estudo da letra E 369 Estudo da letra F 371 Estudo da letra G 371 Estudo da letra H 372 Estudo da letra 1 373 Estudo da letra J 374 Estudo da letra K 374 Estudo da letra L 375 Estudo da letra M 376 Estudo da letra N 377 Estudo da letra O 378 Estudo da letra P 379 Estudo da letra Q 379 Estudo da letra R 380 Estudo da letra S 382 Estudo da letra T 383 Estudo da letra U 384 Estudo da letra V 385 Estudo da letra W 385 Estudo da letra X 386 Estudo da letra Y 386 .

Estudo da letra Z 386 As letras K. W e Y 387 Ortografia de nomes próprios e de palavras estrangeiras 387 .

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